Anoitecia. Giancarlo Gianini prescutava a paisagem que passava ante seus olhos com uma expressão soturna, o ódio brilhando em seus olhos e queimando em seu íntimo.
Aquelas duas
cadelas não perdiam por esperar. Iriam pagar o que haviam feito com ele !
Jean York, porque havia matado
dois homens seus e o ferido e insultado. Carla, porque o havia traído.
Aquela
puta ! Sua mulher, sustentava por ele com luxo, havia traído ele com a maior
frieza, salvando aquela loura que era sua inimiga e fugindo com aquela policial
filha da puta !
Iria matá-las, mas com uma morte bem lenta, para que sofressem bastante !
Estava
em um carro com três capangas, que recrutara em um de seus cassinos. Na frente, outro carro
seguia com cinco homens escolhidos, fortemente armados. Agora, queria ver Jean
York escapar deles todos !
Haviam chegado a Milwalkee há meia hora, e agora percorriam as margens do lago à procura da cabana que Jean York deveria estar com Carla. Não seria difícil achá-la. Nas margens do lago Michigan, naquela altura, havia poucas habitações, já que era uma área rural.
O carro da
frente parou e um dos homens desceu, vindo até o seu carro, excitado.
-Chefe
! Há uma cabana mais à frente, em um desvio de terra, perto do lago ! E ao lado
está o Porsche vermelho de sua mulher !
Gianini sorriu com ar vitorioso.
-São
elas ! Vamos atacar de surpresa ! Vamos chegar e cercar a cabana. Se
resistirem, vamos invadí-la e abrir fogo.
-Mas você não
quer elas vivas ? Na invasão, poderão morrer, atingidas pelas balas.
-Eu gostaria de pegá-las vivas, para terem a morte que merecem. Mas não vamos nos arriscar, se elas não se renderem ao se verem cercadas. A policial é muito esperta. Se resistirem, podem matá-las logo ! Mas se conseguirem pegá-las vivas, será ótimo, vou vingar-me como quero. Vamos !
O homem voltou
para o seu carro e Gianini olhou para Bob, que dirigia ao seu lado.
-Chegou a hora, Bob. Vamos ! Pare diante da casa. Vamos chegar e cercá-la, antes de abrir fogo.
Os
carros avançaram um atrás do outro, em marcha lenta. O terreno era irregular e
os carros balançavam com as pedras no caminho.
De seu esconderijo, Jean os via se aproximarem, deitada atrás de uma pedra, que escondia ela e Carla. Estava ali à espera há várias horas. Sorriu. A idéia de colocar pedras na estrada de terra, para dificultar os carros a avançarem, havia sido muito boa. Com o fuzil pendurado no ombro, tinha dois cartuchos de dinamite nas mãos. Carla segurava o outro fuzil com ar tenso.
-Aí vem eles, Carla. Prepare-se. Quando eles chegarem ao ponto marcado, acenda o pavio.
-Está bem, Jean.
Jean
ergueu-se e correu para o outro lado do terreno , uma elevação acidentada
distante da cabana. Dali podia vê-los chegar e ficar na retaguarda deles,
atacando-os por trás. Acendeu o outro pavio, que ia para a estrada que eles
passariam. Havia ensaiado essa tarefa e cronometrado o tempo do fogo percorrer
o rastilho. Agora, o carro da frente passaria nos buracos cheios de pólvora na
hora que o pavio aceso por ela atingisse o local. O que Carla acenderia
explodiria a pólvora meio minuto depois, atingindo o segundo carro.
O primeiro
carro chegou ao ponto da armadilha.
Jean olhou,
com o coração aos saltos.
E a explosão aconteceu, fazendo o carro ser envolvido por uma bola de fogo, explodindo. O carro de trás sacudiu-se e freou de chofre. Tentou voltar de ré, mas a segunda explosão o sacudiu e ele descontrolou-se, recuando aos solavancos e batendo em uma árvore.
Jean saiu de seu esconderijo e viu Gianini sair do carro e correr para trás de uma pedra com dois homens. Um deles retardou-se, olhando em volta e atirando à êsmo, apavorado.
Jean
o mirou e atirou com o fuzil. Acertou-o e o homem caiu, morto. Mas um outro
entricheirou-se atrás do carro e abriu fogo em sua direção.
Jean
rolou pelo chão, com as balas zunindo à sua volta. O homem continuava a atirar.
Arrastou-se para trás de uma pedra, pensando como pegá-lo. Podia jogar a
dinamite no carro e acabar com ele, mas para isso teria de erguer-se e seria um
alvo fácil.
Carla veio em seu socorro, atirando de trás das pedras. O homem dirigiu os tiros para lá e Jean aproveitou. Acendeu o pavio do cartucho e ergueu-se, atirando-o na direção do carro. Jogou-se no chão.
A dinamite explodiu, envolvendo o carro, que se transformou em outra bola de fogo, lançando vários pedaços para cima.
Jean ergueu o punho de satisfação. Seu plano dera certo ! Agora, só restava Gianini e outro homem.
Gianini, com o outro homem, olhavam boquiabertos o carro em chamas, como o primeiro. Era incrível. Em poucos minutos, Jean York havia explodido dois carros, matando os cincos ocupantes de um deles e dois do outro. E ele ? Não conseguira nem ao menos pegar uma delas ! Ele, o grande Gianini , ser derrotado por uma mulher ! Não ! Ia pegá-la, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida ! Não ia ser desmoralizado por uma mulher ! Se seus inimigos soubessem disso, não o respeitariam mais, iam é rir dele !
-Malditas ! –
Berrou, fora de si – Vou esfolá-las vivas, quando as pegar ! Vamos, imbecil !
Ataque-as ! Ou vai ficar aí escondido, como um rato ?
O homem olhou
para ele com evidente receio.
-Chefe, aqui deve
estar cheio de armadilhas ! É melhor ir buscar reforços ! O senhor viu o que
ela já fez !
Gianini o
fitou com raiva.
-Seu covarde !
Está com medo de duas mulheres ?
-Duas mulheres
que parecem dois demônios ! São tão perigosas quanto muitos homens ! Será
melhor buscar reforços !
-Não ! Elas
fugiriam ! Tem que ser agora ! Vamos nos aproximar com cuidado da casa – Disse,
sacando sua arma – Você vai pela frente e eu pelos fundos.
-Mas elas não
estão em casa ! O que adiantará ir até lá ?
-Idiota, aqui
somos alvos fáceis ! Temos que entrar na casa e esperá-las entricheirados !
-Não acho boa
idéia. Elas vão nos encurralar lá !
-Vá em frente,
e não discuta minhas ordens, idiota !
Ele fechou a
cara ao insulto, mas obedeceu. Escondido pelos arbustos, foi se aproximando da
casa. Levava um fuzil automático, de grande poder de fogo.
Escondida
atrás das pedras, Jean o viu aproximando-se da casa. Podia tentar alvejá-lo,
mas resolveu esperar. Gianini não estava à vista e não queria espantá-lo,
matando o último homem dele. Tinha que localizá-lo antes.
E
o viu aproximando-se também, por trás da cabana. Jean rezou para ele
aproximar-se o suficiente para ser atingido também pela explosão que Carla iria
detonar, acendendo o pavio de pólvora.
Mas Gianini pareceu desconfiar de uma armadilha e parou, observando o seu capanga aproximar-se da cabana.
O homem saiu de trás dos arbustos e correu, metendo o pé na porta da cabana. Entrou atirando. O rato caíra na armadilha.
Jean deitou no
chão, pensando se Carla havia agido na
hora certa.
A explosão
ocorreu. A cabana explodiu, num inferno de chamas.
Encolhida,
Jean viu pedaços de madeira em chamas subirem e caírem perto dela. Ergueu-se
ansiosa, para ver se Gianini havia sido atingido.
Ele estava há
uns cem metros da cabana, encolhido e protegendo a cabeça com as mãos. A arma
que usava estava caída perto dele.
Jean saiu
correndo de seu esconderijo, empunhando o fuzil e gritando:
-Gianini,
fique como está ! Se mover-se , eu atirarei !
Carla saiu de
trás das pedras e aproximou-se também, correndo com o fuzil em punho.
Gianini ergueu
o rosto, vendo-as se aproximarem. Em seu olhar havia frustração e raiva.
Jean parou
diante dele, apontando a arma. Seu olhar estava frio como gelo.
-Levante-se,
seu patife ! Chegou sua hora final !
Carla parou ao
seu lado, ofegante. Estava tensa, mas seus olhos não mostravam mais nenhum
medo. A arma nas mãos, os cabelos despenteados pelo vento, as roupas sujas de
poeira. Mas ainda assim, bela e atraente.
Jean olhou-a rapidamente, mas concentrou-se em Gianini. Ele ergueu-se com dificuldade, o braço ferido em uma tipóia, o terno antes impecável todo rasgado e chamuscado. Qualquer outra pessoa nessa situação lhe provocaria pena, mas Gianini só a fazia sentir desprezo e ódio. Ali estava o assassino de seu pai, o mandante das mortes de Melanie, Davison e Milles.
Ele a fitou
com ódio.
-Sua
desgraçada ! Matou todos os meus homens ! – Rosnou.
-Agora é só entre nós, seu miserável. Não há mais nenhuma chance para você. Seu fim chegou.
-O que vai
fazer comigo ?
-O
que vou fazer ? Vou fazê-lo assinar uma confissão dde todos os seus crimes e
depois executá-lo !
Ele a fitou
com ódio.
-Nunca farei
isso ! Pode executar-me, que não farei o que quer !
-Será
que não ? – Sorriu Jean friamente – Eu tenho métodos para fazê-lo vomitar tudo
o que quero ! Ou pensa que somente seu capanga Chuck sabia fazer alguém falar ?
Ele
empalideceu.
-Você. . . não
terá coragem !
-Está
com medo, seu canalha ? Precisa sentir o que fêz suas vítimas sentirem ! Ser
torturado, pedir para morrer, para acabar com seu sofrimento !
Ele
olhou para Carla, que os ouvia sem interferir.
-Carla
! Você é minha mulher ! Viveu comigo, nós nos amamos ! Dei-lhe tudo que
desejava ! Convença Jean York a deixar-me vivo ! Eu irei para a cadeia, pagarei
meus crimes, se é isso que ela quer !
Carla
olhou-o friamente.
-Não
me considero mais sua mulher, Gianini. Não venha com essa estória que me amou !
Você somente quis satisfazer seu ego em possuir-me, ter algo que desejava, como
um objeto de luxo ! Lembra-se de como ameaçou-me, quando sugeri que devíamos
nos divorciar ?
Jean
puxou Carla pelos ombros, rodeando-os. Olhou para Gianini com sorriso
zombateiro.
-Sua
mulher agora é minha, Gianini. Você a perdeu, com seu tratamento egoísta e
frio. Nós nos amamos.
A
expressão dele passou de um espanto imenso para um ódio mortal.
-Vagabundas
! Cadelas ! São duas cadelas !
Jean
deu uma pancada com a arma no rosto dele, furiosa com o insulto. Ele caiu para
trás, uivando de dor.
-Jean
, pare ! – Gritou Carla – Não perca a cabeça !
Jean
a fitou com o ciúme brilhando nos olhos claros.
-Está
com pena desse canalha ? Esse assassino frio, que matou meu pai e meus amigos ?
Que pretendia matar-nos, vindo aqui com um monte de homens armados ?
-Não
! Mas se vai executá-lo, que seja logo, sem torturas ! Não seja cruel como ele
é, Jean ! Você é bem superior, para fazer as mesmas coisas que ele fazia !
Jean
olhou para Gianini, que fitava Carla com uma esperança no rosto. Não tinha
nenhuma pena dele. Era um frio assassino, que se estivesse em seu lugar, não
hesitaria em matá-las com requintes de maldade. Mas Carla tinha razão. Não iria
adotar os métodos dele, igualando-se à aquele assassino.
-Está
bem, Carla. Vou executá-lo logo e acabar com tudo isso. Logo a polícia estará
aqui, por causa das explosões, e eu não vou fugir com esse assassino por aí.
Mirou
a arma no peito dele e disse, com voz fria:
-Gianini,
tenho mil motivos para executá-lo. Mas vou fazê-lo pela morte de meu pai.
Ele
a fitou horrorizado.
-Não
! Não ! – Gritou.
Jean
apertou o gatilho três vezes. Gianini caiu
para trás, os olhos fitando o vazio, morto.
Jean
jogou a arma no chão. Olhou para Carla, que fitava o marido com certa piedade.
Ela entendeu. Afinal, haviam vivido juntos por dois anos. Tomou-a pela mão.
Carla a fitou com um olhar sem expressão.
-Acabou.
Vamos embora daqui.
Afastaram-se
dali, sem olhar para trás.
O
carro estava cheio de fuligem, com os vidros quebrados pelo deslocamento de ar
das explosões. Mas o motor funcionava perfeitamente.
-Acho
que dá para sair daqui até pararmos em um posto para lavá-lo e mandar colocar
os vidros – Disse Carla, com voz sem emoção.
Jean
notou isso. E entendeu, novamente. Também se sentia assim. Depois da execução
de Gianini, toda a tensão e medo se esvaíram, deixando-as naquele estado de
insensibilidade. Precisavam agora se acostumar a um novo estado de paz, sem
ameaças ou medo, de tempo marcado para estarem juntas.
Carla
ligou o carro e saiu dali com alívio . Ao longe, ouviram as sirenes da polícia
que viera ver os motivos daquelas explosões, que haviam sido percebidas longe,
pelo clarão do céu.
))))))((((((
Jean
empurrou a porta da sala do seu chefe e entrou. Steve Spader ergueu os olhos
dos papéis que lia e a fitou, sorrindo de maneira cordial.
-Sente-se,
Jean. O que deseja de mim ?
Jean
sentou-se diante dele e o encarou. Ele parecia preocupado. O achado do corpo de
Giancarlo Giannini, com os dos outros homens em Milwalkee, havia agitado a
mídia. Estava em todos os jornais e tvs.
A especulação de que as mortes fossem o resultado de uma guerra entre gangsters
era a mais forte probabilidade existente e mais aceita pelas pessoas. Fôra uma
carnificina, sem sobreviventes. Se fosse a polícia, teriam preferido prender os
bandidos. E assumiram a glória de tê-los mandado para a cadeia, menos Gianini,
que não tinha nenhuma ordem de prisão decretada.
Ela
falou com a voz baixa:
-Spader,
fui eu quem matei Gianini e seus homens.
Ele
a fitou sem surpresa.
-Eu
já tinha certeza, Jean. Mas estava esperando você vir falar-me.
-Não
vim antes por que tinha de resolver umas coisas particulares. Sabe que eu
morava com Melanie. E ela foi assassinada por um capanga de Gianini. Tive de
mudar para a casa de meu pai e comunicar aos parentes dela a sua morte.
-Então,
já sabe que o corpo dela foi encontrado ontem, perto do cais, em um saco
plástico ?
-Sim.
Danny ligou para minha casa, dando-me a notícia. Mas vocês ainda não acharam os
corpos de Davison e Milles, não ?
Ele
a encarou sério.
-Não.
Eles sumiram e imaginamos que estivessem mortos, mas não tínhamos essa certeza.
O que houve com eles, foram pegos pelos homens de Gianini ?
-Sim.
O próprio Gianini contou-me. Eles os jogaram no lago Michigan, depois de
mortos.
-Espere,
conte-me essa estória desde o início !
-Pois
bem, Spader. Vou resumí-la em poucas palavras: você deu aos grupos autonomia de
ação. E eu escolhi o plano de aproximar-se da mulher de Gianini através de uma
simulação de assalto. Melanie roubou a bolsa dela e eu a interceptei na rua,
fingi lutar com Melanie e a dominei. Davison e Milles participaram como
policiais, levando Melanie presa, aos olhos da mulher de Gianini. Ela ficou
impressionada com a minha atuação e convidou-me para trabalhar com ela como sua
guarda-costas. Assim, tive acesso à casa de Gianini. Mas ele começou a desconfiar
de mim, quando matei um capanga dele. A mulher de Gianini contou-me isso, por
que se tornou minha amiga. Ela detestava o marido, ele a ameaçava de morte , se
tentasse divorciar-se dele.
Ele
a fitou admirado, colocando a mão no queixo.
-Você
foi trabalhar na casa de Gianini ? Que loucura, garota ! Não sei como está
ainda viva !
-Estou
viva porque a mulher dele salvou-me . Gianini descobriu que era vigiado por
meus colegas e os pegou. Tentei agir, mas eles disseram que estavam com Melanie
prisioneira e rendí-me. Fui levada para um quarto e vi Melanie lá, amarrada.
Fui agredida e perdi os sentidos. Quando voltei à mim, Melanie estava morta.
Gianini já sabia quem eu era e ia torturar-me, para depois matar-me. Mas a
mulher dele chegou no quarto armada e libertou-me. Matei os dois capangas dele
e fugi com Carla Gianini. Fui para a cabana de meu pai e o esperei lá, com
várias armadilhas. E consegui matar eles.
-Jean,
como conseguiu fazer aquilo tudo ? Eram oito homens contra você, contando com
Gianini !
-Com
imaginação. Fiz armadilhas com pólvora e dinamite. Um carro explodiu logo ao
chegar. E o outro também. Foi fácil eliminar os restantes.
Spader
a fitou boquiaberto.
-Jean,
sabe que conseguiu o que muitos homens não conseguiram ? Estou pasmo !
Ela
o fitou com tristeza.
-Mas
não consegui salvar Melanie e os outros colegas.
-E
a mulher de Gianini ?
-Ela
ajudou-me muito. Queria livrar-se da perseguição do marido, pois sabia que ele
não iria perdoá-la por ter-me salvado.
-Caramba
! Essa mulher devia odiar muito o marido, para ter a coragem de traí-lo !
Jean
ficou calada. Nunca diria a ninguém que a paixão e o amor guiara os atos de
Carla.
-Eu
sabia que era você a autora daquelas mortes, Jean. Mas pensava que tinha tido a
ajuda de Davison e Milles. A cabana de Milwalkee era de seu pai e para Gianini
ter ido para lá, só podia ter sido atraído por vocês. Mas em meu relatório, não
falei em minha suspeita. Coloquei que tudo indica ser uma guerra de gangsters.
Já perdi Melanie, Milles e Davison. Não quero expor você à vingança da Máfia.
Jean
o fitou com gratidão.
-Obrigada,
Spader. Sei o quanto lhe custa fazer isso. Seria a maior glória para seu
departamento poder dizer que acabou com aqueles criminosos.
-Não
sou tão bonzinho como pensa, Jean. Fiz o que é mais sensato . Sei que por trás
de Gianini havia muita gente importante. E provar que ele havia sido morto por
uma pessoa sob meu comando ia dar-me
muita dor de cabeça.
Jean
o fitou com um brilho nos olhos.
-Spader,
tem uma coisa que esqueci de contar. Houve um jantar na casa de Gianini e
consegui fotografar o juiz Weckman e o inspetor de polícia Norman Cleave lá, na
casa de Gianini, conversando com ele. É uma prova clara do envolvimento dos
dois com a Máfia.
Spader
empalideceu.
-Norman
Cleave ?! O juiz Weckman ?! Meu Deus, os dois são meus amigos, de muitos anos !
É difícil de acreditar !
-Mas
pode acreditar, Spader. E eles pareciam muito íntimos de Gianini. Cochichavam e
riam, os três.
-Onde
está essa foto ?
-Comigo,
em casa.
-Jean,
quero essa foto ! Por que não me disse logo, pelo amor de Deus !
Jean
olhou para Spader, procurando esconder a sua surpresa. Nunca o tinha visto tão
transtornado. Nem quando soubera da morte de seu pai. E eles eram tão amigos !
Algo a fêz recuar no que declarara:
-Pensando
bem, Spader, não sei se a possuo ainda. Tenho que verificar. Tirei-a na casa de
Gianini e na fuga, não sei se a carreguei comigo. Ainda está no filme, não a
revelei.
-Vamos
até à sua casa procurá-la, Jean !
Jean
sorriu para ele.
-Calma,
Spader ! Antes , quero conversar com você algo que pretendo !
Ele
respirou fundo, cruzando os dedos das mãos.
-O
que é, Jean ?
-Queria
uma licença por um mês. Preciso de um tempo para mim, Spader. Preciso colocar
minha vida em ordem. A morte de meu pai , a morte de Melaine, tudo isso mexeu
com minha vida. Como disse, mudei para a casa de meu pai, mas não estou
sentindo-me bem lá. Preciso procurar outra para morar.
Spader
olhou-a pensativo. Depois, sorriu.
-Uma
licença de um mês é muito justo, Jean. O que você conseguiu, é muito difícil.
Acabar com um bandido como Gianini é algo que merece até um prêmio. Mas só
posso dar uma licença sem vencimentos, porque o que fêz não pode ser comentado
com ninguém. E estranhariam eu fazer essa concessão à você.
Jean
ergueu-se.
-Tudo
bem, Spader. À partir de hoje, está bem ?
-Tudo
bem. Mas , e a fotografia ?
-Agora
tenho um compromisso inadiável, de ordem pessoal. Vou procurá-la com calma e
quando a achar, eu lhe telefonarei.
-Está
bem, Jean. Estarei esperando. Não demore com isso.
-Amanhã
vou viajar para a Flórida. Telefonarei antes.
-Vai
viajar ? Já está decidido isso ?
-Sim.
Eu iria mesmo sem licença, Spader. Mas foi melhor com ela. Até amanhã.
Apertaram
as mãos e Jean saiu. Pegou seu carro e dirigiu-se para casa, ansiosa para
chegar.
Estava
agora residindo temporáriamente na casa de seu falecido pai. Carla estava
hospedada lá, resolvendo sua vida. Com a morte de Gianini, herdara todos os
negócios, além das propriedades que ele possuía : cinco cassinos espalhados em
Las Vegas, três night clubs, a casa em que moravam, uma outra em Miami e uma em
San Diego, Califórnia.
Carla
não queria continuar com nenhum negócio de Gianini. Sabia que a maior parte
deles estavam ligados à atividades ilegais. Havia fechado a venda dos cassinos
com um milionário texano e doara o dinheiro à fundações filantrópicas.
A
casa que morava com Gianini, pusera à venda. Pretendia ir viver em Miami ou San
Diego e queria que Jean largasse a polícia para ir viver com ela. Jean
hesitava, apesar de amá-la muito. Viver às custas de Carla, com o dinheiro
herdado de Gianini, não a atraía muito.
Jean
estacionou o automóvel diante do prédio e subiu os dois lances de escada
correndo. Deu três toques na campainha, um sinal combinado com Carla.
Ela
abriu a porta o suficiente para ver quem era , com a corrente. Viu que era Jean
e sorriu luminosamente, retirando a corrente e abrindo a porta completamente.
Jean
entrou e fechou a porta, fitando-a . Carla abraçou-a apertadamente,
colocando-se ao seu corpo e a beijou. Jean retribuiu o beijo com ardor,
sentindo como sempre uma doce emoção em ter Carla nos braços.
Carla
afastou a boca, para fitá-la ansiosa.
-E
então, meu amor ? Conseguiu a licença ?
-Sim.
Spader liberou-me, já desde hoje.
Ela
a fitou atentamente.
-Então,
qual é a razão desse vinco em sua testa ? O que a preocupa ?
Jean
sorriu, soltando-a e tirando o casaco.
-Nada
de importante. Coisas do trabalho.
-Não
quer contar-me o que é ?
-Não
vale à pena – Disse, colocando o casaco no cabide do hall de entrada – Já fêz o
jantar ? Estou morrendo de fome.
Carla
sorriu, puxando-a pela mão.
-Venha
ver. Fiz um jantar especial para nós.
Jean
avançou pelo hall até a pequena sala de refeições. Havia uma mesa posta, com
travessas, luz de velas e flores.
Jean
assobiou e ergueu as tampas das travessas. Viu um souflê de legumes, dourado e
de aspecto saboroso. Em outra, uma carne assada com azeitonas e fatias de
abacaxi rodeando-a, exalando um cheiro tentador.
Jean
abraçou Carla pela cintura, sorrindo.
-A
que se deve este jantar especial, minha querida ? Luz de velas ! Há quanto
tempo não tenho um jantar assim!
Carla
a fitou com os olhos azuis expressando uma certa decepção.
-Não
lembra, amor ? Que dia é hoje ?
Jean
fingiu pensar. Os olhos a fitaram surpresos.
-Dia
vinte de novembro. . . hei ! Hoje completamos duas semanas de conhecimento !
Beijou-a
rapidamente nos lábios e riu, fitando-a .
Carla
pousou a cabeça em seu ombro, abraçando-a apertadamente.
-Você
lembra ? Eu lembro tudo, com detalhes. .
.
Jean
apertou-a nos braços, suspirando.
-Claro
que sim, meu anjo. . . eu a olhei e fiquei encantada. . . mesmo pensando tão
mal de você.
-E
eu fiquei impressionadíssima com sua atuação, sua aparência. . . você
transmitiu-me segurança, confiança e sinceridade. E quando contou-me que gostava
de mulher, fiquei eufórica. Eu já estava bastante atraída por você.
-E
eu, apaixonada. . .
-Não
pude conter-me mais. . . quis ser sua. E na outra vez que nos encontramos, eu a
chamei para irmos dançar. . . e naquela buate, quando você abraçou-me, não
resisti. Provoquei-a porque estava louca para ter você. Eu já estava
completamente apaixonada , mas não sabia disso.
-E
eu fiquei fora de mim, com você nos braços.Nunca senti tanto desejo por uma
mulher- Declarou Jean, com voz emocionada.
Carla
ergueu o rosto e a fitou nos olhos, apaixonadamente.
-Eu
a amo, Jean. . . não saberia mais viver sem você.
-Eu
também a amo muito, Carla. . .
-Então,
largue a polícia. . . vamos embora daqui.
-Carla,
meu amor. Não quero tomar uma decisão precipitada, já disse que não me agrada
ser sustentada por você, com o dinheiro de Gianini.
Carla
desvencilhou-se de sueus braços, com ar aborrecido.
-Jean,
será que não entende que é um dinheiro que pertence-me agora, por direito ? Eu
era a mulher legítima dele e esse dinheiro é uma espécie de compensação pelo
tempo que sofri nas mãos dele !
Jean
a fitou com um vinco na testa.
-Eu
sei, Carla. Mas também há o meu trabalho. Não quero abandonar minha profissão,
gosto do que faço. Tenho de pensar no que devo decidir fazer.
-Eu
não quero perder você, Jean. Se quiser, abro mão da herança de Gianini, como já
fiz com os cassinos. Eu só quero ir embora daqui. Não acredito que possamos ter
paz nessa cidade. Os amigos de Gianii me conhecem e não vão deixar-me em paz.
-Não,
Carla ! Não quero que renuncie à uma vida sem preocupações por minha causa. Não
posso oferecer-lhe muita coisa e não me perdoaria em vê-la lutando para
sobreviver por causa do que penso sobre o dinheiro dele. Calma. Vou tirar a licença.
Viajaremos para Miami e tentarei um emprego lá. Se conseguir, nos mudaremos.
Pelo menos, quero ganhar meu dinheiro. O máximo que posso concordar é morar com
você, mas podendo pagar minhas despesas pessoais.
Carla
fez uma expressão desanimada.
-Mas
meu bem, como conciliar as duas coisas ? Você quer que eu fique com o dinheiro
de Gianini, mas não quer desfrutar dele comigo !
-Não
é bam assim. Até posso aceitar viver com você na casa que você herdou dele, mas
as minhas despesas pessoais, quero estar em condições de fazer. Vou aceitar ser
mantida por você, já não é uma concessão garnde ? Mas vamos resolver isso
quando viajarmos.
Carla
tornou a abraçá-la, alisando seu rosto.
-Oh,
querida ! Estou ansiosa para irmos embora daqui ! E viver sem medo de haver
alguém nos vigiando ou perseguindo.
-Amanhã
iremos, está bem ? Ficaremos um mês juntas, desfrutando de nosso amor em Miami.
-Oh,
Jean. . . será maravilhoso. . .
Beijaram-se
profundamente. Jean pousou a mão no seio dela, alisando-o. Carla riu e
empurrou-a suavemente.
-Mais
tarde faremos isso, amor. . . agora você vai tomar um banho e vestir uma bela
roupa, para jantar comigo.
-Minhas
roupas são tão simples. . . – Disse, fazendo cara feia.
-Não
tem importância. . . vá! – Carla apontou a porta, rindo.
Jean
sorriu e foi para o banheiro. Tomou um banho de ducha e enxugou-se. Foi para o
quarto e escolheu um conjunto de malha negra, penteou os cabelos e perfumou-se.
Voltou à sala.
Carla
a esperava sentada na mesa, com uma música suave tocando no som, criando um
clima romântico.
-Adoro
Diana Krall ! – Disse Jean, sentando-se diante dela – E adoro o seu bom gosto
musical, Carla.
Ela
sorriu docemente, estendendo-lhe um copo de vinho branco alemão.
-Está
linda com essa roupa, amor. Vou serví-la.
Jean
sorriu, feliz. Estava cada dia mais apaixonada por aquela mulher maravilhosa.
Agora que a conhecia mais profundamente, com a convivência, descobria outras
qualidades que aumentavam sua admiração por ela. Afinidades de gostos , a
inteligência, uma mulher companheira, leal, ardente e sensível.
Carla
estendeu o prato, sorridente.
-Espero
que aprecie. Foi feita com muito amor.
-Carla,
sua comida é deliciosa. Essa então, só
de olhar e sentir o cheiro, dá para sentir que está apetitosa.
Deu
uma garfada e levou à boca. Carla a olhava em expectativa. Sorriu para ela.
-Deliciosa.
Assim, vou acabar engordando e você não vai gostar, minha querida... – Disse,
rindo.
-Não
tem problema. . . gosto de você de qualquer jeito.
Jantaram
em um clima romântico, olhando-se com amor e de tempos em tempos, suas mãos se
buscando e entrelaçando os dedos, numa necessidade de se tocarem, extravasando
o amor que sentiam.
Ao
término da refeição, Carla puxou-a pela mão e Jean entendeu, fitando aqueles
olhos cheios de paixão. Foram para o quarto abraçadas e chegando lá, suas bocas
se buscaram alucinadas e seus corpos se juntaram em um abraço cheio de desejo.
Carla alisava seu rosto, descia para o pescoço, seus ombros, numa impaciência
louca para tê-la nua. Jean ergueu a saia dela com as mãos, explorando as coxas
roliças e macias, apertando-as suavemente. A mão espalmou na frente da
calcinha, apertando, apalpando. Carla ofegou e beijou-a pelo rosto todo,
murmurando excitada:
-Jean.
. . Jean. . . quero-a tanto. . . desejo-a com loucura. . .
-Carla.
. . você me deixa louca. . . – Ofegou Jean, sentindo o desejo dominá-la.
Um
toque de campainha as sobressaltou.
Elas
se afastaram e Jean pegou sua arma sobre a cômoda, alerta. Carla a fitou
vermelha e ofegante.
-Espera
alguém, Jean ?
Jean
respirou fundo, para normalizar sua respiração.
-Não.
Somente Spader sabe que estou aqui. Olhe, ali na primeira gaveta da cômoda está
sua arma. Fique aqui e só interfira se achar que preciso de ajuda.
Carla
assentiu, com olhar amedrontado.
Jean
saiu do quarto e encostou a porta, deixando uma abertura para Carla poder
ouvir. Com sua pistola na mão, dirigiu-se para o lado da porta da sala e parou,
expectante. A campainha tornou a tocar.
-Quem
é? – Perguntou, em voz alta.
-Spader.
Pode abrir, Jean.
Jean
reconheceu a voz dele, mas ainda assim, olhou pelo olho mágico. Era mesmo
Spader, de capa de chuva, com um sorriso nos lábios.
Abriu
a porta, colocando a arma no cós da calça. Ele entrou, fitando-a com um sorriso
irônico.
-Gostei
de ver. É cautelosa, heim ?
-É
necessário, em nossa profissão – Respondeu, fechando a porta e voltando-se para
ele.
Spader
olhou em volta, com as mãos nos bolsos da capa.
-Está
sozinha, Jean ?
-Sim.
A que devo essa visita inesperada, Spader ? – Sorriu Jean, fitando-o curiosa.
-Você
não ligou. Estou ansioso para ver a foto – Disse, encarando-a.
-Eu
ia ligar, Spader. Acabei de jantar à pouco. Mas, tudo bem. Vou pegar o filme,
que ainda está no isqueiro-máquina. Venha até à sala.
Spader
a seguiu. Jean foi até a uma mesinha com gaveta e abriu-a, pegando o isqueiro.
Estendeu-o para Spader.
-Aqui
está. É um microfilme com três fotos batidas.
Ele
pegou o isqueiro e guardou-o no bolso da capa. Sorriu para ela.
-Muito
bem, tudo certo – Disse ele – Agora, só resta fazer uma coisa.
Jean
o fitou nos olhos. Não gostou do olhar dele. Era um olhar duro e frio. Ele
tirou do bolso da capa uma pistola e apontou para ela.
Jean
olhou para a arma e novamente para ele.
-Para
que essa arma, Spader ? – Perguntou, em voz alta.
Ele
riu, olhando-a com um cinismo que Jean não
conhecia nele.
-Fale
baixo, garota, ou os vizinhos vão ouví-la ! Para que a arma ? Para executá-la,
Jean!
Jean o fitou confusa.
-Não
estou entendendo. . . que brincadeira é essa ?
O
olhar de Spader congelou e ele falou com voz dura:
-Não
é uma brincadeira, Jean. Você foi longe demais, descobriu coisas que não devia.
-Spader,
você queria que eu destruísse Gianini ! Deu-me até meios para isso !
Ele
sorriu friamente.
-Sim,
eu queria que você o destruísse. Sabe por quê ? Porque Gianini já estava
ficando poderoso demais, e um outro homem estava querendo assumir o lugar dele.
Massimo Santera, para quem trabalho. E você fez o trabalho para mim. Eu sabia
que você ia matá-lo, por isso a designei para chefiar o grupo que cuidaria
dele. Você o caçaria sem tréguas ou piedade, porque tinha o sentimento da
vingança para impulsioná-la.
Jean
o fitou decepcionada. Seu modelo de honestidade era um embuste ! Um canalha
pior que Gianini, porque traía a lei que jurara defender.
Ele
prosseguiu, com um sorriso cínico:
-Eu
estava satisfeito com o seu trabalho, Jean. Mas você foi longe demais, como seu
pai.
Ela
o fitou nos olhos, sem entender.
-O
que meu pai tem a ver com isso tudo ?
-Simples,
Jean. Ele também descobriu coisas que não devia. Descobriu a ligação do juiz
Weckman e do inspetor Cleave com Gianini. Descobriu a minha ligação com eles e
Massimo Santera. Não tive alternativa, senão entregá-lo aos homens de Gianini.
Jean
entendeu tudo. O jogo duplo de Spader. Era mais um policial corrupto, que se
vendia por dinheiro. E ele havia entregado seu pai a Gianini ! Era revoltante,
nojento !
-Seu
miserável ! – Disse, entredentes – Você traiu meu pai ! Seu colega de
profissão, seu amigo de anos !
Ele
sorriu, imperturbável.
-Era
eu ou ele, garota esperta. Seu pai ia denunciar-me. Ele me viu com Massimo
Santera. Tive de calar a boca do metido a honesto. E vou calar a sua. Weckman
vai agradecer-me muito. E Norman Cleave vai dar-me uma boa compensação.
-Por que, Spader ? Por que meteu-se com o crime organizado, você, que teve um irmão assassinado por eles ? Que se mostrava o mais obstinado combatente ao crime ?
-Boa
pergunta, Jean. A morte de meu irmão
mostrou-me que eu estava errado. Morrer para defender uma causa perdida ! Não
quis repetir o erro dele. Conhece
um ditado que diz:
“Se não pode derrotar seus
inimigos, junte-se à eles” ? Eu fiz isso e me dei bem. Agora
tenho dinheiro em um banco na Suíça, com a qual viverei tranqüilo o
resto dos meus dias.
Jean o fitou enojada.
-Sua
consciência vai deixá-lo viver tranqüilo ? Com um dinheiro que ganhou à custa
da traição e da morte de seu amigo ?
-Claro
que vou ! O mundo é dos espertos, Jean. – Disse , rindo.
Os
olhos de Jean brilharam de ódio.
-Tenho
nojo de gente como você, Spader ! Você é pior que Gianini e todos os mafiosos
juntos ! Um traidor, dissimulado por trás de um cargo respeitado !
Ele
parou de rir e a fitou com raiva.
-Chega
de conversa ! Pode se considerar morta,
sua intrometida ! Deite-se no chão !
-O
que vai fazer ?
Ele
sorriu friamente, fitando-a com crueldade.
-Simples.
Vou fazer sua morte parecer um crime de estupro, seguido de assassinato. E vai
ser muito bom estuprar você, boneca. Sempre a achei muito gostosa.
Jean
rezava para Carla estar ouvindo tudo e salvá-la. Era sua única chance. Do
contrário, ele a mataria.
-Jogue
sua arma fora e deite no chão ! Ande !
Jean
tirou a arma do cós da calça e jogou no chão, obedecendo. Conhecia Spader muito
bem, para tentar alguma coisa.
-Deite
! Não me faça perder a calma, Jean !
Jean
escorregou para o chão, tensa, pensando o que poderia fazer para escapar.
Spader
curvou-se para ela. Com a mão livre, deu um puxão em sua calça, descendo-a até
os joelhos, com a arma encostada em seu
peito. Jean ficou imóvel. Qualquer reação, naquele momento, poderia fazer a
arma disparar.
Ele,
com outro puxão, rasgou sua calcinha e olhou alucinado para seu púbis, passando
a língua pelos lábios secos. Ele montou sobre ela, prendendo seu corpo. Com a
mão esquerda, desajeitadamente desafivelou o cinto e abriu a calça.
O
que Carla estava esperando? Pensou Jean, desesperada.
Ele
colocou o sexo para fora, com um grunhido de satisfação. Deitou sobre ela e
Jean sentiu, apavorada, o membro tentando penetrá-la.
-Seu
sujo ! Largue-a !
Spader
voltou-se assustado, ao ouvir o grito em suas costas. Jean viu que a arma dele
momentâneamente se deslocou para o lado, saindo de seu peito. Empurrou Spader
para trás com as mãos, com toda a força que possuía. Ele caiu de costas,
gritando de raiva, a arma disparando para o teto. Tentou erguer-se novamente,
ao mesmo tempo que dois tiros se fizeram ouvir.
Jean
ergueu-se de um pulo, olhando para Carla.
Ela
tremia , com a pistola na mão, olhando para Spader com os olhos arregalados.
Jean
olhou para Spader. Ele estava caído de costas, com as pernas dobradas, com
expressão de surpresa no rosto. Os tiros haviam atingido suas costas.
Carla
pousou a arma sobre a mesa. Estava pálida e apavorada com o que fizera. Jean
correu e abraçou-a. Ela tremia.
-Está
tudo bem, Carla. . . acabou. O perigo passou – Disse suavemente, tentando
acalmá-la.
Ela
a fitou com os lábios trêmulos.
-Eu
tive que matá-lo, Jean ! Ele ia estuprá-la !
-Eu
sei. E , por Deus, como demorou a intervir !
-Eu
demorei porque estava gravando toda a conversa, Jean. Quando você perguntou em
voz alta para que era a arma, eu tive a idéia de usar um gravador que já havia
notado no quarto. Liguei-o com o microfone, pois percebi que ele ia dizer
coisas importantes e você poderia usar essa prova contra ele.
Jean
a fitou com um sorriso divertido.
-E
enquanto você brincava de espiã, eu sofria nas mãos dele ! Carla, pensei que
não fosse intervir à tempo !
-Desculpe-me,
amor. Mas eu pensei que seria bom você poder ter uma prova contra ele. Acho que
exagerei, não é ? – Perguntou, fitando-a insegura.
Jean
suspirou, sacudindo a cabeça.
-Agradeço
sua iniciativa, querida. Mas não vai adiantar. Como já viu, há muita corrupção
e gente importante metida com a máfia. Se eu denunciá-lo, isso será apenas a
ponta do iceberg, e os restantes vão reagir. E como Spader, vai ter outro
tentando calar minha boca. E será isso mesmo que desejo, viver a vida fugindo
de inimigos ocultos, com medo de todas as pessoas que nos cercarem ? Carla,
estou enojada da polícia, da máfia, de toda essa podridão que nos cerca. Spader
fêz-me ficar desiludida com a profissão que exerço. Sei que ainda há muitos
policiais honestos, que arriscam suas vidas para combater o crime. Mas, quem
são realmente eles ? Estou cansada de ver tanta traição e sujeira, Carla. Perdi
minha motivação para continuar na polícia. Estou decepcionada, desiludida com a
lei. Vou sair da polícia e tentar a profissão de detetive particular. Estou
cheia dessa sujeira toda !
Carla
ouviu o desabafo dela emocionada. Era o que mais desejava. Porém, ponderou:
-E
vai deixar o juiz Weckman e o inspetor Cleave impunes ? Isso não vai
incomodá-la ?
Jean
a fitou. A idéia veio clara à sua mente.
-Eu
sei como agir. Vou remeter as fotos para o FBI. Eles cuidarão do caso, sem a
minha interferência. Remeterei anonimamente, sem identificação, apenas
explicando o caso.
Olhou
para o corpo de Spader.
-Agora
, vamos nos desfazer do corpo desse patife. Não posso dizer à polícia que o
matei, sem explicar o ato. E não posso falar nada, ou mexeria com a estória
toda.
Carla corrigiu:
-Fui
eu quem o matou, Jean. Não você.
-Sim,
mas para salvar-me – esclareceu, olhando-a ternamente – Mais uma vez, salvou
minha vida, Carla. E estamos nisso juntas.
Carla
a abraçou, pousando sua cabeça em seu ombro.
-Eu
faria tudo por você, Jean. Você é a coisa mais importante de minha vida.
Jean
beijou-a nos cabelos e afastou-a delicadamente.
-Vamos
fazer logo esse serviço, Carla. Depois, iremos embora daqui.
Jean
apanhou dois sacos de lixo grandes e os emendou, depois de colocar o corpo de
Spader dentro, ajudada por Carla. Limpou as manchas de sangue do tapete com uma
escova e vinagre. Recolheu a arma de Spader com uma luva e a jogou dentro do
saco. Olhou para Carla, que a observava com o rosto tenso.
-Vou
colocar o carro nos fundos do prédio. Levaremos ele por lá – Anunciou – Espere
aqui.
Saiu
e olhou em volta. O corredor estava deserto. Já era mais de oito da noite e as
pessoas estavam dentro de suas casas, jantando, vendo tv, ou outra atividade
caseira, naquela noite de chuva torrencial.
Desceu
as escadas silenciosamente e abriu a porta da entrada do prédio. Chovia muito e
a rua estava deserta. Ótimo. Correu para o carro e entrou nele, dando partida.
Rodeou o quarteirão e parou na rua que passava nos fundos do prédio.
Voltou
ao apartamento, procurando não fazer nenhum ruído que chamava a atenção dos
vizinhos. Felizmente, o apartamento ao lado do seu estava com a tv alta demais,
em um filme policial. O tiroteio do filme devia ter-se confundido com os tiros
que Carla dera em Spader.
Carla
a aguardava trêmula de medo.
-Jean,
foi horrível ficar sozinha com um cadáver ! – Sussurrou, nervosa.
-Tenha
coragem, Carla. Vamos. Pegue-o pelas pernas e eu pegarei pelos braços.
Abriram
as portas e saíram arrastando o corpo, procurando fazer pouco barulho. Alcançaram
as escadas dos fundos e foram descendo, tensas e cansadas pelo esforço. A tv do
seu vizinho fazia um barulho infernal, e Jean admirou-se de os outros vizinhos
não reclamarem. Mas adorou a ajuda involuntária. Conseguiu chegar ao andar
térreo e Jean abriu a porta dos fundos e puxou o corpo pelas pernas, agora
deixando o tronco e a cabeça se arrastarem no chão. Carla correu na frente e
abriu o porta-malas. Ajudou-a a empurrar o corpo pra dentro do carro, sob a
chuva intensa. Fechou o porta-malas e seguiu Jean, que correu e entrou no
carro. Carla sentou ao lado dela, ofegante pelo esforço e nervosa.
Jean
deu partida e saiu em baixa velocidade. Não queria chamar atenção ou derrapar
no asfalto molhado. Dirigiu-se para a zona portuária.
-Acenda
um cigarro para mim – Pediu Jean à Carla.
Ela
acendeu dois cigarros e colocou um em seus lábios.
Jean
a olhou. Carla estava fumando nervosamente, com olhar sombrio. Pobre Carla !
Desde que a conhecera, havia passado momentos cheios de perigo e tensão. E agora,
a morte de Spader e o sumiço no corpo.
Era para arrasar os nervos de qualquer pessoa normal ! Ela devia amá-la muito,
para participar assim de seus atos.
Apertou
a mão dela, num gesto de carinho e confiança. Carla a fitou, sorrindo sem muita
vontade. Estava tensa.
-Onde
vai deixá-lo ? – Perguntou, com voz tensa.
-Perto
do cais, como deixou meu pai.
Percorreu
mais uma milha, até Jean parar em um local escuro, perto do cais. Jean abriu o
porta-malas, empurrou o corpo pela murada e ele caiu na água com um baque
surdo, afundando nas águas escuras.
Jean
pegou Carla pela mão, que olhava para as águas estática, com a chuva fustigando
seu rosto.
-Vamos
, querida.
Foram
dormir em um motel. Carla não queria voltar ao apartamento e Jean entendeu. Tomaram
um baho quente e se meteram entre as cobertas. Carla aconchegou-se contra ela,
tremendo.
-Oh,
Jean, não agüento mais presenciar mortes ! Estou no limite de minha coragem e
calma ! Mais uma morte, e terei um sério ataque de nervos !
Jean
a abraçou carinhosamente.
-Eu
também, Carla. Chega de mortes, de traição e perigo ! Agora quero viver em paz,
com você e fazê-la feliz.
Carla
começou a soluçar, agarrada à ela, e Jean a fitou preocupada.
-O
que há, Carla ? Por que está chorando ?
Ela
ergueu os olhos azuis cheios de lágrimas e as fitou com um sorriso.
-Ah,
querida ! São tantos os motivos ! Choro por esses dias difíceis que passamos,
pela tensão acumulada , mas também de alívio, por saber que agora iremos viver
a nossa vida longe disso tudo !
Jean
sorriu, beijando-a na testa.
-Então
, chore à vontade. Eu sei como deve estar se sentindo. Presenciar tantas
mortes, e ainda ter que matar um homem, para salvar-me, deve ter deixado seus
nervos à flor da pele.Por que não toma um banho quente para relaxar?
Carla
a fitou com certa malícia, parando de chorar.
-Prefiro
acalmar-me de uma forma mais agradável. . .
Jean
fitou-a nos olhos e leu neles as intenções ocultas daquelas palavras e sorriu,
apertando-a nos braços.
-Jean.
. . faça-me esquecer tudo isso. . .
Seus
lábios se uniram em um beijo ardente. E Jean fez Carla esquecer as coisas ruins
que a deixaram nervosa e deprimida. Depois, adormeceram satisfeitas e
tranqüilas. O pesadelo havia terminado.
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As notícias nos jornais sacudiram Chicago:
AUTORIDADES
DE CHICAGO LIGADAS À MÁFIA !
JUIZ
E INSPETOR DE POLÍCIA LIGADOS AO CRIME ORGANIZADO!
CHEFE
DE POLÍCIA ENCONTRADO MORTO!
FBI
DESCOBRE LIGAÇÃO DE AUTORIDADES COM A MÁFIA!
Jean
empurrou os jornais para o lado, preguiçosamente. O sol quente da Califórnia a
deixava bronzeada. Os seus olhos claros pareciam brilhar ainda mais no rosto
bronzeado pela sua frequência na piscina da casa de Carla.
Olhou
para o lado. Carla também estava bastante queimada, mas sua cor estava com um
dourado maravilhoso. O corpo escultural, sem uma imperfeição, naquele biquini
branco, estava apetitoso. Deitada numa
“chaise longue” à beira da piscina, cochilava protegendo os olhos com óculos
escuros, numa pose relaxada. Como era linda, pensou, sorrindo.
Não
resistiu e entendeu a mão, alisando a coxa dela. Carla abriu os olhos e sorriu.
-Já
acabou de ler esses jornais ? Ótimo. . . vamos dar um mergulho.
-A
água deve estar fria, querida. . . – Disse Jean, percorrendo o corpo dela com
os olhos.
-Preguiçosa.
. . vamos. . . a água vai tirar essa moleza de seu corpo. . . ler nesse sol dá
sono.
-Já
acabei. Só li o que me interessava. As coisas estão acontecendo como previ. O juiz
Weckman e o inspetor Cleave estão perdidos. Já estão destituídos dos seus
cargos e estão respondendo a processos. Vão acabar na cadeia. O FBI descobriu
muita coisa que os comprometem.
-Que
se danem ! Vamos esquecer esses patifes e viver nossa vida, amor.
Jean
riu e apertou a mão que ela lhe estendeu.
-Tem
razão, meu anjo. Preciso aproveitar essas férias, porque depois vou começar a
trabalhar na sua academia.
-Sua
academia, querida. Você quem vai tocà-la. Não entendo nada de artes marciais.
-Está
bem, nossa academia. Afinal, você quem a comprou.
-Comprei
para você. Sei que terá uma atividade que gosta.
Jean
pegou a mão dela e a beijou, fitado-a apaixonada.
-Devo
tanto à você, meu anjo. Você deu um novo sentido à minha vida.
Ela
riu, sentando-se na chaise longue. Puxou-a pela mão, obrigando Jean a ficar de
pé.
-Você
sabe como mostrar essa gratidão, meu amor.
Jean
riu e a abraçou.
-Claro
que sei ! E você está tentadora com esse biquini. Que tal deixar o mergulho
para depois e deixar que eu mostre o quanto a amo ?
Ela
a fitou com malícia.
-Outra
vez ? Você vai acabar comigo, sua gulosa. . .
Jean
a olhou nos olhos.
-Não
quer ? Tudo bem. Vamos deixar para a noite. . .
Carla
riu, uma risada sensual e feliz.
-Não
, eu quero testar sua resistência. . . venha. . . sabe que não resisto à um
convite desses. . .
Carla
a abraçou pela cintura e foram caminhando para o interior da casa, sentindo a
felicidade de estarem juntas, longe de tudo que as afligia. Vendera todas as
casas de Gianini e comprara aquela casa, com quadra de esportes, piscina e uma
linda vista para a praia. A vida delas agora trasncorria tranqüila, só
desfrutando o amor que as unia.
Jean
sabia que a corrupção não havia acabado com sua denúncia. A Máfia tinha
tentáculos longos e variados. Extirpara apenas um deles. Mas isso era o
suficiente, para ela. Cumprira sua parte. Outras pessoas que continuassem a
luta. Agora só queria viver e ser feliz com a mulher que amava.
Apertou
Carla contra si e entraram na casa.
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