Nunca Ame Uma

ASSASSINA

 

Parte 9

 

 

Voltou para casa somente quando principiava o anoitecer. Os grilos e sapos começavam seu coral noturno.

 

        Bafly fumava seu cachimbo, sentado nos degraus da casa. Ficou olhando-a aproximar-se. Jessie parou diante dele.

 

        -E Dale já saiu do quarto?

 

        -Não. Acho que dormiu a tarde toda.

 

        Jessie ia entrar, quando Dale surgiu na porta, andando perfeitamente.

 

        -Bafly! Jessie! Fiquei boa!

 

        Jessie olhou para o pé dela. Não estava mais inchado.

 

        Dale sorriu, abaixando-se ao lado de Bafly e beijando-o no rosto, com gratidão. Barfly enrubesceu,  acanhado.

 

        -Obrigada, Bafly! Não sei como lhe agradecer! Você é mesmo um homem que sabe das coisas!

 

        Ele cofiou a barba, sorridente e vermelho.

 

        -Aprendi muita coisa com os índios... há muitos anos, em Oklahoma...

 

        Dale ergueu-se. Olhou para Jessie com um sorriso vitorioso.

 

        -Agora não estou mais como uma inválida, precisando de ajuda.

 

        Jessie entendeu. Ela estava satisfeita por não depender mais de sua ajuda. Voltou o rosto para Bafly, para que ela não visse seu olhar magoado.

 

        -Bafly, vou tomar um banho. O velho banheiro ainda existe?

 

        -Sim, mas está em mal estado. Os canos enferrujaram.

 

        -Homem, como você toma banho?

 

        -No verão, no rio. No inverno, na velha tina de cobre. Está lá no banheiro.

 

        -Deus! Há ao menos sabonete lá?

 

        -Há, sim! Gosto de andar limpo, Jessie! No velho armário há uns seis guardados! Sabe como é... uma vez por mês vou até a casa de uma viúva fazer uma visita... e tenho que estar limpo e cheiroso!

 

        Jessie e Dale riram. Seus olhos se encontraram e Jessie viu nos olhos de Dale a antiga chama da paixão. Quis olhar naqueles olhos verdes mais, mas Dale desviou-os para Bafly.

 

        -Muito esperto, heim, Bafly? Não falei que você sabe das coisas? Então, vou tomar um bom banho! Só que prefiro tomá-lo no rio. Deve ser mais gostoso, se não houver cobras por lá – Disse Dale.

 

        -Bem, isso eu não posso garantir... mas nunca me aconteceu nada – disse Bafly.

 

        -Vou com você, Dale – disse Jessie – levarei o rifle de Bafly. Será mais seguro.

 

        Ela a encarou hesitante. Mas assentiu.

 

        Dale foi apanhar roupas para vestir e Jessie apanhou o sabonete e uma toalha que Bafly lhe deu. Ele lhe entregou o rifle, olhando-a sério.

 

        -Isso não é brinquedo, Jessie. Sabe manejá-lo?

 

        -Quando era adolescente o usei caçando coelhos, Bafly. Esse rifle é um velho conhecido.

 

        Apoiou-o no ombro e mirou uma lata no chão, há uns cinquenta metros. Puxou o gatilho. A lata saltou, perfurada.

 

        Bafly e ela riram.

 

        -Viu, Bafly? Ainda sei usá-lo como anos atrás!

 

        -Muito bem, Jessie! Acertou na mosca!

 

        Dale surgiu correndo, os olhos cheios de medo.

 

        -O que houve? Que tiro foi esse?

 

        Jessie olhou-a, pendurando o rifle no ombro pela alça.

 

        -Nada demais. Estava mostrando a Bafly minha pontaria.

 

        Dale suspirou, aliviada.

 

        -Que susto! Pensei... bem, vamos para o rio, antes que anoiteça.

 

        -Até chegarmos lá, já será noite. Mas a lua é cheia, dá para clarear o suficiente – avisou Jessie – Vamos.

 

        Jessie avançou, com Dale seguindo-a . Os últimos raios do sol tingiam o horizonte de vermelho.

 

        No meio do caminho, Jessie notou que Dale tinha dificuldade em acompanhá-la. Parou e esperou-a . Dale vinha devagar, escolhendo onde pisar.

 

        -O que é? O pé voltou a doer?

 

        Dale mostrou os pés descalços.

 

        -As pedrinhas no chão machucam. Esqueci que tenho um par de tênis no carro. Deixei lá para ir fazer ginástica na academia.

 

        -Vamos então mais devagar.

 

        Começaram a caminhar lado a lado. Dale olhava para o solo, preocupada em não machucar os pés. Jessie a fitava de vez em quando, com saudade daqueles lábios macios e suspirava.

 

        Chegaram ao rio sem incidentes. Havia pedras nas margens e a água brilhava sob os raios da lua que surgira. Dale colocou as roupas sobre uma pedra e começou a despir-se sem olhá-la.

 

        Jessie a imitou, procurando não olhar aquele corpo belíssimo, mas não resistiu. De soslaio, viu-a completamente nua entrar na água. Era uma cena deslumbrante. Jessie também entrou na água. Dale parecia estar olhando-a,  mas nas sombras da noite não dava para ver o rosto dela.

 

        A água estava morna, deliciosa. Naquele trecho do rio as águas eram mais profundas e dava para nadar. Jessie deu algumas braçadas, afastando-se de Dale.

 

        -Jessie! – Gritou Dale, com voz receosa.

 

        Jessie voltou-se.

 

        -Que é?

 

        -Não se afaste muito!

 

        Jessie sorriu e nadou para perto dela. Agora dava para ver o rosto, iluminado pela lua. Dale a olhava séria.

 

        -Está com medo?

 

        -Não sou nenhuma Jane e nem você é Tarzan!

 

        Jessie riu.

 

        -Admiro seu senso de humor!

 

        Tocou nela ocasionalmente, ao movimentar os braços. Dale recuou vivamente.

 

        -Não a  toquei de propósito! – Protestou Jessie, magoada. – Nunca iria tocar em você contra sua vontade!

 

        -Não sei.   Não a conheço bem.

 

        -Não me conhece! Fui totalmente sincera com você, Dale! Podia ter escondido o que fiz com Lana, mas quis que soubesse de tudo! Não queria enganá-la mais, esperava que me desse uma segunda chance – disse, magoada.

 

        -Não, Jessie. Não confio mais em seu amor. Você me magoou muito. Duvidou de meu caráter, traiu-me.

 

        -Oh, Dale! Eu a amo ! Agora tenho certeza disso! Se me aceitar de novo, nunca mais olharei para outra mulher com interresse! – Afirmou, com calor.

 

        -São somente palavras, Jessie. Fáceis de dizer.

 

        -Oh, Dale... – Disse, aproximando-se dela – Eu imagino como se sente. Eu a magoei muito. Duvidei de você,  a traí com Lana... mas procure entender-me. Eu estava cega por uma paixão que Lana atiçou com suas provocações e recusas. Somente agora entendo o que sentia. Eu a amava e amo, Dale. Mas Lana representava um desafio para mim, uma caipira saída de uma prisão, com um forte complexo de rejeição e inferioridade. E era a mulher de Benson, um fruto proibido do homem que eu não gostava e invejava.  Conseguí-la era para mim um desafio e um vitória contra Benson, um homem rico e fino. Agora sei disso.

 

        Dale a fitou secamente.

 

        -Entendo que queria conquistar Lana para afagar o seu ego, provar que era melhor que Benson. Mas, e daí? E o amor que dizia sentir por mim? No seu egoísmo, não pensou em mim! Traiu-me sem nenhum remorso! Achou que eu era uma assassina! Isso não é amor, Jessie!

 

        -Eu estava cega, Dale! Mas agora vejo tudo claramente – Disse, com voz suplicante – Eu a amo! A idéia de que perdi o seu amor faz-me sofrer muito, nada mais me importa! Eu errei, reconheci meu erro tarde demais, fui uma idiota! Mas se me ama, Dale, perdoe-me e me dê uma chance de demonstrar meu amor!

 

        Ela a fitou com mágoa nos belos olhos.

 

        -Você matou o amor que eu tinha por você. Não acredito mais em suas palavras.

 

        Jessie olhou-a derrotada, com lágrimas nos olhos.

 

        -Está bem... – Disse, com voz cheia de tristeza – Eu a perdi, Dale... vejo que seu amor por mim realmente terminou. Porque se me amasse ainda, tentaria uma segunda vez. Mas não me ama mais e minhas palavras não encontram eco em seu coração. Não vou mais importuná-la com meu arrependimento e dor. Logo que tudo isso acabar, vou embora daqui. Nunca mais me verá, vou sumir de sua vida.

 

        Voltou-se, afastando-se dela, sentindo lágrimas quentes descerem dos seus olhos. Oh, como estava sofrendo com a rejeição de Dale!

 

 Chegou à margem do rio e apanhou a toalha para enxugar-se. Queria sair dali, para não continuar vendo Dale nua, tão desejável e tão inatingível. Ouviu rumor de água atrás de si. Não se voltou. Continuou a enxugar-se, reprimindo um soluço.

 

        A mão de Dale pousou no seu ombro. Voltou-se, fitando-a surpresa.

 

        Ela a olhava atentamente, com olhar indeciso e grave.

 

        -Jessie... quero muito acreditar no que diz. Mas tenho medo. Medo que você não me ame e estar tentando enganar-me – Declarou, com voz tensa.

 

        Jessie a segurou pelos ombros, com olhar torturado.

 

        -Dale, acredite em mim, por Deus! Eu a amo de verdade! Dê-me uma chance para provar isso, querida! – Suplicou, desesperada.

 

        Ela a fitou imóvel, tremendo. Jessie a abraçou impetuosamente e desceu os lábios ansiosos para beijá-la. Ela empurrou-a, mantendo-a afastada.

 

        -Não, Jessie... não posso fraquejar com suas palavras e beijos mentirosos! Você quer enganar-me!

 

        Jessie não a largou, mantendo os braços na cintura dela. Olhou-a com paixão, amor, medo de ser rejeitada.

 

        -Não me repudie mais, por Deus... eu a amo, eu a desejo, não consigo aceitar que não me queira mais!

 

        Dale fitou-a nos olhos e suspirou, encostando-se em seu corpo.     As duas estremeceram de emoção. Dale abraçou-a também e sussurrou, vencida pela emoção:

 

        -Jessie, não consigo resistir à sua voz pedindo... ao toque de seu corpo... ao seu olhar... oh, eu ainda a quero muito... mesmo sentindo medo que tudo que diz seja uma  mentira... Deus, não agüentaria outra traição sua!

 

        Jessie a apertou contra o corpo, olhando-a embevecida.

 

        -Dale, querida... não tenha medo! Porque o medo maior agora é meu, de perdê-la. Eu a amo muito. Amo seu olhar, sua boca, seu corpo, seu jeito de beijar e amar... eu estava louca por uma paixão barata, mas fiquei curada. Amo-a, Dale. Nunca vou cansar de dizer isso.

 

        Suas bocas se encontraram em um beijo profundo, fremente de amor. E Dale pareceu soltar suas amarras de medo, tornando o beijo ardente, exigente, cheio de paixão. A língua sugando, o corpo espremendo-se, as mãos apertando-a com avidez.

 

        Jessie a beijava também com loucura, sentindo no coração a emoção poderosa de estar com a pessoa amada nos braços. Sua doce e querida Dale, como era maravilhoso beijá-la!

 

        -Jessie, Jessie... – Ofegou Dale, mordiscando os seus lábios – Como a amo, não posso resistir... quero ser sua... quero que me tome com loucura...

 

        Deitaram sobre a grama que margeava o rio. Jessie beijou todo o corpo amado que se entregava alucinadamente, fazendo mil carícias com a boca e as mãos, fora de si.Rolaram na grama agarradas em um beijo apaixonado, sentindo o desejo enlouquecê-las.

 

        E Dale entregou-se totalmente, gemendo seu nome, dizendo frases ardentes, movendo o corpo com alucinação,  deixando-a possuí-la como quisesse.

 

        Jessie a possuiu com todo o seu ardor, fazendo tudo que sabia para dar prazer à uma mulher. Fez loucuras, sentindo um prazer intenso ao ver Dale gozar vezes seguidas, gritando seu nome. E quando ela a apertou nos braços, sentindo-a mover-se frenética, Jessie teve o mais intenso orgasmo de sua vida.

 

        Depois ficaram abraçadas, trocando beijos e carinhos, se fitando com amor.

 

        Dale debruçou-se para ela,acariciando-a no rosto.

 

        -Veja como eu a amo, Jessie... se não a amasse tanto, não a perdoaria. Mas você domina-se com esses olhos magnéticos...esse rosto lindo...

 

        -Linda é você, querida... adoro tudo em você. Como eu estava louca! Tinha uma mulher maravilhosa ao meu lado, e desejava uma vagabunda.

 

        O olhar de Dale se ensombreceu.

 

        -E o que vai fazer, agora? Denunciar Lana à polícia? Ah, agora odeio Benson e ela! De Lana eu podia esperar tudo, mas do meu falso pai...

 

        Dale começou a chorar. Jessie a abraçou com ternura, comovida com a desilusão dela.

 

        -Não chore, meu anjo... aquele patife não merece que chore por causa dele.

 

        -Eu sei, Jessie... mas é duro saber que quem eu amava como pai era um embusteiro que fingia amar-me! Quando minha mãe se divorciou dele, preferi ficar com ele, achando que ele merecia isso, por que minha mãe sempre me pareceu muito fútil, preocupada apenas em se divertir!

 

        -E ela é isso que pensava?

 

        -Sim. Minha mãe vive mudando de marido como de roupa! Nunca me deu muita atenção. Benson, não. Vivia agradando-me. Agora sei porque. Para eu confiar cegamente nele. Nunca me preocupei em saber a quem realmente pertencia nossa fortuna. Ele era o grande advogado, sempre me deu o dinheiro que queria. E dizia que herdara do pai. Nunca me falou sobre o testamento. Ele tem uma procuração minha, que lhe dá o direito de movimentar a herança. Enganou-me, dizendo que era para investir o meu dinheiro em negócios.

 

        -Que patife! Mas, não posso denunciá-lo sem provas. Ele é um advogado respeitado, eu uma ex-presidiária.

 

        -Arranjaremos uma saída, Jessie.Vou pensar sobre isso.

 

        -Vamos agora, amor? A noite está esfriando. E Bafly deve estar preocupado com a nossa demora.

 

        -Vamos, meu bem. Eu trouxe uma blusa e calcinha para você. Vai ficar pequena, mas é melhor que nada.

 

        -Você é um amor, Dale! Vamos tomar um banho rápido e nos vestirmos. Estamos precisando.

 

        Dale sorriu, erguendo-se. Apanhou o sabonete e as duas se ensaboaram e se enxaguaram na água morna. Enxugaram-se e vestiram as roupas. Voltaram de mãos dadas, parando de vez em quando para se beijarem. Dale a olhava com amor e Jessie sentia o coração encher-se de felicidade. Nunca mais a  deixaria ou trairia. Porque agora reconhecia a mulher maravilhosa que possuía.

 

        Bafly não estava à vista. Devia estar fazendo o jantar.

 

        Jessie entrou com Dale e parou, estupefata. Dale deu um pequeno grito de surpresa.

 

 

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        Lana Kinkayd sorriu, ao lado de Arthur Benson. Ela empunhava uma arma. Sentada no banco da sala, com as pernas cruzadas, parecia muito à vontade. Arthur Benson estava em pé, os braços cruzados, sorrindo ironicamente.

 

        -Olá, queridas! Gostaram do banho? – Disse, Lana, com deboche – Mas em que pardieiro as encontrei!

 

        Jessie abraçou o ombro de Dale, instintivamente. Dale tremia, olhando-os com medo.

 

        -Onde está Bafly? Que fizeram com ele ?– Perguntou Jessie, com voz firme.

 

        Benson se adiantou. Tomou o rifle de Jessie.

 

        -Aquele velho imundo? – Sorriu ele, pendurando a arma no ombro – Está lá na cozinha, amarrado como um porco!

 

        Lana ergueu-se. Olhou para as duas, com raiva.

 

        -Afastem-se uma da outra! – Gritou, ameaçadora.

 

        Jessia afastou-se um passo de Dale. Encarou Lana com ódio.

 

        -Como conseguiram nos achar?

 

        Lana a olhou de cima à baixo. Sorriu, encarando-a .

 

        -Simples. Fomos à casa da irmã de Judy e ela nos deu o endereço daqui.

 

        Jocelyn! Ela sabia onde era a fazenda! Jessie reprovou-se por não ter pensado nessa possibilidade de Lana e Benson descobrirem onde estavam.

 

        Lana parou diante de Dale. Encarou-a com raiva.

 

        -Viu, Benson, como sua filhinha é sonsa? De casinho com Jessie! Fugiu com ela!

 

        Ele as olhou com desprezo.

 

        -Estou vendo. Só não entendo porque você não me contou antes, Lana! Só me revelou isso quando demos pela falta delas na casa!

 

        Lana deu de ombros.

 

        -Não achei importante. E só comecei o meu plano quando Dale se acidentou. O acidente veio a a calhar. Ela ficou mais vulnerável!

 

        -Mas seu plano falhou. Jessie não matou Dale. Fugiu com ela.

 

        -Benson, para Jessie ter feito isso, houve um fato novo que mudou sua imagem de Dale. E a conclusão que tirei é que ela descobriu nosso plano. Não foi isso? – Perguntou, fitando Jessie.

 

        Jessie a encarou com desprezo e ódio.

 

        -Você é inteligente, Lana. Só que aplica sua inteligência para o mal. Você é uma serpente, uma vagabunda!

 

        Benson avançou e esbofeteou Jessie com violência. Ela cambaleou, sendo amparada por Dale, que gritou.

 

        Benson ia esbofeteá-la mais uma vez, mas Lana gritou:

 

        -Pare, Benson! Não perca a cabeça!

 

        Ele voltou-se para Lana, ofegando.

 

        -Ela a insultou, Lana! E ainda a defende?

 

        -Fique frio, Benson – disse Lana, secamente, olhando para Jessie – Você nos ouviu no banheiro?

 

        Jessie passou a mão na boca. Sangrava. Olhou para Lana com frieza.

 

        -Ouvi. E vi como estava sendo nojentamente enganada.

 

        Lana mordeu os lábios, parecendo aborrecida.

 

        Dale saiu de seu silêncio. Olhou para Benson com ar acusador e falou com voz trêmula:

 

        -Como teve a frieza de ser tão fingido comigo, Benson? Eu o adorava, achava que tinha o pai perfeito! E você fingia, fingiu amar-me por anos! Tudo isso de olho no dinheiro! Po que não se abriu comigo, dizendo que o dinheiro estava em meu nome? Eu teria lhe dado todo o dinheiro sem hesitar! Você era meu pai, eu o amava, de qualquer forma eu o herdaria!

 

        Benson sorriu com cinismo.

 

        -Erro de cálculo, minha querida. Nunca imaginei que você faria isso por mim. Por que eu no seu lugar, não faria. Mas agora, não há retorno. Você sabe tudo e sei que não vai ficar calada.

 

        -O que vão fazer conosco? – Perguntou Dale, ingenuamente.

 

        Lana olhou-a duramente.

 

        -Você vai morrer, minha cara. Sabe demais.

 

        Benson olhou para Lana.

 

        -Você não, vocês! Jessie também! Ela sabe de tudo também!

 

        Lana olhou para Benson friamente.

 

        -Já discutimos isso. Ninguém acreditará em Jessie. Dale aparecerá morta e vão pensar que foi assaltada. Diremos que ela estava sozinha na casa de campo e voltava tarde da noite para sua casa. O carro aparecerá com um pneu estourado na beira da estrada, com ela morta há alguns metros. Você dirá que faltam a carteira e as jóias dela. A conclusão da polícia será lógica.

 

        -Mas Jessie irá a polícia contar a verdade! Por que deixá-la viva e nos arriscarmos?

 

        Lana sorriu. Olhou para Benson calmamente.

 

        -Benson... tire esse rifle do ombro... coloque-o em um canto.

 

        Benson franziu o cenho mas obedeceu. Colocou o rifle em um canto.

 

        -Muito bem. Agora amarre Dale. Vamos matá-la perto da casa de campo. Será mais autêntico.

 

        Benson tirou uma corda fina de nylon do bolso do casaco. Aproximou-se de Dale e a amarrou pelos pulsos, cruzando-os nas costas. Dale chorava silenciosamente.

 

        Jessie olhou para Benson com ódio.

 

        -Benson, sabe que possuí Lana? – Disse, com provocação.

 

        Ele a olhou com viva surpresa.

 

        -O quê?!

 

        Jessie sorriu maldosamente. Lana não havia contado isso à ele! Pois ia complicá-la.

 

        -Isso que ouviu. Possuí Lana lá no seu rancho, quando você foi levar Dale ao médico. Já a havia beijado no escritório, mas ela só cedeu lá no rancho. E posso dizer que vibrou, teve vários orgasmos! – Falou, com voz de deboche.

 

        Ele voltou-se para Lana, com olhos arregalados. Ela o olhava calmamente, mas se via que era uma dissimulação. A mão tremia, denunciando seu nervosismo.

 

        -Ela está dizendo a verdade? – Gritou ele – Fale, Lana!

 

        Lana gaguejou, empalidecendo:

 

        -Ela... ela está mentindo...

 

        Ele a encarou. Lana desviou o olhar, com a mão meio trêmula.

 

        -Por que Jessie iria mentir? Você sempre a protegeu! Eu queria despedì-la e você não deixava! Somente quando ela fugiu do rancho com Dale, você contou-me que ela era homossexual! E  você ficou furiosa, xingando Jessie! Aquilo pode ter sido uma cena de ciúmes! E por que não quer matá-la também?

 

        Lana respirou fundo. Encarou Benson e a arma voltou-se para ele.

 

        -Ok, transei com Jessie – Disse, com voz trêmula – Satisfeito?

 

        Ele a olhou com raiva.

 

        -Sua vagabunda! Qual é o seu jogo, afinal? O que eu podia esperar de uma mulher que matou os próprios pais, para ficar com toda a fortuna?

 

        Lana o fitou surpresa.

 

        -Você sabe?

 

        -Sempre soube! Achei a faca do crime em seu quarto, disfarçada dentro de um bicho de pelúcia! Ainda havia sangue nela! Eu sei o que houve: você matou sua mãe primeiro e quando seu pai chegou, atirou nele e colocou a arma na mão do cadáver! Um tiro à queima-roupa, enquanto ele olhava estarrecido para a mulher morta!

 

        Lana sorriu, mas seus olhos estavam frios.

 

        -Você é mesmo um advogado brilhante, Benson.  Mas se enganou em um detalhe: Ele se suicidou mesmo. Eu entrei na biblioteca e o encontrei morto. Papai sabia que minha mãe o traía. E deixou uma carta, dizendo que ia se matar porque a amava muito e não tinha coragem de expulsá-la de casa. Eu li a carta e fiquei furiosa com minha mãe. Eu amava meu pai. Fui à cozinha, apanhei uma faca e voltei à biblioteca. Chamei-a pelo interfone. Quando ela entrou, comecei a esfaqueá-la. Ela morreu, eu fui para o meu quarto. Tirei a roupa, queimei-a no icinerador, escondi a faca em meu ursinho e apanhei outra igual. Sujei-a no sangue de minha mãe e coloquei o cabo na mão dele. Deixei-a lá e fui deitar-me. Mas, onde está minha faca?

 

        -Em meu escritório, no cofre. É uma arma  que tenho contra você,  se trair-me, minha cara!

 

        Lana sorriu, apontando a arma para ele.

 

        -Obrigado pela informação, Benson. Sei o segredo do cofre. Você o abriu muitas vezes na minha frente. E tenho uma mente previlegiada.

 

        Lana atirou duas vezes no peito de Benson. Ele caiu para trás. Dale gritou, vendo-o estirado no chão numa pose largada, o rosto numa expressão de surpresa.

 

        Jessie ensaiou um movimento, mas Lana voltou a arma agilmente contra ela.

 

        -Pare, Jessie! Não me obrigue a matá-la!

 

        Jessie estacou, olhando-a entre confusa e com medo.

 

        -Você é louca!

 

        Ela a olhou com olhar aborrecido.

 

        -Pare de xinga-me! Onde está o amor que sentia por mim? Fugiu com essa bobalhona! Você não soube esperar!

 

        Jessie a olhou surpresa. Dale soluçava, olhando para Benson.

 

        -Esperar o quê? Você nos matar?

 

        -Não, jessie! O meu jogo era com Benson! Há um ano atrás eu descobri que ele era o amante de minha mãe! Eu remexi nas coisas dele no quarto e descobri cartas de minha mãe para ele. Continuei com ele, planejando uma vingança exemplar. E a ocasião surgiu quando você seduziu Dale. Eu já me sentia identificada com você, porque você havia assasinado seu pai e eu, minha mãe. Achei que era o destino que nos reunira, quando foi pedir emprego.

 

        -Mas eu não matei meu pai. Apenas quis proteger minha mãe.

 

        -Oh, quando contou-me isso, fiquei decepcionada. Achava que você era igual a mim. Mas seus beijos me perturbaram. E eu confesso que me apaixonei por você.

 

        Jessie sorriu com escárnio. Dale agora olhava para Lana boquiaberta.

 

        -É verdade, Jessie! – Disse Lana, com emoção, fitando-a – É a única verdade que não posso mudar! Eu não queria, não estava em meus planos, mas aconteceu.

 

        -E por isso foi procurar Mary, a matou para incriminar-me, fazendo o plano de Benson! – ironizou Jessie.

 

        -Não, eu a matei para incriminar Dale, perante você! Assim, você teria ódio e medo de Dale, e a mataria!

 

        -E você beneficiaria Benson com a morte de Dale!

 

        -Eu deixei ele pensar isso, Jessie. Mas o meu plano verdadeiro era incriminá-lo com a morte de Dale e fazer ele ir para a cadeira elétrica! Eu o acusaria, ele era o único herdeiro com a morte de Dale, tinha um bom motivo. E nós ficaríamos juntas, completando minha vingança sobre ele.

 

        Olhou-a decidida.

 

        -Entendeu tudo? Eu o trouxe aqui já com esse plano. Mas você estragou tudo, revelando nossa ligação. Mas ainda há um jeito, Jessie. Matamos Dale e o velhote, colocamos eles no carro de Benson e o jogamos em um precipício. A arma na mão do velho. A polícia pensará que o velho os matou e estava fugindo quando aconteceu o acidente.

 

        Jessie sorriu. Olhou-a com admiração.

 

        -Que cabeça fértil, Lana! Estou impressionada! E quem assumirá a morte de Mary?

 

        -Andei investigando. A polícia acha que foi um assalto. Ninguém mencionou seu nome. A dançarina que morava com ela sumiu, depois do crime. Ficou com medo de continuar lá.

 

        -Legal, então não preciso me preocupar. Está bem, Lana. Você me convenceu. Vamos matar Dale e acabar com isso.

 

        Dale olhou para Jessie apavorada.

 

        -Jessie – Gemeu- Você enganou-me outra vez!

 

        Lana riu, apontando a arma para Dale.

 

        -Eu sabia que Jessie ainda me queria, sua idiota!

 

        Jessie aproximou-se de Lana, com um sorriso. Ela a olhou.

 

        -Lana, eu a desejo tanto! Deixe-me beijá-la, meu amor!

 

        Lana sorriu. Baixou a arma e voltou-se para ela.

 

        -Teremos muito tempo para isso, meu amor.

 

        -Mas não agüento esperar mais. Eu a desejo, Lana...

 

        Jessie abraçou-a. Beijou-a no pescoço. Lana estremeceu. Jessie deslizou as mãos pelas costas dela, pela cintura. Sua mão acariciou as nádegas de Lana, beijando-a no rosto, no queixo.

 

        Dale olhava a cena quase desfalecendo de pavor, ódio e mágoa.

 

        Jessie afastou-se e acariciou o rosto de Lana, sorrindo.

 

        -Dê-me a arma. Eu mesma quero completar o serviço. Quero ter o prazer de matar essa idiota.

 

        Lana sorriu. Deu-lhe a arma, olhando para Dale com ódio.

 

        -Essa será a maior prova de amor que vai me dar, Jessie. Você e eu somos iguais e nos completamos. Mate-a!

 

        Jessie empunhou a arma. Olhou para Dale. Ela chorava em silêncio. Seus olhos a olhavam com desespero e pavor.

 

        Voltou-se subitamente para Lana e golpeou-a com toda a força com a arma, atingindo-a na cabeça. Lana desabou, revirando os olhos.

 

        Jessie olhou para Dale. Ela a olhava com olhos arregalados.

 

        Jessie aproximou-se dela, colocando a arma sobre a mesa. Abraçou-a e beijou-a na testa. Olhou-a com amor.

 

        -Dale, querida... agora foi você quem duvidou de mim. Eu tinha que enganá-la, Dale, ou ela nos mataria – Disse, baixinho.

 

        Dale olhou-a nos olhos, com um alívio tão grande que a comoveu.

 

        -Jessie! Agora acredito em você! Você fez sua escolha!

 

        Jessie apanhou uma faca na cozinha e desamarrou Bafly, que estava desacordado. Ele levara uma pancada na cabeça e  o local estava inchado. Dale a acompanhou. Voltou-se de costas, com os pulsos amarrados. Jessie cortou  o nylon e ela ficou livre. Dale a abraçou, recostando a cabeça em seu peito.

 

        -Jessie... agora só tenho você... nunca me deixe...

 

        -Nunca, amor. Agora, vamos chamar a polícia e um médico para Bafly. Vou amarrar Lana. Ela terá muito que contar.   Vai pagar por seus crimes  o resto da vida.

 

        Dale a olhou com amor.

 

        -Jessie, quando você concordou com Lana, tive vontade de morrer! Achei que mais uma vez me traía!

 

        -Acredite em meu amor, Dale. Ele é todo seu. Aprendi minha lição.

 

        -Jessie! Jessie, meu amor!

 

        Beijaram-se. Por momentos, só pensaram que se amavam e ficariam sempre juntas, esquecendo tudo que as rodeavam.

 

 

EPÍLOGO

 

 

TRÊS MESES DEPOIS

 

 

 

        Jessie desmontou do cavalo e correu para a imensa varanda onde Dale descansava com Bafly. Ela a olhou com ar divertido.

 

        -Jessie, não acha que está muito quente para ficar andando no sol, galopando? – Reprovou Dale, com um sorriso.

 

        -Fui ver as crias da porca, Dale.São oito leitões tão bonitinhos! Precisa ver.

 

        Dale riu, abraçando-a . Jessie olhou desajeitada para Bafly, mas ele roncava.

 

        -Puxa! Olha como Bafly ronca! Já está ficando gordo,de tanto comer e dormir! Ei, preguiçoso! – Disse Jessie, rindo.

 

        Cutucou-o . Bafly abriu os olhos, assustado.

 

        -Heim? Quê? Onde? – balbuciou, olhando para Jessie, que ria com Dale.

 

        -Você está muito preguiçoso, Bafly! Já está gordo que nem um porco! Daqui há pouco, não vai dar nessa cadeira!– Disse Jessie, ainda rindo.

 

        Ele sorriu matreiramente.

 

        -Que nada! A viúva queima as minhas energias!

 

        -E enche você de comida! – completou Dale, rindo.

 

        -Ela não é uma excelente cozinheira? – Disse Bafly, entusiasmado – Foi o melhor negócio que fiz, trazê-la para cá!

 

        -É, sim, Bafly. Nós gostamos muito dela – concordou Jessie.

 

        Bafly levantou-se da cadeira, sorrindo.

 

        -Por falar nisso, vou ver se o almoço  já está pronto...

 

        Ele entrou em casa, com seu andar bamboleante.

 

        Jessie sentou numa cadeira de vime e Dale sentou em outra, ao lado dela. Olharam-se sorrindo.

 

        -Vai mesmo trabalhar amanhã, Dale?

 

        -Vou. O escritório precisa de um dirigente, Jessie. Não vou fechá-lo porque gosto do meu trabalho e também desempregaria muitas pessoas. Judy morreria, se deixasse de trabalhar lá.

 

        -Sempre pensando nos outros, Dale...

 

        -E você? Convidou Jocelyn para morar aqui, com pena de deixá-la sozinha...

 

        -Mas ela não aceitou. Adora a casa que mora. Mas prometeu visitar-me sempre.

 

        Dale olhou em volta, satisfeita. A fazenda de Jessie fôra toda remodelada e agora produzia batatas, trigo e soja, além da criação de galinhas e porcos. Já começava a dar bom lucro. Era sócia, por exigência de Jessie, mas considerava a fazenda somente dela.

 

        Dale a visitava dias intercalados, dormindo lá. E a paixão entre elas era absoluta. Futuramente, pensavam em morar juntas, depois que Dale fosse menos exigida no escritório.

 

        -Dale... sabe que já marcaram o julgamento de Lana? Ouvi no rádio. Ela tem poucas chances. A cidade está indignada com os crimes dela. Dizem que vai pegar prisão perpétua.

 

        Dale a encarou.

 

        -Claro que sei. Sou uma das testemunhas da acusação. E você também, junto com Bafly. As convocações do juiz já chegaram ao escritório.

 

        Jessie a olhou, pegando-a pela mão.

 

        -Minha querida, vamos enfrentar isso juntas.

 

        -Não temos nada a temer, amor. Ela sim.

 

        -Esse julgamento não vai expor nossa relação ao público?

 

        -Não. Tive acesso ao depoimento de Lana. Ela confessou o crime da mãe, disse que matou Mary porque foi à casa dela saber informações sobre você para sua tese e Mary começou a destratá-la, por ciúme de você. Ela está protegendo você, Jessie. Não entendo.

 

        -Ela gosta de mim, não se esqueça.

 

        Dale a fitou com ciúmes.

 

        -Eu sei, gosta no jeito neurótico dela. Falou que queria matar-me para se vingar de Benson, que era o amante da mãe. O fato é que Lana Kinkayd pirou, Jessie. Ela chora, ri, e não fala coisa com coisa. Acho que é orientação do advogado, para parecer louca. Isso a insentaria de culpa. Seria internada em um manicômio judicial e se apresentar cura, poderá sair.

 

        -E sobre Benson? O que ela disse?

 

        -Que  o matou porque ele quis impedir minha morte.

 

        -Nós sabemos a verdade, Dale. Mas se a contarmos,estaremos em um escândalo nacional. Vamos confirmar o depoimento dela quanto à morte de Benson. Diremos apenas o que aconteceu na fazenda. Que ela chegou com Benson, dominou Bafly e nos esperou. Benson havia brigado com você a aprocurou lá...

 

        -Não, Jessie. Vou falar tudo, só vou omitir nossa relação verdadeira. Sou uma advogada e não quero cometer perjúrio. Nada do que pensem poderá nos separar. Nem que tenhamos de mudar de cidade, se nossa relação vier à tona.

 

        Jessie a encarou com admiração.

 

        -Você é corajosa, Dale. Eu a admiro por isso. Está bem. Diremos a verdade. Nada poderá terminar nosso amor.

 

        -Nada, Jessie.

 

        Jessie beijou a mão dela. Ergueu-se. Olhou-a com paixão.

 

        -Venha. Vamos almoçar. Depois você vai descansar comigo, em meu quarto. Eu quero você, Dale...

 

        Dale sorriu com malícia.

 

        -Então, coma pouco... temos que ter disposição total...

 

        Jessie riu, passando o braço pelos ombros dela.

 

        -Eu sempre tenho muita disposição para amar você, minha querida.

 

 

SEIS MESES DEPOIS

       

 

        Acusada e condenada pela morte de Norma Kinkayd, Mary  Smith e Arthur Benson, Lana Kinkayd cumpre, na prisão de Sacramento, pena de prisão perpétua.

 

        Bela e inteligente, é a líder das presidiárias. Frequentemente é motivo de brigas entre as homossexuais ativas, que a disputam ardorosamente.

 

        Entrega-se a todas que a agradam, mas diz a alto e bom som que nenhuma delas chega aos pés de Jessie Berlot, a mulher que foi sua perdição.

 

 

FIM

 

 

 

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