O Desabrochar da Paixão
Um conto da Primeira Vez
Disclaimers
Aí pessoal... essa é a primeira fanfiction que me atrevo a escrever
desde que tomei conhecimento desse maravilhoso mundo de histórias imaginadas
por fãs da série XWP.
Esta fic trata de como imagino haver
sido a descoberta do amor entre Xena e
Gabrielle, logo contém temas
adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas
mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, onde você mora é
proibido ler esse tipo de material ou for homofóbico, não continue
a leitura. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho
aparece não aceita responsabilidade legal pelo não cumprimento
desse alerta.
Esta história por certo se passa lá pelo final
da primeira temporada, início da
segunda...
Ressalto ainda que
os personagens de Xena e Gabrielle são marca registrada da
MCA/Universal
e Renaissance. Elas são usadas aqui sem intenção de lucro
ou de infringir as leis de copyright. O resto da história é fruto
da minha imaginação.
Desejo a todos uma boa Leitura!
Se
quiserem enviar comentários acerca da história, críticas
ou sugestões, ou
trocar idéias sobre a série XWP meu e-mail é [email protected]
Já se passavam algumas luas em que Xena se encontrava pensativa e
ensimesmada, perdida em devaneios, dúvidas e questionamentos sobre
sensações e sentimentos que lhe afloravam do íntimo
e a faziam perder noites de sono. Seus dias também vinham sendo atormentados
pelos mesmos pensamentos. Desde que Gabrielle entrou em sua vida tudo mudou
radicalmente. É fato que sua mudança interna já se
havia processado,
tendo como mola impulsora os ensinamentos e os exemplos
da grande amiga Laoma.
Porém Gabrielle conseguiu conferir um
encanto todo especial a rotina de seu
dia-a-dia, materializando os doces
ensinamentos de Laoma. Era como se Laoma e Gabrielle houvessem freqüentado
a mesma escola, ou tivessem tido a mesma família, pois o que uma
pregava a outra construía em vivências, mesmo que instintivamente.
Laoma era a teoria e Gabrielle a prática do amor ao próximo.
Realmente a rainha amazona havia transformado radicalmente sua vida. E como
se não bastasse Xena passou a, gradualmente, reparar cada dia mais
em Gabrielle. O que antes admirava como amiga e irmã passou a chamar-lhe
a atenção como mulher. Gabrielle tinha belas curvas, toques
suaves, mãos mágicas, hálito doce, voz melodiosa, caminhar
sedutor.
Xena não conseguia afastar tais sensações
enquanto seus olhos procuravam Gabrielle aonde quer que ela estivesse. Isso
a perturbava significativamente e embora fosse
uma mulher vivida não
estava conseguindo controlar tal situação. Sempre fora uma
amante exigente e apreciadora de homens viris e fortes como Boris, Ulisses,
Marcus,
Hércules, entre outros. E agora seus sonhos eram povoados
por uma fada de tamanho
diminuto, porém de amplidão de
bondade, afeto e amor incondicional. De fato era
incondicional o amor
de Gabrielle e ela já havia demonstrado isso a Xena desde o
momento
em que, teimosamente, decidiu segui-la. Naquela época Xena já
havia se
acostumado a viajar sozinha, porém Gabrielle lhe impôs
sua presença de um modo tão
sutil quanto determinado.
E até hoje ela agradece aos céus por causa disto.
Com
estes pensamentos lhe povoando a mente observa Gabrielle ao longe, ocupada
em
colher algumas flores para enfeitar a mesa do jantar. O sol estava
se pondo e os
reflexos alaranjados refletiam nos cabelos loiros de Gabrielle
como se fizessem
parte do campo de trigos que emoldurava a paisagem
do fundo do vale. Cada vez que
se abaixava deixava à mostra as
coxas esculturais através da fenda lateral de sua
saia marrom.
Seu top verde escondia os seios pequenos e firmes enquanto deixava seu
colo descoberto, onde Xena já havia repousado a cabeça tantas
vezes para ser
consolada, e que agora lhe despertava desejos que não
imaginava como controlar.
Gabrielle avista Xena de longe, sentada na
rocha onde estava pensativa quase que
toda a tarde, e acena para ela
com uma das mãos enquanto a outra abraça um
ramalhete
de flores do campo. Ela era realmente a imagem da perfeição,
pensou Xena
e retribuiu o aceno. Gabrielle se vira e continua colhendo
flores.
Perdida em devaneios Xena nem percebe Ares que se aproxima
às suas costas. Ele a
observava já há algum tempo
e como conhecia Xena bastante bem lhe capturou os
pensamentos, conseguindo
entender perfeitamente o que se passava no coração de
Xena, melhor que ela própria. O que Ares viu nos olhos de Xena foi
amor e paixão.
Uma onda de inveja invadiu o deus da guerra, pois
tudo o que ele queria era que
Xena tivesse aqueles sentimentos por ele.
E para conseguir seu intento utilizaria
os recursos que precisasse,
quaisquer que fossem. Ares queria Xena como sua
princesa guerreira.
Já bem próximo comenta:
- Pensando na vida, Xena?
Xena se vira sobressaltada e pergunta:
- O que é que você
quer Ares?
- Nada... só estava de passagem...
- Tá
bom... e eu sou a rainha do Egito.
- Não ironiza, Xena. Você
sabe muito bem o que eu quero. Eu quero você!
- Desiste Ares.
Você nunca me terá. E você sabe disso.
- O que eu
sei é que se EU não a tiver ninguém mais a terá...
– diz Ares e volta
seu olhar para Gabrielle, desafiadoramente.
Xena
salta sobre ele e o derruba com um empurrão. Coloca seu dedo em riste
e diz:
- Olha aqui Ares, seja lá o que for que você esteja
pensando ou tramando deixe
Gabrielle fora disso, entendeu??? Senão
você vai se ver comigo, sua eternidade vai
ser um inferno.
- Ora, ora...que brabinha... então o que eu estou pensando é
verdade...
- E o que é que você está pensando, seu
estúpido?
- Xena... nós somos adultos. Só um imbecil
não vê que você está caidinha de amores
por
aquela... Gabrielle. – diz Ares se levantando do chão e sacudindo
a poeira de
suas roupas.
- Não seja estúpido, Ares,
isso é um disparate!
- A quem está querendo enganar? Ao
deus da guerra ou a você mesmo? Mas seja a quem
for eu repito:
ou você será minha ou de mais ninguém.
Ares desaparece
antes que Xena diga mais alguma coisa. Xena senta-se novamente e
respira
lenta e profundamente como que tentando afastar o fantasma de Ares. Mas
o
que o deus da Guerra lhe disse não saía de seus ouvidos.
Realmente Ares tinha
razão. Seu amor por Gabrielle ia além
do fraternal e da amizade. De fato não podia
negar que desejava
Gabrielle, mas não poderia contar-lhe para não magoá-la,
nem tão
pouco correr o risco de Gabrielle afastar-se dela por
medo ou por questões de
princípios. Sentia-se condenada
a viver aquele amor da forma como vinha vivendo até
o momento,
platonicamente. Mas seria melhor do que se afastar de Gabrielle.
Gabrielle havia terminado de colher suas flores e estava prestes a entrar
em casa
quando acenou novamente para Xena. Já no interior da
residência encheu um jarro com
água e dispôs as flores
harmoniosamente, depositando-as no centro da mesa da sala
de jantar.
Sentia-se bem toda vez que voltava à casa paterna, onde havia passado
os
melhores anos de sua infância. Vinha sentindo muitas saudades
de sua família,
principalmente da irmã Lila, com a qual
tinha muita afinidade. Nas últimas semanas
sensações
inexplicáveis vinham invadindo seus pensamentos e sentiu necessidade
de
conversar com alguém que não fosse Xena. Logo pensou
em Lila e decidiu passar uns
dias em casa. Como não gostava de
ficar longe de Xena pediu que ela a acompanhasse.
Embora Xena não
ficasse muito à vontade na frente dos pais de Gabrielle, que
indiretamente atribuíam a ela o fato da filha ter saído de
casa, decidiu
acompanha-la.
Desde que haviam chegado, há
três dias, Gabrielle ainda não havia conseguido
conversar
com Lila, não por falta de oportunidades, pois costumava realizar
longos
passeios pelo bosque com sua irmã, mas sim por falta de
coragem, ou por falta de
saber por onde começar. O certo é
que não conseguia mais guardar para si o que
vinha sentindo.
Sentia-se incomodada com seus sentimentos em relação a Xena,
não
sabendo bem como defini-los. O que antes era amizade fraterna
vinha se
transformando numa crescente atração física,
que Gabrielle não conseguia
compreender direito. Às vezes
surpreendia Xena fitando-a detalhadamente, como se
pudesse ver através
dela, percebendo o que lhe passava no coração. Perturbava-se
com isso, pois vinha percebendo em Xena detalhes que até então
lhe passavam
despercebidos. O porte da Princesa Guerreira sempre havia
lhe chamado a atenção,
porém passou a perceber
as curvas de sua armadura, a envergadura de suas costas
quando caçava
ou nadava no lago, a silhueta de seu corpo quando saía nua das águas
das cachoeiras. Os braços de Xena sempre lhe transmitiram segurança
e aconchego,
suas mãos tinham um toque forte, porém macio
e carinhoso. Já perdera a conta das
vezes em que cavalgara com
Xena, porém nos últimos tempos o calor de seu corpo,
quando
lhe abraçava montada em Argo, parecia queima-la e a inundava de sensações
que a deixavam trêmula e excitada. “Devo estar enlouquecendo”, pensava.
Já ouvira
sobre histórias de relacionamentos atípicos,
contados a meia voz, advindos em sua
maioria nos murmúrios das
tavernas, porém nunca conseguiu entender bem aqueles
assuntos.
Agora as coisas começavam a se descortinar para ela, e Gabrielle
estava
assustada. Precisava, urgentemente, conversar com Lila. Mas como
conseguir contar
para sua irmã que em sua noite de núpcias,
com Perdicus, era o rosto de Xena que
lhe vinha na mente? Era o olhar
vazio da amiga lhe desejando felicidades que deixou
seu peito mais amargurado
na véspera daquele fatídico dia. Depois a morte de
Pérdicus
e o sentimento de culpa que passou a assola-la, como se o destino houvesse
entendido seu desespero quando se deu conta de que estava definitivamente
sem Xena.
Acabou entendendo que o destino é escrito pelos deuses
e devemos aceitar seus
desígnios. Mas, e seu sentimento por Xena?
Teria sido escrito pelos deuses? Estaria
indo contra tudo que tinha
como aceitável? Como poderia contar para Xena? O que
Xena pensaria
dela? Provavelmente a acharia inconveniente. Ou não? Realmente estava
confusa, muito confusa. Sua única certeza era que jamais poderia
viver sem sua
princesa guerreira, precisava dela como quem precisa de
ar, de pão e de água. Xena
era, sem sombra de dúvidas,
todo o seu mundo.
Gabrielle acabou de arrumar a mesa do jantar
quando sua mãe lhe informa que a
refeição estava
pronta. O pernil assado servido com batatas e legumes da horta de
Lila
estava apetitoso. Gabrielle vai até a porta e grita para Xena:
- XENA... O JANTAR ESTÁ NA MESA...
- Tô indo.
Xena
jantou em silêncio. Gabrielle também. Esta última só
respondia com
monossílabos quando questionada.
- Você
está bem, Gabrielle? Está sentindo alguma coisa? Indisposição?
– indaga a
mãe de Gabrielle.
- Não, mãe, não
é nada. Acho que tomei muito sol.
- Quando eu falo para colocar
um chapéu...sou chamada de chata.
- Pois é, mamãe,
amanhã coloco o chapéu – e calou-se até o final do
jantar.
Xena ajudava atirar a mesa e a lavar a louça quando Gabrielle
lhe estendeu um
prato. As mãos de Xena seguraram as de Gabrielle
acidentalmente, por baixo do
prato, e ambas se olharam nos olhos, caladas,
por alguns segundos que pareceram
horas. As duas tiraram as mãos
ao mesmo tempo e o prato de cerâmica se estilhaçou
no chão.
As duas se abaixam para juntar os cacos.
- Nossa...desculpe – disse
Xena.
- Não foi culpa sua, eu é que sou desastrada.
- Você está trêmula Gabrielle...
- É... foi
o susto...isso, o susto, não gosto de quebrar nada aqui em casa,
papai
sempre implicou com coisas quebradas.
- Fique calma, eu já
disse que fui eu que quebrei...
- E eu não sou mais criança,
não me importo mais com isso. – disse Gabrielle
franzindo o nariz
e sorrindo docemente.
Xena quase ia à loucura quando Gabrielle
franzia o nariz. Tinha vontade de
abraça-la forte e beijar a
ponta de seu nariz... talvez mais. As duas terminam de
arrumar a cozinha
e se recolhem. Nenhuma delas consegue dormir direito. Cada qual
perdida
em devaneios e sonhos, que até então pensavam ser impossíveis
de se
concretizar, ou talvez não?
Não muito longe
dali Ares vai até o acampamento do general Kirylus, um warlord que
já comandou o exército de Ares, mas que havia se indisposto
com o deus da Guerra
após haver sido usado por ele para tentar
atrair Xena (1). Quando Kirylus se deu
conta de que havia sido usado
revoltou-se contra Ares e formou seu próprio exército
de saqueadores e assassinos, continuando com sua trajetória de massacres
e
conquistas pela força. Ares aparece para Kirylus:
- Kirylus,
velho amigo, como tem passado?
- O que você quer aqui, traidor?
- Ora, ora...isso é jeito de tratar um deus? Ainda mais o deus da
guerra?
- E como você queria que eu o recepcionasse após
ser tratado como um objeto
descartável? Com festas e consideração???
- Não seja tão rancoroso...o esquecimento é uma virtude.
- Não seja irônico Ares! O que você quer de mim? Ou melhor,
para que você precisa
de mim agora???
- Eu vim para tratar
de negócios...
- Sei...só que não confio mais em
você.
- Kirylus, estive refletindo e cheguei à conclusão
que me deixei levar pelos
encantos de Xena, e você concorda comigo
que ela é uma bela mulher, não é mesmo?
- É.
– concorda o warlord.
- Mas ela realmente não me serviria para
comandar meu exército...não tem requisitos
suficientes.
Só me serviria para outros prazeres, se é que me entende...
– diz Ares
sorrindo maliciosamente.
Kirylus também sorri
e concorda:
- Entendo...
- O problema é que ela não
quis servir aos meus desejos, se considera
superior...superior até
a mim, o deus da guerra.
- E o que é que eu tenho com isso, Ares?
- Quero que você retome o comando do meu exército!
- E
em troca de que?
- De um pequeno favorzinho... Quero dar uma liçãozinha
em Xena, afinal ninguém
despreza o deus da guerra.
- E onde
eu entro nessa história? – questiona Kirylus.
- Quero que você
rapte uma moça...amiguinha de Xena...e consuma com ela. Se o fizer
meu exército é seu.
- E que garantias eu terei? Afinal,
você já me traiu uma vez Ares.
- Meu amigo Kirylus, traição
é uma palavra muito forte... – diz Ares – Você tem a
minha
palavra, a palavra do deus da guerra.
- Pois muito bem. Quem é
a moça?
- Gabrielle, de Potedia.
- Seu exército já
está sob meu comando, Ares! – Kirylus gargalha.
- Assim espero
– diz Ares e some no ar.
O dia amanheceu lindo. Gabrielle acordou
cedo e foi até o quarto de Xena que já
havia arrumado
sua cama, tomado café da manhã e saído para caminhar.
Lila já havia
ordenado as vacas e na cozinha pairava um cheirinho
de pão fresco e leite fervido.
Apesar de haver dormido pouco
Gabrielle estava com fome. Tomou seu café da manhã e
convidou
Lila para fazer um passeio pela floresta. O pai de Gabrielle já havia
saído para o trabalho na lavoura e a mãe estava ocupada com
os afazeres domésticos.
Gabrielle e Lila saíram para caminhar.
Não muito longe de casa Gabrielle
recostou-se a um tronco de
árvore e pôs-se a observar sua aldeia. Sua casa era uma
construção simples, porém ampla e disposta de lado
para o nascer do sol. A
claridade matinal invadia os quartos e parte
da sala e da cozinha. Na frente havia
uma área coberta onde pendiam
folhagens cujos ramos iam do teto ao chão. Os jardins
na frente
da casa ostentavam flores multicoloridas, muitas margaridas e rosas. Nos
fundos da propriedade ficava o pomar, onde Gabrielle passou a maior parte
de sua
infância, trepada em árvores, lendo poemas e escrevendo
histórias em pergaminhos.
Gostava de modo especial de uma cerejeira
cuja copa ficava totalmente coberta de
frutos na primavera. Inúmeras
vezes havia se escondido entre suas folhas,
espreitando anonimamente
tudo que se passava ao seu redor. Adorava observar os
pássaros
e os pequenos animais da floresta. Sua árvore preferida, no entanto,
era
uma flamboyan que ficava igualzinha a um buquê vermelho gigante
quando florescia.
Boas e belas lembranças tinha de sua infância.
Era bom estar em casa. A voz de Lila
trouxe Gabrielle de volta à
realidade:
- Você parece estar em outro mundo, Gabrielle.
- Não é nada não, só estava lembrando da nossa
infância e em como fomos felizes...é
bom estar em casa.
- Mas não é de agora que eu estou falando. Desde que você
chegou está diferente,
pensativa, parece preocupada. O que é
que está havendo?
Gabrielle respira fundo, baixa os olhos, fica
algum tempo em silêncio e fala:
- Sabe o que é Lila...eu
preciso mesmo conversar com alguém...senão vou
enlouquecer.
Se é que já não estou louca...
Lila abraça
afetuosamente a irmã e lhe beija a face. Gabrielle continua:
- É Xena...
- O que foi que ela te fez??? – indaga Lila.
- Nada... não é ela. Quer dizer...é ela. Ou melhor,
sou eu. Nem sei.
- Gabrielle, eu não estou entendo.
- Olha,
é assim... desde que eu vi Xena pela primeira vez e decidi partir
com ela
sempre senti uma afeição profunda, um sentimento
fraterno e de completude. A
princípio eu queria ser como ela,
depois percebi que eu deveria ser eu mesma, mas
seguir com ela para
levarmos às pessoas mais necessitadas o auxílio que precisavam.
Até a bem pouco tempo estava tudo bem. Só que agora eu estou
tendo uns pensamentos
estranhos, diferentes, que não me deixam
em paz nunca...
- Que tipo de pensamentos, Gabrielle?
- Eu tenho
visto Xena com outros olhos...
- Como assim???
- Ai Lila, é
difícil para eu falar sobre isso com você... ou com qualquer
pessoa.
- Mas, Gabrielle, eu sou sua irmã e você pode confiar
em mim.
- Eu sei. Bom, o que eu tenho sentido por Xena é... atração.
Atração física,
desejo, entende?
Lila emudeceu,
Gabrielle também.
- Você está chocada, não
é mesmo Lila? Será que eu estou doente?
- Você já
disse isso para Xena?
- Claro que não!!! Acho que ela vai ficar
com nojo de mim.
Após uma pausa Lila responde:
- As vezes
a gente se surpreende, Gabrielle...
- Como assim???...
- Não
é só você que está diferente. Xena também
está. Na verdade acho que vocês
nasceram uma para a outra.
- Lila!!!
- É verdade, Gabrielle. Você me contou o que
sente, eu tenho o direito de falar o
que acho.
- Mas Lila, isso
não é normal...
- E o que é normal, Gabrielle?
Se condenarmos os que amam o que faremos com os que
odeiam?
- Pois
é. Mas eu tenho medo, medo pela intensidade desse sentimento.
- Você sempre foi corajosa, irmã. Encare-o de frente e, por
favor, não se
envergonhe de ser o que é. Você é
uma pessoa maravilhosa Gabrielle, e seja qual for
a pessoa que você
escolheu para amar isso não mudará seu caráter e sua
essência.
Os olhos de Gabrielle se enchem de lágrimas:
- Eu te amo, Lila...
- Eu também te amo, Gabrielle.
Elas
se abraçam por muito tempo, até que Lila diz:
- Você
deve conversar com Xena. Fale para ela sobre seus sentimentos, sem medo.
Ou
muito me engano ou você se surpreenderá com ela...
- Como assim?...
- Ora, Gabrielle, Xena é louca por você.
- Mas ela me ama como uma irmã...
- Você também
a amava assim, até a bem pouco tempo.
- É verdade... você
acha que eu realmente devo?
- Claro, minha irmã. Você só
terá paz se conversar com Xena e colocar o que sente,
independente
da reação dela. Você precisa dessa sinceridade consigo
mesma.
Acredite.
- Acho que você tem razão. Vou falar
com ela sim...
- Ótimo. Gabrielle. Já é quase hora
do almoço, vamos voltar para casa.
- Vai indo na frente. Vou
ficar aqui mais um pouco, pensar, criar coragem e colher
algumas flores.
Eu já te alcanço.
Lila beija Gabrielle e retorna para
casa.
Perto dali Xena também se encontra mergulhada em pensamentos.
Acordou muito cedo,
antes mesmo do nascer do sol e quando os primeiros
sinais de claridade começaram a
despontar no horizonte saiu para
caminhar. Havia sonhado com Gabrielle novamente.
Foi um sonho povoado
de fantasmas do passado que estavam querendo levar Gabrielle
para longe,
e cada vez que conseguia segurar sua mão e arrasta-la para perto
de si
nova força invisível a jogava para longe. Pouco
antes de acordar havia conseguido
tirar Gabrielle, carregando-a nos
braços, de dentro do Labirinto do Minotauro pouco
antes de ser
devorada por ele e para sua surpresa Gabrielle começou a beijar-lhe
o
pescoço e a nuca deixando-a sem ar. Quando ia beijar-lhe a
boca sedenta acordou de
sobressalto, banhada em suor e trêmula
dos pés à cabeça. Precisava de ar... e de um
banho
frio. Foi neste intento que saiu para caminhar na floresta até a
cachoeira de
águas cristalinas que ficava no sopé da colina,
nos fundos da aldeia de Gabrielle.
Antes de sair passou na cozinha e
colocou um pedaço de bolo de nozes em uma sacola
de viagem, assim
como pão e algumas frutas, pois só pensava em retornar no
final da
manhã. No caminho comeu algumas amoras silvestres, iguais
as que floresciam nas
estradas de Amphipolis quando era criança.
Ao chegar na cachoeira Xena parou para contemplar aquele espetáculo
da natureza. A
cachoeira não era das maiores, mas por certo era
uma das mais belas que já tinha
visto. Jorrava por entre pedras
de cerca de vinte metros de altura formando uma
lagoa em forma de ferradura
que ficava de frente para o nascer do sol, ladeada num
dos lados por
uma vasta planície verdejante, onde pastava um pequeno rebanho de
ovelhas e, por outro, pedras de cor avermelhada contrastando com o verde
da
vegetação que cobria as rochas. Neste lado a vegetação
se fechava em tons de verde
escuro e oliva, emoldurada por trepadeiras
de cores variadas, indo do vermelho
intenso até o branco. Pequenas
flores rasteiras de tonalidades amareladas e lilases
cobriam grande
parte do chão no lado leste da cascata. De costas para a claridade
matutina Xena observava aquela cena e pensava em Gabrielle. O sol refletia-se
na
queda d’água formando prismas multicoloridos, arco-íris
em miniatura dentro do
lago. Reflexos dourados pareciam projetar-se
de dentro das gotículas d’água fazendo
Xena lembrar-se
dos cabelos de gabrielle. Nestes devaneios despiu-se e jogou-se na
água
fria da cachoeira, mergulhando por entre as rochas do fundo e emergindo
quase
que do outro lado. O contato da água gelada em sua pele
abrandava o fogo que lhe
queimava por dentro. Xena sempre gostou do
elemento água, nunca perdia uma
oportunidade de um bom mergulho,
mesmo no inverno. Nadou por cerca de duas horas e
quando saiu da água
o sol já estava bem mais alto. Caminhou até uma grande pedra
cuja base ficava dentro d’água e deitou-se de costas, braços
abertos como que
sorvendo a energia do astro rei. Os raios solares acariciavam
a nudez do corpo da
princesa guerreira e douravam ainda mais sua pele
morena. Seus cabelos negros
molhados brilhavam como se escondessem diamantes
por sob as madeixas. Xena era de
fato uma linda mulher.
Durante
longo tempo ficou pensativa, fazendo uma retrospectiva de tudo que havia
vivido até então. Precisava ordenar sua mente e seus sentimentos.
Não poderia
continuar assim, precisava tomar uma atitude ou acabaria
enlouquecendo de vez. O
simples toque de mãos da rainha amazona
a desconcertava. Não conseguia mais
cavalgar com Gabrielle, sentir
o calor de seu corpo sem perder o controle de seus
reflexos. Sentia-se
como uma adolescente diante do primeiro amor. De fato, nunca
havia sentido
nada semelhante por ninguém, nem por Boris, pai de seu filho.
Gabrielle lhe despertava o desejo e a ternura, o fogo que a consumia e a
calmaria
após a tempestade. As curvas do corpo de Gabrielle a
deixavam sem ar, boca seca e
dificuldades de centrar os pensamentos.
Quando Gabrielle caminhava à sua frente,
com sua saia curta e
top que deixava à mostra sua cintura escultural, com passadas
cadenciadas e sensuais... pobre Xena, era como se o mundo em volta deixasse
de
existir. Realmente, precisava tomar uma atitude.
Quando o sol
indicava quase meio dia Xena vestiu suas roupas e dirigiu-se de volta
à aldeia. Começava a sentir fome, o lanche que havia levado
para o café da manhã a
muito já se havia acabado.
Xena caminhava com passadas fortes. Estava decidida: o
dia não
terminaria sem que conversasse com Gabrielle sobre seus sentimentos. Sentia
um misto de ansiedade e expectativa, precisava abrir seu coração,
e o faria ainda
hoje.
Ao chegar em casa Xena percebeu a ausência
de Gabrielle. Lila, que observava a
impaciência de Xena, disse:
- Gabrielle ficou na floresta, colhendo flores, mas já vem vindo
para o almoço.
- Ah...tá bom. – responde Xena.
As
duas colocam a mesa e começam a estranhar a demora de Gabrielle.
Xena resolve ir
atrás dela.
- Estávamos na floresta,
perto do grande carvalho. Gabrielle deve ter perdido a
hora, tinha muito
no que pensar... e decisões para tomar... – disse Lila fitando
Xena nos olhos, que corou, baixou a cabeça e disse:
- Eu vou
procura-la.
Perto dali, aos pés do grande carvalho, Xena
não avista Gabrielle e chama por ela:
-GABRIELLE... ONDE VOCÊ
ESTÁ???... O ALMOÇO ESTÁ PRONTO.
Silêncio.
Nenhuma resposta de Gabrielle. Xena tenta de novo:
- Gabrielle... não
tem graça nenhuma... apareça!!!
Nenhuma resposta e Xena
começa a se preocupar. À sua esquerda conseguia avistar o
vale e nem sinal de Gabrielle. Adentrou mais na floresta, sempre chamando
por ela.
Perto de uma clareira Xena observa marcas de pegadas recentes
no solo, sinais de
alguém sendo conduzido contra a vontade. Cerca
de seis homens arrastando uma só
pessoa. Xena se desespera e
lhe vem à memória a ameaça de Ares, sente um arrepio
e
segue as pegadas. Logo adiante encontra no meio da vegetação
um punhal e o
reconhece como sendo arma utilizada pelo bando de Kirylus,
seu antigo conhecido.
Xena corre até a casa e avisa Lila do ocorrido,
sem que os pais de Gabrielle fiquem
sabendo. Pega sua espada, seu chacran
e diz a Lila:
- Lila, não se preocupe, eu a trago de volta sã
e salva... eu juro.
- Eu vou com você.
- Não, fique
aqui e mantenha os olhos bem abertos. Logo estaremos de volta.
- Que
os deuses a acompanhem... – diz Lila chorando e abraçando Xena.
Xena parte em direção ao acampamento de Kirylus, rápida
como um raio e com a fúria
de uma tempestade tropical. Estava
disposta a morrer se fosse preciso para salvar
Gabrielle, a sua Gabrielle.
Tinha certeza que Kirylus agia como uma marionete de
Ares e que Gabrielle
corria sério risco em poder de seu bando de assassinos e
saqueadores,
entre outros adjetivos.
No acampamento de Kirylus um dos homens
penetra em sua tenda:
- General, sua encomenda está lá
fora.
- O que é isso em seu rosto? Marcas de unhas?
- A moça
estava resistente em nos acompanhar... tivemos que persuadi-la.
Kirylus
solta uma gargalhada:
- Tragam a onça até aqui.
Gabrielle
é arrastada até a tenda de Kirylus. Está com as mãos
amarradas às costas,
assim como as pernas, e uma mordaça
lhe cerra os lábios.
- Ora, ora... o que temos aqui... uma fera
indomada.
- Ummmmm...Uuummmm...
- A gatinha quer falar??? Quer?
– diz Kirylus chegando bem perto de Gabrielle e
retirando sua mordaça.
- Seu porco, desgraçado, me solta!!! O que é que você
quer comigo? Quando Xena
souber ela te mata!!!
- Calminha, calminha...
sua amiguinha não vai te encontrar mais belezóca... ainda
hoje você embarca no navio de Menticlus, um mercador de escravas,
e vai para o
outro lado do mundo... com outro nome, como sendo proveniente
dos países
nórdicos... Nunca mais Xena te localizará...
– diz Kirylus e se aproxima fazendo
menção de beijar os
lábios de Gabrielle.
Ela lhe cospe no rosto e Kirylus, furioso,
lhe desfere um tapa cortando-lhe o canto
esquerdo da boca.
- Eu
te odeio, desgraçado... espere e verá... você não
conhece Xena!
- Levem-na daqui!!! Dentro de poucas horas será
embarcada e eu serei o líder do
exército do deus da Guerra!!!
Há, há, há, há...
Ares, invisível,
o observa pensativo.
Xena se aproxima do acampamento de Kirylus
e é atacada por seus homens. Saca sua
espada e derruba mais de
quinze homens, com uma fúria jamais sentida por ela, nem
mesmo
em seu tempo de conquistadora de nações, parte em direção
à tenda do general.
Entra num rompante de raiva:
- ONDE ESTÁ
GABRIELLE !!!
- Eu não sei do que você está falando,
Xena.
- Kirylus, não se faça de desentendido – diz Xena
colocando sua espada no pescoço
de Kirylus – não me faça
usar a força. Me entregue Gabrielle e eu vou embora.
- E o que
eu ganharia com isso???
- Sua vida – diz Xena pressionando sua espada
contra a garganta do inimigo.
Kirylus calmamente afasta a espada de
Xena e diz:
- Você não está em situação
de negociar, Xena. EU tenho o que você quer. E Ares me
fez uma
ótima oferta...
- O seu exército...
- Isso mesmo,
em troca de sua amiguinha... É amargo o sabor da derrota, não
é Xena?
É insuportável o gosto da perda... VOCÊ
já tomou o meu lugar, lembra???
- Isso foi passado Kirylus, nós
já lutamos no mesmo lado. Hoje eu só luto pelo que
considero
justo. E o comando do exército de Ares não me interessa, e
você sabe
disso.
- Mas Ares não te quer comandando
o exército, Xena. Ele não te quer no campo de
batalha...
ele te quer na sua cama!
Xena parte novamente para cima de Kirylus que
também saca a sua espada e eles
começam a lutar.
Ao
ouvir o barulho de espadas Gabrielle, presa em outra tenda, reconhece o
grito de
guerra de Xena e chama por ela:
- XENA!!!
Ao ouvi-la
Xena desfere um golpe certeiro em Kirylus que cai mortalmente ferido.
Xena corre até onde Gabrielle está e chega no momento em que
Ares se aproxima dela
e a segura pelos braços, ainda amarrados,
olha para Xena e diz:
- Você perdeu, Xena... Vulcanus espera sua
amiguinha... – e desaparece no ar
levando Gabrielle consigo.
Xena sabe que Vulcanus é o guardião da cratera do vulcão
do monte Ixion. Sabe
também que não conseguirá
chegar a tempo de salvar Gabrielle se cavalgar em Argo
até lá.
Desespera-se e tenta racionar e elaborar um plano para chegar a tempo.
Rapidamente se dirige ao templo de Afrodite, a deusa do amor, situado na
estrada da
aldeia vizinha a Potedia. Lá chama por Afrodite que
aparece cercada por belos
exemplares do sexo masculino, como sempre.
- Xena... que bom revê-la. Mas que ar preocupado?
- Afrodite,
eu preciso da sua ajuda, por favor...
- Calma, criança... o que
houve?
- É Gabrielle. Ares a levou para a caverna do monte Ixion.
- Ah, Xena, nesses assuntos de família eu não posso me meter,
afinal Ares é meu irmão.
- E Gabrielle é sua amiga!
Ares vai mata-la!
- Não... ele não faria isso.
- Faria
sim. Ele faria qualquer coisa para alcançar seus objetivos. E ele
quer a
mim!!! Afrodite, eu sei que você gosta de Gabrielle...por
favor, não deixe que nada
de mal lhe aconteça...
Afrodite
sorri maliciosamente para Xena:
- Acho que estou começando a
entender essa história... Você, ein??? Tem bom gosto.
Gabrielle
é realmente tudo de bom...
- E eu não posso perde-la sem
que ela saiba disso, Afrodite...
- Entendo, entendo...
- Afrodite...
o tempo urge.
- Tá bom, tá bom... o que eu não
faço em nome do amor...mas que Ares nem desconfie
que eu estou
metida nisso, combinado?
- Combinado.
Afrodite levanta sua mão
e materializa Xena no sopé da montanha do monte Ixion.
- Obrigado.
– diz Xena e penetra na montanha através de uma caverna nas rochas.
Xena segue cuidadosa, atenta a qualquer investida surpresa de Ares. Este,
no
entanto, nem imagina a proximidade de Xena e se encontra ao lado
da cratera do
vulcão, dirigindo-se à Gabrielle amarrada
e colocada de pé numa pedra cuja
extremidade está voltada
para dentro da caldeira de fogo do vulcão:
- E agora, Gabrielle???
Onde está sua amada Xena? Mesmo que ela consiga chegar até
aqui será tarde... você já vai ter virado carvãozinho...HÁ,
HÁ, HÁ...
- Eu, se fosse você, não teria
tanta certeza, Ares – diz Xena atrás dele.
Os olhos de Gabrielle
encontram os de Xena, num pedido silencioso de socorro. Seu
rosto estava
vermelho pela proximidade do calor do fogo. Seu corpo todo transpirava
de calor e de pânico frente à morte iminente.
- Xena!!!
Como conseguiu chegar tão rápido???
- Não te interessa,
Ares. É a mim que você quer... solte Gabrielle.
- Na-na-ni-na-não...
eu não caio mais nessa. Enquanto essa loirinha estiver
respirando
você não terá olhos para mais ninguém, nem para
o deus da Guerra.
- Deixa de ser idiota, Ares. Se matar Gabrielle eu
te infernizo por toda a
eternidade!!! E você bem sabe do que eu
sou capaz, não sabe?
- Eu não aceito ameaças Xena!!!
– diz Ares partindo para cima de Xena.
Ela saca sua espada e começam
a lutar enquanto Gabrielle assiste a tudo
completamente imóvel,
pelas amarras e pelo medo. Xena é bastante ágil e consegue
se
esquivar dos golpes do deus da guerra. Quando Ares se encontra num
canto da caverna
Xena arremessa seu chacran contra as pedras suspensas
acima da cabeça do
adversário. Estas despencam e soterram
Ares, porém por pouco tempo. Ainda tonto ele
se levanta, olha
para Xena e lança um raio contra a base da pedra que sustentava o
corpo de Gabrielle. A pedra se desprende e Gabrielle cai na direção
da fornalha do
vulcão. Com a velocidade de um raio e a agilidade
de um felino, Xena corre,
flexiona as pernas e arqueia o corpo, realizando
um salto mortal e projetando-se na
direção da cratera.
Consegue segurar Gabrielle nos braços, caindo de pé no outro
lado das rochas. Ainda com Gabrielle nos braços se volta para Ares
e com a voz
embargada pela raiva diz:
- Eu te odeio, deus da guerra...
mesmo que você fosse a última pessoa na face da
terra eu
jamais seria sua. Você me causa asco e desprezo.
Ares se volta
para ela, recuperado da luta e responde:
- Quer saber do que mais???
Agora sou EU que não te quero mais... EU, o TODO
PODEROSO DEUS
DA GUERRA é quem não te quer. Nem para limpar o chão
onde eu piso...
E quer saber mais? Fique com a SUA Gabrielle, e faça
bom proveito... EU te daria o
que você quisesse, poder e glória.
Com essa aí você viverá sua vidinha medíocre
de
mortal e terá o fim de todos eles, embaixo da terra. Adeus
Xena, até nunca mais.
Ares desaparece no ar. Na caverna impera
o mais absoluto silêncio. Xena se ajoelha
e coloca Gabrielle no
chão, libertando-a das amarras:
- O que foi que fizeram contigo?
– pergunta Xena olhando para o ferimento na boca
de Gabrielle e acariciando
sua face. – te machucaram???
- Se você considera uma boa surra
como machucar...machucaram. Mas se estiver se
referindo a alguma coisa
mais íntima... não deu tempo. – responde Gabrielle
conseguindo
ter bom humor mesmo numa situação como aquela.
- Minha
querida... – diz Xena abraçando Gabrielle, que retribui o abraço
apertando
seu corpo contra o de Xena.
Com a proximidade do rosto
de Gabrielle, Xena lhe beija afetuosamente os cabelos, a
testa, a face
e lentamente o canto da boca. Gabrielle sente o calor dos lábios
de
Xena e vira sua boca na direção dela, capturando seus
lábios num beijo a princípio
suave e vagaroso. Os corações
de ambas disparam frente ao inusitado, mas os lábios
não
se separam, pelo contrário, o beijo se torna cada vez mais intenso.
A língua de
Xena explora o céu da boca de Gabrielle e
cada canto daquela boca macia é invadido
e sugado com paixão.
Gabrielle corresponde à volúpia da paixão dos lábios
de Xena e
aperta cada vez mais seu corpo ao encontro do dela, movendo
lábios e corpo em
movimentos sincronizados de entrega e êxtase.
Tanto Xena quanto Gabrielle não
saberiam precisar quanto tempo
ficaram abraçadas. Finalmente Xena consegue dizer:
- Eu te amo,
Gabrielle.
- Eu também te amo, Xena.
- Eu tinha receio que
você não me amasse do modo como eu a amo...
- E eu pensava
a mesma coisa – responde Gabrielle.
Beijam-se novamente. Xena ergue
Gabrielle em seus braços. Ela aninha a cabeça no
ombro
de Xena, enquanto a princesa guerreira lhe carrega para fora da caverna
do
monte Ixion. Do lado de fora Afrodite as aguardava:
- Muito bem...pelo
visto conseguiram se acertar...
- Afrodite! – diz Gabrielle – Eu bem
que devia ter desconfiado que tinha dedo seu
metido nessa operação
resgate... Xena é rápida, mas não é deusa.
Xena coloca Gabrielle no chão. Ela ajeita a saia e o top.
- Menininha...
Eu estava com saudades. E seus pergaminhos? Tem produzido muito? –
questiona
a deusa do amor.
- Mais ou menos... nos últimos tempos eu andei
meio...digamos, desorientada para
escrever. – responde Gabrielle.
- Mas pelo ar de felicidade da tua carinha parece que agora você encontrou
a
inspiração que precisava, ein?
- Afrodite...
- Mas é verdade, não é Xena? – pergunta Afrodite sorrindo
maliciosamente.
Xena sorri e concorda, dizendo:
- Muito obrigado,
do fundo do meu coração. Te devo essa pelo resto da minha
vida.
- Para mim você não deve nada... mas, faça
minha amiga feliz, ok?
- Com certeza – responde Xena, não cabendo
em si de felicidade.
Afrodite se despede com um tchauzinho e desaparece
no ar. Outra vez materializa
Xena, desta vez acompanhada de Gabrielle,
perto da cachoeira de Potedia.
- Vamos para casa, meu amor – diz Xena
beijando a boca de Gabrielle – perdemos o
almoço, mas ainda conseguiremos
chegar a tempo de jantar.
- Minha família deve estar preocupada
conosco.
- Pedi a Lila que não falasse nada a seus pais, pelo
menos até o final do dia.
Vamos logo, ela deve estar ansiosa.
A propósito, Gabrielle, acho bom você chupar um
limãozinho
antes de entrar em casa...
- Por que???
- Para tirar esse ar de
satisfação da cara... Lila vai pensar que é gozação,
afinal
ela sabe que você foi capturada por aquela corja...
- Xena...- retruca Gabrielle sorrindo.
Xena e Gabrielle entram
em casa quando os últimos raios de sol se escondiam atrás
das montanhas do leste. Lila corre até elas e abraça Gabrielle:
- Que os deuses sejam louvados!!! E você também Xena. Gabrielle,
você está com o
lábio cortado...
- Não
é nada sério... só um tapinha de um certo senhor da
guerra... – responde
Gabrielle.
- EX-senhor – completa Xena.
- Vamos, vamos, vamos jantar – convida Lila.
O pai de Gabrielle
senta-se à cabeceira da mesa e a família ao redor, Xena na
outra
extremidade. O jantar transcorre normalmente, sendo que a mãe
de Gabrielle comenta:
- Vocês não almoçaram em casa...
da próxima vez avisem, pois eu havia caprichado na
refeição.
- Desculpe, mamãe... é que nos distraímos na floresta,
não é Xena???
- Ah...sim...pois é.
Após
o jantar Xena senta-se no alpendre em frente à casa para conversar
com o pai
de Gabrielle. A mãe estava exausta da lida e recolheu-se
cedo. Enquanto arrumavam a
cozinha Gabrielle e Lila conversavam:
- Quer dizer que você falou com a Xena??? – bisbilhota Lila, falando
a meia voz e
cutucando Gabrielle no cotovelo.
- Porque você
está me fazendo essa pergunta ?
- Gabrielle, eu te conheço
desde que você nasceu! Teus olhos estão brilhando...
-
Você tinha razão, irmã. Me surpreendi com Xena. O sentimento
dela é igual ao meu,
graças aos deuses!
- Eu sabia.
- Se sabia porque não me falou logo?
- Tem coisas que é
a gente mesmo que deve descobrir, Gabrielle.
- É... tem razão.
O que importa é que eu estou me sentindo a mulher mais feliz do
mundo!
- Uma delas, não é? – responde Lila – A outra está
sentada lá fora com o papai.
Gabrielle e Lila sorriem. Terminam
de arrumar a louça do jantar e Lila se recolhe.
O pai também
vai para a cama. Gabrielle senta no alpendre, numa rede, ficando de
frente para a cadeira que Xena ocupava.
- Eu já te agradeci por
ter salvo minha vida novamente? – questiona Gabrielle.
- Você
não tem nada para agradecer. Na verdade eu salvei a minha vida, pois
você é
a minha vida, Gabrielle.
- Xena, eu te amo.
- Eu também, mais do que tudo.
Os olhos azuis de Xena refletiam
a luz da lua em quarto crescente e adquiriam uma
tonalidade escura,
quase anil. Gabrielle também possuía o luar refletido em suas
madeixas douradas que emolduravam sua face radiante de felicidade. Gabrielle
era
tímida e apresentava certa dificuldade de externar sentimentos
relacionados a
questões mais íntimas. No entanto, a simples
contemplação de Xena, sentada à sua
frente, povoava
seus pensamentos dos mais variados desejos e fantasias. Realmente
Xena
a atraía de forma que mal podia se controlar. O olhar da Princesa
Guerreira a
desnudava e Gabrielle sentia-se completamente excitada.
As duas ficam se olhando em silêncio até que Xena fala:
- Eu quero ficar com você num lugar mais sossegado, Gabrielle. A gente
tem tanto
para conversar... e para fazer...- diz Xena maliciosamente.
Gabrielle fica corada até a raiz do cabelo. Xena se diverte com a
situação.
Gabrielle questiona:
- Você está
se referindo a uma...uma... lua de mel?
- É, podemos chamar de
lua de mel... eu preciso de você Gabrielle – diz Xena
fitando-a
nos olhos.
O olhar de Xena deixa Gabrielle fora do ar. Ela vai até
Xena, aproxima-se e senta
em seu colo, de frente para ela, colocando
uma perna de cada lado, entrelaçando-as
por trás do corpo
de Xena. A guerreira sente o calor do corpo de Gabrielle, o fogo
ardendo
por debaixo de sua saia franzida. Xena começa a transpirar e coloca
as mãos
por baixo do top de Gabrielle, em suas costas, sentindo
a pele macia e quente.
Gabrielle geme com o toque e pressiona seu corpo
ao encontro do de Xena. Elas se
beijam apaixonadamente. Xena respira
fundo e afasta Gabrielle dizendo:
- Meu amor, seus pais podem acordar.
- Mas eles vão ficar sabendo. Não vou esconder minha felicidade
do mundo.
- Tudo bem, mas vamos dar um tempo para que se acostumem com
a idéia?
- Tudo bem, você tem razão.
- Eu quero
te levar para um lugar especial, meu amor...
- Para onde??? – quer saber
Gabrielle, repleta de curiosidade.
- Surpresa! Amanhã arrumamos
nossas coisas e partimos depois de amanhã, ok?
- Ok!!! Mas você
não vai me contar mesmo???...
- Não senhora, eu já
disse que é surpresa. – responde Xena beijando Gabrielle
novamente.
– Agora vamos dormir que o dia foi exaustivo.
- No seu quarto ou no
meu??? – brinca Gabrielle.
- Cada uma no seu respectivo quarto, Gabrielle.
Seus pais acordariam com o barulho
– responde Xena rindo maliciosamente.
Gabrielle fica corada novamente:
- Eu me referia a dormir mesmo, dona
Xena...
- Eu sei...
Naquela noite as duas dormiram o sono dos
justos, como há muito tempo não o faziam.
Desta vez os
sonhos eram claros como os dias ensolarados e a paixão fazia deles
bálsamos para compensar semanas de angústias e dúvidas.
Xena novamente acordou cedo e foi para a cachoeira. Outra vez precisava
de um banho
frio! Desta vez, no entanto, mergulhou nas águas
gélidas com imenso prazer, lavando
seu corpo e sua alma, como
que energizando-se para oferecer à sua amada Gabrielle o
melhor
de si. Xena refletia consigo mesmo enquanto executava compassadas braçadas
na água, deslizando com suavidade por entre a nuvem de gotículas
formadas pela
queda d’água. Pensava em quanto estava feliz. De
fato jamais havia sentido algo
parecido em sua vida, era como se pesadas
cortinas houvessem sido descerradas e uma
claridade que ofuscava a vista
houvesse inundado sua existência e dado um norte
para os seus
dias futuros. Emanava felicidade por todos os poros e era como se a
natureza à sua volta captasse a vibração de seu espírito,
toda a floresta lhe
sorria.
Gabrielle dormiu até mais tarde
e foi despertada pela luminosa claridade matutina
que penetrava nas
frestas da janela. Sentiu o cheiro saboroso de pães e bolos
feitos
por Lila para o café da manhã. Adentrou na cozinha mal conseguindo
disfarçar
a felicidade que estava sentindo.
- Onde está
Xena? – pergunta para Lila.
- Acordou cedo e foi para a cachoeira.
- Ela já tomou café?
- Acho que não, Gabrielle.
- Vou busca-la. Eu estou faminta!!! – Refere uma efusiva Gabrielle.
Antes de sair Gabrielle abraça a irmã e lhe diz:
- Lila,
Xena e eu vamos partir.
- Eu imaginava...vocês têm muito
que conversar...a sós. – responde Lila.
Gabrielle cora e diz:
- Sabe... Xena quer me levar para... para uma... uma...lua de mel.
-
Isso é bem a cara da Xena – refere Lila divertindo-se com o constrangimento
da irmã.
- Na verdade isso é...digamos...atípico.
Mas eu estou adorando! Só que a danada não
me contou aonde
iremos. Eu estou morrendo de curiosidade.
- E não é só
o lugar que a está deixando...curiosa, não é Gabrielle?
- Ai Lila, você sabe como me deixar embaraçada...vamos mudar
de assunto.
Lila se cala, rindo consigo mesma. Gabrielle sai correndo,
quase atropelando sua
mãe que chegava do quintal neste momento,
com uma cesta repleta de maças.
- Devagar, menina – diz a mãe.
- Desculpe, mamãe, eu te amo... – grita Gabrielle já bem longe.
- Eu não entendo essa menina. Até ontem estava prostrada e
desanimada...agora
parece uma serelepe saltitante...
- Deve ser
o ar do campo que lhe fez bem – diz Lila com ar maroto.
- É,
deve ser...
Gabrielle corre até a cachoeira e contempla
sua amada banhando-se nas águas
transparentes da lagoa. Examina
atentamente as curvas da musculatura de Xena em
cada braçada
que a impulsiona para frente. Neste momento a princesa se vira e nada
de volta, de costas, sendo que a visão de seu sexo e seus seios nus
deixam
Gabrielle sem ar. Inúmeras vezes já vira Xena despida,
mas agora era diferente.
Gabrielle respira fundo e grita:
- XENA...
Hora do café...
Xena ouve, acena de dentro d’água e nada
em direção à margem. Sai da água
calmamente
e caminha em direção às suas roupas com a majestade
de uma deusa, seu
corpo escultural deixava Gabrielle com palpitações.
E Xena sabia disso!!! Vestiu-se
sincronizadamente valorizando cada movimento,
e andou em direção à sua amada
tomando-a nos braços
firmemente, envolvendo-a pela cintura e beijando-a
carinhosamente nos
lábios. Precisou segurar Gabrielle, pois suas pernas
fraquejaram.
Xena sorriu dizendo:
- Bom dia, meu amor.
- Bom...muito bom...-
responde Gabrielle procurando novamente os lábios de sua amada.
- Vamos...ou o café vai esfriar... – cochicha Xena no ouvido de Gabrielle.
- Eu tô morrendo de fome!!!
Ao regressarem e sentarem-se
à mesa quase não se encaravam para que os olhos não
delatassem o que o coração teimava em gritar para o mundo.
Lila as observava e
sorria, radiante pela felicidade estampada no semblante
da irmã, e de Xena também.
Durante a manhã Gabrielle
e Xena trabalharam nos jardins da frente da casa e na
hora do almoço
Gabrielle comunicou aos pais que partiriam no dia seguinte.
- Mas já???
– questiona a mãe – vocês recém chegaram.
- Pois
é... – diz Gabrielle – mas é que lembramos do... do aniversário
de um amigo,
de Eólios, não é mesmo Xena?
-
Ah é...
- E ele ficaria inconsolável se não fôssemos
abraça-lo!
- Bom, se é assim... mas pelo menos não
demore tanto para nos visitar, filha.
Amamos você e sentimos saudades.
- Eu sei mãe, eu também amo vocês.
De fato eles
já estavam acostumados com as idas e vindas da filha e não
desconfiaram do real porquê de não ficarem mais algum tempo.
Xena e Gabrielle
prepararam suprimentos para a viagem e partiram na
manhã do dia seguinte, bem cedo,
logo após o nascer do
sol.
- Boa viagem, Gabrielle. Boa viagem, Xena. – Diz Lila e, chegando
bem perto de
Xena, cochicha ao seu ouvido – Cuide bem da minha irmã.
- Com toda a certeza – responde Xena – ela é o meu tesouro.
Montam
em Argo e partem.
- Que os deuses às acompanhem – diz Lila enquanto
acena.
Gabrielle segurava-se fortemente na garupa de sua amada.
Xena podia sentir o pulsar
dos batimentos do coração de
Gabrielle contra suas costas. Mais ainda, conseguia
sentir o calor emanado
do meio de suas pernas, que lhe roçava no cóccix enquanto
Argo cavalgava velozmente. Gabrielle tinha consciência do que conseguia
provocar em
Xena e isso a divertia um bocado, pois estava acostumada
com uma Xena senhora de
seus atos e com pleno controle sobre suas emoções.
Gabrielle passava a mão sobre a
armadura que protegia os seios
de xena, acariciando-a e descendo até suas coxas, em
movimentos
suaves e rítmicos. Xena suava e Gabrielle sentia seu suor de encontro
ao
peito. Beijava as costas de sua amada e lhe afagava os cabelos. Xena
quase não se
agüenta de tanta excitação e
ao passarem perto de um riacho, numa estrada deserta,
Xena desmonta
e puxa Gabrielle para si. Enlaça sua amada pela cintura e a levanta
do chão beijando-lhe ardentemente a boca, o pescoço e o peito.
Gabrielle geme de
prazer e retribui cada toque, cada carícia
mais ousada. Gabrielle leva suas mãos
até a nuca de Xena,
puxando-a e lambendo seu pescoço e orelha:
- Eu quero ser sua,
meu amor...
Xena enlouquece de tesão, coloca Gabrielle no chão
e se deita sobre ela, colocando
suas mãos por dentro de sua saia,
tocando seus quadris e apertando-a contra si.
Gabrielle abre suas pernas
oferecendo-se para a mulher que escolheu para ser sua,
querendo ser
possuída por inteiro. Num esforço sobre humano Xena respira
fundo e se
afasta um pouco, recuperando o fôlego e olhando amorosamente
para Gabrielle. Esta
estranha a atitude de Xena e questiona:
- O
que foi? O que foi que eu fiz? Você não me quer?
- Quero
Gabrielle... você é o que eu mais quero na vida. E você
sabe disso, sua
danada...
- Então o que houve, porque se
afastou? Eu quero ser sua Xena, toda sua.
- Eu também quero ser
sua, aliás eu já sou toda sua, meu amor.
- Mas então,
eu não entendo... – diz Gabrielle.
- Sabe o que é? Eu
quero que a nossa primeira vez seja especial, assim como você é
especial, diferente de tudo o que já vivemos até aqui. Minha
vontade é me entregar
aqui, agora, por completo, possuí-la
e ser possuída. Mas você, Gabrielle, merece o
melhor. Eu
a estou levando para um lugar muito especial, digno de vossa majestade,
minha rainha amazona. A minha mulher merece o paraíso aqui na terra,
nada menos que
isso! Tenha paciência... e me ajude a ter também,
Gabrielle...
- Tá bom... – sorri Gabrielle – você sempre
acaba fazendo as coisas do seu jeito
mesmo...
- Você não
vai se arrepender... eu prometo. – diz Xena beijando suavemente os
lábios
de sua poetiza.
- A propósito Xena, você poderia tirar
a sua mão de dentro da minha saia???
As duas caem numa gargalhada
e se abraçam. Ajeitam suas roupas, comem algumas maçãs
e parte do bolo de nozes feito por Lila, e seguem viagem.
Gabrielle
e Xena cavalgaram de Potedia até a cidade costeira de Vólos,
sendo que
levaram três dias para chegar, atravessando a região
da Calcídica, Macedônia e
Tessália, passando por
Scotus, Thessaloniki e Methone, sendo que pernoitaram, a
primeira noite,
em hospedaria nesta última cidade. Em Methone, ao desmontarem em
frente a uma taverna, o sol já se punha no horizonte e o céu
assumia uma cor azul
acinzentada, preparando-se para descortinar o brilho
das primeiras estrelas. O sol
ainda refletia, por detrás das
montanhas ao fundo, fachos de luz colorida que
davam tonalidades, que
iam do vermelho vivo ao rosa, laranja e lilases, para as
nuvens próximas
à linha do horizonte, formando um espetáculo digno de ser
apreciado. E foi o que Gabrielle e Xena fizeram. Sentaram-se lado a lado,
caladas,
contemplando aquele presente dos deuses e agradecendo pelas
bênçãos de estarem
juntas e felizes.
Xena conduziu
Gabrielle para dentro do estabelecimento de um velho conhecido seu,
Niklos. Ao vê-la Niklos abriu os braços sorridente e correu
em sua direção. Era uma
figura de fato engraçada.
Devia medir cerca de 1,50m, era possuidor de um abdômen
bastante
projetado para frente, suas mãos eram gordas, com dedos curtos, parecendo
pãezinhos de mel. Era bastante claro, seus cabelos pendiam até
os ombros, eram
ondulados, rebeldes e ruivos, escondendo uma calvície
no centro da cabeça com um
barrete de veludo verde musgo. Suas
faces eram rosadas, porém o que chamava a
atenção
naquele velhinho eram seus olhos de um azul cristalino, da cor do céu
em
dias de sol claro. Usava uma calça também de veludo
verde amarrada por um cinto de
couro acima da barriga, com uma camisa
branca impecavelmente enfiada para dentro do
cós das calças.
Suas botas de couro quase lhe batiam nos joelhos. Gabrielle
calculou
que Niklos deveria ter perto de oitenta anos, porém apesar da idade
conservava a jovialidade e a destreza em cada gesto. Saiu de trás
do balcão e
abraçou Xena, que o levantou do chão
com um abraço. Balançando os pés no ar Niklos
se
derrete:
- Minha menininha... cada vez que te vejo você parece
que cresceu mais um pouco...
- Ou será que é você
que está diminuindo com o peso dos anos??? – provoca Xena
sorrindo.
- Ora, ora, continua sempre respondona... – retruca sapecando um beijo estalado
na
face de Xena – mas afinal, o que faz por aqui? E quem é essa
sua amiga simpática?
- Gabrielle, este é um querido velho
amigo, Niklos.
- Muito prazer – diz Gabrielle.
- O prazer é
todo meu, amigos da minha menininha são meus amigos também.
Venham,
venham... sentem-se. Aposto que estão famintas!
-
Eu estou!!! – diz Gabrielle.
- E quando é que você não
está com fome, Gabrielle??? – sorri Xena provocante.
- Engraçadinha...
– Gabrielle franze o nariz sorrindo.
Elas se acomodam em uma mesa de
canto onde conseguem ter uma visão de todo o
estabelecimento.
No térreo são servidas as refeições e as bebidas.
No andar de cima
existem pequenos cômodos, bastante simples, porém
extremamente limpos e
confortáveis, servindo para hospedar viajantes
e mercadores. Enquanto Xena e
Gabrielle jantam são observadas
por Niklos, que sorri contente com o que vê: a
felicidade e o
amor estampados nos olhos de Xena quando contempla Gabrielle. Niklos
lembra perfeitamente de Xena criança, ocasião em que residia
em Amphipolis, bem
perto da casa de Selene, mãe de Xena. Talvez
por sentir falta do pai aquela
garotinha morena, de olhos azuis e longos
cabelos negros, inquieta, costumava
passar horas em sua oficina observando-o
enquanto realizava seus afazeres de
consertar objetos dos mais variados
tipos: panelas, castiçais, portões, cadeiras,
etc. Trabalhava
tanto com metais quanto com madeira ou cerâmica. Xena tinha
verdadeira
fascinação quando ele confeccionava brinquedos. Certa vez
esculpiu um
cavalinho de madeira a quem Xena batizou de Argo e foi seu
brinquedo inseparável
por vários anos. Xena sempre o fascinou
por sua perspicácia e caráter. Niklos
chegou a ouvir histórias
referentes à Xena conquistadora de nações, mas tinha
certeza de que aquela não era sua garotinha, porém aquela
mulher perdida de amor
que agora ocupava a mesa de canto de sua taverna,
essa sim era a sua Xena, com toda
a certeza. Era bom tê-la de
volta.
Ao terminarem o jantar e aproveitando que Gabrielle havia ido
ao toillete, Niklos
se aproxima e pergunta a meia voz no ouvido de Xena:
- Quarto para casal?
- Niklos, seu bruxo velho... – retruca Xena com
um sorrisinho no canto da boca –
DOIS quartos.
- Tudo bem... mas
é que eu te conheço...
Desta vez é Xena que puxa
o amigo para perto e lhe pergunta ao pé do ouvido:
- É
tão evidente???
- Claro como água. – responde Niklos.
- VOCÊ me conhece, por isso não vale.
Niklos gargalha.
- Conheço mesmo. Você está com o mesmo olhar do dia
em que eu te dei o Argo,
lembra? É o olhar de quem está
pleno de felicidade.
- É verdade, meu amigo. Hoje eu sou de fato
a mulher mais feliz do mundo.
- Então porque os quartos separados?
- É que eu quero levar a Gabrielle para um lugar bem especial...
- Hummm... eu até imagino aonde seja... vocês partirão
de Vólos?
- Realmente você deve ser um feiticeiro... –
diz Xena sorrindo e puxando Niklos
para junto de si, fazendo com que
sentasse em seu colo.
Nisto Gabrielle retorna à mesa e acha graça
da cena com a qual se depara. Niklos,
no colo de Xena, não consegue
encostar os pés no chão e balança as pernas enquanto
conversam. Gabrielle não resiste e questiona:
- Escuta... vocês
já pensaram em dançar no meio do salão???
O trio
cai na risada e Niklos responde:
- Sim... mas ia parecer que eu escalava
o Monte Olimpo. He,he,he,eh...
Xena coloca Niklos no chão e antes
de voltar para o balcão o velho cochicha no
ouvido de Xena:
- Se mudar de idéia o quartinho dos fundos está vago...é
bastante discreto e as
janelas são para o poente, não
se ouvem os barulhos de dentro...
Xena belisca o traseiro de Niklos
e lança-lhe um olhar de cumplicidade,
empurrando-o para longe
de sua mesa.
- O que foi que ele disse, Xena? – quis saber Gabrielle.
- Nada não, provocações de um velho amigo...
-
Sei... – diz Gabrielle com um movimento de sobrancelhas, desconfiada.
As duas terminam o jantar e sobem para os seus aposentos. Na porta do quarto
de
Gabrielle Xena espreita sorrateiramente a escada e aproveitando que
estava deserta
enlaça sua amada pela cintura e beija sua boca
com paixão. Ao ouvir passos na
escada se afasta e diz baixinho:
- Dorme bem meu amor. Eu te amo.
- Em também te amo, Xena.
Elas acordam cedo, fazem o desjejum, se despedem de Niklos e preparam-se
para
seguir viagem. Antes de montarem em Argo, Niklos estende um pacote
para Xena:
- É um presente de um velho amigo... fiz durante a
noite. Eu sei que você sempre
gostou dos meus trabalhos.
Xena
abre o pacote e se encanta com uma figura de cerca de vinte centímetros
de
altura esculpida em cedro, retratando a silhueta de dois corpos nus
entrelaçados,
dois corpos de mulher. Gabrielle enrubesce e Xena
diz:
- É lindo, Niklos. Você é de fato um artista.
Muito obrigado. Você é uma das poucas
pessoas que sempre
me aceitou como eu sou, desde pequena, quando era chamada de
esquisita...você
me fazia sentir amada...
- E você Xena, com toda a certeza, é
a filha que eu não tive... mas que considero
como tal.
Xena
e Niklos se abraçam e choram. Realmente Niklos foi sua figura paterna
de
referência, pois seu pai, Átrius, passava a maior parte
do tempo em batalhas e
desapareceu quando Xena tinha menos de sete anos.
Xena seca as lágrimas de Niklos e
este retruca:
- Vamos,
menina, que a ocasião é de festa... não é mesmo,
Gabrielle?
Gabrielle, também secando as lágrimas da face,
abraça Niklos e o beija na face
afetuosamente.
- Bem... pelo
que vejo, agora, eu tenho duas filhas! – diz Niklos já sorridente
–
façam uma boa viagem e passem aqui na volta para me contar
as novidades de...
Neste momento Xena dá uma pisada no pé
de Niklos que fecha a boca antes de referir
o local da lua de mel das
amantes. Gabrielle arregala os olhos e diz:
- Niklos... você sabe
de alguma coisa que eu não sei???
- Nada não... mas, confie
em Xena! – diz, piscando o olho para Gabrielle.
Esta sorri e abraça
o velhinho:
- Adorei ter conhecido você. Com certeza, ao retornarmos...não
sei de onde – diz
Gabrielle fazendo uma careta para Xena – passaremos
aqui sim, para contar as
novidades...
- Ótimo, vou ficar
esperando!!! – responde Niklos acenando para as duas – Ah, Xena,
já
ia me esquecendo... sua encomenda. – refere estendendo um pequeno frasco
de
ervas para a amiga.
- Muito obrigada, você nem imagina
o valor dessa encomenda... – responde Xena
sorrindo, enquanto Gabrielle
observava sem entender ao que se referiam.
Elas se despedem e partem
montadas em Argo, no de carne, pelos e ossos, pois o de
brinquedo ficou
no passado longínquo de Xena.
No dia seguinte, passaram
por Pidna e Dium e pernoitaram em Peneus, também em
quartos separados,
ainda que a muito custo. No terceiro dia de viagem passaram por
Larissa
e chegaram a Vólos no meio da tarde. Rumaram para o norte até
o porto de
Lynux, para navegarem pelas águas límpidas
do mar Egeu. No caminho Gabrielle
comenta:
- Xena, nós estamos
indo para a zona portuária, ou é impressão minha???
- Pois é, meu amor – diz Xena desmontando e tomando Gabrielle nos
braços – essa é a
parte desagradável da surpresa,
pois eu conheço a sua repulsa pela navegação...
- Xena!!! Eu quase viro do avesso de tanto vomitar e você sabe disso!!!
Xena abraça Gabrielle carinhosamente puxando sua face de encontro
a seu peito e
dizendo:
- Confie em mim. Você ficará
bem, aliás, nunca mais enjoará em barcos...
- Como assim?
Inventou um remédio milagroso doutora Xena???
- EU não...
mas meu amigo Niklos é um profundo conhecedor dos poderes medicinais
de
certas ervas dessa região.
- A encomenda!!! – diz Gabrielle
mais animada.
- Justamente! – responde Xena – eu não deixaria
minha rainha passar mal numa
ocasião tão... promissora.
- Xena, você não existe !!! – diz Gabrielle beijando Xena nos
lábios – Agora eu já
posso saber para onde nós
vamos? – questiona sedutoramente.
- Que golpe baixo Gabrielle... perguntando
desse jeito fica difícil fazer surpresa.
- Desculpinha... não
resisti...
- Vamos, quero embarcar ainda hoje.
- Para...???...
- Gabrielle...
Elas montam novamente e cavalgam até o porto
onde um barco estava prestes a partir,
onde marujos carregavam as últimas
provisões enquanto outra parte da tripulação
revisava
mastros e velas. Era uma bela embarcação, pensou Gabrielle,
com certeza
transportava mercadores mais abonados em busca de negócios
lucrativos em terras de
além mar, no império persa, talvez.
Xena se dirige ao capitão do barco:
- Isótys !!!
-
Xena !!! Que bons ventos a trazem!!!
Xena passa a mão pelo ombro
de Isótys e se afasta um pouco de Gabrielle, que fica
cuidando
de Argo. Gabrielle percebe Argo agitado com o barulho das ondas e o
balanço do barco.
- Ah...como eu te entendo Argo!!! O mar é
para os peixes e não para seres humanos.
Argo relincha.
-
Nem para cavalos... – emenda Gabrielle.
Xena continua sua conversa com
Isótys:
- Soube que você vai levar uma carga de pergaminhos
para uma certa amiga, é
verdade? – questiona Xena.
- Sim,
também algumas novas alunas, que já estão a bordo.
Não me diga que você
pretende...
- Não, não...
eu não nasci pra isso.
- Mas sua amiga leva jeito, tem cara de
barda.
- E é. Mas nossa ida é por outro motivo Isótys.
Vamos passar algumas semanas por
lá, aproveitar o solstício
de verão e descansar bastante.
- Soube que seus dias têm
sido bem agitados, senhora defensora dos fracos... –
brinca Isótys.
- Pois é... – sorri Xena – mas até os defensores dos fracos
merecem tirar férias...
- Com toda a certeza. E não poderia
ter escolhido lugar melhor. A propósito, vocês
já
têm onde ficar?
- Sim. Tenho uma amiga lá, dona de uma
bonita propriedade que com certeza nos
hospedará nesses dias.
- Então vamos embarcar!!! Partiremos dentro em breve.
Xena embarca
Argo no compartimento de baixo do barco. Ele custa a subir a rampa,
relutando e querendo ficar em terra firme. Xena cochicha em seu ouvido:
- Não me faça perder a paciência...
Argo relincha
e empaca no meio da rampa de acesso.
- Por favor, cavalinho querido,
ande... navegar não é tão ruim.
Argo permanece
rígido como uma estátua de mármore. Xena tenta novamente:
- Por favor, Argo, por mim... vai... – Xena dá um tempinho e diz
– vamos ficar ao
lado de um pomar de maças.
Argo levanta
as orelhas e marcha, mesmo que a contra gosto para dentro do barco.
- Cavalo interesseiro – resmunga Xena.
Gabrielle embarca com o
mesmo ânimo de Argo, porém, com toda a certeza, não
pensava
nas macieiras... O sol estava quase se pondo no horizonte, por
detrás das
montanhas. Já se avistavam alguns discretos
pontos brilhantes sobre o céu do mar
Egeu, eram as primeiras
estrelas que reluziam à medida que o astro rei mergulhava
rumo
ao ocidente. O matiz amarelo avermelhado sobre o continente contrastava
com a
penumbra cinzenta que emergia das águas calmas do mar,
era a noite que descortinava
sua beleza e seus encantos emoldurando
uma lua em quarto crescente que parecia sair
de dentro das águas.
Em pouco tempo a noite caiu com seu véu estrelado, cujos
pontos
de luz orientavam a rota a ser seguida pela embarcação que
havia zarpado e
deixado para trás a terra firme, da qual só
se avistava, naquele momento, a chama
forte que irradiava do farol do
porto.
Xena e Gabrielle estavam lado a lado na proa do barco, enquanto
o vento fazia seus
cabelos esvoaçarem como um mar revolto. Xena
havia tirado sua armadura e trajava um
corpete de couro, decotado, deixando
à mostra seu colo e a silhueta de seus seios
rijos. Havia colocado
uma saia azulada que lhe caia quase que até o tornozelo, mas
cujas aberturas laterais lhe deixavam descobertas as coxas a cada passo
que dava.
Estava de fato deslumbrante.
Gabrielle sempre gostou de
observar as estrelas e sua curiosidade estava aguçada,
tentando
adivinhar a rota do barco pelo posicionamento daqueles pontinhos luminosos
na abóbada celeste. Pouco antes de embarcarem Xena deu à Gabrielle
algumas folhas
secas para mascar, as quais havia ganhado de Niklos e,
segundo a própria Gabrielle,
”um santo remédio”, pois
desde que pisou no barco não sentiu desconforto algum.
Para garantir,
de tempos em tempos, mascava uma folhinha.
Aproveitando a escuridão
da noite e o fato de estarem sozinhas no convés do barco,
Xena
puxa Gabrielle de frente para junto de si, encostando-a contra a proa e
enlaçando-a pela cintura. Observava o brilho nos olhos de sua amada
e sentia o fogo
que seu corpo emanava a cada toque de suas mãos.
Os olhos de Gabrielle refletiam a
luminosidade das estrelas, o verde
assumia um tom dourado, o mais belo que Xena já
tinha visto.
Gabrielle, por sua vez, se encantava com o reflexo da lua nos olhos de
Xena, onde o azul irradiava a tonalidade prateada do satélite que
parecia
desenrolar um tapete sobre as águas do Egeu, como que
convidando aos mortais a
ingressarem nos jardins do Éden, nas
águas límpidas dos montes Elíseos. Xena era a
mulher
mais bela que Gabrielle já contemplara e seu olhar apaixonado a desnudava
por inteiro e permitia à Gabrielle penetrar nos seus mais profundos
devaneios. E
Xena se encantava com sua Gabrielle, cada gesto seu era
delicado, emanava frescor
de seu hálito e paixão em seu
olhar. Gabrielle puxa Xena para si e a beija nos
lábios, suavemente,
sua língua percorrendo os cantos da boca e as covinhas de seu
lábio inferior. O beijo se torna mais ardente e Xena invade a boca
de Gabrielle com
sua língua, em movimentos de volúpia,
quase que a deixando sem ar. Gabrielle se
esfrega em Xena e aperta seu
corpo contra o dela numa entrega de paixão e êxtase.
Xena
segura-se na amurada do barco, pois sente suas pernas tremerem de excitação.
Ajeita sua coxa no meio das pernas de Gabrielle que geme no ouvido de Xena:
- Eu te amo...
- Eu também te amo... – responde Xena – beijando
a boca de sua amada e segurando-a
pelos quadris, fazendo com que se
movimentasse ritmicamente, esfregando seu sexo em
sua coxa.
Gabrielle
tem a sensação de que seus batimentos cardíacos poderiam
ser ouvidos do
porão do navio, mas isso era o que menos lhe importava
naquele momento. Xena e
Gabrielle emanavam tesão por todos os
poros. Gabrielle coloca suas mãos nos quadris
de Xena e seus
lábios vão descendo rumo aos seios de sua princesa guerreira.
Encontravam-se tão absortas que nem percebem a aproximação
de Isótys:
- Hã, hããmm... – dá uma
tossidinha – atrapalho?
- Ahã... não, de modo algum...
– responde Xena tentando se recompor.
Gabrielle, corada até a
raiz dos cabelos, bendiz a noite por esconder, na
escuridão,
seu desconcerto.
- Está uma bela noite, não é meninas?
- Com certeza... – responde Xena – uma bela noite...
- Eu gosto de observar
o mapa celeste, para ver se teremos uma viagem tranqüila,
sem tormentas
– comenta Isótys.
- E teremos tormentas??? – pergunta Gabrielle
assustada.
Isótys ri e refere:
- Não... o céu
está dizendo que teremos uma ótima viagem.
- A propósito...
– pergunta Gabrielle – para onde estamos indo mesmo, Isótys???
Xena fuzila o capitão com um olhar e este entende a mensagem:
- Olha... um passarinho me assoprou que certa mocinha deverá esperar
uma
surpresa... não é mesmo?
- Passarinho dedo duro
– resmunga Gabrielle olhando para Xena que sorri e dá de
ombros.
- Não tenho nada com isso. – diz Xena provocante.
- Sei... aposto
que tomou umas aulas de... gorjeio... – retruca Gabrielle.
- Entre outras...
– responde Xena fitando-a nos olhos maliciosamente, deixando
Gabrielle
totalmente desconcertada frente a Isótys.
- Acho que vou me recolher...
está frio aqui em cima. – diz Gabrielle.
- Pela cor de suas faces
não parece estar com frio – provoca Isótys.
- MAS ESTOU!!!
– responde Gabrielle furiosa, virando-se e descendo as escadas rumo
aos compartimentos de dormir.
- Que fera você foi arrumar ein,
amiga? – diz Isótys sorrindo para Xena, que se
divertia com a
situação.
- Pois é... mas você podia tê-la
poupado do comentário das faces...
- Desculpe, Xena, não
resisti, você me conhece...não fiz por mal.
- Eu sei, Isótys
– diz Xena passando a mão sobre seu ombro – Mas agora eu vou
descer para... domar a fera...
- Boa sorte! Acho que você vai
precisar...
Xena desce as escadas rindo consigo mesma. Chega no
compartimento e encontra
Gabrielle já deitada em sua rede, com
o rosto virado para a parede. Ao seu lado uma
rede vazia a aguardava.
Haviam mais quatro moças dividindo aquele recinto, mas já
dormiam a sono solto. Xena se aproxima e beija Gabrielle na face:
-
Boa noite, meu amor – diz ao seu ouvido.
- Que grosso esse capitão
– esbraveja Gabrielle quase que despertando suas colegas
de quarto.
- Pssiiuu... – diz Xena – quer acordar todo mundo?
- Desculpe.
-
Gabrielle...Isótys só estava brincando.
- Que guarde suas
brincadeiras para quem tem intimidade com ele!
- Mas, meu amor, convenhamos...
nós estávamos...bem, você sabe...
- Mas ele bem
que podia ter passos mais pesados, aquele homem caminha como um gato!
- Gabrielle, acho que NÓS estávamos surdas como uma porta.
- Pois é, né... – responde Gabrielle mais tranqüila –
será que devemos desculpas
para ele?
- Também não
é pra tanto, né Gabrielle!
As duas riem baixinho para
não acordarem as demais. Xena beija Gabrielle nos lábios
e se deita:
- Boa noite, meu amor.
- Boa noite, Xena...eu te amo.
- Eu também.
As duas adormecem e quando despertam o sol já
estava alto. Gabrielle abre os olhos
e fita Xena, que já a observava
há algum tempo deitada em sua rede:
- Eu tô morrendo de
fome!!!
- Bom dia, Gabrielle!
- Ah, sim, bom dia! Olha, milagrosa
essa ervinha de Niklos, tô me sentindo em terra
firme.
Xena
sorri e ambas se dirigem ao compartimento onde são servidas as refeições.
Comem pães e pastas feitas com frutos do mar. Gabrielle adora. Isótys
entra no
recinto e cumprimenta as amigas:
- Como passaram a noite?
- Muito bem. – responde Xena.
- Você já me desculpou pela
brincadeira de ontem, Gabrielle? – questiona Isótys.
- Já.
Eu também te devo desculpas pelo rompante. Mas vamos mudar de assunto,
tá bem?
- Tudo bem, não se fala mais nisso – diz Isótys
com olhar malicioso e provocador.
Gabrielle lhe lança um olhar
de indignação que se transforma instantaneamente num
grande
sorriso, entendendo sua essência de grande observador da natureza
humana e
vendo que, de fato, é um amigo. Isótys cochicha
no ouvido de Xena:
- Estou vendo que conseguiu domar a fera...
-
Isótys...não provoca...olha que essa mulher, quando realmente
furiosa, ninguém
segura.
- Tudo bem, tudo bem... – e falando
mais alto – estão sendo bem servidas?
- Muito bem! – responde
Gabrielle – adorei estas pastas. São do que, ein?
- Acho melhor
não saber, Gabrielle. – retruca Xena.
Isótys sorri e responde:
- São frutos do mar, Gabrielle, dos mais variados tipos, polvos,
lulas, mexilhões,
entre outros.
- Eu gostei. A Xena é
mais nojentinha pra comida. – provoca Gabrielle.
- É que me acostumei
a comer o que tem, no máximo, quatro pés.
- Engraçadinha...
- Mas fiquem à vontade, meninas, vou dar andamento na rotina desse
barco.
Gabrielle e Xena sobem até o convés, aproveitando
o belo dia de sol.
- Gabrielle, vamos ficar mais na sombra da vela,
sua pele é muito clara e você vai
ficar igual a um camarão
quando chegarmos, se não tomar as devidas precauções.
- Sim senhora. Aliás, quando é que chegamos a nosso destino...cujo
passarinho
contou para toda a tripulação, menos para mim???
- Amanhã...pela manhã, se o vento continuar com essa mesma
velocidade.
- Xena...tô morrendo de curiosidade...
- Agüente.
Só falta um dia.
Naquela noite elas preferem não visitar
a proa para evitar maiores constrangimentos
novamente. Recolhem-se cedo,
logo após o jantar, e quando despertam escutam um
grito:
- TERRA À VISTA!!!
Gabrielle salta da rede e corre para
o convés seguida de Xena que mal teve tempo de
calçar
as botas, tamanha a pressa de Gabrielle. Ela observa a costa de uma ilha
e
ao longe reconhece uma construção imponente de cuja
fama já ouvira falar muito: a
escola para moças de Safo,
a poetisa da ilha de Lesbos. Gabrielle mal acredita no
que vê.
Estavam se aproximando do porto da cidade de Mytilene, cidade mais
importante
da ilha. Grande parte da fama da cidade provinha da escola de Safo, a
poetiza, que recebia moças de famílias nobres de todas as
localidades e ensinava
poesia, pintura, canto, belas artes em geral.
Também corriam boatos da fama de
Safo, de sua preferência
por amantes do sexo feminino, para as quais dedicava os
mais belos poemas
e as mais apaixonadas declarações de amor em forma de sonetos
e
rimas.
Gabrielle estava sem palavras. Virou-se para Xena abraçando-a
e beijando-a
apaixonadamente, sem importar-se com os olhares curiosos
de parte da tripulação e
de alguns passageiros que assistiam
à cena.
- Só você mesmo para me fazer essa surpresa,
Xena...
- Um passarinho também me contou que no dia do solstício
de verão Safo realizará a
leitura de seus melhores poemas,
em apresentação no teatro da cidade...
- Ai...eu adoro
esse passarinho!!!
- Pois até ontem você queria fritá-lo!
- Mudei de idéia – sorri Gabrielle, franzindo o nariz.
O
desembarque transcorreu tranqüilamente e Argo relinchou feliz ao pisar
em terra
firme. Gabrielle se aproximou dele e disse ao seu ouvido:
- Eu também tô sentindo a mesma coisa... é ótimo
quando o chão não se mexe, não é
mesmo Argo?
Argo faz um maneio vertical de cabeça, como que dizendo sim, e relincha
feliz. Xena
prepara a bagagem, carrega Argo, coloca Gabrielle em sua
garupa e parte na direção
sul, para uma área mais
afastada do burburinho da cidade, porém sempre costeando o
litoral
da ilha.
Lesbos estava se preparando para o solstício de
verão que ocorreria dentro de três
dias, coincidindo com
a entrada da lua na sua fase cheia. Toda a ilha emanava um
clima de
festa. Xena as conduz até uma estradinha de chão, muito estreita,
onde
dificilmente passaria uma carroça puxada por uma parelha
de cavalos. No entanto, o
caminho era ladeado por um imenso tapete de
flores vermelhas que se emaranhavam por
entre as pedras e cobriam parte
dos arbustos mais rasteiros. Do outro lado a
floresta se fechava em
árvores cujos caules necessitariam de cerca de sete homens
para
abraçá-los por inteiro. Após duas horas de cavalgada
chegaram num portão de
madeira que dava acesso a uma linda propriedade
no meio da floresta. Ao lado da
entrada existia uma escultura em mármore
branco em forma de esfera, com cerca de 80
centímetros de diâmetro,
suspensa num pedestal de mogno esculpido com formas
representando figuras
humanas. Lindo conjunto.
Xena e Gabrielle desmontam e se dirigem
para a casa, nos fundos da propriedade.
Parecia deserta. Escutava-se
somente o canto dos pássaros, o sopro da brisa do mar
e o barulho
de uma queda d’água no outro extremo do morro. Somente uma fumaçinha
que saía da chaminé da cabana dava sinal de que alguém
habitava aquele lugar. Xena
se dirige para a porta da frente e leva
a mão para abri-la, quando Gabrielle
questiona:
- Xena...
você vai entrar assim? Sem bater? E se não tiver ninguém
em casa...
- Mas tem.
- E como você sabe???
- Eu sei,
Gabrielle.
- Mas Xena, é falta de educação entrar
sem bater...
- Gabrielle, eu sei o que estou fazendo! – diz Xena entrando
na casa, seguida por
Gabrielle a contragosto.
A cabana parecia modesta
por fora, no entanto seu interior era magnífico! As
paredes de
madeira eram tomadas por quadros dos mais variados estilos, a maior
parte abstratos de formas circulares. Os móveis eram cobertos por
tecidos de veludo
nas cores violeta, verde e vermelho. Num canto da
sala havia uma estátua de
Afrodite, esculpida num mármore
rosado. A mesa de centro, redonda, era coberta por
uma toalha branca
toda bordada de flores do campo com fios dourados e verde água,
um encanto. No centro da mesa um vaso com flores frescas, colhidas pela
manhã, nas
mais variadas cores e cuja fragrância perfumava
todo o ambiente. No canto da sala
uma escadaria de madeira torneada,
em estilo jônico, levava a um segundo andar, que
Gabrielle ficou
curiosíssima para conhecer. No teto havia um lustre que comportava
cerca de trinta velas, todo de ferro esculpido. De sua base saiam imitações
de
hastes de plantas e na ponta de cada uma delas se abria um cálice
e uma corola de
pétalas em cujo centro se encaixavam as velas.
Uma verdadeira obra de arte!!!
Gabrielle estava encantada.
- Xena...que
lugar lindo!!! Mas não tem ninguém em casa. Vamos esperar
lá fora.
- Tem sim Gabrielle, e estamos sendo esperadas. Vamos.
Xena passa pela sala e ingressa num corredor que leva para os fundos
da casa.
Passam por um portal arqueado e penetram no que parece ser
a cozinha da residência.
Gabrielle se impressiona pelo contraste
do lugar: a majestade da sala dá lugar a um
rústico aposento,
sem assoalho, a não ser o chão batido, com um fogão
à lenha no
fundo, em cujo tampo repousavam panelas e uma chaleira
com água fervente. Bem no
centro do aposento havia um tripé
de metal pesado com um suporte que sustentava um
caldeirão de
ferro. Por baixo uma mureta de tijolos de barro delimitava o local
para
a queima da madeira quando este era utilizado. As paredes eram tomadas por
prateleiras de madeira que ostentavam os mais variados recipientes, potes,
vidros,
garrafas, com os mais variados materiais, ervas, infusões,
pastas, líquidos,
emplastos, e tudo o mais. Gabrielle continuava
boquiaberta. Reparou que sobre o
caldeirão o telhado estava aberto,
com uma cavidade circular que deixava a luz
natural penetrar no ambiente.
Nesta abertura havia, porém uma espécie de tampa de
madeira
presa numa roldana e numa corrente que caía até o chão,
possibilitando
abrir e fechar o alçapão do teto. Verdadeira
obra de engenharia.
Sentada de costas para a porta, trabalhando
um uma mesa lateral, estava uma mulher
que, antes de virar-se para elas
disse:
- Muito bem vindas, amigas, que o poder da grande deusa esteja
convosco e as cubra
de bênçãos.
Neste momento
virou-se para elas e descortinou um dos mais belos sorrisos que
Gabrielle
já havia visto, perdendo somente para o de Xena, é claro.
Tratava-se de
uma figura de rara beleza, aparentava entre quarenta e
cinqüenta anos, Gabrielle
não conseguia precisar. Sua estatura
era alta, quase que a mesma altura de Xena,
cabelos compridos, abaixo
da cintura, louros e lisos, com alguma mechas brancas.
Pele alva e olhos
cor de mel. Nariz afilado e dentes alvos. Seus lábios eram
levemente
carnudos e quando sorria duas covinha se formavam em suas faces. Era
magra e tinha braços e dedos longos. No dedo médio da mão
esquerda usava um anel
com uma enorme esmeralda, enquanto que, no indicador,
ostentava um rubi magnífico.
Seus cabelos eram emoldurados por
uma tiara de pequenos diamantes e no centro
desta, uma ametista lapidada
em forma circular tornava o conjunto uma obra que
chamava a atenção
pela delicadeza e harmonia. Xena se dirige para a amiga e a
abraça:
- Morgana, quanto tempo!!! Estava com saudades.
- Eu também Xena...
as aguardava ansiosa.
- Como assim??? – pergunta curiosa Gabrielle.
- Gabrielle, esta é Morgana, uma grande amiga. – apresenta Xena.
- Como vai Gabrielle? Você é realmente muito bela, mais do
que eu imaginei – diz
sorrindo – Xena realmente tem bom gosto...
- Obrigado – responde Gabrielle corando – mas como sabia da nossa vinda?
- Morgana sabe de muitas coisas, Gabrielle – responde Xena sorrindo e olhando
para
um canto da cozinha onde, num centro de mesa, repousa uma enorme
bola de cristal.
- Você é uma bruxa??? – diz Gabrielle
arregalando os olhos de curiosidade.
- Digamos que sou estudiosa das
forças da natureza e as utilizo em favor do ser
humano...
- Wicca... – diz Gabrielle.
- Exato – responde Morgana.
- Ai, eu
tenho tantas coisas para perguntar...eu adoraria ter umas aulas...você
acha que eu levo jeito?... vou adorar passar uns dias aqui... eu já
li algumas
coisas sobre wicca... eu escrevo histórias, Xena já
te contou???....
- Gabrielle... devagar – retruca Xena.
- Desculpa,
as vezes eu me empolgo – diz Gabrielle sorrindo sem graça.
-
Tudo bem... – responde Morgana passando o braço sobre o ombro de
Gabrielle e
cochichando ao seu ouvido – Você com certeza será
uma ótima aluna...
Os olhos de Gabrielle se arregalam e brilham
como esmeraldas. Xena sorri. Morgana
as conduz para a mesa da cozinha:
- Sentem-se, vamos comer, o almoço já está quase pronto.
- Que bom!!! – exclama Gabrielle.
Xena lhe lança um olhar refreador,
porém Morgana sorri e diz:
- Xena, Xena... sempre implicante.
Gabrielle percebe que arrumou uma aliada e olha para Xena debochadamente
por cima
do ombro, fazendo-lhe uma careta. Sentam-se à mesa e
Morgana serve um peixe feito
no forno com batatas e uma variedade imensa
de saladas. Gabrielle se delicia. Após
o almoço Xena solta
Argo no campo e convida Gabrielle para um passeio nas
redondezas. Antes
de saírem Morgana diz:
- Quando retornarem estará tudo
preparado... a casa é de vocês. Vou passar a noite
na cidade,
visitando Edna que já está se queixando de saudades... e fazem
só dois
dias que não nos vemos...mulheres!!! – retruca
em tom de brincadeira.
Xena a abraça e diz:
- Obrigado, amiga,
fico te devendo essa...
- Você já me pagou de antemão,
Xena, lembra? Se não fosse você eu estaria nas mãos
dos romanos... ou coisa pior. Eu te amo, amiga, seja feliz! – diz Morgana
abraçando
Xena fortemente – Você fez uma ótima escolha...essa
menina é do bem.
- Eu sei, Morgana, eu sei...
Elas trocam
um sorriso de cumplicidade. Morgana abraça e beija Gabrielle:
- Até o solstício!
- Até...
Xena abraça
Gabrielle e seguem por uma trilha para um passeio na floresta. Enquanto
isso Morgana faz alguns preparativos em casa e após monta em seu
cavalo negro e
parte para a cidade.
Gabrielle e Xena sentiam-se
num lugar abençoado e, de fato, a Grécia deve ser o
berço
dos deuses pois tem, em média 320 dias de sol por ano e na maior
parte do
tempo o clima é ameno e agradável. Era verão,
quase véspera do solstício e a
temperatura passava dos
35° durante o dia, porém à noite podia-se usar uma coberta,
pois a aragem do mar tornava agradável o clima noturno, aliviando
o calor do dia.
Lesbos encantava seus visitantes pela profusão
de áreas verdes, grutas à beira mar
e fontes térmicas.
Xena e Gabrielle sobem um pequeno morro e chegam até uma
clareira
onde abaixo se avista o mar Egeu, mais para o norte uma cadeia de
montanhas
com as tonalidades mais variadas de verde, indo do verde oliva ao verde
limão. À esquerda da clareira uma parte de mata onde se podia
caminhar entre as
árvores de copas floridas e de onde jorrava
uma fonte natural de água gelada e
cristalina. Sentam-se no tronco
de uma árvore gigantesca e observam a natureza ao
seu redor.
Em silêncio escutam o gorjeio dos pássaros, das mais variadas
espécies.
Muitos vem beber água na nascente, bem perto
de onde elas estão, totalmente alheios
à presença
das intrusas em seu habitat. As plumagens das aves chamam a atenção
de
Gabrielle. Nunca havia visto cores tão vivas e variadas. Ao
longe um pássaro
gigantesco abre sua asas e voa rasante sobre
as águas do mar Egeu, em busca de
alimentos. A envergadura de
suas asas brancas deveria medir não menos do que três
metros
de ponta à ponta. De repente realiza um giro nos céus e se
projeta rumo às
ondas, onde mergulha e emerge logo adiante com
um peixe preso em seu bico.
Gabrielle fica encantada com a destreza
e o bailado do pássaro. Um pouco mais à
frente havia uma
árvore com a copa totalmente verde, uma tonalidade de verde claro
que refletia o sol da tarde, sendo que por baixo estava com os galhos cobertos
de
barbas de pau, que lhe davam ares de um ancião com longas
barbas brancas. Gabrielle
não conseguia parar de admirar o local,
e novas formas e cores se descortinavam a
cada lado que se virasse.
Um velho carvalho estava totalmente tomado por uma planta
trepadeira
cujas flores brancas, em forma de sinetas, pendiam pelos galhos secos.
Xena estava montada num galho, tendo Gabrielle à sua frente, de costas
e encostada
em si entre suas pernas, sendo que a abraçava por
trás, apertando-a contra seu
peito.
- Xena, você me
trouxe para o paraíso.
- Valeu a pena esperar a surpresa, não
valeu?
- Valeu, sim.
Segue-se um longo silêncio, onde as mulheres
se acariciam suavemente e se beijam
com delicadeza, como que para não
quebrar a harmonia e a tranqüilidade do lugar e
de seus pequenos
habitantes. A luz do sol começa a se tornar mais fraca quando o
ângulo do astro rei penetra por trás das montanhas do fundo.
Aos poucos o colorido
vivo assume uma tonalidade avermelhada do por
do sol e os pássaros lentamente
diminuem seus gorjeios e se recolhem
aos seus ninhos. Xena olha nos olhos de
Gabrielle e diz:
- Vamos...está
na hora...
Gabrielle estremece por inteiro e responde:
- Está
na hora.
Elas descem a trilha de volta para a cabana abraçadas,
trocando carícias e
declarações de amor. Xena pára
em frente a porta de entrada, abraça Gabrielle e
diz:
- Eu
esperei a minha vida toda por esse momento, Gabrielle...
- Eu também,
meu amor, eu também...
Elas se beijam apaixonadamente e Xena
toma Gabrielle em seus braços, carregando-a
para dentro de casa.
No meio da sala coloca Gabrielle no chão, de pé à sua
frente.
Morgana havia arrumado a mesa da sala, colocando dois castiçais
com velas
vermelhas, a cor da paixão, segundo ela. No centro
uma bandeja com frutas, pães,
geléias e mel, além
de água da fonte e vinho tinto. As chamas do candelabro estavam
acesas e davam um colorido mágico à sala. Num canto da mesa
um bilhete:
”Meninas, preparei um banho ritual para cada uma, em separado.
Xena, você usará o
quarto em cuja porta está pendurada
uma guirlanda de rosas, e você Gabrielle o
quarto com a guirlanda
de margaridas. Após o jantar o quarto dos fundos, com a
guirlanda
de flores do campo, é todo de vocês. Muitas bênçãos
da deusa mãe.
Morgana.”
Xena comenta:
- Essa Morgana
pensa em tudo...é uma das pessoas mais maravilhosas que eu conheço.
- Realmente. – responde Gabrielle.
- Vamos lá então?
- Vamos. – responde Gabrielle com a voz embargada pela excitação.
Elas sobem a escada de mãos dadas e logo no topo deparam-se com dois
aposentos,
frente a frente, cada um com uma guirlanda de flores diferentes.
Xena leva a mão
esquerda à maçaneta da porta com
a guirlanda de rosas e com a mão direita segura o
queixo de Gabrielle
suavemente e a beija nos lábios:
- A gente se encontra lá
em baixo... para o jantar – diz Xena penetrando no quarto.
- Eu te amo,
Xena...
Xena sorri sedutoramente:
- Eu também...mais do que
tudo.
Gabrielle penetra em seu respectivo aposento. Trata-se de
um local bastante
simples, com uma janela para o nascente, uma cama
pequena coberta por uma colcha de
linho cru e com um travesseiro de
ervas que perfumava o ambiente. Em cima da cama
haviam duas toalhas
muito alvas e uma espécie de roupão ritual de tecido de
finíssima seda, com mangas três quartos, de cor verde água
bordado com detalhes de
verde oliva. Uma faixa de seda branca ao lado
para amarrar na cintura, pois a
vestimenta não possuía
botões. Sobre o roupão uma grinalda feita de minúsculas
flores naturais, brancas, e tendo um pequeno diamante no centro do ornato.
Num
canto do quarto havia uma tina redonda de madeira, com cerca de
dois metros de
diâmetro por um metro de profundidade, com água
corrente e em temperatura elevada,
fato que deixou Gabrielle curiosa.
Observando mais de perto e espiando pelo lado de
fora da janela, verificou
tratar-se da tubulação de uma das fontes térmicas
naturais da ilha. A água subia pela tubulação com a
própria pressão da fonte,
penetrava pela parede do quarto
e desembocava na interior da tina. Cerca de um
palmo abaixo da borda
superior outro tubo servia para escoar a água e devolve-la
para
a rua, desembocando de volta na fonte térmica. Outra maravilha da
engenharia
do local! Ao lado desta piscina natural uma mesinha ovalada
com suaves essências
florais, óleo para banho, escova para
o cabelo e um espelho de mão. Gabrielle
despiu-se, preparou seu
banho de óleo e essências e mergulhou naquela água
maravilhosamente quente, relaxando por completo. Tentava esvaziar a mente
buscando
acalmar o turbilhão de pensamentos e sensações
que a invadiam no momento. Sentia-se
como uma noiva virgem na véspera
de ser deflorada e acabava rindo disso. Se tinha
uma coisa que não
era mais era virgem. Na verdade guardava poucas lembranças de sua
única noite com Pérdicas, lembrava de sua morte pela espada
de Callisto, lembrava
também, e principalmente, de sua angústia
frente ao fato de ter de se separar de
Xena... como era tonta! Amava
Xena desde a primeira vez que a vira e precisou de
tanto tempo e de
tantas provações para se dar conta disso. Mas essas lembranças
eram passado e o que importava, no momento, era que no quarto ao lado a
mulher de
sua vida se preparava para unir-se a ela, de fato, para sempre.
Tentava acalmar-se,
mas estava ansiosa, porém não via
a hora de estar nos braços de Xena.
No quarto ao lado Xena
também se preparava para entregar-se à sua amada. Havia uma
tina igual a do quarto de Gabrielle, porém com óleos e essências
de fragrâncias
diferentes, mais fortes, próprias para uma
mulher com as características de Xena.
Esta sorriu ao se dar
conta de como Morgana a conhecia. Tomou seu banho e vestiu um
roupão
de seda de cor violeta, com acabamentos de seda vermelha nas mangas e no
decote, assim como era vermelha a faixa de seda que amarrara na cintura.
Escovou
seus cabelos prendendo-os no alto da cabeça e colocou
a tiara de ametistas que
Morgana havia colocado cuidadosamente sobre
seu roupão. Sua pele emanava um perfume
forte, mas extremamente
agradável e o óleo de banho lhe conferia à pele uma
textura
macia e sedosa. Estava pronta para sua noite de amor.
Xena
desceu a escadaria da casa e viu que Gabrielle ainda estava se preparando.
Acendeu as velas da mesa de jantar e serviu uma taça de vinho tinto,
cujos goles
sorvia lentamente enquanto aguardava sua amada. Precisava,
realmente, relaxar um
pouco. Assim como Gabrielle, Xena estava ansiosa,
um misto de excitação e
nervosismo. Esperou por cerca
de meia hora, absorta em seus pensamentos, até que
escutou o
ranger da madeira no andar de cima, eram os passos de Gabrielle
caminhando
em direção à escadaria. Olhou para o topo e deslumbrou-se
com o que viu.
Gabrielle estava descalça, porém trajava
sua vestimenta de seda verde água. Seu
decote delineava a silhueta
de seus seios, e o caimento da seda emoldurava seus
quadris e cintura.
Suas pernas torneadas estavam à mostra, uma vez que sua
vestimenta
lhe chegava até um palmo acima dos joelhos e a cada passo que dava
em
direção ao andar de baixo a parte interna de suas coxas
ficava momentaneamente
exposta pela fenda dianteira de seu roupão.
Seus olhos verdes cintilavam à luz do
candelabro do centro da
sala. Sua grinalda lhe conferia um ar angelical e Xena
precisou apoiar-se
nos braços da cadeira para levantar-se e caminhar ao seu
encontro.
Gabrielle era a personificação da deusa da beleza e da perfeição.
Gabrielle, por sua vez, também maravilhou-se com a figura que a aguardava
no sopé
da escadaria. O porte majestoso de Xena e o azul de seus
olhos, escurecidos pela
excitação, deixavam Gabrielle
sem ar. A tiara de ametistas emoldurava aquele rosto
de traços
marcantes e sorriso encantador. As mãos de Gabrielle estavam trêmulas
e
úmidas de suor. Desceu devagar e cada passo acelerava o coração
de Xena que
estendeu-lhe a mão no último degrau:
-
Minha rainha...
- Minha princesa – respondeu Gabrielle – enlaçando
o pescoço de Xena e beijando-lhe
carinhosamente os lábios.
Seus corpos entrelaçados estavam perdidos de amor. Carinhosamente
Xena conduz
Gabrielle para a mesa e começa a servi-la de frutas.
A cada morango que colocava em
sua boca deixava propositalmente a ponta
de seu dedo, que Gabrielle lambia
maliciosamente, levando Xena à
loucura. Gabrielle também bebeu uma taça de vinho,
para
relaxar, mas somente uma, pois era de má bebida como dizem, e não
estragaria
aquela noite por nada... Oferecia pequenas cerejas envoltas
no mel à Xena,
alcançando-as entre os dentes, em sua boca
entreaberta. Xena capturava as cerejas e
acariciava a língua
de Gabrielle com a sua. Sensualmente trocavam olhares,
dispensando quaisquer
palavras para que não se quebrasse o encanto daquele momento
de entrega. Alimentavam-se em silêncio, contemplando uma à
outra e extasiando-se
com a beleza que viam refletidas nas luzes tremulantes
das velas e do candelabro.
Uma vez saciada a fome, Xena encosta sua
boca no ouvido de Gabrielle e diz:
- Vamos subir...
Gabrielle estremece
e balança a cabeça em anuência. Levantam-se e Xena,
novamente,
toma Gabrielle nos braços. Esta beija-lhe a nuca e
o pescoço e geme ao seu ouvido:
- Eu te quero Xena... quero me
dar toda para você...
- Eu também, meu amor, eu também...
Beijam-se apaixonadamente e Xena caminha em direção à
escadaria. Somente não a
escalou de três em três
degraus, tamanha a sua excitação, pois sua vestimenta que
lhe caía até os tornozelos não lhe permitia esses movimentos
arrojados, e não
poderia arriscar-se a despencar da escadaria
justamente naquela ocasião.
Dirigiram-se ao quarto dos fundos
e Gabrielle, ainda no colo, leva sua mão à
maçaneta
da porta abrindo-a. As duas penetram em seu ninho de amor. Xena coloca
Gabrielle suavemente no chão e ambas passam a observar aquele local
que ainda não
tinham conhecido, a pedido de Morgana que também
gostava de preparar surpresas.
Tratava-se de um aposento com uma enorme
cama ao centro, coberta com lençóis de
seda prateada e
almofadas também cobertas, porém com seda de cor salmão.
Do teto
pendia uma luminária de ferro torneado com uma única
vela em forma de globo, de cor
branca, com capacidade de arder por mais
de cinco dias consecutivos e que, por ser
envolta em finíssimos
cristais de quartzo rosado conferia ao lugar um clima de
confortável
penumbra. Ainda no teto e na parede lateral aos pés da cama haviam
espelhos emoldurados com relevos em forma de folhas e flores, esculpidos
em prata e
ouro. Havia uma janela entreaberta, que dava para os fundos
da propriedade e ao
lado desta uma porta de acesso a uma sacada, da
qual se avistava o Mar Egeu. Em
frente ao espelho dos pés da
cama havia uma pequena mesa redonda cujo tampo de
madeira era coberto
por um mosaico de ametistas e quartzos verdes, uma bela obra de
arte.
No centro da mesa uma travessa de prata ovalada onde estavam depositados
dois
cordões de prata de onde pendiam dois pingentes de ouro
exatamente iguais cujo
desenho simbolizava o planeta Vênus, duas
Vênus entrelaçadas em cada cordão. Ao
lado um bilhete:
“Meu presente de casamento. Brindem à deusa e sejam felizes.
Sempre. Morgana”. Ao lado dos pingentes duas taças de cristal e uma
jarra de um
licor especialmente preparado por Morgana. Gabrielle diz:
- Acho que é uma poção mágica...
- Pode
ser... – responde Xena sorrindo – a poção da felicidade, do
amor e da
completude.
Xena serve as duas taças, ritualmente,
alcançando uma delas para Gabrielle. Esta
última estava
trêmula de excitação. Xena vira-se de frente para ela
e entrelaçando
seus braços cada qual sorve a bebida de
sua própria taça. Após Xena sorve um pouco
de sua
taça e coloca um gole de seu licor na boca de Gabrielle, selando-a
com um
beijo. Gabrielle faz o mesmo.
Em seguida cada qual pega um
dos cordões de prata. Xena coloca o cordão por cima da
cabeça de Gabrielle, ajeitando-o por baixo de seus cabelos, beija-lhe
a testa e, em
seguida, suavemente a boca. Segura-lhe as mãos,
beija-as, e fitando-a nos olhos
diz:
- Eu te recebo Gabrielle, para
sempre, como minha companheira, como a mulher que eu
escolhi para partilhar
todos os dias da minha existência, nesta vida e em todas as
que
virão, em nome da deusa mãe, criadora de toda a natureza e
protetora de todos
os seres que amam...
Gabrielle, com os olhos
marejados d’água beija as mãos de Xena. Em seguida, na
ponta dos pés, suspende o outro cordão de prata, colocando-o
no pescoço de Xena,
dizendo com a voz embargada pela emoção:
- Eu te recebo Xena, como a mulher da minha vida, como a companheira para
todos os
momentos, quaisquer que sejam, como a pessoa que eu escolhi
para amar pela essência
e pela bondade de coração,
pela coragem, bravura, suavidade em cada gesto e amor ao
próximo.
Eu te recebo Xena, por toda a eternidade, em nome da grande deusa,
criadora
de toda a natureza e protetora dos seres que amam. Que assim seja.
-
E assim será. – responde Xena.
Xena enlaça Gabrielle
pela cintura puxando-a de encontro ao seu corpo, que àquela
altura
ardia de desejo e paixão. Beija-lhe os cabelos, a testa, a nuca e
a boca.
Gabrielle sente como se todas as luzes da cidade de Atenas houvessem
se acendido ao
mesmo tempo dentro de seu corpo. Estremece de excitação
à cada toque de Xena. Esta
conduz Gabrielle para a beira da cama,
desamarra a fita que lhe prende o roupão na
cintura e a deixa
cair aos pés de sua amada. Gabrielle tem a sensação
de que seu
coração vai lhe saltar pela boca. Xena descobre
seus ombros, os quais beija
suavemente enquanto desliza seu roupão
deixando-o cair junto à faixa. Xena dá dois
passos para
trás e observa a nudez de Gabrielle, seus cabelos dourados e sua
pele
clara, suas curvas, a suavidade de seus seios e mamilos rosados,
a beleza de seu
sexo encharcado de excitação. Desta vez
é Xena quem perde o fôlego, pois Gabrielle
se aproxima
e também desamarra sua faixa, abre sua vestimenta e a desnuda,
observando-a de alto a baixo. Aproxima-se e solta seu cabelo negro que lhe
cai
sobre os ombros morenos. Ostentam no corpo somente seus cordões
de prata, mais
nada. Gabrielle abraça Xena pela cintura e esta
a aperta contra seu corpo,
beijando-a com mais ardor e deitando-a sobre
os lençóis macios de seda. Gabrielle,
deitada de costas,
abre suas pernas para que Xena se encaixe entre elas. Xena
encosta seu
sexo no de Gabrielle e ambas gemem de prazer. Xena beija os seios de
Gabrielle e suga seus mamilos rosados, rijos de tesão, passando a
língua por volta
destes, indo em direção ao umbigo
de sua amada. Xena lambe a virilha de Gabrielle
até chegar aos
pelos de seu sexo, admirando a cor dourada dos mesmos. Afasta as
pernas
de Gabrielle com as mãos deixando seu sexo aberto e receptivo ao
toque de
sua língua. Inicia beijando as laterais e logo em seguida
coloca a ponta da língua
contra o clitóris de Gabrielle,
pressionando-o. Gabrielle geme de prazer. Começa a
suga-lo enquanto
sente a umidade de sua amada escorrendo de seu sexo e encharcando
os
lençóis. Começa a penetra-la com a língua, num
movimento sincronizado que levava
Gabrielle a loucura. Esta, porém,
suavemente puxa Xena em sua direção e beija-lhe a
boca,
sentindo seu próprio gosto nos lábios e língua da companheira.
Trêmula de
excitação começa também
a sugar-lhe os mamilos morenos e a lamber aqueles seios
fartos e rijos.
Não conseguindo se conter abocanha vorazmente o sexo de Xena,
invadindo-o com a língua e sugando cada gota do prazer de sua amada.
Xena pede mais
e Gabrielle passa a sugar seu clitóris, deixando-o
pronto para gozar. Quando Xena
sente que não conseguiria mais
se conter puxa Gabrielle em sua direção fazendo com
que
se sentasse inclinada de frente para ela, encaixando seus sexos, encostando
seus clitóris enrijecidos e molhados, esfregando-os e aumentando
gradualmente a
intensidade até que ambas explodem num orgasmo
sincronizado, cujos gritos de prazer
e êxtase puderam ser ouvidos
somente pelos pequenos animais noturnos que vagavam à
sombra
da noite de lua cheia. Saciadas elas se abraçam bem apertado, os
corpos
molhados de suor, trocando carícias íntimas e juras
de amor.
(...)
- Eu nunca senti isso antes, Xena... Como é
que você faz isso mulher?
- Isso o que, Gabrielle? – pergunta
Xena com voz lânguida.
- Isso que eu senti... eu explodi por dentro,
sabia???
- Imaginei... pelos teus gritos... – responde Xena sorrindo.
Gabrielle enrubesce.
- Mas a culpa é sua, dona Xena... onde já
se viu fazer essas coisas com uma moça
decente – retruca Gabrielle
em tom de brincadeira.
- Mas a moça descente até que fez
a sua parte direitinho... para quem dizia ser
destreinada...
- E
será que eu posso praticar mais um pouco??? – pergunta sedutoramente
Gabrielle,
deitando-se sobre Xena.
- Com toda a certeza...
E reiniciam as carícias mais ousadas. As pulsações
aceleram, as mulheres se
entregam novamente à paixão e
ao desejo que sentem uma pela outra. Gabrielle ama o
cheiro de Xena
quando faz amor, um cheiro de luxúria e prazer. Xena não consegue
se
conter ante os toques suaves de Gabrielle e por vezes goza antes
mesmo que se
tornem mais impetuosos. Adormecem abraçadas e plenas
de felicidade, com a sensação
de que estavam nos céus,
e de que os Montes Elíseos não poderiam ser melhores do
que aquele ninho de amor.
Acordaram com o sol alto, afinal foram
dormir quase no nascer do sol...
Xena abre os olhos e depara-se com
Gabrielle abraçada nela, observando-a de perto:
- Bom dia, meu
amor... eu...
- Já sei...”tô morrendo de fome”... – brinca
Xena.
- Sua boba ! Eu ia dizer que eu... te amo!!! – e beija Xena na
boca. – Mas que eu
tô com fome, eu tô.
Ambas caem na
risada.
- Eu também, meu amor, você me fez gastar as últimas
reservas de energia que
restavam neste corpo exaurido de paixão...
– brinca Xena.
- Então vamos...
- Eu vou... preparo nosso
café e trago para a minha rainha...na cama...
- Nossa!!! Será
que eu mereço tanto?
- Merece, Gabrielle...Ah, merece...
Xena coloca seu roupão, desce e prepara uma bandeja com café,
leite, pães e frutas
e leva para o quarto. Encontra Gabrielle
semi adormecida. Esta desperta com a
chegada do desjejum e senta na
cama.
- Gabrielle, tenha a decência de se vestir, senão
eu não consigo comer – retruca
Xena – pelo menos os pães...
– emenda sorrindo.
Gabrielle joga o roupão por cima do corpo
e saboreia o café preparado por sua
mulher. Xena a observa e
sorri. Sempre se encantou com o apetite matinal de
Gabrielle.
-
Tá olhando o que, Xena? – pergunta sorrindo Gabrielle.
- Admirando...
você é tão linda.
- Ai, Xena...assim eu fico sem
graça.
- Você é o meu tudo, sabia? – diz Xena apaixonadamente,
beijando Gabrielle nos lábios.
- Vem cá, vem... – convida
sedutoramente Gabrielle.
- Acho melhor não... do jeito que você
comeu é capaz de ter uma congestão.
- Engraçadinha...
– retruca Gabrielle puxando Xena para si.
Elas acabam ficando mais
um longo tempo na cama... Queriam aproveitar cada minuto
de intimidade
que haviam perdido até então. No meio da tarde quando conseguiram
sair do quarto resolveram tomar um banho antes de dar um passeio até
a cidade.
Gabrielle queria comprar um presente de solstício para
Xena, além do quê adorava
bisbilhotar as novidades nas
lojinhas dos mercadores e pechinchar nos preços das
mercadorias.
Nestas ocasiões Xena quase perdia a paciência, era muito mais
objetiva
que Gabrielle e preferia fugir do burburinho e da agitação
das lojas. Mas, naquele
dia faria qualquer coisa que Gabrielle quisesse...
qualquer coisa.
Gabrielle mergulhou naquela maravilhosa tina de
água quente, ensaboando-se com um
sabonete a base de ervas confeccionado
pela própria morgana. Para que conseguissem
sair à passeio
Xena preferiu tomar seu banho no outro quarto...só para garantir.
Vestiram-se e rumaram, montadas em Argo para o centro da cidade.
Mytilene era uma cidade de grande porte, com muitas lojas, tavernas e uma
atividade
cultural bastante intensa. O imenso teatro em frente à
praça principal encantou
Gabrielle, as gigantescas colunas góticas
e a abóbada por sobre o palco central
eram deslumbrantes, proporcionando
uma acústica perfeita, poderia se escutar o som
da queda de um
alfinete durante as apresentações. Gabrielle entrou em incontáveis
lojinhas e tendas, sempre acompanhada de perto por Xena, que olhava de cara
feia
para qualquer marmanjo que fizesse menção de se aproximar
de sua “propriedade”,
afinal Gabrielle estava encantadora, com um top
amarelo ouro e uma mini-saia branca
com frestas laterais que deixavam
qualquer pobre mortal desconcertado.
- Precisava vestir uma saia tão...provocante???...
– resmunga Xena ao ouvido de
Gabrielle.
- Quer fazer o favor de
não ser implicante?
- Mas TODA a população da cidade
está cobiçando as tuas pernas... – responde Xena
num ranger
de dentes.
Gabrielle franze o nariz, dá uma risadinha e responde
seguindo adiante:
- Impressão sua, bobinha...
Gabrielle consegue
driblar a vigilância de Xena e compra um presente para ela,
escondendo-o
dentro de sua bolsa. Percebendo que Xena começava a se irritar com
o
entra e sai das lojas Gabrielle se aproxima dela, abraça-a
pela cintura e a convida
para sentarem um pouco na praça, ao
que Xena concorda aliviada. Não entendia como
Gabrielle conseguia
andar tanto de loja em loja sem que lhe doessem os pés. Xena
senta-se ao lado de Gabrielle e lhe estende um pequeno envelope. Ao abri-lo
depara-se com ingressos para um espetáculo de canto, que teria início
dentro de
aproximadamente uma hora. Gabrielle fica radiante e sapeca
um beijo na boca de
Xena, alheia às pessoas que circulavam no
local. Desta vez é Xena quem fica corada.
- Xena!!! Como você
comprou esses ingressos sem que eu visse???
- Ora Gabrielle, você
estava tão entretida no “comércio de variedades” que eu
poderia ter sido raptada pelo Minotauro que você nem notaria...
- Sua boba !!! Eu só tenho olhos para você. Mas é que
eu ADORO ir às compras.
- Eu sei, meu amor...mas vamos indo para
pegarmos um bom lugar?
- Vamos sim – responde Gabrielle toda entusiasmada
– Eu te amo, Xena...já havia lhe
dito isto hoje???
- Hummmm...
não estou lembrada... acho que sim – responde Xena sorrindo.
Elas assistem ao musical e Gabrielle se encanta com o espetáculo.
Ainda na praça,
antes de retornarem para casa, Xena estende mais
um envelope para Gabrielle. Seus
olhos brilham ao vislumbrarem dois
ingressos para a apresentação das poesias
declamadas por
Safo e suas alunas, na noite seguinte, em honra do solstício de
verão, naquele mesmo teatro.
- É o meu presente de solstício
para você, Gabrielle.
Gabrielle emocionada responde:
- Só
você mesmo para me fazer tão feliz... Vamos para casa, eu quero
lhe
proporcionar um agradecimento à altura...
- Isso é
uma promessa? – questiona Xena sedutoramente.
- Com toda a certeza.
Retornam para casa montadas em Argo. Ao chegarem Gabrielle toma um
banho e desce
para preparar o jantar enquanto Xena escova o pêlo
de Argo antes de soltá-lo no
campo. Xena acaricia o nariz de
Argo que relincha receptivo ao afago:
- Pois é, amigão,
você está diante de uma mulher feliz... duas mulheres felizes.
–
cochicha Xena sorrindo no ouvido de Argo.
Este relincha novamente
enquanto Xena lhe dá um tapinha no traseiro, fazendo com
que
disparasse em direção às cocheiras. Entra na casa e
sente um cheiro maravilhoso
de carne assada e arroz de forno com nozes
e azeitonas. Xena vai até a cozinha e
enlaça Gabrielle
por trás, pela cintura, beijando-a na nuca, fazendo com que se
arrepiasse:
- Ai Xena... assim eu não consigo terminar o jantar...
- É que eu não resisto a esse... petisco encantador... – brinca
Xena mordiscando o
pescoço e os ombros de Gabrielle.
Gabrielle
se vira e abraça Xena, beijando-a com paixão. Após
tenta se afastar para
verificar o ponto do assado no forno. Xena a segura
pelos quadris e quando começa a
se exceder nas carícias,
colocando as mãos por entre as pernas de Gabrielle, esta
pega
a colher de pau que estava usando, se vira de frente para Xena, coloca uma
das
mãos na cintura, bate o pé e gira a colher de pau
com a outra mão:
- Olha aqui, dona Xena... não me faça
usar esta colher como palmatória, ein???
- Que mulher temperamental
que eu fui arrumar... – diz Xena achando graça do teatro
de Gabrielle
– Prometo me comportar... pelo menos até a hora da janta – emenda
em
posição de sentido com a mão direita para cima
como que professando um juramento.
- Acho muito bom!!! – responde Gabrielle
autoritária, achando graça da encenação de
Xena – Quer fazer o favor de sacudir essa roupa cheia de pêlos daquele
cavalo??? E
antes de vir para a mesa lave as mãos também!!!
Ao fundo Argo relincha como que em protesto pelo comentário de Gabrielle,
que diz
impressionada:
- Mas que ouvido que tem esse cavalo!!!
Xena gargalha e sai da cozinha. Retorna após um banho e ajuda a colocar
a mesa.
Elas jantam e arrumam a cozinha. Após guardar o último
prato xena diz:
- Acabou-se o juramento!!! - e agarra Gabrielle pela
cintura, levantando-a no ar e
girando em círculos pela cozinha.
- Sua maluca... eu te amo!!! – diz Gabrielle com a cabeça rodando.
Gabrielle enlaça a cintura de Xena com suas pernas e segura-se
em seu pescoço. Xena
a sustenta pelos quadris beijando-a avidamente.
Gabrielle beija o pescoço de Xena,
o colo e leva seus lábios
em direção aos seios de Xena. Abre a blusa desta e suga
seus mamilos. Xena caminha com Gabrielle presa em si até a sala,
cambaleando de
excitação. Deita Gabrielle no tapete da
sala e arranca com voracidade seu top,
sugando seus mamilos rosados
e rijos de tesão. Também arranca sua saia com um
puxão,
não conseguindo se conter tamanha a vontade de sentir Gabrielle gozando
de
encontro ao seu corpo. Gabrielle desamarra a saia de Xena e tira
sua blusa, bem
como a calcinha de linho branco que usava por baixo.
Elas se ajoelham frente à
frente no tapete felpudo cujas cerdas
macias acariciam seus joelhos e se abraçam.
Cada qual leva sua
mão direita até o sexo da companheira, com carícias
rítmicas e
sensuais, e ambas sentem que estavam encharcadas de
tesão. Primeiro Xena acaricia o
clitóris de Gabrielle,
sentindo-o aumentar de tamanho conforme o movimento da ponta
de seus
dedos. Gabrielle geme em seu ouvido e se contorce de prazer. Em seguida,
com delicadeza, Xena começa a introduzir dois dedos na vagina de
Gabrielle, devagar
e sincronizadamente...aproveitando a umidade de sua
cavidade e sentindo o fogo que
emanava de suas entranhas. Gabrielle,
com o braço esquerdo, aperta forte a cintura
de Xena, colando
seu corpo ao dela e emitindo sons guturais de prazer
indescritível.
Aproxima sua boca do ouvido de Xena e implora:
- Mais, Xena...eu quero
mais...eu te quero dentro de mim...
Xena introduz mais seus dedos e
inicia um movimento de vai e vem mais acentuado.
Gabrielle se abre àquele
movimento e também penetra Xena com seus dedos delicados,
porém
bastante conscientes do que deveriam fazer para dar prazer à mulher
que
amava. Xena geme alto com a penetração e abre mais
suas pernas como que autorizando
Gabrielle a fazer dela o que bem entendesse.
Os movimentos se aceleram e devido à
posição dos
dedos e pulsos, ambas conseguem manipular as vaginas e os clitóris
ao
mesmo tempo. As mulheres gritam e gemem em uníssono, enquanto
se entregam em golpes
de volúpia, alcançando um gozo pleno
e sincronizado. Ainda ajoelhadas se abraçam e
se beijam, deitando-se
a seguir para recuperar o fôlego e oportunizar a
normalização
dos batimentos cardíacos. Continuam abraçadas por longo tempo,
acariciando-se e trocando juras de amor. Após certo tempo Gabrielle
convida:
- Vamos olhar a lua?
- Pra quê? – pergunta Xena –
Para deixa-la com inveja da tua beleza???
- Realmente ela ficará
com inveja de mim...porque EU tenho a mulher mais linda do
mundo. –
responde Gabrielle embriagada de amor.
Xena a beija e responde:
- Bobinha... eu te amo...
Elas sobem para o quarto e vão
até a sacada da qual se avistava o mar Egeu. A lua
cheia refletia
sua trilha luminosa nas águas profundas e nos corpos nus das
mulheres que a contemplavam abraçadas. Gabrielle de frente para a
mureta de madeira
torneada que delimitava a sacada, com ambas as mãos
apoiadas nela, admirava o halo
prateado resplandecente que envolvia
a lua e que, se observado mais atentamente
ostentava em sua luminosidade
quase que todas as cores do arco-íris. Xena, por trás
dela, a envolvia pela cintura num abraço terno e aconchegado. Afagava-lhe
suavemente a barriga e o peito, beijando-lhe a nuca e os cabelos. Sorvia
de suas
madeixas loiras o suave perfume de ervas aromáticas as
quais Gabrielle costumava
usar para enxaguar-se após o banho.
Gabrielle sentia o toque apertado dos seios de
Xena nas suas costas,
assim como o contato sensual de seus pêlos pubianos
roçando-lhe
um pouco acima se suas nádegas. Enquanto Xena envolvia Gabrielle
pela
cintura com seu braço esquerdo, apertando-a de costas contra
si, com a mão direita
apalpava-lhe os seios, passando delicadamente
os dedos ao redor dos mamilos,
deixando-os eretos e Gabrielle totalmente
excitada. Xena era de fato uma amante
ardente e conhecedora de como
enlouquecer qualquer mortal. Em se tratando de
Gabrielle, então,
sabia perfeitamente o ímpeto que era capaz de provocar-lhe
mediante
um simples toque ou olhar. Mas Gabrielle também havia se dado conta
de seu
poder de promover ume verdadeira erupção de sensações
de volúpia e paixão na mulher
que amava. E como sabia
disso... Aproveitando-se da posição em que estavam passou
a
realizar suaves e quase que imperceptíveis movimentos circulares
de quadril,
pressionando seu dorso contra a virilha de Xena. Esta envolveu
seus quadris com as
mãos, pressionando Gabrielle contra seu púbis
e esfregando-se nela enquanto
lambia-lhe as costas. Gabrielle firmou-se
na mureta da sacada com ambas as mãos e
passou a realizar uma
dança com os quadris, cujo rebolado deixou Xena enlouquecida
de tesão. Gabrielle entreabriu um pouco suas pernas para que Xena
pudesse tocá-la e
sentir o quanto estava molhada. Xena baixou
sua mão direita e passou os dedos no
meio das pernas de Gabrielle,
ainda segurando-a de costas com o braço esquerdo, não
permitindo que se virasse de frente para ela. Ambas transpiravam excitação
por
todos os poros e embora estivesse uma noite agradável estavam
molhadas de suor.
Gabrielle continuava seu rebolado, num rogo implícito
para que Xena a penetrasse
com os dedos vorazmente, o que de fato fez
com movimentos a princípio suaves que
foram se tornando mais
ávidos e contínuos. Gabrielle gemia de prazer e pedia mais.
Enquanto penetrava o sexo de sua amada Xena lambia suas costas e lhe manipulava
os
mamilos rijos, umedecendo-os com a saliva da boca da própria
Gabrielle a qual lhe
lambia os dedos com sensualidade. Percebendo que
Gabrielle estava em seu limite,
Xena sussurra ofegante em seu ouvido:
- Goza pra mim... me dá esse prazer todo...
Ao que Gabrielle
explode num grito de orgasmo que ecoou na noite enluarada por
sobre
as águas do mar Egeu.
Exausta e com as pernas bambas Gabrielle
se vira de frente para Xena, que a abraça
apertado apoiando-a
e beijando-lhe a boca com paixão.
- Eu te amo, Gabrielle... –
sussurra ao seu ouvido.
- Eu também te amo mulher, minha mulher...
– responde Gabrielle deixando Xena sem
ar com um beijo onde sua língua
lhe chegou ao céu da boca em movimentos de puro
êxtase.
Abraçadas e se beijando cambaleiam de volta ao quarto. Gabrielle,
num movimento
rápido e preciso empurra Xena jogando-a sobre os
lençóis macios da cama.
Surpreendida Xena sorri da investida
de Gabrielle, afinal não era fácil derrubá-la
daquela maneira. Somente sua rainha amazona conseguiria fazer isso e de
forma tão
fácil. Gabrielle, de pé aos pés
da cama, a observa com um ar maroto e sensual, como
quem está
prestes a colocar em prática um plano mirabolante, mas com ótimas
chances
de obter êxito. Xena não se faz de rogada e se
ajeita nos lençóis, sempre observada
por Gabrielle. Deita-se
de costas, recostando-se nas almofadas e apoiando-se nos
cotovelos para
conseguir uma visão global de sua musa. Tão linda, tão
maravilhosa...e tão gostosa...pensava Xena, e toda dela. De fato
Xena sentia-se
possuidora do mundo, não precisava de mais nada,
Gabrielle lhe bastava. Os olhos
azuis de Xena escureceram de excitação
enquanto abria suas pernas, provocante,
oferecendo-se para Gabrielle.
Esta aproximou-se lentamente e como um felino de
olhos verdes engatinhou
na direção de Xena. Com sensualidade começou a lamber
os
pés de Xena e foi subindo por seus joelhos e pernas até
enterrar sua língua na
cavidade úmida de Xena e sugar
cada gota daquele líquido emanado de suas entranhas.
Gabrielle
amava o gosto de Xena e adorava senti-la tremer a cada movimento de sua
língua. Xena movimentava levemente seus quadris, projetando seu sexo
de encontro à
boca de Gabrielle. Esta passou a sugar o clitóris
de Xena com vigor, passando sua
língua num movimento de vai e
vem sincronizado que fizeram a princesa guerreira
entregar-se de corpo
e alma àquela sensação de crescente volúpia
e desejo. Não
conseguindo mais se conter grita e geme de prazer
gozando na boca de Gabrielle.
Gabrielle se esgueira por sobre o corpo
esmorecido de Xena e se deita sobre ela,
abraçando-a e beijando
com delicadeza sua face, testa, boca e pescoço. Xena a
envolve
com um abraço e ambas adormecem profundamente, acordando somente
no outro
dia com os primeiros raios do sol penetrando por entre as frestas
da janela e pela
porta aberta da sacada do quarto.
Gabrielle
levanta levemente a cabeça, funga no ar e diz:
- Xena...
- Huummm... – responde Xena ainda sonolenta.
- Tô sentindo cheiro
de café da manhã...
- Ahrãã...
- Xena!
Acorda!
- O que é Gabrielle?
- Tô sentindo cheirinho
de café...
- É a fome, amor...
- Quer fazer o favor
de acordar e respirar fundo?...
Frente a insistência de Gabrielle,
Xena se apóia sonolenta num dos cotovelos e
inspira profundamente.
- Sabe que você tem razão?... Tem gente lá embaixo,
e estão com o café pronto –
responde Xena surpresa – Deve
ser Morgana.
- Pensei que ela só viria mais tarde.
- Pois
é... mas parece que essa mulher é madrugadora. Vista-se e
vamos descer.
Gabrielle pula da cama, coloca sua roupa e alcança
as vestes de Xena que ainda
fazia mais uma manhãzinha na cama:
- Ai que caminha boa... Tô acabadinha... você vai acabar me
matando, Gabrielle.
- Ah... eu, né dona Xena? Eu que fico toda
assanhada, né?
- Ééééé...
você!
- Tá bem, vamos acabar a polêmica por aqui
porque eu tô morrendo de fome!
- Novidade...
- Pra agüentar
o tranco eu preciso estar bem alimentada... – responde Gabrielle
debruçando-se
sobre Xena e lhe sapecando um beijo na boca.
Xena a enlaça num
salto, puxando-a para cima de si e a prendendo com as pernas.
- Xena...
Xena salta sobre Gabrielle imobilizando-a na cama, segurando seus braços
numa
brincadeira divertida, deixando-a debater-se na tentativa de escapar.
- Eu só te solto se disser que me ama...
- Eu te amo – diz Gabrielle
sorrindo apaixonadamente – mais do que tudo na minha vida.
Xena solta
seus pulsos, relaxa e a beija carinhosamente. Gabrielle a enlaça
pelo
pescoço e beija seus ombros. Aproveitando-se da distensão
de Xena é Gabrielle quem,
num giro rápido, a derruba de
lado e se deita sobre ela, imobilizando-a, ou pelo
menos acreditando
nisso. Xena gargalha e diz:
- Eu também te amo!!!
- Mas eu
não vou te soltar...
- O café vai esfriar...
- Pensando
bem... te prendo mais tarde – diz Gabrielle num salto, jogando a roupa
de Xena sobre ela – te veste logo e vamos descer.
Enquanto Xena
coloca suas roupas Gabrielle lava o rosto e escova seus cabelos.
Ambas
descem as escadas de mãos dadas e encontram Morgana na cozinha, em
frente ao
fogão e já com a mesa posta.
- Espero não
tê-las acordado com barulho – diz Morgana sorrindo.
- Não
foi barulho, não... foi o faro de certa pessoa – responde Xena debochada.
Gabrielle a belisca no traseiro.
- Aiii...
Morgana acha graça
do comentário. Gabrielle comenta:
- Realmente eu não resisto
ao cheirinho de café da manhã...
- Edna veio junto? –
questiona Xena.
- Veio sim, mas está na queda d’água,
foi dar um passeio. Na verdade eu corri com
aquela mulher daqui, ela
é um furacão, quando acordada ninguém mais dorme por
perto... e eu imaginei que vocês estivessem precisando descansar...
– refere Edna
provocante.
Gabrielle fica corada e Xena sorri:
- Ôôô... e como!!! – responde Xena olhando maliciosamente
para Gabrielle que fica
mais desconcertada ainda.
Desta vez quem
cai na gargalhada é Morgana. Dirige-se à Gabrielle carinhosamente:
- Desculpe a brincadeira – diz beijando-lhe a testa – mas você fica
uma graça com
as faces nesse tom vermelho pitanga...
Gabrielle
abraça Morgana sorrindo:
- Tudo bem, tudo bem... eu logo me acostumo
com essa situação!
- Morgana... – diz Xena – obrigado
por tudo... em especial pelo presente
de...casamento.
- Ora Xena,
é o mínimo que eu posso fazer por uma pessoa que amo tanto,
você é uma
verdadeira irmã. E você, Gabrielle,
é uma mulher de sorte. Você possui o coração
e
a alma de uma das melhores pessoas que eu conheço, de melhor
caráter e pureza de
sentimentos.
- Eu sei, Morgana, com toda
a certeza, eu sei. E por amá-la e ser amada eu sou a
pessoa mais
feliz do mundo. – responde Gabrielle emocionada.
Xena abraça
Gabrielle.
- Você é maravilhosa...e minha. Minha mulher...
– diz Xena beijando a testa de
Gabrielle.
Morgana sente uma alegria
profunda pela felicidade e cumplicidade de Xena e
Gabrielle. Elas sentam
à mesa e tomam café.
- Não deveríamos esperar
por Edna? – questiona Xena.
- Ela já comeu suas frutinhas matinais...
– responde Morgana – quando voltar do
passeio com certeza fará
a segunda etapa do desjejum – emenda sorrindo.
Na floresta Edna
passeia pela trilha que leva à pequena cachoeira. Observa o
desenho
dos troncos das árvore em busca de inspiração e matéria
prima para suas
esculturas. É uma figura bastante marcante, uma
bela mulher, esguia, cabelos
pretos, longos e lisos, soltos sobre seus
ombros, pele alva, mas não tanto quanto a
de Morgana. Vista de
longe, emoldurada com a queda d’água ao fundo e a mata virgem
ao redor, aparenta mais altura do que realmente possui. Movimenta-se como
uma
pantera por sobre as pedra da cachoeira. Seu vestido branco e justo
marca a
silhueta de sua cintura e pequenos seios, e sua saia longa com
uma fenda lateral
deixa à mostra suas pernas bem torneadas a
cada movimento que realiza. Edna é uma
mulher pequena mas cujos
traços e olhar expressivo e vivaz fazem dela uma figura
célebre
por onde quer que passe. Não era à toa que Morgana arrastaria
o Templo de
Zeus por ela. Quando o sol se ergueu um pouco mais no horizonte,
e acreditando que
as suas visitantes já estivessem acordadas,
Edna retorna para casa. Adentra na
cozinha como se um raio de luz houvesse
rompido a soleira da porta.
- Bom dia, dorminhocas !!! – diz Edna dirigindo-se
às visitantes e abraçando Xena
que havia se levantado
para recebe-la.
Elas se abraçam efusivamente. Edna quase some
no abraço de Xena.
- Deixe-me vê-la de perto, princesa
guerreira... – diz Edna segurando Xena pela mão
e fazendo-a rodar
como se estivesse num desfile de moda – continua bela como
sempre...
mas os olhos... nunca estiveram com esse brilho antes...
- Você
também continua a mesma... sempre essa explosão de mulher!!!
– responde Xena
rindo alto. – Edna, esta é Gabrielle. Gabrielle,
Edna.
- Muito prazer – responde Gabrielle sorridente.
Com o mesmo
extravasamento com que cumprimentou Xena, Edna abraça Gabrielle e
lhe
beija as faces:
- Bem vinda!!! E muito prazer!!!
- O prazer
é todo meu. – responde Gabrielle.
- Mas vamos nos sentar... terminem
o café que eu vou acompanha-las... – diz Edna.
- Eu não
falei? – comenta Morgana divertidamente.
Edna se dirige à Morgana
que permanecia sentada à mesa, a abraça por trás e
num
delicado movimento move sua face para si com a ponta dos dedos e
lhe beija a boca
carinhosamente.
- Aposto que já andou fazendo
fofocas a meu respeito para a Gabrielle, não foi? –
questiona
Edna em tom de brincadeira.
- Somente uma pequena referência acerca
da tua...efusão matinal... – responde
Morgana retribuindo o beijo
na boca, sedutoramente, invadindo a boca de Edna com a
língua.
Novamente Gabrielle fica corada. Xena observa a cena e sorri, divertindo-se
com o
rubor de Gabrielle e com as provocações e a intimidade
resultantes de dezoito anos
de um relacionamento entre verdadeiras almas
gêmeas. Eram opostos, isso não se
podia negar, mas completavam-se
plenamente. Edna era a tempestade e Morgana a
calmaria. Edna era o fogo
e Morgana a água. Morgana se dedicava a desvendar os
mistérios
da magia e da natureza, enquanto Edna trabalhava na transformação
desta
última em obras de arte. Era escultora por hobby mas seu
forte eram as ciências
exatas, a matemática e a física.
Executava trabalhos de engenharia elaborando
plantas e supervisionando
a construção de casas, templos, museus, teatros e
estradas.
Estas atividades eram culturalmente masculinas, porém Edna havia
conquistado seu espaço e seus serviços eram requisitados por
quase toda a Grécia e
Egito. Havia aprendido o ofício
com seu pai, ainda um grande empreendedor no ramo
das construções,
embora Edna já trabalhasse por conta própria há bastante
tempo.
Moravam juntas em Mytilene, porém pela exigência
de seu trabalho, Edna passava
grande parte do tempo em viagens e mantinham
uma casa no continente, em Atenas.
- E então Gabrielle? – questiona
Edna – O que está achando da ilha?
- Um paraíso! – responde
Gabrielle.
- Realmente, desconheço lugar mais maravilhoso, porém
o paraíso nós carregamos
dentro de nós mesmos,
e ao nosso lado... – responde Edna sorrindo e olhando
significativamente
para Xena.
- Com toda a certeza! – responde Gabrielle já mais
à vontade.
Xena se aproxima, enlaça Gabrielle carinhosamente
e a beija nos lábios. Esta
retribui e admira-se de si mesmo por
não ter enrubescido. Parece estar ficando,
realmente, mais sem
vergonha...
- Gabrielle, você gostaria de me acompanhar numa colheita
de ervas e frutos na
floresta para os preparativos do solstício?
– pergunta Morgana.
- Adoraria!!!
- E nós vamos nos divertir
numa cavalgada, Xena. Quero ver se você ainda é boa na
corrida com obstáculos. – diz Edna animada.
- Estou melhor a
cada dia! – responde Xena.
- Então vamos!!!
Edna e Xena
montam e se dirigem para a planície às margens do Mar Egeu,
enquanto
Gabrielle e Morgana vão até a floresta.
Morgana
carrega uma cesta feita artesanalmente por ela, enquanto Gabrielle carrega
outra, amarrada às costas, para recolherem o maior número
possível de ervas para o
preparo de infusões, pomadas,
poções e ungüentos, bem como frutas silvestres para o
preparo da ceia do solstício de verão. Fazia um dia quente,
porém dentro da
floresta o clima estava ameno por causa das sombras
das árvores e da umidade
natural da mata. Morgana dá uma
verdadeira aula de fitotecnia para Gabrielle, que
presta atenção
em cada detalhe explicado por Morgana, principalmente nas
referencias
às pequenas diferenças entre uma planta e outra que muitas
vezes fazem
com que haja confusão em sua identificação
e conseqüente emprego. Gabrielle se
admira da facilidade com a
qual Morgana diferencia os materiais colhidos, inclusive
as frutas,
uma vez que muitas das que se encontram na floresta são impróprias
para
o consumo por sua toxicidade.
- Morgana, você deveria
escrever um livro...
- Mas eu já o tenho redigido de longa data,
porém não para publicação em massa.
Existem
princípios que se passam de geração em geração
de uma forma seletiva e
subjetiva. Nem todas as pessoas são merecedoras
de certos conhecimentos, poderiam
fazer mau uso do poder que advêm
da natureza e da manipulação dos elementos.
- Como assim?
- Os elementos da natureza, água, terra, fogo, ar e éter,
são poderosas forças
criadoras, ou destrutivas, portanto
antes de se aprofundar nos estudos destas
forças é necessário
que se tenha princípios de ética muito bem estruturados.
- Entendi. Desde quando você trabalha com essa vertente de conhecimentos?
–
questiona Gabrielle.
- Acho que desde sempre, mas aprendi muito
com minha tia-avó materna. Passava a
maior parte do meu tempo
de infância metida em sua cabana, remexendo em seus
escritos e
no seu caldeirão. Ela ainda nos visita com freqüência.
É uma figura
bastante exótica, mas divertidíssima.
- Adoraria conhece-la.
- Por certo não faltará oportunidade
– responde Morgana enquanto continuam a
colheita e a seleção
das ervas e frutos.
Aquele dia estava de fato muito quente. Edna
e Xena galopam por entre as planícies,
saltando sobre tocos de
árvores caídas, pedras e arbustos, enfim, qualquer coisa
que se configurasse num obstáculo e por conseqüência um
desafio. Chegam até a
sombra de uma figueira gigantesca, por
certo milenar considerando-se o diâmetro de
seu tronco e a largura
de sua copa. Deixam os cavalos descansando, pois estavam
exaustos da
corrida. Sentam-se na relva e conversam durante um bom tempo,
observando
de longe o vai e vem suave das ondas do mar Egeu. Este mais parecia um
lago gigante do que um mar, tamanha calmaria que reinava em suas águas.
- E então amiga? Parece que desta vez você foi fisgada direitinho...
– diz Edna
sorrindo.
- Pois é... e eu estou adorando isto.
- Quem diria, ein? Para quem já teve os mais belos espécimes
masculinos rastejando
aos seus pés...
- Isso é passado
– responde Xena – De fato, tive várias paixões, porém
só descobri
o amor e a plenitude com Gabrielle.
- Gostei
daquela menina. Com certeza ela te fará feliz!
- Já faz...
desde que a vi pela primeira vez.
- Ela tem sensibilidade e doçura...
mas deve ser uma fera quando zangada, ein?
- Se é! – responde
Xena rindo da colocação da amiga – Ela de fato é uma
onça quando
as coisas não saem do jeitinho que ela quer.
- E parece que a última palavra é sempre tua: “sim, querida!!!”
As duas gargalham e Xena diz que realmente Gabrielle consegue dela o que
quer, e o
que é mais incrível é o modo como ela
consegue isso. Utiliza seu golpe mais baixo:
aquele sorriso com o narizinho
franzido, cujos pedidos não tem como serem
recusados. Edna coloca
Xena ao par de seus novos empreendimentos, conversam sobre o
clima,
sobre política, cavalos, enfim, quando se dão por conta já
era hora de
retornarem para casa.
Quando chegam o almoço
já está pronto e as quatro degustam uma sopa de vegetais
cujo sabor era indescritível de tão bom.
- Que coisa deliciosa...
– comenta Xena.
- Eu aprendi a receita com a Morgana – responde Gabrielle.
- Ótimo, vejo que vou provar desta maravilha muitas vezes. – diz
Xena satisfeita.
Após o almoço elas descansam um
pouco nas redes suspensas nas colunas do alpendre
da frente da casa,
afinal precisam estar descansadas para a noite que promete ser
de muitas
festividades. À tarde Edna convida Morgana para um banho de mar.
Xena e
Gabrielle preferem fazer uma breve caminhada pela propriedade
e explorar alguns
cantos ainda desconhecidos.
Seguem por uma trilha
na direção dos fundos da propriedade e após passarem
por uma
razoável extensão de mata semi cerrada chegam
até uma clareira que descortina um
fértil vale.
No
lado esquerdo da trilha existe uma rústica choupana, com paredes
de tijolos de
barro e madeira, com um sótão e cobertura
de sapé. Apesar de bem antiga e escondida
na floresta não
tinha aspecto de estar abandonada. Mais tarde descobriram tratar-se
de um laboratório das pesquisas de Morgana. Ao lado da choupana havia
um lago com
águas translúcidas, circundado por pedras
e onde se refletia a vegetação do redor.
Em frente à
casa um maricá florido, com suas delicadas flores brancas. Atrás
árvores verdejantes e bem ao fundo se avistava o mar Egeu.
Seguindo
ainda por uma trilha à direita da choupana Gabrielle e Xena chegaram
até
um jardim com pequenas fontes de águas correntes canalizadas
por bambus formando
ornatos em meio à mata virgem. Numa delas
foi construído um pequeno moinho, cuja
finalidade era somente
embelezar a fonte e servir de ponto de observação para quem
desejasse meditar e entrar em sintonia com as energias do local. Eram trabalhos
minuciosos, porém primavam pela simplicidade e beleza. Coisas de
Edna!
Xena e Gabrielle se recostam à sombra de uma árvore,
sentando-se sobre um tronco
caído e estrategicamente rolado para
junto do tronco de um ipê florescido. Observam
a paisagem paradisíaca
e conversam:
- Xena, faz tempo que você conhece Morgana e Edna,
não é mesmo?
- Faz, Gabrielle, bastante tempo...
-
Por que Morgana referiu que te teria uma dívida contigo? Você
a salvou dos
romanos? Como?
- Olha Gabrielle, é uma longa
história... e como eu sei que você não vai descansar
enquanto não souber, e como temos tempo de sobra, vou te contar –
responde Xena
abraçando Gabrielle afetuosamente e aconchegando-a
contra seu peito.
- Foi assim: - continua Xena – Eu conhece Edna desde
a infância. Ela foi minha
melhor amiga e ainda é. Quando
meu pai foi embora eu era pequena e mamãe precisou
trabalhar
para prover o nosso sustento. Meus irmãos ajudavam, mas também
eram
jovens e inexperientes. Como nossa casa era grande mamãe
teve a idéia de
transforma-la em hospedaria e taverna, como é
até hoje. Quando eu tinha cerca de
dez anos, o pai de Edna, Turybius,
foi o responsável pela execução de um aqueduto
em Tróia. A aldeia de Amphipolis ficava perto e possuía algumas
das nascentes das
quais a água seria canalizada, sendo assim
Turybius acabou se hospedando em nossa
casa. Edna o acompanhava sempre
que possível em suas viagens, sendo que fomos
apresentadas nesta
ocasião. Temos a mesma idade, aliás, fazemos aniversário
com
dois dias de diferença somente.
- Nossa... que coincidência
– refere Gabrielle.
- Pois é. Quando nos conhecemos foi amor
à primeira vista. – Xena sorri.
Gabrielle faz uma careta de ciúmes,
brincando com Xena e dando-lhe um tapinha no
ombro.
- Passamos grande
parte de nossa infância e adolescência juntas. Tínhamos
os mesmos
gostos, adorávamos desbravar recantos desconhecidos
na floresta, colecionar
insetos, cavalgar, subir em árvores,
nadar e, principalmente, visitar Niklos,
passando com ele inúmeras
tardes auxiliando-o em suas atividades... na verdade mais
atrapalhávamos
do que ajudávamos – sorri Xena – mas ele adorava nossa companhia,
fazia quase todas as nossas vontades. O aqueduto levou anos até ser
totalmente
concluído e, mesmo depois, continuamos a nos ver com
freqüência.
- Por isso vocês tem tanta intimidade!
– sorri Gabrielle.
- Com certeza. Bem, certa feita Turybius fez uma
viagem de negócios para Roma e nos
levou com ele. Tínhamos
dezoito anos na época. A princípio fiquei encantada com a
beleza da cidade, mas logo nos deparamos com as barbaridades sofridas pelo
povo.
César não é o único tirano que governou
Roma, seus antecessores também tiveram seus
dias de jugo e perseguições.
Naqueles dias o imperador temia qualquer ideologia que
ameaçasse
seu poder absoluto e punia a quem quer que fosse com perseguição
e morte,
o povo não tinha liberdade de pensamentos.
- Parente
de César não podia ser boa coisa mesmo... – retruca Gabrielle.
- Pois é. Num final de tarde estávamos na praça principal
quando cerca de vinte
centuriões romanos irromperam pela alameda
central, montados em seus cavalos
negros, cheios de empáfia,
arrastando um ancião e uma jovem de lindos olhos azuis e
longos
cabelos avermelhados.
- Era Morgana!!! – exclama Gabrielle.
- Era.
- Que desgraçados esses centuriões, ein? E quem era o ancião?
- Anacleto, o avô de Morgana. Ela perdeu os pais muito pequena e foi
criada pelos
avós maternos, Anacleto e Mirian. Anacleto era um
curandeiro, profundo conhecedor
de ervas, magias e forças ocultas.
O povo corria para ele em qualquer situação de
doença,
desequilíbrio ou impasse. Era um homem bom e justo. Mirian era parteira
e
por suas mãos nasceram centenas, senão milhares, de
crianças. Ambos tinham ideais
de igualdade e não aceitavam
o jugo dos poderosos. Como não se calavam frente às
injustiças
passaram a fazer parte da lista de ameaças ao imperador, sendo
perseguidos. Naquela tarde Mirian foi avisada de que seriam capturados,
mas como
estava atendendo um parto cuja mãe e filho corriam risco
de vida, não conseguiu
chegar a tempo em casa de avisar o marido
e a neta. Os vizinhos esconderam Mirian
após a captura de Anacleto
e Morgana.
- Xena, como é que pode ter existido um antecessor
tão parecido com César? Ele
realmente teve ótimos
exemplos... – ironiza Gabrielle – mas, e depois?
- Enquanto os centuriões
passavam, sob vaias de alguns poucos que se atreviam a
desafia-los e
aplausos da maioria que temia por sua integridade, Edna correu para
junto do cordão de isolamento formado pelos soldados e avistou Morgana.
Gabrielle,
foi uma das coisas mais incríveis que eu já
presenciei, tamanha a sintonia daquelas
duas. Elas se entreolharam por
breves instantes, fixando os olhos uma na outra, e
foi como se o tempo
houvesse estancado. Morgana estava com as faces vermelhas de
exaustão
e seu olhar era de medo. Os cabelos amarrados para trás estavam
desgrenhados pelos empurrões dos guardas. Anacleto seguia impassível,
cabeça
erguida e olhos no horizonte. Morgana seguia arrastada,
tendo as mãos acorrentadas
ao avô. Edna ficou petrificada
observando a cena. Morgana ainda olhou para trás e
esboçou
um sorriso afetuoso para Edna. Foi o que bastou para Edna ter a certeza
de
que aquela era a mulher da sua vida. Virou-se para mim e disse baixinho,
em tom
desafiador e decidido: “vamos liberta-los.”
- Essa Edna era
um furacão, ein?
- Se era!!! – concorda Xena – Enfim, corremos
até Turybius e contamos o ocorrido.
Ele era um homem justo e
discordava dos métodos pouco ortodoxos do imperador
romano. Turybius
era um homem bastante influente e prometeu à Edna que no dia
seguinte iria até o Palácio, ter com os assessores do imperador
para saber de quem
se tratava e ver o que poderia ser feito para liberta-los.
Tentou acalmar Edna
argumentando que estariam seguros naquela noite,
pois o déspota não perderia a
oportunidade de tornar pública
uma execução para demonstrar poder e impor
obediência
pela força.
- Mas Edna não se convenceu, não é
mesmo? – questiona Gabrielle.
- Parece que você já aprendeu
a conhece-la Gabrielle. Não, não se convenceu. Ela
era
teimosa e obstinada como ainda é! – refere Xena sorrindo – E eu fiquei
sem
saber o que poderíamos fazer. Mas concordava com ela que
não poderíamos ficar
esperando o desenrolar dos fatos
sem fazermos alguma coisa. Fomos para o quarto
para pensarmos numa estratégia
de ação. Sabíamos sobre os riscos que correríamos,
mas estávamos dispostas a pagar para ver. Entendi naquele momento
que eu lutava
por um ideal e Edna, mais que isso, estava disposta a
lutar por um amor. “Eu já
tenho um plano”, me disse Edna empinando
o nariz após algum tempo matutando. Ela me
arrastou até
o quarto de seu pai, que havia saído para uma reunião e voltaria
tarde
da noite, e abriu um baú contendo frascos com medicações.
Apanhou um vidro com um
líquido turvo e amarelado referindo ser
um potente anestésico utilizado por seu pai
quando algum de seus
operários sofria algum acidente grave. Em seguida pegou um
garrafão
de vinho e derramou três quartos do anestésico nele, garantindo-me
que
apenas algumas gotas fariam dormir um centauro por pelo menos oito
horas seguidas.
O restante do frasco gotejou num bolo de frutas secas
que pegou na cozinha e que
havia sido feito naquele mesmo dia.
-
Mas, afinal o que vocês pretendiam fazer? – pergunta curiosa Gabrielle.
- Pois é... era um plano arriscado e confesso que estava apavorada.
- A princesa guerreira apavorada???
- Gabrielle, naquela época
eu não manuseava uma espada como hoje! Aprendi mais
tarde por
força do destino... – diz Xena baixando os olhos e emudecendo frente
às
lembranças de seu passado sombrio.
- Xena, o que
passou, passou! Hoje você é a minha Xena, a bela pessoa que
nunca
deixou de ser! Levante os olhos e termine a história que
eu tô morrendo de
curiosidade.
Xena sorri frente a impaciência
de Gabrielle e continua:
- Muito bem. Naquela noite nos disfarçamos,
até hoje não sei ao certo onde Edna
conseguiu duas perucas
loiras, e saímos pela janela do quarto, por uma corda feita
com
lençóis, e fomos até a prisão. Achamos o local
com facilidade, pois todos
conheciam a localização do
temível calabouço do palácio, de onde raramente se
saía
com vida. Gabrielle, até hoje eu não sei bem
como conseguimos entrar...
- Eu imagino como! Duas moças sedutoras
insinuando-se para soldados sedentos de
belos corpos... sei.
- Realmente,
Edna usou todo seu poder de sedução. Eu mal conseguia disfarçar
o
tremor dos joelhos. Mas confesso que encenei minha parte direitinho...
– refere
Xena sorrindo.
Gabrielle lhe belisca a coxa:
- Sua
depravada!!!
- Mas foi por uma boa causa... – diz Xena rindo do ciúme
de Gabrielle. – Sua
bobinha... Edna ofereceu vinho e bolo para os guardas
e nem foi preciso colocar
toda nossa performance em prática,
pois os soldados literalmente despencaram após
alguns minutos
e dormiram como anjos por muito tempo. Pegamos as chaves das celas e
localizamos Morgana e Anacleto. Edna abriu a cela e encarou Morgana que
abriu o
mais belo sorriso que Edna já havia visto. Edna pegou
Morgana pela mão e dirigiu-se
a Anacleto dizendo: “vamos, não
temos tempo a perder”. Libertamos os demais
prisioneiros e saímos
sorrateiramente daquele antro. De volta à casa que ocupávamos
subimos pelos lençóis e escondemos Morgana e Anacleto em nosso
quarto. Estávamos
tranqüilas, pois sabíamos que ninguém
ousaria procurar prisioneiros fugitivos na
casa que hospedava o influente
construtor Turybius, estávamos acima de qualquer
suspeita. Já
era bem tarde e Edna se armou de coragem e foi até o quarto do pai,
que já havia retornado da reunião e se preparava para dormir.
Contou-lhe o que
havíamos feito. A princípio Turybius
ficou furioso pelo risco que havíamos corrido,
porém após
passado o susto gargalhou com nossa proeza e concordou em ajudar
Turybius
e sua família. Foi com Edna até nosso quarto para conhecê-los
e convidou
Anacleto para ir até seu escritório, para conversarem.
Anacleto lhe contou sobre o
porquê de ter sido preso e sobre sua
preocupação com Mirian. Turybius encantou-se
com a bondade
e a sabedoria de Anacleto e comprometeu-se a ajuda-lo. Acomodou-o em
um dos quartos, enquanto Morgana ficou conosco. Providenciamos uma refeição
e em
seguida nos recolhemos. Edna e Morgana conversaram longamente,
era como se já se
conhecessem, tamanho entrosamento e afinidades.
Olhavam-se nos olhos e sorriam.
Pensei: “eis duas mulheres felizes”.
Estavam sentadas frente a frente na cama de
Edna e conversavam de mãos
dadas. Edna havia desembaraçado o cabelo de Morgana e eu
lhe
emprestei uma muda de roupas, a qual vestiu após o banho. Como eu
estava meio
que sobrando naquela noite, mas não me importava
nem um pouco pois via a felicidade
estampada nos olhos de Edna e Morgana,
resolvi me recolher. Deitei em minha cama e
fiquei observando as duas
até adormecer. A madrugada já estava bem alta quando
acordei
e vi que minha amiga sussurrava palavras de amor no ouvido de Morgana.
Estavam nuas, Edna deitada sobre Morgana, beijando seus cabelos, boca, pescoço,
seios. Estavam se amando. Amavam-se com delicadeza e suavidade, por certo
para que
eu não despertasse. Formavam um único ser, eu
não conseguia distinguir onde
terminava uma e começava
a outra. Percebi que, de fato, tratavam-se de almas
gêmeas. Naquele
momento pensei se um dia eu também viveria um grande amor, se
encontraria minha outra metade... e encontrei. – disse Xena beijando Gabrielle
nos
lábios.
- Eu te amo, Xena... – diz Gabrielle retribuindo
o beijo.
- Bom, continuando... Fechei os olhos e continuei dormindo.
No dia seguinte, bem
cedo, Edna e eu saímos com o pretexto de
passear, mas nosso real objetivo era
encontrar Mirian. Morgana nos contou
onde ela poderia estar e como deveríamos nos
apresentar para
que nos identificasse como amigas, fez um bilhete para a avó. Fomos
até o vilarejo de Morgana, até a casa de amigos e referimos
ter um recado de
Morgana. Mostramos o bilhete e fomos levadas até
Mirian, que nos abençoou por
termos salvo sua família.
Havíamos levado um uniforme das serviçais de Turybius e
Mirian se fez passar por cozinheira, indo conosco para casa sem levantar
suspeitas.
Nem preciso contar a felicidade de reencontro com Anacleto
e Morgana. Família
reunida, era preciso colocar em prática
a segunda parte do plano. Sairiam de Roma
juntamente com os serviçais
de Turybius e iriam para a Grécia, para uma nova vida.
Haviam
soldados romanos por toda a parte, porém sem muito alarde pois o
imperador
jamais deixaria tornar-se público o episódio
em que seus guardas de elite foram
feitos de bobos.
- Xena, eu vou
ser obrigada a escrever esta história. – diz Gabrielle boquiaberta.
Xena sorri e continua:
- A comitiva de Turybius saiu da cidade sem maiores
problemas, sendo inclusive, e
ironicamente, escoltada por soldados romanos
até os limites da cidade, para
garantir a integridade do influente
arquiteto e engenheiro grego! – Xena gargalha
da situação.
- Mas vocês não estavam nervosas? – questiona Gabrielle.
- Claro que sim. Mas confiávamos em Turybius que tomou as devidas
precauções antes
de partirmos. Chegando na Grécia
Turybius alojou a família de Morgana em sua
própria casa,
temporariamente. Como Anacleto e Mirian não estavam acostumados ao
agito das grandes cidades Turybius achou o lugar perfeito para acomoda-los.
Comprou
uma propriedade na ilha de Lesbos, perto de onde Morgana e Edna
vivem atualmente, e
instalou o casal e a neta. Não demorou muito
para perceber o envolvimento de Edna e
Morgana, pois era um homem vivido
e, graças aos deuses, desprovido de preconceitos,
queria apenas
a felicidade de sua filha. Por este motivo ofertou às duas o sítio
onde moram atualmente, para que ficassem perto de Anacleto e Mirian. E foi
assim
que teve início uma das mais belas histórias de
amor que eu conheço. A outra é a
nossa... – diz Xena apaixonadamente.
Gabrielle a braça e a beija com paixão. O sol começa
a se por no horizonte e a
claridade vai dando lugar ao manto cinzento
da noite, pronto para descortinar as
estrelas e a lua prateada. Retornam
para casa de mãos dadas e encontram Edna e
Morgana fazendo os
preparativos para a ceia da noite, anterior ao solstício de
verão.
Na noite seguinte, a do solstício de verão propriamente dito,
haverá uma
celebração no sítio, com a participação
de várias amigas, em honra da deusa Mãe
Terra. Deixam
a mesa posta e a casa arrumada.
Quando anoitece o quarteto
se embeleza para assistir a apresentação de Safo, no
teatro
da cidade. Partem cedo e conseguem lugares na primeira fila. Quando se
inicia o espetáculo Gabrielle nem pisca, totalmente absorta nos poemas
e canções.
Inicialmente as alunas se apresentam e quase
no meio do espetáculo Safo sobe ao
palco e arranca aplausos incontidos
da multidão mesmo antes de iniciar sua fala.
Quando cessam as
palmas Safo declama:
”Tenho sede...
Sugo de teus lábios
assustados
o mesmo beijo de antes.
Enterro minha língua até
o céu da tua boca,
Buscando recuperar meu paraíso” (2)
Safo apresenta-se por cerca de cinqüenta minutos, encantando
a platéia. No final da
apresentação Edna e Xena
se afastam para buscar os cavalos. Ao regressarem
Gabrielle comenta:
- Que demora, ein? Aposto que o teimoso do Argo estava empacado... – diz
Gabrielle,
mais em tom de brincadeira do que de crítica.
- É... mais ou menos – responde Xena dirigindo um olhar de cumplicidade
para Edna e
mudando rapidamente de assunto.
Xena e Gabrielle
montam em Argo, enquanto Morgana e Edna em Ventania. Ventania era
um
belo cavalo negro, pelo brilhante e porte majestoso, olhos expressivos e
ouvidos
sempre atentos à quaisquer sons diferentes do que o normal.
Cavalgam observando
outro maravilhoso espetáculo, desta vez encenado
pela lua cheia. O caminho estava
iluminado pelo clarão da lua,
sendo que se podia avistar facilmente as criaturas da
noite, principalmente
as corujas. Chegando em casa cearam em comemoração ao
solstício. À meia noite trocaram presentes. Edna e Morgana
presentearam Xena com um
par de braceletes de couro com detalhes em
prata e minúsculas pedras de marcassita.
Para Gabrielle deram
um pergaminho contendo uma espécie de glossário sobre botânica
e fitoterapia, escrito pela própria Morgana. Gabrielle se emociona:
- Acho que não sou merecedora dessa preciosidade...
- È
sim... com toda a certeza – diz Morgana – Você é a pessoa que
eu esperava para
repassar estes conhecimentos. Faça bom uso.
- Com certeza, farei... muito obrigado.
Desta vez é Xena e Gabrielle
que estendem um pacote para Morgana e outro para Edna.
No de Morgana
se encontra um turíbulo de bronze, com flores do campo esculpidas
nas
laterais, e no de Edna uma saia longa de seda em cor salmão
com detalhes dourados
na barra e no cós. Ambas agradecem os presentes.
Gabrielle estende para Xena um
diadema dourado, todo incrustado com
águas marinhas e lápis lazúlis intercalados,
cujo
brilho era semelhante ao azul dos olhos de Xena, uma verdadeira obra de
arte.
- Uma coroa para uma princesa... para a minha princesa – diz Gabrielle
apaixonadamente, colocando o ornato na cabeça de sua amada – Nossa...
ficou
lindo!!!
Edna e Morgana aplaudem. Xena diz:
- Obrigado,
meu amor... o teu presente está lá em cima...
- Ai...
então vamos subir???
- Tudo bem... mas só te dou depois
da meia noite.
- Aaiii, que mania de fazer suspense!!! – reclama Gabrielle.
Xena a enlaça pela cintura, a beija e responde:
- É que
eu gosto de te ver curiosinha...
Edna intervem em favor de Gabrielle:
- Olha, já é tarde, porque não sobem?
- E vocês?
– questiona Xena.
- Nós vamos ficar aqui na sala mais um pouco...
aproveitando a brisa e colocando as
novidades em dia – responde Morgana.
Xena e Gabrielle se despedem e sobem. Vão até a sacada
para contemplar a lua, e
esperar ameia noite, afinal Gabrielle estava
curiosa por demais. Sentam-se
abraçadas, de frente para a lua
e o mar. Trocam carícias por muito, muito tempo,
inclusive perdem
a noção da hora. A lua já estava bem alta quando Gabrielle
pergunta:
- Já passou da meia noite...
- É... é
bem provável... – responde Xena.
- E isso não te lembra
nada???
- Lembra...
- E...???...
- E eu estou com sede, vou
buscar água.
- Eu vou junto! – diz Gabrielle – Será que
nossas amigas já se recolheram? Não ouço
mais barulho
lá embaixo.
- Então vamos descer em silêncio...
– fala Xena baixinho dirigindo-se para a escada
seguida de perto por
Gabrielle.
Quando alcançam o segundo degrau da escadaria
Xena estanca e segura Gabrielle,
fazendo um gesto para que se calasse
e desse meia volta na escada. Edna e Morgana
ainda estavam na sala,
porém somente com a luz do luar penetrando pela janela
aberta
e refletindo diretamente sobre seus corpos nus. Estavam se amando. Gabrielle
e Xena não puderam deixar de contemplar, mesmo que por breves instantes,
a beleza
daquele momento. Deitadas de lado, frente a frente e em sentido
inverso, uma sugava
com paixão o sexo da outra. Bebiam da fonte
dos prazeres e gemiam baixinho a cada
movimento de língua e de
quadril. Acariciavam nádegas e coxas enquanto sorviam a
umidade
quente que escorria das entranhas da companheira. Abocanhavam grandes e
pequenos lábios, penetravam-se com a língua em movimentos
vigorosos e se detinham
lambendo seus clitóris com volúpia
e luxúria. A luz da lua refletida nos corpos em
movimento tornava
a cena digna de ser contemplada. Em dado momento a vibração
dos
corpos das amantes se tornou mais voraz e espasmos de prazer inundaram
concomitantemente aqueles seres sedentos de amor, culminando com o clímax
de um
duplo orgasmo sincronizado e indescritível.
Xena
e Gabrielle deram meia volta em silêncio e retornaram para o seu quarto.
Gabrielle permanecia muda, extasiada com a cena que havia presenciado. Xena
quebra
o silêncio:
- Vou ter de pular a janela para pegar
água...essa água aqui de cima é quente e eu
preciso
de água fria... – diz saltando do parapeito da sacada com o auxílio
de seu
chicote. Retorna em poucos minutos, escalando a sacada, com um
odre repleto de água
fresca.
Gabrielle ainda permanecia em
silêncio.
- Agora pode falar, Gabrielle...
- Sabe Xena, nossas
amigas são realmente almas gêmeas, assim como a gente.
- São sim... o amor delas é lindo – responde Xena.
- Como
o nosso...
- É, como o nosso... – diz Xena abraçando Gabrielle
e beijando-a com paixão.
- Xena...
- O que?
- Não
tá esquecendo de nada???
- Ah, sim... toma – diz Xena estendendo
o odre com água.
- Não é isso...
- Ah, sim...
– responde Xena sorrindo, divertindo-se com a impaciência da mulher.
Xena se dirige à janela do quarto e por detrás da cortina
retira um pacote
escondido e o entrega à Gabrielle:
- Feliz
solstício, meu amor...
Gabrielle desenrola o presente e vê
que se trata de um pergaminho. Ao ler seu
conteúdo percebe tratar-se
de um poema de Safo, escrito por seu próprio punho, a
pedido
de Xena:
- Gabrielle, eu não sou muito boa com as palavras, e
como eu gostaria de externar o
que me invade a alma encomendei esse
presentinho...
- Xena... foi por isso que você e Edna demoraram
tanto para pegar os cavalos... e
eu colocando a culpa no pobre do Argo...
- Eu pedi para Edna me levar até Safo. Não precisei mais do
que três palavras para
descrever meu sentimento e ela o colocou
no papel como se me conhecesse à
séculos... e a você
também.
- Meu amor... eu te amo tanto...
- Eu também
Gabrielle, eu também...
- Xena, lê pra mim... quero ouvir
da tua boca.
Xena se encabula, mas pega o pergaminho e com voz embargada
procede a declaração de
amor para a mulher de sua vida:
Amando-te Intimamente
Quando tu estiveres a sós
comigo quero te possuir em meus braços, para poder te
mostrar
toda a força da minha paixão.
Escorregarei minhas mãos
por todo teu corpo, e desta maneira vou descobrir todos os
teus segredos.
Com meus lábios sedentos de desejo vou poder te sentir, assim como
uma abelha que
suga incansavelmente o néctar da mais linda das
flores.
Serei escrava de todos os teus mais ousados pensamentos, e numa
sintonia de amor,
prazeres e ardentes desejos, te possuirei por completo
e sentirás a minha volúpia
por este momento.
Neste
instante seremos uma só, envolvidas pelas nossas mais ousadas vontades,
acompanhadas por murmúrios de amor e sussurros ofegantes de prazer.
E com
movimentos que se tornam cada vez mais ardentes farei com que
sintas um prazer que
nenhum mortal conseguirá descrever.
Então saberás que teve de mim toda a essência de meu
ser, e com minhas últimas
forças te direi: eu te amo.
(3)
Xena termina de ler e Gabrielle se joga em seus braços:
- Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo... e eu te amo,
sempre!
Xena a envolve pela cintura e a leva para a cama. Elas se despem
e se amam como se
fosse a primeira vez, num sentimento de total entrega
e êxtase.
O dia seguinte amanhece nublado, o sol oculto por
nuvens cinzentas que prenunciavam
chuvas de verão. Quando Gabrielle
abre os olhos depara-se com Xena a contempla-la
amorosamente, enquanto
mantinha-se de lado escorando sua cabeça com o pulso da mão
esquerda. Gabrielle sorri frente à proximidade do rosto de Xena e
sapeca-lhe um
beijo na ponta do nariz. Xena retribui e lhe beija a testa:
- Bom dia, meu amor...
- Bom dia... – responde Gabrielle espreguiçando-se
como um felino despertando de um
sono renovador.
Xena continua a
contemplar o rosto de Gabrielle e esta sorri, questionando:
- O que
é que a senhora tanto observa, dona Xena?
- Como você é
linda... mesmo quando dorme. O contorno da tua boca é o que tem de
mais lindo no mundo, sabia?...
- Xena... assim eu fico sem graça...
Xena abraça carinhosamente sua rainha amazona e a beija com suavidade.
- Vamos levantar? Hoje temos bastante trabalho para os preparativos do festival.
- Vamos... além do quê eu tô morrendo de fome... – responde
Gabrielle com olhar
maroto.
As duas caem na gargalhada. Quando chegam
à cozinha encontram Morgana e Edna
aguardando-as para tomarem
o café da manhã.
- Bom dia, dorminhocas...- cumprimenta
Edna.
- BOM DIA !!! – respondem Xena e Gabrielle em coro.
- Edna
acordou antes do nascer do sol e está agitando desde cedo... – finge
reclamar Morgana.
Desta vez é Xena quem não perde a oportunidade
de provocar Edna:
- É... pelo visto boa disposição
é o que não falta para minha amiga... mesmo com
uma noite
repleta de atividades... – retruca maliciosamente.
Morgana sorri com
o canto da boca e se vira de costas, com o pretexto de cuidar do
leite
que estava aquecendo no fogão. Edna olha surpresa para Xena e responde:
- Pois é... o... o espetáculo... estava maravilhoso... fiquei
excitada e dormi
pouco...
- Ôôô... – responde
Xena – eu imagino o quanto... atividades artísticas sempre te
deixam... agitadinha... não é mesmo? – continua Xena provocante.
Edna pega uma maçã que estava na fruteira, no centro da mesa,
e arremessa em Xena,
que pega a fruta no ar, antes que a mesma lhe acerte
o nariz. As amigas caem na
gargalhada e Edna diz:
- Um a zero por
hoje, dona Xena... mas o dia está recém começando...
- Isso é uma ameaça, dona Edna?...
- Não... apenas
um lembrete...
Xena, num pulo, abraça Edna imobilizando-a e cobrindo-a
de beijos.
- XENA... você tá me babando toda...
Morgana
ri e provoca:
- Enfim uma parceira à altura... alguém
que consegue travar essa mulher.
Edna consegue se desvencilhar do aperto,
retribui o abraço em Xena e elas se sentam
à mesa para
o desjejum. Neste momento despenca uma chuva forte, porém sem indícios
de trovões e relâmpagos, apenas água em abundância.
- Será que essa chuva não vai estragar o festival? – questiona
Gabrielle.
- De forma alguma – responde Morgana – daqui a pouco teremos
um lindo dia de sol...
isso é só uma chuvinha de verão.
É ótima para limpar a terra. É a natureza tomando
seu banho e preparando-se para as festividades da noite.
- Que lindo...
– responde Gabrielle – e bem poético...
- Eu diria simbólico,
Gabrielle. – continua Morgana – A mãe Terra se prepara assim
como nós para as comemorações.
As mulheres combinam
as atividades do dia. Edna e Xena ficam responsáveis pela
confecção
da fogueira e limpeza dos arredores da casa e do pátio, enquanto
Gabrielle e Morgana cuidarão da decoração interna e
da preparação dos alimentos.
- Espero que as duas não
se matem...– brinca Gabrielle, referindo-se à Edna e Xena
que
saem da mesa abraçadas e, já bem perto da porta, se viram
mostrando a língua e
fazendo caretas para ela e Morgana.
- Com certeza elas sobreviverão... – retruca Morgana rindo das provocações
das
duas, que neste momento já estão na rua contemplando
o céu azul no horizonte.
As nuvens cinzentas já haviam
se dissipado, transformadas em água cristalina já
recebida
no seio da terra. O horizonte estava azulado e a cor celeste invadia o
espaço antes ocupado pelas nuvens, como que empurrando aquelas que
ainda teimavam
em encobrir o astro rei. Não levou nem um quarto
de hora para o sol irromper de seu
esconderijo e ocupar seu lugar de
destaque na abobada celeste. As gotículas de
chuva ainda pendentes
nas pontas das folhas formavam pequenos prismas
multicoloridos e na
direção da cachoeira se formou um lindo arco-íris,
como que
saudando o festival do solstício. A natureza se enfeitava
a seu modo e o clima de
festa se espalhava por todos os lados, contagiando
todas as criaturas ao redor. Os
pássaros gorjeavam alegremente,
as águas dos córregos, cachoeira e mar agitavam-se
num
cântico de louvor à Terra.
Enquanto trabalhavam na
cozinha, preparando pratos saborosos para a festa da noite,
Gabrielle
e Morgana conversavam a respeito das tradições de comemoração
dos
solstícios e equinócios.
- Pois é, Gabrielle...
na verdade eu nem saberia dizer desde quando as civilizações
comemoram os festivais sazonais, das estações. Por certo desde
que o mundo é mundo,
afinal a natureza se manifesta ciclicamente.
- E qual é a diferença entre solstícios e equinócios?
– questiona Gabrielle.
- Equinócios são os períodos
em que, decorrente dos movimentos do planeta ao redor
do sol, sendo
o eixo central inclinado, os dias e as noites tem a mesma duração.
Logo, temos os equinócios de primavera e de outono. Já o solstício
de verão é o
período do ano em que ocorre o dia
mais longo e a noite mais curta. No solstício de
inverno ocorre
o contrário. Pode-se dizer que são os marcadores naturais
das
estações do ano. Hoje comemoramos o dia mais longo
do ano, o apogeu da
luminosidade. Desta noite em diante, em nosso hemisfério,
até o fim de dezembro, a
natureza perderá sua vitalidade
gradualmente e só acordará na próxima primavera com
o retorno da luz. Logo, é momento de agradecer, de celebrar, de partilhar.
- Que interessante... eu nunca tinha visto os festivais por esse ângulo...
- Pois é, Gabrielle. Acabamos perdendo o sentido das comemorações
quando nos
preocupamos somente em presentear materialmente as pessoas
que amamos. Os festivais
são muito mais que isso. São
na verdade momentos de celebrar a vida, ocasiões para
aprofundar
o senso de ligação das pessoas com o céu e a terra,
incluir o sol, a
lua, as estrelas, as árvores, as colheitas,
os animais, os elementos da natureza e
os seres humanos na mesma celebração.
Todos como parte de um único ser, do
macrocosmos, afinal tudo
que existe está interligado pelo mesmo sopro de vida.
- Morgana,
que coisa mais linda – diz Gabrielle com lágrimas nos olhos – então
é
momento de reconhecermos a natureza em nós mesmos...
- Exatamente, é este o verdadeiro espírito dos festivais.
É um retorno às simples
verdades do coração
da vida. Momento de nos livrarmos de preconceitos e rótulos
desnecessários,
de cantar e dançar, festejando a vida pelo que ela é, como
um
milagre que se renova todos os dias, em cada poente e nascente do
sol.
- Estou adorando estar aqui justamente neste período. Tantas
coisas aconteceram
nestas últimas semanas, fatos que mudaram
totalmente minha vida e minha visão de
mundo... e eu estou amando
tudo isso... – refere Gabrielle – Hoje eu posso dizer
que realmente
me sinto uma mulher completa... e feliz... imensamente, plenamente
feliz.
Morgana envolve Gabrielle num longo e afetuoso abraço:
- Eu sei,
minha amiga... eu sei...
- Sabe Morgana, é como se a gente se
conhecesse à séculos...
- Pois é... e quem há
de dizer que não?... Mas vamos deixar a conversa de lado e
acelerar
o ritmo do trabalho, afinal ainda temos muito que organizar. E depois
temos que dar uma supervisionada no serviço daquelas duas...
- Com certeza – sorri Gabrielle.
No meio da mata Edna e Xena discutem
a melhor localização para armar a fogueira.
Após
muitas discordâncias e argumentações finalmente chegam
a um acordo escolhendo
um ponto numa clareira próxima à
cachoeira, local amplo onde as chamas não
chegariam a chamuscar
as árvores nativas e de onde se poderia, caminhando cerca de
duzentos metros ao leste, avistar o mar de cima da imponente encosta de
morro onde
se encontravam. Definido o local ambas começam a cavar
um buraco para fixar o poste
central que serviria de suporte para as
toras e os galhos da pira. Depois
empilharam simetricamente galhos secos,
inclusive bambus, formando uma pirâmide de
madeira, pronta para
iluminar a noite mais curta do ano e que, certamente, pela
grandiosidade
do resultado final poderia ser quase que avistada do continente
grego.
- Xena... acho que exageramos no tamanho dessa fogueira!!! Isso é
capaz de
incendiar a ilha!!!
Xena, sentada, dá uma gargalhada
e concorda:
- É essa tua mania de querer tudo dentro de uma simetria
matemática... cada vez que
tentávamos deixar um lado igual
ao outro essa encrenca ia aumentando de altura e
largura!!!
- Mas
ficou uma beleza, não ficou? – questiona Edna.
- Realmente, está
digno de ser um trabalho nosso...sem falsa modéstia...
- Aposto
que a Morgana vai achar um exagero...
- Acho que a Gabrielle também...
Elas contemplam a estrutura em silêncio por alguns minutos, quando
finalmente falam
ao mesmo tempo:
- E se a gente desmanchar um pedaço...
Explodem numa risada que ecoa pelo vale abaixo. Neste momento são
surpreendidas
pela chegada de Morgana e Gabrielle que olham a fogueira
de baixo até em cima,
caladas, extasiadas pela visão daquele
verdadeiro colosso de madeira, comparável
quase que ao farol
de Alexandria. Elas olham para Xena e Edna com olhos
arregalados, mal
acreditando no que viam. Xena e Edna sorriem amarelo, permanecendo
caladas
e com cara de criança que fez arte... sem saber se pela frente viria
um
elogio ou uma carreta de reclamações e críticas.
Percebendo a ansiedade das
”arquitetas” Gabrielle e Morgana se entreolham
e valorizam aqueles segundos de
silêncio, numa cumplicidade de
fazer inveja, que conseguiu deixar Edna e Xena
suando frio. Por fim,
não conseguindo mais controlar a vontade de gargalhar,
Gabrielle
e Morgana dizem, quase que ao mesmo tempo:
- Ficou lindo!!!
- Graças
aos deuses!!! – respondem Xena e Edna, sorrindo aliviadas.
Cada qual
abraça sua amada e lhe afagam os ombros, por certo doloridos do esforço
realizado.
- Xena, vocês devem estar exauridas...vocês trabalharam
a manhã toda !!! Já passou
da hora do almoço e
vocês não desciam...
- Você se preocupou comigo,
meu amor?
- Não... imaginei que estaria aprontando alguma...eu
te conheço...
Xena envolve Gabrielle num abraço rápido,
prendendo seus braços e capturando seus
lábios, num beijo
de volúpia e paixão. Gabrielle corresponde e esquece da vida
nos
braços do Xena. Quando os lábios se separam Gabrielle
diz:
- Eu me preocupei, sim... eu te amo. – e beija Xena novamente.
Edna e Morgana também trocam carícias no outro lado da fogueira
gigantesca. Morgana
acaricia a nuca de Edna, molhada de suor, e lhe
seca a face carinhosamente com um
lenço que trazia no bolso da
saia, e diz:
- Minha construtora de monumentos... você não
consegue fazer nada que não fique
grandioso, não é
mesmo?
- É essa minha mania de querer sempre o melhor... começando
pela mulher... – diz,
puxando Morgana para si e a beijando com paixão.
Morgana introduz sua mão por sob a blusa de Edna, acariciando suas
costas suadas e
fazendo com que ficasse arrepiada pelo toque macio.
Edna geme de prazer e sussurra
no ouvido de sua amada:
- Se essas
mãos não saírem daí agora eu vou querer senti-las
no meio das minhas
pernas... e não vai ficar nada bem com nossas
amigas aqui ao lado...
Morgana sorri e resvala suas mãos para
fora da blusa de Edna, porém passando
suavemente por seus mamilos,
deixando-os rijos e protuberantes por sob a blusa
esverdeada. Morgana
sussurra no ouvido de Edna:
- Eu te amo...
Edna sorri e responde:
- Eu também...
Gabrielle fez com que Xena se sentasse sobre
um banco feito com um tronco de árvore
e baixou as alças
de sua roupa, deixando-lhe os ombros descobertos. Por trás
massageava
suas costas que estavam, de fato, bastante doloridas pelo esforço.
Xena
porém não era mulher de se queixar, mas estava se
sentindo bastante aliviada com o
toque macio mas firme das mãos
de Gabrielle:
- Xena, você está com os ombros muito tensos...
o lado direito está todo
embolotado... – diz apertando com mais
força.
- Aiii... isso doeu...
- Dói mas alivia...
agüenta! – e continua massageando até sentir a musculatura de
Xena mais descontraída.
- Agora tá bom... hããããã...
que coisa boa...
- Xena, quer fazer o favor de gemer com mais discrição?...
- E quem vai reparar? Os pássaros? As árvores?...
- Nossas
amigas, né! – responde Gabrielle.
Xena dá uma olhada com
o canto dos olhos e vê mais ao longe Edna e Morgana
embriagadas
com carícias e declarações de amor.
- Acho que
elas não estão ouvindo, não... – retruca Xena sorrindo.
- Mesmo assim... seja mais discreta – diz Gabrielle, dando um apertão
mais forte.
- Aiii... esse doeu de novo. Mas não pára...
dói mas é bom...hããããã...
- Sabe, Morgana e eu conversamos muito sobre a festividade de hoje. – diz
Gabrielle
- Ela é uma mulher muito espiritualizada.
- Eu
sei, Gabrielle. Morgana é uma pessoa muito especial.
- Tô
louquinha que chegue a noite para conhecer as pessoas que participarão
da
festa. Será que são mulheres... assim como a gente?
- Com certeza, Gabrielle, mulheres com seios, bunda, pernas e caras...
- Engraçadinha... você sabe do que eu estou falando...
- Não faço a mínima idéia... – retruca Xena
provocante, rindo por dentro.
- Ai Xena, assim como a gente... que amam
mulheres...
- Ah...porque não explicou antes...
- Xena, quer
deixar de ser debochada!!! É que pra mim isso ainda é novidade!
Xena olha para Gabrielle, desta vez com seriedade, e responde:
- Com
certeza, meu amor, as amigas das nossas amigas são pessoas como a
gente,
pessoas que respeitam e aceitam as outras pessoas como são,
independente de quem
amem, ou da cor da pele, ou da origem. E virão
para, conosco, celebrar o dom da
vida.
- Eu sou muito boba as vezes,
não é? Faço umas perguntas idiotas...
- De forma
alguma... é só curiosidade natural frente a uma nova situação.
Até a bem
pouco tempo você tinha outra perspectiva de vida,
outra concepção de relação
íntima...
e é normal que leve algum tempo para perceber que não é
tão diferente de
muitas pessoas. Existem milhares de pessoas...
como nós, Gabrielle.
Gabrielle abraça Xena afetuosamente:
- Eu te amo, Xena...
- Eu também, mais do que tudo... mas quem
sabe você continua a massagem... estava
tão gostoso...
- Sim senhora...
As quatro retornam para casa, após terminarem
a limpeza ao redor da fogueira e
armarem as mesas e bancos na clareira.
Morgana e Gabrielle haviam levado os
enfeites com flores e materiais
recolhidos na floresta. A clareira transformou-se
num salão de
festas ao ar livre, tudo muito simples, mas carinhosamente ornamentado
para aquela ocasião especial.
Gabrielle e Morgana serviram o
almoço enquanto Edna e Xena tomavam um banho rápido
para
retirar o suor do corpo. Após o almoço deitaram um pouco para
descansar,
afinal a manhã tinha sido extenuante. Edna e Morgana
dormiam abraçadas no tapete da
sala, enquanto Xena estendeu uma
rede entre duas árvores de copa bem cerrada, com
uma sombra convidativa
ao descanso. Xena se deita na rede e logo em seguida
Gabrielle, que
tinha ido tomar um banho, vem para se deitar com ela:
- Me dá
um cantinho???...
- Com todo prazer...
- Ah...se for com prazer
é melhor a gente deitar no quarto...
- Engraçadinha...
– responde Xena aninhando Gabrielle entre suas pernas, fazendo
com que
repouse a cabeça em seu peito.
Os cabelos de Gabrielle estavam
perfumados e ainda molhados, umedecendo o peito de
Xena, que lhe afaga
as madeixas fazendo com que adormeça com as carícias. Xena,
naquela sensação de aconchego, também adormece. Repousa
por quase duas horas,
despertando quando um raio de sol consegue driblar
a barreira espessa de folhas
verdes e reflete diretamente sobre suas
pálpebras adormecidas. A claridade a
desperta e ela sente a respiração
de Gabrielle em seu peito, ressonando
tranqüilamente. Xena tem
a sensação de ter o mundo em seus braços. Realmente
ama
Gabrielle mais do que tudo, pensa abraçando sua amada e beijando-a
carinhosamente
para que desperte.
- Vamos acordar, sua preguiçosinha...
Gabrielle aninha seu nariz no pescoço de Xena, querendo permanecer
por ali por mais
algum tempo. Xena lhe acaricia as costas e os cabelos.
Aos poucos Gabrielle sai de
seu “esconderijo” e descortina o mais belo
sorriso que os olhos de Xena já viram:
- Acordei...
Xena
beija aquela boca que lhe fazia beicinho e a ponta daquele narizinho que
se
franzia quando queria pedir alguma coisa... Após algum tempo
de chamegos
levantam-se e vão procurar Morgana e Edna. Estas
continuam dormindo no tapete da
sala.
- Será que desmaiaram?...
– brinca Gabrielle.
- Vamos testar?... – pergunta sorrindo Xena enquanto
pega uma pena de pavão que
adornava um vaso da sala.
Começa
a passar a pena na sola dos pés de Edna, sabedora que a mesma morre
de
cócegas. Não levam três segundos para Edna se
encolher e despertar de seu sono. Se
dá conta do que está
acontecendo e salta sobre Xena. As duas rolam pelo chão numa
brincadeira que lembra as que faziam há anos atrás. Morgana
também desperta com a
confusão e olha para Gabrielle tentando
entender o que se passava.
- Melhor não se meter – diz Gabrielle
sorrindo.
- Com certeza... – concorda Morgana.
Após muitas
risadas e um vaso espatifado Xena e Edna se jogam uma para cada lado,
exaustas, como se estivessem saindo de uma arena. Morgana as observa sorrindo
e
diz:
- Parece que vocês não tiveram infância...
- Tivemos...mas gostamos de reaviva-la, não é Xena?
-
É... gostamos... e você continua ágil como uma pantera...
- E você forte como um cavalo!!!
As quatro explodem numa risada
e Xena emenda:
- Fico te devendo um vaso novo...
- Que é
isso??? Fica pelo vidro de perfume que eu quebrei logo que a gente se
conheceu, lembra?
- Lembro! Mas na verdade eu dei graças aos
deuses quando você espatifou aquele
perfume... tinha cheiro de
zurrilho... mas foi a vovó quem me deu e eu não tinha
coragem de jogar fora...
Nova risada ecoa na sala. Já havia se
passado mais da metade da tarde e elas
resolvem se vestir para o festival,
pois em breve, antes do poente, as convidadas
começariam a chegar.
Sobem para os respectivos quartos e se preparam.
Cada qual se vestiu
num aposento diferente, pois haviam combinado fazer surpresa em
relação
aos trajes. Edna foi a primeira a descer trajando uma vestimenta de crepe
de seda amarelo ouro, com detalhes alaranjados. Tratava-se de um pano bastante
comprido, estrategicamente enrolado no corpo, no melhor estilo indiano,
cujo
arremate era um cinto de couro cru trançado com sete fios
e onde se encontravam
incrustadas pequenas piritas douradas, que refletiam
a luz conforme Edna se
movimentava. O caimento do tecido aderia ao pequeno
corpo esguio, deixando-a com as
curvas à mostra e valorizando
seus contornos. Na verdade Edna era o tipo de pessoa
na qual tudo caía
bem. Se ela resolvesse se enrolar num farrapo de juta ainda assim
conseguiria
deixa-lo com aparência elegante.
Morgana, discreta como sempre,
estava usando um vestido longo, justo e negro como a
noite. Em seu pescoço
um colar de sementes e conchas que fazia cerca de oito
voltas, tamanho
o comprimento. Seus cabelos longos e soltos emolduravam o conjunto
com
um halo de luz vermelho-alaranjada. Acabava sempre aparentando ser mais
alta,
por seu porte esguio e pelo corte de sua roupa.
Logo em seguida
Xena desce as escadas com um corpete de veludo azul marinho, todo
bordado
com pequenas estrela prateadas, decotado a ponto de valorizar o busto de
quem o trajasse. Os cabelos negros, também soltos, caíam-lhe
sobre os ombros. No
alto da cabeça usava o diadema que havia
ganho de Gabrielle. Este refletia a
claridade projetando-a em fragmentos
de luz azul na mesma tonalidade dos olhos de
Xena, como se os raios
emanassem da própria mulher que o ostentava. Xena também
havia contornado os olhos com uma tintura azul escuro e em sua boca uma
fina camada
de um óleo egípcio que deixava os lábios
brilhantes, como que se estivessem
constantemente molhados de saliva.
Da parte de baixo do corpete pendia uma saia de
fina seda negra, bastante
rodada, mas cujo caimento a fazia aderir ao corpo. A saia
era curta
e sua barra, toda bordada com fios prateados, terminava quase de um palmo
acima dos joelhos de Xena, deixando parte das coxas expostas a quem quisesse
apreciar aqueles monumentos que serviam de alicerce para a princesa guerreira
e que
eram parte do deleite de Gabrielle. Xena estava deslumbrante,
seria capaz de parar
um exército se assim o desejasse, somente
desfilando diante do mesmo.
Um pouco mais tarde é Gabrielle quem
desce as escadas fazendo Xena prender a
respiração. Vestia
uma mini blusa de veludo vermelho, com um decote acentuado e
mangas
três quartos, toda bordada com minúsculas flores brancas cujo
miolo era um
pequeno cristal amarelado. Até aí, tudo bem.
Xena vai descendo os olhos e vê que no
umbigo de Gabrielle havia
uma pérola encaixada, tão aconchegada na cavidade que
era como se tivesse nascido ali. Logo abaixo uma mini-saia branca, semi
transparente, feita de vários pedaços de finos tecidos sobrepostos,
cujas
extremidades davam um acabamento irregular em pontas, deixando
ver o contorno da
calcinha rendada e, para um bom observador, os contornos
das nádegas e coxas, pelo
menos pequena superfície das
coxas, pois a maior parte estava descoberta. Por fim
calçava
sandálias de tiras de couro brancas, trançadas até
quase os joelhos. Havia
prendido os cabelos no alto da cabeça,
num rabo-de-cavalo que lhe dava um aspecto
juvenil. Gabrielle também
havia caprichado na maquiagem. O contorno dos olhos
estava ressaltado
por uma coloração escura, realçando o verde dos olhos
e havia
tatuado seus pulsos e antebraços com henna, em motivos
orientais. A boca ostentava
uma pintura em tom vermelho vivo, contrastando
com a pele clara e combinando com a
cor de sua mini-blusa. Desceu a
escadaria num gingado provocativo e foi até onde
Xena se encontrava
sentada, àquela altura quase que sem ar, debruçando-se sobre
ela
e lhe beijando suavemente os lábios, para não estragar
a maquiagem.
Xena continua boquiaberta e Edna não perde a oportunidade:
- Xena...fecha a boca...vai acabar engolindo uma mosca!!!
- Edna...
faça o favor... – repreende Morgana.
- Mas desse jeito ela VAI
engolir uma mosca! – responde Edna.
Morgana não resiste e acaba
rindo da situação. Gabrielle também se diverte. Xena
respira fundo e diz:
- Meu amor... você não tinha mais
alguns pedaços de pano para se cobrir???... e
essa saia está
indecente... LINDA, mas indecente...
Nova gargalhada ecoa pela sala.
- Deixa ela, Xena – retruca Edna – Gabrielle está deslumbrante!
- É claro que está!!! Aliás... TODO MUNDO vai achar
Gabrielle deslumbrante... –
responde Xena.
Gabrielle se aproxima
novamente de Xena e lhe sussurra no ouvido:
- “Todo mundo” pode olhar
e achar mas é só você que pode “usufruir”... – diz
beijando o lóbulo da orelha de Xena.
Xena fica arrepiada até
a raiz dos cabelos. Gabrielle realmente sabia como
desconcerta-la. Resta-lhe
sorrir e dar-se como vencida.
Gabrielle se afasta um pouco e observa
Xena detalhadamente:
- Ora, ora... olha quem está falando em
cumprimento de saia, dona Xena! Na SUA
também não está
faltando pano no cumprimento, não???...
- Bom... – desconversa
Xena – vamos encerrar esse assunto por aqui, certo? Afinal,
é
dia de festa, de confraternização...
- É, depois
a gente conversa... – concorda Gabrielle sorrindo e lhe piscando um olho.
Neste momento, escutam-se sons de conversas e cascos de animais se aproximando
pela
entrada principal. São as primeiras convidadas que chegam.
As quatro se dirigem ao portal de entrada para recepcionar as visitantes.
Avistam
uma animada turma de seis mulheres acenando para elas alegremente.
O sol ainda não
havia se posto no horizonte, estando ainda visível
sobre a copa verde das árvores
no oeste da ilha de Lesbos. As
visitantes chegam numa carroça de madeira, com
quatro grossas
rodas de metal, puxada por uma parelha de bois: Preguiça e Descanso.
- Êia, Descanso!!! Acelera Preguiça!!! – se ouve ao longe.
O sexteto era de fato muito animado. Formavam um conjunto musical. Residiam
na
localidade de Kalonis, que ficava a oeste da Lagoa Kallosis, bem
no centro da ilha
de Lesbos, por isto eram chamadas de Harmônicas
da Lagoa. Ao cruzarem o pórtico de
entrada desembarcaram e cumprimentaram
as donas da casa afetuosamente. Terèse e
Mary foram as primeiras
a abraça-las. Mary é uma mulher alta e bela, de cabelos
castanhos crespos e revoltos, como uma leoa. Fala pausada, tímida
de início, mas
com uma personalidade marcante. Com um traje marrom,
discreto, carrega em baixo do
braço uma sacola de couro onde
repousa cuidadosamente um banjo, instrumento que
toca por hobby desde
criança. É possuidora de uma bela voz e quando começa
a cantar
é impossível não parar para ouvi-la. Já
Terèse é seu oposto, estatura mediana,
cabelos pelos ombros
com uma tintura avermelhada, pele clara, efusiva. Terèse fala
pelos cotovelos e consegue agitar o grupo. Seu vestido possui a parte de
cima bem
justa, feito de um veludo de cor violeta com detalhes em lilás.
Já sua saia longa,
caindo-lhe até os pés é
uma sobreposição de vaporosos tecidos de seda coloridos,
aliás multicoloridos, em nuances que contemplam todas as cores do
arco-íris.
Discrição, por certo, não é
o seu forte. Para completar o conjunto usa um chapéu de
veludo
roxo, cônico e com abas largas, todo bordado com estrelas douradas
e
multicoloridas. Carrega um instrumento de percussão, um pequeno
aro de madeira
coberto por um couro esticado. Na base, incrustados vários
círculos minúsculos de
metal sobrepostos que davam ao
instrumento um som agudo, porém harmônico.
Logo em seguida
Helena e Deby. Helena é uma mulher pequena e loira, cabelos lisos,
escorridos, cujas madeixas amareladas lhe tapam metade dos olhos. Duas lindas
covinhas nas faces lhe conferem um ar juvenil. Bastante risonha, é
sempre quem acha
graça em todas as trapalhadas que o sexteto
se envolve. Também auxilia na
percussão, tocando um chocalho
feito de uma cabaça gigante contendo grãos de
cereais
secos e areia grossa, muito embora sua coordenação não
seja das mais
louváveis. No entanto, o que vale é a intenção,
e boa intenção de tocar é o que não
lhe
falta. Em compensação sua voz é bastante afinada e
harmônica. Eventualmente
executa alguns belos solfejos num oboé,
instrumento no qual vive prometendo
especializar-se. Costuma se vestir
com discrição e comparece trajando uma
saia-calça
de seda azul escura e uma blusa em tom caramelo, que acaba realçando
a
cor castanha de seus olhos. Deby é quem sempre dirige o veículo
oficial do
conjunto, talvez por ser a mais pacienciosa com Descanso
e Preguiça, ou por ter a
capacidade de emitir um grito que os
faz acelerar o passo, mesmo que em aclive.
Trata-se de uma mulher de
grande porte, pele alva e olhos castanho claros. É
encarregada
também, juntamente com Mary, de organizar os preparativos quando
o
grupo sai para viajar, devido ao senso de organização
de ambas. Enquanto Mary
jamais esquece roupas, partituras e acessórios,
Deby é incapaz de esquecer os
mantimentos e a água, isto
sem falar num pequeno barril de vinho. Deby toca um
imenso tambor feito
de madeira e couro cru.
Por fim Cindy e Bella abraçam as anfitriãs.
Cindy é realmente uma fofura, simpatia
e bom humor são
o que não lhe faltam. Também é quem mais entende de
engenharia e
arquitetura no grupo. Conserta tudo, desde uma chaleira
amassada até o encanamento
das cisternas de armazenagem de água.
Isto sem falar no seu dom natural para o
canto. É dona de uma
das mais belas vozes da Grécia e já cantou poemas de Safo
em
consertos no continente. Também é exímia no
toque da cítara, com a qual
seguidamente acompanha suas composições.
Bella é uma mulher de porte mediano, pele
morena, olhos negros
como a noite e cabelos longos e lisos. Também se veste com
discrição
e comparece trajando um vestido verde-água, cuja barra chega a lhe
tapar
os joelhos. Usa um chapéu de veludo em tom verde musgo
e sandálias pretas com tiras
amarradas nos tornozelos. É
incapaz de ficar parada por longo tempo, sempre
disposta a fazer alguma
atividade que exija movimento. Na bolsa que sempre carrega
consigo,
além de seus pertences pessoais e do inseparável chocalho
de contas, um
avental engomado não deixa despercebido seu encanto
pela culinária. É capaz de
fazer pratos saborosos num
mínimo período de tempo e sempre tem uma nova receita
para testar. Além disso, ninguém como ela é capaz de
decorar um jardim e organizar
uma horta no fundo do quintal, onde cultiva
as especiarias com as quais costuma
temperar seus manjares. É,
sem dúvida, a mestre-cuca do sexteto e uma das
responsáveis
pela dificuldade das meninas de perder peso. Bella também participa
do
vocal do grupo, possui uma bela voz.
Morgana e Edna apresentam
Gabrielle e Xena. A empatia foi instantânea e em poucos
minutos
o grupo já conversava alegremente instalado em bancos dispostos no
jardim
em frente à casa.
Nem bem havia se passado meia hora
e se ouve, antes da curva da estrada, o tropel
de cavalos se aproximando.
Eram Angélica, Susan e Regine. Angélica montava um
alazão
de trote compassado e firme, enquanto Susan montava uma égua de pelagem
branca com pintas escuras no dorso e focinho. Já Regine vinha num
cavalo negro como
a noite, cujo pêlo parecia ter sido recém
escovado. Juntaram-se ao alegre grupo que
já se encontrava no
local. Logo em seguida Eunice e Camille chegam numa biga puxada
por
uma parelha de éguas ruanas e ao desembarcarem dirigem-se efusivamente
até as
donas da casa. Logo após Leonor chega montando
Lua Cheia, cavalo amarelo claro com
crinas brancas, muito gordo, cujo
peso não deixava dúvidas quanto à adequação
do
nome.
Naquela altura o sol já havia se posto no horizonte
e o mesmo ostentava uma
coloração vermelho-alaranjada.
Os pássaros que até então gorjeavam alegremente
recolheram-se aos ninhos, dando lugar aos sons da noite. As primeiras estrelas
descortinavam no azul cinzento da noite. Muitas outras convidadas chegaram
em suas
montarias e outras tantas chegaram a pé, sozinhas ou
em grupos. Em pouco tempo
reuniram-se mais de quarenta mulheres, das
mais diversas procedências, idades e
raízes, porém
todas ligadas pelo mesmo desejo de celebrar o apogeu da estação
através do festival do solstício e dispostas a confraternizar
com a natureza pela
busca da essência de cada uma, reconhecendo-se
como parte integrante de um todo
harmônico e feliz.
Após
a chegada de todas dirigem-se à clareira da mata, onde cada uma colocou
os
alimentos que trouxe para partilhar, dispondo-os cuidadosamente nas
mesas. Uma vez
dispostos os alimentos reuniram-se em círculo
em volta deles e, de mãos dadas,
agradeceram pelas colheitas
e pela fartura, pela chuva, sol, amigos, família e
bênçãos
recebidas durante a estação. Entoaram melodias mântricas
que o vento se
encarregou de espalhar pelos quatro cantos do mundo.
Após cumprimentaram-se umas às
outras e dançaram
para celebrar a vida.
Gabrielle e Xena estavam deslumbradas com
o astral das pessoas que participavam da
festividade. Até mesmo
Xena, que era tida como tímida e comedida, viu-se dançando
alegremente, rodopiando com Gabrielle no meio da roda formada. Porém,
para Xena e
Edna, o melhor ainda estava por vir. Por sobre a montanha
uma lua cheia surgiu
imensa e majestosa e quando se aproximava a meia
noite Morgana pede a atenção de
todas:
- Amigas e
irmãs, agradeço a presença de cada uma de vocês,
pessoas tão especiais
para nós. É chegado o momento
de saudarmos a noite mais curta do ano iluminando-a
com a chama de nossa
fogueira. Edna e Xena, queridas, poderiam fazer a gentileza de
atear
fogo na pira?
Xena e Edna se entreolham, mal conseguindo disfarçar
a vaidade pela obra de arte,
pois todas as convidadas, sem exceção,
ficaram estarrecidas com a magnitude da
fogueira erguida. Na clareira
reina um silêncio absoluto e todos os olhos estão
voltados
para o centro. Cerimoniosamente dirigem-se até um pequeno fogo de
chão e
acendem as pontas de duas flechas. Posicionam as longas
hastes incandescentes nos
seus respectivos arcos e apontam para o centro
da fogueira. A um sinal de Edna
ambas disparam as flechas que acertam
em cheio o alvo, sendo que em poucos minutos
as chamas transformam a
noite quase que em dia. Num primeiro momento todas ficam
perplexas com
o tamanho da tocha gigantesca que espalha suas labaredas em direção
à
lua. O clarão reflete-se no rosto de todas as mulheres
ao redor da fogueira e
instantaneamente o silêncio é quebrado
com um grito uníssono em louvor ao fogo.
Xena cochicha para Edna:
- Realmente, acho que dá pra se ver esse clarão do continente
– e sorri debochada.
- E esses gritos também – retruca Edna alegremente.
Logo em seguida reiniciam-se as danças ao redor do fogo e as
cantorias em louvor à
deusa mãe terra. As Harmônicas
tocam e cantam, acompanhadas por um coro animado e
disposto a dançar
até o nascer do sol. Gabrielle enlaça Xena pela cintura e
as duas
iniciam um bailado ao redor do fogo crepitante, rodando, rodando,
rodando até quase
a exaustão. Em determinado momento Xena
fala no ouvido de Gabrielle:
- Meu amor, vamos parar um pouco, quase
não sinto as pernas.
Gabrielle sorri e elas sentam bem perto
do conjunto musical em um banco de madeira,
sendo que Xena monta no
banco e Gabrielle se aninha entre suas pernas, escorando
suas costas
no colo de Xena, que a envolve num abraço apertado. Cantam alegremente
durante muito tempo. Sentindo o calor do corpo de Gabrielle, Xena a convida
para se
afastarem um pouco do meio do burburinho. A lua cheia já
havia iniciado sua descida
rumo ao horizonte enquanto que a fogueira,
antes gigantes, já havia se transformado
numa braseiro incandescente,
com labaredas que não ultrapassavam os arbustos de
maricás.
Xena conduz Gabrielle pela mão até uns arbustos floridos,
de onde se via a
fogueira ao longe e esplendor da lua ao fundo, e onde
havia estrategicamente
deixado escondida uma esteira enrolada. Gabrielle
sorri para Xena que retribui o
riso maroto:
- Xena, você premeditou
me trazer para este canto escuro???...
- EU???... Claro que sim... –
responde enlaçando-a pela cintura e beijando-lhe os
lábios
com ternura.
A luminosidade longínqua do fogo conferia reflexos
cintilantes nos olhos de
Gabrielle, e Xena ardia de paixão. Soltou
os cabelos da rainha amazona passando a
mão por entre as madeixas
louras, escorregando até suas costas e desabotoando sua
mini
blusa. Gabrielle geme ao toque suave de Xena. Esta descobre os seios de
sua
amada e leva sua boca até eles, passando a língua
pelos mamilos e sugando-os
sensualmente. Desta vez é Gabrielle
quem desabotoa as vestes de Xena, deixando-a
totalmente despida e acariciando
seu corpo inteiro. Xena não se contém e termina de
tirar
a saia e a calcinha de Gabrielle, deitando-a por sobre a esteira e fazendo
com que se entregasse por completo às suas carícias e toques.
Elas se amam com
volúpia e gemem de prazer tendo a lua refletida
nos corpos nus e sedentos de
desejo, com a música cantada ao
fundo, as batidas rítmicas dos instrumentos de
percussão
e o som do crepitar das chamas da fogueira. Após intermináveis
momentos
de intimidade contemplam abraçadas a lua, que cai por
trás dos montes.
- Daqui a pouco o sol vai nascer – sussurra
Gabrielle.
- Então vamos saudá-lo!!! – responde Xena.
Elas se vestem e retornam para o centro da clareira onde as danças
e cantorias
continuavam ininterruptamente. Nesta feita a lua já
havia desaparecido, oculta pela
montanha e o horizonte leste já
ostentava um fino contorno luminoso, prenúncio da
alvorada, como
que conferindo um tom avermelhado às águas do Egeu. Quando
a
claridade tomou um pouco mais de forma e já se distinguiam
os perfis dos montes e
da floresta, as vozes cessaram instantaneamente,
assim como os tambores e
instrumentos de cordas. Todas as mulheres se
perfilaram no alto da clareira, de
mãos dadas, com os olhos voltados
para o oriente, em total silêncio, tendo o Mar
Egeu como limite
visual do globo terrestre. Se podia ouvir os primeiros cantos dos
pássaros
e os sons da natureza que despertava. As respirações se tornaram
compassadas e profundas, num sentimento de comunhão com o infinito.
Neste momento o
primeiro raio de sol surge no horizonte, como uma haste
luminosa que se estende por
sobre o mar e envolve a terra. Esse raio
se expande e se agiganta, transformando
trevas em luz, noite em dia.
As mulheres permanecem caladas, respirando
compassadamente, absorvendo
cada gotícula de luminosidade e transmutando as
energias de seus
corpos físicos e etéricos. Vagarosamente a corrente humana
se
desfaz e a sensação é de purificação
e leveza. Novamente o grupo se abraça e renova
o desejo de harmonia
e paz universal. Lentamente vão recolhendo os resquícios da
ceia e retornando para a casa de Edna e Morgana. Lá é preparada
uma refeição
matinal para todas e gradualmente as pessoas
vão se despedindo e retornando para
seus lares. Por último
se despedem as Harmônicas, sempre prometendo voltar em
breve.
Morgana, Edna, Xena e Gabrielle as acompanham até o pórtico
da propriedade e
acenam para o grupo que parte acenando alegremente
para elas. Ao longe ainda
escutam:
- Êia Preguiça!!!
Acelera Descanso!!!...
As quatro, já se deixando dominar
pelo sono, vão para seus respectivos aposentos e
adormecem profundamente,
acordando somente no meio da tarde. Após uma refeição
leve
dirigem-se à clareira da mata terminam de organizar e limpar
o que restou da festa.
Ao terminarem Xena propõe:
- Meninas,
que tal um banho de cachoeira???...
- Ótimo!!! – respondem em
uníssono.
As quatro correm até a cachoeira e se despem
rapidamente, mergulhando na água
fresca e cristalina. Depois
de se divertirem por mais de uma hora Edna e Morgana
retornam para casa.
Gabrielle e Xena sobem até o topo na montanha do lado oeste da
clareira e sentam-se abraçadas numa pedra, contemplando o sol que
vai descendo
vagarosamente, preparando-se para mergulhar nas águas
do Mar Egeu, cedendo lugar ao
manto estrelado da noite.
- Xena,
eu tô sentindo uma felicidade que chega a doer...
- Bobinha...
felicidade não dói.
- Mas é que... como é
muita, parece que não cabe dentro do peito...Aí dói
–
argumenta Gabrielle.
- Tudo bem. Eu também estou sentindo
uma felicidade que nunca tive antes. E essa
felicidade tem nome... é
Gabrielle.
- Pois a minha tem outro nome... é Xena.
Elas se abraçam afetuosamente e se beijam com ternura.
- Xena,
eu quero ficar aqui por mais algum tempo...
- O tempo que você
quiser... todo o tempo do mundo...
- Eu te amo, Xena.
- Eu também,
Gabrielle, eu também.
Novamente as bocas se unem, numa certeza
de que os corações também permanecerão
unidos.
Para sempre.
E continuaram em Lesbos até o final do
verão, em plena lua de mel, lua de amores,
de paixões
e de descobertas. No início do outono resolveram visitar Cyrene,
mãe de
Xena, em Amphipolis. Lembraram da promessa de passar em
Methone para contar as
novidades a Niklos. Mas isso já é
outra história...
E a primeira vez foi assim...
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(1) Episódio nº20 da 1ª Temporada,
intitulado “Átrius, O Pai” (Ties That Bind).
(2) O autor do poema
atribuído a Safo neste conto é Walmor Santos.
(3) O autor
do poema atribuído a Safo neste conto é Gilberto Rumayor.