Os jornais estamparam a notícia com espalhafato:
MILIONÁRIA
ASSASSINADA !
HERDEIRA DA BURTON CORPORATION
ASSASSINADA !
ASSASSINADA HERDEIRA MILIONÁRIA !
MICHELLE BURTON MORTA TRAGICAMENTE!
Grahan não lera os jornais.
Depois de depor na polícia, se refugiara no rancho, afastando-se de todos. Para
ela, a vida perdera o sentido. Passava os dias na cama, embriagando-se até a
inconsciência. Só comia um pedaço de pão ou uma maçã, quando seu estômago doía
de fome pela falta de refeições e pela ingestão de álcool. Não queria contato
com o mundo. Sua vida acabara. A dor que sentia a dilacerava, tinha vontade de
acabar com a própria vida. Mas não tinha coragem, era uma covarde ! Gritava
isso para o espelho, que refletia sua imagem torturada.
Chorava
enquanto bebia. Culpava-se da morte de Michelle. Se não tivesse voltado com ela
ao rancho. . . se não tivesse deixado ela ir pegar a lenha. . . se tivesse
insistido com ela para arranjar logo um detetive particular para descobrir quem
a havia raptado. . . se não a deixasse andar sem guarda-costas. . . Agora era
tarde. Ela estava morta !
-Michelle
– soluçava – Michelle, eu a perdi... tão linda, tão cheia de vida, de paixão...
e agora está morta ! Morta ! Nunca mais a beijarei. . . nunca mais verei
aqueles olhos verde-mar me olharem com paixão. . . nunca mais ouvirei sua voz,
nem verei seu sorriso. . . oh, meu Deus !
O
telefone tocava e ela não atendia. Para quê ? Queria ficar ali sozinha, com a
lembrança dela. Nada mais a importava.
Duas
vezes haviam batido em sua porta. Ela nem se dera ao trabalho de levantar do
sofá, embriagada.
Naquela
tarde, bateram novamente. Em sua embriaguês, ouviu muito longe uma voz chamar seu
nome. Nem se mexeu. O importuno que fosse embora. Apertou nas mãos a garrafa se
uísque, como se fossem tomá-la dela. Era seu único consolo, a bebida, que a
arremessava na inconsciência, não a deixando sofrer por algum tempo.
A
porta foi arrombada e Phil Scott e Helen Wacker entraram, olhando para Grahan
deitada no sofá com uma garrafa apertada contra o peito.
-Veja
! – Disse Phil Scott, indicando-a com a mão – Está desse jeito desde há três
dias atrás, quando vim aqui pela segunda vez. Se continuar assim, vai entrar em
coma alcoólico e morrer.
Helen
olhou para o policial com gratidão.
-Obrigada
por ter me avisado, senhor Scott. Não sabemos se ela tem parentes para cuidar
dela. Eu posso fazer isso.
-Fiquei
com pena dela. Queria que visse como estava , depondo na delegacia. Eu já a
conhecia. Quando Michelle Burton fugiu do cárcere do rapto, foi ela quem ajudou
a pobre moça. E percebi que eram muito amigas. Agora, ficou assim com a morte
de Michelle Burton. Quer que chame um médico ?
-Se
precisar, eu chamarei. Conhece algum por aqui ?
-Sim,
o doutor Roberts. Vou lhe dar o telefone dele.
O
policial escreveu um número de telefone e endereço em um caderninho que tirou
do bolso. Arrancou a folha e deu a Helen.
-Ele
tem uma clínica ao leste daqui, indo em direção à cidade. Atende em qualquer
hora.
Helen
colocou o papel na bolsa que tinha pendurada no ombro.
-Obrigada,
senhor Scott.
-Se
precisar de minha ajuda, procure-me na delegacia da cidade. Agora, fiquei
tranqüilo. Estava preocupado, porque esse lugar é deserto e ela estava sozinha.
-Tem
alguma pista do assassino, senhor Scott ?
-Estamos
investigando. Bem, já vou. Bom dia, senhorita.
Helen
o levou até a porta e ele se foi. Ela colocou a bolsa sobre um móvel e aproximou-se
de Grahan. Abaixou-se ao lado do sofá e a fitou, comovida. Que diferença de
quando a vira pela última vez ! Estava
pálida, o rosto emagrecido, olheiras escuras, o cabelo despenteado, o hálito
cheirando a bebida. Um vinco de tensão entre as sombrancelhas grossas.
Sacudiu-a
levemente. Ela continuou imóvel, de olhos fechados. Chamou-a com suavidade:
-Grahan.
. . Grahan. . .
Ela
gemeu e movimentou a cabeça, voltando-a para o outro lado.
Sacudiu-a
com mais força. Ela tornou a gemer e abriu os olhos. Aqueles olhos azuis de
cristal estavam mortiços pela bebida. Fitou-a confusa e sua voz saiu pastosa:
-Quem
é você ? O que quer de mim ?
-Grahan...
Grahan Gladstone... não me reconhece ? Sou a sua secretária, Helen !
Ela
não demonstrou surpresa.
-Não
tenho mais secretária. . . – balbuciou – Não tenho nada...
-Grahan.
. . senhorita Gladstone. . . reaja !
Grahan
olhou-a inexpressivamente.
-Vá
embora. . . quero ficar só. . . morrer. . .
-Não,
não vou ! Vou é ajudá-la a sair desse estado deprimente!
Com
ar decidido, Helen tirou a garrafa das mãos de Grahan, que não reagiu.
Depositou-a no chão e foi para a cozinha. As louças estavam guardadas,
demonstrando que Grahan não comia uma refeição regular há dias. Só havia sobre
a pia latas de cerveja, dois litros de leite com restos estragados, restos de
maçã e duas garrafas de uísque vazias. Recolheu tudo e jogou no lixo. Abriu o
freezer e notou que havia galinha, hamburgueres e salsichas. Na geladeira, encontrou
legumes embalados.
Com
habilidade, fez uma sopa e colocou-a no fogo. Subiu para o andar superior. A
porta do quarto estava aberta. Entrou e viu a cama desarrumada. Pensou que ali
Michelle havia dormido com Grahan, antes de morrer.
Foi
para o armário embutido e apanhou lençóis, cobertores e toalhas de banho. Saiu,
levando tudo para a sala. Grahan continuava deitada, olhando para um ponto
ignoto. Aproximou-se, depositando as roupas de cama e banho numa poltrona e
enclinou-se para Grahan, puxando-a pelos braços, forçando-a a sentar. Ela a
fitou inexpressivamente, sem opor resistência.
-Levante-se!
– Disse Helen, com energia – Vai tomar um banho. Está cheirando mal.
-Não
quero. . .
-Vai,
sim ! –Disse, encarando-a com decisão – Vai sentir-se melhor, um banho a
ajudará a sair desse torpor.
Rodeou
a cintura dela, puxando-a para cima. Grahan estava magra, mas era grande. Era
pesada. Ofegando, fez força e conseguiu levantá-la. Grahan ficou de pé,
cambaleando.
-Apoie-se
em mim, Grahan – Disse, com voz suave.
Grahan
colocou o braço no ombro dela, apoiando-se. Helen a rodeou pela cintura com o
braço e deram alguns passos, cambaleantes. Helen parou para tomar fôlego e
continuou. Com dificuldade, subiram as escadas e levou-a para o banheiro.
Encostou-a na parede do box e levantou a blusa dela. Os seios cheios e redondos
surgiram, belos. Helen os fitou rapidamente, tirando a blusa. Abaixou-se e
puxou a calça de malha. Grahan não usava nada por baixo e o sexo com delicados
pêlos negros mostrou-se entre as coxas longas. Suspirou e acabou de tirar a
calça, levantando um pé de Grahan de cada vez. Ergueu-se e , amparando Grahan
com o corpo, abriu uma torneira da ducha. Um jato de água fria jorrou sobre a
cabeça de Grahan e desceu pelo seu corpo, estremecendo-a.
Helen
abriu a torneira de água quente e começou a ensaboar o corpo de Grahan. A água
morna descia sobre elas, molhando as roupas de Helen.
Grahan
tomou o sabonete de sua mão. Helen ergueu o rosto e encontrou o olhar
envergonhado dela. Parecia bem melhor e a fitava admirada, com um vestígio de
vergonha, o que indicava que já estava ficando consciente do que acontecia.
-Deixe
que eu tomo banho sozinha. Posso fazer isso – Disse, com voz pastosa, mas
coerente.
-Tem
certeza ? Não vai cair ?
-Não.
Helen
sorriu para ela.
-Está
bem. Vou tirar minhas roupas e trocar por outra. Ainda bem que vim previnida.
Saiu
do banho e foi até a sala. Tirou a roupa molhada, enxugou-se com uma das toalhas
que apanhara no quarto e vestiu as roupas que trouxera na bolsa grande de
couro.
Voltou
ao banheiro. Grahan, cambaleando, enxugava-se com uma toalha. Ficou imóvel ao
vê-la entrar.
Helen
abriu o armário do banheiro e apanhou um roupão azul. Ajudou Grahan a vestí-lo.
Amarrou o cinto e então aproximou-se e
a amparou nos braços.
-Vamos
para a sala.
Ela
apoiou-se novamente em seu ombro. Helen sentiu o cheiro do sabonete exalando do
corpo dela, a maciez do seio contra seu ombro, e suspirou.
Desceram
as escadas. Grahan ainda cambaleava, mas já conseguia andar sem as pernas
dobrarem. Foi bem mais fácil trazê-la de volta. Ajudou-a a sentar numa poltrona
e foi à cozinha. A sopa já estava cozida. Passou-a no liquidificador. Grahan
devia estar muito tempo sem comer nada sólido e o estômago não iria agüentar
nada que não fosse cremoso. Colocou o creme em uma tigela e voltou à sala.
Grahan cochilava com a cabeça no encosto da poltrona.
Helen
puxou outra poltrona para perto de Grahan e sentou com a tigela nas mãos.
-Grahan.
. . – chamou.
Ela
abriu os olhos, sonolenta.
-Hummm.
. .
-Tome
a sopa, Você está fraca e precisa alimentar-se.
-Não
quero nada. . . – resmungou, fechando os olhos.
-Se
não comer, vou levá-la para o hospital.
Ela
abriu os olhos, com ar receoso.
-Não.
. . hospital, não. . .
-Então
, coma !
Levou
a colher aos lábios dela, depois de soprar. Grahan engoliu o creme,
automaticamente. Helen repetiu a operação até o creme acabar. Sorriu,
satisfeita. Ela conseguira comer !
Levou
a tigela para a cozinha, lavou-a e voltou à sala. Grahan voltara a cochilar.
Helen
pegou um lençol e estendeu no sofá. Apanhou uma almofada macia forrada de
tecido e colocou-a no canto do sofá. E foi até Grahan, sacudindo-a levemente. Ela
abriu os olhos, com expressão sonolenta.
-Que
é? . . .
-Vá
para o sofá dormir.
-Não.
. . está bom aqui. . .
-Não,
levante-se, Grahan ! Precisa estender o corpo !
Puxou-a
pelos braços. Grahan ergueu-se trôpega e jogou-se no sofá. Fechou os olhos,
adormecendo logo.
Helen
cobriu-a com um cobertor e alisou os cabelos negros e revoltos. Ficou um bom
tempo olhando-a dormir, pensando como a amava. Depois, juntou duas poltronas,
forrou-as com um lençol e deitou-se. Custou a dormir, mas o sono finalmente
chegou.
Acordou
bem cedo e tomou um banho, vestindo a mesma roupa, com exceção da calcinha, que
havia trazido em quantidade suficiente. Desceu para a cozinha e vasculhou a
despensa. Encontro cereais diversos e enlatados, mas optou em fazer um mingau
de aveia para Grahan, suco de laranja e torradas. Voltou à sala com a bandeja e
colocou-a sobre a mesinha de centro. Aproximou-se de Grahan e a sacudiu de
leve.
Grahan
acordou sobressaltada, sentando-se e dando um grito. Helen a segurou pelos
ombros, tentando acalmá-la.
-Calma
! Está tudo bem, Grahan. . . – Disse, suavemente.
Grahan
a fitou confusa. Estava agora lúcida. O efeito da bebida havia passado e a sopa
que havia tomado a fortalecera.
-Helen
! O que está fazendo aqui ?!
Helen
sorriu com um certo receio. No dia anterior ela parecia uma criança, mas agora
estava em seu perfeito juízo. Nunca a tratara mais que com uma distante
cortesia. Não a trataria com frieza e indignação, achando que invadira a
privacidade dela ?
-O
chefe de polícia, Phil Scott, telefonou para a Burton Corporation e eu o
atendi. Ele pediu que alguém viesse aqui para ajudá-la, pois havia vindo aqui
duas vezes e percebeu que você precisava de ajuda. Como você. . . a senhorita
não tem parentes que eu conheça, resolvi eu mesma vir. E aqui estou.
Grahan
olhou-a surpresa. Helen viera de New York até ali para ajudá-la! Não tinha
nenhum tipo de intimidade com ela, nenhum vínculo além do profissional. Será
que tinha sido mandada por alguém da
Burton Corporation? Quem ?
-Quem
a mandou aqui ?
Ela
a fitou desajeitada.
-Ninguém.
Vim por minha conta. Fiquei preocupada com o pedido de Phil Scott, pois ele
falou que você estava sozinha aqui e muito abalada com a morte de Michelle
Burton. E não me arrependo. Você estava aí jogada no sofá, sem comer, bebendo
há vários dias.
Grahan
olhou para si mesma. Notou que estava com um roupão azul. Lembrava-se vagamente
que estava com outra roupa. Olhou para Helen, confusa.
-Você
trocou minha roupa ?
Ela
sorriu , encabulada.
-Sim.
E dei-lhe um banho. Você estava precisando. Depois a fiz tomar uma sopa e
dormir.
Grahan
ficou vermelha. Helen, praticamente uma estranha, a vira despida e lhe dera
banho ! Devia ter precisado mesmo, pois em sua bebedeira já fazia dois dias que
não tomava banho. Que vergonha ! Olhou-a, tentando disfarçar o que sentia.
-Obrigada,
Helen. . . não sei porque se deu ao trabalho de preocupar-se comigo. Não temos
um conhecimento muito. . . estreito.
-Desculpe-me
ter vindo sem ser chamada por você. Deve estar pensando que vim devassar sua
privacidade. Mas foi apenas um gesto de ajuda.
Grahan
a fitou com gratidão.
-Não
se desculpe. Eu lhe agradeço. Mas não sei se vale à pena preocupar-se comigo.
Suas funções em relação à mim terminaram. Não trabalho mais na Burton
Corporation. Não sou mais assistente de ninguém – Disse amargamente.
-Não
estou aqui profissionalmente. Pedi dois dias de licença para vir até aqui – Disse, desviando os olhos dos de
Grahan.
-Por
quê ? Por que está fazendo isso, Helen ?
Ela
olhou-a com um sorriso tímido.
-Porque
você é uma pessoa legal, Grahan. Gosto de você. Sempre foi muito gentil comigo.
Grahan
continuava sem entender. O motivo era tão pequeno para o muito que ela estava
fazendo ! Tirar dois dias de licença para vir ficar com ela ! Isso as pessoas
só faziam por parentes ou amigos especiais ! Mas Helen fizera isso por ela !
Não entendia, nem queria entender. Era reconfortante saber que alguém se
preocupava com ela, ainda. Sozinha, com seus lúgubres pensamentos, só estava se
destruindo.
Ergueu-se
e deu um leve sorriso.
-Não
se justifique mais. É bom tê-la aqui, Helen. Agora vou tomar um banho e
vestir-me.
Helen
indicou a bandeja.
-Coma
o desejum que fiz. Precisa alimentar-se.
-Depois
do banho.
Grahan
subiu escadas e sumiu de suas vistas. Helen suspirou, aliviada. Ainda bem que
ela não insistira em saber o motivo que a levara até ali. Quase não resistira
em dizer que estava ali porque ficara preocupada, morrendo de saudades e
sofrendo por ela.
Ainda
bem que Grahan não estava lendo os jornais. As insinuações de que ela mantinha
uma relação homossexual com Michelle estava em todos eles. As suspeitas se
fundamentavam em perguntas, como:
Por
que a rica herdeira se ligara tanto à Grahan, à ponto de nomeá-la para um alto
cargo na empresa, preterindo pessoas mais qualificadas ?
Por
que Michelle havia saído da casa da família e fôra morar com Grahan no
apartamento da Quinta Avenida ?
Por
que elas foram passar sozinhas aquele fim de semana no rancho ?
Por
que a família de Michelle odiava Grahan, tendo declarado que ela era uma mulher
vulgar ?
Por
que Grahan havia sido expressamente proibida de comparecer ao sepultamento de
Michelle ?
E
finalmente, por que Grahan estava tão abalada com a morte de Michelle, a ponto de isolar-se de todos? Seria natural
ela ficar triste, mas o comportamento dela era de quem perdeu a pessoa que mais
amava no mundo.
Pobre
Grahan ! O escândalo a atingira. Dava razão à ela em ter-se refugiado ali, sem
querer ver ninguém. Devia estar sofrendo muito a perda de Michelle. Devia tê-la
amado muito, para ficar tão abalada.
E
ela própria ? Estava apaixonada por Grahan. Aqueles dias sem vê-la, sabendo-a
passando por tudo aquilo, a angustiara. Queria vê-la, ajudá-la. Mesmo sabendo
que ela estava sofrendo por Michelle. Não esperava nada de Grahan. Sabia que
Grahan não tinha interesse nenhum por ela. Mas a amava assim mesmo, sem
esperanças. Bastava vê-la, estar com ela.
Grahan
tornou a descer, vestida com calça jeans e blusa branca de algodão de mangas
compridas. Helen nunca a vira naquele tipo de traje. Só a via no escritório em
“tailleurs”, maquiada. Agora a via em trajes que realçavam sua verdadeira
personalidade. Era muito mais atraente assim.
Ela
a olhou com aqueles olhos magnéticos e Helen sentiu um arrepio.
-Já
tomou o desjejum ?
-Não,
estava esperando-a .
Grahan
olhou para a bandeja sobre a mesinha. Sentou numa poltrona e serviu-se de um
copo de suco de laranja.
-Coma
o mingau primeiro – aconselhou Helen – o suco é ácido e seu estômago está
vazio.
Grahan
sorriu, bebendo o suco de uma só vez. Colocou o copo na bandeja e pegou sua
tijela de mingau.
-Estava
com sede – justificou-se – E você ? Não vai comer nada ?
Helen
serviu-se de um copo de suco e de uma torrada, passando manteiga de amendoim e olhando para Grahan, que comia
o mingau sem muita vontade, de cabeça baixa.
-Grahan,
não acha que seria bom ir-se daqui ? Esse foi o local do crime. Isso é muito
deprimente. Phil Scott disse-me que você está liberada, já prestou depoimento e
não é uma suspeita. Somente deve informá-lo para onde for.
Grahan
a fitou com olhar sombrio.
-Não
sou suspeita ?! Todos que rodeavam Michelle são suspeitos, Helen ! Precisava
ver as perguntas que me fizeram ! Perguntas de ordem pessoal, que nunca me
tinham feito em toda minha vida. Mas tiveram que me liberar porque sou
inocente. Sabem que quem matou Michelle foi a mesma pessoa que a raptou,
descontente com a posse dela na presidência da Burton Corporation. E eu não
tinha motivos para isso. Pelo contrário, só tive a perder.
-Entendo.
. . mas, insisto na pergunta : não gostaria de sair daqui ?
-Tenho
casa na Filadelfia. Mas não quero voltar para lá. Eu dividia a casa com uma
pessoa que não quero ver mais. O apartamento de Michelle deve estar nas mãos da
família, mas nem que eu pudesse, não voltaria para lá. Não tenho estrutura para
ficar naquele lugar sem Michelle.
Helen
a fitou com ar ansioso.
-Moro
em um apartamento confortável na rua 59, com esquina para o Central Park. Você
pode ficar lá comigo, até resolver o que vai fazer de sua vida. Moro só e o apartamento tem espaço para mais uma
pesssoa.
Grahan
a olhou indecisa.
-Você
mal me conhece , Helen. Como pode me
oferecer isso ?
-Conheço-a
o suficiente. Talvez mais do que você pensa.
Grahan
sorriu com amargor.
-Sei,
conhece minha vida privada pelos jornais. Sei que eles expuseram a minha vida. Só
não podem afirmar que eu era amante de Michelle porque meu depoimento foi
sigiloso e a família de Michelle poderia processar os jornais por calúnia à
memória dela.
-A
polícia concorda com a imprensa ?
Grahan
a fitou nos olhos, um olhar firme e direto.
-Helen,
sei que já sabe que Michelle e eu éramos amantes. Não precisa disfarçar. E a
polícia sabe também. Eu contei toda a verdade. Eles não podem revelar meu
depoimento porque eu não sou culpada e meu advogado pediu sigilo para
proteger-me. Mas a imprensa já fez seu trabalho. Sei que todos sabem e comentam
minha ligação com Michelle. É , você deve saber tudo de mim. Não sei como não
tem medo de estar comigo.
Helen
estendeu a mão e a pousou sobre a de Grahan, olhando-a nos olhos. Grahan ficou
surpresa em ver neles um calor inimaginável, em uma quase estranha.
-Eu
a entendo, Grahan. E respeito seus sentimentos. Quero, se possível, que confie
em mim e pense que só desejo ajudá-la.
Os
olhos de Grahan se encheram de lágrimas. Ela se sentia tão perdida e só!
-Não,
você não pode entender o que sinto, Helen. Esse vazio, essa sensação de que
nada mais importa, essa dor !
Grahan
começou a tremer. Levou as mãos ao rosto, curvando-se para a frente. Helen
aproximou-se e pousou as mãos sobre as dela, tentando retirar suas mãos do
rosto.
-Não
chore, Grahan. . . não adianta. Você tem que ser forte e esquecer. A vida
continua.
Grahan
retirou as mãos do rosto. Não estava chorando, mas o seu olhar era desesperado.
-Ah,
se eu pudesse chorar ! Mas não consigo mais ! – Gemeu – A dor agora é grande
demais, para ser extravasada em lágrimas ! Eu só queria morrer ! Isso que
queria !
Helen
resolveu ser dura:
-Grahan,
pensei que fosse forte, mas vejo que é muito fraca e não sabe enfrentar uma
tragédia ! Reaja ! Sua vida continua ! Não adianta ficar aí se lamentando pelos
cantos, enchendo a cara de bebida ! Não seja masoquista e volte a viver !
Quantas pessoas passaram por perdas semelhantes e tocaram suas vidas para frente ! Não seja
covarde e reaja !
Grahan
a esbofeteou, revoltada por suas palavras. Helen foi lançada para trás e caiu
de costas no chão, olhando-a surpresa e magoada.
Grahan
ficou imóvel, olhando-a . Helen passou a mão pelo rosto. Olhava-a com tanta
mágoa nos olhos, que Grahan baixou os olhos, arrependida e envergonhada por sua
agressão.
-Sentiu-se
melhor fazendo isso ? – Perguntou Helen, com voz trêmula.
Grahan
sacudiu a cabeça, negativamente. Ergueu-se do sofá e estendeu as mãos para ela.
Helen aceitou suas mãos para levantar-se. Grahan não as soltou. Levou-as aos
lábios, beijando-as e a fitando nos olhos.
-Perdoe-me, Helen. Você não
merece isso. Está sendo tão amiga, e eu
a agredi. Mas, entenda que não foi à você que agredi. Foi à mim mesma.
Você tem toda razão. Eu precisava ouvir essas coisas que me disse.
Helen
sorriu. Disfarçou à custo a emoção de ter as mãos beijadas por ela. E o toque
das mãos de Grahan a deixava de um jeito que teve de reagir com uma
brincadeira:
-Que
direita forte você tem ! E eu pensando que estava fraca ! Podia desafiar até o
Tysson !
Grahan
sorriu, achando graça no modo dela falar e na comparação com o boxeador. Helen
sorriu também.
Grahan
subitamente ficou séria. Olhou-a surpresa. Helen a fitou curiosa.
-O
que foi ?
-Não
notou ? Eu sorri ! Você conseguiu fazer-me sorrir ! Não pensei que pudesse mais
fazer isso ! Quer saber de uma coisa ? Vou com você para sua casa . Isso, se
ainda você aceitar dividir seu espaço com uma pessoa como eu.
Helen
sorriu de pura felicidade.
-Oh,
Grahan ! É claro que aceito ! E estou muito feliz em ver que já está voltando a
ser aquela Grahan que conheço !
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New
York. Como parecia sem colorido, sem Michelle !
Grahan
observava as ruas, as pessoas passando, sem interesse. Aquelas pessoas deviam ser
felizes, não estavam sofrendo como ela. Ou será que também havia alguém na
multidão que vivia um drama como o seu ?
Helen
estacionou o carro na garagem do prédio e a olhou.
-Pronto,
chegamos. Final da viagem.
Grahan
desceu e esperou Helen abrir o porta-malas. Retirou sua mala e fechou a tampa,
olhando para Helen. Ela fechou o carro e veio ao seu encontro.
-Venha.
O elevador é logo ali.
Grahan seguiu-a. Tomaram o
elevador e Helen apertou o andar. O elevador começou a subir com lentidão.
Helen
a fitou encabulada.
-O prédio não
é novo. Aqui não é a Quinta Avenida, mas é um bom lugar.
Grahan sorriu,
sem comentar nada. Ela viajara em silêncio toda a viagem e Helen entendera
isso. Grahan devia estar com medo da sua decisão.
Observou-a
disfarçadamente. Grahan estava bem melhor, a cor já havia voltado ao seu rosto
e as olheiras estavam se suavisando. Precisava agora de uma boa alimentação,
dormir regularmente e de atenção. Helen prometeu a si mesma dedicar seu tempo
livre à ela.
Chegaram ao andar
e desceram. Helen dirigiu-se para uma porta e a abriu. Entraram. Grahan colocou
a mala no chão e olhou em torno, enquanto Helen fechava a porta. Era um
apartamento pequeno, mas agradável. Móveis confortáveis e de bom gosto, com uma
decoração em tom suave, com plantas nos cantos da sala e quadros de cores
alegres.
Helen a
encarou com olhar feliz.
-Venha
conhecer o quarto.
Grahan segui-a. Helen
mostrou o quarto com duas camas,
armários embutidos, um rack com tv e
DVD e uma poltrona florida em um canto.
A decoração era simples e confortável.
-Eu dividia o
quarto com minha irmã – explicou Helen – Ela se casou e deixou a cama.
Helen mostrou
a cozinha bem montada e o banheiro. Grahan olhou tudo com indiferença. Como se
sentia, se estivesse em uma caverna não
sentiria a diferença. Sua euforia por ter conseguido sorrir já havia passado.
Estava novamente sofrendo e não queria demonstrar isso para Helen. Havia tomado
a decisão correta, em aceitar o convite dela? Era justo Helen agüentar a sua
depressão, o seu humor instável, sendo quase uma estranha? Ela agüentaria, ou
iria mandá-la embora após sua primeira crise de desespero?
Voltaram ao
quarto para Grahan colocar a mala. Uma idéia ocorreu à Grahan:
-Helen, e
quando seu namorado vier aqui ? Onde dormirão ?
Ela a fitou,
enrubescendo.
-Não tenho
namorado.
Grahan a olhou
surpresa.
-Ninguém ? Nem
um. . . – hesitou.
-Amante ? –
Completou Helen, olhando-a sorrindo – Não. Ninguém. Não se preocupe com isso.
Voltaram à sala
e Helen apontou para uma estante, onde havia uma aparelhagem de som.
-Quer ouvir
música, enquanto preparo algo para comermos ?
-Não.
-Quer fazer-me
companhia na cozinha ? Mas antes vou trocar de roupa.
-Tudo bem. Eu
a espero aqui.
Helen foi para
o quarto. Grahan olhou em volta, sem muito interesse. Na estante, viu algumas
fotos. Aproximou-se e as olhou, menos por curiosidade e mais para ter o que
fazer.
A foto de uma
garotinha de olhos azuis. Devia ser Helen. Outra foto. Uma loura de toga com um
diploma nas mãos, o rosto sério e compenetrado. Reconheceu Helen. Olhou para
a terceira foto e admirou-se. Helen de
maiô, com uma faixa de Miss New York. Grahan olhou surpresa para o corpo bem
feito, de pernas longas, quadris aredondados, cintura fina e busto cheio.
Helen, Miss New York !
Sorriu . Nunca
olhara para Helen com outros olhos que não o profissional. Estava tão envolvida
e apaixonada por Michelle, que olhava para outras mulheres com indiferença.
Nunca reparara se Helen era atraente ou sem charme, só notara que era loura de
olhos azuis. Um rosto sem uma identificação maior que o de sua secretária.
Helen voltou à
sala sorridente.
-Quer vir
agora para a cozinha ?
Grahan a fitou
pela primeira vez com atenção. Helen estava linda com aquela blusa branca de
malha, sem mangas, colante nos seios empinados, os braços bem torneados, a
cintura fina, os quadris redondos e as coxas longas moldadas pela saia justa de
lycra preta, as pernas sensacionais. Ela prendera os cabelos louros com um laço
e estava com um ar de menina. Era uma bela mulher, observou, mas sem interesse.
Em uma outra circunstância, a olharia sentindo-se atraída, mas a morte de
Michelle a deixara imune à beleza de uma outra mulher. Perdera o grande amor de
sua vida e nenhuma mulher a interessava, por mais bela que fosse. Se sentiria
sempre assim? Nunca mais amaria novamente? Duvidava que conseguisse esquecer
Michelle. Ninguém a superaria em seu coração.
Ela notou sua
observação muda e corou.
-O que foi ?
Grahan sorriu,
afastando os tristes pensamentos, e procurou mostrar-se um pouco alegre.
Indicou as fotos com o polegar, dizendo em tom de brincadeira:
-Estou
conhecendo-a melhor, Miss New York !
Ela riu,
desajeitada.
-Oh, isso...
é, meus amigos insistiram para eu concorrer. Foi em 98. Há muito tempo.
-Muito tempo ?
Só há seis anos !
-Para mim,
parece um século.
-Por quê ?
-Eu era
bobinha. Cheia de ilusões. Venha.
Grahan a
seguiu para a cozinha, reparando pela primeira vez no andar ondulante. Ela indicou
uma cadeira.
-Sente-se. Vou
fazer uma salada de batatas e frango frito, gosta ?
Grahan puxou a
cadeira e sentou-se.
-Sim, gosto,
Helen.
Ela abriu a
geladeira e tirou seis batatas e um frango. Colocou tudo sobre a pia e começou
a descascar as batatas.
Grahan cruzou
os braços, apoiando o queixo neles, olhando para Helen com atenção. Ela
continuava descascando as batatas, concentrada.
Olhou para o
perfil e achou-o perfeito. A testa pequena, o nariz reto, meio arrebitado na
ponta, os lábios cheios sem pintura, o queixo delicado. As sombrancelhas de
pêlos alourados eram naturais, os cílios espessos e dourados quase escondiam os
olhos azuis.
Era muito
bonita, só agora percebia. Não era à toa que fora eleita Miss New York. Mas
Michelle era muito mais bonita...ela possuía uma beleza clássica, era atraente,
sensual, divertida, perfeita...
Pare com isso!
– Pensou – Michelle está morta, deve tentar esquecê-la! Não, não queria
esquecer Michelle... iria lembrá-la para sempre!
Os pensamentos
antagônicos digladiavam em sua mente. Seus olhos estavam paralizados em Helen,
mas sua mente só enxergava Michelle, a mulher de sua vida.
Helen a fitou e a viu contemplando-a com um
estranho olhar e sorriu, enrubescendo.
-Não quer
mesmo ouvir música ? Não gosta ? – Perguntou.
Grahan saiu de
seu topor com a voz de Helen.
-Perdão, o que
perguntou?
-Perguntei se
quer ouvir música e se gosta.
-Oh...sim,
gosto. Mas não quero ouvir. A música me torna mais sensível e não posso ficar
mais do que estou.
-Oh... tudo
bem...
-Mas se você
quer ouvir, coloque. Não se prive de nada por mim.
-Não – Disse,
olhando-a nos olhos – Respeito seus sentimentos.
Grahan ficou
olhando-a em silêncio. Ela baixou os olhos e continuou sua tarefa.
-Como está a
empresa, Helen ? – Perguntou, para quebrar o silêncio entre elas.
Helen a fitou
gravemente.
-Uma loucura.
As ações da Burton Corporation caíram muito com a morte da presidente. O irmão
de Michelle assumiu a presidência até ser aberto o testamento de Michelle Burton,
que designará com quem vão ficar as ações. A especulação é que Mary Burton
assumirá. Parece que o filho dela não está se saindo muito bem substituindo a
irmã, interinamente .
Grahan a fitou
surpresa.
-Michelle
tinha feito um testamento ? Não sabia disso !
Ela a olhou,
franzindo o cenho.
-Não sabia ?
Ela chamou um tabelião ao seu gabinete uma semana antes de ser assassinada e
trancou-se com ele lá.
-Não, não
sabia ! Ela não comentou nada comigo ! – Negou, perplexa.
-Bem, ela deve
ter achado melhor não lhe dizer nada.
-Estranho...
Michelle não me escondia nada... quando vai ser aberto o testamento ?
-A semana que
vem.
-Estou pasma.
Tem certeza que Michelle fez esse testamento ?
-Claro. June
até comentou comigo isso, dizendo que foi uma coincidência ela ter feito o
testamento uma semana antes de ser assassinada.
-Sim, é uma
coincidência estranha. Parece até que ela sabia que ia morrer.
-Não,
isso é normal. Uma pessoa que tinha uma fortuna como Michelle Burton possuía, fazer
um testamento. É uma precaução necessária e comum.
-A polícia
parece achar que a mesma pessoa que a raptou, a assassinou também. É óbvio que
quem a matou não estava satisfeito pelas atitudes dela, que afastou o
procurador e assumiu a presidência da empresa. Os suspeitos são os familiares,
o procurador e até membros da diretoria. Há muito poder e dinheiro envolvidos
neste crime – Comentou Grahan, pensativa.
-Grahan, por
que não retorna à empresa ? O seu cargo continua de pé. Somente o presidente
que substituir Michelle, pela a posse das ações, poderá destituí-la.
Grahan sorriu
amargamente.
-Isso
acontecerá logo, Helen. Você acha que vão deixar-me permanecer no cargo ? A
família de Michelle me odeia. A mãe dela, quando assumir, vai destituir-me. E
não estou preocupada com isso. Meu interesse pela Burton Corporation morreu com
Michelle. Eu fui para lá somente para ajudá-la, por insistência dela.
-E o que vai
fazer agora, Grahan ?
-Profissionalmente
? Sou escritora. Tenho ainda um contrato com uma editora. Só que não estou em
condições de escrever nada. Preciso de um tempo para tomar uma descisão.
-Uma escritora
?! – Disse Helen, surpresa – Oh ! Pensei que fosse uma advogada, uma
administradora...
Grahan sorriu.
-Sei que
estava em um cargo bem diferente de minha profissão. Mas estava gostando. Eu
queria partilhar do mundo de Michelle.
Helen a
encarou com um olhar sombrio.
-Você amava
muito Michelle Burton, não é ?
Grahan deixou
de sorrir. Olhou-a com tristeza, os olhos enchendo de lágrimas.
-Demais.
Sua voz soou
emocionada e trêmula.
Helen enxugou
as mãos e sentou-se numa cadeira diante de Grahan. Pousou a mão sobre a dela,
olhando-a com calor.
-Eu a entendo,
Grahan. . .
Grahan a olhou
com os olhos luzindo de lágrimas.
-É impossível
você entender, Helen. Você não é uma mulher que já amou desse jeito. Nosso amor
era muito singular. Sabe, duas pessoas que sempre sonharam o mesmo sonho de
amor, com uma integração completa, duas almas gêmeas ? Éramos assim. E Michelle
não era somente linda. . . era uma mulher muito especial. Deus, como eu a amava
!Você não pode entender o vazio que sinto, que tudo perdeu o significado para
mim!
Helen afastou
a mão. Ficou olhando-a em silêncio, sentindo um ciúme doloroso, ao vê-la falar
com tanto amor de Michelle, sofrendo por uma mulher que nem existia mais, mas
que parecia estar tão presente. E nem tinha o direito de cobrar de Grahan isso.
Só podia ficar ali ouvindo-a, sofrendo com ela, sentindo-se insignificante demais para tentar ajudá-la.
Grahan
ergueu-se e saiu da cozinha. Foi para a sala e jogou-se no sofá, enterrando o
rosto nas mãos. O seu peito doía pelo esforço que fazia para não chorar.
Helen veio
atrás dela e aproximou-se, pousando a mão no ombro dela.
-Grahan, eu queria
dizer que. . .
-Deixe-me só !
–Gritou Grahan, com as mãos no rosto.
Helen
empalideceu e recuou, com o sofrimento estampado no rosto. Voltou à cozinha,
chorando silenciosamente.
Enxugou as
lágrimas e colocou o frango na frigideira. Fritou, colocou em uma travessa. Fez
a salada de batatas e arrumou a mesa. Voltou à sala, tentando mostrar-se calma.
Grahan, com a
cabeça recostada no encosto do sofá, olhava para o teto com uma expressão
ausente.
-Grahan. . . –
Chamou, baixinho.
Ela olhou-a e
sua expressão mudou, parecendo envergonhada. Ergueu-se.
-Helen. . .
desculpe-me o meu descontrole de há pouco. Estou intratável e não tinha o
direito de gritar com você, em sua própria casa. Se quiser, vou embora agora.
Deve estar arrependida de ter-me trazido para cá.
Helen sorriu
com esforço, para não demonstrar seu sofrimento à Grahan.
-Não estou
arrependida. Eu entendo que está com os nervos tensos. Isso vai passar com o
tempo. Venha comer, Grahan.
Grahan a
seguiu. Sentou-se à mesa, olhando para a comida.
-Está com
ótima aparência e cheirando bem – Disse, tentando espantar o clima pesado que
criara – Já vi que é uma excelente cozinheira.
-Obrigada. Vou
serví-la.
Helen serviu-a
e se serviu. Grahan começou a comer, sem olhá-la. Parecia ainda envergonhada.
Helen aproveitou para a observar, embevecida. Olhou os cabelos negros e
sedosos, os traços marcantes do rosto, as mãos de dedos longos e delicados. Era
mesmo bela e atraente. Dela emanava uma atração tão forte, que a fazia tremer.
Grahan olhou-a
. Sorriu. A crise havia passado.
-A comida está
ótima. Parabéns.
-Que bom que
gostou, Grahan.
-Vou lavar a
louça para você. Não é justo que faça tudo.
Helen sorriu,
olhando-a divertida.
-Você, lavando
louça ? Não combina.
Grahan a fitou
erguendo as sombrancelhas.
-Por que não
combina ? Sempre fiz isso !
-Ah, não sei.
. . não consigo imaginá-la lavando louça !
Grahan sorriu.
-Pois vai ver
hoje.
-Não, hoje
não. Você fez uma viagem e está cansada.
-Você está
mimando-me, Helen . . .
-Com muito
prazer. Acabe de comer.
Terminaram de
comer em silêncio. Helen recolheu as louças e as lavou, sob protestos de
Grahan. Enxugou tudo e foram para a sala. Helen instalou-se numa poltrona e
Grahan em outra ao lado.
-Quer ver um pouco
de televisão, Grahan ?
-Tudo bem.
Helen ligou a
tv. Fugiu dos noticiários, dizendo:
-Hoje em dia
só se vê notícias ruins. Um pouco de descanso dessas tragédias diárias será
bom.
Colocou em um
canal filmes antigos. Estava começando um. Casablanca, com Bogart e Ingrid
Bergman. Helen a olhou.
-Quer ver esse
filme ? É um clássico.
-Já o vi duas
vezes, mas é sempre bom ver Casablanca. Aprecio muito aos atores.
-Gosta de
filme romântico ?
-Gosto.
-Quer uma
bebida ? Acho que uma dose não lhe faria mal.
-Um uísque com
gelo, se tiver.
Helen fez
menção de erguer-se.
-Não precisa,
eu mesma me sirvo – Disse Grahan, levantando-se – Onde está a garrafa ?
-Ali na
estante. Tenho um Chivas e um Buchana’s. Escolha.
Grahan apanhou
a garrafa de Chivas e a olhou.
-Também vai
querer ?
-Sim.
Obrigada, Grahan.
Grahan foi até
a cozinha e preparou as doses. Voltou à sala e estendeu um copo para Helen,
sentando-se.
-À você, com
quem muito homem gostaria de casar – Brindou, erguendo o copo.
Helen a fitou,
sorrindo docemente.
-Por que diz
isso ?
-É uma pessoa
muito dedicada.
-Ah ! –
Exclamou, com ar decepcionado – Somente por isso?
Grahan
emendou, sorrindo :
-Não, claro
que não. Você foi Miss New York, esqueceu ?
-Que quer
dizer com isso ?
O olhar de
Helen era ansioso. Grahan continuou, subitamente se sentindo desconfortável:
-Quero dizer
que é uma mulher bonita, Helen.
Os olhos dela
brilharam. Um sorriso iluminou seu rosto.
-Oh ! Acha
mesmo isso, Grahan ?
-Sim.
Qualquer pessoa pode
perceber isso, Helen – Declarou
Grahan, meio constrangida.Percebeu que
havia sido um erro elogiar Helen. Ela parecia pensar que estava interessada
nela, quando apenas quisera desfazer o clima ruim que criara.
-Obrigada, Grahan
!
Grahan a fitou
nos olhos.
-Olhe, eu não
a estou “cantando”. Só estou dizendo o que acho.
O sorriso de
Helen morreu.
-Eu sei. . .
quem sou eu, para tirar Michelle de sua cabeça !
A frase soou
amarga e desproporcional ao assunto. Será que Helen gostaria que a estivesse
“cantando” ? Não era possível...
-Vamos ver o
filme – Disse, arrependida de ter feito o elogio.
Viram o filme
em silêncio. O final triste, com a separação dos personagens que se amavam,
comoveu Helen. Grahan notou lágrimas nos olhos dela. Ficou surpresa. Não sabia
que ela era tão sensível. Na empresa ela passava uma imagem de mulher eficiente
e fria.
Helen
ergueu-se da poltrona. Olhou-a séria.
-Quer
continuar a ver tv ?
-Não. Tenho
que guardar as roupas que trouxe e tomar um banho.
-Então, vamos
fazer isso.
Ela desligou a
tv e chamou-a para o quarto. Grahan abriu a mala e tirou as roupas. O armário
de Helen tinha uma parte vaga e pôde colocar as roupas de Grahan sem
dificuldades.
Helen a olhou,
fechando as porta do armário.
-Você está com
pouca roupa.Precisa apanhar suas roupas no apartamento de Michelle.
Grahan sacudiu
a cabeça negativamente.
-Aquelas
roupas finas ? Nem tenho onde usá-las. Não, vou deixá-las lá. Só retirarei se
Mary Burton exigir. A maior parte das minhas roupas ficou na Filadélfia, onde
eu morava. E não quero voltar lá.
Helen a
encarou.
-Você disse
que tem uma pessoa que não quer ver. Quem é essa pessoa, Grahan ?
-A mulher com
quem eu vivia. Ela é uma neurótica e tentei livrar-me dela várias vezes, mas
ela ameaçava matar-se. Não, não quero voltar lá. É melhor tudo ficar como está.
-Ah... se é
assim, tem razão em não querer ir mais lá. Vai tomar um banho agora ?
-Sim, e depois
vou dormir. Estou cansada.
Grahan apanhou
um pijama, calcinha e toalha e foi para o banheiro.
Helen
suspirou, olhando para a cama que ela dormiria. Oh , Deus, dormir no mesmo
quarto que Grahan, sem poder tocá-la ! Era uma tortura !
Arrumou a cama
para ela. Trocou toda roupa de cama e depois arrumou sua própria cama, puxando
a colcha até os pés da cama. Apanhou uma camisola e calcinha no armário,
sentindo os nervos tensos. Até quando conseguiria esconder de Grahan a sua
paixão ?
Grahan saiu do
banheiro já de pijama. Helen prendeu a respiração, olhando-a . Estava
desejando-a.
-Pode ir tomar
o seu banho – Disse Grahan, dirigindo-se para a sua cama.
Helen passou
por ela e entrou no banheiro. Tomou um banho frio, tentando apagar aquela chama
que queimava dentro dela. Mas foi inútil. Aquele fogo somente Grahan poderia
aplacar.
Enxugou-se,
vestiu-se e voltou ao quarto. Grahan já estava deitada na cama, que parecia
pequena para ela. O braço sobre os olhos, como que os protegendo da luz.
Helen apagou a
luz e deitou-se. A voz de Grahan chegou até ela na escuridão:
-Boa noite,
Helen.
-Boa noite,
Grahan.
Helen, pouco
depois, ouviu o suave ressonar de Grahan . Mas ela levou muito tempo para
conseguir dormir. O desejo de ter Grahan em seus braços a torturou até altas
horas da noite, fazendo-a virar-se na cama impaciente, até dormir.
Continua na parte
8
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