AMOR ÀS AVESSAS

by Diedra Roiz

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Capítulo 35: Quando a noite cai...

Renata abriu a bolsa dela, e com as instruções precisas de Mel, foi fácil encontrar o local exato onde o celular ficava.

Dani quase morreu de raiva, quando Renata atendeu o celular de Mel, falando alô várias vezes. Ficou calada, sem responder.

Ainda sem desligar, ouviu Renata gritar para Mel:

- Melhor você sair desse chuveiro e atender...

Foi o bastante para que o pulmão de Dani se recusasse a continuar recebendo ar. Largou o telefone, correu para o banheiro e pegou a bombinha.

Mel pegou o celular da mão de Renata, olhou o visor e viu que a ligação vinha de casa. Mas Dani tinha desligado. Ligou de volta, e ninguém atendeu. Começou a ligar para o celular dela, também sem resultado.

Só quando Dani conseguiu voltar a respirar ouviu seu celular tocando. Viu que era Mel e atendeu, ainda com a respiração alterada:

- Alô.

A voz dela estava fria, gelada e... ofegante. Na mesma hora Mel percebeu que Dani estava no meio de um ataque de asma:

- Amor, você tá bem? Cadê sua bombinha?

Como resposta, Mel ouviu Dani usando a bombinha, apertando três vezes, como sempre fazia. Mel insistiu:

- Daniele... Alô? Tô voltando pra casa, amor...

Depois de um minuto de silêncio, Dani replicou:

- Não precisa. Pode ficar com a sua amiguinha.

E desligou. Mel passou a mão no rosto, com uma preocupação que beirava o desespero. Renata perguntou:

- Que foi? Alguma coisa errada?

Mel negou, se desculpou com Renata, pegou a bolsa e a pasta, e saiu quase correndo.

 

Quando chegou em casa, Dani não estava. Ligou para o celular dela várias vezes, mas Dani não atendeu. Ligou para o pai e a irmã de Dani, Ed, Raq, mas ninguém sabia dela. Por volta das 10 horas da noite, o telefone tocou. Era Deca:

- Mel, a Dani tá com a Raq.

- Mas a Raq me disse que não sabia dela...

- A Raq não podia falar com você naquela hora, a Dani tava do lado dela... Tô indo lá buscar as duas, fica tranqüila, tá?

- Deca, eu preciso falar com a Daniele...

- Olha só, amiga, a Raq me disse que a Dani tá bêbada. Melhor só conversar com ela  amanhã...

- Não posso esperar até amanhã.

- Tudo bem, você que sabe. Passa lá em casa daqui à uma hora então.

 

A primeira coisa que Dani fez quando desligou na cara de Mel foi ligar para Raq. Se encontraram em Botafogo, num boteco na calçada do Estação Botafogo, perto da antiga casa de Dani.

Raq não acreditou no que Dani contou. Achava impossível que Mel a tivesse traído. Muito menos com a ex. Não era, nem de longe, o estilo dela. Tentou convencer a amiga a esclarecer tudo com Mel, mas Dani estava furiosa, fora de si.

O celular de Raq tocou. Era Mel, procurando por Dani. Raq foi obrigada a mentir, dizendo que não sabia dela, mas comentou:

- Nunca vi a Mel desesperada assim...

Ao que Dani respondeu:

- Não quero saber.

E começou a beber.

 

Dani chegou na casa de Deca e Raq quase carregada. A sentaram no sofá, fizeram um café bem forte sem açúcar para ela e obrigaram Dani a beber.

A campainha tocou, e Deca foi atender. Avisou Mel antes de a deixar entrar:

- Ela não tá nada bem. E disse que não quer te ver.

Mel colocou as mãos no rosto, e começou a chorar, sentindo um certo alívio em liberar um pouco a tensão. Tinha passado a tarde e a noite inteiras procurando Dani, em profundo e total desespero, sem saber o que fazer.

Depois de enxugar as lágrimas, entrou na sala seguida por Deca. Dani continuava sentada no sofá, com Raq do lado, e fechou a cara quando viu Mel parada na frente dela.

Deca fez um sinal para Raq, e as duas saíram da sala. Mel se ajoelhou, apoiando as mãos nas coxas de Dani, e disse:

- Amor, quero falar com você.

O simples contato das mãos de Mel fizeram Dani se derreter. Fez um certo esforço para conseguir falar:

- Não quero ouvir.

Mel não recuou:

- Eu não mereço uma explicação?

Dani deu uma risada irônica, e replicou:

- Quem me deve uma explicação é você!

As mãos de Mel seguraram o rosto de Dani, a obrigando a olhar para os olhos dela. O tom de voz de Mel foi calmo, doce, quase didático:

- Daniele, eu não fiz nada...Você tá imaginando coisas...

Dani não soube dizer o que a irritou mais, se as palavras ou o jeito como Mel falou, segurando o rosto dela, quase como se Dani fosse criança. Afastou as mãos de Mel e disse furiosa:

- É mesmo? E o que você tava fazendo no chuveiro daquela vaca?

A raiva de Dani era tanta que mandou a educação para o espaço e xingou a tal ruiva com vontade, sem nem se importar se Mel ia achar aquele linguajar baixo.

Mel reprovava totalmente aquele nível de conversa. Levou em conta o fato de Dani estar enlouquecida de ciúmes e bêbada. Se não fosse por isso, teria simplesmente levantado e deixado ela falando sozinha. Contou até dez e pacientemente respondeu:

- Tava medindo.

Em princípio Dani não entendeu:

- O que?

Mel fez questão de explicar com todas as palavras:

- Tirando as medidas do chuveiro.

Por alguns instantes, elas ficaram se olhando. O olhar de Mel era meigo, benevolente, acariciante. O de Dani irascível, irredutível, distante:

- Você acha que vou acreditar nisso?

Foi então que a paciência de Mel acabou. Estava magoada, saturada, cansada... A voz perdeu todo e qualquer tipo de gentileza:

- Bom, essa é a verdade. E quer saber? Amanhã eu trabalho e tô exausta. Vamos pra nossa casa?

Levantou e ofereceu a mão para Dani. Mas Dani não estendeu a dela:

- Vou dormir aqui.

Mel contou até dez novamente. Passou a mãos nos cabelos, suspirou, e insistiu:

- Vem pra casa comigo, Daniele...

Dani continuou sentada, olhando com raiva para Mel:

- Pode esquecer. Não vou dormir com você.

O risinho debochado que Dani deu irritou Mel profundamente:

- Você tá sendo infantil...

- Tá irritada por que? Tá acostumada a me ver correndo atrás de você, né?

Mel se descontrolou. Aumentou o volume da voz, quando disse:

- Tô acostumada a te ver sóbria e conversando direito. Tô acostumada com um mínimo de educação e respeito.

Dani respondeu no mesmo tom:

- Não quer dormir sozinha? Sem problemas: liga pra sua amiga Renatinha. Com certeza ela vem correndo...

Mel continuou falando alto, porém com um misto de tristeza e doçura na voz:

- Será que você não entende, sua idiota, que não quero dormir com ninguém além de você?!

O jeito que Mel falou, a forma como a olhou, fizeram Dani fraquejar. Fez uma força enorme para se controlar. Ficou de costas para ela e fechou os olhos. Descarregou a frustração quase gritando:

- Chega! Me deixa em paz!

Mel a abraçou por trás. Falou baixinho no ouvido dela:

- Amor, para com isso...

Dani se arrepiou inteira. Mel percebeu e a apertou com mais força:

- Você é o meu amor, minha vida, minha mulher maravilhosa e linda. E eu também sou sua, toda e somente sua... Só sua, Daniele... Você sabe disso...

Uniu a mão esquerda à de Dani, e colocou as alianças que usavam na frente dela:

- Eu nunca ia trair tudo o que essas alianças significam.

Dani se soltou com brutalidade, como se o contato com Mel a queimasse:

- Não seja por isso...

Tirou a aliança do dedo, colocou na mão de Mel, e saiu da sala.

 

 

Capítulo 36: A Vida em Preto e Branco...

Mel ficou ali parada, com a aliança de Dani na mão. Deca entrou na sala, ficou um instante olhando para ela, antes de dizer:

- Eu avisei que não era uma boa hora pra vocês conversarem.

Mel deixou escapar um suspiro audível, num misto de impaciência e indignação:

- Deca, não tô acreditando! Eu não mereço isso!

Pegou a aliança de Dani, e entregou para Deca, quase chorando:

- Entrega isso pra Daniele. Fala pra ela que não aceito devoluções.

Mel sentou no sofá e escondeu o rosto entre as mãos. Deca sentou ao lado dela, colocando a mão carinhosamente no ombro de Mel:

- Amiga, calma... Espera ela ficar sóbria...

Mel levantou a cabeça, com uma expressão de pura revolta nos olhos cheios de lágrimas:

- Ah, tá... Agora eu vou ter que ter paciência, esperar, ficar correndo atrás dela?

Deca levantou, andou um pouco pela sala, como que pensando bem antes de dizer:

- Talvez seja a sua vez de mostrar o que sente...

Mel também levantou, contestando imediatamente:

- Deca, é completamente diferente! Eu não fiz nada!

A resposta de Deca foi absolutamente bombástica, decisiva, surpreendente:

- A questão não é se você fez ou não fez. É se você quer ou não ela de volta...

 

Nos cinco dias que se seguiram, Mel tentou falar com Dani várias vezes. Mas Dani se recusava. Sabia que bastava chegar perto dela para que Mel a seduzisse com facilidade.

Na medida do possível, Deca e Raq mantiveram Mel informada. Dani estava dando um tempo na casa do pai, porque já tinha outra pessoa morando no apartamento de Ed e Gisa, e pretendia pegar as coisas dela assim que achasse um lugar para morar.

 

Nos cinco dias que se seguiram, Dani tentou em vão voltar à sua vida de antes. Saiu todas as noites, apesar de não conseguir se divertir quase nada. Se obrigava a sorrir, flertar, seduzir, mas não passava disso. Nem de beijar tinha vontade. E o pior é que essa linha de “difícil” só a fez ter ainda mais sucesso com a mulherada.

Estava sentada com Ed quando o garçom trouxe um drinque para ela, enviado por uma loira de fechar o trânsito que acenava sorrindo do balcão. Dani sorriu de volta sem nenhum entusiasmo, agradeceu, e deu as costas para a loira. Ed brincou:

- Realmente, parece que passaram mel em você...

Na mesma hora se arrependeu. Dani fez uma careta e fulminou Ed com os olhos, como quem diz: “qual é a sua?”

Muito sem graça, Ed ainda disse:

- Desculpa, amiga... Saiu sem pensar...

Dani esboçou um “tudo bem”, mas passou o resto da noite amuada.

 

Enquanto isso, Mel estava sentada com o laptop na cama, tentando não se incomodar com a ausência de Dani. Claro que era impossível.

Normalmente Dani ficava sentava ao lado de Mel, assistindo TV ou estudando um texto. De repente se virava, enchia Mel de beijos, e não a deixava mais  trabalhar...

Mel soltou um suspiro triste. Foi então que o telefone tocou. Estendeu o braço e pegou o fone na cabeceira. Era Deca, parecendo ansiosa:

- Tá com seu e-mail aberto?

Mel respondeu quase sem vontade:

- Tô, porque?

- Dá uma olhada no e-mail que te encaminhei.

Mel abriu a mensagem. Viu o flyer eletrônico de uma festa organizada pela produção do espetáculo “BENT” de Martin Sherman.

- Tá lendo?

- Tô. Que que tem?

- Agora olha a mensagem em anexo.

Mel desceu o flyer e olhou o que vinha depois dele:

“Queridíssimos e Queridíssimas,

vou comemorar meu níver na festa da peça do meu grande amigo Ed, estão todos INTIMADOS! Não aceito desculpas!

Ajudem a divulgar, ok?

Bjs, Dani   

PS: Vai ter o tradicional concurso de Tequila Sexy, meninas! Não percam!”

Dani não tinha encaminhado o e-mail para ela. Mel estava claramente irritada quando perguntou:

- Posso saber o que é essa tal Tequila sexy?

Deca teve muito cuidado para não irritá-la mais ainda ao dizer:

- Você nunca foi num aniversário da Dani, né? Todo ano tem isso. Quem tomar a tequila do jeito mais sexy ganha.

- Ganha o que?

Mel já estava achando o fim da picada, mais ainda quando Deca falou:

- Um beijo da Dani...

Leu as intenções da amiga nas entrelinhas:

- Você não tá querendo que eu...

Deca foi incisiva:

- Se você prefere ver outra beijando a sua mulher...

Mel protestou, irritada de verdade:

- Você acha mesmo que vou me prestar a esse papel? Francamente, né...

A resposta de Deca foi imediata:

- Você é quem sabe...

Mel não agüentou. Teve que perguntar:

- Quem inventou essa coisa ridícula?

- Não sei... Só a Dani pode te dizer...

 

O concurso da Tequila Sexy tinha nascido numa noite muito louca, quando Dani tinha beijado três meninas, mas não tinha ficado a fim de mais nada com nenhuma, por isso estava sentada com Ed bebendo.

Do nada, as três vieram juntas na mesa, sugerindo o seguinte: as três iam beber tequila, e a que fizesse de forma mais sexy, levaria Dani para casa.

Dani e Ed já estavam bastante bêbados, e riram muito antes de Dani falar sarcasticamente:

- Tudo bem, mas se eu não gostar de nenhuma, nada feito...

Pediram cinco tequilas, sal e limão. A primeira colocou o sal na mão, lambeu, chupou o limão, e bebeu a tequila com uma careta. Dani reprovou:

- Péssimo. Sem chance...

A segunda repetiu exatamente o que a primeira fez, menos a careta. Mas também não convenceu Dani:

- A próxima!...

A terceira também não foi muito feliz. Dani levantou, e com um sorriso irresistível disse:

- Gatas, vejam e aprendam...

Dani fez tudo com aquela sensualidade provocante peculiar dela. Quando terminou, as três estavam olhando para ela de queixo caído. Ed ainda sacaneou, antes de beber a tequila dele:

- Parem de babar, meninas...

Depois disso, todo aniversário de Dani passou a ter o concurso da Tequila sexy. A primeira a beber a tequila, mostrando a forma certa de fazer, deixando todas enlouquecidas, era a própria Dani. Que sempre tinha a melhor performance...

 

No dia 19 de dezembro, véspera do aniversário de Dani, ela estava na sala da casa do pai sozinha, assistindo televisão enquanto esperava Ed, que ia passar para saírem. Ed, como sempre, estava atrasadíssimo.

Olhou no relógio, eram cinco para a meia noite. O celular tocou, recebendo uma mensagem: “Abre a porta pra mim.”

Abriu, já pronta para dar uma bronca no amigo. Parou, sem ação, quando deu de cara com Mel:

- Será que posso entrar?

Ainda sem conseguir dizer nada, Dani se afastou, abrindo caminho. Mel passou por ela, deixando uma trilha de perfume que Dani aspirou com  saudade.

Dani fechou a porta. Mel estava linda, com uma calça jeans de cintura baixa justinha e uma camisetinha baby look deixando parte da barriga sequinha de fora. E a olhava de um jeito que fez Dani engolir em seco:

- Eu queria ser a primeira a te dar parabéns...     

As pernas de Dani bambearam quando Mel se aproximou até o corpo ficar quase colado no dela. Tão próximo que Dani jurava poder ouvir a pulsação acelerada se misturando com a dela.

Mel segurou o rosto de Dani entre as mãos. A beijou lenta e delicadamente do lado direito da face. A olhou nos olhos quando afastou o rosto. Aproximou a boca novamente, a beijando na face esquerda, os lábios tocando levemente o cantinho da boca de Dani.

Distanciou o rosto novamente, e a olhou fundo nos olhos. Dani estremeceu, e Mel encostou os lábios nos dela com suavidade.

Dani fechou os olhos, e deixou escapar um suspiro, incapaz de resistir ao toque macio, suave, apaixonado da boca de Mel. Entreabriu os lábios para ela, e se entregou com um gemido à língua que a invadia, explorava, seduzia, deliciosamente sem pressa.

 

 

Capítulo 37: Duelo de Titãs...

O celular de Dani tocou, e ela acordou num susto. Atendeu meio perdida, ainda ofegante, sem nem olhar quem estava ligando.

Do outro lado da linha, ouviu aquela voz doce, suave e linda tão conhecida:

- Daniele?

Gaguejou, já completamente desperta:

- Mel?

- Eu queria ser a primeira a te dar parabéns...     

Dani estremeceu. Ironicamente, a mesma frase... Se Mel soubesse que  sonhava com ela todos os dias...

Mel sentiu uma pequena esperança surgir. Era a primeira vez em sete dias que Dani atendia um telefonema dela. Continuou:

- Feliz aniversário, amor...

Dani agradeceu, o mais friamente que conseguiu. Não era fácil, com Mel a chamando de amor, e ainda sentindo o clima ardente do sonho na pele, na boca, na alma...

Mel lutou contra a tristeza que a invadiu. Dani estava distante, monossilábica. Num impulso, insistiu:

- Quando posso te dar seu presente?

Quem respondeu foi a antiga Dani. Daquela forma detestável que Mel conhecia tão bem:

- Bom, gata... Deixa eu ver... Amanhã, na minha festa, que tal? Você aproveita e participa do Tequila Sexy...

Mel resolveu provocar também:

- Confessa que quer que eu vença... Tá louca pra me beijar, né?

- Nos seus sonhos, baby...

Pelo tom de voz dela, Mel quase podia ver o sorriso vitorioso no rosto de Dani. Que imediatamente morreu quando Mel respondeu, como se pudesse ler pensamentos, fazendo Dani se arrepiar inteira:

- Não seria nos seus?

 

Dani olhou para a porta pela bilionésima vez naquela noite. Ed a cutucou, enfiando o celular na cara dela sem cerimônia:

- Se quer tanto saber quando a Mel vai chegar, liga pra ela...

Deca e Raq riram disfarçadamente. Dani se fez de desentendida:

- Tá, louca, bicha? Até parece que eu...

Não conseguiu completar a frase. Mel tinha acabado de entrar, e estava total e absolutamente maravilhosa, incrível, avassaladora...

Não era por causa da maquiagem, da roupa, nem da beleza clássica do rosto e do corpo bem feitos. Era alguma coisa na postura, na energia dela, quase como se Mel tivesse finalmente colocado para fora toda a sensualidade que até então Dani só tinha visto quando estava sozinha com ela.

Dani ficou sem respirar por alguns instantes. Paralisada. Abobalhada. Hipnotizada. Sem conseguir desviar o olhar. Nem tentou disfarçar. Ed apenas disse:

- Amiga, fecha a boca e pega seu queixo no chão, tá?

 

A festa era num casarão enorme na Glória. Quando Mel chegou na porta, tinham dois atores e uma atriz vestidos de oficiais nazistas. A festa seguia o tema do espetáculo, onde dois gays se apaixonam num campo de concentração.

Depois de pagar uma entrada simbólica, ao invés da tradicional pulseira que libera a entrada e saída, pregaram um triângulo rosa no peito dela, como os que os homossexuais eram obrigados a usar na Alemanha de Hitler. Teve o efeito desejado, porque na hora Mel sentiu um arrepio.

Assim que entrou olhou em volta. Avistou Dani de imediato. Caminhou diretamente para ela, com um sorriso irresistível nos lábios.

Nem notou que vários olhares a acompanhavam, porque tinha apenas um alvo: a aniversariante que a fitava sem piscar.

 

O comentário de Ed fez Dani reagir. Respirou fundo, deu um gole na cerveja que tinha nas mãos, e tentou ignorar Mel.

Seria mais fácil se tentasse levitar, porque Mel parou na frente dela, com um perfume maravilhoso, que mexia com Dani em todos os sentidos, e sussurrou no ouvido dela com uma voz propositalmente sedutora:

- Tenho dois presentes pra você...

E antes que Dani pudesse responder qualquer coisa, se virou para Ed e pediu ajuda para pegar alguma coisa no carro.

Dani ficou ali parada, agüentando Deca e Raq, que não paravam de implicar com ela por causa do estado evidente de perturbação em que Mel a tinha deixado.

Mel voltou com Ed carregando um embrulho que era, no mínimo, grande. Pararam na frente de Dani. Ed apoiou o presente na mesa. Depois de entregar um envelope vinho para ela, e Dani continuar olhando para ela estática, Mel  sugeriu:

- Não vai abrir?

Dani rasgou o papel de presente e deu de cara com um desenho dela em tamanho A3, feito em carvão, com paspatu branco em volta e enquadrado numa moldura prata básica, moderna, tudo com o bom gosto que era marca registrada de Mel.

Raq e Deca se colocaram ao lado delas, admirando o belíssimo desenho, onde Dani aparecia sentada, nua, meio de costas, de forma que não se viam os seios, apenas parte das nádegas. O rosto dela estava virado, parecendo que Dani olhava para quem a estava desenhado. O mais surpreendente e marcante, na verdade, era o olhar capturado. Um olhar doce, suave,  apaixonado, que Dani só tinha quando olhava para Mel.

Foi Raq quem quebrou o silêncio:

- Nossa, Mel... Muito lindo! Quando você pousou para esse desenho, Dani?

- Que eu saiba nunca...

Foi a resposta perplexa, quase uma interrogação. Mel explicou, olhando fundo nos olhos de Dani:

- Fiz de memória. Gostou?

Mel tinha deixado Dani absolutamente sem palavras. O que não era novidade. De uma forma ou de outra, com seu jeitinho meigo, passional, entregue, Mel sempre a desarmava com facilidade.

Dani fez que sim com a cabeça, ganhando de Mel o mais lindo dos sorrisos. Só então lembrou do envelope que tinha nas mãos. Abriu, e leu o cartão vinho, onde Mel tinha escrito com sua letra impecável:

“Amar é conhecer a cor do olhar,

e saber o olhar de cor. (Autor desconhecido)

Que mais posso dizer?

Só que...

Amo você!

inteira e somente sua sempre,

Mel.”

Mel sussurrou novamente no ouvido dela:

- O outro presente só depois...

E saiu em direção à pista de dança.

 

Dani tinha que admitir que normalmente Mel já era um escândalo dançando. Mas naquele momento ela estava abusando. E evidentemente, Dani não era a única que achava isso. Já tinham no mínimo quatro garotas e dois caras se insinuando para ela.

Tentando controlar a onda de ciúme que fazia o sangue ferver de raiva, Dani começou a dançar na frente de Mel. No mesmo instante tocaram os primeiros acordes de “Piece of me” (Britney Spears).

Mel continuou se movendo sensualmente na frente dela. Dani correspondeu da mesma maneira, usando todo seu poder de sedução.

Mel fechou os olhos, e continuou dançando como se Dani não existisse. Dani se aproximou mais. Tão perto que mesmo sem ver, Mel sabia, ou melhor, sentia cada movimento de Dani.

Então, de repente, Mel abriu os olhos e fitou Dani profundamente. Dani também não desviou os olhos, e ficaram ambas presas naquele olhar.

Dani foi a primeira a desviar os olhos. Apenas para fixá-los na boca de Mel. Mel molhou os lábios, os tornando ainda mais convidativos, antes de aproximar a boca da de Dani.

Os hálitos se misturaram, mas as duas não se beijaram. Mantiveram os lábios muito próximos, sem se encostarem. Ambas mantendo a dança provocante, sedutora, evitando se render e tocar a boca da outra.

Deca e Raq apenas olhavam divertidas, esperando a próxima jogada de cada uma como quem assiste a uma partida de xadrez.

Foi Mel quem resolveu parar de resistir. Dani deu um sorriso vitorioso, e desviou a boca, não deixando que ela a beijasse.

Mel apenas sorriu de volta, segurou Dani pela nuca, e disse baixinho no ouvido dela:

- O outro presente é que não tô usando nada por baixo do vestido, amor...

 

 

Capítulo 38: Tequila Sexy...

Dani deixou escapar um pequeno gemido, dolorosamente consciente da   pontada de desejo responsável pela umidade que imediatamente sentiu entre as pernas.

Mel a fitava intensamente, com um sorriso safado nos lábios. Continuou dançando com a mão na nuca de Dani, movendo o corpo contra o dela de forma provocante. Fingindo que ia beijá-la e desviando a boca no último momento, deixando Dani quase descontrolada.

Quase, porque Dani estava plenamente consciente de que estavam em público, no aniversário dela, e não ia nem podia deixar barato. Segurou Mel pela cintura, e colou a boca no pescoço dela quase com raiva.

Mel imediatamente a afastou, mas Dani a puxou de volta à força, as mãos descendo pelo corpo de Mel até agarrarem as nádegas dela de uma forma tão cafajeste que Mel se sentiu incomodada.

Dani riu quando Mel tentou em vão se livrar das mãos dela. Falou no ouvido de Mel:

- Até parece que você não gosta...

- Não assim.

Foi a resposta indignada dela. Mas Dani continuou passando as mãos em Mel de uma forma propositalmente ofensiva. Quanto mais Mel resistia, mais parecia atiçar a insistência de Dani:

- Deixa eu ver se tá mesmo sem calcinha...

- Daniele... Aqui não...

- Eu sei que você quer...

- Para... Não faz assim...

A mão de Dani já estava se enfiando por baixo do vestido de Mel, que segurou o pulso dela, evitando que Dani a tocasse como queria.

- Aposto que tá molhadinha pra mim...

- Daniele, para com isso!

Foi quando Deca e Raq resolveram intervir:

- Meninas, por favor... Isso já não foi longe demais?

E então a música parou. Dani soltou Mel e falou bem alto para que todos ouvissem:

- Provoca, e não agüenta depois... Não sabe brincar, não brinca. É simples!

Algumas pessoas riram. Outras aplaudiram. Dani agradeceu como se estivesse no teatro, virou as costas e saiu, com uma empáfia e um estrelismo infernais. Mel a fuzilou com os olhos, e saiu pisando duro na direção oposta.

Deca e Raq respiraram fundo, e trocaram um olhar cúmplice antes de se separarem, cada uma para um lado, seguindo as amigas.

 

- Dani, querida, você foi horrível. Se eu fosse a Mel nunca mais falava com você.

Mas Dani estava totalmente dominada pela raiva:

- Eu fui horrível? Hoje é meu aniversário, sabia? Se ela pensa que vai ficar me sacaneando na frente de todo mundo, tá muito enganada!

Raq segurou Dani pelos braços, quase a sacudindo:

- Você tá brincando, né? Ela vem aqui, te dá um presente lindo, você trata a menina daquele jeito no meio da pista, e ainda tem coragem de dizer que ela é que tá te sacaneando? Tá maluca?

Nem assim Dani deu o braço a torcer:

- Dá pra parar de defender a Mel? Afinal de contas, de que lado você tá?

Raq levantou as mãos, como quem se rende:

- Desisto! Impossível conversar com você... Quer saber? Você tá irritadinha porque não consegue esconder que é apaixonadíssima pela Mel! E também porque hoje ela tá um arraso...

Dani tentou negar, mas Raq nem deu chance para ela abrir a boca:

- Por enquanto você tá com sorte, amiga, porque a Mel é louca por você. Tão louca que ainda te quer de volta. Mas com as merdas que você anda fazendo, ela vai acabar cansando. Escuta bem o que eu tô te dizendo: abre o seu olho, Dani!

E dizendo isso saiu, deixando Dani lá plantada.

 

- Sinceramente, Deca, não sei o que eu tô fazendo aqui!

Mel estava irada. De um jeito que Deca nunca tinha visto.

- Mel, fica fria... Calma, amiga...

- Se você me pedir calma mais uma vez, eu juro que... Ai, que raiva! Tô morrendo de ódio de mim mesma! Como eu sou imbecil! Eu sou uma idiota completa!

Nesse momento, Ed se aproximou delas. Pegou a mão de Mel entre as dele, e disse, a olhando nos olhos:

- Nada disso! Você é maravilhosa!

Beijou a mão de Mel e completou:

- Levanta essa cabeça, vai lá e vence o Tequila Sexy.

Mel não estava nada disposta a participar do tal concurso. Achava o cúmulo do absurdo competir por um beijo da própria mulher:

- Eu não...

Ed a cortou, insistindo:

- Faz o que eu tô te dizendo. Arrasa, linda!

Deu um último beijo na mão dela e saiu, deixando Mel pensativa.

Ed conhecia Dani melhor do que ninguém. Por isso, Mel resolveu seguir o conselho dele. Mas antes, pediu uma caipiroska bem forte.

 

Ed pegou o microfone, e anunciou:

- Senhoras e senhores, o momento mais esperado do ano: o concurso da Tequila Sexy! Gostaria de chamar a aniversariante, Dani Quadros, para uma pequena demonstração.

Entre aplausos, gritos e assobios, Dani se aproximou da mesa onde estavam os copos de Tequila, um saleiro e algumas rodelas de limão.

Caprichou na performance, levando a audiência ao delírio, e depois, com um enorme sorriso, se sentou entre Gisa e Raq.

Antes de chamar a primeira candidata, Ed falou:

- Que vença a melhor!

Mel estava atrás de uma multidão de pessoas quando Dani fez a demonstração. Impossível negar o quanto ela era provocante, sensual, atordoante...

O concurso começou. Mel contou mais de vinte concorrentes. Quando cada uma terminava, a platéia reagia. Às vezes com entusiasmo, às vezes com reprovação. E Ed chamava:

- A próxima!

Mel começou a ficar ansiosa. O coração batia acelerado no peito. Virou o resto de uma segunda Caipiroska, entregou o copo vazio para Deca, e ajeitou o cabelo. Começou a abrir caminho, se aproximando lentamente da mesa.

Dani não prestou a menor atenção nas performances. O que a interessava realmente era saber onde Mel estava.  

Tinha o coração dividido entre o medo e o desejo de que ela ganhasse. Não queria beijar ninguém além dela. Na verdade, queria beijar Mel mais do que tudo. Isso a apavorava, porque sabia que assim que a beijasse, se tornaria impossível continuar resistindo.

A última concorrente terminou no exato momento em que Mel conseguiu chegar na frente da mesa. Os olhos de Dani e Mel se encontraram. Dani nunca tinha visto os olhos de Mel daquele jeito, tão sensualmente predadores que chegavam a quase parecer felinos. Ed gritou:

- A próxima!

Mel se aproximou, e apoiou as duas mãos na mesa. Abaixou a cabeça, deixando os cabelos dourados cobrirem a face. Incrivelmente, a platéia ficou em silêncio.

Então, com uma jogada de cabeça glamourosa, que Ed classificaria para sempre como digna de Rita Hayworth, tirou os cabelos do rosto.

Colocou o sal na curva entre o dedão e o indicador, e não lambeu, chupou a mão destilando sensualidade e magnetismo. Depois mordeu o limão, saboreando com um suspiro delicioso, irresistível. O tempo todo com os olhos  parecendo emitir faíscas.

Com um gesto firme e preciso de pulso, virou o copo de Tequila de uma vez só. Encerrou com chave de ouro, batendo com o copo emborcado desafiadoramente na mesa, como quem pede mais.

O estilo de Mel era totalmente diferente do de Dani. Mas nem por isso menos sedutor e fatal. Na verdade era difícil dizer qual das duas performances tinha sido a mais sexy.

As palmas foram estrondosas. Pela reação do público a vitória de Mel era indiscutível.

Dani ainda estava parada, perplexa, atordoada, boquiaberta, olhando fixamente para ela, quando Mel se aproximou com um sorriso de superioridade, dizendo:

- Parece que o prêmio é meu...

Dani se levantou, visivelmente tensa. Mel falou baixinho, só para ela:

- Relaxa... É só um beijo...

E abriu um sorriso desafiador. Só então Dani pareceu voltar a si. Piscou sedutoramente para Mel, instigando de volta, baixinho também:

- Que você nunca vai esquecer...

- Nem você...

Dani riu, e fez um gesto com a cabeça cumprimentando Mel pela resposta. Mel respondeu com um sorriso e um gesto idênticos aos dela.

Então de repente, sem cerimônia, Dani puxou Mel pela cintura e a beijou.

O contato da boca ardente, macia, exigente contra a dela fez Mel deixar escapar um gemido baixinho de prazer. Passou os braços ao redor do pescoço de Dani, e entreabriu os lábios para ela. As línguas se encontraram e se devoraram com saudade e desejo.

Dani também gemeu, ao sentir o delicioso sabor daquela boca, daqueles lábios, daquela língua, que exigiam uma entrega sem reservas. O beijo se tornou cada vez mais intenso. A platéia observava em suspenso.

Quando finalmente se separaram, ficaram se olhando durante algum tempo, ainda abraçadas, as respirações alteradas, como se tivessem perdido a noção de espaço e tempo.

Até que as palmas, assobios e gritos recomeçaram.

Dani aproximou a boca do ouvido de Mel e disse, de forma provocante:

- E meu outro presente?

O olhar que Mel lançou foi tão profundamente sedutor, que Dani estremeceu:

- Você quer? Vem pegar...

Mel se soltou dos braços de Dani, deu uma virada majestosa, e passando no meio das pessoas que sem exceção abriam passagem para ela, se retirou triunfante da festa.

 

A música voltou a tocar, e as pessoas se dispersaram. Ed chegou perto de Dani e disse:

- Se eu fosse você ia atrás dela.

Dani seguiu o conselho imediatamente. Ainda saiu a tempo de ver Mel destravando o carro. Atravessou a rua correndo, e parou atrás dela, a segurando pela cintura:

- Ei, espera...

Mel se arrepiou com a doçura da voz e do toque dela, mas se virou fingindo a maior indiferença do mundo:

- O que você quer?

Dani abriu um sorriso deliciosamente safado quando disse:

- Você sabe muito bem...

Mel levantou uma sobrancelha, e de forma absolutamente provocante, respondeu:

- Não, eu não sei...

Dani colou o corpo no de Mel, a comprimindo contra o carro atrás dela:

- Meu segundo presente...

Mel a empurrou com força, afastando-a. Apenas para, com um sorriso malicioso e insinuante, guiar a mão de Dani por debaixo do vestido, na pele quente das coxas, até pousar delicadamente entre as pernas dela.

Dani soltou um gemido ao constatar que Mel estava  sem calcinha de verdade.

- E então?

Foi a interrogação sugestiva de Mel, a olhando nos olhos. Dani engoliu em seco quando entendeu as intenções dela:

 - Aqui?

Tudo bem que elas estavam escondidas entre o carro de Mel e um muro, e a rua era suficientemente deserta e escura, mas a porta da festa ficava a menos de quinze metros de distância.

- Rapidinho, vem...

Foi a resposta de Mel, já virando Dani, a encostando no carro, e a dominando completamente... Dani nem conseguiu replicar. Mel pressionou o corpo contra o dela, beijando o pescoço de Dani, acariciando os seios dela de forma irresistivelmente tentadora.

Mel abriu a calça de Dani, a deixando sem fôlego com a forma excitante que disse:

- Se vier alguém eu paro...

Se o pessoal na porta da festa tinha percebido alguma coisa, estavam fingindo que não. Os três estavam conversando quase de costas para elas.

Enfiou as mãos dentro da calcinha de Dani e com uma agilidade surpreendente encontrou o ponto que estava procurando. Dani soltou um gemido abafado, e Mel colou a boca no ouvido dela. Enquanto acariciava Dani, mantinha a atenção na rua, o sangue pulsando com força pela excitação quase insuportável que a sensação de perigo causava. De vez em quando sussurrava:

- Tô olhando... Não tem ninguém...

E isso parecia fazer Dani suspirar, se arrepiar e se entregar mais ainda. Mel aprofundou as carícias. A penetrou devagarzinho com os dedos. Como resposta Dani gemeu baixinho, fazendo Mel acelerar o ritmo deliciosamente. Mel sussurrava palavras excitantes no ouvido de Dani, as respirações no mesmo descompasso insano. 

O coração de Dani batia alucinado no peito, e acelerou ainda mais quando a ouviu pedir:

- Quero te sentir gozando, Daniele...

Não precisou pedir duas vezes. Se Mel tivesse apenas dito o nome dela já seria o bastante para a enlouquecer. Quase que imediatamente, Dani estremeceu, e se entregou ao prazer de gozar para Mel.

Ficaram ali abraçadas, as respirações voltando ao normal novamente.

- Gostou do presente?

Mel falou pertinho do ouvido dela. Dani a segurou pela nuca e a beijou. De forma profunda, apaixonada, exigente. Depois mordeu de leve a orelha de Mel, dizendo:

- Não era bem isso que eu tinha em mente...

Mel parou de esfregar o rosto no de Dani, surpresa:

- Não? O que então?

Como resposta, Dani ajoelhou, enfiou a cabeça debaixo do vestido de Mel, e mergulhou a língua de uma só vez no sexo pulsante e ardente.

Mel soltou um gemido, apoiou as mãos no carro, e se entregou à boca faminta que a devorava impiedosamente.

 

 

Capítulo 39: A Roda da Fortuna gira novamente...

É lógico que naquelas condições, se tornou quase impossível para Mel continuar prestando atenção em se tinha alguém vindo ou não.  Sorte que Raq e Deca gritaram o nome dela antes de atravessarem a rua.

Só teve tempo de dar um empurrão em Dani, que continuou ajoelhada no chão, só entendendo o porque da interrupção brusca quando Raq surgiu do nada, com Deca do lado, perguntando maliciosamente:

- O que você tá fazendo aí no chão, amiga?

 Dani se levantou, passou as mãos na calça, limpando a poeira, e respondeu com a cara mais inocente do mundo:

- A tarracha do meu brinco caiu...

E ainda teve a cara de pau de fingir que colocava a tarracha de volta no lugar. Mel fez um esforço incrível para não rir, mas não escapou do comentário de Deca:

- Mel, sua cara tá, no mínimo, suspeita...

Mel e Dani se entreolharam, e não agüentaram: caíram na risada.

 

Depois que Raq e Deca se despediram, Mel anunciou que também queria ir embora, porque estava... adivinhem? Morrendo de fome, é lógico...

Dani sorriu, achando graça. A beijou de leve nos lábios e  disse, já com o celular na mão:

- Deixa só eu avisar o Ed...

Ed apareceu quase na mesma hora, trazendo a bolsa de Dani e o quadro que Mel tinha dado para ela. Se despediu falando no ouvido de Dani:

- Tchau, amiga! Feliz Aniversário! Vê se para de fazer merda e se acerta com a Mel!

E antes que Dani pudesse responder, deu a volta no carro, deu dois beijinhos em Mel e sussurrou para ela:

- Depois da sua performance maravilhosa não tem pra ninguém, né? Tchau, poderosa!

Mel não conseguiu conter uma risada. Ed ainda piscou para ela antes de atravessar a rua e voltar correndo para a festa. Dani perguntou, curiosíssima:

- Que foi que ele te disse?

- Nada...

Dani fez uma careta implicante para Mel, dizendo:

- Sei...

Mel apenas riu novamente, e saiu com o carro.

 

Assim que sentaram no “Manuel & Juaquim” da Farme, Mel pediu o cardápio e... duas tequilas, sal e limão. Dani a olhou surpresa, e depois implicou:

- Isso tá se tornando um vício...

- Impossível...

Mel já estava chupando o sal da mão, com um sorriso provocante no rosto. Dani soltou um suspiro, e sem desgrudar os olhos dela, perguntou:

- Impossível por que?

Mel umedeceu os lábios com a língua antes de morder uma fatia de limão, e dizer com um olhar tão malicioso que Dani quase caiu da cadeira:

- Meu vício é outro...

Deu um pequeno gole na Tequila, devorando Dani com os olhos. Dani deixou escapar um pequeno gemido, antes de virar o copo de tequila de uma vez só, sem sal nem limão.

 

Dani estava louca para ir embora, mas Mel abriu aquele sorriso lindo dela, capaz de convencer Dani de qualquer coisa, e insistiu que estava com fome.

Dani concordou em pedir comida, frisando: “desde que seja algo rápido”, e deixou Mel escolhendo enquanto ia ao banheiro.

Mel estava percorrendo o cardápio com os olhos, quando ouviu:

- Mel?

Ergueu os olhos e deu de cara com Renata, acompanhada por uma loira, que imediatamente reconheceu como sendo aquela do episódio do banheiro em Itaipava. Como era mesmo o nome dela? Fabiana, claro!

Tudo que aconteceu depois disso foi muito confuso e rápido.

A tal Fabiana disse que ia ao banheiro, e Mel não falou nada sobre Dani. Em parte porque tinha sido pega de surpresa, em parte porque estava um pouco traumatizada com essa fatídica junção de Daniele, mulheres e banheiros...

Renata se sentou na mesa. Dani não viu Fabiana, estavam lado a lado, mas cada uma dentro de um reservado. Só o que viu foi a ruiva sentada com Mel.

A expressão dela mudou na mesma hora. Mel percebeu de longe o estado em que Dani estava, mas nem teve tempo de abrir a boca. Dani parou na frente delas, parecendo transtornada:

- Que lindo! Vocês combinaram ou o que?

- Daniele, calma... Abaixa a sua voz e senta...

Renata ficou espantada com a paciência e o carinho na voz de Mel. Logo ela, que detestava esse tipo de cena. Por muito menos, já tinha visto Mel se levantar e ir embora sem pensar duas vezes.

Dani se soltou da mão de Mel quase com um safanão. Riu sarcasticamente, antes de dizer:

- Você acha mesmo que vou sentar aí com ela? Afinal de contas, o que essa mulher tá fazendo aqui?

Mel se levantou muito séria. Ficou na frente de Dani, olhando nos olhos dela. Já não estava tão calma quando respondeu:

- Não sei, Daniele, foi uma coincidência! A Renata chegou com aquela sua amiguinha loira, a Fabiana...

- Sei lá que Fabiana é essa...

- Não lembra? Uma que também te agarrou no banheiro... São tantas, né, dá até pra confundir...

- Não desconversa... Não tô vendo ninguém com ela!

- É porque a tal loira foi ao banheiro, meu amor...

- Acabei de vir do banheiro, Mel...

- Você tá pensando o que? Que eu chamei a Renata pra vir aqui? Pra gente aproveitar enquanto você ia no banheiro? Tá louca?

Nesse exato momento, Fabiana parou ao lado de Dani, sem entender o que estava acontecendo.

Renata continuou sentada, com os olhos muito arregalados. Fabiana deu dois beijinhos em Dani:

- Dani! Que surpresa, baby! Já conhece minha namorada, a Renata?

Dani ficou paralisada. Todas as fichas caindo ao mesmo tempo. Sem saber como consertar a besteira que tinha feito.

Mel apenas falou, fuzilando Dani com os olhos:

- Espero que esteja satisfeita. Porque pra mim chega.

E depois, para Renata:

- Não sei nem o que dizer. Mil desculpas, Rê...

Pegou a bolsa, pagou a conta no balcão e saiu.

 

Quando Mel saiu pela porta, Dani pareceu acordar. Pegou a bolsa e saiu correndo atrás dela. A encontrou já com a porta do carro aberta, e gritou:

- Mel, espera...

Mel se virou de frente para ela com total impaciência:

- O que você quer agora, Daniele?

A voz de Dani soou quase suplicante quando respondeu:

- Falar com você...

Mel não se deixou comover. Disse com raiva, agressivamente:

- Falar? Depois de mais um dos seus shows? Falar o que? Mas se você quer falar,  então fala, Daniele! O que é que você tem pra me dizer?

Aquilo pegou Dani completamente de surpresa. Em parte porque não esperava aquela reação de Mel. Nunca a tinha visto daquele jeito. Em parte porque as palavras dela a fizeram entender que tinha cometido vários erros.

Mel interrompeu os pensamentos de Dani bruscamente:

- Tô esperando. Vai falar ou não?

Eram tantas coisas que Dani ficou perdida, sem conseguir organizar as idéias em frases. Só conseguiu balbuciar:

- Eu... não sei bem o que dizer...

Mel entrou no carro, depois de retrucar:

- Foi o que pensei.

Dani a impediu de fechar a porta. Agachou na frente dela, pedindo:

- Não, espera... Escuta... Por favor, Mel...

Mel olhou bem nos olhos dela, e falou:

- Não, escuta você: tem bilhões de pessoas no mundo. Mas eu escolhi você. Só que não te entendo, Daniele. Você não sabe o que quer. Me trai, depois me pede em casamento, depois termina e me trata com total falta de respeito, depois fica toda doce, depois me destrata de novo, e agora toda doce novamente... Sinceramente, não é isso que  quero pra minha vida. Pra mim chega. Eu cansei.

Dani tentou contestar:

- Não é verdade, Mel... Sei muito bem o que quero... Eu amo você...

Mel fechou os olhos por um momento. Suspirou profundamente, e então sacudiu a cabeça, como se dissesse não. Dani insistiu:

- Eu te amo...

Mel foi ríspida, agressiva quase:

- Cadê sua aliança?

Dani não entendeu:

- Ãh?

Mel fez questão de frisar com sarcasmo:

- Sua aliança. Aquela que ficava no seu dedo. Cadê?

Dani respondeu, muito envergonhada:

- Tá guardada... Mas vou voltar a usar...

Mel segurou as mãos dela. De uma forma condescendente, como quem consola uma criança. Isso abalou Dani muito mais do que as palavras que ouviu:

- Não adianta, Daniele. Tarde demais.

Com uma serenidade assustadora, Mel tirou a aliança do dedo e devolveu para Dani.

 

 

Capítulo 40: O Amor é fogo que arde sem se ver...

Dani começou a chorar. Algumas pessoas paradas ali por perto ficaram assistindo como se fosse um espetáculo.

Mel enxugou as lágrimas dela e mandou Dani entrar no carro. Dani obedeceu sem contestar.

Ficaram um tempo sentadas, sem quebrar o silêncio que se estabeleceu. E então Mel a fitou, sem disfarçar a preocupação. Imediatamente Dani aproveitou para dizer, com um tom que fazia a frase parecer uma espécie de chantagem emocional fofa, cheia de charme:

- Não acredito que você vai terminar comigo no dia do meu aniversário...

Não conseguiu o efeito desejado, porque Mel se irritou e respondeu:

- Quem terminou foi você, dias atrás...

Dani abaixou a cabeça e passou as mãos nervosamente pelos cabelos.  Olhou dentro dos olhos de Mel ao perguntar:

- Você não me ama mais?

O jeito que Dani fez a pergunta... Insegura, tensa, cheia de medos e incertezas... Deixando claro para Mel que ela não tinha entendido nada.

De uma forma inesperada e absurda, Mel não teve como deixar de rir:

- Daniele, você não existe mesmo...

Dani não entendeu a reação dela. Mel continuou:

- É, eu sei que você não tá entendendo. Amor pra você é um bicho de sete cabeças, né? Onde é que eu fui me meter, meu Deus?

A última frase foi muito mais dita para ela mesma. Dani não desistiu:

- Você não me respondeu...

- Será que ainda preciso dizer? Não sabe que eu amo você?

Dani abriu um sorriso enorme, radiante. Rapidamente Mel o fez desaparecer:

- Mas isso não muda nada do que eu disse antes.

Mel passou as mãos no rosto. Estalou o pescoço, movendo-o de um lado para o outro. Apoiou as mãos no volante, suspirou de cansaço, bocejou com a mão tapando a boca.

Dani ficou observando, quieta. A achando acintosamente linda e atraente. Controlando como podia a vontade que sentia de tocar nela.

Até que Mel finalmente falou:

- Vou embora. Tô cansada, com...

- Fome... Já sei...

Dani completou, certeira. As duas riram juntas, cúmplices por um breve momento. Depois Mel ficou séria novamente. Dani pediu:

- Posso ir com você?

Mel suspirou alto, quase uma reclamação, antes de dizer:

- Pra que?

Dani retrucou de um jeito que a desarmou:

- É meu aniversário. Quero ficar com você...

Mel a olhou desconfiada. Dani sustentou o olhar com um sorriso meigo, quase inocente, impossível de resistir. Mel acabou dizendo:                     

- Tudo bem. Mas depois te deixo na casa do seu pai.

- Eu preferia que você...

Mel a cortou de uma forma definitiva:

- Daniele, pode esquecer. Vamos só sentar, comer e conversar. Nada além disso. Se quiser mais é melhor nem vir.

Dani concordou:

- Tudo bem.

Mas no fundo tinha a esperança de fazer Mel mudar de idéia.

 

Mel estacionou naquele posto da Lagoa que tem um Bob’s. Dani ficou um pouco decepcionada, porque isso queria dizer que seria jogo rápido.

Comeram sem falar nada. Dani não conseguia disfarçar a tristeza. Mel a observou atentamente, e só interrompeu o silêncio quando acabaram de comer:

- Vamos?

Dani apenas concordou com a cabeça. Entraram no carro, e foram caladas até a portaria do prédio do pai de Dani no Cosme Velho.

Dani soltou o cinto e se virou para Mel, impulsivamente:

- Se você me deixar aqui sozinha vou chorar a noite inteira.

A frase pegou Mel totalmente de surpresa, porque Dani tinha confessado o que sentia de uma forma absolutamente sincera, límpida, verdadeira. De coração. Sem nenhum tipo de jogo, charme ou disfarce.

Obrigando Mel a admitir para si própria que apesar de tudo o que tinha dito, também ia chorar sem parar assim que chegasse em casa.

- Você não quer subir?

Foi a proposta de Dani. E estranhamente, Mel não sentiu nenhuma vontade de recusar ou resistir. Concordou com a cabeça, olhando séria para Dani.

Um acordo tácito sem sorrisos, simples constatação de que ambas eram prisioneiras da mesma fraqueza inevitável.

Mel estacionou o carro, e deixou que Dani a conduzisse pela mão. Ficaram assim, de mãos dadas, em silêncio, dentro do elevador, em frente à porta enquanto Dani a abria, no corredor escuro e quando entraram no quarto que tinha voltado a ser de Dani nos últimos dias.

Então Dani acendeu a luz, olhou bem fundo nos olhos de Mel, se aproximou, e a abraçou, colando o rosto no dela. Mel correspondeu o abraço com o mesmo carinho, a mesma paixão, o mesmo amor.

E pela primeira vez na vida, Dani ficou feliz por existir um sentimento como aquele, totalmente irracional e sem sentido, que as dominava tão completamente a ponto de tornar possível Mel estar ali.

Com um movimento lento, tão idêntico que parecia sincronizado, as duas viraram o rosto ao mesmo tempo, e as bocas se encontraram num beijo intenso, profundo, mas suave.

A mão de Dani subiu pelas costas de Mel, até chegar na nuca. Mel suspirou, e a puxou pela cintura, grudando o corpo ainda mais no dela.

Dani terminou o beijo, e quando as bocas se separaram – mas elas continuaram abraçadas – tentou dizer:

- Mel, eu...

Mel colocou dois dedos sobre os lábios dela, e pediu:

- Não vamos falar nada...

Subiu os dedos da boca para o rosto dela, o carinho delicado fazendo Dani fechar os olhos.

A entrega de Dani deixou Mel totalmente inebriada, seduzida, fascinada. A beijou lentamente nas faces, na testa, no queixo. Roçou os lábios na boca que se abria para ela, e só então mergulhou a língua, saboreando a doçura dela por inteiro.

Dani gemeu quando a língua de Mel encostou na dela. Sentiu o corpo todo amolecer, fraquejar, se oferecer. Correspondeu ao beijo com a sofreguidão de um náufrago que pisa novamente em terra firme.

A boca de Dani desceu pelo pescoço de Mel, saboreando cada arrepio que causava na pele delicada, macia, sensível.

Com um gesto leve, um toque apenas, Mel fez Dani levantar a cabeça e olhar para ela. Tirou o vestido a olhando nos olhos, de uma forma sedutoramente singela, e ficou ali parada, completamente despida para Dani.

O sorriso de Dani foi amoroso, lindo, e fez Mel sorrir de volta para ela. Dani também tirou as roupas, peça por peça.

Então uma urgência inesperada tomou conta das duas. Se abraçaram e beijaram sem trégua. Tocando, provando, acariciando com as bocas e as  mãos cada pedacinho de pele descoberta sem reservas.

Dani guiou Mel para a cama. Se deitou ao lado dela no colchão estreito, os corpos unidos, entrelaçados.

Os olhos de Mel brilhavam como chamas. Dani se deixou queimar neles por um breve instante, antes de descer a boca pelo pescoço e colo dela, num torturante caminho antes de tocar os seios.

Mel gemeu baixinho, e arqueou o corpo para se entregar melhor às sensações inebriantes que a boca de Dani provocava lambendo, chupando, mordiscando levemente...

Mel enfiou as mãos nos cabelos de Dani, segurando com força a cabeça dela, a puxando de volta para grudar novamente a boca na de Mel, num beijo sedento, possessivo, voraz.

A mão de Dani desceu, percorrendo o corpo de Mel inteiro, antes de pousar entre as coxas. Mel soltou um pequeno gemido contra a boca de Dani, e abriu as pernas, se oferecendo.

Então foi a vez de Dani gemer, porque Mel deslizou a mão pelas costas dela, passando as unhas com suavidade, arranhando levemente. Depois umedeceu o dedo de saliva e o passou lentamente sobre o biquinho duro do seio de Dani.

Deu uma mordida de leve no lábio inferior de Dani, quando a sentiu enfiar os dedos dentro dela. Como resposta, Dani aprofundou o movimento.

Mel acariciou o sexo de Dani, sorrindo de satisfação ao sentir o quanto ela estava molhada. A penetrou devagar, fazendo Dani mover os quadris quase com desespero para tentar acelerar o movimento.

Naquele momento, os corpos passaram a se procurar, pulsar e respirar juntos, no mesmo ritmo e intento.

Dani sentiu Mel estremecer e gemer de forma mais intensa, e se uniu à ela no imenso prazer de se pertencerem. As duas se deixando levar completamente pela correnteza atordoante que pareceu as deixar em suspenso, na satisfação arrebatadora de gozarem ao mesmo tempo.

Ficaram abraçadas, as respirações ofegantes, os corações descompassados, os corpos ainda tremendo.

As bocas se encontraram novamente, num beijo preguiçoso, apaixonado, terno.

Então Dani acomodou a cabeça de Mel no ombro, e a envolveu com os braços. Mel suspirou, bocejou, e aninhada entre os braços dela, com a mão de Dani acariciando seus cabelos, adormeceu.

Dani olhou para a mulher adormecida em seus braços. Linda, tão absurdamente linda que doía. A apertou com tanta força, que apesar de estar dormindo, Mel soltou um pequeno gemido. Dani sorriu, e beijou os lábios dela levemente. Mel voltou a gemeu, dessa vez com um sorriso prazer. Dani a beijou novamente, fechou os olhos, e se juntou à ela nos braços de Morfeu.

 

Mel acordou cedo. Levantou cuidadosamente, para não acordar Dani. Assim que Mel sentou na cama, Dani virou de lado, resmungando no sono.

Ficou alguns instantes ali parada, olhando para Dani, absolutamente linda despida, dormindo tranqüila.

Amava aquela mulher. Muito. Demais. Tanto que quando estava com ela não conseguia nem pensar. Era uma coisa louca, devastadora, que a dominava como o efeito de uma droga. 

Mel não era o tipo de pessoa que gosta desse tipo de relacionamento turbulento, incerto, descontrolado. Pelo contrário, tudo o que queria era ter uma vida tranqüila, segura e feliz ao lado de Dani.

Mas parecia que cada vez que elas conseguiam finalmente se acertar alguma coisa surgia do nada para atrapalhar.

Tudo o que tinha dito para Dani na noite anterior era verdade. Estava realmente magoada, sem esperanças, cansada...

Só que uma vez mais, tinha se deixado levar por aquele fascínio,  encantamento irresistível que existia entre elas, capaz até de fazer Mel esquecer da realidade.

E ali, naquele momento, sentada na cama ao lado dela, depois de mais uma noite de amor deliciosa, maravilhosa, incrível, decidiu que aquilo não ia mais se repetir.

Se vestiu, ajeitou o cabelo, olhou uma última vez, se despedindo da visão deslumbrante que era Dani deitada de bruços nua na cama, e saiu fechando a porta.

 

 

Capítulo 41: Um Natal e dois telefonemas...

Quando Dani acordou no dia seguinte, não entendeu porque a cama estava vazia. Não acreditou que Mel tivesse ido embora sem dizer nada. Saiu do quarto procurando por ela, e encontrou o pai no corredor com  uma xícara de café na mão. Ele sorriu, passou a mão carinhosamente nos cabelos dela e falou:

- Bom dia! Como foi a festa?

Dani respondeu apressadamente, e caminhou pelo corredor em direção à sala. Parou quando ouviu:

- O porteiro trouxe um quadro pra você. Lindo, aliás. Parece que a Mel deixou hoje cedo. Junto com um bilhete.

Quase correu, ignorando completamente o quadro. Só queria saber do bilhete. No papel dobrado Mel tinha escrito simplesmente: “Daniele”. Desdobrou e leu:

“Não vou dizer que a noite de ontem não deveria ter acontecido.

Nós duas queríamos, e como sempre, foi maravilhoso, especial, lindo...

Mas um relacionamento não pode ser baseado apenas em noites de amor embriagantes. Porque a luz do dia traz de volta a sobriedade e a razão. E me faz ver que nada mudou. Que continuo pensando exatamente como antes.

Daniele, se você me ama mesmo, só te peço uma coisa: por favor, não insista. Entenda que acabou.

Bjs, Mel.”

Dani não conseguiu mais controlar a entrada e saída de ar dos pulmões. Tentava desesperadamente respirar, sufocando. O barulho já conhecido chamou atenção do pai, que a fez sentar no sofá e rapidamente trouxe a bombinha, apertando três vezes dentro da boca de Dani.

A crise de asma passou, mas a sensação terrível não melhorou nem um pouquinho. Ficou ali prostrada, com o pai a abraçando, o corpo dominado por uma estranha sensação de ausência de vida.

 

Depois que escreveu aquele bilhete, Mel não voltou para casa. Foi direto para o apartamento dos pais. A mãe já foi abrir a porta estranhando. Mel nunca ia lá aos sábados.

Assim que a viu, soube que tinha alguma coisa errada. Mel confirmou a abraçando com força e desabando nos braços dela num choro convulsivo, profundamente angustiado, de uma tristeza infinita. Exatamente como se alguém tivesse morrido.

 

Faltavam três dias para o Natal. Imaginem como estava o estado de espírito das duas. Dani resistiu bravamente à imensa vontade que sentia de voltar a ficar reclusa. Era uma verdadeira tortura, porque tudo a fazia pensar em Mel.

Chorava por qualquer coisa. Do nada, de repente. Ninguém entendia, nem ela mesma.

Não queria ouvir conselhos, comentários, incentivos. Em sua mente estava gravada a última frase dela: “Entenda que acabou.”

Entender até entendia. Mas como fazer o coração compreender, se ele pulsava e existia além dos limites da razão?

 

Mel nunca tinha perdido um parente ou amigo próximo. O máximo que tinha sofrido era o término de relacionamentos que nem de longe, tinham o significado do que tivera com Dani.

Aquela sensação de vazio, como se um vácuo a separasse do resto do mundo, como se o peito estivesse repleto de uma total falta de cor, aquela presença amputada, sufocada, com gosto escuro, sombrio... nunca tinha sentido.

Parecia se arrastar  entre as pessoas felizes e animadas pelo espírito natalino, um verdadeiro sacrifício.

Daniele com certeza diria, com aquele jeitinho de sorrir irresistível, que Mel adorava, que aquela tristeza imensa no meio da alegria alheia era um “contraponto de emoções” ou um daqueles termos técnicos de teatro que ela tanto gostava de usar para analisar a vida.

Mas Daniele tinha aceitado o término sem problemas. Não tinha procurado Mel nenhuma vez. Nada. Nenhuma palavra. Sequer um telefonema. Nenhuma insistência. Exatamente como Mel tinha pedido.

No fundo, o fato de Dani a ter obedecido pela primeira vez na vida tinha sido uma grande decepção. Porque  Mel queria mais do que tudo poder ouvir a voz dela, nem que fosse apenas por alguns instantes. Apesar de saber que estava se enganando de novo, que não seriam instantes, seria de novo a loucura narcotizante de se render ao que sentia. E nessa luta interna, entre querer e não querer Dani, Mel se digladiou incessantemente durante todos os dias.

 

No dia 24, Dani foi com o pai para a casa da irmã. Só a sobrinha linda de dez meses a conseguiu animar um pouco. Dani ficou com ela no colo quase o tempo inteiro, até quando chegou a hora da neném dormir. A ninou, balançando de um lado para o outro, cantando baixinho a mesma canção que a mãe cantava para ela quando era criança.

Jantaram cedo, e ficaram conversando na sala. Para alívio de Dani, ninguém perguntou nada sobre Mel. Não queria começar a chorar ali na frente de todos.

Mas aconteceu que começaram a lembrar de outros natais, lembranças felizes de quando ela e a irmã eram crianças, os olhos se enchendo de lágrimas quando falavam sobre a mãe de Dani.

Depois de tantos anos, o pai falava da esposa com tanto amor... Dani tinha certeza de que se ela não tivesse morrido, ainda estariam juntos, apaixonados como sempre. A irmã de Dani abraçou o marido. Ele a acolheu com carinho...

E naquele momento Dani percebeu que não importava o bilhete, a frase, nem a recusa de Mel. A amava, precisava dela. E tinha certeza de que Mel a amava também. Não podia ficar de braços cruzados esperando que um milagre acontecesse.

Levantou do sofá tão bruscamente que os outros se assustaram. Pediu desculpas, agarrou o celular com pressa, e foi para a varanda.

A lua estava linda. Amarela, redonda, gigantesca. Perfeita para iluminar quem estivesse disposto a se arriscar nos mares perigosos e profundos do amor e da paixão.

Discou o número de Mel, e colocou o celular no ouvido, torcendo para ela atender.

 

O Natal era uma das épocas favoritas de Mel. A família reunida, a troca de presentes, a felicidade das crianças, as comidas maravilhosas que a mãe fazia... Mas naquele ano, nada tinha importância, nada parecia fazer sentido.

No dia 24, como todos os anos, a família de Mel estava reunida na casa dos pais dela.

Mel estava sentada ao lado de PH, com um prato na mão, empurrando a comida de um lado para o outro com o garfo. Não que o jantar não estivesse  ótimo, pelo contrário. Mel estaria adorando se não fosse pelo simples fato da comida parecer não ter gosto. E de estar estranhamente sem fome.

Quase não comeu. PH percebeu, mas não disse nada.

Antes da sobremesa, a mãe de Mel a chamou do lado de fora da sala:

- Melzinha, vem aqui um minuto...

A encontrou no corredor segurando o celular de Mel, que estava tocando sem parar:

- Acho melhor você atender.

Entregou o celular para ela e voltou para a sala. Mel olhou o visor e viu que era Daniele. Ainda demorou alguns segundos para atender, se esforçando para dizer com naturalidade, sem muito resultado:

- Oi, Daniele...

Dani percebeu que a voz de Mel estava estranha. Parecia triste. Foi carinhosa, quase se derreteu:

- Oi, Mel...

Houve um breve silêncio. Depois Dani voltou a falar:

- Queria tanto ouvir sua voz... Não é Natal sem você...

Outro silêncio. Mel ficou abalada. Dani tinha expressado exatamente o que ela também sentia. Não conseguiu responder. Dani percebeu, mas não demonstrou:

- Hoje é um dia pra gente ficar com quem é especial. Preciso te ver.

Dani ouviu um suspiro do outro lado da linha. Insistiu:

- Por favor...

Mel lutou contra a vontade desesperadora que sentiu de largar tudo e sair  correndo ao encontro de Dani. Era esse tipo de coisa impulsiva, sem sentido, que não queria mais na vida dela. Então respondeu:

- Hoje não.

Dessa vez foi Dani quem suspirou. Um suspiro triste, decepcionado. Mel sabia que tinha sido fria, seca, quase grosseira. Tentou amenizar:

- Tô na casa dos meus pais. Vou dormir aqui.

E como Dani continuasse em silêncio, completou:

- Amanhã.

A voz de Dani soou um pouco mais animada quando disse:

- Amanhã então. Onde?

- Amanhã a gente combina. Me liga depois do almoço.

- Tá bom...

Ficaram mudas novamente. Sem saber o que dizer. Nenhuma das duas querendo ser a primeira a desligar. Foi Mel quem conseguiu falar, com um tom de voz tão suave, que Dani percebeu que na verdade, ela queria continuar a conversa:

- Até amanhã então.

Já ia se despedir, quando Dani a interrompeu, com uma vozinha doce:

- Mel?

- Que?

- Amo você...

Mel foi pega totalmente de surpresa. Sentiu um arrepio delicioso percorrer seu corpo inteiro. Fechou os olhos, respirou profundamente, e tentando controlar a voz para não deixar transparecer o efeito das palavras dela, disse apenas:

- Até amanhã, Daniele...

Desligou, completamente consciente de que a voz tinha soado fraca, quase trêmula. Deixando Dani muito satisfeita com a reação intensa que conseguiu obter. 

 

Por volta do meio dia do dia seguinte, o celular de Mel tocou novamente:

- Bom dia!

- Bom dia, Daniele... Não era pra você ligar depois do almoço?

Dani tinha acabado de acordar. Mas a ansiedade era tanta, que a primeira coisa que fez foi ligar para Mel. Mentiu:

- Eu já almocei...

Mel sabia que era impossível. Provavelmente Dani tinha acabado de acordar.

- Sei...

- E então? Vamos combinar?

Dani parecia animada demais. Mel ficou com medo, tentou escapar:

- Não sei se devemos nos encontrar mesmo...

O silêncio que Dani fez foi tão profundo, que fez Mel mudar de idéia:

- Ok, você venceu... Seis horas, pode ser?

- Perfeito. Posso escolher o lugar?

- Onde?

- No píer da Lagoa...

Dani falou com uma voz inocente. Mas Mel duvidou das intenções dela. Era um lugar aonde sempre iam juntas. Ficavam horas lá sentadas de mãos dadas, admirando a vista fantástica da Lagoa enquanto ia anoitecendo... E então se tornava mais bonito ainda, com as luzes dos prédios do outro lado não conseguindo apagar o brilho da lua e das estrelas. Romântico demais, cheio de recordações demais para que a conversa não se transformasse em... algo mais.

Dani sentiu que Mel hesitava. Disse, muito séria:

- Não precisa ter medo... Vou me comportar, prometo...

 Foi uma jogada de mestre. Porque Mel imediatamente respondeu:

- Até parece, Daniele, que eu tenho medo de você. E é claro que você vai se comportar. Senão eu vou embora na mesma hora. Estamos entendidas?

- Sim, senhora...

O jeito implicante com que Dani falou foi tão engraçadinho, que Mel não conseguiu conter o riso. Dani aproveitou:

- Mais alguma coisa... amor?

Frisou bem a última palavra. Fazendo Mel se arrepiar de novo, e acabar achando melhor ignorar o tratamento que Dani usou de propósito (tinha certeza!) só para provocar. Disse, tentando parecer aborrecida:

- Tchau, Daniele...

E como da outra vez, desligou sabendo que Dani tinha percebido.

Dani ficou pensativa. Sabia que se quisesse, poderia seduzir Mel com facilidade. Mas se fizesse isso, no dia seguinte ela voltaria a se levantar e ir embora. E não era isso que Dani queria. Quebrou a cabeça tentando encontrar a solução. Depois de muito pensar, abriu um enorme sorriso.

 

 

Capítulo 42: Simples como Amar...

Mel chegou na Lagoa pontualmente. Faltavam cinco minutos para as seis quando estacionou o carro. Caminhou devagar em direção ao píer, já contando com o habitual atraso de Daniele.

Porém, quando chegou na pontezinha que ligava o píer à ciclovia, viu que Dani já estava lá sentada, olhando a paisagem, de costas para Mel.

Assim que deu dois passos em direção a ela, Dani se virou, como se sentisse a presença de Mel. Quando a viu, abriu um sorriso tão lindo, que Mel não teve como não sorrir de volta.

Dani se levantou e caminhou em direção a ela. Ficaram paradas uma na frente da outra, meio sem jeito. Até que Dani a abraçou, deu um beijo carinhoso no rosto dela, e disse simplesmente:

- Senti sua falta...

Mel aceitou, ou melhor, adorou o abraço, a frase, o beijo... Dani parecia amorosa, despretensiosa, sincera, com uma naturalidade sem segundas intenções que nunca tinha visto nela.

Caminharam juntas até a beira do píer, onde se sentaram lado a lado, com os pés apoiados na espécie de degrau que tinha embaixo, perto da água.

Por um momento, pareceu que tinham voltado no tempo, numa das inúmeras vezes em que tinham ficado ali do mesmo jeito.

Dani olhou para Mel, deixando o encantamento que emanava dela a atingir, sem medo. Não conseguiu conter a vontade que teve. Num impulso pegou uma mecha de cabelos que balançava com o vento e a ajeitou, prendendo atrás da orelha dela.

O gesto simples, delicado, fez o coração de Mel acelerar. Ela olhou para Dani. Os olhos dela estavam brilhando muito, um brilho diferente, que Mel desconhecia. Isso a surpreendeu completamente.

Então Dani sorriu, pegou na mão de Mel, e voltou a olhar para frente. Com um sorriso, sem tirar a mão da dela, Mel voltou a admirar a vista também.

 

Ficaram ali sentadas muito tempo. Até o sol se pôr, num espetáculo à parte, o céu mudando de cor, avermelhando atrás dos prédios do outro lado da Lagoa, e uma infinidade de tons de azul surgindo e mudando até se transformarem no escuro profundo, desafiado apenas pelas luzes de natal que enfeitavam os edifícios e que se misturavam ao brilho das estrelas. A lua estava cheia, linda, amarela, exatamente igual a da véspera.

Dani sentia o coração aquecido apenas com a presença de Mel ao lado dela. As mãos continuavam entrelaçadas. Moveu os dedos acariciando delicadamente os dela, antes de dizer:

- Vamos?

Mel estava achando tudo perfeito. Por isso se permitiu apenas curtir o momento com calma. Aquela era uma Dani que não conhecia, sem medos, incertezas nem barreiras, desprendida, dedicada, meiga...

A voz de Dani a obrigou a sair do transe em que se encontrava. Mel olhou para ela como se a visse pela primeira vez na vida, e perguntou:

- Pra onde?

Dani respondeu com um sorriso doce:

- Pensei em comer alguma coisa...

Mel também sorriu. Incrivelmente, tinha voltado a sentir fome. Respondeu:

- Ótima idéia...

Dani já estava de pé, e estendeu a mão para Mel, que aceitou sem protestar, achando fofo o jeitinho cuidadoso com que ela a ajudou a se levantar.

Atravessaram a pontezinha e continuaram caminhando lado a lado, trocando algumas poucas palavras, nada de importante, só amenidades.

Até chegarem no quiosque japonês. Dani parou e perguntou:

- Que tal?

Só para constar, porque Mel também adorava comida japonesa.

- Nem precisa perguntar, né?

Foi a resposta bem humorada dela.

Saborearam os sushis e sashimis sem pressa. A conversa correndo leve, charmosa, divertida, espirituosa.

Mel colocou um pouco de sal na quina do copo de saquê, olhou para Dani, e disse rindo, num tom de voz implicante:

- Que tal um concurso de saquê sexy?

Dani também riu, antes de dizer:

- Contanto que eu não tenha que competir com você...

- Por que não?

Dani a olhou tão profundamente que Mel desviou os olhos. Respondeu:

- Depois do que eu vi no meu aniversário, acho que não sou páreo para você...

Vindo de Dani, aquilo era muito mais do que um elogio. Mel ficou ruborizada, absolutamente encabulada. Dani achou uma graça Mel ter ficado envergonhada. Abriu um sorriso imenso, sem perceber.

Então de repente, do nada, Dani sentiu a mão de Mel pousar em cima da dela na mesa. A ouviu dizer:

- Até parece, Daniele... Eu vi a sua performance também...

Mel fez uma pausa. Dani ficou esperando que ela terminasse a frase. Depois de alguns segundos de suspense, Mel completou:

- Quase pedi sua bombinha emprestada...

O olhar de Mel foi tão provocante, que fez Dani estremecer. Respirou fundo, ficou totalmente sem palavras. E foi a vez de Mel sorrir, achando Dani linda desconcertada.

Foi então que os olhos voltaram a se encontrar. E as duas perceberam juntas, ao mesmo tempo, que estavam se apaixonando novamente.

 

Mel insistiu em deixar Dani na casa do pai. Antes de descer do carro, Dani ia perguntar se podia ligar para ela no dia seguinte, mas Mel foi mais rápida:

- Me liga amanhã.

Dani concordou, com um sorriso de orelha a orelha. Mel aproximou o rosto do dela, olhando fixamente para os lábios de Dani.

Dani teve apenas segundos para pensar. Mas nesse curto espaço de tempo a mente dela trabalhou numa velocidade louca. Mel tinha bebido, estava agindo por impulso, um beijo naquele momento podia pôr tudo a perder. Até porque Dani sabia que não iam conseguir ficar só nisso. Por mais que Mel se oferecesse, precisava resistir. Não podia arriscar tudo por um breve momento. Tinha um objetivo maior. Queria que fosse para sempre.

Quando Dani desviou a boca e a beijou no rosto, Mel não entendeu. Menos ainda quando ela saiu do carro, disse: “Boa noite. Dorme bem. Até amanhã...” rapidamente, e entrou na portaria. Ainda estava ali parada, perplexa, quando o celular tocou. Era ela:

- Mel?

- Oi?

- Esqueci de te dizer: amo você...

 

No dia seguinte, assim que acordou, Dani ligou para Mel:

- Oi... Vamos ao cinema?

- Ver o que?

- Você pode escolher...

Quando Mel chegou, Dani já tinha comprado os ingressos. Mel tinha escolhido uma comédia romântica, bem água com açúcar. Ficaram de mãos dadas o filme inteiro.

Logo na primeira cena de amor, Mel suspirou, e encostou a cabeça no ombro de Dani. Com um esforço gigantesco, Dani conteve a vontade que sentia de se virar e grudar a boca na dela.

Mel virou o rosto em direção à ela, a respiração atingindo Dani em cheio no pescoço, a arrepiando inteira. Uma verdadeira tortura. Isso quase a descontrolou. Mas Dani continuou firme.

Mel sentiu Dani estremecer quando roçou os lábios no pescoço dela de forma provocante. Mas estranhamente, nem a isso Dani correspondeu. Ficou ali parada dura, sem se mover, parecendo petrificada.

Só depois de um tempo, quando Mel desistiu e voltou a se sentar direito, um pouco menos próxima, Dani conseguiu relaxar novamente.

Em determinado momento, cometeu o erro de virar o rosto na direção dela, para comentar uma cena. Mel já a esperava, com a boca no lugar certo. Os lábios se roçaram, mas nem assim Dani cedeu. Interrompeu o contato, virando a cabeça rapidamente para frente, quase sem conseguir respirar direito.

Então Mel sussurrou baixinho no ouvido dela:

- Daniele...

Dani estava de olhos fechados, tentando fazer o coração bater menos alto no peito:

- Que?

- Se não me beijar agora, juro que mato você!

Dani se virou para Mel. Viu nos olhos dela a mesma urgência. Colaram os lábios quase com desespero, mergulhando de corpo e alma naquele beijo.

  

 

Capítulo 43: O Amor finalmente vence...

Quando as bocas se afastaram, Mel exclamou, com um alívio que chegava a ser engraçado:

- Ai, até que enfim!

A voz saiu alta demais para quem estava num cinema. Algumas pessoas reclamaram, pedindo silêncio, fazendo: “Psiu!”

Como resposta, Dani disse quase sussurrando:

- Vamos sair daqui?

Mel fez charme:

- Agora? E o final do filme?

Dani olhou para ela, adorando o sorrisinho que Mel tinha nos lábios:

- Sinceramente? Nem sei qual é a história...

O sorriso de Mel se tornou safado:

- É... Também não consegui prestar atenção...

Riram juntas, sempre baixinho, é lógico, para não reclamarem de novo, e saíram rapidinho da sala de projeção.

Foi chegarem do lado de fora e Mel sentiu o celular vibrando. O de Dani também vibrou. Atenderam:

- Alô? Oi Deca...

- Alô? Oi Raq...

Se entreolharam e riram. Deca e Raq falaram para as duas a mesma coisa:

- Tá a fim de tomar um chopinho com a gente?

Mel e Dani se entreolharam de novo. Concordaram tacitamente, com um olhar apenas. Achando fofa a intenção das amigas em convidá-las ao mesmo tempo. E depois responderam juntinhas:

- Tudo bem...

 

Deca e Raq estavam esperando no Belmonte do Flamengo. Ficaram muito surpresas quando viram Mel e Dani chegando juntas. Mas acharam melhor não fazer perguntas.

As quatro ficaram conversando, comendo e bebendo, alegres e descontraídas.

Lá pelas tantas, o celular de Mel tocou. Ela atendeu:

- Alô? Oi, Rê...

Na mesma hora Deca e Raq olharam para Dani, tensas. Mas Dani continuou bebendo o chope dela como se nada tivesse acontecido. O que Renata falou ficou óbvio quando Mel respondeu, muito sem jeito:

- Hoje não vai dar...

Surpreendentemente, Dani falou para Mel:

- Fala pra ela vir pra cá.

Mel pediu para Renata esperar um pouco, tirou o celular da orelha, e perguntou pra Dani, certa de que não tinha escutado direito:

- Que?

Dani repetiu tranqüilamente:

- Fala pra Renata vir pra cá.

Mel estava perplexa:

- Daniele, tem certeza?

Dani sorriu, e confirmou:

- Sem problemas...

Deixando todas na mesa boquiabertas. Sem conseguir se refazer do espanto, Mel chamou Renata, exatamente como Dani sugeriu.

 

A reação de Renata quando viu Dani sentada na mesa foi hilária. Ela quase deu meia volta e foi embora, apavorada.

Mas Deca a viu, e acenou para ela, fazendo com que todas da mesa a olhassem, e tornando a retirada estratégica inviável.

Depois de um “oi!” geral, Renata se sentou muito sem graça na cabeceira da mesa, entre Deca e Mel.

De início, a conversa foi difícil. Mel não falava nada, estava visivelmente pouco à vontade. Dani chegou bem perto dela e sussurrou baixinho:

- Amor, relaxa...

Mel olhou para ela. Dani a olhou de volta. Totalmente tranqüila, confiante, sorridente. Com uma segurança inabalável do que ela e Mel sentiam. As duas se pertenciam. Simples assim.

Mel percebeu, compreendeu a diferença. Com os olhos cintilando, disse no ouvido dela:

- Daniele, eu amo você...

Dani respondeu, com os olhos brilhando também:

- Eu sei...

Depois de uma pequena pausa, em que se fitaram intensamente, completou:

- Te amo também...

Dani colocou o braço atrás de Mel, em cima do encosto da cadeira. Mel sorriu, recostou o corpo no de Dani, pousou a mão carinhosamente na perna dela, e entrou animada na conversa.

 

 O coração de Dani entristeceu quando foram chegando no Cosme Velho. Não queria se separar de Mel. Estava com a mão na coxa dela, e a apertou inconscientemente. Mel sorriu, pegou a mão de Dani, e a manteve junto à dela enquanto passava a marcha, como adorava fazer.

Passou direto pelo Cosme Velho e entrou no Rebouças. Dani a olhou surpresa. Mel apenas sorriu. Quando saíram do túnel e Mel pegou a Lagoa em direção à Ipanema, Dani ainda perguntou, num tom de brincadeira, mas no fundo querendo ter certeza:

- Posso saber pra onde tá me levando?

Mel respondeu tranqüilamente:

- Pra nossa casa, amor.

Riu da felicidade dela. Beijou a mão de Dani e completou:

- Você não pensou que eu ia continuar te deixando dormir em outro lugar, né?

 

Nicole pulou em cima delas assim que entraram em casa. Abaixaram juntas para fazer carinho na cachorrinha. Mel comentou:

- Ela tava com saudade de você...

E depois, num tom totalmente diferente:

- Eu também...

Dani levantou, ficou atrás dela, tão próxima que os corpos se colaram quando fez Mel se levantar. Tirou os cabelos dela do pescoço, abrindo caminho para a boca que desceu quente, faminta na pele, fazendo Mel se arrepiar inteira, e jogar a cabeça para trás, facilitando o contato.

Dani a abraçou pela cintura, uma mão subindo por baixo da blusa e se fechando sobre um seio. Mel deixou escapar um gemido, sussurrou:

- Senti tanto sua falta, Daniele...

Como resposta, o toque no seio dela se tornou mais exigente. A outra mão desceu por baixo da mini saia, passeou um pouco pelas coxas, e se enfiou intimamente entre elas.

Dani sentiu o corpo de Mel amolecer, e arrancou a calcinha dela com pressa. Mel deixou escapar um gemido aveludado, quase um ronronar, quando Dani a tocou novamente entre as pernas.

Dani a acariciou sem pressa. Mordendo, beijando, chupando o pescoço e a nuca dela deliciosamente. Mel gemeu mais alto quando sentiu os dedos a preenchendo.

Fechou os olhos e se entregou completamente. Os dedos de Dani se moviam cada vez mais rápido, Mel acompanhava movendo os quadris sensualmente, se esfregando nela, gemendo cada vez mais...

A boca de Dani subiu para a orelha de Mel, mordiscando. Pediu no ouvido dela:

- Espera... Quero você na nossa cama...

Mel respondeu com dificuldade, a respiração difícil, a voz trêmula, o corpo já sacudido por pequenos espasmos:

- Ai, amor... Não vai dar... 

Dani então sussurrou de volta:

- Então goza, amor... Goza gostoso na minha mão...

Mel explodiu num orgasmo longo, intenso, regido com maestria por Dani, gemendo alto enquanto o corpo todo estremecia incontrolavelmente.

Levou um tempo para se recuperar e abrir os olhos. Se assustou, porque...  estavam no quarto, em frente à cama. Tinham chegado lá sem que ela percebesse. Gaguejou, ainda perdida:

- Nossa, amor...Você... Você me deixa... sem chão...

Dani parou de beijar o pescoço dela por um instante. Perguntou, provocante:

- Isso é uma reclamação?

Mel apenas riu. E respondeu:

- Não... É um elogio mesmo...

Virou de frente para Dani, a enlaçou pelo pescoço, e a beijou intensamente. Puxou Dani para a cama, sentando em cima dela sem desgrudar as bocas um só instante.

Arrancou a blusa de Dani com pressa, a boca já descendo em direção aos seios dela. Passou a língua, depois sugou vagarosamente. Desceu a boca pela barriga dela. Dani se contorcia deliciosamente em suas mãos.

A tocou entre as pernas, por cima do  jeans. Abriu os botões, enfiou a mão dentro da calça, arrancando um gemido. Também gemeu ao constatar o quanto ela estava molhada. A livrou do jeans e da calcinha, como a mesma urgência que fazia Dani a ajudar, implorando, quase desesperada:

- Ai, amor... Rápido...

Quando finalmente conseguiu jogar a calça e a calcinha dela no chão, abriu as pernas de Dani e mergulhou a boca entre elas. Saboreou demoradamente, de todas os jeitos e formas, fazendo Dani gemer em diferentes ritmos, alturas e tons.

Dani não teve escolha a não ser permitir que Mel a provocasse, a torturasse, a enlouquecesse ao máximo. A devorando com vontade, e então parando quando a sentia estremecer mais forte, não permitindo que Dani gozasse logo, dizendo:

- Não... Ainda não....

Mel sentiu que Dani a segurava pelos cabelos, a puxando com força, tentando impedir que ela parasse novamente, então a penetrou com os dedos e aprofundou o contato da boca, correspondendo à urgência dela, saciando completamente a necessidade de Dani, gemendo junto com ela.

Dani ainda tentou balbuciar, a voz sufocada, rouca:

- Não para... Vou...

Sem conseguir completar a frase. O corpo dela estremeceu, Dani gritou, e gozou violentamente na boca de Mel.

Mel se deitou sobre ela, e a beijou com voracidade, se movendo em cima dela com um desejo pulsante, premente.

Dani a recebeu de forma ardente, a apertando com força, passando as mãos pelas costas de Mel quase com desespero, a agarrando e puxando pela nuca, passando a língua no pescoço dela.

Mel se rendeu totalmente à sensação maravilhosa de estar nos braços de Dani, a pele pulsando no mesmo descompasso acelerado contra a dela, o arquejante respirar da união das bocas, lábios e línguas, as mãos que tocavam, pegavam, percorriam...

Conteve o gozo até sentir que o corpo de Dani se tencionava debaixo dela, e então explodiram juntas, alternando palavras desconexas e gemidos, até ficarem largadas, relaxadas, satisfeitas.

Dani a apertou com força. Mel roçou a boca no pescoço dela, subindo pelo queixo até chegar na boca, misturando as respirações novamente. Depois  apoiou as mãos na cama para poder olhar melhor para Dani. Acariciou o rosto dela por um instante, e desceu a mão para os seios com um brilho safado, insaciável no olhar. Dani correspondeu preguiçosamente. Mel então provocou, já se esfregando em Dani novamente, e colocando a mão entre as pernas dela:

- Tá cansadinha, amor? Deixa que eu faço tudo então...

Exatamente como Mel tinha previsto, Dani não resistiu ao desafio. A resposta foi ao mesmo tempo maliciosa e imperativa:

- Não... Eu faço... Vem cá...

E a puxou para cima, de um jeito que Mel não esperava, a fazendo se encaixar com as pernas abertas no rosto dela.

Dani abriu um enorme sorriso, e mergulhou a língua entre as coxas de Mel.  Com agilidade, quase perícia, arrancou vários e maravilhosos gemidos, provocando um nível de prazer insano, delirante. Que Dani interrompia cada vez que a sentia pulsar mais rápido.

Mel reclamou, suplicou, implorou, mas só gozou quando Dani finalmente resolveu deixar.

 

 

Capítulo 44: Todo fim é um novo começo...

O dia já estava quase amanhecendo quando Mel colou o corpo nas costas de Dani, a apertou e encostou os lábios na nuca dela, num último beijo de boa noite. Dani gemeu deliciosamente, já meio adormecida.

Então Mel virou para o outro lado, e Dani a acompanhou, a abraçando com força por trás. Mel suspirou, se acomodando mais contra o aconchego cálido, carinhoso, fremente do corpo dela. E então, finalmente, fechou os olhos, e adormeceu.

 

No dia seguinte, Dani foi a primeira a acordar. Ainda estava ansiosa com um pequena coisa: as alianças. Pegou a caixinha na bolsa, colocou na mesinha de cabeceira ao lado de Mel, deitou novamente, a envolveu com o braço, e ficou esperando ela despertar.

Quando Mel acordou, deu de cara com Dani a olhando apaixonadamente e dizendo:

- Bom dia, amor!

Mel sorriu, respondeu um: “Bom dia!” totalmente feliz, e a beijou. Mas  estranhou Dani acordar tão cedo. Brincou:

- Deu formiga do seu lado da cama, amor?

Apesar do sorriso com que Dani respondeu, Mel percebeu que ela estava tensa. Isso a preocupou:

- Daniele... Que foi?

Na mesma hora Dani compreendeu a inquietação de Mel. Não querendo dar margem a nenhum tipo de mal entendido, explicou:

- Não é nada demais... Só queria te dizer que...

Mel já tinha se sentado na cama com as pernas cruzadas, nervosa. Dani ajoelhou na frente dela, pegou a caixa na mesinha ao lado, e a abriu, deixando Mel bem mais calma quando viu as alianças e começou a entender. Dani completou:

- Das bilhões de pessoas que existem no mundo, eu também escolhi você.

Colocou as alianças na palma da mão, e continuou:

- Queria muito que você aceitasse... de novo... Prometo não te decepcionar dessa vez..

Mel abriu um sorriso de puro alívio. Segurou Dani pelo queixo e a puxou para um beijo estalado nos lábios:

- Precisava esse suspense todo? Quer me matar de susto, é?

Dani respondeu maliciosamente:

- Se um dia eu quiser te matar, pode ter certeza que vai ser de outra coisa...

Com um sorriso provocante, Mel respondeu:

- É bem mais fácil eu matar você...

- Isso é o que nós vamos ver... Mas antes...

Mel pegou a aliança que Dani ofereceu, e sugeriu, antes de estender para ela a mão esquerda:

- Dessa vez vamos colocar ao mesmo tempo...

Dani concordou. Fizeram exatamente como Mel propôs, sorrindo e se olhando nos olhos docemente.

Então o olhar de Dani mudou. Ela mordeu o lábio inferior, consciente de que Mel acompanhava o movimento, também com um sorriso insinuante nos lábios.

Dani disse olhando bem dentro dos olhos de Mel:

- Agora a nossa outra questão, amor...

Aproximou a boca da dela, os lábios quase se roçando. Mel aceitou a provocação e tentou beijá-la, mas Dani desviou a boca no último momento, rindo desafiadoramente.

Mel riu de volta, de forma absolutamente hipnotizante e sedutora. Então  segurou Dani pelo pescoço, e a puxou. Dominou sem dificuldade a boca deliciosa, que já esperava pela dela sedenta, desejosa em ceder.

Com um gemido abafado, Dani entreabriu os lábios, e se entregou voluntariamente. Permitindo que Mel a conduzisse por inúmeras e  profundas ondas de prazer.

 

Os dias se passaram sem que elas percebessem. Como sempre acontece com quem está feliz.

Penduraram o quadro que Mel tinha feito para Dani como presente de aniversário no quarto.

Dani se desfez em elogios para Mel enquanto olhava para ele. Mel apenas sorriu, e respondeu:

- A modelo é que é perfeita...

Deixando Dani deliciosamente sem jeito...

 

Pegaram de volta todas as roupas que Dani tinha levado para a casa do pai. Enquanto tentava em vão estabelecer um pouco de arrumação no armário onde Dani empilhava tudo de forma absurdamente desorganizada, Mel comentou:

- Você, hein? Veio aqui de tarde, pegou suas roupas sem dizer nada... Imagina o que eu senti quando cheguei do trabalho e percebi que a sua parte do armário tava vazia...

A simples recordação fez os olhos de Mel se encherem de lágrimas. Dani largou o que estava fazendo e a abraçou. A beijou no rosto, no pescoço, nos cabelos, e depois levemente nos lábios.

Explicou, fazendo charme, querendo acabar com a tristeza dela:

- Desculpa, amor... Mas se eu viesse com você em casa, nunca ia conseguir resistir...

Fazendo Mel abrir um enorme sorriso, e colar a boca na dela.

 

Finalmente tinham se acertado. Não tinham mais nada a resolver. Podiam apenas aproveitar cada momento juntas. E nesse ritmo suavemente doce e tranqüilo, deliciosamente ardente e intenso, o ano chegou ao fim...

 

No dia 31, almoçaram na casa dos pais de Mel. A mãe quase a matou de vergonha, quando as recebeu na porta dizendo:

- Daniele... Que bom ver você! Pensei que ia ter que colocar a minha filha no soro... Você já viu a Melzinha sem fome? Só de pensar é incrível, né? Pois é, mas sem você essa menina não consegue nem comer...

 

O jantar foi na casa do pai de Dani. E foi a vez de Dani querer ter um buraco para enfiar a cabeça quando a irmã soltou:

- Mel, querida, só você mesmo pra agüentar a Dani! Brincadeirinha... Coitadinha da minha irmã, passou o Natal toda tristinha, choramingando pelos cantos... Né, Dani?

 

Foram passar o reveillon na festa que PH estava dando no apartamento dele. Ele as recebeu implicando:

- De alianças novamente... Gostei de ver! Como diria Shakespeare: “um grande amor nos sustos se confirma”...

Deca também brincou:

- Espero que 2008 seja um ano de muita harmonia!

Raq foi muito mais direta:

- Ou seja: chega de brigas, né?

Mel e Dani riram, trocaram um olhar cúmplice e se beijaram, felizes.

E passaram assim a noite inteira. O tempo todo juntinhas, numa alegria impossível de esconder.

Estavam bebendo e conversando com Raq e Deca, quando uma música conhecida começou a tocar. Adivinhem qual? “Piece of me” (Britney Spears). Aquela do aniversário de Dani...

Dani e Mel se olharam, e caíram na risada. Dani pegou Mel pela mão e a puxou para a pista de dança.

Colou o corpo no dela, a segurando pela cintura com aquele olhar safado que deixava Mel toda arrepiada. Mel segurou Dani pela nuca, sorrindo maliciosamente para ela. Dani umedeceu os lábios, provocando. E aumentando o sorriso de Mel.

Aproximaram os lábios, no jogo provocante que gostavam tanto, desviando as bocas cada vez que quase se encostavam. Até que Mel não agüentou, e colou a boca na de Dani, num beijo tão intenso que as deixou sem fôlego.

Mel desceu a boca pelo pescoço de Dani, enquanto deslizava a mão pelas costas dela. Dani estremeceu, sem deixar de mover o corpo contra o dela de forma insinuante.

Mel a puxou pela cintura, mordendo o lábio inferior e olhando Dani de forma absurdamente sensual. Dani se aproximou, querendo beijar Mel novamente. Mas ela desviou a boca, instigando Dani com um sorriso sedutor.

Então foi a vez de Dani enfiar os dedos na nuca de Mel, a segurando pelos cabelos, fazendo Mel soltar um gemido de prazer.

Quando o rosto de Dani chegou bem perto do dela, Mel fechou os olhos, antecipando o beijo. Mas Dani apenas roçou os lábios nos dela.

Mel voltou a abrir os olhos. Dani a olhava como se fosse devorá-la. Os olhos queimando, incendiários.

Encostou os lábios rapidamente nos de Mel, e depois se afastou novamente. Mel reclamou, com a voz suplicante:

- Ai... Que maldade, amor...

Mas Dani ainda repetiu a tortura várias vezes, até sentir a respiração de Mel completamente ofegante. E então, finalmente mergulhou a boca na dela quase com desespero.

Deca e Raq ficaram observando as duas se beijando, sorrindo felizes com a paz que finalmente tinha se estabelecido entre as amigas, antes de se beijarem também.

 

Quando a contagem regressiva começou, estavam com Deca, Raq, PH e João  nas pedras do arpoador, esperando os fogos de Copacabana. Dani abraçando Mel por trás, os braços ao redor da cintura dela.

Mel se virou, e a beijou. No mesmo instante, ouviram os estouros anunciando que o ano tinha virado.

As duas sorriram, uma contra a boca da outra, lembrando do primeiro beijo que tinham trocado exatamente há um ano atrás.

Se separaram para falar com os amigos. Depois ficaram ali abraçadinhas, olhando o espetáculo indescritível de luzes, formatos e cores.

Um casal passou por elas, a mãe segurando uma menininha de aproximadamente quatro anos. Mel acompanhou a garotinha com o olhar, enquanto Dani continuava hipnotizada pela pirotecnia.

A voz de Mel soou muito suave e doce quando disse:

- Daniele...

Dani respondeu ainda sem desviar os olhos do céu:

- Ãh?

- Você já pensou em ter um filho?

A pergunta pegou Dani totalmente de surpresa. Ela olhou para Mel, só então percebendo que ela a fitava com intensidade. Gaguejou, sem conseguir responder:

- Eu... Não sei... Quer dizer...

Mel deu um daqueles sorrisos calmos, tranqüilos, que sempre faziam Dani parar e pensar duas vezes, antes de dizer:

- Porque eu ia adorar ter um filho com você...

Dani sabia que Mel a estava observando atentamente. Mas foi sincera ao responder:

- Nunca tinha pensado nisso, mas... Bom, você sabe que eu adoro crianças... Uma nossa, então...

Mel presenteou Dani com um olhar cintilante:

- Te amo muito, sabia?

Dani abriu um sorriso imenso, lindo, daqueles que eram reservados apenas para Mel. E respondeu:

- Também amo muito você...

As bocas voltaram a se encontrar num beijo suave, cheio de doçura. Mel abraçou Dani por trás, e ficou roçando os lábios no pescoço dela enquanto observavam novamente os fogos de artifício.

Dani relaxou o corpo contra o de Mel, que falou como se deixasse escapar um pensamento:

- O PH pode doar o esperma...

Dani retrucou, divertida:

- O PH é seu primo em primeiro grau, amor, não pode ter um filho com você...

Depois de alguns segundos de silêncio, Mel soltou:

- Quem disse que eu é que vou ter?

Pousou as duas mãos significativamente no ventre de Dani. E sentiu todos os músculos dela ficarem tensos.

A primeira reação de Dani foi prender a respiração, absolutamente apavorada e perplexa. Exatamente como da primeira vez que tinham feito amor e se percebera completamente apaixonada por Mel. Mas era uma Dani muito diferente da de então. Não sentiu vontade de fugir. Pelo contrário, permitiu que a voz do seu coração fluísse.    

Aquela era a Mel que conhecia tão bem. Impulsiva, fascinante, surpreendente. A vida com ela poderia ser tudo, menos chata e previsível. Além disso, Mel conseguia fazer Dani a acompanhar em todos os sentimentos e emoções maravilhosos que antes a deixavam com tanto medo. Essa era, sem dúvida, uma das coisas que Dani mais amava nela.

Fechou os olhos, e imaginou a barriga crescendo, o bebê nascendo,  mamando, engatinhando, dando os primeiros passos... Com Mel ao lado dela... E sorriu.

Mel ficou esperando pacientemente que Dani rompesse o silêncio. Sentiu quando o corpo dela aos poucos voltou a relaxar.

Dani acariciou as mãos de Mel, que continuavam pousadas no ventre dela. Depois se virou com um sorriso lindo e passou os braços ao redor do pescoço de Mel.

Mel sorriu de volta, enlaçando Dani pela cintura, e balançou a cabeça interrogativamente, como quem pede uma resposta.

Sem deixar que o sorriso escapasse dos lábios, Dani sacudiu a cabeça, num nítido, empolgado e convicto: “sim”.

 

 FIM

 

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