O  Desabrochar da Paixão

Um conto da Primeira Vez

 Rose Angel

 

Disclaimers
Aí pessoal... essa é a primeira fanfiction que me atrevo a escrever desde que tomei conhecimento desse maravilhoso mundo de histórias imaginadas por fãs da série XWP.
Esta fic trata de como imagino haver sido a descoberta do amor entre Xena e
Gabrielle, logo contém temas adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, onde você mora é proibido ler esse tipo de material ou for homofóbico, não continue a leitura. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho aparece não aceita responsabilidade legal pelo não cumprimento desse alerta.
Esta história por certo se passa lá pelo final da primeira temporada, início da
segunda...
Ressalto ainda que os personagens de Xena e Gabrielle são marca registrada da
MCA/Universal e Renaissance. Elas são usadas aqui sem intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright. O resto da história é fruto da minha imaginação.
Desejo a todos uma boa Leitura!
Se quiserem enviar comentários acerca da história, críticas ou sugestões, ou
trocar idéias sobre a série XWP
meu e-mail é [email protected]

O Desabrochar da Paixão – Um Conto da Primeira Vez


Rose Angel


Já se passavam algumas luas em que Xena se encontrava pensativa e ensimesmada, perdida em devaneios, dúvidas e questionamentos sobre sensações e sentimentos que lhe afloravam do íntimo e a faziam perder noites de sono. Seus dias também vinham sendo atormentados pelos mesmos pensamentos. Desde que Gabrielle entrou em sua vida tudo mudou radicalmente. É fato que sua mudança interna já se havia processado,
tendo como mola impulsora os ensinamentos e os exemplos da grande amiga Laoma.
Porém Gabrielle conseguiu conferir um encanto todo especial a rotina de seu
dia-a-dia, materializando os doces ensinamentos de Laoma. Era como se Laoma e Gabrielle houvessem freqüentado a mesma escola, ou tivessem tido a mesma família, pois o que uma pregava a outra construía em vivências, mesmo que instintivamente.
Laoma era a teoria e Gabrielle a prática do amor ao próximo. Realmente a rainha amazona havia transformado radicalmente sua vida. E como se não bastasse Xena passou a, gradualmente, reparar cada dia mais em Gabrielle. O que antes admirava como amiga e irmã passou a chamar-lhe a atenção como mulher. Gabrielle tinha belas curvas, toques suaves, mãos mágicas, hálito doce, voz melodiosa, caminhar sedutor.
Xena não conseguia afastar tais sensações enquanto seus olhos procuravam Gabrielle aonde quer que ela estivesse. Isso a perturbava significativamente e embora fosse
uma mulher vivida não estava conseguindo controlar tal situação. Sempre fora uma
amante exigente e apreciadora de homens viris e fortes como Boris, Ulisses, Marcus,
Hércules, entre outros. E agora seus sonhos eram povoados por uma fada de tamanho
diminuto, porém de amplidão de bondade, afeto e amor incondicional. De fato era
incondicional o amor de Gabrielle e ela já havia demonstrado isso a Xena desde o
momento em que, teimosamente, decidiu segui-la. Naquela época Xena já havia se
acostumado a viajar sozinha, porém Gabrielle lhe impôs sua presença de um modo tão
sutil quanto determinado. E até hoje ela agradece aos céus por causa disto.
Com estes pensamentos lhe povoando a mente observa Gabrielle ao longe, ocupada em
colher algumas flores para enfeitar a mesa do jantar. O sol estava se pondo e os
reflexos alaranjados refletiam nos cabelos loiros de Gabrielle como se fizessem
parte do campo de trigos que emoldurava a paisagem do fundo do vale. Cada vez que
se abaixava deixava à mostra as coxas esculturais através da fenda lateral de sua
saia marrom. Seu top verde escondia os seios pequenos e firmes enquanto deixava seu
colo descoberto, onde Xena já havia repousado a cabeça tantas vezes para ser
consolada, e que agora lhe despertava desejos que não imaginava como controlar.
Gabrielle avista Xena de longe, sentada na rocha onde estava pensativa quase que
toda a tarde, e acena para ela com uma das mãos enquanto a outra abraça um
ramalhete de flores do campo. Ela era realmente a imagem da perfeição, pensou Xena
e retribuiu o aceno. Gabrielle se vira e continua colhendo flores.

Perdida em devaneios Xena nem percebe Ares que se aproxima às suas costas. Ele a
observava já há algum tempo e como conhecia Xena bastante bem lhe capturou os
pensamentos, conseguindo entender perfeitamente o que se passava no coração de
Xena, melhor que ela própria. O que Ares viu nos olhos de Xena foi amor e paixão.
Uma onda de inveja invadiu o deus da guerra, pois tudo o que ele queria era que
Xena tivesse aqueles sentimentos por ele. E para conseguir seu intento utilizaria
os recursos que precisasse, quaisquer que fossem. Ares queria Xena como sua
princesa guerreira. Já bem próximo comenta:
- Pensando na vida, Xena?
Xena se vira sobressaltada e pergunta:
- O que é que você quer Ares?
- Nada... só estava de passagem...
- Tá bom... e eu sou a rainha do Egito.
- Não ironiza, Xena. Você sabe muito bem o que eu quero. Eu quero você!
- Desiste Ares. Você nunca me terá. E você sabe disso.
- O que eu sei é que se EU não a tiver ninguém mais a terá... – diz Ares e volta
seu olhar para Gabrielle, desafiadoramente.
Xena salta sobre ele e o derruba com um empurrão. Coloca seu dedo em riste e diz:
- Olha aqui Ares, seja lá o que for que você esteja pensando ou tramando deixe
Gabrielle fora disso, entendeu??? Senão você vai se ver comigo, sua eternidade vai
ser um inferno.
- Ora, ora...que brabinha... então o que eu estou pensando é verdade...
- E o que é que você está pensando, seu estúpido?
- Xena... nós somos adultos. Só um imbecil não vê que você está caidinha de amores
por aquela... Gabrielle. – diz Ares se levantando do chão e sacudindo a poeira de
suas roupas.
- Não seja estúpido, Ares, isso é um disparate!
- A quem está querendo enganar? Ao deus da guerra ou a você mesmo? Mas seja a quem
for eu repito: ou você será minha ou de mais ninguém.
Ares desaparece antes que Xena diga mais alguma coisa. Xena senta-se novamente e
respira lenta e profundamente como que tentando afastar o fantasma de Ares. Mas o
que o deus da Guerra lhe disse não saía de seus ouvidos. Realmente Ares tinha
razão. Seu amor por Gabrielle ia além do fraternal e da amizade. De fato não podia
negar que desejava Gabrielle, mas não poderia contar-lhe para não magoá-la, nem tão
pouco correr o risco de Gabrielle afastar-se dela por medo ou por questões de
princípios. Sentia-se condenada a viver aquele amor da forma como vinha vivendo até
o momento, platonicamente. Mas seria melhor do que se afastar de Gabrielle.

Gabrielle havia terminado de colher suas flores e estava prestes a entrar em casa
quando acenou novamente para Xena. Já no interior da residência encheu um jarro com
água e dispôs as flores harmoniosamente, depositando-as no centro da mesa da sala
de jantar. Sentia-se bem toda vez que voltava à casa paterna, onde havia passado os
melhores anos de sua infância. Vinha sentindo muitas saudades de sua família,
principalmente da irmã Lila, com a qual tinha muita afinidade. Nas últimas semanas
sensações inexplicáveis vinham invadindo seus pensamentos e sentiu necessidade de
conversar com alguém que não fosse Xena. Logo pensou em Lila e decidiu passar uns
dias em casa. Como não gostava de ficar longe de Xena pediu que ela a acompanhasse.
Embora Xena não ficasse muito à vontade na frente dos pais de Gabrielle, que
indiretamente atribuíam a ela o fato da filha ter saído de casa, decidiu
acompanha-la.
Desde que haviam chegado, há três dias, Gabrielle ainda não havia conseguido
conversar com Lila, não por falta de oportunidades, pois costumava realizar longos
passeios pelo bosque com sua irmã, mas sim por falta de coragem, ou por falta de
saber por onde começar. O certo é que não conseguia mais guardar para si o que
vinha sentindo. Sentia-se incomodada com seus sentimentos em relação a Xena, não
sabendo bem como defini-los. O que antes era amizade fraterna vinha se
transformando numa crescente atração física, que Gabrielle não conseguia
compreender direito. Às vezes surpreendia Xena fitando-a detalhadamente, como se
pudesse ver através dela, percebendo o que lhe passava no coração. Perturbava-se
com isso, pois vinha percebendo em Xena detalhes que até então lhe passavam
despercebidos. O porte da Princesa Guerreira sempre havia lhe chamado a atenção,
porém passou a perceber as curvas de sua armadura, a envergadura de suas costas
quando caçava ou nadava no lago, a silhueta de seu corpo quando saía nua das águas
das cachoeiras. Os braços de Xena sempre lhe transmitiram segurança e aconchego,
suas mãos tinham um toque forte, porém macio e carinhoso. Já perdera a conta das
vezes em que cavalgara com Xena, porém nos últimos tempos o calor de seu corpo,
quando lhe abraçava montada em Argo, parecia queima-la e a inundava de sensações
que a deixavam trêmula e excitada. “Devo estar enlouquecendo”, pensava. Já ouvira
sobre histórias de relacionamentos atípicos, contados a meia voz, advindos em sua
maioria nos murmúrios das tavernas, porém nunca conseguiu entender bem aqueles
assuntos. Agora as coisas começavam a se descortinar para ela, e Gabrielle estava
assustada. Precisava, urgentemente, conversar com Lila. Mas como conseguir contar
para sua irmã que em sua noite de núpcias, com Perdicus, era o rosto de Xena que
lhe vinha na mente? Era o olhar vazio da amiga lhe desejando felicidades que deixou
seu peito mais amargurado na véspera daquele fatídico dia. Depois a morte de
Pérdicus e o sentimento de culpa que passou a assola-la, como se o destino houvesse
entendido seu desespero quando se deu conta de que estava definitivamente sem Xena.
Acabou entendendo que o destino é escrito pelos deuses e devemos aceitar seus
desígnios. Mas, e seu sentimento por Xena? Teria sido escrito pelos deuses? Estaria
indo contra tudo que tinha como aceitável? Como poderia contar para Xena? O que
Xena pensaria dela? Provavelmente a acharia inconveniente. Ou não? Realmente estava
confusa, muito confusa. Sua única certeza era que jamais poderia viver sem sua
princesa guerreira, precisava dela como quem precisa de ar, de pão e de água. Xena
era, sem sombra de dúvidas, todo o seu mundo.

Gabrielle acabou de arrumar a mesa do jantar quando sua mãe lhe informa que a
refeição estava pronta. O pernil assado servido com batatas e legumes da horta de
Lila estava apetitoso. Gabrielle vai até a porta e grita para Xena:
- XENA... O JANTAR ESTÁ NA MESA...
- Tô indo.
Xena jantou em silêncio. Gabrielle também. Esta última só respondia com
monossílabos quando questionada.
- Você está bem, Gabrielle? Está sentindo alguma coisa? Indisposição? – indaga a
mãe de Gabrielle.
- Não, mãe, não é nada. Acho que tomei muito sol.
- Quando eu falo para colocar um chapéu...sou chamada de chata.
- Pois é, mamãe, amanhã coloco o chapéu – e calou-se até o final do jantar.
Xena ajudava atirar a mesa e a lavar a louça quando Gabrielle lhe estendeu um
prato. As mãos de Xena seguraram as de Gabrielle acidentalmente, por baixo do
prato, e ambas se olharam nos olhos, caladas, por alguns segundos que pareceram
horas. As duas tiraram as mãos ao mesmo tempo e o prato de cerâmica se estilhaçou
no chão. As duas se abaixam para juntar os cacos.
- Nossa...desculpe – disse Xena.
- Não foi culpa sua, eu é que sou desastrada.
- Você está trêmula Gabrielle...
- É... foi o susto...isso, o susto, não gosto de quebrar nada aqui em casa, papai
sempre implicou com coisas quebradas.
- Fique calma, eu já disse que fui eu que quebrei...
- E eu não sou mais criança, não me importo mais com isso. – disse Gabrielle
franzindo o nariz e sorrindo docemente.
Xena quase ia à loucura quando Gabrielle franzia o nariz. Tinha vontade de
abraça-la forte e beijar a ponta de seu nariz... talvez mais. As duas terminam de
arrumar a cozinha e se recolhem. Nenhuma delas consegue dormir direito. Cada qual
perdida em devaneios e sonhos, que até então pensavam ser impossíveis de se
concretizar, ou talvez não?

Não muito longe dali Ares vai até o acampamento do general Kirylus, um warlord que
já comandou o exército de Ares, mas que havia se indisposto com o deus da Guerra
após haver sido usado por ele para tentar atrair Xena (1). Quando Kirylus se deu
conta de que havia sido usado revoltou-se contra Ares e formou seu próprio exército
de saqueadores e assassinos, continuando com sua trajetória de massacres e
conquistas pela força. Ares aparece para Kirylus:
- Kirylus, velho amigo, como tem passado?
- O que você quer aqui, traidor?
- Ora, ora...isso é jeito de tratar um deus? Ainda mais o deus da guerra?
- E como você queria que eu o recepcionasse após ser tratado como um objeto
descartável? Com festas e consideração???
- Não seja tão rancoroso...o esquecimento é uma virtude.
- Não seja irônico Ares! O que você quer de mim? Ou melhor, para que você precisa
de mim agora???
- Eu vim para tratar de negócios...
- Sei...só que não confio mais em você.
- Kirylus, estive refletindo e cheguei à conclusão que me deixei levar pelos
encantos de Xena, e você concorda comigo que ela é uma bela mulher, não é mesmo?
- É. – concorda o warlord.
- Mas ela realmente não me serviria para comandar meu exército...não tem requisitos
suficientes. Só me serviria para outros prazeres, se é que me entende... – diz Ares
sorrindo maliciosamente.
Kirylus também sorri e concorda:
- Entendo...
- O problema é que ela não quis servir aos meus desejos, se considera
superior...superior até a mim, o deus da guerra.
- E o que é que eu tenho com isso, Ares?
- Quero que você retome o comando do meu exército!
- E em troca de que?
- De um pequeno favorzinho... Quero dar uma liçãozinha em Xena, afinal ninguém
despreza o deus da guerra.
- E onde eu entro nessa história? – questiona Kirylus.
- Quero que você rapte uma moça...amiguinha de Xena...e consuma com ela. Se o fizer
meu exército é seu.
- E que garantias eu terei? Afinal, você já me traiu uma vez Ares.
- Meu amigo Kirylus, traição é uma palavra muito forte... – diz Ares – Você tem a
minha palavra, a palavra do deus da guerra.
- Pois muito bem. Quem é a moça?
- Gabrielle, de Potedia.
- Seu exército já está sob meu comando, Ares! – Kirylus gargalha.
- Assim espero – diz Ares e some no ar.

O dia amanheceu lindo. Gabrielle acordou cedo e foi até o quarto de Xena que já
havia arrumado sua cama, tomado café da manhã e saído para caminhar. Lila já havia
ordenado as vacas e na cozinha pairava um cheirinho de pão fresco e leite fervido.
Apesar de haver dormido pouco Gabrielle estava com fome. Tomou seu café da manhã e
convidou Lila para fazer um passeio pela floresta. O pai de Gabrielle já havia
saído para o trabalho na lavoura e a mãe estava ocupada com os afazeres domésticos.
Gabrielle e Lila saíram para caminhar. Não muito longe de casa Gabrielle
recostou-se a um tronco de árvore e pôs-se a observar sua aldeia. Sua casa era uma
construção simples, porém ampla e disposta de lado para o nascer do sol. A
claridade matinal invadia os quartos e parte da sala e da cozinha. Na frente havia
uma área coberta onde pendiam folhagens cujos ramos iam do teto ao chão. Os jardins
na frente da casa ostentavam flores multicoloridas, muitas margaridas e rosas. Nos
fundos da propriedade ficava o pomar, onde Gabrielle passou a maior parte de sua
infância, trepada em árvores, lendo poemas e escrevendo histórias em pergaminhos.
Gostava de modo especial de uma cerejeira cuja copa ficava totalmente coberta de
frutos na primavera. Inúmeras vezes havia se escondido entre suas folhas,
espreitando anonimamente tudo que se passava ao seu redor. Adorava observar os
pássaros e os pequenos animais da floresta. Sua árvore preferida, no entanto, era
uma flamboyan que ficava igualzinha a um buquê vermelho gigante quando florescia.
Boas e belas lembranças tinha de sua infância. Era bom estar em casa. A voz de Lila
trouxe Gabrielle de volta à realidade:
- Você parece estar em outro mundo, Gabrielle.
- Não é nada não, só estava lembrando da nossa infância e em como fomos felizes...é
bom estar em casa.
- Mas não é de agora que eu estou falando. Desde que você chegou está diferente,
pensativa, parece preocupada. O que é que está havendo?
Gabrielle respira fundo, baixa os olhos, fica algum tempo em silêncio e fala:
- Sabe o que é Lila...eu preciso mesmo conversar com alguém...senão vou
enlouquecer. Se é que já não estou louca...
Lila abraça afetuosamente a irmã e lhe beija a face. Gabrielle continua:
- É Xena...
- O que foi que ela te fez??? – indaga Lila.
- Nada... não é ela. Quer dizer...é ela. Ou melhor, sou eu. Nem sei.
- Gabrielle, eu não estou entendo.
- Olha, é assim... desde que eu vi Xena pela primeira vez e decidi partir com ela
sempre senti uma afeição profunda, um sentimento fraterno e de completude. A
princípio eu queria ser como ela, depois percebi que eu deveria ser eu mesma, mas
seguir com ela para levarmos às pessoas mais necessitadas o auxílio que precisavam.
Até a bem pouco tempo estava tudo bem. Só que agora eu estou tendo uns pensamentos
estranhos, diferentes, que não me deixam em paz nunca...
- Que tipo de pensamentos, Gabrielle?
- Eu tenho visto Xena com outros olhos...
- Como assim???
- Ai Lila, é difícil para eu falar sobre isso com você... ou com qualquer pessoa.
- Mas, Gabrielle, eu sou sua irmã e você pode confiar em mim.
- Eu sei. Bom, o que eu tenho sentido por Xena é... atração. Atração física,
desejo, entende?
Lila emudeceu, Gabrielle também.
- Você está chocada, não é mesmo Lila? Será que eu estou doente?
- Você já disse isso para Xena?
- Claro que não!!! Acho que ela vai ficar com nojo de mim.
Após uma pausa Lila responde:
- As vezes a gente se surpreende, Gabrielle...
- Como assim???...
- Não é só você que está diferente. Xena também está. Na verdade acho que vocês
nasceram uma para a outra.
- Lila!!!
- É verdade, Gabrielle. Você me contou o que sente, eu tenho o direito de falar o
que acho.
- Mas Lila, isso não é normal...
- E o que é normal, Gabrielle? Se condenarmos os que amam o que faremos com os que
odeiam?
- Pois é. Mas eu tenho medo, medo pela intensidade desse sentimento.
- Você sempre foi corajosa, irmã. Encare-o de frente e, por favor, não se
envergonhe de ser o que é. Você é uma pessoa maravilhosa Gabrielle, e seja qual for
a pessoa que você escolheu para amar isso não mudará seu caráter e sua essência.
Os olhos de Gabrielle se enchem de lágrimas:
- Eu te amo, Lila...
- Eu também te amo, Gabrielle.
Elas se abraçam por muito tempo, até que Lila diz:
- Você deve conversar com Xena. Fale para ela sobre seus sentimentos, sem medo. Ou
muito me engano ou você se surpreenderá com ela...
- Como assim?...
- Ora, Gabrielle, Xena é louca por você.
- Mas ela me ama como uma irmã...
- Você também a amava assim, até a bem pouco tempo.
- É verdade... você acha que eu realmente devo?
- Claro, minha irmã. Você só terá paz se conversar com Xena e colocar o que sente,
independente da reação dela. Você precisa dessa sinceridade consigo mesma.
Acredite.
- Acho que você tem razão. Vou falar com ela sim...
- Ótimo. Gabrielle. Já é quase hora do almoço, vamos voltar para casa.
- Vai indo na frente. Vou ficar aqui mais um pouco, pensar, criar coragem e colher
algumas flores. Eu já te alcanço.
Lila beija Gabrielle e retorna para casa.

Perto dali Xena também se encontra mergulhada em pensamentos. Acordou muito cedo,
antes mesmo do nascer do sol e quando os primeiros sinais de claridade começaram a
despontar no horizonte saiu para caminhar. Havia sonhado com Gabrielle novamente.
Foi um sonho povoado de fantasmas do passado que estavam querendo levar Gabrielle
para longe, e cada vez que conseguia segurar sua mão e arrasta-la para perto de si
nova força invisível a jogava para longe. Pouco antes de acordar havia conseguido
tirar Gabrielle, carregando-a nos braços, de dentro do Labirinto do Minotauro pouco
antes de ser devorada por ele e para sua surpresa Gabrielle começou a beijar-lhe o
pescoço e a nuca deixando-a sem ar. Quando ia beijar-lhe a boca sedenta acordou de
sobressalto, banhada em suor e trêmula dos pés à cabeça. Precisava de ar... e de um
banho frio. Foi neste intento que saiu para caminhar na floresta até a cachoeira de
águas cristalinas que ficava no sopé da colina, nos fundos da aldeia de Gabrielle.
Antes de sair passou na cozinha e colocou um pedaço de bolo de nozes em uma sacola
de viagem, assim como pão e algumas frutas, pois só pensava em retornar no final da
manhã. No caminho comeu algumas amoras silvestres, iguais as que floresciam nas
estradas de Amphipolis quando era criança.
Ao chegar na cachoeira Xena parou para contemplar aquele espetáculo da natureza. A
cachoeira não era das maiores, mas por certo era uma das mais belas que já tinha
visto. Jorrava por entre pedras de cerca de vinte metros de altura formando uma
lagoa em forma de ferradura que ficava de frente para o nascer do sol, ladeada num
dos lados por uma vasta planície verdejante, onde pastava um pequeno rebanho de
ovelhas e, por outro, pedras de cor avermelhada contrastando com o verde da
vegetação que cobria as rochas. Neste lado a vegetação se fechava em tons de verde
escuro e oliva, emoldurada por trepadeiras de cores variadas, indo do vermelho
intenso até o branco. Pequenas flores rasteiras de tonalidades amareladas e lilases
cobriam grande parte do chão no lado leste da cascata. De costas para a claridade
matutina Xena observava aquela cena e pensava em Gabrielle. O sol refletia-se na
queda d’água formando prismas multicoloridos, arco-íris em miniatura dentro do
lago. Reflexos dourados pareciam projetar-se de dentro das gotículas d’água fazendo
Xena lembrar-se dos cabelos de gabrielle. Nestes devaneios despiu-se e jogou-se na
água fria da cachoeira, mergulhando por entre as rochas do fundo e emergindo quase
que do outro lado. O contato da água gelada em sua pele abrandava o fogo que lhe
queimava por dentro. Xena sempre gostou do elemento água, nunca perdia uma
oportunidade de um bom mergulho, mesmo no inverno. Nadou por cerca de duas horas e
quando saiu da água o sol já estava bem mais alto. Caminhou até uma grande pedra
cuja base ficava dentro d’água e deitou-se de costas, braços abertos como que
sorvendo a energia do astro rei. Os raios solares acariciavam a nudez do corpo da
princesa guerreira e douravam ainda mais sua pele morena. Seus cabelos negros
molhados brilhavam como se escondessem diamantes por sob as madeixas. Xena era de
fato uma linda mulher.
Durante longo tempo ficou pensativa, fazendo uma retrospectiva de tudo que havia
vivido até então. Precisava ordenar sua mente e seus sentimentos. Não poderia
continuar assim, precisava tomar uma atitude ou acabaria enlouquecendo de vez. O
simples toque de mãos da rainha amazona a desconcertava. Não conseguia mais
cavalgar com Gabrielle, sentir o calor de seu corpo sem perder o controle de seus
reflexos. Sentia-se como uma adolescente diante do primeiro amor. De fato, nunca
havia sentido nada semelhante por ninguém, nem por Boris, pai de seu filho.
Gabrielle lhe despertava o desejo e a ternura, o fogo que a consumia e a calmaria
após a tempestade. As curvas do corpo de Gabrielle a deixavam sem ar, boca seca e
dificuldades de centrar os pensamentos. Quando Gabrielle caminhava à sua frente,
com sua saia curta e top que deixava à mostra sua cintura escultural, com passadas
cadenciadas e sensuais... pobre Xena, era como se o mundo em volta deixasse de
existir. Realmente, precisava tomar uma atitude.
Quando o sol indicava quase meio dia Xena vestiu suas roupas e dirigiu-se de volta
à aldeia. Começava a sentir fome, o lanche que havia levado para o café da manhã a
muito já se havia acabado. Xena caminhava com passadas fortes. Estava decidida: o
dia não terminaria sem que conversasse com Gabrielle sobre seus sentimentos. Sentia
um misto de ansiedade e expectativa, precisava abrir seu coração, e o faria ainda
hoje.
Ao chegar em casa Xena percebeu a ausência de Gabrielle. Lila, que observava a
impaciência de Xena, disse:
- Gabrielle ficou na floresta, colhendo flores, mas já vem vindo para o almoço.
- Ah...tá bom. – responde Xena.
As duas colocam a mesa e começam a estranhar a demora de Gabrielle. Xena resolve ir
atrás dela.
- Estávamos na floresta, perto do grande carvalho. Gabrielle deve ter perdido a
hora, tinha muito no que pensar... e decisões para tomar... – disse Lila fitando
Xena nos olhos, que corou, baixou a cabeça e disse:
- Eu vou procura-la.

Perto dali, aos pés do grande carvalho, Xena não avista Gabrielle e chama por ela:
-GABRIELLE... ONDE VOCÊ ESTÁ???... O ALMOÇO ESTÁ PRONTO.
Silêncio. Nenhuma resposta de Gabrielle. Xena tenta de novo:
- Gabrielle... não tem graça nenhuma... apareça!!!
Nenhuma resposta e Xena começa a se preocupar. À sua esquerda conseguia avistar o
vale e nem sinal de Gabrielle. Adentrou mais na floresta, sempre chamando por ela.
Perto de uma clareira Xena observa marcas de pegadas recentes no solo, sinais de
alguém sendo conduzido contra a vontade. Cerca de seis homens arrastando uma só
pessoa. Xena se desespera e lhe vem à memória a ameaça de Ares, sente um arrepio e
segue as pegadas. Logo adiante encontra no meio da vegetação um punhal e o
reconhece como sendo arma utilizada pelo bando de Kirylus, seu antigo conhecido.
Xena corre até a casa e avisa Lila do ocorrido, sem que os pais de Gabrielle fiquem
sabendo. Pega sua espada, seu chacran e diz a Lila:
- Lila, não se preocupe, eu a trago de volta sã e salva... eu juro.
- Eu vou com você.
- Não, fique aqui e mantenha os olhos bem abertos. Logo estaremos de volta.
- Que os deuses a acompanhem... – diz Lila chorando e abraçando Xena.

Xena parte em direção ao acampamento de Kirylus, rápida como um raio e com a fúria
de uma tempestade tropical. Estava disposta a morrer se fosse preciso para salvar
Gabrielle, a sua Gabrielle. Tinha certeza que Kirylus agia como uma marionete de
Ares e que Gabrielle corria sério risco em poder de seu bando de assassinos e
saqueadores, entre outros adjetivos.

No acampamento de Kirylus um dos homens penetra em sua tenda:
- General, sua encomenda está lá fora.
- O que é isso em seu rosto? Marcas de unhas?
- A moça estava resistente em nos acompanhar... tivemos que persuadi-la.
Kirylus solta uma gargalhada:
- Tragam a onça até aqui.
Gabrielle é arrastada até a tenda de Kirylus. Está com as mãos amarradas às costas,
assim como as pernas, e uma mordaça lhe cerra os lábios.
- Ora, ora... o que temos aqui... uma fera indomada.
- Ummmmm...Uuummmm...
- A gatinha quer falar??? Quer? – diz Kirylus chegando bem perto de Gabrielle e
retirando sua mordaça.
- Seu porco, desgraçado, me solta!!! O que é que você quer comigo? Quando Xena
souber ela te mata!!!
- Calminha, calminha... sua amiguinha não vai te encontrar mais belezóca... ainda
hoje você embarca no navio de Menticlus, um mercador de escravas, e vai para o
outro lado do mundo... com outro nome, como sendo proveniente dos países
nórdicos... Nunca mais Xena te localizará... – diz Kirylus e se aproxima fazendo
menção de beijar os lábios de Gabrielle.
Ela lhe cospe no rosto e Kirylus, furioso, lhe desfere um tapa cortando-lhe o canto
esquerdo da boca.
- Eu te odeio, desgraçado... espere e verá... você não conhece Xena!
- Levem-na daqui!!! Dentro de poucas horas será embarcada e eu serei o líder do
exército do deus da Guerra!!! Há, há, há, há...
Ares, invisível, o observa pensativo.

Xena se aproxima do acampamento de Kirylus e é atacada por seus homens. Saca sua
espada e derruba mais de quinze homens, com uma fúria jamais sentida por ela, nem
mesmo em seu tempo de conquistadora de nações, parte em direção à tenda do general.
Entra num rompante de raiva:
- ONDE ESTÁ GABRIELLE !!!
- Eu não sei do que você está falando, Xena.
- Kirylus, não se faça de desentendido – diz Xena colocando sua espada no pescoço
de Kirylus – não me faça usar a força. Me entregue Gabrielle e eu vou embora.
- E o que eu ganharia com isso???
- Sua vida – diz Xena pressionando sua espada contra a garganta do inimigo.
Kirylus calmamente afasta a espada de Xena e diz:
- Você não está em situação de negociar, Xena. EU tenho o que você quer. E Ares me
fez uma ótima oferta...
- O seu exército...
- Isso mesmo, em troca de sua amiguinha... É amargo o sabor da derrota, não é Xena?
É insuportável o gosto da perda... VOCÊ já tomou o meu lugar, lembra???
- Isso foi passado Kirylus, nós já lutamos no mesmo lado. Hoje eu só luto pelo que
considero justo. E o comando do exército de Ares não me interessa, e você sabe
disso.
- Mas Ares não te quer comandando o exército, Xena. Ele não te quer no campo de
batalha... ele te quer na sua cama!
Xena parte novamente para cima de Kirylus que também saca a sua espada e eles
começam a lutar.
Ao ouvir o barulho de espadas Gabrielle, presa em outra tenda, reconhece o grito de
guerra de Xena e chama por ela:
- XENA!!!
Ao ouvi-la Xena desfere um golpe certeiro em Kirylus que cai mortalmente ferido.
Xena corre até onde Gabrielle está e chega no momento em que Ares se aproxima dela
e a segura pelos braços, ainda amarrados, olha para Xena e diz:
- Você perdeu, Xena... Vulcanus espera sua amiguinha... – e desaparece no ar
levando Gabrielle consigo.

Xena sabe que Vulcanus é o guardião da cratera do vulcão do monte Ixion. Sabe
também que não conseguirá chegar a tempo de salvar Gabrielle se cavalgar em Argo
até lá. Desespera-se e tenta racionar e elaborar um plano para chegar a tempo.
Rapidamente se dirige ao templo de Afrodite, a deusa do amor, situado na estrada da
aldeia vizinha a Potedia. Lá chama por Afrodite que aparece cercada por belos
exemplares do sexo masculino, como sempre.
- Xena... que bom revê-la. Mas que ar preocupado?
- Afrodite, eu preciso da sua ajuda, por favor...
- Calma, criança... o que houve?
- É Gabrielle. Ares a levou para a caverna do monte Ixion.
- Ah, Xena, nesses assuntos de família eu não posso me meter, afinal Ares é meu irmão.
- E Gabrielle é sua amiga! Ares vai mata-la!
- Não... ele não faria isso.
- Faria sim. Ele faria qualquer coisa para alcançar seus objetivos. E ele quer a
mim!!! Afrodite, eu sei que você gosta de Gabrielle...por favor, não deixe que nada
de mal lhe aconteça...
Afrodite sorri maliciosamente para Xena:
- Acho que estou começando a entender essa história... Você, ein??? Tem bom gosto.
Gabrielle é realmente tudo de bom...
- E eu não posso perde-la sem que ela saiba disso, Afrodite...
- Entendo, entendo...
- Afrodite... o tempo urge.
- Tá bom, tá bom... o que eu não faço em nome do amor...mas que Ares nem desconfie
que eu estou metida nisso, combinado?
- Combinado.
Afrodite levanta sua mão e materializa Xena no sopé da montanha do monte Ixion.
- Obrigado. – diz Xena e penetra na montanha através de uma caverna nas rochas.
Xena segue cuidadosa, atenta a qualquer investida surpresa de Ares. Este, no
entanto, nem imagina a proximidade de Xena e se encontra ao lado da cratera do
vulcão, dirigindo-se à Gabrielle amarrada e colocada de pé numa pedra cuja
extremidade está voltada para dentro da caldeira de fogo do vulcão:
- E agora, Gabrielle??? Onde está sua amada Xena? Mesmo que ela consiga chegar até
aqui será tarde... você já vai ter virado carvãozinho...HÁ, HÁ, HÁ...
- Eu, se fosse você, não teria tanta certeza, Ares – diz Xena atrás dele.
Os olhos de Gabrielle encontram os de Xena, num pedido silencioso de socorro. Seu
rosto estava vermelho pela proximidade do calor do fogo. Seu corpo todo transpirava
de calor e de pânico frente à morte iminente.
- Xena!!! Como conseguiu chegar tão rápido???
- Não te interessa, Ares. É a mim que você quer... solte Gabrielle.
- Na-na-ni-na-não... eu não caio mais nessa. Enquanto essa loirinha estiver
respirando você não terá olhos para mais ninguém, nem para o deus da Guerra.
- Deixa de ser idiota, Ares. Se matar Gabrielle eu te infernizo por toda a
eternidade!!! E você bem sabe do que eu sou capaz, não sabe?
- Eu não aceito ameaças Xena!!! – diz Ares partindo para cima de Xena.
Ela saca sua espada e começam a lutar enquanto Gabrielle assiste a tudo
completamente imóvel, pelas amarras e pelo medo. Xena é bastante ágil e consegue se
esquivar dos golpes do deus da guerra. Quando Ares se encontra num canto da caverna
Xena arremessa seu chacran contra as pedras suspensas acima da cabeça do
adversário. Estas despencam e soterram Ares, porém por pouco tempo. Ainda tonto ele
se levanta, olha para Xena e lança um raio contra a base da pedra que sustentava o
corpo de Gabrielle. A pedra se desprende e Gabrielle cai na direção da fornalha do
vulcão. Com a velocidade de um raio e a agilidade de um felino, Xena corre,
flexiona as pernas e arqueia o corpo, realizando um salto mortal e projetando-se na
direção da cratera. Consegue segurar Gabrielle nos braços, caindo de pé no outro
lado das rochas. Ainda com Gabrielle nos braços se volta para Ares e com a voz
embargada pela raiva diz:
- Eu te odeio, deus da guerra... mesmo que você fosse a última pessoa na face da
terra eu jamais seria sua. Você me causa asco e desprezo.
Ares se volta para ela, recuperado da luta e responde:
- Quer saber do que mais??? Agora sou EU que não te quero mais... EU, o TODO
PODEROSO DEUS DA GUERRA é quem não te quer. Nem para limpar o chão onde eu piso...
E quer saber mais? Fique com a SUA Gabrielle, e faça bom proveito... EU te daria o
que você quisesse, poder e glória. Com essa aí você viverá sua vidinha medíocre de
mortal e terá o fim de todos eles, embaixo da terra. Adeus Xena, até nunca mais.
Ares desaparece no ar. Na caverna impera o mais absoluto silêncio. Xena se ajoelha
e coloca Gabrielle no chão, libertando-a das amarras:
- O que foi que fizeram contigo? – pergunta Xena olhando para o ferimento na boca
de Gabrielle e acariciando sua face. – te machucaram???
- Se você considera uma boa surra como machucar...machucaram. Mas se estiver se
referindo a alguma coisa mais íntima... não deu tempo. – responde Gabrielle
conseguindo ter bom humor mesmo numa situação como aquela.
- Minha querida... – diz Xena abraçando Gabrielle, que retribui o abraço apertando
seu corpo contra o de Xena.
Com a proximidade do rosto de Gabrielle, Xena lhe beija afetuosamente os cabelos, a
testa, a face e lentamente o canto da boca. Gabrielle sente o calor dos lábios de
Xena e vira sua boca na direção dela, capturando seus lábios num beijo a princípio
suave e vagaroso. Os corações de ambas disparam frente ao inusitado, mas os lábios
não se separam, pelo contrário, o beijo se torna cada vez mais intenso. A língua de
Xena explora o céu da boca de Gabrielle e cada canto daquela boca macia é invadido
e sugado com paixão. Gabrielle corresponde à volúpia da paixão dos lábios de Xena e
aperta cada vez mais seu corpo ao encontro do dela, movendo lábios e corpo em
movimentos sincronizados de entrega e êxtase. Tanto Xena quanto Gabrielle não
saberiam precisar quanto tempo ficaram abraçadas. Finalmente Xena consegue dizer:
- Eu te amo, Gabrielle.
- Eu também te amo, Xena.
- Eu tinha receio que você não me amasse do modo como eu a amo...
- E eu pensava a mesma coisa – responde Gabrielle.
Beijam-se novamente. Xena ergue Gabrielle em seus braços. Ela aninha a cabeça no
ombro de Xena, enquanto a princesa guerreira lhe carrega para fora da caverna do
monte Ixion. Do lado de fora Afrodite as aguardava:
- Muito bem...pelo visto conseguiram se acertar...
- Afrodite! – diz Gabrielle – Eu bem que devia ter desconfiado que tinha dedo seu
metido nessa operação resgate... Xena é rápida, mas não é deusa.
Xena coloca Gabrielle no chão. Ela ajeita a saia e o top.
- Menininha... Eu estava com saudades. E seus pergaminhos? Tem produzido muito? –
questiona a deusa do amor.
- Mais ou menos... nos últimos tempos eu andei meio...digamos, desorientada para
escrever. – responde Gabrielle.
- Mas pelo ar de felicidade da tua carinha parece que agora você encontrou a
inspiração que precisava, ein?
- Afrodite...
- Mas é verdade, não é Xena? – pergunta Afrodite sorrindo maliciosamente.
Xena sorri e concorda, dizendo:
- Muito obrigado, do fundo do meu coração. Te devo essa pelo resto da minha vida.
- Para mim você não deve nada... mas, faça minha amiga feliz, ok?
- Com certeza – responde Xena, não cabendo em si de felicidade.
Afrodite se despede com um tchauzinho e desaparece no ar. Outra vez materializa
Xena, desta vez acompanhada de Gabrielle, perto da cachoeira de Potedia.
- Vamos para casa, meu amor – diz Xena beijando a boca de Gabrielle – perdemos o
almoço, mas ainda conseguiremos chegar a tempo de jantar.
- Minha família deve estar preocupada conosco.
- Pedi a Lila que não falasse nada a seus pais, pelo menos até o final do dia.
Vamos logo, ela deve estar ansiosa. A propósito, Gabrielle, acho bom você chupar um
limãozinho antes de entrar em casa...
- Por que???
- Para tirar esse ar de satisfação da cara... Lila vai pensar que é gozação, afinal
ela sabe que você foi capturada por aquela corja...
- Xena...- retruca Gabrielle sorrindo.

Xena e Gabrielle entram em casa quando os últimos raios de sol se escondiam atrás
das montanhas do leste. Lila corre até elas e abraça Gabrielle:
- Que os deuses sejam louvados!!! E você também Xena. Gabrielle, você está com o
lábio cortado...
- Não é nada sério... só um tapinha de um certo senhor da guerra... – responde
Gabrielle.
- EX-senhor – completa Xena.
- Vamos, vamos, vamos jantar – convida Lila.

O pai de Gabrielle senta-se à cabeceira da mesa e a família ao redor, Xena na outra
extremidade. O jantar transcorre normalmente, sendo que a mãe de Gabrielle comenta:
- Vocês não almoçaram em casa... da próxima vez avisem, pois eu havia caprichado na
refeição.
- Desculpe, mamãe... é que nos distraímos na floresta, não é Xena???
- Ah...sim...pois é.
Após o jantar Xena senta-se no alpendre em frente à casa para conversar com o pai
de Gabrielle. A mãe estava exausta da lida e recolheu-se cedo. Enquanto arrumavam a
cozinha Gabrielle e Lila conversavam:
- Quer dizer que você falou com a Xena??? – bisbilhota Lila, falando a meia voz e
cutucando Gabrielle no cotovelo.
- Porque você está me fazendo essa pergunta ?
- Gabrielle, eu te conheço desde que você nasceu! Teus olhos estão brilhando...
- Você tinha razão, irmã. Me surpreendi com Xena. O sentimento dela é igual ao meu,
graças aos deuses!
- Eu sabia.
- Se sabia porque não me falou logo?
- Tem coisas que é a gente mesmo que deve descobrir, Gabrielle.
- É... tem razão. O que importa é que eu estou me sentindo a mulher mais feliz do
mundo!
- Uma delas, não é? – responde Lila – A outra está sentada lá fora com o papai.

Gabrielle e Lila sorriem. Terminam de arrumar a louça do jantar e Lila se recolhe.
O pai também vai para a cama. Gabrielle senta no alpendre, numa rede, ficando de
frente para a cadeira que Xena ocupava.
- Eu já te agradeci por ter salvo minha vida novamente? – questiona Gabrielle.
- Você não tem nada para agradecer. Na verdade eu salvei a minha vida, pois você é
a minha vida, Gabrielle.
- Xena, eu te amo.
- Eu também, mais do que tudo.
Os olhos azuis de Xena refletiam a luz da lua em quarto crescente e adquiriam uma
tonalidade escura, quase anil. Gabrielle também possuía o luar refletido em suas
madeixas douradas que emolduravam sua face radiante de felicidade. Gabrielle era
tímida e apresentava certa dificuldade de externar sentimentos relacionados a
questões mais íntimas. No entanto, a simples contemplação de Xena, sentada à sua
frente, povoava seus pensamentos dos mais variados desejos e fantasias. Realmente
Xena a atraía de forma que mal podia se controlar. O olhar da Princesa Guerreira a
desnudava e Gabrielle sentia-se completamente excitada.
As duas ficam se olhando em silêncio até que Xena fala:
- Eu quero ficar com você num lugar mais sossegado, Gabrielle. A gente tem tanto
para conversar... e para fazer...- diz Xena maliciosamente.
Gabrielle fica corada até a raiz do cabelo. Xena se diverte com a situação.
Gabrielle questiona:
- Você está se referindo a uma...uma... lua de mel?
- É, podemos chamar de lua de mel... eu preciso de você Gabrielle – diz Xena
fitando-a nos olhos.
O olhar de Xena deixa Gabrielle fora do ar. Ela vai até Xena, aproxima-se e senta
em seu colo, de frente para ela, colocando uma perna de cada lado, entrelaçando-as
por trás do corpo de Xena. A guerreira sente o calor do corpo de Gabrielle, o fogo
ardendo por debaixo de sua saia franzida. Xena começa a transpirar e coloca as mãos
por baixo do top de Gabrielle, em suas costas, sentindo a pele macia e quente.
Gabrielle geme com o toque e pressiona seu corpo ao encontro do de Xena. Elas se
beijam apaixonadamente. Xena respira fundo e afasta Gabrielle dizendo:
- Meu amor, seus pais podem acordar.
- Mas eles vão ficar sabendo. Não vou esconder minha felicidade do mundo.
- Tudo bem, mas vamos dar um tempo para que se acostumem com a idéia?
- Tudo bem, você tem razão.
- Eu quero te levar para um lugar especial, meu amor...
- Para onde??? – quer saber Gabrielle, repleta de curiosidade.
- Surpresa! Amanhã arrumamos nossas coisas e partimos depois de amanhã, ok?
- Ok!!! Mas você não vai me contar mesmo???...
- Não senhora, eu já disse que é surpresa. – responde Xena beijando Gabrielle
novamente. – Agora vamos dormir que o dia foi exaustivo.
- No seu quarto ou no meu??? – brinca Gabrielle.
- Cada uma no seu respectivo quarto, Gabrielle. Seus pais acordariam com o barulho
– responde Xena rindo maliciosamente.
Gabrielle fica corada novamente:
- Eu me referia a dormir mesmo, dona Xena...
- Eu sei...

Naquela noite as duas dormiram o sono dos justos, como há muito tempo não o faziam.
Desta vez os sonhos eram claros como os dias ensolarados e a paixão fazia deles
bálsamos para compensar semanas de angústias e dúvidas.
Xena novamente acordou cedo e foi para a cachoeira. Outra vez precisava de um banho
frio! Desta vez, no entanto, mergulhou nas águas gélidas com imenso prazer, lavando
seu corpo e sua alma, como que energizando-se para oferecer à sua amada Gabrielle o
melhor de si. Xena refletia consigo mesmo enquanto executava compassadas braçadas
na água, deslizando com suavidade por entre a nuvem de gotículas formadas pela
queda d’água. Pensava em quanto estava feliz. De fato jamais havia sentido algo
parecido em sua vida, era como se pesadas cortinas houvessem sido descerradas e uma
claridade que ofuscava a vista houvesse inundado sua existência e dado um norte
para os seus dias futuros. Emanava felicidade por todos os poros e era como se a
natureza à sua volta captasse a vibração de seu espírito, toda a floresta lhe
sorria.
Gabrielle dormiu até mais tarde e foi despertada pela luminosa claridade matutina
que penetrava nas frestas da janela. Sentiu o cheiro saboroso de pães e bolos
feitos por Lila para o café da manhã. Adentrou na cozinha mal conseguindo disfarçar
a felicidade que estava sentindo.
- Onde está Xena? – pergunta para Lila.
- Acordou cedo e foi para a cachoeira.
- Ela já tomou café?
- Acho que não, Gabrielle.
- Vou busca-la. Eu estou faminta!!! – Refere uma efusiva Gabrielle.
Antes de sair Gabrielle abraça a irmã e lhe diz:
- Lila, Xena e eu vamos partir.
- Eu imaginava...vocês têm muito que conversar...a sós. – responde Lila.
Gabrielle cora e diz:
- Sabe... Xena quer me levar para... para uma... uma...lua de mel.
- Isso é bem a cara da Xena – refere Lila divertindo-se com o constrangimento da irmã.
- Na verdade isso é...digamos...atípico. Mas eu estou adorando! Só que a danada não
me contou aonde iremos. Eu estou morrendo de curiosidade.
- E não é só o lugar que a está deixando...curiosa, não é Gabrielle?
- Ai Lila, você sabe como me deixar embaraçada...vamos mudar de assunto.

Lila se cala, rindo consigo mesma. Gabrielle sai correndo, quase atropelando sua
mãe que chegava do quintal neste momento, com uma cesta repleta de maças.
- Devagar, menina – diz a mãe.
- Desculpe, mamãe, eu te amo... – grita Gabrielle já bem longe.
- Eu não entendo essa menina. Até ontem estava prostrada e desanimada...agora
parece uma serelepe saltitante...
- Deve ser o ar do campo que lhe fez bem – diz Lila com ar maroto.
- É, deve ser...

Gabrielle corre até a cachoeira e contempla sua amada banhando-se nas águas
transparentes da lagoa. Examina atentamente as curvas da musculatura de Xena em
cada braçada que a impulsiona para frente. Neste momento a princesa se vira e nada
de volta, de costas, sendo que a visão de seu sexo e seus seios nus deixam
Gabrielle sem ar. Inúmeras vezes já vira Xena despida, mas agora era diferente.
Gabrielle respira fundo e grita:
- XENA... Hora do café...
Xena ouve, acena de dentro d’água e nada em direção à margem. Sai da água
calmamente e caminha em direção às suas roupas com a majestade de uma deusa, seu
corpo escultural deixava Gabrielle com palpitações. E Xena sabia disso!!! Vestiu-se
sincronizadamente valorizando cada movimento, e andou em direção à sua amada
tomando-a nos braços firmemente, envolvendo-a pela cintura e beijando-a
carinhosamente nos lábios. Precisou segurar Gabrielle, pois suas pernas
fraquejaram. Xena sorriu dizendo:
- Bom dia, meu amor.
- Bom...muito bom...- responde Gabrielle procurando novamente os lábios de sua amada.
- Vamos...ou o café vai esfriar... – cochicha Xena no ouvido de Gabrielle.
- Eu tô morrendo de fome!!!

Ao regressarem e sentarem-se à mesa quase não se encaravam para que os olhos não
delatassem o que o coração teimava em gritar para o mundo. Lila as observava e
sorria, radiante pela felicidade estampada no semblante da irmã, e de Xena também.
Durante a manhã Gabrielle e Xena trabalharam nos jardins da frente da casa e na
hora do almoço Gabrielle comunicou aos pais que partiriam no dia seguinte.
- Mas já??? – questiona a mãe – vocês recém chegaram.
- Pois é... – diz Gabrielle – mas é que lembramos do... do aniversário de um amigo,
de Eólios, não é mesmo Xena?
- Ah é...
- E ele ficaria inconsolável se não fôssemos abraça-lo!
- Bom, se é assim... mas pelo menos não demore tanto para nos visitar, filha.
Amamos você e sentimos saudades.
- Eu sei mãe, eu também amo vocês.
De fato eles já estavam acostumados com as idas e vindas da filha e não
desconfiaram do real porquê de não ficarem mais algum tempo. Xena e Gabrielle
prepararam suprimentos para a viagem e partiram na manhã do dia seguinte, bem cedo,
logo após o nascer do sol.
- Boa viagem, Gabrielle. Boa viagem, Xena. – Diz Lila e, chegando bem perto de
Xena, cochicha ao seu ouvido – Cuide bem da minha irmã.
- Com toda a certeza – responde Xena – ela é o meu tesouro.
Montam em Argo e partem.
- Que os deuses às acompanhem – diz Lila enquanto acena.

Gabrielle segurava-se fortemente na garupa de sua amada. Xena podia sentir o pulsar
dos batimentos do coração de Gabrielle contra suas costas. Mais ainda, conseguia
sentir o calor emanado do meio de suas pernas, que lhe roçava no cóccix enquanto
Argo cavalgava velozmente. Gabrielle tinha consciência do que conseguia provocar em
Xena e isso a divertia um bocado, pois estava acostumada com uma Xena senhora de
seus atos e com pleno controle sobre suas emoções. Gabrielle passava a mão sobre a
armadura que protegia os seios de xena, acariciando-a e descendo até suas coxas, em
movimentos suaves e rítmicos. Xena suava e Gabrielle sentia seu suor de encontro ao
peito. Beijava as costas de sua amada e lhe afagava os cabelos. Xena quase não se
agüenta de tanta excitação e ao passarem perto de um riacho, numa estrada deserta,
Xena desmonta e puxa Gabrielle para si. Enlaça sua amada pela cintura e a levanta
do chão beijando-lhe ardentemente a boca, o pescoço e o peito. Gabrielle geme de
prazer e retribui cada toque, cada carícia mais ousada. Gabrielle leva suas mãos
até a nuca de Xena, puxando-a e lambendo seu pescoço e orelha:
- Eu quero ser sua, meu amor...
Xena enlouquece de tesão, coloca Gabrielle no chão e se deita sobre ela, colocando
suas mãos por dentro de sua saia, tocando seus quadris e apertando-a contra si.
Gabrielle abre suas pernas oferecendo-se para a mulher que escolheu para ser sua,
querendo ser possuída por inteiro. Num esforço sobre humano Xena respira fundo e se
afasta um pouco, recuperando o fôlego e olhando amorosamente para Gabrielle. Esta
estranha a atitude de Xena e questiona:
- O que foi? O que foi que eu fiz? Você não me quer?
- Quero Gabrielle... você é o que eu mais quero na vida. E você sabe disso, sua
danada...
- Então o que houve, porque se afastou? Eu quero ser sua Xena, toda sua.
- Eu também quero ser sua, aliás eu já sou toda sua, meu amor.
- Mas então, eu não entendo... – diz Gabrielle.
- Sabe o que é? Eu quero que a nossa primeira vez seja especial, assim como você é
especial, diferente de tudo o que já vivemos até aqui. Minha vontade é me entregar
aqui, agora, por completo, possuí-la e ser possuída. Mas você, Gabrielle, merece o
melhor. Eu a estou levando para um lugar muito especial, digno de vossa majestade,
minha rainha amazona. A minha mulher merece o paraíso aqui na terra, nada menos que
isso! Tenha paciência... e me ajude a ter também, Gabrielle...
- Tá bom... – sorri Gabrielle – você sempre acaba fazendo as coisas do seu jeito
mesmo...
- Você não vai se arrepender... eu prometo. – diz Xena beijando suavemente os
lábios de sua poetiza.
- A propósito Xena, você poderia tirar a sua mão de dentro da minha saia???
As duas caem numa gargalhada e se abraçam. Ajeitam suas roupas, comem algumas maçãs
e parte do bolo de nozes feito por Lila, e seguem viagem.

Gabrielle e Xena cavalgaram de Potedia até a cidade costeira de Vólos, sendo que
levaram três dias para chegar, atravessando a região da Calcídica, Macedônia e
Tessália, passando por Scotus, Thessaloniki e Methone, sendo que pernoitaram, a
primeira noite, em hospedaria nesta última cidade. Em Methone, ao desmontarem em
frente a uma taverna, o sol já se punha no horizonte e o céu assumia uma cor azul
acinzentada, preparando-se para descortinar o brilho das primeiras estrelas. O sol
ainda refletia, por detrás das montanhas ao fundo, fachos de luz colorida que
davam tonalidades, que iam do vermelho vivo ao rosa, laranja e lilases, para as
nuvens próximas à linha do horizonte, formando um espetáculo digno de ser
apreciado. E foi o que Gabrielle e Xena fizeram. Sentaram-se lado a lado, caladas,
contemplando aquele presente dos deuses e agradecendo pelas bênçãos de estarem
juntas e felizes.
Xena conduziu Gabrielle para dentro do estabelecimento de um velho conhecido seu,
Niklos. Ao vê-la Niklos abriu os braços sorridente e correu em sua direção. Era uma
figura de fato engraçada. Devia medir cerca de 1,50m, era possuidor de um abdômen
bastante projetado para frente, suas mãos eram gordas, com dedos curtos, parecendo
pãezinhos de mel. Era bastante claro, seus cabelos pendiam até os ombros, eram
ondulados, rebeldes e ruivos, escondendo uma calvície no centro da cabeça com um
barrete de veludo verde musgo. Suas faces eram rosadas, porém o que chamava a
atenção naquele velhinho eram seus olhos de um azul cristalino, da cor do céu em
dias de sol claro. Usava uma calça também de veludo verde amarrada por um cinto de
couro acima da barriga, com uma camisa branca impecavelmente enfiada para dentro do
cós das calças. Suas botas de couro quase lhe batiam nos joelhos. Gabrielle
calculou que Niklos deveria ter perto de oitenta anos, porém apesar da idade
conservava a jovialidade e a destreza em cada gesto. Saiu de trás do balcão e
abraçou Xena, que o levantou do chão com um abraço. Balançando os pés no ar Niklos
se derrete:
- Minha menininha... cada vez que te vejo você parece que cresceu mais um pouco...
- Ou será que é você que está diminuindo com o peso dos anos??? – provoca Xena
sorrindo.
- Ora, ora, continua sempre respondona... – retruca sapecando um beijo estalado na
face de Xena – mas afinal, o que faz por aqui? E quem é essa sua amiga simpática?
- Gabrielle, este é um querido velho amigo, Niklos.
- Muito prazer – diz Gabrielle.
- O prazer é todo meu, amigos da minha menininha são meus amigos também. Venham,
venham... sentem-se. Aposto que estão famintas!
- Eu estou!!! – diz Gabrielle.
- E quando é que você não está com fome, Gabrielle??? – sorri Xena provocante.
- Engraçadinha... – Gabrielle franze o nariz sorrindo.
Elas se acomodam em uma mesa de canto onde conseguem ter uma visão de todo o
estabelecimento. No térreo são servidas as refeições e as bebidas. No andar de cima
existem pequenos cômodos, bastante simples, porém extremamente limpos e
confortáveis, servindo para hospedar viajantes e mercadores. Enquanto Xena e
Gabrielle jantam são observadas por Niklos, que sorri contente com o que vê: a
felicidade e o amor estampados nos olhos de Xena quando contempla Gabrielle. Niklos
lembra perfeitamente de Xena criança, ocasião em que residia em Amphipolis, bem
perto da casa de Selene, mãe de Xena. Talvez por sentir falta do pai aquela
garotinha morena, de olhos azuis e longos cabelos negros, inquieta, costumava
passar horas em sua oficina observando-o enquanto realizava seus afazeres de
consertar objetos dos mais variados tipos: panelas, castiçais, portões, cadeiras,
etc. Trabalhava tanto com metais quanto com madeira ou cerâmica. Xena tinha
verdadeira fascinação quando ele confeccionava brinquedos. Certa vez esculpiu um
cavalinho de madeira a quem Xena batizou de Argo e foi seu brinquedo inseparável
por vários anos. Xena sempre o fascinou por sua perspicácia e caráter. Niklos
chegou a ouvir histórias referentes à Xena conquistadora de nações, mas tinha
certeza de que aquela não era sua garotinha, porém aquela mulher perdida de amor
que agora ocupava a mesa de canto de sua taverna, essa sim era a sua Xena, com toda
a certeza. Era bom tê-la de volta.
Ao terminarem o jantar e aproveitando que Gabrielle havia ido ao toillete, Niklos
se aproxima e pergunta a meia voz no ouvido de Xena:
- Quarto para casal?
- Niklos, seu bruxo velho... – retruca Xena com um sorrisinho no canto da boca –
DOIS quartos.
- Tudo bem... mas é que eu te conheço...
Desta vez é Xena que puxa o amigo para perto e lhe pergunta ao pé do ouvido:
- É tão evidente???
- Claro como água. – responde Niklos.
- VOCÊ me conhece, por isso não vale.
Niklos gargalha.
- Conheço mesmo. Você está com o mesmo olhar do dia em que eu te dei o Argo,
lembra? É o olhar de quem está pleno de felicidade.
- É verdade, meu amigo. Hoje eu sou de fato a mulher mais feliz do mundo.
- Então porque os quartos separados?
- É que eu quero levar a Gabrielle para um lugar bem especial...
- Hummm... eu até imagino aonde seja... vocês partirão de Vólos?
- Realmente você deve ser um feiticeiro... – diz Xena sorrindo e puxando Niklos
para junto de si, fazendo com que sentasse em seu colo.
Nisto Gabrielle retorna à mesa e acha graça da cena com a qual se depara. Niklos,
no colo de Xena, não consegue encostar os pés no chão e balança as pernas enquanto
conversam. Gabrielle não resiste e questiona:
- Escuta... vocês já pensaram em dançar no meio do salão???
O trio cai na risada e Niklos responde:
- Sim... mas ia parecer que eu escalava o Monte Olimpo. He,he,he,eh...
Xena coloca Niklos no chão e antes de voltar para o balcão o velho cochicha no
ouvido de Xena:
- Se mudar de idéia o quartinho dos fundos está vago...é bastante discreto e as
janelas são para o poente, não se ouvem os barulhos de dentro...
Xena belisca o traseiro de Niklos e lança-lhe um olhar de cumplicidade,
empurrando-o para longe de sua mesa.
- O que foi que ele disse, Xena? – quis saber Gabrielle.
- Nada não, provocações de um velho amigo...
- Sei... – diz Gabrielle com um movimento de sobrancelhas, desconfiada.
As duas terminam o jantar e sobem para os seus aposentos. Na porta do quarto de
Gabrielle Xena espreita sorrateiramente a escada e aproveitando que estava deserta
enlaça sua amada pela cintura e beija sua boca com paixão. Ao ouvir passos na
escada se afasta e diz baixinho:
- Dorme bem meu amor. Eu te amo.
- Em também te amo, Xena.
Elas acordam cedo, fazem o desjejum, se despedem de Niklos e preparam-se para
seguir viagem. Antes de montarem em Argo, Niklos estende um pacote para Xena:
- É um presente de um velho amigo... fiz durante a noite. Eu sei que você sempre
gostou dos meus trabalhos.
Xena abre o pacote e se encanta com uma figura de cerca de vinte centímetros de
altura esculpida em cedro, retratando a silhueta de dois corpos nus entrelaçados,
dois corpos de mulher. Gabrielle enrubesce e Xena diz:
- É lindo, Niklos. Você é de fato um artista. Muito obrigado. Você é uma das poucas
pessoas que sempre me aceitou como eu sou, desde pequena, quando era chamada de
esquisita...você me fazia sentir amada...
- E você Xena, com toda a certeza, é a filha que eu não tive... mas que considero
como tal.
Xena e Niklos se abraçam e choram. Realmente Niklos foi sua figura paterna de
referência, pois seu pai, Átrius, passava a maior parte do tempo em batalhas e
desapareceu quando Xena tinha menos de sete anos. Xena seca as lágrimas de Niklos e
este retruca:
- Vamos, menina, que a ocasião é de festa... não é mesmo, Gabrielle?
Gabrielle, também secando as lágrimas da face, abraça Niklos e o beija na face
afetuosamente.
- Bem... pelo que vejo, agora, eu tenho duas filhas! – diz Niklos já sorridente –
façam uma boa viagem e passem aqui na volta para me contar as novidades de...
Neste momento Xena dá uma pisada no pé de Niklos que fecha a boca antes de referir
o local da lua de mel das amantes. Gabrielle arregala os olhos e diz:
- Niklos... você sabe de alguma coisa que eu não sei???
- Nada não... mas, confie em Xena! – diz, piscando o olho para Gabrielle.
Esta sorri e abraça o velhinho:
- Adorei ter conhecido você. Com certeza, ao retornarmos...não sei de onde – diz
Gabrielle fazendo uma careta para Xena – passaremos aqui sim, para contar as
novidades...
- Ótimo, vou ficar esperando!!! – responde Niklos acenando para as duas – Ah, Xena,
já ia me esquecendo... sua encomenda. – refere estendendo um pequeno frasco de
ervas para a amiga.
- Muito obrigada, você nem imagina o valor dessa encomenda... – responde Xena
sorrindo, enquanto Gabrielle observava sem entender ao que se referiam.
Elas se despedem e partem montadas em Argo, no de carne, pelos e ossos, pois o de
brinquedo ficou no passado longínquo de Xena.

No dia seguinte, passaram por Pidna e Dium e pernoitaram em Peneus, também em
quartos separados, ainda que a muito custo. No terceiro dia de viagem passaram por
Larissa e chegaram a Vólos no meio da tarde. Rumaram para o norte até o porto de
Lynux, para navegarem pelas águas límpidas do mar Egeu. No caminho Gabrielle
comenta:
- Xena, nós estamos indo para a zona portuária, ou é impressão minha???
- Pois é, meu amor – diz Xena desmontando e tomando Gabrielle nos braços – essa é a
parte desagradável da surpresa, pois eu conheço a sua repulsa pela navegação...
- Xena!!! Eu quase viro do avesso de tanto vomitar e você sabe disso!!!
Xena abraça Gabrielle carinhosamente puxando sua face de encontro a seu peito e
dizendo:
- Confie em mim. Você ficará bem, aliás, nunca mais enjoará em barcos...
- Como assim? Inventou um remédio milagroso doutora Xena???
- EU não... mas meu amigo Niklos é um profundo conhecedor dos poderes medicinais de
certas ervas dessa região.
- A encomenda!!! – diz Gabrielle mais animada.
- Justamente! – responde Xena – eu não deixaria minha rainha passar mal numa
ocasião tão... promissora.
- Xena, você não existe !!! – diz Gabrielle beijando Xena nos lábios – Agora eu já
posso saber para onde nós vamos? – questiona sedutoramente.
- Que golpe baixo Gabrielle... perguntando desse jeito fica difícil fazer surpresa.
- Desculpinha... não resisti...
- Vamos, quero embarcar ainda hoje.
- Para...???...
- Gabrielle...

Elas montam novamente e cavalgam até o porto onde um barco estava prestes a partir,
onde marujos carregavam as últimas provisões enquanto outra parte da tripulação
revisava mastros e velas. Era uma bela embarcação, pensou Gabrielle, com certeza
transportava mercadores mais abonados em busca de negócios lucrativos em terras de
além mar, no império persa, talvez. Xena se dirige ao capitão do barco:
- Isótys !!!
- Xena !!! Que bons ventos a trazem!!!
Xena passa a mão pelo ombro de Isótys e se afasta um pouco de Gabrielle, que fica
cuidando de Argo. Gabrielle percebe Argo agitado com o barulho das ondas e o
balanço do barco.
- Ah...como eu te entendo Argo!!! O mar é para os peixes e não para seres humanos.
Argo relincha.
- Nem para cavalos... – emenda Gabrielle.
Xena continua sua conversa com Isótys:
- Soube que você vai levar uma carga de pergaminhos para uma certa amiga, é
verdade? – questiona Xena.
- Sim, também algumas novas alunas, que já estão a bordo. Não me diga que você
pretende...
- Não, não... eu não nasci pra isso.
- Mas sua amiga leva jeito, tem cara de barda.
- E é. Mas nossa ida é por outro motivo Isótys. Vamos passar algumas semanas por
lá, aproveitar o solstício de verão e descansar bastante.
- Soube que seus dias têm sido bem agitados, senhora defensora dos fracos... –
brinca Isótys.
- Pois é... – sorri Xena – mas até os defensores dos fracos merecem tirar férias...
- Com toda a certeza. E não poderia ter escolhido lugar melhor. A propósito, vocês
já têm onde ficar?
- Sim. Tenho uma amiga lá, dona de uma bonita propriedade que com certeza nos
hospedará nesses dias.
- Então vamos embarcar!!! Partiremos dentro em breve.
Xena embarca Argo no compartimento de baixo do barco. Ele custa a subir a rampa,
relutando e querendo ficar em terra firme. Xena cochicha em seu ouvido:
- Não me faça perder a paciência...
Argo relincha e empaca no meio da rampa de acesso.
- Por favor, cavalinho querido, ande... navegar não é tão ruim.
Argo permanece rígido como uma estátua de mármore. Xena tenta novamente:
- Por favor, Argo, por mim... vai... – Xena dá um tempinho e diz – vamos ficar ao
lado de um pomar de maças.
Argo levanta as orelhas e marcha, mesmo que a contra gosto para dentro do barco.
- Cavalo interesseiro – resmunga Xena.

Gabrielle embarca com o mesmo ânimo de Argo, porém, com toda a certeza, não pensava
nas macieiras... O sol estava quase se pondo no horizonte, por detrás das
montanhas. Já se avistavam alguns discretos pontos brilhantes sobre o céu do mar
Egeu, eram as primeiras estrelas que reluziam à medida que o astro rei mergulhava
rumo ao ocidente. O matiz amarelo avermelhado sobre o continente contrastava com a
penumbra cinzenta que emergia das águas calmas do mar, era a noite que descortinava
sua beleza e seus encantos emoldurando uma lua em quarto crescente que parecia sair
de dentro das águas. Em pouco tempo a noite caiu com seu véu estrelado, cujos
pontos de luz orientavam a rota a ser seguida pela embarcação que havia zarpado e
deixado para trás a terra firme, da qual só se avistava, naquele momento, a chama
forte que irradiava do farol do porto.

Xena e Gabrielle estavam lado a lado na proa do barco, enquanto o vento fazia seus
cabelos esvoaçarem como um mar revolto. Xena havia tirado sua armadura e trajava um
corpete de couro, decotado, deixando à mostra seu colo e a silhueta de seus seios
rijos. Havia colocado uma saia azulada que lhe caia quase que até o tornozelo, mas
cujas aberturas laterais lhe deixavam descobertas as coxas a cada passo que dava.
Estava de fato deslumbrante.
Gabrielle sempre gostou de observar as estrelas e sua curiosidade estava aguçada,
tentando adivinhar a rota do barco pelo posicionamento daqueles pontinhos luminosos
na abóbada celeste. Pouco antes de embarcarem Xena deu à Gabrielle algumas folhas
secas para mascar, as quais havia ganhado de Niklos e, segundo a própria Gabrielle,
”um santo remédio”, pois desde que pisou no barco não sentiu desconforto algum.
Para garantir, de tempos em tempos, mascava uma folhinha.
Aproveitando a escuridão da noite e o fato de estarem sozinhas no convés do barco,
Xena puxa Gabrielle de frente para junto de si, encostando-a contra a proa e
enlaçando-a pela cintura. Observava o brilho nos olhos de sua amada e sentia o fogo
que seu corpo emanava a cada toque de suas mãos. Os olhos de Gabrielle refletiam a
luminosidade das estrelas, o verde assumia um tom dourado, o mais belo que Xena já
tinha visto. Gabrielle, por sua vez, se encantava com o reflexo da lua nos olhos de
Xena, onde o azul irradiava a tonalidade prateada do satélite que parecia
desenrolar um tapete sobre as águas do Egeu, como que convidando aos mortais a
ingressarem nos jardins do Éden, nas águas límpidas dos montes Elíseos. Xena era a
mulher mais bela que Gabrielle já contemplara e seu olhar apaixonado a desnudava
por inteiro e permitia à Gabrielle penetrar nos seus mais profundos devaneios. E
Xena se encantava com sua Gabrielle, cada gesto seu era delicado, emanava frescor
de seu hálito e paixão em seu olhar. Gabrielle puxa Xena para si e a beija nos
lábios, suavemente, sua língua percorrendo os cantos da boca e as covinhas de seu
lábio inferior. O beijo se torna mais ardente e Xena invade a boca de Gabrielle com
sua língua, em movimentos de volúpia, quase que a deixando sem ar. Gabrielle se
esfrega em Xena e aperta seu corpo contra o dela numa entrega de paixão e êxtase.
Xena segura-se na amurada do barco, pois sente suas pernas tremerem de excitação.
Ajeita sua coxa no meio das pernas de Gabrielle que geme no ouvido de Xena:
- Eu te amo...
- Eu também te amo... – responde Xena – beijando a boca de sua amada e segurando-a
pelos quadris, fazendo com que se movimentasse ritmicamente, esfregando seu sexo em
sua coxa.
Gabrielle tem a sensação de que seus batimentos cardíacos poderiam ser ouvidos do
porão do navio, mas isso era o que menos lhe importava naquele momento. Xena e
Gabrielle emanavam tesão por todos os poros. Gabrielle coloca suas mãos nos quadris
de Xena e seus lábios vão descendo rumo aos seios de sua princesa guerreira.
Encontravam-se tão absortas que nem percebem a aproximação de Isótys:
- Hã, hããmm... – dá uma tossidinha – atrapalho?
- Ahã... não, de modo algum... – responde Xena tentando se recompor.
Gabrielle, corada até a raiz dos cabelos, bendiz a noite por esconder, na
escuridão, seu desconcerto.
- Está uma bela noite, não é meninas?
- Com certeza... – responde Xena – uma bela noite...
- Eu gosto de observar o mapa celeste, para ver se teremos uma viagem tranqüila,
sem tormentas – comenta Isótys.
- E teremos tormentas??? – pergunta Gabrielle assustada.
Isótys ri e refere:
- Não... o céu está dizendo que teremos uma ótima viagem.
- A propósito... – pergunta Gabrielle – para onde estamos indo mesmo, Isótys???
Xena fuzila o capitão com um olhar e este entende a mensagem:
- Olha... um passarinho me assoprou que certa mocinha deverá esperar uma
surpresa... não é mesmo?
- Passarinho dedo duro – resmunga Gabrielle olhando para Xena que sorri e dá de
ombros.
- Não tenho nada com isso. – diz Xena provocante.
- Sei... aposto que tomou umas aulas de... gorjeio... – retruca Gabrielle.
- Entre outras... – responde Xena fitando-a nos olhos maliciosamente, deixando
Gabrielle totalmente desconcertada frente a Isótys.
- Acho que vou me recolher... está frio aqui em cima. – diz Gabrielle.
- Pela cor de suas faces não parece estar com frio – provoca Isótys.
- MAS ESTOU!!! – responde Gabrielle furiosa, virando-se e descendo as escadas rumo
aos compartimentos de dormir.
- Que fera você foi arrumar ein, amiga? – diz Isótys sorrindo para Xena, que se
divertia com a situação.
- Pois é... mas você podia tê-la poupado do comentário das faces...
- Desculpe, Xena, não resisti, você me conhece...não fiz por mal.
- Eu sei, Isótys – diz Xena passando a mão sobre seu ombro – Mas agora eu vou
descer para... domar a fera...
- Boa sorte! Acho que você vai precisar...

Xena desce as escadas rindo consigo mesma. Chega no compartimento e encontra
Gabrielle já deitada em sua rede, com o rosto virado para a parede. Ao seu lado uma
rede vazia a aguardava. Haviam mais quatro moças dividindo aquele recinto, mas já
dormiam a sono solto. Xena se aproxima e beija Gabrielle na face:
- Boa noite, meu amor – diz ao seu ouvido.
- Que grosso esse capitão – esbraveja Gabrielle quase que despertando suas colegas
de quarto.
- Pssiiuu... – diz Xena – quer acordar todo mundo?
- Desculpe.
- Gabrielle...Isótys só estava brincando.
- Que guarde suas brincadeiras para quem tem intimidade com ele!
- Mas, meu amor, convenhamos... nós estávamos...bem, você sabe...
- Mas ele bem que podia ter passos mais pesados, aquele homem caminha como um gato!
- Gabrielle, acho que NÓS estávamos surdas como uma porta.
- Pois é, né... – responde Gabrielle mais tranqüila – será que devemos desculpas
para ele?
- Também não é pra tanto, né Gabrielle!
As duas riem baixinho para não acordarem as demais. Xena beija Gabrielle nos lábios
e se deita:
- Boa noite, meu amor.
- Boa noite, Xena...eu te amo.
- Eu também.
As duas adormecem e quando despertam o sol já estava alto. Gabrielle abre os olhos
e fita Xena, que já a observava há algum tempo deitada em sua rede:
- Eu tô morrendo de fome!!!
- Bom dia, Gabrielle!
- Ah, sim, bom dia! Olha, milagrosa essa ervinha de Niklos, tô me sentindo em terra
firme.
Xena sorri e ambas se dirigem ao compartimento onde são servidas as refeições.
Comem pães e pastas feitas com frutos do mar. Gabrielle adora. Isótys entra no
recinto e cumprimenta as amigas:
- Como passaram a noite?
- Muito bem. – responde Xena.
- Você já me desculpou pela brincadeira de ontem, Gabrielle? – questiona Isótys.
- Já. Eu também te devo desculpas pelo rompante. Mas vamos mudar de assunto, tá bem?
- Tudo bem, não se fala mais nisso – diz Isótys com olhar malicioso e provocador.
Gabrielle lhe lança um olhar de indignação que se transforma instantaneamente num
grande sorriso, entendendo sua essência de grande observador da natureza humana e
vendo que, de fato, é um amigo. Isótys cochicha no ouvido de Xena:
- Estou vendo que conseguiu domar a fera...
- Isótys...não provoca...olha que essa mulher, quando realmente furiosa, ninguém
segura.
- Tudo bem, tudo bem... – e falando mais alto – estão sendo bem servidas?
- Muito bem! – responde Gabrielle – adorei estas pastas. São do que, ein?
- Acho melhor não saber, Gabrielle. – retruca Xena.
Isótys sorri e responde:
- São frutos do mar, Gabrielle, dos mais variados tipos, polvos, lulas, mexilhões,
entre outros.
- Eu gostei. A Xena é mais nojentinha pra comida. – provoca Gabrielle.
- É que me acostumei a comer o que tem, no máximo, quatro pés.
- Engraçadinha...
- Mas fiquem à vontade, meninas, vou dar andamento na rotina desse barco.
Gabrielle e Xena sobem até o convés, aproveitando o belo dia de sol.
- Gabrielle, vamos ficar mais na sombra da vela, sua pele é muito clara e você vai
ficar igual a um camarão quando chegarmos, se não tomar as devidas precauções.
- Sim senhora. Aliás, quando é que chegamos a nosso destino...cujo passarinho
contou para toda a tripulação, menos para mim???
- Amanhã...pela manhã, se o vento continuar com essa mesma velocidade.
- Xena...tô morrendo de curiosidade...
- Agüente. Só falta um dia.
Naquela noite elas preferem não visitar a proa para evitar maiores constrangimentos
novamente. Recolhem-se cedo, logo após o jantar, e quando despertam escutam um
grito:
- TERRA À VISTA!!!

Gabrielle salta da rede e corre para o convés seguida de Xena que mal teve tempo de
calçar as botas, tamanha a pressa de Gabrielle. Ela observa a costa de uma ilha e
ao longe reconhece uma construção imponente de cuja fama já ouvira falar muito: a
escola para moças de Safo, a poetisa da ilha de Lesbos. Gabrielle mal acredita no
que vê. Estavam se aproximando do porto da cidade de Mytilene, cidade mais
importante da ilha. Grande parte da fama da cidade provinha da escola de Safo, a
poetiza, que recebia moças de famílias nobres de todas as localidades e ensinava
poesia, pintura, canto, belas artes em geral. Também corriam boatos da fama de
Safo, de sua preferência por amantes do sexo feminino, para as quais dedicava os
mais belos poemas e as mais apaixonadas declarações de amor em forma de sonetos e
rimas.
Gabrielle estava sem palavras. Virou-se para Xena abraçando-a e beijando-a
apaixonadamente, sem importar-se com os olhares curiosos de parte da tripulação e
de alguns passageiros que assistiam à cena.
- Só você mesmo para me fazer essa surpresa, Xena...
- Um passarinho também me contou que no dia do solstício de verão Safo realizará a
leitura de seus melhores poemas, em apresentação no teatro da cidade...
- Ai...eu adoro esse passarinho!!!
- Pois até ontem você queria fritá-lo!
- Mudei de idéia – sorri Gabrielle, franzindo o nariz.

O desembarque transcorreu tranqüilamente e Argo relinchou feliz ao pisar em terra
firme. Gabrielle se aproximou dele e disse ao seu ouvido:
- Eu também tô sentindo a mesma coisa... é ótimo quando o chão não se mexe, não é
mesmo Argo?
Argo faz um maneio vertical de cabeça, como que dizendo sim, e relincha feliz. Xena
prepara a bagagem, carrega Argo, coloca Gabrielle em sua garupa e parte na direção
sul, para uma área mais afastada do burburinho da cidade, porém sempre costeando o
litoral da ilha.

Lesbos estava se preparando para o solstício de verão que ocorreria dentro de três
dias, coincidindo com a entrada da lua na sua fase cheia. Toda a ilha emanava um
clima de festa. Xena as conduz até uma estradinha de chão, muito estreita, onde
dificilmente passaria uma carroça puxada por uma parelha de cavalos. No entanto, o
caminho era ladeado por um imenso tapete de flores vermelhas que se emaranhavam por
entre as pedras e cobriam parte dos arbustos mais rasteiros. Do outro lado a
floresta se fechava em árvores cujos caules necessitariam de cerca de sete homens
para abraçá-los por inteiro. Após duas horas de cavalgada chegaram num portão de
madeira que dava acesso a uma linda propriedade no meio da floresta. Ao lado da
entrada existia uma escultura em mármore branco em forma de esfera, com cerca de 80
centímetros de diâmetro, suspensa num pedestal de mogno esculpido com formas
representando figuras humanas. Lindo conjunto.

Xena e Gabrielle desmontam e se dirigem para a casa, nos fundos da propriedade.
Parecia deserta. Escutava-se somente o canto dos pássaros, o sopro da brisa do mar
e o barulho de uma queda d’água no outro extremo do morro. Somente uma fumaçinha
que saía da chaminé da cabana dava sinal de que alguém habitava aquele lugar. Xena
se dirige para a porta da frente e leva a mão para abri-la, quando Gabrielle
questiona:
- Xena... você vai entrar assim? Sem bater? E se não tiver ninguém em casa...
- Mas tem.
- E como você sabe???
- Eu sei, Gabrielle.
- Mas Xena, é falta de educação entrar sem bater...
- Gabrielle, eu sei o que estou fazendo! – diz Xena entrando na casa, seguida por
Gabrielle a contragosto.
A cabana parecia modesta por fora, no entanto seu interior era magnífico! As
paredes de madeira eram tomadas por quadros dos mais variados estilos, a maior
parte abstratos de formas circulares. Os móveis eram cobertos por tecidos de veludo
nas cores violeta, verde e vermelho. Num canto da sala havia uma estátua de
Afrodite, esculpida num mármore rosado. A mesa de centro, redonda, era coberta por
uma toalha branca toda bordada de flores do campo com fios dourados e verde água,
um encanto. No centro da mesa um vaso com flores frescas, colhidas pela manhã, nas
mais variadas cores e cuja fragrância perfumava todo o ambiente. No canto da sala
uma escadaria de madeira torneada, em estilo jônico, levava a um segundo andar, que
Gabrielle ficou curiosíssima para conhecer. No teto havia um lustre que comportava
cerca de trinta velas, todo de ferro esculpido. De sua base saiam imitações de
hastes de plantas e na ponta de cada uma delas se abria um cálice e uma corola de
pétalas em cujo centro se encaixavam as velas. Uma verdadeira obra de arte!!!
Gabrielle estava encantada.
- Xena...que lugar lindo!!! Mas não tem ninguém em casa. Vamos esperar lá fora.
- Tem sim Gabrielle, e estamos sendo esperadas. Vamos.

Xena passa pela sala e ingressa num corredor que leva para os fundos da casa.
Passam por um portal arqueado e penetram no que parece ser a cozinha da residência.
Gabrielle se impressiona pelo contraste do lugar: a majestade da sala dá lugar a um
rústico aposento, sem assoalho, a não ser o chão batido, com um fogão à lenha no
fundo, em cujo tampo repousavam panelas e uma chaleira com água fervente. Bem no
centro do aposento havia um tripé de metal pesado com um suporte que sustentava um
caldeirão de ferro. Por baixo uma mureta de tijolos de barro delimitava o local
para a queima da madeira quando este era utilizado. As paredes eram tomadas por
prateleiras de madeira que ostentavam os mais variados recipientes, potes, vidros,
garrafas, com os mais variados materiais, ervas, infusões, pastas, líquidos,
emplastos, e tudo o mais. Gabrielle continuava boquiaberta. Reparou que sobre o
caldeirão o telhado estava aberto, com uma cavidade circular que deixava a luz
natural penetrar no ambiente. Nesta abertura havia, porém uma espécie de tampa de
madeira presa numa roldana e numa corrente que caía até o chão, possibilitando
abrir e fechar o alçapão do teto. Verdadeira obra de engenharia.

Sentada de costas para a porta, trabalhando um uma mesa lateral, estava uma mulher
que, antes de virar-se para elas disse:
- Muito bem vindas, amigas, que o poder da grande deusa esteja convosco e as cubra
de bênçãos.
Neste momento virou-se para elas e descortinou um dos mais belos sorrisos que
Gabrielle já havia visto, perdendo somente para o de Xena, é claro. Tratava-se de
uma figura de rara beleza, aparentava entre quarenta e cinqüenta anos, Gabrielle
não conseguia precisar. Sua estatura era alta, quase que a mesma altura de Xena,
cabelos compridos, abaixo da cintura, louros e lisos, com alguma mechas brancas.
Pele alva e olhos cor de mel. Nariz afilado e dentes alvos. Seus lábios eram
levemente carnudos e quando sorria duas covinha se formavam em suas faces. Era
magra e tinha braços e dedos longos. No dedo médio da mão esquerda usava um anel
com uma enorme esmeralda, enquanto que, no indicador, ostentava um rubi magnífico.
Seus cabelos eram emoldurados por uma tiara de pequenos diamantes e no centro
desta, uma ametista lapidada em forma circular tornava o conjunto uma obra que
chamava a atenção pela delicadeza e harmonia. Xena se dirige para a amiga e a
abraça:
- Morgana, quanto tempo!!! Estava com saudades.
- Eu também Xena... as aguardava ansiosa.
- Como assim??? – pergunta curiosa Gabrielle.
- Gabrielle, esta é Morgana, uma grande amiga. – apresenta Xena.
- Como vai Gabrielle? Você é realmente muito bela, mais do que eu imaginei – diz
sorrindo – Xena realmente tem bom gosto...
- Obrigado – responde Gabrielle corando – mas como sabia da nossa vinda?
- Morgana sabe de muitas coisas, Gabrielle – responde Xena sorrindo e olhando para
um canto da cozinha onde, num centro de mesa, repousa uma enorme bola de cristal.
- Você é uma bruxa??? – diz Gabrielle arregalando os olhos de curiosidade.
- Digamos que sou estudiosa das forças da natureza e as utilizo em favor do ser
humano...
- Wicca... – diz Gabrielle.
- Exato – responde Morgana.
- Ai, eu tenho tantas coisas para perguntar...eu adoraria ter umas aulas...você
acha que eu levo jeito?... vou adorar passar uns dias aqui... eu já li algumas
coisas sobre wicca... eu escrevo histórias, Xena já te contou???....
- Gabrielle... devagar – retruca Xena.
- Desculpa, as vezes eu me empolgo – diz Gabrielle sorrindo sem graça.
- Tudo bem... – responde Morgana passando o braço sobre o ombro de Gabrielle e
cochichando ao seu ouvido – Você com certeza será uma ótima aluna...
Os olhos de Gabrielle se arregalam e brilham como esmeraldas. Xena sorri. Morgana
as conduz para a mesa da cozinha:
- Sentem-se, vamos comer, o almoço já está quase pronto.
- Que bom!!! – exclama Gabrielle.
Xena lhe lança um olhar refreador, porém Morgana sorri e diz:
- Xena, Xena... sempre implicante.
Gabrielle percebe que arrumou uma aliada e olha para Xena debochadamente por cima
do ombro, fazendo-lhe uma careta. Sentam-se à mesa e Morgana serve um peixe feito
no forno com batatas e uma variedade imensa de saladas. Gabrielle se delicia. Após
o almoço Xena solta Argo no campo e convida Gabrielle para um passeio nas
redondezas. Antes de saírem Morgana diz:
- Quando retornarem estará tudo preparado... a casa é de vocês. Vou passar a noite
na cidade, visitando Edna que já está se queixando de saudades... e fazem só dois
dias que não nos vemos...mulheres!!! – retruca em tom de brincadeira.
Xena a abraça e diz:
- Obrigado, amiga, fico te devendo essa...
- Você já me pagou de antemão, Xena, lembra? Se não fosse você eu estaria nas mãos
dos romanos... ou coisa pior. Eu te amo, amiga, seja feliz! – diz Morgana abraçando
Xena fortemente – Você fez uma ótima escolha...essa menina é do bem.
- Eu sei, Morgana, eu sei...
Elas trocam um sorriso de cumplicidade. Morgana abraça e beija Gabrielle:
- Até o solstício!
- Até...

Xena abraça Gabrielle e seguem por uma trilha para um passeio na floresta. Enquanto
isso Morgana faz alguns preparativos em casa e após monta em seu cavalo negro e
parte para a cidade.
Gabrielle e Xena sentiam-se num lugar abençoado e, de fato, a Grécia deve ser o
berço dos deuses pois tem, em média 320 dias de sol por ano e na maior parte do
tempo o clima é ameno e agradável. Era verão, quase véspera do solstício e a
temperatura passava dos 35° durante o dia, porém à noite podia-se usar uma coberta,
pois a aragem do mar tornava agradável o clima noturno, aliviando o calor do dia.
Lesbos encantava seus visitantes pela profusão de áreas verdes, grutas à beira mar
e fontes térmicas. Xena e Gabrielle sobem um pequeno morro e chegam até uma
clareira onde abaixo se avista o mar Egeu, mais para o norte uma cadeia de
montanhas com as tonalidades mais variadas de verde, indo do verde oliva ao verde
limão. À esquerda da clareira uma parte de mata onde se podia caminhar entre as
árvores de copas floridas e de onde jorrava uma fonte natural de água gelada e
cristalina. Sentam-se no tronco de uma árvore gigantesca e observam a natureza ao
seu redor. Em silêncio escutam o gorjeio dos pássaros, das mais variadas espécies.
Muitos vem beber água na nascente, bem perto de onde elas estão, totalmente alheios
à presença das intrusas em seu habitat. As plumagens das aves chamam a atenção de
Gabrielle. Nunca havia visto cores tão vivas e variadas. Ao longe um pássaro
gigantesco abre sua asas e voa rasante sobre as águas do mar Egeu, em busca de
alimentos. A envergadura de suas asas brancas deveria medir não menos do que três
metros de ponta à ponta. De repente realiza um giro nos céus e se projeta rumo às
ondas, onde mergulha e emerge logo adiante com um peixe preso em seu bico.
Gabrielle fica encantada com a destreza e o bailado do pássaro. Um pouco mais à
frente havia uma árvore com a copa totalmente verde, uma tonalidade de verde claro
que refletia o sol da tarde, sendo que por baixo estava com os galhos cobertos de
barbas de pau, que lhe davam ares de um ancião com longas barbas brancas. Gabrielle
não conseguia parar de admirar o local, e novas formas e cores se descortinavam a
cada lado que se virasse. Um velho carvalho estava totalmente tomado por uma planta
trepadeira cujas flores brancas, em forma de sinetas, pendiam pelos galhos secos.
Xena estava montada num galho, tendo Gabrielle à sua frente, de costas e encostada
em si entre suas pernas, sendo que a abraçava por trás, apertando-a contra seu
peito.
- Xena, você me trouxe para o paraíso.
- Valeu a pena esperar a surpresa, não valeu?
- Valeu, sim.
Segue-se um longo silêncio, onde as mulheres se acariciam suavemente e se beijam
com delicadeza, como que para não quebrar a harmonia e a tranqüilidade do lugar e
de seus pequenos habitantes. A luz do sol começa a se tornar mais fraca quando o
ângulo do astro rei penetra por trás das montanhas do fundo. Aos poucos o colorido
vivo assume uma tonalidade avermelhada do por do sol e os pássaros lentamente
diminuem seus gorjeios e se recolhem aos seus ninhos. Xena olha nos olhos de
Gabrielle e diz:
- Vamos...está na hora...
Gabrielle estremece por inteiro e responde:
- Está na hora.

Elas descem a trilha de volta para a cabana abraçadas, trocando carícias e
declarações de amor. Xena pára em frente a porta de entrada, abraça Gabrielle e
diz:
- Eu esperei a minha vida toda por esse momento, Gabrielle...
- Eu também, meu amor, eu também...
Elas se beijam apaixonadamente e Xena toma Gabrielle em seus braços, carregando-a
para dentro de casa. No meio da sala coloca Gabrielle no chão, de pé à sua frente.
Morgana havia arrumado a mesa da sala, colocando dois castiçais com velas
vermelhas, a cor da paixão, segundo ela. No centro uma bandeja com frutas, pães,
geléias e mel, além de água da fonte e vinho tinto. As chamas do candelabro estavam
acesas e davam um colorido mágico à sala. Num canto da mesa um bilhete:
”Meninas, preparei um banho ritual para cada uma, em separado. Xena, você usará o
quarto em cuja porta está pendurada uma guirlanda de rosas, e você Gabrielle o
quarto com a guirlanda de margaridas. Após o jantar o quarto dos fundos, com a
guirlanda de flores do campo, é todo de vocês. Muitas bênçãos da deusa mãe.
Morgana.”
Xena comenta:
- Essa Morgana pensa em tudo...é uma das pessoas mais maravilhosas que eu conheço.
- Realmente. – responde Gabrielle.
- Vamos lá então?
- Vamos. – responde Gabrielle com a voz embargada pela excitação.
Elas sobem a escada de mãos dadas e logo no topo deparam-se com dois aposentos,
frente a frente, cada um com uma guirlanda de flores diferentes. Xena leva a mão
esquerda à maçaneta da porta com a guirlanda de rosas e com a mão direita segura o
queixo de Gabrielle suavemente e a beija nos lábios:
- A gente se encontra lá em baixo... para o jantar – diz Xena penetrando no quarto.
- Eu te amo, Xena...
Xena sorri sedutoramente:
- Eu também...mais do que tudo.

Gabrielle penetra em seu respectivo aposento. Trata-se de um local bastante
simples, com uma janela para o nascente, uma cama pequena coberta por uma colcha de
linho cru e com um travesseiro de ervas que perfumava o ambiente. Em cima da cama
haviam duas toalhas muito alvas e uma espécie de roupão ritual de tecido de
finíssima seda, com mangas três quartos, de cor verde água bordado com detalhes de
verde oliva. Uma faixa de seda branca ao lado para amarrar na cintura, pois a
vestimenta não possuía botões. Sobre o roupão uma grinalda feita de minúsculas
flores naturais, brancas, e tendo um pequeno diamante no centro do ornato. Num
canto do quarto havia uma tina redonda de madeira, com cerca de dois metros de
diâmetro por um metro de profundidade, com água corrente e em temperatura elevada,
fato que deixou Gabrielle curiosa. Observando mais de perto e espiando pelo lado de
fora da janela, verificou tratar-se da tubulação de uma das fontes térmicas
naturais da ilha. A água subia pela tubulação com a própria pressão da fonte,
penetrava pela parede do quarto e desembocava na interior da tina. Cerca de um
palmo abaixo da borda superior outro tubo servia para escoar a água e devolve-la
para a rua, desembocando de volta na fonte térmica. Outra maravilha da engenharia
do local! Ao lado desta piscina natural uma mesinha ovalada com suaves essências
florais, óleo para banho, escova para o cabelo e um espelho de mão. Gabrielle
despiu-se, preparou seu banho de óleo e essências e mergulhou naquela água
maravilhosamente quente, relaxando por completo. Tentava esvaziar a mente buscando
acalmar o turbilhão de pensamentos e sensações que a invadiam no momento. Sentia-se
como uma noiva virgem na véspera de ser deflorada e acabava rindo disso. Se tinha
uma coisa que não era mais era virgem. Na verdade guardava poucas lembranças de sua
única noite com Pérdicas, lembrava de sua morte pela espada de Callisto, lembrava
também, e principalmente, de sua angústia frente ao fato de ter de se separar de
Xena... como era tonta! Amava Xena desde a primeira vez que a vira e precisou de
tanto tempo e de tantas provações para se dar conta disso. Mas essas lembranças
eram passado e o que importava, no momento, era que no quarto ao lado a mulher de
sua vida se preparava para unir-se a ela, de fato, para sempre. Tentava acalmar-se,
mas estava ansiosa, porém não via a hora de estar nos braços de Xena.

No quarto ao lado Xena também se preparava para entregar-se à sua amada. Havia uma
tina igual a do quarto de Gabrielle, porém com óleos e essências de fragrâncias
diferentes, mais fortes, próprias para uma mulher com as características de Xena.
Esta sorriu ao se dar conta de como Morgana a conhecia. Tomou seu banho e vestiu um
roupão de seda de cor violeta, com acabamentos de seda vermelha nas mangas e no
decote, assim como era vermelha a faixa de seda que amarrara na cintura. Escovou
seus cabelos prendendo-os no alto da cabeça e colocou a tiara de ametistas que
Morgana havia colocado cuidadosamente sobre seu roupão. Sua pele emanava um perfume
forte, mas extremamente agradável e o óleo de banho lhe conferia à pele uma textura
macia e sedosa. Estava pronta para sua noite de amor.
Xena desceu a escadaria da casa e viu que Gabrielle ainda estava se preparando.
Acendeu as velas da mesa de jantar e serviu uma taça de vinho tinto, cujos goles
sorvia lentamente enquanto aguardava sua amada. Precisava, realmente, relaxar um
pouco. Assim como Gabrielle, Xena estava ansiosa, um misto de excitação e
nervosismo. Esperou por cerca de meia hora, absorta em seus pensamentos, até que
escutou o ranger da madeira no andar de cima, eram os passos de Gabrielle
caminhando em direção à escadaria. Olhou para o topo e deslumbrou-se com o que viu.
Gabrielle estava descalça, porém trajava sua vestimenta de seda verde água. Seu
decote delineava a silhueta de seus seios, e o caimento da seda emoldurava seus
quadris e cintura. Suas pernas torneadas estavam à mostra, uma vez que sua
vestimenta lhe chegava até um palmo acima dos joelhos e a cada passo que dava em
direção ao andar de baixo a parte interna de suas coxas ficava momentaneamente
exposta pela fenda dianteira de seu roupão. Seus olhos verdes cintilavam à luz do
candelabro do centro da sala. Sua grinalda lhe conferia um ar angelical e Xena
precisou apoiar-se nos braços da cadeira para levantar-se e caminhar ao seu
encontro. Gabrielle era a personificação da deusa da beleza e da perfeição.
Gabrielle, por sua vez, também maravilhou-se com a figura que a aguardava no sopé
da escadaria. O porte majestoso de Xena e o azul de seus olhos, escurecidos pela
excitação, deixavam Gabrielle sem ar. A tiara de ametistas emoldurava aquele rosto
de traços marcantes e sorriso encantador. As mãos de Gabrielle estavam trêmulas e
úmidas de suor. Desceu devagar e cada passo acelerava o coração de Xena que
estendeu-lhe a mão no último degrau:
- Minha rainha...
- Minha princesa – respondeu Gabrielle – enlaçando o pescoço de Xena e beijando-lhe
carinhosamente os lábios.
Seus corpos entrelaçados estavam perdidos de amor. Carinhosamente Xena conduz
Gabrielle para a mesa e começa a servi-la de frutas. A cada morango que colocava em
sua boca deixava propositalmente a ponta de seu dedo, que Gabrielle lambia
maliciosamente, levando Xena à loucura. Gabrielle também bebeu uma taça de vinho,
para relaxar, mas somente uma, pois era de má bebida como dizem, e não estragaria
aquela noite por nada... Oferecia pequenas cerejas envoltas no mel à Xena,
alcançando-as entre os dentes, em sua boca entreaberta. Xena capturava as cerejas e
acariciava a língua de Gabrielle com a sua. Sensualmente trocavam olhares,
dispensando quaisquer palavras para que não se quebrasse o encanto daquele momento
de entrega. Alimentavam-se em silêncio, contemplando uma à outra e extasiando-se
com a beleza que viam refletidas nas luzes tremulantes das velas e do candelabro.
Uma vez saciada a fome, Xena encosta sua boca no ouvido de Gabrielle e diz:
- Vamos subir...
Gabrielle estremece e balança a cabeça em anuência. Levantam-se e Xena, novamente,
toma Gabrielle nos braços. Esta beija-lhe a nuca e o pescoço e geme ao seu ouvido:
- Eu te quero Xena... quero me dar toda para você...
- Eu também, meu amor, eu também...

Beijam-se apaixonadamente e Xena caminha em direção à escadaria. Somente não a
escalou de três em três degraus, tamanha a sua excitação, pois sua vestimenta que
lhe caía até os tornozelos não lhe permitia esses movimentos arrojados, e não
poderia arriscar-se a despencar da escadaria justamente naquela ocasião.
Dirigiram-se ao quarto dos fundos e Gabrielle, ainda no colo, leva sua mão à
maçaneta da porta abrindo-a. As duas penetram em seu ninho de amor. Xena coloca
Gabrielle suavemente no chão e ambas passam a observar aquele local que ainda não
tinham conhecido, a pedido de Morgana que também gostava de preparar surpresas.
Tratava-se de um aposento com uma enorme cama ao centro, coberta com lençóis de
seda prateada e almofadas também cobertas, porém com seda de cor salmão. Do teto
pendia uma luminária de ferro torneado com uma única vela em forma de globo, de cor
branca, com capacidade de arder por mais de cinco dias consecutivos e que, por ser
envolta em finíssimos cristais de quartzo rosado conferia ao lugar um clima de
confortável penumbra. Ainda no teto e na parede lateral aos pés da cama haviam
espelhos emoldurados com relevos em forma de folhas e flores, esculpidos em prata e
ouro. Havia uma janela entreaberta, que dava para os fundos da propriedade e ao
lado desta uma porta de acesso a uma sacada, da qual se avistava o Mar Egeu. Em
frente ao espelho dos pés da cama havia uma pequena mesa redonda cujo tampo de
madeira era coberto por um mosaico de ametistas e quartzos verdes, uma bela obra de
arte. No centro da mesa uma travessa de prata ovalada onde estavam depositados dois
cordões de prata de onde pendiam dois pingentes de ouro exatamente iguais cujo
desenho simbolizava o planeta Vênus, duas Vênus entrelaçadas em cada cordão. Ao
lado um bilhete: “Meu presente de casamento. Brindem à deusa e sejam felizes.
Sempre. Morgana”. Ao lado dos pingentes duas taças de cristal e uma jarra de um
licor especialmente preparado por Morgana. Gabrielle diz:
- Acho que é uma poção mágica...
- Pode ser... – responde Xena sorrindo – a poção da felicidade, do amor e da
completude.
Xena serve as duas taças, ritualmente, alcançando uma delas para Gabrielle. Esta
última estava trêmula de excitação. Xena vira-se de frente para ela e entrelaçando
seus braços cada qual sorve a bebida de sua própria taça. Após Xena sorve um pouco
de sua taça e coloca um gole de seu licor na boca de Gabrielle, selando-a com um
beijo. Gabrielle faz o mesmo.
Em seguida cada qual pega um dos cordões de prata. Xena coloca o cordão por cima da
cabeça de Gabrielle, ajeitando-o por baixo de seus cabelos, beija-lhe a testa e, em
seguida, suavemente a boca. Segura-lhe as mãos, beija-as, e fitando-a nos olhos
diz:
- Eu te recebo Gabrielle, para sempre, como minha companheira, como a mulher que eu
escolhi para partilhar todos os dias da minha existência, nesta vida e em todas as
que virão, em nome da deusa mãe, criadora de toda a natureza e protetora de todos
os seres que amam...
Gabrielle, com os olhos marejados d’água beija as mãos de Xena. Em seguida, na
ponta dos pés, suspende o outro cordão de prata, colocando-o no pescoço de Xena,
dizendo com a voz embargada pela emoção:
- Eu te recebo Xena, como a mulher da minha vida, como a companheira para todos os
momentos, quaisquer que sejam, como a pessoa que eu escolhi para amar pela essência
e pela bondade de coração, pela coragem, bravura, suavidade em cada gesto e amor ao
próximo. Eu te recebo Xena, por toda a eternidade, em nome da grande deusa,
criadora de toda a natureza e protetora dos seres que amam. Que assim seja.
- E assim será. – responde Xena.

Xena enlaça Gabrielle pela cintura puxando-a de encontro ao seu corpo, que àquela
altura ardia de desejo e paixão. Beija-lhe os cabelos, a testa, a nuca e a boca.
Gabrielle sente como se todas as luzes da cidade de Atenas houvessem se acendido ao
mesmo tempo dentro de seu corpo. Estremece de excitação à cada toque de Xena. Esta
conduz Gabrielle para a beira da cama, desamarra a fita que lhe prende o roupão na
cintura e a deixa cair aos pés de sua amada. Gabrielle tem a sensação de que seu
coração vai lhe saltar pela boca. Xena descobre seus ombros, os quais beija
suavemente enquanto desliza seu roupão deixando-o cair junto à faixa. Xena dá dois
passos para trás e observa a nudez de Gabrielle, seus cabelos dourados e sua pele
clara, suas curvas, a suavidade de seus seios e mamilos rosados, a beleza de seu
sexo encharcado de excitação. Desta vez é Xena quem perde o fôlego, pois Gabrielle
se aproxima e também desamarra sua faixa, abre sua vestimenta e a desnuda,
observando-a de alto a baixo. Aproxima-se e solta seu cabelo negro que lhe cai
sobre os ombros morenos. Ostentam no corpo somente seus cordões de prata, mais
nada. Gabrielle abraça Xena pela cintura e esta a aperta contra seu corpo,
beijando-a com mais ardor e deitando-a sobre os lençóis macios de seda. Gabrielle,
deitada de costas, abre suas pernas para que Xena se encaixe entre elas. Xena
encosta seu sexo no de Gabrielle e ambas gemem de prazer. Xena beija os seios de
Gabrielle e suga seus mamilos rosados, rijos de tesão, passando a língua por volta
destes, indo em direção ao umbigo de sua amada. Xena lambe a virilha de Gabrielle
até chegar aos pelos de seu sexo, admirando a cor dourada dos mesmos. Afasta as
pernas de Gabrielle com as mãos deixando seu sexo aberto e receptivo ao toque de
sua língua. Inicia beijando as laterais e logo em seguida coloca a ponta da língua
contra o clitóris de Gabrielle, pressionando-o. Gabrielle geme de prazer. Começa a
suga-lo enquanto sente a umidade de sua amada escorrendo de seu sexo e encharcando
os lençóis. Começa a penetra-la com a língua, num movimento sincronizado que levava
Gabrielle a loucura. Esta, porém, suavemente puxa Xena em sua direção e beija-lhe a
boca, sentindo seu próprio gosto nos lábios e língua da companheira. Trêmula de
excitação começa também a sugar-lhe os mamilos morenos e a lamber aqueles seios
fartos e rijos. Não conseguindo se conter abocanha vorazmente o sexo de Xena,
invadindo-o com a língua e sugando cada gota do prazer de sua amada. Xena pede mais
e Gabrielle passa a sugar seu clitóris, deixando-o pronto para gozar. Quando Xena
sente que não conseguiria mais se conter puxa Gabrielle em sua direção fazendo com
que se sentasse inclinada de frente para ela, encaixando seus sexos, encostando
seus clitóris enrijecidos e molhados, esfregando-os e aumentando gradualmente a
intensidade até que ambas explodem num orgasmo sincronizado, cujos gritos de prazer
e êxtase puderam ser ouvidos somente pelos pequenos animais noturnos que vagavam à
sombra da noite de lua cheia. Saciadas elas se abraçam bem apertado, os corpos
molhados de suor, trocando carícias íntimas e juras de amor.

(...)
- Eu nunca senti isso antes, Xena... Como é que você faz isso mulher?
- Isso o que, Gabrielle? – pergunta Xena com voz lânguida.
- Isso que eu senti... eu explodi por dentro, sabia???
- Imaginei... pelos teus gritos... – responde Xena sorrindo.
Gabrielle enrubesce.
- Mas a culpa é sua, dona Xena... onde já se viu fazer essas coisas com uma moça
decente – retruca Gabrielle em tom de brincadeira.
- Mas a moça descente até que fez a sua parte direitinho... para quem dizia ser
destreinada...
- E será que eu posso praticar mais um pouco??? – pergunta sedutoramente Gabrielle,
deitando-se sobre Xena.
- Com toda a certeza...

E reiniciam as carícias mais ousadas. As pulsações aceleram, as mulheres se
entregam novamente à paixão e ao desejo que sentem uma pela outra. Gabrielle ama o
cheiro de Xena quando faz amor, um cheiro de luxúria e prazer. Xena não consegue se
conter ante os toques suaves de Gabrielle e por vezes goza antes mesmo que se
tornem mais impetuosos. Adormecem abraçadas e plenas de felicidade, com a sensação
de que estavam nos céus, e de que os Montes Elíseos não poderiam ser melhores do
que aquele ninho de amor.

Acordaram com o sol alto, afinal foram dormir quase no nascer do sol...
Xena abre os olhos e depara-se com Gabrielle abraçada nela, observando-a de perto:
- Bom dia, meu amor... eu...
- Já sei...”tô morrendo de fome”... – brinca Xena.
- Sua boba ! Eu ia dizer que eu... te amo!!! – e beija Xena na boca. – Mas que eu
tô com fome, eu tô.
Ambas caem na risada.
- Eu também, meu amor, você me fez gastar as últimas reservas de energia que
restavam neste corpo exaurido de paixão... – brinca Xena.
- Então vamos...
- Eu vou... preparo nosso café e trago para a minha rainha...na cama...
- Nossa!!! Será que eu mereço tanto?
- Merece, Gabrielle...Ah, merece...

Xena coloca seu roupão, desce e prepara uma bandeja com café, leite, pães e frutas
e leva para o quarto. Encontra Gabrielle semi adormecida. Esta desperta com a
chegada do desjejum e senta na cama.
- Gabrielle, tenha a decência de se vestir, senão eu não consigo comer – retruca
Xena – pelo menos os pães... – emenda sorrindo.
Gabrielle joga o roupão por cima do corpo e saboreia o café preparado por sua
mulher. Xena a observa e sorri. Sempre se encantou com o apetite matinal de
Gabrielle.
- Tá olhando o que, Xena? – pergunta sorrindo Gabrielle.
- Admirando... você é tão linda.
- Ai, Xena...assim eu fico sem graça.
- Você é o meu tudo, sabia? – diz Xena apaixonadamente, beijando Gabrielle nos lábios.
- Vem cá, vem... – convida sedutoramente Gabrielle.
- Acho melhor não... do jeito que você comeu é capaz de ter uma congestão.
- Engraçadinha... – retruca Gabrielle puxando Xena para si.

Elas acabam ficando mais um longo tempo na cama... Queriam aproveitar cada minuto
de intimidade que haviam perdido até então. No meio da tarde quando conseguiram
sair do quarto resolveram tomar um banho antes de dar um passeio até a cidade.
Gabrielle queria comprar um presente de solstício para Xena, além do quê adorava
bisbilhotar as novidades nas lojinhas dos mercadores e pechinchar nos preços das
mercadorias. Nestas ocasiões Xena quase perdia a paciência, era muito mais objetiva
que Gabrielle e preferia fugir do burburinho e da agitação das lojas. Mas, naquele
dia faria qualquer coisa que Gabrielle quisesse... qualquer coisa.

Gabrielle mergulhou naquela maravilhosa tina de água quente, ensaboando-se com um
sabonete a base de ervas confeccionado pela própria morgana. Para que conseguissem
sair à passeio Xena preferiu tomar seu banho no outro quarto...só para garantir.
Vestiram-se e rumaram, montadas em Argo para o centro da cidade.

Mytilene era uma cidade de grande porte, com muitas lojas, tavernas e uma atividade
cultural bastante intensa. O imenso teatro em frente à praça principal encantou
Gabrielle, as gigantescas colunas góticas e a abóbada por sobre o palco central
eram deslumbrantes, proporcionando uma acústica perfeita, poderia se escutar o som
da queda de um alfinete durante as apresentações. Gabrielle entrou em incontáveis
lojinhas e tendas, sempre acompanhada de perto por Xena, que olhava de cara feia
para qualquer marmanjo que fizesse menção de se aproximar de sua “propriedade”,
afinal Gabrielle estava encantadora, com um top amarelo ouro e uma mini-saia branca
com frestas laterais que deixavam qualquer pobre mortal desconcertado.
- Precisava vestir uma saia tão...provocante???... – resmunga Xena ao ouvido de
Gabrielle.
- Quer fazer o favor de não ser implicante?
- Mas TODA a população da cidade está cobiçando as tuas pernas... – responde Xena
num ranger de dentes.
Gabrielle franze o nariz, dá uma risadinha e responde seguindo adiante:
- Impressão sua, bobinha...
Gabrielle consegue driblar a vigilância de Xena e compra um presente para ela,
escondendo-o dentro de sua bolsa. Percebendo que Xena começava a se irritar com o
entra e sai das lojas Gabrielle se aproxima dela, abraça-a pela cintura e a convida
para sentarem um pouco na praça, ao que Xena concorda aliviada. Não entendia como
Gabrielle conseguia andar tanto de loja em loja sem que lhe doessem os pés. Xena
senta-se ao lado de Gabrielle e lhe estende um pequeno envelope. Ao abri-lo
depara-se com ingressos para um espetáculo de canto, que teria início dentro de
aproximadamente uma hora. Gabrielle fica radiante e sapeca um beijo na boca de
Xena, alheia às pessoas que circulavam no local. Desta vez é Xena quem fica corada.
- Xena!!! Como você comprou esses ingressos sem que eu visse???
- Ora Gabrielle, você estava tão entretida no “comércio de variedades” que eu
poderia ter sido raptada pelo Minotauro que você nem notaria...
- Sua boba !!! Eu só tenho olhos para você. Mas é que eu ADORO ir às compras.
- Eu sei, meu amor...mas vamos indo para pegarmos um bom lugar?
- Vamos sim – responde Gabrielle toda entusiasmada – Eu te amo, Xena...já havia lhe
dito isto hoje???
- Hummmm... não estou lembrada... acho que sim – responde Xena sorrindo.

Elas assistem ao musical e Gabrielle se encanta com o espetáculo. Ainda na praça,
antes de retornarem para casa, Xena estende mais um envelope para Gabrielle. Seus
olhos brilham ao vislumbrarem dois ingressos para a apresentação das poesias
declamadas por Safo e suas alunas, na noite seguinte, em honra do solstício de
verão, naquele mesmo teatro.
- É o meu presente de solstício para você, Gabrielle.
Gabrielle emocionada responde:
- Só você mesmo para me fazer tão feliz... Vamos para casa, eu quero lhe
proporcionar um agradecimento à altura...
- Isso é uma promessa? – questiona Xena sedutoramente.
- Com toda a certeza.

Retornam para casa montadas em Argo. Ao chegarem Gabrielle toma um banho e desce
para preparar o jantar enquanto Xena escova o pêlo de Argo antes de soltá-lo no
campo. Xena acaricia o nariz de Argo que relincha receptivo ao afago:
- Pois é, amigão, você está diante de uma mulher feliz... duas mulheres felizes. –
cochicha Xena sorrindo no ouvido de Argo.
Este relincha novamente enquanto Xena lhe dá um tapinha no traseiro, fazendo com
que disparasse em direção às cocheiras. Entra na casa e sente um cheiro maravilhoso
de carne assada e arroz de forno com nozes e azeitonas. Xena vai até a cozinha e
enlaça Gabrielle por trás, pela cintura, beijando-a na nuca, fazendo com que se
arrepiasse:
- Ai Xena... assim eu não consigo terminar o jantar...
- É que eu não resisto a esse... petisco encantador... – brinca Xena mordiscando o
pescoço e os ombros de Gabrielle.
Gabrielle se vira e abraça Xena, beijando-a com paixão. Após tenta se afastar para
verificar o ponto do assado no forno. Xena a segura pelos quadris e quando começa a
se exceder nas carícias, colocando as mãos por entre as pernas de Gabrielle, esta
pega a colher de pau que estava usando, se vira de frente para Xena, coloca uma das
mãos na cintura, bate o pé e gira a colher de pau com a outra mão:
- Olha aqui, dona Xena... não me faça usar esta colher como palmatória, ein???
- Que mulher temperamental que eu fui arrumar... – diz Xena achando graça do teatro
de Gabrielle – Prometo me comportar... pelo menos até a hora da janta – emenda em
posição de sentido com a mão direita para cima como que professando um juramento.
- Acho muito bom!!! – responde Gabrielle autoritária, achando graça da encenação de
Xena – Quer fazer o favor de sacudir essa roupa cheia de pêlos daquele cavalo??? E
antes de vir para a mesa lave as mãos também!!!
Ao fundo Argo relincha como que em protesto pelo comentário de Gabrielle, que diz
impressionada:
- Mas que ouvido que tem esse cavalo!!!
Xena gargalha e sai da cozinha. Retorna após um banho e ajuda a colocar a mesa.
Elas jantam e arrumam a cozinha. Após guardar o último prato xena diz:
- Acabou-se o juramento!!! - e agarra Gabrielle pela cintura, levantando-a no ar e
girando em círculos pela cozinha.
- Sua maluca... eu te amo!!! – diz Gabrielle com a cabeça rodando.

Gabrielle enlaça a cintura de Xena com suas pernas e segura-se em seu pescoço. Xena
a sustenta pelos quadris beijando-a avidamente. Gabrielle beija o pescoço de Xena,
o colo e leva seus lábios em direção aos seios de Xena. Abre a blusa desta e suga
seus mamilos. Xena caminha com Gabrielle presa em si até a sala, cambaleando de
excitação. Deita Gabrielle no tapete da sala e arranca com voracidade seu top,
sugando seus mamilos rosados e rijos de tesão. Também arranca sua saia com um
puxão, não conseguindo se conter tamanha a vontade de sentir Gabrielle gozando de
encontro ao seu corpo. Gabrielle desamarra a saia de Xena e tira sua blusa, bem
como a calcinha de linho branco que usava por baixo. Elas se ajoelham frente à
frente no tapete felpudo cujas cerdas macias acariciam seus joelhos e se abraçam.
Cada qual leva sua mão direita até o sexo da companheira, com carícias rítmicas e
sensuais, e ambas sentem que estavam encharcadas de tesão. Primeiro Xena acaricia o
clitóris de Gabrielle, sentindo-o aumentar de tamanho conforme o movimento da ponta
de seus dedos. Gabrielle geme em seu ouvido e se contorce de prazer. Em seguida,
com delicadeza, Xena começa a introduzir dois dedos na vagina de Gabrielle, devagar
e sincronizadamente...aproveitando a umidade de sua cavidade e sentindo o fogo que
emanava de suas entranhas. Gabrielle, com o braço esquerdo, aperta forte a cintura
de Xena, colando seu corpo ao dela e emitindo sons guturais de prazer
indescritível. Aproxima sua boca do ouvido de Xena e implora:
- Mais, Xena...eu quero mais...eu te quero dentro de mim...
Xena introduz mais seus dedos e inicia um movimento de vai e vem mais acentuado.
Gabrielle se abre àquele movimento e também penetra Xena com seus dedos delicados,
porém bastante conscientes do que deveriam fazer para dar prazer à mulher que
amava. Xena geme alto com a penetração e abre mais suas pernas como que autorizando
Gabrielle a fazer dela o que bem entendesse. Os movimentos se aceleram e devido à
posição dos dedos e pulsos, ambas conseguem manipular as vaginas e os clitóris ao
mesmo tempo. As mulheres gritam e gemem em uníssono, enquanto se entregam em golpes
de volúpia, alcançando um gozo pleno e sincronizado. Ainda ajoelhadas se abraçam e
se beijam, deitando-se a seguir para recuperar o fôlego e oportunizar a
normalização dos batimentos cardíacos. Continuam abraçadas por longo tempo,
acariciando-se e trocando juras de amor. Após certo tempo Gabrielle convida:
- Vamos olhar a lua?
- Pra quê? – pergunta Xena – Para deixa-la com inveja da tua beleza???
- Realmente ela ficará com inveja de mim...porque EU tenho a mulher mais linda do
mundo. – responde Gabrielle embriagada de amor.
Xena a beija e responde:
- Bobinha... eu te amo...

Elas sobem para o quarto e vão até a sacada da qual se avistava o mar Egeu. A lua
cheia refletia sua trilha luminosa nas águas profundas e nos corpos nus das
mulheres que a contemplavam abraçadas. Gabrielle de frente para a mureta de madeira
torneada que delimitava a sacada, com ambas as mãos apoiadas nela, admirava o halo
prateado resplandecente que envolvia a lua e que, se observado mais atentamente
ostentava em sua luminosidade quase que todas as cores do arco-íris. Xena, por trás
dela, a envolvia pela cintura num abraço terno e aconchegado. Afagava-lhe
suavemente a barriga e o peito, beijando-lhe a nuca e os cabelos. Sorvia de suas
madeixas loiras o suave perfume de ervas aromáticas as quais Gabrielle costumava
usar para enxaguar-se após o banho. Gabrielle sentia o toque apertado dos seios de
Xena nas suas costas, assim como o contato sensual de seus pêlos pubianos
roçando-lhe um pouco acima se suas nádegas. Enquanto Xena envolvia Gabrielle pela
cintura com seu braço esquerdo, apertando-a de costas contra si, com a mão direita
apalpava-lhe os seios, passando delicadamente os dedos ao redor dos mamilos,
deixando-os eretos e Gabrielle totalmente excitada. Xena era de fato uma amante
ardente e conhecedora de como enlouquecer qualquer mortal. Em se tratando de
Gabrielle, então, sabia perfeitamente o ímpeto que era capaz de provocar-lhe
mediante um simples toque ou olhar. Mas Gabrielle também havia se dado conta de seu
poder de promover ume verdadeira erupção de sensações de volúpia e paixão na mulher
que amava. E como sabia disso... Aproveitando-se da posição em que estavam passou a
realizar suaves e quase que imperceptíveis movimentos circulares de quadril,
pressionando seu dorso contra a virilha de Xena. Esta envolveu seus quadris com as
mãos, pressionando Gabrielle contra seu púbis e esfregando-se nela enquanto
lambia-lhe as costas. Gabrielle firmou-se na mureta da sacada com ambas as mãos e
passou a realizar uma dança com os quadris, cujo rebolado deixou Xena enlouquecida
de tesão. Gabrielle entreabriu um pouco suas pernas para que Xena pudesse tocá-la e
sentir o quanto estava molhada. Xena baixou sua mão direita e passou os dedos no
meio das pernas de Gabrielle, ainda segurando-a de costas com o braço esquerdo, não
permitindo que se virasse de frente para ela. Ambas transpiravam excitação por
todos os poros e embora estivesse uma noite agradável estavam molhadas de suor.
Gabrielle continuava seu rebolado, num rogo implícito para que Xena a penetrasse
com os dedos vorazmente, o que de fato fez com movimentos a princípio suaves que
foram se tornando mais ávidos e contínuos. Gabrielle gemia de prazer e pedia mais.
Enquanto penetrava o sexo de sua amada Xena lambia suas costas e lhe manipulava os
mamilos rijos, umedecendo-os com a saliva da boca da própria Gabrielle a qual lhe
lambia os dedos com sensualidade. Percebendo que Gabrielle estava em seu limite,
Xena sussurra ofegante em seu ouvido:
- Goza pra mim... me dá esse prazer todo...
Ao que Gabrielle explode num grito de orgasmo que ecoou na noite enluarada por
sobre as águas do mar Egeu.
Exausta e com as pernas bambas Gabrielle se vira de frente para Xena, que a abraça
apertado apoiando-a e beijando-lhe a boca com paixão.
- Eu te amo, Gabrielle... – sussurra ao seu ouvido.
- Eu também te amo mulher, minha mulher... – responde Gabrielle deixando Xena sem
ar com um beijo onde sua língua lhe chegou ao céu da boca em movimentos de puro
êxtase.
Abraçadas e se beijando cambaleiam de volta ao quarto. Gabrielle, num movimento
rápido e preciso empurra Xena jogando-a sobre os lençóis macios da cama.
Surpreendida Xena sorri da investida de Gabrielle, afinal não era fácil derrubá-la
daquela maneira. Somente sua rainha amazona conseguiria fazer isso e de forma tão
fácil. Gabrielle, de pé aos pés da cama, a observa com um ar maroto e sensual, como
quem está prestes a colocar em prática um plano mirabolante, mas com ótimas chances
de obter êxito. Xena não se faz de rogada e se ajeita nos lençóis, sempre observada
por Gabrielle. Deita-se de costas, recostando-se nas almofadas e apoiando-se nos
cotovelos para conseguir uma visão global de sua musa. Tão linda, tão
maravilhosa...e tão gostosa...pensava Xena, e toda dela. De fato Xena sentia-se
possuidora do mundo, não precisava de mais nada, Gabrielle lhe bastava. Os olhos
azuis de Xena escureceram de excitação enquanto abria suas pernas, provocante,
oferecendo-se para Gabrielle. Esta aproximou-se lentamente e como um felino de
olhos verdes engatinhou na direção de Xena. Com sensualidade começou a lamber os
pés de Xena e foi subindo por seus joelhos e pernas até enterrar sua língua na
cavidade úmida de Xena e sugar cada gota daquele líquido emanado de suas entranhas.
Gabrielle amava o gosto de Xena e adorava senti-la tremer a cada movimento de sua
língua. Xena movimentava levemente seus quadris, projetando seu sexo de encontro à
boca de Gabrielle. Esta passou a sugar o clitóris de Xena com vigor, passando sua
língua num movimento de vai e vem sincronizado que fizeram a princesa guerreira
entregar-se de corpo e alma àquela sensação de crescente volúpia e desejo. Não
conseguindo mais se conter grita e geme de prazer gozando na boca de Gabrielle.
Gabrielle se esgueira por sobre o corpo esmorecido de Xena e se deita sobre ela,
abraçando-a e beijando com delicadeza sua face, testa, boca e pescoço. Xena a
envolve com um abraço e ambas adormecem profundamente, acordando somente no outro
dia com os primeiros raios do sol penetrando por entre as frestas da janela e pela
porta aberta da sacada do quarto.

Gabrielle levanta levemente a cabeça, funga no ar e diz:
- Xena...
- Huummm... – responde Xena ainda sonolenta.
- Tô sentindo cheiro de café da manhã...
- Ahrãã...
- Xena! Acorda!
- O que é Gabrielle?
- Tô sentindo cheirinho de café...
- É a fome, amor...
- Quer fazer o favor de acordar e respirar fundo?...
Frente a insistência de Gabrielle, Xena se apóia sonolenta num dos cotovelos e
inspira profundamente.
- Sabe que você tem razão?... Tem gente lá embaixo, e estão com o café pronto –
responde Xena surpresa – Deve ser Morgana.
- Pensei que ela só viria mais tarde.
- Pois é... mas parece que essa mulher é madrugadora. Vista-se e vamos descer.

Gabrielle pula da cama, coloca sua roupa e alcança as vestes de Xena que ainda
fazia mais uma manhãzinha na cama:
- Ai que caminha boa... Tô acabadinha... você vai acabar me matando, Gabrielle.
- Ah... eu, né dona Xena? Eu que fico toda assanhada, né?
- Ééééé... você!
- Tá bem, vamos acabar a polêmica por aqui porque eu tô morrendo de fome!
- Novidade...
- Pra agüentar o tranco eu preciso estar bem alimentada... – responde Gabrielle
debruçando-se sobre Xena e lhe sapecando um beijo na boca.
Xena a enlaça num salto, puxando-a para cima de si e a prendendo com as pernas.
- Xena...
Xena salta sobre Gabrielle imobilizando-a na cama, segurando seus braços numa
brincadeira divertida, deixando-a debater-se na tentativa de escapar.
- Eu só te solto se disser que me ama...
- Eu te amo – diz Gabrielle sorrindo apaixonadamente – mais do que tudo na minha vida.
Xena solta seus pulsos, relaxa e a beija carinhosamente. Gabrielle a enlaça pelo
pescoço e beija seus ombros. Aproveitando-se da distensão de Xena é Gabrielle quem,
num giro rápido, a derruba de lado e se deita sobre ela, imobilizando-a, ou pelo
menos acreditando nisso. Xena gargalha e diz:
- Eu também te amo!!!
- Mas eu não vou te soltar...
- O café vai esfriar...
- Pensando bem... te prendo mais tarde – diz Gabrielle num salto, jogando a roupa
de Xena sobre ela – te veste logo e vamos descer.

Enquanto Xena coloca suas roupas Gabrielle lava o rosto e escova seus cabelos.
Ambas descem as escadas de mãos dadas e encontram Morgana na cozinha, em frente ao
fogão e já com a mesa posta.
- Espero não tê-las acordado com barulho – diz Morgana sorrindo.
- Não foi barulho, não... foi o faro de certa pessoa – responde Xena debochada.
Gabrielle a belisca no traseiro.
- Aiii...
Morgana acha graça do comentário. Gabrielle comenta:
- Realmente eu não resisto ao cheirinho de café da manhã...
- Edna veio junto? – questiona Xena.
- Veio sim, mas está na queda d’água, foi dar um passeio. Na verdade eu corri com
aquela mulher daqui, ela é um furacão, quando acordada ninguém mais dorme por
perto... e eu imaginei que vocês estivessem precisando descansar... – refere Edna
provocante.
Gabrielle fica corada e Xena sorri:
- Ôôô... e como!!! – responde Xena olhando maliciosamente para Gabrielle que fica
mais desconcertada ainda.
Desta vez quem cai na gargalhada é Morgana. Dirige-se à Gabrielle carinhosamente:
- Desculpe a brincadeira – diz beijando-lhe a testa – mas você fica uma graça com
as faces nesse tom vermelho pitanga...
Gabrielle abraça Morgana sorrindo:
- Tudo bem, tudo bem... eu logo me acostumo com essa situação!
- Morgana... – diz Xena – obrigado por tudo... em especial pelo presente
de...casamento.
- Ora Xena, é o mínimo que eu posso fazer por uma pessoa que amo tanto, você é uma
verdadeira irmã. E você, Gabrielle, é uma mulher de sorte. Você possui o coração e
a alma de uma das melhores pessoas que eu conheço, de melhor caráter e pureza de
sentimentos.
- Eu sei, Morgana, com toda a certeza, eu sei. E por amá-la e ser amada eu sou a
pessoa mais feliz do mundo. – responde Gabrielle emocionada.
Xena abraça Gabrielle.
- Você é maravilhosa...e minha. Minha mulher... – diz Xena beijando a testa de
Gabrielle.
Morgana sente uma alegria profunda pela felicidade e cumplicidade de Xena e
Gabrielle. Elas sentam à mesa e tomam café.
- Não deveríamos esperar por Edna? – questiona Xena.
- Ela já comeu suas frutinhas matinais... – responde Morgana – quando voltar do
passeio com certeza fará a segunda etapa do desjejum – emenda sorrindo.

Na floresta Edna passeia pela trilha que leva à pequena cachoeira. Observa o
desenho dos troncos das árvore em busca de inspiração e matéria prima para suas
esculturas. É uma figura bastante marcante, uma bela mulher, esguia, cabelos
pretos, longos e lisos, soltos sobre seus ombros, pele alva, mas não tanto quanto a
de Morgana. Vista de longe, emoldurada com a queda d’água ao fundo e a mata virgem
ao redor, aparenta mais altura do que realmente possui. Movimenta-se como uma
pantera por sobre as pedra da cachoeira. Seu vestido branco e justo marca a
silhueta de sua cintura e pequenos seios, e sua saia longa com uma fenda lateral
deixa à mostra suas pernas bem torneadas a cada movimento que realiza. Edna é uma
mulher pequena mas cujos traços e olhar expressivo e vivaz fazem dela uma figura
célebre por onde quer que passe. Não era à toa que Morgana arrastaria o Templo de
Zeus por ela. Quando o sol se ergueu um pouco mais no horizonte, e acreditando que
as suas visitantes já estivessem acordadas, Edna retorna para casa. Adentra na
cozinha como se um raio de luz houvesse rompido a soleira da porta.
- Bom dia, dorminhocas !!! – diz Edna dirigindo-se às visitantes e abraçando Xena
que havia se levantado para recebe-la.
Elas se abraçam efusivamente. Edna quase some no abraço de Xena.
- Deixe-me vê-la de perto, princesa guerreira... – diz Edna segurando Xena pela mão
e fazendo-a rodar como se estivesse num desfile de moda – continua bela como
sempre... mas os olhos... nunca estiveram com esse brilho antes...
- Você também continua a mesma... sempre essa explosão de mulher!!! – responde Xena
rindo alto. – Edna, esta é Gabrielle. Gabrielle, Edna.
- Muito prazer – responde Gabrielle sorridente.
Com o mesmo extravasamento com que cumprimentou Xena, Edna abraça Gabrielle e lhe
beija as faces:
- Bem vinda!!! E muito prazer!!!
- O prazer é todo meu. – responde Gabrielle.
- Mas vamos nos sentar... terminem o café que eu vou acompanha-las... – diz Edna.
- Eu não falei? – comenta Morgana divertidamente.
Edna se dirige à Morgana que permanecia sentada à mesa, a abraça por trás e num
delicado movimento move sua face para si com a ponta dos dedos e lhe beija a boca
carinhosamente.
- Aposto que já andou fazendo fofocas a meu respeito para a Gabrielle, não foi? –
questiona Edna em tom de brincadeira.
- Somente uma pequena referência acerca da tua...efusão matinal... – responde
Morgana retribuindo o beijo na boca, sedutoramente, invadindo a boca de Edna com a
língua.
Novamente Gabrielle fica corada. Xena observa a cena e sorri, divertindo-se com o
rubor de Gabrielle e com as provocações e a intimidade resultantes de dezoito anos
de um relacionamento entre verdadeiras almas gêmeas. Eram opostos, isso não se
podia negar, mas completavam-se plenamente. Edna era a tempestade e Morgana a
calmaria. Edna era o fogo e Morgana a água. Morgana se dedicava a desvendar os
mistérios da magia e da natureza, enquanto Edna trabalhava na transformação desta
última em obras de arte. Era escultora por hobby mas seu forte eram as ciências
exatas, a matemática e a física. Executava trabalhos de engenharia elaborando
plantas e supervisionando a construção de casas, templos, museus, teatros e
estradas. Estas atividades eram culturalmente masculinas, porém Edna havia
conquistado seu espaço e seus serviços eram requisitados por quase toda a Grécia e
Egito. Havia aprendido o ofício com seu pai, ainda um grande empreendedor no ramo
das construções, embora Edna já trabalhasse por conta própria há bastante tempo.
Moravam juntas em Mytilene, porém pela exigência de seu trabalho, Edna passava
grande parte do tempo em viagens e mantinham uma casa no continente, em Atenas.
- E então Gabrielle? – questiona Edna – O que está achando da ilha?
- Um paraíso! – responde Gabrielle.
- Realmente, desconheço lugar mais maravilhoso, porém o paraíso nós carregamos
dentro de nós mesmos, e ao nosso lado... – responde Edna sorrindo e olhando
significativamente para Xena.
- Com toda a certeza! – responde Gabrielle já mais à vontade.
Xena se aproxima, enlaça Gabrielle carinhosamente e a beija nos lábios. Esta
retribui e admira-se de si mesmo por não ter enrubescido. Parece estar ficando,
realmente, mais sem vergonha...
- Gabrielle, você gostaria de me acompanhar numa colheita de ervas e frutos na
floresta para os preparativos do solstício? – pergunta Morgana.
- Adoraria!!!
- E nós vamos nos divertir numa cavalgada, Xena. Quero ver se você ainda é boa na
corrida com obstáculos. – diz Edna animada.
- Estou melhor a cada dia! – responde Xena.
- Então vamos!!!

Edna e Xena montam e se dirigem para a planície às margens do Mar Egeu, enquanto
Gabrielle e Morgana vão até a floresta.
Morgana carrega uma cesta feita artesanalmente por ela, enquanto Gabrielle carrega
outra, amarrada às costas, para recolherem o maior número possível de ervas para o
preparo de infusões, pomadas, poções e ungüentos, bem como frutas silvestres para o
preparo da ceia do solstício de verão. Fazia um dia quente, porém dentro da
floresta o clima estava ameno por causa das sombras das árvores e da umidade
natural da mata. Morgana dá uma verdadeira aula de fitotecnia para Gabrielle, que
presta atenção em cada detalhe explicado por Morgana, principalmente nas
referencias às pequenas diferenças entre uma planta e outra que muitas vezes fazem
com que haja confusão em sua identificação e conseqüente emprego. Gabrielle se
admira da facilidade com a qual Morgana diferencia os materiais colhidos, inclusive
as frutas, uma vez que muitas das que se encontram na floresta são impróprias para
o consumo por sua toxicidade.
- Morgana, você deveria escrever um livro...
- Mas eu já o tenho redigido de longa data, porém não para publicação em massa.
Existem princípios que se passam de geração em geração de uma forma seletiva e
subjetiva. Nem todas as pessoas são merecedoras de certos conhecimentos, poderiam
fazer mau uso do poder que advêm da natureza e da manipulação dos elementos.
- Como assim?
- Os elementos da natureza, água, terra, fogo, ar e éter, são poderosas forças
criadoras, ou destrutivas, portanto antes de se aprofundar nos estudos destas
forças é necessário que se tenha princípios de ética muito bem estruturados.
- Entendi. Desde quando você trabalha com essa vertente de conhecimentos? –
questiona Gabrielle.
- Acho que desde sempre, mas aprendi muito com minha tia-avó materna. Passava a
maior parte do meu tempo de infância metida em sua cabana, remexendo em seus
escritos e no seu caldeirão. Ela ainda nos visita com freqüência. É uma figura
bastante exótica, mas divertidíssima.
- Adoraria conhece-la.
- Por certo não faltará oportunidade – responde Morgana enquanto continuam a
colheita e a seleção das ervas e frutos.

Aquele dia estava de fato muito quente. Edna e Xena galopam por entre as planícies,
saltando sobre tocos de árvores caídas, pedras e arbustos, enfim, qualquer coisa
que se configurasse num obstáculo e por conseqüência um desafio. Chegam até a
sombra de uma figueira gigantesca, por certo milenar considerando-se o diâmetro de
seu tronco e a largura de sua copa. Deixam os cavalos descansando, pois estavam
exaustos da corrida. Sentam-se na relva e conversam durante um bom tempo,
observando de longe o vai e vem suave das ondas do mar Egeu. Este mais parecia um
lago gigante do que um mar, tamanha calmaria que reinava em suas águas.
- E então amiga? Parece que desta vez você foi fisgada direitinho... – diz Edna
sorrindo.
- Pois é... e eu estou adorando isto.
- Quem diria, ein? Para quem já teve os mais belos espécimes masculinos rastejando
aos seus pés...
- Isso é passado – responde Xena – De fato, tive várias paixões, porém só descobri
o amor e a plenitude com Gabrielle.
- Gostei daquela menina. Com certeza ela te fará feliz!
- Já faz... desde que a vi pela primeira vez.
- Ela tem sensibilidade e doçura... mas deve ser uma fera quando zangada, ein?
- Se é! – responde Xena rindo da colocação da amiga – Ela de fato é uma onça quando
as coisas não saem do jeitinho que ela quer.
- E parece que a última palavra é sempre tua: “sim, querida!!!”
As duas gargalham e Xena diz que realmente Gabrielle consegue dela o que quer, e o
que é mais incrível é o modo como ela consegue isso. Utiliza seu golpe mais baixo:
aquele sorriso com o narizinho franzido, cujos pedidos não tem como serem
recusados. Edna coloca Xena ao par de seus novos empreendimentos, conversam sobre o
clima, sobre política, cavalos, enfim, quando se dão por conta já era hora de
retornarem para casa.

Quando chegam o almoço já está pronto e as quatro degustam uma sopa de vegetais
cujo sabor era indescritível de tão bom.
- Que coisa deliciosa... – comenta Xena.
- Eu aprendi a receita com a Morgana – responde Gabrielle.
- Ótimo, vejo que vou provar desta maravilha muitas vezes. – diz Xena satisfeita.

Após o almoço elas descansam um pouco nas redes suspensas nas colunas do alpendre
da frente da casa, afinal precisam estar descansadas para a noite que promete ser
de muitas festividades. À tarde Edna convida Morgana para um banho de mar. Xena e
Gabrielle preferem fazer uma breve caminhada pela propriedade e explorar alguns
cantos ainda desconhecidos.
Seguem por uma trilha na direção dos fundos da propriedade e após passarem por uma
razoável extensão de mata semi cerrada chegam até uma clareira que descortina um
fértil vale.
No lado esquerdo da trilha existe uma rústica choupana, com paredes de tijolos de
barro e madeira, com um sótão e cobertura de sapé. Apesar de bem antiga e escondida
na floresta não tinha aspecto de estar abandonada. Mais tarde descobriram tratar-se
de um laboratório das pesquisas de Morgana. Ao lado da choupana havia um lago com
águas translúcidas, circundado por pedras e onde se refletia a vegetação do redor.
Em frente à casa um maricá florido, com suas delicadas flores brancas. Atrás
árvores verdejantes e bem ao fundo se avistava o mar Egeu.
Seguindo ainda por uma trilha à direita da choupana Gabrielle e Xena chegaram até
um jardim com pequenas fontes de águas correntes canalizadas por bambus formando
ornatos em meio à mata virgem. Numa delas foi construído um pequeno moinho, cuja
finalidade era somente embelezar a fonte e servir de ponto de observação para quem
desejasse meditar e entrar em sintonia com as energias do local. Eram trabalhos
minuciosos, porém primavam pela simplicidade e beleza. Coisas de Edna!
Xena e Gabrielle se recostam à sombra de uma árvore, sentando-se sobre um tronco
caído e estrategicamente rolado para junto do tronco de um ipê florescido. Observam
a paisagem paradisíaca e conversam:
- Xena, faz tempo que você conhece Morgana e Edna, não é mesmo?
- Faz, Gabrielle, bastante tempo...
- Por que Morgana referiu que te teria uma dívida contigo? Você a salvou dos
romanos? Como?
- Olha Gabrielle, é uma longa história... e como eu sei que você não vai descansar
enquanto não souber, e como temos tempo de sobra, vou te contar – responde Xena
abraçando Gabrielle afetuosamente e aconchegando-a contra seu peito.
- Foi assim: - continua Xena – Eu conhece Edna desde a infância. Ela foi minha
melhor amiga e ainda é. Quando meu pai foi embora eu era pequena e mamãe precisou
trabalhar para prover o nosso sustento. Meus irmãos ajudavam, mas também eram
jovens e inexperientes. Como nossa casa era grande mamãe teve a idéia de
transforma-la em hospedaria e taverna, como é até hoje. Quando eu tinha cerca de
dez anos, o pai de Edna, Turybius, foi o responsável pela execução de um aqueduto
em Tróia. A aldeia de Amphipolis ficava perto e possuía algumas das nascentes das
quais a água seria canalizada, sendo assim Turybius acabou se hospedando em nossa
casa. Edna o acompanhava sempre que possível em suas viagens, sendo que fomos
apresentadas nesta ocasião. Temos a mesma idade, aliás, fazemos aniversário com
dois dias de diferença somente.
- Nossa... que coincidência – refere Gabrielle.
- Pois é. Quando nos conhecemos foi amor à primeira vista. – Xena sorri.
Gabrielle faz uma careta de ciúmes, brincando com Xena e dando-lhe um tapinha no
ombro.
- Passamos grande parte de nossa infância e adolescência juntas. Tínhamos os mesmos
gostos, adorávamos desbravar recantos desconhecidos na floresta, colecionar
insetos, cavalgar, subir em árvores, nadar e, principalmente, visitar Niklos,
passando com ele inúmeras tardes auxiliando-o em suas atividades... na verdade mais
atrapalhávamos do que ajudávamos – sorri Xena – mas ele adorava nossa companhia,
fazia quase todas as nossas vontades. O aqueduto levou anos até ser totalmente
concluído e, mesmo depois, continuamos a nos ver com freqüência.
- Por isso vocês tem tanta intimidade! – sorri Gabrielle.
- Com certeza. Bem, certa feita Turybius fez uma viagem de negócios para Roma e nos
levou com ele. Tínhamos dezoito anos na época. A princípio fiquei encantada com a
beleza da cidade, mas logo nos deparamos com as barbaridades sofridas pelo povo.
César não é o único tirano que governou Roma, seus antecessores também tiveram seus
dias de jugo e perseguições. Naqueles dias o imperador temia qualquer ideologia que
ameaçasse seu poder absoluto e punia a quem quer que fosse com perseguição e morte,
o povo não tinha liberdade de pensamentos.
- Parente de César não podia ser boa coisa mesmo... – retruca Gabrielle.
- Pois é. Num final de tarde estávamos na praça principal quando cerca de vinte
centuriões romanos irromperam pela alameda central, montados em seus cavalos
negros, cheios de empáfia, arrastando um ancião e uma jovem de lindos olhos azuis e
longos cabelos avermelhados.
- Era Morgana!!! – exclama Gabrielle.
- Era.
- Que desgraçados esses centuriões, ein? E quem era o ancião?
- Anacleto, o avô de Morgana. Ela perdeu os pais muito pequena e foi criada pelos
avós maternos, Anacleto e Mirian. Anacleto era um curandeiro, profundo conhecedor
de ervas, magias e forças ocultas. O povo corria para ele em qualquer situação de
doença, desequilíbrio ou impasse. Era um homem bom e justo. Mirian era parteira e
por suas mãos nasceram centenas, senão milhares, de crianças. Ambos tinham ideais
de igualdade e não aceitavam o jugo dos poderosos. Como não se calavam frente às
injustiças passaram a fazer parte da lista de ameaças ao imperador, sendo
perseguidos. Naquela tarde Mirian foi avisada de que seriam capturados, mas como
estava atendendo um parto cuja mãe e filho corriam risco de vida, não conseguiu
chegar a tempo em casa de avisar o marido e a neta. Os vizinhos esconderam Mirian
após a captura de Anacleto e Morgana.
- Xena, como é que pode ter existido um antecessor tão parecido com César? Ele
realmente teve ótimos exemplos... – ironiza Gabrielle – mas, e depois?
- Enquanto os centuriões passavam, sob vaias de alguns poucos que se atreviam a
desafia-los e aplausos da maioria que temia por sua integridade, Edna correu para
junto do cordão de isolamento formado pelos soldados e avistou Morgana. Gabrielle,
foi uma das coisas mais incríveis que eu já presenciei, tamanha a sintonia daquelas
duas. Elas se entreolharam por breves instantes, fixando os olhos uma na outra, e
foi como se o tempo houvesse estancado. Morgana estava com as faces vermelhas de
exaustão e seu olhar era de medo. Os cabelos amarrados para trás estavam
desgrenhados pelos empurrões dos guardas. Anacleto seguia impassível, cabeça
erguida e olhos no horizonte. Morgana seguia arrastada, tendo as mãos acorrentadas
ao avô. Edna ficou petrificada observando a cena. Morgana ainda olhou para trás e
esboçou um sorriso afetuoso para Edna. Foi o que bastou para Edna ter a certeza de
que aquela era a mulher da sua vida. Virou-se para mim e disse baixinho, em tom
desafiador e decidido: “vamos liberta-los.”
- Essa Edna era um furacão, ein?
- Se era!!! – concorda Xena – Enfim, corremos até Turybius e contamos o ocorrido.
Ele era um homem justo e discordava dos métodos pouco ortodoxos do imperador
romano. Turybius era um homem bastante influente e prometeu à Edna que no dia
seguinte iria até o Palácio, ter com os assessores do imperador para saber de quem
se tratava e ver o que poderia ser feito para liberta-los. Tentou acalmar Edna
argumentando que estariam seguros naquela noite, pois o déspota não perderia a
oportunidade de tornar pública uma execução para demonstrar poder e impor
obediência pela força.
- Mas Edna não se convenceu, não é mesmo? – questiona Gabrielle.
- Parece que você já aprendeu a conhece-la Gabrielle. Não, não se convenceu. Ela
era teimosa e obstinada como ainda é! – refere Xena sorrindo – E eu fiquei sem
saber o que poderíamos fazer. Mas concordava com ela que não poderíamos ficar
esperando o desenrolar dos fatos sem fazermos alguma coisa. Fomos para o quarto
para pensarmos numa estratégia de ação. Sabíamos sobre os riscos que correríamos,
mas estávamos dispostas a pagar para ver. Entendi naquele momento que eu lutava
por um ideal e Edna, mais que isso, estava disposta a lutar por um amor. “Eu já
tenho um plano”, me disse Edna empinando o nariz após algum tempo matutando. Ela me
arrastou até o quarto de seu pai, que havia saído para uma reunião e voltaria tarde
da noite, e abriu um baú contendo frascos com medicações. Apanhou um vidro com um
líquido turvo e amarelado referindo ser um potente anestésico utilizado por seu pai
quando algum de seus operários sofria algum acidente grave. Em seguida pegou um
garrafão de vinho e derramou três quartos do anestésico nele, garantindo-me que
apenas algumas gotas fariam dormir um centauro por pelo menos oito horas seguidas.
O restante do frasco gotejou num bolo de frutas secas que pegou na cozinha e que
havia sido feito naquele mesmo dia.
- Mas, afinal o que vocês pretendiam fazer? – pergunta curiosa Gabrielle.
- Pois é... era um plano arriscado e confesso que estava apavorada.
- A princesa guerreira apavorada???
- Gabrielle, naquela época eu não manuseava uma espada como hoje! Aprendi mais
tarde por força do destino... – diz Xena baixando os olhos e emudecendo frente às
lembranças de seu passado sombrio.
- Xena, o que passou, passou! Hoje você é a minha Xena, a bela pessoa que nunca
deixou de ser! Levante os olhos e termine a história que eu tô morrendo de
curiosidade.
Xena sorri frente a impaciência de Gabrielle e continua:
- Muito bem. Naquela noite nos disfarçamos, até hoje não sei ao certo onde Edna
conseguiu duas perucas loiras, e saímos pela janela do quarto, por uma corda feita
com lençóis, e fomos até a prisão. Achamos o local com facilidade, pois todos
conheciam a localização do temível calabouço do palácio, de onde raramente se saía
com vida. Gabrielle, até hoje eu não sei bem como conseguimos entrar...
- Eu imagino como! Duas moças sedutoras insinuando-se para soldados sedentos de
belos corpos... sei.
- Realmente, Edna usou todo seu poder de sedução. Eu mal conseguia disfarçar o
tremor dos joelhos. Mas confesso que encenei minha parte direitinho... – refere
Xena sorrindo.
Gabrielle lhe belisca a coxa:
- Sua depravada!!!
- Mas foi por uma boa causa... – diz Xena rindo do ciúme de Gabrielle. – Sua
bobinha... Edna ofereceu vinho e bolo para os guardas e nem foi preciso colocar
toda nossa performance em prática, pois os soldados literalmente despencaram após
alguns minutos e dormiram como anjos por muito tempo. Pegamos as chaves das celas e
localizamos Morgana e Anacleto. Edna abriu a cela e encarou Morgana que abriu o
mais belo sorriso que Edna já havia visto. Edna pegou Morgana pela mão e dirigiu-se
a Anacleto dizendo: “vamos, não temos tempo a perder”. Libertamos os demais
prisioneiros e saímos sorrateiramente daquele antro. De volta à casa que ocupávamos
subimos pelos lençóis e escondemos Morgana e Anacleto em nosso quarto. Estávamos
tranqüilas, pois sabíamos que ninguém ousaria procurar prisioneiros fugitivos na
casa que hospedava o influente construtor Turybius, estávamos acima de qualquer
suspeita. Já era bem tarde e Edna se armou de coragem e foi até o quarto do pai,
que já havia retornado da reunião e se preparava para dormir. Contou-lhe o que
havíamos feito. A princípio Turybius ficou furioso pelo risco que havíamos corrido,
porém após passado o susto gargalhou com nossa proeza e concordou em ajudar
Turybius e sua família. Foi com Edna até nosso quarto para conhecê-los e convidou
Anacleto para ir até seu escritório, para conversarem. Anacleto lhe contou sobre o
porquê de ter sido preso e sobre sua preocupação com Mirian. Turybius encantou-se
com a bondade e a sabedoria de Anacleto e comprometeu-se a ajuda-lo. Acomodou-o em
um dos quartos, enquanto Morgana ficou conosco. Providenciamos uma refeição e em
seguida nos recolhemos. Edna e Morgana conversaram longamente, era como se já se
conhecessem, tamanho entrosamento e afinidades. Olhavam-se nos olhos e sorriam.
Pensei: “eis duas mulheres felizes”. Estavam sentadas frente a frente na cama de
Edna e conversavam de mãos dadas. Edna havia desembaraçado o cabelo de Morgana e eu
lhe emprestei uma muda de roupas, a qual vestiu após o banho. Como eu estava meio
que sobrando naquela noite, mas não me importava nem um pouco pois via a felicidade
estampada nos olhos de Edna e Morgana, resolvi me recolher. Deitei em minha cama e
fiquei observando as duas até adormecer. A madrugada já estava bem alta quando
acordei e vi que minha amiga sussurrava palavras de amor no ouvido de Morgana.
Estavam nuas, Edna deitada sobre Morgana, beijando seus cabelos, boca, pescoço,
seios. Estavam se amando. Amavam-se com delicadeza e suavidade, por certo para que
eu não despertasse. Formavam um único ser, eu não conseguia distinguir onde
terminava uma e começava a outra. Percebi que, de fato, tratavam-se de almas
gêmeas. Naquele momento pensei se um dia eu também viveria um grande amor, se
encontraria minha outra metade... e encontrei. – disse Xena beijando Gabrielle nos
lábios.
- Eu te amo, Xena... – diz Gabrielle retribuindo o beijo.
- Bom, continuando... Fechei os olhos e continuei dormindo. No dia seguinte, bem
cedo, Edna e eu saímos com o pretexto de passear, mas nosso real objetivo era
encontrar Mirian. Morgana nos contou onde ela poderia estar e como deveríamos nos
apresentar para que nos identificasse como amigas, fez um bilhete para a avó. Fomos
até o vilarejo de Morgana, até a casa de amigos e referimos ter um recado de
Morgana. Mostramos o bilhete e fomos levadas até Mirian, que nos abençoou por
termos salvo sua família. Havíamos levado um uniforme das serviçais de Turybius e
Mirian se fez passar por cozinheira, indo conosco para casa sem levantar suspeitas.
Nem preciso contar a felicidade de reencontro com Anacleto e Morgana. Família
reunida, era preciso colocar em prática a segunda parte do plano. Sairiam de Roma
juntamente com os serviçais de Turybius e iriam para a Grécia, para uma nova vida.
Haviam soldados romanos por toda a parte, porém sem muito alarde pois o imperador
jamais deixaria tornar-se público o episódio em que seus guardas de elite foram
feitos de bobos.
- Xena, eu vou ser obrigada a escrever esta história. – diz Gabrielle boquiaberta.
Xena sorri e continua:
- A comitiva de Turybius saiu da cidade sem maiores problemas, sendo inclusive, e
ironicamente, escoltada por soldados romanos até os limites da cidade, para
garantir a integridade do influente arquiteto e engenheiro grego! – Xena gargalha
da situação.
- Mas vocês não estavam nervosas? – questiona Gabrielle.
- Claro que sim. Mas confiávamos em Turybius que tomou as devidas precauções antes
de partirmos. Chegando na Grécia Turybius alojou a família de Morgana em sua
própria casa, temporariamente. Como Anacleto e Mirian não estavam acostumados ao
agito das grandes cidades Turybius achou o lugar perfeito para acomoda-los. Comprou
uma propriedade na ilha de Lesbos, perto de onde Morgana e Edna vivem atualmente, e
instalou o casal e a neta. Não demorou muito para perceber o envolvimento de Edna e
Morgana, pois era um homem vivido e, graças aos deuses, desprovido de preconceitos,
queria apenas a felicidade de sua filha. Por este motivo ofertou às duas o sítio
onde moram atualmente, para que ficassem perto de Anacleto e Mirian. E foi assim
que teve início uma das mais belas histórias de amor que eu conheço. A outra é a
nossa... – diz Xena apaixonadamente.
Gabrielle a braça e a beija com paixão. O sol começa a se por no horizonte e a
claridade vai dando lugar ao manto cinzento da noite, pronto para descortinar as
estrelas e a lua prateada. Retornam para casa de mãos dadas e encontram Edna e
Morgana fazendo os preparativos para a ceia da noite, anterior ao solstício de
verão. Na noite seguinte, a do solstício de verão propriamente dito, haverá uma
celebração no sítio, com a participação de várias amigas, em honra da deusa Mãe
Terra. Deixam a mesa posta e a casa arrumada.


Quando anoitece o quarteto se embeleza para assistir a apresentação de Safo, no
teatro da cidade. Partem cedo e conseguem lugares na primeira fila. Quando se
inicia o espetáculo Gabrielle nem pisca, totalmente absorta nos poemas e canções.
Inicialmente as alunas se apresentam e quase no meio do espetáculo Safo sobe ao
palco e arranca aplausos incontidos da multidão mesmo antes de iniciar sua fala.
Quando cessam as palmas Safo declama:

”Tenho sede...
Sugo de teus lábios assustados
o mesmo beijo de antes.
Enterro minha língua até o céu da tua boca,
Buscando recuperar meu paraíso” (2)


Safo apresenta-se por cerca de cinqüenta minutos, encantando a platéia. No final da
apresentação Edna e Xena se afastam para buscar os cavalos. Ao regressarem
Gabrielle comenta:
- Que demora, ein? Aposto que o teimoso do Argo estava empacado... – diz Gabrielle,
mais em tom de brincadeira do que de crítica.
- É... mais ou menos – responde Xena dirigindo um olhar de cumplicidade para Edna e
mudando rapidamente de assunto.

Xena e Gabrielle montam em Argo, enquanto Morgana e Edna em Ventania. Ventania era
um belo cavalo negro, pelo brilhante e porte majestoso, olhos expressivos e ouvidos
sempre atentos à quaisquer sons diferentes do que o normal. Cavalgam observando
outro maravilhoso espetáculo, desta vez encenado pela lua cheia. O caminho estava
iluminado pelo clarão da lua, sendo que se podia avistar facilmente as criaturas da
noite, principalmente as corujas. Chegando em casa cearam em comemoração ao
solstício. À meia noite trocaram presentes. Edna e Morgana presentearam Xena com um
par de braceletes de couro com detalhes em prata e minúsculas pedras de marcassita.
Para Gabrielle deram um pergaminho contendo uma espécie de glossário sobre botânica
e fitoterapia, escrito pela própria Morgana. Gabrielle se emociona:
- Acho que não sou merecedora dessa preciosidade...
- È sim... com toda a certeza – diz Morgana – Você é a pessoa que eu esperava para
repassar estes conhecimentos. Faça bom uso.
- Com certeza, farei... muito obrigado.
Desta vez é Xena e Gabrielle que estendem um pacote para Morgana e outro para Edna.
No de Morgana se encontra um turíbulo de bronze, com flores do campo esculpidas nas
laterais, e no de Edna uma saia longa de seda em cor salmão com detalhes dourados
na barra e no cós. Ambas agradecem os presentes. Gabrielle estende para Xena um
diadema dourado, todo incrustado com águas marinhas e lápis lazúlis intercalados,
cujo brilho era semelhante ao azul dos olhos de Xena, uma verdadeira obra de arte.
- Uma coroa para uma princesa... para a minha princesa – diz Gabrielle
apaixonadamente, colocando o ornato na cabeça de sua amada – Nossa... ficou
lindo!!!
Edna e Morgana aplaudem. Xena diz:
- Obrigado, meu amor... o teu presente está lá em cima...
- Ai... então vamos subir???
- Tudo bem... mas só te dou depois da meia noite.
- Aaiii, que mania de fazer suspense!!! – reclama Gabrielle.
Xena a enlaça pela cintura, a beija e responde:
- É que eu gosto de te ver curiosinha...
Edna intervem em favor de Gabrielle:
- Olha, já é tarde, porque não sobem?
- E vocês? – questiona Xena.
- Nós vamos ficar aqui na sala mais um pouco... aproveitando a brisa e colocando as
novidades em dia – responde Morgana.

Xena e Gabrielle se despedem e sobem. Vão até a sacada para contemplar a lua, e
esperar ameia noite, afinal Gabrielle estava curiosa por demais. Sentam-se
abraçadas, de frente para a lua e o mar. Trocam carícias por muito, muito tempo,
inclusive perdem a noção da hora. A lua já estava bem alta quando Gabrielle
pergunta:
- Já passou da meia noite...
- É... é bem provável... – responde Xena.
- E isso não te lembra nada???
- Lembra...
- E...???...
- E eu estou com sede, vou buscar água.
- Eu vou junto! – diz Gabrielle – Será que nossas amigas já se recolheram? Não ouço
mais barulho lá embaixo.
- Então vamos descer em silêncio... – fala Xena baixinho dirigindo-se para a escada
seguida de perto por Gabrielle.

Quando alcançam o segundo degrau da escadaria Xena estanca e segura Gabrielle,
fazendo um gesto para que se calasse e desse meia volta na escada. Edna e Morgana
ainda estavam na sala, porém somente com a luz do luar penetrando pela janela
aberta e refletindo diretamente sobre seus corpos nus. Estavam se amando. Gabrielle
e Xena não puderam deixar de contemplar, mesmo que por breves instantes, a beleza
daquele momento. Deitadas de lado, frente a frente e em sentido inverso, uma sugava
com paixão o sexo da outra. Bebiam da fonte dos prazeres e gemiam baixinho a cada
movimento de língua e de quadril. Acariciavam nádegas e coxas enquanto sorviam a
umidade quente que escorria das entranhas da companheira. Abocanhavam grandes e
pequenos lábios, penetravam-se com a língua em movimentos vigorosos e se detinham
lambendo seus clitóris com volúpia e luxúria. A luz da lua refletida nos corpos em
movimento tornava a cena digna de ser contemplada. Em dado momento a vibração dos
corpos das amantes se tornou mais voraz e espasmos de prazer inundaram
concomitantemente aqueles seres sedentos de amor, culminando com o clímax de um
duplo orgasmo sincronizado e indescritível.

Xena e Gabrielle deram meia volta em silêncio e retornaram para o seu quarto.
Gabrielle permanecia muda, extasiada com a cena que havia presenciado. Xena quebra
o silêncio:
- Vou ter de pular a janela para pegar água...essa água aqui de cima é quente e eu
preciso de água fria... – diz saltando do parapeito da sacada com o auxílio de seu
chicote. Retorna em poucos minutos, escalando a sacada, com um odre repleto de água
fresca.
Gabrielle ainda permanecia em silêncio.
- Agora pode falar, Gabrielle...
- Sabe Xena, nossas amigas são realmente almas gêmeas, assim como a gente.
- São sim... o amor delas é lindo – responde Xena.
- Como o nosso...
- É, como o nosso... – diz Xena abraçando Gabrielle e beijando-a com paixão.
- Xena...
- O que?
- Não tá esquecendo de nada???
- Ah, sim... toma – diz Xena estendendo o odre com água.
- Não é isso...
- Ah, sim... – responde Xena sorrindo, divertindo-se com a impaciência da mulher.
Xena se dirige à janela do quarto e por detrás da cortina retira um pacote
escondido e o entrega à Gabrielle:
- Feliz solstício, meu amor...
Gabrielle desenrola o presente e vê que se trata de um pergaminho. Ao ler seu
conteúdo percebe tratar-se de um poema de Safo, escrito por seu próprio punho, a
pedido de Xena:
- Gabrielle, eu não sou muito boa com as palavras, e como eu gostaria de externar o
que me invade a alma encomendei esse presentinho...
- Xena... foi por isso que você e Edna demoraram tanto para pegar os cavalos... e
eu colocando a culpa no pobre do Argo...
- Eu pedi para Edna me levar até Safo. Não precisei mais do que três palavras para
descrever meu sentimento e ela o colocou no papel como se me conhecesse à
séculos... e a você também.
- Meu amor... eu te amo tanto...
- Eu também Gabrielle, eu também...
- Xena, lê pra mim... quero ouvir da tua boca.
Xena se encabula, mas pega o pergaminho e com voz embargada procede a declaração de
amor para a mulher de sua vida:


Amando-te Intimamente

Quando tu estiveres a sós comigo quero te possuir em meus braços, para poder te
mostrar toda a força da minha paixão.
Escorregarei minhas mãos por todo teu corpo, e desta maneira vou descobrir todos os
teus segredos.
Com meus lábios sedentos de desejo vou poder te sentir, assim como uma abelha que
suga incansavelmente o néctar da mais linda das flores.
Serei escrava de todos os teus mais ousados pensamentos, e numa sintonia de amor,
prazeres e ardentes desejos, te possuirei por completo e sentirás a minha volúpia
por este momento.
Neste instante seremos uma só, envolvidas pelas nossas mais ousadas vontades,
acompanhadas por murmúrios de amor e sussurros ofegantes de prazer. E com
movimentos que se tornam cada vez mais ardentes farei com que sintas um prazer que
nenhum mortal conseguirá descrever.
Então saberás que teve de mim toda a essência de meu ser, e com minhas últimas
forças te direi: eu te amo. (3)


Xena termina de ler e Gabrielle se joga em seus braços:
- Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo... e eu te amo, sempre!
Xena a envolve pela cintura e a leva para a cama. Elas se despem e se amam como se
fosse a primeira vez, num sentimento de total entrega e êxtase.

O dia seguinte amanhece nublado, o sol oculto por nuvens cinzentas que prenunciavam
chuvas de verão. Quando Gabrielle abre os olhos depara-se com Xena a contempla-la
amorosamente, enquanto mantinha-se de lado escorando sua cabeça com o pulso da mão
esquerda. Gabrielle sorri frente à proximidade do rosto de Xena e sapeca-lhe um
beijo na ponta do nariz. Xena retribui e lhe beija a testa:
- Bom dia, meu amor...
- Bom dia... – responde Gabrielle espreguiçando-se como um felino despertando de um
sono renovador.
Xena continua a contemplar o rosto de Gabrielle e esta sorri, questionando:
- O que é que a senhora tanto observa, dona Xena?
- Como você é linda... mesmo quando dorme. O contorno da tua boca é o que tem de
mais lindo no mundo, sabia?...
- Xena... assim eu fico sem graça...
Xena abraça carinhosamente sua rainha amazona e a beija com suavidade.
- Vamos levantar? Hoje temos bastante trabalho para os preparativos do festival.
- Vamos... além do quê eu tô morrendo de fome... – responde Gabrielle com olhar
maroto.
As duas caem na gargalhada. Quando chegam à cozinha encontram Morgana e Edna
aguardando-as para tomarem o café da manhã.
- Bom dia, dorminhocas...- cumprimenta Edna.
- BOM DIA !!! – respondem Xena e Gabrielle em coro.
- Edna acordou antes do nascer do sol e está agitando desde cedo... – finge
reclamar Morgana.
Desta vez é Xena quem não perde a oportunidade de provocar Edna:
- É... pelo visto boa disposição é o que não falta para minha amiga... mesmo com
uma noite repleta de atividades... – retruca maliciosamente.
Morgana sorri com o canto da boca e se vira de costas, com o pretexto de cuidar do
leite que estava aquecendo no fogão. Edna olha surpresa para Xena e responde:
- Pois é... o... o espetáculo... estava maravilhoso... fiquei excitada e dormi
pouco...
- Ôôô... – responde Xena – eu imagino o quanto... atividades artísticas sempre te
deixam... agitadinha... não é mesmo? – continua Xena provocante.
Edna pega uma maçã que estava na fruteira, no centro da mesa, e arremessa em Xena,
que pega a fruta no ar, antes que a mesma lhe acerte o nariz. As amigas caem na
gargalhada e Edna diz:
- Um a zero por hoje, dona Xena... mas o dia está recém começando...
- Isso é uma ameaça, dona Edna?...
- Não... apenas um lembrete...
Xena, num pulo, abraça Edna imobilizando-a e cobrindo-a de beijos.
- XENA... você tá me babando toda...
Morgana ri e provoca:
- Enfim uma parceira à altura... alguém que consegue travar essa mulher.
Edna consegue se desvencilhar do aperto, retribui o abraço em Xena e elas se sentam
à mesa para o desjejum. Neste momento despenca uma chuva forte, porém sem indícios
de trovões e relâmpagos, apenas água em abundância.
- Será que essa chuva não vai estragar o festival? – questiona Gabrielle.
- De forma alguma – responde Morgana – daqui a pouco teremos um lindo dia de sol...
isso é só uma chuvinha de verão. É ótima para limpar a terra. É a natureza tomando
seu banho e preparando-se para as festividades da noite.
- Que lindo... – responde Gabrielle – e bem poético...
- Eu diria simbólico, Gabrielle. – continua Morgana – A mãe Terra se prepara assim
como nós para as comemorações.
As mulheres combinam as atividades do dia. Edna e Xena ficam responsáveis pela
confecção da fogueira e limpeza dos arredores da casa e do pátio, enquanto
Gabrielle e Morgana cuidarão da decoração interna e da preparação dos alimentos.
- Espero que as duas não se matem...– brinca Gabrielle, referindo-se à Edna e Xena
que saem da mesa abraçadas e, já bem perto da porta, se viram mostrando a língua e
fazendo caretas para ela e Morgana.
- Com certeza elas sobreviverão... – retruca Morgana rindo das provocações das
duas, que neste momento já estão na rua contemplando o céu azul no horizonte.

As nuvens cinzentas já haviam se dissipado, transformadas em água cristalina já
recebida no seio da terra. O horizonte estava azulado e a cor celeste invadia o
espaço antes ocupado pelas nuvens, como que empurrando aquelas que ainda teimavam
em encobrir o astro rei. Não levou nem um quarto de hora para o sol irromper de seu
esconderijo e ocupar seu lugar de destaque na abobada celeste. As gotículas de
chuva ainda pendentes nas pontas das folhas formavam pequenos prismas
multicoloridos e na direção da cachoeira se formou um lindo arco-íris, como que
saudando o festival do solstício. A natureza se enfeitava a seu modo e o clima de
festa se espalhava por todos os lados, contagiando todas as criaturas ao redor. Os
pássaros gorjeavam alegremente, as águas dos córregos, cachoeira e mar agitavam-se
num cântico de louvor à Terra.

Enquanto trabalhavam na cozinha, preparando pratos saborosos para a festa da noite,
Gabrielle e Morgana conversavam a respeito das tradições de comemoração dos
solstícios e equinócios.
- Pois é, Gabrielle... na verdade eu nem saberia dizer desde quando as civilizações
comemoram os festivais sazonais, das estações. Por certo desde que o mundo é mundo,
afinal a natureza se manifesta ciclicamente.
- E qual é a diferença entre solstícios e equinócios? – questiona Gabrielle.
- Equinócios são os períodos em que, decorrente dos movimentos do planeta ao redor
do sol, sendo o eixo central inclinado, os dias e as noites tem a mesma duração.
Logo, temos os equinócios de primavera e de outono. Já o solstício de verão é o
período do ano em que ocorre o dia mais longo e a noite mais curta. No solstício de
inverno ocorre o contrário. Pode-se dizer que são os marcadores naturais das
estações do ano. Hoje comemoramos o dia mais longo do ano, o apogeu da
luminosidade. Desta noite em diante, em nosso hemisfério, até o fim de dezembro, a
natureza perderá sua vitalidade gradualmente e só acordará na próxima primavera com
o retorno da luz. Logo, é momento de agradecer, de celebrar, de partilhar.
- Que interessante... eu nunca tinha visto os festivais por esse ângulo...
- Pois é, Gabrielle. Acabamos perdendo o sentido das comemorações quando nos
preocupamos somente em presentear materialmente as pessoas que amamos. Os festivais
são muito mais que isso. São na verdade momentos de celebrar a vida, ocasiões para
aprofundar o senso de ligação das pessoas com o céu e a terra, incluir o sol, a
lua, as estrelas, as árvores, as colheitas, os animais, os elementos da natureza e
os seres humanos na mesma celebração. Todos como parte de um único ser, do
macrocosmos, afinal tudo que existe está interligado pelo mesmo sopro de vida.
- Morgana, que coisa mais linda – diz Gabrielle com lágrimas nos olhos – então é
momento de reconhecermos a natureza em nós mesmos...
- Exatamente, é este o verdadeiro espírito dos festivais. É um retorno às simples
verdades do coração da vida. Momento de nos livrarmos de preconceitos e rótulos
desnecessários, de cantar e dançar, festejando a vida pelo que ela é, como um
milagre que se renova todos os dias, em cada poente e nascente do sol.
- Estou adorando estar aqui justamente neste período. Tantas coisas aconteceram
nestas últimas semanas, fatos que mudaram totalmente minha vida e minha visão de
mundo... e eu estou amando tudo isso... – refere Gabrielle – Hoje eu posso dizer
que realmente me sinto uma mulher completa... e feliz... imensamente, plenamente
feliz.
Morgana envolve Gabrielle num longo e afetuoso abraço:
- Eu sei, minha amiga... eu sei...
- Sabe Morgana, é como se a gente se conhecesse à séculos...
- Pois é... e quem há de dizer que não?... Mas vamos deixar a conversa de lado e
acelerar o ritmo do trabalho, afinal ainda temos muito que organizar. E depois
temos que dar uma supervisionada no serviço daquelas duas...
- Com certeza – sorri Gabrielle.

No meio da mata Edna e Xena discutem a melhor localização para armar a fogueira.
Após muitas discordâncias e argumentações finalmente chegam a um acordo escolhendo
um ponto numa clareira próxima à cachoeira, local amplo onde as chamas não
chegariam a chamuscar as árvores nativas e de onde se poderia, caminhando cerca de
duzentos metros ao leste, avistar o mar de cima da imponente encosta de morro onde
se encontravam. Definido o local ambas começam a cavar um buraco para fixar o poste
central que serviria de suporte para as toras e os galhos da pira. Depois
empilharam simetricamente galhos secos, inclusive bambus, formando uma pirâmide de
madeira, pronta para iluminar a noite mais curta do ano e que, certamente, pela
grandiosidade do resultado final poderia ser quase que avistada do continente
grego.
- Xena... acho que exageramos no tamanho dessa fogueira!!! Isso é capaz de
incendiar a ilha!!!
Xena, sentada, dá uma gargalhada e concorda:
- É essa tua mania de querer tudo dentro de uma simetria matemática... cada vez que
tentávamos deixar um lado igual ao outro essa encrenca ia aumentando de altura e
largura!!!
- Mas ficou uma beleza, não ficou? – questiona Edna.
- Realmente, está digno de ser um trabalho nosso...sem falsa modéstia...
- Aposto que a Morgana vai achar um exagero...
- Acho que a Gabrielle também...
Elas contemplam a estrutura em silêncio por alguns minutos, quando finalmente falam
ao mesmo tempo:
- E se a gente desmanchar um pedaço...
Explodem numa risada que ecoa pelo vale abaixo. Neste momento são surpreendidas
pela chegada de Morgana e Gabrielle que olham a fogueira de baixo até em cima,
caladas, extasiadas pela visão daquele verdadeiro colosso de madeira, comparável
quase que ao farol de Alexandria. Elas olham para Xena e Edna com olhos
arregalados, mal acreditando no que viam. Xena e Edna sorriem amarelo, permanecendo
caladas e com cara de criança que fez arte... sem saber se pela frente viria um
elogio ou uma carreta de reclamações e críticas. Percebendo a ansiedade das
”arquitetas” Gabrielle e Morgana se entreolham e valorizam aqueles segundos de
silêncio, numa cumplicidade de fazer inveja, que conseguiu deixar Edna e Xena
suando frio. Por fim, não conseguindo mais controlar a vontade de gargalhar,
Gabrielle e Morgana dizem, quase que ao mesmo tempo:
- Ficou lindo!!!
- Graças aos deuses!!! – respondem Xena e Edna, sorrindo aliviadas.
Cada qual abraça sua amada e lhe afagam os ombros, por certo doloridos do esforço
realizado.
- Xena, vocês devem estar exauridas...vocês trabalharam a manhã toda !!! Já passou
da hora do almoço e vocês não desciam...
- Você se preocupou comigo, meu amor?
- Não... imaginei que estaria aprontando alguma...eu te conheço...
Xena envolve Gabrielle num abraço rápido, prendendo seus braços e capturando seus
lábios, num beijo de volúpia e paixão. Gabrielle corresponde e esquece da vida nos
braços do Xena. Quando os lábios se separam Gabrielle diz:
- Eu me preocupei, sim... eu te amo. – e beija Xena novamente.
Edna e Morgana também trocam carícias no outro lado da fogueira gigantesca. Morgana
acaricia a nuca de Edna, molhada de suor, e lhe seca a face carinhosamente com um
lenço que trazia no bolso da saia, e diz:
- Minha construtora de monumentos... você não consegue fazer nada que não fique
grandioso, não é mesmo?
- É essa minha mania de querer sempre o melhor... começando pela mulher... – diz,
puxando Morgana para si e a beijando com paixão.
Morgana introduz sua mão por sob a blusa de Edna, acariciando suas costas suadas e
fazendo com que ficasse arrepiada pelo toque macio. Edna geme de prazer e sussurra
no ouvido de sua amada:
- Se essas mãos não saírem daí agora eu vou querer senti-las no meio das minhas
pernas... e não vai ficar nada bem com nossas amigas aqui ao lado...
Morgana sorri e resvala suas mãos para fora da blusa de Edna, porém passando
suavemente por seus mamilos, deixando-os rijos e protuberantes por sob a blusa
esverdeada. Morgana sussurra no ouvido de Edna:
- Eu te amo...
Edna sorri e responde:
- Eu também...

Gabrielle fez com que Xena se sentasse sobre um banco feito com um tronco de árvore
e baixou as alças de sua roupa, deixando-lhe os ombros descobertos. Por trás
massageava suas costas que estavam, de fato, bastante doloridas pelo esforço. Xena
porém não era mulher de se queixar, mas estava se sentindo bastante aliviada com o
toque macio mas firme das mãos de Gabrielle:
- Xena, você está com os ombros muito tensos... o lado direito está todo
embolotado... – diz apertando com mais força.
- Aiii... isso doeu...
- Dói mas alivia... agüenta! – e continua massageando até sentir a musculatura de
Xena mais descontraída.
- Agora tá bom... hããããã... que coisa boa...
- Xena, quer fazer o favor de gemer com mais discrição?...
- E quem vai reparar? Os pássaros? As árvores?...
- Nossas amigas, né! – responde Gabrielle.
Xena dá uma olhada com o canto dos olhos e vê mais ao longe Edna e Morgana
embriagadas com carícias e declarações de amor.
- Acho que elas não estão ouvindo, não... – retruca Xena sorrindo.
- Mesmo assim... seja mais discreta – diz Gabrielle, dando um apertão mais forte.
- Aiii... esse doeu de novo. Mas não pára... dói mas é bom...hããããã...
- Sabe, Morgana e eu conversamos muito sobre a festividade de hoje. – diz Gabrielle
- Ela é uma mulher muito espiritualizada.
- Eu sei, Gabrielle. Morgana é uma pessoa muito especial.
- Tô louquinha que chegue a noite para conhecer as pessoas que participarão da
festa. Será que são mulheres... assim como a gente?
- Com certeza, Gabrielle, mulheres com seios, bunda, pernas e caras...
- Engraçadinha... você sabe do que eu estou falando...
- Não faço a mínima idéia... – retruca Xena provocante, rindo por dentro.
- Ai Xena, assim como a gente... que amam mulheres...
- Ah...porque não explicou antes...
- Xena, quer deixar de ser debochada!!! É que pra mim isso ainda é novidade!
Xena olha para Gabrielle, desta vez com seriedade, e responde:
- Com certeza, meu amor, as amigas das nossas amigas são pessoas como a gente,
pessoas que respeitam e aceitam as outras pessoas como são, independente de quem
amem, ou da cor da pele, ou da origem. E virão para, conosco, celebrar o dom da
vida.
- Eu sou muito boba as vezes, não é? Faço umas perguntas idiotas...
- De forma alguma... é só curiosidade natural frente a uma nova situação. Até a bem
pouco tempo você tinha outra perspectiva de vida, outra concepção de relação
íntima... e é normal que leve algum tempo para perceber que não é tão diferente de
muitas pessoas. Existem milhares de pessoas... como nós, Gabrielle.
Gabrielle abraça Xena afetuosamente:
- Eu te amo, Xena...
- Eu também, mais do que tudo... mas quem sabe você continua a massagem... estava
tão gostoso...
- Sim senhora...

As quatro retornam para casa, após terminarem a limpeza ao redor da fogueira e
armarem as mesas e bancos na clareira. Morgana e Gabrielle haviam levado os
enfeites com flores e materiais recolhidos na floresta. A clareira transformou-se
num salão de festas ao ar livre, tudo muito simples, mas carinhosamente ornamentado
para aquela ocasião especial.
Gabrielle e Morgana serviram o almoço enquanto Edna e Xena tomavam um banho rápido
para retirar o suor do corpo. Após o almoço deitaram um pouco para descansar,
afinal a manhã tinha sido extenuante. Edna e Morgana dormiam abraçadas no tapete da
sala, enquanto Xena estendeu uma rede entre duas árvores de copa bem cerrada, com
uma sombra convidativa ao descanso. Xena se deita na rede e logo em seguida
Gabrielle, que tinha ido tomar um banho, vem para se deitar com ela:
- Me dá um cantinho???...
- Com todo prazer...
- Ah...se for com prazer é melhor a gente deitar no quarto...
- Engraçadinha... – responde Xena aninhando Gabrielle entre suas pernas, fazendo
com que repouse a cabeça em seu peito.
Os cabelos de Gabrielle estavam perfumados e ainda molhados, umedecendo o peito de
Xena, que lhe afaga as madeixas fazendo com que adormeça com as carícias. Xena,
naquela sensação de aconchego, também adormece. Repousa por quase duas horas,
despertando quando um raio de sol consegue driblar a barreira espessa de folhas
verdes e reflete diretamente sobre suas pálpebras adormecidas. A claridade a
desperta e ela sente a respiração de Gabrielle em seu peito, ressonando
tranqüilamente. Xena tem a sensação de ter o mundo em seus braços. Realmente ama
Gabrielle mais do que tudo, pensa abraçando sua amada e beijando-a carinhosamente
para que desperte.
- Vamos acordar, sua preguiçosinha...
Gabrielle aninha seu nariz no pescoço de Xena, querendo permanecer por ali por mais
algum tempo. Xena lhe acaricia as costas e os cabelos. Aos poucos Gabrielle sai de
seu “esconderijo” e descortina o mais belo sorriso que os olhos de Xena já viram:
- Acordei...
Xena beija aquela boca que lhe fazia beicinho e a ponta daquele narizinho que se
franzia quando queria pedir alguma coisa... Após algum tempo de chamegos
levantam-se e vão procurar Morgana e Edna. Estas continuam dormindo no tapete da
sala.
- Será que desmaiaram?... – brinca Gabrielle.
- Vamos testar?... – pergunta sorrindo Xena enquanto pega uma pena de pavão que
adornava um vaso da sala.
Começa a passar a pena na sola dos pés de Edna, sabedora que a mesma morre de
cócegas. Não levam três segundos para Edna se encolher e despertar de seu sono. Se
dá conta do que está acontecendo e salta sobre Xena. As duas rolam pelo chão numa
brincadeira que lembra as que faziam há anos atrás. Morgana também desperta com a
confusão e olha para Gabrielle tentando entender o que se passava.
- Melhor não se meter – diz Gabrielle sorrindo.
- Com certeza... – concorda Morgana.
Após muitas risadas e um vaso espatifado Xena e Edna se jogam uma para cada lado,
exaustas, como se estivessem saindo de uma arena. Morgana as observa sorrindo e
diz:
- Parece que vocês não tiveram infância...
- Tivemos...mas gostamos de reaviva-la, não é Xena?
- É... gostamos... e você continua ágil como uma pantera...
- E você forte como um cavalo!!!
As quatro explodem numa risada e Xena emenda:
- Fico te devendo um vaso novo...
- Que é isso??? Fica pelo vidro de perfume que eu quebrei logo que a gente se
conheceu, lembra?
- Lembro! Mas na verdade eu dei graças aos deuses quando você espatifou aquele
perfume... tinha cheiro de zurrilho... mas foi a vovó quem me deu e eu não tinha
coragem de jogar fora...
Nova risada ecoa na sala. Já havia se passado mais da metade da tarde e elas
resolvem se vestir para o festival, pois em breve, antes do poente, as convidadas
começariam a chegar. Sobem para os respectivos quartos e se preparam.

Cada qual se vestiu num aposento diferente, pois haviam combinado fazer surpresa em
relação aos trajes. Edna foi a primeira a descer trajando uma vestimenta de crepe
de seda amarelo ouro, com detalhes alaranjados. Tratava-se de um pano bastante
comprido, estrategicamente enrolado no corpo, no melhor estilo indiano, cujo
arremate era um cinto de couro cru trançado com sete fios e onde se encontravam
incrustadas pequenas piritas douradas, que refletiam a luz conforme Edna se
movimentava. O caimento do tecido aderia ao pequeno corpo esguio, deixando-a com as
curvas à mostra e valorizando seus contornos. Na verdade Edna era o tipo de pessoa
na qual tudo caía bem. Se ela resolvesse se enrolar num farrapo de juta ainda assim
conseguiria deixa-lo com aparência elegante.
Morgana, discreta como sempre, estava usando um vestido longo, justo e negro como a
noite. Em seu pescoço um colar de sementes e conchas que fazia cerca de oito
voltas, tamanho o comprimento. Seus cabelos longos e soltos emolduravam o conjunto
com um halo de luz vermelho-alaranjada. Acabava sempre aparentando ser mais alta,
por seu porte esguio e pelo corte de sua roupa.
Logo em seguida Xena desce as escadas com um corpete de veludo azul marinho, todo
bordado com pequenas estrela prateadas, decotado a ponto de valorizar o busto de
quem o trajasse. Os cabelos negros, também soltos, caíam-lhe sobre os ombros. No
alto da cabeça usava o diadema que havia ganho de Gabrielle. Este refletia a
claridade projetando-a em fragmentos de luz azul na mesma tonalidade dos olhos de
Xena, como se os raios emanassem da própria mulher que o ostentava. Xena também
havia contornado os olhos com uma tintura azul escuro e em sua boca uma fina camada
de um óleo egípcio que deixava os lábios brilhantes, como que se estivessem
constantemente molhados de saliva. Da parte de baixo do corpete pendia uma saia de
fina seda negra, bastante rodada, mas cujo caimento a fazia aderir ao corpo. A saia
era curta e sua barra, toda bordada com fios prateados, terminava quase de um palmo
acima dos joelhos de Xena, deixando parte das coxas expostas a quem quisesse
apreciar aqueles monumentos que serviam de alicerce para a princesa guerreira e que
eram parte do deleite de Gabrielle. Xena estava deslumbrante, seria capaz de parar
um exército se assim o desejasse, somente desfilando diante do mesmo.
Um pouco mais tarde é Gabrielle quem desce as escadas fazendo Xena prender a
respiração. Vestia uma mini blusa de veludo vermelho, com um decote acentuado e
mangas três quartos, toda bordada com minúsculas flores brancas cujo miolo era um
pequeno cristal amarelado. Até aí, tudo bem. Xena vai descendo os olhos e vê que no
umbigo de Gabrielle havia uma pérola encaixada, tão aconchegada na cavidade que
era como se tivesse nascido ali. Logo abaixo uma mini-saia branca, semi
transparente, feita de vários pedaços de finos tecidos sobrepostos, cujas
extremidades davam um acabamento irregular em pontas, deixando ver o contorno da
calcinha rendada e, para um bom observador, os contornos das nádegas e coxas, pelo
menos pequena superfície das coxas, pois a maior parte estava descoberta. Por fim
calçava sandálias de tiras de couro brancas, trançadas até quase os joelhos. Havia
prendido os cabelos no alto da cabeça, num rabo-de-cavalo que lhe dava um aspecto
juvenil. Gabrielle também havia caprichado na maquiagem. O contorno dos olhos
estava ressaltado por uma coloração escura, realçando o verde dos olhos e havia
tatuado seus pulsos e antebraços com henna, em motivos orientais. A boca ostentava
uma pintura em tom vermelho vivo, contrastando com a pele clara e combinando com a
cor de sua mini-blusa. Desceu a escadaria num gingado provocativo e foi até onde
Xena se encontrava sentada, àquela altura quase que sem ar, debruçando-se sobre ela
e lhe beijando suavemente os lábios, para não estragar a maquiagem.
Xena continua boquiaberta e Edna não perde a oportunidade:
- Xena...fecha a boca...vai acabar engolindo uma mosca!!!
- Edna... faça o favor... – repreende Morgana.
- Mas desse jeito ela VAI engolir uma mosca! – responde Edna.
Morgana não resiste e acaba rindo da situação. Gabrielle também se diverte. Xena
respira fundo e diz:
- Meu amor... você não tinha mais alguns pedaços de pano para se cobrir???... e
essa saia está indecente... LINDA, mas indecente...
Nova gargalhada ecoa pela sala.
- Deixa ela, Xena – retruca Edna – Gabrielle está deslumbrante!
- É claro que está!!! Aliás... TODO MUNDO vai achar Gabrielle deslumbrante... –
responde Xena.
Gabrielle se aproxima novamente de Xena e lhe sussurra no ouvido:
- “Todo mundo” pode olhar e achar mas é só você que pode “usufruir”... – diz
beijando o lóbulo da orelha de Xena.
Xena fica arrepiada até a raiz dos cabelos. Gabrielle realmente sabia como
desconcerta-la. Resta-lhe sorrir e dar-se como vencida.
Gabrielle se afasta um pouco e observa Xena detalhadamente:
- Ora, ora... olha quem está falando em cumprimento de saia, dona Xena! Na SUA
também não está faltando pano no cumprimento, não???...
- Bom... – desconversa Xena – vamos encerrar esse assunto por aqui, certo? Afinal,
é dia de festa, de confraternização...
- É, depois a gente conversa... – concorda Gabrielle sorrindo e lhe piscando um olho.
Neste momento, escutam-se sons de conversas e cascos de animais se aproximando pela
entrada principal. São as primeiras convidadas que chegam.

As quatro se dirigem ao portal de entrada para recepcionar as visitantes. Avistam
uma animada turma de seis mulheres acenando para elas alegremente. O sol ainda não
havia se posto no horizonte, estando ainda visível sobre a copa verde das árvores
no oeste da ilha de Lesbos. As visitantes chegam numa carroça de madeira, com
quatro grossas rodas de metal, puxada por uma parelha de bois: Preguiça e Descanso.
- Êia, Descanso!!! Acelera Preguiça!!! – se ouve ao longe.
O sexteto era de fato muito animado. Formavam um conjunto musical. Residiam na
localidade de Kalonis, que ficava a oeste da Lagoa Kallosis, bem no centro da ilha
de Lesbos, por isto eram chamadas de Harmônicas da Lagoa. Ao cruzarem o pórtico de
entrada desembarcaram e cumprimentaram as donas da casa afetuosamente. Terèse e
Mary foram as primeiras a abraça-las. Mary é uma mulher alta e bela, de cabelos
castanhos crespos e revoltos, como uma leoa. Fala pausada, tímida de início, mas
com uma personalidade marcante. Com um traje marrom, discreto, carrega em baixo do
braço uma sacola de couro onde repousa cuidadosamente um banjo, instrumento que
toca por hobby desde criança. É possuidora de uma bela voz e quando começa a cantar
é impossível não parar para ouvi-la. Já Terèse é seu oposto, estatura mediana,
cabelos pelos ombros com uma tintura avermelhada, pele clara, efusiva. Terèse fala
pelos cotovelos e consegue agitar o grupo. Seu vestido possui a parte de cima bem
justa, feito de um veludo de cor violeta com detalhes em lilás. Já sua saia longa,
caindo-lhe até os pés é uma sobreposição de vaporosos tecidos de seda coloridos,
aliás multicoloridos, em nuances que contemplam todas as cores do arco-íris.
Discrição, por certo, não é o seu forte. Para completar o conjunto usa um chapéu de
veludo roxo, cônico e com abas largas, todo bordado com estrelas douradas e
multicoloridas. Carrega um instrumento de percussão, um pequeno aro de madeira
coberto por um couro esticado. Na base, incrustados vários círculos minúsculos de
metal sobrepostos que davam ao instrumento um som agudo, porém harmônico.
Logo em seguida Helena e Deby. Helena é uma mulher pequena e loira, cabelos lisos,
escorridos, cujas madeixas amareladas lhe tapam metade dos olhos. Duas lindas
covinhas nas faces lhe conferem um ar juvenil. Bastante risonha, é sempre quem acha
graça em todas as trapalhadas que o sexteto se envolve. Também auxilia na
percussão, tocando um chocalho feito de uma cabaça gigante contendo grãos de
cereais secos e areia grossa, muito embora sua coordenação não seja das mais
louváveis. No entanto, o que vale é a intenção, e boa intenção de tocar é o que não
lhe falta. Em compensação sua voz é bastante afinada e harmônica. Eventualmente
executa alguns belos solfejos num oboé, instrumento no qual vive prometendo
especializar-se. Costuma se vestir com discrição e comparece trajando uma
saia-calça de seda azul escura e uma blusa em tom caramelo, que acaba realçando a
cor castanha de seus olhos. Deby é quem sempre dirige o veículo oficial do
conjunto, talvez por ser a mais pacienciosa com Descanso e Preguiça, ou por ter a
capacidade de emitir um grito que os faz acelerar o passo, mesmo que em aclive.
Trata-se de uma mulher de grande porte, pele alva e olhos castanho claros. É
encarregada também, juntamente com Mary, de organizar os preparativos quando o
grupo sai para viajar, devido ao senso de organização de ambas. Enquanto Mary
jamais esquece roupas, partituras e acessórios, Deby é incapaz de esquecer os
mantimentos e a água, isto sem falar num pequeno barril de vinho. Deby toca um
imenso tambor feito de madeira e couro cru.
Por fim Cindy e Bella abraçam as anfitriãs. Cindy é realmente uma fofura, simpatia
e bom humor são o que não lhe faltam. Também é quem mais entende de engenharia e
arquitetura no grupo. Conserta tudo, desde uma chaleira amassada até o encanamento
das cisternas de armazenagem de água. Isto sem falar no seu dom natural para o
canto. É dona de uma das mais belas vozes da Grécia e já cantou poemas de Safo em
consertos no continente. Também é exímia no toque da cítara, com a qual
seguidamente acompanha suas composições. Bella é uma mulher de porte mediano, pele
morena, olhos negros como a noite e cabelos longos e lisos. Também se veste com
discrição e comparece trajando um vestido verde-água, cuja barra chega a lhe tapar
os joelhos. Usa um chapéu de veludo em tom verde musgo e sandálias pretas com tiras
amarradas nos tornozelos. É incapaz de ficar parada por longo tempo, sempre
disposta a fazer alguma atividade que exija movimento. Na bolsa que sempre carrega
consigo, além de seus pertences pessoais e do inseparável chocalho de contas, um
avental engomado não deixa despercebido seu encanto pela culinária. É capaz de
fazer pratos saborosos num mínimo período de tempo e sempre tem uma nova receita
para testar. Além disso, ninguém como ela é capaz de decorar um jardim e organizar
uma horta no fundo do quintal, onde cultiva as especiarias com as quais costuma
temperar seus manjares. É, sem dúvida, a mestre-cuca do sexteto e uma das
responsáveis pela dificuldade das meninas de perder peso. Bella também participa do
vocal do grupo, possui uma bela voz.

Morgana e Edna apresentam Gabrielle e Xena. A empatia foi instantânea e em poucos
minutos o grupo já conversava alegremente instalado em bancos dispostos no jardim
em frente à casa.
Nem bem havia se passado meia hora e se ouve, antes da curva da estrada, o tropel
de cavalos se aproximando. Eram Angélica, Susan e Regine. Angélica montava um
alazão de trote compassado e firme, enquanto Susan montava uma égua de pelagem
branca com pintas escuras no dorso e focinho. Já Regine vinha num cavalo negro como
a noite, cujo pêlo parecia ter sido recém escovado. Juntaram-se ao alegre grupo que
já se encontrava no local. Logo em seguida Eunice e Camille chegam numa biga puxada
por uma parelha de éguas ruanas e ao desembarcarem dirigem-se efusivamente até as
donas da casa. Logo após Leonor chega montando Lua Cheia, cavalo amarelo claro com
crinas brancas, muito gordo, cujo peso não deixava dúvidas quanto à adequação do
nome.

Naquela altura o sol já havia se posto no horizonte e o mesmo ostentava uma
coloração vermelho-alaranjada. Os pássaros que até então gorjeavam alegremente
recolheram-se aos ninhos, dando lugar aos sons da noite. As primeiras estrelas
descortinavam no azul cinzento da noite. Muitas outras convidadas chegaram em suas
montarias e outras tantas chegaram a pé, sozinhas ou em grupos. Em pouco tempo
reuniram-se mais de quarenta mulheres, das mais diversas procedências, idades e
raízes, porém todas ligadas pelo mesmo desejo de celebrar o apogeu da estação
através do festival do solstício e dispostas a confraternizar com a natureza pela
busca da essência de cada uma, reconhecendo-se como parte integrante de um todo
harmônico e feliz.

Após a chegada de todas dirigem-se à clareira da mata, onde cada uma colocou os
alimentos que trouxe para partilhar, dispondo-os cuidadosamente nas mesas. Uma vez
dispostos os alimentos reuniram-se em círculo em volta deles e, de mãos dadas,
agradeceram pelas colheitas e pela fartura, pela chuva, sol, amigos, família e
bênçãos recebidas durante a estação. Entoaram melodias mântricas que o vento se
encarregou de espalhar pelos quatro cantos do mundo. Após cumprimentaram-se umas às
outras e dançaram para celebrar a vida.

Gabrielle e Xena estavam deslumbradas com o astral das pessoas que participavam da
festividade. Até mesmo Xena, que era tida como tímida e comedida, viu-se dançando
alegremente, rodopiando com Gabrielle no meio da roda formada. Porém, para Xena e
Edna, o melhor ainda estava por vir. Por sobre a montanha uma lua cheia surgiu
imensa e majestosa e quando se aproximava a meia noite Morgana pede a atenção de
todas:
- Amigas e irmãs, agradeço a presença de cada uma de vocês, pessoas tão especiais
para nós. É chegado o momento de saudarmos a noite mais curta do ano iluminando-a
com a chama de nossa fogueira. Edna e Xena, queridas, poderiam fazer a gentileza de
atear fogo na pira?
Xena e Edna se entreolham, mal conseguindo disfarçar a vaidade pela obra de arte,
pois todas as convidadas, sem exceção, ficaram estarrecidas com a magnitude da
fogueira erguida. Na clareira reina um silêncio absoluto e todos os olhos estão
voltados para o centro. Cerimoniosamente dirigem-se até um pequeno fogo de chão e
acendem as pontas de duas flechas. Posicionam as longas hastes incandescentes nos
seus respectivos arcos e apontam para o centro da fogueira. A um sinal de Edna
ambas disparam as flechas que acertam em cheio o alvo, sendo que em poucos minutos
as chamas transformam a noite quase que em dia. Num primeiro momento todas ficam
perplexas com o tamanho da tocha gigantesca que espalha suas labaredas em direção à
lua. O clarão reflete-se no rosto de todas as mulheres ao redor da fogueira e
instantaneamente o silêncio é quebrado com um grito uníssono em louvor ao fogo.
Xena cochicha para Edna:
- Realmente, acho que dá pra se ver esse clarão do continente – e sorri debochada.
- E esses gritos também – retruca Edna alegremente.

Logo em seguida reiniciam-se as danças ao redor do fogo e as cantorias em louvor à
deusa mãe terra. As Harmônicas tocam e cantam, acompanhadas por um coro animado e
disposto a dançar até o nascer do sol. Gabrielle enlaça Xena pela cintura e as duas
iniciam um bailado ao redor do fogo crepitante, rodando, rodando, rodando até quase
a exaustão. Em determinado momento Xena fala no ouvido de Gabrielle:
- Meu amor, vamos parar um pouco, quase não sinto as pernas.
Gabrielle sorri e elas sentam bem perto do conjunto musical em um banco de madeira,
sendo que Xena monta no banco e Gabrielle se aninha entre suas pernas, escorando
suas costas no colo de Xena, que a envolve num abraço apertado. Cantam alegremente
durante muito tempo. Sentindo o calor do corpo de Gabrielle, Xena a convida para se
afastarem um pouco do meio do burburinho. A lua cheia já havia iniciado sua descida
rumo ao horizonte enquanto que a fogueira, antes gigantes, já havia se transformado
numa braseiro incandescente, com labaredas que não ultrapassavam os arbustos de
maricás. Xena conduz Gabrielle pela mão até uns arbustos floridos, de onde se via a
fogueira ao longe e esplendor da lua ao fundo, e onde havia estrategicamente
deixado escondida uma esteira enrolada. Gabrielle sorri para Xena que retribui o
riso maroto:
- Xena, você premeditou me trazer para este canto escuro???...
- EU???... Claro que sim... – responde enlaçando-a pela cintura e beijando-lhe os
lábios com ternura.

A luminosidade longínqua do fogo conferia reflexos cintilantes nos olhos de
Gabrielle, e Xena ardia de paixão. Soltou os cabelos da rainha amazona passando a
mão por entre as madeixas louras, escorregando até suas costas e desabotoando sua
mini blusa. Gabrielle geme ao toque suave de Xena. Esta descobre os seios de sua
amada e leva sua boca até eles, passando a língua pelos mamilos e sugando-os
sensualmente. Desta vez é Gabrielle quem desabotoa as vestes de Xena, deixando-a
totalmente despida e acariciando seu corpo inteiro. Xena não se contém e termina de
tirar a saia e a calcinha de Gabrielle, deitando-a por sobre a esteira e fazendo
com que se entregasse por completo às suas carícias e toques. Elas se amam com
volúpia e gemem de prazer tendo a lua refletida nos corpos nus e sedentos de
desejo, com a música cantada ao fundo, as batidas rítmicas dos instrumentos de
percussão e o som do crepitar das chamas da fogueira. Após intermináveis momentos
de intimidade contemplam abraçadas a lua, que cai por trás dos montes.
- Daqui a pouco o sol vai nascer – sussurra Gabrielle.
- Então vamos saudá-lo!!! – responde Xena.

Elas se vestem e retornam para o centro da clareira onde as danças e cantorias
continuavam ininterruptamente. Nesta feita a lua já havia desaparecido, oculta pela
montanha e o horizonte leste já ostentava um fino contorno luminoso, prenúncio da
alvorada, como que conferindo um tom avermelhado às águas do Egeu. Quando a
claridade tomou um pouco mais de forma e já se distinguiam os perfis dos montes e
da floresta, as vozes cessaram instantaneamente, assim como os tambores e
instrumentos de cordas. Todas as mulheres se perfilaram no alto da clareira, de
mãos dadas, com os olhos voltados para o oriente, em total silêncio, tendo o Mar
Egeu como limite visual do globo terrestre. Se podia ouvir os primeiros cantos dos
pássaros e os sons da natureza que despertava. As respirações se tornaram
compassadas e profundas, num sentimento de comunhão com o infinito. Neste momento o
primeiro raio de sol surge no horizonte, como uma haste luminosa que se estende por
sobre o mar e envolve a terra. Esse raio se expande e se agiganta, transformando
trevas em luz, noite em dia. As mulheres permanecem caladas, respirando
compassadamente, absorvendo cada gotícula de luminosidade e transmutando as
energias de seus corpos físicos e etéricos. Vagarosamente a corrente humana se
desfaz e a sensação é de purificação e leveza. Novamente o grupo se abraça e renova
o desejo de harmonia e paz universal. Lentamente vão recolhendo os resquícios da
ceia e retornando para a casa de Edna e Morgana. Lá é preparada uma refeição
matinal para todas e gradualmente as pessoas vão se despedindo e retornando para
seus lares. Por último se despedem as Harmônicas, sempre prometendo voltar em
breve. Morgana, Edna, Xena e Gabrielle as acompanham até o pórtico da propriedade e
acenam para o grupo que parte acenando alegremente para elas. Ao longe ainda
escutam:
- Êia Preguiça!!! Acelera Descanso!!!...

As quatro, já se deixando dominar pelo sono, vão para seus respectivos aposentos e
adormecem profundamente, acordando somente no meio da tarde. Após uma refeição leve
dirigem-se à clareira da mata terminam de organizar e limpar o que restou da festa.
Ao terminarem Xena propõe:
- Meninas, que tal um banho de cachoeira???...
- Ótimo!!! – respondem em uníssono.

As quatro correm até a cachoeira e se despem rapidamente, mergulhando na água
fresca e cristalina. Depois de se divertirem por mais de uma hora Edna e Morgana
retornam para casa. Gabrielle e Xena sobem até o topo na montanha do lado oeste da
clareira e sentam-se abraçadas numa pedra, contemplando o sol que vai descendo
vagarosamente, preparando-se para mergulhar nas águas do Mar Egeu, cedendo lugar ao
manto estrelado da noite.
- Xena, eu tô sentindo uma felicidade que chega a doer...
- Bobinha... felicidade não dói.
- Mas é que... como é muita, parece que não cabe dentro do peito...Aí dói –
argumenta Gabrielle.
- Tudo bem. Eu também estou sentindo uma felicidade que nunca tive antes. E essa
felicidade tem nome... é Gabrielle.
- Pois a minha tem outro nome... é Xena.

Elas se abraçam afetuosamente e se beijam com ternura.
- Xena, eu quero ficar aqui por mais algum tempo...
- O tempo que você quiser... todo o tempo do mundo...
- Eu te amo, Xena.
- Eu também, Gabrielle, eu também.
Novamente as bocas se unem, numa certeza de que os corações também permanecerão
unidos. Para sempre.


E continuaram em Lesbos até o final do verão, em plena lua de mel, lua de amores,
de paixões e de descobertas. No início do outono resolveram visitar Cyrene, mãe de
Xena, em Amphipolis. Lembraram da promessa de passar em Methone para contar as
novidades a Niklos. Mas isso já é outra história...


E a primeira vez foi assim...

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(1) Episódio nº20 da 1ª Temporada, intitulado “Átrius, O Pai” (Ties That Bind).
(2) O autor do poema atribuído a Safo neste conto é Walmor Santos.
(3) O autor do poema atribuído a Safo neste conto é Gilberto Rumayor.

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