HERANÇA FATAL

PARTE     7

 

 

       Os jornais estamparam a notícia com espalhafato:

       MILIONÁRIA ASSASSINADA !

       HERDEIRA DA BURTON CORPORATION ASSASSINADA !

       ASSASSINADA HERDEIRA MILIONÁRIA !

       MICHELLE BURTON MORTA  TRAGICAMENTE!

 

Grahan não lera os jornais. Depois de depor na polícia, se refugiara no rancho, afastando-se de todos. Para ela, a vida perdera o sentido. Passava os dias na cama, embriagando-se até a inconsciência. Só comia um pedaço de pão ou uma maçã, quando seu estômago doía de fome pela falta de refeições e pela ingestão de álcool. Não queria contato com o mundo. Sua vida acabara. A dor que sentia a dilacerava, tinha vontade de acabar com a própria vida. Mas não tinha coragem, era uma covarde ! Gritava isso para o espelho, que refletia sua imagem torturada.

 

        Chorava enquanto bebia. Culpava-se da morte de Michelle. Se não tivesse voltado com ela ao rancho. . . se não tivesse deixado ela ir pegar a lenha. . . se tivesse insistido com ela para arranjar logo um detetive particular para descobrir quem a havia raptado. . . se não a deixasse andar sem guarda-costas. . . Agora era tarde. Ela estava morta !

 

        -Michelle – soluçava – Michelle, eu a perdi... tão linda, tão cheia de vida, de paixão... e agora está morta ! Morta ! Nunca mais a beijarei. . . nunca mais verei aqueles olhos verde-mar  me olharem  com paixão. . . nunca mais ouvirei sua voz, nem verei seu sorriso. . . oh, meu Deus !

 

        O telefone tocava e ela não atendia. Para quê ? Queria ficar ali sozinha, com a lembrança dela. Nada mais a importava.

 

        Duas vezes haviam batido em sua porta. Ela nem se dera ao trabalho de levantar do sofá, embriagada.

 

        Naquela tarde, bateram novamente. Em sua embriaguês, ouviu muito longe uma voz chamar seu nome. Nem se mexeu. O importuno que fosse embora. Apertou nas mãos a garrafa se uísque, como se fossem tomá-la dela. Era seu único consolo, a bebida, que a arremessava na inconsciência, não a deixando sofrer por algum tempo.

 

        A porta foi arrombada e Phil Scott e Helen Wacker entraram, olhando para Grahan deitada no sofá com uma garrafa apertada contra o peito.

 

        -Veja ! – Disse Phil Scott, indicando-a com a mão – Está desse jeito desde há três dias atrás, quando vim aqui pela segunda vez. Se continuar assim, vai entrar em coma alcoólico e morrer.

 

        Helen olhou para o policial com gratidão.

 

        -Obrigada por ter me avisado, senhor Scott. Não sabemos se ela tem parentes para cuidar dela. Eu posso fazer isso.

 

        -Fiquei com pena dela. Queria que visse como estava , depondo na delegacia. Eu já a conhecia. Quando Michelle Burton fugiu do cárcere do rapto, foi ela quem ajudou a pobre moça. E percebi que eram muito amigas. Agora, ficou assim com a morte de Michelle Burton. Quer que chame um médico ?

 

        -Se precisar, eu chamarei. Conhece algum por aqui ?

 

        -Sim, o doutor Roberts. Vou lhe dar o telefone dele.

 

        O policial escreveu um número de telefone e endereço em um caderninho que tirou do bolso. Arrancou a folha e deu a Helen.

 

        -Ele tem uma clínica ao leste daqui, indo em direção à cidade. Atende em qualquer hora.

 

        Helen colocou o papel na bolsa que tinha pendurada no ombro.

 

        -Obrigada, senhor Scott.

 

        -Se precisar de minha ajuda, procure-me na delegacia da cidade. Agora, fiquei tranqüilo. Estava preocupado, porque esse lugar é deserto e ela estava sozinha.

 

        -Tem alguma pista do assassino, senhor Scott ?

 

        -Estamos investigando. Bem, já vou. Bom dia, senhorita.

 

        Helen o levou até a porta e ele se foi. Ela colocou a bolsa sobre um móvel e aproximou-se de Grahan. Abaixou-se ao lado do sofá e a fitou, comovida. Que diferença de quando a vira pela última vez !  Estava pálida, o rosto emagrecido, olheiras escuras, o cabelo despenteado, o hálito cheirando a bebida. Um vinco de tensão entre as sombrancelhas grossas.

 

        Sacudiu-a levemente. Ela continuou imóvel, de olhos fechados. Chamou-a com suavidade:

 

        -Grahan. . . Grahan. . .

 

        Ela gemeu e movimentou a cabeça, voltando-a para o outro lado.

 

        Sacudiu-a com mais força. Ela tornou a gemer e abriu os olhos. Aqueles olhos azuis de cristal estavam mortiços pela bebida. Fitou-a confusa e sua voz saiu pastosa:

 

        -Quem é você ? O que quer de mim ?

 

        -Grahan... Grahan Gladstone... não me reconhece ? Sou a sua secretária, Helen !

 

        Ela não demonstrou surpresa.

 

        -Não tenho mais secretária. . . – balbuciou – Não tenho nada...

 

        -Grahan. . . senhorita Gladstone. . . reaja !

 

        Grahan olhou-a inexpressivamente.

 

        -Vá embora. . . quero ficar só. . . morrer. . .

 

        -Não, não vou ! Vou é ajudá-la a sair desse estado deprimente!

 

        Com ar decidido, Helen tirou a garrafa das mãos de Grahan, que não reagiu. Depositou-a no chão e foi para a cozinha. As louças estavam guardadas, demonstrando que Grahan não comia uma refeição regular há dias. Só havia sobre a pia latas de cerveja, dois litros de leite com restos estragados, restos de maçã e duas garrafas de uísque vazias. Recolheu tudo e jogou no lixo. Abriu o freezer e notou que havia galinha, hamburgueres e salsichas. Na geladeira, encontrou legumes embalados.

 

        Com habilidade, fez uma sopa e colocou-a no fogo. Subiu para o andar superior. A porta do quarto estava aberta. Entrou e viu a cama desarrumada. Pensou que ali Michelle havia dormido com Grahan, antes de morrer.

 

        Foi para o armário embutido e apanhou lençóis, cobertores e toalhas de banho. Saiu, levando tudo para a sala. Grahan continuava deitada, olhando para um ponto ignoto. Aproximou-se, depositando as roupas de cama e banho numa poltrona e enclinou-se para Grahan, puxando-a pelos braços, forçando-a a sentar. Ela a fitou inexpressivamente, sem opor resistência.

 

        -Levante-se! – Disse Helen, com energia – Vai tomar um banho. Está cheirando mal.

 

        -Não quero. . .

 

        -Vai, sim ! –Disse, encarando-a com decisão – Vai sentir-se melhor, um banho a ajudará a sair desse torpor.

 

        Rodeou a cintura dela, puxando-a para cima. Grahan estava magra, mas era grande. Era pesada. Ofegando, fez força e conseguiu levantá-la. Grahan ficou de pé, cambaleando.

 

        -Apoie-se em mim, Grahan – Disse, com voz suave.

 

        Grahan colocou o braço no ombro dela, apoiando-se. Helen a rodeou pela cintura com o braço e deram alguns passos, cambaleantes. Helen parou para tomar fôlego e continuou. Com dificuldade, subiram as escadas e levou-a para o banheiro. Encostou-a na parede do box e levantou a blusa dela. Os seios cheios e redondos surgiram, belos. Helen os fitou rapidamente, tirando a blusa. Abaixou-se e puxou a calça de malha. Grahan não usava nada por baixo e o sexo com delicados pêlos negros mostrou-se entre as coxas longas. Suspirou e acabou de tirar a calça, levantando um pé de Grahan de cada vez. Ergueu-se e , amparando Grahan com o corpo, abriu uma  torneira  da ducha. Um jato de água fria jorrou sobre a cabeça de Grahan e desceu pelo seu corpo, estremecendo-a.

 

        Helen abriu a torneira de água quente e começou a ensaboar o corpo de Grahan. A água morna descia sobre elas, molhando as roupas de Helen.

 

        Grahan tomou o sabonete de sua mão. Helen ergueu o rosto e encontrou o olhar envergonhado dela. Parecia bem melhor e a fitava admirada, com um vestígio de vergonha, o que indicava que já estava ficando consciente do que acontecia.

 

        -Deixe que eu tomo banho sozinha. Posso fazer isso – Disse, com voz pastosa, mas coerente.

 

        -Tem certeza ? Não vai cair ?

 

        -Não.

 

        Helen sorriu para ela.

 

        -Está bem. Vou tirar minhas roupas e trocar por outra. Ainda bem que vim previnida.

 

        Saiu do banho e foi até a sala. Tirou a roupa molhada, enxugou-se com uma das toalhas que apanhara no quarto e vestiu as roupas que trouxera na bolsa grande de couro.

 

        Voltou ao banheiro. Grahan, cambaleando, enxugava-se com uma toalha. Ficou imóvel ao vê-la entrar.

 

        Helen abriu o armário do banheiro e apanhou um roupão azul. Ajudou Grahan a vestí-lo. Amarrou o cinto e então  aproximou-se e a  amparou nos braços.

 

        -Vamos para a sala.

 

        Ela apoiou-se novamente em seu ombro. Helen sentiu o cheiro do sabonete exalando do corpo dela, a maciez do seio contra seu ombro, e suspirou.

 

        Desceram as escadas. Grahan ainda cambaleava, mas já conseguia andar sem as pernas dobrarem. Foi bem mais fácil trazê-la de volta. Ajudou-a a sentar numa poltrona e foi à cozinha. A sopa já estava cozida. Passou-a no liquidificador. Grahan devia estar muito tempo sem comer nada sólido e o estômago não iria agüentar nada que não fosse cremoso. Colocou o creme em uma tigela e voltou à sala. Grahan cochilava com a cabeça no encosto da poltrona.

 

        Helen puxou outra poltrona para perto de Grahan e sentou com a tigela nas mãos.

 

        -Grahan. . . – chamou.

 

        Ela abriu os olhos, sonolenta.

 

        -Hummm. . .

 

        -Tome a sopa, Você está fraca e precisa alimentar-se.

 

        -Não quero nada. . . – resmungou, fechando os olhos.

 

        -Se não comer, vou levá-la para o hospital.

 

        Ela abriu os olhos, com ar receoso.

 

        -Não. . . hospital, não. . .

 

        -Então , coma !

 

        Levou a colher aos lábios dela, depois de soprar. Grahan engoliu o creme, automaticamente. Helen repetiu a operação até o creme acabar. Sorriu, satisfeita. Ela conseguira comer !

 

        Levou a tigela para a cozinha, lavou-a e voltou à sala. Grahan voltara a cochilar.

 

        Helen pegou um lençol e estendeu no sofá. Apanhou uma almofada macia forrada de tecido e colocou-a no canto do sofá. E foi até Grahan, sacudindo-a levemente. Ela abriu os olhos, com expressão sonolenta.

 

        -Que é? . . .

 

        -Vá para o sofá dormir.

 

        -Não. . . está bom aqui. . .

 

        -Não, levante-se, Grahan ! Precisa estender o corpo !

 

        Puxou-a pelos braços. Grahan ergueu-se trôpega e jogou-se no sofá. Fechou os olhos, adormecendo logo.

 

        Helen cobriu-a com um cobertor e alisou os cabelos negros e revoltos. Ficou um bom tempo olhando-a dormir, pensando como a amava. Depois, juntou duas poltronas, forrou-as com um lençol e deitou-se. Custou a dormir, mas o sono finalmente chegou.

 

        Acordou bem cedo e tomou um banho, vestindo a mesma roupa, com exceção da calcinha, que havia trazido em quantidade suficiente. Desceu para a cozinha e vasculhou a despensa. Encontro cereais diversos e enlatados, mas optou em fazer um mingau de aveia para Grahan, suco de laranja e torradas. Voltou à sala com a bandeja e colocou-a sobre a mesinha de centro. Aproximou-se de Grahan e a sacudiu de leve.

 

        Grahan acordou sobressaltada, sentando-se e dando um grito. Helen a segurou pelos ombros, tentando acalmá-la.

 

        -Calma ! Está tudo bem, Grahan. . . – Disse, suavemente.

 

        Grahan a fitou confusa. Estava agora lúcida. O efeito da bebida havia passado e a sopa que havia tomado a fortalecera.

 

        -Helen ! O que está fazendo aqui ?!

 

        Helen sorriu com um certo receio. No dia anterior ela parecia uma criança, mas agora estava em seu perfeito juízo. Nunca a tratara mais que com uma distante cortesia. Não a trataria com frieza e indignação, achando que invadira a privacidade dela ?

 

        -O chefe de polícia, Phil Scott, telefonou para a Burton Corporation e eu o atendi. Ele pediu que alguém viesse aqui para ajudá-la, pois havia vindo aqui duas vezes e percebeu que você precisava de ajuda. Como você. . . a senhorita não tem parentes que eu conheça, resolvi eu mesma vir. E aqui estou.

 

        Grahan olhou-a surpresa. Helen viera de New York até ali para ajudá-la! Não tinha nenhum tipo de intimidade com ela, nenhum vínculo além do profissional. Será que tinha sido  mandada por alguém da Burton Corporation? Quem ?

 

        -Quem a mandou aqui ?

 

        Ela a fitou desajeitada.

 

        -Ninguém. Vim por minha conta. Fiquei preocupada com o pedido de Phil Scott, pois ele falou que você estava sozinha aqui e muito abalada com a morte de Michelle Burton. E não me arrependo. Você estava aí jogada no sofá, sem comer, bebendo há vários dias.

 

        Grahan olhou para si mesma. Notou que estava com um roupão azul. Lembrava-se vagamente que estava com outra roupa. Olhou para Helen, confusa.

 

        -Você trocou minha roupa ?

 

        Ela sorriu , encabulada.

 

        -Sim. E dei-lhe um banho. Você estava precisando. Depois a fiz tomar uma sopa e dormir.

 

        Grahan ficou vermelha. Helen, praticamente uma estranha, a vira despida e lhe dera banho ! Devia ter precisado mesmo, pois em sua bebedeira já fazia dois dias que não tomava banho. Que vergonha ! Olhou-a, tentando disfarçar o que sentia.

 

        -Obrigada, Helen. . . não sei porque se deu ao trabalho de preocupar-se comigo. Não temos um conhecimento muito. . . estreito.

 

        -Desculpe-me ter vindo sem ser chamada por você. Deve estar pensando que vim devassar sua privacidade. Mas foi apenas um gesto de ajuda.

 

        Grahan a fitou com gratidão.

 

        -Não se desculpe. Eu lhe agradeço. Mas não sei se vale à pena preocupar-se comigo. Suas funções em relação à mim terminaram. Não trabalho mais na Burton Corporation. Não sou mais assistente de ninguém – Disse amargamente.

 

        -Não estou aqui profissionalmente. Pedi dois dias de licença para vir  até aqui – Disse, desviando os olhos dos de Grahan.

 

        -Por quê ? Por que está fazendo isso, Helen ?

 

        Ela olhou-a com um sorriso tímido.

 

        -Porque você é uma pessoa legal, Grahan. Gosto de você. Sempre foi muito gentil comigo.

 

        Grahan continuava sem entender. O motivo era tão pequeno para o muito que ela estava fazendo ! Tirar dois dias de licença para vir ficar com ela ! Isso as pessoas só faziam por parentes ou amigos especiais ! Mas Helen fizera isso por ela ! Não entendia, nem queria entender. Era reconfortante saber que alguém se preocupava com ela, ainda. Sozinha, com seus lúgubres pensamentos, só estava se destruindo.

 

        Ergueu-se e deu um leve sorriso.

 

        -Não se justifique mais. É bom tê-la aqui, Helen. Agora vou tomar um banho e vestir-me.

 

        Helen indicou a bandeja.

 

        -Coma o desejum que fiz. Precisa alimentar-se.

 

        -Depois do banho.

 

        Grahan subiu escadas e sumiu de suas vistas. Helen suspirou, aliviada. Ainda bem que ela não insistira em saber o motivo que a levara até ali. Quase não resistira em dizer que estava ali porque ficara preocupada, morrendo de saudades e sofrendo por ela.

 

        Ainda bem que Grahan não estava lendo os jornais. As insinuações de que ela mantinha uma relação homossexual com Michelle estava em todos eles. As suspeitas se fundamentavam em perguntas, como:

 

        Por que a rica herdeira se ligara tanto à Grahan, à ponto de nomeá-la para um alto cargo na empresa, preterindo pessoas mais qualificadas ?

 

        Por que Michelle havia saído da casa da família e fôra morar com Grahan no apartamento da Quinta Avenida ?

 

        Por que elas foram passar sozinhas aquele fim de semana no rancho ?

 

        Por que a família de Michelle odiava Grahan, tendo declarado que ela era uma mulher vulgar ?

 

        Por que Grahan havia sido expressamente proibida de comparecer ao sepultamento de Michelle ?

 

        E finalmente, por que Grahan estava tão abalada com a morte de Michelle,   a ponto de isolar-se de todos? Seria natural ela ficar triste, mas o comportamento dela era de quem perdeu a pessoa que mais amava no mundo.

 

        Pobre Grahan ! O escândalo a atingira. Dava razão à ela em ter-se refugiado ali, sem querer ver ninguém. Devia estar sofrendo muito a perda de Michelle. Devia tê-la amado muito, para ficar tão abalada.

 

        E ela própria ? Estava apaixonada por Grahan. Aqueles dias sem vê-la, sabendo-a passando por tudo aquilo, a angustiara. Queria vê-la, ajudá-la. Mesmo sabendo que ela estava sofrendo por Michelle. Não esperava nada de Grahan. Sabia que Grahan não tinha interesse nenhum por ela. Mas a amava assim mesmo, sem esperanças. Bastava vê-la, estar com ela.

 

        Grahan tornou a descer, vestida com calça jeans e blusa branca de algodão de mangas compridas. Helen nunca a vira naquele tipo de traje. Só a via no escritório em “tailleurs”, maquiada. Agora a via em trajes que realçavam sua verdadeira personalidade. Era muito mais atraente assim.

 

        Ela a olhou com aqueles olhos magnéticos e Helen sentiu um arrepio.

 

        -Já tomou o desjejum ?

 

        -Não, estava esperando-a .

 

        Grahan olhou para a bandeja sobre a mesinha. Sentou numa poltrona e serviu-se de um copo de suco de laranja.

 

        -Coma o mingau primeiro – aconselhou Helen – o suco é ácido e seu estômago está vazio.

 

        Grahan sorriu, bebendo o suco de uma só vez. Colocou o copo na bandeja e pegou sua tijela de mingau.

 

        -Estava com sede – justificou-se – E você ? Não vai comer nada ?

 

        Helen serviu-se de um copo de suco e de uma torrada, passando manteiga  de amendoim e olhando para Grahan, que comia o mingau sem muita vontade, de cabeça baixa.

 

        -Grahan, não acha que seria bom ir-se daqui ? Esse foi o local do crime. Isso é muito deprimente. Phil Scott disse-me que você está liberada, já prestou depoimento e não é uma suspeita. Somente deve informá-lo para onde for.

 

        Grahan a fitou com olhar sombrio.

 

        -Não sou suspeita ?! Todos que rodeavam Michelle são suspeitos, Helen ! Precisava ver as perguntas que me fizeram ! Perguntas de ordem pessoal, que nunca me tinham feito em toda minha vida. Mas tiveram que me liberar porque sou inocente. Sabem que quem matou Michelle foi a mesma pessoa que a raptou, descontente com a posse dela na presidência da Burton Corporation. E eu não tinha motivos para isso. Pelo contrário, só tive a perder.

 

        -Entendo. . . mas, insisto na pergunta : não gostaria de sair daqui ?

 

        -Tenho casa na Filadelfia. Mas não quero voltar para lá. Eu dividia a casa com uma pessoa que não quero ver mais. O apartamento de Michelle deve estar nas mãos da família, mas nem que eu pudesse, não voltaria para lá. Não tenho estrutura para ficar naquele lugar sem Michelle.

 

        Helen a fitou com ar ansioso.

 

        -Moro em um apartamento confortável na rua 59, com esquina para o Central Park. Você pode ficar lá comigo, até resolver o que vai fazer de sua vida. Moro só e  o apartamento tem espaço para mais uma pesssoa.

 

        Grahan a olhou indecisa.

 

        -Você mal  me conhece , Helen. Como pode me oferecer isso ?

 

        -Conheço-a o suficiente. Talvez mais do que você pensa.

 

        Grahan sorriu com amargor.

 

        -Sei, conhece minha vida privada pelos jornais. Sei que eles expuseram a minha vida. Só não podem afirmar que eu era amante de Michelle porque meu depoimento foi sigiloso e a família de Michelle poderia processar os jornais por calúnia à memória dela.

 

        -A polícia concorda com a imprensa ?

 

        Grahan a fitou nos olhos, um olhar firme e direto.

 

        -Helen, sei que já sabe que Michelle e eu éramos amantes. Não precisa disfarçar. E a polícia sabe também. Eu contei toda a verdade. Eles não podem revelar meu depoimento porque eu não sou culpada e meu advogado pediu sigilo para proteger-me. Mas a imprensa já fez seu trabalho. Sei que todos sabem e comentam minha ligação com Michelle. É , você deve saber tudo de mim. Não sei como não tem medo de estar comigo.

 

        Helen estendeu a mão e a pousou sobre a de Grahan, olhando-a nos olhos. Grahan ficou surpresa em ver neles um calor inimaginável, em uma quase estranha.

 

        -Eu a entendo, Grahan. E respeito seus sentimentos. Quero, se possível, que confie em mim e pense que só desejo ajudá-la.

 

        Os olhos de Grahan se encheram de lágrimas. Ela se sentia tão perdida e só!

 

        -Não, você não pode entender o que sinto, Helen. Esse vazio, essa sensação de que nada mais importa, essa dor !

 

        Grahan começou a tremer. Levou as mãos ao rosto, curvando-se para a frente. Helen aproximou-se e pousou as mãos sobre as dela, tentando retirar suas mãos do rosto.

 

        -Não chore, Grahan. . . não adianta. Você tem que ser forte e esquecer. A vida continua.

 

        Grahan retirou as mãos do rosto. Não estava chorando, mas o seu olhar era desesperado.

 

        -Ah, se eu pudesse chorar ! Mas não consigo mais ! – Gemeu – A dor agora é grande demais, para ser extravasada em lágrimas ! Eu só queria morrer ! Isso que queria !

 

        Helen resolveu ser dura:

 

        -Grahan, pensei que fosse forte, mas vejo que é muito fraca e não sabe enfrentar uma tragédia ! Reaja ! Sua vida continua ! Não adianta ficar aí se lamentando pelos cantos, enchendo a cara de bebida ! Não seja masoquista e volte a viver ! Quantas pessoas passaram por perdas semelhantes e  tocaram suas vidas para frente ! Não seja covarde e reaja !

 

        Grahan a esbofeteou, revoltada por suas palavras. Helen foi lançada para trás e caiu de costas no chão, olhando-a surpresa e magoada.

 

        Grahan ficou imóvel, olhando-a . Helen passou a mão pelo rosto. Olhava-a com tanta mágoa nos olhos, que Grahan baixou os olhos, arrependida e envergonhada por sua agressão.

 

        -Sentiu-se melhor fazendo isso ? – Perguntou Helen, com voz trêmula.

 

        Grahan sacudiu a cabeça, negativamente. Ergueu-se do sofá e estendeu as mãos para ela. Helen aceitou suas mãos para levantar-se. Grahan não as soltou. Levou-as aos lábios, beijando-as e a fitando nos olhos.

 

        -Perdoe-me, Helen. Você não merece isso. Está sendo tão amiga, e eu  a agredi. Mas, entenda que não foi à você que agredi. Foi à mim mesma. Você tem toda razão. Eu precisava ouvir essas coisas que me disse.

 

        Helen sorriu. Disfarçou à custo a emoção de ter as mãos beijadas por ela. E o toque das mãos de Grahan a deixava de um jeito que teve de reagir com uma brincadeira:

 

        -Que direita forte você tem ! E eu pensando que estava fraca ! Podia desafiar até o Tysson !

 

        Grahan sorriu, achando graça no modo dela falar e na comparação com o boxeador. Helen sorriu também.

 

        Grahan subitamente ficou séria. Olhou-a surpresa. Helen a fitou curiosa.

 

        -O que foi ?

 

        -Não notou ? Eu sorri ! Você conseguiu fazer-me sorrir ! Não pensei que pudesse mais fazer isso ! Quer saber de uma coisa ? Vou com você para sua casa . Isso, se ainda você aceitar dividir seu espaço com uma pessoa como eu.

 

        Helen sorriu de pura felicidade.

 

        -Oh, Grahan ! É claro que aceito ! E estou muito feliz em ver que já está voltando a ser aquela Grahan que conheço !

 

 

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        New York. Como parecia sem colorido, sem Michelle !

 

        Grahan observava as ruas, as pessoas passando, sem interesse. Aquelas pessoas deviam ser felizes, não estavam sofrendo como ela. Ou será que também havia alguém na multidão que vivia um drama como o seu ?

 

        Helen estacionou o carro na garagem do prédio e a olhou.

 

        -Pronto, chegamos. Final da viagem.

 

        Grahan desceu e esperou Helen abrir o porta-malas. Retirou sua mala e fechou a tampa, olhando para Helen. Ela fechou o carro e veio ao seu encontro.

 

        -Venha. O elevador é logo ali.

 

        Grahan seguiu-a. Tomaram o elevador e Helen apertou o andar. O elevador começou a subir com lentidão.

 

        Helen a fitou encabulada.

 

        -O prédio não é novo. Aqui não é a Quinta Avenida, mas é um bom lugar.

 

        Grahan sorriu, sem comentar nada. Ela viajara em silêncio toda a viagem e Helen entendera isso. Grahan devia estar com medo da sua decisão.

 

        Observou-a disfarçadamente. Grahan estava bem melhor, a cor já havia voltado ao seu rosto e as olheiras estavam se suavisando. Precisava agora de uma boa alimentação, dormir regularmente e de atenção. Helen prometeu a si mesma dedicar seu tempo livre à ela.

 

        Chegaram ao andar e desceram. Helen dirigiu-se para uma porta e a abriu. Entraram. Grahan colocou a mala no chão e olhou em torno, enquanto Helen fechava a porta. Era um apartamento pequeno, mas agradável. Móveis confortáveis e de bom gosto, com uma decoração em tom suave, com plantas nos cantos da sala e quadros de cores alegres.

 

        Helen a encarou com olhar feliz.

 

        -Venha conhecer o quarto.

 

        Grahan segui-a. Helen mostrou  o quarto com duas camas, armários embutidos,  um rack com tv e DVD  e uma poltrona florida em um canto. A decoração era simples e confortável.

 

        -Eu dividia o quarto com minha irmã – explicou Helen – Ela se casou e deixou a cama.

 

        Helen mostrou a cozinha bem montada e o banheiro. Grahan olhou tudo com indiferença. Como se sentia, se estivesse em uma caverna  não sentiria a diferença. Sua euforia por ter conseguido sorrir já havia passado. Estava novamente sofrendo e não queria demonstrar isso para Helen. Havia tomado a decisão correta, em aceitar o convite dela? Era justo Helen agüentar a sua depressão, o seu humor instável, sendo quase uma estranha? Ela agüentaria, ou iria mandá-la embora após sua primeira crise de desespero? 

 

        Voltaram ao quarto para Grahan colocar a mala. Uma idéia ocorreu à Grahan:

 

        -Helen, e quando seu namorado vier aqui ? Onde dormirão ?

 

        Ela a fitou, enrubescendo.

 

        -Não tenho namorado.

 

        Grahan a olhou surpresa.

 

        -Ninguém ? Nem um. . . – hesitou.

 

        -Amante ? – Completou Helen, olhando-a sorrindo – Não. Ninguém. Não se preocupe com isso.

 

        Voltaram à sala e Helen apontou para uma estante, onde havia uma aparelhagem de som.

 

        -Quer ouvir música, enquanto preparo algo para comermos ?

 

        -Não.

 

        -Quer fazer-me companhia na cozinha ? Mas antes vou trocar de roupa.

 

        -Tudo bem. Eu a espero aqui.

 

        Helen foi para o quarto. Grahan olhou em volta, sem muito interesse. Na estante, viu algumas fotos. Aproximou-se e as olhou, menos por curiosidade e mais para ter o que fazer.

 

        A foto de uma garotinha de olhos azuis. Devia ser Helen. Outra foto. Uma loura de toga com um diploma nas mãos, o rosto sério e compenetrado. Reconheceu Helen. Olhou para a   terceira foto e admirou-se. Helen de maiô, com uma faixa de Miss New York. Grahan olhou surpresa para o corpo bem feito, de pernas longas, quadris aredondados, cintura fina e busto cheio. Helen, Miss New York !

 

        Sorriu . Nunca olhara para Helen com outros olhos que não o profissional. Estava tão envolvida e apaixonada por Michelle, que olhava para outras mulheres com indiferença. Nunca reparara se Helen era atraente ou sem charme, só notara que era loura de olhos azuis. Um rosto sem uma identificação maior que o de sua secretária.

 

        Helen voltou à sala sorridente.

 

        -Quer vir agora para a cozinha ?

 

        Grahan a fitou pela primeira vez com atenção. Helen estava linda com aquela blusa branca de malha, sem mangas, colante nos seios empinados, os braços bem torneados, a cintura fina, os quadris redondos e as coxas longas moldadas pela saia justa de lycra preta, as pernas sensacionais. Ela prendera os cabelos louros com um laço e estava com um ar de menina. Era uma bela mulher, observou, mas sem interesse. Em uma outra circunstância, a olharia sentindo-se atraída, mas a morte de Michelle a deixara imune à beleza de uma outra mulher. Perdera o grande amor de sua vida e nenhuma mulher a interessava, por mais bela que fosse. Se sentiria sempre assim? Nunca mais amaria novamente? Duvidava que conseguisse esquecer Michelle. Ninguém a superaria em seu coração.

 

        Ela notou sua observação muda e corou.

 

        -O que foi ?

 

        Grahan sorriu, afastando os tristes pensamentos, e procurou mostrar-se um pouco alegre. Indicou as fotos com o polegar, dizendo em tom de brincadeira:

 

        -Estou conhecendo-a melhor, Miss New York !

 

        Ela riu, desajeitada.

 

        -Oh, isso... é, meus amigos insistiram para eu concorrer. Foi em 98. Há muito tempo.

 

        -Muito tempo ? Só há seis anos !

 

        -Para mim, parece um século.

 

        -Por quê ?

 

        -Eu era bobinha. Cheia de ilusões. Venha.

 

        Grahan a seguiu para a cozinha, reparando pela primeira vez no andar ondulante. Ela indicou uma cadeira.

 

        -Sente-se. Vou fazer uma salada de batatas e frango frito, gosta ?

 

        Grahan puxou a cadeira e sentou-se.

 

        -Sim, gosto, Helen.

 

        Ela abriu a geladeira e tirou seis batatas e um frango. Colocou tudo sobre a pia e começou a descascar as batatas.

 

        Grahan cruzou os braços, apoiando o queixo neles, olhando para Helen com atenção. Ela continuava descascando as batatas, concentrada.

 

        Olhou para o perfil e achou-o perfeito. A testa pequena, o nariz reto, meio arrebitado na ponta, os lábios cheios sem pintura, o queixo delicado. As sombrancelhas de pêlos alourados eram naturais, os cílios espessos e dourados quase escondiam os olhos azuis.

 

        Era muito bonita, só agora percebia. Não era à toa que fora eleita Miss New York. Mas Michelle era muito mais bonita...ela possuía uma beleza clássica, era atraente, sensual, divertida, perfeita...

 

        Pare com isso! – Pensou – Michelle está morta, deve tentar esquecê-la! Não, não queria esquecer Michelle... iria lembrá-la para sempre!

 

        Os pensamentos antagônicos digladiavam em sua mente. Seus olhos estavam paralizados em Helen, mas sua mente só enxergava Michelle, a mulher de sua vida.

 

        Helen  a fitou e a viu contemplando-a com um estranho olhar e sorriu, enrubescendo.

 

        -Não quer mesmo ouvir música ? Não gosta ? – Perguntou.

 

        Grahan saiu de seu topor com a voz de Helen.

 

        -Perdão, o que perguntou?

 

        -Perguntei se quer ouvir música e se gosta.

 

        -Oh...sim, gosto. Mas não quero ouvir. A música me torna mais sensível e não posso ficar mais do que estou.

 

        -Oh... tudo bem...

 

        -Mas se você quer ouvir, coloque. Não se prive de nada por mim.

 

        -Não – Disse, olhando-a nos olhos – Respeito seus sentimentos.

 

        Grahan ficou olhando-a em silêncio. Ela baixou os olhos e continuou sua tarefa.

 

        -Como está a empresa, Helen ? – Perguntou, para quebrar o silêncio entre elas.

 

        Helen a fitou gravemente.

 

        -Uma loucura. As ações da Burton Corporation caíram muito com a morte da presidente. O irmão de Michelle assumiu a presidência até ser aberto o testamento de Michelle Burton, que designará com quem vão ficar as ações. A especulação é que Mary Burton assumirá. Parece que o filho dela não está se saindo muito bem substituindo a irmã, interinamente .

 

        Grahan a fitou surpresa.

 

        -Michelle tinha feito um testamento ? Não sabia disso !

 

        Ela a olhou, franzindo o cenho.

 

        -Não sabia ? Ela chamou um tabelião ao seu gabinete uma semana antes de ser assassinada e trancou-se com ele lá.

 

        -Não, não sabia ! Ela não comentou nada comigo ! – Negou, perplexa.

 

        -Bem, ela deve ter achado melhor não lhe dizer nada.

 

        -Estranho... Michelle não me escondia nada... quando vai ser aberto o testamento ?

 

        -A semana que vem.

 

        -Estou pasma. Tem certeza que Michelle fez esse testamento ?

 

        -Claro. June até comentou comigo isso, dizendo que foi uma coincidência ela ter feito o testamento uma semana antes de ser assassinada.

 

        -Sim, é uma coincidência estranha. Parece até que ela sabia que ia morrer.

 

        -Não, isso  é normal. Uma pessoa que tinha  uma fortuna como Michelle Burton possuía, fazer um testamento. É uma precaução necessária e comum.

 

        -A polícia parece achar que a mesma pessoa que a raptou, a assassinou também. É óbvio que quem a matou não estava satisfeito pelas atitudes dela, que afastou o procurador e assumiu a presidência da empresa. Os suspeitos são os familiares, o procurador e até membros da diretoria. Há muito poder e dinheiro envolvidos neste crime – Comentou Grahan, pensativa.

 

        -Grahan, por que não retorna à empresa ? O seu cargo continua de pé. Somente o presidente que substituir Michelle, pela a posse das ações, poderá destituí-la.

 

        Grahan sorriu amargamente.

 

        -Isso acontecerá logo, Helen. Você acha que vão deixar-me permanecer no cargo ? A família de Michelle me odeia. A mãe dela, quando assumir, vai destituir-me. E não estou preocupada com isso. Meu interesse pela Burton Corporation morreu com Michelle. Eu fui para lá somente para ajudá-la, por  insistência dela.

 

        -E o que vai fazer agora, Grahan ?

 

        -Profissionalmente ? Sou escritora. Tenho ainda um contrato com uma editora. Só que não estou em condições de escrever nada. Preciso de um tempo para tomar uma descisão.

 

        -Uma escritora ?! – Disse Helen, surpresa – Oh ! Pensei que fosse uma advogada, uma administradora...

 

        Grahan sorriu.

 

        -Sei que estava em um cargo bem diferente de minha profissão. Mas estava gostando. Eu queria partilhar do mundo de Michelle.

 

        Helen a encarou com um olhar sombrio.

 

        -Você amava muito Michelle Burton, não é ?

 

        Grahan deixou de sorrir. Olhou-a com tristeza, os olhos enchendo de lágrimas.

 

        -Demais.

 

        Sua voz soou emocionada e trêmula.

 

        Helen enxugou as mãos e sentou-se numa cadeira diante de Grahan. Pousou a mão sobre a dela, olhando-a com calor.

 

        -Eu a entendo, Grahan. . .

 

        Grahan a olhou com os olhos luzindo de lágrimas.

 

        -É impossível você entender, Helen. Você não é uma mulher que já amou desse jeito. Nosso amor era muito singular. Sabe, duas pessoas que sempre sonharam o mesmo sonho de amor, com uma integração completa, duas almas gêmeas ? Éramos assim. E Michelle não era somente linda. . . era uma mulher muito especial. Deus, como eu a amava !Você não pode entender o vazio que sinto, que tudo perdeu o significado para mim!

 

        Helen afastou a mão. Ficou olhando-a em silêncio, sentindo um ciúme doloroso, ao vê-la falar com tanto amor de Michelle, sofrendo por uma mulher que nem existia mais, mas que parecia estar tão presente. E nem tinha o direito de cobrar de Grahan isso. Só podia ficar ali ouvindo-a, sofrendo com ela, sentindo-se  insignificante demais para tentar ajudá-la.

 

        Grahan ergueu-se e saiu da cozinha. Foi para a sala e jogou-se no sofá, enterrando o rosto nas mãos. O seu peito doía pelo esforço que fazia para não chorar.

 

        Helen veio atrás dela e aproximou-se, pousando a mão no ombro dela.

 

        -Grahan, eu queria dizer que. . .

 

        -Deixe-me só ! –Gritou Grahan, com as mãos no rosto.

 

        Helen empalideceu e recuou, com o sofrimento estampado no rosto. Voltou à cozinha, chorando silenciosamente.

 

        Enxugou as lágrimas e colocou o frango na frigideira. Fritou, colocou em uma travessa. Fez a salada de batatas e arrumou a mesa. Voltou à sala, tentando mostrar-se calma.

 

        Grahan, com a cabeça recostada no encosto do sofá, olhava para o teto com uma expressão ausente.

 

        -Grahan. . . – Chamou, baixinho.

 

        Ela olhou-a e sua expressão mudou, parecendo envergonhada. Ergueu-se.

 

        -Helen. . . desculpe-me o meu descontrole de há pouco. Estou intratável e não tinha o direito de gritar com você, em sua própria casa. Se quiser, vou embora agora. Deve estar arrependida de ter-me trazido para cá.

 

        Helen sorriu com esforço, para não demonstrar seu sofrimento à Grahan.

 

        -Não estou arrependida. Eu entendo que está com os nervos tensos. Isso vai passar com o tempo. Venha comer, Grahan.

 

        Grahan a seguiu. Sentou-se à mesa, olhando para a comida.

 

        -Está com ótima aparência e cheirando bem – Disse, tentando espantar o clima pesado que criara – Já vi que é uma excelente cozinheira.

 

        -Obrigada. Vou serví-la.

 

        Helen serviu-a e se serviu. Grahan começou a comer, sem olhá-la. Parecia ainda envergonhada. Helen aproveitou para a observar, embevecida. Olhou os cabelos negros e sedosos, os traços marcantes do rosto, as mãos de dedos longos e delicados. Era mesmo bela e atraente. Dela emanava uma atração tão forte,  que a fazia tremer.

 

        Grahan olhou-a . Sorriu. A crise havia passado.

 

        -A comida está ótima. Parabéns.

 

        -Que bom que gostou, Grahan.

 

        -Vou lavar a louça para você. Não é justo que faça tudo.

 

        Helen sorriu, olhando-a divertida.

 

        -Você, lavando louça ? Não combina.

 

        Grahan a fitou erguendo as sombrancelhas.

 

        -Por que não combina ? Sempre fiz isso !

 

        -Ah, não sei. . . não consigo imaginá-la lavando louça !

 

        Grahan sorriu.

 

        -Pois vai ver hoje.

 

        -Não, hoje não. Você fez uma viagem e está cansada.

 

        -Você está mimando-me, Helen . . .

 

        -Com muito prazer. Acabe de comer.

 

        Terminaram de comer em silêncio. Helen recolheu as louças e as lavou, sob protestos de Grahan. Enxugou tudo e foram para a sala. Helen instalou-se numa poltrona e Grahan em outra ao lado.

 

        -Quer ver um pouco de televisão, Grahan ?

 

        -Tudo bem.

 

        Helen ligou a tv. Fugiu dos noticiários, dizendo:

 

        -Hoje em dia só se vê notícias ruins. Um pouco de descanso dessas tragédias diárias será bom.

 

        Colocou em um canal filmes antigos. Estava começando um. Casablanca, com Bogart e Ingrid Bergman. Helen a olhou.

 

        -Quer ver esse filme ? É um clássico.

 

        -Já o vi duas vezes, mas é sempre bom ver Casablanca. Aprecio muito aos atores.

 

        -Gosta de filme romântico ?

 

        -Gosto.

 

        -Quer uma bebida ? Acho que uma dose não lhe faria mal.

 

        -Um uísque com gelo, se tiver.

 

        Helen fez menção de erguer-se.

 

        -Não precisa, eu mesma me sirvo – Disse Grahan, levantando-se – Onde está a garrafa ?

 

        -Ali na estante. Tenho um Chivas e um Buchana’s. Escolha.

 

        Grahan apanhou a garrafa de Chivas e a olhou.

 

        -Também vai querer ?

 

        -Sim. Obrigada, Grahan.

 

        Grahan foi até a cozinha e preparou as doses. Voltou à sala e estendeu um copo para Helen, sentando-se.

 

        -À você, com quem muito homem gostaria de casar – Brindou, erguendo o copo.

 

        Helen a fitou, sorrindo docemente.

 

        -Por que diz isso ?

 

        -É uma pessoa muito dedicada.

 

        -Ah ! – Exclamou, com ar decepcionado – Somente por isso?

 

        Grahan emendou, sorrindo :

 

        -Não, claro que não. Você foi Miss New York, esqueceu ?

 

        -Que quer dizer com isso ?

 

        O olhar de Helen era ansioso. Grahan continuou, subitamente se sentindo desconfortável:

 

        -Quero dizer que é uma mulher bonita, Helen.

 

        Os olhos dela brilharam. Um sorriso iluminou seu rosto.

 

        -Oh ! Acha mesmo isso, Grahan ?

 

        -Sim. Qualquer  pessoa  pode  perceber  isso, Helen – Declarou Grahan, meio  constrangida.Percebeu que havia sido um erro elogiar Helen. Ela parecia pensar que estava interessada nela, quando apenas quisera desfazer o clima ruim que criara.

 

        -Obrigada, Grahan !

 

        Grahan a fitou nos olhos.

 

        -Olhe, eu não a estou “cantando”. Só estou dizendo o que acho.

 

        O sorriso de Helen morreu.

 

        -Eu sei. . . quem sou eu, para tirar Michelle de sua cabeça !

 

        A frase soou amarga e desproporcional ao assunto. Será que Helen gostaria que a estivesse “cantando” ? Não era possível...

 

        -Vamos ver o filme – Disse, arrependida de ter feito o elogio.

 

        Viram o filme em silêncio. O final triste, com a separação dos personagens que se amavam, comoveu Helen. Grahan notou lágrimas nos olhos dela. Ficou surpresa. Não sabia que ela era tão sensível. Na empresa ela passava uma imagem de mulher eficiente e fria.

 

        Helen ergueu-se da poltrona. Olhou-a séria.

 

        -Quer continuar a ver tv ?

 

        -Não. Tenho que guardar as roupas que trouxe e tomar um banho.

 

        -Então, vamos fazer isso.

 

        Ela desligou a tv e chamou-a para o quarto. Grahan abriu a mala e tirou as roupas. O armário de Helen tinha uma parte vaga e pôde colocar as roupas de Grahan sem dificuldades.

 

        Helen a olhou, fechando as porta do armário.

 

        -Você está com pouca roupa.Precisa apanhar suas roupas no apartamento de Michelle.

 

        Grahan sacudiu a cabeça negativamente.

 

        -Aquelas roupas finas ? Nem tenho onde usá-las. Não, vou deixá-las lá. Só retirarei se Mary Burton exigir. A maior parte das minhas roupas ficou na Filadélfia, onde eu morava. E não quero voltar lá.

 

        Helen a encarou.

 

        -Você disse que tem uma pessoa que não quer ver. Quem é essa pessoa, Grahan ?

 

        -A mulher com quem eu vivia. Ela é uma neurótica e tentei livrar-me dela várias vezes, mas ela ameaçava matar-se. Não, não quero voltar lá. É melhor tudo ficar como está.

 

        -Ah... se é assim, tem razão em não querer ir mais lá. Vai tomar um banho agora ?

 

        -Sim, e depois vou dormir. Estou cansada.

 

        Grahan apanhou um pijama, calcinha e toalha e foi para o banheiro.

 

        Helen suspirou, olhando para a cama que ela dormiria. Oh , Deus, dormir no mesmo quarto que Grahan, sem poder tocá-la ! Era uma tortura !

 

        Arrumou a cama para ela. Trocou toda roupa de cama e depois arrumou sua própria cama, puxando a colcha até os pés da cama. Apanhou uma camisola e calcinha no armário, sentindo os nervos tensos. Até quando conseguiria esconder de Grahan a sua paixão ?

 

        Grahan saiu do banheiro já de pijama. Helen prendeu a respiração, olhando-a . Estava desejando-a.

 

        -Pode ir tomar o seu banho – Disse Grahan, dirigindo-se para a sua cama.

 

        Helen passou por ela e entrou no banheiro. Tomou um banho frio, tentando apagar aquela chama que queimava dentro dela. Mas foi inútil. Aquele fogo somente Grahan poderia aplacar.

 

        Enxugou-se, vestiu-se e voltou ao quarto. Grahan já estava deitada na cama, que parecia pequena para ela. O braço sobre os olhos, como que os protegendo da luz.

 

        Helen apagou a luz e deitou-se. A voz de Grahan chegou até ela na escuridão:

 

        -Boa noite, Helen.

 

        -Boa noite, Grahan.

 

        Helen, pouco depois, ouviu o suave ressonar de Grahan . Mas ela levou muito tempo para conseguir dormir. O desejo de ter Grahan em seus braços a torturou até altas horas da noite, fazendo-a virar-se na cama impaciente, até dormir.

 

 

Continua na parte 8

 

 

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