Eternamente

Kenia T.

 

 

DISCLAIMER:

Os personagens de Xena e Gabrielle s�o marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Os personagens vampiros s�o cria��o da escritora Ane Rice e encontram-se em sua trilogia sobre vampiros. Os outros personagens foram retirados da mitologia e portanto de dom�nio p�blico para esses fins. Eles s�o usados aqui sem inten��o de lucro ou de infringir as leis de copyright. O resto da est�ria � autoria de Kenia T. e nenhum aspecto original desta poder� ser utilizado em outro lugar sem pr�vio consentimento, por escrito da autora. Essa est�ria n�o poder� ser alterada e esta informa��o sobre direitos autorais deve sempre aparecer com a mesma.

 A est�ria a seguir cont�m temas adultos expondo rela��es sexuais expl�citas entre duas mulheres adultas. Se voc� for menor de 18 anos ou onde mora � proibido ler esse tipo de material, por favor, n�o continue. A escritora e a pessoa que mant�m o website onde esse trabalho aparece n�o aceita responsabilidade legal pelo n�o cumprimento desse alerta.

NOTA DA AUTORA:

Tenho quatro her�is: Xena, Gabrielle, Lestat e Louis. A semelhan�a peculiar entre eles tornou o desejo de uni-los numa s� est�ria... irresist�vel, semelhan�a esta que poder� ser constatada nessa fanfiction e parecer� ainda mais �bvia no caso do leitor conhecer, al�m das personagens Xena e Gabrielle, a trilogia de Ane Rice: �Entrevista com o Vampiro�; �O Vampiro Lestat� e �A Rainha dos Condenados�. N�o se trata de uma continua��o mas toma como refer�ncia minha primeira fanfiction: �Ao Amor�, seria ent�o interessante l�-la antes desta.

 

Eternamente

Por Kenia T.

 

� consist�ncia do amor...

a dor?

Qual a dist�ncia que separa?

Qual a que une?

A da carne?

A da mente?

� uni�o pode-se culpar tantos

quanto � separa��o.

Um descendente, um n�o

Um amante, o sexo

de sangue... de carne...

� carne que se corta

Que cura e que putrefa

Juntas, as duas

quem vence?

A morte ou a cura?

Que morte?

A da carne ou a da mente?

Que cura?

A da alma ou a do corte?

  

Era um dia quente, muito quente, mas a mata embalava -se de uma brisa fresca e para os dois corpos nus que repousavam sobre o cobertor a temperatura parecia ser a melhor poss�vel. Era, em todos os sentidos uma vis�o singular: duas guerreiras expostas daquela forma, como se fossem estrangeiras vindas de um para�so sem o menor conhecimento do mundo agressivo que as cercava; a terr�vel e tem�vel Xena protegida apenas pelo abra�o de sua pequena barda, era algo t�o inesperado que a Deusa Afrodite parou para contemplar. A enorme Princesa Guerreira descansava sua cabe�a no peito de sua jovem companheira e dormia profundamente o sono dos sonhos de Morpheus, sua express�o era de paz, algo que mal conhecia;

 

_ Inveja mam�e? Disse cupido que acabara de chegar � moda dos Deuses.

_ Deuses n�o invejam meu filho, deuses ambicionam e decidem.

_ No que est� pensando... ?

_ Que tal a jovem? Disse a Deusa contemplando a Rainha das Amazonas que dormia � direita da guerreira, repousando o rosto sobre os cabelos de Xena.

_ Xena lhe daria muito trabalho...

_ Poderia ser ela mesma ent�o...

_ Est� precisando encontrar problemas para combater o t�dio? sabe que n�o conseguiria segur�-la por muito tempo, desista n�o vai conseguir separ�-las.

_ Talvez... mas para qu� serve o poder sen�o para almejar e conseguir o inesperado?

_ N�o percebe que estaria sendo uma tirana ao separar duas criaturas que encontraram o que at� mesmo para os deuses � uma raridade? o que essas duas t�m s� pertence elas, e s� existe entre elas, uma ou outra sozinha n�o lhe dar� o que procura...

_ Ainda n�o tentei para saber o que pode e o que n�o pode ser poss�vel... al�m do mais, se posso ser tirana, porque seria benevolente querido filho... ?

 

Sumiram quando ouviram passos...

 

Xena acordou num sobressalto... que chatea��o, j� conhecia esse filme de cor, precisava levar mais s�rio o desejo de Gabrielle em dormir em cavernas quando poss�vel, o problema � que ainda n�o havia decidido se seria mais seguro estar encurralada... correu para pegar sua espada que estava descuidadamente a alguns metros de dist�ncia. Surgiram cinco soldados que pararam est�ticos diante da vis�o que surgia � frente: A Princesa Guerreira, deslumbrantemente nua; tinha a pele levemente dourada a n�o ser nas partes em que a roupa de couro cobrira, mas a diferen�a de cor era t�o sutil que dava a impress�o de que andava quase sempre nua, ou sempre em fren�tico movimento impossibilitando que o sol a alcan�asse; os m�sculos do abd�men - no qual notava-se uma cicatriz mal curada ainda - das pernas e bra�os estavam todos � mostra e alerta; enquanto segurava sua espada na m�o direita sustentava uma express�o fant�stica de �dio, pronta para atacar.

 

_ Ent�o...? esbravejou a guerreira.

_ V v v vamos homens... ataquem! Gaguejou um deles.

 

Gabrielle, que como sempre dormia o sono dos justos s� acordou ao primeiro toque de espadas. Esfregou os olhos mais para acreditar no que estava vendo do que num simples gesto caracter�stico das manh�s... sua cara de espanto foi-se transformando em profunda irrita��o at� que se levantou carregando consigo um cobertor. Enquanto Xena lutava Gabrielle, de todas as formas tentava cobri-la, expondo-se e expondo-a ao perigo.

 

_ Por Zeus Gabrielle quer parar?! Gritou a guerreira.

_ Por Zeus Xena, quer por favor se vestir?! Berrou a barda

 

A Guerreira, sabendo n�o ser poss�vel controlar o temperamento de sua amiga tratou de acabar logo com aquilo, nem mesmo se preocupou em deixar um infeliz vivo para saber o motivo do ataque, mesmo porque nem sempre haviam motivos...

 

_ O que h� com voc�, enlouqueceu? quase nos mata, n�o pode ser t�o inconsequente Gabrielle... Disse a guerreira sinceramente preocupada.

 

A barda se culpava nessas ocasi�es pois nem sempre conseguia sentir-se preocupada quando estava ao lado de sua Guerreira; sua confian�a na for�a daquela mulher era tanta que �s vezes era mal interpretada, como se n�o se importasse com ela, o que n�o era em absoluto, verdade. A express�o da barda, que agora olhava dentro dos olhos da guerreira era de uma crian�a contrariada e furiosa.

 

_ N�o sabia que era t�o... t�o possessiva... A guerreira contemplava aquela express�o deliciosa e divertida, tinha vontade de rir mas sabia que s� iria piorar as coisas, conhecia o temperamento da �baixinha invocada� para saber, e ai dela se soubesse sobre essa refer�ncia... �baixinha invocada�.

_ Sempre fui, a diferen�a � que agora posso ser! vamos, vista-se! Disse a barda pegando suas roupas, balan�ando a cabe�a, finalmente lembrando-se que tamb�m estava nua. A guerreira aproximou-se com um sorriso terno e segurou-a puxando-a para um beijo, o resto foi inevit�vel... ah! aquela sensa��o de complemento quando fazia amor com Gabrielle... quando se entregava totalmente � �nica pessoa que conseguia essa fa�anha... t�-la ent�o... sentir seu sexo encharcar e finalmente  bebe-lo... estar no mais puro e profundo �xtase...

_ Ah... bom dia Gabrielle... Disse uma Princesa Guerreira saciada uma barda abobalhada.

 

Era o primeiro dia de intimidade entre as duas e agora que descobriram-se como amantes Xena cogitava um tipo de lua de mel, uma viajem para terras mais calmas, onde pudesse descansar e conhecer melhor essa nova e deliciosa Gabrielle.

 

Deixaram o acampamento indo em dire��o ao sul. Montada em Argo Xena sentia o rosto quente da barda em suas costas, num abra�o apertado como se quisesse impedir que qualquer coisa as separasse, enquanto segurava suas m�os que apertavam sua cintura. Amava tanto aquela crian�a que chegava a doer, n�o compreendia aquela dor mas ela estava ali; n�o sabia se era medo ou se simplesmente se dava ao fato do amor ser maior do que um corpo pudesse suportar. Mas amava, e muito, e ela estava ali ao seu lado, e isso era paz.

 

Viajaram todo o dia, andavam lado a lado agora, de m�os dadas, procurando um lugar para acampar pois j� escurecia. Gabrielle puxava Argo pelas r�deas e se divertia com Xena enquanto lembravam as in�meras vezes em que tiveram que esconder ci�mes e desejos uma da outra. A pureza das gargalhadas combinavam com a natureza que as cercava mas n�o com aquele tempo hostil. De repente Xena parou colocando seu bra�o � frente de Gabrielle obrigando-a a parar tamb�m.

 

_ O que foi? Perguntou a barda assustada.

_ N�o sei... n�o parece humano... n�o ou�o ou vejo nada... � uma sensa��o de presen�a... sinto isso quando algum Deus se aproxima...

_ Qual deles poderia ser? A barda n�o estava realmente preocupada, ainda,  contemplava a intimidade entre as duas, nos pequenos gestos como aquele, explicando o que sentia, parecia querer dizer-lhe tudo ao seu respeito, tornando-a realmente c�mplice, o que n�o era do seu feitio.

_ N�o sei meu amor... na verdade parece diferente das outras vezes. Disse a Guerreira olhando em volta, alerta.

_ Xena... olha ali... Sussurrou a barda mudando totalmente de express�o, apontando para uma min�scula clareira, como se esta tivesse sido criada apenas para abrigar aquela criatura. _ Pelos Deuses, o que � isso?

 

Parado, olhando para as duas amantes estava um homem de cabelos compridos, castanhos claros, cuidadosamente penteados, estava um pouco distante mas notava-se que a cor da pele daquele homem era sobrenatural, t�o branca que lembrava um m�rmore maci�o ferindo a penumbra do anoitecer. Em meio ao seu encantamento hipn�tico e proposital Xena deduziu que o ser viera de uma terra muito distante e desconhecida pois nunca vira aquele tipo de vestimenta, por�m n�o conseguia organizar seu racioc�nio pois sentia que algo invadia sua mente. Gabrielle lutava desesperadamente contra uma sensa��o de perda e separa��o, sentia-se sendo jogada para fora daquela cena, como se assistisse a um filme, impotente para interferir enquanto a criatura se aproximava... praticamente deslizava sobre as folhas secas at� parar em frente Xena. Seus olhos eram t�o azuis quanto os da guerreira mas n�o eram transparentes e brilhantes, pareciam s�lidos, impenetr�veis; e era um pouco mais alto. As duas mulheres jamais haviam visto um rosto t�o perfeito e lindo, n�o lembrava um anjo pois sua beleza parecia dura demais para s�-lo.

 

�_ �Me chamo Lestat de Lioncourt, o Pr�ncipe da Trevas.�

 

Ao se apresentar �s duas criaturas est�ticas � sua frente, o ser tocou com um dos dedos o queixo da Princesa Guerreira, olhando-a t�o profundamente que parecia sugar seu c�rebro.

 

_ �Ora, ora Princesa Guerreira, temos mais coisas em comum do que nossos lindos olhos azuis... temos o lado negro... a culpa... um t�tulo de pr�ncipe e uma amante loura cheia de compaix�o que se chama Gabrielle...� Dizendo isso sorriu elegantemente mostrando os caninos levemente salientes e olhou para a barda, aproximou-se dela e aprisionou seus pensamentos libertando a Princesa Guerreira que pensou em pegar sua espada... �N�o perca seu tempo b�rbara, sabe que � in�til...� Disse-lhe com sua voz sobrenatural, sem tirar seus olhos dos de Gabrielle.

 

Ela sabia que era in�til, ali�s era incr�vel tudo o que sabia sobre ele agora, e tudo o que n�o entendia sobre o que sabia. Era uma figura fascinante, t�o presente em e ao seu tempo e infinitamente distante em gera��es de conhecimento, mil�nios � frente carregava naquele olhar inquieto alternando entre o amor e o �dio. Havia tamb�m uma tristeza pulsante e excitante em seus olhos famintos e apesar da virilidade aparente era um ser assexuado, andr�gino. Sua alma parecia t�o densa que chegava a ser ainda mais palp�vel que seu pr�prio corpo, talvez por isso sabia tanto, ou talvez porque ao inv�s de sug�-la ele tivesse realizado uma troca.

 

Lestat era um vampiro de mais de duzentos anos apesar de ter nascido muitas centenas de anos depois daquele tempo em que se encontrava agora. Adorava se vestir com a simplicidade dos mortais da �poca em que estava vivendo: cal�as jeans, jaqueta de couro, botas, etc.. Vivia no final do s�culo XX, numa �poca em que os �b�rbaros� n�o se tocavam para ferir em uma batalha, num tempo de armas fant�sticas e viol�ncia ps�quica; o amor obedecia uma s�rie de regras sociais e leis; os deuses n�o falavam com os mortais e na maioria das vezes eram t�o ignorados quanto os vampiros, ele mesmo n�o acreditava, at� que Cronos o trouxera para esse tempo. H� pouco tempo havia aprontado uma bela bagun�a em seu tempo e era conhecido como o �vampiro rebelde�, era o mais popular de todos os vampiros e um dos mais poderosos apesar de ser um dem�nio muito jovem; isso se dava principalmente ao fato de ter sido amante de Akasha, a primeira Rainha dos Condenados, a mais poderosa das criaturas que j� andou sobre a terra, a mais velha de todas as criaturas das sombras e que agora estava morta, numa �poca em que a morte era realmente o fim, mesmo para um vampiro; a troca de sangue com ela lhe havia dado esse poder. Lestat estava entediado, Louis, seu primeiro e �ltimo amor encontrava-se em uma de suas intermin�veis crises de culpa por ser um dem�nio impotente diante da �fome�, e seu amor delicado e inocente seria suficiente para preencher o vazio causado pela sede de vida de um ser aprisionado num corpo morto n�o fosse Lestat um inquieto apaixonado por desafios e regaras quebradas... era seu modo de dar vida � morte e assim sentir-se vivo, al�m do mais, se era um dem�nio amaldi�oado, que assim fosse... sentia-se melhor assim do que remoendo sua culpa, como fazia Louis.

 

E foi pensando nisso que numa fra��o de cent�simos de segundo pulou sobre Xena num abra�o mortal mordendo-lhe o pesco�o e sugando sua vida at� que restasse apenas uma centelha, o suficiente para estar em seu �ltimo grau de lucidez... sentia-se saciado, em �xtase... que ser fascinante e delicioso!... e forte, espantava-se com o tamanho daquela for�a contida no corpo de uma mulher mortal.

 

Xena caiu, praticamente morta nos bra�os de Gabrielle que a segurou e deitou-a em seu colo. Tudo acontecera t�o r�pido que ainda n�o sabia o que estava acontecendo, novamente sentia apenas a pele gelada de sua amada... foi sendo tomada pelo desespero pois n�o sabia se teria for�as para lutar contra a morte dela pela segunda vez em t�o pouco tempo, naquele momento preferia morrer tamb�m se esse fosse o caso. Segurou o rosto de sua guerreira com uma das m�os e come�ou a chorar chamando seu nome...

 

_ Xena, n�o... por favor, n�o... Seu choro agora transformava-se em gritos de desespero entre os solu�os... _ acorda! acorda! por favor...

 

Lestat pensava na oferta de Cronos, que a princ�pio havia lhe parecido tentadora, e agora ao conhecer aquela b�rbara mais ainda. Sentir aquela for�a e paix�o num corpo t�o poderoso apesar de mortal era excitante e desconhecido pois aquela guerreira vivia centenas de anos antes dele ter nascido, numa �poca fant�stica de cren�as, deuses e batalhas sangrentas. Ele se sentia vivo ali pois n�o era um mito ou uma fantasia, era real, acreditavam nele assim como acreditavam em seus deuses e dem�nios. Mas a oferta de Cronos n�o era para ficar e sim lev�-la para seu tempo, o que tamb�m era fascinante, era como se pudesse levar uma parte daquele mundo num dos seus melhores esp�cimes. Queria saber mais, aprender com aquela b�rbara. Pensou tamb�m em como seria divertido apresent�-la a Khayman, um vampiro fascinante da primeira gera��o, talvez at� a conhecesse pois era t�o velho que havia caminhado pelas ruas de Tr�ia. Estava diante de mais um inusitado desafio... quebrou a primeira regra ao transformar uma crian�a, Cloudia, a segunda ao se tornar um astro de Rock famoso expondo-se aos mortais, e agora queria aquela b�rbara. Nenhum vampiro jamais havia viajado no tempo para transformar um her�i num dem�nio. Era realmente excitante! Adoraria levar a barda tamb�m, sua pureza lhe lembrava Louis aquela criatura que tamb�m tinha aqueles olhos verdes, doces e apaixonados, n�o via inoc�ncia nela, havia sim uma imensa vontade de n�o ver o mal, nem mesmo o que carregava em si mesma, fazia-o por idealismo e sabia sobre a maldade, conhecia-a sim e era capaz de ser muito, muito cruel... mas acreditava no ser humano, inclusive no ser humano que podia ser, por isso criava um mundo de compaix�o e �pureza� em torno de si e do seu amor, e sofria como um animal ferido quando algu�m lhe mostrava o mal... seu e do mundo... mas inocente, n�o... pensou que a inoc�ncia era algo muito relativo, talvez ela o fosse sim, � sua pr�pria maneira, como m�rito de seu esfor�o... assim como Xena o era quando levada instintivamente tanto pelo �dio quanto pelo amor, sem se aprofundar demais, apenas sentia e entrava em a��o... do tipo que era perdoada por Deus pois n�o sabia o que fazia... ai da barda se o fizesse pois sabia exatamente o que fazia, seu ideal era t�o poderoso que ela mesma se punia, talvez mais cruelmente que seus pr�prios deuses pudessem faz�-lo... como lembrava-lhe Louis... mas n�o podia lev�-la, sentia o amor entre elas e n�o queria dividir a aten��o da Guerreira. N�o seria dif�cil separ�-las, sabia que ao se transformar, Xena n�o colocaria seu amor em risco ao seu lado, e muito menos lhe daria o presente das...

 

A barda olhou para Lestat que estava de p� em frente a elas admirando sua dor, e lhe falou entre solu�os:

 

_ Por favor, fa�a o que quiser... eu farei o que quiser, qualquer coisa... mas por favor n�o a deixe morrer...

_ �Calma crian�a, isso s� acontecer� se ela assim o quiser.� Lestat se aproximou e ajoelhou-se diante da v�tima, rasgando a pele de seu pr�prio bra�o com o chakram de Xena que estava em sua cintura, deixando o sangue frio escorrer... �beba...�

 

De alguma forma Xena sabia o que aquilo significava, talvez por causa da �troca�. Estava fraca, tudo girava � sua volta, como se estivesse b�bada, mas sabia que n�o queria beber aquele sangue... n�o queria o que aquilo significava, n�o sabia exatamente o que era pois sua proximidade com a morte a deixava confusa... apenas n�o queria, e assim se negou a beb�-lo.

 

_ �Se n�o o fizer vai morrer, sabe disso n�o sabe b�rbara?� Disse Lestat preocupado diante de sua  resist�ncia .

_ Xena, bebe esse tro�o logo, estou mandando! Disse a barda desesperada, colocando o corte do bra�o do vampiro em sua boca.

 

As for�as que a Princesa Guerreira ainda possu�a, gastara para cerrar os dentes impedindo que o l�quido vermelho entrasse em sua boca. N�o sentia seu corpo, suas pernas ou bra�os mas sentia fome, uma fome alucinante, quase incontrol�vel e sabia que era de sangue, daquele sangue... mas n�o queria, n�o queria aquilo que vira nos olhos do monstro.

 

_ �Melhor mudar de id�ia b�rbara... se morrer ainda me restar� sua pequena amante, e definitivamente n�o perderei minha viajem...�

_ N�o... sussurrou a Guerreira.

 

N�o tinha escolha agora, n�o podia deix�-la nas m�os do vampiro, o que n�o queria para si queria muito menos para Gabrielle. Ent�o ela bebeu... o sangue queimava sua garganta como um �cido e invadia todos as fibras de seu corpo, sentia-o novamente � medida que o l�quido, que se tornara quente em contato com sua ess�ncia, revivia seus membros. Sua pele queimava com o calor e as ondas de �xtase percorriam-lhe cada parte sua. Sentia-se transformar em algo muito, muito poderoso, percebeu o poder insuper�vel do mostro que a transformava e sua fome aumentou... ergueu-se e puxou-o para morder-lhe o pesco�o com seus novos caninos, era um banquete � sua disposi��o e obedi�ncia... e ela estava faminta. Ao lembrar-se da consci�ncia que ganhara sobre as consequ�ncias de tudo aquilo o soltou de repente deixando-o cair sobre seus joelhos, de olhos fechados, saciado. Olhou para Gabrielle, que tamb�m estava de joelhos ao seu lado e jamais sentira uma dor maior que aquela, nem mesmo quando a barda fugira; era insuport�vel, aquela mulher n�o poderia mas queria apenas morrer... sabia que aquilo tudo significava a separa��o irremedi�vel... vagaria, num mundo desconhecido, imortal e demon�aca sobre e sob a terra sentindo a solid�o mais lasciva e cruel que poderia sentir um mortal ou imortal. Soube que havia uma �nica metade para cada ser quando conhecera Gabrielle, e agora que sabia disso apenas ela poderia lhe dar a t�o cobi�ada paz, pois conhecera o m�ximo do �xtase espiritual ou carnal, nada mais poderia satisfazer ou preencher sua alma. Gabrielle parecia compreender tudo e chorava incontrol�vel e desesperadamente quando pulou no pesco�o da guerreira abra�ando-a, tentando impedir o que estava por vir, mesmo sabendo-se impotente, e isso a desesperava ainda mais, mais do que a sensa��o de abra�ar uma rocha fria, gelada. Xena se transformara numa tit� impenetr�vel e invenc�vel; seu olhar escurecera, tornara-se s�lido, sem luz, sem brilho; sua pele agora era muito branca, gelada e r�gida como o a�o de sua espada. Poderia esmagar todos os ossos de Gabrielle apenas pelo descuido de um abra�o emocionado, isso lhe do�a pois sentia-se uma pedra com a vida fr�gil nos bra�os, impossibilitada de corresponder ou expressar seu amor pois era um dem�nio agora, uma condenada, um monstro das trevas e a �nica forma de faz�-lo seria atender �s s�plicas de seu corpo que pedia, implorava lascivamente por Gabrielle... estava t�o excitada que sentia o cheiro e o movimento do sangue de sua amada enquanto passeava rapidamente por suas veias... sua boca encostava naquele pesco�o quente e �ntimo... era fome, amor e desejo juntos, atormentando a guerreira, alucinando-a, fazendo-a apertar descuidadamente o corpo de Gabrielle que se entregava cegamente... precisava dela, precisava senti-la, toma-la, ah! como era insuport�vel aquele desejo, tinha que unir-se � ela novamente... como a amava... entreabriu a boca encostando seus dentes e sua l�ngua na jugular macia da barda, sentindo seu cheiro chamando-a... quando levou um solavanco sendo puxada pelo dem�nio e erguida para o alto... ele podia voar... n�o reagiu, na verdade agradeceu aos deuses quando se deu conta do que estivera prestes a fazer... ainda ouviu o grito cortante da barda l� embaixo... �_ N������ooooooo!!!!!!!!...� e sentiu seu cora��o se partir definitivamente.  

 

 


 

 

Houve um tempo

em que seu olhar salvava meus dias

N�o havia relento

porque em qualquer lugar soprava aquela brisa

Bastava voc� estar olhando em mim.

Voc� sempre p�de ir embora.

Sempre soube que eu n�o iria te privar de sua rota.

Ver voc� partir nunca foi uma derrota

porque me sentiria contigo...

onde quer que fosse

qualquer que fosse

quem quer que fosse o seu abrigo.

Mas eu descobri ser mais seguro para n�s duas

deixar voc� olhando em volta, procurando por n�s duas

Eu n�o podia lhe pedir para voltar...

Eu n�o podia voltar...

e sua aus�ncia agora n�o faz de mim uma derrotada mas a pr�pria derrota.

 

 

 

 

 

 

 

Gabrielle tinha alguma consci�ncia do que havia acontecido... Lestat a tinha dado, s� n�o sabia por qu�. Levantou-se, pegou o chakram que Xena havia deixado para tr�s, montou em Argo e partiu � procura do poderoso Cronos, o Deus do tempo. Chegando em seu templo, localiza��o que poucos conheciam, chamou por ele com voz firme...

 

_ Apare�a Cronos...

 

O Deus n�o respondera... mas Gabrielle sentia-o muito perto... lembrou-se de Xena, entendia agora o que ela dizia sobre sentir uma presen�a. Sentia a f�ria tomando conta de sua alma...

 

_ Vamos Cronos, apare�a... Sua voz sa�ra apertada, entre os dentes... _ se n�o vier falar comigo tornarei sua vida imortal um inferno, viva ou morta! Gritou a barda, quase rosnando.

 

A Rainha das Amazonas ouviu ent�o um riso m�rbido, digno de um Deus s�rio, o que ela pensava ser Cronos.

 

- Estou curioso para saber como faria isso minha jovem... disse o Deus surgindo � sua frente. Ele era s�brio, tanto na voz quanto nas palavras, no olhar e na apar�ncia. N�o era bonito, mas muito elegante e atraente.

_ N�o duvide Cronos, n�o sabe do que posso ser capaz quando ferida no ponto certo!

- Engano seu... eu sei muito bem do que � capaz... s� n�o acredito que haja alguma coisa que possa fazer contra mim...

_ Com que prop�sito interferiu no tempo trazendo o dem�nio do futuro para levar Xena, ela nem ao menos � sua inimiga, para qu�? Por qu� t�o longe?  Sua voz fraquejava, queria chorar, implorar...

- O tempo � bastante relativo Gabrielle, para mim ele n�o passa nem p�ra, as dimens�es e as �pocas coexistem dentro de mim, eu sou o tempo... sou ontem, hoje e amanh� num mesmo segundo - acha mesmo que pode fazer-me algum mall?

_ Traga-a de volta Cronos...

- N�o posso...

_ Leve-me at� ela ent�o!

- Posso compreender sua agonia mas n�o pretendo mudar as coisas.

_ Voc� j� mudou as coisas e quero saber por qu�! Retomou sua voz de guerreira. _ O que ganhou com isso Deus?

-  Eu, nada... mas Afrodite...

_ Afrodite? sabe que Afrodite � uma Deusa inconsequente... porque sucumbir ela?

- Ela tem seus pr�prios meios...

_ Mas o que ela pode ter ganhado com isso?

- Ela quer voc�...

_ AH!! ela me quer, pois ela vai ter! Dizendo isso saiu pela porta do templo atr�s de Afrodite.

 

Gabrielle estava determinada e iria ao fim do mundo para conseguir o que queria. Viajou incansavelmente por cinco luas at� chegar ao templo de Afrodite. Sabia de sua impot�ncia diante dos Deuses mas encontraria um meio... encontraria sim!

 

_ Afrodite!!! Berrou a barda...

- Ora, ora se n�o � a doce Gabrielle... Disse a Deusa surgindo atr�s da pequena guerreira, olhando-a com um ar de desejo e cinismo.

_ Doce uma ova! n�o consigo imaginar o que pretende nessa sua cabe�a doentia mas se � a mim que voc� quer ent�o � a mim que ter�... ter� o pior que posso ser Deusa se n�o trouxer Xena de volta! vou infernizar tanto a sua vida in�til que lhe restar� me matar ou fazer o que quero... v�? me perder� de uma forma ou de outra.

- Mas que criaturinha desaforada... n�o sabe seu lugar mortal? Disse a Deusa mudando totalmente de express�o.

_ N�o sabe o seu, f�til Deusa do amor? Gabrielle estava furiosa...

- N�o preciso de voc� bardazinha... queria apenas um pouco de distra��o... o que pensou, que era importante para mim? oh, por favor... n�o quer ficar? v� ent�o para a sua vidinha sem sua querida Xena; acha minha vida in�til? pelo menos tenho poderes para moviment�-la, amanh� encontro algo melhor para me divertir, fa�o isso h� s�culos... mas e voc� pobre mortal, o que tem? posso n�o ter voc� mas consegui separ�-las, n�o diziam ser imposs�vel? al�m do mais, n�o imagina como me sinto recompensada por t�-la castigado, garota insolente! ah! a prop�sito, n�o tente infernizar minha vida... n�o vou mat�-la pois n�o � da minha natureza, mas posso facilmente encontrar algu�m que o fa�a... E sumiu.

 

Gabrielle encostou suas costas na parede e escorregou at� o ch�o, encolhendo suas pernas e escondendo a cabe�a entre os bra�os que abra�avam os joelhos, e come�ou a chorar. Sentia-se impotente, n�o iria desistir mas precisava chorar um pouco, aliviar a dor por alguns instantes. Pensava em procurar Cronos novamente, descobrir um ponto fraco... foi quando sentiu uma m�o suave acariciar seus cabelos... levantou a cabe�a e viu o jovem e belo filho de Deusa Afrodite, olhando-a com compaix�o... era Cupido. Ele segurou suas m�os e levantou-a.

 

_ Por favor... me ajude... Disse a barda entre solu�os, enxugando suas l�grimas com as m�os.

- Como poderia Gabrielle?

_ Me diga... como Afrodite convenceu Cronos a fazer isso?

- Ela o chantagiou...

_ Como?

- Cronos tem uma amante mortal que vive em Tr�ia e se chama Mariel, � uma criatura doce e justa que se apaixonou pelo Deus do Tempo e espera um filho dele... Zeus n�o sabe disso e apesar de ter um filho com uma mortal n�o ser� tolerante diante da desobedi�ncia de Cronos em quebrar essa regra e o castigar�, ou pior, castigar� Mariel e seu filho.

_ Ent�o � isso! claro! vou amea��-lo da mesma maneira...

- N�o vai funcionar Gabrielle, Zeus n�o pode ser encontrado pelos mortais como os outros deuses; n�o h� um templo ou casa onde possa falar-lhe, e Cronos sabe disso...

_ Posso dizer-lhe que pedirei a H�rcules que o fa�a para mim...

- Sabe t�o bem quanto ele que H�rcules n�o faria isso, ele � �tico demais.

_ Ent�o vou mat�-la... O olhar da barda escurecera...

- Voc� realmente faria isso Gabrielle?

 

A barda apenas fitou-o, n�o precisava responder.

 

- N�o acha incoerente lutar por seu amor matando outro, logo voc� que luta tanto por justi�a?

_ N�o h� coer�ncia alguma em minha vida agora Cupido, por qu� ser justa se fa�o parte de um jogo irrespons�vel de Deuses que n�o se preocupam com nada al�m de alegrar suas vidas f�teis, mesmo que isso custe a felicidade ou at� a vida de alguns m�seros mortais; que coer�ncia pode haver numa vida que � destru�da pelo capricho de uma Deusa insana? � at� compreens�vel tantos deuses loucos posto que s�o comandados por um Zeus injusto e fanfarr�o.

- Cuidado com o que diz Gabrielle...

_ Cuidado com o qu� Cupido? cuidado para qu�, o que posso temer agora? o que adiantou perdoar e respeitar a vida, a morte, os Deuses... olhe como fui recompensada... vivo lutando por justi�a com o mundo, com a pessoa que amo, comigo mesma... que mal fiz para ver meu amor, minha metade, minha vida sendo arrancada daquela maneira? pode imaginar meu desespero ao ver aquela dor nos olhos mortos de Xena? ela sempre p�de e fez alguma coisa para me salvar, eu n�o pude fazer nada por ela... al�m do mais, j� sujei minhas m�os de sangue uma vez, posso sujar de novo, a diferen�a � que agora � por uma boa causa. O jovem Deus sentia-se culpado, por ter-lhe contado sobre Mariel e por saber ser verdade boa parte do que falara sobre os deuses.

- N�o posso permitir que a mate barda...

_ N�o quero faz�-lo Cupido... mas n�o vejo outra forma...

- Tente o blefe.

_ Sobre matar a amante?

- N�o, diga a Cronos que eu a ajudarei intervindo entre voc� e Zeus.

�_ Faria isso?

- N�o... mas posso confirmar sua hist�ria. Dizendo isso Cupido retirou uma pena de suas asas e colocou-a nas m�os da barda que entendeu e agradeceu ao jovem Deus, saindo em dire��o ao templo de Cronos.

 

_ Ol� Cronos... tenho novidades... Disse a barda estudando o sal�o vazio... sentiu-o.

- Hum... estou curioso jovem... E surgiu � sua frente. �Os Deuses s�rios sempre chegavam pela frente� pensou a barda.

_ Agora sei sobre Mariel.

- E?

_ Lan�o-lhe a mesma chantagem usada por Afrodite... quero Xena de volta, contarei a Zeus sobre seu filho com uma mortal caso n�o o fa�a. Sua voz e express�o eram muito duras.

- E posso saber como faria isso, como falaria com Zeus?

_ Cupido est� comigo e interceder� por mim. Falou a jovem mostrando a pena.

- E por que o jovem Deus iria querer interferir?

_ Porque acredita no amor.

- Se esse � o caso, o meu caso tamb�m se trata de amor, n�o vejo diferen�a, apenas protegi os meus.

_ Se voc� p�de interferir em minha vida arrancando meu amor de mim, porque eu n�o poderia fazer o mesmo? foi o que ele me disse, seria justo.

- N�o acredito que Cupido venha a se intrometer nesse assunto... muito bem Rainha das Amazonas, farei o que me pede, mas fique ciente de que n�o o farei por me sentir pressionado mas por ser complacente e perceber seu esfor�o e desespero... - A barda soltou um grito de al�vio... - mas tem uma coisa, n�o trarei a Princeesa Guerreira de volta, fiz um trato com Lestat e n�o voltarei atr�s... voc� ir� ao seu encontro numa terra estranha, num tempo inimagin�vel para voc�, e estar� sozinha... n�o poder� se arrepender nem voltar, est� preparada?... acha mesmo que seu amor pela guerreira � capaz de suportar tudo isso?

�_ N�o faz id�ia do que o meu amor por Xena � capaz de suportar Deus do Tempo.

- Pois muito bem...

 

 

_ Fran�a, 1998_

 

Gabrielle sentia dores por todo o corpo enquanto recobrava a consci�ncia depois do que parecia ter sido um sono de dias sobre rochas salientes... via muitas tochas ao seu redor, sua vis�o estava turva e tentava se acostumar com a claridade... gradativamente foi percebendo que n�o eram tochas, ou pelo menos n�o eram tochas feitas de fogo. Levantou-se do ch�o, que n�o era de terra... era todo coberto de uma pedra lisa pintada de verde e percebeu que se encontrava no que parecia ser uma pequena clareira entre um emaranhado de enormes torres e castelos, muito diferentes dos do seu tempo � claro, mas reconheceu-os como moradias. O ar era pesado, dif�cil de respirar e havia um barulho insuport�vel ao longe, pareciam o ronco de dezenas de gigantes ao mesmo tempo. Come�ou a andar para sair daquele lugar que estava todo cercado por correntes finas entrela�adas. Pulou a cerca de arame e entrou num beco at� sair do outro lado. Deu um salto para traz de susto ao ver os carros que passavam em alta velocidade... como podiam se movimentar sozinhos, sem nada para pux�-los? Era tudo incrivelmente novo, luzes brilhantes reluziam, pessoas andavam freneticamente de um lado para outro... eram tantas... parecia que o resto do mundo havia se mudado para um s� vilarejo. Suas roupas eram estranhas... algumas feitas de borracha, outras de couro, e outras de tecidos que n�o conseguia identificar... algumas pessoas se vestiam como o dem�nio que levara Xena... queria que estivesse ali, descobrindo aquilo tudo junto com ela... seria divertido... a barda sentia-se excitada com tanta novidade mas a euforia n�o vencia sua solid�o. Tentou ver o c�u, procurar as estrelas, ter alguma refer�ncia de seu tempo... mas as enormes constru��es de pedra lisa erguiam-se monstruosamente sobre ela e o pedacinho do c�u que ainda estava � mostra parecia turvo, escuro... ser� que haviam destru�do as estrelas? Sentia frio e fome, era uma terra gelada, precisava procurar um abrigo e algo para matar sua fome... saiu andando procurando uma �rvore frut�fera, um rio ou qualquer coisa que pudesse comer... iria descobrir que sobreviver nesse tempo n�o era algo t�o elementar quanto nos tempos b�rbaros...

 

Gabrielle vagou dias � procura de algo que lhe desse uma pista de sua amada, passou fome e frio, muito frio... conheceu pessoas maltrapilhas e fedorentas que como ela dormiam ao relento... estava acostumada com o relento mas esse era diferente, era um relento dolorido que trazia sensa��o de absoluto abandono... tivera contato com algumas pessoas daquele tempo, pessoas caridosas, de quem ganhara cobertor e comida, e pessoas violentas e mal educadas, mas esses contatos eram sempre fugazes e jamais perguntara pelos dem�nios, sabia que seria in�til, Lestat havia lhe dado essa consci�ncia, e de qualquer forma ainda tinha dificuldade em se comunicar naquela l�ngua. Conheceu televis�o, adorou diga-se de passagem, avi�es, embarca��es movidas a motor, armas de fogo poderosas - pensou em Afrodite - eletricidade... era tudo muito fant�stico e muito novo mas reconhecia aquele s�culo como se tivesse sonhado com ele, e esquecido como na maioria das vezes acontecia com os sonhos quando despertava, mas quando estimulado, voltava � mente em v�rios fragmentos; era como se no primeiro minuto de contato aquelas coisas fossem inacredit�veis, magia mesmo, por�m, imediatamente depois as reconhecesse de alguma forma. Comia o que lhe davam ou o que roubava em escassas �rvores que descobrira serem em sua maioria particulares... aprendera que poderia ganhar dinheiro escrevendo poesias, mas n�o poderia vend�-las como faziam alguns chamados �vagabundos� pois quase n�o sabia escrever na l�ngua deles, Lestat n�o lhe dera essa consci�ncia, pelo menos n�o em sua totalidade... passava os dias procurando; levava consigo apenas um cobertor e o chakram de Xena, sempre escondido dentro de suas roupas cada vez mais surradas... at� que num daqueles fragmentos de consci�ncia percebera que n�o era de dia que devia procurar, claro! os dem�nios vagavam � noite, n�o de dia... precisava procur�-los em lugares ermos, escuros e sombrios, sim, compreendia agora... n�o procurou naquele dia, apenas esperou, sentada � beira de um rio asfaltado e mal cheiroso, o c�u escurecer... ali era um do poucos lugares que conhecia para ver as estrelas, elas eram t�midas e escassas, mas as encontrara. Quando escureceu, levantou-se e come�ou sua ca�a particular aos dem�nios... percorreu os lugares mais sombrios e perigosos, e tivera que lutar com um ladr�o que queria roubar-lhe sabe-se l� o qu�... quando j� era madrugada e o sol n�o se demorava a aparecer, viu em um beco escuro uma criatura muito branca, bem vestida, seus cabelos negros cuidadosamente penteados, n�o era muito alto e olhava para ela... era um deles, tinha certeza. Tinha algo em suas m�os... era um homem... ele o segurava pela gola de seu casaco quando jogou-o aos p�s de Gabrielle que reconheceu-o, era o ladr�o que tentara roub�-la. Olhou a criatura novamente, ela se virava e preparava-se para partir...

 

_ Espere! Gritou Gabrielle que saiu correndo atr�s do monstro... tarde demais, ele sumira.

 

Estava confusa, tentava imaginar o que aquilo significava enquanto voltava para o pr�dio abandonado onde dormia agora... voltaria na pr�xima noite �quele beco e esperaria o dem�nio.

 

Ela dormira o dia todo e estava faminta quando o sol se preparava para se retirar... passou por uma padaria onde um simp�tico senhor gordinho sempre lhe dava um p�o com alguma coisa dentro, nunca identificara o que era aquilo... mas era bom. Dirigiu-se ao beco da noite anterior e sentou-se para devorar seu desjejum. Esperou a noite inteira... aquela e duas outras... na terceira noite sentira a presen�a do sobrenatural e levantou-se num salto, pondo-se alerta. O monstro, numa atitude extraordinariamente r�pida, pulou sobre a jovem e segurou seu pesco�o... quando sentiu os dentes afiados do dem�nio encostando em sua jugular Gabrielle, sendo estrangulada pelas m�os frias e fortes do vampiro, sussurrou o nome �Lestat de Lioncourt�. O vampiro interrompeu o ato imediatamente e fitou a jovem, soltando seu pesco�o.

 

- O que disse? Perguntou o vampiro espantado.

_ Eu disse Lestat! sabe onde posso encontr�-lo? Falou a barda massageando seu pesco�o com as m�os. Aquele dem�nio de olhos castanhos era quase t�o lindo quanto Lestat, talvez a escurid�o tornasse as pessoas mais belas, talvez fossem recompensados pela beleza j� que viviam nas trevas. N�o sentia medo dele, confiava naquele dem�nio, talvez por culpa de algum fragmento de consci�ncia.

- Quem � voc� jovem, e porque procura por Lestat?

_ Meu nome � Gabrielle... procuro-o porque tem algo que me pertence... e voc�, como � seu nome?

 

O Vampiro gostara da jovem, era sincera e deliciosamente teimosa, sem contar que pretendia enfrentar Lestat, e por mais incr�vel que pudesse parecer sentia que ela poderia ser capaz, isso era realmente inusitado, divertido, adorou a id�ia. Sua simpatia pela crian�a dera-se desde a primeira vez que a vira e pensara ser mais uma ca�adora de aventuras, algumas almas perdidas muito comuns naquele tempo: acreditavam nos vampiros - culpa de Lestat - e procurava-os para implorar que as transformassem. Geralmente eram mortas pelos dem�nios, mas aquela ele n�o queria matar, por isso jogara aquele homem aos seus p�s para dar-lhe um aviso, mas como ela insistira perdera a paci�ncia, mesmo porque o sangue daquelas jovens era t�o doce... n�o conseguira resistir.

 

- Me chamo Armand, venha comigo... Dizendo isso, segurou a jovem pela cintura e come�ou a andar e saltar rapidamente sobre os telhados da cidade at� chegar uma casa grande e bonita que se erguia entre  um denso jardim, de �rvores altas e corpulentas. Ele tinha muitos carros, era muito habilidoso com o dinheiro, adorava o conforto mas gostava de esgueirar-se nas sombras da cidade para se alimentar � moda antiga. Entraram pela porta da frente, num sal�o luxuoso... tudo reluzia, parecia ser de ouro aquele lugar... a barda nunca havia imaginado nada igual... nem mesmo os pal�cios que conhecera em seu tempo eram t�o luxuosos, e ficou deslumbrada com a casa do dem�nio.

_ Uau! Soltou Gabrielle.

- Quer tomar um banho?

_ Bem quentinho? Ah, adoraria!

- Vou sair um pouco, estou com muita fome...

_ Eu tamb�m, traga um pouco para mim... disse a jovem sorrindo.

 

Armand riu da inoc�ncia naquela frase... ele n�o sabia, mas n�o havia inoc�ncia nenhuma naquela frase, ela estava brincando... tinha a consci�ncia dada por Lestat e sabia exatamente qual seria seu banquete.

 

- Pierre cuidar� de voc� minha pequena... Disse o vampiro olhando para um senhor grisalho vestido de preto e branco que se encontrava num canto da sala.

 

- Por aqui madame... disse o mordomo gentilmente guiando a jovem para as escadas.

 

Quando Armand chegou a jovem j� havia tomado banho e jantado, e agora vasculhava sua biblioteca fascinada... vestia um roup�o branco de algod�o e tinha seus cabelos molhados... ainda bem que j� havia se alimentado...

 

- Podemos conversar agora meu bem... disse o vampiro mostrando-lhe uma poltrona em frente � que estava sentado.

 

Era tudo t�o confort�vel... acabaria ficando muito mal acostumada.

 

- O que Lestat tem que lhe pertence?

_ Xena.

- A b�rbara que aquele louco trouxe do passado??? Disse o vampiro surpreso.

 

O cora��o de Gabrielle parecia querer saltar de seu peito... pulou da poltrona e parou de joelhos em frente ao monstro segurando-lhe as pernas.

 

_ Voc� a conheceu? onde eles est�o? como ela est�?

- Sim... viajaram para a Am�rica... morta...

_ Am�rica? morta?

- A Am�rica � um continente desconhecido para voc� pequena, e morta � um modo de dizer... ela est� morta, como eu estou morto, como todas as criaturas das trevas est�o mortas... apesar de ach�-la ainda mais morta que seu pr�prio corpo... ent�o � voc� o motivo da tristeza da b�rbara vampira? como conseguiu viajar no tempo para vir atr�s dela?

_ Essa � uma longa hist�ria meu amigo e n�o tenho tempo para cont�-la agora; diga-me como fa�o para chegar tal Am�rica, e como fa�o para encontr�-los l�...

- Eu vou ajud�-la querida - Disse o monstro levantando-se - vou lhe dar dinheiro, roupas e um endeere�o onde poder� procurar por sua amiga... e n�o precisa ter medo pois duvido muito que sua Guerreira deixe algu�m lhe fazer algum mal... nem mesmo Lestat... ele sabe que n�o pode controlar o poder da aberra��o que criou caso ela queira us�-lo... - Disse o vampiro para a jovem sorridente � sua frente - mas em troca ficar� aqui essa noite e me contar� essa hist�ria sim, preciso saber... al�m do mais, voc� tamb�m precisa saber muitas coisas se quer sobreviver.

 

Quando a barda desembarcou do avi�o no aeroporto de New Orleans parecia uma aut�ntica adolescente do s�culo XX, a n�o ser pelo pavor estampado em seu rosto quando foi a primeira a sair do avi�o, estava t�o apavorada que escorregara nas escadas batendo o traseiro nos quatro �ltimos degraus. Vestia uma �inc�moda� cal�a Jeans, uma blusa branca de malha, um sobretudo de camur�a preto e t�nis; levava tamb�m uma bolsa de lona marrom onde carregava dinheiro, o chakram e um pacote de biscoitos, ah! adorava aqueles biscoitos recheados. Procurou um t�xi, como havia sido orientada por Armand, e entregou-lhe o endere�o que estava escrito num pequeno peda�o de papel, ali�s gostara muito daquele tipo de papel macio e das canetas coloridas daquele tempo. Aquele lugar e aquela linguagem j� n�o lhe pareciam t�o estranhos, seus �fragmentos de consci�ncia� estavam cada vez mais n�tidos, pensava que talvez as informa��es passadas por Armand os houvesse estimulado. Chegara a uma velha casa em ru�nas e pediu que o mal humorado motorista a esperasse. Vasculhou a constru��o com os olhos, do lado de fora... n�o precisava entrar para saber que n�o havia nenhuma �presen�a� ali... entrou no carro novamente e entregou outro endere�o ao homem... pensou em como seria divertido dar nomes �s trilhas e n�meros �s cabanas, constru��es e castelos de seu tempo... �O templo de Afrodite? ah sim... fica no final da Rua das Cobras, na Pra�a dos in�teis em frente ao Rio das Pe�onhentas, n� 000...� como odiava aquela mulher... Chegaram em frente a um bar fechado, muito moderno e luxuoso que se chamava �As F�rias�... Gabrielle riu e balan�ou a cabe�a naquele movimento peculiar, quando parece estar querendo organizar os miolos... pagou, saiu do carro e entrou num caf� pr�ximo ao bar, onde pediu um peixe para comer e lhe trouxeram um sandu�che de peixe empanado... ficou esperando anoitecer sentada em uma poltrona vermelha, com os cotovelos apoiados na mesa que ficava em frente a uma parede de vidro de onde poderia ver o movimento na rua.

 

Pensou em como as pessoas n�o haviam mudado; o mundo mudara mas as pessoas continuavam as mesmas... ainda haviam os tiranos, os ambiciosos, os b�rbaros... haviam batalhas absurdamente mais sangrentas, maldades ainda mais imorais, busca inescrupulosa por poder e riqueza... estava decepcionada, achava que com o tempo os seres humanos perceberiam seus erros e evoluiriam tornando o mundo um lugar melhor para se viver... os temas haviam mudado, os meios haviam mudado, a terra havia mudado e o homem continuava o mesmo. Mas haviam tamb�m os her�is daquele tempo, os que lutavam por justi�a, pela natureza, pelos exclu�dos, contra a maldade requintada daquele tempo. Tamb�m haviam os poetas, os ut�picos, os sonhadores que acreditavam no ser humano e na �cura� que estaria no futuro, queria dizer aos seus �colegas� que n�o, mas percebia que se eles soubessem disso as coisas estariam piores. Queria acreditar que ao saber disso lutaria ainda mais contra o mal quando voltasse para casa, se voltasse, achando n�o ter sido suficiente o que fizera at� hoje... mas sabia que jamais seria a mesma... ela havia mudado, suas ambi��es transformavam-se cada vez mais em sonhos distantes... seus deuses n�o eram t�o poderosos assim pois haviam desaparecido totalmente, restando para a humanidade adorar est�tuas frias e deuses feitos apenas de cren�a, que nada faziam, nada mudavam, n�o aconselhavam, atrapalhavam ou ajudavam... neste tempo, a verdade dela se chamava mito. O homem havia inventado um mundo confort�vel e fren�tico para compensar sua pr�pria est�tica espiritual, enquanto que o ar era desconfort�vel, a comida era sem gosto e a paix�o, boa ou ruim, era fr�gil e desmotivada... por isso gostava tanto daquela caixinha de sonhos que se chamava TV, a fantasia daquele tempo era o que mais se aproximava da realidade de seu tempo... queria saber quem inventava aquilo, talvez fossem viajantes do tempo assim como ela.

 

A noite ca�ra e o bar que se chamava �As F�rias� estava abrindo suas portas... pagou a conta e dirigiu-se a ele... sentou-se em uma mesa, pediu uma bebida que se parecia com o vinho de seu tempo e esperou at� que um deles entrou... levantou-se imediatamente, dirigiu-se a ele e disse:

 

_ Procuro Lestat...

- Quem � voc�? Perguntou o dem�nio estudando a mente da jovem.

_ Gabrielle...

- N�o procura Lestat, n�o � mesmo? procura por Xena...

_ Sabe onde encontr�-la?

- Sim e n�o... chegou atrasada jovem, eles partiram ontem � noite...

 

�... l� vamos n�s de novo...� pensou Gabrielle antes de entrar na aeronave. S� entrava naquilo porque sabia que era infinitamente mais r�pido num tempo em que as dist�ncias eram enormes... haviam finalmente povoado todo o planeta. O vampiro lhe informara que estariam numa cidade chamada �Rio de Janeiro� mas n�o sabia onde encontr�-los... ele diria se soubesse... era f�cil tirar informa��es sobre o paradeiro do vampiro Lestat, parecia haver uma conspira��o para que os encontrasse. Seu traseiro ainda n�o havia se curado da �ltima pancada quando ca�ra nas escadas do avi�o de novo, n�o conseguia se conter... n�o conseguia admitir que aquele tro�o pesado ficasse suspenso no ar... definitivamente! Nem mesmo a mega est�tua do �Cristo Redentor� ou a bela �Ba�a da Guanabara� pela janela a distra�ra, achou tudo muito bonitinho mas queria mesmo era descer.

 

Estudava o lugar pela janela do carro... era uma cidade quente, em todos os sentidos, gostou daquele lugar... as pessoas pareciam mais apaixonadas e pulsantes e cultivavam um pouco mais a �fantasia�; se divertiam apinhando as margens do oceano, banhando-se e brincando com jogos que lhe pareciam muito divertidos. Corriam de um lado para o outro descompromissadamente, talvez fosse o calor que agitava seus �sucos� e os excitava daquela forma, haja visto que os �ltimos lugares que conhecera eram gelados, ouviu em algum lugar que as pessoas eram mais felizes em pa�ses tropicais e que o c�u cinzento causava uma sensa��o de nostalgia em seres humanos. Livrou-se rapidamente do casaco quando sentiu o sol queimar suas costas enquanto o motorista a levava um lugar para dormir atendendo �s suas especifica��es; estava exausta... pagou dez di�rias e instalou-se num hotel bastante confort�vel que ficava numa rua muito movimentada � beira mar... por isso o escolhera, adorava o mar, de longe � claro... dava-lhe impress�o de estar perto de casa... ficou num quarto muito alto, tomou um banho para refrescar-se - quisera ela saber o que era ar-condiciionado - e deitou-se na cama macia em frente � janela que dava para a praia... adormeceu olhando-a e sonhando com o momento em que encontraria sua amada; ela estava ali... t�o perto...

 

Gabrielle acordou sentindo a deliciosa brisa mar�tima que invadia o quarto... abriu os olhos mas n�o se levantou, ficou ali parada, na mesma posi��o, enquanto se deslumbrava com o poderoso p�r do sol que tomava conta daquela janela de vidro... como se fosse uma vis�o encantada e n�o quisesse quebr�-la ao se levantar... ao final do espet�culo encaminhou-se em dire��o � janela aberta e viu a vida pulsante l� fora... aquela cidade parecia ainda mais linda � noite, as pessoas continuavam incans�veis l� embaixo, vivendo, pulsando, apaixonando... precisava encontrar Xena. Sabia que teria que procurar muito, nem fazia id�ia de onde come�ar... e adorava estar cal�ando aquele t�nis macio, mas definitivamente n�o aguentava mais cal�as jeans, precisava de algo mais confort�vel e por isso entrou numa loja reluzente e, ajudada por uma vendedora comprou uma cal�a larga, verde escuro e de c�s baixo, dessas da moda que ficam abaixo do umbigo e t�m bolsos nas pernas... e uma blusa justa de algod�o e gola em �v� branca com pequenas listas verdes nas mangas - �...� a sua cara meu bem...� disse a vendedora. Gabrielle achou a roupa bastante pr�tica e confort�vel, estava satisfeita e pediu mais uma pe�a de cada, faria muitos bolsos em suas saias quando voltasse para casa... seria muito bom voltar para casa... mas se tivesse que ficar, daria um jeito de se adaptar... contanto que estivesse com Xena, sem ela n�o havia lugar ou tempo no mundo onde realmente quisesse ficar, fosse em casa ou cinco mil anos antes ou depois.

 

Gabrielle perambulou pelas ruas do Rio a noite toda, viu pessoas bebendo, conversando e brigando; viu a fome, a mis�ria e o mal que tamb�m existia naquela cidade maravilhosa, assim como em Paris e New Orleans ou em seu tempo. Ouviu a m�sica barulhenta que sa�a de lugares coloridos e super iluminados, que piscavam no ritmo da m�sica; at� que gostava dela, divertia-se ao sentir seu cora��o trepidar... parecia uma felicidade artificial. Ali�s, a m�sica era uma coisa muito interessante, a jovem podia identificar v�rias l�nguas atrav�s dela, em todos os lugares em que estivera at� agora... parecia ser a �nica linguagem comum daquele tempo... a aurora invadia um c�u um pouco mais generoso em estrelas, o dia estava nascendo e n�o encontrara Xena esta noite... passou uma parte do dia sentada � beira da praia, numa enorme cal�ada em frente ao seu hotel que tinha nome de mulher... olhando para o mar pedia-lhe que lhe dissesse onde encontrar sua Princesa Guerreira... elegera-o como seu Deus pessoal, sentia-se menos sozinha dessa forma. A outra parte do dia descansara, agradecida ao generoso Armand pelo conforto, o que lhe restara para compensar sua tristeza...

 

Acordada novamente por aquele cheiro sensual do mar, Gabrielle retomou sua ronda noturna... precisava ach�-la logo, temia que viajassem novamente, e o dinheiro de Armand n�o era eterno como o dono... talvez Lestat estivesse mostrando o mundo Xena... e talvez ela estivesse se divertindo... eram tantas as novidades... e teria ao seu lado um dos dem�nios mais poderosos e belos do planeta para mostrar-lhe tudo, explicar-lhe o que n�o entendia... �, seria dif�cil ficar entediada em meio tantas descobertas... talvez at� tivesse aprendido a amar o monstro... sentiu seu peito apertar enquanto sua garganta do�a juntamente com a press�o das l�grimas que lutavam para sair... bem, teria que descobrir e a �nica forma era encontr�-la. N�o era muito tarde quando se deparou com os port�es de uma enorme floresta cercada que se impunha no meio da cidade... escalou-o e come�ou a andar por uma trilha de paralelep�pedos, quando foi abordada por um homem alto que segurou seu bra�o com for�a...

 

- Ei! voc� n�o deveria estar aqui gatinha...

_ Me solta! Puxou o bra�o e come�ou a correr...

 

O homem corria atr�s de Gabrielle que se embrenhava na mata, estava apavorada pois n�o havia ningu�m por perto...

 

_ Socorro!!!

 

Foi quando se sentiu sendo arrancada violentamente do ch�o, suspensa pela cintura, at� pousar no terra�o de um pr�dio muito alto. A barda virou-se para ver o ser que acabara de solt�-la... era ela... finalmente era ela... pelos Deuses! Como estava linda! Reluzia sua pele estupidamente branca, parte de seus cabelos presos, como sempre... ela estava realmente imponente, forte... se as trevas presenteava seus filhos com uma beleza imortal, no caso dela havia se excedido pois parecia ter preservado a beleza mortal daquele corpo apesar da rigidez de sua pele e da escurid�o de seus olhos... a vida parecia coexistir pacificamente com sua por��o sobrenatural. Vestia-se com profunda sobriedade e charme, usava uma cal�a bege de linho e uma blusa de chamoir marrom, com as mangas arrega�adas at� a metade dos bra�os... estava absolutamente deslumbrante... Gabrielle pensou que fosse desmaiar com a vis�o de seu �nico amor, ali parada � sua frente, olhando-a com aqueles olhos azuis escuros arregalados, como se visse um fantasma, uma assombra��o...

 

_ Gabrielle...? Soltou Xena num fio fr�gil de voz, inesperadamente contradit�rio com seu corpo tit�nico.

 

A Guerreira esticou vagarosamente o bra�o para tocar a face da barda, sentiu-o macio nas pontas de seus dedos maci�os... ergueu o outro bra�o e segurou-o entre suas m�os olhando a express�o fr�gil, cansada e deslumbrada de sua pequena barda... aquele olhar era puro amor e s�plica... puxou-a para um abra�o, e sentiu aquele corpo pequeno e quente, t�o conhecido, t�o amado... queria apert�-lo mas tinha medo de quebr�-lo... - �Gabrielle...� - � medida que repetia seu nome a voz de Xena estrangulava-se num choro contido, como se suplicasse desesperadamente que aquela vis�o fosse real e n�o um sonho... �Gabrielle...�

 

Gabrielle sentia seu corpo contra uma rocha, agora por�m viva, pulsante e quente... come�ou a chorar nos bra�os de sua Princesa... chorou todas as dores que estavam aprisionadas por sua determina��o... as duas permaneceram por um longo tempo assim... uma nos bra�os da outra... o universo poderia ruir naquele momento, nada mudaria aqueles minutos. Algum tempo depois a Guerreira afastou seu rosto e olhou-a com um amor desesperado nos olhos, como se ainda n�o acreditasse...

 

_ Mas como... ? N�o completou a frase, foi interrompida pela barda que tocara sua boca com os dedos e a beijara... como era doce e macia aquela boca...

_ Voc� est� t�o quente, t�o diferente da �ltima vez que... Falou a barda interrompendo o beijo.

 

Xena desviou o olhar fitando o ch�o... sentia-se envergonhada... acabara de se alimentar, era inevit�vel... Gabrielle entendeu e tocou sua face dizendo com voz doce:

 

_ Eu te amo Xena... e n�o sou muita coisa sem esse amor... n�o saia de perto de mim nunca mais tentando me poupar ou me proteger de qualquer coisa que seja... estar� sendo burra pois nada pode ser pior que ficar sem voc�... por favor, entenda isso!

 

A Guerreira jamais saberia expressar o que era ter Gabrielle ali, em seus bra�os... o cora��o que n�o pulsava mais explodia em seu peito... queria aquele mesmo minuto para o resto da eternidade. Mas era inevit�vel preocupar-se... as duas eram muito diferentes agora... eram o oposto: a morte e a vida... o anjo e o dem�nio; o perigo que sua crian�a corria ao seu lado, diante de sua fome, do seu desejo... mas n�o queria deix�-la, n�o, nunca mais.

 

_ Isso n�o vai acontecer... n�o se preocupe. Disse Xena.

_ O que vamos fazer agora?

_ N�o h� muito o que se fazer meu amor... infelizmente.

_ Entendo...

_ Vamos, voc� vai ficar comigo no casar�o.

_ Que casar�o?

_ � um lugar bastante confort�vel onde vivo com alguns... da minha esp�cie. Respondeu a Guerreira.

_ Inclusive Lestat?

_ Inclusive Lestat.

_ Fica de frente para o mar? Perguntou a barda com um frio na barriga por causa do monstro... como seria entre eles?

_ Sim, fica... esse seres sabem lidar com o dinheiro, � impressionante a riqueza que colecionam.

_ �... sei disso.

_ Onde conseguiu essas roupas? Perguntou a Guerreira.

_ O que foi, n�o gostou?

_Adorei, s�o a sua cara.

_ �, j� ouvi isso... Sua princesa parecia totalmente adaptada �quele tempo... usava at� um rel�gio de pulso e um sapato de veludo... n�o tinha salto � l�gico, n�o aguentaria... ela estava realmente deslumbrante.

_ Segure-se em mim.

 


 

 

Dois corpos...

o frio... o quente

Dois olhos...

o c�u... o mar

O fogo do sangue

e o sangue do corpo

duas formas de amar...

O vivo e o morto

Um, o lado imaculado

outro, o mutilado

e ainda assim se reconhecem

como as duas partes do todo.

 

 

 

 

 

 

 

_ �Ora, ora, ora... mas n�o � que ela conseguiu? Disse o dem�nio com um risinho c�nico.

_ O que est� falando Lestat, sabia que ela viria? Perguntou Xena.

_ �N�o... mas sabia que tentaria. vejo que ainda n�o se banqueteou...�

_ Isso n�o vai acontecer! Esbravejou a Vampira... ele sorriu...

_ Ent�o toda aquela informa��o que me dera sobre todas aquelas coisas n�o foi casual, � isso? Perguntou Gabrielle � criatura das sombras... _ porque queria que eu viesse?

_ �N�o queria... mas gosto de desafios...�

_ Vamos subir Gabrielle, tem muito o que me contar... disse Xena.

_ �Cuidado com o sol, n�o v� se distrair b�rbara�... brincou Lestat.

 

As duas amantes subiram as escadas rumo ao andar superior. Entraram num quarto espa�oso e escuro... as cortinas eram de veludo vermelho, muito grossas... havia uma enorme cama no centro, em frente ela uma estante com uma televis�o em cima; haviam tamb�m duas poltronas muito confort�veis uma em cada lado da cama... o piso era de madeira lisa escura, super encerada... haviam mais duas portas al�m daquela por onde entraram... uma era do banheiro e ficava no canto direito da parede em frente � cama, e estava aberta, a outra estava fechada e ficava no canto esquerdo da mesma parede... Gabrielle se dirigiu ela e colocou a m�o na ma�aneta para abrir...

 

_ N�o Gabrielle... Pediu a vampira � barda que ficou olhando-a sem dizer nada e sem se afastar da porta, como se esperasse que mudasse de id�ia... _ Tudo bem, pode abrir...

 

A barda abriu a porta e se deparou com um corredor curto e estreito com um luxuoso caix�o no centro... n�o se espantou, j� imaginara que seria um caix�o... j� havia visto um daqueles na mans�o de Armand e em seus �fragmentos� tamb�m. Fechou a porta e virou-se para sua amada com um olhar doce.

 

_ N�o precisa ter vergonha de mim, o que se tornou e o que � s�o duas coisas muito diferentes, e eu sei bem quem voc� � Xena, e isso j� faz muito tempo.

_ Eu mudei muito Gabrielle...

_ N�o meu amor, voc� n�o mudou nada... Retirou o chakram de sua bolsa... _ isso lhe pertence.

 

Como era bom t�-la ali, era como sentir-se em paz no meio do inferno e em comunh�o com o dem�nio. Sentia-se perdoada e inocente.

 

_ Ent�o, conte-me como chegou aqui... se bem a conhe�o imagino que tenha infernizado a vida de muita gente... e provavelmente os venceu pelo cansa�o... pobre dos ouvidos de Cronos e Afrodite.

_ Quisera eu ter esse poder Xena, na verdade voc� n�o reconheceria em mim os m�todos que tive que usar... percebi que meu poder de persuas�o n�o funcionaria e por alguns instantes tive que me transformar no que n�o era para conseguir o que precisava, e meu castigo foi ver um lado em mim que antes n�o me permitia ver... mas antes de lhe contar, porque n�o vem comigo tomar um banho? voc� ainda toma banho n�o toma?

_ Sim, mas n�o preciso... Xena sentiu um calor na nuca, um calor inc�modo, agudo... olhou o rel�gio... era o sol, tinha que se recolher. _ preciso ir...

_ Tudo bem... boa noite meu amor...

_ Bom dia Gabrielle... E beijou a barda, afastando-se lentamente, desafiando o sol.

 

Na noite seguinte a barda foi apresentada aos �outros�... haviam cinco deles, al�m de Xena. Lestat, o monstro com quem travaria uma queda de bra�o di�ria; Louis, um doce e educado senhor das trevas; Daniel, que particularmente achara meio antip�tico no in�cio; o s�rio e compenetrado Marius, sempre lendo seu jornal ou jogando damas; e o poderoso Khayman, com quem passaria horas conversando sobre os tempos b�rbaros... ficara fascinada quando ele lhe contara sobre o �Cavalo de Tr�ia� e em como aquilo tudo havia se tornado hist�ria.

 

Os dias se seguiam assim... uma pequena fam�lia de dem�nios das trevas e uma jovem imaculada entre eles, totalmente adaptada aos seus costumes e hor�rios... dormia de dia e vivia � noite. Muitas vezes sa�a com eles para se divertir na noite quente do Rio de Janeiro... ia �queles lugares apinhados onde ouviam m�sica e dan�avam, gostava daquela sensa��o de fantasia que as luzes piscantes provocavam; gostava tamb�m dos est�dios cheios de gente, deleitava-se quando a multid�o explodia para gritar �gooolll!!�, n�o torcia para time algum, apenas escolhia o lado mais apinhado e ficava; sempre acompanhava Xena aos cinemas, ela adorava ver o sol, as batalhas em a�o e os deuses que eram mostrados naquela tela enorme, quase real... muitas vezes, no final da noite, ela levava sua amada para voar sobre o mar... n�o raro pousavam sobre a cabe�a do enorme Deus de pedra e ficavam conversando at� perto da hora do sol, olhando o mar... Gabrielle amava aquilo, vivia falando em como tinham que tirar proveito da situa��o, ver o lado bom; nenhum vampiro jovem conseguia voar... ali�s, muitos antigos tamb�m n�o, o caso dela � que havia sido transformada pelo poderoso Lestat, que agora carregava em si o sangue da �Rainha dos Condenados�, ele costumava dizer que sua pr�pria for�a b�rbara tamb�m contribu�ra, mas o caso era que o �presente das trevas� era diferente para cada um, e n�o seguia uma l�gica. Todos apreciavam muito a companhia da jovem amiga de Xena, at� mesmo Lestat que j� se desinteressara pela Guerreira, mas adorava provoc�-las; muitas vezes sentavam-se � mesa com a barda para lhe fazer companhia enquanto jantava, uma vez arrancara gargalhadas incontrol�veis nos monstros quando o s�rio Marius lhe disse que comia demais e depois perguntou se a torta doce estava gostosa, no que Gabrielle respondeu: �Prove� e enterrou-a em sua cabe�a; n�o tinha medo ou cuidados com os monstros... sim, ela trazia vida � �Casa da Morte�, fazia-os se sentir normais, uma grande fam�lia.  Nunca os vira ca�ando, quando a sua Princesa das Trevas �sumia�, Khayman ficava ao seu lado. Uma vez Lestat perguntara � barda se ela queria v�-lo ca�ando... Xena ficou furiosa e partiu para cima do Pr�ncipe das Trevas, levantando-o pelo pesco�o no meio de um bar... ele n�o parava de rir,  dava gargalhadas como se nada estivesse acontecendo, at� que ela o largou... Gabrielle percebeu que a Guerreira se sentia um tanto c�mplice do vampiro, parecia compreender sua prepot�ncia e rebeldia... n�o o amava, mas tamb�m n�o o odiava. Eles se passavam facilmente por pessoas normais, seus caninos eram discretos e vestiam roupas de manga comprida e golas altas �s vezes, e sempre que voltavam da ca�a pareciam mais corados, mais humanos. Havia uma coisa que Gabrielle admirava muito naqueles dem�nios; eles mantinham uma certa coer�ncia seletiva sobre suas v�timas... gigol�s, assassinos, ladr�es e traficantes; � sua maneira, e muito provavelmente nem percebiam por causa da culpa, estavam tentando mudar o mundo. Ouviu as hist�rias sobre os outros vampiros, falaram-lhe inclusive sobre Armand. � tardinha, enquanto esperava que os outros acordassem, dedicava-se a ler a �ltima estripulia de Lestat; o livro sobre Akasha, Enkil e todos os outros vampiros... �A Rainha dos Condenados�, o qual descaradamente assinara, mas, como n�o acreditavam em vampiros...

 

A noite estava agrad�vel, ouvia o vento balan�ar as folhas das �rvores no jardim... lia o livro deitada de barriga para baixo sobre a cama e estava mais ou menos na metade quando ouviu Xena acordar ... apenas levantou os olhos e esperou para v�-la surgir, cada dia mais linda, n�o se cansava daquele momento... ela se dirigiu � poltrona � sua frente e sentou-se, fitando a barda de uma maneira muito sensual, que a acompanhara com os olhos... Gabrielle se sentou e cruzou as pernas, apoiando os cotovelos nos pr�prios joelhos, se colocando de frente para ela. As duas olhavam-se profundamente, entravam dentro uma da outra...  um desejo doloroso e insuport�vel come�ou a tomar conta das duas amantes, cada uma � sua maneira;

 

Gabrielle queria toc�-la, senti-la, fazer seu corpo se entregar em suas m�os... ansiava ter o corpo da guerreira junto ao seu, sua boca, sua pele, seu sexo... queimava de desejo e paix�o, precisava desesperadamente daquela uni�o e complemento... sentia-se encharcar entre suas pernas apenas com aquele olhar faminto... estava suando, sentia o fogo crescendo por dentro e sua respira��o tornava-se cada vez mais ofegante...

 

O corpo da Guerreira tremia veemente, seus olhos queimavam, sua alma molhada pulsava pedindo por Gabrielle, queria beber aquele sangue, tomar sua alma, e dar-lhe o seu sangue e a sua alma; tom�-la e entregar-se � ela... precisava sair dali, seu desejo estava se tornando incontrol�vel...

 

_ Preciso sair... Disse levantando-se da poltrona num salto. Sentia pena do infeliz que cruzasse seu caminho naquela noite... sua fome era tanta que poderia estra�alhar qualquer corpo mortal.

_ Eu vou com voc�... Retrucou Gabrielle levantando-se da cama.

_ N�o Gabrielle, por favor... n�o vou demorar. Seu olhar implorava... a barda n�o teve coragem de insistir e viu seu amor sair pela janela.

 

Quando voltou tinha novamente aquele ar vivo... quente. A barda tentava n�o pensar no que ela havia acabado de fazer... mas era dif�cil.

 

_ N�o posso evitar Gabrielle...

 

A barda se dirigiu at� ela e beijou-a. Sentiu sua boca um pouco mais macia e quente agora. Sorria gentilmente e realmente n�o a culpava, levou-a para a cama e sentou-se � sua frente. N�o conseguia esquecer e n�o resistiria � pergunta.

 

_ Como � ca�ar?

_ Precisamos mesmo falar sobre isso?

_ Sim, n�s precisamos Xena... noite ap�s noite eu olho para voc� e vejo o desejo lhe queimando... me excito quando a vejo me desejando, e toda vez que isso acontece sai correndo pela janela, me deixando aqui sozinha, louca por voc�... quando volta, volta assim, calma, compreensiva... me sinto tra�da, abandonada... o que h�? n�o tem vontade de fazer amor comigo? n�o deseja meu corpo? sente apenas essa maldita fome?

 

A barda estava inconsol�vel. Xena segurou seu pequenino e fr�gil rosto mortal entre suas m�os, e com uma express�o muito triste olhou profundamente em seus olhos e come�ou a falar.

 

_ N�o Gabrielle, est� errada... desejo-a muito, n�o pode imaginar a dor alucinante que isso causa em minha alma... esse � o ponto, tudo o que sinto... dor, desejo, amor; n�o sinto em meu corpo, sinto em minha alma... tenho uma casca dura e impenetr�vel no lugar de um corpo... n�o � ele quem deseja nem � ele quem explode de prazer... todas essas sensa��es sinto diretamente em minha alma, meu sexo � feito de alma e voc� n�o pode toc�-lo a n�o ser com sua alma e isso s� aconteceria se eu a bebesse e me desse para voc� beber... compreende isso meu amor? quero muito me deitar com voc� e sentir seu corpo nu estremecer em minhas m�os, isso me daria muito prazer... mas n�o posso me arriscar pois meu prazer s� seria libertado por seu sangue, sua vida... o amor � inconsequente e incontrol�vel, e eu a amo demais para apostar que vou conseguir controlar minha vontade.

_ Ent�o me transforme Xena... n�o suporto mais essa dist�ncia, essa diferen�a. A vampira levantou-se da cama abruptamente e lan�ou-lhe um olhar muito duro.

_ Isso n�o, nunca! voc� n�o sabe o que est� dizendo Gabrielle, n�o sabe o que � ser um �condenado�, um dem�nio fadado a viver na escurid�o e obrigado a matar para sobreviver... n�o poder ver o sol, ter que ouvir o mal quil�metros de dist�ncia... n�o sabe o que � viver aprisionada a um corpo morto... eu sou um zumbi Gabrielle, n�o percebe? a diferen�a � que n�o estou caindo aos peda�os, o sangue que bebo faz com que isso n�o aconte�a.

_ Eu n�o me importo... s� quero ficar com voc�, viver a mesma vida que vive, sentir como voc� sente,  pelos Deuses, me sinto sob o Feiti�o de �quila! (um filme que vira na tv).

_ Esque�a! Dizendo isso Xena abriu a porta do quarto e saiu.

 

(...)

 

Todos haviam sa�do a n�o ser Daniel... sim, aquele dem�nio seria perfeito, seria f�cil persuadi-lo. A jovem se aproximou do vampiro que jogava seu Playstation sentado em frente � Tv... seu olhar era sedutor; vestia uma blusa vermelha comprida, de gola cavada que deixava parte de seus seios � mostra. Ela estava um verdadeiro banquete. Abaixou-se em frente ao jovem vampiro e tirou-lhe o controle das m�os...

 

_ Voc� ainda n�o se alimentou n�o � querido? Disse com uma voz sedutora, provocando-o com seus dedos macios e quentes sobre a boca do pobre dem�nio... afinal, quem era a presa?

_ N�o...

_ Ent�o meu bem, porque n�o janta em casa hoje... ?

 

Daniel sabia que Xena provavelmente o mataria... mas era um jovem inconsequente e geralmente n�o conseguia controlar-se diante de sua impulsividade. Sentiu a garganta doce e pulsante da jovem ro�ando sua boca... entreabriu os dentes e enterrou-os na carne macia... quando sentiu a primeira gota de sangue queimar sua l�ngua foi arrancado com viol�ncia e jogado contra as paredes grossas da casa, atravessando-as e indo parar no �ltimo c�modo ao fundo. A guerreira furiosa come�ou a andar na dire��o dele... �, ela iria mat�-lo.

 

_ N�o Xena... n�o � justo, eu o provoquei!!! deixe-o em paz! Berrou Gabrielle. o monstro voltou-se para ela com o fogo do inferno nos olhos, abaixou-se e tapou os dois pequenos furos em seu pesco�o com os dedos, erguendo-a no colo com o outro bra�o.

_ O que pensa que est� fazendo Gabrielle? n�o insista nisso ou juro que vou acorrent�-la quando n�o estiver por perto.

_ Por qu� n�o posso decidir o que fazer da minha pr�pria vida??

_ Porqu� n�o sabe o que est� fazendo de sua pr�pria vida!!

 

 Xena sabia que poderia se controlar mas n�o conseguiria controlar a barda por muito tempo... tenha que fazer alguma coisa, n�o queria que Gabrielle se transformasse no que ela havia se tornado. Subiu para o quarto e pegou a bolsa de Gabrielle, estava determinada a procurar a �cura� para a sua maldi��o ou pelo menos afast�-la dos �outros� e sabia que n�o conseguiria isso naquele tempo. Com a barda ainda um pouco fr�gil nos bra�os decidiu que iria para a Gr�cia, a terra de seus deuses, daria um jeito de voltar...

 

 


 

�... que n�o seja imortal posto que � chama;

mas que seja esterno enquanto dure.

Vin�cius de Moraes

 

 

 

 

 

Assim como o resto do mundo, sua terra estava muito diferente, mas mesmo assim se sentia um pouco mais perto de casa. Localizou o lugar onde deveria estar o templo de Cronos e come�ou a escavar a terra com suas pr�prias m�os, a barda estava impressionada, nenhuma m�quina daquele tempo seria t�o eficiente, em alguns minutos encontrou as ru�nas do templo e entrou, levando Gabrielle pelas m�os. Encontrou o altar e come�ou a preparar um ritual que aprendera h� muito tempo atr�s... sentia saudades da simplicidade de a��es e rea��es de seu tempo, estava cansada daquele mundo tenso, complicado e pesado.

 

_ Vamos Cronos... apare�a... eu preciso de voc�... Pediu a Guerreira.

 

Nenhuma resposta...

 

_ Sabe que me deve isso Deus... e sei que est� aqui...

 

Nada, s� o sil�ncio e a respira��o de sua amada ao seu lado... Ela se tomava de um profundo pavor diante de sua pr�pria f�... tinha que acreditar, s� lhe restava isso, mas estava longe de suas cren�as h� tanto tempo que come�ava a vacilar e duvidar. Travou ent�o uma batalha interna, lembrando-se de quem era e de onde viera e fez ent�o algo que jamais havia feito em sua vida... nem naquele tempo, nem em seu tempo... ajoelhou-se e suplicou...

 

_ Por favor Cronos, n�o me abandone... quando precisou de mim, fui sua guerreira e defendi Teu nome... eu preciso voltar, preciso salv�-la e sei que � um Deus benevolente... e sei tamb�m que ama algu�m por isso pode me entender... sou imortal agora e n�o pretendo engan�-lo, tentarei mudar isso, mas enquanto for assim coloco minha Morte e minha for�a � Tua disposi��o, mas leve-nos para casa, eu imploro...

 

A Guerreira sentiu tudo escurecer sua volta e desmaiou... quando acordou estava no meio da floresta... ah! a conhecida floresta, aquele cheiro, aquele ar frio da noite... tudo o que conhecia...

 

_ Gabrielle? Ela n�o estava ao seu lado... ficou apavorada... _Gabrielle!!! Gritou com todas as for�as... n�o podia admitir a possibilidade de sua barda n�o estar ali, se levantou e come�ou a gritar seu nome v�rias vezes... pensava em sua amada sozinha no futuro e em como seria infeliz sem ela, apenas com sua maldi��o. Pensou em esperar o sol, v�-lo pela �ltima vez, entregar-se ao seu castigo.

 

_ Ol� Xena... Disse Cronos suavemente surgindo � frente da Guerreira.

_ Onde est� Gabrielle Cronos...? Ela estava cansada e dolorida...

_ Preciso saber Guerreira... cumprir� sua promessa?

_ Nunca menti para voc� Deus, mas minha promessa n�o ter� nenhuma validade sem Gabrielle... onde ela est�!!? Gritou.

 

Cronos come�ou a desaparecer... dos feixes de luz que emanavam de seu corpo enquanto sumia come�ou a surgir a barda, materializando-se gradativamente. A guerreira correu para perto dela e levantou-a segurando-a em seus bra�os...

 

_ Pelos Deuses, que fome... sussurrou a barda abrindo os olhos...

 

Xena sorriu e apertou-a contra seu peito... quase esqueceu-se de sua for�a.

 

_ Ai!... vai com calma meu amor, sou de carne e osso lembra?

_ Desculpe Gabrielle... Disse, soltando-a envergonhada.

_ Eu disse para ir com calma, n�o para me soltar... E puxou-a pela gola da camisa do s�culo XX para beijar sua boca.

 

As duas caminhavam pela mata deleitando-se com cada pedacinho daquele lugar... o lugar delas, onde se sentiam seguras apesar de toda a barb�rie de seu tempo, mas era uma viol�ncia que conheciam e entendiam, sabiam como lidar com ela. Xena quase esquecia o que era, seu amor era sua reden��o e sua casa o seu perd�o... encontrava a paz t�o sonhada por seus semelhantes das trevas; pensava que talvez o segredo fosse o amor... o divino, o verdadeiro, o completo, o que a fizera preservar Gabrielle apesar de toda a ang�stia e solid�o, o que a fazia ter certeza de que era totalmente capaz de se controlar agora pois nada era mais importante que ver Gabrielle assim, imaculada, viva... esse era o segredo, n�o iria adiantar lev�-la para a escurid�o para lhe fazer companhia, para buscar cumplicidade ou para sentir-se mais perto dela se o que precisava era justamente desse elo entre a morte e a vida. Sentia-se bem, essa era a sua vaidade, ter entendido isso e portanto n�o ter a pior das culpas: matar seu pr�prio amor... preferia v�-la envelhecer e morrer, e guardar sua imagem assim, viva, para o resto de sua eternidade ou at� o dia em que escolhesse ver o sol.

 

Pararam no alto de uma colina e apreciaram a lua...

 

_ Ent�o, estamos em casa... acha que encontraremos uma forma de faze-la voltar ao normal? Perguntou Gabrielle.

_ Bem, estamos num tempo em que at� mesmo a morte � remedi�vel... existem poucas coisas imposs�veis aqui meu amor... A barda olhou-a e segurou em sua m�o.

_ Xena, me leve para voar...

 

A Princesa Guerreira colocou os bra�os de sua Gabrielle em torno de seu pesco�o, abra�ou-a e come�ou a subir... o c�u tomado por estrelas lembravam aquelas ruas apinhadas do futuro... a lua iluminava o rosto branco da Guerreira Imortal e de sua barda enquanto se olhavam profundamente nos olhos. Sentiam correntes el�tricas percorrendo seus corpos, entrando e saindo de uma para a outra, n�o era o �xtase mas uma sensa��o de �xtase, complemento e paz. Gabrielle suspirou e sorriu:

 

_ Eu poderia trocar um orgasmo por isso... Disse.

_ Eu tamb�m... mas n�o por muito tempo.

_ Tenho que concordar... sinto sua falta... gostosona! Retrucou Gabrielle olhando-a com uma express�o sapeca.

_ O que � isso?! onde anda aprendendo essas coisas fedelha?

_ Por a�...

_ Voc� conhece a hist�ria do elefante que ajudou o escorpi�o a atravessar um rio?

_ N�o... respondeu a barda curiosa.

_ O escorpi�o pediu ao elefante para ajud�-lo a atravessar um rio... o elefante disse-lhe que n�o pois o escorpi�o poderia pic�-lo, que por sua vez garantiu que n�o faria isso... sendo assim o grandalh�o concordou em ajud�-lo. No meio do rio ele sentiu uma fisgada nas costas, percebeu o que estava acontecendo e perguntou ao pe�onhento se estava louco pois agora iriam morrer os dois... o escorpi�o respondeu: me desculpe, mas n�o posso evitar... � de minha natureza...

_ Isso � uma amea�a?

_ Sim...

 

Gabrielle sorriu sabendo que sua Guerreira estava brincando... descansou sua cabe�a no peito da tit�, agradecendo aos deuses pela paz que sentia em sua Amada das Trevas.

 

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