CRÔNICAS DE UMA BARDA-GUERREIRA

 

A Maldição de Gabrielle

Sarah Ishtar

 

DISCLAIMER

    Os personagens de Xena, Gabrielle e os demais que aparecem nessa estória, são marcas registradas da MCA/Universal e Renaissance. Eles são usados sem a intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright. O resto da estória foi elaborado por Sarah Ishtar (JS) e, nenhum aspecto original deste fan fiction poderá ser utilizado em outro lugar sem prévio consentimento, por escrito, da autora. Esse texto não poderá ser alterado e esta informação sobre direitos autorais deve sempre aparecer com o mesmo. A estória a seguir contém temas adultos, insinuando relações entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, ou onde mora é proibido ler esse tipo de material, por favor, não continue. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho aparece não aceitam a responsabilidade legal pelo não cumprimento desse alerta.

         NOTA DA AUTORA      

Essa é a primeira estória das “Crônicas de uma Barda-Guerreira”. Tenho a intenção de escrever outros fictions tendo como base “A Maldição de Gabrielle”, por causa disso, alguns personagens apenas foram citados, seus papéis serão aprofundados em outras estórias.

Esse fiction possui uma abordagem religiosa. Tal temática tem o objetivo de enriquecer a estória dentro daquilo que achei plausível. Não tenho a intenção de ofender ninguém.

Espero honestamente que vocês gostem.

Qualquer dúvida, crítica ou sugestão, terei o maior prazer em responder no email: [email protected] ou no msn:  [email protected]

Última observação. A trilha sonora desse fiction. Nemo, com a música Nightwish.

Um grande abraço, paz e felicidade.

Sarah Ishtar

                                                          

CAPÍTULO 1

Em algum lugar próximo a Amphipolis.

Era inicio de outono, o frio da noite indicava que o inverno desse ano seria muito rigoroso, além disso, o céu nublado escondia a lua crescente e as estrelas brilhantes, deixando o inicio do anoitecer escuro e sombrio. Tal aspecto somente era quebrado por uma fogueira que iluminava a escuridão e o triste semblante de uma alma atormentada. A floresta estava em silêncio, em luto. A quietude apenas era dissolvida pelo estalar do fogo, por um relinchar de uma égua nas proximidades e por uma pena que percorria desesperadamente um pergaminho.

 A pena pertencia a uma linda mulher que estava sentada sobre algumas peles, envolvida por um belo casaco com as cores branco e marrom. Apoiava-se contra o tronco de uma grande árvore cujas folhas secas encontravam-se espalhadas pelo chão. Escrevia compulsivamente sobre o manuscrito apoiado sobre suas lindas coxas. Qualquer um que observasse essa doce criatura ficaria comovido com tamanha dor, mas apenas o pergaminho poderia revelar sua angústia.

Uma escolha... A vida é feita de decisões entre o certo ou o errado. Mas o certo muitas vezes está ligado a perdas, a danos e a dor. Essa é a história de uma grande mulher, de uma princesa guerreira que superou a escuridão para encontrar a redenção através da abdicação do poder, da glória e do medo. Em contrapartida se deparou com o amor, com a admiração e com o respeito. Lutou contra reis, venceu temidos senhores de guerra, desafiou os deuses. Sofreu... Muita aflição esteve em seu caminho. Conheceu a traição, a desconfiança, a mentira. Perdeu um filho, roubaram-lhe anos de convivência com a filha, mataram sua mãe e seu irmão. Mas apesar de tanto sofrimento, manteve o amor em seu coração. E por causa desse nobre sentimento aprendeu que o certo é doloroso, contudo apesar de toda a desgraça que o correto pode proporcionar, é sempre o melhor caminho.

Xena, minha amada, sei que tomaste a decisão que proporcionou sua morte para um bem maior, no entanto não consigo superar sua partida. Minha razão não consegue consolar o meu coração que sangra pela sua ausência. Morreste por algo que fizeste de errado no passado, mas sua boa ação para consertar tal engano não inibe a tristeza que caiu sobre mim. Tu me salvaste. Ensinaste-me a crescer. Amei-te profundamente. Vi e temi seu lado negro, porém aprendi a respeita-lo como parte que faz de você um ser único. Presenciei sua luta para controlar toda a fúria de sua alma. Tal sacrifício só aumentou meu amor... 

Por um momento a melancólica poetiza deixou de escrever para observar o fogo a sua frente. Lágrimas fluíram consistentemente dos seus olhos esverdeados, seu corpo tremeu. A barda abandonou o pergaminho, colocando-o do lado direito do seu corpo, em seguida flexionou os joelhos, apoiou os cotovelos na coxa e as mãos contra o rosto para chorar compulsivamente. Somente uma palavra poderia descrever tal situação: Desespero. A barda estava inconformada.

 Depois de um longo tempo cessaram as lágrimas, mas o sentimento de solidão permaneceu, e a cada dia se tornava mais forte. Seu único conforto incidia na lembrança, porém, ao mesmo tempo em que a recordação a consolava, também devastava.

 A jovem mulher inspirou profundamente, em seguida desprendeu o ar vagarosamente. Procurava forças para retornar a escrita.

Dois corações... Uma alma. Uma perda... Aflição. O que fazer quando o ser amado é afastado de nós? Tento expressar todo o meu sofrimento através dessa pena, mas por mais que eu queira, não há palavras suficientes para exprimir toda a amargura que explode no meu peito... Xena... Por quê? Por que teve que me deixar?  Um amor perdido... Uma alma dilacerada... Como expressar a imensa dor que sinto? Pela primeira vez não tenho palavras. Qual verso poderia utilizar para afastar toda a minha angustia? Sua voz ecoa na minha mente... Seu cheiro está impregnado em meu corpo... Sinto seu toque a todo o momento... Como poderei prosseguir se perdi o meu caminho? Você era minha morada, minha amiga... Minha companheira... Faz uma lua que fomos separadas, parece uma eternidade. Estou levando suas cinzas para casa, para permanecer com seu querido irmão Lyceus. Sei que você queria isso. Depois, meu amor, procurarei Eva para contar-lhe sobre seu triste destino. “Como poderei dizer para uma filha que a morte reivindicou a mãe? A mãe que há pouco conheceu”. 

“Não precisa”.

Gabrielle se encontrava profundamente concentrada em seu pergaminho, não percebendo que havia expressado seus pensamentos em voz alta, muito menos notou a aproximação de um vulto. Por causa da surpresa agiu com instinto. Levantou rapidamente, soltou o pergaminho para segurar os sais. Um calafrio percorreu sua espinha. Foram alguns segundos de tensão. Por conseguinte, a curiosidade da barda falou mais alto.

“Quem é você?”, o tom da voz foi alto e intenso. Gabrielle exigiu que a figura se identificasse.

 “Não estou com paciência para jogos! Aproxime para poder vê-lo!”.

A figura levou alguns instantes para se mover. Ele não sentia medo, um diabólico sorriso corria pelos seus lábios. Ele adorou ver a dor na barda a sua frente. Contudo não tinha tempo, precisava agir. Deu alguns passos à frente para se revelar para Gabrielle.

A poetiza reconheceu a figura. Sua voz revelou surpresa e desprezo.

 “Você!?”.

Lúcifer possuía o semblante humano. Trajava uma túnica branca. Na sua cintura havia um cinto marrom e em seus pés sandálias da mesma cor. Em seus lábios um sutil sorriso que impressionou Gabrielle. A presença de Lúcifer não a intimidou, mas aquele sorriso trouxe maus pressentimentos.

Gabrielle intensificou sua posição de ataque e com irritação na voz exigiu respostas. “O que você quer?”.

Lúcifer não respondeu de imediato, deu mais alguns passos, porém parou a uma certa distância de Gabrielle. Não conseguia se aproximar mais. Entretanto conseguiu esconder seu desconforto e declarou.

 “Estou aqui para ajudá-la”.

Gabrielle riu sarcasticamente e respondeu.

 “E eu sou Cleópatra!”.

Lúcifer caminhou em direção a fogueira, mantendo sempre uma certa distância da poetiza. Ao se aproximar do fogo, por um breve momento, a Gabrielle teve a impressão de visualizar um rosto diabólico. Um calafrio percorreu sua espinha. Contudo permaneceu firme na sua posição de ataque.

Lúcifer perguntou.

 “Por que é tão difícil acreditar em mim?”. 

Gabrielle sorriu ironicamente e afirmou mais que questionou.

“Será que é por que você é um demônio?”.

Nos lábios do senhor do inferno surgiu um amplo sorriso e um comentário que não foi sarcástico, apenas uma observação.

 “E esse fato devo a você e principalmente a Xena”.

 Lúcifer intensificou seu feliz semblante, seu corpo parecia relaxado, transmitia uma grande comodidade com a circunstância. Não fez acusações.

 “Não estou culpando-as. Sinceramente gosto da minha situação atual. Tenho um reino no qual posso usufruir todos os prazeres possíveis e imagináveis. Deixei de ser um mero pião da vontade de outrem”. Ao afirmar sua última frase, Lúcifer gesticulou, estendendo o braço direito e apontando o dedo indicador para cima.

A barda ficou impaciente e elevou seu tom de voz. Não entendia qual era o objetivo do mestre das trevas.

 “O que quer de mim Lúcifer? Você não veio me ver apenas para me agradecer sobre seu adorável reino”. O timbre da voz mostrava um grande desprezo e ironia.

Novamente um sorriso. Esse somatório de sorrisos de Lúcifer começou a irritar a Gabrielle, contudo, a poetiza controlou sua ira e esperou Lúcifer falar.

 “Tem razão Gabrielle, não estou aqui somente para agradecer, mas também para lhe dizer que sei como você pode reencontrar sua amada Xena”. Essa última frase foi pronunciada lentamente.

Nesse momento todo o autocontrole de Gabrielle se perdeu. Por causa disso, avançou furiosamente para Lúcifer. Este por sua vez se assustou e viu que cometeu um grande erro. Deu várias passadas para trás, procurando se afastar da irritada guerreira. Gabrielle percebeu o receio do demônio e parou. Alguma coisa estava errada. Lúcifer não conseguia se aproximar, Gabrielle se questionou sobre o porquê.

 Gabrielle não soube explicar se Lúcifer adivinhou ou leu seus pensamentos quando o demônio comentou sobre seu desconforto.

 “A sua tatuagem me incomoda”.

 Até aquele momento a poetiza não havia notado que seu desenho de dragão emitia uma certa claridade e esquentava um pouco sua pele. Somente quando parou, desceu parte do casaco de peles e girou seu pescoço para observar parte de sua tatuagem nas costas e perna percebeu o que estava acontecendo. O presente que recebeu no Japão a protegeria de todos os demônios, não somente do Yodoshi. Tal descoberta incentivou a investida violenta da barda no objeto de sua fúria. Gabrielle sem excitação avançou sobre Lúcifer, acertando seu abdômen com o cabo do seu sal direito. Ao mesmo tempo Gabrielle disse em um tom de voz baixo, devagar e cheio de cólera.

 “Não brinque comigo!”.

Lúcifer caiu ajoelhado. A mão esquerda apoiou seu corpo no chão, enquanto a mão direita dirigiu-se ao abdômen. Respirava com muita dificuldade. Todo o poder do dragão foi transmitido nessa agressão. Por causa do golpe o demônio perdeu parte de suas forças, sendo obrigado a revelar seu verdadeiro e horrível aspecto bestial.

Gabrielle observava surpresa os acontecimentos. Parte de sua roupa ficou chamuscada. Sua pele possuía uma leve ardência. Nesse momento compreendeu que poderia ferir Lúcifer, talvez até matá-lo, se isso fosse possível, não sabia ao certo, mas do jeito que seu emocional se encontrava poderia perfeitamente cravar os sais no coração do demônio, só por curiosidade.

Depois de alguns momentos, até recuperar parte do fôlego, Lúcifer se ergueu. Ele encarou Gabrielle que estava com os cotovelos flexionados, segurando os sais na altura do abdômen, com o corpo rígido. Internamente o demônio queria segurar o pescoço da poetiza com sua mão e sufocá-la lentamente. Mas isso seria muito fácil ao seu ver. Pensando em proporcionar um sofrimento eterno a Gabrielle, Lúcifer controlou sua ira e declarou calmamente, porém, por causa da sua característica bestial, sua fala parecia uma ameaça.

“Não estou aqui para jogos. Sei como você pode reencontrar Xena. Você também sabe, mas apenas não teve a chance de pensar nas circunstâncias, já que está em luto”.

Gabrielle deu dois passos à frente, ficando cara a cara com a criatura infernal. A diferença de altura era claramente evidente, mas isso não impediu que a arma na mão esquerda fosse elevada a altura da garganta do demônio de uma maneira ameaçadora. A barda estava no limite de sua paciência. Ela estava em uma luta interna entre simplesmente cortar a garganta do demônio ou escutá-lo. Lúcifer não movimentou. Segurou o olhar de ódio da guerreira e esperou. Por fim Gabrielle sucumbiu à curiosidade e perguntou impacientemente.

 “Como reencontro Xena?!”.

Lúcifer permaneceu inalterado e parcial. Não demonstrou nenhum sinal de emoção. Sua voz refletiu suas ações.

“Você não poderá reencontrar Xena da maneira que a conheceu, porque ela está no paraíso esperando seu momento de renascer. Porém, você poderá esperar esse momento tornando-se imortal, dessa maneira, seu amor por ela nessa vida não morrerá”.

 Houve um momento de silêncio. Gabrielle afastou-se do demônio, dando vários passos para trás, confusa refletia sobre essa informação. A barda esqueceu completamente sobre o processo de reencarnações.

 Como pude esquecer? Xena renascerá. Sua alma voltará para mim! Mas como a encontrarei?” – Gabrielle olhou para Lúcifer e internamente questionou. – “Por que Lúcifer está me ajudando? Não confio nessa súbita preocupação sobre minha dor. Mas de alguma maneira suas palavras fazem sentido”.

A poetiza resolveu esclarecer suas dúvidas, mas ao retornar sua atenção para o demônio viu sua forma humana. Ela não sabia porque, mas se sentia incômoda com esse aspecto. De certa forma era mais demoníaco que a forma bestial, talvez por esconder o que Lúcifer realmente era. Gabrielle expulsou essa observação da sua cabeça e se concentrou nos propósitos de Lúcifer, por que ele a estaria ajudando? Queria saber a resposta e verbalizou essa questão.

 “Por que está me dizendo tudo isso?”.

Lúcifer colocou as duas mãos atrás de suas costas, apoiando uma sobre a outra, transmitindo uma situação mais casual. Gabrielle não gostou nem um pouco da súbita tranqüilidade do demônio. Tinha a impressão que Lúcifer queria ser o mais amigável possível. Por qual motivo, não sabia. Depois de alguns instantes, Lúcifer pronunciou serenamente.

 “Estou pagando uma dívida”. Lúcifer percebeu o olhar interrogativo da Gabrielle, e antes da poetiza ter a oportunidade de formular uma pergunta, o demônio continuou com a explicação.

 “Xena me libertou. Mostrou-me todo o prazer negado por ELE!”, ao dizer essa última palavra, o senhor do inferno estendeu o braço direito novamente e apontou o dedo para cima, demonstrando sobre quem estava falando. Em seguida, retornou sua mão atrás de suas costas e continuou seu comentário, só que desta vez, mais entusiasmado.

 “Eu tenho um reino no qual a minha vontade é soberana!”, nesse momento Lúcifer começou a utilizar enfaticamente as mãos, elevando-as até a altura dos ombros, como se quisesse materializar todo império. Sorriu, abaixou seus braços e comentou paternalmente.

“Minha doce criança, agora compreende as minhas ações?”.

Lúcifer encarou Gabrielle. A poetiza estava absorvendo as informações. Sua fisionomia transmitia dúvida, incerteza e uma certa credibilidade. Aceitando ou não, os argumentos do demônio possuíam uma certa coerência. Depois de algum tempo, Gabrielle falou, porém, como um raciocínio expressado em voz alta, ao mesmo tempo em que gesticulava com a arma na mão direita.

 “Deixa-me ver se entendi. Você está me ajudando a reencontrar Xena porque ela te mandou para o inferno? É isso?!”.

O demônio simplesmente respondeu.

 “Basicamente, sim”.

 Gabrielle bufou e acrescentou.

“Por que sinto que há outras razões nessa história?!”.

 Lúcifer declarou.

 “Porque você é uma guerreira e uma poetiza. Faz parte da sua natureza argumentar, duvidar, questionar”. Lúcifer deu alguns passos para o lado esquerdo, afastando-se do fogo. Nesse processo não olhou para Gabrielle e continuou com sua explicação.

 “Não tenho nada a perder, também não tenho nada a ganhar. Não quero ter a sensação de dever nada, muito menos a Xena”. Lúcifer parou, olhou para a barda e prosseguiu com sua fala.

 “No início odiei Xena... Odiei como fui manipulado. Entretanto, percebi que agora sou senhor da minha vontade, fato que mudou a minha opinião sobre a princesa guerreira. Porém não deixei de detestá-la. Fui enganado. Mas percebi uma certa dívida da minha parte, coisa que pretendo pagar. Assim, ajudando-a estaria liquidando meu débito. Dessa maneira teria mais prazer em destruir suas almas”. Lúcifer finalizou sua explicação com um enorme sorriso.

Gabrielle teve vontade de esmagar o crânio do demônio. A ira foi expressa em sua voz.

 “Você quer encontrar a alma da Xena para condena-la ao inferno! E para isso pretende me usar!”.

Lúcifer falou.

“Não posso condenar ninguém ao inferno. Somente as ações da própria pessoa têm esse poder”.

Gabrielle comentou sarcasticamente.

 “Mas nada o impede de persuadi-la a cometer tais ações!”.

 Antes mesmo de terminar a frase, Lúcifer retrucou.

 “Assim como nada a impede de persuadi-la a não cometer tais ações”.

 Lúcifer sorriu e disse em seguida.

 “Eu encontrarei a alma da Xena. Estou lhe dando a oportunidade de tentar impedir, pois será muito fácil manipulá-la. Estou tentando criar uma certa competição para aumentar o sabor da minha conquista, ao mesmo tempo em que saldo minha dívida. Quero provar que o amor das duas não é forte o bastante para salvá-la do inferno”.

A barda calmamente disse.

 “Xena já foi salva pelo amor. E se for necessário, será novamente”.

Lúcifer friamente falou.

 “O tempo dirá. Mais cedo ou mais tarde terei Xena no meu reino, e você não estará presente para salvá-la”.

Gabrielle encarou o demônio e afirmou com inteira confiança.

 “Não importa onde ou quando, encontrarei Xena!”.

Lúcifer sorriu e não disse nenhuma outra palavra. Acenou com a cabeça em um gesto de desafio, como se não acreditasse na firmeza da declaração da barda, mas em seu íntimo, tinha completa convicção de que a poetiza encontraria Xena. Esse era seu objetivo: Encontrá-la! E quem mais poderia achá-la, se não a sua alma gêmea?  O demônio caminhou em direção a escuridão da floresta, para desaparecer nas sombras.  Seu objetivo foi atingindo. Gabrielle acharia a Princesa Guerreira, Lúcifer só tinha que esperar.

Gabrielle observou o demônio sumir na noite, sentindo a presença de Lúcifer desaparecer. A sensação de tranqüilidade voltou à mata, entretanto, Gabrielle ficou inquieta. Tinha muito em que pensar.

 

CAPÍTULO 2

Amanhecia. Um lindo sol estava surgindo e seus primeiros raios incidiram sobre a forma dormente e cansada de Gabrielle que abriu seus olhos quando a primeira claridade rompeu a escuridão. Sem se mexer, permaneceu deitada lateralmente, protegida do frio da manhã por uma manta de pele. Seu primeiro pensamento foi de pesar, solidão e tristeza. “Mas um dia sem Xena”. Mas rapidamente outras questões tomaram conta de sua mente, as mesmas que roubaram seu sono.

A poetiza dormiu pouco, basicamente um cochilo, não conseguiu acalmar seus pensamentos depois de seu encontro com Lúcifer. O demônio conseguiu abalar ainda mais seu estado emocional. Sentia que as palavras do Senhor do Inferno eram ambíguas. A barda acreditava em algumas partes, principalmente o fato que Lúcifer iria fazer qualquer coisa para adquirir a alma de sua amada, não importando quanto tempo leve ou em qual reencarnação. A questão principal era: por que Lúcifer se deu o trabalho de avisa-la? No Reino da Terra, o demônio tinha pouco poder, somente no Reino do Inferno possuía uma grande força, Eli uma vez tinha lhe dito isso, por isso os demônios invadiam os corpos dos humanos, porque materializar requer uma grande força, sendo mais fácil tomar um corpo já existente.

Lúcifer foi pouco convincente ao afirmar que queria uma competição pela alma da Xena, menos ainda ao dizer que queria pagar uma dívida. Gabrielle sentia que havia outro motivo, mas qual seria? Não há como prever o que se passa em uma mente diabólica, o único fato verdadeiro era que a poetiza tinha que fazer qualquer coisa para proteger sua amada, mesmo não sabendo as conseqüências de suas ações.

A Gabrielle levantou para preparar-se para a viagem até Amphipolis. Estava a menos de um dia de distância. Queria que o resto mortal de Xena descansasse entre seus parentes, mas depois do encontro da última noite sentia que essa não seria a coisa certa para ser feita. Com esse pensamento caminhou até Argo e acariciou seu focinho. Gabrielle não tinha fome, na verdade seu apetite se perdeu junto com sua alma gêmea. Só se alimentava o necessário para ficar de pé e, com todas essas perguntas, sentia ainda menos fome.

Gabrielle olhou para a égua a sua frente. Tentou achar respostas.

 “Certo menina, o que eu faço?”.

A égua relinchou e balançou a cabeça. Argo parecia sentir a aflição da humana. Algo estava errado, porém nada podia ser feito a não ser conduzir sua montaria na direção que ela indicasse.

 Gabrielle sorriu tristemente e comentou amorosamente.

 “Assim você não me ajuda muito”.

A barda acariciou a égua e começou a prepara-la para a montaria e, ao fazer essa tarefa, sentiu uma grande agonia em seu peito, pois sua mente foi invadida por uma pergunta.

“E se eu falhar?”.

 A possibilidade da alma da Xena ser encontrada e condenada ao inferno afligiu profundamente a poetiza. Lúcifer é um representante maléfico, e Xena possui uma grande atração pelo poder, violência e morte. A guerreira já foi corrompida, podendo ser novamente. Gabrielle entendia que sua presença foi fundamental para o equilíbrio entre o bem e o mal, salvando sua amada de um flagelo eterno.

As mãos da barda pararam na correia da sela. Respirava pesadamente. Gabrielle focalizou suas preocupações em torno das intenções do demônio, e agora, ao pensar sobre a probabilidade de Lúcifer requisitar a alma da Xena compreendeu que as intenções de Lúcifer não têm importância alguma. Provavelmente ele só queria atormentá-la, alegrar-se com seu sofrimento e, ao anunciar suas intenções atingiria seus objetivos: causar dor e desgraça. Gabrielle sussurrou.

 “Ele quer a minha imortalidade para que eu viva em eterna agonia”.

Todos os equipamentos do acampamento foram rapidamente guardados. Gabrielle havia tomado sua decisão. Se o preço da salvação e proteção da alma da Xena fosse uma imortalidade em busca de sua amada, ela faria isso. Não importa em quantas reencarnações Xena renasça, Gabrielle a encontraria e a amaria, mesmo que isso causasse dor, pois em cada nascimento haveria uma morte e, novamente, uma perda.

 Gabrielle montou Argo. Acariciou seu pescoço e disse.

 “Espero que Xena me perdoe, ela não concordaria muito com isso”.Deu um leve ponta-pé no estômago da égua, cavalgando o mais rápido possível para o norte, se afastando de Amphipolis.

 

CAPÍTULO 3

Michael observou tudo atentamente através de um espelho de água de uma fonte cristalina que brotava do interior de uma caverna de uma grande montanha, que possuía seu pico eternamente envolvido por neve. Essa montanha, em sua base, era rodeada por uma linda floresta. Nesse local o arcanjo conseguia visualizar o que ocorria no Reino da Terra. Ao seu lado uma figura também acompanhava o desfecho dos acontecimentos. Estava muito preocupado.

 “Precisamos intervir Michael”.

O arcanjo olhou com compaixão e pronunciou.

“Não podemos. Gabrielle tomou sua decisão. Não podemos interferir no livre arbítrio dos mortais”.

A amorosa figura respondeu.

“Ela foi influenciada por Lúcifer, podemos avisar Gabrielle do perigo por meio de Eva. Através do seu livre arbítrio ela poderá ajudar ou não Gabrielle”.

Michael sorriu.

 “Ela ajudará Gabrielle. Eva não a deixará cair em perdição”.

O preocupado homem questionou.

 “Espero que sim, pois Gabrielle ama fervorosamente. Lúcifer sabia disso. Esse amor é a maior arma da minha amiga, e ao mesmo tempo sua maior fragilidade”.

O anjo guerreiro colocou sua mão no ombro de Eli e falou com pesar.

 “Não estamos falando somente de uma alma. Se a artimanha de Lúcifer prevalecer, a humanidade cairá em desgraça. O demônio andará livremente no Reino da Terra”.

Eli olhou profundamente nos olhos do arcanjo.

 “Com isso presenciarei duas infelicidades, a perdição das almas de duas amigas e a destruição da maior beleza que nosso Senhor realizou. Algo tem que ser feito”.

O anjo pronunciou.

 “Não podemos tirar aquilo que foi dado à humanidade, o que os tornam tão belos. Eles são senhores das suas escolhas. Podemos mostrar o caminho, cabe aos humanos decidir”.

O santo homem sorriu. Havia esperança.

“O Senhor não deixará Gabrielle”.

O Arcanjo comentou.

 “O Senhor não abandona nenhum de seus filhos. São seus filhos que o abandona. O Senhor dará uma escolha para sua amiga. Caberá a ela decidir entre sua salvação ou não”.

Eli compreendeu a profundidade das palavras do anjo, mas ao mesmo tempo sentiu uma grande aflição. Gabrielle ama muito para medir as ações e as conseqüências de seus atos.

Michael percebeu o medo do homem a sua frente.

 “Entendo sua angustia. Não peça para interferir. Não podemos, mas você poderá avisar Eva. Daremos uma escolha a Gabrielle”. Com essas palavras o arcanjo volta a visualizar a poetiza em sua cavalgada para seu destino.

Eli fez um último comentário.

“Precisamos avisar Xena”, em seguida olhou tristemente para Gabrielle.

 

CAPÍTULO 4

Em algum lugar da Grécia Antiga.

 

Eva estava deitada lateralmente em um verdejante campo. Uma grande árvore proporcionava uma refrescante sombra, protegendo-a do intenso sol. Vestia uma simples saia marrom com uma blusa da mesma cor com detalhes verdes que cobria seus seios, deixando a mostra seu lindo abdômen. Há poucos metros uma linda cachoeira desaguava em um lago cristalino, e tal espetáculo era observado e admirado por Eva.

 Caminhando em direção a figura distraída, um homem. Não tinha pressa. Apreciava a beleza da natureza em sua volta. Sua presença transmitia paz e amor. Ao chegar em seu destino, sem ser notado pela Eva, ajoelhou atrás da mulher. Em seguida, com uma carinhosa voz a saudou. “Olá Eva”.

Ao ouvir uma calorosa voz Eva virou-se para deparar com o olhar mais bondoso já existente. Um intenso sentimento de afeto percorreu seu corpo. Eva não conseguiu formular palavras, apenas contemplou a benevolência que emanava do indivíduo ao seu lado. Vários instantes foram gastos nessa contemplação até o momento em que Eva moveu e ficou na mesma posição ajoelhada do homem a sua frente. Eva reparou que seu visitante trajava uma túnica longa, da cor azul claro com detalhes em branco, seu cabelo era comprido e castanho, assim com sua barba e olhos.

O homem em nenhum momento proferiu palavras, apenas esperou Eva se adaptar a sua presença. Logo após alguns momentos, não se sabe ao certo o tempo, Eva falou com muita alegria.

 “Sinto o amor emanar do seu ser... Como... Como se fosse algo sólido... Quem é você? Por favor, me diga”.

O gentil homem sorriu, mas seu semblante mudou e Eva sentiu tristeza.

 “Sou amigo de sua mãe e de Gabrielle e por elas estou aqui”.

Eva inquietou-se, percebeu que o misterioso homem não trazia boas notícias.

“O que aconteceu?”.

Antes de dizer qualquer coisa, o homem segurou uma das mãos de Eva que se encontravam entrelaçadas a frente de seu corpo. Eva foi inundada com um sentimento de afeto e também de aflição. Algo estava errado. A ex-guerreira não conseguiu esconder a angustia da sua voz.

 “Por favor, diga-me o que aconteceu com as duas pessoas que mais estimo”.

O homem olhou profundamente nos olhos de Eva.

 “Xena viveu uma dura escolha a uma lua atrás. Teve que optar entre realizar a coisa certa, porém morrer e deixar Gabrielle, ou negligenciar a salvação de milhares de almas por seu amor”.

Eva observou o homem com angústia. Estava tentando absorver as palavras que acabou de ouvir. Uma intensa dor encheu seu peito. Eva sentiu carícias em suas mãos. O desconhecido a sua frente tentava confortá-la. A ex-guerreira não o conhecia, mas sentia que não era um desconhecido, era uma pessoa muito próxima a ela, que a amava. Esse sentimento aliviou um pouco a angústia que crescia em sua alma. Depois de algum tempo, Eva conseguiu controlar seus sentimentos e racionalizar as palavras.

“Minha mãe escolheu a morte, mesmo que com isso fosse obrigada a deixar a Gabrielle”.

O homem acrescentou.

 “Xena conseguiu evoluir espiritualmente por causa de suas boas ações. O amor de Gabrielle a salvou, porém para Gabrielle a morte de Xena foi um duro golpe”. O desconhecido olhou profundamente nos olhos de Eva e continuou.

 “Gabrielle está sofrendo e essa dor pode levá-la a tomar decisões que a prejudicará. Ela está muito frágil, suscetível a manipulações”.

Uma profunda preocupação foi instalada no coração de Eva, sendo refletida em sua voz.

 “Quem quer prejudicar a Gabrielle?”.

De maneira convicta afirmou. “O mal! A alma de Gabrielle está em perigo”.

Um arrepio percorreu o corpo de Eva.

 “Que tipo de mal?”.

O homem respondeu.

“As almas passam por ciclos na Terra com o objetivo de evoluírem para entrar no paraíso, a cada passagem de um ciclo para outro a pessoa fica no limbo, até reencarnar para prosseguir na sua evolução, porém, depois de reencarnadas, por causa do livre arbítrio, as ações de uma pessoa podem impedir que a alma continue a evoluir, podendo até condená-las ao inferno”.

Eva tentou entender a explicação.

“Gabrielle fez algo que a condenou ao inferno?” Eva suspirou e continuou. “É isso que você quer me dizer?”.

O homem explicou.

 “Xena praticou o mal, mas também praticou o bem, graças ao amor. Isso a fez ter o direito de continuar com suas reencarnações”.

 Eva por um breve momento deixou-se levar pela impaciência e interrompeu o desconhecido.

 “Eu não entendo”.

 O homem sorriu e disse.

 “Eva não deixe a impaciência prevalecer, estou aqui para esclarecer”.

Eva abaixou a cabeça, sentiu uma profunda vergonha. Vendo o desconforto de Eva o homem segurou o queixo da mulher a sua frente, forçando-a a olhar em seus olhos.

 “Não se envergonhe. Sua impaciência é fruto do amor que sente pela Gabrielle. Sei que quer ajudá-la, assim como eu”.

Eva olhou nos olhos do bondoso homem e falou.

 “Por favor, continue”.

 O homem balançou a cabeça em sinal de afirmativo e continuou.

 “Gabrielle é a alma gêmea de Xena, ambas estão destinadas a se encontrarem em cada reencarnação, pois uma ajudará a outra a evoluir. Porém, Gabrielle será tentada a impedir seu ciclo de evolução”, o homem parou de falar para permitir que Eva entendesse a situação.

 “Mas quem quer prejudicar a Gabrielle? Como ela será tentada? Como posso ajuda-la?”. Questionou Eva.

“Lúcifer seduzirá Gabrielle com a imortalidade com o propósito encontrar a reencarnação de Xena. Lúcifer almeja vingança contra aqueles que o condenaram ao inferno e, essas pessoas seriam Xena e Gabrielle, contudo como Xena está inalcançável até o próximo ciclo, sua irá voltou-se contra Gabrielle. Ele está usando nossa querida amiga para poder encontrar a alma da Xena”.

Eva possuía uma dúvida e questionou.

 “Como a imortalidade poderá prejudicar a Gabrielle?”.

“A imortalidade condenará Gabrielle a um grande tormento, já que ela passará a eternidade procurando o ser amado, e sofrendo com cada morte da reencarnação de Xena. Ambas possuem uma ligação muito forte, algo único, um laço inseparável. Lúcifer revelou parte de seu plano para nossa amiga, que caçaria a alma da Xena para corrompê-la e, dessa maneira, adquiri-la no inferno. Por isso Gabrielle busca a imortalidade, para proteger sua mãe. Porém, Lúcifer omitiu seu real propósito. Ele não quer somente infligir uma eterna dor a ambas, também pretende devolver o trono do Reino do Inferno a Xena, assim ficaria livre para construir seu reinado no Reino da Terra. Além disso, não cabe a Gabrielle contradizer sua morte. Todos morrerão. Faz parte do processo de crescimento espiritual, assim como é inconcebível uma pessoa tirar sua vida. Tais ações são condenáveis ao Inferno. Se o plano de Lúcifer for concretizado, nossas amigas perderão suas almas”.  

O estranho parou de falar para observar a transformação da natureza a sua volta. Eva sentiu um grande receio. Uma grande aflição instalou em seu coração. Nuvens negras apareceram no céu cobrindo todo o azul. Um vento forte e frio balançou as folhas das árvores, como pressagio do mal. Eva encarou o olhar apreensivo do misterioso homem e levantou bruscamente, entendia sua angústia.

 “Preciso partir para alertá-la. Gabrielle tem uma promessa a cumprir. Sei que ela está levando os restos mortais da minha mãe para Amphipolis. Como Gabrielle foi uma rainha amazonas, acredito que ela cremou o corpo, dessa maneira estará viajando mais rápido”.

O estranho levantou e acenou com a cabeça, porém retrucou.

 “Você não chegará a tempo em Amphipolis, pois ela mudou de direção”.

Eva perguntou.

 “De que maneira Gabrielle tentará conseguir a imortalidade?”.

O estranho respondeu.

 “Com as maçãs douradas, pois a Gabrielle sabe onde está, quem está as guardando e protegendo”.

 Eva suspirou.

 “Está com Odin. Como poderei encontrá-lo?”.

 “Encontre as valkirias que você o encontrará”.

Antes de partir Eva sentiu timidez, mas questionou.

“Você é quem eu penso que é?”.

O homem apenas sorriu. Não precisou responder, Eva já sabia a resposta. Era Eli.

 De repente Eva sentiu um vazio, como se a sensação de paz a deixasse. Ao olhar em volta percebeu que estava deitava. Levantou seu tronco subitamente, apoiou suas mãos no colchão para ter melhor equilíbrio. Dessa maneira pôde analisar melhor o ambiente em sua volta. O quarto era pequeno e modesto, com poucas mobílias. Somente uma cama de tamanho médio que acomodava confortavelmente uma pessoa, até duas com uma certa dificuldade. Tinha também uma pequena mesa com um jarro de água, uma cadeira e uma lareira acessa para aquecer o quarto nessa noite fria. Aos poucos lembrou que estava no templo de Eli. Esse templo ficava mais ao sul da Grécia.

 Eva tentava levar as palavras de Eli para todas as pessoas e, nesse momento conseguiu sensibilizar algumas pessoas dos povoados mais distantes, e juntos construíram templos onde todas as pessoas eram bem vindas para conversarem e orarem em nome do amor e da paz.

Eva perdeu a sensação tranqüilizadora que Eli lhe transmitia. Mesmo que fosse um sonho com tristes notícias, Eli emanava paz e amor. A ex-guerreira levantou e sentou na beirada da cama com a cabeça abaixada. Um turbilhão de sentimentos transcorria pelo seu ser. Eram emoções conflitantes. A tranqüilidade da presença de Eli. A tristeza ao saber sobre a morte de sua mãe. A preocupação sobre o perigo que Gabrielle estava correndo. Ela precisava ajudar a poetiza. Tinha que fazer isso. Eva devia isso para sua mãe.

A ex-guerreira segurou a angústia ao pensar em sua mãe. Algumas lágrimas correram pelo seu rosto, mas ao pensar na Gabrielle, como a barda devia estar sofrendo, resolveu controlar sua dor e ser forte para ajudar sua amiga. Eva levantou a cabeça e sussurrou uma oração.

 “Mãe, sentirei sua falta. Eu a amo. Queria ter passado mais tempo com você. Sei que sua decisão de deixar esse mundo foi a certa. Você aprendeu a dominar o seu lado mal e a utilizá-lo para o bem e me ensinou a fazer o mesmo, mas temo que Gabrielle não consiga suportar sua partida e, por causa disso, algo ruim aconteça”. - Eva suspirou e mais lacrimas caíram. - “Eu a ajudarei mãe, antes que seja taarde”.

Eva levantou da cama, colocou suas sandálias pegou uma bolsa de couro colocou dentro alguns pertences, roupas, colcha, e uma faca. Em seguida vestiu um casaco de couro. Ao terminar rapidamente deixou o quarto e entrou no salão principal do templo. Algumas tochas pregadas as paredes iluminavam o local. O salão não possuía nenhuma mobília. Era um espaço vazio, sem luxo, porém era bem arejado e limpo. Nos dias de orações, cada um trazia uma pequena manta para sentarem e ouvirem as palavras de Eva. A ex-guerreira se encontrava nesse local, uma pequena vila chamada Devon, há vários meses e, nesse tempo, teve como discípulo Cláudio, o ferreiro da região. Um homem honesto, próximo aos 40 anos, forte, cabelos castanhos e olhos da mesma cor, casado e, desse matrimonio, possuía 03 filhos.

A cada vila e cidade, Eva preparava alguém para divulgar as palavras de Eli, dando assim continuidade a sua obra. Eva sentia-se tranqüila em deixar a vila, pois tinha uma pessoa preparada para conduzir as orações. Pensando nisso deixou o templo e dirigiu-se para a casa do ferreiro.

Cláudio acordou com fortes batidas na sua porta. Sua esposa, Virgínia, dormia pesadamente. O ferreiro levantou resmungando alto.

 “Quem pode estar batendo na porta tarde da noite?”.

 Acendeu uma vela e com mau humor atendeu a porta. Ficou surpreso ao ver que era Eva.

 “O que aconteceu? Está tudo bem?”.

 A ex-guerreira aparentava uma certa inquietação.

 “Estou partindo e preciso do seu cavalo”.

 Cláudio sentiu um súbito desespero.

“Por que está nos deixando dessa maneira?” Antes de Eva respondê-lo, ele a conduziu para dentro de sua casa.

 “Cláudio preciso ajudar uma amiga e tenho pouco tempo. Prometo devolver seu cavalo assim que possível”.

O ferreiro percebeu que Eva estava aflita. Uma imagem bem diferente daquela mulher paciente e calma.

“O cavalo não é importante. Estou preocupado com você”.

Eva sorriu.

 “Não se preocupe, estarei bem. Eli está comigo. Ele me protege... Nos protege e sei que Eli o guiará, assim como guiará as pessoas que ouvirem suas palavras”.

 Cláudio entristeceu.

“Sentirei sua falta, você mudou a vida dessa pequena vila”.

Eva apenas respondeu.

“Não mudei nada, vocês que escolheram receber a palavra de Eli e serem pessoas melhores. Sou apenas uma mensageira”.

 Cláudio abraçou Eva docemente.

 “Tenha cuidado, estaremos orando por você”.

Eva correspondeu o abraço.

“Obrigada. Cuide do templo. Você também está preparado para ser um mensageiro de Eli”.

Eva afastou ligeiramente seu corpo do Cláudio, porém manteve suas mãos segurando seus antebraços. Olhou profundamente nos olhos do ferreiro. Sem dizer mais nada deixou a casa indo buscar o cavalo. Cláudio ficou na porta observando sua amiga entrar no celeiro. Rapidamente Eva arrumou o cavalo, colocando a cela.

Cláudio ficou observando no escuro a figura de Eva cavalgando velozmente pela estrada, desaparecendo na escuridão.

 

CAPÍTULO 5

Em uma área gramínea com poucas árvores e muitas flores, de várias espécies e cores, que cresceram sobre a proteção da doce sombra das copas, encontravam duas figuras em luta. Era uma manhã de temperatura amena e com um lindo sol que aquecia deliciosamente a pele

De um lado encontrava-se um arcanjo trajando vestimentas vermelhas encobertas por uma armadura prateada. Do outro lado estava Xena, vestindo uma túnica branca que cobria a metade de suas coxas, permitindo que a guerreira realizasse qualquer movimento. Em seus pés uma simples sandália, mas em seu rosto havia um sorriso malicioso, como de uma fera que brinca com sua presa antes do golpe fatal.

Ambos seguravam suas espadas na altura de suas cabeças, forçando uma contra a outra, ao mesmo tempo em que travavam uma batalha de olhares. O arcanjo mostrava admiração, surpresa pela força e técnica de Xena, bem diferente do olhar da princesa guerreira, que era de divertimento. Por fim a guerreira ganhou o duelo de força e empurrou o anjo, obrigando-o a se afastar alguns passos para trás, mas mantendo a espada elevada ao nível de seu ombro direito. O arcanjo mostrava sinais de irritação, porque seu oponente não fazia seu melhor e, essa era a questão: Se Xena realmente quisesse lutar, o duelo já estaria ganho há muito tempo.

Uma brisa sobrou sobre os lutadores, movimentando as folhas verdes das poucas árvores presentes. Tal fato foi percebido pelo arcanjo que observou admirado a beleza do lugar, diminuindo assim sua irritação.Por causa disso baixou os braços, segurando a espada com a mão direita. Em seguida inclinou a cabeça para a esquerda, estalando o pescoço. Não poderia perder a calma, era só uma luta. Conseqüentemente após esse raciocínio colocou a mão esquerda no cabo da espada para segurá-la com mais firmeza. Xena por sua vez girava a espada com a mão direita, enquanto a esquerda permanecia estendida a frente do seu peito. Seu sorriso ficou mais amplo. O arcanjo odiou, pois sabia que Xena brincava com ele.

No momento em que o anjo fez menção de se mexer ouviu um chamado.

“Gabriel!”.

A guerreira e o arcanjo voltaram seus olhares para o lado em que o som vinha. Ambos relaxaram e abaixaram suas espadas. Michael aproximava-se.

“Gabriel, você ainda insiste em ganhar da Xena?” Perguntou Michael com um leve riso nos lábios e colocando a mão sobre o ombro do amigo.

“Tenho a eternidade”. Argumentou.

Michael falou.

“Sim, mas sua luta terá que esperar. Preciso conversar com Xena”.

O arcanjo Gabriel acenou levemente com a cabeça e olhou para a guerreira.

Xena apenas respondeu.

“Até a próxima Gabriel”. Em seguida entregou sua espada para o arcanjo que partiu a passos lentos para o norte. Em seus pensamentos refletia sobre sua última batalha, onde incidia seus erros. Ele havia de ganhar, um dia.

Depois que o Gabriel partiu, Michael estendeu seu braço direito e perguntou.

“Caminha comigo?”.

“Sim”. Foi a resposta ouvida.

Xena caminhou por alguns momentos ao lado direito de Michael, como sempre sua impaciência prevaleceu.

“Você não está aqui por causa da minha companhia. O que está havendo Michael?”.

Michael parou e encarou a mulher a sua frente. Xena fez o mesmo e continuou sua indagação.

“Quando poderei voltar para o Reino da Terra?”.

A reação da guerreira é imprevisível, e o arcanjo tinha conhecimento desse fato. Mas uma coisa tinha certeza, Xena não aceitaria muito bem suas informações.

“Você não poderá voltar para o Reino da Terra, pelo menos por enquanto”.

Xena visivelmente tentou controlar sua frustração.

“Por que não?”.

Michael respondeu calmamente.

“Não é sua hora. Você tem que permanecer nesse limbo por algum tempo. Sua presença no Reino da Terra desencadeará uma catástrofe, além de interferir no livre arbítrio de Gabrielle”.

A guerreira princesa foi invadida por uma profunda preocupação ao ouvir o nome de sua amada.

“Que tipo de catástrofe e o que a Gabby tem haver com isso?”.

“Lúcifer pretende conquistar o Reino da Terra, entretanto, precisaria de sua alma, para ocupar o trono do Reino do Inferno, já que é a dona por direito. A Gabrielle não sabe de tais planos. Contudo Lúcifer a procurou e a manipulou, dizendo que perseguirá sua alma por vingança, por ter sido enganado. Gabrielle tentará evitar que sua alma seja reivindicada pelo demônio”.

“Assim, você me deixou aprisionada no limbo para evitar que o plano de Lúcifer funcione?”.

“Você não está aprisionada, apenas aguarda seu momento de reencarnar”.

Xena ironicamente comentou.

“Qual é a diferença? Não posso voltou para a Terra porque você não permite”.

Michael defendeu-se e justificou austeramente.

“Não parte de mim a decisão do momento que uma alma teve reencarnar ou não. Você fez sua escolha entre Gabrielle e as almas japonesas e, por tal decisão, além da abdicação de ser senhora da guerra, procurando clemência através da benevolência e altruísmo, teve direito a prosseguir com sua evolução espiritual através das reencarnações, escapando do inferno”.

O arcanjo fez um breve intervalo em sua fala e continuou seu comentário com um tom menos severo. Xena permanecia calada, refletindo.

“Você não pode voltar a Terra até que Gabrielle decida seu próprio destino”.

A guerreira perguntou devagar, em um sussurro. Tinha medo que sua amada fizesse algo que a prejudicasse em favor de sua alma gêmea.

“O que exatamente Gabrielle está pretendendo fazer para me proteger?”.

O arcanjo disse com compaixão.

“Ela quer ser imortal”.

Tal frase foi como um tapa no rosto de Xena. Agora entendia.

“Se Gabrielle tornar-se imortal, não poderá evoluir através das reencarnações e não teremos a chance de nos encontrarmos”.

Michael completou.

“Ela a encontrará, seu amor é grande o bastante para reconhecer a alma gêmea. Mas esse não é a principal questão. Gabrielle sofrerá, porque a cada reencarnação você esquecerá da vida passada, esquecendo seu amor. A cada reencarnação seu amor renascerá e morrerá, assim Gabrielle sofrerá a cada morte sua”.

Xena quase chorou.

“Um tormento eterno”.

Michael continuou.

“Gabrielle estará condenada ao inferno, caso sua escolha seja a imortalidade”.

Xena olhou assustada para o arcanjo. Não podia acreditar que a alma mais bondosa da Terra poderia padecer no inferno.

 Michael tentou continuar, mas não suportou ver o sofrimento de Xena.

“Ela não tem o direito de ser imortal. Se ela escolher esse caminho, no fim dos dias, no julgamento final na presença de Deus, sua alma será de Lúcifer”.

Xena segurou pelos ombros desesperadamente o arcanjo e implorou.

“Eu preciso avisá-la, por favor”.

Tal cena era intensa. Xena sofria em saber que Gabrielle corria risco e nada podia fazer.

Michael explicou.

“Gabrielle sabe do tormento que passará, o próprio Lúcifer a disse, apesar de esconder seu principal objetivo. Além do mais, Eli avisou Eva. Sua filha tentará impedi-la. Não podemos interferir no livre arbítrio dos mortais. Nossas esperanças estão em Eva e no seu poder de persuasão sobre Gabrielle”.

Xena afastou-se do Michael, virando de costas. Pensou em uma maneira de sair daquele limbo.

O arcanjo ouviu os pensamentos de Xena.

“Não há como sair do limbo. Somente no seu momento de renascimento”.

A guerreira virou para o Michael e disse furiosamente.

“Não posso aceitar essa situação”.

Michael foi inflexível.

“Você não tem escolha. O destino da Gabrielle está em suas próprias mãos. Ela quer proteger você, pois sabe que é sucessível a tentação do poder, podendo ser corrompida por Lúcifer. Gabrielle acredita que se tornando imortal poderá protegê-la de tal corrupção, pois lembrará dos fatos e do amor que sente, pois se reencarnar esquecerá, podendo não estar ao seu lado em tais momentos de fraqueza”.

Michael aproximou de Xena e tentou consolá-la.

“Vamos rezar pelo melhor. Acreditar que Eva conseguirá influenciar a Gabrielle para não fazer tal loucura”.

Xena olhou profundamente para o arcanjo.

“E se o que Gabrielle estiver fazendo não for loucura. Ela é a única pessoa que conhece profundamente a minha alma. Talvez sua atitude seja a certa. Sou suscetível ao poder, poderei ser facilmente corrompido pelo demônio e, se isso ocorrer, o Reino da Terra será destruído. A humanidade não pode depender apenas do meu livre arbítrio”.

Michael respondeu.

“Por isso que Gabrielle é sua alma gêmea. Ela é sua consciência, seus olhos para o certo”.

Michael completou.

“Vamos ter esperança”.

Xena sentiu um grande desespero. Entendia a atitude de Gabrielle e sabia que Eva dificilmente conseguiria mudar sua mente.

 

Capítulo 6

Sete dias depois.

O cavalo e sua montaria cortaram velozmente a estrada mal conservada, invadida por vegetação rasteira e ervas daninhas, dirigindo-se para o templo da deusa do amor. Ao chegar ao seu destino, parou e encarou o templo abandonado. A arquitetura era simples, um templo modesto de tamanho pequeno, ao estilo romano, com mármore e com o teto em triângulo, onde os amantes e apaixonados podiam fazer suas oferendas e pedidos sem serem molestados. A entrada possuía uma pequena escadaria com dez degraus de mármores. Possuía também dois pilares que sustentavam a cobertura da entrada.

 O primeiro sentimento da amazona foi de repulsa pelo local e pela deusa. Não queria recorrer as entidades que tentaram matá-la, mas para salvar Gabrielle, não havia outra escolha.

Eva desceu do cavalo, amarrando-o a uma árvore. Em seguida caminhou a passos rápidos até a entrada, subiu os degraus e parou em frente aos portões que davam ao salão. Eram altos, para um templo pequeno. Os portões estavam semi-abertos. Eram de madeira com entalhes que faziam referência a intimidade de duas pessoas, não sendo necessariamente eróticos. 

A seguidora de Eli percebeu sinais de apodrecimento da madeira, sua vontade era simplesmente chuta-los para dar passagem, mas controlou a sua fúria. Sua cólera, decorrente da sua angústia e da sua pressa, crescia a cada minuto. Não esperava demorar tanto para encontrar um templo da Afrodite. Tentou outros dois locais, mas deparou-se com ruínas. Por sorte encontrou um pastor com suas ovelhas e perguntou se conhecia algum santuário da deusa do amor. O pastor respondeu que havia um pequeno templo indo para o sul, mas não sabia se estava de pé ou não. Eva agradeceu e cavalgou o mais rápido possível. Na mente do homem havia muitas perguntas, mas as guardou para si. Achou estranho alguém procurar templo de deuses depois de décadas sem cerimônias de adoração. O povo não acreditava mais nos deuses, sempre havia um ou outro, mas eram muito poucos. Não querendo perder tempo com esses pensamentos, o velho pastor voltou ao seu rebanho.

Os portões pareciam que cairiam a qualquer toque. O da esquerda estava tombado para dentro do salão, sendo segurado apenas por uma dobradiça enferrujada, já que as outras duas, mais superiores, desprenderam-se da madeira podre.

Com extremo cuidado, Eva empurrou o portão do lado direito, já que este aparentava maior conservação. Entrou no salão. Havia seis grandes janelas de madeiras podres, três do lado direito e outras três do lado esquerdo. Todas estavam abertas e possuíam cortinas rasgadas que outrora foram brancas, deixando entrar a luz solar dessa tarde morna, incomum para o outono. O local acumulava poeira, sujeira, teias de aranhas e mofo. A frente estava uma estátua da deusa do amor em tamanho natural, coberta por uma camada escura de sujeira.

O desconforto da situação invadiu Eva. Sua ira crescia. Há muito tempo não tinha um sentimento parecido. A perda de sua mãe e o risco que Gabrielle corria fazia com que sentimentos ruins dominassem seu corpo. Eva tentou se acalmar. Fechou os olhos e respirou profundamente por vários momentos. Depois de alguns minutos sentiu a tranqüilidade voltar. Abriu os olhos, focalizou a estátua e programou o mais alto possível.

“Afrodite apareça!”. Eva esperou um instante e continuou.

“Quem lhe chama é a filha de Xena! Eva!”. Eva esperou um pouco. Não houve resposta. A seguidora de Eli ficou desesperada. Recorreu para a profunda amizade que a deusa nutria pela poetiza.

“Gabrielle precisa de ajuda!”.

Logo em seguida Eva sentiu a presença da Afrodite atrás de si.

Eva virou e olhou para a deusa. Afrodite interrogou.

“O que aconteceu com a minha pequena?”.

Eva tentou explicar.

“Minha mãe morreu”.

Afrodite cortou a explicação da Eva com uma lamentação. Colocou a mão direita sobre o rosto e disse:

“Não pode ser”.

Eva continuou e maneira resumida.

“Lúcifer está aproveitando o momento de fragilidade de Gabrielle para induzi-la a fazer algo que a prejudicará profundamente. Ele desafiou Gabrielle, dizendo que passará a eternidade atrás da alma da minha mãe, atrás de suas reencarnações para tentar seduzi-la, para condenar sua alma ao inferno”.

A deusa perguntou em desespero.

“Ele pode fazer isso?”.

“Sim, ele pode. Gabrielle sabe disso, por isso está disposta a perder sua alma para proteger minha mãe. Nossa amiga está atrás das maçãs douradas em busca da eternidade para evitar que Lúcifer atinja seu objetivo”.

Afrodite tentou entender.

“Mas por que a eternidade prejudicará Gabrielle?”.

“O tempo dos deuses terminaram. Um Deus maior, criador de todos nós, reivindicou as almas humanas. ELE não permite que os humanos retirem vidas de outros ou de si próprios, pois além do presente do livre arbítrio, também nos presenteou com o renascimento, para evoluirmos espiritualmente. Se a Gabrielle torna-se eterna, não conseguirá evoluir, e dessa maneira não alcançará o paraíso”.

Afrodite desesperou-se.

“Sou imortal”.

Eva segurou a mão da deusa. Sentiu compaixão. A seguidora do amor tentou esquecer que os deuses tentaram matá-la. Ali, a sua frente estava uma mulher que perdeu toda a sua família e o mundo que conhecia mudava. Eva tentou confortá-la.

“Você não teve escolha. Nasceu deusa. Não sei quais são os planos do Senhor para você, mas ele sabe o coração bondoso que bate dentro desse peito, e sei que isso pesará no final”.

Os olhos de Afrodite lacrimejaram, soltou o ar de seus pulmões.

“Obrigada”.

Eva soltou a mão da deusa, deu um doce sorriso a Afrodite.

Afrodite acalmou-se e perguntou.

“Eva, você fala em salvar a alma de Gabrielle, mas e a alma de sua mãe? Pelo que estou entendendo, a imortalidade de Gabrielle é a única maneira de salvar Xena”.

Eva respondeu.

“Não é a única maneira. Gabrielle é a alma gêmea da minha mãe, estará destinada a encontrá-la em suas próximas vidas. Nossa amiga sempre será o equilíbrio de Xena. Lúcifer utilizou o fato que em cada renascimento esquecemos nossa vida passada. Gabrielle foi invadida pelo pavor de não lembrar de seu amor. Mas devemos lembrá-la que o amor também renascerá”.

Afrodite compreendeu a situação.

“Como posso ajudá-la?”.

Eva sorriu. Tinha esperança no coração.

“Preciso que me leve a Odin. Sei que ele possui as maçãs douradas. Tenho que chegar antes da Gabrielle”.

A deusa colocou sua mão sobre o ombro de Eva.

“É pra já, queridinha!”.

Um raio de luz iluminou seus corpos, deixando o templo em sua tranqüilidade e abandono.

 

Capítulo 7

 Vários dias depois.

A neve fina, mas constante dificultava o progresso da viajante pela estrada. O crepúsculo anunciava que o dia estava no fim. A sombra caia lentamente sobre as árvores ao redor, deixando-as com um aspecto sombrio. Ouvia-se apenas o vento frio entre as copas e o som dos passos por cima da estrada de terra batida e o galopar de um cavalo. Não havia sinal de animais ou de presença humana, entretanto, Gabrielle sabia que em breve chegaria a Cirdan, também conhecida como a Cidade das Valkirias, pois podia vê-las em seus cavalos alados.

A neve começou a cair mais pesadamente, forçando a poetiza a caminhar mais rapidamente. Gabrielle fechou melhor seu casaco, tentando se proteger do frio. Estava em pleno inferno, e a temperatura caia a cada hora. Suas calças grossas de couro marrom e a dupla camada de blusa de algodão, que estava escondido pelo seu longo casaco de pele das cores marrom e branco, a protegia, porém, não por muito tempo.  Ela não queria montar em argo, pois o animal se encontrava em estado de exaustão, chegando a ponto de tombar de cansaço, resultado do grande esforço feito na última semana, causando grande preocupação. Por causa disso, preferiu enfrentar mais um pouco o frio, poupando o animal amado, puxando a égua pela correia ao invés de montá-la ou de providenciar outro cavalo.

A escuridão envolveu Gabrielle, mas pelo fato de estar em uma elevação da estrada, conseguiu visualizar algumas luzes na cidade a sua frente. Faltava pouco. Mais alguns metros. O frio a fazia tremer.

Gabrielle caminhou rapidamente e entrou na rua principal de Cirdan. A cidade se encontrava completamente deserta. Não havia moradores nas ruas. Mas a poetiza sabia que havia pessoas nas casas, pois as luzes das velas e do fogo da lareira escapuliam pelas fendas das janelas e portas das casas, proporcionando um pouco de iluminação na noite negra e silenciosa.

O cansaço sobrepujou a viajante. Cirdan era uma cidade grande. Gabrielle precisava encontrar logo um local para deixar Argo e outro para ela descansar. Pensou em bater na porta de um morador para pedir informações, contudo, antes de executar tal ação, sons alegres chamaram a atenção da poetisa que seguiu o barulho até encontrar sua origem. 

Gabrielle logo descobriu que os sons vinham de uma taverna. “Nem todo o frio do mais rigoroso inverno consegue afastar os clientes de uma boa bebida”. Pensou.

A poetiza parou a poucos metros da Taverna “Valkiria”.  Por alguns instantes contemplou a penumbra da imagem de um cavalo e uma mulher montando o animal, localizado acima da porta e abaixo do nome da taverna. Tal animal sempre foi um símbolo das guerreias de Odin. “Quem sabe encontro uma aqui com a maçã?”. Ridicularizou. “As coisas nunca são fáceis”. Gabrielle respirou profundamente. “Adoraria cavalgar novamente um desses animais... Adoraria cavalgar com meu amor”.

Argo ficou do lado de fora da Taverna, amarrado em uma coluna de madeira na entrada, enquanto Gabrielle entrou no estabelecimento para obter informações de um local para deixar a égua e de um quarto.

O barulho do ambiente, o aroma de vinho e fumo invadiram o senso de Gabrielle que ficou alguns instantes na porta analisado o local. Aparentemente a Taverna era como outras tantas freqüentadas por ela e pela Xena, mas apesar de estar relativamente cheio, a barda não sentiu perigo. Não havia guerreiros ou pessoas hostis. Apenas pessoas procurando uma boa conversa, um pouco de vinho e um local quente em uma noite fria.

Uma jovem mulher, com cabelos longos, pretos e encaracolados, com um rosto bem suave, angelical, com olhos castanhos, usando um vestido azul com um avental branco, aparentemente na casa dos vintes verões, dirigiu-se a Gabrielle.

“Seja bem vinda a Taverna das Valkirias”.

Gabrielle sorriu para a garota e disse.

“Tenho uma égua que precisa de um estábulo e preciso também encontrar um local para passar a noite, pode me ajudar?”.

A jovem retribuiu o sorriso.

“Claro! Temos um estábulo atrás da Taverna e temos quartos no andar de cima”.

“Quanto custaria?”.

“Sete dinares”.

Gabrielle argumentou.

“Sete dinares é um preço muito alto para passar somente uma noite”.

A jovem retrucou.

“Não é tão alto em uma noite de neve como essa. Além disso, sete dinares pagará também um banho quente, uma bela sopa de veado, com pão e vinho, e uma boa escovada na sua égua”.

A barda estendeu sua mão para a garota a sua frente.

“Fechado, porém também quero café da manhã”.

A jovem pensou por alguns instantes e fechou o acordo segurando o antebraço da Gabrielle.

“Não tenho o hábito de abrir exceções, já que esse preço é fixo para esses serviços, mas gostei de você, assim fecharemos nesse preço, incluindo o café da manhã”.

“Obrigada, foi um prazer negociar com você, aliás, qual o seu nome?”.

“Myrna....” A jovem virou seu tronco e apontou para um homem atrás do balcão e, em seguida, para um rapaz mais ao fundo da taverna “...Aquele atrás do balcão é meu pai, Derfel e aquele servindo as mesas é meu irmão Issa”.

Gabrielle visualizou um homem alto, forte, de cabelos grisalhos, mas com alguns fios pretos, provavelmente um ex-soldado, já que possui cicatrizes no rosto, e que em momento algum deixou de olhar sua filha durante sua conversa. Já Issa, é um jovem perto dos quinze anos, robusto, com um cabelo comprido, castanho escuro, na altura do ombro.

”Essa família não é nativa da região. A população local possui cabelos e olhos mais claros”. Observou Gabrielle.

“Me acompanhe”. Pediu educadamente Myrna.

A poetiza seguiu a jovem até seu pai.

“Pai, combinei sete dinares pela hospedagem com banho, refeição noturna e diurna, e um local para a égua no estábulo”.

Derfel nada disse. Apenas encarou a mulher na sua frente. - “Não pode ser. Não pode ser ela!”. Pensou.

Gabrielle sentiu que estava sendo analisada. Provavelmente o pai da Myrna era ex-guerreiro, ponderando se a estranha era uma ameaça ou não. Seguindo seu extinto, a barda declarou.

“Não quero problemas, só quero um local para passar a noite”.

O homem completou.

“Eu também não quero. Essa é uma cidade pacífica, comercial. As Valkirias se encarregam de manter a ordem. Assim espero que você não crie problemas”.

Gabrielle foi a mais honesta possível. Certamente haveria alguma confusão, já que não sabia se Odin colaboraria. Mas Derfel não precisava saber de suas intenções.

“Não criarei dificuldades para você”.

“Certo”. Disse Derfel. Em seguida prosseguiu, menos hostil, seu diálogo, sentindo que honestidade nas palavras que acabara de ouvir.

“É norma da casa pagar adiantado. Issa cuidará da sua égua, enquanto Myrna arrumará o quarto e o seu banho. Você pode sentar, levarei sua refeição em breve”.

Myrna assistiu tudo com um certo interesse e curiosidade. Nunca viu seu pai ser tão severo com um freguês. Mas seus pensamentos foram quebrados pela voz de seu pai.

“Pede ao seu irmão para cuidar da montaria da Gabrielle”.

Myrna obedeceu. A poetiza esperou a garota afastar e indagou.

“Derfel, de onde me conhece? Já que não disse meu nome”.

O dono da taverna nada disse. Encarou a mulher na sua frente e pensou. “Seria sábio alertá-la? Se o que falam é verdade, se ela foi capaz de mudar Xena, estou diante de uma boa pessoa... Mas não será sábio contrariar Grinhilda”.

“Sente. Levarei sua refeição”.

Gabrielle não se contentou e agarrou a blusa de Derfel, impedindo-o de lhe dar as costas. O dono da taverna percebeu que não escaparia da situação sem uma explicação.

“Você e Xena são bem conhecidas nessa região. Sua fama a precede, Barda”.

Gabrielle manteve o olhar de indagação. “Ele está me escondendo alguma coisa... Derfel conhece minha história pelo visto, já que me chamou de barda, mas tem algo que me esconde”. A poetiza soltou a blusa de Derfel. Pegou sua bolsa de moedas, separou os setes dinares e jogou em cima do balcão. O homem ficou aliviado ao ver que não seria questionado.

Depois que a barda sentou em um canto da taverna, Derfel entrou na cozinha e mandou o cozinheiro preparar uma refeição e, assim que terminasse, levasse para uma jovem guerreira que esperava na mesa. Em seguida, Derfel abriu uma porta que tinha na cozinha que dava para os fundos da taverna e estábulo. Levou com sigo uma tocha, para visualizar melhor, mas não precisou procurar muito para encontrar o que procurava. No estábulo, debaixo do telhado. O som do corvo chamou sua atenção.

“Ela está aqui”. Derfel simplesmente disse. O corvo exauriu mais um som, dando a entender que assimilou a informação, levantando vôo em seguida. Derfel ficou observando por alguns instantes a ave se distanciando, “Será que fiz a coisa certa?”, não percebendo a aproximação de seu filho.

“Pai, me chamou?”. Tal frase acabou tirando Derfel de seus devaneios.

“Não demore muito, está frio e estou precisando de você na taverna”. Derfel comentou secamente, mais do que pretendia, e voltou para o balcão, preocupado.

 

Capítulo 8

 O corvo sobrevoou a Floresta Escura, coberta de neve. A lua crescente e opaca permitia apenas que uma pouca iluminação atingisse a terra. A escuridão era quase total, mas os olhos adaptados e o senso de direção da ave o guiaram seguramente para a fortaleza de Odin, no alto da Montanha de Aman.

O servo de Odin pousou na janela do salão do trono e procurou pelo seu mestre, o encontrando sentado na majestosa cadeira vermelha à esquerda da janela. A ave também observou na sua frente uma figura com uma capa de pele cinza, usando um capuz, em pé e estendendo sua mão em direção a lareira, procurando calor.

Depois de observar o local, o corvo se pronunciou com um estridente som, chamando imediatamente a atenção dos ocupantes do salão.

Odin levantou seu braço e o corvo pousou em seu antebraço direito. Com o indicador da mão esquerda, o deus acariciou a cabeça da ave por alguns momentos.

Eva observou a cena com curiosidade e ansiedade, esperou impaciente pelas palavras de Odin, que pronunciou sem emoção e na altura suficiente para que Eva pudesse ouvir.

“Ela está aqui”.

Eva olhou profundamente nos olhos do deus.

“Irei encontrá-la”.

Odin levantou e caminhou até a lareira. Observou o fogo e comentou.

“O povo dessa região tem uma lenda sobre essa montanha. Diz a história que havia um deus que deu alma a uma certa montanha e, somente aqueles puros de coração conseguiram sobreviver a escalada para chegar ao palácio desse deus. Porém um dia, uma guerreira, responsável pela morte de milhares de pessoas, culpada pelas ações mais hediondas, conseguiu atingir o topo e ao deus. Confiando no julgamento da montanha, o deus a deixou entrar em sua vida. O deus lhe deu aquilo de mais precioso que tinha: sua confiança, porém a guerreira a enganou, o traiu. Furioso o deus convocou a alma da montanha e exigiu uma explicação... Amam, que é a alma da montanha respondeu: “Não havia pureza no coração da guerreira, mas havia luz em sua alma”. O deus não compreendeu. Levou anos para entender que a guerreira precisava de um caminho, uma direção...”.

“Gabrielle”. Eva sussurrou, interrompendo o conto.

O deus suspirou. “Sim... Gabrielle devolveu a pureza no coração da guerreira”.

Eva ouviu tudo, sem deixar de observar a dança das chamas.

Odin continuou.

“Gabrielle fará de tudo por essas maçãs”.

“Eu farei de tudo para desencoraja-la”. Afirmou a seguidora do amor, encarando o deus.

Odin se afastou de Eva e voltou a sentar no trono. Ele sabia que a filha de Xena estava decidida, assim como Gabrielle. Mesmo não sabendo de todas as intenções de Lúcifer, a poetiza faria de tudo para proteger a guerreira, mesmo que isso custasse sua alma, saber a verdade completa não mudaria a decisão de Gabrielle, apenas a reforçaria.

“Não interferirei. Você terá total liberdade em minhas terras. Mas, se Gabrielle subir Amam e me pedir a maçã, não negarei”.

Eva ficou alarmada, mas nada disse de imediato. Olhou para Odin incrédula.

“Vim até aqui achando que teria a sua compreensão”.

“Você tem minha compreensão Eva, mas a decisão cabe a Gabrielle. Você pediu ajuda a Afrodite para trazê-la ao meu reino para me avisar, e assim aconteceu. Coloquei vigilantes em todos os locais e instrui Grinhilda a pedir colaboração dos donos de tavernas, para nos alertar sobre a presença de sua amiga”.

Eva caminhou até Odin e suplicou.

“Por favor, não dê as maçãs para Gabrielle”.

“Não interferirei na decisão de Gabrielle, caberá a você”.

Eva abaixou a cabeça. Sua principal esperança, que Odin não entregaria as maçãs douradas, caiu por terra.

“O corvo lhe mostrará o caminho para encontrar Gabrielle, contudo, você só partirá ao amanhecer, quando a tempestade cessar. Sua espera pela sua amiga terminou. Vá descansar. Não posso mais te ajudar”.

A ave deixou o antebraço do seu mestre e pousou no ombro de Eva.

“Obrigada pela hospedagem durante todos esses dias de espera pela Gabrielle”.

Odin apenas moveu levemente a cabeça. Eva deixou o salão do trono para passar a noite em seu quarto de hóspede. A noite seria longa. Agora só lhe sobraram as palavras para impedir que Gabrielle destrua sua alma.

Depois da partida de Eva, Grinhilda entrou no salão e questionou.

“É sábio entregar a maçã para Gabrielle?”.

Odin olhou para a comandante das valkirias. Antes de responder ponderou. Grinhilda teve a sensação que Odin tinha receio.

“Gabrielle terá total liberdade para obter a maçã. A escolha do seu destino não será decidido por mim”. Anunciou Odin, fugindo da pergunta da valkiria.

“Quem tem esse poder sobre o destino de Gabrielle?”. Grinhilda quis perguntar, mas seu instinto achou sábio não questionar.  

Odin em seu trono ordenou.

“Deixe-me sozinho”.

A comandante das valkirias acenou levemente com a cabeça e deixou o salão, fechando as grandes portas atrás de si. Sentia intranqüila. Odin agia de maneira estranha.

O deus nórdico não conseguiu aproveitar por muito tempo a solidão e a reflexão. Sentiu a presença de alguém em seu salão.

“Não se sinta culpado pelo destino da Gabrielle”.

Odin observou com cuidado o espírito que pela segunda vez o visitava nesse mesmo dia. Em poucas horas sua vida havia mudado completamente. Conheceu a verdade do universo. Eras de existência não significava nada depois do conhecimento obtido. Odin, o senhor dos deuses nórdicos, era um ser inferior. Um humano com poderes e imortalidade. Criado para controlar e fiscalizar o comportamento dos mortais até que estes estivessem preparados para seguir o verdadeiro deus.

“Nada parará Gabrielle. Eva não conseguirá mudar a obstinação que Gabrielle possui em proteger Xena. Contar sobre a verdadeira intenção de Lúcifer só reforçará suas intenções de conseguir a imortalidade”.

Michael apenas respondeu.

“Assim espero”.

 

Capítulo 9

Gabrielle dormia profundamente, pelo menos assim pensava a sombra que sorrateiramente invadia o quarto onde descansava a poetiza. Abriu a porta sem provocar ruídos e pisou com todo o cuidado sobre a madeira, evitando qualquer tipo de barulho. Aproximando da cama, inclinou o tronco para verificar se Gabrielle dormia, já que um grosso mando cobria todo seu corpo, deixando nenhuma brecha. Mesmo com a lareira acessa, as noites em Amam no inverno podem ser extremamente frias.

Ao se aproximar, o homem foi surpreendido com um poderoso chute abaixo do joelho esquerdo, provocando sua queda para trás. No mesmo instante que tocou o chão, Gabrielle já se encontrava em cima do seu tronco com sua arma no pescoço do invasor.

“Não acha que está um pouco tarde para uma visitinha?”. Questionou a barda.

Derfel atônito disse.

“Quis apenas te avisar!”. – respirou profundamente procurando se acalmar. “Não quis fazer isso na taverna”.

“Avisar sobre o quê?”. – Gabrielle levantou, permitindo que Derfel fizesse o mesmo.

O dono da taverna, ao sair do chão, tentou apoiar seu pé esquerdo, sentiu um pouco de dor. Passou a mão no local da pancada, tentando aliviar o desconforto. Pela manhã haveria um grande hematoma. Contudo, conseguiu ficar de pé.

“Você está sendo vigiada por Odin. As valkirias percorreram todas as tavernas e colocaram observadores para anunciar sua chegada”.

Os sais foram guardados nas botas enquanto Derfel falava. Gabrielle não demonstrou surpresa sobre o fato de estar sendo vigiada, na verdade esperava por isso. Anos de convivência com a Xena ensinaram que alguém sempre estará observando, espionando, porém a poetiza ficou intrigada pela cautela de Odin.

“A morte de Xena provavelmente se espalhou por todos os cantos, até chegar aos ouvidos de Odin. Mas Odin não tinha como saber sobre minha viagem para Cirdan, Como ele ficou sabendo. Será que sabe sobre meu propósito?”.              

O silêncio do quarto foi quebrado pelo questionamento de Gabrielle. Sem nenhuma emoção na voz, de maneira meiga.

“Derfel... Você sabe por que as valkirias estão me vigiando?”.

“Não”. – Derfel olhou para Gabrielle mostrando honestidade no olhar. - “Grinhilda apenas a descreveu, pedindo para comunicar imediatamente sua chegada para umas das aves de Odin”. – em seguida completou. “Ela apenas comentou que sua chegada está sendo aguardada pelo deus nórdico”.

“Por que está me ajudando?”.

A pergunta surpreendeu Derfel, mas vindo da Gabrielle, era uma pergunta pertinente.

“Xena”. – Derfel viu uma expressão interrogativa no semblante de Gabrielle. Sentou na cama. - “Sou um ex-soldado, na verdade fui um mercenário. Em um momento de confronto entre os exércitos, fiquei frente a frente com Xena”. – um pequeno sorriso irônico surgiu nos lábios do dono da taverna. – “Vi a morte. Durante a nossa luta, Xena me golpeou com o cabo da espada na minha cabeça... Cai no chão atordoado. Sabia que morreria, mas no momento que Xena preparava para dar o golpe final, implorei. Chorei... Chorei pela minha filha que havia perdido a mãe e agora iria perder o pai”. – Derfel respirou profundamente. – “Xena ajoelhou ao meu lado, apoiada sobre a espada e disse em um sussurro frio: Largue a espada e cuide da sua filha. Em seguida levantou e continuou dilacerando os soldados que apareciam em sua frente”.

“Xena economizou sua vida, por isso está me ajudando”. Completou Gabrielle.

“Vi você nessa batalha. Com seu cajado, com um ar pueril, cabelos mais compridos. Não associei sua descrição com a de Grinhilda, como poderia? Você não envelheceu. Mas assim que te vi, percebi que havia algo importante acontecendo. A sua fama lhe precede. Ainda mais com a morte de Xena”.

A dor da lembrança da morte de Xena surgiu no rosto de Gabrielle. Derfel percebeu que sua última frase não foi bem aceita, mas antes que Gabrielle dissesse algo, ele caminhou até a porta, mas antes de fechá-la disse:

“Não sei o que está acontecendo. Mas para que Odin se envolva, acredito que algo grande está acontecendo”. – Derfel tentou encorajá-la. – “Espero que você consiga o que veio procurar”.

“Obrigada”. Gabrielle ficou emocionada com a sinceridade das palavras que acabara de ouvir.

Derfel fechou a porta. Gabrielle deitou na cama com o objetivo de obter algum sono, mas essa seria uma noite longa, cheia de pensamentos, dúvidas e saudade.

**********

O quarto de hospedes no palácio de Odin era pequeno para as preocupações da seguidora de Eli. Eva andava de um lado para o outro tentando achar uma solução, uma maneira de impedir que Gabrielle caia em desgraça, para que não perca sua alma. Em desespero caiu de joelho ao lado da lareira. Devagar olhou para as chamas que consumiam e destruíam a madeira. Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Eva e um pensamento brotou em sua mente.

Gabrielle não perderá sua alma”.

A ave de Odin, pousada em cima da mesa de madeira no centro do aposento, observava a mulher no quarto.

Eva olhou para o corvo.

“Não precisarei de sua ajuda, você está livre para partir”.

Assim fez a ave.

 

Capítulo 10

Gabrielle caminhava a passos rápidos pela floresta de Cirdan. Os raios solares invadiam timidamente a escuridão, iluminando precariamente a trilha. A poetiza lembrava perfeitamente o caminho até o palácio de Odin. Essa não é a primeira vez que segue por esses caminhos. No ano passado ela entregava as maçãs para Odin, para serem protegidas, agora percorria o mesmo trajeto para salvar Xena. Lembranças invadiram os pensamentos da poetiza.

Odin havia convidado Xena e Gabrielle para pernoitarem em seu palácio. O dia foi longo, já que as guerreiras haviam recuperado a divindade de Afrodite e Ares, estabelecendo o equilíbrio entre o amor e o ódio.

 Um banquete foi servido para as convidadas, que escolheram ser servidas em um salão com um grande tapete marro com detalhes vermelhos, repleto de almofadas de várias cores e tamanho, ao invés do salão com uma grande mesa de madeira.

Odin, acompanhado pela Grinhilda, observavam a interação entre as amantes. O clima sensual era evidente. Xena alimentava sua companheira e, em cada mordida, Gabrielle com sua língua acariciava os dedos da guerreira. Percebendo a necessidade das amantes por privacidade, Odin disse.

“Estou me recolhendo”. – O deus levantou e gesticulou para a comandante das valkirias. – “Grinhilda as acompanhará até o aposento. Boa noite, minhas amigas”.

“Obrigada pela hospitalidade”. – Disse Xena com um sorriso.

O deus nórdico respondeu, no momento que caminhava para seus aposentos.

“Desfrute e se puder descanse”. Tal frase foi seguida por um tom brincalhão e sugestivo.

Grinhilda as levou até o aposento no qual Gabrielle e Xena ficariam. Parando na porta se despediu.

“Boa noite. As vejo amanhã”.

Xena antes de abrir a porta de madeira, percebeu a figura entalhada de uma árvore. A guerreira lembrou que o palácio possuía vários entalhes bem detalhados e bonitos.

Gabrielle também percebeu. As tochas nas paredes mostravam claramente a figura. A poetiza ficou ao lado da Xena para visualizar melhor.  Passou as pontas dos dedos sobre a porta para sentir a textura, não percebendo que seus dedos estavam sendo acompanhado pelo olhar de luxúria de Xena, que antecipava sentir aqueles dedos.

De repente Xena sentiu que estava muito longe do seu objeto de desejo e aproximou seu corpo, até estar atrás de Gabrielle.

A poetiza sentiu mãos fortes, porém suaves, segurar seu quadril. Também sentiu o corpo de Xena, seu calor, nas suas costas. Sua mão direita continuava encostada na porta, apoiando seu corpo. Um arrepio percorreu sua espinha, quando os lábios de Xena e língua deslizavam pelo seu pescoço sensível. Automaticamente seu braço esquerdo segurou os longos cabelos pretos da sua doce agressora, indicando que queria que continuasse com essa tortura deliciosa.

Os olhos da poetiza fecharam quando as pontas dos dedos de Xena começou a percorrer por debaixo de sua blusa, até atingir o mamilo esquerdo ereto. Foi o limite.

Gabrielle precisava ser beijada. Retirou a mão de Xena do seu mamilo e girou seu corpo, ficando de frente. Em seguida segurou firmemente a cabeça da guerreira para beija-la com volúpia.

Os corpos se aproximaram, quase se fundindo, encaixando suas coxas. Xena quebrou o beijo. Abriu a porta do quarto, e direcionou Gabrielle para entrar. Fechou a porta. Gabrielle cobriu a curta distância entre as duas para provar novamente os lábios de sua amante. Tal ato foi aceito sem relutância por Xena, que aproveitou a aproximação para erguer Gabrielle, que entrelaçou as coxas na cintura de Xena.

Em poucas passadas Xena alcançou a cama. Talvez foi seu instinto apurado e sua visão periférica responsáveis em encontrar a cama, já que ao entrar no quarto não reparou nos detalhes do aposento.

Gabrielle foi deitada cuidadosamente. Nesse momento o beijo havia cessado e a guerreira contemplou os olhos da sua poetiza – guerreira. Gabrielle viu tanto amor nos olhos azuis de Xena!

Xena acariciou o rosto de Gabrielle com as pontas de seus dedos. Seu polegar tocou suavemente os lábios que acabara de beijar.

O pensamento de Xena quebrou o silêncio, mas solidificou ainda mais o amor da poetiza.

“O melhor de tudo que nos aconteceu hoje, não foi restaurar o equilíbrio entre o amor e o ódio, mas sentir novamente o amor que tenho por você Gabrielle”. – Xena beijou levemente os lábios de Gabrielle. – “O fato de perder esse sentimento por um instante me mostrou o quando o nosso laço de amizade e companheirismo é importante, e que o nosso amor só intensifica esse união”. – Mais um suave beijo. – “Te amo pela pessoa que você é... Minha amiga, minha companheira e minha amante”.

“Gabrielle!”.

A lembrança da poetiza foi interrompida por um sussurro.

“Gabrielle!”.

Os olhos atentos percorreram cada centímetro da floresta e da neve. A luminosidade aumentada pelo avanço da manhã permitiu melhor visualização, porém não se via nada, assim como não se ouvia nenhum ruído.

Gabrielle continuou seu caminho com passos cautelosos. Por prevenção empunhou seus sais.

“Gabrielle!”.

O chamado foi mais audível, fazendo a poetiza – guerreira assumir uma postura defensiva.

“Não tenha medo!”.

“Quem é você!”. – Gritou Gabrielle com autoridade.

Não houve resposta, contudo a poetiza sentiu uma presença. Por impulso virou seu corpo para a direita em posição de ataque e confrontou-se com um ser em chamas.

“Brunhilda”. – Sussurrou.

A ex-valkíria apenas confirmou com a cabeça. Em seguida assumiu seu aspecto humano.

“Estou aprendendo a controlar meus poderes, é cansativo assumir a forma humana, já que a punição de Odin foi me transformar em uma alma em chamas”.

Gabrielle guardou os sais em sua bota. Em seguida apoiou a mão direita no ombro de Brunhilda, mas teve que tirar rapidamente. Uma dor aguda atingiu a palma de sua mão, como se estivesse queimando. Brunhilda tentou evitar o contato, projetando seu ombro para trás, mas quando viu Gabrielle já a tinha tocado.

Brunhilda se desculpou. A voz triste mostrou a dor em sua alma.

“Desculpe... Não consigo dominar o calor emanado do meu corpo quando estou na forma humana”.

“Tudo bem, não me machuquei”. – Mentiu Gabrielle que tentava ignorar a sensação incomoda na palma de sua mão. Não havia se ferido profundamente, mas ficaria dolorido por algum tempo.

Para mudar de assunto Gabrielle disse com um doce sorriso.

“É bom ver uma face amiga”. – Respirou profundamente e continuou. – “Preciso de sua ajuda”. - A poeta reparou que Brunhilda não vestia roupas. Seus cabelos longos e loiros tinham um brilho bonito. O local onde pisava, a neve se encontrava derretida. Sua alma inquisitória agiu e perguntou em seguida. - “Não sente frio.”

A mulher simplesmente sorriu com o primeiro comentário de Gabrielle. Brunhilda sentiu que a poeta realmente estava feliz em vê-la. Seu sorriso aumentou ao ouvir a pergunta curiosa.

“Não. Já tenho calor suficiente. Não preciso de roupas. Além disso, elas acabariam sendo queimadas”. – Brunhilda olhou em volta procurando por Xena.

“Não veja Xena”.

“Ela está morta”. Disse a poetiza com a eterna tristeza em sua voz.

Brunhilda nada falou. Ficou algum tempo apenas olhando para Gabrielle. Tal atitude incomodou Gabrielle. Geralmente as pessoas mostraram condolências, mas Brunhilda ficou indiferente. Gabrielle tentou entender.

“Ela não conhecia Xena... Permaneceram muito pouco tempo juntas para que se conhecessem”.

A ex-valkiria não se desculpou, apenas comentou.

“Deve estar acontecendo algo importante para você estar aqui no reino de Odin, ao invés de estar em luto por Xena”.

“Sim”. Foi a resposta ouvida por Brunhilda. Em seguida completou com carinho.

“Uma vez lhe ajudei a encontrar Xena. Também lhe protegi quando possuiu o anel e caiu em sono profundo. Sempre ficarei do seu lado Gabrielle”.

“Precisarei de toda a ajuda. Estarei seguindo um caminho sem volta”.

Gabrielle explicou a situação para Brunhilda.

 

Capítulo 11

Não houve dificuldade para Gabrielle entrar no palácio de Odin. Os portões de bronze estavam abertos. Não havia nenhuma valkiria ou guarda.

Brunhilda esperou na floresta. Nada podia fazer no palácio de Odin. Persuadir o deus em entregar a maçã era o plano a de Gabrielle, se não conseguisse, a poetiza entraria em guerra se necessário e Brunhilda seria uma grande ajuda.

“Odin me espera”. Pensou.

A barda caminhou lentamente até o salão do trono. Como imaginava, o deus nórdico ocupava seu trono de ouro, forrado com couro vermelho, de qual animal, Gabrielle não sabia. À direita de Odin, em pé, estava Grinhilda.

O silêncio foi quebrado por Odin.

“Seja bem vinda Gabrielle”.

Dúvidas corriam pela mente da poetiza, mas foi direto ao ponto.

“Preciso da maçã dourada”.

O olhar penetrante do deus encontrou com o olhar determinado de Gabrielle. Odin não via nenhum sinal de dúvida com relação ao objetivo da guerreira. Ela queria a maçã e faria qualquer coisa para a ter.

“Sim, eu sei que você deseja a maçã. A morte de Xena já é de meu conhecimento, assim como a intenção de Lúcifer em destruir a alma da sua companheira”. – Odin levantou e caminhou até a Gabrielle. – “Quer mesmo a imortalidade? Sofrer eternamente com a lembrança, a morte atual e as futuras mortes de Xena?”.

Gabrielle respondeu com uma voz quase inaudível, com raiva e dor.

“Suportarei qualquer angustia, mas Lúcifer não tocará em Xena!”.

“Grinhilda buscará a maçã dourada”. – Disse o deus.

Sem esperar outra palavra de Odin, Grinhilda saiu do salão.

Gabrielle não sabia onde o deus guardava as maçãs, nem se preocupou, ainda mais com a colaboração de Odin. Sorriu em agradecimento.

“Obrigada”.

Momentos depois Grinhilda entrou apresada no salão e disse surpresa.

“As maçãs sumiram!”

Odin sentou novamente no trono. Seu rosto mostrava uma fúria profunda.

“Eva! Ela roubou as maçãs!”.

Gabrielle ficou surpresa.

“Eva estava aqui no seu palácio?”.

“Sim”. – Respondeu Odin. – “Ela quer proteger você, por isso roubou as maçãs”.

“Como Eva soube que queria as maçãs?”.

“O seguidor do amor a avisou”. Informou Odin.

“Eli! Por quê?”. Questionou Gabrielle.

“Isso é algo que você terá que perguntar para Eva”.

“Mas você sabe o porquê”.

“Sim, mas esse assunto tem que ser tratado entre você e Eva. Já fiz bastante por vocês duas”. Disse enfaticamente Odin, deixando claro que sua ajuda terminou naquele momento.

Gabrielle não quis forçar mais o deus, mesmo que sua raiva mandasse. Decidiu usar a ração.

“Eva tinha um cavalo?”.

Grinhilda respondeu. “Não, mas ela arranjará um facilmente na aldeia”.

“Preciso de um cavalo. Deixarei na Taverna das Valkirias”.

Odin acenou com a cabeça e completou. “Vá, seu destino não está dentro das paredes do meu palácio”.

Gabrielle olhou para o deus. Sentia que algo estava errado, mas não tinha tempo para descobrir, precisava encontrar Eva.

 

Capítulo 12

Eva afastava o mais rápido possível de Cirdan. Sabia que era uma questão de tempo até que Gabrielle a encontrasse.

“Tenho que destruir essas maçãs”. Sussurrou.

O cavalo emprestado ofegava. Sabia que logo teria que descansar, já que quase não se via nada. A noite avançava rapidamente.

Parou em uma lareira, protegido por árvores. Não conseguiria dormir, pelo menos não nevava. Juntou alguns galhos, quase secos, que dariam uma fogueira razoável. Carregava alguns grãos que deu para a égua comer. Também trazia algumas frutas secas, pães para viagem e vinho, mas não sentia fome.

Eva apoiou em um tronco. Colocou uma manta de couro no solo para se proteger do frio e umidade. Sua tranqüilidade momentânea foi quebrada pela voz de Gabrielle.

“Por que Eva?”

A seguidora de Eli levantou assustada.

“Como conseguiu me alcançar?”

“Peguei um cavalo alado com Grinhilda”. Disse calmamente.

Eva ficou surpresa. “Grinhilda?”.

Gabrielle sorriu. “Agora faz sentido. Grinhilda lhe ajudou a roubar as maçãs, depois me ajudou para não levantar suspeitas diante de Odin”.

A poetiza caminhou em direção a Gabrielle. Eva se afastou.

“Não posso deixar que você coma a maçã”.

Gabrielle parou. “Por quê? Não entendo porque Eli se envolveu”.

A fogueira separava as duas.

“Lúcifer não está apenas brincando com você. Ele precisa encontrar a alma de minha mãe. Se o demônio conseguir condenar a alma dela ao inferno, conseguirá devolver o trono para a legitima dona, assim o reino da terra estará livre para se conquistado”. - Eva controlou suas lágrimas que teimavam em cair. Perdeu a luta.  – “Você é a única capaz de encontrar a alma de minha mãe. É sua alma gêmea. Se você comer a maçã, se tornará uma alma amaldiçoada, Lúcifer conseguirá te seguir, e conseqüentemente chegar até Xena”.

Gabrielle sentou onde Eva estava. “Lúcifer está me manipulando”.

Eva confirmou. “Sim. Você não tem o direito de ser imortal. Se você comer aquela maçã estará condenando sua alma a eterna tortura. No dia do julgamento, no dia em que você encontrar com o Deus Único, sua alma estará perdida, condenada ao inferno”. – Eva respirou. Gabrielle só ouvia. “Nós não temos o direito de tirar nossas vidas. Temos um período de aprendizado na terra, onde morremos e renascemos para aprendermos, para evoluirmos. Se você não completar seus ciclos, não conseguirá aprender, alcançar a redenção espiritual da sua evolução”.

Gabrielle olhou tristemente para Eva. A dor no rosto de Gabrielle era enorme, tanto que comoveu Eva.

“Preciso proteger Xena, se morrer esquecerei da minha vida anterior. Ter as lembranças, saber quem são meus inimigos me tornará mais capaz de evitar que Lúcifer atinja seus propósitos”.

Eva aproximou de Gabrielle. Ajoelhou em frente da poetiza e segurou suas mãos.

“Isso não é verdade. Você renascerá, justamente para ser o apoio de minha mãe, seu equilíbrio, sua consciência se necessário.” – Eva disse suavemente. – “Gabrielle... Você já mudou minha mãe, poderá sempre fazer o mesmo”.

Lágrimas desciam do rosto de Gabrielle. Eva abraçou sua amiga. Ambas choravam.

“Sinto tanta falta de Xena”. Confessou Gabrielle.

“Eu também”. Sussurrou Eva.

Gabrielle olhou para Eva. Passou os polegares no rosto de Eva, enxugando as lágrimas.

“Sinto muito”. Falou Gabrielle.

Eva não teve tempo para reagir. Gabrielle aplicou os pontos de pressão no pescoço da seguidora do amor. A poetiza segurou cuidadosamente Eva e a colocou no chão. Sabia que não tinha muito tempo. Levantou, pegou a sacola de couro próxima do tronco, tirou as maçãs de dentro, destacou uma.

Olhou para Eva que respirava com dificuldade. “Não posso correr o risco de perder a alma de Xena”. Em seguida mordeu a maçã.

Uma energia percorreu seu corpo. Sentia mais forte, com mais vida, mas foi momentânea, a tristeza invadiu novamente seu corpo. Caiu de joelho e a maçã escorregou de sua mão. Lembrou de Eva. Rapidamente foi até a mulher deitada e desfez os pontos de pressão.

O ar entrou pelos pulmões de Eva. Um pouco de sangue saiu de seu nariz. Assim que conseguiu respirar um grito saiu com toda fúria de sua garganta.

“Nãooooooooo!”.

Gabrielle abraçava Eva que chorava histericamente.

“Eu precisava fazer isso”. Tentava consolar Gabrielle.

Eva apenas repetia baixinho. “Não... Não... Não”.

“Tudo ficará bem”. Completou Gabrielle. Mas na verdade sua maldição estava apenas começando.

******

Risos e gargalhadas misturavam com os sons de clemência das almas perdidas do inferno. Lúcifer gargalhava tão alto que atingia o céu.

 

*****

Xena caiu de joelhos em frente do espelho d’água. Eli tentava confortá-la, mas nada que fizesse ou dissesse teria algum resultado. Eli ajoelhou ao lado de Xena e apoiou sua mão no ombro da guerreira que chorava compulsivamente pelo sofrimento que sua amada estaria condenada a suportar. Ali perto Michael observava.

A guerra começou.

 

Capítulo 13

Gabrielle caminhava nervosamente de um lado para o outro. Gritos de dor chegavam aos seus ouvidos, vindo da cabana a sua frente. Ela queria muito participar do parto, mas não devia se envolver.

Os gritos cessaram. Por alguns segundos um silêncio inquieto e incômodo permaneceu. Gabrielle prendeu a respiração. Mas soltou o ar dos pulmões assim que ouviu o choro forte da criança. Mas sua alegria não durou muito. Sentiu uma presença maldosa.

“Olá Gabrielle”. – A voz ecoou demoníaca.

Gabrielle visualizou Lúcifer na sua forma humana. Ele mantinha uma certa distância, mas seu sorriso era bem visível e se tornou ainda maior.

“Que o jogo comece!”. Debochou o demônio.

Um arrepio percorreu a espinha da poetiza. Seu destino agora era proteger a alma dessa criança, da sua alma gêmea.

 

Fim

 

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