AMOR ACIDENTAL
B.L. Miller
PARTE 7
Capítulo 7
"O que você comprou para Maria?".
Ronnie
apertou o botão mute no controle remoto e virou sua cabeça para
olhar sua companheira. Oh! Vamos falar isto outra vez? "Um presente". Em um canto de sua boca se formou um
sorriso divertido.
"Vamos,
me diga, por favor?". Rose deu-lhe uma de suas melhores olhadas de filhote
de cachorro. "Não direi nada, prometo".
"Já
lhe disse,... um presente". Ela lançou uma pipoca de milho no ar
e a agarrou em sua boca. "Agora, achei que você queria ver esse programa?".
"Quero,
mas também desejo saber o que comprou. Uma pista."
Ronnie
fingiu considerar a petição por um momento, antes de sorrir malignamente
com uma diabólica olhada em seus olhos. "Não é algo
que Maria possa sair e comprar para ela. "
"Essa
é uma pista muito pobre". Rose se queixou, tentando pegar sua xícara.
Você
fica tão linda quando faz birra. Ela alcançou a xícara primeiro e se levantou.
"Ah,
está vazia. Quer mais?".
"Não,
já tive muito chocolate quente por esta noite. Mais e ficarei acordada
a metade da noite". Estendeu-lhe sua mão. "Vamos, sente-se
e relaxe. Você está perdendo o programa".
"Quer
a bandeja dos aperitivos em cima ou embaixo?".
"Em
cima. Não precisamos de mais", Rose respondeu.
"Tem
certeza, não é problema".
Ronnie obedeceu imediatamente, sabendo que a bandeja dos aperitivos
em cima era um prelúdio para algo mais agradável do que ver um
programa de televisão. Deixou sua xícara na mesa de café
e voltou à sua almofada, desta vez com seus pés acima e descalços
entre ela. "Ooohhh", fez, gemendo exagerado e mexendo os dedos dos
pés.
"Seus
pés estão doendo?". Perguntou Rose.
"Nada
pior do que o habitual", respondeu.
Ah, sim... Você sabe o que eu quero,
pensou quando sentiu seus pés sendo colocados no colo de Rose. Espero que seus dedos não estejam cansados esta noite. Levantou seu calcanhar em resposta ao suave puxão de
suas meias. Logo estava descalça e os hábeis dedos de Rose apagavam
as dores do dia e não teve alternativa, exceto gemer com prazer.
"Você
faz isso tãaaoo bem...".
"É
fácil com você. Sei justamente onde apertar e esfregar".
Rose
demonstrou sua habilidade pressionando seu polegar firmemente através
do arco do pé esquerdo de Ronnie.
"Hummm,
você pode parar em... ohhh, sete ou oito horas". Fechou os olhos
e suspirou. Isto é tão gostoso.
"Ou
talvez pare se não me disser que presente comprou para Maria".
Seus dedos pararam como se levando à cabo sua ameaça.
"Você
é difícil de desistir", Ronnie admitiu. "Não
é muito, só um bilhete de avião".
"Um
bilhete de avião? Para onde?".
"Arizona".
"É
onde está seu filho", Rose lembrou.
"Ela
não o vê há um ano. Pensei que ela gostaria de fazer uma
viagem para visitá-lo". Levantou uma sobrancelha. "Então?
Vai continuar?". Enfatizou seu ponto mexendo os dedos dos pés.
Rose
riu e continuou a massagem. Havia chegado a ser um tácito ritual entre
elas. Ronnie gemeria por causa de seus pés e ela imediatamente ofereceria
para esfregá-los. Elas poderiam passar horas no sofá assim, Rose
sentada em uma reclinada posição com suas pernas retas e Ronnie
deitada no sofá com seus pés sendo mimados. A mulher mais jovem
só dava uma olhada no que passava na televisão, enquanto sua atenção
se enfocava na suave carne embaixo de seus dedos.
Rose
sentia um especial prazer em massagear os pés de Ronnie. Com exceção
do abraço à noite, era o único contato físico que
elas geralmente dividiam. Não podia explicar por que, mas ouvir os gemidos
hedonistas que vinham dos lábios de sua amiga em reação
aos seus dedos a fazia sorrir. Com todo o estresse sobre a auditoria e Tommy
não falando com ninguém exceto sua mãe, as massagens eram
uma das poucas coisas que traziam um sorriso ao rosto de Ronnie, e esse sorriso
era algo que Rose tentava ver em cada oportunidade.
Baixou
o olhar e estudou o pé diante dela. A pele suave de bebê não
revelava absolutamente nenhum calo na parte mais ampla do calcanhar. Deixou
suas pontas dos dedos deslizarem sobre a suavidade dos dedos do pé ao
tornozelo, antes de mover seus polegares para trás, para dar uma forte
massagem. Rose pressionou com um pouco mais de força do que o costume
e foi recompensada com um gemido que oscilava sobre a beira do sensual. Repetiu
o movimento, mas só recebeu uma versão menor do desejado som.
Tranquila, soltou o pé de Ronnie e agarrou o outro lhe dando um puxão.
"Sabe, quando eu sair destes moldes lhe darei uma massagem
nas costas que você não vai se esquecer".
"Hummm...".
Um lento, sexy sorriso cruzou os lábios de Ronnie e esta abriu um olho
preguiçosamente. "Sabe, você é muito boa para estar
sendo desperdiçada em um trabalho de escritório. Acho que vou
mudar seu posto para chefe das massagistas".
"Hum,
hum... vou ter um aumento de salário com esse novo título?".
"Mantenha-se
me tocando assim e lhe pagarei o que quiser".
Os olhos de Ronnie se fecharam outra vez, enquanto os dedos de
Rose pressionavam em todos os lugares corretos.
"Vou
me lembrar disso", a mulher mais jovem respondeu, sua mente viajando diante
do pensamento de ter as costas de Ronnie embaixo de seus dedos no futuro.
Hummm, um pouco de óleo, um agradável dia de
verão... você de bruços e sem as tiras do seu biquíni...
Seus
dedos pararam o movimento e sacudiu sua cabeça para desfazer-se dos pensamentos
incomuns. Sim, desfrutava em tocar Ronnie, mas assim? Deu uma risada curta e
se concentrou no que estava fazendo.
"O
que é tão divertido?". Ronnie perguntou, abrindo um olho
e descendo seu olhar em sua amiga.
"Oh,
nada... só algo em Home Improvement. Ele realmente é uma ameaça
ao redor das ferramentas, não é?".
"Humm?"
Oh,
é só isso o que estamos vendo? "Hum, sim".
Detectou
que ali havia mais nisso do que Rose havia revelado. Pensou só brevemente
sobre o que dizer, mas a massagem começou outra vez e Ronnie fechou os
olhos, entregando-se ao suave toque. Elas permaneceram nessa posição
durante a hora seguinte, ambas silenciosamente desfrutando do que começara
como uma massagem e se transformara em suaves carícias. A feliz e pacífica
cena foi quebrada um momento mais tarde quando o telefone tocou.
"Merda".
Ronnie a contra-gosto se incorporou.
"Se for uma dessas pessoas do MCI, eu irei matá-los".
Seus
dedos do pé sentiram o frio onde apenas segundos antes eles haviam sido
sustentados nas suaves, cálidas mãos de Rose. Meteu-se na cozinha
e pegou o telefone.
"Residência Cartwright".
Começou a caminhar novamente dentro da sala de estar,
telefone na mão, quando parou.
"Quando aconteceu isso? Eles prenderam alguém?".
Caminhou dentro do campo de visão de Rose.
"É a que está na central? Sim, a encontrarei
ali em meia hora. Ok, adeus, Susan".
Desligou
o telefone e sacudiu sua cabeça.
"Ronnie?".
"Incrível".
Afundou-se no sofá e expirou. "Alguém invadiu o escritório
esta noite".
"Oh,
não. Espero que
ninguém tenha se ferido".
"Susan não
falou nada sobre isso. No entanto, a polícia prendeu o indivíduo".
Ronnie teve que sorrir internamente. A
primeira coisa que sai de sua boca é a preocupação com
os outros. Minha primeira preocupação foi se algo foi roubado. Isto era, no entanto outro exemplo das pequenas coisas tão
ternas que encontrava em Rose.
"Tenho
que me encontrar com Susan na delegacia. Eles prenderam um dos ladrões".
A contra gosto se levantou. "Vou levar você para o quarto, antes
de ir".
Ajudou Rose a se colocar novamente em sua cadeira de rodas e
logo a jovem mulher estava instalada na cama.
"Melhor eu ir", disse, quando desceu o olhar nos suaves
olhos verdes e sentiu irreprimível necessidade de abraçá-la.
Ah, ao inferno com isso.
Inclinou-se rapidamente e envolveu seus longos braços ao redor dos ombros
de Rose.
"Se tiver que demorar, eu ligo para você". Sorriu
quando sentiu seu aperto de volta.
"Tome
cuidado. Está nevando." A jovem mulher disse,
quando se separaram.
"Vou
ter.”
XXXXX
Ronnie
chegou à delegacia primeiro e falou com o sargento de plantão,
que a dirigiu até um dos detetives. Voltou ao corredor vários
minutos depois, a ponto de explodir de ira pela informação que
o oficial havia lhe dado.
Susan
e Jack chegaram pelo corredor, sacudindo a neve de seus casacos.
"Fui ao escritório. Você não acreditará
nisso. Eles levantaram aquela fita amarela e seu escritório parece que
um tufão passou por ali", a ruiva disse, enquanto pendurava seu
casaco na estante próxima. "Parece que eles tentaram entrar na caixa
forte."
"Foi
ele". Ronnie respondeu tranqüilamente. "Acho que foi uma boa
idéia trocarmos a combinação na semana passada, não?"
Sob olhar confuso de sua irmã, assentiu e continuou:
"É isso, Susan. Vá em frente e adivinhe quem
invadiu os escritórios e tentou nos roubar, de nossa família!"
A elevação de sua voz chamou a atenção
de vários oficiais que estavam próximos, forçando Ronnie
a falar com os dentes apertados numa intenção de manter a ira
sob controle.
"O
filho pródigo está lá embaixo agora, em cárcere.
Provavelmente estão tirando suas digitais e lhe apresentando a seus novos
companheiros dos próximos cinco a dez anos". Não fez nenhum
intento de esconder a ira em seu tom.
"Você
quer dizer que Tommy...?" Susan mexeu sua cabeça. "Não,
isso é impossível".
"Tem
razão, Susan". Apertando seus punhos com força, continuou
sarcasticamente: "O executivo ali na cadeia só se parece
com Tommy, e também usa sua carteira".
"Mas...
talvez ele tenha só ido pegar algo. Você trocou as fechaduras,
talvez ele tenha ativado o alarme acidentalmente". Olhou para seu marido
pedindo apoio, mas viu só a verdade refletida.
"Amor,
acho que sua irmã tem razão. Esteve lá, viu o escritório".
Ele deu a Ronnie uma olhada como se pedisse desculpas. "Ouvi dizer que
as drogas podem obrigar as pessoas a fazer toda classe de coisas, inclusive
roubar seus próprios parentes".
"Esta
é a verdadeira explicação, Jack. Só agora você
se deu conta de que Tommy tem um problema com as drogas?” – Perguntou Ronnie.
"Ronnie,
só porque você está zangada, não significa que possa
descarregar isto em Jack. Depois de tudo, não é seu problema".
"Não
Susan, não é culpa de Jack que Tommy esteja em cadeia, é
culpa de Tommy, e acho que devemos deixar seu traseiro ali até que endireite".
"O
que?". A ruiva estava parada entre sua irmã e marido. "Você
não pode estar honestamente pensando em deixá-lo ali... na cadeia?".
"Por
que diabos não? Ele invadiu o escritório, tentou forçar
a caixa forte. Susan, se continuarmos mimando-o...".
"Não
o estou mimando. Só digo que você não pode deixá-lo
na cadeia esta noite".
"Oh,
sim, obrigada pela explicação da diferença", Ronnie
zombou, desviando o olhar e esfregando seu rosto com exaspero. "Susan...".
Deteve sua irmã mais jovem. "Tommy tem um problema com drogas. A
primeira coisa que fez foi roubar o dinheiro dos projetos das propriedades imobiliárias,
depois falsificou empréstimos. Agora está cometendo roubos para
tentar conseguir dinheiro para seu vício. Acho que é hora de tratá-lo
mais duro".
Viu
as lágrimas nos derreterem a maquiagem de sua irmã,
que começavam a cair.
"Olha, talvez esta seja a melhor coisa para ele. Alguns
dias para que possa conseguir que essas drogas saiam de seu sistema e estará
como novo".
Susan
balançou sua cabeça firmemente.
"Não. Estamos ha dois dias do Natal. Não posso
deixar meu irmão caçula, meu único irmão, passar
o Natal na cadeia, não posso". Levantou o olhar a seu marido. "Não
pode fazer algo?".
"Sou
advogado de impostos, querida. Se tivesse sido preso por mentir sobre seus impostos,
então poderia ajudá-lo. Não sou especialista em direito
penal".
Susan
golpeou seu queixo suavemente com seu dedo, recusava-se a se dar por vencida.
"Já sei!". Seus olhos se dilataram. "Nos negaremos a apresentar
queixa. Não há delito, não há prisão".
"Isso
daria certo, exceto por um pequeno detalhe". Ronnie manteve seu indicador
e o polegar levemente separados. "Parece que o Hércules ali decidiu
que não queria ir de boa vontade com os policiais. Mordeu a um deles".
Mexeu seus dedos juntando-os, como se os estivesse limpando,
afastando a idéia de sua irmã.
"O
que me diz sobre liberdade sob fiança? Podemos tirá-lo sob fiança,
não é?".
"Susan,
é melhor deixá-lo ali dentro, não entende? Precisa de ajuda,
ajuda que não vai conseguir se nós permitirmos que ele ande pelas
ruas".
"Ronnie,
sei que vocês nunca se deram muito bem e sei que ele está com ciúmes
de você, mas como pode ser tão mesquinha e deixar seu próprio
irmão passar o Natal na cadeia?".
Um
homem calvo entrou com passos fortes na delegacia, com sua maleta em uma mão
e seu celular na outra.
"Vim
tão logo que recebi sua ligação".
Esse era Richard Jenkins, o advogado da família que fazia
um pouco mais do que organizar seus tickets de estacionamentos em troca de seu
enorme adiantamento anual. "Estive ao telefone com o ADA na ultima meia
hora".
"Quem
o chamou aqui?". Perguntou Ronnie.
"Por
que? Claro que foi sua mãe. Tommy não podia lembrar meu número".
"Quer
dizer que Tommy ligou para ela?"
Afastou-se deles e maldisse silenciosamente. Claro
que ligou para ela, quem mais poderia continuar resgatando-o
de problemas após problemas? Havia uma
última esperança. "E sobre ele ter mordido o policial?".
"Já
cuidei disso". Jenkins sorriu orgulhosamente. "Ele só rasgou
a camisa do indivíduo e não tocou em sua pele, assim nós
conseguimos negociar a restituição por serviços à
comunidade, que será atendida depois do Ano Novo".
Abriu
sua maleta e guardou o telefone.
"Se
as senhoras me dão licença, tenho que regressar em alguns minutos
com seu irmão". Cumprimentou Jack. "Bom lhe ver outra vez".
"Igualmente,
Richard".
Ronnie
estava farta. Pegou seu casaco da estante e bruscamente o sacudiu, colocando-o.
"Aonde
você vai?" Susan perguntou.
"Não
quero ficar para celebrar".
Baixou seu olhar para ver que em sua pressa havia abotoado mal
seu casaco.
"Estou lhe dizendo, Susan, deixá-lo sair assim é
um grande erro".
Deu-se
por vencida com os botões e irritada puxou o cinto ao redor de sua cintura.
"O que ele precisa é reabilitação, não sair
da cadeira sendo liberado de suas responsabilidades".
"Talvez
o que ele precise seja saber que sua família o ama e o apóia",
Susan replicou ironicamente. "Como acha que ele se sentiu ao descobrir
que sua própria irmã o havia tirado do negócio da família?".
"Como
você se sentiu quando ouviu o resultado da auditoria? Desfrutou quando
viu que seus benefícios anuais entraram no bolso de Tommy?"
Susan abriu sua boca para protestar, depois a fechou, percebendo
que sua irmã tinha razão.
"Talvez
isto se resolva, Ronnie. Isto é talvez o que precise para voltar ao caminho".
"Não
tenha tantas esperanças, Susan. Tenho a sensação de que
isto é só o começo".
Muito
irritada para voltar diretamente para casa, Ronnie dirigiu pelas ruas de Albany
durante uma hora. Voltou para casa, para uma escura casa. Tentando ser o mais
silenciosa possível, entrou no quarto e começou a se despir na
escuridão.
"Estou acordada", disse Rose quando acendeu a luz.
"Estava
tentando ser silenciosa".
"Estava
lhe esperando. Como foi?".
"Nada
bem". Virou de costas e tirou sua blusa. "Parece que nosso ladrão
não é nenhum outro senão meu irmão bebê".
"Tommy?".
"Bonita
maneira de tratar sua família, não acha?".
Puxou a camiseta sobre sua cabeça e se virou para se encontrar
com a cama em uma posição quase vertical, colocada por Rose. Imagina que preciso falar, não é? Deslizou-se por debaixo dos lençóis e ajustou
os travesseiros.
"Nem
me preocupei de ir até lá e ver de primeira mão os
danos. Já tenho suficiente dor de cabeça". Levou os dedos
a sua têmpora.
"Permita-me"...
suaves dedos substituíram os seus e começaram a esfregar a sensível
área. "Como foi isso?" Rose sussurrou.
"Humm
... um pouco difícil... humm, sim, justo aí...".
Não
havia uma decigrama de relaxamento em nenhum lugar da parte superior do corpo
de Ronnie, mas a jovem logo a descobriu. Suavemente, colocou a executiva em
uma posição sentada e moveu suas mãos até os amplos
ombros. Cada músculo estava tenso, rígido, como se estivessem
pronto para uma batalha. Pressionando suavemente à princípio,
depois com mais força, Rose forçou os músculos a se renderem
sob suas manipulações. "Assim, só relaxe", sussurrou.
"Feche os olhos".
"Eles
estão fechados", veio um relaxado murmúrio. Rose sorriu no
implícito cumprimento.
"Pense
sobre o que acontecerá amanhã. Pense sobre todas as luzes na árvore...
nos presentes...".
"Rose Grayson, está tentando me hipnotizar?".
"Claro
que não, boba". Moveu os polegares na base do crânio de Ronnie
e começou a massagear a área delicadamente. "Só quero
que você relaxe e que pense em quanta diversão terá no Natal".
"Hummm".
"Assim...".
O toque chegou a ser mais suave quando Ronnie relaxou. "Isso a faz se sentir
melhor?".
"Muito".
"Bem".
Um sorriso satisfeito veio aos lábios da jovem. "Que acha se nós
dormíssemos um pouco e deixemos todas as coisas ruins para amanhã?"
Colocou as costas de Ronnie sobre seu próprio travesseiro. "Boa
noite".
"Boa
Noite, Rose". Houve um silêncio por um momento antes que Ronnie acrescentasse:
"Obrigada". A carga saiu de seus ombros por pelo menos esta noite
e rapidamente caiu dentro de um pacífico sono.
xxxxxxxxx
Ronnie
tomou um gole de café e olhou a vista perfeita da manhã de Natal.
Uma suave pulverização de neve havia caído à noite,
cobrindo seu pátio traseiro e as árvores que rodeavam este, com
um suave manto branco. O sol estava levantando, toda a cena lhe recordava uma
gravura de Currier e Ives. Apertando o cinto de seu roupão, abriu a porta
de correr e caminhou até o exterior, sobre a cobertura com a fina capa
de neve rangendo debaixo de suas pantufas azuis. Colocou sua xícara sobre
a mesa, o calor causando um pequeno círculo de neve derretida e revelando
o metal debaixo pintado de verde. Ronnie inspirou profundamente e sorriu. Estava
muito frio para manter a neve derretendo, mas a falta de vento evitava que fosse
tão áspero.
Parada
ali e bebendo seu café, desfrutava vendo uma família de coelhos
correndo de um lado a outro através do campo. Suas pelagens cinzas eram
um vivo contraste na neve branca. Perfeito. Vou fazer deste o melhor Natal que você já
teve, Rose. Pelo menos, vou tentar fazer todo o possível.
Pensou nos presentes debaixo da árvore. Tanto quanto odiava
em geral os shoppings e compras, Ronnie sentiu um grande prazer em pessoalmente
escolher cada um dos presentes para Rose. Finalmente o frio penetrou através
de seu roupão e se refugiou no interior deste.
O
relógio da cozinha mostrou que já passavam das sete horas. Droga,
muito cedo. Deixando a xícara vazia na pia, dirigiu-se para a
sala de estar. Centenas de minúsculas luzes piscavam e brilhavam sobre
a árvore, suas múltiplas cores refletiam o brilho do papel que
cobria os presentes empilhados no chão. Ronnie sorriu. Tudo era perfeito.
Agora era só questão de esperar Rose acordar. Olhou o relógio
do avô, esperando que não tivesse que esperar por muito tempo.
Não havia estado tão emocionada com o Natal
há anos. "Vamos, Rose", murmurou
para si, notando que o tempo parecia estar passando mais devagar do que de costume.
Reorganizou os presentes e tomou outra xícara de café. O relógio
agora dizia que eram sete e trinta. Tabitha se esfregou contra suas pernas.
"O que você quer?".
"Mrrow?".
"O
desjejum para você é dentro de meia hora".
"Mrrow?".
Tabitha se aproximou do armário onde a comida para gatos
era armazenada e miou outra vez. Quando o miado não funcionou, a gatinha
brincalhona rodou sobre sua espinha e girou sua cabeça
em um ridículo ângulo. Ronnie riu suavemente e balançou
sua cabeça.
"Certo,
já que é Natal". Ajoelhou e abriu o armário. "Ok.
Agora, vamos ver o que temos aqui". Tirou uma lata com etiqueta verde e
a susteve diante do agora ronronante felino. "Quer peru para o Natal?".
"Mrrow".
Tabitha golpeou a lata com sua pata.
"Bem,
então será peru".
A
alimentação de Tabitha não consumiu tanto tempo como Ronnie
havia desejado. Quando o relógio do avô tocou oito horas, a expectativa
a estava matando.
"Acho que já é tarde, não acha, Tabitha?".
Agachou-se e levantou a gata em seus braços.
"Vamos acordar a mamãe para que ela possa ver todos
os bonitos presentes, humm?".
Ronnie
colocou Tabitha em baixo ao pé da cama e avançou lentamente até
o lado da adormecida mulher.
"Rose? Rose, hora de acordar". Um suave toque no ombro.
"Rose. É manhã de Natal. Não quer levantar e abrir
os presentes?".
"Hummmpht".
"Vamos,
é hora de levantar. Não quer desperdiçar toda a manhã
na cama, não é?".
Sonolentos
olhos verdes lentamente foram se revelando. "Que horas são?".
"Oito
horas". Os olhos rapidamente se fecharam e a jovem mulher soltou um gemido.
Ela puxou o lençol sobre seu rosto unicamente para que uma mão
mais forte rapidamente o puxasse para trás.
"Mas
é Natal. Você não pode dormir no Natal". Ronnie saltou
fora da cama e colocou em cima dela a comadre. "Vamos, levante e use isto".
Rose
deu um gemido a mais, mas lentamente abriu seus olhos, pensando que Ronnie estava
muito alegre esta manhã... até que se deu conta de que manhã
era hoje. "Oh, Deus, é Natal!".
"Feliz
Natal", Ronnie riu levemente, afastando o lençol do caminho e se
colocando sobre seu costado, usando sua mão e cotovelo para apoiar sua
cabeça acima. "É uma linda manhã e seria um crime
deixar dormir durante esta".
"Há
quanto tempo está acordada?".
"Há
cêrca de uma hora e meia".
"Estou
surpresa que tenha esperado todo este tempo". Ronnie estava a ponto de
se defender quando viu o brilho nos olhos de Rose. Saltou de brincadeira sobre
a mulher menor e as duas engancharam-se em uma breve luta de cócegas.
"Você é desapiedada", Rose disse, quando finalmente se
separaram.
"Acho
que você agora está acordada, não é? Agora vou deixá-la
para cuidar de seus assuntos físicos".
"Humm,
Ok. Só levarão um par de minutos".
"Certo,
me grite quando estiver pronta. Levarei seu café até a sala de
estar. Pode tomá-lo e abrir os presentes ao mesmo tempo, não é
mesmo?".
Rose
escutou atentamente até que estivesse certa de que Ronnie não
voltaria, então recuperou o pequeno presente escondido na gaveta do criado-mudo.
Um inesperado temor passou através dela. Repentinamente, o jogo de caneta
e lápis que pediu a Karen para comprar para ela não lhe parecia
tanto a um presente depois de tudo. Se Ronnie quisesse um, já teria um. Talvez não gostasse de lapiseiras
porque não podia mordê-los. "Estúpida, estúpida,
estúpida", murmurou para si mesma, antes de deixar o presente na
gaveta do criado-mudo e se colocar sobre a comadre.
Quinze
minutos mais tarde, estava vestida usando uma camisa cor bege que Ronnie havia
insistido em lhe dar. Rose não acreditou por um só minuto que
esta era muito pequena para sua benfeitora, pois estava muito folgada, umas
oito ou dez polegadas, além de seu quadril e os punhos precisarem de
ser dobrados várias vezes, antes que se pudesse ver as pontas de seus
dedos. De qualquer maneira, ela lhe foi dada por Ronnie, e como a camisa de
dormir de Dartmouth, era algo que ela pressionava Maria
para lavar, que dificilmente tinha muito tempo
para isso.
Uma
última escovada em seu cabelo e Rose estava pronta. Colocou o presente
em seu colo e o cobriu com o edredom, antes de gritar. Alguns segundos depois
Ronnie apareceu.
"Pronta?".
"Acho
que sim". Forçou um sorriso em seu rosto. Oh Deus, por favor, faça que ela goste do meu presente, rezou silenciosamente,
enquanto Ronnie a ajudava a se colocar na cadeira de rodas e a guiava para fora
do quarto.
xxxxxxxxxx
Uma
grande quantidade de presentes embaixo da árvore chamaram a atenção
de Rose, quando Ronnie a ajudou a entrar no desnível da sala de estar.
Inclusive quando permaneceu com uma família de cinco pessoas no Natal,
a jovem órfã nunca havia visto tantos presentes embaixo da árvore.
Reconheceu o estilo, grande e fluído da letra de Ronnie, em todas as
etiquetas dos presentes.
"Sua família virá hoje?".
"Não.
Tenho que ir ver a família de Susan mais tarde, mas nenhum certamente
estará me visitando. Por que?".
Por
que colocar todos seus presentes embaixo da árvore se eles não
virão? Sua expressão chegou a ser inclusive mais desconcertada.
"Bem,
não são esses os seus presentes?".
Ronnie
deu um curto riso e apertou seu braço.
"Não.
Eles são todos seus".
Os
olhos de Rose se dilataram muito e por alguns segundos se esqueceu de como respirar.
"Meus?! Vo... você quer dizer...?".
Dando-se por vencida em um discurso, simplesmente apontou para
os presentes.
"Sim,
eles são todos para você". A testa de Ronnie se enrugou. "Algum
problema?".
"N-não...
eu..."
Levantou o olhar para a pessoa mais importante em sua vida, enquanto
um par de lágrimas deslizaram por seu rosto. Rose teve que lutar para
evitar que seu lábio tremesse.
"Eu nunca... todos esses... para mim...". Estendeu
seus braços e foi encontrada à meio caminho, envolvida em fortes,
confortantes braços. "Oh, Ronnie..."
"Shhhhh,
tudo bem".
Ronnie deixou um braço ao redor das costas de Rose e usou
o outro para acariciar seu cabelo.
"Desculpe. Não estava pensando sobre quantos deveria
estar ali. Só estava vendo as coisas que pensei que você gostaria,
e as comprei".
"M...mas
só tenho um para você...".
"Shhhhh".
Colocou seus dedos nos lábios de Rose. "É a intenção
que conta, nada mais". Enxugando uma lágrima com seu polegar, Ronnie
falou outra vez: "Um presente seu vale mais do que vários de qualquer
pessoa, entende?".
A
cabeça loura balançou em um fraco movimento.
"Posso
lhe dar o meu presente primeiro?".
"Sabe
..." Ronnie secou as outras lágrimas do rosto de Rose. "Preferiria
esperar até que você tenha aberto os seus presentes. Tudo bem?".
"Tem
certeza?".
"Sim".
Levantou-se e alcançou os punhos da cadeira de rodas.
"Aonde
vamos?". Perguntou Rose, surpresa quando sentiu se mover.
"É
Natal. Ficará muito mais confortável no sofá e estou cansada
de me ajoelhar. Vamos, nos recostaremos e beberemos nossos cafés, então
abriremos os presentes".
xxxxxx
Rose
estava colocando-se no sofá quando ouviram um estrondo detrás
da árvore.
"O
que foi isso?!" Ronnie perguntou.
Obteve sua resposta um segundo depois, quando Tabitha saiu correndo
à toda velocidade de debaixo da árvore e correu para a cozinha.
Antes que alguma das duas pudesse falar, a alaranjada e branca imagem voltou
e saltou novamente dentro da montanha de presentes.
"O
que está acontecendo com ela?" Rose perguntou, preocupada. "Nunca
a vi mover-se tão rápido antes! "
"Acho..."
Ronnie
cruzou a sala, se ajoelhou, e começou a afastar os presentes.
"Sim... Tabitha é uma pequena menina cobiçosa".
Afastou-se e deixou a jovem mulher ver. A gata estava deitada
sobre seu dorso, batendo em uma bola de presente pendurada em cima dela.
"Seu pequeno bebê ali se meteu em seu presente de
Natal".
Meteu a mão para recuperar o pacote unicamente para ter
seu pulso capturado entre as patas dianteiras de Tabitha.
"Nem
sequer pense em me arranhar", avisou, enquanto lentamente tentava tirar
sua mão. As suaves patas revelaram suas armas, as garras pressionando
contra sua pele até que parou o movimento. Tabitha pousou seu olhar nela
por um segundo, então começou a ronronar e lamber o pulso de Ronnie.
"Srta. Grayson, acho que sua gata está louca".
Tirou
a bolsa de Catnip. Estava ainda embrulhada em um festivo papel verde, exceto
por um saliente pedaço desaparecido onde havia sido mastigado.
"Você
colocou o Catnip debaixo da árvore?".
"Sim,
mas este estava numa bolsa de plástico e foi enrolado em papel".
Rose
sorriu maliciosamente e balançou sua cabeça.
"Ronnie,
ela pode sentir o cheiro de Catnip a milhares de distância. Tabitha, Tabitha?
Venha aqui, querida".
A
gata moveu-se três passos antes de cair sobre um volumoso tapete e começou
a se limpar.
"Não
acho que ela vá a nenhuma parte, Rose".
Suficiente disto. Eu quero que você abra seus presentes. Estendeu o braço e tomou uma camisa envolvida em uma
caixa em papel prateado.
"Já que estou aqui, de qualquer maneira vamos começar
com seu primeiro presente".
Voltou
ao sofá e lhe deu, tentando dificilmente controlar seu entusiasmo e excitação.
Pequenos
dedos passaram sobre o luxuoso papel e o laço vermelho.
"É
tão bonito para abrir".
"É
só um embrulho de papel. Abra-o", exigiu. Vamos, abra-o e olhe o que lhe comprei. Um sorriso
semelhante à de uma criança cresceu no rosto de Ronnie.
Rose
deu uma olhada.
"Não
há lugar para jogar o papel".
"Jogue
no chão. Eu pego depois. Abra-o!" Ronnie se recostou até
que ficou ao lado da jovem.
"Não
posso jogá-lo no chão". Suas pontas dos dedos traçavam
a letra na etiqueta do presente.
"Mas...".
Ronnie deu uma olhada, franzindo o cenho quando não encontrou algo conveniente
à vista.
"Já volto".
Saiu
do sofá e entrou na cozinha. Rose escutou o som dos armários que
se abriam e fechavam, seguido pelas gavetas. Houve um murmúrio de maldições
contínuas.
"Aqui
está".
Alguns segundos depois Ronnie voltou, abrindo o saco de lixo.
O deu a Rose e voltou a sua almofada contígua, metendo os pés
descalços por baixo de suas coxas.
"Ok.
Agora abra".
A
jovem mulher olhou do presente para Ronnie. "Obrigada".
"Você
nem sequer sabe o que é ainda!"
Depressa, abre!
Rose deslizou sua unha debaixo da etiqueta e cuidadosamente a
separou do pacote, deixando-a na mesa lateral. Outro passo e uma aba do canto
se abriu.
"Só rasgue", Ronnie grunhiu brincalhona. "Ou
ficaremos aqui até o próximo Natal".
Rose
olhou para o lindo pacote, o rosto excessivamente emocionado de sua amiga, então
o presente outra vez. Os pequenos dedos se enroscaram debaixo da aba aberta
e com um rápido puxão rasgou uma tira grande do papel. Alguns
puxões mais e a caixa foi aberta para revelar uma camisa cor óxido.
A levantou até os ombros e ficou olhando-a. "Oh! É muito
bonita".
"Gostou?".
"Sim,
absolutamente". Rose olhou o comprimento das mangas e viu que elas estavam
perfeitas na altura de seus braços curtos. "Não terei que
dobrar os punhos".
"Claro
que não. Assegurei-me de conseguir o tamanho correto". Ronnie sorriu
orgulhosamente. "Gosta da cor?".
"Muitíssimo".
"Esta
combina com suas sobrancelhas. Aposto que ficará muito bem nela".
Rose virou a camisa de um lado a outro, assentindo de acordo.
Esta era, absolutamente sem lugar de dúvida, maravilhosa e não
podia esperar para usá-la. Ela a dobrou e a deu a Ronnie, quem a colocou
na almofada vazia no extremo do sofá. O lixo foi afastado do caminho
e outro presente tirado de baixo da árvore.
XXXXXXX
Rose
empurrou o último pedaço de papel do embrulho dentro do já
abarrotado saco de lixo e limpou outra lágrima de felicidade de seu rosto.
"Realmente
você é assombrosa, sabia disso?".
"Fico
feliz que você pense assim", Ronnie respondeu com um cálido
sorriso.
Este havia sido um dia cheio de lágrimas e sorrisos de
Rose, e para a executiva, não podida ter sido mais feliz.
"Essa é
a única
coisa que não estou
certa". Gesticulou com sua mão em um par de tênis azuis e
brancos no colo de Rose. "Pode devolvê-los, se ficarem muito grandes".
"Não,
são perfeitos".
"Maravilhoso".
Ronnie esticou a mão e os tomou, então deu uma
olhada pelo lugar para encontrar um lugar vazio para colocá-los. A almofada
estava repleta com roupas e a mesa de café em desordem com programas
de software e vários outros artigos. Ia deixá-los no tapete, mas
Tabitha veio correndo.
"Oh,
não, você não". Finalmente os tênis foram colocados
em cima da montanha de suéteres.
Rose
deu uma curta aspiração e piscou várias vezes antes de
mover sua mão debaixo da sua manta cobrindo as pernas.
“
Acho que agora é tempo para seu presente. Tem...".
"Não,
espera". Ronnie saiu do sofá. "Há mais um. Não
vá embora, já volto".
Tocando
o fino laço do presente em seu colo, Rose deixou seu olhar pousar na
pilha de roupas. Uma lágrima rolou em seu rosto, provocando que um
cenho franzido cruzasse o rosto da mulher de olhos azuis, quando esta retornou.
"Sabe, não era minha intenção a fazer
chorar".
Reassumiu
sua posição no sofá à poucas polegadas de Rose.Isso
lhe causou um riso baixo.
"Estou só um pouco constrangida, eu acho"- Rose
respondeu, descuidadamente limpando as salgadas gotas de suas bochechas. "Nunca
ganhei tantas coisas, mesmo no Natal".
Olhou ao redor, ainda assombrada com a quantidade de presentes
amontoados ao redor.
"Só não posso..." Rose baixou o olhar
para seu colo e balançou a cabeça.
"Escute-me,
sobrevivi de maneira sana, com minha vida parecida com a de Oliver Twist".
Pegou o oferecido lenço de linho.
"Claro
que sim", Ronnie disse suavemente. "Vamos, deixe-me dar seu último presente e então pode dar-me o meu". Deixou a caixa de jóias nas mãos
de Rose.
"Oh...
oh... meu..."
A mão da jovem mulher começou
a tremer, mas foi estabilizada por uma muito maior envolvendo ao
redor da sua.
"Abra-a"
- veio o sussurro próximo de seu ouvido. "Tudo bem,
ela não a morderá".
Depois
de alguns segundos, longos dedos abriram a caixa para revelar seu conteúdo.
Rose
olhava fixamente em assombro o pingente unido à uma fina corrente. Com
uma polegada e meia de comprimento, o ouro branco havia sido cuidadosamente
modelado em uma rica representação de uma rosa. Pequenas esmeraldas
e brilhantes rubis compunham as pétalas, deixando um solitário
diamante apoiando a base do talo. Seu lábio inferior tremeu quando tocou
o pingente reverentemente com a ponta do dedo.
"Oh
Ronnie... é lindo", sussurrou.
"Uma
rosa para uma rosa", Ronnie disse, repetindo o slogan que a havia atraído
à joalheria, à princípio. Tirou o colar da caixa e abriu
o fecho. Rose ainda ficou muito quieta quando o frio metal tocou sua pele e
Ronnie fechou a corrente.
"Ficou perfeito em você".
"Isto
é muito, Ronnie. Não posso...". Foi parada por um par de
dedos pressionados contra seus lábios.
"Rose..."
Limpou outra lágrima com seu polegar. "Suponho que Papai Noel deviria
ter lhe trazido também alguns lenços, humm?". Tirou outra
lágrima da cara de Rose. "Escute-me. Quero que tenha isto".
"Mas...".Rose
olhou ao redor. "Todas essas roupas, os programas, os sapatos, os tênis
e...". Os dedos de Ronnie a silenciaram outra vez.
"Você
merece roupas bonitas. Você merece coisas que fiquem bem em você".
Pegou o queixo da jovem
em sua mão e a forçou a enfrentar
seu olhar.
"E
você merece usar algo bonito. Agora... dê-me um abraço, me
diga o quanto gostou disto e dê-me meu presente". Disse a última
parte com um sorriso brincalhão, forçando Rose a sorrir junto
com ela.
"Isto
é mais que bonito, é maravilhoso. Eu amo isto".
A jovem mulher envolveu os braços ao redor do pescoço
de Ronnie e a puxou para um abraço.
"Tudo é tão maravilhoso", sussurrou.
"Amei tudo muitíssimo, obrigada".
"Alegro-me".
"Você
realmente é meu anjo da guarda, não?"
Rose
jogou a cabeça para trás e olhou
sua amiga, os olhos verdes brilhando úmidos.
"Você
é a melhor amiga que alguém poderia ter".
Meteu a mão embaixo da manta e tirou o presente.
"Só gostaria de ter algo mais para lhe mostrar o
quanto você significa para mim. Feliz Natal, Ronnie".
De maneira nervosa entregou o presente, um milhão de pensamentos
voaram atravessando sua mente. Sua ansiedade cresceu quando Ronnie lentamente
tirou a etiqueta do presente e a meteu em seu bolso.
"Bem,
abra-o".
A
mulher mais velha ria com a impaciência de Rose e puxou a fina fita vermelha.
"Você
é tão má como eu... oh". Abriu a longa aveludada caixa.
"Rose, são lindas".
"Gostou?".
"Sim,
muitíssimo".
Ronnie
tirou a
lapiseira e caneta do estojo e as levantou
até luz, com um sorriso sempre estampado em seu rosto.
"Têm um lindo desenho. Todos esses azuis e verdes
concentrando-se ao redor. Gosto dessas partes de ouro também".
"De
verdade, gostou mesmo? Não está só dizendo isso para me
fazer me sentir bem, não é?".
"Não
querida, não estou lhe dizendo só por isso. Realmente gostei".
Inclinou-se e deu a Rose um abraço. "Realmente é um agradável
presente", disse, afastando-se.
"Disse
que nunca podia encontrar um lapis ou caneta por
aqui".
"Nunca
posso", Ronnie admitiu. "Garanto que não perderei estas".
"Não
sabia se você gostava de lapiseira e caneta . Provavelmente não,
já que não pode mordê-las , humm?".
"Rose,
a lapiseira e caneta estão ótimas. Realmente, estão. Unicamente
utilizo os lápis de madeira porque isso é o que temos no escritório
como suprimento de trabalho. Nunca tive razão para comprar uma lápiseira como
esta ". Apertou o metal da parte de cima, observando o grafite crescer
abaixo. "Vou lhe
prometer isto, não mastigarei a ponta
desta ".
"Seria
melhor que não", Rose brincou, seus temores desaparecendo pelo sorriso
do rosto de Ronnie. Seu tom ficou sério. "Estou realmente feliz
que tenha gostado. Nunca dei algo assim a alguém antes".
"Sabe,
teria ficado feliz, não importa o que você me desse, mesmo que
fosse só um cartão". Desceu o olhar ao jogo e sorriu. "Estas
realmente são lindas. Inclinou-se para outro abraço, muito para
a alegria de Rose.
"Este
é o melhor Natal que já tive", sussurrou no ouvido de Ronnie.
"Muito obrigada".
A
mulher de cabelo escuro sorriu e a abraçou mais forte. "De nada.
Obrigada por fazer meu Natal tão especial". A contra gosto terminou
o abraço, sua mão ainda agarrando o estojo da lapiseira
e caneta . Observou o relógio. "Uh, não me dei conta que
era tão tarde. Tomou tanto tempo só para abrir presentes?".
"Havia
muitos presentes para abrir", Rose respondeu com um sorriso. "Não
tenho idéia do que fazer com todos esses programas de computador".
Gesticulou na pilha sobre a mesa.
"Você
vai aprender com eles". Ronnie deixou o estojo de lapiseira e caneta abaixo
e tomou uma das caixas de software. "Este lhe ensinará como digitar,
formatar cartas e memorandos". Colocou a caixa no colo de Rose e pegou
outra. "Este lhe ensinará o essencial de contabilidade e cálculo.
Há programas para fazer todos os cálculos reais, mas se vai estar
no mundo dos negócios, realmente deve saber
o básico". Colocou os programas novamente na mesa. "Vou instalá-los
amanhã para você e lhe mostrarei como extrair tudo o que possa
para trabalhar neles. Uma vez que esteja confortável, lhe mostrarei como
se cadastrar na rede corporativa e como pode acessar a Internet".
"Isso
parece muito divertido. Estive na Internet antes. Tinham na biblioteca. Encontrei
uma vez um site genial em que havia toda classe de informação
sobre como cuidar de gatos".
"Qualquer
coisa de que esteja interessada, está ali na Internet. Quando no princípio
me acostumei em estar em um computador, passei horas navegando na Internet olhando
diversas coisas. Meu arquivo de favoritos deve ter uma milha, de tão
comprido".
"Arquivo
marca-textos?" Rose balançou sua cabeça. "Não
sei se posso conseguir todas essas coisas do computador".
Ronnie
riu. "Oh, Rose. Confie em mim. Umas poucas semanas e você e o computador
serão os melhores amigos. Terei que lhe arrastar para longe dele".
"Não
sei sobre isso".
"Sim.
Torna-se um vício".
"Ronnie?
Entendo como os que programas de digitar e os outros supostamente me ajudarão,
mas o que o Rescuer of Maiden me ensinará?" Apontou para uma caixa
de cor brilhante com cavalheiros lutando na capa.
"Humm...
bem..."
A
cara da executiva se ruborizou levemente e deu um envergonhado sorriso.
"Este
eu a ensinarei como ser o grande cavalheiro que resgata a virgem loura do malvado
rei Dungeon. Pensei que você gostaria de um jogo para relaxar e descansar".
"Um
cavalheiro resgatando uma virgem, humm?"
Rose deu uma olhada na capa outra vez, observando que a virgem
era de cabelo louro, como os dela. Examinou seu próprio cavalheiro pessoal
em uma brilhante armadura.
"Estou
certa de que vou desfrutar". Ronnie sorriu e se levantou.
"Agora
acho que a melhor coisa a fazermos é irmos para a cozinha e começar
a fazer a comida, ou não vamos comer nada até tarde da noite".
Rose observou como a cadeira de rodas era trazida.
"Oh,
ok".
Permitiu-se ser levantada na cadeira, mas antes que Ronnie pudesse
acomodá-la, Rose envolveu seus braços ao redor do pescoço
da executiva e apertou, enterrando seu rosto na escura cabeleira.
"Obrigada. É a melhor amiga que já tive e
hoje é um dos dias mais felizes da minha vida".
Ronnie
lhe devolveu o abraço, sorrindo dentro do cabelo dourado.
"De
nada. E obrigada por fazê-lo tão especial para mim".
Quando chegaram
ao umbral da porta da cozinha, Rose levantou o olhar.
"Hei,
veja isso".
"O
que?".
"Aquele
enfeite . O mistletoe. Você o deixou ali todo este tempo e eu nem notei".
"Hummm,
suponho que sim".
O
coração de Ronnie começou a bater mais rapidamente. Estavam
diretamente abaixo do enfeite de folhas verdes .E era tradição
duas pessoas se beijarem embaixo dele.
"Humm,
poderia estar bem se...".
"Bem,
ambas estamos debaixo do mistletoe, e é Natal".
Rose engoliu em seco, de maneira nervosa foi se aproximando lentamente
mesmo não estando segura do porquê. Depois
de tudo, é só Ronnie.
"Sim". Levantou seu rosto para encontrar com a cabeça
da mulher morena, que vinha baixando. Seus lábios se tocaram uma vez...
Duas vezes antes que Ronnie se afastasse para trás.
"Eu,
humm... suponho que é melhor começarmos a comida".
As guiou para dentro da cozinha, sabendo bem do porquê
de seu coração bater como um forte tambor. Os lábios de
Rose eram suaves, tão suaves que quase havia se perdido neles, parando
justamente antes que sua língua pudesse sair. Sabendo que não
podia se permitir outro beijo assim, Ronnie fez uma anotação mental,
deixando a jovem mulher empurrar-se por si mesma na cozinha.
"Sim",
Rose concordou, girando sua cadeira para a frente e esperando que o rubor que
sentia em suas bochechas não fosse evidente para Ronnie. O beijo foi
suave e doce e se sentia culpada sobre a maneira como a fez sentir. Não
havia sido beijada por alguém há muito tempo e com certeza, não
com tanta suavidade e carinho. Sentia o interior quente, como se tivesse engolido
uma forte bebida. Vagamente se deu conta de que Ronnie estava falando.
"O
que? Desculpe".
"Perguntei
se você quer fazer alguns biscoitos doces".
"Oh.
Você gosta de biscoitos doces?".
"Eles
ficariam bem e são biscoitos tradicionais do dia de festa".
Ronnie abriu a geladeira e sorriu.
"Claro
que temos um pacote de biscoitos com pingos de chocolate aqui também".
Seu tom deixou claro que era a classe que preferia.
"Está
bem para mim".
Girou até o gabinete mais baixo e pegou uma chapa para
biscoitos, cuidadosa de não deixar a cadeira de rodas arranhar a peça
de Ronnie. O balcão era muito alto para que ajudasse facilmente com os
preparativos, mas Rose fazia o que podia. Ronnie ligou o rádio na ponta
e logo a música festiva encheu o ar, fazendo o ambiente perfeito para
preparar a comida. Nenhuma sabia o que a outra estava pensando sobre o mistletoe
e o beijo.
Rose
estava confusa. Seus sentimentos iam além do afeto de amizade, mas quanto
mais além, não estava certa. Quando via Ronnie cortar a massa
de biscoitos, foi surpreendida novamente pela beleza que era sua amiga. Certamente,
ninguém havia significado tanto para ela e Rose não podia imaginar
sua vida sem Ronnie nesta. O beijo foi cálido e carinhoso e era algo
que desejava experimentar outra vez.
Ronnie
tinha seu próprio dilema interno. Sua mente e corpo gritavam, queria
sentir
a suavidade de Rose
uma vez mais, para lhe demonstrar o quanto esta significava para ela. Pegar
sua linda companheira de cabelos dourados em seus braços e nunca mais deixá-la
ir. Era uma tortura
e sinceramente, o ar frio, quando saiu
para ir até à casa de sua irmã, não fez nada para
baixar a temperatura de sua febril alma.
xxxxxx
Rose
acabava de dobrar o último par de calcinhas e as colocou em uma gaveta
inferior da penteadeira quando Ronnie voltou. Entrou no quarto e se deixou cair
na cama com seus longos braços cruzados atrás de sua cabeça.
"Não
foi bem?" Rose perguntou, observando a sombria expressão.
"Oh,
as crianças se encantaram com os presentes. Igual à Susan".
"O
que aconteceu?" Rodou ao lado da cama e colocou sua mão no antebraço
de Ronnie. "Tommy apareceu, ou algo assim?".
"Não,
acho que ele está lá em cima nas montanhas com seus amigos. Tudo
está bem, é só que...". Ronnie afastou seu olhar de
Rose e deu uma olhada para o teto. "Algumas vezes gostaria de não
ser a mais velha. É muita responsabilidade".
"O
que aconteceu?".
Ronnie
deu um suspiro e olhou novamente sua companheira.
"Mamãe
ligou de algum porto onde seu navio parou. Ela não está feliz
com a forma em que dirigi toda a coisa sobre o desfalque que Tommy deu à
Companhia".
"Como
ela sabe sobre isso? Achei que não ia lhe dizer".
"Não
há segredos nesta família, Rose", disse com tristeza. "A
coisa é que ela não está questionando se ele fez ou não,
mas como eu dirigi isto. Disse que teria que ter mantido uma tampa nisto, até
que estivesse completamente segura, e então devia ter falado com ele
antes de tirá-lo de seu escritório".
A
mão de Rose começou a se mover de cima a baixo do braço
de Ronnie em um movimento consolador.
"Susan
pelo menos apoiou você?".
"Ela
não disse uma palavra. Nem um pio. Sabe? Às vezes me pergunto
por que não lhes digo que se danem e renuncio. Poderia me mudar para
Chicago ou Boston e começar minha própria companhia".
"Então,
por que não o faz?". Houve um silêncio longo antes que Ronnie
respondesse.
E
quando respondeu foi com silenciosa resignação:
"Porque precisam de mim". Movendo sua cabeça,
deu um resignado suspiro e alcançou o controle. "Vamos, todos esses
programas de Natal logo começarão. A HBO está repassando
Rich Little, a versão de ‘A Christmas Carol’".
"Nunca
a assisti".
"Oh,
é muito divertido. Ele faz todos os personagens imitando as famosas celebridades.
Vi quando era criança. Vamos".
Ronnie
encontrou o canal correto e deixou o controle remoto de lado antes de se levantar
e ajudar Rose a se meter na cama. A meia-noite as encontrou como de costume,
a maior enroscada contra o lado da menor, ambas dormindo satisfeitas.
xxxxxx
Rose
olhava fixamente para a tela, e a concentração causava sua testa
se sulcar . Pressionou o botão do mouse e moveu o sete vermelho abaixo
do oito preto. Estava tirando um curto descanso do programa de digitação,
havia trabalhado nele há quase três horas. Estava satisfeita com
seu progresso, depois de só três semanas de treino. Sua velocidade
estava melhorando rapidamente, enquanto que o número de erros diminuía.
Uma prancha de madeira apoiada nos braços da cadeira de rodas servia
como uma improvisada mesa, os moldes completos das pernas faziam impossível
para que Rose se colocar em uma mesa de escritório, a afastando muito
do uso do teclado.
Maria
entrou no quarto com um sanduíche e uma xícara de café.
"Precisa
de um descanso".
Esperou
que Rose pusesse o mouse e o teclado de volta na mesa, depois lhe deu o sanduíche,
deixando a xícara no criado-mudo ao alcance da mão.
"Juro que você que está tão mal quanto
Verônica fica às vezes. Eu a deixo uma tarde com ele, e quando
regresso pela manhã, ainda a encontro sentada diante disso". A mulher
de meia idade balançou sua cabeça. "Quando ela estava na
escola, era da mesma maneira".
"Como
ela era, quando era mais jovem?" Rose agarrou as rodas e virou sua cadeira,
silenciosamente pedindo a Maria que se sentasse e a acompanhasse. A governanta
relaxou no suave couro da cadeira de Ronnie e uniu seus dedos, os entrelaçando.
"Então
você quer saber como ela era?". Um amistoso sorriso atravessou seu
rosto. "Ronnie era independente, sempre foi. Sempre soube o
que fazer e
onde ir".
"Não,
não foi isso o que eu fiz dizer". Rose balançou sua cabeça,
tentando pensar em como expressar sua petição. "Conte-me
sobre algo que ela tenha feito, algo que aconteceu, algo sobre ela".
"Não
tenho certeza se eu deveria. Você sabe, é a regra fundamental das
governantas guardar em privado o que vêm e o que ouvem".
"Não
precisa me dizer seus profundos escuros segredos, Maria". -Rose
resmungou - "Ronnie mesma me contou que era uma agitadora. Estou certa
de que você deve ter uma história ou duas que se lembre. Tenho
certeza que ela não era o exemplo de uma criança perfeita".
"Perfeita?
Ra!". A mulher mais velha riu, as rugas em seus olhos se mostraram de uma
maneira maternal. "Verônica era muitas coisas quando estava crescendo,
mas perfeita não era uma delas. Esta menina corria ao redor mais do que
seu irmão e irmã juntos".
"Oh,
de verdade? Conte-me". Os olhos de Rose se alargou com a expectativa enquanto
mordia seu sanduíche.
"Espera,
deixe-me trazer algo de beber".
Maria saiu e voltou um minuto depois com um copo de refrigerante
e um porta-copo. Colocou-se novamente na cadeira e bebeu um gole antes de continuar.
"Lembro uma vez, quando ela tinha treze anos e seus pais
estavam fora da cidade. Algumas amigas queriam que ela fosse no shopping com
elas. Agora, normalmente isso não teria problema algum, mas o caso foi
que ela havia escapulido da escola poucos dias antes e seu pai a havia colocado
de castigo enquanto eles estavam fora".
"O
que ela fez?".
"O
que qualquer menina de sua idade faria, ela fugiu. Entrou em seu quarto e saiu
trepando pela janela abaixo. Eu sabia aonde ela havia ido, mas não havia
maneira que eu pudesse ir atrás dela com Susan e Tommy aqui. Eles não
tinham mais que cinco ou seis anos e eu estava ocupadíssima sozinha".
"E
o que aconteceu?". Rose estava escutando atentamente, imaginando Ronnie
com treze anos fugindo para passar um tempo com as amigas no shopping.
"Ela
e um par de amigas suas decidiram que queriam provar cigarros. Você bem
sabe que, nenhuma loja no shopping ia vender a três garotas adolescentes
um pacote de cigarros. Ronnie era alta para sua idade, mas ainda assim...então,
decidiram que se não podiam comprá-los, elas os roubariam da loja".
"Oh,
as pegaram?".
"Não,
na loja não. As tontas garotas estavam caminhando pela Cônsul Road
fumando e vestindo suas jaquetas de escola. Um policial as viu e as pegou".
"Aposto
que você estava furiosa".
"A
princípio estava, mas então descobri que ela assumiu toda a culpa
para si, embora os cigarros fossem encontrados em um dos bolsos da outra garota".
"Quer
dizer que ela assumiu a culpa por alguém?".
Rose
estava sentada silenciosamente por um momento, em profundos pensamentos. Tinha
sentido perfeito que Ronnie tentasse proteger aos outros a seu redor. Baixou
o olhar à suas pernas quebradas e assentiu. Sempre a guardiã, pensou para si.
"Maria,
Ronnie fez alguma vez algo assim antes?" Indicou a si mesma. "Quero
dizer, alguma vez trouxe alguém que não tivesse algum lugar para
ir?".
"Nunca",
a governanta respondeu.
Rose detectou nessa parte a vacilação de Maria
e esperou pacientemente para que ela continuasse.
"Fiquei surpresa quando ela trouxe a Tabitha para cá
e mais ainda quando me ligou dizendo que você ficaria aqui. Ronnie é
uma mulher muito reservada".
Parecia
que queria dizer algo mais, mas decidiu pelo contrário.
"Tenho
uma casa para limpar e você tem um almoço para terminar. Ela com
certeza ligará logo outra vez".
Maria levantou-se e recuperou o copo da mesa.
"A propósito, lembre-se que a consulta de Tabitha
é amanhã. Eles ligaram hoje".
"Oh,
é mesmo, havia me esquecido". Rose deu uma olhada para se assegurar
de que o felino não estava ao redor. "Quanto tempo acha que ela
ficará lá?".
"Só
durante a noite", a governanta respondeu.
"Pobrezinha".
O rosto da jovem mulher adquiriu um olhar compassivo. "Ela inclusive nem
sabe o que está acontecendo. Mas acho que é melhor do
que deixá-la sofrer com essas cólicas outra vez".
"Oh,
nem me lembre". Maria balançou sua cabeça. "Estava pronta
para lançá-la em um banco de neve com todo esse uivo".
"Você
não foi a única. Pensei que com certeza Ronnie ia fazer algo assim
à noite, quando ela não parava de miar".
Justamente
neste instante o tema da conversa saltou na cama para reclamar seu espaço
para sua siesta.
"Aproveite
enquanto pode, senhorita". A governanta disse a Tabitha, que respondeu
lambendo as patas e esfregando sua orelha.
"Ela
é tão linda", Rose disse, estirando seu braço para
fazer um carinho na gata.
"Linda,
com certeza", Maria zombou. "Tente fazer a comida com ela debaixo
de seus pés e me diga se ainda é linda".
Inclinou-se e esfregou a cabeça de Tabitha.
"Se for uma boa gatinha e ficar aqui dentro enquanto eu
estou limpando, lhe darei um convite extra para gatos antes de ir embora, o
que você acha?".
"Ela
gostou dessa idéia", a jovem mulher disse, quando Tabitha começou
a ronronar. "Eu a vigiarei".
Uma
vez mais Maria se foi, Rose colocou o telefone sem fio em seu colo e esperou
por Ronnie, que geralmente ligava depois do almoço.
XXXXXXX
"Lá
vai nosso bônus", Susan suspirou, antes de lançar o relatório
de novo sobre a mesa de Ronnie. "Acho que nunca vi um lucro tão
baixo em um quadrimestre. Se deu conta de que excelente ano teria sido sem isto?".
A
executiva abriu a pasta outra vez, os números ainda incompreensíveis.
As perdas na divisão da Real Estate eram muitas, para fazer o ano inteiro
medíocre em termos de benefícios. Embora todos os membros da Junta
da Diretoria fossem da família e sabiam exatamente o que estava acontecendo,
o resto do mundo dos negócios não, e Cartwright Corporation tinha
algumas sérias explicações a fazer.
Ronnie
percorreu seus dedos através de seu cabelo e olhou para sua irmã.
"Todo o ano, ele esteve destruindo tudo
o que nós fizemos. Percebe que isto é só a ponta do iceberg.
À parte
essa auditoria, o que eles vão fazer
quando retrocederem ao tempo em que ele assumiu o controle?".
"Você
acha que ele esteve roubando há muito tempo?".
"Não,
as auditorias anuais teriam refletido algo assim. Quando começou a desaparecer
por muitos dias e a tomar muito tempo livre?".
"Não
sei... Março, abril, talvez?".
Ronnie
assentiu.
" Correto. Ele obteve esse empréstimo em abril".
Pegou sua lapiseira e apoiou a ponta contra seus lábios.
A ação tinha um efeito calmante nela, lhe recordava a beleza de
cabelos louros esperando-a em casa.
"Acho
que qualquer droga que esteja consumindo, provavelmente crack ou heroína,
ele começou a fazê-lo antes".
"Crack?
Ronnie, só os pobres usam crack".
"Como
pensa que chegaram a ser pobres, irmã? Não acho que o crack se
preocupe se a pessoa é rica ou pobre, ou quando tenham bastante para
o saco seguinte, ou golpe, ou o que seja que eles façam com isto".
Suspirou e deu batidas rítmicas com a lapiseira contra
seu queixo.
"Ele
precisa de ajuda
Susan, provavelmente uma reabilitação".
"Que
lapiseira bonita. Quando a conseguiu?" A ruiva perguntou, trocando de assunto.
"Rose
me deu no Natal".
Ronnie
parou de bater com ela no rosto e a estendeu para a irmã olhar
nos redemoinhos frisados de azul e verde, acentuados pela fina ponta de ouro.
"Tenho uma caneta igual". Espontâneamente, um sorriso veio a
seus lábios, um que não passou desapercebido por sua irmã
mais jovem.
"E
como
Rose está?".
Era
um assunto que não haviam falado desde a festa e Ronnie olhou sua irmã
com surpresa.
"Ela
está... hum... bem. Irá ao médico na próxima semana
para trocar seus moldes. Acho que vão lhe colocar um mais curto em sua
perna direita".
"Oh,
isso é bom".
Um
silêncio caiu entre elas. Ronnie normalmente poderia dizer quando sua
irmã estava só sendo solícita, mas esta vez ali não
lhe parecia haver nenhum significado oculto, nenhuma agenda secreta nas palavras
de sua irmã mais jovem.
"Hum... sim. Deixamos de precisar de sua enfermeira, porque
ela já pode se mover bastante bem por si mesma". Fez uma pausa e
sorriu. "No entanto, o comichão a está levando à loucura".
"Aposto
que sim. Lembra quando você fraturou o braço? Não sei quanto
tempo deu até que você tentasse meter um pau ou uma régua
ali para coçar". A ruiva deu um pontapé em seus sapatos e
se sentou no sofá. "E, o que você deu à ela? E venha
aqui um momento. Estou cansada de falar inclinada na sala".
Escuras
sobrancelhas se levantaram.
"Desde
quando deseja falar sobre Rose?".
"Não
disse que queria falar sobre ela, só perguntei o que você deu à
ela no Natal, isso é tudo".
Susan baixou o olhar para suas unhas, óbviamente evitando
o olhar de sua irmã. Ronnie estava indecisa em abrir-se, insegura sobre
a repentina mudança de atitude dela.
"Algumas
roupas e um par de programas de computador", disse, não fazendo
nenhum esforço para se levantar de sua cadeira. "Não me enlouqueci
muito". A verdade era que havia gasto muito mais do que originalmente havia
planejado, mas os sorrisos que Rose havia lhe dado tinha valido cada centavo.
"Não
disse que você o faria, Ronnie". Vendo que sua irmã não
ia acompanhá-la no sofá, Susan estirou suas pernas e deixou seus
pés apoiados sobre a almofada. "Ela gostou?".
"Sim,
gostou". A executiva baixou o olhar para sua lapiseira e sorriu, girando
o instrumento de escrever em suas mãos.
"Então,
as coisas vão bem entre vocês duas?".
"Susan,
ela é só uma amiga. Eu já lhe disse". Olhou fixamente
o lápis por alguns segundos antes de falar outra vez, desta vez com uma
voz mais baixa. "Realmente é bonita, não é?".
"É
muito bonita, Ronnie", a ruiva concordou. "Acho que não demorou
muito para ela perceber seu hábito para comer cada lápis à
sua vista".
"Eu
não os como". Um suave rubor tingiu suas feições.
"Eu os mordo. Há uma diferença. Não posso evitar.
Faço desde que era uma criança e provavelmente continuarei fazendo
até que seja uma velha".
"Bem
irmã, estou disposta a apostar que não morderá este".
Ronnie sorriu.
"Não,
é muito bonito. Além disso, provavelmente quebraria meus dentes
nele".
"Disse
que este tem uma caneta igual?".
"Sim,
justo aqui". Ronnie se virou para a jaqueta que estava no respaldo de sua
cadeira e tirou a caneta do bolso interior do peito. "Inclusive se certificou
de que tivesse tinta azul ao invés de preta".
"Sabe,
nunca vi alguém tão seletiva sobre com a cor que se escreve".
Susan levantou-se e cruzou a sala até a mesa para olhar melhor. Ronnie
a contra gosto lhe deu o objeto. "Oh, é linda". Houve um silêncio
por um momento antes que Susan lhe devolvesse a caneta.
"Estava pensando que talvez Jack e eu poderíamos
ir alguma noite para lhe fazer uma visita. Nada sofisticado, talvez um desses
churrascos de inverno que você tanto gostava de fazer".
"Nós
não fazemos um desses há... dois ou três anos?" Ronnie
balançou sua cabeça. "Não posso acreditar que tenha
passado tanto tempo".
"Bom,
então
devemos fazer. Será divertido e nós
conheceremos Rose".
"Você
a conheceu na festa de Natal, Susan", falou. "E lembro que
você não estava nada emocionada sobre isso".
"Bem...".
Uma olhada culpada passou sobre o rosto da irmã mais jovem. "Talvez eu
tenha tirado conclusões precipitadas".
"Talvez
tenha", Ronnie concordou.
"Assim,
talvez eu queira uma segunda oportunidade", a ruiva ofereceu.
O
silêncio caiu entre elas por um momento antes que Ronnie à contra
gosto assentisse.
"Estamos justamente na metade do degelo de janeiro, então
esta seria a época perfeita para um churrasco de inverno".
"Exatamente.
Inclusive deixarei os meninos com a babá, para que não tenha que
se preocupar".
"Não,
pode levá-los. Não vão lá há muito tempo".
"Levarei
seu Play Station para que tenham algo para fazer". Susan estendeu a mão
e apertou o ombro de sua irmã. "Sabe que eles gostam de lhe vencer
nesse jogo de luta livre".
"Ainda
tem aquilo? Pensei que era para aquele pequeno sistema de jogo preto que tinham".
"Oh,
ainda tem esse em alguma parte. Eles só utilizam o Playstation agora.
Acabo de lhes comprar um novo jogo de luta livre. Não sei o nome dele,
certamente".
"Não
importa. Terão meu indivíduo na lona em três segundos como
sempre fazem, exceto Ricky. Ele gosta de lançar o indivíduo do
ring umas doze vezes e lhe colocar em coma antes de declarar-me vencida".
As irmãs riram, quebrando a tensão das últimas semanas.
"O
que você acha de sábado?".
"Soa
bem. Com licença". Ronnie pressionou o botão do interfone.
"Sua
mãe na linha dois. Disse que é urgente", a voz de Laura disse.
"Obrigada".
Olhou para Susan. "E agora o que será?".