- Desde a morte
de Xena, Gabrielle havia perdido o brilho dos olhos. Portando as cinzas
de Xena, logo após a despedida no Monte Fuji, partiu em direção
ao Egito, porém não conseguiu permanecer por lá mais
do que duas semanas, sempre vagando de um lugar para outro. A nítida
sensação de que Xena estava constantemente a seu lado foi
pouco a pouco se desfazendo pela dor da ausência física. Gabrielle decidiu
voltar para a Grécia, passou em quase todas as cidades, porém
não conseguia ficar no mesmo lugar por mais de dois ou três
dias. Havia se transformado num ser humano errante, em busca de algo que
sabia nunca encontrar. A lembrança de sua amada Xena não lhe
saía do pensamento nunca. Durante os dias buscava Xena na natureza,
nas florestas, nos pássaros, nas cachoeiras, no tropel dos cavalos
selvagens, no gorjeio dos pássaros, no cântico dos ventos.
À noite continuava sua busca na luz das estrelas, no reflexo da lua,
no pio das corujas, na escuridão das sombras. Quando conseguia conciliar
o sono sonhava com Xena, e estes eram seus momentos mais felizes. Quando
despertava seu coração tornava a doer, e sentia-se só.
- Sem Xena era
como se o planeta e todo o universo de Gabrielle tivessem perdido o colorido
e o encanto. Seus poemas, outrora cânticos de louvor à vida,
transformaram-se em tristes lamentos de dor e de saudade. Quando fechava
os olhos conseguia vislumbrar o doce sorriso e as gargalhadas daquela que
tanto amava, seus trejeitos e gestos habituais. Inúmeras vezes conversava com Xena em voz alta e chegava a ouvir as respostas, pois
sabia exatamente o que ela diria, em qualquer situação. O
que mais lhe doía era esse sentimento de “nunca mais”, pelo menos
neste plano, e a abstração que por vezes conseguia realizar,
idealizando um encontro futuro em outra dimensão, tinha o amargo
sabor do longínquo, do desejado que nunca chega... ou que levaria
uma eternidade para acontecer. E Gabrielle ansiava por Xena no agora. Sentia
falta do toque de suas mãos, de seu corpo, de afagar seus cabelos, de dormir agarradinha e aconchegada nos seus
braços, dos momentos de intimidade, quando faziam amor e se diluíam em total entrega,
materializando-se numa única pessoa. Gabrielle sentia falta da cumplicidade
e até mesmo das rabugices e das implicâncias de sua companheira
de toda a vida. Sim... de toda a vida. Foi essa a promessa que fizeram reciprocamente
na noite em que se amaram pela primeira vez. E era como se Xena não
houvesse cumprido a sua parte... Gabrielle conhecia os motivos de Xena,
porém seu coração não aceitava esses motivos
e sofria cada minuto de separação.
- Por vezes a poetiza
sentia seu coração como que se rasgando ao meio, tamanha a
dor.
Em
outras ocasiões chegou a pensar em pôr fim à própria
vida, para enfim juntar-se à Xena, mas logo em seguida recordava da luta de sua companheira
pela defesa da vida, de quem quer que fosse, e desistia de seu intento.
De fato Gabrielle estava prisioneira de seu destino, um destino que teria
de seguir sem Xena. E Gabrielle definhava aos poucos... de dor e de saudade.
- Quando a rainha
amazona passou em Amphipolis adquiriu um tecido de seda vermelha e um pedaço
de couro, com os quais confeccionou ela própria, ponto a ponto, uma pequena bolsa cuja parte
externa era de couro e o interior com forro de seda. Nela depositou as cinzas
de Xena, sendo que o pote onde repousavam as cinzas até então,
colocou ao lado do túmulo de seu irmão Lyceus. Desde aquele
dia Gabrielle pendurou a bolsa junto a seu corpo, nunca se separando dela.
Desta forma era como se Xena a tocasse constantemente, mais que isso, passasse
a fazer parte dela mesma, como uma extensão de seu corpo, como um
apêndice de sua alma. Gabrielle partiu logo de Amphipolis, pois sem
Xena era como se fosse uma aldeia qualquer, havia perdido o sentido de lar.
- Na verdade era
assim que Gabrielle se sentia: sem lar, sem pátria. Desde que encontrou
Xena pela primeira vez descobriu nela um porto seguro, um norte, uma família,
um verdadeiro lar. E agora se sentia sem nenhuma referência de tempo
e de espaço. Vagava de um nada para lugar nenhum. Pobre Gabrielle... Em determinado
momento, assolada pelo sentimento de total solidão, sentiu necessidade
de abraçar sua irmã Lila. E resolveu retornar à sua
cidade natal, Potedia.
- Viajava na garupa
de uma pequena mula, Miosótis, a qual recebeu em troca de alguns
de seus poemas. Gabrielle vinha sobrevivendo graças aos seus escritos,
os quais lhe rendiam o alimento e por vezes algum pernoite. Era só
do que precisava. Possuía apenas algumas poucas peças de roupa.
Seu bem maior carregava junto ao peito, as cinzas de Xena, as quais defenderia
com a própria vida, e dentro dele: a lembrança eterna de Xena
no seu coração. Outro bem que carregava era o chakran de Xena,
sendo que o lustrava todos os dias, como se esperasse pelo retorno de sua
dona, e Gabrielle bem sabia a estima que Xena nutria pelo seu chakran, logo
não poderia desaponta-la. Talvez fosse essa remota ilusão que mantivesse Gabrielle
viva.
Chegando
em Potedia Gabrielle vai até a casa de sua irmã Lila. Já
havia se passado mais da metade da tarde e Gabrielle desmonta languidamente
de Miosótis, parando em frente à casa que fora seu primeiro
lar. Contempla os campos ao fundo e a casa humilde que parecia não
ter sofrido modificação nenhuma nesses longos anos em que
esteve ausente. Pensa em como havia sido feliz ali na infância. E
em como havia ficado feliz no dia em que descobriu que Xena a amava e a
desejava tanto quanto ela. Lembra ainda de como Xena a havia salvado das
garras de Kirylus e da fúria e despeito de Ares, trazendo-a em segurança
para aquela casa. E nos beijos ardentes que trocaram naquele alpendre na
entrada da casa. E já haviam se passado anos...
Não
fosse por Ares a história delas poderia ter sido diferente. No dia
em que planejaram salvar Eva dos deuses que queriam mata-la Ares interferiu mudando completamente o destino de Xena
e Gabrielle. Pensando estarem mortas Ares levou os corpos de Xena e Gabrielle até uma caverna
numa geleira e os depositou numa tumba de gelo, selando a entrada. Após
muito tempo o gelo derreteu e ambas acordaram do sono artificial provocado
pelas lágrimas de Celesta. Ao saírem da caverna descobriram
que haviam se passado vinte e cinco anos. E tudo mudara… Eva havia se transformado
em Lívia, a devassa de Roma, e depois novamente em Eva, os pais de
Gabrielle foram mortos, assim como o marido de Lila. A mãe de Xena,
Cyrene, também foi morta pelas forças do mal e queimada numa
fogueira sob acusação de bruxaria… Maldito Ares, pensou Gabrielle. Se não tivesse interferido e elas
tivessem conseguido êxito no plano, o destino daquelas pessoas que
amavam por certo teria sido diferente. Mas agora não adiantava lamentar.
- Vagarosamente
dirige-se à entrada da casa vencendo os degraus que a separavam da
soleira da porta. Entra na sala e bate palmas esperando que Lila aparecesse
para recebe-la. Fez-se longo silêncio e Gabrielle percebeu que Lila
não estava em casa. Imaginou que estivesse no pomar ou na horta e saiu pela porta
dos fundos para procura-la. Avista ao longe os cabelos grisalhos da irmã que
estava entretida livrando seu canteiro de verduras das ervas daninhas que
teimavam em nascer no meio das alfaces e das couves. Gabrielle chama pela
irmã:
- - Lila!...
- A mesma se vira
e, ao avistar Gabrielle, corre em sua direção. Elas se abraçam
afetuosamente. Gabrielle aconchega-se nos braços de Lila e chora.
Lila não fala nada, apenas acolhe a irmã, permitindo que a
mesma externasse a torrente de angústias e o desespero que estava
sentindo. Aos poucos Gabrielle se acalma e Lila a conduz para o interior
da residência. Sentam-se na cozinha e Lila aquece água para
fazer um chá para a irmã.
- - Gabrielle,
eu estava com saudades de você...
- - Eu sei Lila...
eu também. Aliás, saudade é o que eu mais sinto nos
últimos tempos... saudades de Xena, saudades do papai e da mamãe,
saudades da Gabrielle que eu fui... – novamente os olhos de Gabrielle se
enchem de lágrimas. Lila prepara um chá de erva cidreira, ótimo
calmante, segundo ela, e Gabrielle precisava antes de mais nada dormir um pouco. Lila abraça Gabrielle e a conduz
até o quarto colocando-a na cama e deitando-se a seu lado. Afaga
os cabelos loiros da irmã e esta adormece profundamente, como a muito
não conseguia fazer. Ao acordar o sol já havia se posto por
detrás das montanhas e as sombras da noite já haviam se esparramado
sobre a planície e sobre o vale. Gabrielle sente cheiro de comida
sendo preparada e dirige-se para a cozinha. Mais calma consegue conversar
com Lila:
- - Pois é,
minha irmã... eu não sei o que faço da minha vida.
Nunca pensei me sentir tão só.
- - Olha, Gabrielle,
porque você não passa um tempo aqui comigo? Aqui é a
sua casa também. Nós somos uma família.
- Gabrielle sorri.
- - Que família
pequena... só nós duas... e Eva, que está não sei onde...
- - Ela continua
pregando os ensinamentos de Ely?
- - Com toda a
certeza – responde Gabrielle – ela é muito parecida com a mãe,
quando acredita em algo não se consegue dissuadi-la. E a fé
que possui nos ensinamentos de Ely foi o que a redimiu e modificou sua vida.
- Faz-se um período
de silêncio e Lila questiona:
- - E você
minha irmã? Como está esse coração?...
- Gabrielle suspira
e responde:
- - Você
bem sabe Lila, eu nem precisaria responder. Eu perdi a vontade de viver.
- Digamos que eu
sobrevivo, sempre pensando no dia de reencontrar Xena. - As vezes o destino é tão injusto... vocês
não mereciam essa separação – comenta Lila – vocês
ajudaram tantas pessoas... Xena era uma mulher tão justa, tão
defensora dos direitos dos semelhantes...
- - E ironicamente
foi seu passado que a condenou... – responde Gabrielle – não foi
considerado seu presente, e sim o passado.
- - Olha, Gabrielle,
está decidido: você ficará aqui comigo. Agora nossa
família somos só nós duas.
- Gabrielle sorri
tristemente. Elas conversam sobre a infância e se recolhem bem tarde,
quando a lua já havia desenhado quase que a totalidade de seu traçado
na abóbada celeste.
- O dia seguinte
amanhece ensolarado e Gabrielle acorda cedo. Dirige-se até a cachoeira
onde Xena adorava se banhar nas primeiras horas da manhã. Senta sobre
a pedra na qual a companheira expunha sua nudez aos raios solares e aos
pássaros que sobrevoavam as águas cristalinas em busca de
alimentos e matéria prima para a confecção de seus
ninhos. Perdida em devaneios e recordações não percebe
que ao longe, observando-a, materializa-se sua amiga Afrodite, a deusa do
amor.
- Afrodite contempla
Gabrielle e se compadece de sua solidão:
- - Eu morro de
peninha dela, meu irmão.
- Como não
obtém resposta continua seu monólogo:
- - Eu sei que
você está aqui Ares, apareça. Mesmo sendo o deus da
guerra eu sei que no fundo você tem bom coração.
- Ares se materializa
a seu lado, taciturno e calado. Também contempla a tristeza de Gabrielle.
- - Se você
não tivesse metido os pés pelas mãos... – diz Afrodite.
- - Lá vem
você me culpando de novo! – responde Ares irritado.
-
Mas é verdade. O destino delas teria sido diferente. Elas haveriam
tido muito mais tempo juntas. Foram vinte e cinco anos perdidos, Ares. - Eu só
quis ajudar! Eu sou um deus, não um adivinho.
- - Tudo bem –
releva Afrodite – mas eu não suporto ver minha amiga assim.
- - Essa loirinha
sempre foi muito enxerida!
- - Ares, olha o despeito! Você nunca aceitou o amor de Xena por
Gabrielle... e não por você.
- - Águas
passadas...
- - Então,
meu irmão, eu não acredito que você não se compadeça
do sofrimento dela.
- Ares se cala e
continua olhando para Gabrielle. Após longo silêncio comenta:
- - De fato Xena
foi a mulher que eu mais amei... e eu tentei acabar com Gabrielle
por causa disso. Mas é passado. Mesmo sendo um deus eu não
posso mudar o passado. Xena está nos Campos Elíseos e eu nada posso
fazer.
- - Será
que não podemos fazer nada mesmo? – questiona Afrodite – Vamos pelo
menos tentar?
- - Tudo bem. –
concorda Ares – eu não sei no que você está pensando,
mas vamos tentar.
- Afrodite sorri
e ambos desaparecem no ar.
- Enquanto isso
Gabrielle já havia se banhado na cachoeira. Retorna para casa e Lila
comenta que precisa ir até a cidade para comprar mantimentos. Gabrielle
vai com ela. Na venda escutam os comentários alvoroçados de
um grupo de viajantes sobre uma mulher que pregava ensinamentos de paz e
de igualdade, na cidade portuária de Alysia, de onde partiam os barcos
para a ilha de Ítaca. Comentavam também sobre a perseguição
que o grupo de discípulos vinha sofrendo dos soldados romanos, dispostos
a exterminar a todos que manifestassem qualquer tipo de ensinamento contrário
às leis opressoras e ditatoriais de Roma.
- Gabrielle logo
percebeu que se tratava de Eva e pressentiu que a mesma se encontrava em
perigo. Puxou Lila pelo braço e, antes mesmo de terminarem as compras,
fez com que retornassem para casa. Chegando lá arrumou seus poucos pertences e preparou-se para partir:
- - Lila, eu preciso
de um cavalo. Miosótis é muito lenta e eu preciso chegar à Alysia o quanto antes.
- - Mas Gabrielle...nós
combinamos que você ficaria aqui...
- - Lila, Eva está
em perigo. E ela é minha filha também! Você bem sabe
disso.
- - Eu sei Gabrielle,
mas eu tenho medo de te perder também...
- - Se for a vontade dos deuses...
- Elas se abraçam.
- - Eu preciso
ajudar a minha filha.
- - Eu sei, minha
irmã, eu sei. Pegue Trovão na cocheira e vá com os
deuses...
- - Eu te amo,
Lila...
- - Eu também
Gabrielle, eu também...
- Gabrielle monta
e parte em direção à Alysia. Leva pendurado na cintura o chakran de Xena, pronta
para usa-lo se for necessário. Em dois dias chega à cidade
de Alysia, cavalgando ininterruptamente. Não é difícil
localizar o grupo de pregadores, pois não se fala em outro assunto
na cidade.
- Gabrielle se
dirige até uma clareira no meio da floresta, indicada por um dos
moradores da cidade, e não tarda a localizar os vestígios
de um acampamento recém desmontado. Aquelas pessoas haviam partido
dali haviam poucas horas. Pelas pegadas dirigiam-se para o sul, pela costa oeste do continente, provavelmente
para o vilarejo de Calydon. Gabrielle apressou-se em segui-los. Nem bem
havia cavalgado uma hora avistou ao longe um grupo de peregrinos, viajando
a pé. Ao se aproximar reconheceu ao longe a silhueta de Eva. Era
muito parecida com Xena, alta, porém mais esguia. Seus cabelos longos
e negros lembravam sua mãe. Aproximou-se e chamou por ela:
- - Eva!
- Eva vira-se e
reconhece Gabrielle. Caminha em sua direção e estampa um sorriso
que faz Gabrielle ficar com os olhos marejados de lágrimas. Desmonta
e a abraça:
- - Eva... minha
filha... minha menina...
- - Gabrielle...
minha mãe... minha segunda mãe...
- Elas permanecem
abraçadas por longo tempo. Em seguida seguem viagem juntas e quando
o sol começa a desaparecer no horizonte Eva se dirige ao grupo:
- - Vamos dar uma
parada para descansar! Passaremos a noite aqui. Os peregrinos se acomodam nas laterais da estrada, à
sombra das frondosas árvores nativas e dos arbustos mais rasteiros tomados por trepadeiras de flores minúsculas
e amareladas. Bem perto dali havia uma nascente de água mineral
na qual os viajantes puderam abastecer seus odres para o dia seguinte. Estenderam uma
toalha no chão e nela depositaram os alimentos que partilharam naquela
noite. Eva pediu silêncio e fez uma oração antes da
ceia:
- - Que o Deus
Todo Poderoso abençoe estes alimentos e esta água, e que nossos
corpos, físico e espiritual, sejam nutridos com víveres e
com palavras. Que a fé nos guie e a fraternidade se transforme em
uma constante em nossa vida. Que as palavras de Ely ecoem em nossos ouvidos
e em nossos corações e que possamos transmiti-las a todos
os nossos irmãos. Que assim seja. - Que assim seja! – respondem todos.
- Após a
oração todos ceiam e se recolhem para dormir. Somente Gabrielle
e Eva ficam acordadas conversando:
- - Você
é tão parecida com Xena... – diz Gabrielle.
- Eva sorri:
- - Eu gostaria
que ela ainda estivesse aqui – responde Eva – embora eu saiba que ela está
nos Campos Elíseos, e está bem.
- - Você
consegue vê-la? – questiona Gabrielle.
- - Não,
mas eu sinto...
- Faz-se longo
silêncio e Gabrielle fala:
- - Eu sinto tanto a falta dela...
- - Eu sei... Vocês são verdadeiras almas gêmeas.
- Gabrielle baixa os olhos e sorri tristemente.
- - Gabrielle...
eu sempre tive curiosidade de saber uma coisa. Quando você soube que
eu ia nascer, bem... que mamãe estava grávida, como você
reagiu? Afinal vocês já estavam juntas, não é
mesmo?
- Gabrielle olha
Eva nos olhos e sorri:
- - Eu sempre te
amei Eva. E eu sempre confiei em Xena. E ela me disse que não sabia
como aconteceu... e eu acreditei nela. Eu tinha certeza que falava a verdade.
E depois Ely nos contou sobre sua missão e sobre quem você
era...
-
Com certeza esse ato de confiança foi a maior prova de amor que você
poderia ter dado a ela...
- - Pois é...
Xena sempre me dizia que havia sido eu que a tinha modificado para melhor,
e embora não seja verdade, ela sempre foi aquela pessoa maravilhosa, ela dizia que foi o nosso amor que a
transformou de fato. E eu a amei mais do que tudo, eu a amo mais do que
tudo... e com certeza foi o meu amor que a engravidou de você... e
isso faz de você minha filha.
- Eva abraça
Gabrielle e chora:
- - E pensar que
eu as odiei tanto... eu fui capaz de odiar minhas duas mães... - Isso é
passado... – diz Gabrielle afetuosamente, afagando os cabelos de Eva –hoje
você não é mais Lívia...você é Eva,
a nossa Eva, nossa menininha.
- Eva beija a face
de Gabrielle:
- - Eu te amo,
mãe.
- Aquelas palavras
eram bálsamo para o coração sofrido de Gabrielle. Estava
abraçada a uma parte de Xena, e a uma parte dela própria também. - Eu lembro do
dia que você nasceu... fui eu que fiz o parto. Enquanto Hércules
detinha Zeus e Athena eu te aparava em meus braços. Você era
linda... o bebê mais lindo que eu já vi. Também, filha
minha e de Xena só podia ser linda mesmo... –brinca Gabrielle – e
eu lembro também do teu primeiro sorriso... e das noites em que ficamos
em claro quando nasceram seus primeiros dentinhos e você não
parava de chorar!
- Eva sorri. Gabrielle
baixa os olhos por um tempo e, com ar preocupado, refere:
- - Filha... eu
soube que a milícia romana está atrás de um certo grupo
de profetas... vocês correm perigo.
- - Eu sei, Gabrielle.
Mas temos uma missão e não vamos desistir dela. Eu vim ao
mundo para propagar os ensinamentos de Ely.
- - Mas ele morreu
por isto!!!
- - E se for preciso
eu também morrerei.
- - Ah, não...
não mesmo! – responde Gabrielle – Eu não vou deixar que isso
aconteça!
- - Gabrielle,
não podemos mudar o destino...
- - Destino...
injusto é o destino!!! Xena não voltou para nós por
causa desse maldito destino!!! – desabafa Gabrielle.
- - Como assim?
– questiona Eva.
- Gabrielle conta
sobre os últimos momentos em que esteve com Xena, aos pés
do Monte Fuji, onde Xena lhe revelou que não poderia voltar.
- - Mas o que a
impediu de voltar?
- - Eva, Xena disse
que não poderia voltar, pois Akimi havia lhe contado que as 40.000
almas libertadas com a morte de Odoshi precisariam ser vingadas!... Ou ficariam
vagando eternamente. Não bastava estarem livres, precisavam de vingança.
E Xena se sentia responsável por elas, responsável pela morte
de cada uma, e aceitou ser punida com a nossa separação em
troca da liberdade delas.
- Eva fica em silêncio
por um tempo e finalmente diz:
- - Eu não
entendo... Ely não fala de vingança... pelo contrário,
o sentimento capaz de redimir as almas é o perdão... jamais
a vingança...
- - Pois é,
mas foi a vingança que condenou Xena a ir embora para sempre. – responde
Gabrielle.
- - Eu não
compreendo...
- - Olha, está
tarde. Você precisa dormir, filha.
- - E você
também...
- - Vou tentar.
Prometo.
- Elas se deitam
e Eva adormece pensando nas palavras de Gabrielle. Procura razões
para justificar o real motivo da mãe não voltar. Não
acredita na necessidade de vingança das almas. Já Gabrielle
passa a maior parte da noite em claro. Pensa em Xena, porém o foco
de suas preocupações no momento são as milícias
romanas e a segurança de Eva. Quando o sol está quase nascendo
no horizonte consegue conciliar o sono, porém desperta após
as primeiras movimentações do grupo. Eles partem cedo e Gabrielle
segue ao lado de Eva, com o chakran a postos para qualquer investida surpresa
e com um sentimento de desconforto no coração. Tinha maus
presságios para aquele dia.
- Nem bem haviam
avançado uma légua após o almoço Gabrielle ouviu
um longínquo tropel e logo identificou o perigo iminente. Antes que
pudesse alertar o grupo todo, despontou na estrada em frente uma parte da
legião de soldados do imperador romano.
- Estes logo cercaram
os peregrinos e o comandante ordenou aos brados:
- - Matem todos!!!
- Os seguidores
de Ely pregavam a não violência, portanto não portavam
armas. O que se seguiu foi um verdadeiro massacre. Gabrielle armou-se com
o chakran de Xena, colocando-se em frente à Eva, defendendo-a com
o próprio corpo. Como se tivesse sido invadida pelo espírito
de Xena arremessou-se contra os guardas, iniciando uma batalha mortal, em
defesa de Eva. Contavam-se cerca de trinta centuriões que desferiam
golpes mortais com suas espadas e lanças contra os indefesos peregrinos. Alguns poucos
conseguiram fugir, embrenhando-se na floresta virgem no intuito de salvarem
as próprias vidas. Eva mantinha-se impassível, observando
em estado de choque a luta ferrenha de Gabrielle. Esta havia conseguido
pôr a nocaute mais de quinze guardas, porém como eram muitos
conseguiram imobiliza-la e estavam prestes a acabar com sua vida.
- Neste momento
Eva foi tomada por uma fúria interior e foi como se Lívia
ressurgisse do âmago de seu ser. Pegou uma das espadas romanas que
estava caída junto ao corpo de um dos centuriões abatidos
por Gabrielle e lançou-se contra os guardas, gritando:
- - Ninguém
encosta na minha mãe!!!
- Desfere um golpe
mortal no centurião que imobilizava Gabrielle e esta, novamente livre,
reinicia a luta ao lado de Eva. Ambas conseguem derrubar mais dez centuriões.
Os poucos que restaram estavam prestes a bater em retirada quando um deles
consegue golpear Gabrielle que cai de costas contra o tronco de uma árvore
e fica estonteada. Aproveitando-se desta situação outro deles,
que também já ia partindo em retirada, se vira e arremessa
uma lança em direção ao peito de Gabrielle. Eva acompanha
a cena e salta no ar, num salto mortal triplo e abraça Gabrielle,
servindo de escudo com o próprio corpo. A lança a atinge nas
costas, perfurando-lhe o pulmão esquerdo e atingindo o coração.
Gabrielle, já restabelecida, a segura nos braços, desesperando-se
e gritando seu nome:
- - EVA!!! NÃO!!!...
- O grito de Gabrielle
ecoa na floresta e é ouvido ao longe pelos guardas que fugiam do
local. Gabrielle ajeita Eva em seus braços:
- - Por que você
fez isso, minha filha... por que???...
- - Por...que...
ninguém... nin... guém... encosta na ...minha...mãe...
- - Eva... não
me deixe, por favor... EVA!!!
- Eva abre novamente
os olhos e esboça um sorriso para Gabrielle:
- - Eu...tenho
as melhores...mães... do mundo. Eu...eu...te amo...
- - Eu também
te amo... e você vai ficar boa... e nós vamos para casa...
e...
- Eva...Eva...
responde... EVA... NÃÃÃÃOOO!!!
- Novamente o grito
de Gabrielle se perde na floresta e Eva morre em seus braços. Gabrielle fica
em estado de choque por longo tempo e quando enfim se conscientiza de que
nada mais poderia ser feito por Eva, retira a lança de seu peito
e prepara o corpo da filha para ser levado à Amphipolis, para repousar junto da sepultura de Lyceus.
- Com o coração
despedaçado pela dor chega em Amphipolis e prepara uma pira funerária
para a filha. Junta as cinzas de Eva e as coloca no pote em que antes guardava
as cinzas de sua mãe, Xena. Deposita-o junto ao túmulo de
Lyceus e parte novamente em direção à Potedia.
- Sentia-se novamente
só, mais só do que nunca, e precisava do conforto de Lila. Sentia-se, além
de solitária, impotente. Havia falhado na missão de proteger
a própria filha. Seu único consolo era que, por certo, Eva
estaria com Xena. E somente este pensamento conseguia aliviar seu coração.
Chegava quase que a invejar Eva e desejava ter morrido em seu lugar. Não
conseguia se conformar em não ter conseguido salvar a vida de sua
Eva. Com o coração mais apertado do que nunca chega novamente
à Potedia, à casa de Lila.
-
- Neste meio tempo,
nos portais que ficavam entre Hades e os Campos Elíseos, Eva recobra
os sentidos quando ouve seu nome sendo chamado carinhosamente:
- - Eva... acorde.
Está tudo bem.
- Sente uma mão
calorosa afagando-lhe a face e abre os olhos lentamente. Percebe-se deitada
em um tapete de relva muito verde, coberto com minúsculas flores multicoloridas
ao longe.
Sua cabeça repousa sobre o colo de um menino com cerca de doze anos
que lhe sorri amorosamente. Ele tinha a pele clara e os cabelos loiros e
lisos lhe caíam até os ombros. Seus olhos, de um azul escuro
e profundo, tinham algo de muito familiar. Ele se debruça sobre ela
e lhe beija a testa, dizendo:
- - Bem vinda,
Eva.
- Aos poucos Eva
vai recobrando a consciência e lhe vêm à memória
os fatos recentes, onde sua última lembrança é o olhar
de desespero de Gabrielle sustentando seu corpo transpassado por uma lança
e suplicando que não a abandonasse. Percebe que não sente
mais a dor do ferimento e, olhando para baixo, vê que suas vestes
não estão mais sujas de sangue, nem tão pouco são as mesmas que trajava a momentos atrás. Olha ao redor
e se dá conta de que não está mais no plano dos mortais.
É invadida por um sentimento de paz e conforto e, amparada pelo menino,
se levanta para conseguir uma visão melhor de seu novo lar, a fim
de entender melhor sua nova condição. O menino continua a
sorrir para ela.
- - Qual seu nome?
– pergunta Eva.
- - Solan.
- Eva é
invadida pela emoção ao perceber que aquele menino era seu
irmão, de quem a mãe tanto falava e quem havia lhe colocado
o nome de Eva. Eles se abraçam amorosamente e Eva beija a face do
irmão.
- - Para onde nós
vamos?
- - Ely pediu que
eu viesse busca-la, antes que os espíritos do submundo apareçam,
tentando arrasta-la para Hades.
- Solan pega Eva
pela mão pedindo que ela fechasse os olhos. Eva sente uma brisa suave
soprar em seus cabelos e, num instante, ao abrir os olhos, já se
encontrava em outro cenário, mais encantador que o campo onde havia
acordado.
-
Bem vinda aos Campos Elíseos, minha irmã – diz Solan sorridente. Eva retribui
o sorriso e é conduzida pelo irmão até um aconchegante
jardim, no interior de uma floresta verdejante. Sentam-se em um pequeno
e rústico banco, feito com um tronco de árvore. Ali conversam
por longo tempo.
-
Solan, onde está mamãe? Gostaria de vê-la.
- - Ela está
aqui. Desde a chegada dela eu tenho a missão de acompanha-la de perto, para aliviar um pouco a dor de seu coração.
Ela sente muita falta de você, e de Gabrielle.
- - Ela sabe da
minha chegada?
- - Ainda não.
Será uma grata surpresa – responde Solan.
- - Eu não
consigo entender porque ela não voltou para a terra, se teve a oportunidade.
- - É uma
longa história... – refere Solan.
- - Eu não
entendo esse argumento de vingança... afinal, o único sentimento
capaz de redimir as almas é o perdão...
- - Exatamente,
Eva. Mas cada um deve se dar conta disso por si mesmo.
- - Continuo sem
entender...
- - Eva, vamos até Ely? Ele quer vê-la.
- - Vamos, também
sinto vontade de revê-lo.
- Novamente são
transportados como que num passe de mágica para outra paisagem, onde
Ely os aguardava:
- - Bem vinda,
Eva! Sou grato pelos teus esforços de propagar a mensagem de amor
de nosso Pai Celeste.
- - Que é
isso, Ely? Você bem sabe que não fiz nada mais do que cumprir
a minha missão. Neste momento Ely a abraça fazendo com que se debruce
sobre uma pequena fonte onde a água cristalina servia de espelho,
refletindo o rosto de ambos. Aos poucos Eva percebe que os contornos de
sua face se transformam, assumindo a fisionomia de Callisto.
- - Eu já
havia esquecido destes traços – responde Eva pensativa. - Pois independente
da forma física, sua essência é a mesma. Você
é Callisto e é Eva. Uma é continuidade da outra. Eva
nasceu para que Callisto e Xena pudessem se perdoar mutuamente, transmutando
todo o ressentimento do passado em um sentimento de amor profundo e de perdão.
- - Eu sei, Ely.
E se é o perdão que transforma, por que Xena não retornou
para junto de Gabrielle?
- - Porque simplesmente
não se deu conta disso...
- - Como assim?
– questiona Eva.
- - Xena estava
tão absorta em libertar as almas que acabou fechando os olhos e ouvidos
para essa verdade absoluta: só o amor e o perdão redimem e
libertam.
-
Mas Gabrielle me contou que foi Akimi que alertou Xena sobre a necessidade
de que as almas fossem vingadas.
- - Akimi... uma
grande amiga, um verdadeiro espírito de luz.
- - Mas ela mentiu!!!
– revolta-se Eva – e condenou minhas mães ao sofrimento!
- - Ela não
mentiu... fui eu quem pediu a ela que usasse aquele argumento com Xena. - Mas para que,
Ely? Ela já havia demonstrado ser uma pessoa transformada! Ela deu
a vida para salvar os outros!
- - Não
basta dar a vida... é necessário compreender e introjetar a verdade.
- - Mas não
é justo!!!
- - Eva, em verdade
Xena está presa a esta dimensão por sua própria vontade.
Nós mesmos somos nossos juízes e nossos algozes, e acredite,
ninguém é mais rigoroso conosco do que nós mesmos.
Todas as almas libertadas perdoaram Xena, porém ela própria
não se perdoou.
- - Mas porque
você não diz isso a ela!!!
- - Não
posso. A Verdade Absoluta é uma descoberta pessoal, que cada um deve fazer a seu tempo.
- - Então,
caso mamãe se dê conta disso poderá voltar para a terra?
- - Com toda a
certeza.
- - Ely... por
favor, permita-me ajuda-la a abrir os olhos.
- Ely sorri.
- - Você
é a terceira pessoa que me faz esse pedido hoje.
- - Como assim?
Quais foram os outros?
- Neste momento
Afrodite e Ares se materializam perto deles. - Fomos nós – responde Afrodite – vimos o desespero
de Gabrielle e viemos interceder por ela.
- - Tudo bem –
concorda Ely – mas lembre-se, Eva, não basta despejar a Verdade como
se fosse uma torrente de água incontrolável, como chuvas de
verão. Neste caso ela age como um turbilhão, varre abruptamente
o ilusório e não chega até a essência. Lembre-se: palavras
devem ser como as garoas, despejadas com suavidade penetram a terra e nutrem
o âmago. Uma vez absorvidas as gotas passam a fazer parte da terra
e, como um só organismo vivo, passam a ter o mesmo entendimento dos
mistérios da vida, e da morte. A compreensão da Verdade Absoluta
é um processo lento, mas quando instaurado é para todo o sempre.
- - Acho que entendi
– responde Eva – preciso ser sutil.
- - Exatamente
– concorda Ely.
- - Eu te desejo
boa sorte, Eva – diz Afrodite olhando com o canto dos olhos para Ares, como
que intimando-o a se manifestar.
- - Eu também – refere o sisudo Ares.
- - A felicidade
da minha amiga Gabrielle depende de você – reafirma Afrodite.
- - E eu não
vou desaponta-la! – afirma Eva com convicção.
- Afrodite sorri
e desaparece no ar juntamente com Ares. Ely, Eva e Solan ainda conversam
por longo tempo até que o primeiro diz:
- - Está
na hora de rever sua mãe...
- - Eu estou ansiosa
para isto – responde Eva.
- - Solan, você
poderia levar Eva até sua mãe?
- - Claro, Ely.
- Os irmãos
partem enquanto Ely os observa caminhando ao longe, sempre abraçados.
- Não muito
longe dali Xena se encontra sentada à sombra de um caramanchão,
situado no cume de uma pequena colina. Abaixo um vale rodeado por uma cadeia
de montanhas, cujos topos cobertos de vegetação se refletiam
nas águas do lago no centro da planície. O reflexo do verde
circular na água transformava o lago numa mandala gigante, cujo cerne
refletia também a luz solar e o azul do céu. O caramanchão
era coberto por um pé de maracujá, cujas flores em forma de
coroa adornavam toda sua copa. Nas bases haviam roseiras carregadas de flores
miúdas, num tom levemente rosado, cujos galhos e caule não
ostentavam nenhum espinho. Era como se as rosas minúsculas se projetassem
em direção ao céu, indefesas porém confiantes na proteção divina,
conscientes de que nada lhes faria mal e que cumpririam sua missão
de embelezar aquele pequeno recanto do paraíso.
- Xena contemplava
o vale ao longe e seu pensamento estava totalmente voltado para Gabrielle.
Pensava nela constantemente, não conseguindo aquietar seu coração.
O olhar de Gabrielle suplicando-lhe permissão para jogar suas cinzas
no Monte Fuji, o que lhe levaria de volta à vida, não lhe
saía da memória. Xena fez o que considerou correto, mas a
que preço, pensava. Após aquele fatídico dia permaneceu
por um tempo na companhia de Akimi, não saberia precisar o tempo,
pois este existe somente no plano dos mortais. E quando parecia que não
suportaria mais a falta de Gabrielle foi surpreendida com a chegada de Solan, montado em Argo, para conduzi-la
aos Campos Elíseos. Xena também não conseguiria traduzir
em palavras a emoção sentida ao rever o filho, e saber que
seu fiel Argo lhe servia de companhia. Solan passou a ser sua constante
companhia e, cada vez que seu coração apertava de saudade,
era o filho que conseguia amenizar sua angústia com palavras de alento
e de confiança. Mas em determinados momentos nem mesmo Solan era capaz de
confortar a dor que emanava de suas entranhas. Xena também se sentia
prisioneira de seu próprio destino e condenada por seus erros do
passado.
- Perdida em devaneios
e saudades Xena não percebe a aproximação dos filhos.
Eva fica observando a mãe ao longe enquanto Solan se aproxima dela:
- - Mãe...
- Xena se volta
para ele secando as lágrimas que lhe escorriam das faces.
- - Chorando de
novo?
- - Não
foi nada não, filho...
- - Você
não consegue esquecer Gabrielle, não é mesmo?
- Xena se cala,
baixa os olhos e confirma com um maneio de cabeça. - Solan, eu te
amo tanto... estou feliz de estar com você, mas uma parte de mim está
longe...e dói muito... – diz Xena abraçando carinhosamente
o filho.
- Solan retribui
o abraço e beija a face da mãe, dizendo:
- - Eu trouxe uma
surpresa.
- Neste momento
Eva se aproxima. Xena se emociona ao rever a filha e corre para abraça-la. Solan vai ao encontro delas e também as abraça.
Xena segura o rosto de Eva entre as mãos e seca as lágrimas
que lhe escorrem das faces. Os três se acomodam sob o caramanchão
e conversam longamente. Eva conta para Xena como foram seus últimos momentos
na terra e o esforço de Gabrielle de defende-la. Xena se emociona ao saber notícias de Gabrielle,
e se orgulha de saber que sua amada encontrou forças para defender
a filha mesmo com o coração dilacerado pela saudade. Fica
mais emocionada ainda quando Eva lhe conta que morreu salvando a vida de
Gabrielle. Xena permanece quieta, ouvindo o relato de Eva. Mantém
sua face voltada para o chão e o olhar perdido, como que tendo dificuldades
em assimilar aqueles acontecimentos. Ao final do relato, como Xena permanecesse
calada, com lágrimas lhe escorrendo pelas faces, Eva a abraça
e lhe diz:
- - Mãe...
não fique triste. Eu fiz o que tinha de ser feito.
- - Eu sei – responde
Xena.
- - Minha hora
havia chegado, de uma maneira ou de outra. Minha missão na terra
havia terminado... a de Gabrielle não.
- Segue-se longo
silêncio, que é quebrado por Solan que sugere:
- - Vamos para
casa, acho que todos precisamos descansar.
- - Vamos, sim
– responde Xena.
- As moradias nos
Campos Elíseos em muito se assemelham às do plano terrestre.
São edificações simples, onde grupos familiares permanecem
unidos, por todo o sempre. A casa ocupada por Xena e Solan, também
era habitada por Lyceus e, recentemente por Cyrene, que até há bem pouco tempo estava prisioneira em Hades, e havia sido
resgatada por Solan. Tinha tudo para ser um lar feliz, não fosse
pela tristeza constantemente estampada nos olhos de Xena. Todos sofriam
por ela, principalmente Solan, que nutria um amor incondicional pela mãe.
Este já havia tentado envia-la de volta à terra, porém sem sucesso. Sua esperança agora
era a irmã, Eva, principalmente após ouvir a conversa que
teve com Ely.
O
dia estava acabando. Nos Campos Elíseos também existe dia
e noite. A família ceou unida e depois Eva foi levada até
o quarto que passaria a ser o seu. Xena esperou a filha deitar-se, beijou-lhe
a testa e desejou-lhe bons sonhos. Em seguida levantou Solan nos braços
e o levou para sua cama. Gostava de brincar com o filho. Era como se estivesse
recuperando o tempo em que ficaram separados na terra. Xena beija o rosto
do filho e diz:
- - Boa noite,
meu amor.
- - Boa noite,
mãe. Bons sonhos.
- Xena lhe sorri
e sai do quarto, porém ainda consegue ouvir Solan dizer baixinho:
- - Sonhe com os
anjos... e com Gabrielle. Eu te amo.
- - Eu também
te amo, filho – diz Xena, certa de que Solan ouviria sua resposta.
- Na manhã
seguinte uma chuva bem fina regou a vegetação dos Campos Elíseos
e Eva observava pela janela de seu quarto o colorido da paisagem renovado
pelas águas.
A
chuva, porém logo cedeu lugar a um sol resplandecente, que formava
prismas multicoloridos nas gotículas de água armazenadas nas
folhas da vegetação. Eva convida a mãe para passear,
com o pretexto de que lhe mostrasse o quintal e os arredores de sua nova
casa.
- Solan sai para
suas aulas diárias com Ely, Rafael e com Miguel. O filho de Xena
está sendo preparado para ser elevado ao grau de Arcanjo. Xena e
Eva se dirigem para a beira do lago, onde se acomodam confortavelmente num
chão coberto de relva macia.
- - A vida por
aqui é tão tranqüila – comenta Eva.
- - Pois é...
tranqüila... e vazia.
- - Mãe,
você não consegue esquecer Gabrielle, não é mesmo? - Não,
não consigo. Eu sinto falta de seu sorriso, dos seus olhos, do seu
toque, do cheiro da pele, do abraço, da cumplicidade, de tudo...
- - Gabrielle também
não consegue esquece-la...
- - Eu sei. E é
isso que mais me angustia. O sofrimento de Gabrielle agrava meu sentimento
de culpa e de saudade.
- - Culpa?... –
questiona Eva.
- - Culpa. Você
sabe porque eu estou aqui, não sabe?
- - Sei. Gabrielle
me contou.
- - Eu não
podia voltar. Não podia condenar tantas almas a vagarem pela eternidade,
quando fui EU que as coloquei nessa situação!
- Faz-se um período
de silêncio, quebrado por Eva:
- - Eu passei os
últimos tempos de minha vida semeando as palavras e os ensinamentos
de Ely... E eu acredito que eles são a Verdade Absoluta, tanto que
aceitei morrer por eles.
- - Eva, aonde
você quer chegar? – questiona Xena.
- - O primeiro
ensinamento do mestre é que devemos amar nosso próximo como
a nós mesmos, e a Deus sobre todas as coisas, isto porque Deus é
justo. Nós somos sua imagem e semelhança, portanto devemos
buscar sempre a justiça. - E foi o que eu fiz. Eu fiz o que achei justo!
- - Concordo. No
entanto Ely continua nos dizendo que só o amor constrói e
é capaz de redimir seres humanos e almas.
- - Sim, eu sei
– responde Xena.
- - O amor e, principalmente
o perdão, mãe. Ely nunca falou sobre vingança... pelo
menos como forma de libertação.
- Xena dirige seu
olhar para o fundo dos olhos de Eva, conseguindo vislumbrar, muito além
deles, a essência da alma da filha. Nos momentos de silêncio
que se seguiram foi como se um véu, que até então houvesse
encoberto os olhos de Xena, fosse pouco a pouco sendo descortinado.
- - Mas então
você está me dizendo que...
- - Eu não
estou dizendo nada mãe, você está descobrindo por si
mesma – responde Eva.
- Xena respira
fundo e continua a linha de seu raciocínio:
- - Ely afirma
que só o amor e o perdão redimem as almas, mas então...
eu não entendo... Akimi...
- - Esqueça
Akimi, pense por você, encare os fatos sob seu próprio ponto
de vista –diz Eva.
- Xena faz um esforço
de memória e continua:
- - Eu vi as almas
saindo de dentro de Odoshi, livres. Elas realmente não pareciam precisar
de vingança...
- Novo silêncio
e o resto do véu que encobria a consciência de Xena cai por
terra.
- Ela novamente
continua:
- - Então
quer dizer que eu deixei Gabrielle por meu próprio sentimento de
culpa?
Como
pude ser tão cega? As almas me perdoaram... porém fui eu própria que não havia me perdoado, mais que isso: eu
condenei a mim e a Gabrielle ao sofrimento eterno. - O eterno é relativo – diz uma voz conhecida de Xena
que se materializou atrás delas.
- - Akimi... é
você? Por que você fez isso? Por que mentiu? – questiona Xena.
- - Por favor,
Xena, não encare como uma mentira, encare como um teste.
- Neste momento
aparece Ely que sorri para elas e diz:
- - Xena, fui eu
que pedi a Akimi para lhe aplicar aquela “mentira”, como você se referiu.
Era necessária para que você se libertasse de seu passado.
Mesmo com todos os seus feitos em benefícios das pessoas menos favorecidas
e injustiçadas você nunca conseguiu se livrar de certos fantasmas, que teimavam em assolar sua consciência
e lhe conferiam um sentimento de culpa incontrolável. Em verdade
seus atos em prol dos seus semelhantes a redimiram e Callisto era sua última
dívida. E você aceitou dar à luz a Eva, resgatando o
que ainda precisava saldar. Hoje você está livre Xena. Livre
de seu passado e de suas culpas, livre do peso de seus erros e desacertos
em tempos remotos. Nada mais a prende a lugar nenhum. - Prende sim,
Ely. Meu coração está preso à Gabrielle, para sempre – responde Xena.
- - E porque você
não vai para junto dela? – questiona Ely.
- - Mas, eu não
posso... eu acho que não posso...
- Ely sorri afetuosamente
para Xena e aquele sorriso consegue acender novamente a esperança
no fundo do coração da guerreira. Xena respira fundo e diz:
- - Eu posso sim!!!
- Logo em seguida
olha para Solan que chega na companhia de Rafael e seu coração
fica apertado novamente. Como poderia deixar Solan? E Eva? E Cyrene, e Lyceus.
Solan chega sorridente e logo percebe o que havia ocorrido. Abraça
Xena e lhe diz:
- - Mãe,
eu tenho uma novidade. Acho que você vai ficar orgulhosa de mim. Neste momento
se afasta um pouco de Xena, fecha os olhos e o Arcanjo Rafael se aproxima
por trás dele. Impõe suas mãos sobre a cabeça
de Solan e uma luz branca e cristalina desce dos céus envolvendo
o menino. Solan abre os braços e suas roupas se transformam numa
veste dourada e duas enormes asas surgem abertas em seus ombros. Solan abre
os olhos e diz:
- - Agora eu sou
um Arcanjo!!!
- Xena mal cabe
em si de emoção. Seu filho, seu pequeno menino, um Arcanjo.
Solan se aproxima novamente e abraça a mãe, fitando-a nos
olhos:
- - Mãe,
cada um de nós tem seu próprio destino. O meu é servir
a Deus como Arcanjo... o teu, bem... você sabe bem qual é.
Não abra mão da felicidade novamente... Eu te amo. E eu vou
estar sempre aqui, sempre perto de você. Prometo.
- Xena abraça
o filho e o beija. Vira-se para Eva que lhe sorri e diz:
- - É hora
de voltar e fazer minha outra mãe feliz.
- - Mãe
– chama o sorridente Solan abanando as enormes asas – leva o Argo contigo.
- - Mas, Solan,
eu sei que você adora ele...
- - Mas ele é
teu. E além do mais, eu agora não preciso mais galopar para
chegar aonde eu quero, afinal eu tenho asas!!!