Vida Roubada
Parte 7
Deidre pousou a mão sobre a de Vivien,
apertado-a mais contra seu seio.Ela fechou os olhos, sussurrando com voz cheia
de sensualidade:
-Toma-me, meu querido... você é o homem
de minha vida...
O homem de minha vida. A frase repercutiu
na mente de Vivien como um antiexcitante, fazendo-a se imobilizar e retirar a
mão do seio de Deidre.
Que estou fazendo? – Pensou Vivien – Ela pensa que sou um
homem! Ela não está apaixonada por Vivien, uma mulher, mas sim por Vicent, um
homem! E quando ela descobrir o que sou na verdade, vai me odiar! Eu não posso
fazer isso!
Afastou-a de seu corpo com as mãos.
Deidre a fitou com ar confuso, sem entender aquela reação súbita.
-O que foi, Vicent? O que fiz de
errado?
Vivien respirou fundo e a fitou com
tristeza.
-Você não fez nada errado, Deidre...o
que acontece é que não sou esse homem maravilhoso com quem sonha. Infelizmente,
você está vendo em mim algo que só existe
em sua imaginação.
Ela a fitou com ar apaixonado.
-Por que diz isso, Vicent? Para
desiludir-me? Não precisa, apenas seja franco.Se não me quer, fale sem
subterfúgios.A não ser que esteja fingindo, sei como você é, o que pensa sobre
as mulheres é o que sempre pensei em ouvir de um homem. Você é sensível,
compreensivo e sem aquele insuportável ar de macho arrogante que os homens nos
olham.
-Não é isso, Dreide. O que acontece é
que você não me ama. Você ama a imagem que criou de mim, o que na verdade não
sou – Disse, torturada. Como era duro ser racional, vendo aquela mulher
extremamente desejável fitando-a com desejo!
Dreide pousou as mãos em seus ombros,
fitando-a angustiada.
-Oh, Vicent! Como pode dizer isso? Você
não sabe o que sinto! Eu não o amo apenas por suas idéias! Amo tudo em você!
Não sente como fico quando me toca mesmo casualmente? Amo o seu olhar, a sua
voz, o seu sorriso, sinto-me tão atraída por você que um simples olhar seu me
deixa transtornada!Nunca senti nem falei essas coisas para um homem, mas para
você, não consigo esconder o que sinto, não posso ficar calada! Você... você
deixa-me louca, Vicent! Por você, eu colocaria minha vida em risco! Minha reputação e minha honra! E você diz que eu
não o amo!
Aquelas palavras ditas em tom
apaixonado fizeram Vivien tremer. Como Deidre era apaixonada, como ela estava
encantadora tentando vencer sua hesitação em aceitar o seu amor! Oh, Deus!
Sentia-se sufocar numa emoção arrasadora como uma correnteza, puxando-a
poderosamente para algo que queria resistir.Ouvir aquelas palavras de Deidre e
ter que recusá-la estava ficando insuportável! Mas o medo ainda a fez dizer:
-Deidre, a realidade é tão diferente do
que pensa! Quando a souber, vai mudar seus sentimentos por mim!
Deidre sentiu a voz de Vicent fraquejar.
E investiu com todo seu amor e paixão, tentando mostrar como ele estava
enganado. Ela não se controlou mais e o abraçou pela cintura, colando o corpo
no dele, fitando-o com o olhar implorando :
-Eu o amo e nada mudará isso,
Vicent! Nada! Aceite o meu amor e verá
como sou sua! Por favor, acredite em meu amor!
-Deidre...
Deidre puxou sua cabeça com as mãos e
seus lábios se encontraram em um beijo arrebatador, com Deidre sugando sua
boca, enfiando a língua numa súplica de desejo, gemendo contra sua boca, em uma
explosão de emoções reprimidas. Sorvia
sua saliva, apertava seu rosto com as mãos macias e quentes, o corpo
estremecendo como se estivesse recebendo choques, ou tomado por uma febre.
Vivien olhava aquele rosto com
expressão desesperada, como se aquele beijo fosse o tudo perante o nada. E
deliciou-se com aquele beijo desesperado, repleto de paixão. Como ela beijava
deliciosamente! Como aqueles lábios eram macios! O desejo a venceu e fechou os
olhos, abraçando o corpo de Deidre apertadamente contra o seu.
A respiração de Deidre se acelerou e
ela apertou seu sexo contra a coxa de
"Vicent." E o corpo estremeceu rigidamente, e ela atingiu o orgasmo
apenas com aquele beijo enlouquecedor, sorvendo a boca dele .
Deidre quase caiu, com suas pernas
fraquejando, mas Vivien a susteve em um abraço. Ela tinha bastante experiência
para saber que Deidre havia atingido o êxtase com aquele beijo, e isso a fez
ficar encantada com o fogo de Deidre. Ela era uma mulher muito quente! Ela
mesma estava excitadíssima, mas tinha medo de externar seu desejo.
Deidre levantou a cabeça do seu peito,
e a fitou com o rosto enrubescido, com um sorriso tímido e encantador.
-Perdoe o meu arroubo, querido... mas
não pude evitar... você me deixa louca... – Disse, baixinho.
Vivien fitou-a com remorso. Estava
enganando Deidre, fazendo-a pensar que era um homem! Aquilo tinha que acabar!
Não podia continuar com aquela farsa.Era indigno de sua parte. Deidre merecia
conhecer a verdade, mesmo que depois ela a repudiasse. Iria arriscar sua
liberdade e reputação, mas tinha que desfazer aquela farsa! Pelo menos para
ela!
Assim decidindo, afastou-a de si e
falou com gravidade:
-Deidre, preciso dizer a você algo que
não vai gostar.
Ela a fitou com sofrimento no olhar.
-Oh, não, você vai repudiar-me! –
Disse, quase chorando – Vicent, não faça isso, eu o amo! Acredite em meu amor!
Vivien a segurou pelos ombros e a fitou
com angústia, fazendo-a fitá-la nos olhos.
-Deidre! – Quase gritou, com voz rouca
de emoção – Ouça! Não sou o que pensa! Oh, como desejaria ser esse homem que
imagina que sou! Mas não sou! Não mereço seu amor, Deidre!
-Você é o homem que amo, e nada mais me
importa, Vicent! O que quer dizer-me? Que é casado? Que é um criminoso? Pois
que venha sobre mim todos os castigos, mas quero ser sua! – Disse Deidre,
fitando-a com olhos cheios de sofrimento.
Vivien baixou a voz em um sussurro.
-Deidre, não vou enganá-la mais. Vou
confiar à você meu segredo. Mas antes quero que prometa que não falará a ninguém
o que vou revelar à você. Prometa, Deidre.
Ela encarou Vivien e sussurrou:
-Nada do que me disser mudará meu amor
por você, Vicent. Prometo que guardarei completo segredo do que me revelar.
Vivien olhou em volta.Estavam sozinha
na sala, a criada já devia estar dormindo. Mas não iria facilitar. Se a criada
descobrisse quem era na verdade, estaria perdida.
-Podemos ir à um lugar mais reservado?
Deidre a fitou com curiosidade.
-Sim. A biblioteca, ou meu quarto.
-Sua biblioteca está bem para mim.
-Então, acompanhe-me.
Vivien a seguiu até uma acolhedora
biblioteca e Deidre indicou duas poltronas, depois de fechar a porta com o
trinco. Fitou-a expectante, depois que se sentou. Vivien continuava em pé.
-O que deseja revelar-me, Vicent?
Vivien a fitou gravemente.
-Sempre fui partidária da frase que diz
que "uma imagem vale mais que mil palavras". Vou mostrar uma coisa à
você, Deidre. E espero que não me condene antes de ouvir minhas explicações.
Deidre assentiu, engolindo em seco. Estava
consciente que Vicent iria revelar
algo muito grave. O que era, não sabia. E seu olhar contemplou surpreso e
curioso as mãos de Vicent desfazerem o laço da gravata e a colocar no bolso do
paletó. Ele, sempre a fitando nos olhos, desabotoou o paletó e o tirou,
colocando sobre a poltrona. A próxima peça foi o colete. E a última, a camisa
de seda, que ele desabotoou com dedos trêmulos e a retirou, jogando-a também
sobre a poltrona.
Dreide fitou confusa a atadura em volta
do peito dele. Ele estava machucado?
Mas Vicent, com uma expressão triste,
suspirou e desabotoou os colchetes que prendiam a atadura e a tirou, puxando-a
em um gesto brusco.
Um par de seios se mostraram, eretos e
livres. Eram seios pequenos, mas belos, brancos de pequenas auréolas rosadas,
inegavelmente femininos!
O rosto de Deidre empalideceu
visivelmente. A incredulidade apareceu nos olhos dela, seguida de evidente
pasmo e horror.
Oh, como aquela expressão de horror
doía em Vivien! Era um suplício, estar ali diante dela, encarando-a com
humilhação, com vergonha, vendo o sonho de amor e paixão de Deidre se reduzir a
cinzas.
A voz de Deidre soou trêmula, depois de
longo silêncio.
-Deus!... Você... você é uma mulher?!
Vivien baixou os olhos. Não agüentava
mais olhar para aquela expressão de decepção.
-Sou, Deidre.Percebe agora o seu
engano? Não sou o homem que pensava ter encontrado – Disse, em tom cheio de
amargura.
Deidre a fitou ainda incrédula.
-Quem é você, na verdade? Qual o seu
nome?
Vivien respondeu sem fitá-la, começando
a vestir as roupas novamente. Não colocou a atadura, pois iria direto para casa
dormir. Se pudesse dormir...
-Meu nome é Vivien. Sou irmã gêmea de
Vicent, que morreu há dias atrás.
-Oh! Então, o nome dele não era Dennis, e sim Vicent?
Vivien a fitou, abotoando a blusa.
-Sim.Desde pequena costumava trocar
minha identidade pela do meu irmão,
para fazer coisas que me eram proibidas, por ser uma mulher: montar cavalos,
caçar, subir em árvores... e com a guerra, assumi a identidade dele para cuidar
dos negócios.
Deidre a encarou com os olhos cheios de lágrimas e dor.
-Você... estava brincando com meus
sentimentos, Vivien! Porque não me disse tudo isso antes? Você deixou eu me
apaixonar por você! Você beijou-me há poucos minutos atrás como se me desejasse, e tudo era uma
brincadeira!
Vivien a encarou com tristeza,
apanhando o colete para vestir.
-Não era brincadeira. Eu a desejei
mesmo, Deidre – Declarou, com voz baixa.
Ela a encarou surpresa.
-Oh...você então... é uma lésbica,
Vivien? Gosta de mulheres?
Vivien começou a abotoar o colete.
-Uma lésbica? Não sei . Nunca ouvi esse
nome antes. Mas sim, eu gosto de mulheres. No colégio, eu tive várias
experiências sexuais com garotas e gostei.Se isso é ser uma lésbica, eu sou.
Bem, agora que você sabe a verdade, Deidre, é sua a escolha de querer ou não
continuar a falar comigo. Se não quiser, eu entenderei.
Deidre sentiu seu coração se contraindo de dor. O seu lindo sonho
de amor estava desfeito! O homem perfeito, o príncipe encantado dos seus sonhos
materializado em Vicent, não existia! Ele era ela! Seu sonho de amor era como
um castelo na areia, se desfazendo na realidade. Sentia-se perdida,
profundamente decepcionada, triste, como se o homem que amasse tivesse morrido.
Mas ao mesmo tempo, ali estava ele diante dela, lindo, atraente, fitando-a com
os incríveis olhos azuis cheios de tristeza. Mas era apenas uma imagem. Ele era
uma mulher. Tinha que aceitar essa realidade.
Procurou não se mostrar tão abalada
como estava. A vergonha de ter se enganado à ponto de se oferecer para Vivien a
impedia de externar seu desespero íntimo. Tinha que recolher do chão o seu
orgulho ferido.
Assim, disse com voz comedida:
-Vivien...se eu disser que essa
descoberta não me afetou, estarei mentindo. Eu preciso agora pensar em tudo que
me revelou, para me posicionar diante dessa nova situação. Mas o que já sei é
que não quero deixar de falar com você, nem afastar-me.
Vivien vestiu o paletó, abotoando-o
rapidamente. Estava agora louca para sair dali, não queria ver que aqueles
olhos haviam perdido a paixão que os iluminava quando a fitavam.
-O que não entendo em mim mesma é que
eu tenha sentido uma atração tão grande por você, sendo uma mulher,
Vivien...mesmo eu não sabendo que você
é uma mulher, meu corpo deveria ter reconhecido o toque de uma mulher.
Atração é uma coisa de pele, instintiva.
Vivien a fitou com os belos olhos azuis
e Deidre sentiu um arrepio.
-Você sentiu essa atração porque seu
corpo não tem preconceitos, Deidre. A sua mente é que é refreada pelo que dizem
ser o certo. Mas seu corpo reage instintivamente, sem culpas e preconceitos. Se
eu tocá-la agora, tenho certeza que continuará sentindo a mesma coisa de antes.
Deidre fitou Vivien perturbada e
enrubescida.
-Não sei...estou tão confusa...eu
preciso de tempo para pensar sobre isso
tudo com mais calma.
Vivien deu um sorriso triste.
-Seu ídolo de barro caiu do pedestal e
se espatifou no chão, não é? Se não quiser mais falar comigo, eu vou entender.
-Oh, não, Vicent!... Quero dizer...
Vivien...não abro mão de falar com você! É que estou surpresa... deixe-me
pensar sobre isso tudo... Eu continuo admirando-a, só que agora, como mulher. E
você é uma mulher admirável, Vivien. Uma mulher que teve coragem de assumir a
identidade de seu irmão para se realizar como ser humano, se dedicar aos
negócios da família com inteligência... você não é uma mulher comum, é uma
mulher excepcional.
-Obrigada – Disse Vivien, amargamente –
Pelo menos, resta essa idéia de você por mim.
-Vivien... o que você sentiu por mim,
beijando-me?
-Por que quer saber disso agora?
-Para mim isso é importante. Estava
apenas se divertindo comigo?
Vivien a fitou magoada.
-Não estava me divertindo com você.
Lembre-se que as iniciativas foram suas.
Deidre ficou vermelha como um tomate.
-Mereço essas palavras.Mas insisto. O
que sentiu, Vivien?
Vivien desviou os olhos dos de Deidre.
-Senti desejo, paixão. Mas agora isso
não interessa mais.
-Por que revelou-se para mim? Podia ter
ido embora sem me revelar a verdade.
Vivien a encarou.
-Não queria continuar a enganá-la. Para mim era muito frustrante saber
que você desejava de mim algo que eu nunca poderia dar. Pelo menos, como gosta.
Deidre baixou os olhos,
constrangida.Vivien a fitou com um olhar tristonho.
-Quero lhe pedir uma coisa, Deidre. Por
favor, guarde segredo do que lhe falei e continue tratando-me como se eu fosse
Vicent.Se esse segredo transpirar, serei prejudicada.
Deidre a encarou séria.
-Nem precisava recomendar-me isso,
Vivien. Ou melhor, Vicent. Não quero que tenha nenhum problema por ter confiado
em mim. Só uma pergunta: Quem mais sabe disso?
-Só Mooke e o marido dela, que está em
Charleston. Bem, agora devo ir-me. Feliz natal, Deidre – Disse, dirigindo-se
para a porta. Estava louca para sair da
presença de Deidre. Aqueles olhos tristes fitando-a a faziam consciente da
decepção de Deidre, e isso a torturava.
Deidre a seguiu até a porta principal,
dando-lhe o seu chapéu e jaquetão. Vivien os colocou e a fitou nos olhos.
-Não sei se devemos continuar nos
vendo, Deidre.
-Por quê? Não tenho raiva de você,
podemos ser amigos!
Vivien a
encarou com tristeza.
-Por que sei
que está decepcionada porque não sou o que esperava, por isso nunca será minha.
E eu estou apaixonada por você, Deidre.
E Vivien saiu, sem olhar para trás,
mesmo ouvindo o chamado de Deidre, para que ela não visse suas lágrimas. Havia
começado a nevar e Vivien correu para sua casa, sentindo a dor da rejeição a
ferir. Deidre não a queria! Ela somente amava uma ilusão!Como pudera se
apaixonar mais uma vez por uma mulher que não a queria!
Ela
entrou e subiu para o seu quarto, trancando-se. Tirou o chapéu, jogando-o sobre
uma poltrona, o jaquetão, com gestos bruscos, e foi tirando toda a roupa com
raiva, jogando-a no chão. Completamente despida, olhou-se no grande espelho que decorava a parede, as
lágrimas rolando de seus olhos.
-Contemple-se, Vivien! Essa é a
sua verdadeira identidade, sua maldita idiota! – sussurrou, com ar derrotado –
Não adianta vestir-se como um homem, você não passa de uma mulher! O que
pensou? Que Deidre iria cair em seus braços, dizendo que esse pequeno detalhe
não tinha importância? Ela gosta é de homem! Como Audrey, que deve já ter tido
um filho de Vicent! Idiota, idiota!
E
ela se jogou na cama, soluçando sua dor.
cd
Os dias se
passaram lentamente. Uma evitava a outra. Vivien tentou esquecer sua desilusão
enfiando-se no trabalho, e com as festas de fim de ano, os pedidos de seus
produtos eram maiores. Ela havia importado vinho francês e cacau para as indústrias de chocolate e os
pedidos haviam ultrapassado suas expectativas. Seu lucro era alto, estava cada
vez mais rica.Ela olhou para a sua caderneta de saldo bancário e sorriu
tristemente. Vicent Talbot, uma fraude, era agora um respeitado homem de
negócios. Já sua vida sentimental, era um fracasso.
Faltavam
apenas dois dias para o dia 31 de dezembro. Com o clima de festa, os negócios
entraram em compasso de espera e Vivien se viu com os dias totalmente livres.
Ela então colocou seu sobretudo de lã cinza sobre o terno de azul escuro e
saiu. Tomou uma carruagem e foi para Times Square, onde ficavam as lojas e os
bares. Era a rua mais movimentada de New York, por onde desfilava a sociedade
local, com mulheres em belos vestidos acompanhadas de elegantes cavalheiros.
Vivien
desceu da carruagem e misturou-se com a multidão, olhando as vitrines e as
pessoas que se dirigiam para as lojas, bares e restaurantes que estavam cheios.
Resolveu então jantar no Absinthe, um novo restaurante francês que estava sendo
muito comentado nos jornais.
Ela
parou na entrada e o maitre veio ao seu encontro, com um sorriso polido.
-Tem
reserva, senhor?
Vivien
o fitou com decepção.
-Não,
não tenho. É preciso ter reserva?
-Senhor,
nosso restaurante é bem procurado pela excelência de nossa cozinha, assim
sendo, sim, é necessário fazer reserva.
Vivien
assentiu e ia retirar-se, quando ouviu chamarem seu nome. Ou melhor, o nome de
Vicent Talbot.
Vivien se voltou e deparou com a mãe de
Deidre, que lhe sorria abertamente. Ela estava bem elegante em um vestido de
seda negra e chapéu de abas
largas.Vivien sorriu forçadamente. A última pessoa que queria encontrar
era a mãe de Deidre.
-Oh... senhora Buster... – Disse,
inclinando-se com cortesia – Que surpresa, vê-la aqui...
-Veio sozinho, senhor Talbot? –
Perguntou a mãe de Deidre, querendo certificar-se.
-Sim. Decidi jantar aqui, mas não fiz
reserva, por isso vou procurar outro lugar para jantar. Foi um prazer vê-la,
senhora...
A mãe de Deidre enfiou o braço no seu,
sorridente.
-Ah, isso não é problema! Em nossa mesa
há lugar para mais um! Nós apenas acabamos de sentar! Venha comigo, sr. Talbot!
-Mas...
-Sem nenhum mas, o sr. vai ficar na
nossa mesa! Deidre vai gostar de vê-lo!
E a mulher arrastou Vivien pelo braço,
não ligando para suas desculpas esfarrapadas.
Deidre estava em uma mesa de seis
lugares, com um casal de jovens. Ela estava de costas não a viu aproximar-se. Já os dois jovens, uma moça loura de
olhos azuis e um rapaz também louro, a
viram chegar e a fitaram com curiosidade.
-Deidre,
veja quem eu encontrei na entrada do restaurante! – Disse a mãe de Deidre,
sorrindo.
Ela voltou o rosto e seus belos olhos
verdes, que estavam tristes, se iluminaram com uma chama de alegria, quando a
viram.
-Vicent! – Disse, com surpresa. E
ficaram se fitando mudas, sem palavras.Foi a mãe de Deidre quem as tirou
daquele transe, dizendo e indicando os dois jovens:
-Senhor Talbot, esses são meus
sobrinhos Paul e Mary Osborne, filhos
de meu irmão. Crianças, esse é o senhor Vicent Talbot, um amigo de sua prima
Deidre.
As "crianças" deviam ser
quase da idade de Vivien. O rapaz devia ter uns vinte anos e a moça uns dezoito. Vivien apertou a mão do rapaz, que
correspondeu sorrindo cordialmente e pegou a mão de da moça, inclinando-se e
falando polidamente:
-Muito prazer, senhorita.
Mary sorriu com prazer, fitando-a nos
olhos com vivo interesse.
-Encantada, senhor Talbot... sente-se
aqui, esta cadeira está desocupada... – Disse Mary, com voz açucarada. Era
evidente que ela havia achado Vicent Talbot um belo rapaz e já estava lançando o seu charme.
Vivien sorriu, fitando Deidre
discretamente. Ela olhava para a prima com um olhar desgostoso e irritado.
Vivien conhecia muito bem um olhar de ciúme e sorriu intimamente. Deidre então
estava com ciúmes... de quem? Dela, ou da prima? Queria descobrir isso...
Vivien entregou o chapéu e o sobretudo
ao maitre e sentou ao lado de Mary,
fitando Deidre com um sorriso tímido.
-Como está, senhorita Dreide?
–Perguntou, recostando-se na cadeira estofada.
Deidre se recompôs da surpresa. Sorriu
forçadamente, sentindo-se enrubescer.Era impressionante como o olhar de
Vicent... Vicent não, Vivien... ela conseguia ainda mexer com suas emoções.
-Muito bem, senhor Talbot – Respondeu,
com uma calma que não sentia – E atarefada ajudando a organizar a festa do
baile anual do Rotary Club, para o dia 31 de dezembro.
-Deidre é uma das organizadoras da festa,
senhor Talbot – Disse a mãe dela, orgulhosa – Não aceitaria ir à festa, senhor?
Os convites custam cem dólares, por que é em benefício às obras sociais do
clube, mas garanto ao senhor que valerá à pena. Será servido um suntuoso
banquete e logo após, um grande baile.
Vivien não achou que devia ir à esse baile,
após o que havia acontecido entre ela e Deidre. Sua desilusão doía e vê-la ali
tão perto e tão inalcansável a fazia sofrer mais ainda. Mas enquanto procurava
uma desculpa, Mary Osborne tocou seu braço, fitando-a com um sorriso cheio de
promessas.
-Diga
que irá, senhor Talbot! Porque um gentleman como o senhor com certeza fará a
festa muito mais divertida!
-Mary!
– Censurou a mãe de Deidre, com ar mortificado – Não é apropriado uma moça
falar assim com um homem a quem acabou de conhecer! Senhor Talbot, desculpe os
modos de minha sobrinha, ela não pensa muito sobre o que diz!
Vivien
olhou para Deidre. Ela fitava a prima como se estivesse com vontade de
esbofeteá-la. Hummm... ela não parecia nada indiferente com a situação. Talvez
fosse bom ir à esse baile.
Assim
pensando, Vivien sorriu para a mãe de Deidre e disse com jovialidade:
-Não
se preocupe, senhora Buster. Tenho certeza que a senhorita Mary quis apenas
incentivar-me a comprar o convite. E qual o cavalheiro que não atenderia tão
gracioso incentivo? Vou comprar o convite, sem dúvida.
-Um convite apenas, senhor Talbot? –
Perguntou Celine Buster – Não irá acompanhado?
Vivien
encarou a mãe de Deidre com um sorriso.
-Sou
solteiro e sem compromisso, senhora. Assim, um convite é suficiente, porque
irei sozinho. Onde compro o convite?
-Eu
o enviarei por Deidre ao senhor. Poderá então pagar no ato do recebimento.
Vivien
ficou séria e encarou Deidre, que desviou o olhar, enrubescida.
-Acho
que será melhor eu mesmo procurar a senhora para a compra. A senhorita Deidre,
como já disse, está muito atarefada.
-Bobagem,
senhor Talbot! Deidre é sua amiga e vizinha! Não custará nada à ela fazer essa
entrega!
Vivien
olhou para Deidre. Ela a fitava e sorriu levemente, dizendo com voz suave:
-Eu
irei levar o convite, senhor Talbot. Não me dará nenhum trabalho.
-Bem...
sendo assim, está combinado.
O
garçon chegou e todos fizeram os pedidos. Mary pousou a mão sobre o braço de
Vivien e falou melosamente, batendo os cílios:
-Recomendo
o salmão com molho de noses, senhor Talbot... modéstia à parte, tenho bom
gosto... em tudo.
Vivien
a encarou com um sorriso polido. Só um imbecil não notaria o interesse de Mary
por ela. Mas isso não a entusiasmou nem um pouco. Mary não chegava aos pés de
Deidre em tudo. E Mary era outra mulher que pensava que ela era homem.
-Acredito
no que diz, mas eu não gosto de peixe. Vou preferir outro prato – Disse,
fitando indecisa o menu.
-O
medalhão com bacon e batatas coradas é a especialidade do restaurante, senhor Talbot – Disse Deidre,
com sua voz suave – E muito apreciado.
Vivien
sorriu para ela.
-Realmente?
Vou seguir sua sugestão, senhorita Deidre – Disse, piscando no final.
Deidre
baixou os olhos, ruborizada. Aquele sorriso havia aquecido seu corpo e coração,
que disparou. E ali, cercada por seus parentes, percebeu que não podia mais
negar a si mesma que a despeito de tudo, o seu amor, a sua paixão, continuava
forte, indiferente ao gênero sexual de Vivien. Desde aquela noite que soubera
que o homem que dominava seu coração era na verdade uma mulher, ela se negava a
aceitar o que sentia, deixando o medo comandar seus atos. Medo de amar uma
mulher, de ser execrada pela sociedade, como sua tia havia sido anos atrás,
quando era apenas uma criança.
Mas esse medo não estava conseguindo vencer o outro sentimento
mais forte, vendo Vivien diante de seus olhos. E reconheceu que à despeito das
noites insones, pensando que tinha de matar aquela paixão destrutiva, dos dias ocupados com trabalho para
resistir, o seu amor continuava intenso como uma chama, ignorando preconceitos,
medos, sexo e razão.
Ela amava um ser humano, se era
homem ou mulher, isso não mudava seu encantamento por aqueles olhos magnéticos,
aquele sorriso luminoso, aquele rosto magnífico, aqueles cabelos negros e
sedosos, aquele corpo alto e imponente em sua estrutura esguia. O sexo era um
detalhe que não importava. Amava aquela pessoa, fosse ela Vicent ou Vivien. O
que importava era o que ela lhe despertava: um sentimento que ninguém até então
conseguira, e tinha certeza, ninguém mais conseguiria. E ver sua prima se
insinuando para Vivien a estava deixando com um ciúme doloroso, que mal podia
esconder.
O jantar transcorreu com a troca
de olhares discretos, uma procurando
não se deixar ser pêga pela outra olhando, sorrisos entremeando palavras que a
etiqueta determinava. Mary e o irmão
monopolizaram a atenção de Vivien, fazendo perguntas sobre sua vida, falando
sobre os locais mais divertidos de New York.
Vivien soube então que Mary e o irmão
viviam em Maryland, mas estariam na casa dos avós até o pai voltar de uma
viagem de negócios.
Quando o jantar acabou, Vivien pagou a
conta sob protestos de Deidre e um sorriso deliciado de sua mãe. Mary perguntou
se Vivien gostaria de acompanhá-los ao teatro onde iriam ver uma peça de
vaudeville, mas Vivien declinou o convite dizendo-se cansado e se retirou,
depois de trocar um olhar com Deidre.
Vivien
chegou em casa, despiu-se, vestiu sua
roupa de dormir e se deitou. Estava agora cheia de esperanças depois do
encontro com Deidre e seus parentes. Havia percebido os olhares reprovadores
dela para a prima, e porque não dizer, havia percebido neles até ciúmes! Será
que ainda tinha uma chance com Deidre, mesmo sendo mulher? Pois iria descobrir
isso! Estava cansada de sua solidão, estava apaixonada novamente e dessa vez,
iria lutar para ter o amor da mulher que amava. Se Deidre a quisesse, iria
lutar para tê-la e ser feliz.
Ser
feliz. Será que ainda era possível ser feliz? Ter o amor de Deidre? Havia feito
um juramento ao seu amado irmão em seu leito de morte. Havia prometido assumir
a responsabilidade pelo ato dele, quando voltasse à Charleston, de casar com
Audrey. Mas, como cumprir essa promessa, se estava agora apaixonada por Deidre?
Ah, não queria pensar nisso agora! O fim da guerra parecia tão
longínquo...muita coisa iria acontecer, até lá! Talvez encontrasse Audrey
casada, ou quem sabe, nunca mais a encontraria.Numa guerra acontecia tanta
desgraça...tinha que viver o aqui e agora, o futuro era nebuloso e incerto.
Como qualquer ser humano, tinha direito de ser feliz!
Com
esse pensamento na cabeça, adormeceu.
cd
O dia
amanheceu. Estava frio, mas havia parado de nevar, com um céu límpido e azul.Na
expectativa de receber a visita de Deidre, Vivien tomou seu banho matinal e
vestiu-se, tendo o cuidado de escovar seus bastos cabelos e perfumar-se.
Desceu
para o café da manhã . Mooke a fitou com atenção, sorrindo.
-Humm...
vai receber visita, toda vestida elegante e perfumada?
Vivien
enrubesceu, evitando fitar Mooke.
-Deidre
Mackena vem aqui trazer-me um convite para uma festa amanhã.
Mooke
a fitou atenta.
-Hum!
Essa moça é um anjo, miss Vivien, não acho certo ela ser enganada...
Vivien
encarou Mooke com o cenho franzido.
-O
que você está querendo dizer com isso, Mooke? – Perguntou, com voz fria.
-Miss
Vivien, eu não sou cega. É fácil ver que essa moça tá apaixonada por você,
pensando que você é um homem. E você está deixando ela ficar enganada por que
gosta dela. Mas isso tá errado, miss Vivien!
Vivien
se levantou profundamente irritada.
-Mooke,
você devia tentar saber das coisas antes de acusar! Saiba que Deidre sabe que
sou uma mulher, eu contei isso à ela! E se ela está ou não apaixonada por mim,
isso não é de sua conta! E pare de me chamar de Vivien! Eu já falei à você que
Vivien não existe mais! Agora sou Vicent!
Mooke
a fitou de cara amarrada, fazendo beiço.
-Isso
nun tá certo, miss... sinhô Vicent!
Vivien
a encarou com os olhos brilhantes de raiva.
-Mooke,
eu gosto muito de você, mas não admito que se intrometa em minha vida! Se não
aprova o que sou, guarde isso para você ou então deixe de trabalhar para mim!
Por que vou viver minha vida como acho que devo!
Dizendo
isso, saiu da sala. Pegou seu sobretudo no cabide do corredor e saiu batendo a
porta, furiosa.
Caminhou
várias quadras até que entrou em uma confeitaria. Sentou numa mesa e pediu café
com torradas e ovos mexidos. Comeu pensativamente, arrependendo-se das palavras
bruscas que dissera à Mooke. Sabia que a velha criada a amava como à uma filha.
Mas também não podia deixá-la dar palpite em sua vida.
Acabou
seu café da manhã, pagou e saiu. Estava frio, sem nevar, e as crianças
brincavam nas ruas fazendo bonecos de neve ou jogando bolas de neve uma nas
outras, numa brincadeira cheia de gritos alegres. Vivien olhou a cena com
saudades de seu tempo de criança, quando brincava assim com seu irmão. Suspirou
e voltou para casa lentamente, com as mãos nos bolsos do sobretudo.
Quando
chegou, Mooke avisou, sem fitá-la:
-Miss
Deidre teve aqui. Ocê não tava e ela escreveu um bilhete e colocou no
envelope que trouxe pra ocê, está no aparador.
Vivien
se aproximou de Mooke e pousou a mão no ombro dela. Mooke a fitou com olhos
tristes.
-Mooke...
peço desculpas pela forma com que falei com você. Sei que só quer o meu bem,
mas... por favor, deixe-me viver como quero, está bem?
-Tá
bom, miss... sinhô Vicent. Eu num devia ter falado nada, ocê é gente grande,
num é mais minina...eu só quero que seja feliz, si ocê gosta de miss Deidre
como um home, eu num tenho nada cum isso...tá bom, num falo mais nada.
Vivien sorriu,
sabendo que Mooke estava nervosa porque estava falando errado. Bateu nas costas
dela, amigavelmente.
-Não
fale errado, Mooke. Você aprendeu a falar certo! Não quero que falem que minha
querida Mooke fala errado, ouviu? Bem, vou ver esse envelope.
Afastou-se
e foi até o aparador ao lado da lareira. Pegou o envelope rosa que estava ali e
leu o endereçamento com letras elegantes:
Para Vicent
Talbot – Em mãos
Vicent, vim
trazer o convite e você não estava. Notei que Mooke estava
muito triste e fiquei preocupada. Você pode vir até aqui em minha
casa, quando chegar?Estarei aguardando-o.
Deidre.
Vivien
recolocou o convite e o bilhete no envelope e o guardou no bolso do
sobretudo,tentando disfarçar sua alegria. Não ia deixar passar essa chance de
estar com Deidre à sós.Tinha tanto a dizer à ela!
Com o coração cheio de esperança,
Vivien avisou à Mooke que ia na casa de Deidre e não tinha previsão de que hora
voltaria. E se foi, com o coração disparado.
Chegou à porta e puxou a pequena corda
do sininho de prata ao lado. Ele soou com seu som estridente e em pouco tempo a
própria Deidre veio atender, abrindo a porta e sorrindo timidamente. Se fitaram
nos olhos em silêncio por uns momentos,
até que Vivien sorriu e disse com voz incerta:
-Bem...
aqui estou. Você me chamou...
Os olhos de Deidre emitiram um brilho
de estrelas, quando afastou-se para Vivien entrar. Vivien passou por ela e
voltou-se, observando-a fechar a porta com a chave. Ela estava encantadora em
um vestido rosa- bebê com pequenas
flores azuis. Vivien devorou com o olhar aquela beleza loura, com vontade de
estreitá-la nos seus braços entre beijos e afagos.
-Venha, Vivien... – Disse Deidre,
fazendo um gesto para ela seguí-la. Foram até a sala de estar e Deidre se
sentou no sofá diante da lareira . Vivien hesitou, e optou para sentar numa
poltrona ao lado.
-Vivien, eu não mordo... pode sentar-se
ao meu lado? – Perguntou Deidre, com tristeza.
Vivien olhou em volta, preocupada. Se a
empregada a ouvisse tratando-a por Vivien e não Vicent, estaria desmascarada.
Deidre pareceu ler seu pensamento. Ela
a encarou e falou calmamente:
-Estou sozinha em casa. Gertie foi
passar o final de ano com a família, em Queens.
-Oh...melhor assim – Disse Vivien,
erguendo as sobrancelhas e se levantando e sentando ao lado de Deidre – Mas,
mesmo nós estando a sós, não prefere tratar-me por Vicent? É como se acostumou
a chamar-me. Vivien é uma estranha para você.
Deidre a fitou nos olhos e suspirou,
olhando para as chamas que dançavam na lareira.
-Vicent foi a ilusão do homem perfeito,
um homem que não existe. Você é a realidade. Mesmo vestida como um homem, você é uma mulher. Vivien.
-Deidre, eu não... – Começou Vivien.
-Deixe-me falar, Vivien... – Disse
Deidre suavemente, fitando-a – Eu quero que saiba como me sinto. Eu sei que
depois de sua revelação naquele dia, eu
a feri com a minha reação. Sei que a decepcionei, que a fiz sentir-se
desiludida, humilhada. Eu, quem estava louca de paixão, dizendo que amava você,
que arriscaria tudo pelo seu amor, ao conhecer a verdade sobre seu sexo, me
retraí e disse que precisava pensar, que podia ser sua amiga! Que precisava
repensar tudo!
-Eu entendi como se sentia, Deidre... e
não a procurei mais, para deixá-la à vontade
para tomar sua decisão sobre nós. Se desejava ser minha amiga... ou não.
– Disse Vivien, fitando as chamas.
-Eu tinha certeza disso, Vivien... mas
eu fui covarde, medrosa, uma mulher sem ter a sensibilidade de enxergar a
verdade diante de meu nariz...
A voz trêmula de Deidre faltou e Vivien
voltou o rosto, fitando-a . E viu com surpresa que Deidre estava chorando
silenciosamente, as lágrimas deslizando pelo seu rosto.Vivien sentiu seu
coração se encher de ternura por Deidre, sentiu um enorme desejo de secar
aquelas lágrimas com beijos. Mas não podia. Então, perguntou com voz também
trêmula:
-Por que está chorando, Deidre? Não
chore... você está partindo meu coração...
Deidre a fitou entre lágrimas, com
tanto amor nos olhos, que Viivien ficou muda de emoção.
-Como não devo chorar, Vivien? – Disse
Deidre, entre soluços – Eu estraguei tudo! Eu não percebi que eu amo você não
somente o corpo, mas também a alma! O meu amor por você é muito mais que um
sexo entre suas pernas, Vivien! É muito mais que um nome! Você, mesmo sendo
mulher, continua a ser a mesma pessoa que encantou-me com esses olhos fascinantes, esse sorriso, esse rosto belo e forte, esse corpo que me
atrai, essa voz rouca e profunda, o
cheiro da sua pele, sua maneira de ser. Eu me retraí com sua revelação, achando
que havia cometido um engano. Eu precisei ver você sendo assediada por Mary
naquele restaurante, para perceber que eu continuava apaixonada por você, que a
desejava, que morria de ciúmes ao ver você simplesmente sorrir para ela! E
agora, você não deve me querer mais, porque fui uma idiota e a feri!
Vivien estendeu os braços para Deidre,
pousando as mãos em seus ombros, fazendo-a encará-la. Fitou-a nos olhos e
disse, emocionada:
-Deidre, está se torturando à toa!
Então, acha que meu amor é tão pouco assim, para desistir de você sem lutar? Eu
a amo, Deidre! E precisaria de muito mais para deixar de amá-la!
Deidre a fitou com uma chama de
esperança no olhar. E ao ver o desejo e o amor brilhando nos olhos de Vivien,
ela jogou-se nos braços dela, abraçando-a e enterrando a cabeça no ombro de
Vivien, aspirando o perfume misturado ao cheiro da pele. Vivien a abraçou
fortemente, os cabelos de Deidre sob o seu queixo inebriando-a com seu suave
cheiro floral de sabonete.
-Oh, Vivien, Vivien! – Gemeu Deidre, os
lábios contra seu pescoço – Eu a amo tanto!Tanto!
Vivien afastou-se um pouco e tomou o
rosto de Deidre entre as mãos. Fitou-a nos olhos e disse em voz baixa:
-Eu quero você, Deidre. Agora. Seja
minha, prove-me suas palavras.Eu preciso acreditar nelas.
Deidre pegou as mãos de Vivien e as
beijou, fitando-a nos olhos. E Vivien viu um mar de sensualidade naqueles olhos
verdes. Fascinada, deixou Deidre pegar suas mãos e as colocar em seus quadris.
E Deidre então rodeou seu pescoço com os braços, beijando-a com uma ardor que
fez o coração de Vivien se acelerar.
Beijos
longos, quentes, sensuais, a língua procurando a sua, sugando, acariciando.As
mãos se enterrando em seus cabelos, nervosas, sensuais, provocantes.Deidre
passou a ponta da língua pelo lóbulo de sua orelha e Vivien estremeceu,
passando as mãos pelo corpo de Deidre, numa carícia.
Ela se afastou lentamente, se
levantando e tomando Vivien pela mão. Vivien entendeu a intenção e levantou
também, fitando-a nos olhos. E uma começou a despir a outra, distribuindo
beijos pelas partes expostas.
Finalmente nuas, se contemplaram com
reverência.
Vivien olhou aquele corpo de curvas
harmoniosas, os seios de bom tamanho eretos, com pequenas auréolas, uma barriga
definida, o triângulo dourado entre as coxas fortes e bem torneadas. Ela
parecia uma deusa, dourada pela luz das chamas.
Deidre contemplou Vivien nua. Pela
primeira vez, via uma mulher nua, na sua frente. Já havia contemplado pinturas
e esculturas de mulheres nuas, mas uma pessoalmente, nunca. E Vivien, despojada
do seu disfarce, era uma bela mulher, alta, com seios pequenos eretos, ombros
largos, o abdome musculoso se estreitando na cintura esguia e se alargando um
pouco nos quadris, o triângulo negro dos pelos sedosos e as coxas e pernas compridas e esculturais.
E ela descobriu, surpresa, o simples ato de ver Vivien nua a excitou ainda
mais, ao contrário de seu marido, que só lhe despertava repugnância.
Elas se aproximaram e se tocaram.
Deidre, tocando o rosto de Vivien, admirando a suavidade da pele, fitando-a nos
olhos com desejo. Vivien foi mais audaciosa, suas mãos foram para os seios de
Deidre, tomando os biquinhos já enrigecidos de desejo entre os polegares e
indicadores apertando suavemente. Vivien, sem parar de fitá-la nos olhos,
desceu o rosto e suas bocas se uniram em um beijo à princípio tímido, mas logo
se tornando apaixonado e ardente.
Deidre se espremeu contra o corpo de
Vivien, deliciando-se com a textura suave e o cheiro da pele,suave e bem diferente do cheiro de um homem.Aquele
cheiro a excitou e apertou seu sexo contra a coxa de Vivien, enquanto sugava e
se deixava sugar pela boca de lábios macios.
Vivien sentiu sua coxa molhada pela
excitação de Deidre e envolveu sua cintura com o braço, puxando-a para o sofá.
Recostou-se e puxou Deidre para seu colo, continuando a beijá-la ardentemente.
A mão direita acariciou os seios e suavemente rumou a ponta dos dedos pela pele
sedosa. Deidre arqueou o tórax ao seu toque e pousou a mão sobre a sua,
apertando-a mais contra o seio, fechando os olhos e jogando a cabeça para trás.
Inclinando-se para a frente, Vivien tomou o róseo biquinho entre os lábios e
começou uma lenta e sensual sucção.
O gosto da pele de Deidre era tão bom!
Deidre revelou em pequenos gemidos como estava gostando da deliciosa carícia.
Vivien fez o mesmo no outro seio e sentiu as mãos de Deidre enterrando em seus
cabelos, os gemidos crescerem de intensidade. Não querendo que ela atingisse o
orgasmo tão rápido, afastou a boca e ficou fitando aquele rosto que revelava
toda a luxúria que estava possuído. Deidre abriu os olhos lentamente e a fitou
com fome no olhar. Vivien tocou o rosto dela suavemente, e inclinou-se e a
beijou suavemente.
A simples conexão de seus lábios aumentou
o desejo em seus corpos.O beijo se aprofundou e seus corpos começaram a se
roçar um contra o outro, à procura do prazer. Deidre abriu as pernas e colocou
um dos joelhos entre as pernas de Vivien, os braços rodeando seu pescoço, a
boca devorando a sua em beijos ardentes.
Vivien ficou louca, sentindo o sexo
molhado de Deidre se roçando em sua coxa. Começou também a se roçar contra ela,
segurando-a pela cintura com as mãos, suas bocas sempre juntas, se
sugando.
Deidre aumentou a velocidade de seus quadris contra Vivien, seu
corpo estremendo à cada contato
do sexo com sua coxa. Afastando a boca,Vivien a moveu para o pescoço de
Deidre, beijando e mordiscando,
enquanto sua mão direita desceu para o
sexo quente e molhado, acariciando o pequeno clitóris. Apenas quando percebeu
que Deidre estava à ponto de gozar, ela a penetrou com três dedos, sentindo as
paredes da vagina se contraindo contra seus dedos. Deidre gritou de prazer e se
apertou fortemente contra ela, o corpo nos tremores do orgasmo poderoso.
Os sons emitidos por Deidre em seu prazer eram como música nos
ouvidos de Vivien. Ela contemplou a cabeça loura pousar em seu ombro, o corpo
ainda estremecendo em orgasmos múltiplos.
Era uma visão maravilhosa. Ela era magnífica, dona de uma beleza sublime, que a encantava além das
palavras.Mas Vivien precisava saciar seu desejo também, e em um movimento, a
deitou de costas e a beijou com ardor.
Deidre
abriu as pernas, permitindo total acesso de Vivien. Estava apaixonada e queria
desesperadamente ver Vivien ter seu orgasmo com ela. Abraçou Vivien, quando ela
descansou a cabeça em seu ombro e encaixou o sexo contra o seu,se movendo
frenéticamente à procura do prazer. Seu corpo molhado de suor desprendia um
aroma intoxicante, que a excitava imensamente.E aquele corpo forte, mas macio e
liso, se movendo daquele jeito, as mãos finas a apertando, os gemidos no seu
ouvido,o sexo em fogo contra o seu, tudo a fez
despencar em um abismo de prazer inimaginável. E elas sentiram juntas a
mesma emoção indescritível do êxtase.
As horas correram céleres com as duas
mulheres se entregando incansavelmente, criando novos carinhos, novas posições,
até adormecerem esgotadas.
Lá
fora, não muito distante, a guerra continuava, ceifando vidas. Mas elas não queriam
saber disso.
Continuará na parte 8
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