Debaixo dos Hábitos do Amor
Soninha
2008
Capítulo
15:
Era
tudo o que não gostaria de ouvir. Não sei se continuou falando,
só sei que meus ouvidos já não ouviam mais. Tudo o que
temi estava acontecendo naquele instante. Percebia o movimento dos lábios
dela, e os instantes que foram segundos, para mim eram como se fossem eternos,
foi que me dei conta que ela havia terminado de falar. Continha a muito custo
as lágrimas que queriam cair. Precisava sair dali imediatamente, pois
tive a nítida sensação que estava preste a desmaiar. Só
consegui dizer, em um esforço tremendo por segurar o nó que havia
se formado em minha garganta:
_Tudo
bem Mayla, tudo bem, eu já entendi.
O
chão havia desaparecido de meus pés. Senti o ar faltando em meus
pulmões. Um aperto no coração, o gosto de sangue na boca,
como se tudo dentro de mim houvesse sido estraçalhado. Em um esforço
sobre-humano, levantei, sai da sala, e procurei uma outra sala onde pudesse
me esconder, uma vez que as lágrimas corriam livremente, sem que pudesse
controlá-las.
O
choro era constante, os soluços a certeza de que algo dentro do meu coração
se partira. Uma dor lancinante e alucinante sobrepujou-me. Esperei que todas
as freiras fossem para o almoço, de forma a não correr risco de
encontrar com alguma pelos corredores do hospital. Não poderiam me ver
naquele estado lastimável, pois iriam pedir explicações
que não poderia dar. A seguir, chamei uma das auxiliares de enfermagem,
discreta e da minha inteira confiança, e pedi que me ajudasse a passar
para o laboratório, sem ser vista. Mesmo preocupada com meu estado, me
ajudou.
_Por
favor Teresa, não diga a ninguém o que acabou de presenciar, está
bem?!?
_Tudo
bem, Irmã Angélica. Não sei o que aconteceu pra te deixar
assim, mas fica tranqüila, sabe que pode confiar em mim. Qualquer coisa,
é só chamar.
_Obrigada
Teresa, muito obrigada.
_Sei
que você e Mayla são muito amigas, quer que eu a chame para conversarem?!?
_Não,
por favor. Não precisa Teresa, vai ficar tudo bem, só preciso
ficar sozinha um tempo. Obrigada.
_Certo,
qualquer coisa, sabe onde me encontrar.
Assim
que Teresa saiu, tranquei minha porta, e de lá não saí.
Liguei para uma das freiras, Irmã Rose, minha amiga-irmã, e pedi
que avisasse sobre minha ausência, pois não tinha condições
de ir tocar na Missa, e nem jantar com a comunidade.
_Angélica,
o que aconteceu?!?
_Nada
Rose.
_Como
nada Angélica?!? Você não aparece no lanche das 09:00, no
almoço, no lanche da tarde, não virá jantar, está
com voz de choro... a quem pensa que pode enganar?!? Sou sua amiga, e te conheço
muito bem.
_Ta
certo Rose, não estou bem mesmo, mas vou ficar, com certeza. Preciso
ficar. Por favor, avise que não posso estar presente, que as coisas apertaram
aqui, por isso não irei aos compromissos com a comunidade.
Rose
disse que avisaria sim, porém mais tarde iria levar um lanche, e então
a gente conversaria, mas como explicar a ela, a verdadeira razão da minha
dor?!? Não tinha como. Ao mesmo tempo em que precisava falar, não
podia.
Como
disse, Rose apareceu com o lanche escondido, e me fez comer. Sentamos, e seus
olhos não calavam sua preocupação ao ver meu estado emocional.
Eu que sempre fora forte, decidida, e que tão raramente demonstrava qualquer
resquício de tristeza, naquele momento, estava arrasada. Para ela foi
um choque.
Expliquei,
justifiquei, e não a convenci, mas aceitou, respeitando os limites que
impus.
Fui
para a clausura bem tarde, quando já tinha certeza absoluta que não
encontraria nenhuma das freiras pelos corredores da casa.
Subi
as escadas às pressas, entrei no meu quarto, tranquei a porta, troquei
de roupa, arrumei a cama, e mergulhei naquela solidão noturna. As lágrimas
teimosas, acompanharam-me noite adentro. Não vi quando adormeci, se é
que dormi.
A
vida naquela manhã estava vazia, sem graça. Respirar era quase
impossível, sentia uma ânsia terrível. O coração
massacrado, sangrando.
As
palavras desapareceram, morreram, apagaram-se de minha mente. Nada mais importava.
Não tinha fome. A única coisa que queria era ficar sozinha.
O
café parecia não ter mais fim. Fui para meu quarto. Precisava
de forças para trabalhar, para sair daquele cantinho tão meu.
Deitei-me na cama, olhos perdidos no nada do teto. Ouço as vozes dos
funcionários que iniciariam mais um dia de trabalho, dentre aquele burburinho,
distingo os passos dela. O coração bate forte, mas com uma dor
infinita. Não consigo conter o impulso. Vou até a janela fechada.
Abro a persiana e a vejo, linda como sempre, mas agora não mais importava.
Volto para cama, e as lágrimas insistem em não me deixar, querem
ser minha companhia, mas não posso permitir. Lavo o rosto, e uma toalha
trata de extirpar de minha face, as marcas deixadas pelas lagrimas em contato
com a água...
Num
esforço, esboço um sorriso. Ordeno minhas pernas, pois lutam contra
minha vontade. Chego ao local de trabalho...
_Bom
dia, Luciana!
_Bom
dia, Irmã Angélica.
_Como
estão as coisas aqui na secretaria?!?
_Está
tudo
_Chegaram
todas as meninas?!?
_Sim,
Irmã. Todas chegaram e já saíram pra realizar as coletas
solicitadas...
_Certo.
Vou estar na área técnica. Qualquer coisa me chame, está
bem?!?
_Tudo
bem, Irmã Angélica, pode ficar tranqüila.
Entrei
na área técnica rapidamente, pois não queria correr o risco
de encontrar Mayla. Ela decidiu o que era melhor, sem saber qual seria minha
opinião. Só me restava respeitar, ainda que não conseguisse
entender.
Precisava
de solidão. Chamei a bioquímica.
_Juliene,
por favor, preciso falar um instante com você.
Não
demorou, Juliene bate à minha porta.
_Com
licença Irmã Angélica.
_Entre Juliene, por favor.
_Você
quer falar comigo?!? o que houve?!? Você está com uma fisionomia
péssima.
_Hoje
não estou muito bem, problemas da vida. Te chamei porque preciso de sua
ajuda. Hoje não tenho condições de fazer nada por aqui,
então, estou entregando em suas mãos a responsabilidade sobre
o setor. Olhe tudo pra mim, por favor. Vou ficar aqui na sala, e se acontecer
algo que precise da minha intervenção, então você
vem aqui, está bem?!?
_Tudo
bem Irmã Angélica, mas quero que saiba que sou sua amiga, antes
de ser funcionária, e se precisar de mim, é só falar, ok.
_Obrigada
Juliene, sei que posso contar com você. Obrigada por seu carinho e atenção.
Se precisar de algo, não terei receio em recorrer a você.
Juliene
deixou minha sala, fechou a porta atrás de si, e naquela sala, as lagrimas
rolaram sem receio algum.
Capítulo
16:
Assim,
envolta numa nevoa de tristeza e dor, os dias se passaram arrastados. 10 dias....
15 dias.... 1 mês...
Evitava
todos os caminhos que pudessem concorrer para o encontro com Mayla. Fugia desse
contato, embora, algumas vezes, a olhasse de longe, sem que percebesse.
Depois
de um tempo, completamente afastadas, nos encontramos por acaso.
_Oi
Angélica!
_Olá
Mayla. Tudo bem com você?!?
_Está
tudo bem, e com você?!?
_Está
tudo ótimo.
_Que
bom. Mas sinto que você se afastou de mim Angélica. Não
queria que ficasse sem falar comigo. Sinto sua falta.
Enquanto
a ouvia, senti vontade de gritar que a amava mais que tudo na vida, que morreria
por ela se preciso fosse, que sem ela o ar me faltava. Era o brilho da minha
existência.
Como
são as coisas, não é mesmo?!? Pouco importava o quanto
fora difícil ter ouvido tudo o que ouvi dela, e ainda esperava que eu
agisse normalmente, como se nada tivesse acontecido.
Mas
ainda era freira, e tinha que fazer jus ao habito que carregava em meu corpo,
ainda que os hábitos do coração não mais correspondessem
aquele estilo de vida. Não é assim que pensavam e nos ensinavam?!?
Freira é alguém que está preparada para sofrer horrores,
e ainda assim, sorrir. Em nome da �caridade�, deve ultrapassar, custe o que
custar, seus próprios limites, enfim, deve se �sacrificar�.
_Impressão
sua Mayla. Não me afastei, apenas estou com acúmulo de serviço,
mas fica tranqüila, vou tentar remediar minha indelicadeza.
_Você
é muito importante pra mim, Angélica, acredite.
_Claro.
Acredito sim.
Estava
a ponto de desabar na frente dela, mas não podia permitir. Ela não
veria minha dor, minhas lágrimas.
_Desculpa
Mayla, preciso ir, a gente se fala qualquer hora dessa. Tchau.
_Tudo
bem então. Tchau.
Saí
apressada, e busquei o refúgio do meu quarto. Chorei... chorei... apenas
isso.
O
grau de tristeza que se abateu sobre mim foi tão intenso, que entrei
em depressão, e foram muitas as conseqüências deste estado
torpe, febril, doentio, em que minha alma mergulhou.
Conheci
as duas versões, que tão bem retratadas foram numa obra bela e
singular, o Paraíso e o Inferno.
Rompi
barreiras, superei obstáculos, mas não foi suficiente... nem mesmo
consegui entender o que faltou, onde errei, o que deixei de fazer ou deixei
de dizer. Sentia que não havia sido mulher suficiente para ela. A pior
das criaturas, sentiria-se o mais elevado dos seres, frente as minhas condições
naquele momento...
As
longas madrugadas se tornaram testemunhas de meu pranto contido aos olhos das
pessoas, mas que no silencio do meu quarto, brotavam sem qualquer pudor ou medo...
Compreendi
o que é sofrer por amor. Eu que não acreditava nas histórias
de amor à primeira vista, e muito menos nas loucuras que as pessoas faziam,
dizendo ser em nome do amor, agora sentia e queria tudo o que antes não
ousava crer e desejar.
Queria
o amor de Mayla, o aconchego de seus braços, seu sorriso, seu olhar,
o toque, as carícias, lábios, mãos, seu corpo inteiro,
e no momento em que nos amassemos, sussurrar meu amor repetidas vezes em seu
ouvido. Mas já não era mais possível. Então, preferia
morrer, a viver sem ela. Como conseguiria sobreviver sem o grande amor da minha
vida?!? Porem ninguém soube responder a esse meu questionamento.
Capítulo
17:
Prestes
a sair do convento, conversei com um amigo Padre, que é formado
Não
tive coragem de falar diretamente a ele, preferi escrever uma carta, e depois
sim, a gente se encontrou e pude receber um conforto para minha dor.
Vou
transcrever parte do conteúdo desta carta, que foi bem mais extensa,
mas aqui está o principal.
Caro Amigo,
Por
tantas vezes, sentamos, conversamos, rimos de nossas histórias e de quase
tudo à nossa volta. Agradeço por isso, pois tenho hoje, a lembrança
do que é sorrir verdadeiramente.
Estou
fazendo uso deste meio de comunicação, por vergonha, medo de te
encarar frente a frente, uma vez que as revelações que farei,
podem �manchar� a imagem que podes ter a meu respeito, mas não posso
mais carregar tanta dor sozinha, preciso de ajuda, senão vou enlouquecer.
Você,
meu amigo, conhece meu coração, as lutas interiores pelas quais
passei e ainda passo. Sabe do desejo puro e sincero que motivou meu retorno
ao convento, mas creio ter perdido a direção da minha vida, e
os caminhos que palmilhei, rechaçaram todas as convicções
sobre a moral religiosa, que por anos a fio me foram inculcadas, mas ainda preservo
minha fé. Esta é minha única certeza.
Não
se sinta traído, por favor, por não ter dito nada antes. Minhas
revelações hoje, antes estavam ocultas até mesmo para mim.
Mas escolhi você, para abrir de vez meu coração, e esperar
que tente me compreender de alguma forma, e quem sabe, me oferecer seu ombro
amigo e irmão.
Bom,
nunca lhe disse sobre minha extremada admiração pelo ser feminino.
Desde menina, gostava de apreciar as mulheres que passavam por mim, seja na
rua simplesmente, ou que mantinham certa convivência. Durante a adolescência
e juventude também foi assim. Ocorria porém, algumas manifestações
em meu corpo que, por inocência, ingenuidade, e desinformação,
pensava ser normal, e que tudo não passava de admiração,
de contemplação, mas confesso que algumas vezes, era quase impossível
desviar meu olhar dos seios, do gingado dos quadris, mas minha fonte de encanto
sempre foi o rosto. Ficava, minto, fico sempre abestalhada diante de um rosto
bonito.
Desculpa
as expressões que utilizo, mas quero ser leal e sincera em cada palavra.
Por
necessidade, precisei fazer uma atualização em meus parcos conhecimentos
sobre o corpo humano... e descobri que na verdade, o que sempre senti foi atração
física, por determinadas mulheres, e tal constatação, como
você bem me conhece, arrepiou meus cabelos, e a atitude mais sensata era
fugir, fugir e fugir. Aplicando o tão famoso �espírito de mortificação
e sacrifício�. Consegui cumprir esse intento, até o dia em que
meus olhos viram uma mulher, que não sei explicar, me fez perder completamente
a noção de tempo, espaço. Os pensamentos?!?... bom, esses,
desapareceram. A boca?!? Não sei dizer ao certo, mas com certeza, o queixo
havia caído.
Ela
é a causa da minha alegria e da minha tristeza, do meu amor, e da minha
dor.
Meu
Amigo, por ela eu seria capaz de morrer. Amor à primeira vista!!!! Pode?!?
Acho que paguei língua, não é assim que dizem, quando abrimos
a boca pra afirmar aos quatro cantos, que isso �nunca� acontecerá comigo...
mas aconteceu, e não pude fazer nada.
Bem
conheces a minha retidão de caráter, e não foi fácil
superar todos os questionamentos internos, e mesmo confrontar verdades que vivi,
antes de descobrir o amor por Mayla. Esse é o nome dela.
Tenho
a sensação de que amei demais, abri a guarda sem pensar duas vezes,
e hoje estou aqui, com o coração em frangalhos, sem rumo, sem
direção.
Optei
pela carta em primeira mão, por vergonha, receio de te encarar frente
a frente, e ver a reprovação escrita em seus olhos. E que se por
ventura, você nem quiser mais olhar na minha cara, sei que vai doer, mas
vou entender. Preciso conversar com alguém, e pensei em você...
só queria adiantar o assunto, e as possíveis reações
de sua parte.
És
meu amigo, mas também és Padre, e sei bem como a Igreja encara
um amor assim.
Não
ficarei chateada caso não queira falar comigo... ao contrário,
serei capaz de entender.
Um
abraço amigo e fraterno,
Irmã
Angélica.
Enviei
a carta por uma amiga, o que adiantou em relação ao serviço
de correio. No dia seguinte, meu amigo ligou e pediu para me ver em seu consultório,
pois lá teríamos a chance de estarmos mais à vontade para
o diálogo que viria.
Combinei
o dia, horário, e fui.
Mal
iniciei a conversa e já estava chorando, imaginando que ele iria me dizer
muitas coisas em relação ao que estava vivendo, uma vez sendo
padre, não restaria duvida que recriminaria minhas atitudes. Mas para
minha tranqüilidade, ele apenas me olhou e disse: _ Angélica, você
está sofrendo porque realmente a ama, e não há nada de
errado nisso. Deus não te ama menos ou mais, ou vai deixar de te amar
por que seu coração não segue as normas da moral imposta
pela sociedade e pela igreja. Você foi criada Angélica, antes de
tudo, para a felicidade, e é essa a vontade de Deus para você,
que seja feliz. Não importa como ou com quem.
Chorei
mais ainda. De alívio, alegria. Uma mistura boa de sentimentos, pois
com essas palavras, meu Amigo fez com eu me sentisse perfeitamente �normal�
e digna da humanidade que existe
_Não saia nesse momento, só pelo que você está sentindo
agora, mas deixe as coisas se acalmarem dentro do seu coração,
pense, analise com calma, dê tempo ao tempo, e quando seu coração
estiver sereno, então sim, é hora de você decidir que direção
seguir. Nesse instante de sua vida, se decidir sair, será por ela, e
você poderá se arrepender, mas se tiver calma e paciência,
no momento certo, sua decisão será por você mesma, aí
sim, venha o que vier, não terá razões para arrependimento.
_Não
tenho palavras para agradecer, mas obrigada meu Amigo, com todo meu coração!
_Fico
feliz Angélica que eu tenha conseguido acalmar seu coração,
e saiba que sempre estarei aqui se precisar.
Abraçou-me
apertado, e deu-me um beijo na testa. Foi assim que o deixei, mais calma e serena.
Agora sim, poderia encarar a verdade sobre o meu futuro, sem receio algum.
Capítulo
18:
No
final do ano de 2002, fui para o retiro anual que cada religiosa deveria fazer,
com a finalidade de um reabastecimento espiritual, como dizem.
Mesmo
em meio a tanta angústia e tristeza, quer pela dor de não ter
mais o amor da minha vida, ou pela decisão de sair daquele ninho de �proteção�
para enfrentar a dura realidade do �mundo�, meu coração conseguiu
a calma e a paz necessárias para visualizar o caminho a seguir.
Procurei
então, o padre que estava auxiliando no retiro, incumbido de nos atender
em confissão e ouvir o que tínhamos a dizer, e abri o coração
a ele.
Antes
de dizer tudo o que queria, por estar no meu limite emocional, não consegui
conter as lágrimas que caíram, demonstrando a imensidade de minha
dor interior.
Ele
pacientemente aguardou, em silêncio, que me acalmasse e conseguisse falar.
_Padre,
sei que o que vou dizer, pode lhe chocar, ou mesmo depois o senhor venha a dizer
que estarei condenada para sempre, mas não posso continuar numa vida,
onde não me sinta mais parte dela. Estou infeliz, não consigo
mais abraçar os ideais e as regras da vida religiosa, antes, parece que
me tornei um fantoche de hábito, enfim, não tenho mais condições
de insistir nesse caminho. Não me identifico mais com esse estilo de
vida. A cada dia, sinto meu coração ser sufocado um pouco mais,
perdi minha identidade pessoal, nem mesmo sei afinal o que sou aqui dentro,
e tem mais um detalhe: estou perdidamente apaixonada, e por uma mulher.
Tentava
conter as lágrimas, mas elas não me obedeciam, e insistiam em
cair.
_Irmã
Angélica, você ama essa mulher?!? Por acaso vocês já
consumaram esse amor?!?
_Amo
padre. Amo com todas as forças e cada fibra do meu coração.
Não pude controlar, e está mais do que consumado o nosso amor,
está selado em minha alma para sempre.
_E
você quer sair para ficar com ela, é isso?!? Vocês vão
viver juntas?!?
_Se
ela quisesse viver comigo, eu não teria duvida alguma em assumir o amor
que sinto. É tudo o que mais gostaria que acontecesse, mas essa não
é nossa realidade hoje. A amo sim, mas nosso relacionamento não
existe mais. Ficar sem ela, tem sido a experiência mais dolorosa que já
pude ter, e tem momentos em que parece que meu peito vai explodir de tanta dor,
mas nem tudo é como a gente quer, não é mesmo?!? Ela se
afastou, disse apenas que quer seguir outro caminho, e deste eu não faço
parte.
_Deus
tem caminhos que nem sempre entendemos Irmã Angélica, e penso
que o amor é o bem maior, não importa em qual circunstancia ele
se manifeste. Mas preciso saber, você não respondeu: você
está saindo por causa dela?!?
_A
algum tempo atrás seria por ela Padre, mas hoje, é apenas por
mim. Ainda que ela não me queira nunca mais, vou sofrer, com certeza,
mas saberei aceitar e entender. O que não quero é viver uma vida
pela metade.
_Então
Irmã, se está preparada para essa decisão, eu só
posso dizer que você tem a minha benção e a minha amizade.
Viva o amor, pois Deus nos fez para essa finalidade: de sermos felizes no amor,
com o amor e para o amor, não importa como ele se apresenta a nós,
apenas viva dignamente, respeitando a si própria e a pessoa que partilhar
de sua vida e seja feliz!
Abraçou-me
apertado, e repetiu: _Deus te ama como você é, não como
querem que seja. Vá em paz e viva em paz!!!
Deixei-o
com o coração mais calmo, e com a sensação de que
um peso enorme havia sido retirado dos meus ombros. Estava decidida a retornar
à casa de minha família. E foi o que aconteceu em Janeiro de 2003.
******
Agora
estava em casa, e sentia-me só, extremamente só. A dor da saudade
parecia a cada instante, mais e mais insuportável. Precisava vê-la,
nem que fosse à distância.
Varias
vezes a vi de longe, sempre linda, conseguia me deixar sem ar, mesmo sem saber
de minha presença.
O
tempo foi passando, as vezes não resistia e ligava, só pelo prazer
de ouvir a voz, ou mesmo captar a respiração dela. Isso era um
bálsamo para minha angústia. Cheguei a pensar que estava me tornando
uma masoquista, apesar de não me agradar a idéia do prazer pela
dor. Não tenho nada contra, mas para mim, não é algo que
me atraia.
Em
meu quarto, deitada na cama, olhava horas e horas o teto. Não havia vida
mais em meu coração. Triste isso não é mesmo?!?
Mas, era assim que meu coração se encontrava. Havia me tornado
a sombra perfeita da tristeza errante. Minhas companheiras de existência
se tornaram as lágrimas. Tornei-me um verdadeiro farrapo humano. Sem
luz, sem brilho e sem cor.
Com
o correr dos dias, fui tentando sobreviver da forma que era possível.
Trabalhar ajudou a conciliar a dor, com alguma distração, pelo
menos, tinha que me forçar a desviar o pensamento daquela dor que insistia
em se fazer presente.
Tornei-me
uma sobrevivente.
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Continua...
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