AMOR A QUALQUER PREÇO

By Diedra Roiz

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Capítulo 1: Vestida para matar...          

Era uma noite como outra qualquer. Uma festa do pessoal da faculdade como outra qualquer. Então porque estava tão nervosa? Sentindo um friozinho na barriga, uma sensação de algo no ar?

Tudo bem, era a primeira vez que ia sair solteira, depois de terminar um namoro de 4 anos com o Edu. Sim, definitivamente era isso. Nervosismo de reestréia! Riu, se olhando no espelho.
Mas no fundo sabia que não era só isso... Tinha terminado sem motivo aparente. Apenas uma inquietação fora do normal. Que tinha começado a mais ou menos 3 meses atrás...

 

Era o primeiro dia de aula do 3º período. Estava sentada na primeira fileira de cadeiras, entre Carlinha e Lu, suas amigas inseparáveis, quando de repente, ela entrou na sala.

A pele muito branca contrastava com os cabelos negros com mechas.. azuis!... muito lisos cortados num chanel com pontas compridas na frente e mais curto atrás, deixando a nuca à mostra. Óculos escuros, calça jeans rasgada e manchada de tinta... Ao invés de livros, um capacete de moto na mão. Tudo na aparência dela era selvagem, rebelde, quase agressivo... E Vivi não conseguiu deixar de a acompanhar com os olhos.

Claro que Marcela – depois acabou sabendo o nome dela – se tornou o assunto preferido da turma. As informações chegavam aos ouvidos de Vivi de forma involuntária: Marcela tinha destrancado a matrícula depois de 2 semestres afastada, era a quarta geração de uma família conhecida de advogados, juízes e desembargadores, e estava na faculdade de direito obrigada. 22 anos, guitarrista e vocalista de uma banda de rock, só se vestia de preto. Fumava maconha, tinha piercing na orelha e na língua, um tribal tatuado nas costas em cima das nádegas, era absurdamente estilosa e gostava de mulheres...

Especulações ou não, despertaram em Vivi um interesse quase insuportável. Que a fazia sair da cantina, da biblioteca, de uma rodinha de amigos, qualquer lugar aonde Marcela chegasse.

De vez em quando não conseguia se conter – pura curiosidade! Era o que dizia para si mesma – e olhava disfarçadamente para Marcela, que sempre sentava no fundo da sala de óculos escuros, fones do MP3 no ouvido, a cabeça encostada na parede e os pés em cima de uma cadeira na frente dela, numa postura evidente de “Cagando e andando”.

Até o dia fatídico na xerox.

 

Tinha acabado de pegar umas 30 folhas que o professor de direito civil tinha pedido para lerem. Virou equilibrando o fichário, os códigos, as xerox, quando levou um encontrão que fez tudo o que segurava ir direto para o chão. Já ia soltar um:

- Não olha por onde anda não?

Quando percebeu que tinha esbarrado em... Marcela. Ao contrário de tudo o que Vivi esperava dela, Marcela foi completa e absolutamente simpática:

- A culpa foi minha... Desculpa... Deixa eu te ajudar..

Vivi ficou parada, ou melhor, paralisada sob o efeito da voz deliciosa, que pareceu entrar dentro dela. Marcela entregou o fichário e os livros para ela,  e se abaixou para catar os papéis espalhados pelo chão.

Tirando Vivi do estado de torpor em que estava para se abaixar na frente dela. Tão perto que Vivi começou a reparar em pequenos detalhes:  Marcela usava uma pulseira de couro no pulso direito, e um anel prateado grosso no dedão esquerdo. Que ficavam perfeitos nela, aliás...

Se levantaram ao mesmo tempo. Ficaram paradas frente a frente. Marcela tirou os óculos, e Vivi viu os olhos dela pela primeira vez. Doces, muito doces, mas sem nada de calmos... Olhos que pareciam um mar negro tão profundo que se perder neles se tornava fácil...

- Desculpe mesmo...

Vivi apenas gaguejou, sem conseguir desviar os olhos dos dela:

- Tu...Tudo bem...

Louca para ir embora e esquecer aquela sensação estranha, surreal, desconhecida. Mas Marcela estendeu a mão, com um enorme sorriso:

- Prazer... Marcela...

Vivi apertou a mão que a outra oferecia... E sentiu todos os pelinhos do corpo se arrepiarem. Soltou a mão rapidamente, e se virou para fugir dali.

Mas Marcela falou, fazendo com que ela parasse:

- Seu nome... Você não me disse...

Meio de costas, sem olhar para Marcela de novo, ela respondeu:

- Viviane.

E rapidamente fugiu. Sentindo que, mesmo sem entender porque, tinha acabado de viver um daqueles momentos inexplicavelmente marcantes.


Pela milionésima vez, Vivi se olhou no espelho. Tinha se arrumado toda, caprichando no visual. Sabia que naturalmente já era uma garota bonita.

20 anos, cabelos ruivos compridos, olhos de esmeralda, pequenas sardas na pele sempre bronzeada, corpinho esculpido por anos de dança.

Normalmente fazia sucesso. Era muito paquerada, coisa que sempre rendia brigas intermináveis com Edu.

Naquele dia, porém, estava insegura, nervosa, ansiosa e... se sentindo apenas razoável.
Se olhou uma última vez, analisando o visual. Na verdade, estava perfeita, de parar o trânsito, linda demais. Só que ela não enxergava...

 

Quando chegou, a festa já estava muito cheia, a fumaça dos cigarros nem deixava ver direito a galera dançando e bebendo. Cumprimentou alguns colegas de turma que fumavam um baseado na porta, os olhos rapidamente percorrendo a sala e encontrando o que procuravam: a dona da festa.

Marcela já vinha na direção dela, com aquele enorme sorriso que sempre dava de graça quando a via.
- Oi Vivi! Que bom que você veio!!
Dois beijinhos e Marcela voltou a desaparecer na festa.
Ficou um pouco desapontada... Decepcionada até... Não que Vivi gostasse de mulher. Claro que não, né? 

Apenas... gostava da companhia de Marcela! Depois do episódio da xerox, tinham se tornado muito amigas.  Vivi batia com ela papos enormes, absolutamente interessantes, inteligentes, divertidos...                                                                                                                  Se bem que sempre se arrepiava quando no meio da conversa, a mão de Marcela pousava displicentemente na coxa dela. Sabe aquelas pessoas que não conseguem falar sem tocar? Pois é... Assim era Marcela. Para total desespero de Vivi, porque... A cada toque, sentia um calor insano se espalhar pelo corpo inteiro.
Perdida nesses pensamentos, nem percebeu Carlinha chegando com duas latas de cerveja na mão.
- Oi Vivi! Amiga, isso aqui ta uma louccura! Chegou agora?
- É...
- Nossa, você caprichou, hein! Taa vestida para matar!

 

 

Capítulo 2: Um Estranho Pensamento...

A Carlinha, amiga de Vivi desde os 10 anos de idade, era talvez a pessoa que mais a conhecia no mundo. E também era, provavelmente, a pessoa mais engraçada do mundo.
- Todo mundo já ta sabendo que vvocê e o Edu terminaram.
- E como será que essa not&iacutte;cia se espalhou tão rápido? Eu só contei pra você...
- É, eu dei uma ajudinha... (e rriu, sabendo que no fundo Vivi ia gostar. Como eu disse, Carlinha conhecia Vivi como ninguém...)
Colocou uma das latinhas na mão de Vivi e a arrastou para o meio da sala.
Vivi não soube como, no meio da confusão, Carlinha conseguiu um sofá vazio onde se sentaram. E é lógico, conhecendo a Carlinha como Vivi conhecia, um sofá com uma vista privilegiada da sala. Carlinha começou:
- E aí, amiga, viu alguma coisa interessante?
- Não e nem tô a fim dissoo...
- Até parece, né? Produziida desse jeito? Com certeza já tem até um alvo...
Os olhos de Vivi percorreram a sala, e encontraram Marcela parada, fumando um cigarro. Será que era o efeito da cerveja, ou a forma dela segurar o cigarro e tragar era absurdamente provocante?

Vivi ficou com uma cara meio abobada. Marcela percebeu, porque riu antes de sair do alcance da vista dela.
- Tá tudo muito bom, tá ttudo muito bem, mas vou dar uma voltinha...
E dizendo isso, Carlinha levantou e saiu sala afora. Foi então que do nada, Marcela apareceu e se sentou do lado de Vivi no sofá.
- Cerveja? (disse estendendo uma latinhha)
- Obrigada... (respondeu pegando a cervveja e pensando: “mais uma dose, claro que eu tô afim!”)
- Qual é a graça?

“Caramba, eu nem tinha percebido que tava rindo sozinha... que idiota!” – foi o que Vivi pensou. E respondeu, muito sem graça:
- Nada...
- Na verdade eu vim aqui com uma miss&aatilde;o... (e ela a olhou tão profundamente que por um momento Vivi prendeu a respiração)
- Ãh? Como assim?
- Digamos que tem uma pessoa a fim de vvocê...
Será que o coração de Vivi poderia bater mais rápido que isso sem maiores complicações? Ela achava que não...

Mil coisas passavam na cabeça dela, mas no meio de todos os pensamentos havia um, o melhor e mais assustador de todos, e ainda mais assustador porque não era para Vivi estar gostando tanto da idéia: será que Marcela estava a fim dela?

 

Capítulo 3: Vira vira vira...              

           Vivi ficou quieta, sem saber o que falar. Evitou olhar para Marcela, com medo que pudesse, com uma simples troca de olhar,  a deixar perceber o que  estava sentindo.
Vivi virou a latinha de cerveja de uma vez só. Marcela a olhou estranhando, e depois riu, divertida. Vivi teve a impressão que Marcela ia dizer alguma coisa, mas daí Carlinha apareceu dançando, e dizendo um “toma isso, tá divino!” - colocou um copo cheio de Caipirinha na mão de Vivi, e sumiu novamente.
Vivi provou a bebida. Estava fortíssima, desceu queimando pela garganta, e de certa forma, isso foi reconfortante.
- Quer provar? (perguntou pra Marcela, que a olhava surpresa.)
- Não, obrigada. Na verdade eu nnão gosto de misturar... bebida... aliás, eu acho que você também não deveria...
- E por que não? (a frase soou uum pouco agressiva, e Vivi aproveitou para dar um bom gole em desafio. Não sabia porque, mas estava irritada com Marcela.)
- Tudo bem, não está maiss aqui quem falou...
Deu mais uns três goles, fingindo que olhava para a festa, mas louca para saber se Marcela a estava olhando.                                                                       Nessa altura, Vivi já estava ficando um pouco tonta. Ela sempre tinha sido fraca para bebida, bastavam dois chopes para a deixar colocada... E aquela Caipirinha estava um perigo!                                                                               Com certeza foi por isso, e só por isso, que Vivi olhou bem para Marcela  e soltou a pergunta que não queria calar:
- Quem tá a fim de mim?
Ela demorou para responder? Para Vivi pareceu que ficou um século olhando firme, ou tentando parecer firme, para Marcela antes da resposta:
- O Guilherme...
- Guilherme? (“Quem diabos era Guilhermme?”)
- Aquele ali. (Marcela disse apontando para um cara bem bonito por sinal, que acenou e veio vindo na direção delas.)
Marcela se levantou bem na hora em que o tal carinha chegou e parou na  frente de Vivi.
- Guilherme, Vivi. Vivi, Guilherme. (e saiu fora.)
O carinha, coitado, ficou sorrindo um sorriso bobo, parecia que ele já tava meio alto, sei lá...                                                                                                    Vivi passou a mão nos cabelos, jogando eles para trás, com muita vontade de matar Marcela, quando viu que ela estava parada do outro lado da sala observando atentamente.
“Ah, é assim? Então tudo bem...”
Do nada, tascou o maior beijo na boca do tal do Guilherme, que retribuiu   puxando Vivi pra sentar no colo dele no sofá.                                                                     Peraí, peraí, o negócio já tava ficando fora do controle demais. Não tinha nada a ver Vivi ficar sentada no colo de um cara que nem conhecia só porque... por que mesmo? É, não tinha o menor sentido...                                                                                                                   O cara não deve ter entendido nada, porque Vivi levantou quase de um salto e saiu de perto dele o mais rápido possível.
- Caramba, Vivi, o que foi que deu em vvocê? (disse uma Carlinha toda suada de tanto dançar chegando perto dela.) O cara era muito gato...
- Você viu a Marcela? (ela n&atillde;o estava mais em nenhum lugar da sala)
- Ih, a Marcela foi pro quarto dela, diisse que tava com dor de cabeça... Olha só: me pediram pra levar esse brownie pra ela, você leva pra mim?
Sem esperar a resposta, Carlinha tascou o tal brownie na  mão de Vivi e se afastou dançando.                                                                                                            

Vivi não hesitou. Nem por um momento. Entrou no corredor escuro com o coração batendo forte no peito.

 

Capítulo 4: A Ver Estrelas...                                                                                           

   A porta do quarto estava entreaberta. Pela fresta da porta viu Marcela deitada na cama, os olhos fechados, a luz fraca do abajur dando ao rosto dela um toque quase mágico de tão belo...  

                                                             

Ficou ali parada, estática, olhando boquiaberta.

Como se sentisse a presença dela, Marcela abriu os olhos. Quando viu Vivi, sorriu.
- Entra...encosta a porta, por favor....
Vivi entrou. Não só fechou como trancou a porta... o coração já não batia, martelava... sentou na beira da cama e Marcela pousou a mão na coxa dela com uma intimidade tão natural quanto foi para Vivi dar o brownie  para ela na boca.
Quando acabou, Marcela limpou os dedos de Vivi os lambendo de uma forma absolutamente sensual. Vivi estremeceu, e Marcela percebeu, porque a olhou fundo nos olhos.

Quando os olhos se encontraram, os de Vivi continham um apelo mudo, indiscutível. Os de Marcela eram indecifráveis, como tudo nela.                                      

Então, Marcela a puxou gentilmente, e quando as bocas se tocaram pela primeira vez, para Vivi foi como se o mundo mudasse com aquele beijo diferente de todos os outros...
Aquele foi, sem dúvida, o momento de prazer mais intenso de toda a vida de Vivi. Um desejo que ela nem sabia que existia, e que chegava a doer...

A textura da pele de Marcela, o cheiro, o piercing na língua... Vivi nunca tinha sentido nada parecido...

Devagar, com uma lentidão intensa e deliberada que deixou Vivi ofegante e trêmula, Marcela tirou a roupa dela peça por peça.

As mãos e os lábios experientes percorreram o corpo dela inteiro de uma forma quase angustiante.                                                                                                             Vivi, por outro lado, arrancou as roupas de Marcela o mais rápido que pôde, ansiosa demais para ser delicada como ela. A tocou e beijou com uma voracidade puramente instintiva. Com falta de ar, quase sufocando de tanto desejo...
- Calma... (Marcela disse no ouvido de Vivi antes de a beijar novamente.)                                Mas Vivi era pura pressa... com os braços ao redor do pescoço de Marcela, gemia alto sem perceber...então a urgência de Vivi se tornou a de Marcela.                                   Se apossou de Vivi com uma fome igual à dela, a fazendo gemer, suspirar, implorar e se oferecer toda para ela.                                                                        A boca em seus seios, provocando de uma forma quase torturante, as mãos macias a desvendando intensamente, tocando o corpo de Vivi inteiro, abrindo, revelando segredos, tocando entre as coxas, enfiando os dedos como se lhe desvendasse a alma profundamente...                                                                                                                                                                                    Vivi quase desfaleceu, quando a boca de Marcela desceu, e mergulhou entre as pernas dela, a devorando até Vivi se contorcer desnorteada e  gritar o nome dela quando o gozo finalmente veio...      

E então Marcela já estava em cima dela, esfregando o corpo no de Vivi, gemendo no ouvido dela...                                                                                                                                                                            

       Mas Vivi precisava de outra coisa para ficar satisfeita. A empurrou, trocando de posição com Marcela. E então pode procurar e encontrar seu caminho no corpo maravilhoso debaixo dela.

A pele de Marcela era escandalosamente branca, quase etérea... Suave, macia e quente... Tão quente que chegava a queimar... Com um prazer profundo, latente, Vivi explorou aquele calor... Também a fez gemer e se contorcer, saboreando Marcela inteira, com a boca, com os dedos...

Parou no interior das coxas, se deliciando com a textura, com o cheiro... As mãos de Marcela a puxavam, se enfiavam nos cabelos dela, mas Vivi ainda  continuou ali beijando e lambendo por algum tempo.    

E então, quando finalmente encostou a boca e sentiu o gosto dela, fechou os olhos e se deixou levar pela deliciosa sensação de tontura, loucura, desterro... Como um redemoinho que a mergulhasse num lugar misterioso, que a fizesse ser sugada por um maravilhoso buraco negro, que a levasse a tocar e provar  estrelas...

Suspirando e gemendo, se entregou ao abismo de sensações deliberadamente sem medo.

 

Capítulo 5: O Outro Lado da Moeda...                                                                        Marcela Albuquerque de Moraes era o que tipicamente se chama de rebelde sem causa. Os pais preferiam dizer ovelha negra. E Marcela adorava... Se orgulhava mesmo... das duas definições.                                                                           Filha única, acostumada desde pequena a ter tudo o que queria e a fazer o que bem quisesse, se recusava propositalmente  a fazer parte do “discreto charme da burguesia”. Não era à toa que era fã incondicional de Cazuza.                                                                                                                     De tanto esfregar na cara dos pais uma diversidade de ficantes, amantes e namoradas, tinha conquistado o direito de ter seu próprio apartamento. E em troca de cursar direito na UERJ, uma moto, um carro, uma mesada bem abonada e cartões de crédito. Ficava até fácil ser rebelde, né?                                                                               A vida de Marcela seria perfeita se (tem sempre um se...) não fosse o fato de estar louca e completamente apaixonada por Gisele. A loira monumental de 35 anos, incrivelmente sexy e deslumbrante que só a fazia sofrer. Porque além de ser casada (com uma mulher que a sustentava), Gisele estava longe de corresponder.                                                                                                        Usava Marcela descarada e declaradamente. Esfregava na cara dela que só a queria para fazer sexo.  A maltratava, mandava embora, desprezava terrivelmente, e depois a chamava de volta. E quanto mais Gisele pisava, mais Marcela ia correndo.                                                                                                    Claro que estar apaixonada não impedia que Marcela se divertisse. Dormia com outras mulheres, apesar de sempre ficar com uma certa ressaca moral depois. Afinal de contas, no coração dela não tinha espaço para mais ninguém. Gisele era dona dele inteiro.                                                                                       Por isso mesmo Marcela ficou na cama deitada ao lado de Vivi, achando que tinha feito uma das maiores burradas da vida dela.                                                    Verdade que a primeira vez que tinha visto Vivi, na xerox da faculdade, tinha sido simpática apenas por causa da aparência dela. Tinha achado Vivi linda,  gostosa, muito gata mesmo.                                                                                 Ela ser hetero não era o problema. Marcela estava cansada de servir de experiência, de matar a curiosidade sexual de várias heteros.                                                                                                                   Mas era diferente com Vivi. Ela era especial. Eram amigas. E não queria perder a amizade dela.                                                                                                                               Tinha percebido que Vivi estava diferente no momento em que ela chegou na festa. Porém, tinha pensado que era porque tinha acabado de terminar com o namorado.                                                                                                                Guilherme tinha implorado para Marcela interceder por ele. E na hora em que estavam conversando, viu Vivi olhando com uma cara abobada na direção dele... Por isso e só por isso os apresentou, saiu fora e ficou observando se a atuação dela como cupido tinha dado certo...                                                                  Foi quando o celular tocou. Era Gisele. Dizendo que não ia aparecer e cancelando o encontro que tinham marcado no dia seguinte. Porque ia viajar com a esposa.                                                                                                    Marcela ficou louca de raiva, com ciúmes, possessa... Para ela acabou ali a festa. Foi para o quarto e se deitou. E logo depois, Vivi apareceu.                                       A presença de Vivi, a forma como ela tinha trancado a porta, dado o bolo para ela na boca e a olhado com os maravilhosos olhos verdes cintilando depois... Tinha mexido com Marcela. Mais do que mexido... O desespero com que Vivi se entregou, e a urgência com que a devorou depois... Tinha deixado Marcela fora de controle... Apesar de não ter experiência com mulheres, sem dúvida Vivi tinha um talento natural para a coisa...                                                                                                                          Marcela afastou o último pensamento, se sentindo culpada de novo. Nada justificava ter perdido completamente a cabeça daquele jeito. Não sabia nem como ia conseguir olhar para ela de novo...  

Vivi se atirou na cama ao lado de Marcela. A cabeça rodava, e não era por causa da bebida. Um sentimento inexplicável a confundia.                                         Marcela estava muda, nem a olhava. Passou a mão pelos cabelos, tirando eles do rosto, a pulseira de couro um elemento a mais do charme dela. E então falou, ainda olhando para o teto:

- Olha só... Vivi, eu... não quero que você fique chateada nem que mude comigo... Nós somos amigas, eu não... eu não devia ter... Me desculpa...

Desculpas? Vivi não acreditou no que estava ouvindo... Marcela estava se desculpando por ter dado a ela a experiência mais incrível que já tinha vivido?

Marcela não entendeu nada. Até se assustou com a reação dela: Vivi caiu na gargalhada. Ou melhor, riu da cara de Marcela. Depois respondeu:

- Assim parece que você me atacou, ou algo parecido... Não foi bem o que aconteceu, né?

Quem dera... Foi o pensamento de Vivi. Vendo a cara perplexa de Marcela, continuou:

- Tá tudo bem, Marcela... Fica fria...

Mas Marcela continuava preocupada com ela:

- Mas você... você nunca tinha...

- Pra tudo tem uma primeira vez, né?

Vivi respondeu rapidamente. Querendo fazer parecer que tinha sido uma coisa sem importância. E rezando para que Marcela mudasse logo de assunto. Em vão:

- E aí? O que você achou?

Essa era a Marcela que Vivi conhecia. Nada convencional. Sem noção, eu diria.

- Tá querendo elogios?

Essa foi a forma que Vivi encontrou para devolver a pergunta totalmente descabida.

Marcela ficou totalmente sem jeito. E entendeu que tinha passado dos limites. Por instantes apenas. Porque logo percebeu que Vivi estava de novo rindo dela.

Marcela pegou o travesseiro e atirou na cara de Vivi. Que jogou o travesseiro de volta nela. Marcela a segurou pelos pulsos, prendeu os braços de Vivi contra a cama, acima da cabeça dela, a imobilizando. O riso morrendo na garganta delas quando os olhares se encontraram e viram que a brincadeira tinha ficado novamente séria.

Os olhos de esmeralda de Vivi hipnotizando Marcela com seu brilho intenso... As bocas se aproximando quase que naturalmente...

Foi quando o celular de Marcela tocou. Quebrando o clima completamente.  Mais ainda quando Marcela atendeu e viu que era Gisele.

- Oi Gi...

Mesmo que Marcela não tivesse dito o nome, pelo tom de voz derretido dela, Vivi já sabia quem era.

Marcela esqueceu completamente de Vivi e todo o resto. Continuou:

- Fala, meu amor... Agora? Tá, tudo bem... Tô lá em 15 minutos... Beijo nessa sua boca gostosa... Tchau...

Quando olhou novamente, Vivi já estava completamente vestida:

- Vou indo...

Marcela pediu:

- Espera só um minutinho...

Se vestiu correndo e acompanhou Vivi até a sala, que agora já estava bem mais vazia. Vivi ainda tentou encontrar Carlinha, mas nem sinal dela. Marcela gritou:

- O último a sair bate a porta!

E saiu quase correndo atrás de Gisele. Com Vivi caminhando silenciosamente atrás dela.

 

 

Capítulo 6: Que vá tudo pro Inferno...

Quando Vivi chegou em casa os pais já estavam dormindo. A porta do quarto da irmã estava aberta, ou seja, ela ainda não tinha chegado.

Foi direto para o quarto. Deitou na cama de sapatos mesmo. Levou a mão ao rosto, respirou fundo... Ainda tinha nos dedos o cheiro de Marcela... Um cheiro que a fez sentir uma coisa gostosa por dentro...

Sentou na cama de repente. O que é que estava pensando? Só podia estar louca mesmo... Nunca tinha gostado de mulher...

Mas de alguma forma estranha, indefinível, o que tinha acontecido entre ela e Marcela tinha mudado a vida de Vivi para sempre. Porque queria mais do que tudo voltar a sentir o que tinha sentido naquele quarto com ela...

Num impulso, pegou o telefone e ligou para Carlinha:

- Caramba, Vivi! Onde você se meteu? Te procurei horrores, pela festa inteira...

Vivi suspirou fundo. Sempre tinha contado tudo para Carlinha. Dessa vez não ia ser diferente:

- Ai, amiga... Você não imagina o que aconteceu... 

Carlinha respondeu naquele tom de confidente eterna:

- Fala, amiga... Que foi?

Vivi tomou coragem, e soltou de uma vez:

- A Marcela e eu... Nós... transamos...

Carlinha engasgou do outro lado:

- O que?

- Isso que você ouviu.

Depois de segundos de silêncio, Carlinha bombardeou Vivi de perguntas:

- Como assim? Do nada? E aí, como foi? Foi bom? Quer dizer... como é? Ai, amiga, que doideira! Quero saber tudinho...com detalhes!

Vivi riu da curiosidade da amiga. E contou tudo, exatamente como tinha acontecido. Carlinha apenas ouviu, soltando de vez em quando uma ou outra exclamação surpresa. Quando Vivi terminou, Carlinha deu sua sentença:

- E eu pensava que só os homens eram escrotos...

Imediatamente Vivi defendeu Marcela:

- Também não é assim, né?

Carlinha insistiu:

- Putz, Vivi... Ela não foi exatamente sensível, né?

Mas Vivi não concordou:

- Ela foi sincera...

Carlinha fez um silêncio significativo. A preocupação dela era aparente quando perguntou:

- E você?

Uma pergunta com milhares de interpretações possíveis. Nenhuma que pudesse deixar a voz de Vivi menos trêmula:

- O que você quer dizer?

Carlinha não fez rodeios:

- Quero saber se você tá apaixonada pela Marcela...

Vivi negou. Riu. Disse que era absurdo. Que Carlinha estava delirando. Com tanta convicção que convenceu a amiga.

Mas não conseguiu conter a vontade insana que sentiu... aproximou a mão do nariz, e voltou a aspirar com prazer o cheiro que Marcela tinha deixado nela.

 

Enquanto isso, Marcela estacionava a moto em Ipanema, na calçada em frente ao Empório.

Esperou mais de meia hora até Gisele finalmente aparecer. Ela nem desceu do carro. Mandou Marcela entrar e a levou para o motel mais próximo. E depois de três horas fazendo sexo de todas as formas e modos possíveis, se livrou de Marcela novamente. Depois de Marcela pagar a conta sozinha, é lógico...

Nem a levou de volta. Deixou Marcela na porta do motel mesmo.

Marcela quase gritou de raiva. Teve que pegar um táxi para chegar onde estava a moto:

- Rua Maria Quitéria, por favor.

Com as lágrimas escorrendo pelo rosto dolorosamente.

 

 A amizade de Vivi e Marcela não terminou por causa do que tinha acontecido. Pelo contrário. Vivi ficou muito mais próxima dela. Isso deixou Marcela aliviada e feliz.

Vivi, por outro lado, passou a se sentir incomodada quando Marcela falava de Gisele. E a esperar ansiosamente que Marcela colocasse a mão na coxa dela enquanto conversavam.

Mas isso ela escondeu até de Carlinha. Como um insano, profano, inconfessável segredo. Que extravasava noite após noite antes de dormir, deitada na cama sozinha, de olhos fechados, desejando que fosse a mão de Marcela a tocando debaixo das cobertas.

 

Numa 6ª feira, Vivi foi assistir um show da banda de Marcela pela primeira vez. Na Casa Rosa, em Laranjeiras. Carlinha não quis ir com ela, preferiu sair com um carinha que estava a fim.

Quando Vivi chegou, Marcela estava numa rodinha de amigos, alguns da turma delas da faculdade, e a recebeu com um enorme sorriso:

- Vivi! Se você não viesse eu nem sei...

Pura verdade. Estava realmente contente com a presença dela.

Parecendo esquecer todos os outros, puxou Vivi para um canto.

Tirou um vidrinho do bolso. Abriu, derramou um pozinho branco na parte de cima da mão e ofereceu:

- Special K. Quer?

Vivi sabia muito por alto o que era Special K. Um tipo de tranqüilizante de animais que as pessoas cheiravam em festas, boates e raves... Fosse o que fosse, não importava. Vivi não usava drogas.

- Não, obrigada.

- Ok.

Marcela aproximou a mão do nariz, e cheirou o pó rapidamente. Depois fungou um pouco e esfregou o nariz como se estivesse coçando.

- Vamos. Ainda tenho que mudar de roupa antes de começar.

Vivi não disse nada. Mas detestou o que viu. Não conhecia esse lado dela.

Marcela subiu no palco, e Vivi voltou para o grupo de conhecidos.

Quando o show começou, Vivi quase engasgou com a cerveja que estava bebendo.

Marcela estava com uma calça de couro preta justíssima, e botas do exército. No lugar da pulseira de couro, ela estava usando uma munhequeira preta. Como os outros integrantes, usava uma camiseta (preta também, é lógico!) com o nome da banda escrito em letras vermelhas: “The Mitidos”.

Só que Marcela tinha arrancado a gola, as mangas e a parte de baixo da camiseta, deixando os braços, o colo e a barriga todos de fora. 

Para alívio de Vivi, por baixo da camiseta (dava para ver perfeitamente), ou do que tinha sobrado dela, Marcela estava usando um top.

Como descrever o que Vivi sentiu quando a ouviu cantar pela primeira vez? Já sabia que Marcela tinha uma voz linda, quando ela falava era perceptível. Mas era mais do que isso...

A voz dela continha um emoção que dominava, às vezes doce e suave, às vezes cortante, rascante, desesperada... Deliciosamente entorpecente...

E a forma como ela abraçava e dedilhava a guitarra também era... Inacreditavelmente envolvente... desconcertante... hipnótica...

Vivi demorou alguns minutos para se recompor e perceber que Marcela era canhota. Tocava a guitarra azul – como as mechas do cabelo dela - do lado oposto do que todos os outros faziam.

Mais uma pitada estranhamente sensual e atraente nos inúmeros e maravilhosos mistérios dos quais Marcela era feita...

Nervosa com todas as sensações e vontades inconfessáveis que sentia, Vivi se aproximou do palco, e gritou sem pensar:

- Gostosa!

Marcela viu Vivi se aproximar e colocar as mãos em concha na boca para gritar. Esperava que ela gritasse qualquer coisa, menos aquilo.

Sem saber o quanto de verdade tinha na aparente brincadeira dela, retribui com um sorriso imenso. Que Vivi devolveu quase a cegando com o vibrante resplandecer dos olhos verdes...

Quase, porque não teve como deixar de ver a loira alta, maravilhosa, inconfundível, que entrou e se postou grudada no palco bem na frente dela.

Vivi acompanhou o olhar de Marcela, querendo morrer quando descobriu o motivo dela estar babando, toda derretida.

Principalmente porque, tinha que dar o braço a torcer, a loira era um mulherão escândalo, um monumento mesmo.

Todos pareciam ficar hipnotizados por ela. Menos Vivi, que só olhava para Marcela.

A primeira música acabou, e as pessoas aplaudiram. Marcela começou a tocar sozinha. Sem sair do estilo bem rock and roll da banda. Os outros se entreolharam, perdidos em princípio, porque não era a música que eles tinham ensaiado. Mas Marcela precisava aproveitar o momento. Era perfeito. Começou a cantar, e eles a seguiram:

 

“De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
se você não vem
e eu estou a lhe esperar
só tenho você... ah... no meu pensamento
e a sua ausência é todo o meu tormento
eu quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno”

Cantou e tocou o primeiro refrão de uma forma provocante, absolutamente sedutora. Arrancando suspiros da platéia.

Deixando Vivi cada vez mais louca por ela, apesar de Marcela cantar o tempo todo com os olhos fixos em Gisele. A música era para ela. E Gisele parecia estar adorando. Isso empolgou Marcela. O segundo refrão foi ainda mais passional, quase selvagem de tão intenso:

 

“De que vale a minha boa vida de playboy
se entro no meu carro e a solidão me dói
onde quer que eu ande tudo é tão triste
não me interessa o que de mais existe
eu quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro inferno”

 

Então, ela deu um suspiro, se jogou de joelhos na beira do palco, para ficar cara a cara com Gisele, e a beijou na boca apaixonadamente.

Arrancando gritos e assobios da platéia, enquanto o outro guitarrista fazia o início do solo sozinho.

O beijo cinematográfico fez Vivi sentir um nó por dentro. Mais estranhamente ainda,  não conseguiu parar de olhar fixamente para elas.

Gisele se afastou, e Marcela se levantou num salto. Terminou o solo junto com o outro cara. Gritou:

- Te amo, Gi!

E voltou a cantar de uma forma absolutamente visceral:

“Não suporto mais
você longe de mim
quero até morrer
do que viver assim
só quero que você me aqueça nesse inverno
e que tudo mais vá pro
inferno!

Eu quero que você me aqueça nesse inverno

e que tudo mais vá pro inferno!

e que tudo mais vá pro inferno!
e que tudo mais vá pro inferno!

(“Quero que vá tudo pro inferno” – Roberto Carlos/Erasmo Carlos)

 

Terminaram a música com as palmas lá em cima. Começaram a terceira música. Mas Gisele tinha sumido.

Logo depois Marcela a viu, com uma mulher que tinha acabado de chegar, e que Marcela já conhecia, porque... era ninguém menos do que... a mulher de Gisele.

Vivi percebeu que do nada, Marcela começou a cantar mecanicamente, a voz fria, sem nenhuma energia. E depois com raiva, absolutamente agressiva.

Imediatamente descobriu o motivo: a loira estava aos beijos com outra.

Disfarçadamente, se aproximou das duas, a tempo de ouvir a outra dizer:

- Amorzinho, não sei porque você insistiu em vir aqui. Só tem criança e o som é horrível...

A loira deu de ombros e respondeu:

- Tem razão, amor... Vamos sair daqui...

E as duas saíram.

Vivi olhou para o palco. Marcela parecia transtornada. Talvez as outras pessoas não percebessem. Mas Vivi sim. Ver Marcela assim fez o coração de Vivi doer... Sem questionar porque, grudou no palco e gritou:

- Linda!

Marcela olhou para ela e deu um sorrisinho. Triste... Mas um sorriso. Que incentivou Vivi a continuar:

- Maravilhosa! Absoluta! Apertadinha!

Fazendo Marcela cair na risada. E depois presentear Vivi com um novo sorriso. Que a fez estremecer porque... Achou total e deslumbrantemente lindo.

 

 

Capítulo 7: Introdução ao lado negro...

Quando o show acabou, Vivi foi procurar Marcela. Ela estava num canto com o pessoal da banda, fumando um baseado. Ofereceu para Vivi, que recusou, agradeceu e disse:

- Marcela, tô indo...

- Tá de carro?

Os pais de Vivi tinham dado um carro para ela e a irmã dividirem. Por isso  nem sempre Vivi estava de carro. Aquele era um dos dias que estava a pé.

- Não. Mas tá tranqüilo, eu pego um táxi.

Marcela contestou prontamente:

- Nada disso! Você vai comigo! Espera só um pouquinho...

Como recusar?

Só que depois de fumar, Marcela cheirou mais um pouquinho do tal Special K, bebeu uma cervejinha... Começou a parecer que estava um pouco alterada. E que não ia embora tão cedo. Por isso Vivi disse:

- Marcela, tenho mesmo que ir. Falei pra minha mãe que não ia chegar tarde...

Marcela deu uma última tragada no cigarro que estava fumando, o jogou no chão e falou:

- Então vamos.

Passou o braço nos ombros de Vivi e a guiou para onde tinha estacionado. Vivi não conseguiu deixar de estremecer com o contato. Ficou toda arrepiada. Marcela percebeu, mas felizmente, interpretou de outra forma, porque perguntou:

- Tá com frio?

Vivi mentiu, respondeu que sim... E foi muito pior, porque Marcela começou a esfregar as mãos nos ombros e nos braços de Vivi. Fazendo ela esquentar, mas de uma maneira bem diferente da que pretendia...

Então chegaram no carro. Marcela abriu a porta para ela, totalmente sem noção das sensações que as mãos dela tinham despertado.

Vivi entrou e colocou o cinto. Marcela sentou, ou melhor, se jogou no banco ao lado. Rodou a chave, passou a marcha e saiu cantando pneu, em alta velocidade.

Fazendo Vivi se perguntar se era uma boa idéia deixar ela dirigir. Não deu tempo de dizer nada. Foram paradas por um guarda. Não tinham nem como discutir. O estado de Marcela era evidentemente lamentável.

O policial pediu que Marcela descesse do carro, mas ela disse, sorrindo calmamente:

- Não tem como a gente resolver de outro jeito?

A postura do policial mudou completamente, como se Marcela tivesse dito as palavras mágicas. Marcela continuou, fazendo uma cara suplicante:

- Seu guarda, eu sei que tô errada... É a primeira vez que faço isso... Juro... Por favor... Alivia pra mim...

Enquanto falava puxou uma nota de 50 reais da carteira e sutilmente deixou na mão do guarda, que disse:

- Tudo bem. Dessa vez passa... Mas é melhor sua amiga dirigir...

Marcela concordou, obediente e solícita. Vivi desceu, deu a volta e quando chegou do outro lado, Marcela já estava no banco do carona.

Depois que saiu com o carro, Vivi desabafou, completamente indignada:

- Que absurdo, Marcela! Você deu dinheiro pro guarda!

Marcela a olhou sem entender nada. Como se o que tivesse feito fosse a coisa mais natural do mundo:

- Ué, que que tem?

Vivi continuou:

- Acha isso certo?

- Certo?

Marcela riu alto, antes de completar:

- O certo seria o que? Deixar ele me prender, por acaso?...

- Como assim, te prender?

- Por causa disso, ora...

Vivi quase teve um treco quando Marcela abriu o porta luvas e pegou um saco plástico cheio de maconha, um pedaço de papel de seda, e começou a apertar um baseado. Quase gritou:

- Você é maluca?

Marcela voltou a rir. Sem parar de continuar enrolando o troço.

Vivi se dividiu entre a revolta por Marcela agir de forma absurda, e a reação puramente física que sentiu quando ela lambeu sensualmente a seda para fechar o baseado...

- Fica tranqüila... Meu pai me dá dinheiro suficiente pra comprar a polícia do Rio de Janeiro inteira...

Foi aí que Vivi não agüentou:

- Não acredito, Marcela... Logo você, que adora bater no peito dizendo que não se rende ao sistema... E tem a coragem de ficar compactuando com coisas como essas....

Marcela torceu o nariz:

- Ai, que papo careta...

Nossa, a frase teve o poder de tirar Vivi do sério. Quase gritou:

- Nunca pensei que você fosse tão...

Mas se segurou na hora, evitando falar o resto. Marcela a olhou com ar de desafio debochado, do tipo “não aceito ser criticada”:

- Tão o que? Continua...

Vivi não se lembrava de já ter sentido uma fúria tão grande. Disparou:

- Alienada! Inconseqüente! Filhinha de papai!... E quer saber? Joga essa porcaria fora!

Marcela ficou muda de surpresa. Vivi tinha falado sem se importar se ela ia gostar ou não. Sem medo de contrariar. De um jeito que ninguém fazia com Marcela há muito tempo...

E para completar, tinha arrancado o saco plástico da mão dela, deixando o vento levar todo o conteúdo antes de devolver o saco vazio para ela. A mesma coisa com o baseado, que ela destroçou sem deixar um pedacinho de seda para contar a história.

Marcela ficou um tempo observando a ruiva que dirigia ainda bufando de irritação.

- Vivi?

De nada adiantou a vozinha doce que fez. Foi fuzilada pelos olhos verdes. Que tomados pela raiva pareciam mais lindos do que o normal...

Falou de um jeito que sabia que tornaria impossível para Vivi continuar chateada com ela:

- Eu não fiz por mal... Ah... Você não vai deixar de ser minha amiga por causa disso, vai?

Vivi continuou olhando para frente. Mas Marcela percebeu que os olhos voltaram ao normal quando ela respondeu:

- Não, Marcela. Sou sua amiga de verdade. Exatamente por isso nunca vou passar a mão na sua cabeça quando você fizer merda!

Marcela sorriu... Achando Vivi maravilhosamente incrível e linda...

Mas não durou muito tempo. Logo em seguida sentiu o estômago revirando, uma coisa subindo... Marcela abriu o vidro elétrico correndo:

- Tô enjoada...

E vomitou do lado de fora da janela.

 

Depois disso, Marcela ficou de olhos fechados, em silêncio, até chegarem no prédio dela no Leblon. Para falar a verdade, a sensação de tonteira e mal estar não era novidade para ela.

Vivi estacionou na garagem, a ajudou a sair do carro (ela estava meio que, digamos, trocando as pernas) e a acompanhou até o apartamento. Ia se despedir, mas Marcela pediu:

- Vivi... Você pode dormir aqui?

Não teve como não concordar. Não ia ficar tranqüila se deixasse Marcela daquele jeito sozinha.

Ligou para a mãe avisando que ia dormir na casa de uma amiga. Depois de algumas perguntas básicas de mãe, ela concordou, despreocupada. Tinham uma relação de confiança aberta e clara, que Vivi nunca tinha quebrado.

Quando desligou, Marcela estava na cozinha, parada com a porta da geladeira aberta, olhando lá para dentro e rindo, como se estivesse vendo alguma coisa muito divertida.

- Que que você tá fazendo aí?

Marcela se assustou, e derrubou a caixa de leite, sujando todo o chão.

Vivi olhou em volta, procurando um pano ou papel toalha para limpar a sujeira. Como se adivinhasse o pensamento dela, Marcela disse:

- Deixa. Amanhã a empregada limpa.

Pegou um pedaço de pizza gelada, passou – acreditem se quiserem – doce de leite nela, e começou a comer com desespero.

- Larica...

Explicou, falando com a boca cheia. Depois de devorar com gosto aquele negócio repulsivo, pegou uma garrafa de Coca Cola, bebeu no gargalo mesmo, e foi para o quarto esquecendo a geladeira aberta.

Vivi sacudiu a cabeça, reprovando. Pegou a caixa de leite vazia no chão, colocou na pia. Fechou a geladeira, com cuidado para não pisar na poça de leite, e só então foi atrás dela.

Entrou no quarto e levou um susto, porque... Marcela tinha arrancado a roupa, jogado as cobertas no chão e se atirado na cama inteiramente nua. 

Não soube dizer quanto tempo ficou admirando a beleza de Marcela deitada de bruços na cama, abraçando o travesseiro. Com um sentimento intenso, o coração ecoando como se fogo líquido corresse nas veias...

Tentou se controlar. Pensou em cachorrinhos mortos, baratas, lesmas... Qualquer coisa capaz de neutralizar o desejo... Sem muito resultado...

O tribal parecia tatuado na mente de Vivi ao invés de nas costas de Marcela. Absurdamente atraente, delicioso, sensual. Como tudo nela, aliás.

Com muito esforço desviou os olhos. Tirou os brincos de argola, as sandálias e o vestido. Encontrou uma camiseta dela jogada numa cadeira - do Pink Floyd com a gola arrancada. Preta, como todas as roupas de Marcela - e vestiu.

Deitou ao lado de Marcela na cama de casal completamente tensa, sem querer encostar nela, tentando se manter o mais longe possível.

Mas assim que Marcela sentiu o peso no colchão, se virou para Vivi, e a puxou pela cintura, resmungando sonolenta:

- Vem... Faz o que você quiser comigo...

Pega de surpresa, incapaz de continuar controlando ou negando o que queria,  Vivi colou os lábios nos dela, aceitando o convite...

Marcela correspondeu, suspirando deliciosamente. Invadindo a boca de Vivi com a língua, e depois descendo os lábios pelo pescoço dela, provocando gemidos.

Marcela a livrou das roupas  com urgência, as mãos parecendo famintas pela pele dela. Fazendo Vivi se entregar inteira.

A boca de Marcela subiu para a orelha de Vivi, mordiscando o lóbulo, causando arrepios... E então, sussurrou baixinho:

- Te amo, Gi...

 

 

Capítulo 8: Migalhas dormidas do teu pão...

Vivi gelou. Sentiu todos os músculos do corpo ficarem rígidos. O pior foi a dor que sentiu, como se alguma coisa implodisse dentro do peito.

As carícias apaixonadas de Marcela continuaram, mas tinham perdido todo o encanto, porque não eram para ela.

Tentou se livrar das mãos de Marcela inutilmente. Ela resmungou e lutou para poder continuar tocando em Vivi. Depois rolou, deixando Vivi presa debaixo dela... Encostou a boca na de Vivi, enroscou a língua na dela...  O piercing deslizando entre elas, a dureza do metal frio um estimulante erótico a mais...

No mesmo instante, o corpo de Vivi parou de obedecer. Amoleceu, derreteu, se ofereceu...

Marcela começou a se mover contra ela, as coxas encaixadas deliciosamente.... Vivi perdeu o ar, o chão, toda e qualquer noção além do incontrolável vulcão que explodiu no contato eletrostático das peles... Inevitável... Incontrolável... Irresistível...

Gemeu baixinho quando Marcela escorregou as pernas entre as dela e os sexos se encostaram. Causando um prazer inédito, insuportável, incoerente, de respirar umidamente o que sentia por ela...

Apaixonada, ardente, exigente... Era a febre de Marcela em cima dela. Que contagiou Vivi completamente. Se deixou levar como se não houvesse nada além daquele momento.

Passou a mão nas costas de Marcela, a apertando mais contra ela... Adorando  receber a respiração dela ardendo descompassada no pescoço, entre gemidos sussurrados de forma absolutamente inebriante e incoerente...

Marcela sentiu o corpo estremecer, abriu os olhos por um instante e, mesmo sem entender porque, as ondas de prazer aumentaram imensamente quando se deparou com... o verde profundo dos olhos que a acompanharam num gozo  embriagante e intenso.

 

Vivi ficou ali deitada, o corpo de Marcela largado, adormecido, pesando deliciosamente em cima dela.

Se sentindo culpada, angustiada, envergonhada, perdida... Por não ter conseguido resistir... por ter transado com Marcela mesmo sabendo que ela pensava que estava com a tal Gisele...

Mas por um breve momento, os olhos tinham se encontrado, e Vivi tinha tido quase certeza de que Marcela soube que era ela...

Não, estava tentando se enganar. Querendo achar uma desculpa, algum tipo de alívio, e mais do que tudo, coragem para encarar Marcela no dia seguinte.

Marcela se mexeu sensualmente, ainda dormindo. Apertou Vivi com mais força, suspirou junto ao ouvido dela... Despertando novamente a sensação traiçoeira que fazia Vivi se arrepiar inteira.

Vivi passou a mão no rosto, nos cabelos... Sem saber o que fazer.

Tudo bem, sentia uma atração incontrolável por Marcela. Mas isso não queria dizer que fosse algo mais do que físico. Não podia estar apaixonada por ela, podia?

Já não tinha mais como afirmar que não gostava de mulheres. Na verdade não sabia. Nunca tinha olhado para outras, Marcela era a primeira e única, só tinha olhos para ela...

Mas apaixonada? Impossível! Detestava o jeito anarquista e caótico dela, a forma como não se importava com nada nem ninguém. Com exceção da tal Gisele. Por quem parecia nutrir um sentimento masoquista nada saudável também.

Estar apaixonada por ela não fazia o menor sentido.

Marcela se moveu novamente, descendo um pouco o corpo e encostando a cabeça no ombro de Vivi.

O melhor que tinha a fazer era tirar Marcela de cima dela, se vestir e fingir que nada tinha acontecido. Mas antes, precisava aproveitar, só um pouquinho...

Acariciou os cabelos dela. Marcela sorriu. Vivi não resistiu: a beijou no rosto, na testa, aspirou o cheiro dela... Encostou a boca nos lábios deliciosos, que imediatamente corresponderam...

Foi tão bom o que aquele beijo roubado a fez sentir, que desistiu completamente de a afastar. Envolveu Marcela num abraço apertado, e suspirando de prazer, acabou adormecendo também.

 

No dia seguinte, Marcela se deixou ficar deitada, semi-adormecida, preguiçosamente de olhos fechados. Se recusando a acordar e voltar à realidade, porque... estava com um sentimento maravilhoso, que não sentia há muito tempo.

Tinha tido um sonho delicioso com Gisele. Onde tinham feito amor de uma forma totalmente diferente. Depois Gisele a tinha abraçado e beijado de um jeito que... Marcela gostaria que fosse o de sempre...

O mais engraçado, estranho mesmo, é que no sonho tinha visto... dois olhos muito verdes... Muito parecidos com os olhos de...

Foi quando sentiu um movimento atrás dela. Abriu os olhos num susto, olhou para trás e gelou... Quando viu Vivi deitada de bruços nua na cama ao lado dela.

Levou as mãos à cabeça, com um profundo desespero. Não sabia muito bem o que tinha acontecido, o que tinha feito... Esperava que nada que deixasse Vivi ofendida, chateada nem magoada com ela...

A única coisa que lembrava era de uma sensação de prazer misteriosamente intensa e... verde... Levou as mãos à cabeça de novo, pensando: “Puta Merda!”

Mas apesar do arrependimento, Marcela era apenas humana... Inevitável que aproveitasse para deixar os olhos percorrerem Vivi inteira...

Muito, mas muito linda mesmo... Mais do que isso... No rosto uma expressão meiga, quase ingênua... Que em contraste com as formas nada inocentes do corpo bem feito faziam uma combinação irresistivelmente sedutora e atraente.

Um brilho verde tirou Marcela daqueles pensamentos... Vivi tinha acordado e a olhava de um jeito preocupado, quase tenso...

Ia abrir a boca para falar, quando a voz da mãe soou no corredor, dizendo:

- Marcela! Preciso conversar com você!

E então a mãe já estava dentro do quarto. O primeiro impulso de Marcela foi se colocar na frente de Vivi, tentando esconder a nudez dela. Felizmente, a mãe tapou os olhos e saiu assim que percebeu que Marcela tinha companhia.

Marcela olhou para Vivi, que estava - mais do que vermelha - roxa de vergonha. Ficou sinceramente sem graça por causa dela:

- Ai, Vivi... Nossa, desculpa... Mil desculpas mesmo... Vou ver o que minha mãe quer... Me espera aqui, por favor? Desculpa... Só um momento...

Vestiu uma calça jeans larga e a camisa do Pink Floyd que Vivi tinha usado na véspera, e saiu, fechando a porta atrás dela. 

Vivi sentou na cama, o rosto ainda queimando, completamente sem graça... Vestiu a calcinha e o vestido, colocou as sandálias e os brincos, e - que jeito? - ficou sentada na beira da cama esperando Marcela.

 

- Antes da srta. falar qualquer coisa, a porta do seu quarto estava aberta.

Foi a primeira coisa que a mãe disse, já sabendo que Marcela ia reclamar.

A segunda foi:

- Filha, até quando você pretende viver assim?

O que Marcela não pretendia era ouvir mais um dos intermináveis discursos sobre amadurecer e ter responsabilidade, por isso respondeu:

- Não acredito que você entrou no meu quarto a essa hora da manhã pra me dizer isso...

- São duas horas da tarde, Marcela!

Marcela deu de ombros:

- Minha banda tocou ontem. Deixei recado na sua secretária, mas pra variar, você não deve ter tido tempo...

Fazer a mãe se sentir culpada por trabalhar demais era uma estratégia que Marcela usava desde os sete anos de idade... Sempre dava certo:

- Não fala assim, filha... Fiz compras pra você. Daqui a pouco o supermercado entrega. Também trouxe a faxineira, pra tentar dar um jeito nessa bagunça.

- Tudo bem. Mas fala que no meu quarto é só fazer a cama e varrer o chão... Se mexer nas minhas coisas mato ela!

Deu as costas para a mãe e voltou para o quarto com a displicência de sempre.

 

Vivi desligou o celular, depois de avisar a mãe que já estava indo, e olhou mais uma vez para a porta, nervosa. Esperava que Marcela não quisesse conversar sobre o que tinha acontecido na véspera.

Com certeza ela não lembrava direito. E Vivi não queria ter que contar, muito menos entrar em detalhes, porque... Só de lembrar se arrepiava inteira.

Marcela estava olhando para ela quando acordou. Mas tinha sido tão rápido que nem tinha dado tempo de ver a expressão dos olhos dela.

Olhou em volta. No geral, o quarto de Marcela era uma apologia ao caos. O pesadelo de qualquer mãe. Parecia que um furacão tinha passado por ali e deixado tudo revirado, de pernas para o ar.

Roupas e sapatos espalhados pelo chão, em cima da cadeira, da mesa... O armário inteiro deveria estar vazio...

Uma tv de plasma daquelas que ficam penduradas na parede na frente da cama, um home theater com caixas de som enormes, com milhares de CDs e DVDs de música jogados por cima e dos lados, empilhados tão tortos, que Vivi teve certeza de que poderiam cair a qualquer momento.

Na escrivaninha um laptop aberto, papéis amassados, canetas espalhadas, bonequinhos dos “Beatles” e do Submarino Amarelo, um microfone antigo - do tipo que se usava nos tempos do rádio - num pequeno pedestal, e dois cinzeiros cheios de restos de cigarro e cinzas.

E prateleiras, muitas prateleiras, uma verdadeira biblioteca de códigos e livros de direito que pela poeira acumulada, pareciam nunca ter sido lidos.

Impossível saber a cor das paredes, porque eram totalmente revestidas por  pôsteres de shows e bandas, colados quase que um por cima do outro, com alguns símbolos da anarquia pichados com “spray” preto, numa verdadeira poluição visual que era... a cara de Marcela.

Ao lado da cama duas “cases” - com o violão e a guitarra dela - e um amplificador com um monte de fios embolados caindo por todos os lados.

Foi quando a porta se abriu, e Marcela entrou novamente no quarto.

Marcela voltou para o quarto torcendo para que Vivi não comentasse a noite passada. Preferia não lembrar, com certeza.

Porque nunca, em todas as vezes que tinha ficado mal a ponto de esquecer, tinha feito algo que prestasse.

Quando entrou Vivi estava toda vestida, sentada na beira da cama, olhando para o lado, pensativa.

Levantou os olhos de esmeralda quase que imediatamente. Como se esperasse que Marcela falasse algo. Então Marcela se desculpou de novo pela mãe ter entrado de repente. Evitando mencionar que elas estavam nuas na cama, é claro. Vivi se levantou, parecendo aliviada, e disse:

- Preciso ir.

E Marcela respondeu imediatamente:

- Eu levo você.

- Não precisa...

Mas Marcela já tinha pego a chave do carro, colocado os óculos escuros e  calçado um par de Havaianas pretas:

- Imagina se vou te deixar ir sozinha! Vem...

Vivi a seguiu pelo corredor, rezando para não dar de cara com a mãe de Marcela. Para alívio de Vivi, a sala estava vazia. Ouviu vozes vindo da cozinha. Marcela passou direto. Já estavam na frente do elevador, quando Vivi perguntou:

- Não vai avisar sua mãe?

Marcela deu de ombros, fazendo uma cara do tipo: “pra que?”.

Para Vivi era impensável sair de casa sem beijar a mãe.  Fez uma expressão de desaprovação tão grande que Marcela acabou voltando e gritando da porta:

- Mãe! Vou levar minha amiga e já volto!

E em se tratando de Marcela, que não dava satisfação nem quando morava com os pais, isso era absolutamente surpreendente.

 

Quando chegaram na garagem, Marcela viu na hora que o carro estava bem estacionado demais para ter sido dirigido por ela. Mas não fez comentários. Foi abrir a porta para Vivi e viu que a lateral inteira do carona (incluindo a maçaneta) estava toda vomitada. Impediu que Vivi chegasse perto, dizendo:

- Melhor você entrar pelo outro lado.

Vivi obedeceu, sem falar nada. Sabendo muito bem a razão da porta estar... como dizer? Interditada...

As duas se mantiveram caladas, até Marcela perguntar:

- Se importa se eu lavar o carro antes de deixar você?

Para Vivi não era sacrifício nenhum ficar um pouco mais de tempo com ela. Mas respondeu de forma corriqueira, para Marcela não perceber:

- Tudo bem.

 

Marcela parou no primeiro posto. Por sorte não tinha fila, e entraram no lava a jato direto. Assim que a máquina começou a passar pelo carro, jogando água com sabão, Marcela fechou os olhos e apertou as laterais da testa com os dedos. Vivi perguntou:

- Tá com dor de cabeça?

- Um pouco...

Os esfregões passaram no capô e nas laterais do carro, cobrindo todas as janelas de espuma. Vivi disse de um jeito muito, mas muito carinhoso mesmo:

- Me dá sua mão.

Marcela olhou surpresa para aqueles olhos verdes lindos. Sorrindo, e não parecendo ter nenhum tipo de segundas intenções.

Estendeu a mão, e Vivi “pinçou” aquela pele que liga o polegar e o indicador com o polegar e o indicador dela, explicando:

- É um ponto de do-in. Dizem que passa a dor...

Apertou sem fazer força, sabendo que só de apertar levemente o tal ponto já ia doer um pouco. Marcela soltou um “ai!”, fez uma careta, e implicou:

- Passa, com certeza... Da cabeça pra mão...

As duas riram juntas. Gostosamente.

Os jatos d’água tiraram toda a espuma. O carro  ficou totalmente lavado e pronto. Mas elas não estavam prestando a menor atenção, porque...

O riso se transformou. Sem que nenhuma das duas pudesse definir em que. Marcela tirou os óculos escuros. Olhando fundo nos olhos verdes, que cintilaram como duas estrelas.

Vivi se permitiu mergulhar na intensidade indomável daqueles olhos negros. O coração acelerando incrivelmente no peito.

O olhar de Marcela se tornou exatamente igual ao da véspera. Naquele momento em que os olhos tinham se encontrado, se tocado e pulsado num incrível turbilhão de prazer.

Marcela continuou olhando para Vivi, tomada por um estranho sentimento de “dejá vu”, que não conseguia entender. E de repente os olhos dela se tornaram... incandescentes...

Fazendo Marcela sentir um desejo incoerente de se deixar ofuscar pelas duas fogueiras de esmeralda eternamente...

Mas um carro buzinou atrás delas, a tirando do estado de quase hipnose em que se encontrava.

Marcela soltou a mão das de Vivi, desviou os olhos e sacudiu a cabeça, como que afastando um encantamento.

Olhou para frente, rodou a chave, e saiu com o carro. Completamente consciente que o brilho verde a acompanhava a cada movimento.

 

Um desconfortável silêncio se estabeleceu durante o resto do caminho. Vivi observava Marcela atentamente. Ela parecia estranhamente tensa. Vivi se perguntava porque.

Assim que parou em frente ao prédio dela, Vivi agradeceu e desceu do carro apressada. Se despedindo com um “tchau” ao invés dos dois beijinhos de sempre.

Marcela sentiu um inexplicável aperto no peito. E a chamou sem querer:

- Vivi!

Ela se virou, com um brilho doce e fascinante nos olhos:

- Que?

Marcela não percebeu, mas ficou parada de boca aberta, os olhos presos nos dela. Vivi sorriu, aumentando a intensidade do brilho verde. Marcela sorriu de volta, inconscientemente. E só então conseguiu responder:

- Nada não... Esqueci...

- Tá... Se lembrar me liga...

Virou e começou a se afastar do carro. Apenas para Marcela a chamar novamente:

- Vivi...

Ela se virou. Marcela disse a primeira coisa que veio à mente:

- O trabalho de constitucional...

Porque na verdade tinha mais uma vez cedido à vontade insana que sentiu de não a deixar ir embora.

- Que que tem?

Foi a resposta de Vivi, já com a mão na porta.

- Quando a gente vai fazer?

Vivi não estava entendendo nada, mas nada mesmo. Parecia que Marcela estava inventando conversa para... Para que? Não, bobagem dela... Com certeza ela tinha esquecido o que tinham combinado mesmo...

- Segunda, depois da aula. A gente vem direto da faculdade e almoça aqui em casa, ok?

- Ok...

Marcela ficou ali parada, olhando Vivi entrar no prédio. E só saiu com o carro depois que a porta se fechou atrás dela.

 

Assim que chegou em casa ligou para Gisele. A loira atendeu como sempre:

- O que você quer?

- Te ver... Tô morrendo de saudade de você...

- Já? A gente se viu ontem, Marcela...

Marcela lembrou de Gisele aos beijos com a esposa. Suspirou, com a voz suplicante ao dizer:

- Por favor, Gi... ontem você me deixou lá sozinha...

Gisele riu, debochada:

- Eu tava com a minha mulher. Queria que largasse ela pra ficar com você?

Marcela insistiu com uma voz muito doce e derretida:

- Ai, Gi... Você me tortura, sabia? Preciso te ver, amorzinho... Hoje ainda... Por favor... Não consigo ficar sem minha loira gostosa... Por favor, Gi...

A voz de Gisele mudou. Se tornou provocante e sexy:

- Não sei se tô a fim, gatinha...

Gatinha. Era assim que Gisele chamava Marcela quando estava de bom humor ou querendo alguma coisa. Isso era um ótimo sinal. Queria dizer que ela ia ceder. Marcela completou:

- Vou te fazer gozar muito, amor...

Com um riso absolutamente cafajeste, Gisele concordou.

 

Marcela se jogou no colchão ao lado de Gisele. Totalmente suada e esgotada depois de uma maratona de 6 horas de sexo selvagem, incontrolável... E sem nenhum afeto. Pelo menos por parte de Gisele.

Passou a mão nos cabelos e olhou para a loira pelo espelho no teto. A nudez esplendorosa à mostra, o corpo relaxado, um sorriso safado nos lábios. Parecia estar completamente saciada.

Marcela, por outro lado, continuava incansável, faminta, impaciente, ávida... Como se buscasse algo e não encontrasse...

Deitou novamente em cima de Gisele. A beijou na boca, desceu os lábios pelo pescoço, pelos seios... A loira gemeu:

- Ai, gatinha... Você hoje tá insaciável...

Marcela começou a mover o corpo, se esfregando nela quase com brutalidade. Com raiva daquele desejo estranho e interminável... Gozou rápido, de uma forma tensa, rude, violenta.

Depois, se deixou cair em cima de Gisele, o rosto enterrado nos cabelos amarelos, tremendo porque... Não estava de forma alguma satisfeita.

 

Na segunda feira depois da aula, estavam Lu, Carlinha e Vivi no carro dela. Marcela seguia na frente de moto. De vez em quando emparelhava com elas, sempre do lado da janela de Vivi... E ficava sorrindo para ela.

Sentada no banco de trás, Lu não podia estar com a cara mais feia. Aproveitou um momento em que Marcela não estava perto para desabafar:

- Não entendi, Vivi... Nada a ver chamar essa... esquisita pra fazer trabalho com a gente...

Vivi imediatamente a cortou:

- A Marcela é minha amiga.

Carlinha pôs lenha na fogueira:

- Lu, se eu fosse você não falava mal da Marcela perto da Vivi...

Indignada demais para se controlar, Lu continuou:

- Vão acabar dizendo que nós somos iguais a ela... Como, aliás, já tão falando de você, Vivi...

Aí sim, Vivi ficou possessa:

- Como assim, falando o que?

- Você sabe muito bem...

Lu falou um pouco sem jeito, como quem sabe que não está sendo politicamente correta, mas não consegue evitar pensar daquele jeito. Vivi não aliviou:

- Não, não sei. Tão falando que eu sou o que?

Lu falou baixinho, quase sussurrando:

- Lésbica...

Vivi deu uma gargalhada, antes de dizer:

- E se eu for? E se eu te disser que já transei com mulher e gostei?

Carlinha coçou a cabeça, fez cara de quem sabe que o desastre é iminente... E tentou salvar intercedendo:

- Vamos mudar de assunto, gente?

Inutilmente. Porque Lu soltou uma exclamação de nojo, e completou:

- Te conheço, Vivi. Sei muito bem que você não é sapatão...

Aquilo despertou em Vivi uma raiva cega. Incoerente. Que a fez estacionar o carro do nada. Marcela percebeu e parou a moto um pouco mais na frente, sem entender o que estava acontecendo.

Ainda não tinham chegado na casa de Vivi. Estavam naquela ruazinha do lado do viaduto que se pega para entrar na rua Pinheiro Machado quando se vem da rua das Laranjeiras.

- Você acha que me conhece!

Foi a frase de Vivi antes de descer do carro e caminhar na direção de Marcela, os olhos soltando faíscas verdes.

Marcela mal teve tempo de desmontar da moto e tirar o capacete, preocupada:

- Que foi, Vivi? Algum problema?

A resposta de Vivi foi passar os braços ao redor do pescoço de Marcela, a olhar fundo nos olhos, e colar a boca na dela num longo, profundo e apaixonado beijo.

 

 

Capítulo 9: Detalhes e Desejos...

Marcela arregalou os olhos, surpresa... E então correspondeu, abraçando Vivi pela cintura e colando o corpo no dela. Sentiu Vivi suspirar e se aconchegar toda contra ela, a mão a acariciando no pescoço de uma forma tão suave e carinhosa que fez Marcela estremecer.

Vivi entreabriu os lábios e na mesma hora a língua de Marcela procurou a dela, o piercing causando o efeito delicioso de sempre.

As mãos de Marcela percorreram as costas de Vivi, a pressionando mais contra o corpo que parecia queimar como o dela.

Foi quando Vivi se lembrou que estavam numa rua que não era muito movimentada, mas que também não era completamente deserta. Que Lu e Carlinha deveriam estar no mínimo chocadas dentro do carro, e que não sabia como ia explicar aquilo para Marcela.

Por isso e só por isso interrompeu o beijo e se afastou. Desejando continuar nos braços dela.

A respiração de Marcela estava tão alterada quanto a dela. Nenhuma das duas disse nada. Ficaram apenas se olhando profundamente. O negro dos olhos parecendo mais claro. Prisioneiro do atordoante brilho verde.

Carlinha buzinou, gritando:

- Vivi! Detesto interromper, mas... vamos, né?

Vivi recuou três passos, andando de costas, sem desviar os olhos dos de Marcela. E então se virou e voltou para o carro.

Lu estava muda. Paralisada. Vivi também estava muito calada. Mas Carlinha, para variar, não podia deixar de dizer:

- É, Lu... Parece que você não conhece a Vivi tão bem quanto pensava, né?

E riu às gargalhadas. Vivi saiu com o carro. Passou por Marcela que continuava lá parada, olhando para ela estática.

Confusa, perdida, desorientada... Ainda sob o efeito ardente e macio dos lábios dela... Era como Marcela estava se sentindo quando o carro de Vivi passou por ela.

Vivi a tinha beijado de um jeito que fez Marcela desejar se render, conquistar, pertencer, ganhar e se perder naquele incêndio que Vivi provocava.

Coisa totalmente incoerente, levando em conta que Marcela era louca e absolutamente apaixonada por Gisele. E que Vivi era - sim, ela era, porque o que tinha acontecido entre elas não queria dizer nada – hetero.

Só podia estar carente. Muito carente, aliás.

Pegou o capacete que tinha deixado na garupa, colocou na cabeça, subiu na moto, e seguiu atrás do carro guiado pela dona dos olhos verdes que a confundiam completamente.

 

Vivi não falou mais nada até chegarem no Leme e entrarem na garagem do prédio dela. Na verdade, Carlinha ficou falando sozinha, soltando várias tiradas engraçadas que aos poucos foram melhorando o clima tenso que tinha se estabelecido dentro do carro.

Marcela estacionou a moto num canto, onde Vivi tinha indicado. E ficou esperando por elas perto do elevador. Subiram com Carlinha tagarelando sem parar, daquele jeito dela super divertido, que não permitia que ninguém ficasse sem rir. Como eu já disse antes, ela era realmente muito engraçada.

A primeira coisa que Marcela reparou quando entraram na sala, foi um oratório imenso, com duas velas, dois vasos com plantas verdes, um sino, e alguns potes que não soube identificar.

Vivi explicou, ao ver o olhar interrogativo de Marcela:

- Sou budista.

Mais do que isso, Vivi era “fukuchi”, ou seja, tinha nascido numa família budista. Marcela continuou prestando atenção:

- O que nós vamos fazer agora chama “Daimoku Sansho”, que é recitar o NAM MYOHO RENGUE KYO três vezes.

Marcela ficou muito curiosa:

- Recitar o que?

- NAM MYOHO RENGUE KYO!

Repetiram Lu e Carlinha juntinhas, mais do que acostumadas. Afinal de contas, eram amigas de Vivi há muito tempo. E apesar de não serem budistas, faziam Daimoku Sansho em sinal de respeito, sempre que entravam e saiam da casa de Vivi.

Vivi entregou um cartãozinho para Marcela, onde tinha o mantra escrito:

- Mas você não precisa fazer se não quiser...

Marcela sorriu. E disse:

- Não, eu quero. Só queria entender pra que...

O interesse de Marcela fez os olhinhos verdes brilharem de forma irresistível:

- É pra cumprimentar o Gohonzon...

Marcela estava um pouco tonta com o monte de nomes japoneses. Vivi percebeu:

- É um pergaminho, vou abrir pra você ver.

E dizendo isso, abriu as portas do oratório, e uma luz acendeu lá dentro  automaticamente. Marcela pôde ver um pergaminho cheio de escritos que obviamente não conseguiu ler, porque eram todos ideogramas.

Isso a deixou um pouco confusa, porque sempre achou que budismo tinha a ver com aquela imagem do Buda que as pessoas colocam em cima de moedas com a barriga de frente para a porta.

Como se adivinhasse os pensamentos dela, Vivi falou rindo:

- Você deve estar se perguntando: “cadê aquele Buda gordinho?”, né? Aquele é o Buda Amida, não tem nada a ver com o nosso budismo, que é o de Nitiren Daishonin. Mas depois, se você quiser, te explico tudinho, ok?

Marcela concordou com a cabeça. Lu e Carlinha se aproximaram delas, juntando as mãos como se faz na meditação, mas de olhos abertos, olhando para o pergaminho. Marcela as imitou. Vivi apontou o centro do pergaminho, dizendo:

- Olha pra cá. Pra essa parte que parece um coração, tá vendo?

Marcela fez que sim. Vivi bateu o sino três vezes, juntou as mãos e as quatro disseram juntas – Marcela com uma certa dificuldade, mas conseguindo acompanhar até que bem:

- NAM MYOHO RENGUE KYO... NAM MYOHO RENGUE KYO… NAM MYOHO RENGUE KYO…

Depois Vivi fechou o oratório, e quando elas se viraram, deram de cara com a mãe de Vivi, com um enorme sorriso:

- Que bom, meninas! Parabéns! Só de recitar uma única vez já se acumula a boa sorte de entrar na vibração do universo...

- Oi, tia...

Disseram Lu e Carlinha, de novo ao mesmo tempo.

- Lu! Carlinha! Queridas! Tava com saudade de vocês...

Beijou Lu e Carlinha, e depois parou na frente de Marcela, dizendo:

- Você eu ainda não conheço...

De uma forma simpaticíssima. Que fez Marcela dizer com um sorriso:

- Marcela... Muito prazer...

- Marcela, o prazer é todo meu! Eu sou a Lúcia, mãe da Vivi. Fique à vontade, viu?

Deu dois beijinhos em Marcela. E depois abraçou e beijou Vivi muitas vezes. Vivi retribui, sem oferecer nenhuma resistência. Parecendo estar gostando muito até.

Coisa que surpreendeu Marcela porque... se a mãe fizesse isso com ela na frente das amigas, ia morrer...

 

O pai de Vivi estava trabalhando. A irmã fazia medicina, passava o dia inteiro no Fundão. Por isso a mesa estava posta para cinco. E Marcela teve outra surpresa, quando viu um enorme pedaço de carne assada. Perguntou baixinho para Vivi, que estava sentado ao lado dela:

- Vocês comem carne?

- Claro! Você tá confundindo com o Zen Budismo. Não é o mesmo budismo, sabe?

A mãe de Vivi completou, com muito mais paciência:

- No nosso budismo qualquer pessoa pode atingir o estado de Buda – é um estado, não é uma pessoa – que existe dentro de todos nós. E pra isso não é preciso se afastar da sociedade nem qualquer tipo de prática austera. Pelo contrário.

Vivi completou, com os olhos cintilando significativamente quando encontraram os de Marcela:

- Como a flor de Lótus, que nasce da lama. Quanto mais lama em volta dela, mais bonita é a flor...

Marcela sorriu, os olhos negros parecendo cintilar de volta. Criando um  brilho entre elas, perceptível para todas que estavam na mesa.

Lu abaixou os olhos, fingindo estar muito entretida com a comida. Carlinha sorriu, um pouco nervosa. A mãe de Vivi as observou atentamente, e depois disse, sem desmanchar o sorriso do rosto:

- A Vivi te explica tudo. Afinal de contas, você é “chakubuku” dela...

Marcela fez uma cara tão perplexa, que Vivi riu. Depois explicou:

- Literalmente, “chakubuku” quer dizer tirar o sofrimento e mostrar a  felicidade... Mas o que minha mãe quer dizer é: eu apresentei você pro budismo, ou seja, você é minha “chakubuku”. Entendeu?

Marcela fez que sim com a cabeça. Tirar o sofrimento e mostrar a  felicidade... É, realmente, sempre que estava com Vivi sentia uma alegria intensa... Do nada...

Carlinha encerrou o assunto com uma daquelas frases bombásticas dela:

- É igual em “O Pequeno Príncipe: tu és eternamente responsável por aquele que cativas”. No caso de vocês, por aquela que cativas, não é mesmo?

Carlinha riu sozinha. Lu manteve a cabeça enterrada no prato. A mãe de Vivi apenas olhou de Marcela para a filha com um leve sorriso surpreso nos lábios.

Marcela olhou para Vivi, sem entender a sensação estranha que fez todo seu corpo pulsar mais rápido. De uma forma inexplicável, cativa era a palavra certa. Dos magníficos olhos verdes. Que tinham sobre ela um poder quase mágico.

Com uma expressão absolutamente perdida, tentou encontrar uma resposta nas faíscas verdes. Inutilmente.

Porque Vivi desviou os olhos, evitando que Marcela lesse a verdade expressa neles... E deixando que a mãe visse e tivesse certeza que...

Se a frase de Carlinha estava certa, Marcela já era inteiramente responsável por Vivi...

 

Depois do almoço foram para o quarto de Vivi. Marcela quase riu. Aquele quarto era o oposto do dela...

Todo arrumadinho e... rosa... tão absurdamente rosa... Marcela nem sabia que existiam tantos tons de rosa diferentes...

Em cima da cama de solteiro uma colcha e almofadas - cor de rosa, é claro... Do lado da cama, uma mesinha com um computador cheio de adesivos brilhosos. Em cima do gabinete, miniaturas das meninas super poderosas.

Uma estante com muito menos livros do que bonecos de pelúcia – de todos os tamanhos, tipos e formas, até um urso polar tinha!

Normalmente, Marcela diria que o quarto era... fresco. Mas como era o quarto de Vivi, achou fofo, uma gracinha mesmo.

Só então reparou nas fotos penduradas na parede. De Vivi dançando. Bem pequenininha, depois com um sorriso desdentado na frente, um pouco maiorzinha, e então, já adolescente... Mas nenhuma recente, de Vivi como Marcela conhecia. Não agüentou de curiosidade:

- Você dança?

- Dançava... Machuquei o joelho, quatro anos atrás, e não pude mais...

Vivi disse com um sorrisinho triste. Que fez Marcela sentir um aperto no coração, entendendo perfeitamente como se sentiria se não pudesse mais cantar ou tocar. 

- Sinto muito...

Marcela falou de um jeito tão sincero e profundo, que Vivi percebeu que ela tinha compreendido o que parar de dançar significava para ela.  E isso a surpreendeu completamente.

Foi Lu quem interrompeu:

- Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, meninas, mas... vamos começar?

Sentaram no chão, mas ainda ficaram algum tempo fazendo comentários sobre os professores, as aulas, até o assunto ser as notas da prova de constitucional que a professora tinha entregado. Marcela apenas observava, sem dizer nada. Vivi perguntou baixinho:

- Que foi? Tá tão calada...

Mas Lu ouviu, e aproveitou para soltar um veneno:

- Ela não deve ter o que falar, né? Passa todas as aulas ouvindo música...

Ao que Marcela respondeu, com um tom de superioridade irritante:

- Até agora nenhuma aula me fez falta...

Lu riu, com uma ironia tão grande, que foi quase um tapa:

- Até parece! Quanto você tirou na prova, hein? Fala!

Marcela riu com desdém, e respondeu:

- Não te interessa.

Vivi tentou apaziguar os ânimos:

- Meninas, por favor... Menos...

Lu insistiu:

- Não, já que ela é tão fodona, quero saber a nota dela... A minha foi oito e meio.

Colocou a prova no meio da roda, em desafio, como se fosse um jogo. Pediu a prova de Carlinha e a de Vivi também:

- Vamos lá, coloquem as cartas na mesa.

Carlinha colocou, muito sem jeito. Elas viram um sofrível sete e meio. Vivi se recusou, irritada:

- Vamos parar com isso?

E então a própria Marcela disse:

- Não, mostra a sua prova, Vivi. Tá na boa...

Vivi então colocou a prova no chão. Um nove. A mais alta até então.

Marcela abriu um sorriso. Parecia estar jogando pôquer. Pegou a prova na mochila e jogou com desprezo por cima de todas as outras.

Deixando as três de queixo caído porque... tinha tirado nove e meio.

E ainda tirou onda dizendo:

- Sinto muito, meninas... Mas numa família como a minha, a gente aprende a diferença entre uma constituição outorgada e uma promulgada antes de cair o primeiro dente de leite...

 

Depois da revelação bombástica que foi a nota de Marcela, Lu ficou quieta. Terminaram o trabalho sem mais incidentes.

Vivi acompanhou as amigas, descendo no elevador com elas. Lu e Carlinha ficaram na portaria. Vivi seguiu com Marcela até a garagem.

Quando Marcela colocou o capacete e subiu na moto, Vivi tomou coragem para tentar explicar o inexplicável:

- Aquilo que aconteceu hoje...

Marcela abriu o vidro do capacete e gritou:

- Que? Não escutei...

Vivi repetiu:

- Aquilo que aconteceu hoje...

Marcela deu um sorriso provocante, e olhou bem dentro dos olhos verdes:

- O beijo?

Deixando Vivi totalmente sem jeito:

- É... Eu queria... quer dizer... não queria... ai...

E escondeu o rosto com as duas mãos, morta de vergonha e se achando uma idiota completa.

Marcela sorriu, achando graça. Muita graça mesmo. Até o pescoço de Vivi estava vermelho. Tirou e pendurou o capacete, desceu da moto, e se aproximou dela:

- Ei...

Pegou nos pulsos de Vivi com delicadeza, e afastou as mãos dela do rosto. De uma forma absolutamente suave, a fez levantar a cabeça e olhar para ela.

A escuridão dos olhos negros parecia estrelada... por um brilho verde sedutor... Que Vivi não reconheceu como o reflexo fulgurante de seus próprios olhos...

Marcela aproximou a boca lentamente - o coração a galope no peito - e abriu os lábios sobre os de Vivi de uma forma absolutamente ardente e sensual.

 

 

Capítulo 10: Porque a gente é assim?...

O efeito do beijo sobre Vivi foi eletrizante. Sentiu a onda de calor se espalhar por cada parte do corpo como uma reação em cadeia.

Os lábios de Marcela se moviam sobre os dela de uma forma exigente, sedutora que a fez abrir os lábios inconscientemente para dar acesso à língua dela.

Marcela segurava o rosto de Vivi entre as mãos. Sentiu que ela a enlaçou e puxou com suavidade pela cintura, soltando um pequeno suspiro quando os corpos se encostaram.

Doce... Muito doce... era o gosto de Vivi, que parecia derreter sob os lábios de Marcela.

E então, de repente, a entrega dela se transformou. Em chamas. Atordoantes como as que Marcela já tinha visto tantas vezes dentro dos olhos verdes.

Subiu a mão pelas costas de Marcela, a comprimindo mais contra o corpo dela. Encontrou a nuca, enfiou os dedos entre os cabelos dela arrancando um gemido. E foi a vez de Marcela se derreter...

Vivi poderia ficar ali a vida inteira, as bocas, línguas e corpos colados, respirando juntas quase como se fossem uma só... E o jeito como Marcela a segurava... como se naquele instante, ela e Vivi se pertencessem...

Mas então ouviram um alarme. Da sirene que avisa que a porta da garagem está abrindo.

Rapidamente se separaram, e ficaram se olhando sem nada dizer.

Um carro passou por elas, o motorista cumprimentou Vivi, que respondeu com um aceno de mão. Quando voltou a olhar, Marcela já estava montada na moto, colocando o capacete.

Vivi colocou as mãos nos bolsos de trás da calça jeans, meio sem jeito. Marcela percebeu, mas estava confusa, sem saber o que fazer também. Deu um sorriso para Vivi, e disse – porque não tinha o que dizer:

- Te ligo...

Mas era evidente que não tinha a menor intenção de ligar. E aproveitando a porta da garagem ainda aberta, ligou a moto e saiu. Saiu, não: fugiu é a melhor palavra.

 

Vivi não ficou esperando ela sair. Assim que Marcela passou por ela de moto, deu as costas e entrou no elevador, absolutamente furiosa.  Com Marcela, com o beijo, e acima de tudo, consigo mesma.

Entrou em casa e viu a mãe sentada em frente ao gohonzon fazendo daimoku (recitando NAM MYOHO RENGUE KYO). Olhou para o relógio: cinco e meia.

Puxou uma cadeira, sentou atrás dela, e começou a recitar também. Só conseguiu começar a se acalmar depois de 20 minutos. Depois de mais dez minutos, a mãe se levantou. Vivi passou para a cadeira da frente, e continuou.

Quando a irmã de Vivi chegou em casa, já passava das sete horas. E Vivi ainda estava lá.

Pela forma como Vivi recitava, parecia estar desafiando algum obstáculo muito grande. Beijou Vivi rapidamente, para não interromper. Depois foi até a cozinha, beijou a mãe, e perguntou:

- Que tá acontecendo?

Não precisou explicar sobre o que estava falando. Tinha certeza que a mãe também tinha percebido. E que, conhecendo as filhas como conhecia, até já sabia a resposta. Mas dona Lúcia apenas disse, com um sorriso sábio nos lábios:

- Vamos esperar ela nos dizer...

 

Marcela saiu do prédio de Vivi com a cabeça a mil. Sem entender direito o que sentia, nem o porque de ter feito aquilo. Não fazia o menor sentido ter beijado Vivi. Eram amigas. Mas por quanto tempo? Muito pouco se Marcela continuasse agindo daquele jeito...

Verdade que os olhos verdes tinham um efeito quase hipnótico sobre Marcela. Que a encantavam completamente...

E quando tinha levantado o rosto de Vivi e o enfeitiçante brilho de esmeraldas mergulhou nos olhos dela, Marcela tinha sido dominada por uma  estranha loucura. Que a impedia de pensar ou desejar outra coisa além de provar aqueles lábios novamente...

Resolveu fazer o que sempre fazia quando queria esfriar a cabeça e pensar. Foi até o Leblon, na rua do canal, subiu até o mirante e estacionou a moto.

Sentou na mureta de pedra e olhou em volta. A maioria das pessoas ia lá por dois motivos: fumar maconha ou trepar. Vários carros estavam estacionados, com as janelas fechadas, algumas bem embaçadas por sinal...

A própria Marcela já tinha trepado com Gisele ali várias vezes. Pelo puro prazer do risco...

Um pouco mais embaixo, três pessoas dividiam o que tinha sobrado de um cigarrinho de maconha – mal dava para ver a ponta acesa, mas o cheiro era inconfundível.

Marcela abriu o saco plástico que tinha na mão, tirou um baseado já apertado lá de dentro, acendeu com o Zippo e tragou.  Fechando os olhos, sem se importar com a vista magnífica. Tentando desesperadamente escapar do que  não saía da cabeça: dois cintilantes olhos verdes e as chamas que a consumiam.

 

Nos dia que se seguiram, quase não se falaram. Na 6ª feira, Vivi estava sentada sozinha na cantina quando Marcela se sentou na frente dela, meio sem graça:

- Oi, Vivi...

A resposta de Vivi foi seca, totalmente diferente do tom doce de sempre:

- Oi.

 Marcela enrolou, puxou vários assuntos, tentou ser divertida, mas só conseguiu respostas monossilábicas e frias. Sem suportar a indiferença dela, disse:

- Não vou agüentar se você continuar me tratando assim...

A frase surtiu o efeito desejado. A voz de Vivi soou bem diferente:

- Assim como?

Marcela a olhou fundo nos olhos. E se arrependeu, porque na mesma hora foi ofuscada pelo inebriante verde:

- Fria, distante... Quero você como era antes...

Vivi suspirou profundamente. Tinha decidido se afastar de Marcela, mas... bastou um único olhar, e a voz maravilhosa falando como se não existisse nada no mundo além delas, para Vivi ficar tentada a ceder...

Os olhos negros a fitavam sem desviar ... deixando Vivi vislumbrar neles uma tempestade de sentimentos. Um profundo e escuro tormento... Que fez Vivi se comover. E tornando a idéia de resistir absolutamente impossível.

Vivi tocou na mão de Marcela em cima da mesa, recebendo em troca um sorriso absolutamente lindo. Que a fez voltar a ficar completa e inevitavelmente prisioneira do encanto dela...

Tanto que concordou em assistir ao show da banda de Marcela aquela noite na Lapa... Quase que sem querer...

 

O lugar estava cheio. Era um evento chamado  BOEMIA ROCK! Que acontecia no Casarão Cultural dos Arcos da Lapa, onde a cada 6ª feira três bandas diferentes tocavam.

Vivi sentiu um profundo alívio por Carlinha ter concordado em ir com ela. Não ia suportar ficar sozinha.

Na verdade, estava ali sem saber porque. Afinal de contas, era uma verdadeira tortura ver Marcela tocando sem poder...

Sem poder o que? Era exatamente por isso que não deveria estar ali... Porque ficar perto dela só a fazia desejar coisas impossíveis e sofrer.

Marcela se aproximou, com um enorme sorriso. De tênis all star, jeans,  camiseta e munhequeiras pretas... Linda, linda de morrer.

Deu dois beijinhos em Vivi, cumprimentou Carlinha, se desculpou e... rapidamente desapareceu.

 

Marcela ficou com as pernas bambas na hora em que Vivi a olhou, ou seria mais certo dizer: a devorou com os olhos.

E depois, quando beijou Vivi no rosto, os olhos verdes se fixaram na boca de Marcela de um jeito que fez o coração dela disparar no peito. Por isso e só por isso, se afastou dela correndo.

Chegou perto do pessoal da banda, que estava fumando um baseado num canto. Depois de uns tapinhas conseguiu quase voltar ao normal.

Na hora certa, porque... eram a primeira banda a se apresentar.

 

Carlinha achou o comportamento de Marcela muito mais do que estranho:

- Que será que deu nela?

Vivi deu de ombros, e respondeu irônica:

- Mais fácil desvendar os mistérios do universo do que entender a Marcela...

Então ouviu a voz maravilhosa já tão conhecida dizendo no microfone:

- Boa noite! Nós somos os “The Mitidos”, e vamos começar com uma música

de um poeta genial, que acima de tudo, nunca deixou de dizer a verdade: Cazuza!

O baterista começou tocando sozinho. Marcela ficou balançando o corpo, sentindo o ritmo com os olhos fechados e um sorriso irresistível. Entrou tocando junto com o outro guitarrista e o baixista, e só então cantou, daquele jeito irreverente, selvagem e absurdamente provocante dela:

 

“Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim, não
Por que que a gente é assim? É...
<![if>

Agora fica comigo
E não não desgruda de mim, não
Vê se ao menos me engole, baby
não me mastigue assim...
<![if>

Canibais de nós mesmos
Antes que a terra nos coma
Cem gramas, sem dramas
Por que a gente é assim?”
<![if>

Durante o breve instrumental, Marcela falou, com um sorriso irônico, rebelde, agressivo:

- E eu continuo queimando até a última ponta...

Foi muito aplaudida pelos maconheiros de plantão. Voltou a cantar ainda entre gritos, palmas e assobios:

 

“Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim, não
Por que a gente é assim?”

 

Vivi foi passando pelas pessoas e se aproximando até ficar em frente aos olhos negros. Quase sem querer, como se o jeito magnético de Marcela cantar, respirar e ser a puxasse para perto dela.

Marcela estava absolutamente consciente da presença de Vivi. Tão próxima que as chamas verdes pareciam subir no palco e incendiar Marcela inteira.

Exatamente nesse momento, começou a parte mais lenta da música. Por coincidência, ironia do destino, ou magia...

Marcela se deixou ofuscar nas esmeraldas incandescentes, que resplandeceram ainda mais quando cantou, para Vivi inteiramente:
<![if>

“Você tem exatamente
Três mil horas pra parar de me beijar
meu bem, você tem tudo
Tudo pra me conquistar

Você tem apenas um segundo
Um segundo pra aprender a me amar
Você tem a vida inteira, baby,                                                                                                                          a vida inteira
Pra me devorar!”

 

A forma como Marcela a olhou enquanto cantava... Fez o corpo de Vivi responder como se Marcela a tocasse... A respiração se tornando difícil conforme a pele inteira ia ardendo num delicioso pulsar que começava entre as pernas... Incontrolável sensação de desejo... A mesma que viu florescer nos olhos negros... E que Marcela também reconheceu...

Por questão de minutos, foi como se as almas se encontrassem.
Fazendo Marcela terminar de uma forma muito menos ácida. Principalmente a última frase, onde pareceu realmente parar e se questionar:


”Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim, não
Por que a gente é assim?”

(Porque a gente é assim? Barão Vermelho - Cazuza/Frejat/Ezequiel Neves)

 

Vivi ficou ali parada, frente a frente com Marcela, que também estava estática. Os olhos ligados como imãs, sem reparar nas pessoas aplaudindo em volta.

A segunda música começou, e Marcela começou a tocar e cantar automaticamente, um pouco perdida ainda...

Conseguiu retomar o controle de si mesma quando desviou os olhos dos de Vivi. Apenas por segundos, porque... Gisele estava se aproximando, estranhamente sorridente, acompanhada por duas amigas.

Quando procurou Vivi novamente com os olhos, ela tinha desaparecido.

 

 

 

Capítulo 11: Raspas e Restos...

Vivi acompanhou o olhar de Marcela. Viu a loira se aproximando dela, e não agüentou: virou e saiu puxando uma Carlinha completamente perplexa:

- Vivi, espera... Onde você tá indo?

Só parou quando já estavam do lado de fora. Carlinha continuou:

- Não tô entendendo nada... A Marcela tava cantando pra você... Parecia até que só tinham vocês duas ali... Foi lindo, Vivi...

- É... foi lindo...

Disse isso e desabou. Abraçou Carlinha, e começou a chorar. Um choro baixinho, doído, sofrido demais. Carlinha abraçou a amiga, querendo ajudar, mas ainda não estava entendendo nada:

- Por que você saiu desse jeito? Pensei que você gostasse dela...

Vivi levantou o rosto. Olhou para a amiga, enxugou as lágrimas. Apenas para elas voltarem a escorrer quando disse:

- Gosto. Amo. Tô completamente apaixonada, louca por ela... Mas pra Marcela, não passo de um estepe... Só sirvo pra quebrar o galho, e ainda assim em último caso...

Enxugou as novas lágrimas. Dessa vez definitivamente. Carlinha a olhava muito séria, parecendo estar pensando bem no que ia dizer:

- Olha, amiga, não quero me meter, mas... Pra quem tá olhando de fora... A Marcela parece caidinha por você...

Vivi sacudiu a cabeça, sem dar ouvidos a Carlinha. Coitada, não sabia de nada, e estava querendo ajudar...

Apenas pediu, sem conseguir disfarçar o quanto sua voz estava tristonha:

- Vamos pra casa... Por favor...

 

Depois que Vivi desapareceu, para Marcela pareceu que tudo perdeu a cor. Tocou as três últimas músicas tão sem empolgação que o outro guitarrista perguntou se ela estava se sentindo bem.

Agradeceu a platéia, saiu do palco, e estava ajudando a guardar as coisas quando Gisele a puxou pelo braço:

- Quero que você conheça minhas amigas...

Marcela estranhou. Gisele nunca a apresentava a ninguém. Mas não disse nada. Deixou que Gisele a puxasse pela mão, enquanto passavam no meio das pessoas.

Pararam em frente a duas mulheres que aparentavam ter a idade de Gisele, mas que não eram, nem de longe, tão bonitas quanto ela. Gisele comentou com elas:

- E então? Minha gatinha não é um tesão?

Disse isso com a mão no pescoço de Marcela, com um orgulho de proprietária, como se ela fosse um objeto. As duas amigas concordaram animadamente. Gisele completou:

- Marcela, essas são Silvia e Amanda. Hoje é o aniversário de casamento delas. 12 anos... Uma vida, né?

- Oi, Marcela...

As duas falaram juntas, devorando Marcela com os olhos. Marcela apenas respondeu, sem dar muita atenção:

- Oi.

E se virou para beijar Gisele, mas ela desviou a boca, praticamente ordenando:

- Bom, se você já acabou por aqui, vamos...

Puxou Marcele sem nem dar tempo dela perguntar: “Pra onde?”

 

Muito aborrecida por Gisele a ter deixado ir sozinha no carro, Marcela seguiu as três até uma casa na Urca. Estacionou na garagem ao lado do carro delas.

Quando chegaram na sala, Gisele se acomodou num sofá e as duas num pufe grande, daqueles que afundam.

O chão da sala era todo revestido de carpete branco. Por causa dele tiraram os sapatos. Marcela caminhou até o sofá, e Gisele a fez se ajoelhar no chão, entre as pernas dela. A beijou sensualmente, a segurando pela nuca, descendo a mão pelas costas de Marcela, causando arrepios. Apertando as nádegas dela, dizendo:

- Você é um tesão, garotinha...

Amanda entregou dois copos de Whisky com gelo para Gisele. Que colocou um deles na mão de Marcela, dizendo:

- Toma... Bebida de gente grande... Quem sabe você cresce...

Apertou a bochecha de Marcela como se ela fosse criança, rindo da cara dela. Depois falou como quem dá uma ordem:

- Aperta um pra gente.

Marcela tirou o conhecido saco plástico do bolso, com um sorriso:

- Já tenho um prontinho...

- Então acende, baby...

Marcela acendeu o baseado com o Zippo, deu dois tapinhas, e passou para Gisele. Sentou no chão, encostada nas pernas dela. Silvia e Amanda se aproximaram. Sentaram na frente de Marcela.

Quando o baseado chegou pela terceira vez nas mãos de Gisele, ela chamou Marcela:

- Vem cá...

Marcela se ajoelhou, e aproximou o rosto, já sabendo o que ela queria. Gisele virou o baseado ao contrário, colocando a parte acesa dentro da boca, com cuidado. Marcela tapou um lado do nariz e respirou fundo quando Gisele soprou a fumaça na narina destapada.

Conseguindo o efeito de explosão que Gisele sabia que Marcela adorava. Gisele a beijou de leve nos lábios, e Marcela voltou a se sentar aos pés dela, toda feliz.

Quando acabou o baseado, Silvia bateu quatro carreiras de coca no vidro da mesinha ao lado do sofá. Gisele imediatamente se levantou. Marcela nem se moveu. Ficou desfazendo a ponta que tinha sobrado, para reaproveitar num novo baseado.

Silvia e Amanda olharam interrogativamente, e Gisele ironizou:

- Ela não gosta... Só curte coisinha de criança mesmo...

As três riram. Marcela continuou apertando o baseado, como se não fosse com ela. Se tinha uma coisa que detestava, era cocaína.

Tinha experimentado uma única vez, para nunca mais. Além de ter ficado totalmente travada - a noite inteira tentando gozar sem conseguir - depois não  dormiu nada. E o dia seguinte a fez desistir definitivamente de repetir: olheiras profundas, as maçãs do rosto e o nariz totalmente dormentes, uma dor horrível no maxilar e uma depressão do tipo: se sentia um pano de chão sujo e amassado. Esse tinha sido o resultado.

Além disso, achava péssima a energia das pessoas que cheiravam. Uma coisa meio na fissura de ficar cheirando mais e mais, misturada com uma neura meio paranóica... Bem diferente daquele estado “tô na paz” que tanto gostava na maconha. E do efeito “tô na pista” do Special K e do Ecstase... É, definitivamente, cheirar não era a praia de Marcela...

Ficou ali fumando o baseado dela, enquanto as três cheiravam em volta da mesa, parecendo insaciáveis. Várias carreiras, exatamente como Marcela tinha calculado.

Ficaram nessa ainda por algum tempo, porque Marcela fumou meio maço de cigarros, e as quatro juntas beberam duas garrafas de Whisky quase inteiras.

Marcela, diga-se de passagem, também não tinha o hábito de beber Whisky. Preferia cerveja, que achava bem mais light...

Já estava meio tonta quando Gisele voltou para o sofá e a puxou, fazendo com que Marcela se ajoelhasse de novo entre as pernas dela.

Colou a boca na de Marcela, depois desceu os lábios pelo pescoço dela, fazendo Marcela se derreter. Provocou, mordiscando o lóbulo da orelha que se oferecia... E sussurrou baixinho no ouvido dela:

- Quero que você seja o meu presente pras minhas amigas...

Marcela não acreditou no que ouviu. Ficou paralisada. Depois olhou para Gisele, perplexa.

A loira a segurou pelos cabelos com tanta força, que arrancou um gemido de dor. Depois disse, deixando bem claro que o que estava em jogo era se ia ou não sair com Marcela novamente:

- O que gosto em você, gatinha, é que sempre faz tudo que eu quero...

Marcela respirou fundo. Olhou Gisele nos olhos, e balbuciou com a voz tremendo:

- Tá...

Foi só o que conseguiu dizer. Gisele a beijou quase com violência. Depois falou:

- Não precisa fazer nada. Elas não querem que você toque nelas. Querem só te comer. É só você ser bem passiva e gozar. Nada demais. Não me decepciona, tá?

Silvia e Amanda a esperavam, a poucos passos de distância. Tinham colocado um CD. Marcela reconheceu a voz de Janis Joplin com facilidade. Cantando “Summertime”.  

Marcela se aproximou das duas mulheres - que a olhavam como se ela fosse um peedaço de carne - como quem caminha para o cadafalso.

 

Os pais de Vivi estavam viajando. Tinham ido para um curso de aprimoramento do budismo em São Paulo. A irmã tinha ido dormir na casa do namorado.

Sozinha em casa, ficou perambulando, sem ter o que fazer.

Comeu um sanduíche, escovou os dentes, encheu a banheira de água quente e ficou imersa lá dentro, ouvindo música.

Evitando pensar em Marcela. Inutilmente. Os olhos negros olhando profundamente para ela enquanto cantava estavam gravados, encravados em sua mente. Apareciam mesmo sem querer.

Àquela hora, com certeza, Marcela estava nos braços da loira insuportável. Toda derretida e apaixonada, como sempre.

O simples pensamento fez Vivi ficar com tanta raiva que escorregou e acabou ficando submersa. Sentou rapidamente. Por sorte, o fio dos fones era comprido, senão teria afogado o MP3...

Saiu da banheira, se enxugou, passou hidratante no corpo, secou e penteou os cabelos, mas continuava sem sono nenhum.

Vestiu uma blusa e uma calça, foi até a sala, abriu o oratório, acendeu as duas velas e um incenso, e começou a fazer daimoku.

Depois de 15 minutos, o coração se acalmou. Foi ficando com sono... Bocejou... Bateu o sino 3 vezes, fez Sansho, fechou o oratório e apagou as velas.

Quando chegou no quarto, vestiu a camisola, deitou na cama e adormeceu instantaneamente. O tranqüilo sono dos justos...

 

Silvia e Amanda caíram em cima de Marcela de uma forma faminta, voraz, quase vampiresca. Uma na frente dela, e outra atrás.

Silvia mordeu, chupou, beijou e lambeu a nuca de Marcela, enquanto Amanda fazia a mesma coisa em toda a extensão do pescoço. Parecendo sincronizadas.

Como tinha prometido para Gisele, Marcela se entregou completamente nas mãos delas. A livraram da blusa, do jeans, da calcinha, as mãos a acariciando, tocando e explorando com pressa...

As bocas se colaram nos seios dela, fazendo Marcela gemer... Gisele apenas observava, sentada no sofá tão perto que se Marcela estendesse a mão conseguiria encostar nela...

Então Silvia voltou a abraçar Marcela por trás, a mão descendo entre as coxas, a tocando com uma precisão de anos de prática. Dizendo:

- Que gostosa... Toda molhada...

Amanda encaixou a coxa de Marcela entre as dela, e a penetrou com os dedos, ordenando:

- Rebola, delícia... Mexe gostoso...

Marcela obedeceu. Sem que Silvia parasse de acariciá-la. Brincaram um tempo com ela, trocando entre elas quem a acariciava, quem a penetrava... Fazendo um sanduíche de Marcela, se esfregando nela com vontade, gemendo e a fazendo gemer cada vez mais alto.

A música mudou. Ainda Janis Joplin. Dessa vez cantando “Kozmic Blues”.

Amanda e Silvia se beijavam, entre elas somente. Porque nenhuma das duas encostou a boca na de Marcela. Muito menos tiraram a roupa. Apenas Marcela estava completamente exposta, nua, como um brinquedinho perfeito para ser usado.

Os dedos de Silvia se tornaram mais ousados. Tocaram Marcela em outro lugar... Amanda continuou a movimentar os dedos dentro dela, enquanto Silvia penetrava Marcela por trás.

Marcela gemeu alto... Quanto mais vergonha e a repulsa sentia, mais ficava excitada... De uma forma estranhamente perversa, inaceitável.

Sentindo Marcela começar a estremecer, Amanda e Silvia aceleraram os movimentos, sussurrando sem que Marcela conseguisse mais saber quem dizia o que:

- Goza, tesão... Goza... Isso, gostosinha... Assim...

As estocadas dentro dela se tornaram mais profundas, mais fortes... Todos os músculos do corpo de Marcela se contraíram e ela gozou demoradamente.

Amanda e Silvia a soltaram e ela quase caiu. As pernas estavam bambas... Gisele a chamou de uma forma que foi quase carinhosa. Mas o tipo de carinho que se usa com um bicho de estimação:

- Vem aqui, vem...

Marcela obedeceu. A respiração ainda ofegante. Gisele a fez sentar no colo, de costas para ela.

Amanda e Silvia estavam se beijando, no mesmo lugar onde Marcela antes estava com elas. O CD de Janis Joplin continuava tocando. A música tinha mudado novamente: “Maybe”.

Gisele fez Marcela se encostar nela. A beijou no pescoço, a mordeu na nuca... Tocou os seios dela com as duas mãos, fazendo Marcela suspirar de prazer. Desceu acariciando a barriga, as coxas, abriu as pernas levando as de Marcela junto. Começou a acariciar o sexo dela, arrancando gemidos.

Amanda e Silvia observavam, agora bem mais perto... Marcela abraçou Gisele pelo pescoço, e fechou os olhos, querendo fingir que estava sozinha com ela. Pediu:

- Quero gozar pra você, Gi...

Mas Gisele respondeu junto ao ouvido dela:

- As meninas querem mais de você, gatinha...

Então Amanda e Silvia já estavam com as línguas em Marcela. Deslizando, explorando, mergulhando dentro dela com intensidade. Enquanto Gisele continuava acariciando os seios de Marcela, a beijando no pescoço, na nuca, provocando Marcela habilidosamente.

E foi tortura. Uma longa e demorada tortura. Porque cada vez que Marcela estava perto de gozar elas paravam. Gisele a abraçava, e Amanda e Silvia seguravam as pernas de Marcela, a impedindo de se mexer...

Chegando a um ponto tão insuportável que Marcela começou a pedir, a suplicar, a implorar. Gisele riu, e sussurrou no ouvido dela:

- Isso, garotinha... Pede pra gozar... Implora, vai...

Marcela obedeceu, sem se importar. E quando finalmente gozou, foi com uma sensação de alívio e prazer tão intensos, que pensou que fosse desmaiar.

Demorou algum tempo para conseguir abrir os olhos e se mover.

Amanda e Silvia tinham desaparecido. A música tinha parado, deixando um silêncio que ecoava.

Gisele a olhava com um sorriso satisfeito nos lábios. Fez Marcela sair do colo dela e se sentar no sofá. Levantou, encheu um copo e entregou para ela, dizendo:

- Você merece, linda... Isso e muito mais...

Marcela bebeu o Whisky, praticamente virando o copo de uma só vez. Confusa, magoada, constrangida, envergonhada... Parecendo que tinha tido toda a energia vital arrancada, sugada por aquelas mulheres. Vampiras de almas.

A cabeça rodava... Mas por incrível que pareça, a dose de Whisky a fez voltar no tempo, para o exato momento em que tinha cantado olhando nos olhos de Vivi. Sentiu uma coisa tão forte no peito, que se levantou impulsivamente.

Catou as roupas espalhadas, se vestiu, pegou o saco plástico, calçou o All Star... Tudo isso sob o olhar incrédulo de Gisele.

- Aonde diabos você vai?

Saiu sem responder, sem nem olhar para trás. Abriu a garagem e saiu com o carro deixando a porta escancarada.

Sem idéia de que horas deveriam ser. Só sabia que já era dia claro. Tinha amanhecido sem Marcela nem perceber.

A luz e as  pessoas que já estavam na rua a incomodaram. Pareciam límpidas demais, em contraste com o que Marcela carregava por dentro.

As lágrimas escorreram rosto abaixo, embaçando a visão dela. Chorava não por dor, culpa ou outro tipo qualquer de sofrimento.

Muito pior do que isso. Chorava por não estar conseguindo sentir nada. Como se dentro dela houvesse restado apenas uma perversa espécie de ausência, de morte, de vácuo.

Colocou os óculos escuros e acendeu a ponta que sobrou do último baseado. Em vão. Não conseguiu nenhum tipo de conforto ou consolo. Apenas aquele vazio que permanecia, estático.

Em frente ao Canecão, sentiu um frio na espinha, as mãos ficaram geladas...

Ainda conseguiu perceber que estava com a pressão baixa, mas... Não deu tempo para nada. A vista escureceu como uma tela de cinema em “fade out”.

Apagou completamente.

O carro se lançou contra a grade que separa as pistas em frente ao Shopping Rio Sul. Acertando e batendo feio. E se tornando uma massa disforme e retorcida de aço, ferro e vidro estilhaçado.

 

 

Capítulo 12: Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia...

Vivi acordou cedo. Tomou um Nescau (não conseguia comer logo que acordava), escovou os dentes, se vestiu, trocou a água e tirou a poeira do  oratório antes de o abrir.

Colocou o celular na mesinha ao lado, para controlar as horas.

Fez o Gongyo (Oração da manhã e da noite) e começou a fazer daimoku. Pensando em Marcela. 

Foi quando o celular tocou. Como era um número desconhecido, normalmente Vivi não pararia o daimoku, mas naquele momento, inexplicavelmente, pegou o celular e atendeu.

Apesar da voz do outro lado ser muito calma, na visível intenção de tranqüilizá-la, Vivi ficou em choque.

Foi fazendo daimoku no carro o caminho inteiro. Quando saiu do túnel viu um aglomerado de pessoas, a ambulância dos bombeiros, mas só quando deu a volta, chegou do outro lado e viu o que tinha sobrado do carro se desesperou realmente.

A frente tinha afundado, todos os vidros estavam quebrados. O ferro horizontal mais grosso da grade tinha entrado cortando a carroceria no meio, na altura em que as janelas começam, da frente até o banco traseiro. Para qualquer um que olhasse, pareceria impossível que quem estivesse lá dentro pudesse ter sobrevivido.

Os paramédicos estavam em torno de uma maca. Vivi se aproximou tremendo. Foi interceptada por um policial. Explicou que tinham ligado para ela, que era amiga da... nossa, a palavra horrível que ele usava era “acidentada”. E o guarda a deixou passar.

Marcela estava deitada na maca, de olhos fechados. A mão esquerda enfaixada, mas fora isso, parecia incrivelmente inteira.

Vivi tocou no rosto dela, e Marcela abriu os olhos.

Uma enorme sensação de alívio tomou conta das duas. Vivi por Marcela estar consciente, aparentemente bem e até sorrindo para ela. Marcela pela simples presença dos reconfortantes olhos verdes.

Não lembrava do momento em que tinha sido retirada do carro. Quando voltou a si, já estava deitada na maca, com milhares de pessoas em volta, a examinando. Tinham pedido um número de telefone. Alguém para quem pudessem ligar avisando.

E a primeira pessoa que pensou, na verdade a única que desejou que viesse, agora estava ali, na frente dela. Passando a mão carinhosamente no rosto de Marcela. Com os olhos cheios de lágrimas, perguntando:

- Você tá bem?

Marcela fez que sim com a cabeça, quase chorando também.

O policial chamou Vivi para conversar com ele e a médica, que explicou que em princípio, parecia tudo bem, mas que Marcela tinha que ir para o hospital fazer exames, tirar radiografias, etc. Pura rotina, segundo ela.

Na verdade, nenhum dos médicos conseguia acreditar que depois de uma batida daquelas, Marcela não tivesse quebrado nada. Nem um ossinho sequer:

- Até agora não consegui entender. Ninguém entende. É inexplicável.

Foram as palavras exatas da médica. Já o guarda tinha um outro assunto para resolver:

- Você é da família?

- Sou amiga dela.

- Sua amiga tava dirigindo bêbada. E sabe-se lá mais o que...

Levando em conta o estado em que já tinha visto Marcela ficar, Vivi nem conseguia imaginar o que ela tinha feito para estar voltando para casa depois das oito horas da manhã e ter dormido no volante daquele jeito.

- Isso não vai se repetir. Eu prometo.

Foi a resposta que deu. Resolvida a cumprir. Decidindo que a partir daquele momento, não ia deixar aquele tipo de coisa acontecer mesmo. Nem que para isso tivesse que se algemar em Marcela.

O policial interrompeu os pensamentos dela:

- Tudo bem. Acho que o susto já foi o bastante. Vou liberar vocês.

Vivi então voltou para junto de Marcela. Os olhinhos negros a olharam com uma fragilidade inédita:

- Que bom que você veio...

Disse, agarrando a mão de Vivi. O brilho verde cintilou, e depois se tornou muito sério ao dizer:

- Quer que eu ligue pra sua mãe?

Mas Marcela teimou em dizer que não, que a mãe ia ficar histérica e era melhor só contar quando já estivesse em casa. Vivi não insistiu. Até porque já estavam levando Marcela para a ambulância. Ela se desesperou:

- Não me deixa sozinha...

Vivi a acalmou:

- Eu sigo a ambulância. Vou estar logo atrás de você...

Os enfermeiros levantaram a maca, colocaram dentro da ambulância, entraram. E a última visão que Marcela teve enquanto as portas se fechavam, foi a ruiva absolutamente incrível com ofuscantes olhos de esmeralda.

 

Ficaram algumas horas no hospital. Marcela já estava super mal humorada, cansada de ficar andando de cadeira de rodas para cima e para baixo. Se não fosse a presença de Vivi, com certeza já teria aprontado. Mas com Vivi ao lado dela, Marcela ficava quase comportada.

Depois de milhares de exames, constataram que realmente, Marcela não tinha nada. Apenas alguns pequenos cortes feitos pelos cacos de vidro na mão esquerda. Tiveram que aceitar o inacreditável. E finalmente, a deixaram ir para casa.

 

Marcela estava parecendo feliz e despreocupada demais para o gosto de Vivi. Quase cantando no banco do carona ao lado dela. Isso a deixou possessa:

- Não é possível que você seja tão irresponsável!

Marcela, que na verdade estava aliviada por finalmente estar livre dos médicos, feliz por ter saído inacreditavelmente ilesa e ao lado de Vivi, ficou totalmente surpresa:

- Desculpa, eu...

Vivi a bombardeou:

- Desculpa? Não é pra mim que você tem que pedir desculpas. É pra você mesma! Viu o estado do carro? Você tava dirigindo drogada e bêbada! Podia ter atropelado e matado um monte de gente! Podia ter morrido, Marcela!

Quando terminou de falar, Vivi estava tremendo. Tanto que teve que parar o carro. Na mesma hora veio um daqueles caras da prefeitura querendo cobrar dois reais pelo estacionamento.

Marcela o despachou rapidamente:

- Cinco minutinhos, amigo.

Vivi encostou a cabeça no volante. Chorando, trêmula e ofegante. Sofrendo o efeito retardado do susto que tinha levado.

Marcela acariciou os cabelos dela, deu um beijinho em Vivi, e ela... Levantou a cabeça, os olhos fuzilando de raiva, e começou a bater em Marcela:

- Miserável! Quase me mata de susto, e depois fica aí rindo, cheia de graça!

Marcela se defendeu como pode, colocando os braços na frente para segurar os tapas, e realmente, não conseguindo deixar de rir do ataque inesperado:

- Ei! Calma! Não fica bem uma budista espancar os outros, né?

Frase errada. A brincadeira deixou Vivi com tanta raiva que mandou a educação para o espaço:

- Babaca! Escrota! Filha da puta!

Dessa vez Marcela apanhou calada. Nem tentou se defender. Sabendo que tinha ultrapassado todos os limites, porque... nunca tinha visto ela xingar daquele jeito. A passividade de Marcela fez Vivi se acalmar e parar.

Os olhos se encontraram. Os verdes faiscando. Os negros sérios e estranhamente calmos.

Vivi se arrepiou inteira. Tomada por uma descarga de sentimentos contrários. De um lado um ódio profundo. De outro um amor imenso.  Marcela era inconseqüente, detestável, adorável, linda... Tudo isso ao mesmo tempo...

A voz de Vivi exprimiu o turbilhão de emoções que a consumiam:

- Marcela, você... Você me enlouquece!

Se rendendo ao que sentia, segurou o rosto de Marcela com as duas mãos e a beijou.

A reação de Marcela foi imediata. Passou os braços em volta de Vivi, e correspondeu com a mesma paixão desenfreada. Assombrada com as milhares de maravilhosas sensações que o gosto, a textura e o cheiro dela despertavam.

Vivi também se espantou. Marcela nunca a tinha beijado com tanto ímpeto. Como se desejasse aquele beijo tanto quanto ela.

Ouviram umas batidinhas no vidro. Se separaram apenas o bastante para ver... o flanelinha olhando para elas e rindo de um jeito um tanto quanto tarado:

- Querem uma ajudinha?

Ele disse quase babando. Marcela ameaçou reagir, mas Vivi a conteve apenas com um olhar. Depois ligou o carro e saiu rapidamente dali.

Durante o resto do trajeto, Marcela ficou estranha, calada. Mantendo a cabeça baixa, parecendo triste. Isso deixou Vivi chateada, arrasada mesmo. Por achar que Marcela estava assim por causa do beijo.

Mas na verdade, o que atormentava Marcela era uma coisa bem diferente. As  lembranças da noite passada. E também... o quanto vinha sendo estúpida até aquele momento. As fichas tinham finalmente começado a cair...

Chegaram no prédio de Marcela. Vivi parou o carro, e esperou. Sem saber se deveria estacionar ou ir embora. Marcela não deixou dúvidas do que queria:

- Fica aqui comigo...

Tinha uma coisa diferente nos olhos negros... Vivi não conseguiu definir exatamente o que. Estavam profundos, meigos, quase desamparados. Sem nada da rebeldia tempestuosa de sempre. 

Vivi concordou. Impossível resistir... Subiram caladas no elevador. Marcela abriu a porta, e disse, assim que entrou:

- Preciso muito de um banho...

Se sentia suja, imunda mesmo. Desejando que o chuveiro pudesse limpar a noite anterior para sempre.

Vivi balançou a cabeça, concordando. E depois pediu:

- Não tranca a porta, tá?

E como Marcela a olhasse interrogativamente, explicou:

- Só pra prevenir... No caso de você se sentir mal... 

Marcela sorriu. Um sorrisinho quase dolorido. Se sentindo a pior das pessoas. Vivi era completamente maravilhosa e linda... Toda certinha, solícita, perfeitinha... E ela... bem, ela era... toda errada, a imperfeição em pessoa... um desastre, um pesadelo...

Entrou debaixo da água quente, pegou o sabonete, e se esfregou com tanta força, que a pele chegou a ficar vermelha. Despertando uma angústia violenta.

Respirou fundo, tentando controlar a dor que sentia no peito, mas ela subiu como um nó na garganta, e fez os olhos arderem e desabafarem caudalosamente.

As lágrimas escorreram como uma correnteza... Incontrolável, interminável, sacudindo o corpo dela inteiro...

Se entregou aos soluços, apoiando as mãos na parede de azulejos, e deixando a água bater na nuca, nos ombros, na cabeça. Depois se sentou no chão, abraçando as pernas... Desejando desaparecer, se afogar, esquecer...

Tão completamente afundada nesses sentimentos, que até perdeu a noção do tempo.

 

Vivi começou a ficar preocupada. Marcela já estava há mais de 30 minutos dentro daquele banheiro.

Bateu, e não obteve resposta. Bateu novamente, com mais força. E nada...

Encostou o ouvido na porta. Ouviu um barulho baixinho... Abriu a porta devagar, e então identificou o que era: um choro fraquinho...

O banheiro estava cheio de vapor quente, difícil enxergar lá dentro. Se aproximou do chuveiro, abriu o box  e viu Marcela sentada no chão, abraçando as pernas, com a cabeça entre os joelhos e o corpo sacudido por soluços. Chamou com uma voz muito doce:

- Marcela...

Marcela atendeu assim que ouviu. Olhou para Vivi como se visse um sonho, um anjo, algum tipo de presença salvadora capaz de a arrancar daquele  desesperador estado de tormento.

Vivi se assustou com o sofrimento nos olhos negros. Desligou o chuveiro, pegou uma toalha, e disse:

- Vem aqui comigo...

Com um carinho tão grande, que Marcela prontamente obedeceu. Sem dizer uma palavra, se levantou do chão e saiu do chuveiro.

Vivi a enrolou na toalha, e a abraçou. Sentiu Marcela estremecer, e apertou os braços com mais força ao redor dela. Ficaram assim durante algum tempo, até Vivi sentir Marcela relaxar o corpo novamente.

Se afastou, e olhou Marcela profundamente. Limpou as lágrimas do rosto dela com os dedos. Então, a enxugou inteira, com muita delicadeza.

Marcela apenas a olhava, incapaz de qualquer outra coisa além de se entregar às mãos suaves que cuidavam dela como se fosse algo frágil, que pudesse quebrar com um toque menos leve. Deixou que Vivi a levasse para o quarto. Docilmente.

Vivi a vestiu, a fez deitar na cama e a cobriu com o edredom. Depois se sentou ao lado dela. Muito preocupada. Nunca tinha visto Marcela daquele jeito, totalmente despojada do jeito irreverente e descolado de sempre. Parecia assustadoramente vulnerável. Sem conseguir nem querer resistir, ficou acariciando os cabelos negros.

Marcela suspirou e fechou os olhos, sentindo um conforto profundo. Misturado com... não entendia bem... um delicioso e aconchegante... não sabia o que...

Não querendo pensar, decidiu apenas aproveitar o delicioso momento, a mão que a tocava com tanta ternura... Se rendeu completamente... E com um sorriso satisfeito nos lábios, acabou adormecendo.

 

 

Capítulo 13: Como se fosse a primeira vez...

Depois que Marcela dormiu, Vivi ainda ficou um tempo olhando para ela. O simples fato de estar tão perto já era o suficiente para despertar bilhões de diferentes sentimentos.

Antes de Marcela, tudo parecia muito mais simples. Pura verdade. Mas muito mais sem graça também.

Marcela continha um estranho fascínio. Que dominava Vivi, mesmo quando ela fazia coisas absolutamente detestáveis. Quando fazia coisas que Vivi  adorava, então – principalmente aquelas que tinha acabado de descobrir que gostava – nem se fala...

Só que não fazia idéia do que ela pensava, queria ou sentia. Porque Marcela era uma confusão. Tudo nela era inconstante, imprevisível, contraditório, incoerente....

Tinham se beijado, feito sexo, sempre de forma apaixonante, profunda, inebriante... E todas as vezes, depois de passado o momento, Marcela tinha olhado para ela como se quisesse sumir.

Ou seja: Marcela não resistia, cedia, e depois se arrependia... Até aí, Vivi achava que conseguia compreender.

Mas se Marcela não sentia nada por ela além de atração e desejo, por que tinha pedido para chamarem Vivi quando sofreu o acidente?

Por ser a única amiga em que confiava realmente? Talvez... Não sabia, não tinha certeza. E não queria se iludir pensando diferente.

Vivi se levantou, suspirou, passou as mãos nos cabelos, jogando-os para trás. Achou melhor arrumar alguma coisa para fazer. Qualquer coisa, menos ficar ali, naquela masturbação mental.

Marcela devia estar virada. Então, provavelmente dormiria por um bom tempo.

Vivi estava morrendo de fome. Também pudera, só tinha bebido um Nescau o dia inteiro, e já eram – olhou para o relógio e se assustou – quatro horas da tarde!

Foi até a cozinha, meio sem graça por abrir a geladeira e sair mexendo, mas...  achava que Marcela, despojada de cerimônias que era, não ia se importar.

Ao contrário da outra vez - da pizza com doce de leite – as prateleiras estavam cheias. A mãe dela devia ter feito compras para ela, porque... Vivi duvidava que  Marcela já tivesse entrado num supermercado para algo além de comprar biscoitos e bebidas... No que, aliás, estava certíssima.

Fez um sanduíche e bebeu um pouco de suco. Depois foi para a sala e sentou em um dos sofás. Exatamente naquele em que tinha se sentado com Marcela ao lado dela no dia da bendita festa, que parecia ter acontecido séculos atrás.

Ficou lembrando, com um sorriso nos lábios. Aquele dia tinha sido um marco na vida de Vivi...

O telefone tocou. Vivi, obviamente, não atendeu. Deixou cair na secretária.

A voz de Marcela falou no tom sensual de sempre:

“ - Oi, aqui é a Marcela. Depois do bipe você sabe o que fazer.”

E depois do apito estridente, uma voz que era... perversa -  Vivi não teve outra palavra para descrever - disse:

“ - Marcela! Marcela, atende a bosta desse telefone! Escuta aqui, garota: tô muito puta com você! Saiu ontem daquele jeito porque? Vai ter que rastejar de verdade pra eu te perdoar dessa vez!”

Desse jeito. Vivi chegou a sentir um calafrio. Não precisava ser um gênio para calcular quem deixaria um recado daqueles.

Caminhou até a secretária eletrônica com coceira nos dedos. Olhou para o botão tentador... Bastaria um apertãozinho para deletar aquilo...

Por alguns segundos, Vivi travou uma batalha dentro dela.

De um lado, a vontade de se livrar da mensagem da outra. Se Marcela não soubesse que ela tinha ligado, talvez não saísse correndo atrás de Gisele.

Do outro lado, a consciência de que apagar a mensagem não era correto. Marcela tinha total direito de escolher o que fazer da vida dela. Mesmo se a escolha fosse a burrice suprema de ir atrás da loira que a tratava como lixo.

Venceu o ciúme, a raiva, e outros vários e diversos sentimentos negativos. Optou por deixar a mensagem e voltou a se sentar decidida a... interferir sim, mas de outra maneira.

 

Algum tempo depois, Vivi ouviu um celular tocando. O barulho vinha do quarto de Marcela. Ainda tentou correr para evitar que ela acordasse, mas quando cruzou a porta, era tarde. Marcela já estava sentada na cama, com o celular no ouvido, dizendo:

- Não, mãe, eu tô bem. Fica tranqüila. Juro, não aconteceu nada comigo. Não sei, não lembro... Quando acordei já tava fora do carro. Que bom que deu perda total, né? Dessa vez meu papai querido não pode reclamar, o seguro cobre tudo! Ai, mãe, tá... Nem adianta que não tô em casa. Amanhã a gente se fala. Tá... tá... tchau...

Vivi suspirou profundamente, aliviada por não ser a tal Gisele. 

Marcela desligou e jogou o celular na cama. Vivi continuou parada na porta, olhando para ela. O verde dos olhos com uma faísca de reprovação gigante:

- Que absurdo! Por que falou pra sua mãe que não tava em casa?

Marcela jogou as cobertas para o lado e se levantou:

- Porque não queria ela aqui me enchendo o saco. Ia ligar pra ela mais tarde, mas a droga do cara do seguro foi mais rápido.

Marcela olhou para a ruiva linda encostada no umbral da porta. E então, a expressão dela mudou completamente. Os olhos negros se tornaram doces, suaves, quentes.

Caminhou na direção de Vivi. Parou na frente dela, fitando o cintilante brilho verde profundamente. Vivi sustentou o olhar, decidida a não fugir nem se privar daquilo que tanto queria: ela. Mas por dentro estava tremendo.

Para Marcela, era como se a visse pela primeira vez. Queria dizer e fazer muitas coisas. Tantas que nem sabia por onde começar. Uma de cada vez - pensou. Tomou coragem e falou:

- Queria te agradecer...

Vivi logo a cortou. Não ia agüentar se dos agradecimentos ela passasse às desculpas, como sempre:

- Pelo que?

Marcela percebeu que Vivi estava impaciente, um pouco irritada até, mas não entendeu porque.

Segurou a mão dela carinhosamente, fazendo o olhar de Vivi amansar. E disse com olhos marejados e sinceros:

- Por ter ido me buscar, por ter me ajudado, por ter cuidado de mim, por ter me dado uns tapas... Por tudo, Vivi...

Vivi não respondeu. Ficou calada. Estabelecendo um silêncio denso entre elas. Que Marcela rompeu, com uma voz estranhamente insegura:

- Por que você... é assim comigo?

Vivi ainda não tinha certeza do que Marcela estava querendo. A mão não soltava a dela. Os olhos não a deixavam um instante, mas... Não queria dar margem para nenhum tipo de erro:

- Assim? Assim como?

Marcela estava confusa. Vivi estava tão na defensiva... Talvez pudesse estar enganada. Talvez além de amizade, não houvesse nada...

Esse pensamento a fez sentir um medo quase pânico. De perder sem jamais ter tido. De ter estragado tudo antes mesmo do início. Porém, precisava saber a resposta. A voz de Marcela saiu tremida:

- Você parece que... se importa... comigo...

Vivi teve todas as certezas que precisava. Abriu um sorriso, lançou um olhar cintilante para Marcela...E acariciou o rosto dela enquanto dizia:

- Eu me importo. Realmente me importo com você.

A forma como Vivi falou, fez Marcela saber a verdade, e... querer mais. Muito mais. Queria ouvir com todas as palavras, sílabas e letras. Insinuou, com um olhar capaz de derreter uma geleira:

- Você disse que eu te enlouquecia... 

Vivi sorriu. E respondeu com os olhos significativamente voltados para os lábios de Marcela:

- E me enlouquece mesmo...

Depois voltou a olhar para os olhos dela, de forma absolutamente sedutora. Fazendo Marcela se arrepiar inteira, e confessar finalmente:

- Você me enlouquece também...

A frase de Marcela fez um friozinho subir pela espinha de Vivi. Perguntou baixinho, como se não acreditasse:

- Mesmo?

Marcela respondeu balançando a cabeça afirmativamente, com uma simplicidade que Vivi achou linda.

Marcela olhou para os lábios dela...  Vivi os umedeceu, num convite  silencioso. E quando voltou a olhar para os olhos negros foi com um brilho verde exigente, provocante ao extremo:

- E o que isso quer dizer?

Marcela aproximou os lábios, quase encostando nos dela. Se deliciando ao ver as esmeraldas se incendiarem correspondendo.

Respondeu baixinho, num último e excitante sussurro:

- Não sei... Vamos ter que descobrir juntas...

E colou os lábios nos de Vivi apaixonadamente. Fazendo com que as duas estremecessem.

Quente. Muito quente. Incandescente. E sedutor, excitante, atordoante, impressionante, envolvente. Foi o gosto, o cheiro, o jeito daquele beijo. Intensa e profunda mistura adocicada de lábios, línguas, salivas...

As respirações sufocadas, pulsantes como a pele que parecia se dissolver.

Marcela abraçou Vivi pela cintura, a puxou carinhosamente, se deliciando em sentir a respiração dela se tornar cada vez mais ofegante e ardente. Não acreditando que podia ter sido tão cega a ponto de não perceber o que estava o tempo todo na frente dela.

A beijou como se fosse a primeira vez. E na verdade era. A primeira vez que a beijava com cada uma de suas células. Que prestava atenção nos detalhes maravilhosos dela.

Em como Vivi suspirava e se colava mais à Marcela, com os braços passados ao redor do pescoço dela, as mãos se enfiando carinhosamente nos cabelos negros. Em como os lábios eram suaves, macios, entregues, mas... exigentes. E a língua percorria a boca de Marcela no mesmo ritmo da dela, deixando escapar um gemido baixinho de vez em quando, quando o piercing encostava nela...

Marcela achou engraçado aquele estranho desejo - que não sentia há muito tempo – de querer beijar, apenas beijar, sem pressa.

Queria parar o tempo. Para aproveitar, provar, conhecer e conquistar Vivi como deveria ter feito desde o começo.

Vivi estranhou a enormidade de tempo que Marcela ficou apenas a beijando. Mas longe de querer reclamar... Estava adorando.

Sem parar de beijar Vivi, Marcela a puxou. Até sentir a cama encostar na parte de trás das pernas.

Então foi parando de beijá-la, transformando o beijo longo numa série rápida de beijos curtos, mas nem por isso menos ardentes.

Quando a boca de Marcela se separou da dela, Vivi abriu os olhos e a fitou, como se despertasse de um sonho.

Marcela acariciou o rosto dela, mergulhando no ardor cintilante das esmeraldas com um sorriso meigo.

Depois se sentou na cama, e a puxou pela cintura, fazendo Vivi se ajoelhar na cama com Marcela entre as pernas, e se sentar no colo dela.

As mãos de Marcela percorreram toda a extensão das costas de Vivi, que suspirou e gemeu baixinho, os braços enlaçando o pescoço de Marcela, toda entregue nas mãos dela.

Marcela a puxou pelo pescoço, desejando mergulhar nos lábios dela novamente. Dessa vez a boca de Vivi estava impaciente, infinitamente mais ardente. Movendo a língua contra a de Marcela como se a quisesse engolir inteira.

Marcela percorreu o pescoço dela com os lábios, ao mesmo tempo em que acariciava um dos seios. Vivi gemeu, e voltou a enfiar as mãos nos cabelos dela.

Os beijos de Marcela desceram do pescoço para o colo. Soltou as alças do vestido de Vivi, deixando os seios dela à mostra. Por pouco tempo, porque a boca e a mão desceram avidamente sobre eles.

Vivi gemeu novamente. Jogou a cabeça para trás, acariciou a nuca e a parte de trás da cabeça de Marcela, despenteando os cabelos dela completamente.

Começou a puxar a camiseta que Marcela usava. Marcela parou o que estava fazendo, e deixou que Vivi arrancasse a peça de roupa, ficando só de calcinha debaixo dela.

Aproveitou para se livrar do vestido de Vivi. Devorando o corpo dela com os olhos quando a desnudou, e depois dizendo bem dentro do brilho verde:

- Você é tão linda... Linda demais, Vivi...

Então voltou a colar os lábios no biquinho duro dos seios, lambendo, chupando, sugando, a enlouquecendo. Vivi movia os quadris contra ela quase que inconscientemente, querendo mais, muito mais do que simples carícias. Marcela desceu a mão pelas coxas dela. A pele queimando de tão quente. Quando finalmente a tocou entre as pernas, afastando a calcinha, encontrou um sexo molhado, pulsante, que se oferecia inteiro para ela.

Acariciou sem pressa, se deliciando em levar Vivi a um estado de quase desespero.

A voz de Vivi soou trêmula e ofegante, quando pediu:

-  Quero te sentir... dentro de mim...

E Marcela prontamente obedeceu. Começou a mover os dedos dentro dela, deixando Vivi  comandar a intensidade e a velocidade no início.

E depois estabeleceu seu próprio ritmo, fazendo Vivi experimentar um prazer maior do que jamais tinha sentido.

Ficaram assim alguns momentos, Vivi sem conseguir mais controlar os próprios movimentos, seguindo o caminho que Marcela mostrava com a boca colada no seio dela, enquanto com os dedos a tomava, a completava, a descobria, fazendo Vivi se libertar completamente.

Chamando Marcela de gostosa, tesão, delícia. Gemendo alto o nome dela, dizendo  que queria dar para Marcela, que queria ser dela. Marcela só gemia... e a acariciava cada vez com mais paixão, ardor e entrega.

Vivi começou a estremecer, e a puxou com força pelos cabelos, obrigando Marcela a largar o seio e levantar a cabeça. Olhou Marcela fundo nos olhos:

- Vou gozar pra você...

E o que Marcela viu dentro do verde intenso a fez derreter, delirar, quase morrer de prazer.

O rosto de Vivi gozando refletia... Luz. Vida. Energia. Pura, linda, inebriante, magnífica. Absurdamente estonteante e vívida.

E então Vivi relaxou o corpo, encostou a testa na de Marcela e ficou se recuperando, ofegante, com os olhos fechados e um enorme sorriso.

Marcela tirou os dedos de dentro dela lenta e cuidadosamente. Vivi protestou com um suspiro. Depois sussurrou:

- Marcela...

O jeito como Vivi disse o nome dela - manso, doce, íntimo - fez Marccela sentir um delicioso arrepio. Os olhos verdes cintilaram, antes de completar:

- Quero muito mais de você...

A frase continha milhares de significados. Para todos, a resposta de Marcela era a mesma:

- Vai ter... vai me ter... inteira...

Envolveu Vivi num abraço apertado, e voltou a buscar os lábios dela apaixonadamente.

 

 

 

Capítulo 14: Boca a boca...

Vivi nem podia acreditar que um coração fosse capaz de bater tão alto, tão rápido e tão forte quanto o dela naquele momento.

Finalmente, Marcela parecia demonstrar algum tipo de sentimento. Dizendo coisas, a olhando, abraçando e beijando de uma forma absolutamente... impossível de descrever...

Marcela segurou Vivi nos braços como se tivesse medo de que ela escapasse. A deitou na cama gentilmente. Tirou a calcinha dela e fez o mesmo com a que vestia. Depois se deitou por cima dela, voltou a colar os lábios nos dela, e toda a gentileza se transformou em fogo líquido.

Poderia ficar ali eternamente, se encontrando naquela mulher. Aprofundou ainda mais o beijo, a língua percorrendo cada recanto da boca que ardia com a mesma espécie de febre.

Vivi desceu as mãos pelas costas de Marcela, passando as unhas de leve. Sentiu que ela se arrepiava e estremecia, arqueando o corpo involuntariamente. Abriu as pernas, encaixando Marcela entre elas. Segurando as nádegas dela com as mãos, puxou Marcela com força contra ela.

Marcela gemeu, e começou a se mover em cima de Vivi de uma forma  absolutamente apaixonada e ardente. A mesma com que Vivi correspondeu. Os sexos dançando no mesmo compasso - inebriante, pulsante, urgente...

Pegou os seios de Marcela com as mãos, depois os provou, colocando na boca primeiro um, depois o outro. Passou a língua ao redor do bico, e então mordeu, chupou, sugou... Os gemidos de Marcela a guiando o tempo inteiro.

Com um toque suave, Marcela fez Vivi olhar para ela. Apenas para constatar que... os olhos verdes eram um verdadeiro incêndio. Grudou os lábios nos dela de uma forma tão faminta, que Vivi gemeu. Marcela colou a boca no ouvido de Vivi, e começou a dizer:

- Aquela noite... Era você... Eu sei, porque... Só é assim com você...

Os olhos se encontraram, exatamente como naquela outra noite...

Vivi deixou escapar um gemido... Se arrepiou inteira... Apertou Marcela com força, mergulhou a boca na nuca, no pescoço dela...

Os movimentos de Marcela se tornaram mais rápidos, os gemidos mais freqüentes... Um prazer delirante, imenso, tomou conta de Vivi. Acompanhou Marcela num gozo demorado, maravilhado, intenso.

Depois Marcela relaxou o corpo e ficou ali, agarrada nela. Quando as respirações voltaram ao normal, se apoiou nos cotovelos e beijou Vivi nos lábios. Um beijo longo, preguiçoso, e meigo.

Depois perguntou, cheia de cuidados com ela:

- Tô te machucando?

E como Vivi a olhasse como se não estivesse entendendo, explicou:

- Com o meu peso...

Vivi sorriu, e passou a mão nos cabelos de Marcela, os tirando do rosto dela, antes de responder:

- Não... É muito bom ficar assim com você...

A apertou de novo, beijando rapidamente os lábios dela. Marcela sorriu, a beijou de volta, um leve toque de lábios apenas.

Depois ficou muito pensativa e  séria. Tanto que Vivi estranhou:

- Que foi?

- Nada não... Besteira...

Marcela não foi nem um pouco convincente. Isso só serviu para aumentar a curiosidade de Vivi:

- Ah, não... Fala...

- É que...

Marcela jogou o cabelo para trás, olhou para baixo, para cima, depois para baixo novamente, e só então respondeu:

- Eu sou sua primeira mulher, e...

Vivi foi incisiva:

- E?

Deixando Marcela sem saída:

- Você acha que prefere o que?

Vivi entendeu a insegurança dela. Perfeitamente. Só que não achava tão fácil assim responder:

- Marcela... É muito.. diferente, né?

- É, deve ser...

- Como assim, deve ser?

Na mesma hora em que questionou, Vivi compreendeu:

- Quer dizer que você nunca...

Marcela disse com um leve tom de superioridade na voz:

- Pra que? Já nasci sabendo que gostava de mulher...

E depois insistiu:

- Você ainda não me respondeu...

Vivi percebeu o quanto Marcela estava preocupada. O corpo dela estava tenso,  uma ruguinha de preocupação teimava em aparecer no franzir da testa... Por isso, e só por isso, resolveu deixar qualquer tipo de medo de lado e confessar:

- Já que você quer tanto saber... Nunca senti com o Edu o que eu sinto com você.

Marcela não pareceu satisfeita. Perguntou:

- E com os outros?

- Que outros?

Deixou uma pontinha de ciúme transparecer:

- Além do tal Edu...

Vivi riu alto. Marcela só entendeu quando ela finalmente respondeu:

- O Edu foi o único antes de você. Satisfeita? Se não, vou repetir: nunca senti com ele o que eu sinto com você.

Marcela abriu um enorme sorriso. E beijou Vivi novamente, de uma forma absolutamente carinhosa, apaixonada, emocionada mesmo...

Quando o beijo terminou, ficou olhando pensativa para os olhos verdes. Estava realmente surpresa. Não esperava essa quase não experiência dela...

Porque no dia da festa, tinha beijado Vivi e sem nem pensar, começado a tirar a roupa dela... E em nenhum momento Vivi tinha recuado ou hesitado. Pelo contrário, tinha correspondido de uma forma completamente entregue e intensa.

Enquanto Marcela tinha sido... absurda e horrivelmente insensível. Pedindo desculpas, e largando Vivi para sair correndo atrás de Gisele...

Vivi cortou os pensamentos de Marcela, como se os estivesse lendo:

- Ei... Aquela primeira vez, eu queria... Muito... Você não tem culpa de não...

“Ter sido a mesma coisa pra você.” – foi o que não teve coragem de dizer.

Os olhos verdes ficaram tristes, muito tristes mesmo. Quase sem brilho. Marcela não suportou aquilo:

- Não é nada disso... 

As esmeraldas se reacenderam, e se fixaram em Marcela com um pouco de esperança. Marcela completou:

- Aquela noite eu praticamente ataquei você, Vivi. É... Pode rir... Te agarrei mesmo... Porque você tava tão... tão!... que me fez perder completamente o controle, a noção, a razão... Só queria te devorar inteira...

O sorriso que Vivi abriu iluminou o quarto todo. Marcela ficou completamente fascinada, ofuscada, perdida naquele brilho intenso. Depois sussurrou, olhando para Vivi profundamente:

- E continuo querendo...

Confirmou as palavras roucas de desejo colando a boca na dela apaixonadamente.

 

Marcela ficou olhando para o microondas onde a lasanha congelada começou a rodar. Os pensamentos longe... em Vivi apenas.

Tinha deixado a ruiva esplendidamente nua, linda e sozinha em cima da cama... Com muito sacrifício... Só porque já era de noite, não tinha comido nada o dia inteiro e estava quase desmaiando de fome.

Não querendo desperdiçar um momento sequer, voltou para o quarto. Se surpreendeu porque... Vivi estava sentada na beira da cama completamente vestida. Perguntou:

- Vai embora?

Com uma cara tão decepcionada, que Vivi não teve como deixar de rir. Foi até ela, passou os braços ao redor do pescoço de Marcela e a beijou. Como a expressão dela não melhorou nem um pouquinho acabou respondendo:

- Já não disse que vou dormir aqui com você?

- Então porque tá toda vestida?

Vivi acabou de vez com todas as desconfianças dela:

- Por que vou fazer o Gongyo da noite, meu bem... 

Só então Marcela viu que ela estava segurando um livrinho.

- Gong o que?

- Gongyo. É uma oração. A recitação de dois capítulos do Sutra de Lótus. Fazemos de manhã e à noite.

Marcela ficou curiosa. Mas não sabia direito se podia ficar ou se precisava sair... Vivi percebeu, porque perguntou:

- Quer aprender?

Marcela fez que sim com a cabeça. Vivi disse com um enorme sorriso:

- Senta aqui comigo.

Puxou Marcela pela mão, e se sentaram juntinhas, uma do lado da outra na beira da cama.

Vivi abriu o livrinho e ficou segurando na frente de Marcela, que deu uma olhada e quase morreu, porque não conseguiu entender nada do que estava escrito. Não conseguiu deixar de soltar:

- Que língua é essa?

Vivi riu. Acostumada com o espanto das pessoas. À primeira vista ler aquilo parecia impossível... Mas o impossível, ela sabia, podia mudar para possível rapidinho se a pessoa resolvesse...

- É sânscrito... Mas aqui tá escrito como se pronuncia. É igual ao daimoku: como uma música... Depois de um tempo fica no ouvido. Provavelmente não vai dar pra você falar de primeira, mas acompanha lendo, tá?

Marcela concordou. Vivi explicou algumas coisas antes de começarem, e fez a oração devagar, seguindo as palavras com o dedo, para Marcela não se perder.

Marcela ficou espantada, porque nem achou tão difícil assim. Claro que ela só leu, não conseguiu pronunciar uma palavra. A não ser o NAM MYOHO RENGUE KYO, que já conhecia e que, como Vivi tinha dito,  era mesmo como uma música, parecia vibrar dentro do peito, a fazendo sentir uma sensação extremamente boa.

Vivi não ia fazer mais de dois minutos de daimoku. Afinal de contas, Marcela não estava acostumada... Mas como ela parecia estar gostando - estava muito  concentrada, os olhos negros brilhavam - acabaram fazendo 5 minutos. Sem que Marcela mostrasse sinal de cansaço.

Dentro do Gongyo, tinha uma parte com orações silenciosas. Algumas eram cheias de nomes de uns japoneses que Marcela não fazia a menor idéia de quem fossem. Mas seguiu Vivi sem interromper.

Leram a última: “Por fim, ofereço sinceras orações pela paz mundial e pela felicidade de todas as pessoas.”

Daimoku sansho e... Marcela bombardeou Vivi de perguntas. Vivi respondeu cada uma e todas sem demonstrar impaciência. Até esclarecer a última:

- “Kossen-Rufu” : “Kossen” significa declarar amplamente, ou seja, ensinar a filosofia budista às pessoas. “Ru” quer dizer “uma corrente como a de um grande rio” e Fu “espalhar-se como um rolo de tecido”. 

Marcela parecia impressionada, e... sem entender muito. Por isso simplificou:

- Normalmente as pessoas traduzem “Kossen-Rufu” como paz mundial. Porque paz não é simplesmente ausência de guerra. Pra que a paz mundial realmente aconteça é preciso que as pessoas vençam o preconceito, a ganância, o desejo de querer dominar tudo e todos que as rodeiam. E a única forma de conseguir isso é através da auto-reforma, da revolução humana, que é o objetivo da prática budista. Entendeu?

Marcela balançou a cabeça afirmativamente. Admirada. Encantada. Embevecida. Fitando Vivi com total fascínio.

Os olhos verdes envolveram os negros com um ardor igual quando Vivi falou:

- Tem reunião toda 3ª feira. Se quiser ir comigo...

- Quero sim.

Marcela não estava só querendo agradar Vivi. Também, é claro... Mas tinha ficado curiosa, interessada em experimentar, conhecer.  A forma como os olhos de Vivi brilhavam, a energia que fluía dela quando falava sobre o budismo tinham convencido Marcela que devia ser uma coisa muito boa mesmo.

Vivi se levantou, pegou uma caneta na escrivaninha, escreveu alguma coisa na primeira página do livrinho do Gongyo, e depois o estendeu para Marcela, dizendo:

- Pra você...

Marcela abriu e leu:

“Marcela,

Tenha certeza que sua vida ilumina o mundo, e brilha como o sol.

Seja infalivelmente feliz! Evidencie seu estado de Buda sem falta!

Quero estar ao seu lado sempre...

Adoro você!

Bjus,

Vivi”

Marcela levantou os olhos da dedicatória com um sorriso que Vivi achou lindo. Se levantou também, puxou a ruiva pela cintura carinhosamente, e a beijou com doçura. Vivi a abraçou pelo pescoço, as mãos acariciando a nuca dela, e suspirou contra a boca de Marcela.

Foi quando ouviram um apito vindo da cozinha. Só então Marcela lembrou da lasanha...

Correu até o microondas. Colocou a lasanha - na embalagem mesmo - dois pares de talheres e dois copos de coca-cola numa bandeja, e equilibrou até o quarto.

Antes que Marcela pudesse colocar o peso na cama, Vivi pegou os copos – como se previsse um desastre – tornando tudo mais fácil.

Marcela depositou a bandeja no colchão, tirou um dos copos da mão de Vivi, deu um gole e depois colocou no chão.

Vivi preferiu colocar o dela em cima da escrivaninha. Ficou olhando Marcela ligar o Home Theater, escolher e colocar um CD.

Achando o jeito de Marcela se mover – e ser - absurdamente sensual, delicioso, excitante, gostoso... Um tesão mesmo...

Marcela se virou, percebeu o olhar de Vivi, e sorriu. Pelo jeito que as chamas verdes queimavam pôde imaginar o que ela estava pensando.

Vivi sorriu de volta, um pouco envergonhada por Marcela ter percebido o quanto mexia com ela... Nesse momento, a música que Marcela tinha colocado preencheu o quarto.

Vivi reconheceu a banda que estava tocando. Aproveitou para tentar disfarçar:

- “Green Day?”...

Marcela confirmou com a cabeça, enquanto se aproximava de Vivi lentamente. Achando uma graça a súbita e inexplicável timidez dela. Contrastava deliciosamente com o jeito que Vivi a olhava – como se quisesse queimar Marcela nas chamas verdes.

Marcela acariciou os lábios dela com o polegar, sensualmente. Fazendo as chamas aumentarem. Depois sussurrou, sem desviar o olhar do fogo de esmeraldas:

- “Give me Novacaine”...

- Ãh?

- A música...

A segurou pela cintura. Vivi se deixou puxar, hipnotizada pelos olhos negros. Marcela roçou os lábios nos dela de leve. Vivi correspondeu mordendo, saboreando, invadindo a boca de Marcela com a língua.

Marcela passou dos lábios para o pescoço... Beijando Vivi sensualmente, causando arrepios. Depois perguntou capciosamente, a olhando nos olhos:

- Gosta?

Vivi já não sabia se ela estava falando da música ou das carícias ardentes... Pouco importava. Em ambos os casos, a resposta era a mesma:

- Adoro...

Marcela respondeu com um sorriso provocante, envolvente:

- Eu também...

E desceu a boca sobre a de Vivi num beijo longo, inebriante, arrebatador. Vivi entreabriu os lábios. Desejando, exigindo a língua quente que a invadiu e explorou sem pressa.

Marcela se deliciou com os gemidos de Vivi quando aprofundou o beijo. Movimentou o piercing com mais força contra a língua dela, arrancando novos gemidos. Sabendo que Vivi adorava aquilo...

Vivi já não respirava, ofegava contra a boca de Marcela. Seduzida, encantada, maravilhada com ela. Não se cansava do gosto, do cheiro, do ardente roçar do metal frio, dos lábios e línguas.

Suspirou, gemeu alto, baixo, alto novamente... Sentiu o corpo todo amolecer, se derreter, totalmente nas mãos dela.

Marcela mordeu o lábio inferior de Vivi de leve, antes de beijar o queixo, o pescoço, a nuca dela, a boca deixando um rastro de fogo pelo caminho que percorreu.

Vivi enfiou as mãos nos cabelos de Marcela com força. Marcela deu uma última mordida na nuca de Vivi e voltou a procurar os lábios dela com a boca. Parecendo enfeitiçada pela doçura contida neles. Nunca tinha provado um beijo com um sabor daqueles... de incansável, interminável, de... para sempre...

Não queria desgrudar a boca da de Vivi, por nada, nada mesmo...

Mas foi obrigada, porque... já estar começando a ficar tonta. Tempo demais sem comer...

Vivi não entendeu nada quando Marcela a soltou, e sentou na cama de repente. Mas então percebeu que ela estava sem cor nenhuma nas faces:

- Tá passando mal?

A voz de Vivi era preocupação pura. Marcela a tranqüilizou, dizendo:

- Pressão baixa.... Só preciso comer...

Vivi puxou a bandeja para perto dela:

- Então vamos alimentar você...

Marcela comeu quase com desespero. Vivi apenas beliscou a comida. Quando terminou, Marcela perguntou:

- Você não comeu nada... Quer outra coisa?

As esmeraldas se tornaram incandescentes. Vivi sorriu de uma forma nada inocente, e respondeu:

- Você...

 

 

Capítulo 15: Por ser exato o amor não cabe em si...

Nesse exato momento, começou outra faixa do CD do Green Day: “Holiday”.

Marcela mal teve tempo de colocar a bandeja no chão. Vivi já estava em cima dela, a beijando com uma paixão tão louca que Marcela ficou completamente sem ar, sem chão, sem noção...

Como se não existisse nada além da respiração que ofegava como a dela, a língua que percorria a de Marcela com pressa, as mãos que arrancaram a camiseta dela antes de a empurrar até se deitar de costas na cama.

Vivi sentou de pernas abertas em cima de Marcela, só desgrudando a boca da dela os segundos necessários para se livrar da camiseta que atirou longe, sem se importar onde. Desceu a boca pelo pescoço quente, se deliciando em sentir que como ela, Marcela respirava com dificuldade... As mãos acariciaram p os seios, arrancando suspiros e gemidos.

Faminta, quente, irresistível... foi a forma como a boca de Vivi percorreu o pescoço, a nuca, o colo de Marcela, e parou para dar atenção aos seios.

As mãos de Marcela percorreram as coxas de Vivi, e subiram pelas costas, levando junto o vestido. Vivi a ajudou levantando os braços, e Marcela aproveitou para colocar a boca em um dos seios dela. Vivi gemeu, se ofereceu, e depois a puxou pelos cabelos, obrigando Marcela a levantar a cabeça e olhar para ela.

Um breve faiscar foi tudo o que conseguiu enxergar dos olhos verdes, antes dos lábios de Vivi descerem sobre os de Marcela.

Foi um beijo voraz, de um desespero quase violento. As mãos de Vivi empurraram Marcela pelo ombro, a fazendo se deitar novamente, enquanto a boca voltava a percorrer o pescoço incansavelmente, fazendo a pele de Marcela arder.

Marcela enfiou as mãos nos cabelos ruivos, mas Vivi não se deixou conduzir. Desceu pelo corpo dela. As mãos, a língua e os lábios traçando um caminho incandescente, fazendo Marcela se contorcer.

Desabotoou a calça jeans de Marcela, abriu o zíper com pressa. Enfiou a mão e a acariciou por cima da calcinha, enquanto a provocava lambendo a pele perto do elástico. Abriu um enorme sorriso de satisfação, sem parar de passar a língua, ao constatar o quanto ela estava molhada.

Então arrancou o jeans fora, sem nem dar tempo de Marcela ajudar. Jogou a peça de roupa longe, exatamente como tinha feito com a camiseta.

O olhar voraz que lançou para Marcela a fez  pensar que Vivi ia se atirar entre as pernas dela.  Ao invés disso, Vivi percorreu o interior das coxas dela com a boca, beijou a virilha, primeiro de um lado, depois do outro, deixando Marcela enlouquecida.

Encostou a boca no sexo dela ainda por cima da calcinha. Marcela gemeu. Reclamou. A segurou pelos cabelos com força.

Vivi a ignorou, e continuou o que estava fazendo. Chupou, lambeu, mordiscou, com o tecido no meio, durante o curto espaço de tempo – que para Marcela foi um interminável e delicioso tormento – que agüentou.

Se livrou da calcinha dela e por um breve momento, admirou a nudez de Marcela. Tão bela... Absolutamente dela... Com um gemido de antecipação, desceu a boca sobre o sexo que se oferecia quase com desespero.

Marcela gemeu, exprimindo o prazer e alívio que sentiu quando a língua de Vivi finalmente encostou nela:

- Ai, Vivi...

E continuou dizendo o nome dela, entre palavras sussurradas, gemidos e suspiros. A voz, o som, o tom de Marcela fazendo Vivi se arrepiar inteira.

Explorou, mergulhou, invadiu, percorreu, devorou cada pedaço, cada traço que ainda desconhecia do prazer de se deliciar com aquela mulher. O coração batendo no compasso da pulsação de Marcela, que se entregou, se abriu completamente sob os lábios dela.

Marcela desenroscou os dedos dos cabelos de fogo, e levou às mãos à cabeça. Arqueou o corpo, estremeceu, arquejou, e gozou demoradamente na boca de Vivi. Gemendo e dizendo o nome dela tão alto que as paredes pareceram estremecer.

Vivi se deitou em cima de Marcela, e ficou olhando para ela. Quando os olhos negros finalmente se abriram, refletiram os verdes. E por um momento, o mundo parou de girar, as duas pararam de respirar, porque... só o que existia era aquele olhar.

Vivi abriu um sorriso. Apaixonado, ardente, contente. Simples, profunda e absolutamente lindo. Que Marcela retribui com outro igualzinho.

Percebeu então que tinha perdido completamente a noção de tempo e espaço, porque... começou a tocar a última faixa do CD: “Wake me up when September ends”.

Vivi comentou:

- Acho essa música linda...

Marcela olhou fundo nos olhos verdes, e respondeu:

- Linda é você...

Virou, trocando de posição com Vivi. Colou os lábios nos dela, a língua explorando todos os recantos daquela boca de uma forma tão intensa, que tiveram que parar e se separar para conseguir respirar novamente.

Marcela sussurrou, ainda ofegante:

- Maravilhosa...

Desceu os lábios pelo pescoço dela, enquanto fazia Vivi se contorcer e arder sob as mãos que a percorriam inteira.

Passou os lábios de leve no bico do seio de Vivi, arrancando um gemido baixinho. Sem interromper o contato, falou com um tom de voz rouco, que deixou Vivi arrepiada:

- Deliciosa...

Passou a língua, deixando o biquinho ainda mais duro. Lambeu, chupou, mordeu... Vivi suspirava e gemia, respirando com dificuldade, as mãos acariciando a nuca de Marcela, se enfiando nos cabelos dela.

E então Marcela foi descendo, a boca explorando cada pedaço de pele no caminho. Sentindo Vivi se derreter.

Tirou a calcinha dela lentamente. Acariciou o interior das coxas com as mãos, enquanto as afastava. O rosto de Marcela parou entre as pernas de Vivi, tão perto que o hálito quente parecia invadir o sexo dela.

Num último suspiro, quase um gemido, a voz de Marcela era o som do desejo:

- Gostosa demais...

Vivi gemeu alto. O coração disparado, martelando como se quisesse sair do peito. Um prazer quase insuportável a percorrendo.

O mesmo que Marcela teve quando finalmente mergulhou e colou a boca faminta entre as pernas dela. Para se deliciar - fazendo Vivi gozar várias vezes – e só então ficar realmente satisfeita.

 

Marcela ficou olhando para Vivi, lavando os copos e os talheres encostada na pia da cozinha, usando apenas uma calcinha e uma camiseta... E não conseguiu evitar o sorriso nem os mil pensamentos maliciosos que apareceram.

A abraçou por trás, colando o corpo no dela, a beijando no pescoço, sentindo ela se arrepiar inteira.

Com muita dificuldade, Vivi enxaguou o último garfo, e colocou no escorredor. Lavou as mãos, virou para Marcela e com um sorriso sapeca jogou água no rosto dela.

Marcela riu, como quem diz: “vai ter volta”. Prendeu Vivi contra a pia com o corpo, um braço envolvendo a cintura dela enquanto com a outra mão abria a torneira e molhava as costas dela sem pena. Vivi deu um grito tão agudo por causa da água fria, que Marcela implicou:

- Assim você me deixa surda...

- Merecia...

Foi a resposta de Vivi, tentando fazer cara de brava sem conseguir. Um brilho feliz nos olhos e um sorriso de orelha a orelha a impediam.

 

Vivi relaxou o corpo em cima de Marcela, a respiração quente e ofegante contra o pescoço dela. Tinham acabado de gozar juntas.

Não fazia idéia de que horas eram. Já devia estar quase amanhecendo, porque... estava morta de cansaço. Bocejou, sentindo os olhos pesados.

Macela acariciou os cabelos vermelhos preguiçosamente. O sono começando a vencê-la. Sentiu Vivi ameaçar se mover de onde estava, e a impediu:

- Fica assim... Tá tão bom...

Vivi concordou. Só ia sair por achar que a posição era incômoda para Marcela... Bocejou novamente e fechou os olhos.

Marcela a beijou de leve nos lábios, e disse de forma apaixonada:

- Boa noite, minha linda...

Mas Vivi não respondeu. Tinha adormecido.

Marcela sorriu, e admirou Vivi adormecida. Tirou os fios de cabelo que teimavam em cair no rosto dela, a envolveu num abraço apertado, a beijou novamente nos lábios, e dormiu também.

 

- Marcela, agora eu preciso ir mesmo!

Vivi tentou se livrar das mãos de Marcela, que já estava tentando tirar o vestido dela, enquanto pedia:

- Só mais um pouquinho... Ainda tá cedo...

Vivi tinha almoçado – comida congelada mais uma vez - e passado a manhã toda com Marcela, mas ela não estava satisfeita. Queria mais, queria ficar com Vivi o domingo inteiro.

Vivi também queria. Mas tinha uma reunião na casa dela, e precisava voltar para ajudar a irmã a organizar as coisas. Além disso, ainda não tinha estudado o texto que tinha se comprometido a ler...

Se soltou de Marcela, e sugeriu:

- Não posso ficar, mas... você pode vir comigo...

Marcela não queria criar problemas para Vivi. Tudo bem, já tinha ido na casa dela antes, mas era diferente. Eram só amigas, e agora... Bom, tinha certeza de que quem olhasse para elas ia perceber...

Mas por outro lado, não queria perder a chance de ficar um pouco mais com ela, por isso cedeu:

- Tá... Tem certeza mesmo que não tem problema?

- Claro que não. Você vai adorar, tenho certeza. Então vamos, né?

Marcela abriu um sorriso luminoso. Puxou Vivi pela cintura e disse:

- Vamos. Mas antes, só uma coisinha...

Colou a boca na dela num último beijo cheio de paixão e... ternura.

 

A irmã de Vivi tinha o cabelo da mesma cor do dela. Mas os olhos... absolutamente diferentes. Nem verdes eram. Recebeu Marcela com um  sorriso simpático e dois beijinhos, dizendo:

- Oi, Marcela! Eu sou a Carol. Fica à vontade, tá?

Marcela ajudou as duas a arrumarem as cadeiras e alguns banquinhos de plástico em frente ao oratório.

Depois Vivi ficou lendo um texto, enquanto Carol desandou a falar, explicando várias coisas para Marcela. Entre elas que aquela reunião era só da DFJ: Divisão Feminina de Jovens.

De vez em quando Vivi levantava os olhos do texto, olhava para Marcela, e sorria. Achando uma graça aquele jeitinho comportado dela, prestando atenção em tudo que Carol dizia.

Quando Marcela percebia Vivi a olhando, sorria de volta de uma forma quase abobada. Se Carol notou, não demonstrou nada.

Quando deu 5 em ponto, Carol começou a puxar o daimoku. Vivi sentou ao lado de Marcela, dizendo:

- Vamos fazer 15 minutos. Se você cansar para, tá?

Aos poucos, outras garotas foram começando a chegar. O daimoku soava forte, vibrante. Marcela nem sentiu os 15 minutos passarem. Se espantou quando Carol tocou o sino e fez daimoku sansho.

Fizeram o Gongyo, e Marcela – toda boba com o livrinho que Vivi tinha dado para ela - até conseguiu acompanhar falando algumas partes.

Depois, a irmã de Vivi se levantou, entregou para todas um imã de geladeira com a seguinte frase: “A Chave do sucesso é a decisão de desafiar à si próprio”,  e falou que esse era o tema da reunião.

Assistiram a um filme que tinha tudo a ver: “Prova de Fogo” (Akeelah and The Bee)  – que aliás, era ótimo! Final surpreendente, maravilhoso e nada maniqueísta – e depois discutiram.

Quando chegou a vez de Vivi falar, Marcela teve que fazer um esforço enorme para se concentrar no que ela dizia e não nos lábios, nos olhos, no sorriso, na figura linda que ela era. Conseguiu ouvir cada palavra que ela disse:

- O Dr. Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional, afirma: “Uma pessoa verdadeiramente grandiosa é aquela que consegue vencer a si mesma. Aquele que consegue vencer o inimigo é forte, mas aquele que consegue vencer a si próprio é realmente poderoso. Vencer e desafiar a si próprio é uma tarefa árdua e requer muita coragem e só conseguimos com muita humildade, seriedade e sinceridade. Admitir que estamos errados e reconhecer que, em determinadas situações, somos o centro do problema, são atitudes muito corajosas, em que a decisão e a determinação de mudar a si próprio é fundamental.”

Marcela ficou pensativa. As coisas que tinha escutado tinham, de alguma forma, mexido com ela.

Foi nessa hora que os pais de Vivi chegaram, e Marcela entendeu de onde vinha o ruivo das duas irmãs. O cabelo do pai de Vivi tinha o mesmo tom de vermelho, só que os olhos dele eram profundamente azuis.

Eles cumprimentaram todas as meninas, chamando cada uma pelo nome. Até que o pai de Vivi parou na frente de Marcela, com um enorme sorriso:

- Prazer, eu sou o Francisco. Pai da Carol e da Vivi, como você já deve saber...

- Prazer. Marcela...

O pai de Vivi a olhou com um enorme interesse:

- Ah, então você é a famosa Marcela? A Vivi fala muito de você...

Dona Lúcia os interrompeu, simpática como sempre:

- É, meu bem... Essa é a famosa Marcela. Tudo bem, querida? Que bom que você veio!

A beijou e continuou:

- Gostou da reunião?

E antes que Marcela pudesse responder:

- Que houve com a sua mão?

Só então Marcela se lembrou que ainda estava com o curativo na mão. Antes que pudesse responder, Vivi já estava ao lado dela, respondendo:

- Ela bateu o carro, mamãe.

Marcela se preparou para no mínimo, um olhar de reprovação. Ao invés disso, dona Lúcia disse de uma forma gentil e meiga:

- Que bom que não foi nada sério. Você teve muita boa sorte, porque a vida é nosso bem mais precioso. Vai ter mais cuidado daqui pra frente, não é?

A última frase era quase um pedido. Feito com uma preocupação sincera, carinhosa, verdadeira. Que tocou Marcela de tal forma que ela não conseguiu falar. Apenas concordou com a cabeça.

Dona Lúcia continuou olhando Marcela profundamente quando colocou a mão no ombro dela e falou com um sorriso:

- Eu sei que vai. Confio em você.

 

Marcela ficou sentada na cama de Vivi, olhando distraidamente para os bichinhos de pelúcia na estante.

Dona Lúcia tinha sugerido que ela ficasse para dormir. Com tanta insistência que recusar era inadmissível.

A vida inteira Marcela tinha cultivado uma verdadeira repulsa pela própria família. Mas a casa de Vivi era completamente diferente do inferno que Marcela considerava a dos pais dela.

A família de Vivi parecia feliz, unida, amorosa, em harmonia. Exatamente o oposto da de Marcela.

“Essa menina não presta, essa menina só dá desgosto” -  era a frase chefe enquanto Marcela crescia.

Apesar de Marcela ver os pais muito raramente. Quando não estavam trabalhando, estavam jantando com amigos, falando no telefone, trancados no quarto com enxaqueca, viajando de férias, enfim: sempre ocupados demais para ela...

Durante toda a infância de Marcela, a televisão, o computador, e um número incontável de babás e empregadas – que Marcela infernizava, é verdade, mas era a forma que tinha encontrado de se impor dentro da própria casa – é que realmente acompanhavam Marcela.

Nas festas de dia das mães ou dos pais no colégio, Marcela era a única sozinha. Nos primeiros anos chorava, sentindo pena de si mesma e inveja dos coleguinhas.

Mas com 6 anos já tinha transformado a dor numa raiva profunda, que a fazia destruir todo e qualquer tipo de presente para os pais que as professoras a obrigassem a fazer. Jurando para si mesma que: já que para os pais ela não passava de um fardo, de um encargo, de um aborrecimento, então que fosse grande, gigantesco. O maior transtorno possível. Promessa essa que continuava cumprindo até aquele momento.

Vivi entrou - usando um pijaminha florido, com os cabelos ruivos molhados e um sorriso lindo - iluminando o quarto, e tirando Marcela de seus pensamentos sombrios.

Pediu licença para Marcela, puxou e arrumou a cama que ficava embaixo da dela. Dona Lúcia entrou no quarto, beijou as duas, desejando boa noite, e foi dormir. A casa estava toda em silêncio. A única luz acesa era aquela.

Vivi fechou e trancou a porta, e quando olhou, Marcela já estava deitada na cama que tinha forrado para ela. Vivi disse, alto bastante para que no quarto ao lado se ouvisse:

- Boa noite, Marcela...

- Boa noite, Vivi...

Marcela respondeu, alto, mas nem tanto assim. A última coisa que viu foi um brilho verde sorrindo, porque... Vivi apagou a luz e o quarto ficou um breu.

Se deitou ao lado de Marcela e sussurrou no ouvido dela:

- Você não achou que eu ia te deixar dormir longe de mim, né?

Beijou Marcela como se as poucas horas que tinham ficado sem se tocar fossem dias. Sussurrou de novo:

- Olhar pra você e não poder te dar nem um beijinho é uma verdadeira tortura... Tive que me controlar muito...

O corpo inteiro de Marcela se arrepiou. As mãos de Vivi já a acariciavam, certeiras. Quando a tocaram entre as pernas, por dentro da calcinha, deixou escapar um gemido baixinho. Vivi voltou a sussurrar:

- Shhhh... Silêncio... Sem barulho...

Fácil dizer. Quase impossível fazer. Quando sentiu os dedos de Marcela dentro dela, Vivi também gemeu...

Colaram as bocas uma na outra, e abafaram os gemidos sufocados que teimavam em aparecer. Isso foi o melhor que puderam fazer.

Depois dormiram abraçadinhas, de conchinha. Tão juntinhas que na apertada cama de solteiro parecia caber três...

 

 

Capítulo 16: Só você...
A primeira semana passou desse jeito fantástico, com Vivi descobrindo o que parecia ser uma nova Marcela. Que a buscava de moto para irem e voltarem juntas da faculdade todos os dias, se sentava ao lado de Vivi e ficava sorrindo e piscando para ela ... Que depois das aulas não se separava dela um só instante, indo almoçar na casa de Vivi quando desistia de insistir para irem para a casa dela, e fazia um olharzinho triste quando se separavam na hora do jantar... Que queria arrumar desculpas para dormirem juntas todos os dias,  e não se cansava de beijar, abraçar, tocar, acariciar Vivi por horas a fio...
E que depois de ouvir o recado que Gisele tinha deixado na secretária tinha beijado Vivi apaixonadamente, depois de dizer:

- Não quero mais nada com ela... Agora tô com você...

Fazendo Vivi sentir uma sensação de estar nas nuvens que era... absolutamente deslumbrante.

Marcela, diga-se de passagem, estava totalmente fascinada. Pela ruiva que a tirava do sério. Parecia que respirar era mais fácil ao lado dela. E que o sorriso de Vivi iluminava a tudo e a todos aonde quer que estivessem.
E os olhos verdes... bem, aí já era outra questão... as esmeraldas a deixavam de um jeito além da razão e de qualquer tipo de compreensão. A faziam sentir... uma felicidade absoluta. Sem explicação.

Adorava andar de moto com ela. Vivi a apertava com tanta força, que parecia querer se fundir à Marcela, que... tomava mil cuidados: andava devagar, longe do meio dos carros, e morria de medo que Vivi queimasse a perna no cano de descarga ou algo do gênero...
Era tanta a vontade – vontade não, necessidade - de ficar perto dela, que Marcela tinha passado a se sentar ao lado de Vivi, na primeira fileira, causando o espanto de todos e o afastamento de alguns, como Lu por exemplo.
Vivi parecia imune a qualquer tipo de desaprovação ou rejeição. Que existia, às vezes velada, às vezes de uma forma tão escancarada que chegava a ser grosseira. Mas a ruiva não se abalava, pelo contrário. Desfilava de mãos dadas com ela, a tratava o tempo todo de forma apaixonada, expondo o que sentia sem se importar com que os outros iam pensar, com uma sinceridade que emocionava Marcela.
Por isso as aulas agora para ela eram sem os óculos escuros e o MP3 costumeiros, mas... com a atenção muito mais voltada para não perder uma oportunidade de trocar um olhar, sorrir ou piscar para Vivi do que para o quadro negro...
Passavam juntas tardes inteiras, sem nunca parecer o suficiente. Queria mais, muito mais. Queria Vivi o tempo inteiro... Infelizmente, Vivi tinha que jantar e dormir em casa todos os dias. E Marcela achava melhor não abusar dormindo de novo na casa dela. O jeito era ligar para Vivi toda noite, e ficar pendurada no telefone...
Só desligava quando Vivi falava que já estava deitada na cama e morrendo de sono. Depois virava para o lado e dormia abraçada com o travesseiro que tinha o cheiro dela.
Depois do tal recado, Gisele não tinha ligado mais. Para alívio de Marcela, que queria manter Vivi o mais longe possível da loira.
Na 3ª feira, tinha ido na reunião budista com Vivi. Saiu de lá com o coração mais leve, impressionada com a energia, o brilho, a receptividade das pessoas.
Na 6ª feira, Marcela deixou Vivi em casa assim que saíram da faculdade. Precisava passar o som com a banda antes do show que iam fazer mais tarde.
Só não estava chateada de se separar dela porque depois do show, iam dormir juntas na casa de Marcela.
Entrou com a moto na garagem, para poderem se despedir. Depois de intermináveis beijos, Marcela colocou o capacete – o do carona deixou com Vivi, só ela usava mesmo... – e foi embora correndo, porque já estava atrasadíssima.

Depois do almoço, Vivi estava olhando os e-mails, quando viu o que Marcela tinha encaminhado para milhares de pessoas:
"E aí, galera! Beleza?
Nessa sexta-feira, estaremos fazendo um som no ESPELUNCA CHIC de Ipanema!
Você está convidado e seus convidados são nossos convidados também!
O esquema é o seguinte:
Horário: 22h
Couvert: R$ 3,00 + consumação mínima (R$15 pra homem e R$10 pra mulher)
Espelunca Chic: Rua Barão da Torre, altura do numero 160 (esquina com
Farme de Amoedo)
ATENÇÃO: Logo na chegada avise que é convidado dos músicos e peça sua
cartela de consumação. Isso é muito importante p q possamos mostrar à
organização q nós levamos um bom público e p q possamos repetir muitas
vezes a festa por lá!
Nos vemos sexta!!!
Grande abraço
The Mitidos"
Era óbvio – pelo menos para Vivi – que aquilo não tinha sido escrito por Marcela. Formal, organizado e certinho demais para ser coisa dela...
Passou os olhos pela lista enorme de e-mails no destinatário e o sorriso morreu nos lábios, porque... um deles era de uma tal Gisele...

Quando Marcela passou para buscar Vivi, o porteiro disse que era para ela subir. Estranhou, mas obedeceu, achando que provavelmente Vivi ainda não estava pronta.
Antes que o dedo pudesse encostar na campainha, a porta se abriu, e Marcela se deparou com duas chamas verdes furiosas. Vivi apenas disse, com uma raiva evidente na voz:
- Vem aqui um instante, por favor.
Marcela parou para fazer daimoku sansho, e depois para cumprimentar os pais de Vivi, que assistiam tv na outra sala.
Vivi explicou que estavam atrasadas, e puxou Marcela pela manga do casaco, com uma impaciência que não era normal nela.
Marcela a seguiu até o quarto. Durante o curto trajeto, não trocaram uma palavra sequer. Vivi fechou e trancou a porta e fez sinal para Marcela se aproximar da mesa onde ficava o PC. O computador estava na tela de descanso. Vivi moveu o mouse e Marcela viu o e-mail que tinha mandado. Vivi apontou para um endereço de e-mail, dizendo:
- Pode me dizer de quem é esse ee-mail?
Marcela ficou sem saber o que fazer. Mas pela reação dela, ficou evidente a resposta.
Vivi tentou manter o controle. E conseguiu, se levarmos em conta o ciúme monstro que estava sentindo naquele momento:
- É ou não é da taal Gisele?
Marcela tentou se explicar:
- É, mas...
O mas ficou no ar, porque antes dela poder completar, Vivi disparou:
- Olha só, Marcela, eu sei muitoo bem que não tenho o menor direito de fazer cobranças, que você nunca me prometeu nada, que a gente tá só ficando, e mais nada, mas você vai ter que concordar que... que chamar essa mulher é, no mínimo, muita falta de consideração!
Vivi estava uma fera. Os olhos lembravam os de uma gata selvagem, deixando Marcela prisioneira de uma louca vontade de a agarrar e amansar com milhares de beijos.
Porém, do jeito que o fogo verde a fuzilava, obedecer a esse tipo de desejo seria pura insanidade...
Respirou fundo, voltando à razão. Precisava esclarecer de uma vez por todas as milhares de besteiras que tinha ouvido Vivi dizer:
- Vivi, não é nada disso.... Por favor, me escuta...
Vivi passou a mão no rosto, nos cabelos, depois cruzou os braços e falou, olhando fundo nos olhos de Marcela:
- Sou toda ouvidos...
Marcela não negava o sangue que corria nas veias. Fez uma defesa simples, sincera e brilhante:
- Encaminhei esse e-mail pra minha listta inteira. Mandei pra ela no meio, nem percebi... Desculpe, foi um erro... Que não vai se repetir, prometo.

Fez uma pausa. Continuou com a mesma voz firme, só que agora com uma  tristeza quase decepcionada:
- Você disse que tá s&oacuute; ficando comigo? Pensei que a gente tava namorando...

As chamas verdes passaram da raiva ao espanto:
- Mas você... você nunca diisse...
Marcela riu:
- Ué, precisava?
As esmeraldas cintilaram. Marcela implicou:
- E então? Estamos namorando ou não?
Vivi abriu um sorriso sedutor. Se aproximou lentamente de Marcela. Passou os braços ao redor do pescoço dela, e a envolveu completamente no feitiço verde quando provocou:
- Quer uma sentença? O ônuus da prova é seu...
Marcela sorriu de volta, e a abraçou pela cintura:
- Ah, é? Então é mmelhor provar agora e aqui mesmo...
A resposta da ruiva estava na ponta da língua:
- Só se for com perícia, meu bem...
Vivi roçou os lábios nos dela, mas a última palavra foi de Marcela:
- Vai ser... Mas se seu parecer for neggativo – coisa que eu duvido - sempre posso  apelar, não é mesmo?
E desceu os lábios ardentes, famintos sobre os dela.

Acabaram chegando em cima da hora. Marcela caminhou de mãos dadas com
Vivi até o canto onde estava o resto da banda. Pediu desculpas, e apresentou:
- Guto, Rafa, e André.
Marcela conhecia muito bem os amigos que tinha - Guto e Rafa ficaram logo animadinhos, devorando a ruiva com os olhos. André não. Era todo sério  – por isso passou o braço ao redor da cintura de Vivi possessivamente e completou:
- Essa é a Vivi. Minha namorada..
Os três mudaram completamente. Guto e Rafa sossegaram, e André ficou com uma expressão inescrutável.

A atitude de Marcela foi ciumenta – coisa que Vivi detestava – mas naquele momento nem ligou. Ficou saboreando mentalmente a palavra "namorada". Tinha adorado, principalmente o jeito que Marcela tinha falado... Doce, rouco, quente... Se bem que, para Vivi, tudo na voz de Marcela ficava mais belo mesmo...
Marcela deu um beijo rápido nos lábios de Vivi, e foi fazer os ajustes finais.
Vivi se virou e viu Carlinha acenando para ela. Ficaram conversando, mas... não conseguia tirar os olhos de Marcela. Linda como sempre, se movimentando daquele forma que Vivi adorava... charmosa, deliciosa, sensual, um verdadeiro show... E namorada dela... O coração de Vivi não poderia bater num ritmo mais feliz.

Foi quando viu Marcela pegando um vidrinho no bolso, batendo na mão e cheirando... Aquela porcaria de novo... E como desgraça pouca é bobagem, para completar, a loira que agora era a personificação dos piores pesadelos de Vivi, se aproximou de Marcela com um enorme sorriso:

- Oi, gatinha... Você sumiu... Tô morrendo de saudade...

Marcela levou um susto tão grande, que quase derrubou o frasco no chão. Gisele estava ali, parada na frente dela, com um vestido que a deixava magnífica. E ainda por cima, sorria para Marcela, dizendo a coisa mais inusitada: que tinha sentido falta dela... Inacreditável...

Claro que Marcela balançou. Tinha passado dois anos atrás de Gisele e nunca tinha escutado uma frase dessas...

Um brilho a fez desviar a atenção... da loira para duas esmeraldas verdes que  cruzavam rapidamente a distância que as separava.

Gisele acompanhou o olhar de Marcela. Avaliou cuidadosamente a ruiva que se aproximava – uma menina, mais nova do que Marcela, provavelmente - mas surpreendentemente segura porque... sustentou o olhar de Gisele sem nem piscar.

Vivi parou ao lado de Marcela. Passou a mão intima e carinhosamente nos cabelos dela, jogando-os para trás. Olhou bem dentro dos olhos negros e disse - num tom muito mais de ordem do que de pedido:

- Me apresenta.

Marcela entendeu. Perfeitamente. E obedeceu:

- Vivi. Gisele. Gisele, essa é a Vivi, minha namo...

Vivi nem deu tempo de Marcela terminar. Ela mesma fez questão de dizer:

- Sou a namorada da Marcela.

E encarou a loira de uma forma nada amigável. Gisele sorriu, apesar de estar se mordendo por dentro. Deu uma desculpa, se virou e desapareceu.

Marcela olhou para Vivi espantada, encantada, maravilhada mesmo... Ninguém nunca a tinha feito se sentir daquele jeito... Como se Marcela valesse a pena...

Abraçou Vivi com força, enfiando o rosto nos cabelos vermelhos. Aspirando o perfume delicioso dela e sentindo uma vontade gigante de confessar o que sentia dentro do peito. Sussurrou no ouvido dela:

- Vivi, eu te a...

Mas não conseguiu completar. Foi interrompida por André, que a puxou pelo braço um tanto quanto irritado:

- Marcela, vamos começar, né?

E praticamente a arrastou para o pequeno tablado onde os outros já estavam esperando por eles.

Vivi ficou ali parada, ainda sob o efeito daquele turbilhão de sentimentos que Marcela causava. Tinha tido a nítida impressão de que Marcela ia dizer que a amava... Mas o momento tinha ficado em suspenso, sem que Vivi tivesse realmente certeza.

Marcela apresentou a banda, de uma forma meio displicente. A cabeça ainda em Vivi e na frase que não tinha conseguido dizer para ela... Mas então começou a tocar e esqueceu de todo o resto.

Quando a primeira música começou, Vivi abriu um sorriso enorme. Os olhos verdes cintilando. Adorando ver Marcela dedilhando a guitarra, marcando o ritmo da música com o pé, jogando o cabelo para trás e lançando um sorriso que era absolutamente desafiador quando abriu a boca e cantou:

“A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia” ...

( Burguesia – Barão Vermelho - Cazuza/ Ezequiel Neves/ George Israel)

 

Vivi riu alto. Aquilo era tão a cara de Marcela...

Voltou para perto de Carlinha, que já estava se derretendo toda para Rafa, o baterista. Marcela era toda olhares, charme e sorrisos para Vivi, que como sempre se deixou seduzir, enfeitiçar, hipnotizar completamente...

A primeira música terminou, eles tocaram a segunda, a terceira, e antes de começar a quarta, Marcela falou, olhando diretamente para onde Vivi estava:

- Essa música é pra ruiva dos olhos verdes mais linda do mundo inteiro...

Começou a tocar,  sem desviar os olhos um minuto dos dela, com um sorriso sedutor e um olhar profundo, que pareciam despir Vivi inteira.

A voz de Marcela soou aveludada, mas repleta de energia e prazer, como se finalmente confessasse algo enterrado, guardado como um tesouro no fundo  do peito:

 

“Demorei muito pra te encontrar
Agora eu quero só você
Seu jeito todo especial de ser
Eu fico louca com você...
Te abraço e sinto coisas que eu não sei dizer
Só sinto com você...
Meu pensamento voa de encontro ao teu
Será que é sonho meu?
Tava cansada de me preocupar
Quantas vezes eu dancei
E quantas vezes eu só fiquei
Chorei! Chorei!...
Agora eu quero ir fundo lá na emoção
Mexer teu coração
Salta comigo alto
Todo mundo vê
Eu quero só você...
Eu quero só você...
Eu quero só você...
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Os olhos negros continuaram brilhando profusamente. Vivi se sentiu queimar, incendiar, derreter...

Olhando fixamente para as esmeraldas que correspondiam intensas, Marcela  falou no microfone, com uma voz tão rouca, profunda e ardente que parecia estar falando baixinho no ouvido de Vivi:

- Vivi, eu amo você...

Vivi sentiu um arrepio subir pela espinha, pela nuca... O sangue correu nas veias com a força de uma correnteza represada que se liberta... A respiração totalmente desafinada e disritmica...

O sorriso de Marcela a aquecia, coloria o mundo numa explosão de sons, tons e luzes, enquanto ela repetia:


”Te abraço e sinto coisas que eu não sei dizer
Só sinto com você...
Meu pensamento voa de encontro ao teu
Será que é sonho meu?...
Tava cansada de me preocupar
Quantas vezes eu dancei
E quantas vezes eu só fiquei
Chorei! Chorei!...
Agora eu quero ir fundo lá na emoção
Mexer teu coração
Salta comigo alto
Todo mundo vê
Eu quero só você...

Eu quero só você...

Eu quero só você...

Só você, Vivi...

Eu quero só você”...

(“Só Você” – Capital Inicial – Vinícius Canturária)

 

Depois dos últimos acordes, Marcela anunciou que a banda ia fazer um pausa. Vivi ficou olhando ela guardar a guitarra, com uma ansiedade tão imensa que mal ouviu Carlinha falando:

- Ai, amiga, que romântico! Tô pensando seriamente em virar lésbica...

E então Marcela já estava na frente dela, os olhos pulsantes, dois tufões negros. 

Vivi sussurrou, as esmeraldas queimando com o mesmo sentimento:

- Também amo você...

Os lábios se encontraram, fazendo com que o mundo à volta delas ficasse fora de foco. Tanto que nem ouviram Carlinha dizer:

- Ai, preciso arrumar uma mulher, gente!

Nem viram a loira afastada num canto, as observando com uma expressão tão maliciosa e sombria que chegava a dar medo.

 

 

Capítulo 17: A noite nunca tem fim...

André as interrompeu novamente:

- Marcela, pelo amor de Deus!

As bocas se separaram, mas as duas continuaram abraçadas. Marcela fuzilou o amigo com os olhos:

- Pelo amor de Deus digo eu! Que foi, agora, André?

André estava bastante irritado, exasperado mesmo:

- Pega leve... aqui não é um lugar GLS... o gerente já reclamou comigo duas vezes...

- Foda-se o gerente! E foda-se você também!

André sacudiu a cabeça negativamente. Depois a olhou com uma expressão profundamente magoada:

- Sabe quanto tempo demorei pra fechar com esse lugar?

Marcela mudou imediatamente. Abraçou André dizendo:

- Desculpa... Ai, Dé, você sabe que esse tipo de coisa me tira do sério... Vou me comportar, prometo...

Deu um estalinho nele. Vivi não gostou nem um pouco, mas ficou quieta. André acariciou o rosto de Marcela, dizendo:

- Tudo bem... já tô mais do que acostumado com esse seu jeitinho “meigo”...

Os dois riram. Marcela deu um soquinho no ombro dele, de brincadeira, e André se afastou, depois de dizer:

- Cinco minutos e voltamos, ok?

Quando Marcela se virou para Vivi, a ruiva estava muito séria. Marcela estranhou:

- Que foi?

A voz de Vivi saiu um pouco hesitante:

- Vocês são amigos há muito tempo?

- Eu e o Dé? Desde sempre... Por que?

Vivi esboçou um:

- Nada não...

Nem um pouco convincente. Marcela riu, segurou as mãos dela e disse:

- Não acredito que você tá com ciúmes do André! Essa é a coisa mais ridícula...

Vivi a cortou, os olhos verdes já faiscando:

- Ridícula por que?

Marcela ajeitou uma mecha dos cabelos vermelhos, prendendo atrás da orelha dela numa carícia suave e meiga. Foi o bastante para Vivi amolecer. O tom de Marcela foi muito carinhoso quando respondeu:

- Bom, além dele ser como meu irmão, tem um pequeno detalhe que você tá esquecendo...

- Qual?

- Vivi, ele é homem! Fala sério, né? Não tem cabimento...

Vivi abriu um sorriso divertido. As esmeraldas já resplandecendo novamente. Marcela a abraçou, e sussurrou no ouvido dela:

- Você fica linda ciumenta... Tô louca pra te dar um beijo... Mas infelizmente, prometi que ia me comportar...

Suspirou alto, como quem lamenta. Deu três passos para trás, andando de costas, sem desviar os olhos, como se quisesse gravar as chamas verdes na memória. Sorriu, levantou os braços - como quem quer dizer: “fazer o que?” - se virou, e voltou para o tablado.

Deixando Vivi com uma única certeza: cada minuto com Marcela a fazia se apaixonar ainda mais por ela.

 

Depois que o show terminou, ficaram sentados numa mesa, bebendo. Marcela entre Vivi e André. Guto na cabeceira, e Carlinha aos beijos com Rafa do outro lado da mesa.

Vivi olhou para a amiga com inveja. Se sentindo injustiçada, agredida, desrespeitada mesmo. Não pelos amigos, mas pelo tal gerente, que diga-se de passagem, não veio reclamar em nenhum momento dos amassos quase obscenos deles. Claro que não... afinal, eram um casal hetero, não é mesmo? Podiam quase trepar ali mesmo na mesa, enquanto ela e Marcela não podiam nem dar um beijo...

Marcela pareceu ler os pensamentos dela. Roçou os lábios no ouvido de Vivi antes de sussurrar:

- Não fica chateada não... Assim que a gente sair daqui vou te recompensar... te enchendo de beijos... Prometo que vou te beijar inteira...

Apertou a coxa dela por debaixo da mesa. Os olhos verdes viraram duas fogueiras. Sussurrou para Marcela:

- Não quero esperar tanto tempo...

Marcela abriu um sorriso satisfeito, e sussurrou de volta:

- Vamos no banheiro...

Não precisou falar duas vezes. Vivi levantou e foi na frente. Marcela a seguiu com o coração saltitando no peito. Se sentindo uma adolescente. Por sorte no banheiro não tinha ninguém.

Entraram juntas num dos reservados. Marcela não perdeu tempo: mergulhou os lábios nos de Vivi e a encostou na parede, pressionando o corpo contra o dela. Vivi gemeu, e abriu os lábios, se oferecendo. Se deliciando com o ardor daquele beijo...

A língua de Marcela invadiu a boca de Vivi vorazmente. As mãos de Vivi se  enfiaram por baixo da camiseta de Marcela e subiram acariciando as costas dela, a agarrando com força, o contato fazendo com que as duas estremecessem.

Marcela segurou o rosto de Vivi com uma das mãos. Com a outra levantou a saia dela e passeou pela pele quente das coxas, adorando sentir a respiração da ruiva ficar tão alterada quanto a dela. Foi quando ouviram:

- Vivi! Marcela! Poxa, nem me chamaram pra vir no banheiro, né?

Não tiveram como deixar de rir. Realmente, Carlinha era uma figura sem noção... Tão sem noção que insistiu:

- Meninas, cadê vocês?

Foi Vivi quem respondeu:

- Caramba, Carlinha! Que falta de semancol, hein, amiga?

Só então Carlinha se tocou:

- Ai, gente, desculpa... É que ainda não tô acostumada com essa situação, né?

Marcela e Vivi ajeitaram as roupas e saíram do reservado bem a tempo de ver o quanto Carlinha estava vermelha. Morta de vergonha. As duas riram muito da cara dela, antes de saírem todas juntas do banheiro.

 

- Quando o André e a Marcela se conheceram ainda usavam chupeta...

- O André é meio que.. digamos... a sombra da Marcela...

Rafa e Guto estavam implicando com André. Esse ficou olhando para eles, sorrindo, e depois se defendeu:

- Pura inveja...

Guto não perdoou:

- Mostra pra Vivi as fotos que você carrega na carteira...

Marcela interferiu, revoltada:

- Agora vocês tão de sacanagem comigo, né? Dé, você tá proibido de mostrar essas fotos! Aliás, queima isso!

A reação dela despertou uma curiosidade enorme em Vivi:

- Que fotos são essas?

André explicou:

- Fotos da verdadeira Marcela...

Tirou três fotos da carteira e entregou para Vivi, para desespero de Marcela.

André saiu explicando:

- Aqui a gente com 3 anos. A Marcela foi meu par na festa junina do colégio...

Vivi olhou com curiosidade para a foto das duas crianças fantasiadas de caipiras. Não deu muita atenção ao menino. Seus olhos se fixaram na loirinha de Maria-chiquinha, pintinhas nas bochechas rosadas, e um vestidinho cheio de rendas e fitas... Marcela menininha... com uma expressão tão absolutamente triste que era de cortar o coração. Ignorando totalmente o menino de mãos dadas com ela e que a olhava com... profunda adoração.

- Marcela, você é loira?

Foi a primeira coisa que Vivi perguntou. Marcela deixou escapar um suspiro. Antes que pudesse responder, André implicou:

- Loirinha, loirinha... No fundo a Marcela é uma bonequinha de cabelinhos dourados...

Todos na mesa riram. Marcela estava irritadíssima:

- Ah, cala a boca!

Vivi acariciou o rosto dela. Na mesma hora Marcela se acalmou. Sorriu para a ruiva. Os olhos verdes cintilaram, e Vivi disse:

- Você era uma gracinha...

Marcela ficou nitidamente envergonhada. André riu alto, se divertindo às custas dela. Marcela o fuzilou com os olhos, mas ele estava apenas começando:

- Olha a outra foto, Vivi...

Marcela tentou pegar as fotos, mas André não deixou. Segurou Marcela pelos pulsos e a manteve presa enquanto explicava para a ruiva:

- Aqui com 15 anos. No concurso de talentos da escola... Fomos desclassificados... por que mesmo, hein, Marcela?

André a soltou. Marcela esfregou os pulsos e olhou para o amigo com um sorrisinho moleque. Sabia muito bem que André não se conformava de não ter ganhado aquele prêmio...

- Ah, Dé... Mas valeu a pena...

- É... Imaginem só a cara das freiras quando a Marcela abriu a boca e ...

Os dois cantaram juntos, se divertindo a valer:

 

Bichos! Saiam dos lixos
Baratas! Me deixem ver suas patas
Ratos! Entrem nos sapatos
Do cidadão
civilizado...
Pulgas! Que habitam minhas rugas
Onçinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo
Vão se fuder!
Porque aqui, na face da terra
Só bicho escroto é o que vai ter” ...

(“Bichos Escrotos” -  Titãs - Nando Reiis / Arnaldo Antunes / Sérgio Britto)

 

Os dois riram às gargalhadas. Marcela deu um gole no chope na frente dela e completou:

- Fomos ovacionados pelos alunos... Isso nem precisa dizer...

- Saímos do palco direto pra sala da diretora... Mas não levamos nem uma advertência, graças a mais um dos discursos brilhantes e eficientes da Marcela... em defesa da liberdade de expressão...

Os dois riram juntos novamente. Vivi olhou para a foto com atenção. Nela, estava André - ao lado de Marcela, como sempre. Dessa vez uma Marcela adolescente, de tênis – all star preto, é claro! – calça jeans toda rasgada e camiseta baby look preta. Magra, muito magra mesmo, quase andrógina. Os cabelos loiros muito lisos na altura dos ombros presos atrás das orelhas. Já tinha a energia e o jeitinho rebelde que encantavam Vivi...

- Linda...

Vivi deixou escapar quase sem querer. Marcela sacudiu a cabeça negativamente. André implicou, dizendo:

- Já não usava vestidinho, mas ainda tinha cabelinho de princesa...

Marcela não respondeu, imersa em seus próprios pensamentos. Para ela, 15 anos tinha sido a idade derradeira... Quando tinha conhecido Flávia –  transferida no meio do ano para a turma de Marcela... Paixão à primeira vista... Primeiro beijo, primeiro namoro, primeiro amor... Primeira experiência sexual e.. a primeira a fazer Marcela sofrer profundamente...

O namoro durou exatamente 5 meses. O tempo que a mãe de Flávia levou para descobrir. Pressionada pela família, Flávia chorou, se desculpou, negou ser lésbica, se mostrou totalmente arrependida. Rejeitou e culpou Marcela... Fazendo com que tudo o que tinha acontecido entre elas parecesse errado, sujo, quase uma doença...

A notícia se espalhou. Não conseguindo ignorar as provocações e agressões dos colegas – muito menos a repulsa que via nos olhos de Flávia - Marcela brigava, xingava, discutia, e se esforçava para violar o máximo possível de regras. Foi um grande alívio quando finalmente, conseguiu ser expulsa do colégio. 

Os pais de Marcela, não sabendo nem querendo lidar com a situação, a mandaram estudar durante 3 anos na Inglaterra.

O tiro saiu pela culatra, porque em Londres, Marcela se assumiu de vez – acumulou um saldo significativo de ficantes, casos, amizades coloridas e trepadas casuais de diversas idades, nacionalidades e tipos.

E então, um pouco antes de completar 17 anos, aconteceu Caitlin - inglesa linda, descolada, deliciosa e três anos mais velha - que fez Marcela ficar de quatro e esquecer de Flávia finalmente.

Namoraram 7 meses. Quando Marcela pegou Caitlin beijando outra pela terceira vez, o namoro virou uma relação daquelas em que as duas disputam para ver quem consegue ferir mais a outra. O término foi tão horroroso que nem amizade sobrou.

Depois, Marcela passou a experimentar uma variedade incrível de drogas: maconha, haxixe, cocaína, ácido, special k, PCP, ecstase, speed, poppers, anfetaminas, GHB e até chá de cogumelo... E passou a pintar os cabelos. De roxo, pink, verde, azul, vermelho... Qualquer cor que não fosse a verdadeira. Até chegar no preto com mechas azuis que usava naquele momento.  

- Que cabelo é esse?

A pergunta de Vivi fez Marcela voltar à realidade. E olhar para a foto que Vivi apontava. Três anos atrás. O primeiro show do “The Mitidos”. O cabelo de Marcela estava... laranja!

Rafa, Guto e André riram do espanto de Vivi. Na época, essa era exatamente a reação que ela normalmente causava. Marcela deu de ombros, exasperada. Não estava gostando de remexer num passado que preferia esquecer. Encerrou desconversando:

- Parece que tão fechando...

Vivi olhou o celular: três horas da manhã...

 

Quando chegaram na rua, André perguntou:

- Onde vai ser a saideira?

Marcela foi rápida:

- Cervantes, claro...

Guto e André concordaram. Super acostumados a terminar as noites em Copacabana. O Cervantes era ideal, porque às sextas e sábados só fechava às 6h da manhã.

Carlinha se desculpou... Precisava ir para casa. Imediatamente, Rafa se ofereceu para acompanhá-la.

Vivi estava um pouco chateada porque em nenhum momento Marcela tinha perguntado se ela queria ou não ir para outro lugar. Mas decidiu relevar, quando Marcela deu um sorriso lindo, a abraçou pela cintura e a guiou até o carro. Ficou surpresa quando Marcela entregou a chave para ela, dizendo:

- Melhor você dirigir...

Vivi só tinha bebido uma caipirinha a noite inteira. Depois tinha ficado na Coca-cola, enquanto os outros... bem, Vivi tinha perdido a conta da quantidade de chope que tinha descido naquela mesa...

 

Quando saíram do Cervantes – só porque estava fechando - já era dia claro. Vivi estava exausta. De ficar horas sentada numa mesa com três pessoas totalmente alteradas pela bebida e pelo baseado que tinham fumado no caminho dentro do carro. Tudo o que queria era ir embora, mas... Marcela parecia incansável:

- Agora a saideira...

Normalmente, quando caiam na noite, Marcela e os amigos iam de bar em bar, até o último fechar e os outros já estarem abertos novamente.

Guto e André, na mesma onda que ela, concordaram. Vivi ficou séria. Marcela colou os lábios nos dela, no meio da rua mesmo. Sussurrou no ouvido dela:

- Só mais um pouquinho, amor...

Vivi amoleceu. E não querendo estragar a diversão deles, acabou cedendo. Marcela a recompensou com outro beijo. Mais ardente que o anterior. Com mil promessas implícitas... Que infelizmente só poderiam ser cumpridas muito depois, porque.. Marcela se virou para André e Guto e perguntou:

- Pra onde então?

Foi André quem sugeriu:

- Nogueira?

Marcela hesitou. O Nogueira era um bar freqüentado por putas do calçadão de Copa e seus clientes. Um lugar bem de baixo meretrício mesmo. Aonde eles sempre iam, mas... com Vivi junto, a história era diferente:

- Não sei não...

Mas André rapidamente decidiu:

- Deixa de besteira. Nogueira então.

Foram andando. Era bem ali, na esquina da Prado Júnior. Sentaram numa mesa no canto, perto do banheiro. Vivi ficou olhou em volta, para as mulheres abusivamente maquiadas e de vestidos curtos e brilhantes... Perguntou baixinho para Marcela:

- Elas são...

Nem precisou completar. Marcela respondeu afirmativamente com a cabeça. Depois perguntou:

- Tudo bem?

Vivi estava apenas curiosa. Nunca tinha estado num ambiente daqueles. Achou a energia muito pesada, meio baixa, mas fora isso, nada contra:

- Sem problemas.

Marcela a presenteou com um sorriso e um beijo ardente. Que fez Vivi esquecer que estava morta de cansaço e que não estava achando a menor graça em ficar ali vendo eles fumarem, beberem e cheirarem special k além de todos os limites do razoável, enquanto ela tomava água com gás.

A conversa que se estabeleceu na mesa não podia ser diferente: aquela típica de bêbados. Tudo era motivo para risadas e brincadeiras. Vivi ficou praticamente calada, totalmente deslocada e fora do clima.

De vez em quando Marcela a beijava de um modo que deixava claro que ela  esquecia que não estavam sozinhas. Vivi teve que conter as manobras mais ousadas da boca e das mãos dela várias vezes, a afastando e dizendo:

- Marcela, menos...

Haja paciência, não é mesmo?

No meio dessa confusão, tinha um cara tocando teclado e cantando. Tentando criar um som ambiente. Entre uma música e outra, André se levantou e ficou alguns minutos falando com ele. Então chamou Marcela, que levantou da mesa trocando um pouco as pernas, cumprimentou o tal cara e depois de algum tempo de conversa, se sentou num  banco alto com um microfone na mão.

O cara anunciou que dois amigos iam dar uma canja com ele. André puxou uma gaita do bolso e começou a tocar. O cara acompanhou no teclado, e Marcela começou a cantar, com uma voz que Vivi achou absolutamente linda:

 

“Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nesta vida
E algum trocado pra dar garantia.”

 

Incrível que mesmo bêbada, ela conseguisse cantar daquele jeito. Com tanto sentimento que o único som que se ouvia era o das pessoas que acompanhavam cantando:


”E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nesta vida
E algum veneno antimonotonia.”

 

Os olhos de Marcela se mantiveram presos nos verdes o tempo inteiro. Vivi podia ler neles um sofrimento suave e doce. Aquele que Marcela escondia, mas do qual não conseguia fugir, principalmente com a bebida exacerbando tudo, mesmo sem querer:


”E se eu achar tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nesta vida

E algum remédio que me dê alegria”

 

André deu os últimos acordes com a gaita, e então Marcela encerrou, sustentando a nota final:


E algum remédio que me dê alegria.”

(“Todo Amor que houver nesta vida – Barão Vermelho – Cazuza / Frejat)

 

 As pessoas aplaudiram, pediram mais uma. Marcela tentou fugir, mas André a convenceu. Ficaram discutindo, provavelmente a música que iam tocar. André se posicionou atrás do teclado, ajeitou outro microfone na frente dele, e Marcela pegou o violão que o cara entregou para ela, plugou na caixa de som e voltou para o mesmo lugar. Guto falou, empolgadíssimo, quase gritando:

- Caramba! Vivi, sabe o que isso quer dizer? Vamos ter o privilégio de ver o maior de todos os espetáculos: André e Marcela cantando juntos!

Marcela começou com o violão. André a acompanhou no teclado. E os dois cantaram juntos, as duas vozes lindas, com uma sintonia absurda:

 

“Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito...
Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor

E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância”


Vivi ficou incomodada. Não gostou nem um pouco da cumplicidade que os dois tinham, dos olhares e sorrisos enquanto cantavam. Ciúmes bobos. Claro que tudo fazia parte da performance – tentou se convencer.

Então, como que confirmando o que Vivi tinha acabado de pensar, Marcela começou a cantar sozinha, o olhar exclusivamente voltado para os olhos de esmeraldas:

 

“Seus olhos meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só
Você é assim
Um sonho pra mim
Quero te encher de beijos
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito

Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor”


Então André voltou a cantar com ela e Marcela desviou o olhar novamente:

 

“E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância...”
(“Velha Infância” – Tribalistas - Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte)

 

Vivi parou de prestar atenção por um momento, porque o garçom a chamou, tocando no braço dela. Vivi olhou para ele, que perguntou:

- Tem um cara querendo sair com você.

No começo ela não entendeu. Mas então Guto respondeu:

- Amigo, ela não faz programa.

Vivi estava muito mais chocada do que chateada pelo fato de terem pensado que ela poderia ser prostituta. O garçom insistiu encarando a ruiva:

- Ele pediu pra te dizer que paga bem.

Vivi continuou absolutamente sem palavras. Mais uma vez, Guto intercedeu:

- Diz pra esse cara esquecer. A menina não é puta e tá acompanhada, ok?

O garçom abriu um sorriso repulsivo de tão malicioso. E disse de uma forma quase íntima:

- Pensa bem, garota. Você faz o preço. Não é nada demais. É só receber por aquilo que, provavelmente, você já faz de graça...

Nesse exato momento, o garçom levou um empurrão tão forte, que caiu do outro lado, por cima de uma mesa. Guto se levantou e ajudou André a segurar Marcela, que chutava e xingava, querendo bater no sujeito.

No primeiro momento, Vivi ficou paralisada. Depois se levantou, ordenando com uma voz impressionantemente firme:

- Marcela, para com isso! Marcela!

Mas Marcela só se acalmou quando Vivi tocou no rosto dela. André falou baixinho:

- Tá maluca? Aqui não é exatamente o melhor lugar pra você arrumar confusão, né?

E realmente, o bar tinha parado para olhar para eles e o clima estava... no mínimo tenso. André continuou:

- A gente vai te soltar, e você vai com a Vivi lá pra fora o mais rápido possível, enquanto eu e Guto pagamos e tentamos pedir desculpas. Entendido?

Marcela concordou com a cabeça. Ela estava parada, mas a respiração continuava ofegante e o corpo inteiro tremia.

Fizeram exatamente como André tinha mandado. Vivi praticamente tendo que carregar Marcela.

A rua estava movimentada, várias pessoas indo para a praia, passeando com os cachorros, entrando na padaria. Vivi deu uma olhada no celular e quase morreu: dez da manhã...

Quando chegaram perto do carro, Marcela se soltou de Vivi, e gritou furiosa:

- Você não tinha nada que dar papo praquele cara!

- O que?

Foi a única coisa que Vivi conseguiu responder. Marcela continuou com o mesmo tom agressivo:

- Precisa mesmo ser tão simpática? Precisa?

Vivi foi tomada por uma raiva tão grande que sentiu as mãos começarem a tremer. Não ia brigar com uma pessoa que estava caindo de bêbada, mas os olhos verdes fuzilaram Marcela ao dizer:

- Quer saber? Vou pra casa. Coisa que, aliás, já devia ter feito há muito tempo.

Se afastou tentando encontrar um táxi, dando as costas para uma Marcela absolutamente perplexa.

 

 

Capítulo 18: A Difícil Arte de Amar...

Marcela demorou apenas alguns segundos para correr atrás de Vivi. Pedindo desculpas, implorando para ela ficar, dizendo coisas carinhosas e apaixonadas num tom de voz completamente diferente... Abraçando Vivi, a beijando no rosto, no pescoço, nos lábios, de um jeito tão arrependido e meigo que Vivi não conseguiu fazer outra coisa além de... ceder. 

 

Vivi estacionou na garagem com Marcela completamente apagada no banco ao lado dela. André e Guto tinham ficado em Copa. Ainda iam beber mais...

Vivi passou a mão nos cabelos de Marcela, acariciou o rosto dela, a beijou nos lábios, e ela... nem se moveu.

Suspirou, um pouco exasperada. Estava exausta. E mesmo que não estivesse, não tinha condições de carregar Marcela. A sacudiu, a chamou pelo nome, primeiro delicadamente e gradualmente com mais e mais força.

Depois de resmungar muito, Marcela abriu os olhos devagar. Viu um brilho verde bastante irritado. Tentou se desculpar, mas a boca estava seca demais.

Vivi passou o braço de Marcela nos ombros, a abraçou pela cintura e caminharam com dificuldade até o apartamento dela. Encostou Marcela na parede ao lado da porta para poder encontrar a chave.

Marcela escorregou parede abaixo e se sentou no chão. Quando Vivi finalmente abriu a porta, entrou engatinhando. Vivi sacudiu a cabeça, achando simplesmente lamentável.

Entrou, trancou a porta e viu que Marcela tinha conseguido se sentar em um dos sofás. Suspirou fundo, e sentou ao lado dela.

Na mesma hora Marcela a agarrou. Puxou Vivi e colou a boca na dela. Mas naquele momento, Vivi só conseguia sentir o cheiro e o gosto abomináveis de cigarro e bebida...

Um misto de decepção e tristeza tomou conta dela. Se afastou de Marcela e suspirou alto, quase com desespero.

Marcela balbuciou, com uma voz meio enrolada:

- Preciso muito de Coca-cola...

Vivi olhou o celular: já eram quase onze da manhã...

Pegou Coca-cola para Marcela, que bebeu como se tivesse atravessado o deserto.

Depois de mais de três copos de coca, Marcela pareceu bem melhor. Pareceu, porque assim que colocou o copo na pia, Vivi a viu correr para o banheiro.

Foi atrás dela e chegou bem a tempo de afastar os cabelos e segurar a testa dela enquanto Marcela vomitava. Sentada no chão, abraçada ao vaso, num estado que dava pena.

Quando ela terminou, Vivi falou carinhosamente:

- Espera um pouquinho, tá?

Marcela concordou com a cabeça e ficou sentada no chão, de olhos fechados, encostada na parede, até Vivi voltar com outro copo de Coca para ela. Marcela bebeu aos poucos, com Vivi pacientemente ajoelhada na frente dela:

- Melhorou?

Marcela olhou para a ruiva maravilhosa, toda preocupada e cheia de cuidados com ela e... começou a chorar:

- Desculpa, Vivi... Desculpa...

Era só o que conseguia repetir enquanto soluçava.

Vivi estava totalmente sem paciência:

- Marcela, agora chega! Já tô de saco cheio!

Falou de um jeito tão irritado, que Marcela parou de chorar imediatamente.

Então Vivi a ajudou a levantar. Fez Marcela escovar os dentes, tirar a roupa e entrar debaixo do chuveiro. Com medo de que ela caísse, Vivi acabou entrando no chuveiro também.

Marcela olhou para a ruiva despida atrás dela com desejo, mas Vivi olhou de volta com uma cara tão feia que nem teve coragem de encostar nela. Sabia que Vivi estava muito, mas muito chateada com ela porque... nunca tinha recebido das esmeraldas um olhar frio daquele jeito. 

Vivi não estava apenas chateada. Estava furiosa com Marcela. Tinha esperado a semana inteira para finalmente poderem dormir juntas. Ao invés disso, ela tinha preferido virar a noite bebendo e se drogando com os amigos. E para fechar com chave de ouro, tinha agredido um garçom, ofendido Vivi e ficado naquele estado execrável dando a maior trabalheira.

Por isso se recusava terminantemente a tocar ou ser tocada por ela! Apesar de... Marcela estar absolutamente linda despida e molhada debaixo daquele chuveiro...

A atração irresistível que sentia por Marcela fez com que a raiva de Vivi aumentasse. Dessa vez de si mesma, por estar quase cedendo novamente...

Entregou o sabonete para ela, mas Marcela ficou encostada na parede de olhos fechados, parecendo muito bêbada.

Na verdade, Marcela já não estava tão mal assim. Pelo contrário. Estava bem o bastante para não querer passar o sabonete sozinha... Por isso se fez de incapaz, não deixando saída para Vivi.

A estratégia deu certo, porque foi humanamente impossível para Vivi resistir à sensação do contato da mão ensaboando, deslizando sobre a pele quente de  Marcela que a cada toque se arrepiava inteira....

Vivi deixou o sabonete de lado, encostou Marcela na parede de azulejos e pressionou o corpo contra o dela com uma súbita urgência. A espuma fazia os corpos escorregarem, faiscarem, instaurando um verdadeiro incêndio.

Beijou Marcela  saboreando, mordendo, devorando a boca que se oferecia e correspondia com o mesmo ímpeto. Enroscou a língua na dela, a mão encontrando os seios, deslizando por entre as pernas, a tocando, penetrando, fazendo Marcela gemer.

Entregue. Intenso. Envolvente. Foi o ardor daquele momento. Com Marcela se entregando e dizendo palavras apaixonadas entre milhares de beijos.

Vivi se esfregou com mais força contra a coxa de Marcela. Ouviu ela dizer:

- Ai, linda... Delícia, Vivi...

A mão de Marcela desceu e substituiu a coxa entre as pernas dela. Vivi gemeu, e se deixou levar pelas ondas de prazer imensas. Sem perceber como, de repente, estavam debaixo do chuveiro. A água não conseguindo debelar o fogo que as consumia. Ambas ofegando, sufocando e tremulando no mesmo ritmo.

- Minha ruiva gostosa... goza comigo, vem...

Parecia que o coração de Vivi não poderia bater mais rápido, mas o fez. Sussurrou no ouvido dela, com uma emoção intensa:

- Te amo, Marcela...

Marcela beijou Vivi nos lábios quase com desespero. Aprofundou os  movimentos, sentindo Vivi estremecer. E a acompanhou em sussurros e gemidos sem fim, o corpo sendo sacudido por espasmos e uma quase perda dos sentidos quando o gozo veio...

Quando voltou a abrir os olhos, estava encostada na parede novamente. Os olhos verdes cintilavam para ela, absolutamente felizes.

Marcela retribui com um sorriso meigo, apaixonado, ardente. A apertou com força, colou os lábios nos dela docemente. Então fitou as esmeraldas profundamente, dizendo:

- Eu amo você...

Os olhos brilhavam como duas estrelas verdes quando Vivi voltou a mergulhar a boca na de Marcela, arrancando fagulhas novamente.

 

Depois, muito depois, quando Vivi finalmente conseguiu sair do chuveiro, se enxugou e enrolou na toalha. Marcela fez o mesmo. Entre palavras sussurradas, carinhos e beijos.

Mortas de cansaço, mas... profundamente satisfeitas. Seguiram de mãos dadas pelo corredor que ligava o banheiro ao quarto de Marcela.

Quando cruzou a porta, Vivi ficou em estado de choque. Levou um susto enorme, porque... parecia que tinham entrado no quarto errado.

Estava tudo arrumado. Nenhuma roupa, sapato ou papel espalhado. Os CDs e DVDs todos guardados, impecáveis. As paredes sem os pôsteres, todas brancas, com exceção da em frente à cama, onde ficava a tv. Essa estava com uma textura linda e... verde.

Marcela se justificou, meio sem jeito:

- Eu queria... fazer uma surpresa... arrumar tudo porque... quando você vinha aqui sempre achava que... o meu quarto não era... bom o bastante... pra você...

Vivi entendeu. Perfeitamente. A beijou nos lábios apaixonadamente. E achou a insegurança de Marcela fofa:

- O que você achou?

Vivi olhou em volta, pensativa, antes de responder:

- Eu adorei, mas...

Marcela ficou incrivelmente tensa:

- Mas o que?

Vivi sorriu. Acariciou o rosto dela e a beijou de leve nos lábios antes de dizer:

- Verde?

Marcela sorriu, segurou Vivi pela cintura e a puxou, grudando o corpo no dela:

- Minha cor preferida desde que conheci você...

Beijou Vivi de forma absolutamente ardente. Vivi correspondeu, mas quando  Marcela a livrou da toalha, protestou:

- Ai, Marcela, para... Tô morta de sono, vai...

Marcela riu, e não insistiu. Deu um último beijo em Vivi antes de desfazer a cama. Vivi praticamente se atirou sobre o colchão, mais do que cansada -  exausta.

Marcela se livrou da própria toalha, olhou para a ruiva deitada nua - absurdamente linda - e suspirou, achando dormir um desperdício, mas... Assim que se deitou e abraçou Vivi, sentiu o efeito da noite em claro. Os olhos pesaram, o corpo relaxou, e ela adormeceu quase imediatamente.

 

Quando Marcela acordou, Vivi não estava no quarto. Sentou na cama com uma certa dificuldade. A cabeça rodava, doía e a boca estava absolutamente seca.

Encontrou Vivi fazendo Gongyo na sala. Assim que ela terminou reclamou:

- Poxa, me deixou lá sozinha...

Vivi a puxou pela cintura, a beijou de leve nos lábios e disse animada:

- Em primeiro lugar bom dia, senhorita mal humorada! Ou melhor: bom fim de tarde, né?

Marcela colocou as mãos na cabeça e gemeu baixinho:

 - Ai, Vivi, por favor, fala mais baixo... Minha cabeça tá explodindo...

Como resposta recebeu um implicante brilho verde, com um fundinho de reprovação:

- Por que será, né? Do nada...

Vivi não teve como deixar de sorrir da cara sofrida de Marcela – uma graça. Ainda se surpreendia com essa dualidade dela. Marcela conseguia ir da extrema meiguice à uma profunda agressividade em questão de segundos... Era completamente imprevisível e incontrolável. Continuava não fazendo o menor sentido estar apaixonada por ela, mas... desde quando isso tinha a ver com razão? Amava Marcela. Isso era inquestionável. Ponto final.

A seguiu até a cozinha. Marcela tomou dois comprimidos:

- Engov e aspirina. Quer?

Vivi não tinha bebido nada, estava ótima, não precisava de nenhum daqueles remédios. Recusou gentilmente.

Ficou observando boquiaberta Marcela pegar uma lata de pêssego em calda na geladeira, encher metade de um copo só com o líquido que tinha ali dentro e beber com uma cara indefinível. A expressão perplexa de Vivi fez Marcela explicar:

- É ótimo pra curar ressaca... glicose na veia...

 

Depois que elas almoçaram, ou melhor, jantaram – Vivi já nem sabia mais como classificar – Marcela levou Vivi de volta para o quarto. Fez a ruiva se deitar na cama e se deitou em cima dela, aos beijos.

Vivi correspondeu, adorando. Aquela sim, era a face de Marcela que a encantava, enfeitiçava, seduzia... Suave, doce, apaixonada, meiga...

Ficaram ali se curtindo por um longo tempo. As mãos se provocando por baixo das roupas sem pressa. Marcela parou de beijar Vivi, pegou o controle do DVD e ligou o som. Aproximou a boca do ouvido dela, e acompanhando a música cantando, fazendo Vivi se arrepiar inteira:

 

“Honey you are a rock                       (Querida, você é a rocha)
Upon which I stand                            (onde eu me apóio)
And I come here to talk                     (eu vim aqui pra conversar)
I hope you understand                       (espero que você entenda)
The green eyes                                   (Os olhos verdes)
Yeah, the spotlight                             (sim, os refletores de luz)
Shines upon you                                (brilham sobre você)
How could anybody deny you?         (como alguém poderia negar você?)
I came here with a load                      (eu vim com um fardo)
And it feels so much lighter               (e ele parece muito mais leve)
Now I've met you                               (agora que conheci você)
And honey you should know             (e querida, você precisa saber)
That I could never go on                    (que eu nunca poderia continuar)
Without you                                       (sem você)
Green eyes                                         (olhos verdes)
Honey you are the sea                        (querida, você é o mar)
Upon which I float                             (onde eu flutuo)
And I came here to talk                      (eu vim aqui pra conversar)
I think you should know”                   (acho que você deveria saber)
(“Green Eyes” – Coldplay -  Berrymark/Buckland/Champion/Marti)

 

Nesse momento, Vivi não deixou mais Marcela cantar. Segurou a nuca dela e a beijou no mesmo “crescendo” da música. Enfiando a língua na boca de Marcela e a apertando com tanta paixão que a fez gemer.

As mãos de Marcela se tornaram urgentes. Passearam pela barriga de Vivi e subiram para os seios.

O gemido de Vivi foi abafado pela boca de Marcela. Difícil respirar com aquela intensidade de beijo... As bocas se separaram por instantes apenas. Que Vivi aproveitou para se livrar da camiseta de Marcela, que fez o mesmo com o vestido dela.

Voltaram a se beijar da mesma forma ardente. As mãos de Vivi encontraram,  acariciaram, saborearam os seios da namorada, enquanto as de Marcela desceram apressadas pelas coxas, entre as pernas, por cima da calcinha de Vivi, fazendo a ruiva estremecer.

Os dedos afastaram a peça íntima e a tocaram com uma perícia enlouquecedora. Vivi nem percebeu que arranhou as costas de Marcela, nem mesmo quando ela gemeu. Passou os braços ao redor do pescoço dela, ergueu um pouco a perna para facilitar o contato do sexo molhado que se movimentava contra ela, e se entregou às carícias de Marcela completamente.

O contato dos corpos, das peles quentes seriam o bastante para Marcela gozar facilmente, mas esperou. Penetrou Vivi, se deliciou com o som de gatinha ronronando que ela soltou e quase não agüentou ao sentir o sexo dela a apertando, acompanhando o ritmo dos dedos.

Acelerou e aprofundou os movimentos dentro dela. Vivi murmurou com uma voz deliciosamente ofegante e trêmula:

- Ai, Marcela... assim eu vou gozar...    

Que tornou impossível para Marcela continuar se segurando. Sussurrou no ouvido dela, já começando a estremecer:

- Goza pra mim, amor... Vou gozar também...

O corpo de Marcela se contraiu. O grito abafado contra os lábios de Vivi contendo uma única palavra: o nome da ruiva de olhos verdes - que se entregou às mesmas ondas vertiginosas, a puxando contra ela sem conseguir mais diferenciar onde ela terminava e onde começava a pele de Marcela...

Ficaram um tempo coladas, Marcela totalmente relaxada sobre Vivi, as duas se recuperando, as pulsações e respirações retornando ao normal lentamente.

A outra música tinha acabado. Marcela não sabia há quanto tempo. Ficou ali deitada, curtindo o que estava tocando naquele momento: “In My Place”(Coldplay).

Mas apenas por um breve momento. Porque Vivi a virou, trocando de lugar com ela. Suspirou quando as pernas de Vivi se enfiaram entre as dela, as abrindo.

Vivi desceu a boca pelo pescoço dela rapidamente, morrendo de vontade de provar, devorar Marcela inteira. Parou para dar um pouco de atenção aos seios, muito brevemente. Continuou descendo, a língua e os lábios incendiando tudo que tocavam pelo caminho até mergulhar a boca  entre as pernas dela.

Marcela derreteu, se contorceu e rendeu sob a regência dela.     

Vivi se deliciou com os gemidos que arrancou passando a língua vagarosamente no sexo dela, e depois a penetrando, invadindo, de forma voraz, faminta.

E então Marcela a puxou com força pelos cabelos, obrigando Vivi a parar o que estava fazendo e olhar para ela, quando pediu:

- Vira pra cá... Quero você na minha boca...

Vivi obedeceu. Marcela tirou a calcinha dela lentamente, controlando a urgência, querendo aproveitar cada momento.

Acariciou Vivi com os dedos, e só depois encostou a língua, provocando alguns primeiros gemidos. A segurou pelas nádegas e a puxou até a boca conseguir saborear o sexo dela por inteiro.

Vivi estremeceu, e tocou Marcela do mesmo jeito. Sem conseguir conter os arrepios que a percorriam incontroláveis, intermináveis. Experimentando algo que nunca tinha sentido.

Quando os dedos de Marcela a invadiram, sem que ela interrompesse o contato da boca e da língua, Vivi a imitou, mergulhando numa sensação que era... absolutamente indescritível.

Um prazer além de todos os limites a atingiu. Estrondosa e violentamente, como se uma corrente elétrica envolvesse as duas.

Sentiu Marcela debaixo dela gemendo, estremecendo - do jeito que ela mesma fazia – o corpo inteiro se tencionando, depois se libertando num último e derradeiro gemido – gritado, enfático de alívio.

Se deixou cair em cima de Marcela, porque os músculos já não respondiam.

Marcela sorriu, de olhos fechados ainda. Passou a mão pelos cabelos, abriu os olhos e sorriu mais ainda. Se moveu de leve, e Vivi saiu de cima dela, sem que Marcela tivesse tempo de impedir.

Ficaram deitadas lado a lado. Marcela fechou os olhos, se sentindo como se todos os seus desejos mais incríveis tivessem sido atendidos. A música que estava tocando? “Yellow”(Coldplay). Marcela sorriu e... procurou, encontrou e segurou a mão de Vivi.

A ruiva estava absolutamente surpreendida. Quando pensava que melhor do que estava seria impossível, então aquilo... Abriu um enorme sorriso. Os olhos relampejando quando se virou para Marcela e soltou sem querer:

- Incrível...

Marcela também se virou – deixando as duas frente a frente – e perguntou:

- O que é incrível?

Vivi tinha pensado alto, e por um momento, ficou meio sem saber o que dizer. Pensou em várias respostas, mas preferiu a verdadeira:

- O que eu sinto quando tô com você...

Deixando Marcela sem ter o que dizer, mas... sabendo exatamente o que fazer. Com os olhos negros reluzindo, voltou a se aventurar nos lábios, nos braços,  no prazer fantástico de ter e ser de Vivi.

 

No domingo à tarde, foram encontrar Carlinha no Sindicato do Chopp do Leme. Assim que se sentaram na mesa, Carlinha acompanhou algo ou alguém com o olhar. Depois quase gritou:

- Nossa! Meninas, vocês tem que ver isso!

Marcela e Vivi seguiram a direção do olhar de Carlinha, e viram... um moreno musculoso, fazendo um estilo “estou levantando a camisa, como quem não quer nada, para exibir meu abdômen perfeito e totalmente definido”.

Quando as duas voltaram a olhar para Carlinha, na mesma hora ela entendeu que tinha dado um fora, porque... Marcela estava rindo, e olhando para ela como se fosse louca. E Vivi... bem, Vivi a fuzilou com os olhos.

Tentou consertar, mas como sempre, a emenda ficou pior do que o soneto:

- Ai, desculpa, gente... Esqueci que vocês não se interessam... Quer dizer: não gostam, né? Ah, vocês entenderam...

Marcela riu alto. Quanto mais conhecia Carlinha, mais a achava engraçada. Doidinha, doidinha...

E realmente, a conversa continuou divertidíssima, quase hilária. Até o momento em que o tal moreno musculoso se aproximou da mesa e parou em frente a Vivi. Obviamente interessado nela, porque não desgrudou os olhos da ruiva enquanto falou:

- Posso me sentar com vocês?

Vivi respondeu rapidamente. Seca, fria, cortante, sem nem olhar para ele:

- Não é uma boa idéia...

- Tudo bem... Desculpa então...

E saiu todo irritadinho. Não se passaram nem 15 minutos e um outro cara apareceu. Quase babando por Vivi. Esse era todo cheio de graça:

- Gata, desculpe, mas preciso te conhecer...

Vivi cortou o sujeito. Do mesmo jeito que tinha feito com o primeiro. Mas esse insistiu:

- Não aceito não como resposta...

E já ia puxando uma cadeira, quando Carlinha disse, os olhos cheios de lágrimas:

- Olha só amigo... A minha mãe acabou de morrer... Quero conversar com minhas amigas em paz, pode ser?

O cara ficou todo sem graça. Pediu mil desculpas e saiu quase correndo.

Vivi e Carlinha riram. Era um esquema que usavam muito. Sempre funcionava. E evitava ficarem tendo que bater boca com os caras que não aceitavam serem dispensados. Carlinha adorava fazer aquela cena de sofredora. Às vezes até chorava.

Estavam acostumadas, porque normalmente Vivi era muito paquerada. Isso sempre fazia o ex-namorado se estressar com ela.

Não foi diferente com Marcela. Passou o resto da noite de cara amarrada. Não adiantou Vivi quase sentar no colo dela de tão perto, nem ficar de mãos dadas, a acariciando no rosto, se encostando e tocando nela o tempo inteiro. Nada a fez voltar a ser a mesma.

Marcela já era naturalmente ciumenta. E nunca tinha namorado ninguém que parecesse tão hetero. Olhando para Vivi ninguém diria que ela era entendida. Difícil agüentar aquele bando de idiotas dando em cima da namorada bem na cara dela...

Mas o que deixava Marcela mais indignada era a certeza de que se fosse um homem sentado no lugar dela na mesa, nenhum daqueles caras teria coragem de ser tão saidinho.

Resolveu cheirar um pouco de special k para espairecer a cabeça. Quando se levantou, Vivi a olhou, tensa. Explicou:

- Vou ao banheiro...

Vivi se levantou também, com um sorriso sugestivo:

- Vou com você...

E estranhou quando Marcela recusou, dizendo que preferia ir sozinha. Carlinha comentou:

- Que carma, hein, amiga? Em matéria de ciúmes, o Edu perde feio pra Marcela...

Vivi suspirou, passou as mãos no rosto e disse:

- Ai, nem me fale... Acho melhor ir embora antes que ela faça alguma besteira...

A expressão de Carlinha deixava claro que ela não estava acreditando no que tinha ouvido:

- Como assim, Vivi? Mais cedo ou mais tarde ela vai ter que se acostumar que a namorada dela é linda e que as pessoas vão mesmo dar em cima.

Nesse exato momento, Marcela voltou do banheiro. Parecendo muito mais solta e feliz. O jeito que ela fungava e coçava o nariz imediatamente fez Vivi perceber o porque. E ficar furiosa:

- Não acredito que você me dispensou pra cheirar essa porcaria!

Falou o mais baixo que conseguiu, mas foi alto o bastante para Carlinha ouvir. A amiga tentou disfarçar, mas ficou nitidamente sem graça.

Pra piorar a situação, um cara que obviamente se achava o Dom Juan carioca, pegou a mão de Vivi e saiu dizendo:

- Acredita em amor à primeira vista? Eu também não acreditava antes de ver você...

Não conseguiu dizer mais nada, porque Marcela levantou, empurrou o cara e começou a bater boca com ele. Se não fosse o pessoal do “deixa disso” que sempre aparece, afastando o rapaz inconveniente, e se Vivi não tivesse segurado Marcela, provavelmente teria sido muito, mas muito pior mesmo... Se Marcela ia apanhar ou bater, Vivi não sabia nem queria saber. Nenhum dos dois era preferível, porque... detestava qualquer forma de violência.

Não sabia onde enfiar a cara enquanto fechavam a conta. Carlinha também estava absolutamente calada e sem jeito. E Marcela... bem, Marcela continuava alterada ao extremo.

Assim que chegaram na calçada, Carlinha se despediu, dizendo baixinho no ouvido de Vivi:

- Boa sorte, amiga... Tomara que vocês se entendam...

Ao que Vivi respondeu, irritadíssima:

- Sinceramente? Vai ser difícil.

Quando se virou para Marcela novamente, ela tinha atravessado as pistas e estava no calçadão na beira da praia.

Vivi não suspirou, bufou. Mas foi atrás dela.

Marcela a fulminou com os olhos, abriu a boca, mas Vivi nem quis saber o que ela ia dizer:

- Se eu não te amasse tanto, nunca mais olhava pra você!

Mas Marcela nem percebeu o verdadeiro sentido do que Vivi falou. A raiva a deixava cega:

- Se você me amasse não ficava dando mole pra todos os caras que aparecessem!

O riso de Vivi foi um misto de nervoso e indignação:

- Dando mole? Não, repete, porque acho que não ouvi direito...

Marcela esfregou as mãos na calça, mudou o peso de uma perna para outra... Não conseguia parar quieta. Rodou em torno de si mesma, com a mão em cima da cabeça e então, finalmente respondeu:

- É isso mesmo que você ouviu! Os caras não iam chegar junto do nada, você tava dando mole sim!

Vivi a olhou profundamente. A tristeza deixando as esmeraldas sem brilho:

- É isso que você pensa?

Não conseguiu estabelecer contato com os olhos negros. Eles pareciam voltados para dentro:

- É.

Doeu. Tanto que por alguns momentos, Vivi ficou com a respiração suspensa. Como se tivesse levado um soco no estômago. Mas não deixou transparecer:

- Então vamos terminar aqui mesmo.

Marcela ficou com as mãos nos bolsos da calça, olhando para o chão ao dizer:

- Tudo bem.

Impossível descrever com palavras o que Vivi sentiu naquele momento. Milhares de emoções desconexas ao mesmo tempo. Decepção, mágoa, raiva, rejeição, tristeza, perda...

Se afastou com os olhos verdes embaçados pelas lágrimas e um único pensamento: Marcela não era o tipo de pessoa que ela queria, com certeza.

 

 

 

Capítulo 19: Uma porta se fecha e algumas janelas se abrem...

André abriu a porta usando uma calça jeans e uma camiseta velhíssimas, rasgadas e cheias de tinta - que pareciam absolutamente confortáveis. Os olhos vermelhos, pequenininhos. Mas com o sorriso receptivo e acolhedor que Marcela buscava ao ligar para ele assim que Vivi foi embora:

- Ô, minha linda... Tá precisando de um abraço, né?

Estreitou Marcela nos braços carinhosamente, apoiando o rosto dela no ombro como já tinha feito tantas e tantas vezes.

André era o único amigo de verdade que Marcela tinha, em quem confiava completamente, que sempre estava presente, seu porto seguro nas horas mais difíceis e críticas.

Tirou os sapatos, porque a mãe de André só admitia que entrassem descalços no apartamento. Não que fosse um modelo de limpeza ou algo do tipo, mas... por causa da energia – pelo menos era o que ela dizia.

Moravam a mãe, André e o irmão mais novo ali em Ipanema. O pai de André, depois de se separar dez anos atrás,  tinha praticamente sumido. A mãe de André – que Marcela não conseguia deixar de chamar de tia – era cenógrafa e artista plástica. A casa era cheia de quadros, esculturas, e até algumas instalações. Só para vocês terem noção, o sofá da sala era todo respingado de tinta, porque já tinha servido de cenário para um dos espetáculos dela. Quanto ao irmão de André... bem, Marcela nunca tinha prestado a menor atenção nele...

- E agora é hora de mais uma “andadinha feliz”...

Mesmo entre as lágrimas, Marcela sorriu. Era uma coisa que faziam desde crianças. Ela subiu em cima dos pés de André e eles foram andando juntos, se equilibrando até o quarto dele.

A tv estava ligada, passando um vídeo clip da Björk – que André simplesmente idolatrava. Em cima da cama um cinzeiro com um baseado aceso – ele estava fumando, é claro.

Marcela se atirou na cama, pegou o baseado na maior fissura e fumou, se sentindo imediatamente aliviada. André se deitou ao lado dela, deu um tapinha e devolveu o baseado para ela, olhando para a tv hipnotizado:

- Essa mulher é um tesão!

Marcela riu e implicou:

- Atrapalho? Aposto que você tava batendo uma antes de eu chegar...

André fez cara de quem não achou a menor graça:

- Isso é coisa pra uma moça falar?

E riu gostosamente da cara dela. Sabia que Marcela detestava aquela frase – pelo conteúdo e pela quantidade de vezes que já tinha sido obrigada a escutar.

- Mas e aí? Me conta...

- E aí nada. A Vivi terminou comigo. Ponto.

Tentou parecer indiferente, mas os olhos se encheram de lágrimas. André  passou o baseado para Marcela, dizendo:

- Já? Uma semana de namoro... Dessa vez você se superou... Bateu todos os  records de relacionamento relâmpago...

Marcela deu mais um tapa na ponta que sobrou, depois passou de volta para ele. Enxugou as lágrimas com as mãos, suspirou fundo, e disse:

- Ah, cala a boca, Dé... Não tá vendo que eu tô mal?

Ele fumou até a ponta apagar, colocou o resto no cinzeiro, e respondeu:

- Como se eu não te conhecesse... Você adora sofrer... Esquece essa menina, Marcela. Vocês duas não tem nada a ver. Ela é caretinha demais pra você. Porque não liga pra Gisele?

Isso era uma coisa que Marcela nem cogitava:

- Nesse momento, meu amigo, o que eu quero das mulheres é distância...

- Se quiser experimentar outras coisas, tô à sua inteira disposição...

Disse pegando a mão dela e colocando num ponto estratégico da calça jeans dele. Marcela tirou a mão imediatamente:

- Eca! Que nojo!

Mas André insistiu, rindo de Marcela:

- Como eu sempre te digo: você não sabe, nunca provou...

Ela fez a maior cara de asco do mundo:

- Ai, para, vou vomitar!

Ele a puxou pela cintura, fazendo Marcela ficar de lado, virada para ele, e aproximou a boca da dela:

- Você precisa é de um homem pra chamar de seu...

Marcela apertou a bochecha dele, dizendo:

- Tão brega, Dé...

André roçou os lábios na orelha dela, antes de sussurrar baixinho:

- O homem certo, que te coma direito.

Marcela riu alto. Empurrou André debochadamente ao falar:

- Vou arrumar um homem pra comer você! Bicha enrustida!

E voltou a deitar de costas na cama sem nem reparar que por trás da brincadeira, André tinha um brilho de desejo oculto no olhar.

 

Vivi entrou em casa, fez daimoku sansho, abriu o oratório e começou a recitar o NAM MYOHO RENGUE KYO. No meio das lágrimas. Os soluços de vez em quando a obrigando a parar. Por instantes apenas. Estava determinada a se desafiar e superar.

Seu Francisco e Dona Lúcia, que estavam na outra sala – de onde podiam escutar Vivi perfeitamente – se entreolharam.

Depois de algum tempo, quando ouviram Vivi bater o sino e fazer daimoku sansho para encerrar, dona Lúcia se levantou dizendo:

- Deixa que eu vou lá.

Vivi não estava mais chorando. O sofrimento tinha aliviado e estava bem mais calma. Mas foi só olhar para a expressão preocupada da mãe que as lágrimas voltaram. Dona Lúcia a abraçou, sem perguntar nada. Esperou ela se acalmar e falar:

- A Marcela e eu... brigamos... eu e ela... nós... Ai, mamãe... ela era minha namorada...

Dona Lúcia continuou calada. Vivi continuou:

- Eu... eu ia te contar... queria... tava esperando ser algo mais... mais certo... mais sério, sei lá... mas nem deu tempo...

Os soluços aumentaram. Dona Lúcia continuou acariciando os cabelos da filha durante um tempo. Depois segurou o rosto dela entre as mãos, a beijou na testa e fez Vivi olhar para ela:

- Eu já sabia, meu amor. Seu pai e sua irmã também sabem. Távamos só esperando você falar...

Vivi gaguejou, entre os soluços:

- Sabiam? Como?

Dona Lúcia sorriu com o espanto da filha:

- Impossível não perceber... Era só olhar pra vocês... 

Os soluços aumentaram novamente. Dona Lúcia perguntou:

- Filha, se você gosta tanto dela, porque não tenta conversar?

Vivi demorou um pouco para conseguir falar. Com o nariz entupido de tanto chorar:

- Porque a Marcela é muito... tem muito...

A mãe completou de uma forma muito serena:

- Sofrimento dentro dela. Nada que ela não possa transformar.

A mãe estava certa. Certíssima. Exatamente de pessoas como Marcela saíam os maiores valores humanos, porque... Pra se superar obstáculos é necessário se tornar maior do que eles. Logo, quanto maior o obstáculo, maior o tamanho que a pessoa atinge, não é mesmo?

Era só Marcela buscar o ilimitado potencial que existia – aparentemente trancado a sete chaves – dentro dela.

- Mas pra isso a Marcela precisa querer...

Dona Lúcia abriu um grande sorriso:

- Ah, mas ela quer... É visível... Principalmente quando ela olha pra você...

 

Marcela saiu da casa do André o mais tarde possível. Tentou se distrair e esquecer Vivi, sem conseguir. Impossível parar de pensar nos magníficos olhos verdes. Parou no posto e comprou meia dúzia de cervejas.

Assim que chegou em casa foi para o quarto. Ficou bebendo e tocando violão. A mão coçando para pegar o telefone e ligar para ela. Então lembrou que provavelmente, àquela hora Vivi já devia estar dormindo.

Ligou o CD player. A melodia preencheu o quarto.

Acendeu um baseado, se deitou na cama com o cinzeiro em cima da barriga e os olhos fixos no teto, curtindo o som.

Cantando junto com a música, fechando os olhos, soltando a voz e afundando nos próprios sentimentos – daquele jeito que os bêbados sempre fazem - quando o refrão entrava:

 

“Stand By Me - Nobody knows the way it's gonna be

Stand By Me - Nobody knows the way it's gonna be
Stand By Me - Nobody knows the way it's gonna be

(Fica comigo - ninguém sabe de que jeito que vai ser)
Stand By Me - Nobody knows, yeah, Nobody knows the way it's gonna be

(Fica comigo - ninguém sabe, é, ninguém sabe de que jeito que vai ser)

(“Stand By Me” – Oasis - Noel Gallagher)

 

No final, voltou a faixa. Ficou repetindo e repetindo a mesma música inúmeras vezes, as lágrimas escorrendo, o choro aumentando até cair num pranto de soluçar.

Varou a madrugada assim. E só quando o dia amanheceu, conseguiu fechar os olhos e adormecer, finalmente vencida pelo cansaço.

 

Marcela não foi na aula. Vivi ficou preocupada, pensou em telefonar para ela, mas acabou achando melhor não.

Da faculdade foi direto para o Centro da cidade de Metrô. Tinha conseguido um estágio num escritório particular.

Almoçou qualquer coisa. Estava sem fome, desanimada. O lado bom é que isso a impedia de ficar nervosa.

Para sorte e alívio dela, o advogado, doutor Machado, a deixou nas mãos da outra estagiária, Ana Cláudia –  Vivi já conhecia a morena de cabelos escorridos do 6º período – que explicou tudo de forma muito paciente e simpática. Terminou dizendo:

- Na verdade somos office-boys de luxo... Nada de mais...

E deu um sorriso para Vivi que seria capaz de derrubar qualquer um.

Passaram a tarde entre a justiça federal, justiça do trabalho, fórum... Olhando o andamento dos processos e dando entrada em documentos.

Ana Cláudia era divertida, animada, inteligente e extremamente gentil. Vivi nem viu passar o tempo. De volta ao escritório, a morena deu umas últimas dicas e depois sugeriu:

- Que tal um chopinho? Pra comemorar seu primeiro dia...

Vivi imediatamente concordou. Foram para a Cinelândia e se sentaram no “Amarelinho”.

Quando Ana Cláudia disse “um chopinho”, Vivi tinha pensado que era força de expressão, mas... realmente, quando acabou a primeira tulipa, a morena pediu um suco. A ruiva riu sem nem perceber.

- Qual é a graça? Posso saber?

Vivi ficou vermelha. Sem saber direito se por estar fazendo papel de boba ou se pelo tom íntimo, insinuante, quase sugestivo com que a morena fez a pergunta.

- Nada não...

Ana Cláudia sorriu. E falou com um brilho nos olhos que deixou Vivi na dúvida – talvez fosse imaginação dela - porque parecia estranhamente provocante:

- Ah, conta pra mim... Em troca te conto um segredo... Pode ser? 

Vivi disse, ainda mais sem jeito, se achando a pessoa mais imbecil do mundo inteiro:

- Não é nada. Só achei engraçado você falar um chopinho e só tomar um chope mesmo...

A morena riu gostosamente. Tomou um pouco de suco, abrindo um sorriso quando os olhos de Vivi acompanharam o movimento dos lábios dela no canudo inconscientemente. Ana Cláudia soltou de repente:

- Aquela menina roqueira é sua namorada?

Vivi engasgou com a Coca-cola que estava bebendo. Além de cuspir, o líquido gasoso saiu pelo nariz de Vivi, fazendo doer até o cérebro.

Ana Cláudia pegou um guardanapo, e ajudou a ruiva a se limpar e a enxugar a mesa, dizendo com um olhar sincero e meigo:

- Desculpa... Não queria ser inconveniente... Não pensei que fosse reagir desse jeito...

O olhar que Vivi lançou para a morena foi desconfiado, na defensiva, muito tenso:

- Por que você quer saber?

Já tinha escutado gracinhas demais na faculdade para não reagir daquele jeito. A própria Lu, antes uma das melhores amigas de Vivi, nem falava mais com  ela, virava a cara quando se cruzavam no corredor desde que Vivi tinha começado a namorar Marcela...

Ana Cláudia se defendeu:

- Ei... Não é nada disso que você tá pensando... Não mesmo...

E como Vivi não se convenceu, falou baixinho, quase um sussurro:

- Vou te contar o meu segredo: acho você linda quando fica vermelha...

Nossa, nem preciso dizer qual foi o efeito. Vivi ficou quase roxa de tão vermelha. Deixando Ana Cláudia evidentemente satisfeita.

Vivi não agüentou:

- Você também é...

Não conseguiu completar, porque a morena afirmou:

- Sou. Ainda não tinha percebido?

A resposta de Vivi foi balançar a cabeça negativamente, perplexa. Ana Cláudia estava se divertindo:

- Você acha que eu não pareço?

- Nem um pouco.

Foi a resposta de Vivi. Ana Cláudia fez questão de dizer:

- Nem você. Se não tivesse visto vocês duas de mãos dadas, nunca ia saber... Mas você ainda não respondeu a minha pergunta.

- Qual?

Vivi até já tinha esquecido. Mas Ana Cláudia não:

- Ela é sua namorada?

- É... Não... Quer dizer...

A morena riu da confusão dela. Vivi acabou dizendo:

- Terminamos ontem, e eu ainda não me acostumei, acho...

- Entendi. Você acha que vão voltar.

A frase fez com que Vivi percebesse que no fundo era isso mesmo. Não acreditava que tivessem terminado de verdade.

- O que aconteceu? Terminaram por que?

Ao ver a hesitação da ruiva, Ana Cláudia completou:

- Se não quiser não precisa falar...

Mas estranhamente, Vivi estava mesmo precisando desabafar, trocar idéias com alguém que pudesse realmente entender e que fosse confiável. Naquele momento, Ana Cláudia parecia a pessoa perfeita.

Contou muito por alto, evitando detalhes que pudessem expor Marcela. Ana Cláudia ouviu sem dizer uma palavra. E depois fez um único comentário:

- Sua namorada é insegura demais.

 

Quando Marcela acordou no dia seguinte, já eram mais de duas horas da tarde. Ficou um pouco desesperada por não ter ido à faculdade. Não por causa das aulas. Por causa de Vivi. Por ter perdido a oportunidade de conversar com ela.

Foi até a cozinha, mas estava completamente sem fome. Achou melhor resolver acendendo um baseado.

Colocou uma música -  “Inside my Head” (Radiohead) – e ficou viajando na sala.

A campainha tocou. Nem percebeu que o porteiro não tinha avisado pelo interfone. Não olhou pelo olho mágico, foi abrindo direto, e dando de cara com...Gisele.

A loira nem conversou. A empurrou e entrou, batendo a porta atrás dela.

Enfiou as mãos nos cabelos de Marcela, a segurando com força, a obrigando a encostar na parede, onde a prendeu pressionando o corpo contra o dela.

A surpresa de Marcela foi tão grande que ficou totalmente sem ação.

Gisele sussurrou no ouvido dela:

- Não tô disposta a abrir mão de você, gatinha. Você é minha. Me pertence.

E colou os lábios nos de Marcela, a língua invadindo, percorrendo, explorando a boca inteira dela, possessiva. Marcela fechou os olhos e... correspondeu de forma absolutamente faminta.

 

 

Capítulo 20: Open Your Eyes...

Quando a respiração de Marcela voltou ao normal e ela abriu os olhos novamente, estava nua no sofá, com uma Gisele também despida deitada debaixo dela.

A loira tinha um brilho satisfeito nos olhos. Marcela se levantou, e sentou na beira do sofá, com as mãos no rosto.

Tinha perdido completamente a cabeça. Se deixado levar por um desejo incoerente, instintivo. Só que daquela vez, de uma forma muito pior, porque... tinha agarrado a loira quase com loucura.

Estava arrependida, porque amava Vivi de verdade. E Vivi, definitivamente, não merecia aquilo. Tudo bem que tecnicamente, elas tinham terminado. Mas mesmo assim, Marcela sentia como se a tivesse traído.

Gisele ajoelhou atrás dela, e começou a beijar e morder o ombro de Marcela de forma sedutora:

- Vem aqui, gostosa... Quero mais...

Depois que finalmente percebeu a total falta de receptividade, a loira se enfureceu:

- Que diabos deu em você?

Marcela levantou e se vestiu inteira. Se sentiu bem mais protegida, muito menos indefesa. Mas continuou sem saber direito o que fazer.

Gisele colocou o vestido, ajeitou os cabelos, e só então disse, vestindo a calcinha minúscula e transparente:

- É por causa da ruivinha?

Marcela esboçou um sim bastante sem graça. Fazendo Gisele rir à beça antes de dizer:

- Como você é bobinha... Ela nunca vai ficar sabendo...

Marcela passou a mão nos cabelos, procurando a melhor forma de se explicar. Acabou dizendo:

- Você... você não entende... não podemos mais nos ver porque... porque eu... tô apaixonada por ela.

Gisele se aproximou, passou os braços ao redor do pescoço de Marcela e falou, com um sorriso absolutamente sedutor:

- Bobagem... eu não sou ciumenta, não é verdade?

Já tinha provado isso para Marcela várias vezes. A última, e mais amarga, tinha sido a noite fatídica com as duas amigas dela. Marcela não gostava nem de lembrar.

Tirou os braços dela do pescoço, de forma bastante indelicada. Deixando Gisele muito irritada:

- Ah, que gracinha... Você não tava tão intocável alguns minutos atrás...

Sem conseguir olhar a loira nos olhos, Marcela respondeu:

- Quero ser fiel.

Gisele deu uma gargalhada estrondosa:

- Fiel? Essa é boa! Me poupe das suas besteiras, Marcela... Fiel é o cachorro ao dono... Deixa de ser hipócrita... Confessa que você adorou o gostinho da traição... Nunca te vi com tanto tesão...

- Foi um erro. Não vai acontecer de novo.

A voz de Marcela soou muito firme e decidida. Para Gisele aquilo foi a gota d’água. Começou a gritar, possessa:

- Erro? Erro? Olha aqui, garotinha: ninguém – tá me ouvindo? – ninguém diz que trepar comigo é um erro, entendeu?

Marcela ficou calada. Sem saber o que falar. Gisele continuou, com um tom bem mais ameno:

- Escuta bem o que vou te dizer: eu te conheço. Sei bem como você é. Sei bem quem você é. Nós duas sabemos que você não é flor que se cheire... Mas eu te aceito assim mesmo. E ela? Te conhece? Te aceita? Aposto o que você quiser, que de um jeito ou de outro, essa menina vai te largar, baby. Como todas fazem quando enxergam a verdadeira Marcela. Todas, menos eu. Quando isso acontecer,  eu vou estar te esperando, gatinha. De braços abertos, como sempre. Pensa bem nisso antes de dizer que ficar comigo é um erro.

A loira pegou a bolsa, e saiu batendo a porta.

E de todas as coisas que Gisele tinha falado, uma era verdadeira: ela realmente conhecia Marcela muito bem. Porque conseguiu o que queria: a deixou inquieta, lutando contra um medo gigantesco de que a loira estivesse certa.

Ficou andando de um lado para o outro na sala, com uma angústia imensa. Sem saber direito o que pensar, o que achar, o que fazer. Foi quando se lembrou do mantra de Vivi.

Sentou no sofá, juntou as mãos, fixou os olhos abertos num ponto da parede, exatamente como a ruiva tinha ensinado e começou:

- Nam myoho rengue kyo... Nam myoho rengue kyo... Nam myoho rengue kyo...

Inúmeras e repetidas vezes. Como uma música vibrando no corpo inteiro. E aos poucos a vibração pareceu mudar a respiração, atingir seus sentimentos, como se o peito se abrisse e tornasse possível limpar seu coração.

Deixou que milhares de idéias e pensamentos brotassem e passassem por sua mente e então, finalmente, com uma certeza estranha e serena, tomou uma decisão.

 

Vivi se despediu de Ana Cláudia e foi direto para o Kaikan de Botafogo, na rua Barão de Lucena. Chegou bem na hora do Gongyo. A sala estava lotada, por isso ficou de pé mesmo, perto da porta.

O celular vibrou várias vezes, mas não ia parar para atender. Quando a oração terminou, olhou o visor e viu cinco ligações não atendidas. Todas de Marcela. E uma mensagem, também dela: “Por favor, me liga. Preciso muito falar com você.”

Desceu para o segundo andar, para não atrapalhar o daimoku das pessoas. Assim que o telefone tocou, Marcela atendeu. Com uma voz muito contente:

- Oi, Vivi...

O tom de Vivi foi bem menos caloroso:

- Oi, Marcela.

As duas ficaram em silêncio. Foi Vivi quem falou primeiro:

- Você queria falar comigo?

Marcela teve que tomar coragem para dizer:

- Eu queria conversar... mas pessoalmente. Podemos nos encontrar?

- Hoje?

Vivi estava realmente surpresa. Marcela aproveitou a ruiva ter abaixado as defesas:

- Posso ir aí te buscar?

Marcela prendeu a respiração, torcendo para a resposta ser positiva. Vivi suspirou antes de responder:

- Ai, Marcela, sinceramente? Não sei.

- Não sabe o que?

Na verdade, Vivi precisava de um tempo. Para pensar antes de encontrar Marcela novamente. Por isso disse:

- Tá tarde, tô cansada, querendo ir pra casa... Além disso, amanhã tem aula.

Marcela ficou muito frustrada. E fez um enorme silêncio. Vivi encerrou:

- A gente conversa amanhã na faculdade. Beijo...

E desligou. Marcela ficou um pouco chateada, mas... não ia desistir assim tão fácil...

 

Assim que Vivi chegou em casa, a mãe disse:

- A Marcela acabou de te ligar.

Foi dona Lúcia acabar de falar para o celular de Vivi tocar. Atendeu indo para o quarto:

- Oi, Marcela.

- Oi, Vivi. Onde você tá?

Vivi descalçou os sapatos e ligou o computador. Respondeu:

- Em casa.

Marcela ficou desconfiada. Perguntou daquele jeito quase irracional de tão ciumento, que tirava Vivi do sério:

- Acabei de ligar pra sua casa e sua mãe disse que você não tava.

A voz de Vivi não foi fria, foi gélida ao responder:

- Acabei de chegar. 

Marcela ficou muito sem graça:

- Ah, tá...

Mas a paciência de Vivi já tinha se esgotado:

- O que você quer, Marcela?

Marcela nem hesitou. Foi logo dizendo:

- Ouvir sua voz...

Vivi engoliu em seco. Aquela era a Marcela que sempre a fazia ceder. Mas não daquela vez:

- Já ouviu. Satisfeita?

Marcela abriu um sorriso. Porque sentiu que tinha mexido com a ruiva. Provocou mais:

- Você sabe que não fico satisfeita fácil...

Aí Vivi não agüentou. Teve que provocar também:

- É mesmo? Sempre te achei fácil...

Ouviu Marcela rir do outro lado antes de responder:

- Se eu sou fácil, meu bem, é só pra você…

Vivi suspirou. Estava com saudade... E o que Vivi pensou, Marcela falou:

- Tô com saudade...

Sem ter como negar, a ruiva respondeu:

- Eu também.

Na mesma hora, Marcela confessou:

- Não consigo ficar sem você.

Vivi ficou muito quieta. E Marcela continuou:

- Vivi, eu te amo... Quero voltar...

Claro que Vivi adorou ouvir aquilo. E acreditou. Sabia que era verdade. Mas não tinha esquecido o que Marcela tinha dito. A razão pela qual tinham terminado:

- Quer voltar com uma pessoa que dá mole pra todo mundo?

Marcela foi sincera na resposta:

- Vivi, eu sei que extrapolei. Fiquei louca de ciúmes, falei um monte de besteiras... Mas não é o que eu penso. De verdade. Sei que você não dá mole pra ninguém. Me desculpa, vai...

Depois de uma pequena pausa, Vivi disse de uma forma muito suave:

- Acabei de te mandar minha resposta por e-mail. Amanhã a gente conversa, tá?

Depois que Vivi desligou, Marcela ficou uns dois segundos parada com o celular no ouvido antes de correr para o laptop, abrir a caixa de entrada e olhar o e-mail que tinha recebido. Vazio. Não tinha nada escrito.

Foi então que viu em anexo um arquivo de áudio. Abriu um enorme sorriso quando ouviu:

 

“All this feels strange and untrue (Tudo isto parece estranho e surreal)
And I won't waste a minute without you (E eu não quero passar um minuto sem você)
My bones ache, my skin feels cold (Meus ossos doem, minha pele está fria)
And I'm getting so tired and so old (E eu estou ficando tão cansado e tão velho)
The anger swells in my guts (A raiva me corrói por dentro)
And I won't feel these slices and cuts (E eu não vou sentir esses pedaços e cortes)
I want so much to open your eyes (Eu quero tanto abrir seus olhos)
Cause I need you to look into mine (Por que eu preciso que você olhe nos meus)
Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você abrirá seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você abrirá seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você abrirá seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você abrirá seus olhos)
Get up, get out, get away from these liars (Levante, vá embora, saia de perto desses mentirosos)
Cause they don't get your soul or your fire (Porque eles não entendem sua alma ou seu fogo)
Take my hand, knot your fingers through mine (pegue minha mão, entrelace seus dedos nos meus)
And we'll walk from this dark room for the last time (E nós sairemos deste quarto escuro pela última vez)
Every minute from this minute now (Cada minuto a partir deste agora)
We can do what we like anywhere (Podemos fazer o que gostamos em qualquer lugar)
I want so much to open your eyes (Eu quero tanto abrir seus olhos)
Cause I need you to look into mine (Porque eu preciso que você olhe nos meus)
Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você vai abrir seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você vai abrir seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você vai abrir seus olhos)

Tell me that you'll open your eyes (Me diga que você vai abrir seus olhos)
All this feels strange and untrue (Tudo isto parece estranho e surreal)
And I won't waste a minute without you.” (E eu não quero passar um minuto sem você)
(“Open Your Eyes” - Snow Patrol)

 

No dia seguinte, Vivi estava sentada ao lado de Carlinha - na primeira fileira como sempre – quando Marcela entrou na sala com o violão na mão.

Parou na frente de Vivi com um sorriso imenso. Colocou o pé na cadeira vazia ao lado dela, apoiou o violão na perna e começou a tocar.

Todos os olhares se voltaram para elas. Mas os olhos negros só viam os verdes e vice-versa. Com a voz apaixonada e doce, cantou:

 

“Por você eu dançaria tango no teto
Eu limparia os trilhos do metrô
Eu iria a pé do Rio à Salvador
Eu aceitaria a vida como ela é
Viajaria a prazo pro inferno
Tomaria banho gelado no inverno
Por você eu deixaria de beber
Por você eu ficaria rico num mês
Eu dormiria de meia pra virar burguês
Eu mudaria até o meu nome
Eu viveria em greve de fome
Desejaria todo o dia a mesma mulher
Por você! Por você!
Por você! Por você!

Por você conseguiria até ficar alegre

Pintaria todo o céu de vermelho

Teria mais herdeiros que um coelho

Eu aceitaria a vida como ela é
Viajaria a prazo pro inferno
Tomaria banho gelado no inverno

Eu mudaria até o meu nome
Eu viveria em greve de fome
Desejaria todo o dia a mesma mulher
Por você! Por você!
Por você! Por você!”
(“Por Você” - Barão Vermelho - Roberto Frejat / Guto Goffi / Mauro Santa Cecília)

 

Quando Marcela terminou, escutou a voz da professora de Direito Civil atrás dela:

- Lindo, Marcela... Mas será que agora posso começar minha aula?

Todos riram. Vivi ficou muito vermelha. Marcela respondeu, com seu jeitinho peculiar de sempre, arrancando mais risos:

- Claro, fica à vontade. Faz de conta que a turma é sua. Menos essa aluna aqui, tá?

Piscou para a professora, de um jeito totalmente abusado. Depois se virou para Vivi, num tom rouco, meigo, irresistível:

- Vem comigo...

Estendeu a mão para ela, olhando fundo nos olhos de Vivi. Como sempre, os verdes cintilaram. Carlinha não conseguiu se conter:

- Nossa, isso tá parecendo cena de filme...

A ruiva juntou as coisas dela, colocou a mão na de Marcela, e saíram da sala de mãos dadas.

 

Assim que chegaram no corredor, Vivi reclamou:

- Quer me matar de vergonha?

Com um sorriso absurdamente encantador, Marcela respondeu:

- Ah, vai dizer que não gostou?

Vivi ficou muito séria. E respondeu:

- Não, não gostei.

Marcela ficou perplexa. Vivi riu. As esmeraldas cintilaram, ofuscando os olhos negros:

- Amei!...

Num ímpeto, Marcela se livrou do violão, e encostou Vivi na parede, pressionando o corpo contra o dela, dizendo:

- Senti tanto sua falta... Quase morri de saudades de você...

E colou a boca na da ruiva com paixão. Por um momento, Vivi ainda pensou que ali não era o lugar mais propício, mas os lábios, a língua, o piercing, a fantástica sensação que era estar novamente com ela, a fizeram esquecer de todo o resto.

A boca de Marcela passou para o pescoço de Vivi, as mãos já começando a tocar no corpo dela, ousadas. A ruiva olhou em volta. O corredor estava deserto, mas... era melhor não abusar da sorte:

- Marcela...

Marcela levantou a cabeça e olhou para os olhos verdes maravilhosos. Que brilharam com uma intenção nada inocente ao sugerir:

- Vamos sair daqui...

 

 

Capítulo 21: Um Novo Começo...

Foram direto para o apartamento de Marcela. Assim que entraram, Vivi arrancou a camiseta dela. A pressa era tanta que não queria perder tempo indo para o quarto. Foi empurrando Marcela para o sofá mesmo.

Marcela a surpreendeu, dizendo:

- Aqui não... Vamos lá pra dentro.

De um jeito muito, mas muito estranho mesmo. Mas não teve tempo para pensar nisso enquanto se beijavam, espalhando as roupas pelo corredor inteiro.

Já chegaram nuas no quarto. Marcela encostou Vivi na parede, e a beijou como se aqueles dois dias sem ela tivessem sido meses. Vivi correspondeu com a mesma urgência. A apertando com força, arranhando os ombros e as costas de Marcela, sussurrando palavras excitantes no ouvido dela.

Marcela puxou Vivi, a sentou em cima da escrivaninha e se enfiou entre as pernas dela. A ruiva a envolveu com os braços e as pernas, amando o contato completo que a posição permitia.

A boca de Marcela desenhou uma linha de fogo no pescoço dela, e desceu para os seios. Vivi gemeu, suspirou, mordeu a nuca de Marcela, a apertou e se esfregou contra ela com loucura.

As mãos de Marcela desceram. Para acariciar, tocar entre as pernas dela e depois a penetrar sem pressa.

Vivi se mexeu sensualmente, acompanhando o ritmo dos dedos. Gemeu alto quando Marcela intensificou os movimentos. A olhou fundo nos olhos, os verdes dardejando labaredas:

- Ai, amor... Assim não vale... Vou gozar rápido, não agüento...

O sorriso de Marcela foi de um prazer tão imenso que deu um novo sentido à palavra “satisfeita”. Sussurrou:

- Se o problema é esse, eu resolvo... Só não reclama depois...

Para desespero de Vivi, Marcela cumpriu o prometido. A provocando insuportavelmente, a levando quase ao limite e depois parando, impedindo que ela gozasse. Mostrando um domínio e habilidade absolutos sobre o corpo dela.

Vivi delirou, vibrou e se entregou completamente à falta de controle.

O poder era todo de Marcela. Que o exerceu de forma abusivamente envolvente e sedutora. Fazendo Vivi gozar nos dedos dela gemendo, gritando e adorando a forma apaixonada, possessiva e exigente de Marcela  fazer amor.

Vivi ficou um tempo agarrada à ela, sem se mexer. Marcela podia sentir o coração da ruiva palpitando descompassado de encontro ao dela. As unhas de Vivi estavam cravadas na pele dela. A boca contra o pescoço, o hálito quente fazendo Marcela se arrepiar de tempos em tempos.

Não entendeu quando do nada, Vivi começou a rir. Depois, lentamente, afrouxou o abraço e a fitou. Envolveu Marcela em ondas verdes de total felicidade. Não conseguiu guardar para si mesma:

- Ai... O que é isso que você me faz?

O sorriso de Marcela iluminou o rosto dela inteiro:

- Amo você... Demais...

Os olhos verdes refletiram o cintilar dos negros com a resposta.  Marcela completou:

- E vou continuar amando... Pelo tempo que você quiser... e deixar...

A intensidade das esmeraldas ofuscou Marcela, quando Vivi murmurou:

- Pra sempre então...

A ruiva colou a boca na dela, e voltaram a mergulhar, navegar, se aventurar  naquele turbilhão intenso, imenso que era se completarem.

 

Vivi saltou da moto na frente do escritório, no exato momento em que Ana Cláudia estava chegando. A morena se aproximou, muito sorridente. Marcela tirou o capacete para observar melhor.

A ruiva apresentou as duas, e Ana Cláudia entrou no prédio. Marcela implicou:

- Quer dizer então que você arrumou uma coleguinha lésbica...

Vivi arregalou os olhos, muito espantada:

- Como você sabe?

- Pelo jeito que ela olha, ou melhor, devora você.

A frase fez Vivi ficar perplexa, porque...o tom de voz de Marcela foi tranqüilo demais para uma pessoa tão ciumenta.

Como se acompanhasse os pensamentos da ruiva, Marcela falou:

- Fica tranqüila. Não tenho ciúmes de você com outras mulheres. Eu me garanto, meu amor...

Beijou Vivi de leve nos lábios, colocou o capacete, ligou a moto e arrancou. Deixando a ruiva aliviada e... sem entender nada.

 

A tarde de Vivi foi tranqüila. Como Ana Cláudia já tinha ensinado tudo na véspera, dividiram o que tinham para fazer e foram cada uma para um lado.

Só voltaram a se encontrar no final do expediente. Estavam esperando o elevador quando de repente, Ana Cláudia comentou:

- Que bom que vocês voltaram.

Vivi estava distraída, arrumando uns papéis na pasta. Foi pega de surpresa:

- Ãh?

- Você e sua namorada.

- É...

Que mais Vivi podia dizer? Desceram em silêncio. Marcela já estava esperando, com a moto parada na porta, impaciente. Ana Cláudia se despediu e saiu andando rápido, parecendo apressada.

Marcela deu um estalinho na ruiva, entregou o capacete sobressalente para ela e sugeriu:

- Ainda temos tempo antes da reunião. Vamos no McDonald’s?

Vivi concordou. Marcela era fanática por fast food. Mais um dos vícios nocivos da namorada. Que não eram poucos, não é verdade?

Subiu na moto e abraçou Marcela, que colocou o capacete, acelerou e partiu, contente. Com Vivi se aproveitando para colar, se agarrar e apertar o corpo contra o dela ao máximo, como sempre.

 

No Mcdonald’s tiveram a discussão que já se tornara um hábito: Marcela  insistia em pagar. Para ela era como se dinheiro desse em árvores.

Vivi não concordava nem se sentia bem com isso. Marcela a atormentou insistentemente, mas a ruiva não cedeu. Fez questão de pagar a parte dela.

Depois do lanche foram para a reunião budista. Fizeram 15 minutos de daimoku, gongyo, e sentaram numa roda. Misticamente, o tema era Carma. Marcela recebeu um texto. Cada um lia um parágrafo e os responsáveis pela reunião – Vivi inclusive – iam fazendo comentários, tirando dúvidas e explicando.

Quando chegou a vez de Marcela, ela leu:

- “A palavra sânscrita Karma, ou Karman, significa “ação”. O budismo identifica 3 categorias de ação: mental, verbal e física. Ou seja, a pessoa forma o carma de 3 maneiras: pensamentos, palavras e ações.  Se estes forem bons, bom carma. Se forem maus, mau carma.”

Marcela nem conseguiu mais prestar atenção. “Tô ferrada...” – era só o que conseguia pensar.

Vivi riu da expressão dela. Era evidente o que Marcela estava pensando. Disse baixinho no ouvido dela:

- Calma... Continua escutando...

Foi a vez de Vivi ler:

- “No Gosho (carta) abertura dos olhos, Nitiren Daishonin escreveu: “Se deseja saber que causas foram feitas no passado, observe os resultados que se manifestam no presente. E se deseja saber que resultados serão manifestados no futuro, observe as causas que estão sendo feitas no presente.” Dessa forma, o princípio de causa e efeito do budismo ensina que fundamentalmente as circunstâncias em que se vive atualmente são conseqüências dos nossos próprios atos no passado (nessa e em outras existências) e nunca obras de fatores externos. O Dr. Daisaku Ikeda afirma que o mais importante é o presente momento. Embora as causas feitas no passado tenham contribuído para moldar o nosso presente, é também o momento presente, ou seja, o instante que vivemos agora que decide o nosso futuro. Não são as causas passadas que o governam. Sejam quais forem as causas cármicas passadas, podemos construir um futuro brilhante por meio das causas que criamos hoje. É possível mudar todo carma negativo do passado e desfrutar um futuro de imensa felicidade.”

Exatamente como Vivi tinha previsto, Marcela pareceu bem mais aliviada. Sussurrou novamente pra ela:

- Ouviu? A partir de hoje...

Marcela ficou pensativa. Vivi sorriu e apertou a mão dela. Não duvidava da capacidade de Marcela, mas... sabia que não ia ser fácil.

 

Depois da reunião, Vivi insistiu para que Marcela dormisse na casa dela. Obviamente, Marcela não ofereceu nenhuma resistência.

Foram recebidas por uma dona Lúcia muito sorridente:

- Marcela! Que bom te ver, minha querida...

Beijou as duas, e lançou um olhar cúmplice para a filha antes de dizer:

- Bom, com licença. Quando o jantar estiver na mesa chamo vocês.

E entrou na cozinha. Vivi pegou Marcela pela mão e a puxou para o quarto. Fechou, mas não trancou a porta. Foi logo agarrando a namorada e a enchendo  de beijos. Deixando Marcela completamente tensa:

- Tá doida, Vivi? E se alguém entra?

A ruiva riu, com os braços em volta do pescoço dela. Só depois de mais um beijo, respondeu:

- Ninguém vai entrar sem bater. Eles sabem que eu e você...

O susto que Marcela levou foi tão grande que ela até prendeu a respiração. Vivi riu muito, mas muito mesmo. E implicou:

- Qual é o problema? Pensei que você fosse assumida, meu bem...

- Ué, eu sou. E você também, pelo jeito.

- Nem precisei contar. Eles perceberam. Minha mãe disse que tava na cara, que era só olhar pra gente...

Marcela estava contente. A mãe de Vivi já sabia e não a tinha enxotado, pelo contrário. Na verdade, Marcela não se lembrava de já ter sido tão bem tratada em nenhuma outra casa. Espantoso mesmo...

Vivi grudou a boca novamente na dela, a língua brincando, se insinuando, provocando... Mordiscou a orelha de Marcela, antes de confirmar os pensamentos dela, dizendo:

- Minha mãe adora você...

Marcela soltou uma risada. E respondeu na maior felicidade:

- Uma mãe que me adora? Isso é novidade... Eu diria até que é inacreditável...

E voltou a colar os lábios nos da ruiva de forma absolutamente apaixonada.

 

Quatro meses se passaram sem que elas perceberem. O namoro tomou um ritmo sem atropelos. Foi criada uma espécie de equilíbrio tácito.

A rotina era a seguinte: de manhã, a faculdade. De tarde Vivi ia para o estágio e Marcela ficava fumando, ouvindo música, bebendo, levando um som com os amigos e muitas vezes não fazendo nada. Na verdade ficava mesmo era tentando se distrair até a hora de finalmente poder buscar Vivi no trabalho.

O pouco tempo que sobrava era corrido. Toda 3a feira iam às reuniões budistas. Vivi jantava e dormia em casa todos os dias. Marcela não queria abusar: só dormia lá uma, duas vezes por semana no máximo.

De vez em quando a saudade apertava, então matavam algumas aulas.  

Os finais de semana eram só delas. Vivi compensava ficando e dormindo na casa de Marcela. Naquele mundinho maravilhoso que tinham criado, e que era só delas.

Continuavam saindo com os amigos, claro. Marcela tentava maneirar nas drogas e na bebida, com uma certa dificuldade. De vez em quando extrapolava, mas nada de sério. Até porque, nunca mais tinham virado a noite daquele jeito. O namoro de Carlinha e Rafa ajudava. Eles serviam de termômetro. Quando anunciavam que estavam indo, Marcela também ia com Vivi para casa. No começo André e Guto soltavam algumas piadinhas, mas depois se acostumaram.

Também foram com Ana Cláudia e amigas em lugares GLS da cidade. Em ocasiões muito raras, porque Marcela ficava profundamente entediada. Achava as meninas caretíssimas, se sentia deslocada na mesa onde só ela bebia e fumava. Na pista de dança era ainda pior, porque Marcela não conseguia dançar... como posso dizer... comportada. Ficava se esfregando e agarrando Vivi de uma forma que às vezes passava de todos os limites, e a deixava constrangida, completamente sem jeito na frente de Ana Cláudia.

Vivi estava presente em todos os shows do “The Mitidos”. Incentivando, ajudando, aplaudindo Marcela de forma absoluta e sinceramente apaixonada. Adorava ver a namorada tocando e cantando. Era a fã número um, e não disfarçava.

De vez em quando Gisele ligava. Marcela nunca atendia. Mas não tinha como deixar de ler as mensagens que a loira deixava: “Me liga se precisar de sexo de verdade...”, “Só você me come direito...” , “Morrendo de vontade dos seus dedos, gatinha...”, “Sua língua me faz falta...” e outras do gênero. Se Marcela dissesse que aquilo não mexia com ela, estaria mentindo, não é verdade? No mínimo servia para alimentar o ego e a vaidade...

 

Numa 6ª feira que não tinham show, os “The Mitidos” estavam reunidos com Vivi e Carlinha na casa de Marcela.

Rafa e Carlinha abraçados no sofá. Guto numa poltrona. André sentado no chão tocando violão. Marcela e Vivi também sentadas no chão. Marcela com as costas apoiadas na parede, com Vivi entre as pernas, as costas encostadas no peito dela. De vez em quando Vivi virava o rosto e esfregava no de Marcela, que parava de cantar para beijar a ruiva que mantinha bem junto dela num abraço apertado.

André se cansou de tocar, e tentou passar o violão para Marcela, que recusou:

- Desculpe, mas... tô muito bem assim, obrigado... Liga o som.

Ele obedeceu. Colocou Oasis: “Don’t Look Back in Anger”. Criando um clima propício para os beijos dos dois casais se tornarem mais ardentes e apaixonados.

Guto e André, para variar um pouco, não deixaram barato:

- Já que só sobramos nós dois: vira aí, Guto, que eu vou te comer, seu boiola...

- Vira você, viado... Sei que seu negócio é um macho...

Riam e desmunhecavam, tirando a concentração de Rafa e Marcela, que riram também. Rafa jogou uma almofada nos amigos, e puxou Carlinha para o banheiro.

Vivi segurou o rosto de Marcela, impedindo que ela interrompesse o beijo. Enfiou a língua com tanta paixão e desejo, que tiveram que se separar para respirar. Roçou os lábios no ouvido de Marcela, antes de sussurrar:

- Vamos pro quarto...

Nem esperou a namorada concordar. Levantou e puxou Marcela, que a seguiu. Foram se beijando enquanto caminhavam, sem nem perceber que André as observava meio de lado.

Assim que entraram no quarto, Marcela bateu a porta atrás delas. Puxou Vivi pela cintura, colou a boca na dela e recuou em direção à cama, onde caiu deitada com a ruiva em cima dela. Mas Vivi tinha outra idéia:

- Vira...

Ordenou com uma voz rouca, baixa, suave - que prometia. Marcela nem pensou em resistir. Fez o que Vivi queria. Vivi mordeu, chupou e lambeu a nuca dela, a fazendo se arrepiar inteira.

Acariciou as costas de Marcela, subindo e tirando a camiseta dela enquanto beijava cada pedaço de pele descoberta. As mãos escorregaram por baixo de Marcela, pegando nos seios, arrancando gemidos abafados pelo travesseiro. Depois desceram pela barriga, entre as pernas dela, ainda por cima do jeans.

Marcela sufocou novos gemidos, e moveu os quadris, mostrando o que estava querendo. Vivi abriu e tirou as calças e a calcinha dela. Admirou o corpo lindo, completamente entregue. A pele alva, o tribal tatuado na linha da cintura, absolutamente sexy.

Se livrou das próprias roupas rapidamente. Encostou o sexo nas nádegas de Marcela, e sussurrou no ouvido dela:

- Olha como eu fico pra você...

Mostrando a umidade latente que aumentou em contato com a pele embaixo dela. Marcela retrucou:

- Do mesmo jeito que você me deixa...

O tom de voz que Marcela falou, lânguido, gostoso, oferecido... Acionou em Vivi uma fome inadiável, incontrolável, extrema. Que a fez penetrar a namorada com os dedos e se esfregar nela com urgência.

Se entregaram a palavras murmuradas, gemidos e suspiros intensos. Numa dança que as deixava tão ligadas uma na outra que era como se inexistisse todo o resto.

Por isso não viram quando a porta se entreabriu lentamente. Uma fresta apenas. Por onde André ficou espiando, com uma estranha mistura de raiva, ciúme, inveja e desejo.

Capítulo 22: Ela é puro Ecstase...

O sábado começou maravilhoso. Principalmente para Vivi, que acordou com Marcela em cima dela, a beijando inteira, desenhando com os lábios um trajeto que deixou as esmeraldas incandescentes: começando na boca e terminando entre as pernas da ruiva já totalmente desperta.

Era aniversário da Ana Cláudia. Foram no Novo Leblon comprar um presente e aproveitaram para almoçar no shopping mesmo.

Depois passearam no calçadão, com Marcela de óculos escuros, só se dando por satisfeita quando convenceu Vivi a se sentar num quiosque e tomar uma cerveja.

Voltaram para casa e passaram o fim da tarde namorando no quarto de Marcela.

Tomaram banho e ficaram horas debaixo do chuveiro – Marcela não sossegava, estava insaciável, como sempre.

Se arrumaram para sair. Marcela rapidamente. Foi só vestir a roupa e passar perfume – Armani: Acqua Di Giò for Men – e ajeitar o cabelo.

Vivi passou hidratante, perfume, creme nos cabelos, secou as madeixas ruivas com o secador, se maquiou inteira, se vestiu e ainda ficou um tempo se avaliando no espelho e só então se declarou oficialmente pronta.

Marcela não reclamou de ficar esperando. Pelo contrário. Aproveitou para passar o tempo todo perturbando a ruiva com abraços, carícias, gracinhas e beijos.  Vivi sorria, ria, correspondia, e não tinha do que reclamar também.

 

Quando chegaram na rua da Carioca, na porta do CINE IDEAL, os “The Mitidos” em peso estavam lá. Com Carlinha no meio, óbvio.

Vivi falou baixinho, só para Marcela escutar:

- O que eles tão fazendo aqui?

- Eu chamei...

O brilho verde dardejou, parecendo um tanto quanto descontente:

- Acho que os meninos não vão gostar nem um pouco quando os caras começarem a dar em cima deles.

Marcela riu:

- Quem sabe assim o Dé sai do armário...

- Pelo menos eles sabem que é um lugar GLS?

Nesse exato momento, Vivi percebeu que Marcela, com aquele jeitinho sem noção dela, tinha esquecido de comentar esse pequeno detalhe.

Guto desistiu assim que ficou sabendo. Se despediu e foi embora. Carlinha insistiu e acabou convencendo Rafa. Estava louca de curiosidade para conhecer o mundo gay... E André... bem, André ficou sorrindo, depois puxou Marcela num canto, e cochichou alguma coisa muito boa porque... ela ficou animadíssima.

Entraram, encontraram Ana Cláudia – não foi difícil, ela estava no terraço cercada de amigos – entregaram o presente, deram parabéns e depois meio que se dispersaram.

Marcela e Vivi ficaram apreciando a vista. Linda. Incrível. Dava para ver o centro da cidade inteiro...

Não ficaram olhando por muito tempo. Começaram uma sessão de beijos cinematográficos que seria interminável se André não interrompesse bruscamente, puxando Marcela pelo braço. Falou alguma coisa para ela, que balançou a cabeça concordando, antes de dizer para Vivi:

- Vamos descer.

A pista estava lotada. Chegaram no bar e Vivi pediu uma cerveja. Estranhou muito quando Marcela e André pediram água.

Então Marcela a puxou pela mão até um canto, e a fez entender:

- Nós vamos tomar um ecstase. Eu queria muito que você tomasse também...

Vivi passou por uma montanha-russa de emoções: perplexidade, surpresa, decepção, raiva e finalmente, frieza:

- Fora de questão.

- Por favor, só dessa vez... queria tanto curtir com você... Por favor, amor...

- Você sabe que eu detesto drogas, Marcela.

- Poxa, você nunca entra na minha onda, né?

Antes que Marcela continuasse a insistir, Vivi contestou:

- E nunca vou entrar mesmo. Pra que você precisa disso? Ficar comigo não é o bastante?

Marcela passou a mão nos cabelos, olhou para cima, para os lados... Vivi já a conhecia o bastante para saber o que aquilo queria dizer: que ela estava com medo, porque sabia que a namorada não ia gostar da resposta:

- Ai, Vivi, não é isso... É que... você não entende, é muito, mas muito bom...é incrível o que você sente, parece que é tudo feito de algodão... e dá vontade de dançar a noite inteira... de tocar, de beijar...

Vivi a interrompeu, puxando Marcela pelo pescoço e aproximando os lábios dos dela:

- Não preciso tomar nada pra querer te beijar a noite inteira...

Colou a boca na dela. Sentiu que Marcela estava inquieta, desatenta. Ansiosa para terminar o beijo. Assim que os lábios se separaram, Vivi ainda pediu:

- Por favor, amor... Não toma nada... Fica comigo...

Marcela encerrou a conversa, dizendo:

- Você não entende...

- Não entendo mesmo. Nunca vou entender.

Marcela sabia que a ruiva estava magoada, chateada, mas a fissura que sentia a dominava. Só para constar, a olhou como quem pede permissão.

Vivi deu de ombros decepcionada, como quem dizer: “se não tem nada que eu possa fazer...”.

Marcela abriu um sorriso radiante e disse:

- Espera aqui, eu já volto.

Vivi esperou um bom tempo. Quase meia hora. Tomou mais duas cervejas. Mas Marcela não apareceu. Voltou ao terraço, encontrou Carlinha e Rafa se agarrando num canto. Só não ficou sem graça em interromper porque já estava meio alta:

- Vocês viram a Marcela?

- Ué, ela não tá com você? Vivi, você tá bêbada?

Vivi negou, mas Carlinha conhecia a amiga muito bem. Sabia que a ruiva estava, no mínimo, alterada. Ana Cláudia, que estava prestando atenção nelas, se aproximou, preocupada:

- Vivi, tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

- Não, nada. Tudo certo.

Respondeu, antes de descer. Pegou mais uma cerveja no bar, olhou em volta, e nada de Marcela.

Vivi nunca tinha passado por uma situação como aquela. Ter que ficar rodando na boate apinhada de gente, procurando a namorada, morrendo de medo de descobrir o que ela estava fazendo.

Foi quando a viu. Toda suada, dançando no meio da galera. Os cabelos chegavam a estar molhados. Tinha tirado a camiseta e estava só de top. Com uma garrafa de água na mão e André dançando sem camisa coladinho nela.

A raiva de Vivi foi tão grande, mas tão grande, que teve que fazer Nam Myoho Rengue Kyo mentalmente várias vezes.

Foi driblando as milhares de pessoas, levando algumas cotoveladas e esbarrões, até conseguir chegar onde ela estava.

Parou na frente de Marcela, que recebeu Vivi com um enorme sorriso, e uma pegada e um beijo intensos. Fazendo Vivi amolecer completamente.

As mãos de Marcela a agarraram e acariciaram com desejo. Beijou o pescoço da ruiva, mordeu a orelha, disse no ouvido dela:

- Você já é um tesão, Vivi... Hoje então...

E voltou a colar os lábios nos de Vivi vorazmente.

Não é à toa que chamam o ecstase de “droga do amor”. Marcela estava com a sensualidade à flor da pele. Deliciosa, sedutora, intensa...

Para Vivi nada que já não fosse antes. A única diferença era o desequilíbrio evidente:

- Ai, amor... Tô derretendo...  

E derramou a garrafa de água inteira na cabeça, ficando totalmente molhada. Sacudiu os cabelos sensualmente, antes de puxar a ruiva, dizendo:

- Dança comigo... Vem...

Vivi tentou acompanhar Marcela naquilo que ela chamou de dançar, mas que na verdade, nada mais era do que se esfregar em Vivi sem o menor constrangimento.

André colou atrás de Marcela e ficou se roçando nela também. Deixando Vivi muito, mas muito incomodada mesmo.

Foi quando um loiro todo sorridente se aproximou e começou a dançar atrás de André, que sussurrou para Marcela:

- Me salva...

Marcela riu, e respondeu:

- Se vira, viado!

Mas André insistiu. Tão desesperado, que Marcela cedeu. Falou para Vivi:

- Só um minutinho... Vou socorrer o Dé...

Virou de frente para André, e começou a se agarrar com o amigo. Deixando Vivi de lado. Ainda ouviu Marcela falar para o tal loiro:

- Desculpa, amigo, mas... Ele tá comigo...

Essa foi a gota d’água. Vivi ficou completamente irada. Virou o resto da cerveja de uma só vez. E começou a dançar. De uma forma absolutamente surpreendente. O que estava tocando? “Hips don’t Lie” (Shakira/Wyclef Jean).

Marcela nunca tinha visto Vivi dançando de verdade. Todas as vezes que saíam, a ruiva ficava contida, sem se soltar.

Na verdade Vivi detestava se mostrar. Mas naquele momento, mandou toda e qualquer espécie de timidez para o espaço. Deu um verdadeiro show, fazendo as pessoas em volta pararem para admirar.

A primeira reação de Marcela foi  apenas olhar. Absolutamente perplexa. Vivi dançava muito. Bem demais. Realmente chamava a atenção.

Lentamente, como se estivesse hipnotizada, Marcela largou André e foi se aproximando. Os olhos verdes cintilaram. Começaram a dançar juntas. Marcela absolutamente encantada, seduzida, enfeitiçada...

Então Marcela começou a agarrar a ruiva de uma forma nada comportada. Vivi se defendeu como pode, mas Marcela foi empurrando, levando a namorada para um canto, e a situação  ficou fora de controle.

Marcela pressionou Vivi contra a parede com o corpo. A língua invadiu a boca de uma forma absolutamente faminta, o piercing causando arrepios na ruiva. Com uma das mãos tocou, acariciou, apertou um dos seios por cima do vestido. Com a outra percorreu a coxa por baixo da saia e a tocou por dentro da calcinha, dizendo:

- Tão gostosa... Dá pra mim, dá...

A resposta de Vivi foi difícil, porque ela ofegava:

- Vamos pro banheiro...

Mas Marcela ignorou totalmente os protestos dela:

- Não... Quero aqui... Agora...

E a penetrou com os dedos, sem esperar resposta. Vivi gemeu, e não teve forças para recusar, muito menos para a afastar. Se agarrou nos ombros de Marcela, enfiou a mão na nuca dela, e se rendeu completamente aos beijos, movimentos e desejos ardentes dela.

Quando Marcela segurou e ergueu um pouco uma das pernas da ruiva, facilitando, tornando o contato mais profundo e intenso, Vivi voltou a gemer. No ouvido dela, várias e várias vezes.

Marcela a beijava com uma voracidade extrema. Às vezes parava para sussurrar que Vivi era deliciosa, que queria comer ela inteira, que estava morrendo de tesão, coisas do gênero...

Não demorou muito para que o corpo de Vivi se contraísse, e ela estremecesse. Marcela gemeu e gozou junto com ela, a entrega da ruiva a enlouquecendo.

Vivi abafou um último gemido contra o pescoço de Marcela. Demorou alguns instantes para se recuperar, afastar o rosto da pele quente, do cheiro de suor delicioso e abrir os olhos.

A primeira coisa que viu a fez gelar por dentro. André, parado a alguns metros de distância, olhando com um brilho nos olhos que chegava a dar medo. Um ódio intenso misturado com um desejo pérfido, doente. Então, os olhos encontraram os verdes, e ele rapidamente desapareceu.

Marcela soltou a perna de Vivi, endireitou a saia dela, a beijou no pescoço languidamente, dizendo:

- Ai, linda... Você é tudo de bom... Te amo, minha delícia...

Voltou a colar os lábios nos dela, e a invadir a boca da ruiva com a língua sedenta. E Vivi se esqueceu de André completamente.

 

Quando voltaram para a pista, Vivi estava morta de vergonha. Constrangida, porque apesar das pessoas não poderem ver muita coisa - Marcela se manteve o tempo inteiro na frente – com certeza alguém devia ter percebido o que tinha acontecido naquele canto.

Marcela voltou a dançar incansavelmente. Rafa e Carlinha se aproximaram, e Vivi ficou aliviada por não terem chegado ali alguns momentos mais cedo. A pedido da ruiva, Rafa foi até o bar e voltou com uma água.

Vivi deu um gole e estendeu a garrafa para Marcela, que bebeu como se estivesse seca por dentro. Agradeceu Vivi, dizendo:

- Tenho a melhor namorada do mundo inteiro...

Com lágrimas de felicidade nos olhos. Beijou Vivi de um jeito emocionado, doce, meigo.

André voltou a aparecer, e evitando olhar para Vivi diretamente, disse:

- Não tô me sentindo bem..

Rafa se ofereceu:

- Quer que eu te leve no banheiro?

Mas Marcela o cortou imediatamente:

- Deixa que eu levo. Também preciso ir. Toma conta das meninas.

E saiu arrastando André. Deixando Vivi muito insatisfeita.

Assim que chegaram na porta do banheiro, Marcela disse:

- O primeiro a sair espera aqui, ok?

André concordou, e nem entrou. Ficou na porta observando Marcela entrar no banheiro feminino, querendo ver o que já sabia que ia acontecer.

 

Quando Marcela entrou no banheiro, deu de cara com Gisele. A loira não conversou. Colou a boca na de Marcela e a puxou para um dos reservados. A cabeça de Marcela parecia não funcionar. A música “Out of Control” (The Chemical Brothers) ecoando abafada dentro do banheiro só ajudava. Nem resistiu. Se deixou levar. Mergulhou de cabeça no exagero irresistível dos sentidos que o ecstase proporcionava.

 

Vivi estava visivelmente preocupada. Carlinha se desculpou com Rafa para conversar com ela um minuto à parte:

- Que foi?

Nem o fato de estar um pouco bêbada conseguia deixar Vivi menos tensa:

- Eles tão demorando muito...

Carlinha tentou acalmar a amiga:

- Ai, Vivi, não viaja... Você acha mesmo que a Marcela e o André...

- Não, claro que não. Mas tô com um mau pressentimento, sei lá...

Vivi passou a mão nos cabelos, jogando as mechas ruivas para trás. Carlinha pensou e resolveu dizer:

- Ué, então vai lá.

- Você acha?

A  voz da ruiva era pura ansiedade. Não achava certo desconfiar da namorada. Mas também não agüentava mais a dúvida. Carlinha deu mais força para a amiga:

- Porque não? Se a Marcela pode ter ataques de ciúme à vontade, você também pode ir lá ver o que ela tá fazendo, como quem não quer nada...

Vivi soltou um suspiro exasperado.

Sabe aquela cena clímax de filme, quando alguém tem que escolher qual fio cortar: um detona a bomba, e o outro salva a pátria? Pois é... Namorar com Marcela era exatamente isso. Só que o tempo inteiro, várias vezes sem parar...

- Você tá certa. Eu vou lá.

E caminhou em direção ao banheiro.

 

- Isso... Me come, gatinha... Ai, assim...

Gisele puxava os cabelos de Marcela com força, e a beijava como se a quisesse engolir. Marcela se sentiu queimar e arder de um jeito insano.

Penetrou a loira com mais força. Abriu a blusa dela de uma vez só, arrancando alguns botões. Gisele gemia sem parar.

Marcela grudou a boca nos seios que se ofereciam, de uma forma quase bruta. Depois desceu as calças e a calcinha e mergulhou com vontade no sexo dela. Lambeu e chupou, sem parar o movimento dos dedos. Sem delicadeza, amor, cuidado, nem ternura. Sexo apenas. Puro e cru.

Nem percebeu quando Gisele destrancou e deixou a porta entreaberta.

 

André continuava parado perto dos banheiros. Vivi não percebeu, mas ele viu quando a ruiva entrou. Deu um sorriso enorme de satisfação, e esperou.

 

Assim que entrou no banheiro, Vivi ouviu um barulho inconfundível. Uma das vozes era de Marcela. Gelou. Teve que respirar fundo para se aproximar da visão que sabia que não queria ter. Mas precisava saber, impossível evitar ou fugir.

Precisou de toda a coragem que tinha para dar aqueles poucos passos que a separavam do reservado.

A porta não estava nem fechada. Ela pode ver tudo perfeitamente. Marcela ajoelhada, com os dedos e o rosto mergulhados na loira praticamente nua, as duas gemendo alto...

Ficou paralisada. Em estado de choque mesmo. A loira olhou para ela e sorriu. Depois puxou Marcela pelos cabelos e a fez olhar também. Quando os olhos negros encontraram os verdes, Vivi se virou... e saiu do banheiro correndo.

 

 

Capítulo 23: Depois da Queda...

André observou escondido quando Vivi passou correndo e chorando. Um pouco depois, Marcela apareceu. Ele a deteve, perguntando como se não estivesse entendendo nada:

- Que foi? Que aconteceu?

Marcela nem conseguia falar direito de tanto desespero:

- A Vivi... ela me viu com a Gisele... Puta merda! Pra onde ela foi?

André apontou na direção certa. Marcela saiu correndo para onde ele indicou.

Logo depois, Gisele saiu do banheiro, toda sorridente. Retocou o batom, olhou André com cumplicidade, e disse:

- Obrigado pela força, queridinho...

Ao que ele respondeu:

- Obrigado pelo ecstase...

E os dois ficaram ali rindo juntos, com uma sensação de objetivo cumprido.

 

Vivi estava completamente transtornada. Passou correndo por Carlinha, Rafa e Ana Cláudia sem ver. Também não ouviu quando eles a chamaram. Saiu porta afora, sem conseguir raciocinar nem enxergar direito. Só parou quando chegou na rua. A dor que sentia era quase insuportável.

Sentiu o estômago embrulhar. O corpo reagiu, rejeitando completamente o que tinha acontecido. Com uma das mãos se apoiou na parede, e foi inevitável: começou a vomitar.

Ouviu as vozes de Carlinha e Ana Cláudia, preocupadíssimas. As amigas a ampararam e ajudaram. Rafa ficou observando um pouco de longe, meio sem graça.

Vivi nem notou quando Marcela apareceu. Ainda estava com o corpo dobrado, no meio de um último espasmo.

Mesmo depois de terminar, Vivi continuou abaixada. Tentando respirar, sufocada pelas lágrimas que não conseguiam trazer alívio, a boca com um gosto horrível, e não querendo ter que explicar nada para as amigas...

Carlinha a sustentava pela cintura e Ana Cláudia segurava os cabelos vermelhos.  As duas assustadíssimas.

O coração de Marcela ficou apertado, mas não teve coragem de se aproximar.

Quando Vivi se ergueu, com dificuldade, teria caído na calçada se Carlinha não a ajudasse.

Inconscientemente, Marcela avançou na direção dela, as mãos estendidas como se a fosse segurar. Foi então que a ruiva a viu.

Os olhos verdes a fuzilaram. Cheios de um ódio intenso. Vivi não gritou, cuspiu as palavras:

- Nem pense em me  tocar! Sabe quando você vai voltar a encostar em mim? Nunca! Fica longe! Você é podre! Tenho nojo de você!

E desabou. Chorando, aos prantos, agarrada em Carlinha, o rosto escondido no ombro da amiga.

Marcela ainda gaguejou:

- Vivi, por favor... Vivi, me escuta...

Mas Vivi manteve os olhos fechados, e tapou os ouvidos, pedindo baixinho, num tom sofrido, quase de súplica:

- Não... Eu não quero saber... Não quero ouvir... Carlinha, me tira daqui... Não deixa ela chegar perto de mim...

Carlinha foi levando Vivi, seguida por Ana Cláudia e Rafa. Os três nem olharam para Marcela. Não sabiam o que tinha acontecido, mas para Vivi reagir daquele jeito, com certeza algo muito grave.

Marcela ficou parada sozinha, vendo eles se afastarem. Como um pesadelo que se tornasse realidade. As coisas que Vivi tinha dito ecoando no ouvido...

E o pior é que ela estava certa. Era tudo verdade. Naquele momento, Marcela se sentia - sabia que era - podre, nojenta, absolutamente indigna de Vivi.

Escondeu o rosto entre as mãos, e começou a chorar. Sentiu alguém a envolver com os braços. Alguém conhecido demais, que estava sempre ao lado dela nos momentos difíceis, pronto para ajudar.

O abraçou de volta, escondeu o rosto no peito dele, e chorou até a camisa do amigo ficar toda molhada. Aos poucos foi se acalmando, e até tentou esboçar um sorriso triste, quando disse:

- Ai, Dé... Só você pra me aturar...

André acariciou os cabelos dela, enxugou as lágrimas de Marcela com os dedos e a beijou no rosto, dizendo:

- Vem, minha maluquinha... Vou te levar pra casa.

 

O único som no carro de Rafa eram os soluços de Vivi. Ninguém teve coragem de dizer nada.

Ana Cláudia abraçada com a ruiva no banco de trás. Carlinha virada de costas no banco da frente, segurando a mão da amiga como quem diz: “tô aqui”.

Rafa se limitou a dirigir, com os olhos muito arregalados, sem nem de olhar para os lados.

 

Dona Lúcia acordou assustada. Vivi ia dormir na casa de Marcela, não era para ela voltar para casa. Mas ouviu barulho vindo do quarto dela.

Viu a filha sentada na cama, chorando com as mãos no rosto, toda encolhida. Do lado, com um braço em volta dela, uma morena que não conhecia. E Carlinha, ajoelhada no chão, acariciando e tentando consolar a amiga.

Dona Lúcia se aproximou, sentou na cama, do lado da filha, e a abraçou. Vivi se agarrou a ela, chorando de um jeito que a mãe nunca tinha visto.

Acariciou os cabelos vermelhos, e com uma voz ainda mais doce do que a que sempre tinha, disse:

- Que foi, filha? Que houve?

Sem conseguir parar de soluçar, Vivi só murmurou alguns sons desconexos. Dona Lúcia perguntou para Carlinha:

- Que aconteceu?

A única coisa que Carlinha sabia era:

- A Marcela fez alguma coisa... Deve ter sido sério, tia, porque a Vivi saiu correndo da boate e até passou mal...

- Melhor vocês irem. Já é tarde. Vocês têm como voltar?

Carlinha respondeu que Rafa estava esperando no carro lá embaixo. Só então lembrou de apresentar Ana Cláudia, que estava como Carlinha: absolutamente preocupada.

Dona Lúcia percebeu e as acalmou. Depois pediu:

- Por favor, quando vocês saírem, batam a porta.

As duas concordaram, se despediram e deixaram as duas sozinhas no quarto.

- Ah, Vivi... Esse é aquele momento pro qual tentei me preparar a vida inteira... De olhar pro sofrimento da minha própria filha e aceitar que faz parte da vida... O que quer que tenha acontecido, não importa... Você é muito mais forte... Sabe que toda dificuldade é uma oportunidade de crescer, de se fortalecer... Uma oportunidade que tenho certeza, você vai saber aproveitar, filha...

Vivi balançou a cabeça, concordando. Acreditava e concordava com tudo que a mãe tinha dito. Mas aquele era um daqueles momentos onde não existe lugar para a razão. Desabafou ainda chorando, o nariz completamente entupido:

- Eu sei... Só que agora... tá doendo... doendo muito, mamãe... doendo demais...

Voltou a soluçar. Dona Lúcia a abraçou, beijou, a fez trocar de roupa e se deitar. Acariciou os cabelos da filha, até ela adormecer. Depois ficou velando o sono de Vivi, pensativa. Quando voltou para o próprio quarto, o dia já tinha amanhecido.

 

Na verdade foi Marcela quem levou André em casa, porque ele estava sem carro. Apesar da insistência quase irritante dele, se recusou a subir.

Voltou para o próprio apartamento, ficou andando de um lado para o outro na sala, sem conseguir ficar parada, como um bicho enjaulado.

Bebeu litros de água. Sentia uma sede incontrolável, interminável. E uma dor profunda.

Não conseguia pensar direito, o corpo parecia em erupção.

Colocou um CD. O som altíssimo -  Snow Patrol: “Hands Open” – enccheu a sala.

Com uma necessidade absolutamente física de se movimentar, começou  a dançar. Agressivamente. Numa espécie de transe. Pulando, batendo o pé no chão, batendo com as mãos nas paredes, sacudindo a cabeça como louca. Cantando alto, junto com a música:

 

“It's hard to argue when you won't stop making sense

difícil discutir quando você não para de pensar em fazer sentido)
But my tongue still misbehaves and it keeps digging my own grave with my

(Mas a minha lingual continua a se comportar mal e continua a cavar a minha própria cova com as minhas)
Hands open, and my eyes open

(Mãos abertas, e os meus olhos abertos)
I just keep hoping that your heart opens

(E continuo com a esperança de que o seu coração se abra)
Why would I sabotage the best thing that I have

(Por que eu sabotaria a melhor coisa que eu tenho?)
Well, it makes it easier to know exactly what I want with my...

(Bem, isso faz com que seja mais fácil saber exatamente o que eu quero com minhas...)
Hands open and my eyes open

(Mãos abertas, e os meus olhos abertos)
I just keep hoping that your heart opens

(E continuo com a esperança de que o seu coração se abra)
It's not as easy as willing it all to be right

(Tudo dar certo - não é tão fácil quanto desejar)
Gotta be more than hoping it's right

(É necessário mais do que esperar que seja certo)
I wanna hear you laugh like you really mean it

(Eu quero ouvir você rir com vontade/de verdade)

Collapse into me, tired with joy

(Colapse em mim, cansado de alegria)
Put Sufjan Stevens on and we'll play your favorite song

(Coloque Sufjan Stevens e nós tocaremos a sua música preferida)
"Chicago" bursts to life and your sweet smile remembers you, my

(“Chicago” explode em vida e o seu doce sorriso lembra você, minhas)
Hands open, and my eyes open

(Mãos abertas, e os meus olhos abertos)
I just keep hoping that your heart opens

(E continuo com a esperança de que o seu coração se abra)
It's not as easy as willing it all to be right

(Tudo dar certo - não é tão fácil quanto desejar)
Gotta be more than hoping it's right  

(É necessário mais do que esperar que seja certo)
I wanna hear you laugh like you really mean it

(Eu quero ouvir você rir de verdade)
Collapse into me, tired with joy.”

(Colapse em mim, cansado de alegria)
(“Hands Open” - Snow Patrol)

 

O vizinho do lado esmurrou a parede de volta. Gritou:

- Pelo amor de Deus! Sabe que horas são?

A mesma coisa o de baixo. Marcela mandou os dois para aquele lugar. O interfone tocou várias vezes. A campainha também. Começaram a bater na porta. As batidas se tornando cada vez mais fortes.

Ela caminhou até a porta, toda suada, os cabelos molhados, e a abriu com o jeito beligerante de quem está pedindo para brigar.

Sem dizer uma palavra, o homem empurrou Marcela com tanta força que ela caiu no chão, batendo na parede com as costas. Depois trancou a porta e desligou o  som.

- Pai?

Foi só o que Marcela falou. Ele a olhou de cima abaixo, com total e absoluta vergonha, asco e reprovação, antes de dizer:

- A síndica me liga no meio da noite, pedindo pra eu dar um jeito na minha filha, que está – segundo as palavras dela: drogada, bêbada e louca. E não podemos processar a mulher por calúnia, difamação, nem injúria, não é mesmo? Porque como alguém pode praticar um crime contra a honra de uma pessoa que não tem nenhuma?

A última frase soou muito enervada, alterada. A primeira reação de Marcela foi se encolher. Mas depois ela respirou fundo e levantou, com a atitude debochada e displicente que usava como defesa:

- Nada que o seu dinheiro não resolva, meu tão generoso papaizinho... Como você mesmo me ensinou: “Money makes the world go around” ou “Fortuna Imperatrix Mundi”…

O pai chegou perto dela, aspirou como quem tenta sentir algum cheiro, e falou:

- Bom, se você não bebeu, tá só drogada então...

Marcela deu uma gargalhada, e respondeu, com uma reverência:

- Só posso me curvar perante tamanha inteligência...

Conseguiu o que queria: a raiva que fez o pai a empurrar novamente. Dessa vez ela caiu sentada no sofá, com um sorriso masoquista de quem estava adorando.

- Quanto mais o tempo passa, pior você fica. Não tenho mais paciência pra te aturar, Marcela...

- Nunca teve...

Evitou olhar para ele. Não ia deixar que o pai visse a mágoa que sentiu quando disse aquilo. Se controlou e voltou a abrir um sorriso cínico, de puro desafio. Ele continuou:

- Você devia agradecer a sua mãe. Se não fosse por ela, eu já tinha te internado há muito tempo. E pode ir tirando esse sorrisinho do rosto. Você já ultrapassou todos os limites. De hoje em diante vai ser assim: vou continuar pagando seu condomínio e todas as contas do apartamento. Sua mãe vai continuar fazendo compras e enchendo a sua geladeira de comida. Mas vou cancelar todos os seus cartões de crédito e... nada de mesada. Cansei de te dar dinheiro pra você se autodestruir.

Marcela se levantou num pulo. Achando um absurdo, não acreditando no que estava ouvindo. Contestou:

- Mas... sem dinheiro, como eu vou colocar gasolina? Como eu vou...

- Se vira! Quer dinheiro? Arrume um estágio, um emprego. Como todas as pessoas fazem. Com o sobrenome que você tem, todos os escritórios de advocacia do Rio de Janeiro vão estar de portas abertas... Vai ser fácil pra você.

Visivelmente alterada, ela quase gritou, com o dedo na cara do pai:

- Isso é absurdo! Eu vou... eu vou...

- Vai o que? Me processar?

E riu gostosamente. Marcela choramingou:

- Vou falar com a minha mãe!

Chegou a pegar o telefone. O pai tinha uma expressão vitoriosa ao dizer:

- Sua mãe já sabe. E concorda comigo. Inclusive acha que já deveríamos ter feito isso há muito mais tempo. Com certeza teria nos poupado de várias situações lamentáveis como essa. Vou botar juízo na sua cabeça, Marcela, de uma forma ou de outra. Por enquanto ainda estou sendo bonzinho. Aproveite! Porque pode ficar pior. Pense nisso.

Marcela passou a mão nos cabelos, quase em desespero:

- Pior? Como pode ficar pior do que isso?

- Posso vender esse apartamento, por exemplo.

Ela riu. O pai só podia estar blefando:

- Você não teria coragem de me deixar na rua!

- Não. Você voltaria a morar comigo e com a sua mãe.

Para Marcela aquilo não era pior. Era o fim. Só de pensar sentiu um arrepio. Como se estivesse assistindo a um filme de terror.

- Sem chance... Você não vai me querer na sua casa novamente...

Ela afirmou, certa de que o pai não teria coragem. Mas ele continuou sorrindo, deixando claro que estava disposto a ir até o fim:

- Se for preciso...

Marcela deixou escapar um grito. Um misto de raiva, desespero e contrariedade. O pai ignorou:

- Estamos entendidos?

E ela não teve outra saída. Concordou com a cabeça, sem olhar para ele. Assim que o pai saiu, se atirou no sofá, com as mãos no rosto. Sentindo que bastava uma única noite para que a vida dela inteira ruísse...

 

Quando dona Lúcia acordou no dia seguinte, já encontrou Vivi na frente do oratório, fazendo daimoku. Deu um beijo na filha, e achou que ela estava quente. Mas não quis interromper.

Estava tomando café na cozinha quando a ouviu fazer daimoku sansho. Assim que Vivi entrou pela porta viu que a filha não estava se sentindo bem.

- Tô morrendo de dor de cabeça... Já tomei uma aspirina, mas não passou...

A mãe pegou na testa e no pescoço dela. Vivi estava ardendo em febre. Com o surto de dengue que estava na cidade, não hesitou:

- Troca de roupa. Vou te levar no médico.

Vivi protestou:

- Que exagero... É só uma virose...

Mas dona Lúcia preferia ficar tranqüila, ter certeza de que não era nada:

- Filha, melhor prevenir do que remediar, né? Todo cuidado é pouco...

 

Vivi tinha razão: era apenas uma virose. Mas afinal de contas, virose é o que? É quando você vai no médico e ele não sabe explicar o que você tem direito, daí ele diz: virose! Não é mesmo?

Pois o que Vivi tinha, era uma dessas coisas inexplicáveis... Não estava com dor de garganta, nariz entupido, tosse, nada. Apenas uma febre que não cedia, sem um motivo razoável.

Na verdade, o motivo estava dentro dela. E o corpo é sábio. Ajuda mesmo quando a gente não sabe. Graças a essa doença misteriosa, passou 5 dias em casa. Praticamente isolada.

Sem acessar Internet, sem atender telefone, com o celular desligado. Só falou com Ana Cláudia e Carlinha rapidamente, quando elas ligaram preocupadas. Dormiu quase o tempo todo. Estava – como eu posso dizer? – com a alma cansada...

Quando não estava dormindo fazia daimoku. Como não agüentava ficar muito tempo sentada, fazia deitada na cama mesmo, olhando para o teto, concentrada. E aos poucos foi recarregando as energias, se fortalecendo para o momento inevitável: encontrar Marcela na faculdade.

 

Marcela tentou falar com Vivi o domingo inteiro. Sem resultado. O celular dela estava desligado. Mandou vários e-mails, mas depois do que tinha feito, não teve coragem de ligar para a casa dela.

Esperou pela 2ª feira ansiosa. Mas Vivi não apareceu. Estranho, porque... Vivi nunca faltava. No fim das aulas se aproximou de Carlinha, muito sem jeito:

- Oi...

Carlinha, como Marcela já esperava, foi seca e fria:

- Oi.

Mas Marcela estava inquieta:

- Por que a Vivi não veio? Fiquei preocupada...

Por mais que Carlinha estivesse chateada com Marcela, viu que ela estava sendo sincera. Por isso, e só por isso respondeu:

- Ela tá doente.

- Nada grave, né?

Marcela disse apressada, nervosa mesmo. Carlinha manteve o mesmo tom - completamente oposto do normal dela - nada simpático:

- Uma virose, parece. Mas acho que a doença dela tem um nome, sabe qual?

Marcela fez que não com a cabeça. Carlinha completou:

- Decepção. Coisa que ela não merecia. Preciso ser mais clara?

Os olhos de Marcela se encheram de lágrimas. Carlinha, que não esperava – nunca tinha visto nenhuma demonstração de sensibilidade dela – se arrependeu por ter sido tão dura. Mas não disse nada.

Marcela falou com dificuldade, entre as lágrimas que já escorriam:

- Juro que eu não queria... Preferia me matar antes de fazer a Vivi sofrer... Mas eu... ah, eu não valho nada mesmo...

Virou, deu dois passos, depois olhou para Carlinha novamente:

- Diz pra ela que... não, não diz nada...

E se afastou, as lágrimas escorrendo profusamente. Andando rápido, quase correndo. Como se ao fugir da própria sombra pudesse se livrar de si mesma.

 

Vivi só voltou para a faculdade na 6ª feira. Só não estava mais tensa porque estava cercada pelas amigas. Carlinha e Ana Cláudia, uma de cada lado.

Entrou na sala, se sentou na primeira fileira. Fazendo um esforço incrível para não olhar para trás. Sabia que Marcela estava sentada no fundo. Tinha percebido no momento em que entrou na sala.

Ana Cláudia se despediu e foi para a aula dela. Carlinha percebeu o estado em que a amiga estava. Apertou a mão dela, e disse:

- Força!

Vivi sorriu. A amiga podia não ser budista, mas era como se fosse. Iluminada ela. Bodhisattva, dona Lúcia diria... (do sânscrito: bodhi = sabedoria / sattva = ser). Acabou com a ansiedade de Vivi com uma única palavra.

Passou a aula toda concentrada, apesar de sentir os olhos negros grudados nas costas dela, quentes como dois ferros em brasa.

 

Marcela quase se levantou quando Vivi entrou na sala. Ela estava mais magra. Um pouco abatida, na verdade. Isso apenas acentuava o efeito de labareda dos olhos verdes. Duas chamas. Que se desviaram de Marcela rapidamente, com uma expressão de indiferença tão grande, que Marcela se sentiu morrer um pouquinho por dentro.

Ela se sentou na frente, no lugar de sempre. Com Carlinha, a fiel escudeira, do lado. A morena que fazia estágio com Vivi também estava. Ficou conversando um pouco, e depois saiu da sala. A aula começou, mas Marcela não via nem escutava. Só conseguia manter os olhos negros grudados nas madeixas vermelhas com todo o remorso e culpa que tinha acumulados.

 

Podia ter se aproximado de Vivi no intervalo. Mas não teve coragem. Ficou se xingando mentalmente: “Fraca!”, “Imbecil!”, “Covarde!”

Foi só quando as aulas terminaram - e se viu incapaz de esperar atée; 2ª feira para voltar a ter uma oportunidade – que finalmente se aproximou dela.

Vivi parecia quase contente – rindo enquanto caminhava entre Carlinha e Ana Cláudia. Marcela a chamou, um grito meio desesperado:

- Vivi!

Ela parou e se virou, jogando o cabelo vermelho com o movimento. Os olhos verdes encontraram os negros - dois cubos de gelo.

Marcela se aproximou com uma sensação de irrealidade – não, ela não tinha bebido, fumado, nem tomado nada, foi só uma estranha sensação mesmo – como se aquilo fosse um sonho ou pesadelo. Ainda não estava claro.

Não soube como conseguiu, frente a frente com as duas geleiras verdes, abrir a boca e dizer:

- Queria muito falar com você...

Como se Marcela não existisse, as amigas se ofereceram para ficar com Vivi. Mas a ruiva agradeceu, com um sorriso meigo:

- Preciso esclarecer algumas coisas com ela. A sós.

Carlinha e Ana Cláudia se afastaram, dizendo que iam esperar no estacionamento. O sorriso que Vivi deu para elas imediatamente se desfez quando voltou a olhar para Marcela:

- Já que você queria tanto falar, pode começar você.

Capítulo 24: Seus Olhos...

Quando um ator em cena esquece o texto, a gente diz que “deu branco”. Na vida real não sei como se chama. Mas foi o que Marcela teve naquele instante.

Ficou ali parada, se deixando congelar pelo olhar de Vivi. A ruiva estava visivelmente impaciente quando disse:

- E então?

A voz de Vivi trouxe Marcela de volta à realidade. Que era muito difícil na verdade, porque... Não tinha a menor idéia do que falar. Ou melhor: não tinha nada que pudesse dizer.

Vivi completou como se lesse os pensamentos dela:

- Bom, então falo eu.

E disparou, de uma forma fria, distante, que chocou Marcela:

- Quero saber como vamos fazer, porque tem várias coisas minhas na sua casa, e eu quero de volta. Se você puder deixar na sua portaria eu pego. E deixo as suas coisas que tão comigo. Pode ser?

Marcela balbuciou:

- Não... eu deixo na sua portaria...

- Quando?

Para Marcela era como falar com uma atendente de telemarketing: impessoal ao extremo, seguindo o script da empresa. Respondeu:

- Hoje mesmo.

- Tá.

Vivi concordou e completou:

- Outra coisa: o que aconteceu naquele dia, eu não contei pra ninguém. Nem vou contar.

Marcela esboçou um sorriso:

- Obrigada...

Que Vivi desmanchou com uma única frase:

- Não fiz por você. Fiz por mim. Pra me preservar. Espero que você faça o mesmo.

Com uma certa vergonha, Marcela confessou:

- O André sabe...

Vivi deixou escapar um risinho sarcástico:

- Claro que o André sabe... Ele é a sua cara metade. Vocês se merecem, são o par perfeito, não é verdade?

Então de repente, do nada, de forma inexplicável, Marcela teve uma súbita vontade de explicar:

- Vivi, o que aconteceu naquela noite...

Mas Vivi a cortou, ríspida:

- O que aconteceu naquela noite dispensa palavras. Não vamos nem comentar.

Marcela abaixou a cabeça. Enxugou algumas lágrimas. Vivi nem esperou ela se recuperar:

- Uma última coisa... Na verdade é um favor que eu quero te pedir.

Marcela levantou a cabeça, com uma pequena esperança. A voz de Vivi tinha soado quase suave. Mas as esmeraldas continuavam um freezer quando os olhos se encontraram.

A ruiva continuou:

- Se você pudesse não ir nas reuniões da minha comunidade... não quero que você pare de ir, mas... sua presença me incomoda. E as reuniões da minha irmã são bem mais perto da sua casa. Se você não quiser mudar eu entendo, e... mudo eu então.

Impossível descrever o que Marcela sentiu naquele momento. Ficou claro que não tinha mais nenhuma chance. Vivi estava determinada a se afastar completamente. Sem medir esforços.

Sabia como seria difícil para Vivi, porque ela teria que abrir mão de ser  uma das responsáveis pela comunidade. Marcela jamais a obrigaria a fazer isso. Com uma dor profunda concordou:

- Não... Eu... Mudo eu então.

Vivi agradeceu. Sem esconder o alívio. E se despediu, dizendo:

- Vou indo...

Deu as costas e foi embora sem olhar para trás. Deixando Marcela estática. A imobilidade exterior inversamente contrária ao ritmo holocáustico que tinha por dentro.

Ficou trêmula, com falta de ar, o estômago doendo. Se apoiou na parede atrás dela vendo tudo girar. O coração disparado no peito. Escorregou para o chão,  abraçando a cabeça entre os joelhos. Sentada no meio dos livros e papéis que sem perceber tinha soltado.

Até finalmente, depois de muito tempo voltar ao normal e conseguir se levantar.

 

Para Vivi, aquele primeiro mês passou muito mais rápido do que ela esperava. Porém, não tão rápido quanto ela precisava.

É muito estranho amar tanto uma pessoa, olhar para ela e saber que não tem volta. Como se a vida ficasse sufocada dentro do peito, como se cordas invisíveis lhe controlassem os movimentos.

E então Vivi se perguntava: “e agora?” - cada vez que passava por Marcela, a cumprimentava como se mal a conhecesse e então ia embora.

Uma espécie de dor o tempo inteiro. Com a qual era possível conviver, mas que incomodava. Com uma persistência e constância que pouco a pouco a devoravam.                                

Se não fossem Carlinha e Ana Cláudia, não tinha idéia de como seria. As amigas ficavam sempre do lado dela, meio anjos da guarda, meio escudos protetores.

Fora da faculdade, ficou difícil sair com Carlinha, não por ela ser hetero, mas  porque... Carlinha namorava Rafa e Rafa era amigo de Marcela.

O natural foi passar a sair com Ana Cláudia. Adorava a companhia dela. Eram muito parecidas, gostavam das mesmas coisas e lugares. Se tornaram tão inseparáveis, que as pessoas pensavam que eram namoradas.

Vivi até sentia que existia um interesse – velado, nunca declarado - por parte da morena, mas a última coisa que queria naquele momento era um novo relacionamento.

 

Para Marcela, a vida se tornou quase insuportável. Pela manhã, a tortura de só poder admirar Vivi de longe na faculdade.

Passava as aulas inteiras olhando para as costas dela, os cabelos ruivos... Prestando atenção em cada cruzada de pernas, cada mão no queixo, na caneta, na nuca... Cada vez que ela se esticava e estalava as costas... Como se colecionasse cada movimento com os olhos. Apesar do terrível sofrimento que aquilo causava.

À tarde, era como descer ao inferno depois de ter vendido a alma. Se tornou estagiária no escritório de um amigo do pai. Detestava. Principalmente a parte das roupas sociais que era obrigada a usar.

Tirou as mechas azuis do cabelo – ele agora estava todo preto. Mas continuava indo para a faculdade toda largada, nunca ia deixar que todos a vissem vestida daquele jeito.

Não entendam mal, não que as roupas escolhidas pela mãe de Marcela fossem de mau gosto ou feias. Mas eram exatamente o contrário de tudo que Marcela pensava e gostava. Passava a tarde inteira se sentindo ridícula, morrendo de vergonha, rezando para que nenhum conhecido a encontrasse.

Para compensar, mergulhou de cabeça na doideira. Tentando se consolar inutilmente com todo e qualquer tipo de bebida, drogas e... Gisele.

Parecia que a loira adivinhava. Sempre que Marcela estava muito bêbada ou drogada, ligava ou aparecia. E Marcela se entregava.

No dia seguinte, se sentia péssima. Podre e nojenta. Exatamente como Vivi tinha falado.

Chorava, sabendo perfeitamente que para ela, querer a ruiva era como desejar a lua:  completamente inatingível, inalcançável. Não era boa o bastante. Isso era fato consumado. Sentença transitada em julgado. Sem apelação. Porque para ela não existia qualquer tipo de defesa. O que tinha feito era totalmente sem perdão. Indesculpável.

 

Numa dessas tardes de incessante sofrimento, Marcela estava no fórum, acompanhando o andamento de um último processo quando deu de cara com Vivi.

A ruiva não poderia ficar mais surpresa. Olhou para Marcela de olhos arregalados. Ela estava de tênis de couro preto – nada nem ninguém tinha conseguido convencer Marcela a usar sapato de salto alto – calça social preta com riscas e uma camisa social feminina - inexplicavelmente branca - com a manga na altura dos cotovelos...

Irreconhecível, mas... absolutamente linda. Maravilhosa. Impactante mesmo. Vivi ficou completamente sem fala, sem ação... Exatamente como se a visse de novo pela primeira vez.  A incontrolável atração que sentia por ela a arrastando novamente...

Marcela quase morreu de vergonha. Demorou para conseguir encarar a ruiva e quando o fez ficou perplexa. Sem saber o que fazer, nem dizer, porque... as esmeraldas estavam ardentes.

Nelas podia ler perfeitamente paixão, tesão, amor, desejo... Os olhos negros cintilaram com os mesmos sentimentos.

Inevitável... Incontrolável... Irresistível... A sensação traiçoeira que fazia Vivi se arrepiar inteira com toda força de volta. Isso a apavorou.

Saiu quase correndo, sem cumprimentar nem trocar uma palavra com Marcela. Apesar de saber que era tarde. Tinha revelado a única coisa que Marcela não podia saber: que continuava loucamente apaixonada.

 

Aquele encontro para Marcela foi como uma luz no fim do túnel. Contra tudo e contra todos, tinha percebido que talvez ainda pudesse ter chance.

Passou a semana inteira comportadíssima. Fazendo daimoku e gongyo todos os dias.

Por isso não ficou surpresa quando convidaram os “The Mitidos” para tocar no churrasco do pessoal da faculdade. Aceitou sem nem perguntar para os outros membros da banda. Com eles se entendia mais tarde. Precisava agarrar a oportunidade.

No dia do churrasco estava ansiosa, tensa, uma pilha de nervos. Fez daimoku durante quase uma hora – e nunca tinha conseguido fazer tanto tempo.

“Não existe oração sem resposta.” – ficava repetindo para si mesma, como  tantas vezes tinha ouvido Vivi dizer.

Infelizmente, nunca tinha prestado atenção no resto da frase: “Às vezes a resposta é não...”

 

O churrasco era na Barra, na casa de um aluno do 5º período. Um pequeno tablado estava montado a alguns metros da piscina, com todo o equipamento necessário alugado.

A primeira coisa que Marcela fez foi procurar Vivi com os olhos. Para alívio e desespero dela, a ruiva estava sentada – de biquíni verde, absurdamente magnífica – entre Carlinha e... Ana Cláudia.

André puxou Marcela pelo braço:

- Ei! Acorda! Você não vai rastejar atrás dela, né?

Marcela ficou irritada:

- Não te interessa!

E saiu em direção ao tablado.

 

Vivi se manteve de óculos escuros o tempo inteiro. Só assim para ninguém perceber que os olhos não conseguiam desgrudar de Marcela.

A miserável parecia fazer de propósito: se abaixava, mexia nos cabos, nos pedais, nos instrumentos, de uma forma absolutamente provocante, deliciosa, sexy... E não parava de lançar para Vivi um olhar que era francamente proibido para menores.

Então se tornou pior ainda, porque ela chegou no microfone e anunciou, a voz maravilhosa fazendo Vivi mergulhar num mar profundo de recordações:

- Boa tarde, galera! Se seus namorados ou namoradas não fazem Direito, eu faço!

Todos riram e aplaudiram a piada velhíssima. Marcela deu um sorriso lindo, e então apresentou a banda:

- Nós somos os “The Mitidos”, e vamos começar com uma música do meu poeta preferido: Cazuza!

Marcela começou a tocar, com aquele jeito que para Vivi era tão inebriante quanto absinto.

Abriu a boca e cantou, olhando para Vivi com um olharzinho pedinte, safado e sedutor, que arrancou sorrisos involuntários da ruiva:

 

“Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos foram traçados na maternidade...
Paixão cruel, desenfreada
Te trago mil rosas roubadas
Pra desculpar minhas mentiras, minhas mancadas...
Exagerado! Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado...
Eu nunca mais vou respirar se você não me notar
Eu posso até morrer de fome se você não me amar...
E por você eu largo tudo
Vou mendigar, roubar, matar
Até nas coisas mais banais
Pra mim é tudo ou nunca mais...
Exagerado! Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado...”

(“Exagerado” – Cazuza / Ezequiel Neves / Leoni)

 

Apesar do sorriso, Vivi se manteve sentada, afastada das pessoas que dançavam na frente do palco. Tentando conter, negar o que sentia quando olhava para ela. O efeito mágico, que sempre a atraía para perto dos olhos negros.

Marcela começou a tocar o solo. Dedilhando a guitarra com aquela entrega impressionante que ela tinha no palco. Selvagem, apaixonada e plena. Que Vivi amava.

Voltou a cantar, os olhos mais uma vez presos na ruiva, louca para desvendar  o que acontecia por trás dos óculos escuros.

No final da música, as pessoas aplaudiram, assobiaram. Marcela pegou o microfone novamente e disse:

- A próxima é pra alguém muito especial. A dona do meu coração.

Os olhares se voltaram em peso para Vivi. Sem exceção. Mas ninguém - nem  Marcela - conseguiu interpretar a reação da ruiva. Os óculos escuros eram impenetráveis. Uma grande interrogação.

Na verdade, Vivi estava fuzilando Marcela com as esmeraldas.

Mas então - apesar de cegos e sem direção pela falta do contato com os verdes - os olhos negros refletiram uma profunda e sincera emoção. Que amoleceu Vivi completamente, com uma facilidade assustadora.

Marcela começou a tocar, arrancando da guitarra notas sofridas, como a voz que cantou - doce, melancólica, quase um “mea culpa”:

 

“Você já me viu sério
já me viu de porre
me viu fazendo drama
por sua desordem
Mas triste, isso eu nunca quis
Que você visse
Os meus olhos sentem a falta dos seus
O meu corpo sente a falta do seu
A minha alma sente a sua falta
Quis que o nosso mundo
Fosse um conto de fadas
Amando o tempo todo
Em todo canto da casa
Mas isso, hoje eu aprendi
Que não existe
Os meus olhos sentem a falta dos seus
O meu corpo sente a falta do seu
A minha alma sente a sua falta
Mas nada vai fazer
Com que eu desista
Nada é pra sempre
Eu sei que sou capaz
A vida não é isso
Ela é muito mais
Só tenho que dormir de novo
Pra sonhar de novo

Os meus olhos sentem a falta dos seus
O meu corpo sente a falta do seu
A minha alma sente a sua falta.”

 

Cantou as últimas frases com a voz embargada, os olhos cheios d’água.

Se pudesse ver os olhos verdes, Marcela saberia que estavam do mesmo jeito. Mas a escuridão dos óculos continuava intransponível:

 

“Os meus olhos sentem a falta dos seus

O meu corpo sente a falta do seu
A minha alma sente a sua falta”

(“Seus Olhos” - Capital Inicial - Pit Passarell)

 

Anunciou que iam fazer um intervalo, e quando desceu do palco, Vivi tinha desaparecido. Ficou olhando em volta, completamente perdida.

André e Guto chegaram perto dela, com latinhas de cerveja na mão. Ofereceram uma para Marcela, que recusou, sem nem olhar para eles. Só prestou atenção quando Guto disse:

- Se você tá procurando a Vivi, ela foi naquela direção.

 

Assim que Marcela anunciou que iam fazer um intervalo, Vivi saiu quase correndo. Estava frágil demais, com saudades demais para permitir que ela chegasse perto. Foi para a frente da casa, que estava completamente deserta, e entrou na garagem.

Tirou os óculos, tentou em vão enxugar as lágrimas, mas elas brotavam interminavelmente. Ficou ali chorando baixinho, de cabeça baixa, com as mãos apoiadas no capô de um dos carros. Se assustou, deu um pulo quando sentiu uma mão a tocar no ombro.

Levantou a cabeça e viu Ana Cláudia, com uma expressão de dor igual à dela. Uma dor que só se sente quando não se pode fazer nada para aliviar o sofrimento da pessoa por quem se está apaixonada...

E então entendeu perfeitamente o que Ana Cláudia sentia por ela.

A morena seguiu as emoções passarem nos olhos verdes como se lesse num livro aberto: susto, surpresa, compreensão e... pena.

A dor nos olhos de Ana Cláudia aumentou. A morena se virou, envergonhada, querendo fugir, mas Vivi a impediu:

- Ana Cláudia... espera... me desculpa, eu... gosto de você... mas...

- Ama a Marcela. É, eu sei.

O jeito que Ana Cláudia falou, fez Vivi se lembrar de si mesma. Meses atrás, quando Marcela era apaixonada, louca pela tal Gisele.

Um carinho enorme tomou conta dela. Acariciou o rosto da morena. Ana Cláudia fechou os olhos, suspirou, e se entregou completamente à carícia.

Antes, durante e depois de Marcela, Vivi não tinha pensado, olhado, nem desejado outra mulher.

Despertando uma dúvida dentro dela: gostava mesmo de mulheres ou apenas de Marcela?

Naquele momento, esse questionamento terminou, porque... algo inexplicável  aconteceu, e... a energia entre elas mudou completamente.

Ana Cláudia percebeu, porque abriu os olhos, os fixou nos verdes – absolutamente incandescentes – e sorriu.

Um sorriso doce, suave, mas ardente. Acariciou o rosto de Vivi, a mão deslizando pelo pescoço, segurando a nuca dela, fazendo Vivi se arrepiar inteira.

Vivi ficou olhando para ela, tentando em vão compreender o que estava acontecendo.

Ana Cláudia aproximou o rosto do dela. O bastante para as respirações se tocarem. Vivi estremeceu, finalmente entendendo e aceitando que naquele momento, desejava provar os lábios tão próximos dos dela.

Olhou para os olhos de Ana Cláudia novamente. Viu que eles estavam ansiosos, nervosos, esperando uma aprovação.

Com o coração batendo feito louco no peito, colou os lábios nos da morena redentoramente, com um gemido profundo de satisfação.  

 

 

Capítulo 25: I’m Your Favorite Drug...

Marcela não estava preparada para o que viu quando chegou na porta da garagem.

Vivi e Ana Cláudia, só de biquíni, os corpos e bocas colados sensualmente... As mãos de Vivi estavam nas costas da morena, acariciando, apertando, a puxando com força. Viu quando Ana Cláudia percorreu o pescoço de Vivi com a boca, e a ruiva deixou escapar um gemido e jogou a cabeça para trás, facilitando o acesso da morena, com uma entrega suave, doce, meiga. A mesma com que as bocas voltaram a se encontrar...

Marcela recuou, sem ser vista, e saiu quase correndo, como se estivesse sendo perseguida.

Passou rapidamente no meio das pessoas, entrou na casa e se trancou no banheiro. Encostou na porta com as mãos tremendo, e abraçou o estômago inconscientemente.

A intimidade carinhosa, sensível que tinha presenciado era muito, mas muito pior do que tesão e sexo, porque... Mesmo de longe, pelo clima, pelo ritmo das carícias, tinha percebido que entre Vivi e a outra havia... envolvimento. Algo bem mais profundo do que apenas desejo.

E com isso Marcela não sabia como competir. Pegou o frasco que sempre carregava no bolso. Abriu, bateu o pó na mão e cheirou várias vezes.

 

Quando os lábios se separaram, Vivi abriu os olhos e viu... o sorriso de Ana Cláudia. Lindo. De pura felicidade. Que a deixou preocupada. Tentou dizer:

- Ana Cláudia, eu...

Mas a morena não deixou. Colocou os dedos nos lábios de Vivi, impedindo que ela falasse:

- Não tô te cobrando nada. Nem vou. Mas não posso esconder o que eu sinto... E eu gostei... muito... Adorei você ter me beijado assim.

Disse de uma forma tão sincera, que Vivi acabou confessando:

- Também gostei... Foi...

- Intenso?

A morena completou. E Vivi confirmou balançando a cabeça. Depois olhou para o chão, tensa. Achando que tinha falado demais.

Ana Cláudia deu um daqueles sorrisos dela que Vivi estava começando a aprender a adorar, e disse:

- Vivi, relaxa. Vamos deixar as coisas acontecerem. Tudo bem?

Mais uma vez, Vivi concordou com a cabeça. Só que dessa vez, ela sorriu. Como se vislumbrasse um alvorecer.

 

Quando Marcela finalmente saiu do banheiro, encontrou um André muito estressado procurando por ela:

- Porra, Marcela! Qual é a tua? Onde você se meteu? Faz mais de 40 minutos que você desapareceu...

Mais do que agressiva, Marcela estava num estado de... pura animalidade. Deu um empurrão no amigo, respondendo:

- Que saco! Larga do meu pé! Você é meu pai, por acaso?

Foi até a cozinha, onde estavam fazendo caipirinha e pediu:

- Alguém me arruma um copo de Vodka?

Na mesma hora o dono da casa ofereceu uma Caipivodka para ela. Marcela recusou:

- Assim não. Pura.

Pegou o copo que o rapaz estendeu, e virou de uma vez só. Desceu ardendo, mas não o suficiente para anestesiar o que tinha por dentro:

- Mais uma...

Perplexo, o rapaz obedeceu. Ela deu ao segundo copo o mesmo destino do primeiro. Depois disse:

- Valeu!

No caminho para o palco, foi pegando um baseado no saco plástico de sempre. Foi quando cruzou com Vivi. Conversando numa rodinha, rindo felicíssima, com morena irritante do lado.

Parou do lado dela, acendeu o baseado, e com um sorriso cínico ofereceu para Ana Cláudia. Que recusou.

Marcela riu, e provocou:

- Não? Aposto que você não bebe, não fuma, não cheira...

E para Vivi, que estava completamente vexada:

- Parabéns... Parece que você encontrou sua alma gêmea...

Os olhos verdes metralharam Marcela:

- Marcela, por favor...

- Ok, ok... Só uma última perguntinha...

Passou os olhos no corpo de Vivi como se ela estivesse sem o biquíni, com um sorriso cafajeste que chegava a ser incômodo de tão obsceno:

- Será que você vai ficar satisfeita?

Virou e saiu sem conseguir andar em linha reta.

 

- Marcela, nem pensar! O pessoal não vai curtir...

André estava irritadíssimo. Mas Marcela insistiu:

- Que se dane! Eu preciso!

Com um suspiro de impaciência, ele ainda tentou dialogar:

- Pensei que você não cantasse em inglês, que te lembrasse da Caitlin...

Marcela estava fora de si:

- Se eu lembrar daquela gringa vagabunda e filha da puta, melhor ainda...

André ainda tentou fazer Marcela desistir:

- A gente quase não ensaiou essa música. Além disso, não é nosso estilo...

Foi o olhar pedinte que Marcela lançou que finalmente quebrou a resistência dele:

- Tá bem... O que eu não faço por você?

 

Vivi sabia que quando Marcela entrava naquele estado, perdia todos os limites. Que se tornava perigosamente imprevisível.

Resolveu ir embora, para não se aborrecer mais ainda. Mas Carlinha a fez desistir da idéia:

- Vivi, é isso mesmo que a Marcela quer, que você não se divirta! Não acredito que vai dar esse gostinho pra ela!

A contragosto, Vivi concordou. Morrendo de medo do que Marcela poderia fazer. Estava com a pior das intuições...

Teve seus receios confirmados quando Marcela pegou o microfone e falou, com um brilho feroz e selvagem nos olhos negros, e uma voz cortante:

- Vivi, minha linda... Pra você...

Os meninos começaram a tocar. O som que saiu era diferente do de sempre. Violento, irritante, uma coisa um tanto quanto punk. Que incomodava, dava vontade de tapar os ouvidos.

Marcela estava sem a guitarra. Agarrou o microfone com as duas mãos e cantou, com uma voz visceral, que parecia arranhar na garganta. Um som gritado, vomitado, cuspido, para agredir:

 

“What you get is what you see (O que você tem é o que você vê)
It won't take much to get hooked on me (Não demora muito pra ficar viciada/vidrada em mim)
So shoot me right into your skin (Então me injete em sua pele)
And I will be your heroin (E eu serei sua heroína)
The side effects are sexual (Os efeitos colaterais são sexuais)
You love the way I taste (Você ama o meu gosto)
The side effects are sexual (Os efeitos colaterais são sexuais)
You love the way I say (Você ama o jeito que eu digo)
I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
Your favorite drug (Sua droga favorita)
Just one hit is never enough (Só uma vez nunca é o suficiente)
I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
You can't break this addiction, no (Você não consegue se livrar deste vicio,não)
Your favorite drug (Sua droga favorita)
Your favorite drug....(Sua droga favorita)
I'll put my nails into your back (Eu vou colocar minhas unhas nas suas costas)
Yeah you'll feel me like a spinal attack (É, você vai me sentir como um arrepio)
You want it from me on both knees (Você quer e suplica de joelhos)
But not until you beg me please (Mas só quando você pedir por favor)

The side effects are sexual (Os efeitos colaterais são sexuais)
You love the way I taste (Você ama o meu gosto)
The side effects are sexual (Os efeitos colaterais são sexuais)
You love the way I say (Você ama o jeito que eu digo)
I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
Your favorite drug (Sua droga favorita)
Just one hit is never enough (Só uma vez nunca é o suficiente)
I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
You can't break this addiction, no (Você não consegue se livrar deste vicio,não)
Your favorite drug (Sua droga favorita)
I’m your favorite drug....(Sou sua droga favorita)
I'm your pleasure and your pain (Eu sou seu prazer e sua dor)
I'm your fear just like cocaine (Sou seu medo como a cocaína)
I'm your treasure (Sou seu tesouro)
Say my name (Diga meu nome)

I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
Your favorite drug (Sua droga favorita)
Just one hit is never enough (Só uma vez não é o suficiente)
I'm your favorite drug (Sou sua droga favorita)
You can't break this addiction, no (Você não consegue se livrar deste vicio, não)
Your favorite drug  (Sua droga favorita)
Your favorite drug” (Sua droga favorita)
(“I'm Your Favorite Drug” - Porcelain and the Tramps - Alaina Beaton)

 

Aquilo para Vivi foi mais do que o fim. Foi de um mau gosto absoluto e ofensivo. Marcela ficava apontando para a ruiva, fazendo com que todos olhassem para ela.

Óbvio que Carlinha e Ana Cláudia se postaram uma de cada lado dela. Apesar de, naquele momento, não ser preciso. Porque o comportamento de Marcela apenas fortaleceu Vivi. Ela ficou ali impassível, sustentando os disparos dos olhos negros com uma dignidade ostensiva.

Quando a música terminou, os olhares de Marcela e Vivi continuaram se fuzilando. No meio da troca de tiros entre os verdes e os negros duelantes, todos ficaram estáticos, esperando.

Sem desviar os olhos, com um sorriso magoado no rosto, Vivi começou a aplaudir. Um aplauso seco, alto, irônico. Com uma pausa imensa entre uma palma  e outra. Depois se virou, e saiu puxando Ana Cláudia pela mão.

 

Um enorme mal estar se estabeleceu. As pessoas estavam perplexas, olhando para Marcela, que entendeu perfeitamente o que a atitude de Vivi queria dizer: que Marcela a tinha feito se decidir.

Desceu do palco, e se escondeu atrás da bateria, um desespero profundo tomando conta dela, porque sabia que tinha atirado Vivi nos braços da tal morena definitivamente.

André veio atrás dela:

- Marcela! Marcela! Você tá bem?

Marcela fez que sim com a cabeça, chorando e fungando muito. André segurou o rosto dela entre as mãos, enxugou as lágrimas, e beijou Marcela na testa com ternura, antes de dizer:

- Para com isso... Deixa essa garota pra lá... Quero ver você voltar praquele palco agora e arrasar! Que tal, hein?

Com um suspiro deprimido, Marcela concordou.

 

Vivi puxou Ana Cláudia até o banheiro. Assim que fechou a porta, ouviu a banda voltar a tocar. A voz de Marcela continuava agressiva, mas bem menos. Por trás da agressividade podia sentir um tom de prazer sarcástico na forma com que ela cantava:

 

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola...”

(“Geração Coca-cola” - Legião Urbana - Renato Russo // Fê Lemos)

 

Olhou para Ana Cláudia profundamente. Viu a interrogação imensa nos olhos dela. Como resposta, puxou a morena pela cintura e colou os lábios nos dela quase com desespero.

Ana Cláudia correspondeu, de uma forma ardente, porém muito mais amena.

Mas Vivi estava tomada de uma súbita urgência. Precisava extravasar o que tinha por dentro.

Percorreu o corpo dela acariciando, explorando mesmo. Tocou em um dos seios. Afastou o biquíni para ter um contato completo. Desceu a boca sobre ele de uma forma absolutamente sedenta.

Ana Cláudia deixou escapar um gemido, mas parecia estranhamente tensa. Quando as mãos de Vivi foram subindo pelas coxas, com uma intenção muito mais do que evidente, a morena a segurou, parando o movimento. Vivi levantou a cabeça e fitou Ana Cláudia quando perguntou:

- Você não quer?

A voz da morena soou um pouco magoada, mas muito segura quando disse:

- Assim não.

Percebeu que Vivi não estava entendendo. Pôde ler claramente nos olhos verdes que a ruiva estava se sentindo rejeitada. Por isso explicou:

- Acho que você tá confusa, agindo por impulso. Não sabe o que tá fazendo. Ou melhor: sabe... Quer se vingar da Marcela.

Vivi negou veementemente:

-  Não, eu... Quero ficar com você. De verdade.

Vivi estava sendo sincera. O cintilar dos olhos verdes eram uma prova explícita. Porém, a morena ainda não acreditava:

- Tem certeza?

- Tenho.

Segurou o rosto de Ana Cláudia entre as mãos e a beijou com paixão. A morena correspondeu, entreabrindo os lábios e permitindo que as línguas se encontrassem. O beijo foi se tornando mais exigente, as respirações ofegantes.

Quando as mãos de Vivi voltaram a tocar Ana Cláudia de forma mais ousada, a morena a interrompeu, sussurrando no ouvido dela:

- Não quero que nossa primeira vez seja num banheiro... Não é nada romântico... Nem confortável, não é mesmo?

Vivi riu e concordou. Nitidamente adorando. Ana Cláudia completou com um sorriso absolutamente sedutor e enfeitiçante:

- Quero que seja especial... Como você...

Os lábios voltaram a encontrar os de Vivi, cheios de promessas. Depois, a morena abriu a porta, e saiu levando Vivi pela mão. Para fora do banheiro, da festa e da vida de Marcela.

 

 

Capítulo : Carma...

 

 

Não foi fácil para Vivi passar na frente daquele palco. Precisou de toda a concentração que tinha para manter os olhos fixos em Ana Cláudia, sorrir e ignorar os olhos negros que sabia que a acompanhavam. Podia sentir o calor deles queimando na pele, um ardor subindo pela espinha. Exatamente como Marcela tinha dito: uma droga. Um vício. Que só trazia infelicidade.
A última frase Vivi repetiu mentalmente várias vezes. Tentando inutilmente se convencer, porque... tinha a garota perfeita de mãos dadas com ela, mas continuava prisioneira dos olhos negros.
Respirou fundo, aumentou o sorriso. Olhou para Ana Cláudia como se fosse a única coisa que existisse no mundo. Determinada a arrancar Marcela de dentro dela.

Marcela estava no palco, no meio de uma música quando viu Vivi passando com Ana Cláudia.
O que mais doeu não foi elas estarem sorrindo, de mãos dadas, com uma intimidade de namoradas. Foi como as esmeraldas olhavam para a morena que a puxava: de forma absolutamente ardente, conquistada, encantada.
Os olhos continuaram seguindo as duas que se despediram das pessoas e foram embora juntas.
Fez um esforço incrível para não parar de cantar. As mãos resvalaram nas cordas da guitarra, erraram algumas notas. André a olhou, espantado.
Marcela tentou em vão se recompor. Mas o abismo que a invadia era incontrolável. Aproveitou o solo para deixar André tocando sozinho e cheirou um pouco de Special K. Não passou, mas deu uma aliviada. Pelo menos conseguiu continuar a tocar e cantar, ainda que totalmente no piloto automático.
Felizmente aquela era a última música. Enquanto os meninos desmontavam tudo, Marcela foi até a cozinha e pegou uma garrafa de Vodka. Voltou e anunciou que ia para casa.
Preocupadíssimo, André resolveu ir com ela. A muito custo convenceu a amiga que ele deveria dirigir o carro. Durante o percurso inteiro, Marcela foi bebendo no gargalo e chorando convulsivamente.
André ainda a tentou consolar, mas Marcela gritou, completamente agressiva:
- Me deixa em paz!

Vivi nunca tinha entrado num motel com uma mulher antes. Na verdade tinha ido com Edu algumas poucas vezes. Sempre ficava no banco do carona, sem falar nada. Mas naquele momento ela estava dirigindo, e ficou cara a cara com a mulher da recepção.
Ana Cláudia percebeu imediatamente que Vivi estava constrangida. E tomou o controle da situação. Vivi só precisou pegar a chave e o controle remoto que a recepcionista estendeu. Dirigiu o carro até a garagem privativa, muito sem graça.
A morena observou Vivi atentamente, com um sorriso divertido no rosto. A ruiva perguntou:
- Você me acha muito boba?
A resposta de Ana Cláudia foi muito diferente do que Vivi esperava:
- Acho você linda... Principalmennte quando fica com vergonha...
E beijou Vivi de uma forma absolutamente ardente e apaixonada.

André se assustou com o estado em que Marcela estava. Quase teve que arrastar a amiga até o apartamento dela.
Não só os olhos, mas o rosto todo de Marcela estava inchado de tanto chorar. Continuava segurando a garrafa de vodka – agora quase vazia - nas mãos. A voz completamente enrolada, mal conseguindo dizer, porque o choro atrapalhava:
- Dé... que bom que vo... voc&eccirc;... veio comigo...
Marcela tentou dar um passo e quase caiu. André a segurou, tirou a garrafa das mãos dela e a pegou no colo como se fosse uma criança.
Ela deitou a cabeça no ombro dele, os braços agarrados em volta do pescoço de André, se sentindo protegida e amparada enquanto ele a levava para o quarto, e a colocava cuidadosamente na cama.
Soluçou copiosamente. André se deitou do lado dela e a abraçou.
Adorando o carinho com que as mãos dele a acariciavam nos cabelos, Marcela encostou o rosto no pescoço dele, os lábios roçando na pele sem querer. Sentiu André se arrepiar, e a apertar mais contra o corpo dele, com tanta força que Marcela gemeu. Fazendo André afrouxar um pouco o abraço.
Ela suspirou - ser abraçada por André sempre a fazia se sentir bem - e se aconchegou mais a ele. Foi quando aconteceu. Meio sem saber como. Começou de forma inocente. André esfregou o rosto no de Marcela, e ela correspondeu.
E então de repente, os rostos viraram de um jeito que as bocas se tocaram. De leve, o cantinho apenas. E disso passaram para um beijo. Leve, carinhoso, delicado no começo. E depois se transformando em algo bem mais sexual, passional, carnal. Pelo menos da parte dele.
Em princípio Marcela aceitou o beijo porque estava bêbada demais, fora de si demais, carente demais para não corresponder. Por pura doideira.
Entreabriu os lábios, deixou que a língua dele a invadisse e explorasse, sem nem cogitar que a cama desfeita era um cenário íntimo demais para ficarem apenas num beijo.
Mas então as mãos dele já estavam debaixo da camiseta dela, tocando os seios de Marcela, que... imediatamente reagiu, tentando se afastar.
André ignorou completamente a recusa dela. Certo de que poderia seduzir, conquistar, excitar, mudar a resposta de Marcela para sim. Deitou por cima dela, pressionando o corpo contra o dela, a beijando no pescoço, sussurrando:
- Te amo, Marcela... Há muito, mmuito tempo... Sempre te amei... Sempre sonhei em ter você nos meus braços desse jeito...
Todos os protestos e tentativas de resistir dela foram inúteis. Ele era muito mais forte, muito mais pesado que ela, e a dominou completamente. Rasgou a camiseta que Marcela usava e passou a lamber, chupar, beijar os seios dela com todo o desejo acumulado durante anos:
- Não agüento te ver com esssas mulheres... Te usando, te fazendo sofrer... Ah, Marcela, quero tanto você... Você é a mulher da minha vida... Deixa eu te fazer feliz...

Vivi ficou espantada com a delicadeza de Ana Cláudia. A forma suave e sem pressa com que a morena a beijava. Com que a acariciava ainda completamente vestida, como se desejasse aproveitar, guardar cada momento que compartilhassem.
O corpo correspondeu a cada beijo, cada toque, cada carícia, com uma entrega que, depois de Marcela, julgava incapaz de sentir.
Explorou as curvas de Ana Cláudia com as mãos. Se deliciou ao perceber a forma deliciosa com que a morena se arrepiava quando Vivi a acariciava.
Foi Vivi quem tomou a iniciativa de finalmente começarem a se despir. Abaixou as alças do vestido dela, muito, mas muito devagar. No ritmo que Ana Cláudia parecia tanto gostar.
Sentiu Ana Cláudia estremecer quando afastou a parte de cima do biquíni dela e encostou a boca no seio que se ofereceu, cálido.
A morena desamarrou a parte de cima do biquíni de Vivi, a livrou da saia, e se pôs a passar as mãos lentamente pela pele de Vivi inteira, como se a quisesse decorar.
Ana Cláudia percorreu o pescoço de Vivi com a boca. Causando arrepios. Desceu os lábios pelo colo, até encontrar os seios. Passando a língua devagar, e só depois se permitindo mergulhar neles com voracidade.
Vivi deixou escapar um gemido. A respiração se tornando cada vez mais difícil... Enfiou os dedos nos cabelos de Ana Cláudia, e os puxou carinhosamente, pedindo mais.

Marcela não acreditava que aquilo pudesse estar acontecendo. Puxou os cabelos dele com força. Só conseguiu que ele parasse por um momento.
Quando André levantou o rosto bateu, socou, esmurrou, sem conseguir atingir nada além dos braços dele, que rechaçaram os golpes com uma facilidade que chegou a ser ridícula.
Ele segurou e prendeu os pulsos dela em cima da cabeça com uma das mãos apenas.
Marcela gemeu – não de prazer, como ele esperava, mas de dor - quando André mordeu o bico de um dos seios.
Não era propriamente uma dor física. Era uma dor moral, emocional – porque André era a única pessoa em quem Marcela tinha conseguido confiar desde pequena. Pediu chorando, gritando, com um profundo desespero:
- Não... Para... Me solta... Eu não quero... Não... Por favor...
Mas André parecia possuído. A mão livre dele abriu o jeans de Marcela, e escorregou por dentro da calça, tocando o sexo dela. Pra ele um ato de amor, prazer, desejo. Pra ela de abuso, desrespeito, violência.
O desespero de Marcela aumentou. Tentou espernear e chutar, mas as pernas estavam presas pelas dele.
André a acariciou e penetrou com os dedos. Marcela estava contraída, fechada, seca. Doeu, ardeu, machucou, ofendeu. Profundamente. Reacendendo a revolta que a fez voltar a lutar contra ele.
Gritou, xingou, se debateu... Sem resultado. Então voltou a pedir, implorar, suplicar, mas André não cedeu.
Arrancou o jeans dela e fez o mesmo com a calcinha. Abriu o zíper e abaixou a própria calça.
Quando a cueca dele desceu, para Marcela parecia estar tudo numa torturante câmera lenta. André abriu as pernas dela e se posicionou entre elas.

A morena e a ruiva voltaram a se beijar. As línguas se procuraram, se encontraram de forma absolutamente ardente. Ana Cláudia conduziu Vivi até a cama, sem interromper o beijo. Devagar, como se fosse em câmera lenta. Fez a ruiva se deitar. Beijou cada pedacinho de Vivi antes de finalmente a livrar da última peça de roupa.
Vivi ajudou, levantando os quadris, sentindo um arrepio na espinha quando a tanguinha do biquíni roçou nas coxas antes de sair, a deixando totalmente despida.
Ana Cláudia percorreu o corpo de Vivi com os olhos. Com uma expressão indescritível. Muito mais do que desejo, era... paixão, adoração e... amor.
Os olhos verdes cintilaram, mergulharam fundo nos dela, correspondendo, enquanto esperava a morena tirar a própria tanguinha e se deitar em cima dela.
As peles pareceram ferver, arder, quando se encostaram completamente nuas pela primeira vez.
As bocas se encontraram novamente. Os corpos se entregaram ao mesmo movimento. Os corações descompassados, as respirações alteradas, frementes, fugidias.
Quando a mão de Ana Cláudia desceu, e tocou Vivi entre as pernas, o fez de forma absolutamente incrível. Fazendo a ruiva suspirar, gemer, se contorcer, perder completamente o controle, os pudores, toda e qualquer noção de espaço e tempo.
Vivi se libertou. Se entregou inteiramente, com uma felicidade surpresa a toda e cada sensação maravilhosa que Ana Cláudia proporcionava.
A morena se esfregava nela, deixando a coxa de Vivi toda molhada, sussurrando palavras excitantes no ouvido dela, aumentando o prazer da ruiva a um ponto quase insuportável, beirando o desespero.
Vivi estremeceu, e sentiu que Ana Cláudia a acompanhava, com gemidos deliciosamente ofegantes, abafados, trêmulos.
Gozaram juntas, ao mesmo tempo, agarradas uma na outra, num voluptuoso e incoerentemente turbilhão de prazer.

Marcela sentiu nojo, asco, revolta, enjôo, impotência, pavor, horror, medo, desespero... Tudo ao mesmo tempo... Apesar de inaceitável, não tinha como evitar o que estava para acontecer.
Começou a chorar baixinho. Um choro doído, fininho, como um animalzinho ferido. Exatamente como fazia quando era criança. E por incrível que pareça, foi isso que finalmente o comoveu.
André olhou para Marcela deitada debaixo dele. Apavorada, nua, chorando e tremendo, totalmente indefesa. Os olhos cheios de dor e medo.
Ele a amava. Realmente a amava. Se importava, se preocupava com ela. Estava acostumado a proteger, cuidar de Marcela desde que eram muito, mas muito pequenos mesmo.
Lembrava do exato momento em que tinha se apaixonado. Ela ainda tinha cachinhos dourados e usava chupeta. Tinha caído no chão, arranhando o joelho. E chorado, exatamente do mesmo jeito que agora estava fazendo.
Com 3 anos de idade, André tinha se aproximado de Marcela e beijado o joelho machucado, mudando a expressão dela imediatamente. De dor para um sorriso resplandecente.
Naquele momento, enfrentando um choro que ele mesmo tinha causado, ficou sem saber o que fazer.
Tinha perdido completamente a cabeça. Se deixado levar por anos de paixão, tesão e desejo. Reprimidos, frustrados, rejeitados. Mas nada, nada justificava aquilo. Nada mesmo.
Durante anos tinha esperado, sonhado, imaginado aquele momento. De ter Marcela nos braços entregue, correspondendo. Poder amar aquela mulher de uma forma que fizesse o prazer dela ser o dele. Mas tinha sido completamente diferente. Ele tinha forçado, dominado e obrigado Marcela... E não era assim que ele queria. Não era daquele jeito.
Saiu de cima dela. Vestiu as roupas novamente. Marcela virou de lado e se encolheu. Ficou ali deitada nua, em posição fetal, o corpo sacudido por soluços de um profundo sofrimento.

 

 

 

Capítulo : Extremos e Abismos...

 

O torpor em que Marcela se encontrava se dissipou no mesmo instante em que sentiu a mão de André a tocando no ombro. O corpo reagiu se encolhendo, rejeitando o simples contato completamente. Mais do que nojo, estava sentindo um horror total a ele. Entre os soluços que a dominavam, a frase foi uma súplica desesperada, quase histérica:
- Não me toca!...
André tirou a mão, tentou falar:
- Marcela, me desculpa... Eu nãoo queria...
Mas então ela começou a gritar. Pra que ele fosse embora, saísse de perto dela. Com toda a raiva, ódio e revolta que estava sentindo. Se tivesse forças para se levantar, não sabia o que seria capaz de fazer contra ele.
Mas uma fraqueza insuportável a dominava. Apertou a cabeça com força, gritou novamente. Queria que ele sumisse, desaparecesse, não existisse.
Ainda hesitante, André obedeceu. Com o coração apertado. Saiu batendo a porta, mas ficou no corredor, preocupado. Morrendo de medo de deixar Marcela sozinha de verdade.

Vivi ficou algum tempo de olhos fechados. Se recompondo, para não deixar Ana Cláudia perceber o que tinha por dentro. Porque quando o momento de empolgação passou, foi substituído por um vazio imenso. E depois aquela dor – agora tão sua conhecida – que era a ausência de Marcela.
Ficou deitada debaixo da morena, achando que tinha feito uma besteira.
Ana Cláudia era especial. Tinham se tornado, em tão pouco tempo, amigas de verdade. Num dos momentos mais difíceis da vida de Vivi, ela tinha se mantido firme, companheira, sempre do lado. Não queria perder a amizade dela. E principalmente, não queria magoá-la. Com o que tinha acabado de fazer, isso tinha se tornado inevitável.
Gostava de Ana Cláudia. Também sentia atração por ela, é claro. Além de linda, sedutora, sensual, a morena tinha conseguido despertar em Vivi um desejo que ela julgava ser destinado exclusivamente à Marcela.
Sexo com ela tinha sido maravilhoso, delicioso, de um prazer extremo. Seria perfeito, se não fosse um pequeno detalhe: não estava apaixonada... por ela. Amava loucamente... Marcela. Contra a própria vontade, de forma absolutamente incontrolável.
Abriu os olhos lentamente. Ana Cláudia a estava observando com uma expressão muito séria. Tinha nos olhos uma nítida ansiedade. Que fez Vivi tentar dar um sorriso, sem muito resultado.
Ana Cláudia saiu de cima dela, se deitou ao lado. Era evidente que estava sofrendo. Mas Vivi sabia que seria muito, mas muito pior mesmo se mentisse ou fingisse. Isso sim, seria indesculpável. Por pior que fosse, teriam que encarar a verdade.
Ficaram um tempo em silêncio. E então Ana Cláudia disse:
- Por favor, só não diz qque foi um erro, e que não devia ter acontecido. Isso eu não vou suportar.
Vivi se encheu de coragem. E foi sincera:
- Ana... Eu gostei... adorei cada momennto. Você sabe porque... viu e sentiu. Mas...
O sorriso da morena foi triste. Ironicamente triste quando disse:
- Mas o momento passou e você t&aaacute; arrependida.
Engraçado que quanto mais Vivi conhecia Ana Cláudia, mais a admirava. Ela era incrível. Seria a namorada perfeita, em todos os aspectos da palavra. Se pudesse escolher por quem se apaixonar, não pensaria duas vezes. Infelizmente, não era assim tão fácil.
- Não tô arrependida.
> - Não? Faria outra vez?
Ana Cláudia perguntou de um jeito puramente impulsivo. E se arrependeu depois.
Vivi não reagiu de forma negativa. Ficou surpresa, achou bonitinho o jeito envergonhado com que a morena tapou a boca assim que falou. Respondeu com um sorriso tímido:
- Talvez...
O olhar que a morena lançou para Vivi, levantando uma das sobrancelhas, foi absolutamente incisivo, interrogativo, exigindo uma resposta mais definitiva. Vivi não agüentou:
- Ai, tá bom: faria sim!
Sem conseguir esconder a alegria, Ana Cláudia disse:
- Bom, já é um come&ccediil;o...
E começou a rir. Fazendo Vivi rir junto. Os olhos verdes irradiando carinho e ternura. A morena acariciou o rosto dela. Depois passou os dedos nos lábios de Vivi.
A ruiva estremeceu, sentindo as primeiras pontadas de desejo. Ana Cláudia percebeu, e sorriu, antes de colar os lábios nos dela.
Foi um beijo sedutor, envolvente, profundo. Sem nada daquela calma de antes. Vivi correspondeu inteiramente.
Ana Cláudia desceu a boca e as mãos pelo corpo dela, de uma forma absolutamente faminta. Percorreu cada pedaço, cada detalhe, cada caminho... Vivi suspirava, se contorcia, gemia. Se deixando levar pela correnteza de sensações que a arrastavam. Sem questionar, resistir, nem impedir. Se entregou às mãos, à boca, aos lábios, à língua da morena sinceramente despida de dúvidas e culpas.
Com a boca entre as pernas da ruiva, Ana Cláudia a tomou de uma forma segura, certa, de quem conhece, mostrando que no fundo, Vivi já era um pouco dela.
Depois, deitada novamente embaixo de Ana Cláudia, as duas cansadas e felizes, Vivi voltou a se questionar. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Não entendia mais nada. Nem os próprios sentimentos. Estava completamente atordoada, perdida. Entregue a reações, sensações, desejos instintivos... De uma forma que era... estranhamente boa. Quase um alívio.
Ana Cláudia a olhou, com um sorriso implicante no rosto:
- Cabecinha, cabecinha... Que foi agoraa?
Com uma careta, como se debochasse de si mesma, Vivi respondeu:
- Não sei o que pensar...
- Sabe o que eu acho? Que você peensa demais! Mas pode deixar... tô disposta a fazer isso mudar...
E voltou a colar a boca na de Vivi, as mãos já acariciando o corpo dela inteiro, conseguindo realmente desmanchar - com uma facilidade assustadoramente derradeira - toda e qualquer forma de questionamento.

Assim que ouviu André bater a porta da rua, Marcela mergulhou num sentimento sufocante, angustiante - que explodiu fazendo com que ela gritasse de uma forma visceral, dilacerante, vinda de profundos e obscuros recantos.
Esmurrou o colchão, os travesseiros, até ficar exausta e os braços doerem e não agüentarem mais. Caiu de bruços na cama, ofegante, as lágrimas torturantes, incontroláveis, incessantes.
Apertando sem querer com o corpo o controle do CD player, ligando o som num volume tão alto que chegava a doer os ouvidos:

“Crawling in my skin (Rastejando dentro da minha pele)
These wounds they will not heal (Estas feridas, eles não curarão)
Fear is how I fall (Medo é o que me derruba)
Confusing what is real (Confundindo o que é real)
There’s something inside me that pulls beneath the surface,
(Há algo dentro de mim que me puxa abaixo da superfície)
Consuming / Confusing (Consumindo, confundindo)
This lack of self control I fear is never ending,
(Esta falta de auto-controle, tenho medo que nunca acabe)
Controlling / I can’t seem (Controlando / Parece que não consigo)
To find myself again (Me achar novamente)
My walls are closing in (Minhas paredes estão se fechando)
Without a sense of confidence and I’m convinced
(Sem um senso de confiança, estou convencido)
That there’s just too much pressure to take...”
(Que há pressão demais para eu aguentar)

A respiração de Marcela foi aos poucos voltando ao normal, mas ela não. Com a música que continuava berrando de fundo, cambaleou até o chuveiro. Entrou debaixo da água sem nem sentir o quanto estava fria. Esfregou o corpo inteiro com força, usando a esponja, depois as mãos, e finalmente as unhas. Sem conseguir se sentir limpa.
De uma forma perversa, quase masoquista, achava que era culpada, que merecia. Tomada por uma raiva incontrolável de si mesma, dos arranhões com as unhas passou a se bater. Nos corpo, no rosto. Com fúria.
Se esbofeteou várias vezes, cada vez com mais força, sentindo um prazer irracional na dor física, bem mais aceitável, controlável, confortavelmente conhecida. Conseguindo um quase alívio, que a fez alternar os soluços com uma espécie de riso histérico, patético, no limite.
Nem fechou a água quando saiu do chuveiro. Abriu as portas do armário debaixo da pia. Revirou, atirando tudo no chão, até encontrar a caixa de remédios que sabia que a mãe tinha deixado ali.
A música ecoava enquanto encontrava e pegava o que queria. Abriu a caixa, e tomou todos os comprimidos, pegando com as mãos em concha a água da bica. Depois voltou para o quarto e deitou na cama, ouvindo a música que repetia:

“Crawling in my skin (Rastejando dentro da minha pele)
These wounds they will not heal (Estas feridas, eles não curarão)
Fear is how I fall (Medo é o que me derruba)
Confusing, confusing what is real…” (Confundindo, confundindo o que é real)
There’s something inside me that pulls beneath the surface,
(Há algo dentro de mim que me puxa abaixo da superfície)
Consuming (Consumindo)
Confusing what is real…” (Confundindo o que é real)
This lack of self control I fear is never ending,
(Esta falta de auto-controle, tenho medo que nunca acabe)
Controlling (Controlando)
Confusing what is real…” (Confundindo o que é real)
(“Crawling” - Linkin Park)

Com um sorriso, Marcela ficou deitada, de olhos fechados, como quem faz um último pedido. Se entregando ao nada, desistindo do que para ela parecia um eterno e insuportável suplício, esperando a única saída aparentemente plausível: o definitivo e tão desejado não existir.

As três horas que passou com Ana Cláudia naquele motel tiveram para Vivi um efeito quase curativo.
Deixou a morena de cabelos ainda molhados em casa com um sorriso que refletia a felicidade que sentia. Como estavam em frente à portaria dela, e Ana Cláudia não era assumida para a família, a morena beijou Vivi no rosto, encostando os lábios disfarçadamente no cantinho da boca da ruiva.
Vivi adorou. E foi absolutamente sincera quando disse:
- Me liga...
Ao que Ana Cláudia respondeu, os olhos com um brilho incrível:
- Nem precisava pedir...
Antes de entrar no prédio, a morena se virou, e mandou um último beijo - com um jeito doce, carinhoso, apaixonado, que Vivi achou lindo.
Voltou para casa sorrindo, o coração leve como há muito tempo não sentia.

A música terminou mais uma vez. Marcela já estava bastante grogue, mas ainda continuava acordada. Pegou o controle do som com dificuldade. Tentou voltar, repetir a música novamente.
Ao invés disso, apertou o botão errado. E um som completamente diferente invadiu o quarto: “The Scientist”(Coldplay).
Impossível ouvir aquilo e não pensar em Vivi. O coração acelerou, lembrando de milhares de momentos maravilhosos e felizes com ela, para ela, ao lado dela.
O amor que sentia pareceu iluminar a escuridão em que se encontrava. Como se no meio da areia movediça, encontrasse um ponto firme, seguro, onde se apoiar.
Percebeu que mais uma vez ia machucar, fazer a pessoa que mais amava sofrer. Recordava perfeitamente Vivi dizendo, parada na porta do quarto:
- Eu me importo. Realmente me importo ccom você.
Um desespero profundo tomou conta de Marcela, quando percebeu o que tinha feito, e se arrependeu.
As lágrimas escorreram, mas nada pôde fazer, porque... até a angústia começou a ser tragada pelo nebuloso esquecimento que já tornava impossível qualquer tentativa de se mover. Como se fosse empurrada para dentro, numa embalagem lacrada, absolutamente inviolável.
Não conseguiu falar, mas uma última frase lhe veio à mente:
- Nam myoho rengue kyo... eu nãoo quero morrer...
Ironicamente, a última impressão / sensação que teve foi... verde. Incrível, delicioso, amado verde...
Quem sabe uma lembrança fugidia, ou talvez uma simples visão pouco nítida da parede na frente dela...
Em ambos os casos, algo cada vez mais distante e distorcido. Enquanto Marcela apagava... E se juntava a um escuro, frio e profundo vazio.

André ficou na porta do apartamento de Marcela sem saber o que fazer. Ouviu ela gritando e depois a música altíssima.
Teve um estranho pressentimento. Apesar de não saber o que estava acontecendo lá dentro. E foi tomado por um súbito desespero.
Pegou o celular, ligou para a mãe de Marcela:
- Oi, tia... é o André....
Ela estranhou, claro. André continuou:
- Tô preocupado com a Marcela... ela tá trancada no apartamento... acho que pode fazer alguma besteira... tia, é melhor vir correndo...

Quando a mãe de Marcela entrou no apartamento, com um André muito perturbado atrás dela, chamou Marcela, que não respondeu.
Até aí nada de estranho, mas... talvez influenciada pelo desespero de André, talvez por alguma espécie de sexto sentido materno, caminhou até o quarto dela quase correndo.
Marcela estava deitada na cama totalmente despida. De longe, poderia dizer que a filha estava dormindo. De perto, constatando o quanto ela estava gelada, parecia... quase sem vida.
Tentou acordar Marcela, a chamou, sacudiu, bateu no rosto dela e nada... Completamente imóvel, sem reagir.
Nesse meio tempo, André voltou do banheiro, com a caixa de comprimidos vazia que tinha encontrado na pia. E então se tornou evidente o que tinha acontecido, e que... qualquer segundo era imprescindível.
Enrolou Marcela no edredom, e com ajuda de André, a carregou até o carro. Dirigiu para o hospital mais próximo pisando fundo no acelerador, desesperada em ver os sinais vitais da filha ficarem cada vez mais fracos.

Pareceu uma eternidade o tempo em que André ficou na sala de espera, com a mãe de Marcela chorando sentada no sofá, e o pai de Marcela andando de um lado para o outro sem parar.
E então o médico finalmente veio. Com uma voz calma, tão calma que chegava a ser inexpressiva, explicou que ela estava fora de perigo, mas não sabiam quando ia acordar. Podia levar horas ou dias...
Nesse momento, uma senhora passou por André, e entregou um santinho para ele, dizendo:
- Toma meu filho... A melhor coisa &eaccute; rezar...
A palavra rezar levou André a imediatamente pensar em Vivi. Era dela que Marcela precisava.
Ligou para Rafa. Contou rapidamente o que tinha acontecido, e explicou que Vivi precisava ficar sabendo. A esperança – única que tinha, na verdade – era de que a ruiva viesse assim que fosse avisada.

Vivi ia começar a jantar quando o telefone tocou. Pensando que era Ana Cláudia, levantou da mesa, dizendo:
- Deixa que eu atendo.
Atendeu com um sorriso, que manteve quando disse:
- Oi, Carlinha!
Alguma coisa diferente, talvez a qualidade do silêncio da filha, fez seu Francisco olhar para Vivi. Bem a tempo de ver o sorriso se transformar num rápido e intenso fluxo de emoções: surpresa, choque, susto, medo, dor, sofrimento, desespero...
- Que foi, filha? Que aconteceu?
Quando acabou de dizer, já estava ao lado de Vivi. Dona Lúcia e Carol o imitaram com a mesma rapidez.
Vivi tirou o telefone do ouvido como se o ar fosse feito de água, e todos os movimentos flutuassem, lentos.
Olhou para os rostos preocupados que a rodeavam, os olhos verdes sem brilho, afogados pelas lágrimas que já escorriam. O lábio inferior tremeu quando disse, ainda sem conseguir acreditar:
- A Marcela... tomou uma caixa de comprrimidos pra dormir... e tá inconsciente no hospital...

 

Capítulo : Decisão e Determinação...

 

A primeira pessoa que Vivi viu quando entrou no hospital - com Seu Francisco e Dona Lúcia ao lado dela - foi André.
Pediu que os pais esperassem, e foi direto até ele, o momento a fazendo deixar de lado todo e qualquer tipo de ressentimento:
- Como ela tá?
- Na mesma.
André estava estranho. De uma forma quase sombria. Vivi ignorou completamente:
- O que aconteceu? Por que ela fez issoo?
André lançou um olhar maldoso para Vivi, antes de responder:
- Quem sabe? Talvez o seu showzinho comm a morena?
As esmeraldas dardejaram. Ela nem titubeou:
- Não. Conheço a Marcela.. Não foi isso.
Teve a impressão de que André estremeceu. Impossível saber porque, já que ele nem a olhava nos olhos...
André se afastou de Vivi e foi falar com o pai de Marcela. Fez um último pedido:
- Tio, por favor, qualquer novidade me liga...
- Claro, André... Pode ficar traanqüilo. E mais uma vez obrigado... Você salvou a vida da minha filha...
André aceitou o abraço muito constrangido. Depois se despediu, e sem voltar a falar com Vivi, saiu quase correndo dali.

Vivi acompanhou André com os olhos. Achando o comportamento dele muito estranho.
Dona Lúcia tocou no braço dela, a chamando. Seu Francisco já estava se apresentando para o pai de Marcela:
- O senhor é o pai da Marcela? SSei que essa não é a melhor circunstância, mas ainda assim, é um prazer. Sou o Francisco. Pai da Viviane.
- Prazer. Marcelo.
O pai de Marcela, doutor Marcelo Albuquerque de Moraes Terceiro, apertou a mão do ruivo extremamente simpático parado na frente dele. Apesar de não estar entendendo nada. Dona Lúcia e Vivi se aproximaram. Vivi olhou para os olhos negros tão parecidos com os de Marcela, e esclareceu:
- Nós nunca fomos apresentados. Prazer. Viviane.
E parou as explicações por aí. Não era preciso. O Dr. Marcelo olhou para a ruiva de um jeito que deixou claro que tinha entendido. E que não aprovava absolutamente aquela situação. Para ele Marcela beber, se drogar ou gostar de mulheres não fazia diferença - era tudo a mesma coisa: a forma absurrdamente inaceitável que a filha tinha de afrontar a família.
Seu Francisco interrompeu o momento de silêncio – parecia até que alguém tinha morrido - que se fez:
- Seria possível a Vivi ver a Maarcela?
Com um ar que não foi o mais satisfeito do mundo, o Dr. Marcelo acabou dizendo:
- Ela tá no quarto 301.
- Sozinha?
Não foi uma acusação, foi mais uma exclamação que escapou sem querer da boca de Vivi. E que deixou o Dr. Marcelo evidentemente ainda mais irritado:
- Com a mãe, óbvio. Sei qque vocês provavelmente ouviram coisas horríveis, mas não somos os monstros que a Marcela pinta...
Vivi imediatamente se desculpou. Morrendo de vergonha. Não tinha tido a intenção de deixar o pai de Marcela ofendido. Seu Francisco voltou a interferir:
- A Vivi tá muito preocupada. S&ó isso.
Dona Lúcia apaziguou os ânimos definitivamente:
- Nós gostamos muito da sua filhha. Um amor de menina.
Muito mais do que surpreso, o Dr. Marcelo ficou perplexo. Em se tratando de Marcela, não estava acostumado a ouvir elogios...
- É verdade. Ótima meninaa.
Completou Seu Francisco, deixando o Dr. Marcelo definitivamente atônito. Dona Lúcia e Vivi pediram licença, e se aproximaram do elevador. Quando finalmente entraram nele e a porta se fechou, seu Francisco, com seu jeito calmo e simpático de sempre, já tinha deixado o pai de Marcela à vontade e tranqüilo. Conversavam como se fossem velhos conhecidos.

Vivi e Dona Lúcia ficaram alguns minutos – que pareceram uma eternidade para Vivi – esperando a porta do quarto de Marcela se abrir depois que bateram nela.
A única vez em que Vivi a tinha visto – naquele dia constrangedor em que estava nua na cama com Marcela – não tinha tido tempo de reparar como a mãe de Marcela era bonita. Alta, loira, elegantíssima. Ela ficou parada com a porta entreaberta, olhando para as duas, com o rosto inexpressivo. Parecendo muito abatida.
Dona Lúcia se apresentou, e apresentou a filha. Só então dona Heloísa - a mãe de Marcela – finalmente reconheceu Vivi.
A ruiva sustentou o olhar de Dona Heloísa um pouco envergonhada, mas com uma firmeza e dignidade invejáveis.
O que Vivi não sabia, era que além do incidente lamentável, Dona Heloísa sabia muito bem quem ela era, porque... tinha visto várias fotos de Vivi no laptop e no celular da filha – sem Marcela saber, é claro. E que a própria Marcela tinha confessado – depois da mãe insistir muito, porque detestava que os pais soubessem da vida dela – que estava namorando, com um brilho nos olhos que denunciava que estava apaixonada.
Dona Heloísa avaliou Vivi de cima a baixo. Não se tratava mais de aceitar ou não a homossexualidade da filha. Sete anos depois da revelação bombástica, isso já não se discutia, era fato consumado. Nem a preocupava mais.
O que a fazia ter medo, muito medo, era o fato de Marcela estar apaixonada. Porque desde que a filha tinha 15 anos, mostrava um talento natural – se é que se podia chamar assim - para escolher as pessoas mais erradas.
Mas aquela menina parecia diferente – em pé ali na frente dela, com a mãe do lado. Pelo menos dona Heloísa gostaria que fosse. Que finalmente, Marcela tivesse acertado.
- Será que nós podemos enntrar?
A voz suave e gentil de Dona Lúcia trouxe dona Heloísa de volta à realidade.
- Ãh? Desculpem... Podem entrar,, claro...
As três entraram no quarto. A luz estava apagada. Apenas um abajur na cabeceira da cama permitia que vissem Marcela deitada, parecendo ainda mais pálida do que normalmente era. Havia uma fragilidade assustadora, quase um desamparo, na figura dela.
Ver Marcela daquele jeito fez as lágrimas escorrerem pelo rosto de Vivi. Se aproximou da cama rapidamente. Pouco se importando com o que a mãe de Marcela ia pensar, acariciou os cabelos negros, jogando-os para trás. Depois passou as mãos no rosto dela, e segurou as mãos de Marcela entre as dela com suavidade.
Dona Lúcia fez com que dona Heloísa saísse com ela do quarto, de uma forma gentil, mas firme, impossível de ser contrariada.
Sozinha com Marcela, Vivi encostou o rosto no dela, chorando. Ela quase a tinha perdido. Pensar nisso fez Vivi abraçar Marcela com força. E suspirar... Há mais de um mês que não a tocava. Aspirou o cheiro dela, a beijou no rosto, depois nos lábios. Doce, carinhosa, cuidadosamente...
Então respirou fundo, enxugou as lágrimas e sussurrou no ouvido dela:
- Vou fazer daimoku no seu ouvido, Marccela... Porque te amo... E quero que você volte pra mim...
Começou a recitar:
- Nam myoho rengue kyo... Nam myoho renngue kyo... Nam myoho rengue kyo...
Perdeu a noção do tempo. Segurando com força as mãos dela, concentrou toda a energia que tinha, com uma determinação e uma convicção absolutas, decisivas.
Quando terminou, e voltou a olhar para Marcela, viu uma lágrima – uma única lágrima, mas a promessa de esperança contida nela era infinita - escorrendo no rosto dela. A beijou novamente, de uma forma suave, amorosa ao extremo.
Disse firme, sorrindo, sabendo que ela estava ouvindo:
- Quando eu voltar amanhã, meu aamor, quero te ver acordada.
Voltou a passar a mão carinhosamente nos cabelos negros. Encostou os lábios nos de Marcela, como se a quisesse tocar com a alma.
Para quem via de fora, um momento como nos contos de fadas, onde o beijo de amor verdadeiro é capaz de fazer a princesa despertar.
Então levantou os olhos e levou um susto tremendo, porque... a mãe de Marcela estava parada em silêncio perto da porta, olhando para elas.
Não sabia há quanto tempo ela estava lá. Naquele momento, não importava.
- Eu só... vim avisar que o hor&ário de visitas terminou...
Dona Heloísa falou, com uma voz muito cansada, sem desviar os olhos de Vivi.
A ruiva balançou a cabeça afirmativamente, lançou um último olhar para Marcela, soltou a mão dela lentamente – como se não a quisesse deixar – e se afastou da cama. Caminhou até a porta, as lágrimas escorrendo novamente.
Quando colocou a mão na maçaneta, a mãe de Marcela a segurou pelo braço. Vivi se virou, e por um momento as duas se olharam, entre as cortinas de lágrimas. Num entendimento pleno, sem palavras. Apenas a certeza do amor por Marcela que compartilhavam.
A única coisa que Vivi disse foi:
- Por favor, me avisa quando ela acordaar...
Dona Heloísa percebeu que ela não tinha dito “se”, e sim “quando”. Passando uma segurança e certeza que a contaminaram. Exatamente o tipo de sentimento que, naquele momento, a mãe de Marcela precisava. Com uma voz muito doce, carinhosa mesmo, respondeu:
- Pode deixar. Sua mãe já; me deu o telefone de vocês.
Vivi agradeceu. Depois, se virou e saiu. Deixando dona Heloísa com uma esperança que era... quase um alívio.

Assim que chegou em casa, Vivi falou para seu Francisco, Dona Lúcia e Carol:
- Vou fazer 10 horas de daimoku.
Dez horas de daimoku. Uma determinação muito difícil, principalmente para se fazer sozinha. Além disso, quanto mais pessoas fazendo juntas, mais forte é o daimoku. Exatamente por isso, os três responderam que iam acompanhar Vivi. Sem nem pestanejar.
Quando começaram eram dez horas da noite. Fizeram quatro horas direto, sem parar. De vez em quando um deles levantava, iam rapidamente ao banheiro, ou bebia água. Mas o daimoku continuava.
Depois de um pequeno intervalo, fizeram mais três horas. E então, outro intervalo.
Quando entraram nas três horas finais, Vivi nem olhava mais para o relógio. Já tinha atingido um estado que para quem nunca experimentou, é inexplicável...
Firmemente concentrada em seu objetivo: que Marcela acordasse. Visualizava Marcela abrindo os olhos, levantando da cama. Com a certeza inabalável de que isso aconteceria antes que as dez horas terminassem. Ou seja: a qualquer momento.

Marcela abriu os olhos lentamente. Sem saber onde estava. Aos poucos lembrando do que tinha acontecido como se fosse um sonho, ou algo vivido por outra pessoa, há muito tempo atrás.
Sentiu uma dorzinha na mão direita. Viu que tinha uma coisa espetada nela. Soro, na verdade.
Sentou na cama com dificuldade. Estava um pouco tonta, a cabeça doía, um ardor no estômago a incomodava. A primeira coisa que viu foi a mãe deitada no sofá. A voz saiu fraca, a garganta parecia arranhada quando chamou:
- Mãe?
Dona Heloísa levantou de um pulo. Praticamente correu para perto de Marcela. Abraçou a filha com força, as lágrimas escorrendo abundantemente enquanto repetia:
- Marcela... Minha filha...
Marcela se deixou apertar, beijar, tocar, acariciar, ainda completamente aturdida. Perguntou:
- Eu não morri?
Entre as lágrimas, dona Heloísa riu. E respondeu, com uma felicidade que dinheiro nenhum compraria:
- Não, filha... Você t&aaccute; viva...
Marcela também riu. E na mesma hora pensou em Vivi.
A mãe já estava no telefone. Desligou e disse:
- Seu pai tá vindo.
Depois discou novamente. Marcela não acreditou quando ouviu:
- Lúcia? É a Heloí;sa. Isso mesmo, ela acabou de acordar. Deixa eu falar com a Viviane...

Ainda faltavam uma hora e meia para completarem as 10 horas de daimoku quando o telefone tocou.
Dona Lúcia atendeu imediatamente. Nem precisou dizer nada, Vivi já parecia saber quando estendeu o telefone dizendo:
- A Marcela acordou, filha.

Marcela ficou sentada na cama, ansiosa, prestando atenção em cada palavra que a mãe dizia:
- Ela tá ótima. Pode sim..
Dona Heloísa entregou o celular para a filha:
- A Viviane quer falar com você.<
Com o coração acelerado, se esforçando para conseguir respirar direito, colocou o aparelho no ouvido. Podia escutar nitidamente o daimoku ao fundo. Sussurrou, como se fosse a resposta a todas as preces:
- Vivi...
Do outro lado da linha, Vivi fechou os olhos. Deixou escapar um suspiro de alívio. Ouvir a voz de Marcela, era... indescritível. As lágrimas escorreram sem que pudesse impedir:
- Marcela... como você tá??
Marcela também se emocionou. Sentia uma estranha sensação. Como se de alguma forma, Vivi a tivesse arrancado do vazio...
- Eu... tô bem... tô &oacutte;tima... Na verdade, acho que nunca me senti assim... tão viva...
Ela fungou, enxugou os olhos, e depois riu. Um riso puramente feliz. Que fez Vivi rir também. Com uma felicidade impossível de se explicar. Muito maior do que simples palavras.
- Mais tarde eu passo aí. Quero puxar sua orelha pessoalmente.
Apesar da brincadeira, através da voz de Vivi, Marcela finalmente conseguiu sentir o peso do que tinha feito. Só conseguiu balbuciar, com a voz muito trêmula:
- Vivi... eu... me desculpa...
Ouviu Vivi deixar escapar outro suspiro. Muito diferente do primeiro. Reprovacão? Decepção? Exasperação? Dessa vez não conseguiu compreender nem definir exatamente o significado... Nada de bom, isso ficou muito claro.
Vivi disse, com um tom de voz absurdamente sério:
- Só quero que você prometta uma coisa...
Marcela ia concordar, mas Vivi não deu chance. Completou direto:
- Nunca mais me assusta desse jeito. Alguns minutos de silêncio foram necessários para que o pedido fosse entendido realmente. Com tudo que Vivi queria dizer nessa simples frase. Para que Marcela pudesse responder com total sinceridade. Um juramento feito não apenas para Vivi, mas para si mesma:
- Nunca mais. A partir de hoje vou mudaar, Vivi. Prometo.

 

Capítulo : Obstáculos...

 

Marcela jurava que o pai ia entrar naquele quarto uma fera. E brigar, aos berros, com ela.
Mas não foi o que aconteceu. O dr. Marcelo entrou muito sério. Os olhos vermelhos, inchados, como se tivesse passado a noite...
“Chorando? Seria possível?” – não conseguia acreditar... – “No mínimo, acordado, preocupado... comigo?” – Marcela não teve como deixar de pensar.
Ele se aproximou da cama, com um sorriso. Ficou parado olhando para a filha, como se não soubesse bem o que fazer, ou precisasse tomar coragem. Dona Heloísa apertou a mão dele, numa evidente tentativa de incentivar.
Marcela continuou sentada, perplexa. Sorrindo de volta, muito sem graça. E então o dr. Marcelo se sentou na beira da cama, a puxou, e abraçou com força. Demonstrando incondicionalmente o quanto tinha ficado com medo de perdê-la.
A primeira reação de Marcela foi arregalar os olhos e ficar paralisada. E depois... foi deixar que as emoções fluíssem livremente. Abraçou o pai de volta. Os olhos se encheram de lágrimas.
O pai segurou o rosto de Marcela entre as mãos. A olhando como se quisesse se certificar de que a filha estava realmente cem por cento. Enxugou as lágrimas que escorriam no rosto dela com os dedos. E sem palavras – incrível para um advogado, mas era assim mesmo quando estava muito emocionado. E Marcela entendeu, porque... com ela acontecia o mesmo – depositou um beijo carinhoso na testa da filha antes de se levantar e dizer:
- Vou lá fora um instante...
> Caminhou em direção a porta, disfarçando os olhos molhados. Colocou a mão na maçaneta e sem se virar, disse, como se de repente se lembrasse:
- Preciso avisar o André... onteem ele me pediu...
E antes que Marcela pudesse falar ou fazer qualquer coisa, saiu, fechando a porta atrás dele.

Assim que Vivi desligou o telefone, voltou para frente do gohonzon. Ainda faltava um pouco mais de uma hora para completar as 10 horas que tinha determinado.
Continuou, agora movida pela gratidão. Por Marcela estar novamente bem. E pela enorme felicidade que tinha no coração.

Nada do que a mãe contou acalmou o ódio que Marcela sentiu por André ter se passado por herói depois do que tinha feito com ela. Nem mesmo o fato de saber que ele tinha sido responsável por avisar Vivi.
Por Marcela, o que tinha acontecido naquele quarto ficaria entre eles. Porque a vergonha e o gosto amargo que a simples lembrança trazia era maior do que todo e qualquer sentimento de revolta ou vingança. Na verdade, adoraria enterrar, esquecer, mas... Foi obrigada a contar.
Aos poucos, falando baixo, com muita dificuldade. Fazendo pausas imensas para enxugar as lágrimas, conter os soluços e respirar. Com uma dona Heloísa que a cada palavra da filha ficava mais chocada, emocionada e revoltada.
Quando finalmente terminou, e a abraçou, Marcela percebeu que a mãe também estava chorando e tremendo. De pura raiva. Num tom de voz profundo, que nunca tinha ouvido ela usar, murmurou:
- Você sabe que podemos acabar coom a vida dele. É só você dizer.
A frase não tinha nada a ver com matadores profissionais ou coisa do gênero... O dr. Marcelo era um dos melhores – quiçá o melhor – advogados criminalistas do país. Além disso, tinha dinheiro suficiente para mandar André para a cadeia por um bom tempo.
Naquele momento, Marcela tentou controlar inutilmente os inúmeros e terríveis sentimentos que pensar em André a fazia sentir. Raiva, pena, tristeza, dor, decepção, nostalgia, desprezo...
Balançou a cabeça negativamente, um sofrimento enorme na voz ao dizer:
- A única coisa que quero &eacutte; nunca mais chegar perto dele.
A mãe assentiu com a cabeça. Depois respondeu:
- Tudo bem. Mas vou ter que contar pro seu pai.
Levando Marcela ao desespero:
- Não... Por favor... Nãoo quero que ele fique sabendo...
- Filha...
Dona Heloísa segurou as mãos de Marcela entre as dela, querendo acalmá-la, mas não conseguiu:
- Ele vai dizer que a culpa é miinha, tenho certeza...
Marcela voltou a chorar. Parecia assustada, com medo. Como uma criança que tivesse sido pega fazendo algo errado. Dona Heloísa a abraçou e embalou, até ela se acalmar novamente. Só então contestou:
- Você não conhece seu paii mesmo... Ele vai querer matar o André. Tenho até medo... Mas ele vai saber lidar com a situação... E manter o canalha bem longe de você. Confia em mim, filha...
Mesmo sem entender porque, Marcela acreditou na mãe. E concordou.
- Tá bem.
Uma decisão inédita. A primeira de muitas que ainda viriam a acontecer.

Quando a loira chegou no corredor, procurando o quarto 301, viu um homem muito bem vestido e totalmente descontrolado, berrando no celular:
- Miserável! Se chegar perto della de novo eu acabo com você! Tá me ouvindo?
Uma loira elegantíssima tentava acalmar o indivíduo, sem muito resultado. Ele continuou xingando e ameaçando o pobre coitado que estava do outro lado.
Gisele passou direto pelo casal, sorrindo, como se achasse engraçado.
Bateu na porta, ouviu a voz de Marcela dizendo:
- Entra...
E deduziu que ela devia estar sozinha no quarto. Abriu a porta e entrou, esbanjando charme.

Marcela estava tensa, muito tensa, porque... podia ouvir os gritos do pai de dentro do quarto. Daquele jeito, o dr. Marcelo Albuquerque de Moraes Terceiro ia acabar sendo expulso do hospital...
Não conseguiu evitar o sorriso que se formou de forma involuntária... Nunca tinha se sentido tão protegida, amada, amparada. Como se finalmente, tivesse... uma sólida e segura base.
Foi quando bateram na porta. Pensou que fosse Vivi, por isso mandou que ela entrasse.
Sem conseguir acreditar, viu Gisele se aproximando da cama com um sorriso sedutor nos lábios. A cara de decepção que fez foi tão grande, que a loira alfinetou, irritada:
- Tava esperando outra pessoa? A ruivinnha aguada, por acaso?
Na mesma hora, Marcela fechou a cara. Gisele continuou:
- Você some durante uma semana, nnão atende meus telefonemas, nem nada... Tive que ligar pro André pra saber onde diabos você estava.
- Será possível que voc&eecirc; nunca vai me deixar em paz?
Marcela pensou alto, sem nem perceber que falava. A frase soou como um sincero desabafo. Mas a auto estima de Gisele era inacreditável:
- Até parece que você n&attilde;o gosta... Minha gatinha rebelde... Confessa que não vive sem mim... Que me adora... Fala...
Passou os braços ao redor do pescoço de Marcela, e colou os lábios nos dela. Com uma rapidez que a pegou de surpresa.
Marcela não teve como evitar, mas ficou imóvel, sem corresponder. Empurrando a loira até conseguir se soltar.
Gisele recuou, parecendo não entender. Marcela fez questão de explicar:
- Gisele, acabou. Não quero maiss.
Mas a loira simplesmente não estava disposta a aceitar:
- Claro que quer. Deixa de ser babaca!<
Sem desviar os olhos da mulher na frente dela, não conseguindo entender o que tinha visto na loira absurdamente vulgar, nem como podia ter feito a burrice de perder Vivi por causa dela, Marcela foi firme, categórica:
- Decidi me livrar de tudo que me faz mmal.
Gisele soltou uma gargalhada. De deboche, ira, raiva... Antes de falar com total desprezo, como se Marcela fosse uma criança que não sabe de nada:
- Defina fazer mal, garotinha..
Marcela respondeu sem pestanejar:
- Tudo que me faz ter vontade de tomar uma caixa de comprimidos inteira.
A loira ficou perplexa. Abriu e fechou a boca várias vezes, mas estava completamente sem palavras. Marcela continuou:
- Agora, por favor... Quero que voc&eciirc; saia desse quarto, da minha vida e que não volte nunca mais!
Se Gisele pensou em responder, não teve oportunidade porque... os pais de Marcela entraram no quarto.
A loira nem se apresentou. Se desculpou, e alegando estar atrasada para um compromisso inadiável, foi embora se mordendo de raiva.

Vivi saiu do elevador – acompanhada por Carol e os pais – bem a tempo de ver Gisele saindo do quarto de Marcela.
E isso desmanchou como que num passe de mágica – ou de magia negra, seria melhor dizer – a felicidade em que se encontrava.
Na mesma hora, se viu transportada para a noite fatídica da boate. O estômago se contraiu automaticamente. Todo e qualquer desejo de voltar com Marcela desapareceu. Na verdade quase se odiou por ter cogitado a idéia de a perdoar.
Porque como sempre, Marcela falava, falava, mas não mudava. A prova estava ali, parada na frente de Vivi, com um sorriso superior de pura maldade ao dizer:
- Tem gente que não aprende, n&aatilde;o é mesmo?
Obviamente, Vivi não respondeu. Se virou para caminhar até a porta do quarto, onde os pais e Carol estavam parados, esperando. Mas a loira a segurou pelo braço. E falou com um falso sorriso amigável, bem baixo, para que só a ruiva escutasse:
- Olha aqui, menina. Presta atençl;ão no que eu vou te dizer: provavelmente a Marcela deve ter te contado mil mentiras... Aposto que prometeu que ia mudar... Que aquilo que aconteceu no banheiro daquela boate não ia mais se repetir... E você... ah, coitadinha... acreditou, claro. Mas como já deve ter percebido, a Marcela é minha. Já era quando você entrou na vida dela, e vai continuar sendo, muito depois de você ter desaparecido.
E dizendo isso, soltou Vivi e se afastou absolutamente vitoriosa e triunfante. Sabendo que tinha conseguido o que queria... pela profunda e imensa onda de dor que se alojou nos olhos verdes e os fez marejarem.

Vivi ficou parada no meio do corredor, afundada em mágoas. Dolorosas, terríveis, intermináveis. Levou as mãos ao rosto, e quando finalmente as tirou, já estava rodeada por Carol e pelos pais. Foi dona Lúcia quem verbalizou o que os três pensavam:
- Vivi... não sei o que voc&ecirrc; ouviu, mas... não pode acreditar sem falar com a Marcela antes, filha...
Vivi até concordava. Racionalmente, claro. Emocionalmente, o que Marcela tinha feito continuava indesculpável. Na verdade, era como ter uma ferida inflamada, não cicatrizada. Um leve sopro de maldade da loira tinha sido o bastante para que voltasse a sangrar.
Fazendo Vivi se lembrar de que era apenas humana, e que como todo mundo, ainda tinha muitas coisas para transformar.
- Ainda não consegui perdoar a MMarcela... Ainda sinto muita raiva...
Tentou explicar. Dona Lúcia sorriu, e dessa vez foi seu Francisco quem interferiu:
- Filha, você já sabe o quue eu vou falar: raiva é a mesma coisa que tomar veneno...
E Vivi completou a frase que já tinha ouvido milhares de vezes:
- ... E esperar que a outra pessoa morrra... É, eu sei... sei de tudo isso... Mas... pra transformar as coisas a gente precisar querer, e... sinceramente... agora, nesse momento... não tô com a menor vontade...
E então foi a vez de Carol soltar:
- Vivi, a questão aqui é muito simples: nós vamos ou não vamos entrar nesse quarto?
Vivi olhou para a irmã mais velha, que tinha no rosto um sorriso muito calmo. E respondeu:
- Vamos, claro.
Foi só o que falou. Mas em pensamento, confessou para si mesma:
“Porque apesar de estar morrendo de vontade de encher a Marcela de tapas, tô louca pra olhar praqueles olhos negros...”
Então enxugou as lágrimas, ergueu a cabeça e respirou fundo. Caminhou até a porta do quarto de Marcela, girou a maçaneta e entrou, seguida por Carol e os pais.

Marcela estava ansiosa. Não parava de perguntar as horas, nem de olhar para a porta. Foi quando finalmente, ela se abriu e... Vivi entrou.
E com ela seu Francisco, dona Lúcia e Carol. Dona Heloísa e o dr. Marcelo se levantaram do sofá, e houve toda uma confusão de palavras e cumprimentos alegres e amigáveis.
Marcela ficou sentada na cama, sem poder fazer nada além de olhar. Vivi foi a primeira a terminar de falar com todos e se aproximar. Ficou a alguns passos de Marcela, os olhos verdes olhando fundo nos dela.
Como sempre, os olhos negros mergulharam nas esmeraldas cintilantes com absoluta entrega.
Os pais de Vivi beijaram e abraçaram Marcela, e depois saíram do quarto, acompanhados por dona Heloísa e pelo dr. Marcelo.
Parada ao lado da irmã, achando graça nas duas que se olhavam quase como se estivessem hipnotizadas, Carol deu um alô, dizendo:
- Bom, vou deixar vocês conversarrem...
E também se retirou.
Como se uma força incontrolável a puxasse, Vivi se sentou ao lado de Marcela na cama.
Sem que nenhuma das duas dissesse nada, com um movimento quase sincronizado, os rostos se aproximaram. Muito devagar. Os hálitos se misturando, os olhares se provando muito antes dos lábios.
Quando as bocas finalmente se tocaram, foi como entrar no olho de um furacão. Por alguns segundos um silêncio doce e suave, uma quase imobilidade, como se o mundo inteiro parasse de girar.
E então, o turbilhão intenso, as línguas, os lábios, as mãos que se buscavam, girando totalmente entregues à necessidade irresistível, incontrolável, inevitável. Que tornava impossível respirar ou fazer o coração bombear menos rápido.
Além dos limites da razão ou de qualquer noção que não fosse a dos sentidos e desejos que gritavam, exigindo serem saciados.
Quando Vivi se deu conta, estava sentada de pernas abertas em cima de Marcela, que já a acariciava por baixo da saia, os dedos driblando a calcinha com uma habilidade e agilidade surpreendentes. Afastou a mão de Marcela, ofegante:
- Não... Alguém pode entrrar...
Marcela desgrudou a boca do pescoço dela, e sussurrou, a voz arquejante, rouca de desejo:
- Ai, Vivi... Tô morrendo de sauddade... Deixa, vai...
Ainda contendo a mão de Marcela, que tentava de qualquer jeito se soltar para retornar ao contato íntimo, Vivi protestou:
- Marcela, para... Isso é loucurra...
Comprovando o que a ruiva estava dizendo, Marcela abaixou uma das alças do vestido de Vivi, e acariciou o seio que desnudou com os lábios, arrancando arrepios e gemidos antes de responder:
- Você me enlouquece... Esqueceu??
A cena que veio na mente de Vivi, com a clareza de um filme, foi aquele momento na parede da boate, com Marcela dizendo:
- Tão gostosa... Dá pra mmim, dá...
E foi isso que realmente a fez recuar. Se livrou das mãos de Marcela quase com desespero.
Levantou da cama, e se afastou, ajeitando a roupa. Se manteve de costas para ela, balançando a cabeça, como se afirmasse para si mesma:
- Chega de doideira... Não &eacuute; isso que eu quero... Não é assim que eu quero... Não mesmo...
Então se virou de repente, os olhos faiscando irritadíssimos ao acusar os negros:
- Será que você nãoo entende?
Marcela se arrependeu na mesma hora:
- Desculpa, Vivi... me desculpa...
Mas só conseguiu aumentar a raiva de Vivi:
- É só isso que vocêc; sabe fazer? Pedir desculpas? Não adianta pedir desculpas, se você nunca se cansa de cometer os mesmos erros!
Os olhos negros se afogaram. As lágrimas escorreram livremente. Marcela só conseguiu balbuciar:
- Vivi, eu... eu...
Vivi olhou novamente para ela. Arrependida, porque... tinha sido dura demais, cruel demais. Tanto que tinha feito Marcela chorar...
O brilho verde se tornou amoroso, carinhoso ao extremo, quando a ruiva se aproximou, dizendo:
- Marcela... eu que peço desculppas... Tô errada... não tenho o direito... não posso... não devo... quem sou eu pra falar desse jeito com você?
Quando Vivi sentou novamente na cama, Marcela se abraçou a ela com alívio. Enfiou o rosto nos cabelos vermelhos, se deliciando com o cheiro dela... Ainda de olhos fechados, falou apaixonadamente:
- Você é a mulher que eu aamo... Pode falar comigo como quiser...
Vivi suspirou. Com um misto de carinho e tristeza. Afastou o corpo, mergulhou o brilho verde nos negros, e com uma voz muito doce e meiga, retrucou:
- Não posso não. Se eu tee aponto um dedo, três voltam pra mim...
Apontou com a mão, ilustrando com o gesto para que Marcela compreendesse. E continuou:
- Nós duas juntas... Não sei porque, mas... é o que sempre acaba acontecendo... acabamos sempre nos machucando, sofrendo... É por isso que acho que o melhor é ficarmos separadas...
- Não!
Marcela falou imediatamente, de uma forma veemente. Mas Vivi ignorou completamente a negação:
- Por um tempo... Pelo menos nesse momeento...
Segurando as mãos de Vivi entre as dela, Marcela voltou a chorar. O coração parecendo rasgar dentro do peito. Não podendo, não tendo como aceitar:
- Vivi, eu te amo. Não quero ficcar sem você. Nem por um momento.
As chamas verdes aumentaram. Alimentando a esperança dos olhos negros. Mas aos poucos foram se apagando, conforme as lágrimas escorriam das esmeraldas enquanto Vivi falava:
- Também amo você, Marcelaa... Só que o que você fez comigo naquele dia, é uma coisa que não consigo esquecer... nem perdoar... Você não sabe o que foi entrar naquele banheiro e ver...
Um soluço a impediu de continuar. Marcela a abraçou, como se quisesse que a dor que Vivi sentia passasse para ela. A ruiva repetiu, várias vezes, com uma voz absolutamente angustiada:
- Você não sabe...
Realmente, Marcela não sabia. A comparação mais próxima que tinha era a dor enorme que sentiu ao ver Vivi beijando Ana Cláudia. E a raiva sem limites quando pegou Caitlin a traindo. Nenhum dos dois casos, nem de longe, se comparava ao que Vivi tinha assistido... Por aí Marcela pôde começar a compreender o que ela devia estar sentindo...
Com uma angústia profunda, acariciou os cabelos de Vivi, a beijou no rosto, na cabeça... Não ousou pedir desculpas novamente. Ao invés disso sussurrou baixinho, com um sofrimento sincero:
- Se eu pudesse voltar no tempo... Querria muito não ter feito aquilo... Sei que a culpa é toda minha...
Vivi parou de soluçar. Sacudiu a cabeça discordando. Tinha tantas coisas para explicar... Queria deixar tudo bem claro para Marcela... Não sabia bem como, mas... precisava. Com o brilho verde ligado aos olhos negros, começou a tentar:
- Mas você fez... e é uma causa... pode ser mudada, mas já tem um efeito... Ficar com você pra mim seria... insuportável...
Incrivelmente, Marcela não disse uma palavra. Apenas ficou ouvindo, calada, porque... não tinha o que dizer. Não podia nem contestar. Vivi continuou:
- Não é uma questã;o de culpa, Marcela... Pro budismo não existe culpa, e nada acontece por acaso. Não é uma historinha maniqueísta, onde você é a vilã malvada e eu sou a vítima, a coitada... Se aconteceu é porque tava nas nossas vidas. Na sua e na minha... Porque em algum momento, nessa vida ou em vidas passadas, fizemos a causa pra que você fizesse isso comigo... Quero que você entenda bem isso.
Marcela a olhou absolutamente perplexa. Estava entendendo, só era inacreditável que depois de tudo, Vivi ainda estivesse preocupada em esclarecer as coisas, com toda aquela calma... Quase como se fosse uma aula:
- Não consigo mais acreditar nemm confiar em você... E é terrível isso... Porque são sentimentos, pensamentos que me fazem sofrer, que me fazem mal... Sei que preciso superar... e transformar. É o que eu quero e pretendo, mas... Nesse momento, ainda não consigo.
Para Marcela ficou claro, e ela até entendia... com a mente. Mas o coração se recusava. Insistia em lutar:
- Vivi, eu posso... eu... vou ser diferrente, você vai ver... vou parar de beber, de me drogar... vou mudar, prometo pra você...
Vivi colocou as mãos no rosto, um pouco exasperada. Era muito difícil dialogar com Marcela, porque ela era... Abusivamente insistente, persistente, passional... Coisas que Vivi adorava, e que a faziam querer voltar a colar os lábios nos dela. Com um esforço incrível, sufocou todos os desejos e vontades.
Sabendo perfeitamente que se um dia ainda quisessem ficar juntas, seria necessário que as duas mudassem. Todas as loucuras e brigas, todos os incidentes e desastres, não tinham acontecido única e exclusivamente por conta de Marcela. Vivi também era responsável. A cortou delicadamente:
- Marcela, nisso tudo que você t&á dizendo... sabe o que tá errado?
Vivi sorriu quando Marcela respondeu sacudindo a cabeça negativamente, com um olharzinho perdido adorável. E prosseguiu:
- Não é por mim nem pra mmim que você precisa mudar. É por você. Pra você mesma. Só vai acontecer quando você decidir e quiser de verdade.
Vivi ia se levantar, mas Marcela a impediu, a segurando – com uma delicadeza surpreendente – pelo braço. Mergulhou os olhos negros – dois mares profundos, cheios de promessas sinceras, apaixonadas – nas esmeraldas que inconscientemente, cintilaram. Vivi se arrepiou com a forma como Marcela disse, num tom de voz baixo, como se determinasse:
- Pode demorar o tempo que for, Vivi, mmas vou ser muito feliz... com você do meu lado.
Desceu a boca sobre a de Vivi, de uma forma totalmente ardente, exigente, voraz. E Vivi não resistiu. Pelo contrário. Correspondeu com a mesma derradeira e profunda intensidade.
Marcela acariciou as costas de Vivi. A puxou carinhosamente, colando o corpo no dela. Vivi suspirou, com aquele jeitinho doce, entregue, quase ronronado, que sempre fazia Marcela perder a cabeça. Depois escorregou a mão pelo pescoço dela, enfiando os dedos nos cabelos negros, a segurando pela nuca.
As línguas se devoravam, se saboreavam, numa dança faminta, abafando os gemidos que surgiam quase sem querer. O beijo se aprofundou, e ficar só naquilo começou a se tornar impossível, impensável, insuportável.
Fazendo Vivi encostar as mãos nos ombros de Marcela, e delicadamente, usando de toda força de vontade que tinha, a empurrar para longe.
Marcela não reagiu, nem insistiu. Se afastou, como pedia o gesto dela, separando os lábios dos de Vivi com um desejo insatisfeito, sufocado.
Ficaram frente a frente, muito próximas, as respirações voltando ao normal enquanto os olhos ainda se acariciavam.
Vivi passou a mão no rosto de Marcela, numa carícia leve, suave. Depois a abraçou com força, o rosto colado no dela, os olhos fechados, o corpo tremendo. Sussurrou com um tom de voz que era... pura tristeza:
- Eu sinto muito... Muito mesmo...
Depois, de uma forma súbita, urgente, de repente, se afastou e levantou. Saiu do quarto sem olhar para trás, quase correndo. Sem que Marcela nada pudesse dizer ou fazer.

 

 

 

Capítulo : Tornar-se um Lago...

 

Vivi saiu com os olhos vermelhos e inchados de dentro do quarto. Era evidente que tinha chorado. Mas ninguém comentou nem perguntou nada.
Ficou conversando com dona Heloísa e dr. Marcelo enquanto dona Lúcia, seu Francisco e Carol se despediam de Marcela.
Marcela beijou os pais de Vivi. Agradeceu sinceramente a preocupação e carinho deles. Carol ficou observando atentamente. Quando finalmente se aproximou, ficando frente a frente com os olhos de Marcela - que estavam idênticos aos de Vivi, absolutamente nublados - entregou um papel dobrado para ela, dizendo:
- Acho que você vai gostar. L&eciirc; e depois me diz. Vou anotar todos os meus contatos aqui. Não deixa de me ligar, Marcela.
- Tá...
Mas como Marcela não parecia muito convencida, insistiu:
- Deixa eu te falar uma coisa: faz daimmoku todos os dias durante um mês. Se não mudar nada na sua vida, pode bater com um pedaço de pau na minha cabeça. Eu permito.
Marcela não teve como deixar de rir:
- O que? Como assim?
Carol deu um sorriso muito parecido com o de Vivi:
- Sabe pra quantas pessoas eu já; disse isso? Um monte... E sabe quantas vezes apanhei? Nenhuma... Tá esperando o que então?
Novamente, Marcela riu. E respondeu:
- Tudo bem. Você me convenceu. Carol abriu um enorme sorriso. E falou, com uma voz absolutamente animada, antes de sair do quarto:
- Maravilha! Te vejo 3ª entãe;o.

Sentada no banco de trás do carro, com uma Vivi estranhamente triste do lado, Carol foi obrigada a interferir:
- Não tô agüentando tte ver assim, Vivi. Acho que você tá precisando disso. Lê e me diz...
E entregou um papel para Vivi. O mesmo que tinha dado para Marcela. Vivi enxugou as lágrimas, abriu e leu:

“ONDE VOCÊ COLOCA O SAL?
O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d'água e bebesse.
- Qual é o gosto? - perguntou o Mestre.
- Ruim. - disse o aprendiz.
O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago. Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago.
Então o velho disse:
- Beba um pouco dessa água.
> Enquanto a água escorria do queixo do jovem o Mestre perguntou:
- Qual é o gosto?
- Bom! - disse o rapaz.
- Você sente o gosto do sal? - peerguntou o Mestre.
- Não... - disse o jovem.
O Mestre então, sentou ao lado do jovem, e disse:
- A dor na vida de uma pessoa nã;o muda. Mas o sabor da dor depende de onde a colocamos. Quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido de tudo o que está a sua volta. É dar mais valor ao que você tem do que ao que você perdeu. Em outras palavras: É deixar de ser copo para tornar-se um lago.”

Vivi apenas sorriu. No mesmo instante em que Marcela, sentada na cama com o papel aberto nas mãos, também sorria, ao terminar de ler a mensagem.

Para Vivi, os dias se passaram com uma rapidez impressionante. Como se o tempo estivesse, de alguma forma, acelerado.
Mergulhou de cabeça no budismo, no estágio, na faculdade. Começou a estudar espanhol na Casa de Espanha e...teve coragem de se arriscar num curso de Dança Flamenca no mesmo local. Surpreendentemente, o joelho não reclamou. Pelo contrário. Dançar de novo se tornou para Vivi um imenso e maravilhoso desabafo, quase uma catarse.
Com tantas atividades, o que sobrava livre mesmo eram as noites de 6as e os finais de semana - quando não tinha reunião budista ou festas de família. Isso ajudava para que o relacionamento com Ana Cláudia se mantivesse superficial, quase descompromissado. A morena parecia satisfeita com os encontros de final de semana, e nunca reclamava nem cobrava nada.
Carol nunca falava com Vivi sobre Marcela. Mas às vezes escutava os pais e Carol comentando, elogiando, felizes com a transformação dela.
Quem fazia questão de manter Vivi informada era Carlinha, que estava encantada depois de Rafa – influenciado por Marcela – ter parado de usar drogas também. Marcela tinha até conseguido a proeza – há anos Vivi insistia sem resultado – de fazer Carlinha ir com ela e Rafa nas reuniões.
Inacreditável? Para Vivi, nem tanto. Escutava sem se surpreender muito. Conhecia Marcela, enxergava o potencial dela sem nenhum esforço. A primeira vez que tinha olhado dentro dos olhos negros, na xerox, já tinha visto... a essência plena, maravilhosa e profunda... Isso era fato.
Vivi não estava plenamente feliz, mas infeliz também não estava. E se esforçava para avançar e se dedicar a tudo como se não existisse aquela outra coisa. Que continuava colada no corpo dela, na pele, nos lábios. E se manifestava em arrepios, mãos geladas e tremores sufocados sempre que inevitavelmente encontrava Marcela na faculdade.
Porque ouvir falarem dela era uma coisa, mas... olhar para Marcela... era uma outra história.
Cada vez que passava por ela – agora sempre usando roupas sociais que a deixavam... linda, tão linda... absurdamente maravilhosa e sensual – fazia um esforço gigantesco para se controlar, porque a vontade insana que tinha era tocá-la, beijá-la, mergulhar novamente nos olhos negros turbulentos, sem nada de calmos...
Felizmente não passava disso porque... apesar de ler nos olhos negros o mesmo tipo de desejo e necessidade, Marcela também evitava cruzar com ela e... nunca se aproximava.

Para Marcela, foram dias tristes, mas... muito bem aproveitados. O tempo parecia cheio, preenchido, quase corrido. Como se ao invés de dois meses, dois anos tivessem se passado.
Na primeira semana depois que saiu do hospital, ficou na casa dos pais. No antigo quarto, que a mãe tinha mantido exatamente como Marcela tinha deixado. E incrivelmente, foram dias muito agradáveis. Tanto que várias vezes, deitada de noite em sua antiga cama – que antes tanto detestava - com a luz apagada, ficou na dúvida se queria mesmo sair de lá.
Acabou voltando para o apartamento no Leblon, mas... passou a jantar na casa dos pais duas vezes por semana - no mínimo. E almoçava com a mãe todos os dias na cidade antes de ir para o estágio.
Essa intimidade tardia com a família, recheada de surpresas inimagináveis, evitou que ela se sentisse sozinha. E deu ainda mais força para as dificuldades que estava enfrentando.
Para total e absoluta surpresa dos pais – que nunca tinham conseguido convencer Marcela a ir num psicólogo - começou a fazer análise. Sugestão daquela que tinha se tornado sua melhor amiga, e em quem confiava de verdade: Carol.
- Daimoku e análise juntos, amigga... é a combinação ideal.
Carol tinha comentado, com o jeito dedicado e firme de sempre. E isso tinha bastado para Marcela, que no momento, estava plenamente consciente de que precisava de toda ajuda possível e necessária, porque... parar de usar drogas e beber apenas socialmente não era nada fácil...
A primeira coisa que fez foi jogar fora todas as drogas que tinha em casa. Ainda não podia garantir que não usaria se estivessem à mão...
Sempre que a vontade de se drogar aparecia, fazia daimoku e lia o trecho do poema “Brasil seja Monarca do Mundo!” de Daisaku Ikeda, que tinha ganho de dona Lúcia, e levava sempre na carteira:

“Não faz mal que seja pouco,
O que importa é que o avanço de hoje
Seja maior que o de ontem
Que nossos passos de amanhã
Sejam mais largos que os de hoje
Atuem agora e vivam o presente
Com a certeza de que neste exato instante
Está se erguendo o futuro
Deixem seus méritos gravados
Na história de suas contínuas vitórias!
A dificuldade no momento presente
Será a glória em seu futuro!”

Não falhava um dia: gongyo da manhã e da noite, e uma hora de daimoku no mínimo. Estudava todo e qualquer texto sobre budismo que lhe caísse nas mãos.
- Fé, prática e estudo. Carol tinha dito, antes de completar:
- É como um carro. A fé ssão as rodas. Sem a prática, que é o motor, o carro não anda. E sem o estudo, que é o volante, o carro fica sem direção.
Carol era assim, cheia de histórias, exemplos, comparações... Que faziam Marcela entender com uma facilidade surpreendente todas as mudanças que estavam acontecendo em tão pouco tempo. Como se de repente, visse e sentisse as coisas de uma forma totalmente diferente.
Sabendo que o mais importante era a mudança de postura, no começo se policiava. Coisa bastante difícil, porque para Marcela, pensar negativo, reclamar e culpar sempre os outros por tudo o que acontecia eram hábitos... Mas, pouco a pouco, quase sem sentir - como se a mente e o coração limpassem – as pequenas coisas negativas que tanto a atrapalhavam foram se tornando mais e mais raras.
Claro que isso não queria dizer ausência de sofrimento, dificuldades e obstáculos. Só que quando esses apareciam, parecia mais fáceis de superar.
Todos menos um: a falta de Vivi. Essa era como um buraco, um vácuo, que não conseguia nem queria superar.
Quando a angústia realmente apertava, ligava para Carol. E Carol sempre a ajudava. Fazendo daimoku com ela, indo na casa de Marcela, dando textos maravilhosos, a chamando para todas as reuniões, e para o chope depois. A incentivando e apoiando sempre.
E a chamando para ir na casa dela, mas... Marcela só ia quando tinha certeza de que Vivi não estaria lá. Porque não agüentava o que lia nos olhos verdes quando se encontravam... um misto de desespero e tristeza intermináveis, quase como se sentisse acuada, ameaçada... Por isso, apesar de desejar a presença de Vivi mais do que tudo, preferia se manter afastada.

Vivi insistiu muito, mas muito mesmo para que Ana Cláudia fosse com ela na reunião. Era sábado à tarde, e tinham acabado de sair da praia.
- Ai, não, Vivi... Vou tomar um chopinho com as meninas... Porque você não vem também? Depois podemos ir pra outro lugar, ficar mais à vontade, que tal?
Segurou Vivi pelo braço, a beijando no rosto, encostando a boca no cantinho dos lábios dela sugestivamente. Vivi até ficou tentada. Mas faltar a reunião era algo impensável.
Acabou tomando um chopinho e, depois de um beijo rápido - quase roubado - nos lábios da morena, provocouu, sussurrando no ouvido dela:
- Quero te ver – ver não ée; bem a palavra... quero... ah, você sabe... mais tarde...
Ana Cláudia riu, e concordou com um sorrisinho malicioso, safado. Vivi piscou para ela e... correu para casa.

Marcela estava na sala 2 do Kaikan de Botafogo, sentada ao lado de Carol, ajudando a anotar o comparecimento da reunião.
No começo, Carol sempre criava oportunidades para que Marcela a ajudasse em todas as atividades. Até chegar na fase atual, onde a própria Marcela se oferecia, com a maior felicidade. Afinal de contas, se sentir útil, participar, fazer parte, eram coisas inéditas para Marcela, e por isso mesmo, muito desejadas. Ela adorava.
A reunião ainda não tinha começado. Estavam rindo de alguma coisa, com Daniel – um rapaz da comunidade delas – em pé na frente delas, quando Vivi entrou na sala.
O riso morreu na garganta de Marcela. Ficou paralisada. Não esperava que Vivi viesse, porque... eram de comunidades diferentes. A própria Vivi a tinha pedido para mudar.
O que Marcela não sabia - e Carol também não tinha falado – é que aquela era uma reunião de Distrito, ou seja, das duas comunidades.
Vivi, por outro lado, até sabia que Marcela deveria estar. Só não esperava que fosse ali, logo na porta – com uma camiseta verde musgo que realçava a pele branca maravilhosa - a lista de presença entre elas, obrigando Vivi a se aproximar.
Chegou perto da mesa com um sorriso sem graça. Deu dois beijinhos em Daniel, cumprimentou as duas, e ficou em pé na frente delas, esperando para assinar a folha de papel que estava na mão de Marcela.
Os olhos negros piscaram, como se quisessem sair da hipnose que os verdes causavam, e Marcela finalmente compreendeu por que Vivi estava ali parada. Gaguejou:
- Assina aqui...
Foi colocar a folha na mesa, ao mesmo tempo em que Vivi tentava pegar, e então, o nervosismo das duas fez - sem querer - que as mãos se encostassem.
Marcela sentiu todos os pelinhos do corpo se arrepiarem, como se uma corrente elétrica a tivesse atravessado. Vivi sentiu o mesmo, e... tirou a mão rápida e bruscamente, como se o contato fosse algo indesejável.
A rejeição causou uma dorzinha em Marcela, que a fez entregar a caneta para a ruiva segurando bem na pontinha. E Vivi também teve o cuidado de segurar na outra extremidade, porque... se se tocassem de novo, não ia suportar.
Assinou correndo. A letra saiu trêmula, irreconhecível quase. Marcela percebeu, mas não fez nenhum comentário.
Sem olhar novamente para os olhos negros, Vivi deixou a caneta na mesa e se sentou na frente, na primeira fileira, o mais distante possível.
Fizeram daimoku, gongyo, e a reunião transcorreu perfeitamente. Apesar de Vivi não conseguir prestar atenção nas pessoas que falavam. Concentrada para não ceder à vontade quase irresistível que sentia de se virar e buscar os olhos de Marcela, que – tinha certeza – a observavam. Sem saber direito como, conseguiu se manter virada para frente.
E então, o Shikai (apresentador) da reunião anunciou a parte cultural. E Vivi se assustou porque ele chamou... Marcela.
Ironicamente, a cadeira em que Marcela se sentou estava exatamente - na frente de - e de frente para – Vivi, é claro...
Ela se sentou, com o violão apoiado na coxa, e cantou, com a voz incontestavelmente linda que Vivi amava:

“Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver”

Então, e só então, Vivi conseguiu controlar a sensação que a voz de Marcela sempre causava – como se fosse uma carícia íntima, suave – e olhou para ela. E foi pior, porque... Os olhos negros estavam fixos em Vivi, e arderam, brilharam, se iluminaram em contato com os verdes:

“Toda pedra no caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver, saber viver!”
(“É Preciso saber Viver” – Titãs – Roberto Carlos)

Todos aplaudiram. Menos Vivi, que continuou ofuscada, mergulhada nos dois oceanos negros profundos, que tanto a perturbavam.
Marcela agradeceu, desviando os olhos por um momento. Depois presenteou Vivi com um sorriso lindo, límpido, meigo, antes de se levantar e voltar para o fundo da sala.
Daimoku Sansho e... Vivi ficou conversando, falando com as pessoas enquanto descia as escadas.
Quando chegou no primeiro andar, viu Marcela com o case do violão pendurado nas costas, conversando numa rodinha, ao lado de Carol.
Ia passar direto, mas a irmã se colocou na frente dela, puxando Marcela pelo braço:
- Vivi, a Marcela tem uma coisa importaante pra te falar...

 

Continua...

 


Capítulos adicionados no dia 20/04/08

Capitulo : Inevitável

Vivi arregalou os olhos, absolutamente surpresa. E fitou Marcela, um pouco tensa, é verdade, mas... o cintilar verde foi inevitável.
Marcela sorriu, bastante sem graça. Passou as mãos nos cabelos, hesitou um pouco, e depois falou, passando o peso do corpo de uma perna para a outra, inquieta de puro nervoso:
- Vou receber meu gohonzon na 2ª ffeira, e... bom, sou sua chakubuku e queria... adoraria se você estivesse na consagração...
Normalmente, é de praxe o apresentador (pessoa que apresentou a outra ao budismo) estar presente na concessão de gohonzon do chakubuku. Que é uma cerimônia importantíssima. Quando a pessoa decide realmente se converter ao budismo. Como se fosse um segundo aniversário.
O convite de Marcela era irrecusável. Mas Vivi estava com medo, porque o simples fato de estar na frente dela já a desestruturava completamente. Por isso, e só por isso deixou escapar:
- Eu tenho aula...
Os olhos negros ficaram absolutamente tristes. E Carol a fuzilou com o olhar. Vivi imediatamente consertou:
- Mas posso faltar. Não vou perdder por nada... Parabéns, Marcela! É maravilhoso! Fico muito feliz. Muito mesmo, de verdade.
Estava sendo sincera. O brilho intenso das esmeraldas comprovava. Fazendo Marcela voltar a sorrir, encantada.
Carol interrompeu a ardente troca de olhares, trazendo as duas de volta à realidade:
- O pessoal vai tomar um chopinho na Coobal. Vamos?
Vivi recusou, um pouco sem jeito:
- Não posso... Tenho outra coisaa marcada.
Marcela pôde ler perfeitamente nas entrelinhas: Ana Cláudia.
Apesar das duas serem super discretas na faculdade, e de Carol nunca, jamais comentar nada sobre a irmã, Marcela era muito amiga de Rafa. E através de Carlinha, Rafa sabia tudo sobre Vivi e Ana Cláudia.
Depois de Marcela muito insistir, ele tinha contado que as duas não estavam namorando oficialmente, mas... tinham, desde o dia do churrasco – e isso tinha doído profundamente em Marcela - um relacionamento aberto, porém ... total e inquestionavelmente estável.
Vivi percebeu, assim que o sorriso morreu nos lábios de Marcela, que tinha falado demais. Bastante chateada, porque não tinha a intenção de causar sofrimento em Marcela, se despediu. E só pegou o celular para ligar para a morena quando chegou na rua, a uma distância segura e razoável.

A 2ª feira começou com uma chuva grossa, persistente, interminável. Que presenciou a primeira discussão entre Vivi e Ana Cláudia.
Tinham acabado de sair do escritório, debaixo de um único guarda-chuva, aproveitando para andarem abraçadinhas, quando Vivi comentou – como quem não quer nada, mas não se sentiria confortável se não falasse – que estava indo à concessão de gohonzon de Marcela.
Ana Cláudia nem tentou disfarçar. Deixou claro o estado de ciúme – e Vivi não teve como deixar de pensar: “meu Carma...” - em que estava:
- Você não pode matar aulaa pra sair comigo, mas pra encontrar a Marcela pode...
Vivi tinha decidido que nunca mais ia aturar aquele tipo de atitude. Nem por isso deixou de ser educada:
- Acho que você não entenddeu. É uma cerimônia budista. Importantíssima, aliás. E você pode vir comigo se quiser.
- Não, obrigada.
A morena abriu o próprio guarda-chuva, que até então estava segurando fechado, e foi embora em direção ao ponto de ônibus, sem se despedir nem nada. Talvez esperando que Vivi fosse atrás.
Ao invés disso, a ruiva suspirou, deu meia volta, e caminhou até a entrada do metrô com passos rápidos.

- Marcela, você tá fazendoo daimoku pro celular?
Carol não teve como deixar de soltar, quando pegou Marcela olhando as horas pela bilionésima vez no aparelho. E continuou:
- Fica tranqüila, a Vivi já; chegou. Tá comigo lá atrás.
Piscou para Marcela de forma cúmplice. Sorrindo, antes de completar:
- Vim aqui só pra te avisar. Marcela fez uma careta para ela, guardou o celular, se virou para frente, e voltou a recitar:
- Nam myoho rengue kyo... Nam myoho renngue kyo... Nam myoho rengue kyo...
Mas logo em seguida, sentiu no ombro um toque leve, suave, inconfundível. Virou surpresa, quase sem acreditar. Os olhos verdes cintilaram. Incendiando os negros.
A forma como Marcela a olhou, fez Vivi esquecer o que queria falar. Ficou alguns segundos parada, os olhos presos nos dela, enfeitiçada.
Então piscou, e com um sorriso um pouco envergonhado, disse:
- Eu queria te dar esse fukusa...
A expressão de Marcela mostrou claramente que ela não estava entendendo nada, por isso Vivi explicou:
- É um lenço, pra voc&eciirc; receber o gohonzon. Faz parte da cerimônia, você não pode pegar o gohonzon com a mão... Isso a Carol já te explicou, né?
Marcela sorriu, balançando a cabeça afirmativamente:
- Já... É que ainda fico tonta com esses nomes em japonês...
Com um sorriso divertido, Vivi continuou:
- Esse fukusa veio do Japão... MMeu pai trouxe pra mim... E eu quero que seja seu.
Os olhos negros imediatamente se encheram de lágrimas. As esmeraldas também estavam emocionadas. Vivi estendeu o fukusa, cuidadosamente dobrado e guardado num plástico. Marcela o recebeu e... as mãos se tocaram por um momento.
Só que dessa vez, Vivi não fugiu do contato. Deixou que ele terminasse com a mesma naturalidade com que começou. Aceitou e aproveitou as milhares de sensações que o simples encostar de peles proporcionava.
Ficaram se olhando durante alguns momentos. Então foi anunciado que o gongyo ia começar. Vivi voltou para o lugar dela, no fundo da sala, ao lado de Carol.
Seu Francisco e dona Lúcia tentavam ajudar dona Heloísa e o dr. Marcelo a acompanharem a oração. Vivi não teve como deixar de sorrir, achando graça. E ficou feliz também ao ver Carlinha e Rafa, na frente deles, lendo as palavras em sânscrito sem a menor dificuldade. Mas a maior felicidade, sem dúvida, era a mudança de postura da ex-namorada.
O Gongyo acabou, e a cerimônia começou. De onde estava podia ver Marcela, muito séria e concentrada.
Marcela estava ansiosa, claro. Prestou atenção em cada palavra pronunciada. Concordou com o juramento feito, e então chegou o momento que tanto esperava.
Levantou quando chamaram o nome dela, com o fukusa aberto nas duas mãos. Recebeu com um sorriso imenso a caixinha branca - onde o gohonzon estava enrolado - ouvindo os aplausos, gritos e assobioos de todos que estavam na sala. Respondeu o cumprimento – no estilo oriental, se curvando – que o senhor fez para ela, voltou para a cadeira em que estava sentada, e envolveu o gohonzon com o fukusa – como Carol tinha ensinado - enquanto outras pessoas eram chamadas. Com o coração batendo forte, e uma imensa felicidade.
Lágrimas emocionadas escorreram pelo rosto de Vivi. Quando Marcela recebeu o gohonzon não se conteve: gritou e aplaudiu efusivamente. Carol a olhou, e a abraçou:
- Parabéns, irmãzinha... Sua Chakubuku... Você é a responsável.
Vivi sorriu, e lembrou do que Carlinha tinha dito meses atrás:
- É igual em “O Pequeno Pr&iacutte;ncipe: tu és eternamente responsável por aquele que cativas”. No caso de vocês, por aquela que cativas, não é mesmo?
Na época, a apresentando ao budismo, Vivi tinha esboçado o vínculo que Marcela agora concretizava recebendo o gohonzon. Uma ligação cármica indestrutível, inquestionável. Para sempre gravada em suas vidas. Inevitável...

Marcela não poderia estar mais emocionada. Rodeada pelas pessoas que mais amava, no apartamento dela, ajudando Carol a consagrar o gohonzon (cerimônia em que se desenrola o pergaminho, o colocando dentro do butsudan = oratório).
Vivi se manteve ao lado dela o tempo inteiro. Porque o momento transcendia todo e qualquer tipo de desentendimento, mágoa ou rompimento.
Quando fizeram o daimoku sansho, e Marcela –sempre orientada por Carol – fechou o butsudan, foi abraçada e beijada por todos.
Vivi foi a última a se aproximar. Quando o fez, e finalmente a abraçou, Marcela correspondeu, com o mesmo carinho, paixão e amor. Ficaram alguns segundos naquele abraço apertado, antes de Vivi beijar o rosto dela, dizendo:
- Marcela, eu tô muito feliz... DDe verdade.
- Também tô muito feliz. PPorque você tá aqui comigo...
E beijou Vivi no rosto. De um jeito que fez a pele da ruiva queimar, arder inteira. Se afastaram lentamente, se olhando profundamente nos olhos. Os verdes se incendiando da forma que sempre fazia os negros corresponderem de imediato.
Então dona Heloísa deu para cada uma um copo de vinho, e as chamou, para se juntarem aos outros, que já estavam em volta da mesa de frios.

A conversa fluiu animada, mas como era 2ª feira, durou pouco. Carol, dona Lúcia e seu Francisco, seguidos de alguns outros membros da comunidade budista, foram os primeiros a sair.
Vivi resolveu ficar e voltar com Carlinha e Rafa. Dominada por um desejo incontrolável de continuar ao lado de Marcela.
Sentadas no sofá, conversando com dona Heloísa e o dr. Marcelo, as duas estavam numa felicidade tímida, mas inegável.
Os pais de Marcela também anunciaram que iam embora. Se despediram de Vivi, com beijos carinhosos, e depois puxaram Marcela para um canto. A mãe a encheu de beijos. Tantos que Marcela até ficou com vergonha. O pai a abraçou com força, e disse:
- Tô muito orgulhoso de vocêc;, filha.
Deixando Marcela absolutamente perplexa.
Sentada no sofá, com a taça na mão, Vivi observava, com um sorriso no rosto. Inebriada, embriagada, mas não pelo vinho...
Marcela levou os pais até a porta, se despediu com mais beijos e abraços, e voltou a se sentar ao lado de Vivi.
Carlinha e Rafa apareceram, vindos do corredor, com as roupas e os cabelos em desalinho. Os quatro ficaram conversando, falando bobagens, rindo. De vez em quando a mão de Marcela pousava na coxa de Vivi. O arrepio que as percorria, e as milhares de lembranças que o contato ocasionava era... Deliciosamente inevitável...
Vivi se levantou, foi ao banheiro, e antes de voltar para a sala, viu a luz do quarto de Marcela acesa. Ia apagar, mas não resistiu: entrou e olhou em volta, com um sorriso triste e nostálgico. As recordações chegaram e a atravessaram como uma cachoeira que deságua. E ela ficou ali, até o momento passar, e as emoções sossegarem.
Quando se virou, Marcela estava parada na porta, olhando para ela de uma forma absolutamente apaixonada.
Lentamente, Marcela se aproximou, os olhos negros causando em Vivi uma onda de calor quase insuportável. Prevendo a impossibilidade de escapar se não reagisse, Vivi desviou os olhos. E se espantou ao ver a pilha de apostilas com matérias de 2º grau ao lado do laptop. Perguntou com uma curiosidade verdadeira:
- Você tá estudando isso?<
Marcela já estava muito perto, próxima demais. Apenas assentiu com a cabeça, prisioneira das esmeraldas que a cegavam. Vivi insistiu:
- Por que?
Inconscientemente, Marcela umedeceu os lábios. Sem desviar os olhos do brilho verde, respondeu:
- Vou fazer vestibular.
As mãos de Marcela pousaram na cintura de Vivi com suavidade. A ruiva estremeceu, e falou com dificuldade:
- Pra qual faculdade?
Os olhos de Marcela desceram, pararam nos lábios de Vivi, onde se fixaram, hipnotizados:
- Música. Na Uni-Rio. Finalmentee resolvi correr atrás do que eu quero de verdade.
Os milhares de significados daquela frase as atravessaram intensamente. Os lábios se aproximaram. Vivi fechou os olhos, desejando, antecipando o beijo...
Nesse momento, Carlinha e Rafa apareceram na porta, dizendo:
- A gente tá indo, Vivi. A Marceela te leva.
Foi Marcela quem respondeu, mais do que rápida:
- Pode deixar.
Vivi nem pôde protestar, porque... os dois se despediram e saíram do quarto. Antes de bater a porta da rua, Rafa ainda gritou:
- Isso é pra inspirar você;s!
Ouviram os primeiros acordes de uma música vindo da sala. “Here Without You”(Three Doors Down).
Os olhos voltaram a se encontrar, em perfeita sintonia. Os de Marcela inquietos, intensos, dois tornados negros – os de Vivi entregues, ardentes chamas verdes, despidas de todo e qualquer tipo de defesa.
Os lábios se encontraram. Meses de saudade, vontade e desejo extravasando de repente. Finalmente aceitando e se entregando ao inevitável...
As línguas se procurando, absolutamente viscerais, a necessidade de se fundirem se tornando absurdamente vital.
As mãos de Vivi subiram pelas costas de Marcela, a apertando contra ela, até se enterrarem nos cabelos pretos.
Marcela gemeu contra a boca de Vivi. E a puxou mais para si.
Ofegante, como se quisesse engolir Marcela inteira, Vivi aprofundou o beijo. A empurrou em direção à cama, e fez Marcela se deitar. Percorreu o corpo dela com as esmeraldas incandescentes.
E então mergulhou as mãos, a boca, o corpo e a alma em Marcela. Vorazmente, quase sufocando de tanto desejo, exatamente como da primeira vez...



Capítulo: Novos Desvios

Marcela correspondeu, absolutamente surpresa. Não que Vivi nunca tivesse sido tão intensa. Ao contrário. O fogo verde das esmeraldas continuava o mesmo. Mas Marcela percebeu nitidamente uma sutil diferença na postura da ruiva. Mais segura, com maior iniciativa, sabendo melhor o que fazer. Resultado da experiência com outra – ou outras, Marcela não sabia ao certo – mulher.
Afastou todo e qualquer tipo de ciúme ou neura. A única coisa que importava era ter Vivi nos braços novamente, inteira, como Marcela tinha sonhado durante todos aqueles meses.
No começo Vivi estranhou a passividade de Marcela. Ela parecia... contida, quase tímida... Então, finalmente, começou a corresponder cada beijo, cada carícia, cada toque. Com o ardor apaixonado de sempre, quase um desespero.
A boca de Vivi desceu pelo pescoço de Marcela, causando arrepios. Arrancou a camiseta dela com urgência, e desceu sobre a pele alva acendendo, queimando, se deliciando com os gemidos que provocava.
Marcela segurou os cabelos vermelhos, puxando Vivi para cima, colando os lábios novamente, as mãos por baixo da blusa da ruiva, acariciando os seios que se ofereciam.
Vivi suspirou, arquejou, gemeu, e quase rasgou a própria blusa quando a tirou. As mãos de Vivi desceram, desabotoaram a calça de Marcela, se enfiaram por dentro dela, cheias de desejo.
Arrancando mais gemidos, abafados pelas línguas que não se desgrudavam. Habilmente, Marcela abriu e tirou o sutiã de Vivi. Fez o mesmo com a calça. A ruiva a ajudou, e por um breve momento, ficou ajoelhada, inteiramente nua na frente dela. Os olhos negros percorreram o corpo de Vivi com saudade, um turbilhão de emoções fluindo incontroláveis.
Depois de despir as roupas de Marcela com pressa, Vivi se deitou em cima dela. As peles pareceram derreter, diluir, se confundir, queimar uma contra a outra enquanto se beijavam. A ruiva escorregou as pernas entre as de Marcela, de um jeito excitante, possessivo, quase dominador.
Quando os sexos se encostaram, as duas ofegaram, estremeceram, gemeram, e respirar se tornou muito difícil.
Ardente, sedutora, enlouquecedora, era a forma que Vivi se movia em cima de Marcela, que a apertava com força - nas nádegas, nas costas, na nuca - fazendo Vivi gemer alto, aumentar a intensidade dos movimentos e quase morrer de tanto prazer.
As bocas se separaram, e Marcela provou os seios de Vivi com a boca. Primeiro um, depois o outro. Lambendo, sugando, chupando com vontade.
Sem conseguir mais se conter, tomada por uma paixão urgente, ardente, há meses sufocada, Vivi se entregou totalmente ao ritmo das respirações e pulsações, que cada vez mais se aceleravam.
Ao sentir Vivi quase gozando, Marcela a puxou, para que os corpos se juntassem por inteiro.
Os rostos colados, as bocas sussurrando palavras desconexas, gemendo, o corpo da ruiva se tencionando em cima dela, fizeram Marcela estremecer. Aumentando o prazer de Vivi quando sentiu que iam gozar juntas.
Os olhos se encontraram, causando um efeito eletrizante. Os negros explodindo, totalmente rendidos à ebulição dos sentidos, mais ainda ao verem os verdes também em erupção.
Por um breve segundo, porque então, a boca de Vivi já estava colada na de Marcela, exigente, faminta, sedenta em capturar o último gemido dela.
Aos poucos, o beijo foi se tornando mais suave, carinhoso, mas nem por isso menos ardente.
Vivi relaxou o corpo sobre o de Marcela. Respiração e pulsação alteradas, plenamente feliz e satisfeita.
Marcela abraçou a ruiva com força. A beijou no rosto, depois na boca, rolou e trocou de posição com ela.
Passeou os lábios pelo pescoço de Vivi, despertando em ambas um novo incêndio. Desceu pelo colo, parou para saborear os seios. Com uma pressa e urgência inegáveis, continuou percorrendo o caminho até chegar onde desejava. Abriu as pernas da ruiva, e mergulhou a boca e os dedos entre elas com vontade.
Vivi estremeceu... não de prazer, como Marcela esperava. Mas porque... aquilo a fez lembrar a cena de Marcela com Gisele no banheiro... De uma forma cruel, incontrolável.
Empurrou Marcela para longe dela, virou de lado e se encolheu. Se sentindo uma idiota completa, morrendo de vergonha, mas não conseguindo conter a repulsa que a invadiu. Lenta e dolorosamente, as lágrimas começaram a escorrer.
Marcela demorou apenas alguns segundos para compreender. Não foi difícil, porque... o sofrimento de Vivi era evidente.
O primeiro e único desejo que teve foi a tirar daquele estado. Se deitou atrás de Vivi, colando o corpo no dela, e a abraçou, protetora e carinhosamente.
Vivi se aconchegou, aceitando o contato completamente. Marcela a beijou no rosto, acariciou os cabelos dela, e sussurrou no ouvido da ruiva:
- Vivi... Eu amo você.
No meio de todas as lágrimas, mágoas, dores e ressentimentos, as palavras de Marcela abriram caminho no rosto de Vivi para que um leve, quase imperceptível sorriso aparecesse.
A ruiva se virou, ficou de frente para ela, e se abraçou a Marcela com força, o rosto enfiado no pescoço dela. Chorando dolorosamente. Por amar tanto Marcela, e não conseguir ficar com ela... Absolutamente impotente, sem escolha por causa da confusão, contradição que sentia...
Mergulhou na onda de desespero profundo, se deixou afundar mesmo, completamente. Aceitando, provando, reconhecendo o sofrimento que a puxava, envolvia, abraçava, para então se livrar dele, voltando à tona.
Marcela estreitou Vivi nos braços, até que os soluços parassem de sacudi-la. Ficou quietinha esperando, o coração despedaçado, desesperado, tentando aparentar uma calma que não tinha.
Vivi suspirou profundamente. Enxugou os olhos devagar, ainda sem saber o que fazer. Depois olhou Marcela fundo nos olhos, tentando expressar sem palavras aquilo que não conseguia dizer.
Os olhos negros empalideceram, se tornaram cinzas... Com uma voz fraca, quase sumida, Marcela disse:
- Você nunca vai esquecer?...
> Era uma pergunta dita de uma forma que a própria resposta já estava implícita.
Com uma dor que parecia querer rasgá-la por dentro, Vivi ficou olhando as lágrimas escorrerem pelo rosto de Marcela sem nada poder fazer.
Levantou da cama, e juntou as roupas que tinham sido tiradas com um sentimento exatamente oposto ao que carregava naquele momento.
Voltou a chorar, enquanto se vestia dolorosamente. Quando terminou, viu que Marcela já estava vestida também.
Se aproximou, enxugou o rosto de Marcela com os dedos, mas novas lágrimas o banharam novamente. Murmurou baixinho, numa tentativa de brincadeira absolutamente triste e sem jeito:
- Parece que agora quem sempre pede dessculpas sou eu...
Marcela deu um sorriso abatido, cercado de lágrimas, antes de dizer:
- Vamos. Vou levar você.
De nada adiantou Vivi tentar dizer que não precisava. Marcela simplesmente não aceitou:
- Vou te levar e ponto. Não t&aaacute; aberto a discussões.
De um jeito que Vivi achou fofo, uma graça. Aproveitou o sorriso da ruiva para perguntar, tentando quebrar um pouco o gelo:
- Moto ou carro?
Totalmente pega de surpresa, Vivi só conseguiu dizer:
- Ãh?
- Como você quer ir?
Vivi respondeu sem hesitar, quase imediatamente:
- Moto.
Tinha escolhido moto porque era mais rápido, e não precisavam conversar – foi o que Marcela pensou.
E ficou sem saber que o verdadeiro motivo da escolha de Vivi era a necessidade incontrolável que sentia de abraçar e colar o corpo no de Marcela pela última vez.

Quando a moto parou na frente do prédio de Vivi, a ruiva desceu, apoiando as mãos nos ombros de Marcela, aproveitando aquele último contato com ela.
Não trocaram uma palavra enquanto Vivi tirava e prendia o capacete na parte de trás do assento.
Marcela também tirou o capacete, desejando olhar para as chamas verdes sem que nada atrapalhasse. Queria dizer algo, mas não sabia nem tinha o que dizer.
As esmeraldas mergulharam nos olhos negros, revelando o mesmo tormento.
Vivi não agüentou: num impulso irresistível, imprevisível, se pendurou no pescoço dela, abraçando Marcela com força.
Marcela correspondeu, se agarrando a ela como um náufrago a um pedaço de madeira. Enfiou o rosto nos cabelos vermelhos, colou a boca no pescoço dela de uma forma absolutamente ardente.
Um erro, porque... Na mesma hora Vivi se soltou e se afastou, dizendo:
- Não, Marcela... Chega... Preciisamos parar de nos magoar desse jeito...
E sem dar chance para que Marcela respondesse, se virou e entrou na portaria quase correndo.

Marcela não tinha mais drogas em casa, nem com ela. Foi a sorte. Se tivesse usaria. Porque a vontade que teve de se livrar da dor latente, crescente, efervescente - que subia ardendo pelo estômagoo, até deixar um gosto amargo na boca – foi imensa.
Passou no primeiro posto e comprou uma caixa de cerveja. Voltou para casa com a intenção de se embriagar, beber até se anestesiar, fugir, esquecer... qualquer coisa, menos o que estava sentindo naquele momento.
Mas quando abriu a porta e deu de cara com o oratório na sala, mudou de idéia completamente.
Se sentou em frente ao gohonzon e leu o papel que tinha recebido de Carol:

“É preciso saber lidar com a vida e suas dificuldades. Nossa existência neste mundo é como um mar tempestuoso. Devemos nos lançar a ele, mesmo sendo açoitados por todos os tipos de experiências. Não há outra maneira, pois isso faz parte de nosso inevitável destino como seres humanos(...)
Desafie as circunstâncias adversas do presente para vencer no futuro. Praticar o budismo consiste em encarar a dura realidade da vida e mudá-la para melhor. É na disposição de lutar para vencer que existe o brilho da prática da fé".
(Daisaku Ikeda)

Começou a fazer um daimoku vibrante. Decidida a mudar completamente aquela situação.

Vivi chegou em casa transtornada. Pelos sentimentos contraditórios que sentia, por ter feito amor com Marcela de uma forma totalmente entregue, maravilhosa, apaixonada, e depois... aquilo...
A amava, era louca por ela. Mas não conseguia esquecer o que tinha acontecido, nem perdoar Marcela. Naquele momento, só podia fazer uma coisa por elas: abriu o oratório, sentou em frente ao gohonzon, e começou a recitar:
- Nam myoho rengue kyo... Nam myoho renngue kyo... Nam myoho rengue kyo...

Nas duas semanas seguintes, a presença de Marcela na faculdade se tornou insuportável para Vivi. Evitava passar por ela, ficar onde ela estava... Marcela parecia sentir o mesmo, porque... também fugia de todo e qualquer tipo de contato.
Para piorar a situação, Ana Cláudia deu um gelo total na ruiva. Mal a cumprimentava quando se encontravam entre as aulas ou no estágio.
O efeito disso foi que pela primeira vez Vivi percebeu que sentia falta dela.
Quando a segunda 6ª feira chegou, não agüentou. Foi atrás da morena no ponto de ônibus, e disse:
- Vamos conversar, Ana?
A morena abriu um sorriso lindo, e respondeu:
- Pensei que nunca fosse pedir...
Se sentaram no Amarelinho, na mesma mesa que tinham sentado daquela primeira vez. Por sugestão de Ana Cláudia, que adorava coisas assim.
A morena ergueu o chope, propondo um brinde. Vivi bateu a tulipa na dela, e bebeu quase a metade de um gole só.
Ana Cláudia riu, antes de implicar:
- Ei... Calma... Você tem algum mmotivo pra querer ficar bêbada?
Vivi colocou a tulipa na mesa, suspirou e respondeu:
- Tô um pouco nervosa. Só isso.
- Nervosa? Comigo? - disse nitidamente satisfeita e feliz.
- Eu... Senti falta de você. – coonfessou Vivi.
A expressão de Ana Cláudia foi de total e absoluto prazer. Demorou alguns segundos antes de responder, de forma absurdamente sedutora:
- Morri de saudade de você.
A diferença de intensidade e significado das frases fez Vivi beber o resto do chope sem nem perceber. Sentiu um alívio enorme por ter pedido outro quando a morena continuou:
- Só que não quero continnuar do jeito que estava. Sei que te disse que nunca ia te cobrar nada, mas... Vivi, eu quero que você seja minha namorada.
Vivi abaixou os olhos, bastante perturbada:
- Eu... não sei o que dizer.
> Ana Cláudia segurou o queixo da ruiva, e a fez erguer os olhos até encontrarem os dela, intensamente doces e meigos:
- Diz que sim.
E como Vivi não respondeu, prosseguiu:
- Confia em mim: você não vai se arrepender.
Vivi sustentou o olhar dela de uma forma franca, verdadeira:
- Talvez eu não me arrependa, maas você...
A resposta da morena foi de uma firmeza incrível:
- Não precisa se preocupar... Seei muito bem onde tô me metendo.
Mas Vivi não podia deixar que nenhum tipo de mentira ou omissão entre elas:
- Meus sentimentos não mudaram, Ana. Eu... continuo apaixonada por ela...
Nem precisava dizer por quem. A morena a cortou gentilmente:
- Eu sei.
Mas Vivi precisava contar tudo:
- Eu e ela... nós... transamos....
- Também sei.
Ana Cláudia continuou com os olhos fixos nos verdes. Que piscaram, surpresos.
- Como você... como ficou sabendoo?
- Conheço você.
Vivi ficou completamente sem jeito. Mas Ana Cláudia pegou e beijou a mão dela carinhosamente.
Ficaram de mãos dadas, a morena acariciando os dedos da ruiva com os dela. Olhando fundo nos olhos verdes, quando insistiu:
- E então? Vai namorar comigo? Naquele momento, pareceu natural para Vivi responder:
- Sim.

Marcela aproveitou para se concentrar no estudo e no budismo. Se empenhou nas reuniões e mergulhou com afinco nos livros. O resultado foi visível: passou na primeira fase do vestibular com notas altíssimas.
Estava um pouco tensa ao atravessar o caminho de pedras do Centro de Letras e Artes da Uni-Rio na Urca. Nem olhou em volta. Caminhou direta e rapidamente para o prédio onde ficava a Faculdade de Música: no fundo, atrás do de Teatro. Encontrou onde a prova de habilidade específica estava sendo realizada com facilidade. Quando perguntaram o curso, para saberem em que sala seria avaliada, respondeu:
- Canto.
Despertando a atenção de uma garota que estava sentada no chão. Marcela passou os olhos nela, que coincidentemente, estava em frente à sala que o funcionário tinha indicado, claramente esperando para ser chamada.
Toda de preto, cheia de piercings – na sobrancelha, debaixo da boca, vários na orelha... Marcela podia apostar que ela também tinha um na língua... Uma tatuagem grande, de flores tribais muito coloridas no braço. Cabelos curtinhos, castanhos, desarrumados com gel para dar um efeito completamente bagunçado e arrepiado. Evidentemente lésbica. Dava para saber só de olhar.
A garota também avaliou Marcela de cima a baixo. E depois falou, numa clara tentativa de puxar papo:
- Odeio te dizer isso, mas... Somos conncorrentes, sabe?
Marcela sentiu pela tal garota uma simpatia imediata. Sentou no chão, perto dela, respondendo:
- Tudo bem. São duas vagas... A garota riu. E estendeu a mão, dizendo:
- Aline.
Marcela apertou a mão dela sorrindo, com entusiasmo. E se apresentou também:
- Marcela.
E começaram uma conversa interminável. Que só foi interrompida quando Aline foi chamada para dentro da sala. Deixando Marcela com uma estranha impressão de que já se conheciam há muito tempo. De vidas passadas...

Aline estava esperando Marcela quando ela saiu de dentro da sala. Trocaram algumas impressões sobre a prova de solfejo. Ambas tinham achado o mesmo: fácil. Continuaram conversando animadamente enquanto atravessavam o pátio:
- Não sei como deve ser na faculldade de direito... Posso imaginar... Mas aqui você é apenas uma esquisita a mais...
A vida inteira Marcela tinha se sentido... diferente e estranha era pouco... Total e absurdamente “outsider”... Aquela que nunca se encaixava. Por isso se espantou:
- Sou?
Com um riso divertido, Aline respondeu:
- Olha em volta, lindinha...
Um casal gay abraçado, deitado na grama lendo. Um grupo com roupas de malha e narizes de palhaço jogando malabares debaixo de uma das árvores. Um cara de dreadlock levando um som num bongô. Um loirinho de óculos tocando violino perto de um busto de... Mário de Andrade? Era o que dizia a placa... E uma rodinha de cabeludos e meninas de saia rodada – com um estilo meio “new hippies”, como Marcela gostava de classificar - sentados nas pedras que eram o começo da montanha que se erguia majestosa atrás deles, fumando descaradamente um baseado.
Marcela ficou surpresa, divertida e... encantada.
- É... Sou mesmo...
Aline deu uma gargalhada antes de exclamar:
- Cara, nunca vi ninguém t&atildde;o feliz por ser esquisita... Porque você é esquisita, sabe?
A resposta de Marcela foi no mesmo tom de provocação e intimidade:
- Olha só quem fala!
- Esquisita, eu? Sou quase uma patricinnha... Você não acha?
As duas riram muito. De chorar.
Chegaram no estacionamento. Tinham parado as motos lado a lado. Antes de Marcela colocar o capacete, Aline disse:
- Hoje à noite tem um show da miinha banda. Quer dar uma conferida?
- Claro! Onde?
- No Bar do Blues, em Niterói. SSabe onde é?
Saindo da Zona Sul, Marcela não conhecia nada. Nem na Tijuca sabia andar... Respondeu um pouco sem graça:
- Não...
- Peraí, vou escrever aqui pra vvocê então... É fácil, não tem como errar...
Vasculhou os bolsos em busca de um papel. Encontrou um todo amassado, anotou todas as indicações, fez até um mapa.
- Qualquer coisa me liga. Pega meu teleefone.
Marcela gravou o número no celular. Aline bufou, olhando o aparelho que segurava: desligado... Falou como se pensasse alto:
- Ai, que saco! Fiquei sem bateria, os papéis acabaram... Já sei!
E dizendo isso, estendeu o braço:
- Anota seus telefones aqui...
Achando graça, Marcela escreveu os números. Com um sorriso, porque... Aline e ela eram... parecidas demais!
Não teve como deixar de reparar na cicatriz no pulso dela. Aline percebeu:
- É uma longa história.... Outra hora te conto. Toca aqui.
Se despediram com um cumprimento – iniciativa de Aline – que Marcela achou engraçado: bateu na palma da mão aberta que Aline estendeu. Depois tocou o punho fechado no dela, que disse:
- Valeu!
Colocaram os capacetes e partiram, cada uma em sua moto. Marcela abriu um enorme sorriso. Estranha e significativamente feliz, como há muito tempo não se sentia...

 

Capítulo: O Fluxo Infalível das Coisas...

 

- Vivi, você escutou o que eu disse?
Os olhos verdes, que antes estavam perdidos, divagando, se fixaram em Ana Cláudia, entre confusos e sem jeito...
- Desculpa, eu...
- Tava longe... É, eu vi...
O sorriso de Vivi foi absolutamente sem graça. Parecia que a morena conseguia ler os pensamentos dela. Sinceramente, esperava que não, porque... por mais que tentasse, não conseguia parar de pensar em Marcela.
- Que foi? Alguma coisa errada? Voc&eciirc; tá estranha...
Ana Cláudia, como sempre, toda preocupada... Vivi não tinha como se sentir pior. Ou melhor, tinha sim: quando se viu obrigada a mentir:
- Tô com dor de cabeça...<
Antes de se despedir, insistindo para que a morena continuasse no bar com as amigas, e ir sozinha para casa. Não conseguiria dormir com Ana Cláudia naquele dia.
A mãe estranhou:
- Chegou cedo, filha… Que aconteceu? Voocê não ia dormir fora?
Engraçado, porque Dona Lúcia parecia evitar dizer o nome de Ana Cláudia. Preferia nitidamente Marcela, e não aprovava o namoro de Vivi com a morena. Vivi constantemente se perguntava se seria o mesmo se tivesse contado o que Marcela tinha feito no dia fatídico da boate.
- Nada, mamãe... Cansaço apenas...
Foi só o que respondeu. Mas estava estampado na cara de dona Lúcia que ela sabia perfeitamente que Vivi estava omitindo a verdade.
Só ficou tranqüila porque a filha abriu o oratório e começou a fazer daimoku. A beijou antes de voltar para o quarto.
Vivi começou a recitar, com uma angústia enorme no peito. Cheia de dúvidas, medos, incertezas, raivas... As lágrimas escorrendo, um turbilhão de sentimentos a corroendo.
Foi quando seu Francisco apareceu. Beijou a filha, e entregou um papel para ela, sem nada dizer. Depois, também voltou para o quarto. Vivi leu:

“Tenho fé na lei mística. Sendo assim, serei salvo em qualquer situação, mesmo nas mais difíceis. Solucionarei tudo infalivelmente.” (Jossei Toda)

E passou a fazer um daimoku muito mais profundo, forte e vibrante. Determinada a resolver todos os problemas.

Marcela chegou no Bar do Blues acompanhada de Carlinha e Rafa. Foi recebida por Aline com entusiasmo.
Desceram até o palco, onde Aline os apresentou ao resto da banda. Foi quando uma japonesa - abusivamente linda, diga-se de passagem - se aproximou e colou a boca na de Aline, dizendo:
- Oi, amor...
As duas ficaram um tempo grudadas naquele beijo, antes de Aline apresentar:
- Amor, essa é a Marcela. Marcella, essa é a Carol, minha namorada.
As duas se cumprimentaram com dois beijinhos. Marcela apresentou Carol para Carlinha e Rafa.
Aline se desculpou, dizendo que ainda tinha umas coisas para arrumar, e sugeriu que os quatro fossem para o bar. Eles prontamente obedeceram.
Ficaram bebendo, e rindo muito, porque... a presença de Carlinha, como sempre, garantia que a conversa fosse incrivelmente divertida e animada.
Até que Rafa puxou a namorada para um canto, e a ocupou com uma série interminável de beijos e amassos, deixando Marcela e Carol conversando em particular.
A japonesa abriu um sorriso sedutor, de pura malícia, quando disse:
- A Aline não me disse que voc&eecirc; era tão interessante...
Marcela ficou absolutamente sem graça. Sorriu rapidamente - um sorriso muito amarelo, na verdade - e não disse nada.
Mas Carol parecia disposta a não deixar dúvida. Colocou a mão descaradamente na perna de Marcela, apertando a coxa dela, com segundas – terceiras, quartas, quintas, todas as piores - intenções:
- Eu diria que você é uma delícia, mas... pra isso preciso experimentar primeiro...
Marcela achou aquilo simplesmente... inacreditável... Se desculpou, e saiu dali o mais rápido possível.
Chegou perto de Carlinha e Rafa e os interrompeu bruscamente:
- Aconteça o que acontecer, n&attilde;o me deixem mais sozinha com essa japa! Depois eu explico...
Os dois a olharam atônitos, mas concordaram.

Marcela ficou aliviada porque Carol não se aproximou mais dela. A japonesa desapareceu, para falar a verdade.
A admiração que Marcela já sentia por Aline só aumentou quando a ouviu cantar. Uma voz linda, expressiva, fantástica. A banda também era boa, um estilo muito parecido com os “The Mitidos”. Começaram com uma música da banda preferida de Aline: Nirvana. A música? “Rape Me”.
Rafa pareceu pensar o mesmo que Marcela, quando, com muito cuidado, tentou tocar no assunto que se tornara proibido entre eles:
- Marcela, não sei nem quero sabber o que aconteceu entre você e o André, mas... precisamos resolver o que vamos fazer com a banda.
Incrível Rafa resolver falar aquilo exatamente naquele momento, com Aline cantando ao fundo:

“Rape me, rape me my friend (Estupre-me, estupre-me meu amigo)
Rape me, rape me again…” (Estupre-me, estupre-me de novo…)

Marcela foi ríspida, agressiva quase:
- Vocês podem decidir o que voc&eecirc;s quiserem, eu tô fora. Não me interessa. Não quero saber.
Rafa suspirou profundamente. E insistiu:
- Sem você não rola, e voccê sabe.
A resposta foi imediata:
- Pra mim o “The Mitidos” tá morrto. Se não rola sem mim, não posso fazer nada.
Carlinha interferiu, acalmando os ânimos:
- Agora não é a hora nem o momento... Melhor conversarem isso depois, né Rafa?
E deu um beliscão no namorado. Pela cara de Marcela, estava óbvio que era melhor o assunto ser encerrado.
Ficaram calados, curtindo o som. Marcela olhou para o palco. Aline parecia transtornada. Talvez as outras pessoas não percebessem. Mas Marcela sim.
E tinha uma pequena idéia do nome da perturbação: Carol.
Mas então, finalmente, a japonesa apareceu. Fazendo Aline abrir um sorriso absurdamente deslumbrante.
Marcela continuou preocupada, porque... Carol a fazia lembrar muito de Kaitlin...

A banda fez um intervalo, e Aline foi direto em Marcela:
- Você viu a Carol?
Marcela até tinha visto. Indo na direção do banheiro com uma loira de vestido vermelho. Mas não podia nem queria dizer isso para Aline.
Aline pareceu perceber a hesitação da amiga:
- Que foi, Marcela? Pode me dizer... Ella tá com outra? Se for isso, não é a primeira vez...
Aline pegou um vidrinho no bolso. Abriu, derramou um pozinho branco na parte de cima da mão e ofereceu:
- Quer?
Marcela recusou, com a nítida impressão de estar vivendo um “dejá vu”. Só que daquela vez no papel que antes era de Vivi...
Viu Aline beber uma caipinha como se fosse água, antes de ir em direção ao banheiro. Sem pensar, nem hesitar, foi atrás dela.
Entrou bem a tempo de segurar Aline, que estava xingando e batendo na japonesa de uma forma completamente descontrolada.
A loira e Carol desapareceram rapidamente. Aline esperneava e tentava se soltar, inutilmente. Gritava entre milhares de palavrões:
- Me solta, Marcela! Vou matar essa vaggabunda!
Marcela era muito mais forte, e estava decidida a amenizar a situação:
- Calma, Aline... Não vale a penna... Fica fria...
Repetia no ouvido dela, mantendo Aline imobilizada.
Aos poucos, Aline foi se acalmando. Quando Marcela a sentiu novamente controlada, a soltou.
Aline então desabou. Sentou no chão, aos prantos. Tirou um saco plástico do bolso, de onde tirou um baseado apertado e acendeu.
Marcela suspirou, entendendo perfeitamente o que deveria fazer. Arrancou o saco plástico da mão dela, jogou todo o conteúdo numa das privadas e deu descarga, antes de devolver o saco vazio para ela. A mesma coisa com o baseado, que destroçou sem deixar um pedacinho de seda para contar a história. Exatamente como Vivi tinha feito há um tempo que parecia séculos atrás.
Ajudou Aline a se levantar do chão, e a lavar o rosto na pia, dizendo:
- Você tem um show pra fazer, linnda. Quero te ver arrasando, tá?
Aline deu um sorrisinho triste, e assentiu com a cabeça. Marcela passou o braço em volta dos ombros dela, e a levou até o palco.
Aline ficou parada, sem se mover. Todos ficaram em silêncio, olhando para ela. Um momento constrangedor ao extremo. Marcela parou na frente de Aline e gritou:
- Gostosíssima!
Aline olhou para ela e deu um sorrisinho. Absolutamente triste... Sem conseguir começar a tocar.
De uma forma absolutamente impulsiva, Marcela invadiu o palco, falou rapidamente com a baterista e o baixista, pediu a guitarra para Aline, pegou o microfone e falou, olhando firme para a amiga:
- Essa é uma música que ssempre me ajudou em momentos assim... E não foram poucos, acredite...
Começou a tocar a guitarra. A banda a acompanhou. Então cantou:

“Met a girl, thought she was grand
(Conheci uma garota, pensei que fosse ótima)
Fell in love, found out first hand
(Me apaixonei, soube de primeira)
Went well for a week or two (Correu bem por uma ou duas semanas)
Then it all came unglued (Então tudo desmoronou)
In a trap trip I can't grip (Em uma viagem armadilha, que não tive controle)
Never thought I'd be the one who'd slip
(Nunca pensei que seria eu a escorregar)
Then I started to realize (Comecei a me dar conta de que)
I was living one big lie" (Estava vivendo uma grande mentira)

Aline olhava para Marcela com um sorriso de admiração e gratidão imensos. Se juntou à ela no microfone para cantar:

”She fuckin' hates me, trust (Ela me odeia, porra, acredite)
She fuckin' hates me” (Ela me odeia, porra)

Marcela se afastou, e continuou tocando, enquanto Aline cantava sozinha:

“I tried too hard (Tentei muito mesmo)
And she tore my feelings like I had none
(E ela rasgou meus sentimentos como se não existissem)
And ripped them away (E os jogou fora)
She was queen for about an hour
(Ela foi uma rainha por mais ou menos uma hora)
After that, shit got sour (Depois disso, a merda azedou)
She took all I ever had (Ela tirou tudo que eu tinha)
No sign of guilt (Sem sinal de culpa)
No feeling of bad, no” (Sem se sentir mal, não)

As duas voltaram a cantar juntas, com total e absoluta sintonia, os olhos ligados num campo magnético irresistível:

“In a trap trip I can't grip (Em uma viagem armadilha, que não tive controle)
Never thought I'd be the one who'd slip
(Nunca pensei que seria eu a escorregar)
Then I started to realize (Comecei a me dar conta de que)
I was living one big lie (Estava vivendo uma grande mentira)
She fuckin' hates me, trust (Ela me odeia, porra, acredite)
She fuckin' hates me (Ela me odeia, porra)
I tried too hard (Tentei muito mesmo)
And she tore my feelings like I had none
(E ela rasgou meus sentimentos como se não existissem)
And ripped them away" (E os jogou fora)

Marcela tocou o solo para Aline, totalmente virada para ela, que sacudia a cabeça e tocava uma guitarra imaginária, os olhos presos na profundeza dos negros.
Então Marcela se afastou novamente, dando espaço para Aline assumir de novo sozinha:

”That's my story, as you see (Essa é a minha história, como você pode ver)
learn my lesson, and so did she.. (Aprendi minha lição, e ela também)
Now it's over..." (Agora acabou...)

Marcela sorriu para Aline, aproximou a boca do microfone e cantou junto com ela todo o resto, as duas parecendo absolutamente felizes:

“And I’m glad!” (e estou feliz!)
'Cuz I'm a fool for all I've said, (Porque sou um tolo por tudo que disse)
She fuckin' hates me, trust (Ela me odeia, porra, acredite)
She fuckin' hates me (Ela me odeia, porra)
I tried too hard (Tentei muito mesmo)
And she tore my feelings like I had none
(E ela rasgou meus sentimentos como se não existissem)
And ripped them away (E os jogou fora)
She fuckin' hates me! (Ela me odeia, porra!)
She fukin' hates me!” (Ela me odeia, porra!)
(“She Hates Me" - Puddle Of Mudd)

Quando a música acabou, as duas riram às gargalhadas. Aline abraçou Marcela com força. De uma força empolgada, encantada, impossível de descrever. Selando uma amizade verdadeira, para sempre.
Encostou a boca no ouvido de Marcela e agradeceu:
- Fico te devendo essa. Valeu!

Óbvio que a felicidade de Aline não durou muito. Até porque Carol – acreditem se quiserem – fez questão de ficar desfilando com a tal loira o tempo inteiro.
Mas Marcela evitou que ela se aproximasse da japonesa novamente. Pediu para Rafa voltar com Carlinha no carro dela. Deixou a chave com eles, e foi com Aline para a casa dela assim que o show acabou.
Parada em frente ao apartamento da amiga, Marcela esperou pacientemente que ela encontrasse e finalmente abrisse a porta.
Aline sentou no sofá da sala, com Marcela ao lado dela. A primeira coisa que fez – e Marcela sorriu, reconhecendo muito de si mesma nela – foi colocar uma música. “About a Girl”(Nirvana).

Vivi fechou o oratório, sabendo exatamente o que fazer. Decidida a seguir o que o coração insistia em dizer. Pegou o celular, e discou o número de Marcela.

A conversa terminou de repente. As duas ficaram num estranho e denso silêncio. Os olhos de Aline mergulharam fundo nos negros. Marcela correspondeu sem questionar, e tudo aconteceu naturalmente... As bocas se aproximaram, se colaram, se saborearam lenta e deliciosamente... No mesmo instante em que o celular de Marcela vibrava no bolso dela, e Marcela o ignorava completamente.

Continua...

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