LEGADO
DE PAIXÃO
by Diedra Roiz
Capítulo 15: Os dias que se seguiram...
Se tivesse que escutar mais uma porta batendo,
dona Clara jurava que perderia a razão... Fazia dias que Fernanda estava
daquele jeito, emburrada, mal humorada, intratável e... Infinitamente
triste.
Esse temperamento forte, passional, quase irracional
da filha, que Clara conhecia muito bem, quase a tinha matado quando perdera
Luisa. E era exatamente disso que dona Clara tinha medo... Porque Fernanda voltara
a galopar como se o diabo a perseguisse, parecendo sentir algum tipo perverso
de alívio no risco insano de quebrar o pescoço. E como se isso
não bastasse, voltara também a afogar as mágoas na bebida.
Todas as noites era obrigada a ver a filha pegar uma garrafa, dizendo sarcasticamente:
“Consolo engarrafado!” e só a largar quando ficava completamente vazia.
Então dona Clara a levava para o quarto
e a colocava na cama como quando ela era criança. A única diferença
era que quando criança, Fernanda confiava nela o bastante para contar
seus problemas. Agora se recusava a conversar.
Numa das muitas noites em que os soluços
de Fernanda eram audíveis em todo o segundo andar da casa, dona Clara
entrou de sopetão no quarto da filha.
- Nanda, meu amor, chega! Quanto tempo mais você
vai ficar assim? O que quer que tenha acontecido entre você e a Isabela
precisa ser resolvido. Pra tudo tem solução, filha...
- Mamãe, você não entende...
E eu não quero conversar sobre isso...
- Mas esse é o problema, Nanda. Vocês
pelo menos conversaram?
- Não, e é isso que mais me dói...
ela me deixou ir embora, nem tentou falar comigo... mas também eu não
ia querer falar com ela, não depois do que ela fez...
- Talvez ela saiba disso...
- Não, mamãe, ela não tentou
porque não quis...
Dona Clara suspirou. A filha era teimosa... Quando
enfiava uma idéia na cabeça era difícil mudar...
- Se você bebesse menos ia perceber que
desde que vocês brigaram, toda noite o telefone toca. E o engraçado,
Nanda, é que quando a pessoa do outro lado escuta a minha voz desliga
sem dizer uma palavra.
Uma pontinha de esperança começou
a brotar no coração de Fernanda. Mas ela não queria, nem
ia permitir isso. O que Isabela tinha feito era imperdoável.
- Que seja. De qualquer forma não tenho
nada pra falar com ela...
Tia Carmen conhecia bem aquele olhar perdido de
Isabela, como se toda tristeza do mundo estivesse dentro dela... o mesmo olharzinho
que tinha aos 7 anos...
Isabela tinha passado a vida inteira apresentando
as namoradas como amigas. Carmen ficava triste com a falta de confiança,
mas respeitava a posição da sobrinha, e fingia que não
sabia de nada.
Se pelo menos pudesse imaginar a confusão
que causaria, jamais teria trazido Cris com ela. Achava que seria uma ótima
surpresa. Não contava com a existência da vizinha ruiva por quem
Isabela estava tão obviamente apaixonada.
E agora era obrigada a ver a sobrinha amuada,
triste, sofrendo pelos cantos... Isabela trabalhava o dia inteiro, depois à
noite ficava sentada na sala, fingindo que ouvia as conversas de Rosa e Janaína
com a tia. E quando achava que ninguém estava olhando, pegava o telefone,
discava e sempre desligava sem falar nada. Tia Carmen tinha certeza de que se
aquele telefone velho tivesse um botão de “redial”, ela poderia apertar
e ouvir a voz de Clara atendendo do outro lado.
Foi então que teve a idéia. Correu
para o telefone e ligou para a fazenda. Clara atendeu, e quando ouviu o que
Carmen dizia, imediatamente concordou. Ela tinha razão, como ainda não
tinha pensado nisso? Fernanda e
Isabela se amavam, mas eram cabeças duras o suficiente para ficar brigando
pelo resto da vida. Para que se entendessem bastava apenas... um pequeno empurrãozinho...
Capítulo 16: Um pequeno empurrãozinho...
No fim da tarde, Isabela tinha acabado de sair
do banho quando Tia Carmen apareceu com um belíssimo buquê de rosas
vermelhas.
- Querida, preciso que você entregue essas
flores na vila pra mim, por favor...
A tia nem deu chance para as mil perguntas que
Isabela tinha, como por exemplo onde ela tinha conseguido aquelas flores e para
quem eram.
Foi logo cortando o assunto dizendo que era um
favor simples e que se Isabela não queria fazer não precisava,
como quem diz: “não me faça perguntas...” e então concluiu:
- Preciso que você entregue às 6
horas na frente da igreja, pra uma mulher que vai estar usando uma blusa preta
e uma saia com listras pretas e brancas.
- Tudo bem, só não sei pra que tanto
mistério...
- Confie em mim, Belinha, e lembre-se: na vida
a gente precisa saber aproveitar as oportunidades!
- Nossa, titia, hoje você tá mesmo
estranha, sabia?
Fernanda acordou tarde, depois das duas horas.
Dona Clara pediu que ela buscasse uma encomenda na vila para ela.
Não estava com nenhuma vontade de sair
de casa, por isso sugeriu que a mãe mandasse um dos empregados, mas dona
Clara disse que “de jeito nenhum, pois era uma coisa de valor, e a única
pessoa em quem confiava para buscar era Fernanda.”
Diante de muita insistência, acabou aceitando.
Mas tinha que confessar que estava achando tudo muito estranho...
- Mas mamãe, como a tal pessoa misteriosa
vai saber quem eu sou?
- Por causa da roupa... Combinei que você
vai estar de blusa preta e saia com listras pretas e brancas.
- Isso não é nenhum tipo de encontro
às escuras, né?
- Ai, Nanda, chega de tantas perguntas! É
tão difícil assim fazer um favorzinho pra sua mãe?
Com um argumento desses, Fernanda não teve
opção: vestiu a tal roupa que a mãe tinha escolhido, pegou
a pick up e lá se foi.
Quando Isabela desmontou do cavalo o sino da igreja
começou a badalar: 6 horas! Parecia que todas as pessoas da vila estavam exatamente ali na porta daquela igreja, onde ela tinha que entregar
as rosas. Ficou parada com as flores na mão, olhando cada pessoa que
entrava para a missa.
Quando o sino tocou Fernanda já estava
parada na escadaria da igreja, no meio de um verdadeiro formigueiro de gente
entrando naquele passinho lento de procissão. Já que não sabia quem ia entregar
a tal encomenda, esperar era o único remédio, e como em lugar
pequeno todo mundo se conhece, teve que cumprimentar um mundo de gente.
Estava dando um último boa tarde para as
últimas pessoas entrando na igreja, quando se deparou com um par de olhos
que fizeram seu coração parar de bater por um momento.
Quando quase todas as pessoas entraram, só
sobrou um grupinho cumprimentando
alguém antes de entrar na igreja.
Quando eles entraram, o coração
de Isabela foi na boca. Parada na frente dela, vestindo uma blusa preta e uma
saia com listras pretas e brancas estava ninguém menos que... Fernanda.
No primeiro instante Isabela só a fitou,
surpresa. Fernanda, por outro lado, parecia paralisada. Isabela avançou para ela, caprichando no
seu melhor sorriso, sem resultado. Não foi retribuída. Se normalmente na presença
de Fernanda não sabia direito o que dizer, imaginem naquele momento:
- São pra você...
Entregou as flores, sem conseguir definir a reação
de Fernanda ao recebê-las... As mãos se tocaram, e o breve contato
pareceu fazê-la estremecer... Mas por trás da muralha dos óculos
escuros, qual seria a expressão dos olhos dela?
Um mar profundo de dúvidas, medos e desejos
estourava em turbilhão no coração de Fernanda. Era impossível
não reagir ao mais leve toque das mãos... Impossível olhar
para
Isabela e não achar
lindo o jeito dela morder o lábio inferior quando Fernanda não
sorriu de volta para ela...
Mas ainda estava com muita raiva. A imagem de
Isabela nua na cama com a outra a perseguia noite e dia. Levantou os óculos,
deixando-os presos como um arco nos cabelos, e olhou bem fundo nos olhos dela.
Tudo o que Isabela queria era se explicar... Tomá-la
nos braços, dizer o quanto a amava e precisava dela... Mas os olhos de
Fernanda eram duas pedras de gelo:
- Cadê a sua namoradinha?
- Fê, minha namorada é você...
Fernanda riu balançando negativamente a
cabeça. Um riso amargo, sarcástico, doído, como Isabela
nunca a tinha visto fazer. Um riso que pareceu abrir uma comporta de palavras,
que
jorraram furiosamente:
- Não foi o que pareceu... Vocês
duas tavam juntas...nuas... na sua cama... a mesma cama de onde eu fui expulsa!
... Por causa de uma noite - a única noite que passamos juntas! - que
você estragou enfiando nessa sua cabeça dura que eu te enganei
pra roubar o seu precioso sítio... e eu fiz de tudo pra te mostrar que
não era nada disso... mas você não quis me escutar, não
quis nem escutar o doutor Macedo quando ele te ligou pra explicar que eu doei
o sítio pra você! ... É, é isso mesmo... O sítio
é e sempre foi seu... No final, eu é que fui enganada por você!
Fernanda disse a última frase com as lágrimas
escorrendo. Isabela avançou, querendo secar aquelas lágrimas,
mas Fernanda recuou, não a deixando encostar nela.
- Fê, eu não agüento te ver
assim... preciso te explicar tanta coisa... preciso te contar o que realmente
aconteceu.. Não é nada disso que você tá pensando...
Nós.. precisamos muito conversar...
Eram muitas coisas ao mesmo tempo... Mesmo estando
brigadas, e Isabela se recusando a ver, ouvir ou falar com ela, Fernanda tinha
doado o sítio para ela? Como tinha sido absurdamente teimosa e burra!...
Se nem a própria Isabela conseguia se desculpar, será que um dia
Fernanda poderia?
- Não quero conversar com você, Isabela.
Não agora. Não é o momento.
Tudo bem, ela não tinha dito que não
tinham mais nada a conversar, nem algo definitivo desse gênero...
Mas por outro lado, por detrás da polidez
contida, aquela era a primeira vez que Fernanda a tinha chamado pelo nome inteiro...
Capítulo 17: Um simples olhar...
A despedida de Fernanda foi fria, quase seca.
Isabela ficou ali parada com um vazio por dentro, vendo a mulher da sua vida
se afastar e se aproximar da pick up sem olhar para trás.
“Se eu ainda tiver chance ela vai olhar. Antes
de entrar no carro, nem que seja uma olhadinha... ela vai me olhar.”
Fernanda pegou o alarme do carro, o apertou, fazendo
os faróis piscarem ao destravar a porta, tudo isso com uma lentidão
imensa ou a ansiedade de Isabela a acelerava a ponto de tudo parecer estar em
câmera lenta?
“É agora. Ela tem que olhar...”
A frase foi um pedido, quase um desejo. Fernanda
abriu a porta, hesitou alguns momentos, e então antes de entrar no carro,
seus olhos se ergueram, procuraram e encontraram os de Isabela.
Sabendo que o momento de fraqueza tinha sido muito
mais explícito do que gostaria, e se odiando por isso, Fernanda sentou atrás do volante e colocou
as flores no banco de trás. Mas não foi rápida o bastante.
Isabela entrou e se sentou do lado dela.
Fernanda fez um esforço incrível
para não sorrir da expressão que Isabela tinha no rosto: esperançosa,
insegura, adorável de tão boba...
Mais difícil ainda foi quando ela pegou
as mãos de Fernanda nas dela, e as beijou de uma forma muito doce:
- Fê, me perdoa... tudo que eu te disse
aquele dia na piscina é verdade... acredita em mim... eu não dormi
com a Cris, eu juro que não aconteceu nada... eu te amo... e sou sua, só sua, de corpo e alma...
Os lábios de Isabela encostaram nos dela,
e por um instante as duas esqueceram
de tudo e apenas se entregaram aquele beijo tão desejado.
Era a primeira vez que Isabela dizia que a amava,
e para Fernanda seria tudo perfeito, se não fosse um pequeno detalhe: não conseguia parar
de pensar em Isabela com a outra...
Isabela sentiu Fernanda corresponder ao seu beijo
com a mesma saudade, e por um momento pareceu que estava tudo certo. Mas de
repente ela parou, ficou estática, e depois se afastou sem olhar para
Isabela nem dizer nada. Apenas se virou para frente e cobriu o rosto com as
mãos.
Durante alguns segundos ficaram assim, Isabela
olhando para ela, e Fernanda tentando acalmar a respiração. E
então ela tirou as mãos do rosto e olhou intensamente para Isabela:
- Eu quero que você entenda que se você
me beijar, me tocar, me olhar desse jeito, eu vou ceder e corresponder... eu
não consigo evitar, minha Bela, porque sou louca por você... não
é esse o problema... o problema é que eu não consigo acreditar
que não aconteceu nada, nem parar de pensar em você com aquela
mulher...
Fernanda começou a soluçar. Isabela
a envolveu num abraço carinhoso e protetor, querendo poder voltar no
tempo e evitar tanto sofrimento. Era de cortar o coração, ela
chorando daquele jeito... Isabela acariciou os cabelos dela, a beijou na testa,
no rosto encharcado de lágrimas, enxugando-as com os lábios...
e então a boca de Fernanda encontrou a dela, e estavam novamente coladas
num beijo, as línguas se procurando, se provando, se devorando...
Foi quando o sino da igreja voltou a tocar anunciando
o fim da missa e fazendo as duas se afastarem.
Fernanda ajeitou os cabelos, enxugou as lágrimas
e disse de forma bem humorada, mas com um sorriso meio triste:
- Acho que por hoje chega, né?
Tirou um envelope do porta-luva e entregou para
Isabela.
- O que é isso?
- A doação do sítio e a escritura
no seu nome. Tô com isso aqui pra te entregar há séculos.
- Fê, eu não posso aceitar...
- Ah, não, não começa com
as suas bobagens. Me deu um trabalhão, sabia? Além disso, era
o único jeito de você poder dormir lá em casa sem tempestades...
Ela riu de uma forma deliciosa, que fez Isabela
se lembrar da noite maravilhosa que passaram juntas.
- Você é linda, Fê...
- Você também...
Cruzaram olhares apaixonados, os corações
já saltando dentro do peito. E só não se beijaram de novo
porque todas as pessoas começaram a sair da igreja, e o insulfilm nos
vidros não impedia que os olhares mais curiosos as vissem dentro do carro.
- Eu não quero te perder...
Fernanda ajeitou uma mecha de cabelo que caía
no rosto de Isabela, prendendo-a atrás da orelha:
- Bela, por favor... Eu preciso de um tempo.
Antes de sair do carro, Isabela concordou com
um aceno de cabeça e até tentou sorrir enquanto acenava para a pick up indo embora.
Fernanda sabia o quanto ela estava triste, mas
precisava colocar as idéias em ordem. Antes disso, ainda não seria
nem o momento nem a hora.
Capítulo 18: O Coração entalhado...
Fernanda tinha certeza de que quando chegasse,
a mãe a estaria esperando na porta e que daria um sorrisinho satisfeito
ao ver o buquê de rosas.
Sem dar uma palavra, passou por ela e se jogou
no sofá da sala. Clara não
agüentou mais de curiosidade:
- Como foi? O que aconteceu?
- Francamente, né, mamãe? Você
não quer que eu conte detalhes da minha vida amorosa pra você,
quer?
- Ah, então foi um encontro amoroso...
Bom saber...
- Vamos mudar de assunto?
- Vocês conversaram? Se entenderam?
Sabendo que a mãe nunca a deixaria em paz
se não respondesse, cedeu, mesmo contra a vontade:
- Conversamos. Não nos entendemos. Preciso
de um tempo... Pra pensar...
- Pensar em que, Nanda? Presta atenção
no que eu vou te dizer: ninguém entra à toa na vida de alguém
pela segunda vez!
Tia Carmen estava muito mais do que ansiosa quando
Isabela chegou na sala, mas esperou a sobrinha falar. Isabela se fingiu de brava:
- Muito bonito, hein, titia?!
E depois abraçou a tia com força,
um abraço bem apertado.
- Desde quando você sabe?
- Desde sempre, né, Belinha? Ou você
acha que me engana?
Isabela riu, mas pelo olhar tristinho da sobrinha,
Carmen já sabia que Isabela e Fernanda não tinham se acertado.
O final de semana chegou sem novidades. Parecia
que os dias se arrastavam. No sábado à tarde, Fernanda selou seu
cavalo e saiu. Pela direção que tomou, Dona Clara sabia muito
bem para onde ela estava indo. Correu imediatamente para o telefone e ligou
para o sítio.
Fernanda esporeou o cavalo, os pensamentos longe...
Tinha decidido ir para seu lugar preferido da fazenda quando era criança.
O lugar aonde sempre
ia quando era menina e queria ficar sozinha e pensar. Não sabia porque
naquele dia tinha acordado com essa idéia, porque fazia muito, mas muito
tempo mesmo que não ia lá.
Amarrou o cavalo e passou entre as árvores,
precisando se abaixar para passar debaixo de alguns galhos.
Para qualquer outra pessoa, não era nada
demais, apenas uma pequena clareira escondida pela mata cerrada.
Com um sorriso cheio de lembranças, Fernanda
passou a mão no tronco de uma das árvores, aonde ainda se via
um velho coração entalhado.
Isabela amarrou o cavalo ao lado do de Fernanda.
Dona Clara tinha ligado para ela, dizendo que Fernanda a estava esperando ali.
Depois da história das flores, é
lógico que ela não tinha acreditado. Sabia que era mais uma armação
das duas senhoras. Já conhecia Fernanda o bastante para saber que se
quisesse falar com ela jamais mandaria recado por quem quer que fosse.
Mas a saudade, a falta e o desejo que sentia eram
mais fortes que a razão. E apesar de Fernanda ter pedido um tempo, precisava
vê-la, nem que fosse só de relance.
Quando chegou na pequena clareira, quase esbarrou
em Fernanda, que por sorte, estava de costas para ela. Isabela recuou, com o
máximo de cuidado para não ser vista, mas sem querer pisou num graveto, tirando Fernanda do transe
em que se encontrava.
O coração entalhado na árvore
ficava na altura da cintura de Fernanda. Ela tinha gravado aquele coração
para que Isabela pudesse alcançar. Mas antes que pudessem gravar seus
nomes nele, Isabela tinha partido com os tios para o Rio, deixando o coração
de Fernanda vazio.
“Porque Isabela não se lembrava? Como ela
podia não lembrar, se a menina de 10 anos que Fernanda era tinha sofrido
tanto? Quando Isabela voltou, 18 anos depois, aquele sentimento tinha renascido
com toda força...”
Esse pensamento era apenas mais um para confundir
a cabeça de Fernanda. Ardia de ciúmes de Isabela com a ex-namorada, ao mesmo tempo em que se derretia com a
simples lembrança das flores, dos beijos trocados dentro do carro, da
doçura com que ela tinha dito que a amava...
Naquele momento, o amor venceu, gritando de saudade,
desejando ardentemente que Isabela estivesse ali. Ouviu um ruído atrás
dela, e quando se virou, de uma forma estranha, quase mágica, ela estava
lá.
Os olhos de Isabela eram duas chamas suplicantes.
Fernanda podia ver neles a mesma entrega dos seus.
- Fê, eu...
Antes que pudesse terminar a frase, Fernanda já
a tinha puxado e grudado em
seu corpo. Levantando Isabela um pouco do chão, a girou e a encostou
na árvore em que estava o coração.
- Não fala nada. – Fernanda disse simplesmente.
Não queria falar, não queria pensar,
queria apenas obedecer o que seu coração, suas mãos, sua
boca, seu corpo inteiro mandavam...
Beijou Isabela com uma paixão reprimida
durante dias. Foi um beijo voraz, urgente, enlouquecido, que as deixou sem fôlego...
Fernanda mordeu aqueles lábios maravilhosos,
comprimindo com força o sexo contra o dela... Isabela só gemeu
baixinho... as costas sendo arranhadas pela casca da árvore eram um estimulante
erótico...
A boca quente de Fernanda desceu, beijando e chupando
o pescoço dela com força, as mãos quase arrancando os botões
da blusa quando os abriu. Isabela ofegava, totalmente entregue às mãos
dela...
Ela gemeu ainda mais alto quando Fernanda afastou
o sutiã para chupar seus seios, mordendo os biquinhos com força,
com uma ânsia que excitava Isabela de uma forma totalmente louca... A
boca de Fernanda voltou a se colar na dela, a língua invadindo possessiva,
dominadora, enquanto as mãos abriam e desciam as calças de Isabela
e passeavam entre as coxas dela, ainda por cima da calcinha encharcada de desejo...
Fernanda sorriu deliciada contra os lábios de Isabela... afastou a peça
íntima para o lado e tocou o sexo inchado dela... Isabela tentou tocar Fernanda também, mas ela não deixou...
Os dedos de Fernanda a penetraram, entrando, saindo e fazendo Isabela mexer
os quadris no ritmo do intenso vai e vem... Quando via que ela estava quase gozando, Fernanda não deixava, tirava os
dedos, e depois voltava a tocar Isabela devagar, sem pressa... Então
mergulhava os dedos nela, cada vez mais fundo, mais forte, a fazendo implorar:
- Ai, Fê, não me tortura assim...me
deixa gozar...
A resposta Fernanda sussurrou no ouvido dela,
a voz rouca de tanto tesão:
- Goza na minha mão, linda...Goza gostoso...
Goza...
Isabela explodiu no mais forte e fantástico
orgasmo de toda a sua vida. Seu corpo todo amoleceu, sem forças, as pernas
bambearam, e teria caído se Fernanda não a abraçasse e amparasse...
Quando se recuperou, Isabela tentou beijar Fernanda,
mas ela se afastou, ficando de costas para ela.
Magoada por ela ter rompido o contato dos corpos
tão bruscamente, ajeitou o sutiã e abotoou as calças e
a blusa devagar.
Fernanda continuou o tempo todo de costas, em silêncio. Então se virou para ela,
dizendo:
- Bela, desculpe...
Queria pedir desculpas por ter saído do
abraço, por ter fugido do beijo... Mas ao ver os olhos de Isabela imediatamente
se arrependeu. Pareciam os de um animal mortalmente ferido.
Isabela não acreditou no que ouvia. Depois
de Fernanda ter trepado com ela, sem sequer deixar que Isabela a tocasse, aquele
pedido de desculpas foi como um tapa na cara. Deu as costas para Fernanda, desejando
que um buraco se abrisse no chão para poder entrar e desaparecer.
Foi então que olhou para a árvore
onde antes estavam e viu... um coração entalhado! Ficou pálida
ao ver aquele coração... um coração antigo, que
parecia estar ali há anos... um coração que Fernanda estava
olhando, hipnotizada, e que provavelmente estava cheio de lembranças
da ex-mulher dela... um coração que, por mais que Isabela tentasse
se enganar, pertencia à Luisa...
Rápida como um raio, Isabela correu para
longe dali o mais depressa que pode, montou no cavalo e fugiu, sem olhar para
trás. Fernanda a seguiu, sem alcançá-la.
Podia ter pego o cavalo, corrido atrás
dela, com certeza a alcançaria com facilidade, montava bem melhor do
que Isabela... Mas não o fez, porque depois que a alcançasse,
não saberia o que falar. E pela primeira vez sentiu medo. Muito medo,
de que pudesse ser tarde demais...
Capítulo 19: Em meio ao Silêncio...
Tia Carmen realmente se assustou com o estado
em que Isabela chegou em casa. Nunca, em todos os 18 anos que tinha vivido com
ela, tinha visto a sobrinha daquele jeito.
Isabela libertou toda a dor que sentia em soluços,
num choro convulsivo. Chorou durante muito tempo. Tia Carmen apenas a abraçava, dizendo palavras carinhosas e acariciando seus
cabelos. Quando finalmente a respiração dela foi se acalmando,
ficou um tempo calada, as mãos enxugando os olhos inchados, e então
disse lentamente, com uma voz muito fraca:
- Chega, titia. Acabou. Vamos voltar pro Rio de
Janeiro.
No resto do dia, tia Carmen tentou fazer Isabela
mudar de idéia, sem resultado. Sem opção, acabou fazendo
as malas. As da sobrinha já estavam feitas e empilhadas junto à
porta da sala.
Isabela galopava como se pudesse fugir de si mesma.
Mas não adiantava, cada canto daquele sítio estava impregnado
pela presença de Fernanda...
A única forma de esquecer era voltar para
o Rio e continuar sua vida... Que vida seria, não sabia, mas não
via escolha...
Precisava arrancar aquela mulher de dentro dela...
Precisava recuperar o bom senso, o amor próprio, a auto-estima...
Até o simples ato de cavalgar a fazia pensar
em Fernanda... lembrava a primeira vez que tinha montado, sentada na garupa,
o corpo colado no dela...
Ali, naquele fim de mundo, acabaria enlouquecendo
dominada por esse tipo de pensamento...
No Rio de Janeiro poderia retomar as rédeas
da própria vida. Encontraria todas os bares, boates, festas e mulheres
bonitas que fosse preciso para desfazer de vez o feitiço que a dominava.
Foi então que Roque se aproximou à
cavalo, gritando, desesperado:
- Dona Isabela, é a dona Carmen... Ela
tá passando mal... desmaiou... a senhora tem que vir depressa!
Entrou correndo na casa, em total desespero. Encontrou
Rosa e Janaína muito nervosas na sala. As duas foram seguindo Isabela
pelo corredor, falando naquele jeito único que só elas sabiam
fazer:
- Dona Isabela, ela não tá nada
bem... foi de repente... Ela tava conversando e foi caindo... O Roque ajudou
a colocar ela no quarto... Ela ainda disse pra gente ligar pra dona Clara...
a dona Fernanda já tá com ela...
Tia Carmen estava deitada na cama com os olhos
fechados quando entraram no quarto. Isabela e Fernanda se olharam rapidamente,
mas nenhuma das duas disse nada.
A preocupação de Isabela era palpável.
Passava as mãos no cabelo, ajeitava a roupa, jogava o peso do corpo de
uma perna para a outra...
Fernanda examinou tia Carmen minuciosamente. Depois
que acabou, chamou Isabela para fora do quarto. Isabela a seguiu até
a sala.
- O que foi? O que ela tem? Fala!
- Nada. Sua tia tá ótima.
- Não pode ser, você não examinou
direito...
- Acredite, ela não tem nada...
- Desculpe, eu não quis duvidar da sua
competência como médica...
“Que malas são essas na porta? ”
- Vai viajar?
- Vamos voltar pro Rio. Vou vender o sítio.
“Ela vai embora... Como vou viver sem navegar
nas marés desses olhos que se entornam tão profundamente nos meus?”
“Ela ficou tão séria... Não
disse nada, desviou os olhos...”
- Uma vez você me disse que gostaria de
comprar...
“E você me disse que nunca, jamais venderia
pra mim...”
- É, disse sim. Pede pro doutor Macedo
entrar em contato comigo...
- Tá certo então.
“Certo, certíssimo que eu vou vendar meu
coração pra ele não ver que é esse sorriso lindo que inunda o meu mundo de luz...”
- Bom, então boa viagem...
“Que vai ser de mim quando eu sair por aquela
porta, sabendo que nunca mais vamos nos ver? Se ela disser alguma coisa... Qualquer
coisa... Eu esqueço tudo e faço ela ficar...”
- Obrigado...
“Ela vai embora... Sem me pedir pra ficar... Vai
atravessar aquela porta e será a última vez que nos vemos... Se
ela disser qualquer coisa... Basta uma palavra... Eu esqueço tudo e não
vou mais...”
Se olharam alguns segundos mudos, desconcertantes.
Aqueles segundos em que o mundo inteiro parece parar. Desviaram os olhos juntas, com o mesmo doloroso sentimento de término
definitivo.
Fernanda se virou e saiu. Isabela fechou os olhos,
para ouvir melhor o distanciar rápido do chão sob as botas, depois
respirou fundo, e voltou para o quarto da tia ainda sem enxergar nada à
sua volta.
Capítulo 20: Solteira no Rio de Janeiro...
Sempre que Isabela viajava, sentia uma alegria
inexplicável em voltar ao Rio de Janeiro. Amava o Rio de uma forma tão
incontrolável, que ao contrário de tudo e todos, achava até
aquela entrada com cheiro de mangue e a visão das favelas logo de cara
tão maravilhosa quanto a cidade.
Aquela era a primeira vez que estava completamente
triste por ter retornado.
Não viu nada do trajeto, quando deu por
si já estavam em plena Senador Vergueiro. Entrou no apartamento e foi
direto para o quarto, com a sensação de que ia enlouquecer.
Como um animal enjaulado, andou em círculos
por alguns minutos, pensando se
tinha feito a coisa certa, se não tinha desistido cedo demais, fácil
demais...
Mas era exatamente por causa desse tipo de desespero
que tinha voltado, e se queria esquecer, precisava retomar sua vida normal.
Ligou o computador e viu que tinha tantos e-mails
que acabou apagando mais da metade sem ler. Nem percebeu que o MSN tinha entrado
direto.
De repente uma mensagem: “Oi, amiga! A Internet
chegou aí no fim do mundo? rs...” .
Com um alívio enorme respondeu: “Oi Rob!
Tô no Rio.”
Na mesma hora o telefone tocou. Em menos de 5
minutos marcou de encontrar a amiga na rua Alice, em Laranjeiras.
Quando chegou, Roberta já estava sentada
com um chope quase vazio na frente. Depois dos 2 beijinhos de sempre, se atirou
na cadeira e pediu um chope. A amiga, que a conhecia mais do que bem, imediatamente
disparou:
- Isa, que cara é essa? Que aconteceu?
Foi o bastante para que Isabela desabasse. Pouco
ligando se estavam em público, contou tudo com detalhes e até
chorou! (Isso, por sinal, parecia estar se tornando um hábito!) Espantosamente,
Roberta não ficou surpresa, nem chocada, na verdade apenas disse com
um sorriso misterioso nos lábios:
- Isso é muito fácil de resolver.
Vou te ensinar umas palavrinhas mágicas...
- Ai, Rob, não vem com simpatia pra cima
de mim porque não acredito nessas coisas!
- Ai, dona Isabela, até parece que a senhora
não me conhece, né? E eu por acaso acredito? Olha, vai por mim:
se não acontecer nada você pode bater com um pedaço de pau
na minha cabeça!
Deu pra ela um cartãozinho, onde Isabela
leu: “Nam Myoho Rengue Kyo!”
- Como é que é?
- É, amiga, nesses 3 meses que você
passou fora do ar, muita coisa aconteceu... Eu virei budista!
- Sei... E desde quando budista bebe chope?
- Não to falando de Zen budismo, queridinha,
esse é o budismo de Nitiren Daishonin, o mesmo da Tina Turner, lembra
do filme? Olha só, eu não vou ficar aqui te dando aula de budismo,
sabe? Se quiser te levo numa reunião, lá você fica sabendo
tudo! Até lá é só você juntar as mãozinhas e repetir essas palavras de olhos abertos
se concentrando num ponto na parede, ok?
- Tá, vou experimentar. Afinal de contas,
não tenho mesmo nada a perder...
Se para Isabela os dois primeiros finais de semana
demoraram a passar, os dias da semana pareceram durar meses... Na tentativa
de se ocupar, acabou fazendo o que se faz numa situação como essa:
apelar para os amigos!
Por sorte, isso era o que não faltava,
aliás, diga-se de passagem, de vários e diferentes tipos, e preencheu
os dias com todo e qualquer programa que aparecesse, pouco se importando se
antes provavelmente fosse até achar alguns deles bem de índio.
O objetivo era voltar pra casa tão cansada à noite que conseguisse
bater na cama e dormir até o dia seguinte...
Nas duas terças feiras à noite foi
na reunião budista com a Roberta, estava adorando! Começou a recitar daimoku (como ficou sabendo
que se chamava recitar Nam Myoho Rengue Kyo) todos os dias. O daimoku a tranqüilizava,
a fazia sentir uma estranha sensação, quase certeza de que a felicidade
estava ao seu alcance.
E então mais uma 6ª feira chegou...
- E aí, Isa? Que vai fazer hoje?
- Qualquer coisa, menos ficar empatando seu namoro,
né, Rob?
- Deixa de besteira! Amigas servem pra que? Além
disso, eu e a Mari tamos preocupadas com você...
- Eu tô bem, sério!
- O Daimoku é tudo, amiga! Eu não
te disse? Mas mudando
com-ple-ta-men-te de assunto: hoje tem o aniversário de uma amiga da
Mari, vamos?
- Vou pensar...
- Não pensa, se arruma! Passo aí
às dez e meia!
A boate estava cheia, o que não queria
dizer uma multidão de pessoas, porque o lugar era realmente pequeno.
Se separou de Roberta e Mari, dizendo que ia circular.
Elas queriam e mereciam namorar em paz e não estava a fim de segurar
vela.
Bebeu um pouco, dançou um outro pouco,
recebeu algumas cantadas, e até uma investida muito direta da aniversariante,
que quase resultou num beijo na boca, mas não estava ali para beijar
por beijar, e educadamente se esquivou.
Até então tudo ia muito bem, estava se divertindo e tinha conseguido mais de
uma boa massageada no ego. Foi quando esbarrou com a pessoa que menos esperava,
o que se levando em conta o tamanho da cidade, realmente parecia mais uma brincadeira
sem graça do destino:
- Oi Isa!
- Oi!
Respondeu com cara de poucos amigos para uma Cris
muito bem acompanhada e feliz:
- Essa aqui é a Adriana.
- Tudo bem?
Cumprimentou a menina. Afinal, ela não
tinha culpa de estar com uma pessoa que Isabela adoraria estrangular. Mas Cris,
ao que parecia, continuava totalmente sem noção:
- Cadê a Fernanda?
- O que você acha?
- Vocês não tão juntas? –
Ela ainda teve coragem de perguntar, com a cara mais surpresa do mundo!
- Quer que eu te agradeça?
Isabela deu as costas e saiu, deixando Cris muito
séria e pensativa.
Quando encontrou Roberta e Mari, foi obrigada
a contragosto a interromper mais um dos intermináveis beijos cinematográficos
das duas:
- Meninas, eu vou indo...
- Já? Mas porque?
- Que daimoku é esse que eu faço
pensando na Fernanda e dou de cara com a Cris?!!
- Pois fique a senhorita sabendo que reclamar
é jogar toda a sua boa sorte fora! Além disso, meu bem, sabe lá
o que isso quer dizer? Se você não enxerga nem mesmo as suas sobrancelhas
que estão tão próximas dos seus olhos...
Isabela voltou para casa pensando no que Roberta
tinha dito. Encontrar Cris era muita coincidência... E coincidências
não existiam... Se fazia daimoku todo dia determinando ter Fernanda de
volta... Não conseguia entender... Não conseguia saber o porque
- se é que tinha um porque - daquele enncontro... Demorou a dormir, remoendo
a idéia.
Não ouviu quando o telefone tocou de manhã
bem cedo, nem escutou tia Carmen conversando por telefone durante muito tempo
com Cris.
Capítulo 21: O Universo conspira a favor...
A Fazenda tinha perdido toda a graça para
Fernanda. Se ocupava como podia. Nunca andou tanto a cavalo, nem nadou tanto
naquela piscina...
E ainda assim, tinha uma insônia que não
passava. Algumas noites ficava rolando na cama, outras vagando pela casa escura
até altas horas da madrugada, os olhos ardendo, pedindo descanso à
cabeça que se recusava a parar de trabalhar, queimando em pensamentos,
dúvidas, lembranças...
Não sabia dizer quantas e quantas vezes
sua mente tinha passado e repassado cada gesto, cada palavra, cada momento vivido com Isabela...
Quando o galo cantava, o sol já ameaçando
nascer, só ouvia o próprio pulso latejando sem sossego, e tinha
ímpetos de correr para
o sítio. Apenas um detalhe a impedia: Isabela já não estava
mais lá.
E a tortura continuava, dia após dia...
Mesmo dormindo tarde, nunca acordava depois das
oito da manhã. Era abrir os olhos e pronto, a mente voltava a funcionar
obsessivamente e não conseguia mais voltar a dormir.
Num sábado que ficou deitada na cama por
ser muito cedo ainda, ouviu o telefone tocar e a mãe gritar:
- Nanda! É pra você!
Atendeu rápido, com aquela esperança
que - por mais estúpida e improvável que seja – sempre acalentamos
quando estamos apaixonadas: de que fosse ela!
- Oi Fernanda, não desligue porque é
muito importante, é sobre a Isabela.
- Quem tá falando?
- É a Cris.
- Era só o que me faltava, né?...
- Por favor, me escuta: preciso consertar a sacanagem
que fiz com vocês. Naquela noite eu tentei de tudo, mas ela não
quis. Disse que não queria mais nada comigo, porque amava você,
e foi dormir sozinha. Quando você apareceu eu tinha acabado de deitar
naquela cama. Eu juro que nada aconteceu.
- Você quer que eu acredite que depois desse
tempo todo, de repente, sua consciência doeu?
- Eu fiz a minha parte, agora é com você.
Só sei que depois do olhar dela quando perguntei se vocês tavam juntas, eu tinha que te ligar.
E olha só: se você conhece a Isa pelo menos um pouquinho, sabe
que eu tô falando a verdade.
E desligou. Simples assim. Fernanda ficou menos
de um segundo parada. Levantou de um salto e pegou a primeira mala que viu no
armário.
Dona Clara estava tomando café tranqüilamente
quando ouviu a filha chamando. Pelos gritos desesperados que vinham do andar
de cima, parecia ser um caso de vida ou morte. Correu para o quarto dela preocupada.
Quando abriu a porta, não entendeu nada.
Viu Fernanda rindo, jogando várias roupas dentro da mala, parecendo apressada, agitada e... como há
muito tempo não a via... tolamente feliz!
- Mamãe, liga pra dona Carmen e pede o
endereço delas, mas sem a Bela saber! Rápido, porque quero pegar
o primeiro avião pro Rio de Janeiro!
Naquele sábado Isabela acordou muito tarde.
Estranhou um pouco não ter sido acordada, mas tia Carmen disse que “Tinha
chamado sim, Isabela é que não tinha escutado, e que como a sobrinha
parecia muito cansada, não tinha insistido.”
Tomou café o mais rápido que conseguiu,
porque ia sair com a Roberta e a Mari. A tia estava estranha, puxando vários
assuntos, um atrás do outro, todos intermináveis.
- Mas me explica, Belinha, esse negócio
de lei de causa e efeito, desse tal de Nam Myo... como é mesmo?
- Nam Myoho Rengue Kyo, titia! Lei de causa e
efeito, a lei mística que rege o universo. Resumindo: esse mantra faz
o universo conspirar a seu favor. Mas agora tô muito atrasada, te explico
melhor outro dia, tá?
Tinha combinado encontrar as amigas na praça
da rua General Glicério (como a maioria dos programas da Roberta, perto
da casa dela em Laranjeiras...) onde tinha uma feirinha de artesanato todo sábado.
O legal dessa feirinha era o chorinho tocado ali mesmo na rua, no meio da pracinha.
Quando chegou as duas estavam sentadas num banco
de cimento, muito bem posicionado, diga-se de passagem: entre três vendedores
de cerveja e a barraca das caipirinhas. Atrás delas já tinha um
respeitável amontoado de latinhas vazias.
- Caramba, como vocês bebem!
- Caramba, como você tá atrasada!
O chorinho já acabou há mais de uma hora! A gente tava até
indo embora.
- Nada disso! Agora que eu vim até aqui
vocês vão ter que beber comigo!
- Tudo bem, por você a gente faz esse sacrifício!
Riram muito, porque quem conhecia a Roberta sabia
que quando ela começava, era capaz de beber até o dia seguinte
num piscar de olhos.
Quando Isabela abriu a terceira cerveja, seu celular
tocou. Pegou na bolsa sem pressa, olhou o visor e seus olhos se arregalaram
antes de atender correndo... o prefixo era de Goiás!
- Alô?
- Oi, minha Bela!
Ouvir a voz de Fernanda tornou muito difícil
falar sem gaguejar:
- Oi...oi Fê...
- Tô morrendo de saudade...
Quem quase morreu foi Isabela. Se estivesse bebendo
cerveja ao invés de estar ali sentada totalmente sem ação,
com certeza teria engasgado. Não conseguiu dizer nada antes de Fernanda
continuar:
- E querendo muito conversar com você...
Só não sei se vou conseguir me concentrar na conversa com você
tão linda nesse vestidinho verde...
Dessa vez Isabela se levantou, procurando com
os olhos:
- O que? Mas como...? Como você...? Onde
você tá, Fê?
- Atrás de você...
Quando se virou, a menos de um metro dela, estava
Fernanda. Tão linda que chegava a doer, com aquele sorriso que irradiava
o ardor intenso dos olhos e derretia Isabela inteira.
Capítulo 22: O Reencontro...
Que a beleza dela sempre a impressionava já
não era novidade para Isabela. Fernanda tinha os cabelos presos num rabo
de cavalo frouxo e vestia camiseta branca e jeans bem básicos. Um visual
prático, simples e casual. Nada demais. Para Isabela continuava sendo
a mulher mais bonita em toda a face da Terra...
- Bela, quero falar com você.
Se Fernanda pensava que aparecer ali do nada com
aquele sorriso lindo estampado na cara faria Isabela esquecer de tudo, estava
certa. A não ser pelo fato de Isabela estar determinada a tentar ser
pelo menos um pouquinho difícil.
- Ok. Pode falar.
A recepção inicial até que
tinha sido calorosa... Mas depois Isabela fez aquela cara de bravinha que Fernanda
adorava. Estava determinada a desmanchar toda e qualquer resistência dela.
Estarem numa praça cheia de gente não ia ajudar.
- Vamos pra outro lugar...
Segurou o braço de Isabela, o simples contato
parecendo causar nas duas uma pequena descarga elétrica.
- Não quero que você me toque.
Quando Isabela desfez bruscamente o contato das
peles, Fernanda disse, com um sorriso malicioso nos lábios:
- Não mesmo?...
Os olhos duelaram, os de Fernanda afirmando que
estava certa. Os de Isabela tentando negar o óbvio. Um único olhar
de Fernanda era o bastante para fazer seu corpo estremecer... Com um suspiro
profundo, Isabela se rendeu:
- Você tá certa...
- O que? - Fernanda não poderia ficar mais
surpresa.
Com o mais sedutor de todos os sorrisos ela continuou:
- Eu quero muito...
Isabela se aproximou, se deliciando com o perfume
de Fernanda enquanto dizia baixinho no ouvido dela:
- Tô morrendo de saudade da sua boca, das
suas mãos, do seu corpo, de você inteira...
Antes de se afastar, roçou os lábios
na orelha de Fernanda, a fazendo se arrepiar dos pés à cabeça.
Quando Fernanda pensava que não tinha como
ficar mais apaixonada, Isabela saía com uma daquelas... Não esperava
por essa virada excitante, surpreendente... Muito menos pelo final:
- Quer saber? Não quero saber de conversa
fiada, Fê. Não quero que você fale nada, quero que mostre
o que sente!
A única coisa que importava naquele momento
era reconquistar aquela mulher. Com cuidado, como se ela pudesse quebrar com
o mais leve toque, Fernanda segurou o rosto de Isabela entre as mãos.
Os olhos mergulharam fundo nos dela, e Isabela pode ver uma incendiária
mistura de tesão, paixão e amor neles.
De repente, sem aviso, Fernanda se apossou dos
lábios dela, as respirações se misturando, a língua
explorando sensualmente a doçura da boca de Isabela. Fernanda a sentiu
corresponder com o mesmo desejo, os braços de Isabela ao redor de sua
cintura, apertando-a com força, fazendo o beijo se tornar ainda mais
intenso.
Quando os lábios se separaram, continuaram
se fitando como se o mundo inteiro se resumisse nas duas ali abraçadas
naquele momento. Mas não era assim.
- Oi... Dá licença? Eu sou a Roberta,
e essa aqui é a Mariana. Meninas, vocês tão dando um show,
tá todo mundo olhando! E eu tô adorando, é claro!
Fernanda e Isabela se afastaram, mas Fernanda
ainda demorou alguns segundos para desviar os olhos de Isabela e sorrir para
as amigas dela:
- Oi. Prazer... Fernanda.
- Você nem imagina o quanto ouvimos falar
de você...
Antes que Fernanda pudesse responder ou que a
amiga pudesse falar mais, Isabela deu uma cotovelada em Roberta.
- A gente já tá indo... Prazer...
Tchau...
Nenhuma das duas precisava olhar em volta para
saber que vários olhares continuavam fixos nelas. Na verdade, não
estavam ligando. Pairava entre elas uma atmosfera de encanto. Foi Fernanda quem
falou primeiro:
- Eu te amo.
- Também amo você.
Trocaram olhares cúmplices. Os olhos de
Fernanda desceram para os lábios de Isabela e se perderam no decote do
vestido dela antes de dizer:
- Vamos sair daqui?
Isabela puxou Fernanda pela mão, com uma
súbita e inegável urgência:
- Vem...
Capítulo 23: Se deixando levar...
A primeira idéia que Isabela teve foi levar
Fernanda para o motel mais próximo. E diga-se de passagem, se tinha uma
coisa que Isabela gostava era motel. Nunca tinha concordado com as pessoas que dizem que é
um lugar frio, pouco romântico. Achava instigante, excitante, divertido
até.
Mas quando sentaram no táxi de mãos
dadas, sentiu o coração batendo de vontade de levar a ruiva que a olhava com o mais lindo de todos os
sorrisos para casa:
- Senador Vergueiro, por favor.
Entraram no elevador e Isabela apertou o botão
do 11º andar várias vezes. Achou engraçado estar assim nervosa,
desde adolescente não ficava desse jeito.
- Minha tia não tá em casa. Sábado
ela sai com as amigas.
Explicou, apesar de Fernanda não ter pedido
explicação nenhuma.
Fernanda apenas a olhava, achando graça,
o nervosismo de Isabela só a fazendo parecer ainda mais linda.
Isabela voltou a entrelaçar os dedos nos
dela, e Fernanda sentiu uma felicidade tão grande que fazia as batidas
do
coração parecerem
uma bomba-relógio.
Quando fechou a porta do apartamento, Isabela
disparou a falar sem parar:
- Essa porta aqui no hall é um armário
embutido, tá vendo? Uma vez quando eu era pequena minha tia chamou o
cara da farmácia de madrugada pra me dar uma injeção, e
na hora de sair o cara entrou dentro do armário. Minha tia teve que abrir
a porta pra ele sair, porque ele ficou parado lá dentro, acredita?
Riram juntas, aquele riso solto, bobo, que só
as pessoas apaixonadas têm. Fernanda estava achando fofo o “tour” pela
casa e de certo modo pela vida dela. Tinha uma infinidade de coisas que desconhecia,
e queria saber tudo sobre aquela mulher... Ajeitou uma mecha de cabelo que caía
no rosto de Isabela, depois acariciou o rosto dela...
Isabela fechou os olhos, suspirou, e... pegando
Fernanda pela mão, a puxou para atravessarem juntas uma sala enorme,
com vários sofás, poltronas e mesinhas.
- Todo ano faço uma festa no meu aniversário
e aqui é oficialmente a pista de dança, é só tirar
os móveis...
Com um jeito sapeca, deu um beijo rápido
nos lábios de Fernanda antes de a puxar novamente pela mão. Dessa
vez foi Fernanda quem suspirou.
Abriu uma porta de correr e outra sala apareceu.
Essa era dividida em dois ambientes, o primeiro com a mesa de jantar e o outro
com um sofá e duas poltronas em volta de uma tv.
- Bom, essa sala dispensa qualquer tipo de comentário,
né?
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Fernanda
a puxou pela cintura, os lábios procurando os dela. Mas Isabela fugia,
desviava a boca, provocando e rindo. Depois segurou Fernanda pela nuca e mergulhou
os lábios nos dela com paixão. Quando finalmente as bocas se separaram,
chegou bem perto do ouvido de Fernanda e disse, causando mil arrepios:
- Te amo tanto que chega a doer...
Se afastou com um sorriso safado que fez Fernanda
pensar que ia morrer.
Outra porta de correr, e um corredor com uma mesinha
de telefone e várias portas. Isabela agora tinha pressa, por isso apenas
apontou para cada uma delas rapidamente, dizendo:
- Cozinha. Quarto da titia. Escritório.
Banheiro.
Abriu
a última porta, revelando um quarto com um surpreendente papel de parede
de... arco-íris!
- Meu quarto. Antes de você falar qualquer
coisa, esse papel de parede tá aqui desde que eu tenho 10 anos!
Fernanda não teve como conter o riso.
Olhou ao redor. Cama de casal, uma estante pequena
cheia de livros, uma escrivaninha, televisão e na mesinha de cabeceira
a foto de um jovem casal.
- Meus pais.
- Você e sua mãe são muito
parecidas.
- É, todo mundo diz...
Uma centelha de tristeza passou pelo rosto de
Isabela, mas então ela levantou os olhos, fitou Fernanda e o simples
fato de estar ali com ela a fez voltar a sorrir.
- É isso. Acabei.
- Então agora é a minha vez...
Fernanda se aproximou devagar, de forma absolutamente
sedutora. Fazendo Isabela recuar até se encostar na porta fechada, pressionou
o corpo contra o dela, causando um primeiro gemido.
Rodou a chave, trancando a porta, o movimento
fazendo os corpos se roçarem por inteiro. Os olhos de Isabela se tornaram
duas chamas suplicantes, trêmulas de antecipação e desejo.
Com uma lentidão torturante, Fernanda desceu
os lábios sobre os dela.
Capítulo 24: Olhos nos Olhos...
Isabela suspirou quando as línguas se tocaram
sensualmente. Era uma delícia a facilidade com que Fernanda a fazia ficar
quase louca...
O coração de Fernanda acelerou na
hora... Enfiou as mãos
por baixo do vestido de Isabela, percorrendo sem pressa, saboreando cada pedaço
de pele, a respiração se tornando difícil ao perceber que
ela se arrepiava ao menor toque. Explorou o pescoço e a nuca dela com
a boca, beijando, chupando, mordendo até fazer Isabela se contorcer.
Isabela apertou as nádegas dela com força,
colando coxa com coxa,
sexo com sexo, arrancando de Fernanda um gemido.
- Adoro quando você geme assim...
Isabela riu, satisfeita por conseguir mais um
gemido com o que disse...
Mas então Fernanda já a tocava nos
seios, o dedo indicador fazendo círculos nos biquinhos duros, fazendo
Isabela ofegar...
- Tira o vestido, tira...
Não foi bem uma ordem, foi mais um pedido,
dito de forma rouca, excitante e totalmente irresistível. Isabela soltou
as alças e o vestido escorregou, caindo no chão.
Fernanda pressionou o joelho entre as pernas dela,
enquanto colava a boca num dos seios, chupando, lambendo, a enlouquecendo...
- Olha como eu tô...
Pegou a mão de Fernanda e enfiou dentro
da calcinha, oferecendo o sexo inchado, molhado, convidativo...
Fernanda a beijou com paixão, enquanto
acariciava o sexo dela, deixando Isabela ansiosa, insatisfeita, querendo muito
mais... Mordeu de leve o lábio inferior de Fernanda, a voz dengosa pedindo:
- Fê!...
Fernanda sorriu, morrendo de vontade também,
mas queria provocar:
- Quer mais?
- Quero...
- Então fala, o que você quer?
As palavras de Fernanda só serviram para
instigar a vontade que Isabela sentia de pertencer àquela mulher inacreditavelmente
gostosa...
- Quero você...
- Não entendi...
Fernanda intensificou as carícias, estimulando
o desejo dela até Isabela não agüentar:
- Ai, Fê... Enfia logo esses dedos em mim...
A forma como Isabela falou fez Fernanda esquecer
que poderia prolongar mais, brincar mais...
Isabela gemeu alto quando finalmente sentiu os
dedos de Fernanda dentro dela. Fechou os olhos e acompanhou o delicioso movimento
de vai e vem...
As bocas se colaram novamente, as mãos
de Isabela acariciaram os seios de Fernanda ainda por cima da camiseta...
Nem viu quando Fernanda a livrou da calcinha,
estava quase gozando...
Pelos tremores de Isabela, Fernanda sabia que
se continuasse ela gozaria a qualquer momento, rápido demais, e não
como queria, por isso parou. Antes que Isabela pudesse reclamar Fernanda a levantou,
fazendo-a passar as pernas ao redor dela.
A aspereza do jeans contra o corpo nu só
deixou Isabela mais excitada, a fazendo se esfregar em Fernanda quase com desespero.
Com uma rapidez impressionante, Fernanda a colocou
na cama, se livrou das roupas e se deitou nua de frente para ela. Colaram os
corpos, se beijando com uma necessidade extrema.
Fernanda a olhou profundamente e disse:
- Olha nos meus olhos...
Fernanda a tocou entre as pernas, acariciando,
abrindo, entrando dentro dela... Isabela fez a mesma coisa com Fernanda... Cada vez mais e mais ofegantes, os gemidos aumentando
conforme os dedos aceleravam o ritmo... Pulsavam juntas, ardendo, febris de
amor e desejo uma pela outra... Olhos nos olhos o tempo inteiro...
Isabela começou a gozar, fazendo Fernanda
gozar também... Como dois espelhos frente a frente cujas imagens se multiplicam
infinitamente, os olhos refletindo
o que sentiam e o que faziam sentir, num ciclo vicioso de prazer sem fim...
Capítulo 25: Uma Paixão Incansável...
Isabela sorriu preguiçosamente. Olhou para
a ruiva linda que a abraçava com força e a encheu de beijos! Os
olhos de Fernanda brilharam, e ela retribuiu imediatamente...
Os corpos se grudaram famintos, cheios de desejo
de novo... Isabela deslizou as pernas entre as de Fernanda, abrindo-as, colando
e esfregando o sexo molhado no dela...
A forma sensual de Isabela se mover entre suas
pernas deixava Fernanda ofegante, louca de desejo... Colocou
os seios de Isabela na boca, lambendo, mordendo, chupando com gosto...
Não demorou muito e Fernanda estremeceu,
gemendo alto, deixando Isabela incontrolavelmente excitada, arrepiada de prazer ao vê-la gozando
debaixo dela...
Se moveu mais rápido, rebolando gostoso...
Fernanda a puxou pelos cabelos, colou os lábios nos dela, enfiou a língua
dentro daquela boca maravilhosa... Agarrou a bunda dela com as duas mãos,
fazendo-a mexer mais e mais...
O gosto dela, o cheiro, a pele, a estavam enlouquecendo...
Fernanda estava quase gozando novamente... Sentiu Isabela contraindo todos os
músculos do corpo, revirando os olhos, dizendo que ia gozar... E foi
o suficiente para que gozasse também...
Isabela se deixou cair em cima de Fernanda, e ficou ali largada, o corpo totalmente relaxado,
ouvindo os corações batendo juntos, descompassados...
O celular de Isabela tocou, e ela se levantou
da cama para atender.
Fernanda continuou deitada, apreciando a visão,
com um sorriso satisfeito nos lábios... Ela era muito linda mesmo, uma
graça... Nua então...
- Oi titia! Ela tá comigo sim... Tá,
pode deixar, eu digo... beijo...tchau...
Era minha a tia. Perguntou por você... e
te mandou um beijo...
E dizendo isso pulou em cima dela, dando-lhe um
beijo estalado nos lábios. Elas riram, rolando na cama, e então
Isabela estava deitada de bruços com Fernanda em cima dela, mudando totalmente
a brincadeira...
Fernanda desceu a boca lentamente... Isabela sentiu
a respiração quente dela no pescoço antes de invadir sua
orelha com a língua, causando arrepios... Afastou os cabelos de Isabela
e mergulhou os lábios no pescoço dela, beijou a parte sensível
do pescoço, depois mordeu... Isabela suspirou e estremeceu, com um sorriso
absolutamente safado nos lábios...
Fernanda começou a chupar o pescoço
de Isabela, os quadris se movendo quase que involuntariamente... Isabela gemeu
e empinou a bunda contra o sexo que se esfregava nela...
Uma das mãos de Fernanda agarrou um dos
seios de Isabela, enquanto a outra a acariciava entre as pernas, enfiando os
dedos dentro dela, fazendo-a mover os quadris e gozar rápida e intensamente...
Fernanda continuou movendo os dedos dentro de
Isabela, o sexo pulsando contra as nádegas dela, o prazer aumentando
até estremecer violentamente... Isabela ouviu os gemidos, sentiu a umidade
deliciosa do gozo de Fernanda em cima dela, e gozou novamente...
Fernanda rolou, deitando de costas na cama, saindo
de cima dela, mas Isabela queria mais, queria devorar aquela mulher inteira...
A beijou na boca, as mãos a acariciando toda... Desceu os lábios
sobre um dos seios, passou a língua em volta do bico, sugando com força
quando Fernanda gemeu... Tocou o sexo inchado, encharcado... Enfiou os dedos
com facilidade, começou a movê-los lentamente... Então mergulhou
a língua entre as pernas dela, lambendo, sugando, invadindo, e a fazendo gozar várias e várias
vezes...
Fraca, esgotada e incrivelmente feliz... Era como
Fernanda estava... Isabela a beijou na boca, saboreando os lábios dela
sem pressa... Quando o beijo se tornou mais exigente, Fernanda disse, rindo:
- Você quer acabar comigo, é?
- Quero...
Isabela passou a língua nos lábios
enquanto voltava a devorar o corpo de Fernanda com os olhos.
- Safada! Gostosa!
Começaram a se beijar novamente...
Capítulo 26: Álbum de Família...
É incrível como os dias passam rápido
quando a gente está feliz. Com Fernanda e Isabela foi assim. Mal sentiram
passar as semanas seguintes...
Passearam muito, namoraram mais ainda, se amaram
diversas vezes... Também decidiram várias coisas, entre elas que
ficariam morando no Rio de Janeiro até Isabela terminar a faculdade.
Num golpe de sorte, encontraram um apartamento
no Cosme Velho numa ruazinha tranqüila perto do bondinho, com uma varanda
no quarto que tinha uma incrível vista para o Cristo.
Além do apartamento, Fernanda também
comprou um carro. Isabela adorava esse jeito prático, objetivo, nem um pouco indeciso dela.
Num domingo ao anoitecer, estavam sentadas num
quiosque da Lagoa, sem dúvida um dos lugares preferidos de Isabela em
todo o Rio de Janeiro, admirando o belíssimo pôr do sol, as mãos
dadas em cima da mesa.
Fernanda suspirou e deu um gole no chope que estava
em sua frente antes de dizer:
- Preciso resolver umas coisas na fazenda. Você
vem comigo, né?
Isabela concordou, sem pensar duas vezes. Se dependesse
dela, nunca mais passaria um único dia longe daquela mulher.
Isabela desviou os olhos do chão de nuvens
do lado de fora do avião.
Ficou muito tempo observando a ruiva adormecida
ao seu lado, os dedos entrelaçados nos dela...
Fernanda tinha uma expressão muito doce
no rosto, os lábios entreabertos num quase sorriso, bastante convidativos...
Controlou a vontade de beijá-la e preferiu
ficar ali tranqüila, zelando o sono dela...
Lembrou da primeira vez que a tinha visto... Se
alguém tivesse dito que montada naquele cavalo negro estava a mulher
da sua vida, jamais acreditaria... Muito menos que a herança aparentemente
sem valor de Tia Guida a faria encontrar o amor...
Todas as dúvidas, conflitos e mal entendidos
estavam resolvidos... Todos, menos um... O pensamento fez o sorriso que antes
estava estampado no rosto de Isabela morrer...
Na árvore da pequena clareira, permanecia
entalhado aquele coração antigo...
Dona Clara as recebeu na porta, com um sorriso
enorme no rosto e muitos abraços e beijos.
A primeira coisa que Isabela fez quando entraram
no quarto de Fernanda, foi olhar para a mesinha de cabeceira. Um grande alívio
tomou conta dela quando viu
que o retrato de Luisa tinha sumido.
- Melhor você tomar banho primeiro.
- Ah, não, Fê... Quero tomar banho
com você...
Se pendurou no pescoço de Fernanda, beijando-a
com sofreguidão.
- Mamãe tá esperando a gente pra
almoçar.
Isabela fez biquinho, mas acabou concordando e
indo para o banheiro.
Quando Fernanda terminou de desfazer a mala, Isabela
voltou enrolada numa toalha e com os cabelos molhados. A imagem da tentação.
Fernanda sentiu as primeiras pontadas de desejo. Se aproximou dela, tentou livrá-la
da toalha, mas Isabela a impediu, dizendo:
- Sua mãe tá esperando, lembra?
- Me dá só um beijo ...
- Até parece, doutora Fernanda, que vai
ser só um beijo...
Fernanda não disse nada, apenas a puxou...
Os lábios se encontraram, as respirações imediatamente
se alteraram... Os corpos tão colados que Fernanda sentiu quando os seios
de Isabela endureceram... Subiu as mãos para tocá-los, mas foi
interrompida por batidas na porta e a voz de Selma dizendo:
- O almoço tá na mesa!
O almoço foi ótimo. Dona Clara fazia
questão de ser simpática com Isabela.
Tomaram um cafezinho na sala, e dona Clara, como
toda boa mãe, resolveu mostrar para Isabela algumas fotografias. Apesar
dos protestos da filha, ela apareceu com milhares de álbuns antigos de
quando Fernanda era criança.
Já estavam no terceiro álbum, quando
Selma apareceu esbaforida:
- Dona Fernanda, o Cicinho, filho do seu Anselmo,
tava montando um cavalo bravo e caiu... Tá muito machucado...
Fernanda foi até o quarto e voltou com
uma maletinha. A mesma que ela tinha levado para examinar tia Carmen no sítio.
- Vem comigo, Bela?
Antes que pudesse responder, dona Clara disse:
- Ah não, Nanda, deixa eu curtir a minha
nora um pouquinho...
Isabela achou tão bonitinho o jeito que
dona Clara falou, que nem ficou chateada de não ir com Fernanda.
Ficaram olhando as fotos, as duas achando Fernanda
o bebê e a menininha mais fofa do mundo, cúmplices no amor que
sentiam por ela ...
Então, de repente, os olhos de Isabela
se fixaram numa foto onde se viam duas meninas: a primeira, inconfundível por causa dos cabelos
cor de fogo, usando rabo
de cavalo, tênis velho, calça jeans surrada e camiseta com estampa de onça, fazia careta para a câmera.
Um degrau acima, para ficar na altura de Fernanda, com uma carinha bem séria, usando um vestidinho florido amarelo, maria-chiquinha
e sapatinhos de boneca, estava Isabela...
Capítulo 27: Flashback...
Na hora que viu a foto, mil recordações pipocaram em
sua mente, as imagens vindo como pedacinhos de um filme. Imagens dela e Fernanda
quando crianças brincando, correndo e rindo...
Mas a cena que passou inteirinha na cabeça dela foi a seguinte:
Fernanda estava sentada no galho de uma árvore quando Isabela
saiu pela porta da cozinha do sítio, carregando com muito esforço
uma cesta de piquenique quase do tamanho dela.
Depois de pular do galho com a maior facilidade do mundo, Fernanda
correu para ajudar Isabela. As duas foram caminhando devagar, andando um pouco
cambaleantes por terem que coordenar os passos para andarem juntas carregando
peso.
Pararam no jardinzinho atrás da casa e colocaram a cesta no
chão. Isabela pegou uma toalha quadriculada dentro dela e com a ajuda
de Fernanda a estendeu na grama. Com um jeitinho sério e compenetrado,
foi tirando alguns pratos, xícaras, pires, colheres e até um bule
e um açucareiro de brinquedo, que arrumou em cima da toalha. Fernanda
sentou com as pernas cruzadas, as mãos apoiadas no queixo, a olhando
com um arzinho de admiração.
- Ajuda, Fê! Vai ficar só olhando, é?
- Desculpa...
Fernanda fingiu ajeitar um pratinho, sem tirar os olhos dela. Isabela
então tirou da cesta a melhor parte: uma garrafa térmica com “Toddy”
e alguns biscoitos e bolinhos que tia Guida tinha feito para elas. Tudo de verdade!
Terminou de arrumar e se sentou também, batendo palmas e dizendo:
- Eu sirvo!
Colocou o chocolate nas pequenas xícaras, entornando grande
parte enquanto servia. Entregou uma das xícaras meladas para Fernanda,
que já ia tomar quando Isabela a interrompeu:
- Espera! Primeiro o brinde!
Isabela fez um sinal para Fernanda, lembrando que ela é que
tinha que fazer o brinde. Fernanda levantou a xícara e disse, com um
tom formal que era no mínimo engraçado:
- Tim Tim!
Ao que Isabela respondeu: “Tim Tim” e, batendo a xícara na
dela, derramou mais chocolate ainda.
- Agora bebe de uma só vez!
Fernanda, como sempre, obedeceu. Começaram a comer os biscoitos,
e Isabela exigiu:
- Agora me conta o segredo!
- Que segredo?
Fernanda se fez de desentendida e Isabela perdeu a pouca paciência
que tinha:
- Você não disse que tinha um segredo pra me contar,
ué?
- Eu disse surpresa!
- Melhor ainda! Conta, Fê!
Fernanda olhou para cima, respirou fundo, como se tomasse coragem,
e disse:
- É uma coisa que eu vi num filme: a gente faz um coração
numa árvore. E escreve dentro dele o nome da pessoa que a gente mais
gosta.
Isabela franziu a testa e torceu o nariz:
- Só isso? Que surpresa sem graça...
Mas logo se arrependeu, porque Fernanda fez uma carinha muito triste
com o comentário. Imediatamente consertou:
- Mas é um ótimo segredo! Vai ser o nosso segredo. E
nunca, jamais vamos contar pra ninguém. Jura?
O rosto de Fernanda se iluminou. Ela levantou os dedos indicador e
médio da mão esquerda e colocou a mão direita no peito
dizendo:
- Juro pela minha mãe mortinha!
Dessa vez foi Isabela quem se entristeceu.
- Desculpa, eu...eu...
A preocupação de Fernanda parecia tão sincera,
que Isabela sorriu para ela novamente.
- Bela, que nome você vai escrever?
- Não sei... E você?
- Também não sei...
Isabela comeu um dos bolinhos e ficou com a boca toda lambuzada de
açúcar.
- Sua boca tá toda suja...
Isabela passou a língua na boca, tentando limpar, sem conseguir:
- Saiu?
- Eu tiro pra você...
Fernanda se aproximou, passou os dedos no açúcar melado,
e também não conseguiu. Então cuspiu nos dedos e já
vinha com eles para cima de Isabela, quando ela recuou, dizendo:
- Eca! Que nojo!
- Deixa de ser boba! Assim você nunca vai beijar na boca!
- Isso não é beijo, é cuspe!
- Aposto que se fosse beijo você também tinha nojo!
- Não tinha nada!
- Tinha!
- Não tinha!
- Tinha!
- Não tinha!
- Tinha!
- Quer apostar?
- Duvido!
- Quer ver?
E encostou os lábios nos de Fernanda. Ficaram se olhando, ainda
com os lábios encostados, os olhos de Fernanda muito arregalados, e se
arregalando ainda mais
quando ouviram a voz de tia Guida gritando:
- Isabela! Já pra casa!
- Tia Guida...
- Agora!
Levantou e entrou em casa correndo. No dia seguinte bem cedo, Tia
Guida a mandou para o Rio
de Janeiro.
Capítulo 28: Para sempre no coração...
Isabela se levantou de repente, quase de um salto:
- Preciso sair... A senhora tem um canivete?
- O que? Um... canivete?
- Uma faca, qualquer coisa assim?
Dona Clara não entendeu nem perguntou nada, já estava
começando a se habituar com aquele monte de coisas estranhas que aconteciam...
Se limitou a entregar um canivete para Isabela e mandar um dos empregados selar
um cavalo para ela.
Enquanto cavalgava, a mente de Isabela era um turbilhão de
pensamentos.
Tia Guida a tinha mandado para o Rio de Janeiro por causa do beijo
que tinha trocado com Fernanda. E então, anos depois, com aquela cláusula
do testamento, tinha obrigado Isabela a voltar... Como se quisesse consertar
o que tinha feito, colocando Fernanda e Isabela juntas novamente. Com certeza
ela sabia que a pequenina semente plantada quando crianças ia desabrochar
e florescer com facilidade...
Desmontou, amarrou o cavalo e caminhou apressada, passando entre as
árvores, até chegar à clareira.
Nada melhor do que selar o amor delas gravando os nomes no coração
entalhado, exatamente como tinham combinado na infância. Gravar o que
sentiam para sempre naquele coração. Isabela riu de alegria e
antecipação... Ia surpreender Fernanda...
Mas quando finalmente chegou na árvore e olhou para o coração,
quem teve uma enorme surpresa foi ela, porque ... Já tinha um nome escrito...
Isabela não conseguiu conter o sorriso, nem os olhos que se
encheram de lágrimas quando leu: “Bela”.
Naquele momento, uma certeza absoluta pulsava dentro dela: Fernanda
tinha sido seu primeiro amor, e agora era a mulher com quem ia passar o resto
da vida.
Com um brilho de felicidade iluminando seu rosto, pegou o canivete
e começou a escrever.
Quando Fernanda chegou na fazenda, dona Clara contou com detalhes
tudo o que tinha acontecido.
Bastou ver a foto e ouvir que ela tinha pedido um canivete antes de
sair quase correndo para que Fernanda compreendesse.
Foi atrás dela, o coração disparando no peito...
No dia que Isabela partira de volta para o Rio, Fernanda tinha achado que a
tinha perdido. Então tinha gravado o nome dela, aquela que sempre seria
a mulher da sua vida, no coração entalhado. Como uma silenciosa
jura de amor...
Quando chegou na clareira, encontrou Isabela terminando de escrever
dentro do coração. Da distância que estava, Fernanda conseguiu
ler... A declaração eternizada do amor delas. Um amor gravado
para sempre naquele coração.
Um coração onde agora se lia: “Bela e Fê”.
Assim que a viu, Isabela correu para ela, a puxou pela cintura e a
abraçou com força, colando os lábios nos de Fernanda como
se não a visse há muito tempo.
Quando o beijo terminou, Isabela encostou a cabeça no ombro
dela, e ficaram conversando abraçadas, os corações palpitando
juntinhos:
- Pensei que
você tivesse esquecido, amor...
- Não...
Sim... quer dizer... tinha... mas quando eu vi a nossa foto... eu lembrei...
de você... de nós... de tudo... Fê, eu...
Isabela falava rápido, aos tropeços, a voz embargada
por uma estranha emoção que enchia seus olhos de lágrimas...
Fernanda apenas a abraçava, acariciando os cabelos dela carinhosamente...
- Eu... eu beijei você... tia Guida viu a gente... ficou furiosa,
me mandou embora...e esse coração... o coração que
você fez... pra mim... é o nosso coração... que agora
não tá mais vazio...
Fernanda acariciou o rosto dela suavemente, com um lindo sorriso.
Segurou o rosto de Isabela entre as mãos, a olhou fundo nos olhos, e disse:
- Minha Bela... Amo tanto você...
Isabela suspirou, esfregando o rosto da mão dela de uma forma
quase felina:
- Também te amo demais, Fê...
As bocas se encontraram... Os lábios se abriram para as línguas
se provarem... Doce, muito doce... Entorpecente mistura de salivas, respirações
e almas...
Agradeceram mentalmente a responsável por tanta felicidade...
Para elas tia Guida tinha deixado a mais perfeita de todas as heranças...
Um imensurável legado de amor e paixão...
FIM
Feedback para : [email protected]