Feitiço Grego
Autora: A.L. Benner
Parte II
Realmente foi fácil para Mariana chegar até a universidade. O ônibus pegou-a num ponto a duas quadras da pensão e a linha vermelha do metrô deixou-a bem em frente ao portão principal da universidade, na Avenida Panepistímiu. Ela quase não acreditou no que seus olhos viam: a magnanimidade daqueles prédios a deixou perplexa e encantada. Já tinha visto fotos e ouvido descrições, mas agora que estava diante dele, que seus olhos registravam cada detalhe da arquitetura, é que podia realmente sentir o que era estar ali.
Estava no antigo campus da universidade, onde somente alguns cursos ainda funcionavam, principalmente os de línguas e artes. O restante havia sido transferido para um campus novo a leste da cidade, na região de Zografou. Mesmo assim o lugar era imenso e espalhava-se por ruas e praças que cercavam os prédios de cada departamento. As muitas árvores que faziam sombras em toda parte pareciam milenares. Fascinada, Mariana passeou por tempo entre elas, quase se esquecendo de procurar a faculdade onde encontraria seu professor.
Seguindo as placas indicativas, ela chegou até o departamento de literatura e procurou pela secretaria. Uma mulher simpática e muito magra, com nariz afilado, a atendeu prontamente, indicando a sala do Professor Baziadis Vassilis. Mariana caminhou pelos corredores ouvindo seus passos ecoando pelas paredes. Enfim estava indo em direção do que sempre sonhara.
Com uma leve batida na porta que era de vidro em sua metade superior, ela chamou a atenção do professor que folheava o que pareceu, à primeira olhadela de Mariana, uma dissertação. Vendo a figura loura do outro lado da porta, ele sorriu-lhe e arrumou os óculos sobre o nariz, fazendo sinal para que ela entrasse.
"Bom dia, professor. Eu sou Mariana Castro Bernini. Sou sua aluna brasileira." � ela apresentou-se em grego.
"Oh, sim! Claro, claro! Sente-se." � ele convidou.
"Obrigada."
Quando se sentou foi que Mariana percebeu que estava nervosa. Tinha trocado muitas correspondências com o professor e este lhe afirmara que seria seu orientador, inclusive mandando a documentação oficial da universidade, mas uma leve sombra de receio passou pelo coração disparado dela. "E se ele mudou de idéia?", pensou.
"É um prazer recebê-la, Srta. Bernini. Chegou exatamente no dia que combinamos. Já se instalou em nossa Atenas? Se já, poderemos começar hoje mesmo!" � disse ele, recostando-se na cadeira alta e passando a mão pela cabeça desprovida de cabelos já há muitos anos. Apesar da falta de cabelos, seu bigode era vasto e parecia sair-lhe do nariz.
O coração da jovem tradutora aquietou-se no mesmo instante. Se o professor não tivesse desviado o olhar para o documento à sua frente para fechá-lo, teria percebido em seu rosto a sensação de alívio que ela não conseguiu segurar.
"É... bem, eu já estou instalada, sim, professor. Não imaginava começar no mesmo dia que me apresentasse, mas estou disposta agora mesmo!" � ela respondeu com visível entusiasmo.
"Ora, muito bom! Eu gosto de trabalhar, minha cara. Prepare-se, pois nosso ritmo será forte." � ele falou, olhando-a como se quisesse verificar se ela estava mesmo disposta.
"E qual será minha primeira tarefa?" � ela perguntou, quase que desafiante, percebendo a observação dele.
"Vejamos..." � ele murmurou e levantou-se.
Ele contornou a mesa cheia de documentos e parou diante de uma das paredes laterais da sala, coberta por uma estante que ia do chão ao teto e estava repleta de livros de todos os tipos. Tirou alguns deles para em seguida empilha-los no canto da mesa. Foram sete livros e ele voltou para sua cadeira.
Mariana olhava curiosa para as lombadas dos volumes e via que eram todos sobre gramática, mitologia e literatura gregas.
"Que tal me trazer uma compilação desses assuntos na segunda-feira? Gostaria de um texto sobre até onde nossa mitologia e nossa gramática influenciaram uma à outra." � ele falou.
Mariana fez mentalmente a conta de quantos dias teria: seis, já que estavam na terça-feira.
"Como o senhor quer?" � ela perguntou vendo-o admirar-se por ela não reclamar da quantidade de volumes que teria de ler.
"Humm, nada muito rebuscado de início. Não é necessário ler tudo, apenas os principais tópicos. Quero avaliar sua narrativa; como se expressa em grego. Se for da mesma maneira que fala, já estou satisfeito." � ele respondeu.
"Será um prazer trabalhar com o senhor. Pode ter certeza que almejo este mestrado mais do que qualquer outra coisa e farei o melhor que puder." � ela afirmou sorrindo.
"Assim espero, mocinha. Como eu disse, gosto de trabalhar muito, mas também reconheço quem se esforça. Você parece ter seu mérito e acredito que vamos nos dar bem. E se assim for, terei prazer em assinar sua aprovação daqui a dois anos." � ele afirmou levantando-se e apertando a mão de Mariana.
Ela retribuiu o cumprimento e despediu-se do professor, levando a pilha de livros com certa dificuldade.
Ia andando pelos corredores por onde viera, radiante e feliz. Seu mestrado começava ali e queria fazer o máximo. Ficou um bom tempo olhando os murais dos corredores e vendo todo tipo de anúncio; alguém querendo dividir um apartamento perto da universidade, festas, congressos e todo tipo de curso sobre língua e literatura gregas. Passando devagar pelas portas envidraçadas, via os nomes de cada professor escritos nos vidros.
"Um dia terei meu nome num desses vidros", pensou.
Eram quase onze horas e percebeu que o koulouri com leite que comera de manhã já não estava mais fazendo efeito. Sentiu fome e procurou por uma lanchonete no campus. Viu alguns estudantes indo aos grupos na direção de um pátio cercado de canteiros e seguiu-os. Encontrou um espaço de alimentação da universidade, onde a pequena praça estava tomada por mesas e cadeiras. Num dos cantos do espaço, estandes móveis estavam montadas e exibiam livros de todo tipo. Entre elas, estudantes folheavam livros e conversavam com os vendedores das mini-livrarias a céu aberto.
Mariana sentou-se e só então percebeu que não conseguiria carregar aqueles livros soltos até a pensão sem sofrer um bocado. Uma garçonete bastante jovem veio tomar seu pedido:
"Eu quero um baklavá (torta folheada) e um café, por favor. E tu poderias me arranjar uma sacola para poder carregar os livros?" � ela pediu à garçonete.
"Claro, sempre tem alguém querendo uma sacola para isso. Trago junto com o seu pedido." � a garçonete respondeu sorridente.
"Obrigada." � Mariana respondeu e ficou olhando ao seu redor.
Suspirou. Estava de novo num ambiente acadêmico. E como adorava aquilo! Era o seu mundo, onde se sentia bem e onde queria ficar por toda a vida. Seu pedido chegou e ela saboreou um pedaço de torta e uma xícara de café. Os livros foram acomodados na sacola de plástico que a garçonete trouxe.
As primeiras semanas em Atenas foram tão repletas de trabalhos iniciais que Mariana não teve tempo de visitar qualquer monumento ou fazer passeios mais além dos arredores da universidade. O "Professor Vassi", como ela o chamava secretamente, abreviando o sobrenome, havia gostado de seu trabalho e após alguns resumos, achou que não havia necessidade de testá-la mais e então começaram os trabalhos efetivos do mestrado. Houve dias em que ela teve de ficar o dia todo na biblioteca pesquisando e resumindo autores contemporâneos.
Mas ela estava feliz e na primeira oportunidade, aproveitou um dia em que não teria atividades e fez um circuito pelos lugares e monumentos históricos que queria conhecer. Comprou uma passagem num ônibus especial para turistas e visitou o Museu Bizantino, a Rua Ravine, com seu comércio elegante, a Rua Atena, por onde passara com a Sra. Petrakis e ficara encantada com os cafés cheios de turistas; o Parque Nacional, com suas alamedas encantadoras e seus canteiros de crisântemos por todo lado.
E por fim o Parthenon, fascinante, imponente, magnífico! Dividindo o topo da Acrópole com o Erectêion e os altares de Zeus e de Atena, dava a certeza de que jamais perderia a majestade que aquelas colunas transmitiam aos visitantes. A maior homenagem à deusa Atena Parthenos era de uma beleza indescritível. Mariana tocou a rocha desgastada do templo e sentiu a energia positiva que emanava daquele altar. "É preciso visitar para saber", Mariana pensou.
Ela chegou em casa exausta e ainda com as imagens dos monumentos na lembrança. Tirara muitas fotos e assim que revelasse, mandaria algumas para seus pais. Eles ficariam fascinados; tinha certeza.
Era sexta-feira e na quinta o professor dissera que só lhe daria novas atividades para desenvolver após a próxima terça, quando ele voltaria de um congresso. Mal chegou e as irmãs vieram convidá-la para sair no sábado à noite. Elas já estavam mais enturmadas na universidade e conheciam muita gente.
"Vamos, aceite, Mariana! Você não saiu com a gente desde que chegou. Seu orientador está explorando-a!" � argumentava Clara.
"É isso mesmo. Dê-se ao luxo de conhecer a noite de Atenas! Aposto que não vai se arrepender! Tenho uns amigos gregos que são uns verdadeiros deuses! Ai, ai!" � Bete suspirou ao falar.
"Tudo bem, gurias! Eu vou! Só que não me deixem sozinha, ok? Não conheço ninguém e não quero ficar feito boba."
"Deixe conosco! Vamos levar você num bar novo que conhecemos outro dia. Vai todo tipo de gente, mas é mais freqüentado pelo pessoal da universidade" � Clara respondeu.
Outras garotas também foram convidadas e a saída prometia ser divertida. Mariana passou a manhã de sábado descansando e fazendo nada. Ficou treinando seu grego com a dona da casa enquanto esta coordenava o preparo do almoço, ali mesmo na cozinha. O Sr. Petrakis entrava e saía do salão, trazendo os produtos de uma imensa horta que ficava nos fundos da propriedade.
"Porque não vai com o Zervos conhecer os limites da propriedade, querida?" � a dona da casa perguntou a ela.
"Seria ótimo. Só não quero atrapalhar o trabalho dele."
"Pois não vai atrapalhar nada. Coloque um tênis velho e vá conhecer o lugar. Não é porque é meu, mas acho tudo lindo por aqui. Logo após a cerca, nossa fazenda faz fronteira com a fazenda do meu irmão. Ele é pai daquela moça que esteve aqui logo no seu primeiro dia. É minha sobrinha, Kristin."
Nesse instante a Sra. Petrakis franziu o rosto sempre risonho e comentou em voz baixa, como quem segredava algo:
"Aquela que estava com ela era Eleftheria. Mora com Kristin na fazenda, mas ela não me agrada."
Mariana estranhou o comentário e ficou sem saber o que responder. "Mora com ela na fazenda?!" � a frase se repetiu em sua mente.
"É Kristin quem cuida da fazenda praticamente sozinha, já que meu irmão e minha cunhada preferem ficar em outra propriedade que têm em Lavrion, ao sul. Você vai reconhecer as plantações de oliveiras logo na primeira colina que avistar." � a Sra. Petrakis completou mudando de assunto estrategicamente, como se não tivesse dito nada.
"Então aquela moça é sobrinha da Sra. Petrakis?", Mariana ia pensando enquanto subia as escadas até seu quarto. "A vantagem de conversar com alguém tão tagarela é que se fica sabendo o que quer sem precisar perguntar", ela riu para si mesma. Não tinha visto a tal moça de novo desde aquele dia, mas saber que era alguém próxima à dona da casa fez com que Mariana sentisse mais vontade de reencontrá-la; talvez conversar com ela.
"E porque será que a Sra. Petrakis não gosta da outra, já que devem ser amigas? Que comentário estranho!", Mariana continuou pensando.
A jovem loira tentou afastar aquele pensamento mesmo sem saber por que ele a perseguia tanto. Apesar de não ter encontrado a deusa de olhos azuis novamente, ficara pensando nela com uma freqüência estranha e insistente, que ela não conseguia entender.
"Acho que fiquei impressionada com a beleza dela. Só pode ser isso", justificou para si mesma enquanto ia ao encontro do Sr. Petrakis.
Ele encilhava um cavalo quando ela chegou perto do estábulo, admirada com o pomar bem cuidado e a horta com um espantalho fincado bem no meio dos canteiros fartos.
"Quer me acompanhar pela extensão da cerca, Srta. Bernini?" � ele disse.
"Eu adoraria, Sr. Petrakis, mas pode me chamar apenas Mariana."
"Então vou encilhar outro cavalo para você."
"Mas se isso der trabalho, deixe para outra vez." � ela respondeu, vendo que iria atrasar o trabalho dele.
"Imagine, menina! Não vai incomodar nada. Espere só um instante. Você sabe montar, não sabe?"
"Sei. Eu sempre gostei de cavalgar."
"Então, só um minuto."
Mariana ficou esperando que ele voltasse com o outro cavalo e deu uma volta por detrás do estábulo, procurando as colinas que pertenciam à sobrinha da dona da casa. Algumas árvores do pomar escondiam um campo de pastagens que logo dava lugar a uma plantação de oliveiras que se perdia pelas elevações que cobriam.
O Sr. Petrakis voltou com uma linda égua encilhada para ela.
"Você vai ver muito mais da propriedade de minha sobrinha quando dermos a volta pelas outras cercas. As plantações são um espetáculo à parte nessas colinas."
"São mesmo." � Mariana concordou, lembrando-se sem querer da intensidade daqueles olhos azuis.
Eles montaram e foram acompanhando a cerca que dividia as propriedades. Seu anfitrião ia explicando-lhe que fazia aquele trabalho a cada quinze dias, para verificar o estado das cercas e também procurar sinais de algum animal selvagem que pudesse colocar em perigo a sua criação de coelhos.
A propriedade parecia ficar cada vez maior, pois seguiam em frente e o Sr. Petrakis não dava sinais de voltar. Já estavam ladeando uma extensão de mata nativa, típica daquela região, quando avistaram um grande rebanho de ovelhas que se deslocava agrupado e tangido por dois cães pastores e alguém montado num cavalo cor de mel e a crina e a cauda cor de palha. Era um animal magnífico e chamou a atenção de Mariana, mesmo estando longe.
"É a minha sobrinha! Ei, Kristin! Venha até nós!" � o homem acenou para a amazona.
Foi então que Mariana percebeu que se tratava da mulher de olhos azuis. A mesma que povoava seus pensamentos desde que chegara naquele país.
De novo ela sentiu aquela sensação inquietante no peito e percebeu que seu coração batia no mesmo ritmo do galope do lindo animal que se aproximava trazendo a figura alta e imponente que emparelhou com a cerca para dar um beijo no tio.
"Kristin, esta é uma de nossas hóspedes, Srta. Bernini... quero dizer, Mariana Castro Bernini." � ele corrigiu.
Mariana estendeu a mão e sentiu quando o toque firme e os olhos azuis dela a aprisionaram ao mesmo tempo. Teve a leve noção de que estava sendo fisgada por aquele olhar. Enfeitiçada seria a palavra mais correta.
Uma onda de sensações ambíguas a atingiu em cheio, subitamente tirando seu equilíbrio; fazendo seus olhos se fecharem por um instante e se abrirem em seguida para confirmarem o que viam. Sabia conscientemente que não conhecia aquela mulher, mas a sensação de que não estava cumprimentando uma estranha era quase palpável.
"Muito prazer, Mariana. Sou Kristin Yalouris."
A morena cumprimentou a jovem loira à sua frente e lhe sorriu de leve. Queria que aquele primeiro toque entre elas fosse mágico e planejara aquilo por todos aqueles dias desde que encontrara a jovem no refeitório da pensão.
E assim foi. Ao se tocarem no cumprimento, um elo definitivo se fechou e a jovem grega sentiu seu coração aquecer-se como sabia que aconteceria. Era o sinal esperado.
"Ela está diante de mim, mas preciso esperar. � pensava � Não posso ser afoita, pois morreria se a perdesse!"
Mariana sentiu de novo seu coração ser arrebatado e disparar sem controle; percebeu as faces avermelharem.
"Céus! Eles não vão entender meu embaraço! O que há comigo?!" � ela se perguntava enquanto sentia seus dedos serem soltos devagar pela mão forte da mulher.
"Ela também sente! Oh, Deusa, obrigada!" � Kristin exultou em seu íntimo, soltando a mão da lourinha com relutância.
O segundo de silêncio que se seguiu foi o suficiente para trazer Mariana de volta.
"O prazer é meu. Você tem um belo cavalo, ou melhor, égua." � ela retrucou, tentando arranjar algo para falar, e se corrigindo a tempo quando viu que o animal era fêmea.
"Ah, esta é Tami. Ela me ajuda muito no trabalho." � a morena respondeu, mantendo o ar sério, mas já com uma leve sombra se sorriso a lhe pairar nos lábios generosos.
"Kristin, não deixe de nos visitar, senão sua tia lhe telefona para dizer uns desaforos. Você a conhece." � brincou o Sr. Petrakis.
"Pode deixar, tio, eu vou. Até mais." � ela despediu-se olhando com intensidade para Mariana e cutucou a virilha da égua para ir de encontro ao rebanho de ovelhas.
Continua na Parte III...
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