LEGADO
DE PAIXÃO
by
Diedra Roiz
Capítulo 1: A Notícia Inesperada...
- Belinha, meu amor! Levante e brilhe para um
novo dia!
Esse era o jeito que ela era acordada todos os
dias. A voz amorosa da tia a despertava, e Isabela se espreguiçava na
cama, jogava o lençol pro lado e levantava de um pulo só.
Tia Carmen e Tio Zé a criaram e paparicam
desde que ficara órfã aos 7 anos. Com a morte do tio dois anos
atrás, agora eram só as duas no apartamento no Flamengo. E só
com a pensão da tia e o salário mixo do estágio de Isabela,
estava cada vez mais difícil pagar todas as contas no final do mês.
Na verdade, Isabela estava começando a pensar em abandonar a faculdade
e arrumar um emprego de verdade.
Saiu do quarto, deu dois beijos na tia:
- Bom dia, titia!
- Bom dia, lindinha! O café está
na mesa!
Como sempre, na mesa da sala já estava
o café da manhã dela prontinho. Começou a tomar café
distraidamente quando o telefone tocou e tia Carmen atendeu.
Não prestou atenção na conversa
da tia. Tinha programado aproveitar o dia de folga com a namorada. Fazia muito tempo que não passava
um dia inteirinho com a Cris. Seus lábios se abriram num sorriso de antecipação.
Foi quando a tia desligou o telefone e se atirou
na cadeira mais próxima, tão pálida que Isabela levantou,
preocupada.
- Nossa, o que foi, titia?
- A Guida... a Guida faleceu...
Tia Guida, irmã de Tia Carmen, vivia isolada
em num sítio no interior de Goiás. Nunca se casara, e era quase
uma reclusa, com cara de poucos amigos. Isabela tinha passado uns tempos com
ela no tal sítio quando os pais morreram, mas logo depois tinha ido morar
com Tia Carmen e Tio Zé. Na verdade não se lembrava direito, pois
essa era uma época de sua vida muito confusa e triste, da qual quase
não tinha nem queria ter lembranças.
- Como assim, morreu? De que?
- Num acidente, parece. Estava montando e caiu,
morreu na queda, nem chegou a ir para o hospital... Guida sempre foi louca por
cavalos, desde menininha... O enterro foi ontem. Não adianta mais irmos.
Quem ligou avisando foi um advogado, quer que você vá ao escritório
dele hoje o mais rápido possível.
- Logo hoje?
- Ele disse que é urgente.
- Tá, então vou logo, só
preciso dar um telefonema.
- Eu vou com você.
Foi pro quarto um pouco chateada, sabia que a
Cris não ia gostar nada, mas fazer o que, né? Pegou o telefone
e apertou o “redial” – “é, tinha ligado pra ela antes de dormir...” –
o voz da namorada soou ainda acordando do outro lado.
- Alô?
- Oi, amor!
- Oi, amor! Ainda nem levantei... Já tá
vindo pra cá, né?
- Na verdade preciso resolver um negócio
com a minha tia antes...
- Putz, Isa! Você prometeu!
- É rapidinho, daqui a pouquinho eu tô
aí...
- Tá, mas não demora!
- Tô louca pra chegar aí! Te amo!
- Eu também!
- Beijo...
Se arrumou rápido, mas com cuidado, porque
afinal, depois ia ver a Cris. Prendeu os cabelos, muito lisos pra que pudesse
dar jeito tão rápido, num rabo de cavalo e saiu de casa quase
arrastando a tia.
Quando chegaram no escritório, a recepcionista
pediu que aguardassem um pouco na sala de espera. Os olhos de Isabela procuraram
várias vezes o relógio na parede em frente durante os 10 minutos
que demoraram até que finalmente pudessem entrar.
O tal advogado, um senhor muito educado, pediu
para que se sentassem antes de dizer:
- Muito boa tarde, eu sou o dr. Macedo, chamei
as senhoras aqui porque estou em posse do testamento da senhora Margarida de
Brito Oliveira. Ela deixou todos os bens, que incluem o sítio “Sol Nascente”,
para a sobrinha, srta. Isabela Oliveira Morais. Porém, em seu testamento
ela deixou uma cláusula com algumas condições...
Isabela e tia Carmen se olharam, surpresas e curiosas.
- Para que o sítio realmente se torne seu,
a srta deverá administrar e morar nele, sem se ausentar, pelos próximos
3 meses.
- O que? Como assim? (a idéia de passar
3 meses embrenhada no meio do mato e ainda por cima longe da Cris, deixando
ela sozinha no “fervo” Rio de Janeiro era absolutamente impensável.)
- Caso a srta não o faça, automaticamente
o sítio passará a pertencer a outra pessoa.
- Outra pessoa? Que outra pessoa? Essa Guida,
realmente, nunca teve juízo! (Tia Carmen também não estava
gostando nada das idéias da irmã.)
- A outra pessoa é a sra. Fernanda Quintanilha,
proprietária da fazenda vizinha. Parece que eram grandes amigas.
- Grandes amigas? Mas a Guida era quase uma eremita!
Afinal, o que é que estava se passando na cabeça da minha irmã?
Isso não está certo, é um absurdo, isso é o que
é!
- Sinto muito, ela deixou bem claro. A srta Isabela
tem exatamente 72 horas para chegar no sítio. Caso contrário...
- A tal sra. Fernanda fica com tudo. Tá,
eu já entendi! Não temos opção, titia, eu tenho
que ir!
- Muito bem, então. Vou avisar aos empregados
do sítio sobre a sua chegada.
Capítulo 2: Uma Herança que incomoda
muita gente...
Tia Carmen discutiu todo o caminho de volta, tentando
convencer a sobrinha que aquilo tudo era absurdo. “Afinal de contas”, dizia,
“o que uma garota da cidade entende de sítios? O que você vai fazer
lá, Belinha, no meio daqueles bichos?” ...
Mas quando Isabela colocava uma idéia na
cabeça ninguém tirava.
Eram apenas 3 meses de sacrifício, e depois
disso poderia vender o tal sítio, terminar a faculdade sem problemas, e também dar uma vida melhor
para a tia, que afinal de contas, bem que merecia. Bem no fundinho tinha a esperança
de levar Cris junto. Aí sim, não seria sacrifício nenhum...
Mas se a reação da tia tinha sido
ruim, pior ainda foi a de Cris.
- Se você for tá tudo acabado! Você
acha mesmo que eu vou ficar 3 meses aqui esperando pela senhorita?
- Vem comigo então...
- Nem morta! Você pode escolher: ou esse
sítio idiota ou eu!
- Cris, você sabe que eu não posso,
eu preciso do dinheiro...
- Não quero saber, faça a sua escolha!
Depois de ser expulsa da casa da namorada, ou
melhor, ex-namorada, ficou andando pelo calçadão de Copacabana
meio sem rumo, a cabeça a mil. Chegou em casa já de noite, e se
trancou no quarto sem querer falar com a tia. Enfiou a cabeça no travesseiro
e chorou até dormir.
Passou o dia seguinte resolvendo coisas. Trancou
a faculdade, avisou no estágio que não iria mais, comprou a passagem,
fez as malas... De Tia Carmen foi a interminável choramingação
para que ela não fosse, para que esquecesse essa loucura da Guida...
De Cris nem telefonema, nem e-mail, nem torpedo, nem nada... Viajou com o coração
apertado, sem o apoio de ninguém, sozinha em sua decisão. Se a
intenção da tal tia Guida era bagunçar a vida dela inteira,
com certeza tinha conseguido!
A viagem em si não foi muito cansativa.
Mas sem dormir direito as duas últimas noites, arrasada por Cris ter
terminado com ela, e sem saber direito o que a esperava, Isabela chegou exausta.
A vontade de gritar que sentia só aumentou
quando viu o estado em que o sítio estava: velho, decadente, só
não parecia abandonado porque tinha um senhor e duas moças coradas
e risonhas - de trancinha! - esperando por ela na varanda em frente ao que deveria
ser a porta principal.
- Oi. Eu sou a Isabela.
- É a sobrinha da Dona Guida, que Deus
a tenha! Seja bem vinda! (disseram as duas, meio que “dividindo a frase, como
se pensassem juntas, ou quem sabe, dividissem o mesmo cérebro?” – pensou
Isabela, se arrependendo na mesma hora. As duas pareciam muito simpáticas,
ela é que estava azeda por tudo que tinha acontecido.)
- Obrigada...
- Eu sou Rosa...
- E eu sou Janaína...esse é o Roque...
- Muito prazer...
- Vamos entrando...
- Com licença, moça, tenho umas
coisas pra fazer... (disse Roque, saindo rapidinho. Ao contrário das
moças, parecia tímido e reservado.)
Isabela foi atrás das duas, que insistindo
em carregar todas as malas sozinhas, falavam sem parar sobre tia Guida, sua
morte, o enterro, sempre daquela forma estranha de uma terminar a frase da outra.
Mostraram toda a casa: duas salas, cozinha, dois banheiros, dois quartos de
hóspedes, o quarto da tia - e que estava exatamente como dona Guida, Deus a tenha!, tinha deixado
– e o último quarto, preparado para ela.
Isabela estranhou que o melhor e maior quarto
da casa não fosse o da tia, mas por outro lado, foi uma ótima
notícia, porque de jeito nenhum ia ficar no quarto da “falecida”.
- Agora vamos deixar a srta descansar um pouco.
A gente chama quando o almoço ficar pronto.
- Tá, obrigado.
E as duas saíram fechando a porta. Isabela
olhou em volta para aquele que nos próximos 3 meses seria o seu quarto:
era rústico, com uma grande cama de casal que ocupava quase todo o cômodo,
duas mesinhas de cabeceira com um par de abajures, um armário também
de madeira escura combinando, e só.
Abriu a cortina florida da janela e olhou o chão
a se perder de vista, plano, sem nenhuma montanha, deixando nela uma sensação
de solidão ainda maior. Deitou na cama pensando que provavelmente a essa
hora Cris deveria estar na praia, exibindo o corpinho na Farme... enfiou a cara
no travesseiro e começou a chorar.
Capítulo 3: Passeio na Vila e Um encontro
Surpreendente
Acordou com batidas na porta, tinha adormecido
sem querer. Pelo menos nesse pouco tempo tinha esquecido que estava sozinha,
no meio do nada e odiando a miserável da tia Guida!
- Dona Isabela, o almoço tá na mesa!
A comida estava ótima, mas estava triste,
sem fome, quase não comeu nada...
- A srta não gostou da comida?
- Gostei sim, é que eu comi no caminho...
(Mentiu. Não queria deixar as duas chateadas.) Tem alguma cidade próxima?
- Cidade, cidade eu não diria, mas tem
uma vila a uns 40 minutos daqui...
- 40 minutos andando?
- Não, de carro, né? Andando é
mais tempo...
- E tem algum... é...ônibus, alguma
condução que me deixe lá? (as duas riram, achando muita
graça na pergunta da mocinha da cidade grande acostumada a ter ônibus,
metrô, táxi...)
- Tem a “jubiraca”... (Isabela não fazia
idéia do que diabos era “jubiraca”, mas seguiu as duas até atrás
da casa, onde mostraram uma caminhonete velha que parecia um dia ter sido azul.)
Era da dona Guida...
A “jubiraca”, como o sítio, como tudo que
tia Guida tinha deixado, era um lixo.
Mas Isabela queria muito dar uma volta, conhecer
a tal vila, espairecer a cabeça um pouco, por isso resolveu que não
custava nada tentar.
Por dentro o estado da caminhonete era ainda pior:
o banco estava rasgado em vários lugares, a carroceria era tão
enferrujada que Isabela jurava que poderia a qualquer momento cair com banco e tudo no chão. Mas inacreditavelmente
o motor ligou, ela passou a marcha e seguindo as instruções que
as duas tinham dado, saiu estrada afora.
Foi bem fácil chegar na vila, que por sinal
nada mais era do que uma igreja, uma farmácia, um mercadinho, uma padaria
e algumas casas em volta de uma praça. Sentou na pracinha sem se importar
que todas as pessoas que passavam olhassem para ela... De vez em quando um sussurro
mais alto: é a sobrinha da Guida... chegou hoje do Rio de Janeiro...
veio tomar conta do sítio...
Comprou um sorvete na padaria e deu uma volta
na praça antes de voltar para casa.
Vinha contente pela estrada, não pensando
em nada, quando na metade do caminho a “jubiraca” resolveu morrer. Tentou várias
vezes fazer o motor pegar novamente e nada...
Agora já xingando mentalmente tia Guida,
se deu conta que estava parada no meio de uma estrada de terra com nada a sua
volta e um sol escaldante na cabeça.
O jeito era andar, não que fosse problema,
estava mais do que em forma, super acostumada a correr na esteira, mas o par
de sandálias que estava usando não ajudavam. Depois de uns 20
minutos e algumas centenas de impropérios contra tia Guida, o esfregar
dos dedos contra o couro da sandália já tinha rendido algumas
bolhas.
Se não tivesse escutado um galope antes
de olhar para trás, pensaria que o sol a estava fazendo ver coisas. A
visão era impressionante: uma mulher ofuscantemente linda, montada num
magnífico cavalo negro, com os cabelos vermelhos esvoaçantes.
- Perdida? (ela perguntou)
- Ãh? (foi só o que Isabela conseguiu
responder.)
- Tá perdida, moça? (e como ela
não respondesse: ) Tá se sentindo bem?
Rápida, com uma agilidade surpreendente,
a mulher desceu do cavalo.
Isabela só pensava no estado lamentável em que deveria estar,
toda suada, descabelada, o rosto vermelho do sol e os pés em frangalhos...
A mulher, por outro lado, era ainda mais interessante
de perto, com a camiseta e a calça tão justas que deixavam todas
as curvas do corpo per-fei-to desenhadas. Botas de montar até os joelhos completavam o quadro avassalador.
- O que faz aqui, no meio do nada?
- Meu carro quebrou, então o jeito foi
andar...
- Andar? Com esses sapatos?
O olhar que ela lançou para Isabela deixou
claro que a achava uma completa e total idiota da cidade.
- Vai pra onde?
- Pra casa...
Antes que pudesse completar a frase, a mulher
lançou um olhar impaciente, como quem diz: “tudo bem, mas onde fica isso?”
- Sítio do Sol Nascente.
Isabela percebeu que até então a
mulher ainda não a tinha olhado de verdade. Os olhos castanhos a avaliaram de cima a baixo, com um misto de surpresa,
curiosidade e algo mais que Isabela não conseguiu desvendar. Depois se fixaram profundamente nos dela, enquanto
dizia:
- Eu te levo.
Montou novamente no cavalo, com uma destreza impressionante,
e estendeu a mão. Isabela, que nunca na vida tinha andado a cavalo, hesitou.
- Não sei, acho melhor não.
- Nunca montou?
O arzinho de superioridade da outra já
estava irritando Isabela. Ia dar a resposta merecida, quando com um sorriso
irresistível, a mulher disse num tom de voz quase carinhoso:
- Vem. Pode confiar.
Segurar a mão que a outra estendia para
ajudá-la a montar causou em Isabela um arrepio gostoso, mas melhor ainda
foi sentar atrás daquela mulher linda no cavalo. Usando o medo como desculpa,
passou os braços em torno da cintura dela com força, colando totalmente
os dois corpos no abraço. Fechou os olhos e curtiu aquela sensação
deliciosa do vento batendo em seu rosto e a intensidade do corpo quente da outra
contra o dela...
- Chegamos.
Abriu os olhos, e viu com surpresa que já
estavam paradas em frente a casa.
- Obrigado. (Isabela disse, desmontando, bastante
sem graça.)
- Disponha...
- Meu nome é Isabela.
- É, eu sei. Eu sou Fernanda.
Virando o cavalo, Fernanda foi embora deixando
Isabela estática.
A amiga da tia Guida não era nenhuma senhora
como ela pensava. A mulher que herdaria o sítio caso ela falhasse, não
era ninguém menos que a jovem, linda e incrivelmente atraente ruiva que
em um único encontro já deixara Isabela totalmente fascinada.
Capítulo 4: Perguntas e Revelações
Antes de Isabela cruzar a soleira da porta foi
rodeada por Rosa, Janaína e uma enxurrada de perguntas:
- Dona Isabela, o que aconteceu? Cadê a
“jubiraca”?
Sem responder sentou na primeira cadeira e descalçou
as sandálias. Algumas bolhas nos dedos e o rosto e o ombro ardidos do
sol... é, o estrago maior não tinha sido físico... Não
conseguia tirar a imagem de Fernanda da cabeça. Precisava saber mais
sobre ela.
- Essa mulher que me trouxe...
- A dona Fernanda. Muito rica, dona da Boqueirão,
a fazenda aqui do lado. Amiga demais da dona Guida. Vinha aqui todo santo dia.
Foi ela que encontrou o... o corpo. Chorou muito no enterro, coitadinha...
Já que estavam fofocando mesmo, Isabela
resolveu aproveitar:
- E ela tem um marido, ou um namorado?
Rosa e Janaína riram muito da pergunta.
- Essa é boa! Namorado, a dona Fernanda?
(e riram muito antes de concluir:) Olha, dona Isabela, por aqui todo mundo sabe
que a dona Fernanda não gosta disso, não.
- Não entendi...
- A dona Fernanda não morava aqui, mas
todo mundo sempre soube que ela vivia com uma outra moça. As duas vinham
sempre passar natal na fazenda. Parece que a tal moça morreu... e a dona
Fernanda voltou a morar com a mãe na Boqueirão. Esteve muito doente,
dizem que quase morreu de tristeza... Mas depois ficou amiga da sua tia, foi
melhorando, melhorando, e até
voltou a sorrir... por isso que muita gente diz que as duas eram mais do que
amigas, se é que a srta me entende...depois da tal cláusula do
testamento então...
- Quer dizer que ela sabe do testamento?
- Ué, dona Isabela, pode ir se acostumando.
Por aqui todo mundo sabe tudo que acontece. E por mais que a dona Fernanda teja
doidinha pra botar as mãos no sítio, a srta não vai deixar,
não é mesmo?
- Mas se ela é rica, dona de uma fazenda,
pra que ela quer esse lugar... (caindo aos pedaços, ela pensou, mas não
disse...)... que nem vale tanto assim?
- É uma questão de honra.
- Honra?
- O “Sol Nascente” já pertenceu à
família dela...o bisavô da dona Fernanda perdeu no jogo de cartas
pro avô da dona Guida. Depois ele passou o resto da vida tentando comprar
o sítio de volta, mas nunca conseguiu. Dona Guida dizia que o pai da
dona Fernanda fez várias propostas de comprar o sítio, mas ela
nunca quis. E nos últimos tempos, mesmo sendo tão amiga, a própria
dona Fernanda cansou de tentar comprar da dona Guida, mas também nunca
conseguiu. Agora com licença, que vamos terminar de fazer o jantar...
Isabela foi tomar banho, a cabeça tentando
organizar a enorme quantidade de informações. Só uma última
dúvida ainda não tinha sido respondida: tia Guida e Fernanda eram
apenas amigas?
Capítulo 5: A Galope...
Fernanda esporeou o cavalo. Gostava de galopar
sentindo o vento no rosto, de viver com voracidade, ou melhor, de devorar a
vida.
A mãe preferia dizer que na verdade, ela
não tinha amor à vida. Talvez estivesse certa. Talvez depois da
morte de Luisa realmente tivesse desenvolvido um desejo extremo de se arriscar. Ou então, exatamente por ter visto Luisa
morrendo tão jovem, a doença fazendo a vida dela se esvair pouco
a pouco sem que Fernanda nada pudesse fazer, tivesse desenvolvido essa compreensão
de que nenhum segundo poderia ser desperdiçado, pois qualquer momento
poderia ser o último.
Isabela... até o nome dela parecia doce.
Pelo jeito Isabela não se lembrava dela, mas Fernanda lembrava perfeitamente
da menina magricela, com a franjinha sempre caindo nos olhos, e o olhar mais
triste de todo o mundo que tinha passado alguns meses no “Sol Nascente”. Como
poderia esquecer, se tinha sido a primeira menina que tinha feito o coração
de Fernanda bater mais rápido?...
Percebeu que sorria, e se sentiu culpada por estar
pensando em alguém que não fosse Luisa. Depois da morte dela,
Fernanda nunca tinha pensado em outra mulher.
Mas o encontro com Isabela tinha despertado coisas
que Fernanda achava que não seria mais capaz de sentir. E tinha quase
certeza de que Isabela também tinha sentido, pela forma como ela tremeu
quando as mãos se tocaram, e como a respiração e o coração
dela aceleraram ao colar o corpo no de Fernanda no cavalo. O pulso de Fernanda
também acelerava só de pensar em Isabela. Por isso mesmo não
queria pensar nela.
Se forçou a voltar os pensamentos para
Guida. A amiga tinha sido a única pessoa que conseguira tirar Fernanda
da depressão após a morte de Luisa. Passavam horas e horas conversando
sobre o amor, sobre a morte, sobre a vida, sobre tudo e nada.
Guida era uma mulher forte, inteligente, com idade
para ser mãe de Fernanda e no entanto a compreendia. Sentia muita falta
da amiga.
Mas afinal, o que Guida tinha na cabeça
ao exigir que a sobrinha tão frágil, tão delicada, tão
nada a ver com um sítio fosse obrigada a administrar e morar no “Sol
Nascente”? Isso só a própria Guida sabia.
Fosse o que fosse, tudo o que Fernanda queria
era comprar o sítio, e, finalmente, ter de volta o que por direito sempre
deveria ter pertencido à sua família. Ou será que estava
começando a querer mais do que isso?
Capítulo 6: Vários e diferentes
Sorrisos...
Nos primeiros dias, a vida no sítio transcorreu
sem problemas. Isabela deixou todos espantados com a rapidez com que a garota da cidade se adaptava
e aprendia a fazer as coisas.
Roque conseguiu consertar e trazer de volta a
“jubiraca”, mas achando melhor não se arriscar, a primeira coisa que
Isabela quis aprender foi a montar.
Afinal, além dos cavalos da tia serem definitivamente
a melhor opção de transporte, não podia desperdiçar
logo a única coisa que tinha herdado que não precisava de consertos
nem remendos.
Como no sítio não tinha Internet,
e o celular dela não funcionava, o jeito era falar com tia Carmen por
telefone mesmo. Se falavam todos os dias, a senhora nunca desistindo de convencer
a sobrinha a voltar. Isabela só ria, e voltava ao trabalho. Aliás,
muito trabalho mesmo. Passava o dia inteiro ajudando Roque a fazer mil coisas
que ela jamais sonhara que um dia faria.
Num dos dias em que acordou sentindo saudades
do “Belinha, meu amor! Levante e brilhe para um novo dia!” da tia, percebeu
que Rosa não estava na cozinha.
- Minha irmã tá de cama, dona Isabela.
- Mas o que ela tem?
- Sei não... tá com um febrão
alto... daqui a pouco levo um caldo pra ela...
Saiu para consertar uma cerca que estava caindo.
Roque já a esperava em frente da casa.
- Dona Isabela, vamos precisar de mais pregos,
esses tão quase no fim...
- Tudo bem, eu vou até à vila...
Resolveu ir de cavalo mesmo. Afinal, já
estava montando muito bem e qualquer coisa era melhor do que a “jubiraca”...
Depois de comprar os pregos saiu do mercadinho
e deu de cara com Fernanda encostada numa pick-up preta. Por trás dos
óculos escuros, ela deu um enorme sorriso para Isabela.
- Oi!
- Oi...
Isabela retribuiu o sorriso sem nem perceber.
“Também, como resistir a uma mulher bonita
daquelas? Chegava a ser covardia...”
- Tudo bem com você?
- Tudo.
Fernanda levantou os óculos para olhar
melhor para Isabela.
- Chapéu de couro... Botas de montar...
Parece que não precisa mais de mim...
Em qualquer outra situação Isabela
aproveitaria a deixa. Mas aquele não era, definitivamente, o momento
para Isabela pensar em mulher nenhuma, precisava manter toda a sua atenção no sítio.
Claro que achar Fernanda linda, gostosa, interessante,
maravilhosa e tudo de bom dificultava muito, mas muito mesmo... Perto dela Isabela
não conseguia nem controlar os olhos, que involuntariamente passearam
pelo corpo de Fernanda inteiro.
Pelo jeito ela não era tão frágil,
delicada e inocente como Fernanda pensava. Se fosse não ficaria ali,
parada no meio da vila, praticamente devorando Fernanda com os olhos.
- Ou será que precisa?
- O que?
- De mim...
Isabela sentiu uma leve irritação
com o tom de superioridade da outra.
“O que ela estava pensando? Era uma carioca experiente
e descolada, não ia deixar barato.”
- Se eu precisar te aviso.
E saiu andando em direção ao cavalo.
Um sorriso largo se abriu no rosto de Fernanda. “Bravinha, ela...” Imaginou
mil formas de domar aquela braveza toda e sorriu mais ainda...
- Ei, Bela!
O jeito como a outra a chamou... Fez Isabela sentir
um arrepio gostoso como se a boca de Fernanda estivesse lhe sussurrando baixinho
no ouvido... Mas não ia dar à outra o gostinho da vitória...
Se virou com a cara mais séria do mundo:
- Oi?
- Se precisar de qualquer coisa, a qualquer hora,
o que precisar, pode contar comigo.
O oferecimento era sincero, estava escrito nos
olhos de Fernanda. E isso amoleceu Isabela muito mais do que qualquer outra
coisa. Agradeceu com um sorriso que
Fernanda achou lindo:
- Obrigado...
Sem olhar para trás, montou no cavalo e
pegou a estrada. Na sua mente, a imagem da outra era inevitável.
“Que mulher é essa, meu Deus?!!!”
Realmente, difícil resistir e pensar em
herança, sítio, ou qualquer outra coisa... Até a Cris já
fora pro espaço...
Durante todo o caminho de volta Isabela manteve um grande sorriso nos lábios.
Capítulo 7: Precisando dela...
De volta ao sítio, Isabela se deparou com
uma situação catastrófica: Janaína também
tinha caído de cama, com o mesmo febrão misterioso da irmã.
Isabela cuidou das duas o melhor que pôde,
mas a febre não baixava.
Pior mesmo foi quando tentou fazer o jantar. Roque
acabou fazendo uma sopa para que não morressem todos de fome. Estavam
acabando de tomar a sopa quando ouviram trovoadas.
- Dona Isabela, preciso subir no telhado e consertar
as telhas quebradas antes que comece a chover. (e saiu para resolver o problema.)
Enquanto lavava os pratos, Isabela podia ouvir
os passos de Roque lá em cima. Então, de repente, ouviu uma barulheira
no teto e um baque. Correu para o lado de fora. Roque estava caído no
chão, gemendo. Uma das pernas dele – Isabela quase morreu quando viu
– estava toda torta.
- Acho que quebrei a perna...
Pela voz era óbvio que ele estava com muita
dor. Devagar, com muito cuidado, ajudou o homem a ir mancando e gemendo até
o quartinho dele. Assim que o deitou na cama, começou a chover.
- Fica calmo que vou buscar ajuda.
Foi até o estábulo, vestiu a primeira
a capa de chuva que encontrou, selou um cavalo
e saiu a galope. Chovia muito, um verdadeiro temporal. O cavalo patinava na
lama, fazendo Isabela ter certeza que quebraria o pescoço antes de chegar
à Boqueirão. Mas outras pessoas precisavam dela, não podia
desistir.
Mesmo de longe dava para se ver a casa da fazenda.
Uma mansão
enorme, imponente e, para alívio de Isabela, totalmente iluminada.
Depois de entregar o cavalo para um rapaz que
encontrou ali por perto, Isabela foi bater na porta da frente.
A mulher que abriu a porta a olhou de cima a baixo,
reprovando, e só então Isabela percebeu que estava toda molhada
e cheia de lama.
- Se quiser comida dá a volta, a cozinha
é ali atrás.
Sem tempo para maiores explicações,
foi empurrando a mulher para o lado, enquanto entrava e dizia:
- Quero falar com a Fernanda, por favor!
Fernanda tinha acabado de jantar. Foi com a mãe
para a sala de estar assistir televisão,
mas os pensamentos estavam longe....
Como Isabela estaria se virando no sítio
cheio de goteiras? A tempestade parecia que ia durar a noite toda... Então
ouviu alguém bater, uma falação vinda da porta e de repente,
uma voz que estava se tornando bastante conhecida:
- Já disse que preciso falar com ela!
Chegou no hall de entrada bem a tempo de ver a
empregada obrigando Isabela a tirar as botas e a capa de chuva molhada, numa
tentativa de evitar que o chão de mármore ficasse ainda mais enlameado.
- Pode deixar, Selma, obrigado.
Selma saiu se desculpando, mas levando as botas
e a capa de chuva.
Fernanda viu o quanto Isabela estava tremendo.
Os cabelos escorriam e a roupa toda respingada de lama estava encharcada. Era
óbvio que algo muito errado tinha acontecido. Rapidamente, Isabela explicou
a situação. Fernanda ouviu tudo em silêncio, para depois
dizer:
- Deixa que eu resolvo. Você fica aqui.
- De jeito nenhum, eles são minha responsabilidade!
- Adianta cair doente também? O melhor
que você tem a fazer agora é tirar essa roupa molhada e descansar...
- Não mesmo! Onde estão as minhas
botas?
Isabela apenas ameaçou ir na direção da porta por onde Selma tinha saído.
Porque Fernanda a segurou e puxou pelo braço antes que ela pudesse dar
um passo. Com tanta força que foi parar entre os braços de Fernanda.
O corpo inteiro de Isabela foi invadido por uma
onda de calor. Percebeu que o contato também tinha mexido com Fernanda, a respiração
dela parecia mais difícil... Estavam muito próximas, mas não
o bastante...
Fernanda colou a boca na de Isabela, a língua invadindo, buscando, encontrando...
A abraçou pela cintura, colou o corpo no dela, se deliciando com ela...
Isabela se deixou levar pelo prazer que era beijar
aquela mulher... e nossa, ela beijava muito bem... Passou os braços em torno do pescoço dela, enfiou os
dedos nos cabelos ruivos, gemeu quando sentiu que uma mão de Fernanda
acariciava seu seio enquanto a outra agarrava suas nádegas com força...
Então se lembrou de Roque, Janaína
e Rosa.
- Meus empregados... (balbuciou fracamente)
Fernanda até ouviu o protesto da outra,
mas não conseguiu parar. Foi preciso um esforço enorme para Isabela
conseguir se afastar, a respiração alterada, o coração
dando pulos no peito...
- Bela...
- O que?
- Você fica aqui.
E dizendo isso, Fernanda saiu porta afora.
Capítulo 8: Uma mãe com Segundas
Intenções
Isabela ficou ali sem saber o que fazer. Se pelo
menos a tal Selma não tivesse sumido com as botas...
Quase caiu para trás quando se virou e
deu de cara com uma senhora que sorria, simpática, parada na porta do
que parecia ser uma sala de estar.
- Boa noite, minha querida, eu sou Clara, mãe
da Fernanda.
Isabela se perguntou há quanto tempo a
senhora estava parada ali.
- Muito prazer, Isabela.
- A sobrinha da Guida, né? Eu me lembro
de você. Claro que na época você era só uma menininha.
O tempo passa muito rápido... Mas vem comigo, vem. Você deve estar
louca pra tirar essa roupa molhada e tomar um bom banho.
Dona Clara subiu as escadas seguida por Isabela,
e entrou num quarto grande, aconchegante, com uma cama que parecia muito macia
e convidativa.
- Você pode ficar à vontade. Aqui
é o banheiro... (disse abrindo uma porta) e aqui é o quarto da
Nanda.
Tinha uma porta de ligação entre
os dois quartos. Isso fez Isabela ter certeza de que a mãe de Fernanda
tinha visto se não toda pelo menos parte da cena entre as duas no hall
de entrada...
Antes que Isabela pudesse concluir o pensamento
Dona Clara voltou do outro quarto trazendo uma camisola.
- É da Nanda, pode usar. Você está
com uma carinha tão preocupada... Pode ficar tranqüila, que a doutora
Fernanda vai deixar seus empregados novinhos em folha.
- Doutora Fernanda?
- A Nanda é médica, não sabia?
Bom, vou pedir pra Selma trazer um lanchinho pra você. Sinta-se bem vinda
e fique à vontade.
Assim que Dona Clara saiu, Isabela se livrou das
roupas molhadas e se enfiou num maravilhoso banho quente.
Quando saiu do banheiro tinha uma bandeja com
um lanche na mesinha perto da porta e suas roupas tinham sumido.
Vestiu a camisola de Fernanda, só então
percebendo que era um tanto quanto curta e transparente.
“Nossa, o que é que essa dona Clara tá
querendo me colocando num quarto ligado ao da Fernanda e me dando uma camisola
dessas?”
Mal tocou na comida, estava cansada demais para
ter fome. Assim que deitou na cama adormeceu.
Quando Fernanda voltou do “Sol Nascente”, dona
Clara ainda estava acordada vendo televisão.
- Gostei da moça, Nanda. Fico feliz por
você.
- Mamãe, ela é só uma amiga...
- Não foi isso que eu vi...
Dona Clara riu da expressão surpresa e
envergonhada da filha.
- Minha querida, vocês tavam no hall, como
eu não ia ver... E não me venha falar da Luisa. Já faz
muito tempo, Nanda, você precisa tocar a sua vida...
- Tá bom, mamãe, você já
deu sua opinião. Agora, por favor, com licença, eu tô morta
de sono.
- Boa noite, filhinha. Durma bem.
- Boa noite, mamãe.
Beijou a mãe e foi saindo. Mas antes de
cruzar a soleira da porta, dona Clara disse bombasticamente:
- Se quiser falar com a sua “amiga”, coloquei
ela no quarto ligado ao seu...
Capítulo 8: Uma nos braços da outra......
A primeira coisa que Fernanda fez não foi
tomar banho, nem mudar de roupa, foi bater na porta de comunicação
entre os quartos.
Como não obteve resposta, abriu a porta
devagarzinho. Isabela dormia profundamente, vestida na menor e mais transparente
camisola que Fernanda tinha.
“Realmente, a mamãe é terrível!”
Mas não podia deixar de agradecer mentalmente
à mãe pela visão oferecida. Com dificuldade desviou o olhar
dos seios absolutamente irresistíveis e voltou para o seu próprio
quarto. Deixou a porta de comunicação aberta e entrou num banho
frio.
Isabela acordou um pouco perdida, sem saber que
horas eram ou onde estava. Viu a porta de comunicação aberta, a luz do quarto de Fernanda acesa e entrou sem bater.
Fernanda tinha acabado de sair do banho. Vestida
num roupão, enxugava os cabelos quando percebeu a presença de
Isabela.
- Desculpa, eu te acordei?
- Eu queria agradecer... por tudo que você
tem feito por mim...
O olhar que Fernanda lhe lançou a fez lembrar
que estava vestindo uma camisola que a deixava quase nua...
- E dizer que quando eu puder vou pagar pelos
seus serviços... como médica, quero dizer...
Fernanda já tinha nos lábios um
sorrisinho divertido, achando Isabela uma graça...
Mas Isabela não estava nada satisfeita
com a idéia de deixar transparecer tanto que a outra a intimidava. Nunca
tinha encontrado uma mulher que a deixasse assim, desarticulada, se enrolando
nas próprias palavras... Normalmente tinha um papo interessante, sabia
como ninguém dar uma cantada... Precisava dizer algo inteligente, mas
não lhe ocorria nada. Então resolveu ser simples e direta:
- E que gostei muito do seu beijo e quero mais...
Fernanda foi totalmente pega de surpresa. Isabela
a puxou pela cintura, beijando-a com voracidade, chupando sua língua,
arrancando gemidos... Abriu e jogou o roupão de Fernanda no chão,
queria provar aquele corpo
perfeito... Tocou e acariciou os seios dela, enquanto a empurrava para a cama...
Deitou por cima dela, beijando a parte mais sensível do pescoço,
o perfume dos cabelos ruivos a embriagando...Isabela admirou a beleza dos seios
que tinha nas mãos... brincou passando a língua nos biquinhos
duros, chupando, lambendo... fazendo Fernanda suspirar e pedir mais.... E então
desceu a mão pelas coxas dela, a tocou entre as pernas, a excitação aumentando ao ver
o quanto ela estava molhada... Era uma delícia aquela mulher...e estava
ali, em suas mãos...
Ao sentir os dedos que a penetravam, Fernanda segurou Isabela pelos cabelos, fazendo-a
descer a boca... ela foi lambendo e chupando cada pedacinho de pele que encontrava
pelo caminho... quando encostou os lábios no sexo dela, Fernanda gemeu
alto... A boca de Isabela era uma tortura... passava a língua devagar,
depois com força, fazendo Fernanda gemer cada vez mais gostoso ... Isabela sentiu que ela estava perto do gozo e aumentou
o ritmo da língua, os dedos penetrando mais fundo e com mais força.
- Goza pra mim...goza...
O efeito das palavras foi imediato... O corpo
de Fernanda estremeceu, e ela gozou demoradamente, gemendo alto.
Isabela deitou em cima dela novamente, beijando-a
na boca com um sorriso satisfeito nos lábios.
- Como você é gostosa!...
- Você ainda não viu nada...
Trocou de posição com ela, assumindo
de volta o controle da situação... a carioca sabia o que fazia,
realmente a tinha surpreendido... tinha devorado Fernanda, a fazendo se entregar
completamente...
Mas agora era sua vez de fazer aquela mulher deliciosa
se render também... Roçou os lábios na orelha dela sem
pressa, sussurrando palavras que deixavam Isabela arrepiada... Desceu a boca
pelo pescoço, espalhando um calor que a fazia ofegar... As mãos
de Fernanda tocaram e acariciaram o corpo inteiro dela, a boca sugando os seios
ainda por cima do tecido da camisola...
A pele de Isabela queimava, ardia de tesão
por aquela mulher...e quando se deu conta, já estava sem camisola, totalmente
entregue nas mãos dela, o corpo vibrando e querendo sentir todo prazer
que ela pudesse lhe dar...quando as mãos de Fernanda a tocaram entre
as coxas, Isabela estremeceu...
Fernanda arrancou a calcinha dela, se deliciando ao sentir o tecido completamente
molhado... Então desceu a boca pelo ventre dela, os cabelos ruivos se espalhando sobre o corpo de Isabela e causando
pequenos tremores ... Lambeu as coxas, provocando antes de mergulhar a língua
faminta no sexo dela... Isabela gemeu alto, com vontade...o toque foi se tornando
mais intenso... os gemidos cada vez mais desesperados... Fernanda a penetrou
com os dedos, acompanhando o ritmo dos quadris... Isabela gemeu, dizendo que
ia gozar... Fernanda foi aumentando o ritmo até que Isabela gritou, o
corpo sacudido por um violento espasmo...
Demorou algum tempo para recuperar as forças
e abrir os olhos. Quando o fez, Fernanda estava deitada em cima dela, os corpos
colados... A olhando com um sorriso lindo, e acariciando o rosto corado de Isabela
ao dizer:
- Minha Bela...
Ficaram se olhando nos olhos por algum tempo.
Então Fernanda a beijou, um beijo preguiçoso, carinhoso, mas nem
por isso pouco intenso. Brincou:
- E então? Gostou do algo mais?
- Muito. Tanto que quero mais...
Fizeram amor a noite inteira, até ficarem
exaustas. Adormeceram uma nos braços da outra, sentindo uma grande sensação
de paz.
Capítulo 9: A manhã seguinte...
Foi Fernanda quem acordou primeiro. Ficou observando
a mulher adormecida ao seu lado. Isabela estava com um dos braços debaixo do travesseiro, onde os cabelos castanhos
claros muito lisos se espalhavam. O lençol tinha escorregado, deixando
a nudez dela à mostra. Os olhos de Fernanda passearam felizes pelas pernas
bem torneadas, pela barriga lisinha, e pararam na marquinha de biquíni
que destacava os seios bem feitos e firmes. Ela era linda, deliciosa, incrível...
Em tão pouco tempo já causava em Fernanda uma dorzinha no coração...
Foi quando os olhos que antes admiravam Isabela
se depararam com a foto em cima da mesinha de cabeceira, onde um par de olhos
muito azuis pareciam fitá-la. Luisa... aquela que um dia fora sua vida,
sua alma. Durante 3 anos as lembranças de Luisa tinham sido seu único
pensamento. Nunca a esqueceria, mas no fundo percebia que aquele era o momento
em que ela finalmente passara a fazer parte do passado.
O presente estava ali, na figura daquela linda
mulher adormecida. E se dependesse de Fernanda, um presente que ela gostaria
de transformar em futuro.
A primeira coisa que Isabela sentiu quando acordou
foi o braço de Fernanda envolvendo sua cintura. A primeira coisa que
viu foi a foto de uma mulher loira, de olhos muito azuis. Provavelmente a ex
dela, a que tinha morrido... A presença da foto ao lado da cama incomodou
Isabela, um misto de culpa e ciúme crescendo dentro dela...
- Bom dia! Dormiu bem?
- Muito...
Mas então Fernanda já a estava beijando
com paixão, e ela esqueceu de tudo que não fosse os lábios
macios, a língua ávida e a pele quente encostada na dela, se deliciando
com o poder de sedução daquela mulher.
- Com fome?
- Tô faminta!
- Então vamos tomar um banho e descer.
Mamãe deve estar morrendo de curiosidade...
- O que? Então sua mãe fez mesmo
de propósito?
- Digamos que ela gostou de você...E quis
dar um empurrãozinho...
- Me lembra de agradecer à ela...
- Só depois que eu agradecer!
Se beijaram novamente. As mãos de Fernanda
começaram a percorrer o corpo de Isabela, a boca beijou o pescoço,
já causando arrepios.
- Acho melhor parar com isso... Senão não
vamos descer tão cedo...
- Quem tá com pressa?
- É que...tô preocupada com o pessoal
lá do sítio...e, além disso eu... eu não...ah, nada
não, deixa pra lá...
- O que é? Fala...
- Não fica chateada, mas... não
me sinto bem com essa foto aí, me olhando...
- Desculpe...
- Não, eu é que peço desculpas...
Afinal, ela é sua mulher...
- Foi minha mulher. Ela... faleceu.
Fernanda entendia perfeitamente o desconforto
dela. Queria dizer para Isabela o quanto ela se tornara importante em tão
pouco tempo, importante o suficiente para ela resolver guardar aquela foto...
Mais ainda não sabia como. Resolveu encerrar o assunto levantando e puxando
Isabela para o chuveiro. Pegou o sabonete, e começou a ensaboá-la
carinhosamente, as mãos deslizando primeiro pelos braços, pelos ombros, pelas costas,
e depois se demorando um pouco mais nos seios que endureceram involuntariamente
com o toque.
Então as mãos dela tocaram o sexo de Isabela, abrindo, penetrando, fazendo-a
morder os lábios para sufocar um gemido...... Fernanda a encostou na
parede, mergulhou a boca nos lábios famintos, os dedos aumentando o ritmo
ao sentir as mãos dela encontrando seu sexo também... e entre
palavras sussurradas, suspiros e gemidos, os corações batendo
juntos, fazendo o ritmo das mãos se tornar cada vez mais e mais intenso,
as duas explodiram num único e violento orgasmo.
Capítulo 10: Uma grande decepção...
Tomaram café com dona Clara. No começo
Isabela ficou um pouco sem graça, porque a mãe de Fernanda não
parava de sorrir para ela.
Também, os olhares carinhosos que Fernanda
lhe lançava, o sorriso maroto que não abandonava seu rosto e a
preocupação que demonstrava em servir Isabela não deixariam dúvidas ao pior entendedor.
A senhora estava nitidamente satisfeita, mas para
alívio de Isabela, não fez nenhum comentário..
Quando acabaram, Fernanda se ofereceu para levar
Isabela.
- Mas e o meu cavalo?
- Levei ontem, já tá no sítio...
Dona Clara se despediu com as seguintes palavras:
- Pode deixar que assim que suas roupas estiverem
secas a Selma guarda no quarto da Nanda.
O rosto de Isabela estava muito corado, e Fernanda
a abraçou, rindo.
- Pelo visto mamãe quer que você
volte... Eu também...
Isabela estava usando uma camiseta e uma calça
jeans de Fernanda. Teve que dobrar as pernas da calça, por ser alguns centímetros
mais baixa, mas fora isso,
por Fernanda ser bastante esguia, até que tinham servido muito bem.
Isabela falou baixinho no ouvido dela:
- Vou voltar...
A ida para o sítio foi perfeita. Conversaram
amenidades, a mão de Isabela pousada intimamente na coxa de Fernanda,
que dirigia devagarzinho para prolongar os beijos, carinhos e olhares. Foi com
tristeza que se separaram.
- Pode ficar tranqüila porque o Roque já
está engessado, só não pode andar até amanhã
pro gesso secar. As meninas estão com dengue, mas já estão
medicadas. A Déia tá cuidando delas e sabe o que fazer. Vai ficar
aqui até elas ficarem curadas. Qualquer coisa me liga, tá? Eu
volto mais tarde.
- Vou estar consertando a cerca...
- Ah, isso é uma coisa que eu não
quero perder... (disse com um sorriso implicante)
- Fique sabendo que eu sou muito boa com as mãos...
- Isso eu sei muito bem, linda...
Se despediram com um beijo e Isabela ficou olhando
até a pick-up desaparecer na estrada.
Rosa e Janaína estavam com uma aparência
muito melhor, mas ainda pareciam bastante debilitadas. Déia era uma senhora
gordinha com as faces coradas, muito simpática.
- Pode deixar, dona Isabela, que elas tão
em muito boas mãos!
Roque, por outro lado, parecia muito nervoso,
quase desesperado. Isabela pensou que ele não devia estar acostumado
a ficar tanto tempo deitado...
- Dona Isabela, me desculpe, eu não pude
fazer nada...
- Que é isso, Roque... sei que não
foi sua culpa ter caído do telhado...
- Não fique com raiva de mim, por favor...
- Mas porque eu ficaria?
- Eu não tive como avisar a senhorita...
- Avisar? Avisar o que? (ela estava começando
a ficar preocupada)
- A cláusula do testamento... os 3 meses...
- Sim, o que é que tem? Fala logo, homem!
- A senhorita perdeu o sítio... perdeu...
eu não pude fazer nada... 3 meses sem se ausentar... (Roque nem precisava
concluir para que ela entendesse.) Ontem a senhorita dormiu fora de casa...
Isabela saiu furiosa, deixando o pobre homem falando
sozinho, se desculpando sem parar.
“Como podia ter sido tão estúpida?”
Então por isso a insistência de Fernanda
para que ela ficasse na fazenda... Ela tinha planejado tudo e Isabela caíra
fácil, muito fácil...
Mas então lembrou dos beijos famintos,
de todas as carícias e palavras que trocaram... Fernanda não podia
estar só fingindo e agindo de forma calculada...
Não... Isso não queria dizer nada...
Fernanda a fizera dormir na fazenda, porém Isabela é quem tinha
ido ao quarto dela seminua, quem tinha tomado a iniciativa de beijá-la...
E ela, lógico, tinha correspondido... Desde o primeiro encontro existia
uma química impressionante entre as duas, não tinha como negar...
Mas era uma coisa física, nada garantia que passasse de pura atração
sexual...
Isabela sentiu uma pontada no coração
quando lembrou da fotografia na cabeceira da cama... O retrato da mulher que
Fernanda realmente amava...
Tinha perdido o sítio por se deixar levar
pelo fascínio que Fernanda exercia... Por uma noite de amor totalmente
maravilhosa, intensa e apaixonante que aparentemente só para ela tinha
algum significado...
Isabela começou a chorar...
Capítulo 11: Amansando a fera...
Depois da perda dos pais, Isabela tinha se tornado
o tipo de pessoa que não gosta de chorar. Por isso quando chorava, sempre
se obrigava a substituir rapidamente a tristeza por um sentimento que lhe desse força. Naquele momento, o sentimento que encontrou
foi a raiva.
Sem pensar duas vezes, pegou o telefone e discou.
- Alô?
- Oi, quero falar com a Fernanda, por favor.
- Bela? Aconteceu alguma coisa?
- Sei que o sítio é importante pra
você, mas não precisava ser assim.
- Do que você tá falando?
- Você sabe muito bem!
- Não, eu juro que não tô
entendendo nada...
- Você me fez dormir aí porque sabia
que isso me faria perder o sítio... eu nunca vou te perdoar...
- Bela, me escuta: eu nunca ia fazer isso com
você!
- Só te peço pra me deixar ficar
aqui até o Roque e as meninas se recuperarem. E pra, por favor, você
não aparecer enquanto eu estiver aqui, não quero te ver nunca
mais!
E dizendo isso, desligou, sem dar chance de Fernanda
falar.
Do outro lado da linha, Fernanda se recuperou
rapidamente do choque. Não tinha a menor intenção de perder
Isabela. Ligou para o doutor Macedo, o único que poderia explicar a situação.
- Pelo testamento, se a srta Isabela passar uma
noite fora do sítio, este passa pra senhora. Pra isso é só
fazer um requerimento e lógico, provar que ela realmente se ausentou.
Mas porque a pergunta?
- Nada, só curiosidade... Muito obrigado!
Desligou bem mais tranqüila. O negócio
agora era amansar a fera.
Isabela martelava os pregos com vontade, descontando
todo o ódio que sentia. Quando ouviu o cavalo se aproximando sabia que
era Fernanda, e por isso mesmo nem sequer olhou para trás. Percebeu quando
ela desmontou, se aproximou e parou bem próxima, mas continuou com os
olhos fixos na cerca.
- Eu quero falar com você.
Como resposta só as marteladas. E pela
força com que Isabela usava o martelo, Fernanda podia calcular o quanto
ela estava brava.
- Bela, você precisa me ouvir...
- Já disse que não quero mais olhar
pra sua cara.
Fernanda esperou pacientemente até ela
pregar a última tábua. Porém paciência tinha um limite,
e a dela acabou quando Isabela lhe deu as costas e caminhou para o próprio
cavalo.
- Escuta aqui... (disse, puxando-a pelo braço.)
Isabela se virou para ela, os olhos faiscando.
Não de desejo, como Fernanda gostaria, mas com uma profunda raiva.
- O sítio é seu, você venceu!
O que mais você quer?
- Eu quero você!
O sorriso que ela deu, um misto de ironia e desprezo,
fez Fernanda recuar.
- Pois isso você não vai ter.
Montou no cavalo e saiu a galope. Fernanda ficou
ali parada, incrédula... Não tinha nem conseguido se explicar...
Isabela se distanciou o mais rápido que
pode... Quando Fernanda a puxara pelo braço e os olhos se cruzaram tinha
percebido que a única chance que tinha de resistir era não deixando
que ela se aproximasse mais...
Chegando no sítio, Isabela se trancou no
quarto sem jantar. Ficou andando de um lado para o outro, tentando cultivar
a raiva por ter sido usada e enganada, mas não conseguia parar de pensar
no gosto, no cheiro, nos beijos de Fernanda. Se atirou na cama esmurrando o travesseiro,
se odiando por desejar tanto aquela mulher.
Acabou adormecendo, e sonhando com ela. A mão
de Fernanda acariciava seu rosto, a boca sussurrava em seu ouvido e depois colava
na dela, o sonho era tão real que quase podia sentir o gosto daqueles
lábios, o calor do corpo em cima do seu...
De repente, Isabela percebeu que estava acordada.
Abriu os olhos e deu de cara com Fernanda em cima dela.
- Como você entrou aqui?
- Pulei a janela...
Isabela mal conseguia respirar. Não apenas
por Fernanda estar tão próxima, mas pelas milhares de lembranças
e sensações que o simples toque daquela mulher despertavam.
- Me solta!
- Não...
Ela desceu a boca de forma lenta, torturante,
sobre a de Isabela. Mas não a beijou. Ficou só roçando
os lábios nos dela, fazendo Isabela fraquejar. Juntando todas as forças
que tinha, conseguiu protestar com uma voz que falhava, vacilante:
- Não faz assim... eu...eu não quero...
- Quer sim...
Foi um beijo longo, possessivo, inebriante...
Isabela correspondeu, sentindo uma deliciosa umidade entre as pernas... Quase
se rendeu, mas era dona de uma enorme força de vontade. Empurrou Fernanda
com força, cortando brutalmente o contato dos lábios:
- Eu nunca vou te perdoar.
A língua de Fernanda explorou lentamente
o pescoço de Isabela, antes de sussurrar no ouvido dela:
- Vai se me escutar.
Os lábios de Fernanda brincavam mordiscando
o lóbulo da orelha dela... Resistir às carícias era uma
verdadeira tortura e deixava a voz de Isabela ofegante:
- Não assim, não desse jeito...
A voz de Fernanda também estava rouca e
trêmula quando disse:
- Tudo bem, eu vou te soltar, mas promete que
me deixa falar?
- Prometo.
Devagar, hesitante em terminar as carícias
e se afastar dela, Fernanda se levantou, esperando Isabela sentar na cama.
- Pode falar.
- Bela, eu juro que só queria ajudar...a
minha intenção não é e nunca foi tirar o sítio
de você... ontem à noite foi simplesmente maravilhoso...
- É sobre isso que você quer falar?
Sobre o que aconteceu entre nós?
- Também, mas primeiro quero que você
saiba que o sítio é seu. Hoje liguei pro doutor Macedo e esclareci
tudo...
- Ah, sei... Você quer que eu acredite que
não tem nenhuma intenção de ficar com o sítio?
- Claro que não! Pelo menos não
desse jeito. Se um dia você quiser me vender, aí já é
outra história...
- Pois fique sabendo que eu nunca, jamais venderia
pra você.
Nesse momento ouviram batidas tímidas na
porta.
- Dona Isabela, tudo bem aí?
Aproveitando a deixa, Isabela abriu a porta dando
de cara com Déia, Rosa e Janaína paradas lá fora de camisola,
com os olhos muito arregalados.
- Tudo bem, não precisam se preocupar.
Desculpa o barulho... A dona Fernanda já tá indo embora...
Isabela ficou segurando a porta aberta, deixando
bem claro que a conversa
estava encerrada.
- Se você quiser saber a verdade liga pro
doutor Macedo. – e Fernanda saiu sem dizer mais nada.
Capítulo 12: Algumas surpresas...
Alguns dias se passaram sem que Isabela tivesse
notícias de Fernanda. Trabalhava o dia inteiro, para manter a mente ocupada,
mas nada adiantava. Volta e meia quase não conseguia conter a vontade
de deixar o orgulho de lado e correr até a fazenda.
Num desses dias, quando voltou para casa na hora
do almoço, recebeu um telefonema do doutor Macedo.
Mal ouviu o começo da conversa, estava
ansiosa demais. Quando o advogado chegou aos finalmentes, o coração
saltava no peito.
- Como já sabe, pelo testamento de sua
tia, a srta tinha que ficar 3 meses no sítio ininterruptamente... no
entanto a sra Fernanda fez o requerimento da propriedade e apresentou provas
de que a srta se ausentou por uma noite ... legalmente, o sítio passou
a pertencer a ela... agora o acontece é que...
De olhos fechados, Isabela afastou o fone do ouvido.
Então Fernanda estava mentindo, afinal. Por isso nunca mais a tinha procurado.
Sem querer ouvir mais nada, desligou o telefone
e o deixou fora do gancho.
Quando se virou, Isabela deu de cara com... Tia
Carmen!
A tia agarrou a sobrinha, apertando-a num abraço
cheio de saudade.
- Belinha, minha querida!
- Titia!??? Mas o que?... como?...
- Você tá tão pálida!...
Tá se sentindo bem?
Isabela não podia contar que tinha perdido
o sítio. Não naquele momento. Para tranqüilizar a tia, mentiu:
- Tô ótima, titia! Você veio
sozinha?
Foi quando taparam seus olhos por trás
e uma vozinha safada disse em seu ouvido:
- Adivinha quem é?
- Cris???
- Euzinha, baby!
- O que você tá fazendo aqui?
Ela riu, fazendo cara de desentendida.
- Puxa, Isa, nem parece que você ficou feliz
em me ver...
- Claro que ela ficou feliz, né, Belinha?
É que ela está surpresa... Sua amiga foi muito boazinha comigo,
sempre ligava lá pra casa. Foi dela a idéia de eu vir te visitar,
e olha só que menina gentil, veio só pra me fazer companhia...
- É, titia, a Cris é a gentileza
em pessoa...
Instalou as duas nos quartos de hóspede
e foram almoçar. Durante o almoço, para desespero de Isabela,
Cris ficava esfregando a perna na dela debaixo da mesa.
Quando acabaram ficou insistindo que Isabela desse
uma volta com elas para mostrar
o sítio. Como Cris espertamente tinha calculado, tia Carmen recusou o
passeio, alegando estar cansada.
- Mas vão vocês duas, meninas.
Não tendo remédio, Isabela saiu
com Cris. Assim que se afastaram um pouco da casa fez a pergunta que não
queria calar:
- Posso saber o que você veio fazer aqui?
- Senti falta de você, meu amor... Quase
morri de tanta saudade...
E dizendo isso já foi logo se pendurando
no pescoço de Isabela, que imediatamente se soltou. Se aquilo era uma
piada do destino, não estava achando a menor graça.
- Parece que você tá se esquecendo
de um pequeno detalhe: a senhora terminou comigo, não somos mais namoradas!
- Ai, amor, para com isso... vai dizer que não
me ama mais?
- Cris, acabou...
Cris deu uma gargalhada.
- Não acredito em você.
- Por incrível que pareça, é
a pura verdade.
- Isso é o que nós vamos ver! –
disse, avançando determinada.
O que Cris estava pensando em fazer Isabela nunca
saberia. Porque nesse exato momento ela foi salva pelo gongo, ou melhor, por
tia Carmen gritando:
- Belinha! Belinha!
- Já vou, titia!
E voltou para casa quase correndo, com uma Cris
irritantemente persistente em seu encalço.
Capítulo 13: Um Jantar regado a vinho...
Tia Carmen estava muito empolgada.
- O que o telefone tava fazendo fora do gancho?
Foi só colocar de volta e ... adivinha, Belinha! Fomos convidadas pra
um jantar!
- Jantar? Que jantar, titia?
- Aniversário da Clara, dona da fazenda
vizinha. E nem adianta fazer essa cara... já confirmei que vamos, ela
vai mandar um carro buscar a gente. Além disso, a Clara disse que faz
questão da sua presença! Aliás, elogiou muito você.
- Mas titia...
- Nem mais nem menos, dona Isabela!
A última coisa que queria era pisar de
novo naquela fazenda. Mas quando a tia dizia o nome dela inteiro, Isabela sabia
que não tinha jeito. Assim, se viu obrigada a ir ao tal jantar.
Resolveu não deixar barato. Não
ia dar o gostinho de aparecer abatida e derrotada. Colocou um vestido preto
que a deixava muito elegante, caprichou na maquiagem, prendeu os cabelos num
penteado sexy e se olhou no espelho aprovando.
Quando chegou na sala o olhar empolgado de Cris
acabou de confirmar que tinha conseguido o resultado desejado.
- Nossa, Isa... você tá um tesão!
Tá vestida para matar!...
Dona Clara recebeu as três na porta com
um enorme sorriso.
- Que bom que vocês vieram! Isabela, minha
querida, como você tá linda!
- Obrigado, dona Clara. Parabéns!
- Obrigado, querida...
- Essa é minha tia Carmen...
- Já nos falamos por telefone... Prazer
Carmen!
- O prazer é meu, Clara! Feliz Aniversário!
Essa aqui é a Cris, uma amiga da Belinha que veio comigo lá do
Rio de Janeiro.
Isabela já não estava ouvindo a
conversa. Aquele hall trazia recordações que a torturavam... Felizmente
Dona Clara logo as conduziu para uma grande sala onde outros convidados bebiam
e conversavam, e desapareceu no meio deles levando tia Carmen.
Os olhos de Isabela percorreram a sala, procurando
Fernanda. E então uma mão quente pousou íntima em seu pescoço,
causando um arrepio.
- Nossa, Bela, você tá maravilhosa...
Isabela se virou para ela e... Se tinha se impressionado
com Fernanda da primeira vez que a viu, dessa vez então... Ela estava
incrivelmente linda maquiada, usando um vestido vinho que deixava as costas
totalmente à mostra e fazia os cabelos parecerem fogo.
Respirou fundo, se forçou a pensar no sítio,
no retrato da ex na mesinha de cabeceira, qualquer coisa que a fizesse desejar
um pouco menos aquela mulher...
- Não vai me apresentar, Isa?
Se olhar matasse, Fernanda tinha certeza que se
dependesse da loirinha aguada do lado de Isabela cairia morta naquele exato
momento.
- Essa é Cris, minha...
- Namorada. – Cris completou rápida como
um raio.
- Engraçado, a Bela nunca me disse que
tinha namorada... – disse Fernanda olhando para Cris como se ela fosse um nada.
Para profundo alívio de Isabela, antes
que Cris pudesse dar uma resposta, dona Clara chamou todos para a sala de jantar.
Todos se sentaram numa grande mesa, dona Clara
numa cabeceira, com Tia Carmen
e Cris uma de cada lado.
Para profundo desespero de Isabela, tudo tinha
sido muito bem combinado, porque o lugar dela era ao lado de Fernanda na cabeceira
oposta da mesa.
- Bela, nós precisamos conversar...
- Não tenho nada pra conversar com você.
- Porque você desligou na cara do doutor
Macedo? Nem ouviu o que ele ia te falar...
- Já disse não quero falar com você!
Isabela esvaziou de um gole só o copo de
vinho à sua frente. No mesmo instante um dos garçons a serviu
novamente. Ela tornou a esvaziar o copo, que mais uma vez, voltou a se encher.
Fernanda a olhou preocupada:
- Ei, devagar!
Isabela sorriu e... voltou a beber. O garçom
continuava a encher o copo... Por sorte ninguém estava prestando atenção
nela... Fernanda segurou a mão de Isabela:
- Não faz isso...
- Porque não? Eu quero brindar! Um brinde
à você, Fernanda, e ao seu sítio!
- Bela, depois a gente conversa sobre isso, mas
por favor, para de beber...
- Mas eu quero beber... quero beber muito! Motivos
não faltam, não é mesmo?...
Fernanda perdeu a conta de quantas vezes Isabela
esvaziou o copo. Quando chegou o bolo e cantaram parabéns, ela já
estava visível e, diga-se de passagem, audivelmente alterada.
Depois de um tempo que pareceu interminável,
Fernanda fez um sinal para a mãe, e dona Clara pegou tia Carmen e Cris
pelo braço e as levou para a outra sala com o resto dos convidados. Quando
olhou novamente pra Isabela, ela estava com a cabeça deitada sobre os
braços em cima da mesa.
- Bela, tá se sentindo bem?
Ao invés de responder, Isabela se levantou,
derrubando a cadeira. Estava muito
tonta, e quase caiu, mas Fernanda a segurou, praticamente carregando-a para
fora da casa. A voz de Isabela soou pastosa, mas muito doce, ao dizer:
- Pra onde você tá me levando, Fê?
- Pra tomar um ar, minha maluquinha...
Pararam numa parte da fazenda que Isabela não
conhecia. A piscina toda iluminada poderia tranqüilamente ter saído de um filme.
- Como você tá?
- Apaixonada... louca por você...
Beijou Fernanda com paixão, as mãos tentando tocar a pele por
debaixo do vestido dela.
- Bela, para com isso... você bebeu demais
e não sabe o que tá fazendo...
Isabela deu um sorriso lindo, daqueles que faziam
o coração de Fernanda bater mais forte...
- Sei muito bem...
E beijava Fernanda no pescoço, na boca,
no colo, as mãos acariciando o corpo dela incansavelmente enquanto murmurava
enrolando um pouco as palavras:
- Você é tão linda, Fê...
tão gostosa... não consigo te tirar da cabeça... morro
de tesão por você... quero que você seja minha mulher...
- Quero que você me diga tudo isso quando
estiver sóbria...
As palavras de Isabela, seus toques, seus beijos
famintos, estavam enlouquecendo Fernanda... Mas não queria arriscar,
queria ter certeza que no dia seguinte Isabela não se arrependeria, nem
a acusaria de ter se aproveitado dela.
- Tudo bem. Mas só depois que você
esfriar a cabeça!
E dizendo isso, se jogou dentro da piscina puxando
Isabela. O choque da água fria melhorou bastante a bebedeira dela. Ela
tossiu, cuspiu um pouco de água, tirou os cabelos do rosto e disse rindo:
- Eu não acredito que você fez isso!
Tô toda molhada!
Fernanda passou os braços ao redor do pescoço
de Isabela e sussurrou baixinho no ouvido dela:
- Eu também...
Os braços de Isabela envolveram a cintura
de Fernanda... Se olharam nos olhos, se fitando ardentemente... As bocas foram
se aproximando devagar... Isabela fechou os olhos, antecipando o beijo... Foi
então que ouviram uma voz furiosa vinda da beira da piscina:
- Isa, o que tá acontecendo aqui?
Cris fulminava Fernanda com os olhos.
- Bela, responde sua namoradinha...
- Ela é minha ex!
Então Tia Carmen e Dona Clara apareceram,
e elas acabaram contando uma história meio sem pé nem cabeça
de terem escorregado e caído na piscina. Dona Clara quase não
conseguiu conter o riso. Cris estava furiosa e praticamente arrancou Isabela
de dentro d’água. Tia Carmen apenas disse:
- Todo mundo já foi, acho melhor nós
irmos também...
Cris foi levando Isabela, que ainda tropeçava
bastante. Tia Carmen se despediu e saiu acompanhada por dona Clara.
Fernanda se despiu toda, e começou a nadar
nua na piscina, o coração desejando não estar ali sozinha...
“A bebida entra e a verdade sai”... não
era assim que o povo dizia? Lembrou tudo que Isabela tinha dito e sorriu, confiante
de que no dia seguinte ficaria tudo resolvido...
Capítulo 14: O Tão Esperado Amanhecer...
Chegando no sítio, tia Carmen deu boa noite
rápido e foi dormir. Era a deixa que Cris esperava. Sentou no sofá,
fazendo a carinha sexy que antes Isabela tanto gostava...
- Isa, vem cá... senta aqui comigo...
Mas Isabela nem prestou atenção,
aliás, sequer a olhou enquanto dizia:
- Tô morta de sono, vou dormir... Boa noite,
Cris.
Cris a alcançou no corredor, rápida
como um raio. Passou os braços em volta do pescoço dela, tentando
beijá-la, mas Isabela a empurrou, irritada.
- Olha só, Cris, eu já disse que
acabou.
- Eu não vou desistir de você assim
tão fácil!
A cabeça de Isabela ainda estava zonza,
o que dificultava um pouco a conversa. Precisava explicar a Cris que não
queria nada com ela, da forma menos indelicada possível... A situação
não era nada agradável...
- Eu sinto muito, mas eu não quero mais...
entenda... o melhor que você tem a fazer é voltar pro Rio amanhã.
- Ai, Isa, não faz assim... Me dá
uma chance... eu amo você!
Bom, agora não tinha mais jeito, não
tinha uma forma fácil de fazer Cris entender, porque ela simplesmente
não se tocava. Não teve opção senão dizer
a verdade, esperando que depois disso ela a deixasse em paz:
- Eu amo a Fernanda.
Naquele momento, quando disse aquelas palavras,
foi como se finalmente aceitasse a verdade. Não se importava mais com
o sítio, com o retrato da ex-mulher... Nada disso importava. E de repente
tudo pareceu muito simples e fácil.
Foi dormir decidida a procurar Fernanda no dia
seguinte e fazer as pazes...
Fernanda rolou na cama pela milionésima
vez aquela noite. Olhou o relógio que ainda marcava 5 horas da manhã.
Estava nervosa, ansiosa... não tinha conseguido dormir nada. Além
disso, tinha começado a ter idéias horríveis de tão
desagradáveis.
“O que Cris e Isabela estariam fazendo naquele
momento? A loirinha parecia esperta o bastante para se aproveitar da bebedeira
de Bela e...”
O simples pensamento das duas juntas a fazia sentir um nó por dentro...
Procurou se concentrar no que Isabela tinha dito
na piscina... A forma como ela a tinha acariciado e beijado... Fernanda estava
perdidamente apaixonada por ela, mal podia esperar que amanhecesse...
Quando amanhecesse, contaria toda a verdade. A
verdade que Isabela já saberia se tivesse escutado doutor Macedo até
o fim: que o sítio agora era dela, não precisava mais esperar
pelos 3 meses do testamento, porque Fernanda tinha requerido a propriedade apenas para doar o sítio
para Isabela...
Olhou para o relógio novamente. Já
eram 5 e meia da manhã. Estava quase amanhecendo. Levantou-se de um salto
da cama e começou a se vestir. Não queria esperar nem mais um
momento.
Cris virou para o outro lado na cama. Tinha passado
a noite em claro, remoendo o que Isabela lhe dissera. Sempre tinham se dado
muito bem na cama, e se ao menos conseguisse pegar Isabela de jeito, talvez
a fizesse mudar de idéia e ficar com ela...
E por essas coisas da vida que cada um chama de
um nome: coincidência, carma, sina, destino ou acaso, no exato momento
em que Fernanda saiu da fazenda à cavalo, Cris levantou da cama e abriu
a porta do quarto de Isabela, resolvida a dar sua última cartada.
Isabela dormia profundamente, nua debaixo do lençol.
As roupas molhadas estavam emboladas no chão, provavelmente ela tinha
se jogado na cama depois de tirá-las.
Cris tirou a camisola e se deitou na cama, com
cuidado para que Isabela não acordasse, e a abraçou por trás,
colando o corpo no dela. Nesse exato momento ouviu o barulho de um cavalo se
aproximando. Se fosse quem estava pensando, não poderia ser mais perfeito...
O coração de Fernanda batia como
louco no peito. Nem prestou atenção no magnífico sol vermelho
amanhecendo no horizonte. Amarrou o cavalo de qualquer jeito e quase correu
para a janela de Isabela.
O que viu quando olhou para dentro do quarto em
princípio a deixou estática. Isabela estava com a loirinha na
cama, as duas nuas e abraçadas.
Cris estava de olhos abertos com um sorriso vitorioso e cínico.
Isabela acordou de repente, do nada, e deu de
cara com Fernanda na janela, a olhando. O olhar de Fernanda, um misto de raiva,
dor e... decepção... cortaram o coração de Isabela.
Foi quando percebeu que alguém a abraçava e viu Cris deitada ao
seu lado. Imediatamente se soltou, mas Fernanda já tinha desaparecido.
Correu até a janela, tentou gritar por ela mas era tarde demais, só ouviu um galope se distanciando rápido.
Quando se virou para Cris cerrou os punhos com
força. Naquele momento sentia que poderia matá-la...
- Quero que você faça suas malas
e saia daqui agora!
Cris não era burra, pelo contrário.
Viu o brilho quase assassino nos olhos de Isabela, o ódio profundo na
voz dela e obedeceu sem discutir.
Isabela sentou na cama, passou a mão no
rosto, desesperada, sem saber o que fazer... Os olhos de Fernanda... O jeito
que ela a tinha olhado... Ela estava chorando... Nunca ia acreditar que não
tinha dormido com Cris... Tinha perdido a mulher que amava... Isabela sentiu
uma dor incrível no peito... a dor profunda que se sente quando se tem a certeza de que se perdeu
a felicidade para sempre...
Continua...
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