PAIXÃO   PROIBIDA

PARTE  8

 

 

         Adrian leu aquilo tudo com uma sensação de irrealidade. Não era possível que Myrian sentisse aquela paixão desmedida, aquele amor tão louco, há tanto tempo, conhecendo-a apenas através de fotografias! Era algo inesperado e que a deixava com os pensamentos em tumulto, sem saber o que pensar. Era quase inacreditável que Myrian a amava desse jeito, mas ali estava documentada toda  a evidência daquela paixão absurdamente intensa. Ali estava o relato dos sentimentos ocultos de uma mulher que amava obssessivamente, com tal intensidade, que ela mesma pensou como seu amor era pouco, em relação ao amor que Myrian sentia por ela.

 

         E como Myrian conseguia esconder esse sentimento sob uma máscara de indiferença convincente, agindo friamente, por causa de um medo absurdo de perdê-la! Como Myrian a julgava mal! Pelo que percebia nessa revelação escrita, era que Myrian achava que ela a desprezaria, se soubesse de seu amor. Que a consideraria apenas uma conquista a mais! Ah, como se subestimava! E como a confiança de Myrian era nula por ela!Em seu julgamento errado, devia estar sofrendo muito por esconder o que verdadeiramente sentia, e com isso fizera Adrian sofrer inutilmente! Que loucura!

 

         Leu as últimas palavras.O diário terminava ali. Adrian suspirou e fechou o caderno, olhando para Agnes, que a fitava espectante, com um sorriso zombeteiro nos lábios.

 

         -Viu como minha irmã é dissimulada? Ela faz um jogo com você e Andreas! Ela é uma louca, percebi por suas palavras que ela atiça seu desejo e depois se nega, para você a desejar mais. Não acredito que ela a ame, como escreveu. Myrian é uma neurótica, quer ficar com você e Andreas porque quer tudo para si! E você caiu no jogo dela! Mas eu a desmascarei! Você agora sabe que está sendo vítima de um jogo. E Andreas vai terminar com ela, quando ler tudo isso.

 

         Adrian fitou Agnes com desprezo.

 

         -Por que você odeia sua irmã tanto, Agnes? Por que quer tanto prejudicá-la? E vai prejudicar-me também, porque quando Andreas ler esse diário, vai saber que eu o traí com Myrian.

 

         Agnes sorriu com desdém.

 

         -Isso é um problema meu, se eu odeio minha irmã ou não. Quanto à Andreas saber, isso depende de você. Se terminar essa relação com Myrian e ficar comigo,  não mostrarei o diário à Andreas.

 

         Adrian a fitou indignada.

 

         -Está querendo fazer chantagem comigo?!

 

         -Por que não? Você deu-me o fora, porque estava sendo enganada por Myrian, sendo manipulada por ela! Por que não posso manipular você também? Esse é o preço do meu silêncio. E você vai gostar mais do que com Myrian, porque eu vou fazer muito mais coisas para dar prazer à você! Você vai ter uma mulher mais nova e sem limites numa cama, sem ter nada negado, como Myrian lhe negava! – Declarou Agnes, presunçosamente.

 

         Adrian quase não conseguiu esconder o nojo que sentiu com as palavras de Agnes. Ergueu-se e a fitou com desprezo.

 

         -Você conhece-me muito pouco, para achar que eu iria me submeter à sua chantagem, Agnes. Se quer, pode contar tudo para Andreas! Eu já estou mesmo farta de esconder o que sinto! E se eu quiser, posso negar tudo e será minha palavra contra a sua, que não é muito confiável. Andreas a conhece bem, Agnes.

 

         Agnes a fitou calmamente, erguendo-se e colocando as mãos na cintura.

 

         -Isso iremos ver. Mesmo que Andreas não acredite em mim, ele vai ficar desconfiado e atento. Não vai demorar muito a descobrir que falei a verdade. Olha, vou dar dois dias para você decidir. Ou fica comigo ou vai acabar perdendo o afeto de seu irmão e Myrian, porque tenho certeza que ela não terá coragem de ficar com você depois da confusão que minha revelação vai provocar.

 

         Adrian a fitou desafiadoramente, caminhando para a porta.Mas pensou melhor. Precisava ganhar tempo. Tempo para pensar o que fazer sobre isso tudo. O que tinha certeza era que não iria se submeter à chantagem de Agnes. Mas tinha que enganá-la. Então, a fitou fingindo-se pensativa e indecisa.

 

         -Muito bem, vou pensar sobre sua proposta. Mas vou levar o diário comigo.Quero ter o prazer de esfregá-lo na cara de Myrian! Ela enganou-me e não gostei de saber disso.

 

         Agnes a encarou com dúvidas.

 

         -Vai terminar com ela, não vai?

 

         -Vou pensar como fazer isso. Depois entro em contato com você para falar o que decidi em relação à sua proposta. Agora tenho que ir.

 

         Agnes se aproximou e a puxou pelo pescoço, beijando-a ardorosamente na boca. Adrian se refreou para não empurrá-la, se submetendo ao beijo passivamente. Ela finalmente se afastou e sorriu, dizendo:

 

         -Estarei esperando sua decisão. Tem dois dias.

 

         Adrian saiu, carregando o diário de Myrian. Sabia que Agnes ainda tinha provas da infidelidade da irmã que faria Andreas terminar com ela. Era só ele ver as fotos suas que Myrian havia colecionado, com aqueles comentários reveladores. Por isso Agnes havia liberado o diário. Um dos objetivos dela era fazer Andreas terminar com Myrian, e as fotos poderiam provocar isso.

 

          Sentiu-se estranhamente tranqüila. Toda sua tensão havia passado. Não era mais aquela mulher insegura do amor de Myrian, aceitando as migalhas que ela oferecia. Sabia agora que ela a amava com alucinação. Que aquela frieza era aparente, um jogo para prendê-la.Myrian havia incutido na cabeça a louca idéia que teria que esconder o que sentia para não ser desprezada por ela.

 

         E a realidade a engolfou numa onda de euforia: Myrian a amava! Isso parecia um sonho, depois do pesadelo que vivera. Parecia uma coisa de romance, nunca soubera de um caso semelhante, uma mulher apaixonar-se por outra através de   fotografias!

 

         Começou a rir. Como havia sido idiota, caindo no jogo dela! Como havia sofrido, se humilhado, aceitando as migalhas que ela lhe oferecia! Aquele amor tinha um fundo sadomasoquista. Myrian sofria e a fazia sofrer. Um jogo de sedução, de dar e negar, de paixão desenfreda e calculada frieza.

 

         -Myrian... – Disse baixinho, entrando no carro – O jogo agora vai mudar! Quem vai dar as cartas agora, vai ser eu! 

 

         Aumentou a velocidade do carro e olhou para o relógio no painel. Cinco horas da tarde. Myrian já devia estar esperando-a .

 

         Chegou à Rive Gouache em menos de quarenta minutos. Procurou o número e estaciou diante do prédio. Subiu para o andar indicado pela escada, não querendo esperar o elevador. Já no andar, procurou o número do apartamento e parou diante da porta, pegou a chave e a abriu.

 

         As luzes da sala já estavam acesas. Olhou em volta, entrando e fechando a porta. Era uma sala espaçosa e bem decorada, com móveis modernos. Um sofá fazia frente à uma mesinha de centro com uma jarra de flores, um balde de prata com uma garrafa de champanhe, taças e uma bandeja com canapés de caviar, em um sinal de boas vindas.

 

         Myrian surgiu, vinda do quarto. Estava de camisola negra de rendas, sedutoramente revelando o corpo perfeito, os bastos cabelos louros soltos, belíssima e desejável como nunca. Olhou para Adrian e sorriu sensualmente, parando à um passo, deixando Adrian sentir o perfume delicioso que usava.

 

         -Como demorou a chegar, Adrian... – Ronroneou – Estou aqui há mais de uma hora. Pensei até em ir embora...

 

         Adrian sorriu. Agora sabia que ela estava representando a mulher fatal e indiferente.

 

         -Estava indecisa se vinha ou não – Disse premeditadamente, para ver a reação dela.

 

         Os olhos dela adquiriram uma expressão de medo. Mas logo se dominou e sorriu calmamente, pegando a garrafa de champanhe e a abrindo com habilidade, enchendo duas taças. Estendeu uma para Adrian, que a pegou e se sentou no sofá. Ela sentou ao seu lado cruzando as belas pernas, fazendo Adrian fitá-las com disfarçado desejo. Ela ergueu a taça, em um brinde, fitando Adrian com um olhar sedutor.

 

         -À nós, Adrian.

 

         Adrian bebeu um gole do champanhe e a fitou com um olhar pensativo. Myrian a fitava atenta, as narinas frementes, a respiração acelerada, denunciando o desejo que sentia. A paixão luzia naqueles olhos verdes.

 

         -Por que não fala nada? Não gostou do apartamento?

 

         Adrian olhou em volta com fingida indiferença.

 

         -É bonito, de bom gosto.

 

         -Eu o aluguei para nos encontrarmos aqui, Adrian. Somente para nós.

 

         Adrian a fitou, erguendo uma sobrancelha em admiração.

 

         -É mesmo? Pensei que também fosse para você usá-lo com Andreas.

 

         Ela enrubesceu. Tomou outro gole de champanhe, com o olhar a percorrendo, o peito arfando. Depositou a taça na mesinha e a fitou nos olhos.

 

         -Pegue-me, Adrian... estou louca por isso...

 

         A voz soou rouca de desejo.

 

         Adrian fitou-a . Ela aguardava que a tomasse nos braços e mais uma vez fosse subjulgada pela sua sensualidade. Mas agora sabia como tratá-la . Quem daria as cartas era ela.

 

         -Não.

 

         Ela a fitou confusa e desconcertada.

 

         -Não quer ?! – A voz tremeu.

 

         Adrian encarou-a com olhar indiferente. Queria demolir aquela segurança de Myrian, deixá-la abalada.

 

         -Não. Estou cansada dessa comédia, Myrian. De ter você quando quer. De aceitar essa situação.

 

         -Não...não  quer continuar comigo assim ?

         -Não. Chega ! Você não vai casar com Andreas ? Pois fique toda para ele, não se divida comigo! Eu posso passar sem você, sabe ? Laureen me quer e não tem ninguém para dividí-la. Ela quer ser somente minha – Jogou, com voz fria.

 

         Myrian ergueu-se pálida. Andou pela sala em passos incertos, de cabeça baixa. Parou, fitando-a . O desespero contraía seu rosto, por mais que procurasse disfarçar.

 

         -É isso que deseja ? Uma mulher só para você ?

 

         -Claro, não gosto de migalhas. E você só tem me oferecido isso – Disse, friamente.

 

         -Adrian... eu vou terminar com Andreas, se é mesmo isso que quer.

 

         Adrian riu. Queria que ela se desesperasse.

 

         -Vai nada ! E eu nem quero isso mais. É melhor terminarmos essa relação estúpida. Meu desejo por você acabou.

 

         Myrian aproximou-se, com olhar transtornado. Já  não estava mais fazendo seu jogo, só queria demover Adrian daquela decisão.

 

         -Oh, não ! Adrian, não disse que me amava ? Eu vou fazer o que deseja ! Vou ficar somente com você !

 

         Adrian a fitou friamente.

 

         -Agora é tarde demais. Meu amor acabou. Você abusou de meus sentimentos, Myrian. Não quero mais você.

 

         Ela ajoelhou-se aos pés de Adrian. Pousou as mãos em seus joelhos, com olhos cheios de lágrimas.

 

         -Adrian, fique comigo ! Farei o que quiser !

 

         A voz vibrou desesperada.

 

         Adrian a fitou pensativa. Mas quase não se continha para agarrá-la. Como estava linda, comovente naquela pose aos seus pés ! Mas agora tinha que prosseguir o jogo. Myrian devia cair do pedestal que a colocara.

 

         Ergueu-se e a fitou friamente.

 

         -Fará mesmo tudo ? Vou cobrar isso !

 

         -Tudo ! – Reafirmou, com ar derrotado.

 

         -Veremos ... você me ama, Myrian ?

 

         Ela a fitou hesitando.

 

         -Fale ! – Ordenou Adrian, com voz dura – Diga o que sente, ou eu não   vou querer você mais !

 

         Myrian começou a soluçar. Olhou-a entre lágrimas, deixando fluir aos lábios trêmulos toda a paixão e amor que sentia, entre soluços:

 

         -Eu a amo, Adrian ! Amo ! Adoro ! Sempre amei ! Eu ... eu sou alucinada por você !

 

         Adrian ficou olhando-a chorar, imóvel. A emoção a fazia ficar quieta, olhando aquela mulher linda chorar por amor à ela. Mas queria mais. A submissão total dela. Só assim a sentiria capitular e acabar com aquele jogo.

 

         -Pare de chorar e vamos para o quarto.

 

         Ela ergueu o rosto e a fitou esperançosa.

 

         -Adrian ...  Você me quer agora ?

 

         Adrian ergueu-se. Fitou-a ali no chão, em temerosa expectativa.

 

         -Vamos para o quarto. Você vai ter que provar-me o seu amor.

 

         Ela ergueu-se do chão e a fitou humildemente.

 

         -Eu a quero tanto, Adrian ! Posso provar meu amor como quiser.

 

         Ela adiantou-se para o quarto e Adrian a seguiu. Era um quarto confortável, bem como o resto do apartamento. Adrian sentou na cama e a olhou com ar superior.

 

         -Tire a roupa – Ordenou, com voz imperiosa.

 

         Os olhos dela luziram. Tirou a camisola negra e o corpo nu apareceu em todo seu esplendor. Não usava mais nada por baixo. Adrian o contemplou e suspirou. Como era belo !

 

         Levantou da cama e começou a despir-se, fitando-a . Myrian a olhava arfando, os olhos percorrendo cada detalhe de seu corpo que se revelava. Nua, Adrian ficou imóvel e falou com voz fria:

 

         -Dê-me prazer, Myrian.

 

         Ela veio ansiosa e jogou-se em seus braços, rodeando seu pescoço e a boca procurando a sua com sofreguidão. Beijou-a alucinadamente, mordiscando seus lábios, dizendo arrebatada, ofegando:

 

         -Meu amor...  meu amor...  amo-a, Adrian ! Amo-a !

 

         Ela beijou seu rosto todo, segurando sua cabeça entre as mãos. Olhou-a nos olhos e Adrian viu neles o amor alucinante que finalmente se revelava, sem mais disfarces.

 

         Myrian tremia toda, apertando-se contra seu corpo, as mãos alisando-a com um carinho que Adrian ainda não provara com ela.

 

         Myrian ajoelhou-se, percorrendo seu corpo com a boca, lambendo e beijando, entre frases de amor :

 

         -Adrian...  minha Adrian... querida... amo! Amo !

 

         Ela pousou a boca em seu sexo, mas Adrian a puxou pelos cabelos até o rosto nivelar-se com o seu. Ela a fitou com um olhar suplicante.

 

         -Deixe-me mostrar como a amo... - pediu, com voz trêmula.

 

         Adrian a abraçou, vencida pelas carícias dela.

 

         -Você agora será somente minha, Myrian ?

 

         -Sim, meu amor... sou toda sua... beije-me, abrace-me ! Eu a amo tanto, desejo tanto ser sua ! Adrian...

 

         Suas bocas se esmagaram. Caíram na cama, agarradas. Myrian começou a chorar, beijando-a no rosto todo, murmurando com voz rouca :

 

         -Eu a amo ! Querida... minha adorada Adrian...

 

         Adrian não conteve mais o amor que sentia:

 

         -Myrian ! Eu a amo também, quero-a para mim ! Meu amor !

 

         -Possua-me... sou sua... toda sua... de corpo e alma !

 

         Adrian a possuiu louca de emoção. E a cada carinho, Myrian se contorcia de prazer, gemendo seu nome. Entregou-se totalmente, deixando-a fazer o que quisesse, acariciando-a e tremendo de emoção.

 

         Bocas coladas, se sugando mutuamente, sexos encaixados, corpos unidos em movimentos ora lentos, ora frenéticos, elas atingiram um orgasmo intenso, sacudindo-as espasmódicamente, com Myrian gritando seu amor louco :

 

         -Adrian ! Meu amor ! Amo, amo , amo...

 

         Adrian ficou imóvel nos braços dela, que a abraçavam com força. Ela alisou seu rosto e a beijou com imenso carinho na testa, suspirando.

 

         -Meu amor... – sussurrou em seu ouvido – Amo-a tanto... e quase a perdi, com meu medo idiota...

 

         Adrian ergueu o rosto e a fitou. Myrian a fitava ternamente.

 

         -Por que não disse que me amava antes, Myrian ? Por que fingiu que só sentia desejo por mim ? Não seria muito mais simples declarar seu amor por mim ?

 

         Ela a fitou nos olhos com adoração.

 

         -Tinha medo. Um medo terrível de você se enfadar com meu amor. Ainda temo isso.

 

         -Eu estava quase desistindo de você. Estava desiludida com a sua indiferença. Seu noivado com Andreas abalou-me.

 

         -Oh, Adrian ! Se soubesse o quanto me custava mostrar-me fria com você ! Mas eu tinha medo. Achava que se me mostrasse apaixonada, você iria desinteressar-se  de mim.

 

         -Eu sei.

 

         Ela a fitou surpresa.

 

         -Você sabe ?! Desde quando ?

 

         Adrian a encarou com sorriso irônico.

 

         -Desde hoje. Agnes telefonou-me dizendo que tinhe uma coisa muito importante para mostrar, relacionada à você. Fui à sua casa e Agnes mostrou-me o seu diário e a coleção de recortes de revistas que você possui sobre mim.

 

         Myrian a fitou estupefata. O entendimento de que Adrian lera suas confissões penetrou em sua mente e a fez ficar vermelha de vergonha e indignação.

 

         -Agnes arrombou minha escrivaninha e mostrou tudo à você?! Oh, meu Deus ! Você leu meu diário ! Viu as fotos ! Oh, não ! Que vergonha !

 

         Voltou-se de costas para Adrian e escondeu o rosto nas mãos. Adrian tentou voltá-la de frente para ela. Não conseguiu e falou, abraçando-a por trás :

 

         -Não fique assim ! Somente quando li tudo aquilo pude saber de seu amor por mim ! E isso foi a melhor coisa que nos aconteceu, só assim pude pressioná-la para declarar o que realmente sentia !

 

         Ela falou com as mãos no rosto:

 

         -Agnes vai pagar-me ! Meu Deus ! Você agora deve julgar-me louca !

 

         -Não, meu amor. Estou apenas admirada. Não sabia que você nutria uma paixão tão antiga e intensa por mim. Por que escondeu-me isso ? Teria sido a maior emoção de minha vida, ouvir você confessar-me tudo quando a conheci. Uma mulher tão linda como você, chegar de repente e externar-me uma paixão tão alucinante, iria deixar-me nas nuvens.

 

         Ela voltou-se, tirando as mãos do rosto. Olhou-a como uma criança que faz algo errado e se surpreende em não ser castigada.

 

         -Voê não achou que sou uma imbecil ?! Eu apaixonei-me só em ver uma foto sua ! Pensei que fosse achar ridículo !

 

         -Myrian, eu também apaixonei-me só em vê-la !

 

         -Mas foi pessoalmente ! Eu não, foi através de uma foto ! Eu mesma achava que estava louca ! Que você iria rir, se soubesse !

 

         Adrian a fitou gravemente.

 

         -Loucura foi você envolver-se com Andreas, para chegar até à mim !

 

         -Mas deu certo ! Eu a conheci ! Valeu à pena ! Se eu não o conhecesse, como iria conhecê-la ? Não sabia nada de sua vida, senão pelas revistas ! Como iria descobrir que você frequentava aquela boite ?

 

         -Mas agora está comprometida com ele e Agnes sabe de tudo ! Ela disse que se eu continuar minha ligação com você, vai contar tudo a Andreas. Deu-me somente dois dias para resolver.

 

         Myrian empalideceu. Olhou-a com lábios trêmulos.

 

         -Ela disse isso ?

 

         -Sim. Ela quer que eu termine com você e fique com ela.

 

         Os olhos de Myrian se encheram de ira.

 

         -Aquela galinha quer ficar com você ? Ah, como  a odeio ! Ela sempre quer prejudicar-me ! Sempre deu em cima de meus namorados, quando eu arranjava um !

 

         -Myrian, use a psicologia ! Ela tem ciúmes de você, com seus pais. Acha que eles só gostam de você e se sente inferior à você. No fundo, ela a admira e quer ser igual a você. Por isso, deseja tudo que você quer.

 

         Myrian a abraçou apertadamente.

 

         -Com ou sem psicologia, ela quer tirá-la de mim, meu amor ! Não posso admitir isso ! Mas, o que faremos ? Eu agora pretendo separar-me de Andreas, mas não queria que ele soubesse de nós dessa forma. Ele vai ficar arrasado e com ódio de nós.

 

         -Sabe, a solução é eu contar a ele toda a verdade. Antes que Agnes o faça. Eu contando, será bem melhor que a sua irmã, que nos pintará como duas devassas, sem sentimentos.

 

         Ela a fitou de perto. Seu olhar externava amor e medo.

 

         -Tenho medo por você, Adrian. É a irmã dele. Convivem sob o mesmo teto. Não quero que nada de mal lhe aconteça. Eu enlouqueceria !

 

         -Não se preocupe, meu amor. Conheço Andreas. Ele não é um homem violento e gosta muito de mim. Eu saberei falar.

 

         Myrian a fitou com temor.

 

         -Espero que esteja certa, Adrian. Um homem traído, ainda mais pela irmã, pode mudar radicalmente. O afeto que ele sente por você pode transformar-se em um ódio mortal.

 

         -Não seja pessimista. Eu a amo e não vou desistir de você. Beije-me, Myrian... quero-a mais uma vez. Preciso ouví-la dizer que me ama...

 

         Ela tomou sua cabeça entre as mãos e a fitou com adoração.

 

         -Dizer que a amo é pouco, para o que sinto. Eu a adoro, minha Adrian. Diga que é minha... que não vai deixar-me.

 

         -Nunca , querida... eu a amo. Sou sua.

 

         -Amor ! Meu amor ! – Sussurrou, procurando sua boca, ávida – Mais uma vez... quero ser sua.

 

         -Oh, Myrian !

 

         Um beijo calou suas vozes. A paixão voltou, avassaladora. Nos braços uma da outra, esqueceram tudo ou mais. E ficaram a noite toda entregues à paixão.

 

)))))))(((((((

 

 

         Adrian chegou em casa no dia seguinte, depois das dez horas da manhã. Estava exausta. Não havia dormido a noite toda, nos braços de Myrian, com ela esgotando-a, sorvendo o seu prazer, instigando-a a possuí-la de todos os modos possíveis, insaciável, querendo cada vez mais.

 

         Myrian agora dava vazão à sua paixão, sem freios.Beijava seu corpo todo e depois ficava imóvel, contemplando-a com adoração. Em sua extrema paixão, chegara a pedir a Adrian que lhe batesse. Adrian recusara, achando isso uma violência desnecessária, mas Myrian insistira, dando mordidas em seu ombro, provocando-a . Adrian então a esbofeteara, querendo ver até onde Myrian iria. E ela gemera de prazer, pedindo de olhos fechados :

 

         -No corpo, Adrian... bata...sou sua escrava...

 

         Adrian bateu nas coxas, nas nádegas, vendo Myrian se contorcer de prazer, gemendo desvairada. Ela atingiu o orgasmo assim, estremecendo, gritando seu nome. Depois a abraçou, com ar de felicidade, dizendo arrebatada, em seus braços :

 

         -Quero sentir todas a emoções com você. De prazer, de dor. Quero que use meu corpo sem receios e prevenções. Eu quero que ele seja seu de todas as formas, como ninguém antes teve. Ninguém a amará como eu, Adrian. É um amor tão forte, tão arrebatador, que me enlouquece, quando estou em seus braços.              

 

         E Adrian a beijara com loucura, sentindo que não podia mais passar sem Myrian. Ela era sua !

 

         Tinha que falar com Andreas, para acabar com aquela situação dúbia. Decidida, procurou-o na casa. Encontrou-o pronto para sair, acabando de tomar o café matinal, no salão de refeições. Ele a olhou curioso.

 

         -Que cara de ressaca ! Estava na farra ?

 

         Ela o encarou gravemente.

 

         -Quero falar com você, Andreas.

 

         -Agora ?  Tenho  de  ir  trabalhar.  Não  pode  ser  quando  eu  voltar  ?            –Perguntou, erguendo-se e pegando o paletó.

 

         -Não posso esperar. É urgente, Andreas.

 

         -Está bem. Sobre o quê quer falar-me ?

 

         -Sobre Myrian.

 

         Ele a fitou surpreso e preocupado.

 

         -Sobre Myrian ? O que houve ?

 

         -Calma, Andreas. Sente-se.

 

         Ele tornou a sentar na cadeira estofada, olhando-a ansioso.

 

         -Fale ! Estou nervoso. O que há com Myrian ?

 

         Adrian sentou diante dele, entrelaçando os dedos das mãos. Tomou coragem e falou :

 

         -Lembra que eu andava triste e nervosa, dias atrás ?

 

         Ele assentiu. Adrian prosseguiu :

 

         -Eu não queria abrir-me com você. Mas agora chegou o momento em que devo lhe fazer umas revelações. Andreas, eu andava triste porque conheci uma pessoa que me envolveu e apaixonei-me. E essa pessoa havia fugido de mim, depois de entregar-se comigo ao amor de uma noite em um hotel. Eu não sabia quem era, até reencontrá-la.

 

         Ele a fitou impaciente.

 

         -Bem, mas o que isso tem a ver com Myrian ?

 

         Ela o encarou decidida. Soltou a verdade, decidida :

 

         -Acontece que essa pessoa é Myrian !

 

         Ele a encarou. Em seu olhar surgiu o choque e a incredulidade. Depois, ele a fitou com as têmporas latejando.

 

         -Myrian ?!

 

         -Sim. Quando a conheci, numa boite, não sabia quem ela era. Myrian apresentou-se com um nome falso. Só descobri quem ela era na verdade, quando a vi em casa. Eu tentei esquecê-la, Andreas, mas foi inútil. Eu a amo e agora descobri que ela me ama também.

 

         Ele levantou-se lentamente da cadeira.  Colocou as mãos na cabeça e a olhou ainda incrédulo.

 

         -Você e Myrian se amam ?! Espere... deixa eu entender... você é homossexual... e Myrian tem um caso com você ? É isso ?

 

         -É. Eu sei que isso é terrível para você, mas não posso evitar esse amor, Andreas. E estou cumprindo o dever de falar a verdade para você, por mais que isso seja difícil para mim.

 

         Ele a olhou torvamente.

 

         -Desde quando vocês mantêm essa ligação ?

 

         -Desde quando Myrian veio em nossa casa.

 

         Ele a fitou com um fio de esperança.

 

         -Adrian ! Isso é uma brincadeira, não é ? Você não gosta de Myrian e está inventando isso para eu terminar com ela, não é ?

 

         -Não Andreas. Infelizmente, é verdade.

 

         Ele foi até o telefone e discou. Alguém do outro lado atendeu. Ele olhou para Adrian, falando :

 

         -Olga ? Quero falar com Myrian. Sou eu, Andreas.

 

         Ficou aguardando, segurando o telefone com a mão trêmula. Adrian se ergueu e aproximou-se, fitando-o com pena.

 

         -Myrian ? Sim, sou eu. Adrian está aqui ao meu lado e acabou de falar-me coisas incríveis, sobre ela e você. Eu quero ouvir de sua própria voz se tudo que ela contou é verdade.

 

         Ele ficou escutando e Adrian percebeu como ele foi ficando pálido. Finalmente, disse com voz apagada :

 

         -Então é verdade ?...

 

         Desligou o telefone e olhou para Adrian com ar perdido.

 

         -É verdade... – Balbuciou.

 

         -Andreas... não fique assim... – Disse Adrian, receosa.

 

         Ele a fitou com ar perplexo.

 

         -É verdade... – Repetiu, parecendo em estado de choque. Vestiu o paletó e dirigiu-se para a saída. Adrian puxou-o pelo braço, nervosa.

 

         -Espere, Andreas ! Não pode sair assim !

 

         Ele tentou sorrir, mas só fez uma careta.

 

         -Ficar para quê ? Quer contar-me os detalhes ? Não quero saber !

 

         Saiu, em passadas largas.

 

         Adrian teve um mal pressentimento. Andreas estava em estado de choque e Não podia dirigir assim ! A reação dele à notícia fora pior do que esperava. Achava que Andreas ia xingá-las e terminar dizendo que iria arranjar outra melhor que Myrian, fazendo jus à sua fama de conquistador. Mas ele estava muito chocado ! Não soubera avaliar bem a reação que ele poderia ter.

 

         Correu para impedí-lo de sair, mas quando chegou diante da mansão, ele já saía em disparada em sua Ferrari.

 

         -Andreas ! Volte ! –Gritou, nervosa.

 

         O carro avançou em elta velocidade e saiu pelos portões.

 

         Adrian voltou para dentro da casa. Ligou para Myrian nervosamente. Ela atendeu aflita.

 

         -Adrian ! O que houve ? Andreas desligou na minha cara, sem falar mais nada !

 

         -Ele saiu em disparada, Myrian ! Estou muito preocupada ! Não sei o que ele vai fazer !

 

         -Ele não ficou violento com você ?

 

         -Não, parecia em estado de choque ! Estou preocupada, porque acho que ele não estava bom para dirigir !

 

         -Oh, Adrian ! Estou tão aflita ! Ligue-me se acontecer algo ! Acho que não podíamos ter contado à ele a verdade assim, de supetão !

 

         -Tem razão. Eu não calculei bem a reação dele. Mas agora é tarde para lamentar. Vamos aguardar os acontecimentos.

 

         -Está bem, Adrian. Estarei em casa. Ligue-me.

 

         Adrian desligou e foi para seu quarto pensativa. O que Andreas ia fazer ? Ir à casa de Myrian, tomar satisfações pessoalmente ? Tomar um porre ? Não sabia.

 

         Tomou um banho, sentindo os nervos tensos. Vestiu um pijama e deitou-se, tentando dormir. Mas não conseguia, preocupada. Olhava para o telefone e esperava. Se ele fosse procurar Myrian, ela ligaria depois.

 

         Cochilou, vencida pelo cansaço.

 

         O telefone tocou e ela abriu os olhos, estendendo a mão e o pegando ansiosa. Uma voz estranha falou:

 

         -É da casa dos Von Thissen ?

 

         -Sim. Quem está falando ?

 

         -Aqui é a polícia. Houve um acidente de carro envolvendo Andreas Von Thissen.

 

         Adrian sentou na cama, sentindo uma onda de desespero dominá-la.

 

         -Andreas ! Como está ele ? Onde está ? Meu Deus !

 

         -É parente dele ?

 

         -Sou a irmã dele!

 

         -Ele foi enviado para o hospital municipal, sabe onde fica ?

 

         -Sim ! Como está ele ? Diga-me !

 

         -O estado dele é grave. É bom que se apresse.

 

         -Vou já para aí ! – Disse, pulando da cama.

 

         -Até logo, mademoiselle.

 

         Adrian vestiu-se nervosíssima. Pegou seu carro e saiu em disparada. Com o telefone do carro, ligou para o escritório de seu pai. Ele estava ausente, visitando uma das fábricas. Adrian desligou, tremendo. Se Andreas morresse, não se perdoaria ! Ela era a culpada do acidente !

 

         Chegou ao hospital em tempo recorde. Um policial estava na recepção e quando ela  chegou à recepção e se identificou, ele a olhou gravemente.

 

         -Infelizmente, não temos boas notícias, mademoiselle.

 

         -Fale ! Como ele está ? – Gritou, descontrolada.

 

         -Andreas Von Thissen não suportou os ferimentos. Faleceu há dez minutos.

 

         Adrian sentiu sua vista escurecer e caiu desmaiada.

 

 

))))))((((((

 

 

         A cerimônia do enterro chegou ao fim. O esquife foi descido à sepultura da família Von Thissen e coberto com uma laje de granito.

 

         Adrian ergueu os olhos, protegidos por óculos escuros. Ali estavam várias pessoas famosas, a nata das famílias ricas e  famosas da Europa. Os fotógrafos e cinegrafistas batiam fotos e filmavam, tumultuando o ato. Mas ela só olhava para o pai, que continha-se à custo, amparado por amigos. Era patética a expressão do rosto dele. Parecia ter envelhecido anos, em dois dias. O filho predileto, que iria assumir os seus negócios, estava morto.

 

         Seu olhar caiu sobre a família Polinska. Olga, o marido, Agnes e Myrian estavam juntos, todos com ar compungido, vestidos de negro.

 

         Adrian voltou-se e se afastou lentamente do local. Não agüentaria ficar recebendo os pêsames, estava à base de calmantes e sentia-se como que se movendo em um pesadelo. A morte de Andreas corroía seu íntimo, aumentando o seu sentimento de culpa à um ponto que a fazia desejar estar morta no lugar dele.

 

         Parou ao lado da limousine da família e engoliu em seco, tentendo desfazer o nó na garganta. Queria chorar, mas continha-se. Tinha de ser forte, por seu pai. Ele estava desesperado e se a visse chorar, iria ficar mais deprimido.

 

         Sentiu uma mão pousar em seu ombro. Voltou-se. Agnes a olhava com tristeza.

 

         -Adrian... quero dizer o quanto sinto  a morte de Andreas... e dizer que pode contar comigo para qualquer coisa. Eu gostava muito dele, apesar de minhas implicâncias.

 

         Os olhos de Adrian se encheram de ira.

 

         -Você foi uma das culpadas pela morte dele ! – Jogou, com voz baixa, mas cortante – Se não tivesse ameaçado em contar tudo à ele, eu não teria me antecipado ! Foi isso que o matou ! Eu contei à ele minha ligação com Myrian e ele saiu fora de si, dirigindo, até sofrer o acidente !

 

         Agnes recuou, empalidecendo.

 

         -Adrian, não pode culpar-me, está sendo injusta !

 

         -Saia da minha frente ! – Ofegou – Não quero vê-la nunca mais ! Você é uma garota perversa, que só pensa em manipular as pessoas !

 

         Myrian havia se aproximado também, notando que discutiam. Olhou para Agnes com autoridade.

 

         -Suma daqui, Agnes... – Disse baixinho, mas com firmesa – Não vê que Adrian não quer falar com você ? Respeite isso !

 

         Agnes olhou Adrian com tristeza e afastou-se. Myrian parou diante de Adrian e a fitou com ternura.

 

         -Acalme-se, meu amor... tem que ser forte.

 

         Adrian a fitou com sofrimento e revolta no olhar.

 

         -Você e eu também somos culpadas da morte de Andreas ! Oh, meu Deus! Como isso está me corroendo ! O remorso, a culpa por tê-lo traído !

 

         Myria a fitou consternada, com lágrimas escorrendo pelas faces.

 

         -Não, Adrian...não tivemos culpa. Ele acidentou-se porque dirigia com imprudência!

 

         -Ele queria morrer ! Os policiais contaram que ele estava dirigindo a 150 km por hora, quando houve o desastre ! Ele soube de nós e ficou fora de si ! Oh, sou culpada também !  Meu irmão, tão jovem, tão cheio de vida ! Ter esse final por nossa causa ! – Disse, começando a chorar.

 

         Myrian tentou abraçá-la, mas Adrian a empurrou. Olhou-a entre lágrimas, acusadoramente.

 

         -Não ! Nunca mais, Myrian ! Você foi o pivô de tudo ! Você usou Andreas e me fez traí-lo ! Não posso mais continuar com você !

 

         Myrian a olhou suplicante e pálida.

 

         -Adrian, pelo amor de Deus ! Foi tudo obra do destino ! Eu amar você com essa loucura, ele amar-me, você gostar de mim ! Não faça isso, não me deixe, eu não saberia ficar sem você ! Eu a amo demais !

 

         -Vá embora, Myrian ! Não podemos mais continuar, como se nada tivesse acontecido ! Seria monstruoso ! Não posso mais vê-la !

 

         Myrian tremia, fitando-a com profundo desespero.

 

         -Adrian, eu a amo ! Como pode falar essas coisas para mim, sabendo que vai fazer-me profundamente infeliz ?

 

         Adrian a encarou, parando de chorar. Myrian leu nos olhos dela  a decisão irrevogável.

 

         -Vamos carregar essa culpa pelo resto de nossas vidas. E não posso ficar com você, que foi a causadora de tudo. Não me procure mais.

 

         Myrian começou a soluçar. Adrian não agüentou ver isso. Entrou na limousine e fechou a porta, olhando para o outro lado. Tinha que agir assim. Por mais que lhe doesse.

 

         Myrian ainda ficou ali chorando, até que o pai de Adrian chegou, amparado pelos amigos. Colocaram-no na limousine e o veículo partiu. Adrian viu pelo espelho retrovisor Myrian chorando, sendo assediada pela imprensa. Finalmente eles a tinham visto ali e a cercavam, ávidos por um detalhe de emoção do funeral.

 

         Adrian sentia-se como se tivesse arrancado de si um pedaço do seu corpo. Ela continuaria a amar Myrian, talvez o resto de sua vida. Mas não podia tê-la mais. Devia ao menos isso à Andreas. Ele perdera a vida, mas ela também arrancara de si a felicidade, numa auto-punição que a faria sentir-se infeliz e seca como uma árvore morta. De pé , mas sem a seiva do amor que a faria feliz.

 

         E ali, ao lado de seu pai, não conteve mais as lágrimas, que saíam de seus olhos.

 

))))))((((((

 

 

         Os dias se passaram com ela refugiada em seu quarto, sofrendo infernalmente. Myrian telefonava, mas ela não atendia a nenhum dos telefonemas. Ela chegou a ir em sua casa, mas Adrian não a recebeu, trancada no quarto. Mandou cartas, que Adrian rasgava e queimava sem ler.

 

         Foi seu pai quem a aconselhou a tomar uma decisão, dez dias depois do funeral. Ele a procurou em seu quarto e sentou ao seu lado, com olhar abatido, dizendo:

 

         -Adrian, agora você é tudo que tenho. E não quero que continue nessa tristeza, trancada nesse quarto. A vida continua. Estou arrasado com perda de Andreas, mas graças à Deus ainda tento tocar a vida. E você vai fazer o mesmo.

 

         Ela o fitou desanimada.

 

         -O que quer que eu faça ?

 

         -Que comece a tomar as rédeas das empresas. Você agora é a única herdeira.

 

         -Não sei nada sobre seus negócios, meu pai.

 

         -Mas pode aprender. Você abandonou a faculdade no terceiro ano, lembra?

Pois agora, pode concluir os estudos e preparar-se para gerir os negócios.

 

         Ela o olhou com certa comoção. Ela agora era a única herdeira da fortuna que ele construíra. Tinha que dar à ele a certeza que suas empresas, com a sua morte, não cairiam em mãos estranhas. Devia isso à ele.

 

         -Está bem, meu pai. Mas eu escolherei a faculdade.

 

         Ele a fitou com satisfação.

 

         -Eu sabia que você não iria desapontar-me, minha filha. Está bem. Onde pretende estudar ?

 

         -Na UCLA, em Los Angeles.

 

         -Tão longe ? Por que não aqui, na Europa ?

 

         -Eu quero ir para um lugar bem distante daqui, meu pai. Pelo menos, por alguns tempos, até essa tristeza da morte de Andreas passar.

 

         -Entendo... também acho que aqui tudo lembra ele. Vou fixar residência em Londres, por um ano. Muito bem. Então, está decidido. Você vai para Los Angeles completar os estudos.

 

         Adrian lembrou ter lido em uma revista que Laureen Lancer agora trabalhava em Los Angeles.  Iria procurá-la, para ao menos ter uma amiga para poder falar sobre seus problemas.

 

 

))))))((((((

 

        

         Quando Adrian se desembaraçou dos trâmites legais da alfândega e saiu para a área livre do aeroporto, a primeira pessoa que viu foi Laureen, linda em um "tailleur" de linho branco. Ela veio ao seu encontro com um sorriso e a abraçou apertadamente.

 

         Adrian a abraçou também, sentindo um enorme carinho por ela. Afastou-se e a fitou sorrindo.

 

         -Que bom ver você novamente, Laureen ! – Disse , emocionada.

 

         -Ah, quando você ligou-me, dizendo que vinha para cá, nem acreditei ! Você está linda, Adrian !

 

         -E como está sua vida, Laureen ?

 

         Ela a fitou com um sorriso triste.

 

         -Acabei tudo com Paul. Estou sozinha, Adrian. E você ? Soube da morte de Andreas. Imaginei que isso a deixou muito abalada, não é ?

 

         Adrian deixou de sorrir.

 

         -Demais, Laureen. Você, que sabe de minha vida, pode avaliar como fiquei. Sinto-me culpada da morte dele.

 

         Laureen a fitou atenta e séria.

 

         -Entendo... venha, vamos conversar em meu carro. Você, se quiser, pode ficar hospedada lá em casa.

 

         -Agradeço, Laureen. Mas já esta tudo providenciado. Meu pai tem uma casa em San Fernando Valley e vou ficar lá.

 

         Ela sorriu, disfarçando a decepção.

 

         -Ah, o magnata tem várias propriedades espalhadas pelo mundo ! Esqueci desse detalhe ! Então, vou levá-la até lá.

 

         Foram para o estacionamento do aeroporto e colocaram as malas no carro. Laureen tomou a direção e saíram em direção ao famoso bairro de LA.

 

         Adrian contou tudo que acontecera, desde que voltara de Gstaad. Laureen a ouvia em silêncio, com uma expressão de gravidade, sem apartes. Quanto terminou o relato, já estavam chegando e Laureen apenas falou, séria:

 

         -Eu sabia que essa paixão que você sentia por Myrian tinha tudo para não dar certo, mas calei-me porque você não iria aceitar conselhos. E deu nisso.

 

         Adrian evitou rebater o comentário. Chegaram e Laureen  estacionou o carro na garagem da belíssima residência debruçada sobre o vale, de estilo mediterrâneo.

 

         Laureen olhou em volta com curiosidade e fixou seus belos olhos em Adrian, que abria as cortinas das janelas que davam para a deslumbrante vista.

 

         -E agora, Adrian ? O que pretende fazer de sua vida ?

 

         Adrian a fitou desanimada.

 

         -Continuar a viver. Eu ainda amo Myrian, mas sei que tenho de esquecê-la. Vou estudar e preparar-me para assumir os negócios de meu pai. A boa vida acabou. E me sinto tão vazia, preciso de uma atividade que consuma meu tempo.

 

         -Tomou um bom rumo na vida, Adrian. E se quiser, posso ajudá-la a sair dessa paixão insana. Eu a amo ainda, Adrian.

 

         Adrian a olhou com um sorriso triste.

 

         -Lamento, Laureen. Mas não estou preparada para ter ninguém, durante muito tempo. Esse amor machucou-me muito, pelo seu desfecho. Não quero saber nem de aventuras, quanto mais uma relação séria. Eu quero apenas sua amizade.

 

         Laureen aproximou-se e a fitou bem de perto.

 

         -É isso mesmo que quer ? Está bem, seremos amigas. Eu não tinha mesmo muita esperança que me quisesse ainda. Mas não sei ficar sozinha por muito tempo. Vou combater o amor que sinto por você aceitando uma oportunidade que aparecer. Não se consegue esquecer um amor, estando só.

 

         Adrian sorriu, fitando-a .

 

         -Você é uma mulher prática, Laureen. Gostaria de ser como você. Mas ainda não estou preparada para uma nova relação. Preciso de tempo.

 

         -Vou apresentá-la às pessoas de minhas relações. Conheço muita gente interessante e você não vai sentir-se sozinha aqui. A vida em LA é intensa, com muitas festas interessantes.

 

         -Obrigada, Laureen. Mas é de uma amiga como você que estou precisando.

 

         E a vida de Adrian recomeçou, naquela cidade. A faculdade, os novos amigos apresentados por Laureen, a vida agitada na metrópole, suavisaram a sua dor.

 

         Laureen conhecia realmente pessoas divertidas, inteligentes e de agradável convívio. Artistas plásticos, escritores, jornalistas, atores, cantores, cada festa que Laureen a levava, Adrian conhecia alguém que a enfronhava na sociedade local. E ela, por ser uma celebridade e de uma das mais tradicionais famílias européias, fazia um grande sucesso nesse novo ambiente.

 

         Mas a lembrança de Myrian persistia e a fazia sofrer. Em seu quarto, depois das badalações noturnas, muitas vezes chorava baixinho pelo amor a que tivera de renunciar. Não conseguia interessar-se por ninguém. Era como se sua libido estivese morta, porque nem desejo por alguém conseguia sentir.

 

         Laureen, porém, envolveu-se em diversas aventuras amorosas, até que conheceu o filho de um senador e declarou a Adrian que finalmente a tinha esquecido com ele. Planejavam casar-se no outono.

 

         Adrian sorriu, sinceramente feliz com a notícia.

 

         -Estou feliz por você, Laureen. Encontrou uma pessoa que a ama e vai fazê-la feliz.

 

         -Eu fui em busca da felicidade, Adrian. Não me neguei à vida, como você está fazendo. Você não conseguirá esquecer Myrian, se continuar sozinha. – Disse ela, séria.

 

         Adrian a fitou surpresa.

 

         -Por que acha que ainda não a esqueci ? Nunca mais toquei no nome dela com você !

 

         Laureen a fitou nos olhos.

 

         -E precisa dizer ? Eu  noto isso ! Você vai a várias festas, conhece mil pessoas, mas não quer ninguém ! Homens e mulheres que você conquistaria se quisesse, mas prefere ficar chorando por um amor perdido. Talvez Myrian já esteja com outra pessoa, e você fica aí sozinha !

 

         Adrian a olhou com tristeza.

 

         -Pode ser, Laureen. Talvez Myrian já tenha me esquecido. Afinal, já se passaram seis meses de nosso rompimento. Mas não me sinto ainda com vontade de ter alguém.

 

         -Lamento, Adrian. Porque sua vida está passando e você não quer dar-se a chance de novamente voltar a viver.

 

         -Tudo bem, deixe-me em meu canto, que saberei a hora de ter outra pessoa em minha vida !- Disse, irritada em pensar que Myrian poderia estar com alguém.

 

         Laureen suspirou e despediu-se:

 

         -Tente, Adrian. Tente apaixonar-se. Abra-se para uma nova conquista, mesmo que não queira nada sério. Não vou mais tocar nesse assunto, porque sei que a incomoda. Mas pense no que digo. Eu só quero que seja feliz.

 

         Adrian abraçou-a afetuosamente, fitando-a, arrependida de sua explosão de mau humor.

 

         -Eu sei que você me quer bem, Laureen. Desculpe-me, se fui agressiva. Mas eu mesma tenho de escolher o que é melhor para mim.

 

         -Está bem, Adrian. Não vou mais tocar nesse assunto.

 

         Ela se foi e Adrian ficou pensativa. Será que ela estava certa ? Que não esquecia de Myrian porque estava só ?

 

         Tomou uma decisão. Iria tentar recomeçar sua vida amorosa. Sem prender-se a ninguém, só aventuras.

 

         E na próxima festa que foi, colocou sua decisão em prática.

 

         Entre os convidados, notou uma mulher belíssima, uma atriz de televisão que era conhecida por seus casos amorosos de curta duração. Donna Dorr, uma loura de olhos verdes e corpo escultural. Ela estava numa roda de homens , que riam de alguma coisa que ela falava.

 

         Adrian ficou olhando-a, esperando ela ficar só, para ir falar com ela.

 

         Donna riu e relanceou o olhar em volta. Deu com o olhar fixo nela e sorriu maliciosamente. Falou alguma coisa e saiu do grupo, vindo em direção a Adrian, que estava no canto do salão, sentada em um sofá, bebendo champanhe.

 

         Ela sentou ao lado de Adrian, olhando-a com um sorriso.

 

         -Já fomos apresentadas ? – Perguntou, olhando-a nos olhos.

 

         Adrian sorriu, olhando-a atenta. Ela era muito bonita.

 

         -Não, ainda não. Cheguei há pouco.

 

         -Então, tomo a liberdade de apresentar-me. Donna Dorr.

 

         -Adrian Von Thissen, muito prazer.

 

         Ela a fitou surpresa.

 

         -Adrian Von Thissen ! Bem que achei seu rosto familiar ! Eu já a conheço em revistas !

 

         -E eu a conheço da tv.

 

         -É mesmo ? E gosta da minha atuação ?

 

         -Sim, é uma boa atriz, Donna.

 

         Ela a fitou com franca admiração.

 

         -Já ouvi falar muito em você, Adrian.

 

         Adrian sorriu.

 

         -Bem ou mal ?

 

         -Bem, naturalmente ! –Riu Donna – Conheço uma mulher que era alucinada por você !

 

         Adrian enrubesceu, mas manteve o sorriso.

 

         -Minha fama está maior que eu pensava... quem era essa mulher ? – Perguntou, com naturalidade.

 

         -Madeleine Nielsen. Uma atriz sueca.

 

         Adrian lembrou dela. Fora um caso de dois meses que tivera, dois anos atrás.

 

         -Ah, sei quem é... vocês são amigas ?

 

         -Mais ou menos. Trabalhei com ela em um filme. Ela confessou-me que era lésbica, mas mesmo assim casou com um diretor de cinema. Ele a ajudou na carreira, entende ?

 

         - Entendo. Isso é muito comum no “ show business “.

 

         Ela a encarou com curiosidade.

 

         -Você a deixou e ela demorou a esquecê-la. Você deve ser muito perigosa, garota !

 

         Adrian riu.

 

         -Nem tanto, Donna. Acho que você é mais.

 

         -Acha isso porque sabe que meus casos são de curta duração ? – Perguntou, encarando-a.

 

         -Bem, isso é um indício...

 

         -Engana-se. Eu sou muito sincera em meus relacionamentos, mas não tenho sorte.

 

         -Não tem sorte ?! Não acredito ! Uma mulher tão bela como você ! Deve ter inúmeros admiradores !

 

         -Pode ser... mas ainda não conheci um homem que não seja cafageste. Todos dizem que me amam, mas adoram a boa vida que lhes dou ! O último que tive, montou uma loja com o meu dinheiro.

 

         -Oh... sinto muito, Donna... mas precisa escolher melhor os seus parceiros.

 

         Ela a fitou nos olhos.

 

         -Quer sair comigo ? Você me atraiu assim que a vi, Adrian. Nunca transei com uma mulher, mas você fez-me desejar isso. Pelo menos, sei que não vai explorar-me.Tem muito mais  dinheiro que eu.

 

         Adrian sorriu. Donna era belíssima. Por que não ?

 

         -Aceito a proposta... sem compromisso sério, ok ?

 

         Ela sorriu radiante.

 

         -Tudo bem, Adrian. Vamos agora ? Essa festa está muito chata.

 

         -Vamos.

 

         Donna a levou até a Park Avenue, onde tinha um belo apartamento. Logo que chegaram, ela a abraçou e a beijou com ímpeto sedento. Adrian correspondeu, sentindo o desejo dominá-la, depois de tanto tempo sem essa sensação.

 

         Donna levou-a para o quarto e despiu-se apressada. Tinha um belo corpo. Despiu Adrian entre beijos famintos e deitaram-se na cama. Adrian a beijou nos seios e ela contorceu-se de prazer, empurrando sua cabeça para baixo.

 

         -Chupe-me toda, Adrian... – Pediu, ofegando.

 

         Adrian parou e a olhou. Donna abria as pernas, impaciente por sua iniciativa. Uma mulher linda, oferecendo-se com paixão. Mas não a amava. O que estava fazendo ali ?

 

         Ergueu-se, desprendendo-se dos braços dela. Donna a fitou surpresa.

 

         -O que foi ?

 

         -Desculpe-me, Donna, mas não posso – Disse, pegando suas roupas no chão.

 

         Donna sentou-se na cama e a olhou incrédula.

 

         -O que está dizendo ?!

 

         Adrian começou a vestir-se. Olhou-a calmamente.

 

         -Não posso, Donna. Vou embora. Foi um erro eu ter aceitado seu convite.

 

         Ela ergueu-se da cama, furiosa.

 

         -Vai deixar-me assim, com esse tesão ? O que deu em você ?

 

         -eu não quero ir para a cama com você. Sinto muito, Donna. Mas perdi a vontade.

 

         -Está me desprezando ? Eu, Donna Dorr ? – Gritou ela – Sua filha da puta, julga-se boa demais para mim ?

 

         Adrian a olhou com desprezo e raiva.

 

         -Não me insulte, sua cadela ! Tenho todo o direito de só ir para a cama quando eu quiser !

 

         -Então, por que veio até aqui ? Não sabe o que quer ? Ah, não vai sair daqui tão fácil ! – Gritou ela, avançando agressivamente.

 

         Adrian segurou-a pelos pulsos e a sacudiu rudemente, fitando-a com frieza.

 

         -Cuidado com o que diz ou faz ! Posso perder a paciência e não vai ser nada bom para você !

 

         Empurrou-a com força e ela caiu sobre a cama, choramingando.

 

         -Eu queria ser sua... eu, Donna Dorr ! Mas você não é de nada, só sabe provocar ! Ah, eu a odeio !

 

         Adrian terminou de vestir-se e a olhou com pena. Ela não tinha culpa de não ter conseguido tirar de sua mente a imagem de Myrian.

 

         -Desculpe-me, Donna. Não é sua culpa. É que amo uma mulher e não consigo ir para a cama com mais ninguém. Eu tentei, mas não consegui.

 

         Ela a  fitou com súbita compreensão no olhar. Adrian restaurara com essa declaração seu orgulho ferido.

 

         -Por que não disse logo? Está bem. Pode ir embora.

 

         Adrian saiu dali com uma sensação de alívio. Mas infeliz, ao constatar que Myrian estava mais viva que nunca em seu coração. Deus, por que não a esquecia ?

 

         Depois dessa tentativa, Adrian conformou-se em ficar sozinha. Afastou-se das festas e dedicou-se totalmente aos estudos, levando uma vida reclusa, recebendo apenas a visita de Laureen, que estava feliz em seu casamento e preocupava-se em ver Adrian tão infeliz.

 

E o tempo foi passando. Adrian formou-se em Administração com ótimas notas e foi presidir uma das empresas de seu pai, em Londres.

 

 

(((((((((())))))))))

 

 

         Adrian olhou para a pista do aeroporto de Orly, que parecia subir ao seu encontro, com o pouso do avião.

 

         Novamente em Paris, depois de cinco anos da ausência.

 

         Suspirou. Cinco anos ! Como mudara nesse tempo ! A antiga Adrian irresponsável, sem medir consequências de seus atos, cedera lugar a uma mulher dinâmica, que trabalhava nos negócios do pai, preparando-se para assumí-los totalmente quando fosse necessário.

 

         Seu pai também mudara, depois da morte de Andreas. Vivia arredio em Londres, mal saindo. Não queria mais voltar a morar em Paris.

 

         Adrian orgulhava-se de que a empresa que administrara tivera o maior lucro dos últimos dez anos. Havia estagiado antes de dirigí-la e conhecia-a bem.

 

         A imprensa agora era benevolente com ela. Comentavam que Adrian Von Thissen era agora uma mulher responsável, levando uma vida discreta, longe da “ dolce vita “ de antigamente. Seu nome era mais comentado nas colunas de negócios, que nas de fofocas.

 

         Não tinham o que dizer. A sua vida sentimental era nula. Mal saía. Adrian sentia que sua ferida interna ainda não havia cicatrizado. Ainda pensava em Myrian e seu coração enchia-se de sofrimento. Não conseguiria esquecê-la nesses cinco anos.

 

         Não sabia mais dela. Havia partido e não recebera mais nenhuma notícia de Myrian. Às vezes pensava em telefonar para a mãe dela, para saber notícias da família, mas se continha. Para quê ? Para saber que Myrian estava com outro alguém ? Era melhor ignorar.

 

         O avião parou e Adrian ergueu-se. O jatinho particular estacionou em um hangar particular e ela desceu as escadas direto para a limousine que esperava na pista.

 

         Em pouco tempo, chegou em casa. Olhou em volta, vendo que aparentemente, tudo continuava como antes. Mas não era mais. Agora ali não havia Andreas, nem seu pai. Ficaria ali sozinha, só com a companhia dos criados. Agüentaria a solidão ? Tinha de agüentar. Encarar a realidade.

 

         Os criados, enfileirados, lhe deram as boas-vindas. Ela cumprimentou-os um a um e depois subiu para o seu quarto. Jogou a pasta que trazia naz mãos sobre a poltrona e começou a tirar a roupa. Foi para o banheiro e tomou um longo banho. Enxugou-se, vestiu um pijama de seda e colocou um robe por cima. Voltou ao quarto. Estava tão frio e vazio ! Aquele silêncio a deprimia.

 

         Sentiu saudades de Andreas. Ele era tão jovial, enchia aquela casa de vida!

 

         Num impulso, foi ao quarto dele. Abriu a porta e entrou, hesitante. Estava tudo do mesmo jeito de quando ele morrera.Os criados limpavam o aposento, mas tinham ordem de seu pai de não modificar nada.

 

         Foi até a escrivaninha e a alisou, saudosa. Viu o porta-retrato com a foto de Myrian e ficou olhando-a muito tempo, com olhar perdido. Sentou na escrivaninha e abriu a gaveta.

 

         Viu um pacote pardo e ficou curiosa. O que teria ali ?

 

         Pagou-o e o abriu. Tirou o conteúdo e notou que eram várias cartas endereçadas à Andreas. Olhou o remetente. Claudine Desson. Nunca ouvira falar dela.

 

         Um tetegrama chamou sua atenção, em meio às cartas. Pegou-o e leu.

 

         “ Comunico que Claudine morreu hoje, pela manhã. Você deve saber que foi o causador dessa morte. “

 

         O remetente era Pierre Desson.

 

         Adrian o leu várias vezes, espantada. Por que aquele homem acusava seu irmão pela morte de Claudine Desson ? A resposta devia estar naquelas cartas.

 

         Pegou-as. Pelo carimbo do correio, colocou-as em ordem cronológica. Abriu a mais antiga, datada de sete anos atrás, e leu :

 

         Andreas, meu amor,

 

         Sinto tantas saudades de você, que acho que vou enlouquecer. Meu pai me repreende, ele diz que você jamais se casará com a filha de um humilde padeiro. Mas confio em suas promessas, meu amor. E mesmo que não se case comigo, como diz sempre, não importa. Eu o amo sem interesse algum, pelo que você é como homem, não pela sua fortuna. “

 

 

         O resto eram declarações arrebatadas de amor.

 

         Adrian passou para a segunda carta. A moça se queixava que ele quase não a procurava mais e mostrava-se desesperada.

 

         Nas outras cinco, ela parecia ter entrado em desespero total. Implorava a Andreas que a fosse ver, estava grávida e não sabia o que fazer.

 

         Na sexta, comunicava o nascimento de uma criança. Era um garoto e ela colocara o nome dele. Implorava que Andreas fosse vê-la, ao menos para conhecer o filho. Não iria exigir nada.

 

         Na sétima carta, a moça se mostrava patética em seu sofrimento. Dizia que nada mais interessava na vida, que suas ilusões haviam terminado. Que não queria mais viver.

 

         A oitava carta, era do pai dela. Adrian a leu, comovida :

 

                        “ Caro sr. Andreas Von Thissen

 

         É sabedor da situação de minha filha, que está internada em uma clínica, com anorexia nervosa. E essa enfermidade foi causada pelo procedimento do senhor, que não se dignou uma vez sequer a vir ver minha filha, ou ao seu filho. Ela começou a deixar de se alimentar e agora está com essa doença grave. Peço ao que resta no senhor de sentimento que venha vê-la ao menos uma vez. Isso poderá ajudá-la a sair do estado em que se encontra. Não desejo nada do senhor, além desse gesto de caridade. “

 

        

         Aí as cartas terminavam. A data da última era de seis anos atrás.

 

         Adrian ficou imóvel, pensativa. Será que Andreas era mesmo um homem sem sentimentos, como aquelas cartas mostravam ? Um homem que iludira uma moça, que a engravidara e a abandonara sem nenhum sentimento, não ligando nem para o filho que nascera ? Que sabia que a moça estava definhando de sofrimento e não ia vê-la, ao menos por humanidade ?

 

         Se tudo aquilo era verdade, ele era uma pessoa cruel, que não merecia nenhuma consideração ! O que fizera à ele fora apenas o mal que ele semeara e colhera de volta. A mão do destino castigando-o por uma crueldade. Tinha de apurar aquilo !

 

         Copiou o endereço do telegrama e guardou as cartas na gaveta. Voltou ao seu quarto e vestiu-se rapidamente. Saiu e pegou seu carro na garagem, saindo velozmente.

 

         O endereço ficava há mais ou menos uma hora de Paris, em um bairro pobre. Encontrou a rua e olhou para o prédio velho e feio, com o número do telegrama. Os trausentes olhavam curiosos aquela mulher bela e bem vestida, com aquele carro caríssimo, ali olhando o prédio velho.

 

         Adrian desceu do carro, fechou-o e entrou no prédio. Subiu os dois lances de escada e parou diante de uma porta com a pintura descascada. Apertou a campainha, depois de hesitar.

 

         Um homem magro e alto, de olhar triste, abriu a porta e a fitou surpreso. Estava pobremente vestido, mas limpo.

 

         -Sim, madame ?

 

         -Quero falar com Pierre Desson.

 

         -Sou eu. O que deseja, madame ?

 

         Adrian respirou fundo.

 

         -Meu nome é Adrian Von Thissen. Sou irmã de Andreas.

 

         Ele a fitou friamente.

 

         -O que deseja de mim ? É muito tarde para tentar consertar alguma coisa ! Minha filha está morta !

 

         -Por favor, senhor Desson ! Preciso falar-lhe ! Só soube da existência de vocês hoje, lendo as cartas !

 

         Ele a encarou por uns instantes e afastou-se para ela entrar. Adrian passou por ele e olhou em volta. Era um apartamento pequeno e pobre, mas muito limpo.

 

         Um garotinho entrou na sala correndo e estacou ao vê-la. Adrian o fitou emocionada. Era igual a Andreas, quando criança. Louro, de olhos azuis, o mesmo olhar e a mesma pose imponente, mesmo em roupas ordinárias.

 

         O homem estendeu a mão, pegando na do garoto.

 

         -Vá para o quarto brincar, Andreas. Depois vovô vai chamar você para jantar.

 

         Ele olhou para Adrian com os grandes olhos azuis, curioso.

 

         -Quem é ela, vovô ?

 

         -Uma visita. Vá, depois o chamarei.

 

         O garoto retirou-se e o homem indicou um velho sofá para Adrian sentar, sentando-se numa cadeira. Cruzou as mãos e a fitou friamente.

 

         -O que deseja, madame ?

 

         Adrian suspirou, encarando-o.

 

         -Deve estar estranhando minha visita, depois de tantos anos. Mas , como falei, só tomei conhecimento da existência de vocês hoje, quando vi as cartas que sua filha remeteu para Andreas e seu telegrama. E vim constatar se aquelas cartas diziam a verdade.

 

         -Bem, acabou de ver que minha filha não mentiu, madame. E vejo que seu irmão não contou nada à familia, não ? Eu imaginava. Ele não iria contar a alguém como foi cafageste e desumano.

 

         -Mas ele não visitou Claudine nem uma vez ?

 

         -Não. Só mandou um telegrama. Dizendo que não queria saber de filho nenhum e que  Claudine o deixasse em paz.

 

         -Posso ver esse telegrama ?

 

         -Pode. E também uma carta dele para Claudine, antes dela ficar grávida.

 

         Foi até uma velha estante e tirou um envelope de dentro de um livro.Estendeu para Adrian. Ela o pegou e retirou um telegrama e uma carta. Leu primeiro a carta. Reconheceu a letra de Andreas logo.

 

                    “ Meu amorzinho,

 

         Estou louco por você. Conto as horas para vê-la. Sei que fui o primeiro homem em sua vida e isso só me enche de felicidade. Eu a amo demais. Estarei aí no final da semana e iremos para o nosso hotelzinho, onde tivemos dias lindos.

         Sabe, o que mais me comove é que você entregou-se à mim pensando que eu era um rapaz pobre, porque eu não queria que você soubesse quem eu sou e fingi ser um estudante sem recursos, quando a conheci. Isso só me faz valorizá-la. Você não me amou pelo dinheiro, como tantas outras. Eu a quero para sempre, não duvide.

 

                  Com amor, Andreas. “

 

 

         Aquela carta convenceria qualquer mocinha que Andreas a amava. Adrian olhou para Pierre Desson.

 

         -Quantos anos tinha Claudine, quando o conheceu ?

 

         -Dezesseis anos. Ele a viu na rua e a seguiu até a igreja. Apresentou-se como um estudante em férias e começaram a namorar.

 

         Adrian suspirou e leu o telegrama:

 

 

         “ Não tenho culpa da sua gravidez. Você foi muito descuidada e não pode culpar-me. Pois tenha o seu filho, mas deixe-me em paz. Meu amor acabou.

                                      Andreas.

 

         Adrian devolveu a carta e o telegrama a Pierre Desson, com olhar decepcionado. Seu irmão fora um cafageste, um homem frio e desumano.

 

         -O procedimento de meu irmão foi inqualificável, senhor Desson. Mas estou disposta a compensar vocês de tudo, se ainda é possível – Disse, com amargura.

 

         Ele a olhou com indiferença.

 

         -Compensar-nos ? Com dinheiro ? Isso não trará Claudine de volta. Ela está morta, madame. E não adianta mais nada.

 

         -Mas existe o garoto. Ao vê-lo, não tenho dúvidas de que é filho de Andreas. Vou falar com meu pai. Se ele aceitar os fatos, o garoto será contemplado no testamento de meu pai e será registrado como herdeiro. E vocês terão uma vida melhor, com conforto. Somente peço que espere eu falar com meu pai. Se ele não concordar em aceitar o neto, eu mesma comprarei uma boa casa para vocês e pagarei todas as despezas, inclusive a da educação de Andreas, em um dos melhores colégios.

 

         Ele a olhou com gratidão.

 

         -Sou um velho e não tenho muito tempo de vida. O futuro de Andreas me preocupava, ele só tem a mim. Agora surgiu a senhora, com uma esperança. Deus a ilumine, madame.

 

         Adrian ergueu-se. Sorriu, estendendo a mão para ele.

 

         -Até breve, monsieur. Logo lhe darei notícias.

 

         Ele apertou sua mão, mas disse:

 

         -Quer ver uma foto de minha filha com seu irmão ?

 

         Ela o fitou surpresa.

 

         -Existe uma foto dos dois juntos ? Quero, sim.

 

         Ele foi à estante e pegou a foto. Estendeu para Adrian. Ela olhou, curiosa.

 

         Claudine era uma garota linda. Cabelos negros longos, um rosto angelical, um par de olhos claros e sonhadores. Abraçada com Andreas em um jardim, o olhava com olhar apaixonado. Ele a fitava também, sorrindo. Como ele parecia apaixonado ! A garota se iludira com um homem que sabia enganar e conquistar. Pobre Claudine !

 

         Saiu dali com uma nova realidade. Era como se de repente se sentisse livre de uma pesada algema. Seu complexo de culpa em relação à Andreas havia sumido. Ele não era o rapaz generoso e franco que pensara. Era frio, enganador, desumano. Merecera a traição de que fora vítima. Pagara o que havia feito à Claudine. Ela e Myrian foram os instrumentos do destino para isso.

 

         Myrian ! Onde estava, como estava ? Será que a havia esquecido e estava com outra pessoa ? Ah, como Myrian havia sofrido inutilmente ! E ela também ! E a havia expulsado de sua vida, por causa de Andreas !

 

         Seu coração começou a pulsar mais forte. Não ia esperar mais. Ia procurá-la. Se ela ainda a amasse, a aceitaria.

 

         Dirigiu o carro para a casa dela. Ia cheia de medo de não conseguir que Myrian a quisesse, mas tinha de tentar. Dela dependia sua felicidade, era ela quem amava e amaria sempre.

 

         Os quilômetros foram devorados pelo carro em alta velocidade. Chegou e estacionou diante da mansão. Ali também parecia nada haver mudado. Apertou a campainha e o mordomo veio abrir. Olhou-a, reconhecendo-a, e sorriu.

 

         -Mademoiselle Von Thissen ! Que prazer, voltar a vê-la !

 

         Ela sorriu, entrando.

 

         -Myrian está ? Queria falar com ela.

 

         -Não, mas madame Polinska e a filha Agnes estão. Acompanhe-me, elas estão no jardim.

 

         Adrian o acompanhou até os fundos da residência. E parou, olhando a cena.

 

         Olga Polinska tricotava, sentada numa espreguiçadeira. Agnes tinha uma criança no colo e ria, brincando com ela.

 

         O mordomo a anunciou e Olga Polinska e Agnes a olharam surpresas.

 

         Adrian aproximou-se, sorrindo. Notou que Agnes estava mais desenvolvida, mais cheia de corpo. Ela sorriu, com ar irônico,colocando a criança no carrinho ao seu lado.

 

         -Ora,ora ! Não é que Adrian ressurgiu das cinzas ?

 

         Ela ergueu-se e a abraçou, beijando-a nas faces, sorridente. Adrian a beijou também e depois cumprimentou a mãe dela, que lhe sorriu cordialmente.

 

         -Que agradável surpresa, Adrian ! –Disse ela – Sente-se ! Há quanto tempo não nos visita !

 

         Adrian sentou-se, encabulada. Agnes sentou ao lado dela, olhando-a com um sorriso. Não havia ressentimento em seus olhos e Adrian suspirou aliviada.

 

         -Estive ausente do país desde a morte de meu irmão – Explicou – Cheguei hoje.

 

         Madame Polinska a fitou tristemente.

 

         -Oh, sei o quanto você e seu pai o amavam... nós também ficamos muito tristes com a morte dele. Era o noivo de Myrian e o queríamos muito ! – Disse ela, comovida.

 

         Adrian a fitou ansiosa.

 

         -E Myrian, como está ?

 

         -Ah, Myrian sofreu muito com a morte de Andreas, ela chorava dia e noite, trancada em seu quarto ! Teve de ser internada, fez sonoterapia durante um mês, para recuperar-se. Mas agora está bem.

 

         Agnes olhou para a mãe.

 

         -Mamãe, vá providenciar um lanche para nós. Adrian deve estar com sede, pela viagem.

 

         Madame Polinska sorriu para Adrian.

 

         -Claro, vou trazer uns biscoitos com chá. Espere um pouco , Adrian.

 

         Ela afastou-se e Adrian olhou para Agnes. Ela parecia mais madura e calma.

 

         -Você mudou, Agnes. Está mais tranqüila.

 

         Ela sorriu, olhando-a divertida.

 

         -Tinha de mudar. Casei-me e tive esse filho lindo !

 

         Adrian olhou para o bebê surpresa. Então notou que ele era parecidíssimo com ela.

 

         -Ele é seu filho ?! Pensei que fosse de alguma amiga sua ! Puxa, como as coisas mudam !

 

         Ela riu, pegando-o nos braços.

 

         -É o meu querido Julian ! Mudei, Adrian. Encontrei um homem que conseguiu mudar meu modo de ver as coisas. Ele é maravilhoso e me ama muito.

 

         Adrian sorriu, verdadeiramente alegre com a notícia.

 

         -Que bom, Agnes ! Então, tomou juízo !

 

         -Sim. E deixei de olhar para Myrian como uma rival. Eu era complexada e tinha inveja dela. Mas agora, não tenho motivo para isso. Sou feliz.

 

         -E Myrian, Agnes ? Como ela está ? – Perguntou, sentindo medo da resposta.

 

         Agnes a encarou séria.

 

         -Creio que Myrian não é feliz. Quando você a deixou , ela ficou desesperada. Minha mãe pensa que foi por causa da morte de Andreas, mas sei que foi por você. Ela chorava, trancada no quarto. Um dia a procurei e conversei com ela, dizendo que não a queria mal e queria ajudá-la. O desespero dela tocou-me. Myrian abriu-se comigo, dizendo entre soluços que tinha perdido você e a vida não tinha mais sentido. Eu que a estimulei a escrever para você, eu quem colocava as cartas no correio. E passei a olhá-la com outros olhos. Vi que minha irmã estava muito infeliz e sofria por amor. E eu a considerava fria e calculista ! Então meus pais a internaram para sonoterapia. Ela voltou para casa calma, mas eu sabia que ainda sofria. Ela aceitou uma proposta para viajar para o Egito à serviço de um museu. Ficou lá seis meses e depois foi para a América do Sul, em Cuzco. Voltou há dois meses e foi morar sozinha.

 

         Adrian ouviu aquele relato cheia de remorso. Como havia feito Myrian sofrer ! Será que ela a perdoaria, depois de tanto sofrimento ?

 

         Olhou para Agnes com receio.

 

         -Ela... arranjou alguém, nesse tempo todo ?

 

         -Não sei. Myrian sempre foi fechada. Agora, então, não se abre com ninguém. Que eu saiba,não.

 

         -E onde ela está residindo, Agnes ? Eu quero vê-la.

 

         Agnes a encarou, séria.

 

         -Você ainda a ama, Adrian ? Não a procure, se não a ama mais. Sei que o equilíbrio emocional de Myrian é precário.

 

         -Eu a amo ainda, Agnes. Como nunca ! –Disse, emocionada – Não consegui esquecê-la nesses cinco anos e quero-a muito . O motivo que me afastava dela acabou.

 

         -Como assim ?

 

         Adrian relatou a descoberta das cartas de Claudine e a visita que fizera ao pai dela. Agnes a ouviu em silêncio. Só fez um comentário, quando Adrian acabou o relato :

 

         -Andreas não mereceu o sofrimento de vocês.

 

         -Descobri isso hoje, Agnes. E quero ver Myrian, pedir que me perdoe e volte para mim.

 

         -Ela está morando no Quartier Latin. Vem aqui somente uma vez por mês, nos ver. Ela isolou-se, Adrian. Só você conseguirá tirá-la dessa solidão.

 

         -Oh, Agnes ! Dê-me o endereço dela, por favor !

 

         Agnes sorriu.

 

         -Anote. Apanhe esse bloco sobre a mesa.

 

         Adrian pegou o bloco e anotou, trêmula. Ergueu-se e beijou as faces de Agnes, apressada.

 

         -Peça desculpas à sua mãe por mim, por minha saída sem despedir-me dela. Mas não posso esperar mais, entende ?

 

         Agnes sorriu, fitando-a com malícia.

 

         -Entendo... vá, Adrian. E faça minha irmã feliz.

 

Adrian saiu em passadas largas, com o coração aos saltos. Pegou o carro e rumou para o endereço, ansiosa.

 

 

(((((((((())))))))))

 

 

         Já era noite quando chegou ao endereço fornecido por Agnes. Olhou para o austero edifício, imponente e sólido. Um morador ia entrando e ela aproveitou para entrar, sem falar no interfone da entrada. Como Myrian a receberia ? Com alegria ? Com rancor ? Ou com indiferença ?

 

         Trêmula, chegou ao andar e apertou a campainha da porta, sentindo as mãos geladas de emoção.

 

         A porta abriu-se um pouco, com a corrente de segurança passada. E Myrian em pessoa olhou. Ela a viu e empalideceu visivelmente.

 

         Ficaram se olhando por instantes, mudas. Adrian emocionada, Myrian com um olhar incrédulo.

 

         Ela pareceu recuperar-se da surpresa, pestanejando.

 

         -Adrian ! – Exclamou, com voz surpresa – Você, aqui ?!

 

         Myrian... – conseguiu falar – Vim vê-la...

 

         Ela tirou a corrente da porta e a abriu totalmente, recuando para Adrian entrar. Adrian passou por ela e voltou-se, vendo-a fechar a porta e também voltar-se para ela.

 

         Como estava linda, apesar de mais magra!

 

         Os cabelos haviam crescido, estavam mais longos, refulgentes. Os belos olhos tinham agora uma expressão grave e tristonha, dando-lhe um ar romântico e misterioso.

 

         Myrian indicou o sofá da sala, olhando-a ainda com surpresa no olhar.

 

         -Sente-se, Adrian – Disse, com voz contida.

 

         Adrian avançou e sentou-se, decepcionada. Aquela recepção havia sido muito formal. Mas deu razão a ela. O que esperava, que ela caísse em seus braços, depois de tê-la expulsado de sua vida, de não ter respondido às suas cartas e não ter atendido os telefonemas ?

 

         Ela sentou-se em uma poltrona, olhando-a nos olhos. O olhar estava indecifrável.

 

         Adrian falou, com voz trêmula de emoção :

 

         -Cheguei hoje da América e fui à sua casa. Agnes deu-me o seu endereço e vim falar com você.

 

         Ela suspirou e a encarou séria.

 

         -O que deseja de mim, Adrian ?

 

         A voz soou fria. Adrian a fitou com humildade, nervosa.

 

         -Myrian... não seja tão fria, por favor...

 

         A indgnação brilhou naqueles olhos claros.

 

         -Você me pede isso ?! E o que foi comigo todo esse tempo, Adrian ? Uma mulher fria, egoísta, pouco se importando com meu sofrimento !

 

         Adrian enrubesceu.

 

         -Você sabe o que motivou isso, Myrian ! Afastei-me de você, amando-a ! Nesses cinco anos, nunca a esqueci.

 

         Ela sorriu com ironia, à sua declaração. Fitou-a com frieza e disse, com voz cortante:

 

         -Você acaso avalia o que passei, quando expulsou-me de sua vida ? O que sofri ? Acaso procurou saber como fiquei ? Não, não se interessou !

 

         Adrian a fitou com humildade.

 

         -Eu imagino, Myrian. Eu também sofri muito ! Mas não podia ser de outro jeito ! A morte de Andreas abalou-me, fez-me sentir culpada.

 

         -Você acusou-me de ser o pivô da morte dele – Disse ela, fitando-a acusadoramente – Disse que não poderia haver mais nada entre nós, que não a procurasse mais. Eu insisti, mas você não quis saber de mim! O que a fez voltar a procurar-me ?

 

         Adrian contou, em voz trêmula. Myrian a ouviu impassível, sem mover um músculo da face. Quando terminou, ela ergueu-se da poltrona e a fitou nos olhos.

 

         -Então, acha que ele não mereceu o seu sacrifício e veio procurar-me para querer voltar para mim ... não é isso ?

 

         Adrian ergueu-se também. Olhou-a com emoção.

 

         -É , querida... nada agora vai impedir o nosso amor...

 

         Ela a fitou secamente.

 

         -Nosso amor ? Que amor ?! Você nunca me amou, Adrian ! O que você fez comigo não foi um  ato de amor. Expulsou-me de sua vida e não procurou saber o que eu sentia. Em seu egoísmo, só pensou no que sentia, no que achava.

 

         Os olhos de Adrian encheram-se de lágrimas.

 

         -Eu reconheço, fui egoísta e fria... mas somente em meus atos, Myrian, movida pela culpa. Eu procurava atenuar a culpa que sentia tentando esquecer você, era uma espécie de auto-punição. Mas eu sofria, sem conseguir esquecê-la. Eu nunca a esqueci ! Nesses cinco anos, não tive ninguém, Myrian ! Só queria você !

 

         Ela cruzou os braços, fitando-a decidida.

 

         -Não posso aceitá-la mais, Adrian. O que você fez foi demais. Eu sofri muito e não quero sofrer mais por você. Não vou arriscar minha tranquilidade duramente conquistada por um capricho seu.

 

         -Myrian, não é um capricho ! Eu a amo! – Disse, empolgada, aproximando-se e a pegando pelos ombros – Volte para mim, querida ! Nunca mais a deixarei!

 

         Ela a fitou friamente.

 

         -Não, Adrian. Não quero mais.

 

         -Você não me ama mais ? É isso ? Tem outra pessoa em sua vida ? – Perguntou Adrian, torturada.

 

         Ela baixou a cabeça, fugindo ao seu olhar.

 

         -Não lhe devo satisfações de minha vida. Você abandonou-me com a maior frieza e agora quer ter direitos sobre mim !

 

         -Myrian, perdoe-me ! Se ainda me ama, perdoará o que fiz e voltará para mim ! Não deixe que a mágoa destrua a chance de sermos felizes ! – Implorou, com os olhos cheios de lágrimas.

 

         -Não, Adrian. Não dá mais.

 

         Adrian largou-a, derrotada. Andou pela sala, sem saber o que fazer ou dizer mais. Não , não ia conformar-se em perdê-la definitivamente ! Tinha que fazer algo !

 

         Seus olhos caíram sobre uma revista sobre uma mesinha. A capa estava recortada, mas ficara o título. Myrian havia recortado a foto, mas Adrian a reconheceu. Era o último número da NewsWeek. E Adrian havia saído na capa, como mulher de negócios. Entendeu. Myrian havia recortado a sua foto da revista !

 

         Aproximou-se da mesinha e viu um álbum de fotografias ao lado.

 

         Myrian aproximou-se nervosamente e o pegou, olhando-a enrubescida.

 

         Adrian a fitou nos olhos, com uma suspeita.

 

         -O que há nesse álbum, que não posso ver ?

 

         -Nada que a interesse ! – Respondeu, recuando.

 

         -Interessa, sim !

 

         Avançou para ela. Myrian correu, saindo da sala. Adrian a seguiu sem hesitar. Ela correu para um quarto e tentou fechar a porta. Mas Adrian empurrou-a com força e entrou.

 

         O seu olhar foi atraído por vários posters que haviam na parede. Parou, ofegante.

 

         Eram fotos reproduzidas em vários tamanhos, todas em preto e branco. Fotos suas de várias épocas, em várias poses.

 

         Adrian olhou-as emocionada. Depois, encarou Myrian. Ela baixou a cabeça, derrotada.

 

         Adrian sorriu. Ali estava a prova de que Myrian ainda a amava ! Ela continuava com a mania de colecionar suas fotos !

 

         -Sempre escondendo o jogo, não é , Myrian ? – Perguntou, feliz – Essas fotos são uma prova que você ainda me ama !

 

         Ela a encarou com frieza.

 

         -Eu nunca neguei isso. Não a quero porque não suportaria passar por outro abandono.

 

         -Nunca mais vou fazer o que fiz, Myrian ! Não há mais motivo !

 

         Ela a encarou. Os olhos estavam sombrios.

 

         -Eu tenho medo, Adrian. Muito medo.

 

         Adrian aproximou-se. Ela recuou.

 

         -Não tenha medo, meu amor... eu a amo tanto !

 

         -Não, Adrian ! Vá embora ! Deixe-me em paz com minhas lembranças de um passado que não retornará mais !

 

         Adrian tentou abraçá-la. Ela a empurrou, assustada.

 

         Adrian a fitou nos olhos com decisão.

 

         -Não vou desistir de você, Myrian. Se não me amasse mais, eu iria embora, derrotada. Mas você está apenas com medo de recomeçar comigo e ser abandonada mais uma vez. Então, não vou aceitar sua recusa. Sei que me ama como eu a amo. E vou provar isso.

 

         E fitando-a apaixonadamente, começou a despir-se. Myrian empalideceu e ficou imóvel, fitando-a com ar angustiado. Ela parecia querer fugir, mas sem forças para isso.

 

         Adrian tirou o blazer e jogou no chão. Tirou a blusa de seda , desceu a saia justa, mostrando as pernas sensacionais e os quadris redondos, tirou o soutien, a calcinha de rendas e as meias.

 

         Myrian ofegava, olhando-a . Adrian estendeu as mãos, provocativa, os olhos fitando-a com paixão.

 

         -Venha... não se negue mais... – Disse, baixinho. Myrian parecia hipnotizada. Aproximou-se lentamente, olhando-a nos olhos, no corpo. À um passo, parou e encarou Adrian. Em seu olhar agora havia paixão, amor, um amor louco longamente guardado.

 

         Adrian pegou o rosto dela entre as mãos, fitando-o enlevada, de perto. Seus lábios quase se tocavam.

 

         -Myrian, amor da minha vida... – Sussurrou.

 

         Myrian, ao ver o rosto amado tão perto, sentindo o toque das mãos macias em seu rosto, o perfume inesquecível de Adrian, não resistiu mais. Seus braços envolveram o pescoço de Adrian e falou, deixando o amor e a paixão mostrar-se em seus olhos, com a voz rouca pela emoção:

 

         -Adrian... não resisto... é mais forte que minha razão... Vou arriscar-me outra vez... eu...eu a amo alucinadamente!

 

         Suas bocas se uniram em um beijo profundo, ardente , exigente. Tremeram juntas, quando seus corpos se colaram.

 

         Os dedos impacientes  de Myrian se enterraram entre os cabelos de Adrian, cariciosos, impacientes. Desceram pelos ombros, tocaram os seios, depois se apertaram em suas costas, revelando o desejo que a dominava.

 

         Suas bocas se sugavam famintas, na febre do reencontro. Myrian sorvia sua saliva como se fosse uma náufraga sedenta, o corpo apertando-se, tremendo de emoção.

 

         Ela separou a boca, beijando-a pelo rosto todo, dizendo em delírio:

 

         -Adrian ! Adrian ! Meu amor ! Querida ! Eu a amo demais ! Eu a amo ! Amo !

 

         -Myrian, querida ! Beije-me mais ! Mais ! –Pediu Adrian, arrebatada de amor.

 

         As mãos de Adrian arrancaram as roupas dela, beijando cada parte do corpo com alucinação. Myrian ofegava, apertando-a nos braços, olhando-a embevecida.

 

         Caíram na cama, agarradas. Adrian foi envolvida pelos braços e pernas de Myrian, que gemia empurrando-se contra ela, em movimentos frenéticos, beijando-a sofregamente.

 

         Não conseguiram se conter e alcançaram o orgasmo logo, em convulsões espasmódicas, gritando a loucura do momento :

 

         -Adrian ! Amor !

 

         -Myrian ! Minha ! Só minha !

 

         Mas não pararam. A emoção do reencontro era forte demais, para acabar em um só prazer. Dessa vez, foi Myrian quem a possuiu, sugando-a de um jeito que Adrian gozou em pouco tempo, enlouquecida. Rolaram pela cama agarradas, as bocas unidas, os corpos entrelaçados e as mãos querendo tocar em tudo, apertar, matar o desejo louco.

 

         Myrian chorava de emoção, olhando-a nos olhos com adoração. Adrian a beijava entre frases ardentes, arrebatada, na loucura total de novamente ter a mulher amada nos braços.

 

         Somente horas depois pararam, cansadas.

 

         Nos braços uma da outra, trocando carinhos, Myrian então contou sua solidão naqueles cinco anos. Como se entregara alucinada ao trabalho, para esquecê-la. Sua vida no Egito, em Cuzco, trabalhando até o esgotamento, para cair na cama à noite e conseguir dormir. Seu sofrimento, a saudade desesperadora. Só voltando a saber da vida de Adrian quando voltara para a França, através das revistas.

 

         Adrian a beijou, comovida com o relato dela. Olhou-a nos olhos.

 

         -Como sofreu, meu amor... passarei o resto de minha vida tentando recompensar isso, vivendo para você.

 

         Ela sorriu, beijando-a no queixo rapidamente.

 

         -Eu só matava minha saudade através das revistas. Por isso fiz esses posters, para ficar deitada olhando para você – Disse Myrian, sorrindo.

 

         Adrian sorriu também, divertida.

 

         -Ainda bem que não perdeu a mania de colecionar fotos minhas. Graças a isso, percebi que ainda me amava.

 

         Ela a beijou apaixonadamente e a fitou embevecida.

 

         -É que você é muito linda e fotogênica, meu amor. Amo suas fotos. Vou decorar uma sala só com elas.

 

         -Não precisa. Olhe o original. Ou as fotos são melhores ?

 

         -O original é incomparável, amorzinho...

 

         -Eu não preciso olhar fotos suas porque trago você inteirinha em meu pensamento, querida. Cada detalhe de seu rosto que adoro, de seu corpo divino...

 

         -Oh, Adrian, meu amor !   Beije-me...

 

         Beijaram-se ardentemente. E assim passaram a noite, se possuindo, descontando o tempo que ficaram separadas.

 

         No dia seguinte, Myrian foi com Adrian à casa dela. A mãe a fitou surpresa, vendo a alegria brilhando nos olhos da filha e comentou essa mudança com ela. Myrian sorriu e disse, olhando para Adrian:

 

         -É que perdi Andreas, mas ganhei uma querida amiga, minha mãe. Adrian e eu nos damos muito bem e a chegada dela deixou-me muito feliz.

 

         Madame Olga sorriu alegremente.

 

         -Oh, que bom ! E Adrian é uma ótima moça, eu gosto muito dela ! Por que vocês não moram juntas ? Adrian está em Paris sozinha e você também está morando só.

 

         Myrian olhou para Adrian, que sorria.

 

         -O que acha da idéia , Adrian ?

 

         -Muito boa ! Vamos pensar nisso e decidir o mais breve possível, Myrian !

 

         Agnes sorriu com malícia, fitando-as, abraçada com o marido. Era um garotão, louro e simpático.

 

         -Não pensem muito, as melhores decisões são as movidas por impulso ! Foi assim que aceitei casar-me com Louis ! - Disse.

 

         Elas riram e Myrian olhou para Adrian.

 

         -Venha conhecer meu antigo quarto... tenho um monte de fotos para mostrar à você.

 

         Adrian pediu licença e a seguiu.

 

         No quarto, Myrian fechou a porta e a olhou com desejo, abraçando-a.

 

         -E as fotos ? – Sorriu Adrian, sabendo bem que aquilo fora um pretexto para ficarem sós.

 

         Ela colou o corpo no seu, olhando-a nos olhos.

 

         -Queria dar um beijo em você  a chamei até aqui. Não gostou ?

 

         Adrian a abraçou também, rodeando a cintura fina.

 

         -Eu gosto de tudo que me aproxime de você, querida.

 

         -Hummm... então, prove o que diz...

 

         -Duvida ? Pois vou provar até você pedir para parar !

 

         Myrian riu, feliz, fitando sua boca.

 

         -Então , comece...

 

         Seus lábios se uniram em um beijo ardente. Foi Agnes que as veio chamar, duas horas depois, sorridente. Myrian entreabriu a porta e ela falou, com malícia:

 

         -Mamãe mandou-me chamá-las para almoçar. Devem estar precisando, não é ? O amor gasta nossas energias.

 

         Myrian sorriu para a irmã.

 

         -Já vamos descer. Obrigada, Agnes.

 

         Fechou a porta e olhou para Adrian, que começou a vestir-se.

 

         -Temos que ir, querida. Agora, só à noite continuaremos.

 

         Adrian a fitou com um sorriso.

 

         -À noite,não. Temos a tarde livre. E você não vai escapar.

 

         Myrian riu, com um ar de felicidade que comoveu Adrian.

 

         -Minha querida insaciável, estou sempre pronta para o que der e vier !

 

 

E  P  Í  L  O  G  O

 

 

                  

         O filho de Andreas foi aceito pelo pai de Adrian. O velho se sentiu eufórico em saber que tinha um neto do falecido filho. Quando viu o garoto, abraçou-o chorando, dizendo que Andreas renascera. Chamou  Pierre Desson e o garoto para morarem com ele na mansão em Paris. Adotou o garoto como seu filho.

  

         Agnes está esperando outro filho. Diz que quer ter pelo menos umas quatro crianças, para encher a casa de vida. Ela e Myrian agora são muito amigas e Myrian adora o sobrinho, visitando-o sempre.

  

Adrian e Myrian foram viver juntas, em um belíssimo apartamento que Adrian comprou perto do Bois de Bologne. Myrian o decorou todo e reservou uma sala para as fotos de Adrian, só que dessa vez, tiradas por ela. Depois de anos de dor, finalmente o amor venceu e a felicidade abençoou aquela paixão proibida.

 

 

 

F   I   M

 

Rio de Janeiro, 2004

 

 

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