Um Sonho Perfeito

Deya 

 [email protected]

 

Disclaimer: Voc�s v�o notar que sou meio apaixonada com personagens e localidades europ�ias. Amo cafeterias, arte, escrever, desenhar; cappuccino e um bom vinho s�o outras de minhas paix�es!

Por�m, algumas cidades e lugares observados nessa fanfiction s�o fict�cios, como a pequena cidade de Lars e as universidades mencionadas. Outras cidades, pa�ses e localidades s�o de dom�nio p�blico.

Se voc� for menor de idade ou onde voc� mora n�o � permitido esse tipo de leitura, sugiro que pare por aqui; a autora, nem a dona do site assumem nenhum tipo de responsabilidade pelo n�o cumprimento desse alerta.

 

Izabelle e Sophie s�o duas mulheres bem sucedidas que v�o colocar seu amor � prova numa est�ria muito rom�ntica e gostosa de se ler! Divirtam-se e sonhem junto com elas!

Deya

 

Conhecer Izabelle se tornou um dos acontecimentos mais marcantes na vida de Sophie. Tudo come�ou em meados de 1998.

Sophie cursava a Faculdade de Medicina em Bonn, na Alemanha e estava terminando a resid�ncia quando seus pais morreram num tr�gico acidente de carro. Ela teve que reconhecer os corpos no IML; foi uma experi�ncia extremamente traum�tica e ela decidiu que terminaria o curso de medicina, mas n�o exerceria a profiss�o.

Quando se formou, pegou suas economias, o dinheiro que lhe foi deixado de heran�a ap�s a morte dos pais, algumas roupas e objetos pessoais e mudou-se para Lars, uma cidadezinha no norte da B�lgica. Como n�o tinha mais nenhum parente com que se preocupar n�o teve d�vidas em estabelecer uma vida nova na pequena cidade. Construiu uma cafeteria e uma pequena casa nos fundos; o que ganhava era suficiente para pagar suas contas e o que havia sobrado de tudo que havia levado serviria para levar uma vida sem apertos.

Um ano depois de se mudar para Lars, Sophie foi convidada por alguns amigos que faziam p�s-doutorado a acompanh�-los numa viagem para conhecer outros alunos da Faculdade de Medicina de Londres. Mesmo n�o agradando muito da id�ia, ela foi. Assistiu algumas palestras, conheceu muita gente, mas nada de diferente do que estava acostumada. O fato de ser gay a deixava um pouco desconfort�vel em ocasi�es onde havia um grande n�mero de "heteros caretas"; ela achava que encontrar algu�m interessante no meio de um bando de rec�m formados seria imposs�vel. No �ltimo dia, por�m, todos foram convidados pelos alunos de outra faculdade para uma festa num pub. Sophie n�o queria ir, mas foi convencida por seus amigos, mais uma vez, mesmo achando que seria uma grande perda de tempo.

Quando entrou no tal pub, deu de cara com a mulher mais linda que j� tinha visto em sua vida. Seus olhos se prenderam nos dela e s� parou de olhar quando algu�m a puxou para junto dos outros. Sophie ainda olhou para tr�s para certificar-se que n�o era miragem. "O que uma mulher t�o linda estava fazendo ali sozinha?", pensou Sophie. A verdade � que n�o sabia se ela estava realmente sozinha, mas desejou que estivesse.

Procurou saber com algu�m de quem se tratava a figura hipnotizante que roubaria sua aten��o o resto da noite. Descobriu que era Izabelle Lacciezzi, irm� de R�mulo Lacciezzi, um dos anfitri�es da festa, e estava ali apenas visitando o irm�o. Ela morava em Roma e havia conclu�do o curso de Psicologia na Universidade Roma; incr�vel como Sophie sabia ser bem persuasiva e arrancava qualquer informa��o de quem quer que fosse.

Mas n�o tinha como chegar perto daquela beldade; ela estava cercada de homens maravilhosos prontos a lamber o ch�o para ela passar. Izabelle era alta e exageradamente linda. Tinha os olhos de um azul claro que ela nunca havia visto antes e os cabelos eram negros e chegavam at� o meio das costas. Tinha o corpo bem definido, provavelmente, devido a horas intermin�veis de academia. Achou que n�o teria chance e decidiu aproveitar o resto da noite. Acabou bebendo mais do que devia e capotou num sof� nos fundos do pub.

R�mulo pediu que Izabelle levasse "a jovem que havia bebido demais" para onde a turma dela estava hospedada e falou que mais tarde iria at� l� para certificar-se que estava tudo bem.

O fato � que R�mulo n�o parecia estar disposto a abandonar a festa para tomar conta de algu�m que havia passado mal e Izabelle percebeu isso quando ele voltou para junto de seus amigos e eles viraram mais uma rodada cerveja.

- Ok, tontinha; vou levar voc� para o seu hotel e voltar para a festa... Por essa o R�mulo vai me pagar! - resmungou.

Izabelle ouviu Sophie resmungando algo, mas n�o compreendeu uma palavra do que ela dizia. Atravessou o pub com a jovem debru�ada em seu ombro e levou-a at� o carro de seu irm�o.

- Acho que vou... BLAARGH!!

- PUTZ; Olha o que voc� fez!!! Esse carro � do meu irm�o; ele vai me matar... Ei; voc� est� bem?

Sophie n�o respondia; havia apagado.

- Ai, meu Deus...

N�o tinha outra alternativa. Os outros colegas de Sophie estavam t�o b�bados quanto ela e n�o sairiam daquela festa por nada. Izabelle resolveu, ent�o, levar Sophie para o hotel onde estava hospedada; ficaria com ela at� descobrir o telefone de algu�m da turma que estivesse s�brio o bastante para busc�-la.

Ela n�o parecia bem. Talvez a press�o estivesse baixa; tinha um aspecto p�lido e respira��o um pouco irregular.

Izabelle levou a jovem desmaiada para seu quarto no hotel e colocou-a em sua cama. Colocou um pouco de sal debaixo da l�ngua dela e esperou para ver se melhorava. Mas como tomar conta de algu�m se voc� tamb�m est� ruim?

Naquela noite, Izabelle tamb�m havia bebido al�m da conta; n�o tinha costume de beber e ficou um pouco alterada, sonolenta. Deitou-se ao lado de Sophie e ficou olhando para a jovem. O cabelo loiro ca�do atrapalhado no rosto, a pele de apar�ncia macia e o contorno dos l�bios; era perfeita.

Alguns minutos depois, Sophie abriu os olhos para ver onde estava. N�o identificou o lugar, mas ficou feliz ao ver que quem estava ao seu lado era a linda mulher da festa.

As duas se encaram por alguns segundos e Izabelle sorriu.

- Hei, dorminhoca... Se sente melhor?

- N�o sei... Minha cabe�a est� rodando um pouco. E voc�? Parece um pouco...

- ... Chapada? Isso n�o � privil�gio s� seu, minha cara...

Ambas sorriram e continuaram se olhando por algum tempo, at� que adormeceram.

No outro dia, quando Izabelle acordou, havia apenas uma pequena rosa feita com papel de ma�o de cigarros em cima do travesseiro e um bilhete escrito �s pressas junto dela. Deu uma olhada r�pida pelo quarto e viu que sua companhia da noite passada n�o estava mais l�; infelizmente.

"Precisei sair correndo... Espero n�o perder meu v�o...! Acho que fiz feio ontem � noite. De qualquer forma, obrigada por me salvar daquele porre! Minha cabe�a ainda d�i, mas nem tudo � perfeito, n�? Queria ter mais tempo para te conhecer e te agradecer direito. Se vier � B�lgica algum dia, me procure na melhor cafeteria da cidade de Lars.
Mais uma vez, obrigada...
Sophie
Ps: seus olhos s�o lindos!"

Passados alguns meses, Izabelle n�o conseguia tirar nem o convite, nem aqueles olhos verdes da cabe�a e n�o sabia porque; talvez o fato dela sentir atra��o por mulheres tivesse alguma coisa a ver com tudo isso, mas ela n�o havia comentado nada com ningu�m.

Um dia, conversando com uma de suas amigas a respeito do que achava que estava se passando em seu cora��o, chegou � conclus�o de que devia ir at� a B�lgica para rever os olhos que a encararam naquela noite.

Quando chegou na pequena cidade de Lars, n�o precisou procurar muito para achar a cafeteria mais aconchegante e movimentada da cidade e, quando finalmente encontrou, l� estava Sophie atr�s do balc�o atendendo algumas pessoas, sorrindo. Ela chegou at� o balc�o e acenou para um jovem que enxugava algumas x�caras.

- Me fa�a um favor... Entregue isso para aquela jovem. - Izabelle apontou para Sophie e o jovem sorriu, indo em seguida entregar um bilhete escrito enquanto conversavam.

Sophie recebeu o bilhete e leu.

"Sua salvadora merece um cappuccino, certo?"

Ela sorriu ao ler o que estava escrito e olhou em volta; avistou Izabelle. Falou qualquer coisa com o rapaz que entregou o bilhete e foi at� o outro lado do balc�o, onde Izabelle a esperava sorrindo.

- Ora, ora; se n�o � minha salvadora!

- Ainda se lembra de mim, Sophie?

- N�o esque�o um rosto com facilidade... Izabelle Lacciezzi.

- Vejo que me conheceu antes mesmo de eu me apresentar.

- Eu tamb�m tenho minhas habilidades...

As duas se cumprimentaram e sentaram numa mesa no canto; tomaram alguns cappuccinos e conversaram durante muito tempo, lembrando e rindo do que aconteceu no passado.

- Se eu estiver te atrapalhando...

- O que � isso; parece que voc� sempre chega na hora certa.

- Humm... E isso quer dizer...?

- Achei que n�o a veria nunca mais...

- Queria me ver de novo?

- Pode apostar. Humm...Posso te fazer um convite?

Izabelle apenas olhou para a jovem � sua frente.

- Aceitaria jantar comigo?

- E isso seria um... Encontro?

- Depende de voc�...

Izabelle tomou o �ltimo gole do caf� e sorriu.

- Na minha casa... Ou na sua?

As duas riram.

- Dadas �s circunst�ncias, acho que pode ser na minha. Moro aqui atr�s da cafeteria, na casa de cerquinha branca - Sophie consultou o rel�gio; 19:40 - Nove e meia est� bom?

- Estarei l�.

Izabelle se despediu e saiu da cafeteria.

Sophie observou at� que ela sa�sse e recostou-se na cadeira. O rapaz que havia atendido Izabelle veio at� a mesa onde elas estavam sentadas e olhou para Sophie; ela sorria.

- � ela, n�o �?

- Sim...

- Ela � linda, Sophie; exatamente como voc� falou.

Sophie levantou-se e deu um tapinha nas costas do seu ajudante. Teria que ir para casa mais cedo e deixar tudo nas m�os dele; tinha um jantar importante para preparar.


Nove e vinte a campainha tocou. Sophie acabava de conferir se o assado que estava no forno n�o havia queimado e foi abrir a porta. Izabelle estava simplesmente linda.

- Oi...

- Oi...

As duas ficaram um pouco sem gra�a; pareciam adolescentes no primeiro encontro.

- Acho que agora � a parte em que voc� me convida para entrar... N�o �?

- �; acho que sim.

Izabelle entrou na pequena sala e olhou a sua volta. A casa era extremamente aconchegante e iluminada com pequenos candelabros dispostos estrategicamente.

- Adorei sua casa... Onde posso por meu casaco?

- Pode deixar que eu guardo para voc�. - falou Sophie retirando o casaco deliccadamente - Quer que guarde sua bolsa tamb�m?

- Ah, n�o � minha bolsa; � uma garrafa de vinho branco que tomei a liberdade de comprar para a gente. Fiz mal?

- De jeito nenhum! Vamos coloc�-la no gelo. O jantar est� quase pronto; n�o sou muito boa na cozinha, mas acho que voc� vai gostar...

- A julgar pelo cheiro maravilhoso, aposto que sim! � prop�sito... Voc� est� linda.

- Voc� tamb�m... Humm... Venha, sente-se aqui; vamos beber seu vinho enquanto fica pronto.

As duas sentaram na pequena sala e abriram a garrafa de vinho. Izabelle bebia e olhava para Sophie; queria deixar bem claro que alguma coisa aconteceria ali, naquela noite.


Depois do jantar, sentaram-se novamente na sala para tomar um ch�.

- Estava delicioso, Sophie.

- Humm... Voc� s� me elogiou at� agora; assim vou ficar mal acostumada.

- Perd�o; a sinceridade � um de meus defeitos.

- Defeito? Mas isso n�o � um defeito; pelo contr�rio, uma qualidade que poucos possuem. Por que acha que � um defeito?

- Porque tenho o impulso de falar tudo que penso...

- E... Posso saber o que voc� est� pensando agora?

- Se te disser talvez voc� se assuste...

- Nah, pode falar!

Izabelle levantou, afastou um candelabro que obstru�a sua passagem e, apoiando as m�os na mesa, alcan�ou os l�bios de Sophie num suave beijo. Enquanto se sentava, Sophie ficou olhando aquela figura maravilhosa que acabara de beij�-la.

- Era isso que voc� queria falar? - perguntou.

- Humm... Basicamente.

Sophie sorriu e levantou-se em dire��o a Izabelle apoiando uma das m�os na mesa. Segurou o rosto dela com a outra m�o e beijou-a suavemente. Sentiu o um calor gostoso percorrer seu corpo. Voltou ao seu lugar � mesa e ficou olhando Izabelle sorrindo � sua frente.

- O que voc� fez comigo? - perguntou Sophie.

- Beijei voc�.

- N�o; eu sei, n�o � disso que estou falando... Desde aquele dia n�o consigo parar de pensar em voc� e agora... Isso?

- N�o gostou?

- Claro que gostei; sonhei com isso! Mas o que significa?

Izabelle levantou-se novamente e dessa vez sentou-se do lado de Sophie, segurando sua m�o delicadamente.

- N�o sei o que significa, Sophie; acho... Acho que sinto algo por voc� e simplesmente n�o pude esquecer daquele dia; seus olhos e seu sorriso n�o saiam da minha cabe�a. Tinha que ter certeza de que n�o era loucura.

- E o que voc� est� sentindo... Agora?

- Quero te conhecer melhor; me apaixonei por voc�, pelo seu sorriso, pela sua ingenuidade, mas n�o te conhe�o direito! Preciso e quero conhecer voc�... Se voc� quiser me conhecer tamb�m.

Sophie olhou para aquela mulher � sua frente e perguntou se seria loucura arriscar um relacionamento com uma estranha... "Foda-se!", pensou.

- Claro que quero! Mas voc� mora t�o longe... Como vamos fazer?

- Vou arrumar um lugar para dormir, um emprego; sei que parece loucura, mas n�o tem nada que me prende l� em Roma. Posso dar aulas...

- Se voc� acha que consegue mudar para c�, posso te ajudar. Tenho um quarto de h�spedes e voc� pode ficar...

- Hei; vamos com calma, ok. J� estou dando um passo bem grande; n�o quero invadir sua vida de uma vez.

As duas concordaram que seria melhor Izabelle alugar um apartamento no centro para ambas terem seu espa�o e sua privacidade.

Em menos de dois meses, Izabelle se mudou para Lars e conseguiu um emprego numa escola como professora e numa livraria como pesquisadora. Ia � cafeteria de Sophie todas as quartas, sextas e finais de semana, ou quando n�o tinha muitos trabalhos para corrigir e avaliar.

Passados mais alguns meses de conviv�ncia, as duas acharam que j� se conheciam o suficiente e o namoro havia ficado s�rio.

No come�o, o povo da cidade estranhou um pouco; duas mulheres t�o lindas, sozinhas, sem namorados. Logo compreenderam o que se passava e tudo ficou mais claro ainda quando Izabelle se mudou para casa de Sophie no inverno do ano 2000.

As duas se entendiam perfeitamente bem; sentiam quando algo estava errado e sabiam o que gostavam ou n�o. Era uma parceria perfeita, uma cumplicidade.

Izabelle deixou o trabalho na biblioteca, ficando apenas com as aulas na escola; queria ajudar Sophie na cafeteria.

Em fevereiro de 2001, fizeram uma viagem para a Gr�cia e se casaram na ilha de Mikonos numa cerim�nia simples, por�m, maravilhosa. Foi perfeito.

Quando voltaram para Lars, Sophie decidiu que ajudaria alguns amigos m�dicos em suas palestras em faculdades e escolas p�blicas. Ela cuidaria da parte de medicina preventiva; assim poderia rever um pouco do que havia estudado sem ter que voltar totalmente � ativa.


Choveu como h� muito tempo n�o se via naquela regi�o. Nuvens grossas ainda impediam os raios de sol de chegarem at� a superf�cie e em todo o lugar havia possas enormes que pareciam prontas a engolir quem tentasse atravess�-las. Um vento frio n�o parava de soprar e a temperatura caiu muito; era inverno e fazia cinco graus negativos.

Sophie ajeitou-se na cama e notou que o lugar ao seu lado estava vazio. Olhou no rel�gio; seis da manh�. Resmungou baixinho que n�o podia ser normal uma pessoa sair de debaixo das cobertas naquele frio e �quela hora da manh�.

Lutando contra a pregui�a de sair daquele ninho - era como ela chamava sua cama - ergueu os olhos e viu Izabelle na janela enrolada em um edredon com uma x�cara fumegante entre as m�os.

- Belle; algum problema?

A linda mulher de olhos azuis olhou para a cama e viu sua pequena amante deitada, olhando-a ternamente e com um sorriso maravilhoso de quem acabava de acordar. O cabelo loiro cortado curto ca�a-lhe nos olhos deixando sua cara de sono ainda mais linda.

- Creio que n�o; por que?

- Ent�o... Pelos Deuses; o que est� fazendo a� nesse frio sozinha?

- Nada... - Izabelle fez uma breve pausa para tomar um pouco do l�quido quente dentro da x�cara - Pensando... Quer um pouco de chocolate? Fiz agora a pouco.

Sophie sentou-se na cama ainda enrolada nas cobertas e olhou preocupada para Izabelle.

- A quanto tempo est� acordada, meu amor?

- ...

- Vem, senta aqui...

Izabelle foi at� a cama e sentou-se perto de Sophie.

- Est� pensando na minha viagem para Frankfurt amanh�, n�o �?

- �... N�o sei se � uma boa id�ia voc� ir sozinha para t�o longe dirigindo. Fico angustiada s� de pensar...

Sophie puxou Izabelle para mais perto, beijou-a e abra�ou-a forte. Os l�bios dela estavam quentes e doces por causa do chocolate e seus olhos, muito vermelhos.

- Voc� estava chorado!

- N�o... S� n�o dormi direito. Tive outro daqueles pesadelos terr�veis. Voc� sofreu um acidente e...

- Shhh... P�ra com isso; foi s� um sonho bobo. Estou aqui, estou bem, e vou ficar bem; acredite... Se te deixa mais tranq�ila, ent�o venha comigo; voc� fica no hotel enquanto eu fa�o minhas palestras e depois, quando tudo acabar, podemos dar umas voltas pela cidade. O que acha?

- S�rio? N�o vou te atrapalhar?

- Voc� nunca me atrapalha, meu amor!

Izabelle abra�ou sua amante e, deixando a x�cara em cima do criado, deitou-se novamente e enroscou-se nela como um cachecol. Os corpos nus aqueciam-se mutuamente e n�o demorou muito para elas dormirem novamente.


Algumas horas mais tarde, as duas tomaram caf� e arrumaram as malas. Sophie queria deixar tudo pronto para sa�rem cedo no dia seguinte; assim chegariam a Frankfurt antes de escurecer e ela poderia arrumar suas coisas com calma.

Queria repassar mentalmente o que discutiria com os alunos da faculdade para que n�o se perdesse em suas pr�prias palavras; essas seriam suas �ltimas palestras do ano.

- Ser� que Mendel vai ficar numa boa sozinho?

- Querida; eu fico aqui se...

- N�o, agora quero que voc� v�! Ele sabe se virar sozinho; e s�o s� tr�s dias. Quero voc� bem pertinho de mim o tempo todo!

- Vou estar; sempre.

As duas se beijaram e foram para a cafeteria.

Mendel, o jovem ajudante de Sophie, j� servia v�rios clientes quando as duas entraram.

- Bom dia, Mendy; como est�o as coisas hoje?

- Tudo tranq�ilo. Hei; voc� viaja amanh�, certo? Por que n�o est�o em casa arrumando suas coisas, ou descansando; � uma longa viagem.

- Eu sei; � que n�o queria deixar voc� com o servi�o todo...

- Ora, por favor, Sophie! V�o as duas para casa que eu cuido de tudo at� voc�s voltarem. Est� tudo bem; n�o se preocupem... E boa vigem!

Sophie sorriu para o jovem e Izabelle a puxou pelo bra�o.

- Acho que isso soou como uma ordem para voc�, certo?

- �; acho melhor voltarmos para casa mesmo... Quero conferir se peguei todas as minhas anota��es e dar uma lida em tudo de novo.

- Podemos fazer outras coisas tamb�m...

Ambas sorriram e voltaram para casa.


As cinco da tarde Sophie estava deitada na cama ao lado de Izabelle, que dormia tranq�ilamente; haviam feito amor e depois adormeceram juntas. Quando Sophie acordou, achou melhor deixar sua amante dormindo mais um pouco e foi estudar suas anota��es pela mil�sima vez.

Algum tempo depois, ouviu Izabelle murmurando alguma coisa; parecia estar tendo outro pesadelo. Seu corpo tremia e o suor escorria pelo seu rosto.

Sophie colocou suas anota��es de lado e abra�ou Izabelle carinhosamente, acordando-a devagar.

- Meu amor... Acorde; � apenas um sonho.

Izabelle acordou assustada. Olhou para Sophie ao seu lado e a abra�ou forte, agora deixando as l�grimas escorrerem por seu rosto.

- O que ouve? Outro pesadelo?

- Huhum... N�o quero que v� de carro; vamos de avi�o. S�o quatro horas de viagem e a estrada n�o est� l� essas coisas.

- Calma, meu amor; vai ficar tudo bem. Amanh� sairemos cedo e vamos bem devagar, curtindo a paisagem. Tudo bem...?

Izabelle parecia n�o gostar de id�ia, mas acabou concordando com Sophie, que parecia t�o animada com as palestras.
Viajaram quatro horas at� chegarem a Frankfurt. A estrada estava bem calma e o c�u permaneceu limpo o tempo todo.

Chegaram ao hotel onde ficariam hospedadas e ajeitaram suas coisas.

- Viu, meu amor; s�s e salvas!

- �... Vem c� me dar um beijo, vem...!

As duas se envolveram num caloroso beijo e, quando parecia que ia esquentar ainda mais, o telefone tocou.

- Voc� tem mesmo que atender?

- Izabelle...! Voc� sabe que pode ser importante...

- Sei, sei... Mas justo agora...

Sophie deu mais um beijo em Izabelle e atendeu ao telefone.

- Sim...?

- Senhorita Sophie; a organiza��o pediu para comunicar-lhe que ser� servido um jantar �s dezenove horas aos palestrantes convidados. Sua presen�a � indispens�vel.

- Certo; estarei l�.

Desligando o telefone ela deitou-se na cama ao lado de Izabelle.

- Um jantar... Que saco; detesto esses jantares formais...

- O que � isso, meu amor; vai ser legal. Imagine a cara de todos aqueles m�dicos quando voc� entrar linda, maravilhosa no restaurante.

- Voc� n�o vai?

- Vou? N�o sei se seria uma boa id�ia... O fato de estarmos juntas pode atrapalhar sua carreira

- Belle; n�s n�o estamos juntas. N�s somos casadas! As pessoas t�m que aceitar a minha vida do jeito que ela �... E se voc� n�o for eu n�o vou!

- Chantagem... Ok, voc� venceu.

As duas se beijaram novamente e se enroscaram na cama; tinham algum tempo at� o jantar.


Sophie e Izabelle escolheram vestidos de mesma cor, por�m, cada qual com sua peculiaridade. Sophie preferia algo mais ousado, um decote mostrando o contorno perfeito dos seios sem ser vulgar; j� Izabelle escolheu um vestido menos chamativo; era justo e mostrava todas as suas insinuantes curvas. Os cabelos estavam presos num charmoso coque e a maquiagem era leve. Ambas estavam de salto, mas Izabelle era visivelmente maior que Sophie. De cima dos seus 1.78 de altura ela p�de ver que, quando entraram no restaurante, elas viraram motivo de discuss�o em v�rias mesas.

Seguiram para a mesa que estava reservada. Dois m�dicos j� ocupavam seus lugares � mesma mesa. Sophie reconheceu um deles e Izabelle percebeu que sua amada n�o gostou de ver aquela pessoa ali.

- Ora, ora; se n�o � nossa famosa doutora Sophie Donkervoort.

- Oi Claudia... O que faz por aqui?

- Sou convidada, assim como voc�; vou falar sobre gravidez. E voc�; resolveu voltar a trabalhar na sua �rea e largar aquela cafeteria?

- N�o; apenas vim atender ao pedido de velhos amigos e fazer algumas palestras; depois vou voltar para "aquela" cafeteria.

Izabelle apenas observava; por que Sophie nunca havia falado daquela mulher? Preferiu n�o interferir... Ainda.

- Onde est�o seus modos, querida - falou Claudia olhando para Izabelle -- N�o apresenta sua amiga?

- Izabelle; essa � a doutora Claudia Couto. Claudia; essa � Izabelle Lacciezzi... Minha esposa.

O m�dico ao lado de Claudia engasgou com o vinho que tomava e desculpou-se, sorrindo em seguida para as duas. Claudia sorriu ironicamente para Sophie.

- Hum... Ent�o resolveu, como eles dizem mesmo? - ela fez cara de quem se esfor�ava para lembrar de algo - Ah, sim; sair do arm�rio?

- Tudo a seu tempo. - Sophie se controlava.

- Humm... Sei.

Nesse instante um senhor veio at� a mesa para cumprimentar Sophie.

- Que satisfa��o t�-la entre n�s, doutora Donkervoort. Vejo que trouxe uma convidada.

- Nunca faltaria com um pedido seu, doutor Harold.

Sophie apresentou Izabelle ao simp�tico m�dico e voltou a se sentar.

- Fiquem � vontade. O jantar ser� servido em breve.

Ele se retirou e Claudia levantou-se em seguida.

- Aposto que vai falar com Harold sobre n�s duas... Aquela cobra...

- N�o se preocupe com ele... - o jovem m�dico, enfim, tomou a palavra - Papai � muito compreensivo.

- Seu pai? Hanfred...?� voc�?

- Em carne e osso. Acho que n�o tive o prazer de conhec�-la pessoalmente, doutora Donkervoort.

- Realmente nunca fomos apresentados, mas seu pai me mostrou algumas fotos suas. Voc� n�o fazia Educa��o F�sica na mesma �poca que eu estava na faculdade?

- �... Mas as coisas mudam. Desisti do curso e tentei a medicina; queria ser igual meu pai.

- Se conseguir o mundo s� tem a ganhar!

Ele sorriu encabulado. Era um jovem alto e forte; n�o tinha cara de m�dico e sim, de um grande esportista e aventureiro. Os olhos eram muito azuis, o corpo bem definido e os cabelos eram loiros e ca�am no rosto o tempo todo. Um charme a mais.

- Papai falou de voc� algumas vezes; por que abandonou a medicina?

- Ah... � uma longa hist�ria e muito triste tamb�m...

- Oh... Perd�o; n�o queria te chatear...

- Hei... - interveio Izabelle - Calma; n�o precisa ficar nervoso.

- Me desculpe, senhorita Lacciezzi...

- Bom; j� que agora sabemos quem somos, podemos tentar manter uma conversa mais agrad�vel que a anterior.

- Eu aprovo! - falou Sophie descontra�da.

- Sem d�vida. - concordou o jovem m�dico sorrindo para as duas.

Conversaram durante toda a noite e, quando os discursos dos veteranos ficaram muito calorosos e nost�lgicos, os tr�s deram um jeito de sumir dali. Foram para uma boate a qual Hanfred j� conhecia. Ficaram at� tarde dan�ando, bebendo e conversando; pela manh� voltaram para o hotel.

Hanfred acompanhou ambas at� a porta do quarto.

- Adorei a noite, senhoritas. Creio que a doutora Claudia se morderia de inveja se soubesse como nos divertimos!

- Pode apostar. Nos vemos no almo�o, eu creio...

- Pode crer!

Ele despediu-se beijando a m�o das duas e foi para o seu quarto que ficava no fim do corredor.

As duas entraram, tiraram toda a roupa e se deitaram.

- Nunca me falou dele...

- � que n�o �ramos chegados; eu sabia que ele existia e ele sabia de mim. N�o passava disso.

- Humm... E a doutora Claudia; o que rolou entre voc�s?

- N�o rolou nada...

Izabelle olhou fundo nos olhos de Sophie como se pedisse que n�o escondesse nada dela.

- Ok, ok; tivemos um breve "affair" na faculdade, mas n�o foi nada demais.

- N�o mesmo? Acho que significou algo; pelo menos pra voc�.

- Por que acha isso?

- Porque te conhe�o. Vi o jeito como olhou para ela; ela te magoou, n�o foi?

"Como ela fazia isso", pensou Sophie.

- Foi...

- Quer falar sobre isso?

- Quero... Ficamos juntas por dois meses. Ela largou um namoro inst�vel, eu tinha mudado para sala dela. Moramos juntas por um m�s... At� que ela pegou as coisas dela e foi embora sem dar nenhuma explica��o. Fui saber alguns dias depois que ela estava de rolo com uma professora da faculdade. Fazer o que, n�...

- Veja o lado bom das coisas; se estivesse com ela n�o teria me conhecido!

- �...

As duas se abra�aram e dormiram; estavam mortas de cansa�o.


Sophie acordou com algu�m batendo na porta. Olhou no rel�gio; duas da tarde.

- Pelos Deuses; a palestra!

Pulou da cama enrolada no len�ol e foi atender a porta. Era Hanfred.

- Humm... - ele ficou encabulado de v�-la enrolado no len�ol - Desculpe, Sophie; papai pediu para ver se voc� estava se sentindo bem depois de ontem. Ele acha que voc� esqueceu a palestra. Come�a em meia hora.

- Eu sei, Hanfred; se n�o fosse por voc� ia me atrasar. Vou trocar de roupa e des�o em dez minutos.

- Ok.

Ela fechou a porta e foi tomar um banho r�pido. Izabelle ainda dormia quando ela terminou.

- Meu amor - ela chamou-a com carinho, beijando suavemente seu rosto - preciso descer para minha palestra. Quase me esqueci.

- Hummm...? Oh... Sim... Palestra... Vem c� deitar comigo...

- Belle, � s�rio; estou atrasada. Durma mais um pouco; nos encontramos depois.

Ela beijou-a e saiu.


Depois de dormir mais algumas horas, Izabelle levantou-se e pediu algo para comer. Minutos depois, algu�m bateu � sua porta. Ela desligou a TV, colocou o prato de lado e foi atender.

- Oi...

Era Hanfred. Cada vez que o via, ele parecia mais encabulado.

- Oi, Hanfred. Entra.

- Na... N�o; s� vim te convidar para tomar uma cerveja enquanto Sophie est� na palestra. Ela me disse que talvez demorasse e pediu para levar voc� para passear... Se n�o se importar, � claro.

- �tima id�ia. Vou pegar uma blusa.

Os dois sa�ram do hotel e Hanfred levou-a a v�rios lugares que ele j� conhecia; museus, galerias de arte, parques e jardins. Por �ltimo pararam numa cafeteria e sentaram-se para beber algo.

- Sophie disse para esper�-la aqui; ela n�o deve demorar.

- Ok. Me conta, ent�o, Hanfred; por que desistiu do que fazia antes?

- Ah, do curso de Educa��o F�sica? N�o estava me sentindo bem l�. As pessoas me viam como um monte de m�sculos e nada mais.

- E hoje?

- Hoje elas me v�em como um monte de m�sculos com um pouco de c�rebro!

Os dois riram. Ele era bem simp�tico.

- Mas deixou de fazer o que gostava por causa do que os outros pensavam?

- No come�o, sim; mas com o tempo fui vendo que minha paix�o era mesmo a medicina. A cada ano que passava sentia mais e mais admira��o por meu pai e mais vontade de me formar logo e trabalhar com ele.

- Conseguiu, pelo visto.

- �... Est� sendo �timo...

-... Mas?

- Acho que ainda falta alguma coisa; n�o sei ao certo. Acho que queria dividir isso com algu�m, entende?

- Pode dividir comigo; sou sua mais nova amiga.

- �; minha mais nova amiga casada.

- Ah; agora entendi. Como � que um cara simp�tico e boa pinta como voc� est� sozinho?

- Timidez, eu acho.

- Eeeh; j� vi tudo. Mas n�o se preocupe; quando for a hora certa voc� vai saber o que fazer, como agir.

- Foi assim com voc�?

- Foi e hoje sou a mulher mais feliz do mundo.

Naquele instante, Sophie chegou.

- Ok; vejo que j� s�o grandes amigos.

- Quase. - falou Hanfred levemente corado.

- Boas novas; n�o vou ter que apresentar minha palestra amanh�. A turma que viria de Londres n�o vai poder comparecer. Acho que podemos voltar para casa.

- Que bom. Hei, Hanfred; voc� pode vir conosco se quiser. - falou Izabelle com um sorriso sincero no rosto.

- � - completou Sophie - Venha conhecer Lars e saber porque eu larguei a medicina!

- Olha, meninas; o convite � tentador, mas tenho que ajudar meu pai com as outras palestras. Talvez, quando tudo acabar aqui, eu possa dar uma passada por l�. Que tal?

- Perfeito! Hei, o que voc�s est�o bebendo? - perguntou Sophie.

- Cappuccino e cerveja.

- Humm; acho que vou tomar uma cerveja.

Mais uma vez os tr�s novos amigos ficaram conversando e planejando futuros acontecimentos at� as altas horas da noite.


Sophie acordou com os gemidos de Izabelle. Sua amada parecia estar tendo outro pesadelo. Ela suava e debatia-se na cama. Sophie chamou-a.

- Hei, meu amor; acorde. Acorde.

Izabelle acordou banhada em suor. Ela tremia e sua respira��o estava ofegante.

- O que foi desta vez?

- A mesma coisa; o acidente... Voc�... O carro...

- Calma. - Sophie abra�ou forte sua amada - Foi um sonho ruim, Belle; n�o se preocupe. Vamos nos arrumar, tomar um caf� bem gostoso e partimos antes do almo�o. Assim chegamos l� antes de escurecer. O que acha?

- Te amo...

Sophie se espantou com a for�a que aquelas palavras sa�ram. Era como se fosse a �ltima vez que as ouviria.

- Tamb�m te amo, meu amor; demais. Pare de se preocupar com o que n�o precisa. Venha; vamos tomar um banho juntas e relaxar um pouco.


Duas horas depois as duas desceram ao restaurante para o caf�. Eram nove da manh� e Hanfred parecia que as esperava numa mesa. Fez sinal para elas chamando-as a acompanh�-lo no caf�.

- Bom dia, senhoritas. Dormiram bem?

- Mais ou menos.

- Por que "mais ou menos", Izabelle?

- Pesadelos, meu caro; o �pice da Psicologia.

- Ela est� sonhando com acidentes de carro h� v�rios dias. - completou Sophie.

- N�o entendo nada de pesadelos, mas se n�o est� � vontade para viajar, deixe para ir amanh�; fique mais um pouco.

Sophie olhou carinhosamente para Izabelle.

- Que tal; Belle? Quer deixar para partirmos amanh�? Por mim tudo bem.

- Nah... N�o precisa; s�o apenas sonhos bobos. Quero chegar em casa e cuidar das nossas coisas. Dar uma folga para Mendel, quem sabe.

- �, coitado; havia me esquecido dele. Tem raz�o. Mas se quiser...

- N�o se preocupe; est� tudo bem.

Tomaram caf� enquanto conversavam e nem notaram que algu�m se aproximava.

- J� de partida, querida? Mas faltam dois dias de palestras ainda...

- Minha turma n�o pode vir.

- Que l�stima. Sua... Esposa apreciou a estada?

Izabelle resolveu entrar na conversa

- Aproveitei, sim; obrigada.

- Ah; voc� fala! Que interessante.

Izabelle se levantou para dizer alguns desaforos, mas foi contida por Sophie e Hanfred.

- Ser� que voc� poderia ser menos inconveniente, Claudia?

- Humm... Calma; n�o vamos nos alterar. Vim apenas tomar meu caf�. - ela sentou-se � mesa ao lado de Sophie, o que deixou Izabelle mais irritada ainda .

- Fa�a bom proveito; est�vamos mesmo de sa�da.

Sophie e Izabelle se levantaram; Izabelle pegou na m�o de Sophie e conduziu-a ao hall de entrada. Hanfred tamb�m se levantou.

- N�o me faz companhia, Han?

- Vou acompanhar minhas amigas. Com licen�a.

Ele saiu e deixou a jovem doutora de boca aberta; com certeza ela n�o esperava essa atitude dele.

- Hei... Sophie! Belle!

Ambas se viraram para ele e sorriram.

- U�; deixou a mocr�ia sozinha?

- E deixar voc�s irem embora sem me despedir? Voc�s deviam me conhecer melhor!

- Eu sabia que voc� viria. - falou Izabelle sorrindo.

- Obrigado!

- Podem parar com isso, voc�s dois!

- �, olha s�; Hanfred. Ci�mes!

Os tr�s riram.

- N�o se preocupe, Sophie; o �nico jeito de eu ganhar de voc� � na cozinha!

- Na coz... Hei; o que voc� andou falando, sua bruxa?

- Humm... Acho melhor conversarmos sobre isso depois...

Sophie acertou a conta do hotel e pediu que buscassem as malas.

- Bom; acho que � isso. Adeus. - falou Izabelle.

- Adeus, n�o; at� breve. - concertou Hanfred.

- At� breve, meu amigo; nos vemos por a�.

Eles se abra�aram, se despediram e as duas entraram no carro.

- A� vamos n�s.


Tr�s horas e meia depois...

- Engra�ado; o dia estava t�o limpo quando sa�mos. Ser� que vai chover?

- N�o sei, meu amor. Pode ser s� neblina.

- Cuidado.

Sophie dirigia com cautela redobrada desde que entraram numa densa neblina. Quase n�o era poss�vel ver dois metros � frente do carro e com muita dificuldade se via os far�is de outros autom�veis que tinham a mesma cautela em andar devagar.

Izabelle come�ou uma conversa para passar o tempo.

- Aquela tal de Claudia n�o tem desconfi�metro?

- Acho que ela tem uma quedinha por mim... Mas nunca vai assumir isso; � orgulhosa demais.

- E voc�; o que sente por ela?

- Eu? Nada! Indiferen�a. Ela � uma coisa que eu quero deixar para tr�s; ela teve a chance dela e desperdi�ou. Acho que n�o era mesmo para ficarmos juntas.

- E se ela n�o tivesse ido embora; se n�o tivesse se envolvido com outra pessoa. O que aconteceria?

- N�o sei, Belle; que pergunta! N�o sei o que teria acontecido, mas acho que nossos g�nios eram muito fortes para continuarmos juntas, de qualquer forma.

- Mas eu tamb�m tenho o g�nio forte; voc� mesma disse uma vez que sou dif�cil demais.

- �, mas n�s temos uma coisa que eu n�o tinha com ela... Uma qu�mica que n�o d� para explicar; um fogo que n�o se apaga nunca... E agora eu posso afirmar que o que sinto � amor de verdade. Com ela acho que era s� paix�o.

- Humm...

- O que foi?

- Voc� me ama tanto assim?

- Mais do que voc� pode imaginar. Est� com medo de alguma coisa? Nunca foi de ficar fazendo essas perguntas... Est� tudo bem?

- Tudo... � que fiquei meio invocada com aquela mocr�ia.

As duas riram e s� notaram que um par de far�is vinha em dire��o ao carro delas quando era tarde demais.

- Sophie; CUIDADO!!!!!

Sophie n�o teve tempo de fazer muita coisa; apenas virou a dire��o e o carro desceu por uma ribanceira, ficando de ponta-cabe�a v�rios metros abaixo da pista.


N�o se via nada. A neblina ainda encobria o local e uma chuva leve come�ou a cair. Izabelle olhou para os lados e percebeu que o carro havia parado de ponta-cabe�a. Sentia uma dor imensa na cabe�a e no pulso direito. A vista estava nublada, mas conseguiu ver Sophie ao seu lado. Com muita dificuldade soltou o cinto. Chegou mais perto de Sophie e tentou acord�-la.

- Sophie... Amor; fale comigo.

N�o houve resposta. Pegou o pulso dela e tentou sentir a pulsa��o; estava muito fraca. Desesperou-se.

- SOPHIE! Por favor, acorde!

Nenhum movimento; nada. Izabelle lembrou-se do celular no bolso da cal�a e tentou peg�-lo. Sentiu mais uma pontada, desta vez no ombro direito; n�o conseguia mov�-lo.

Com esfor�o, discou o n�mero da emerg�ncia e explicou a situa��o. Disseram que estariam ali o mais r�pido poss�vel; mas o mais r�pido talvez n�o fosse suficiente.

- Meu amor... Ag�enta; eles est�o chegando.

A dor era demais e Izabelle lutava para permanecer acordada. Enfim, quando ouviu o barulho de sirenes e as luzes entregou-se ao cansa�o e desmaiou.


A manh� estava chuvosa; o dia estava cinza e triste. Todos os amigos compareceram ao pequeno cemit�rio de Lars; at� mesmo a doutora Claudia.

Ap�s o enterro todos se retiraram, com exce��o de duas pessoas.

- Venha; vou leva-l� para casa.

-...

- N�o pode ficar assim, Belle; tem que ser forte. Me deixe...

- V� embora, Mendel; quero ficar aqui mais um pouco.

Mendel n�o insistiu. N�o adiantaria. A tristeza era muito grande e nem mesmo ele tinha for�as para discutir. Deu uma �ltima olhada para o t�mulo e foi embora.

Sozinha ali, Izabelle n�o sabia o que fazer, o que falar, o que sentir. Havia parado de chorar; parecia que havia secado por dentro de tanto que chorou. Mas o sofrimento era incalcul�vel. Perder algu�m assim, t�o pr�ximo, o amor da sua vida. Como poderia acontecer tamanha tristeza? Onde estariam os deuses nos quais Sophie tanto falava?

O mundo parecia ruir aos poucos e a vida se esvair a cada suspiro. Izabelle sentou-se ao lado do t�mulo e colocou a m�o sobre a terra fofa. Era o fim.

- Acabou... Voc� disse que nunca me deixaria. Estou aqui sozinha, agora, sem voc�... Por que, meu amor? Por que me deixou?

Ela olhava para o t�mulo na esperan�a de ouvir uma voz falando que nada havia acabado, que tudo se resolveria em breve e que aquilo n�o passava de um pesadelo. Mas n�o se ouviu voz nenhuma, nada mudou.

- Como eu vou fazer para viver sem voc�, agora? O que eu vou fazer da minha vida... O que... Ah, meu Deus; que saudade de voc�...!

Mais uma vez Izabelle, se entregou ao choro. Chorava alto, solu�ava e n�o ouviu quando algu�m chegou por tr�s dela e pousou a m�o em seu ombro.

- Deixa eu te levar para casa...

A voz era familiar, mas Izabelle n�o gostava daquela pessoa.

- V� embora; doutora... N�o estou com �nimo para discuss�es.

- N�o vim discutir; acho que voc� deveria sair dessa chuva. Vai acabar ficando doente e...

- Morrendo? Seria a melhor coisa a me acontecer.

Claudia pegou Izabelle pelos ombros e levantou-a do ch�o. Estava suja de terra, molhada de chuva; um farrapo de gente que n�o dormia h� dois dias.

- Escuta aqui. Voc� n�o � crian�a e tem muitas coisas para cuidar agora que ela se foi. N�o pode deixar que tudo que ela construiu se perca. Ela n�o gostaria de te ver assim.

- O que voc� sabe de n�s? O que voc� sabe dela? Voc� n�o � ningu�m!

- Sei muito sobre ela e o suficiente sobre voc� para ter certeza de que n�o se entregar� assim!

Izabelle teve vontade de socar a cara daquela mulher de olhos esverdeados que falava naquele tom imperativo, mas n�o teve for�as. Ao contr�rio; abra�ou-a como se n�o lhe restasse mais ningu�m e chorou.

Claudia retribuiu o abra�o e conduziu-a ao seu carro. Hanfred observava de longe; seria um longo dia.


No dia seguinte, na casa de Izabelle...

- Vou ficar com ela hoje; pode ir embora.

- N�o confia em mim, Hanfred? Que desconfian�a!

- N�o quero voc� perto dela. Por enquanto estou pedindo...

- Voc� n�o amea�a ningu�m com essa cara de bobo, Hans. Fica pelos cantos choramingando a morte da sua queridinha e n�o pode nem tomar conta de si mesmo!

Hanfred avan�ou para cima de Claudia e segurou seus punhos.

- N�o me provoque, mulher. N�o sabe do que sou capaz!

Claudia se assustou um pouco com aquela atitude, mas preferiu ir embora a fazer uma cena na frente de Izabelle. Suas inten��es eram boas, muito boas; pelo menos para ela.

- Eu vou embora, mas vou voltar.

Claudia saiu da casa de cabe�a erguida como se tivesse sa�do vitoriosa de mais uma batalha. Hanfred bateu a porta assim que ela passou. Em seguida, foi at� o quarto de Izabelle.

Ela estava horr�vel; o brilho dos olhos havia sumido, a pele estava p�lida e o olhar, vazio. Ele sentou-se ao seu lado na cama e acariciou-lhe o cabelo.

- Queria poder fazer alguma coisa para te tirar dessa...

- Voc� n�o pode, Han; a menos que a traga de volta.

- Queria poder fazer...

Hanfred escondia as l�grimas. Ele tamb�m estava com a fisionomia p�ssima; como se n�o dormisse h� dias. Beijou Izabelle na testa e foi at� cozinha preparar algo para ela comer; para alguma coisa Claudia parecia servir. A cozinha estava em ordem e uma sopa de legumes j� estava pronta numa panela. Havia tamb�m um vidro de aspirinas e outro de vitaminas; Izabelle estava fragilizada e merecia um cuidado especial naquele momento dif�cil.

Ele pegou um pouco da sopa e levou at� o quarto para que Izabelle comesse um pouco.

- Belle... Eu sei que voc� est� chateada, mas precisa comer. N�o pode deixar que isso te derrubar...

- Isso? Como se refere a ela como "isso"? - Izabelle levantou e empurrou Han, derrramando a sopa nele e no ch�o do quarto - O que voc� acha que sabe de n�s? O que sabe sobre como me sinto? Voc� e essa tal de Claudia; ela que n�o me apare�a mais aqui... V� embora voc� tamb�m!

Aquilo foi a gota. Hanfred sofria tanto quanto ela, afinal, cultivava de certa forma uma paix�o plat�nica por Sophie.

- Como pode falar assim comigo? Acha que n�o sofro tanto quanto voc�? Acha que � f�cil amar uma pessoa e nunca tocar no assunto com ela? Acha que � f�cil estar com essa pessoa num dia e no outro ir no enterro dela? Como acha que EU estou me sentindo? H�in?

Ele desmoronou numa cadeira e n�o conseguiu mais conter o choro; parecia uma crian�a. Izabelle sentiu uma pena terr�vel dele e percebeu que, apesar do seu sofrimento ser enorme, havia pessoas que tamb�m sentiam muito aquela perda. Ela abaixou-se na frente dele e abra�ou-o.

- Me desculpe, Han... Eu... Eu... N�o sei o que fazer! Me sinto p�ssima... Vazia...

- Eu tamb�m... Mas voc� tem que ser forte; ela n�o gostaria de te ver assim.

Izabelle enxugou suas l�grimas e abra�ou Hanfred novamente. N�o podia ficar daquele jeito, apesar da dor que sentia. Tinha muita coisa para cuidar e era apenas o primeiro dia sem sua querida Sophie ao seu lado.


A missa de s�timo dia foi linda. Amigos de Sophie vieram de toda a cidade e muitos vieram de fora. Todos gostavam dela e tinham algo de bom para contar a Izabelle. Aquilo acabou distraindo-a um pouco e quebrou o clima sombrio que havia ficado desde o enterro. Mas a saudade j� do�a muito.

Claudia n�o deixou de comparecer, mesmo tendo que vir de Londres especialmente para aquilo. Ela tentava se aproximar de Izabelle de todas as maneiras, mas Hanfred sempre estava por perto para evitar um contato maior entre as duas; ele sabia das inten��es de Claudia em rela��o �quela vi�va.

Mas nem mesmo Hanfred era perfeito e ele n�o podia vigi�-la 24 horas. Seis meses depois da morte de Sophie, ele teve que viajar para a Inglaterra e Claudia, sabendo disso aproveitou, a ocasi�o para viajar at� Lars e rever Izabelle.

A noite estava chuvosa e era a desculpa perfeita para ficar mais um pouco na cafeteria. Antes de entrar, teve o cuidado de esvaziar dois pneus do carro que havia alugado; assim n�o teria como ir embora e, talvez, ficasse mais que o esperado. Havia levado algumas fotografias e usaria delas para prender a aten��o de Izabelle.

- Adorei o caf�; sabe, n�o tomo muito caf�... Me deixa meio acesa, mas esse aqui est� muito bom.

- Obrigada; trocamos a marca h� alguns dias porque o outro estava com muita sujeira.

- Queria falar com voc�, mas Hanfred n�o sa�a do seu p� na missa; acho que ele n�o gosta muito de mim...

- Acho que Sophie tamb�m n�o gostava...

- Tivemos nossas desaven�as no passado, mas quem n�o tem? - ela sorriu e Izabelle notou pela primeira vez que seu sorriso era muito bonito - Trouxe algumas fotos para te mostrar; s�o da �poca da faculdade.

- S�rio? Onde est�o?

- Vou peg�-las mo carro.

Claudia saiu e voltou cinco minutos depois com um �lbum nas m�os e a cara um pouco amarrada.

- Aconteceu alguma coisa? - quis saber Izabelle.

- Parece que algu�m andou brincando com meu carro; dois pneus est�o vazios!

Izabelle levantou-se cadeira e olhou para fora; pode ver o carro e as rodas do carro que se encostavam ao ch�o por estarem vazios.

- Mas que sacanagem...

- N�o tem problema; eu tomo um t�xi e amanh� mando buscarem o carro aqui.

- N�o; fique l� em casa. � o m�nimo que posso fazer depois de terem feito isso com voc� na porta da minha cafeteria.

- De jeito nenhum; n�o vou incomodar mais; e depois, vi que o Hanfred chega... Ele vai ficar uma fera!

- O Hanfred n�o � meu namorado, muito menos meu dono. Fica l� em casa; bom que eu vejo as fotos e voc� me conta como eram as coisas naquela �poca.

- Isso quer dizer que... Sem ressentimentos?

- Sem ressentimentos. Vou fechar a cafeteria e vamos para minha casa.

Claudia sorriu vitoriosa e acabou seu caf�.


Izabelle serviu mais um pouco de vinho para ambas. A segunda garrafa havia acabado de acabar e o �lbum de fotografia parecia n�o ter fim. Havia ali fotos de todo o curso e na maioria delas Sophie aparecia, linda e sorridente.

- Voc�s foram muito pr�ximas, n�o foram?

- �... Ficamos juntas um bom tempo...

-...At� que...? - Izabelle olhou-a com ar interrogativo.

- At� que ela me pegou com a melhor amiga dela na cama do meu apartamento.

- N�o acredito que voc� fez isso!

- Nem eu... N�o me lembro direito como aconteceu, mas naquele momento nada que eu dissesse poderia me redimir. Aquela mulher com quem eu estava armou algum para mim e eu ca�.

- E por que eu deveria acreditar em voc�?

- Acredite em quem quiser; aquela tal Gisele n�o prestava e conseguiu fazer com que Sophie terminasse tudo e eu ficasse manchada por todo o campus.

- Hummm... � por isso que Sophie tinha aquela raiva toda de voc�, n�o �?

- Acho que n�o; acho que foi porque eu a persegui durante o resto do curso para que ela me perdoasse. Isso a deixou um pouco irritada!

- Qualquer um ficaria! Voc� n�o � mesmo flor que se cheire, doutora Claudia!

As duas bebiam e conversam h� horas; os estados estavam bem alterados e as palavras saiam desinibidas. Izabelle h� muito n�o sorria daquele jeito e aquela mulher trouxera de volta um pouco da alegria que havia perdido h� seis meses atr�s. Mas essas recorda��es misturadas com a bebida trouxeram � tona uma saudade devastadora; daquelas que doem fundo e deixam as pessoas terrivelmente vulner�veis.

Izabelle come�ou a chorar e Claudia aproveitou para aproximar-se dela.

- Calma, n�o fique assim; quantas coisas boas voc� tem para se lembrar dela! Enquanto ela estiver no seu cora��o, n�o ser� esquecida... - ela aproximou-se mais e abra�ou Izabelle -...Voc� s� n�o deve fechar seu cora��o para o resto do mundo... Deve continuar a viver...

Ela aproximou seu rosto do de Izabelle e beijou-a suavemente. Izabelle fechou os olhos e por um segundo parecia que nada tinha acontecido, que Sophie ainda estava ali de novo. Foi apenas um segundo e quando ela os abriu novamente deparou-se com aqueles olhos verdes; mas n�o eram os de sua amada. Ela afastou-se e sorriu sem jeito. Claudia tamb�m se afastou e fingiu surpresa com o que havia acontecido.

- Humm... Me desculpe, Izabelle; n�o sei o que me deu...

- N�o... Tudo bem... - Izabelle estava desconsertada - Acho melhor pararmos por aqui; bebemos demais.

- Ser� que foi s� por causa da bebida? - Claudia tentava jogar sua teia devagar.

- O que quer dizer?

- Que j� se passou muito tempo, Izabelle; voc� deveria voltar a viver... E voc� quer voltar a viver!

- N�o sem ela!

- Esse n�o foi um beijo roubado; voc� o queria tanto quanto eu!

- N�o � verdade! Eu... Eu...

Izabelle tentava conter as l�grimas, mas elas saiam sem controle. Sentia-se vulner�vel, sozinha; aquele beijo lhe trouxera o calor de volta, mas ela n�o podia se permitir isso. N�o ainda.

- N�o posso, Claudia; ainda n�o posso...

- Por que? N�o pode se guardar numa casca e se esconder do resto do mundo! Voc� precisa continuar a viver!

- E voc� deveria voltar para o hotel onde est� hospedada. Vou chamar um t�xi.

Izabelle disse isso de forma autorit�ria; nem mesmo Claudia poderia discutir com aquele olhar g�lido lan�ado sobre ela; a decis�o j� estiva tomada. Naquela noite, ela n�o conseguiria mais nada de Izabelle.


Hanfred parecia perplexo. Depois de horas de viagem, a primeira coisa que fez foi visitar Izabelle e saber como ela estava. Ao deparar-se com Claudia no aeroporto ficou preocupado; o que ela fazia ali? Ela n�o esbo�ava mais aquele sorriso sarc�stico e aquele ar esnobador t�o peculiar. Isso o fez pensar que alguma coisa havia acontecido enquanto esteve fora.

- N�o sei como aconteceu ao certo; n�s nos beijamos e...

- Aquela vagabunda est� se aproveitando da situa��o! Eu mato ela!

- N�o transforme minha vida numa novela, Hanfred! Aconteceu porque est�vamos meio alteradas e eu estava extremamente carente... Foi sem querer...

- Ela n�o tem o direito de vir aqui e fazer isso com voc� e...

- "E" o qu�? Eu sinto falta dela, Han; sinto falta do carinho, do prazer, das conversas � noite... Sinto falta de algu�m ao meu lado!

- Mas essa pessoa n�o � a doutora Claudia!

- E se for? Pelo menos por enquanto... Por que n�o?

Hanfred sentou-se e colocou o rosto entre as m�os; n�o acreditava que aquilo estava acontecendo. A cabe�a de Izabelle estava confusa, s� podia ser isso.

- N�o vou falar mais nada, Belle. Voc� decide os passos que d�. Estou te falando que esse caminho n�o � o certo, que vem junto com sofrimento e dor e mesmo assim voc� quer segui-lo... Paci�ncia. N�o posso tomar conta de voc� o resto da vida, infelizmente...

- Por que est� dizendo isso?

- Vou me mudar para a Inglaterra. Fui convidado para dar aulas numa faculdade e n�o posso perder essa oportunidade.

- Voc�... Vai embora?

- Sempre que precisar pode me chamar, ou me visitar. Vou estar pronto a te aconselhar e te amparar, mesmo que voc� n�o me escute...

- J� est� decidido?

Ele apenas concordou fechando olhos e suspirando fundo. Izabelle chegou perto dele e o beijou no rosto; ele tinha sido muito importante para ela e, de certa forma, o estava perdendo tamb�m.

- Por que isso? - ele quis saber depois do curto e suave beijo.

- Para voc� n�o se esquecer de mim...

Ele a abra�ou forte e saiu. N�o queria chorar na frente dela.

Izabelle sentia como se o mundo estivesse desabando e n�o havia ningu�m para ampar�-la. Pensou em muitas coisas; coisas ruins, coisas que nunca passaram pela sua cabe�a antes e agora a assustavam. Pela primeira vez sentia medo; medo de ficar sozinha.

Pegou o telefone e discou um n�mero.

"- Oi; n�o estou no momento. Mas se deixar seu nome e telefone prometo pensar em ligar de volta! Obrigada!"

A voz de Claudia se parecia muito com a de Sophie ao telefone e aquilo deixou Izabelle nervosa. Mesmo assim ela deixou recado.

- Claudia... Aqui � Izabelle. Pod�amos conversar um pouco quando voc� chegar em casa? Me ligue, por favor.

Desligou o telefone sem certeza do que estava fazendo. Queria viver e ao mesmo tempo morrer.


Izabelle sentia a pele quente daquela mulher encostando � sua e tentava n�o pensar em Sophie. Imposs�vel. Claudia lembrava sua amada a cada gesto, como se fosse a mesma pessoa num corpo diferente. Tinha praticamente as mesmas manias, os mesmos gostos e aqueles olhos que a fascinaram tanto um dia. Como tudo aquilo estava acontecendo, ela n�o sabia, mas se tentou fugir da dor algum dia, n�o havia conseguido. Nem mesmo depois de um ano ao lado de Claudia.

Pela manh�, preparou o caf� e foi at� o quarto saber se Claudia teria mesmo o plant�o naquele final de semana; estava programando algo e n�o queria que nada nem ningu�m a atrapalhasse.

- Vai chegar cedo hoje?

- N�o, meu amor; tenho plant�o... Desculpe; tentei trocar, mas todos v�o estar fora.

- Tudo bem... Hanfred est� aqui e vamos nos sentar para conversar um pouco.

- N�o gosto de voc� conversando com ele... Sabe que ele n�o aprova o nosso relacionamento.

- Ele n�o pode mudar nada, Cau... Ningu�m pode.

Claudia achou estranho o tom daquelas palavras, mas n�o discutiu com Izabelle; ela estava t�o sens�vel naqueles �ltimos dias que tentava apenas agrad�-la a todo custo. Apenas beijou-a no rosto e levantou-se para tomar o caf�. Depois tomou um banho r�pido e foi para o hospital.


- Quanto tempo... - Izabelle abra�ou Hanfred com for�a e seus olhos encheram-se d'�gua - Por que fica tanto tempo sem aparecer?

- Sabe que n�o me dou bem com a doutora Claudia. Melhor evitar atritos desnecess�rios. Voc� est� magra, Izabelle; n�o tem se alimentado direito?

- Acho que n�o, mas vou tomar cuidado com isso; pode deixar.

- Voc� est� com um brilho diferente desde a �ltima vez que a vi; aconteceu alguma coisa?

- Ainda n�o... Mas n�o quero falar sobre isso agora; me conte como v�o as coisas em Londres. E Pam; como est�?

- Est� tudo bem. Recebi um aumento e outra proposta; agora sou chefe do departamento de medicina. Meu pai ficou louco quando soube!

- Deve ser um orgulho para ele, h�in?

- �... Pam est� gr�vida e acho que vamos nos casar m�s que vem mesmo.

- Que �timo!

- Mandarei os convites.

- "Os convites"?

- Voc� est� com ela agora e parece feliz; n�o vou deixar que uma briga boba atrapalhe nossa amizade.

- Obrigada, Han.

- N�o posso demorar; tenho que resolver umas coisas. Vamos dar uma volta no final de semana? Prometo n�o sair no tapa com ela!

- Hahah! N�o vai ser preciso tanto esfor�o; ela vai estar de plant�o amanh�. Mas n�o sei se posso ir; tenho que arrumar algumas coisas em casa... Se mudar de id�ia ligo para voc�.

- Espero que mude!

Os dois conversaram durante horas at� que Izabelle teve que ajudar Mendel a atender os fregueses. Ficou ali at� tarde, quando, finalmente, o �ltimo fregu�s foi embora.

Chegou em casa cansada e foi direto para o chuveiro. Claudia ficaria fora at� o dia seguinte e ela teria tempo de arrumar suas coisas sossegadas.

Fez um sandu�che de atum e foi para a sala. Procurou no arm�rio a velha caixa onde guardou todas as fotos de Sophie e a levou para o sof�. Enquanto comia, olhava para aquelas imagens que nunca haviam sa�do de sua cabe�a, nem de seu cora��o.

- Como eu sinto sua falta, meu amor... Achei que poderia colocar algu�m no seu lugar; nunca... Ser� que algum dia vai me perdoar por isso? Queria tanto me encontra com voc� de novo...

Ela pegou um papel e rabiscou algumas palavras. Chorou; chorou muito. A saudade a estava consumindo por dentro e estava cansada de manter as apar�ncias; n�o queria mais aquilo. Por mais carinhosa que Claudia fosse, por mais que tudo parecesse lindo, foi um grande engano; um terr�vel engano.

Dobrou o papel e colocou em cima da mesa. Acabou de comer o sandu�che, guardou as fotos e foi para o quarto.


- Izabelle! Vamos; saia da� e vamos dar uma volta.

Hanfred chamava h� alguns minutos e n�o ouvia nenhuma resposta. Talvez ela estivesse no banho. Mas para seu azar Claudia estava voltando do plant�o.

- Humm... J� vou embora; s� vim cham�-la para sair um pouco.

- P�ra, Han; chega! Somos adultos, vamos agir como tal. N�o tenho nada contra voc�; voc� � que n�o gosta de mim. Entre que vou cham�-la.

Hanfred concordou e entrou junto com Claudia. Viu papel estava em cima da mesa.

- Querida?

Claudia foi at� o quarto e Hanfred ficou na sala esperando. Olhou o bilhete em cima da mesa; estava aberto. N�o se conteve e espiou o papel; era a letra de Izabelle e o que estava escrito o deixou aterrorizado.

"N�o d� mais... A quem tentamos enganar? Sinto falta da minha Sophie e n�o vejo mais raz�o para viver sem ela. Podia ter visto isso antes, mas acho que minha tristeza era t�o grande que perdi a coragem de tomar qualquer atitude. Amo voc�, Claudia; de verdade, mas n�o como amava Sophie. Diga ao Hanfred que tamb�m o amo.
Com amor,
Izabelle"

Hanfred correu at� o quarto e deparou-se com Claudia � porta do banheiro observando a �gua que escorria por debaixo; estava trancada.

- Izabelle!! - ela gritava - Abra a porta!

Hanfred empurrou Claudia para o lado e arrombou a porta com um pontap�. Izabelle estava deitada submersa na banheira cheia d'�gua. Ambos correram e a tiraram de l�; mas era tarde demais. Hanfred sentiu seu cora��o despeda�ar. Claudia, com o corpo frio e molhado de Izabelle em seus bra�os, tentava acreditar no que estava acontecendo; era o fim.

- N����������O!!!!!!!!!!


- Os sinais vitais est�o forte... - o jovem m�dico debru�ou-se sobre a caama - Pode me ouvir?

- Izabelle...

- Avisem a senhorita Lacciezzi.

O enfermeiro saiu da UTI, indo direto � recep��o. Discou um n�mero e uma voz sonolenta atendeu. Izabelle n�o dormia h� quase uma semana e foi para hotel em que estava hospedada para tomar um banho e trocar as roupas. Hanfred havia apagado no sof� e ela na cama. Acordou afoita ao ouvir o telefone.

- Sim?

- Senhorita Lacciezzi? Acho melhor vir ao hospital; o doutor Leopold tem boas not�cias.

Izabelle deixou o telefone cair no ch�o, o que fez com que Hanfred acordasse de vez.

- O que foi, Belle? O que foi?

Izabelle n�o respondia. Ele pegou o fone no ch�o e conversou com o enfermeiro. Desligou o telefone e, sorrindo, abra�ou Izabelle.

- Vamos, Belle; ela est� acordando.

Em menos de vinte minutos, Hanfred chegou ao grande hospital de Frankfurt. Subiram correndo as escadas e procuraram o jovem m�dico que atendera Sophie h� uma semana.

- Doutor; o que houve?

- Calma, voc�s dois! - ele pigarreou e olhou sorridente para Izabelle e - Acho que voc�s j� podem entrar; mas um de cada vez.

- Ela... Ela...

- Acordou a pouco; est� um pouco zonza ainda, mas parece se lembrar do que houve e chamou por voc�, Izabelle.

- ...

- Venha comigo, sim? Por aqui.

Percorreram um longo corredor e entraram numa sala. Num canto, ainda com alguns tubos no nariz e fios ligados pelo corpo, Sophie descansava de olhos fechados.

- Cinco minutos; ela precisa descansar para que possamos transferi-la para o quarto.

Izabelle sorriu, abra�ou o jovem m�dico e o beijou na boca. Ele saiu meio sem jeito e deixou as duas a s�s.

- Eu vi... Isso...

A voz de Sophie era fraca, mas parecia alegre em saber que Izabelle estava ali.

- Oi, meu amor... Como se sente?

- Parece... Que um caminh�o passou... Em cima de mim...!

- Boba... - Izabelle n�o conseguiu conter as l�grimas e apoiou a cabe�a na cama para chorar. Sophie ergueu um pouco o bra�o direito e acariciou os cabelos daquela mulher que tanto amava. Ela estava viva; gra�as aos Deuses!

- Bom ver voc�... Saber que est� bem... Que est� viva...

- Voc� se machucou muito; achei que n�o a veria mais...

- Eu achei que n�o a veria mais...

- Tive f� que voc� acordaria...

- Voc�? F�?... Voc� deve ter batido a cabe�a... Ser� que as coisas est�o piores do que eu estava sonhando!

- Sonhando? Mas voc� estava em coma!

- Sonhei... Sonhei que voc� havia se casado com a doutora Claudia seis meses depois da minha morte... - ela respirou devagar e olhou novamente para Izabelle - ... E se suicidou um ano depois.

- Credo! Ela esteve aqui ontem para ver se voc� estava melhor; acho que n�o chega a ser m� pessoa...- Izabelle viu o doutor Leopold apontando para o rel�gio - Voc� tem que descansar. Durma mais um pouco que vou estar atr�s daquela porta; vou cuidar de voc� agora.

Sophie sorriu. Izabelle abaixou-se e tocou suavemente seus l�bios com os dela e sorriu em seguida.

- Descanse; amanh� se sentir� melhor.

Izabelle saiu da pequena sala e abra�ou Hanfred, que a esperava do lado de fora.

- Vou deix�-la descansar; amanh� falo com ela. Como ela est�?

- Parece bem, apesar dos ferimentos... Ela est� toda machucada, Han!

Izabelle debru�ou-se no amigo e chorou. Ele sorriu e sabia que Sophie ficaria bem apesar dos ferimentos; a maioria deles era superficial e em pouco tempo n�o restaria nenhuma marca.


- Sophie, voc� precisa comer!

- Traga alguma coisa decente, ent�o!

- Acho que ela j� est� bem melhor, doutor! - Izabelle reclamava com o doutor Leopold - Quando vou poder lev�-la para casa?

- Os �ltimos exames ficam prontos daqui a pouco; pedi urg�ncia, pois sabia que a nossa paciente est� meio... Impaciente!

Os tr�s riram. Hanfred chegou naquele momento e riu tamb�m.

- Certo; parece que est� tudo bem mesmo.

- Sim; se n�o fosse por essa comida horr�vel!

- Sophie!

- Acalme-se; assim que voc� sair daqui vou preparar uma macarronada que aprendi durante umas palestras Mil�o. Fica divina!

Enquanto Izabelle conversava com o doutor Leopold a respeito de cuidados com a paciente, Hanfred abra�ou Sophie carinhosamente e sorriu.

- Que bom que voc� est� melhor. - ele olhou para Izabelle com carinho -- Achei que ela fosse morrer nessa �ltima semana.

- Tive um pesadelo horr�vel... Que voc� foi embora, que ela estava junto com a Claudia... Ela se matou... Acordei quando isso aconteceu. Acho que o susto me deu for�as para acordar.

- Acredito que sim. Mas foi s� um pesadelo; est� tudo bem, agora... Vai ficar tudo bem.

Izabelle voltou para o lado de Sophie acompanhada de Leopold.

- Parece que est� tudo bem, senhorita Donkervoort. Pode ir para casa; mas sugiro que v� de avi�o para que tenha uma viagem mais tranq�ila.

- Pode apostar que vou de avi�o!

O doutor saiu deixando os tr�s amigos conversando. Algu�m bateu na porta e pediu para entrar; era a voz de Claudia.

- Enfim, acordou!

- �... Soube que esteve aqui esses dias. Obrigada.

- Sophie; poderia ter vinda mais, mas acho que n�o sou muito bem vista aqui...

Izabelle olhou aquela mulher com seu famoso look iceberg e saiu do quarto, acompanhada de Hanfred.

- Eles n�o v�o mesmo com minha cara...

- Voc� fez por merecer...

- �, talvez... - Claudia sentou-se na cama ao lado de Sophie e pegou sua m�o; n�o tinha mais aquele ar debochado - Fico mais aliviada agora. Quando te vi na sala de emerg�ncia achei que n�o fosse sobreviver. Tive medo...

- Est� tudo bem; n�o esquenta.

Claudia se aproximou mais um pouco e beijou a m�o de Sophie.

- Sabe que nunca deixei de amar voc�, n�o �? Sabe que fiz de tudo para voltar a t�-la perto de mim; voc� se afastou e n�o me deu espa�o para mostrar que aqui dentro eu sou como qualquer outra pessoa. Eu sofro, choro, sinto a dor tanto quanto qualquer um. Quando voc� me deixou, fiquei arrasada e voc� s� quis saber de me esnobar e dizer que eu n�o prestava. Parecia at� que voc� nunca tinha cometido erros na vida... - os olhos dela encheram-se de l�grimas - Ainda te amo, Sophie, mas fico feliz em saber que tem algu�m para tomar conta de voc� e dessa cabe�a dura, sua. S� espero que voc� tenha se tornado uma pessoa mais compreensiva.

Ela beijou novamente a m�o de Sophie e se levantou. O ar arrogante havia voltado.

- Vou embora. Voc� n�o vai me ver mais, promessa.

- Acho que podemos parar com isso, j� que somos adultos...

- Me chamaria de amiga algum dia, Sophie?

Sophie sorriu e estendeu a m�o para Claudia.

- Quem sabe.

As duas sorriram e Claudia saiu, deparando-se com Izabelle do lado de fora.

- Sabia que voc� � a pessoa mais sortuda do mundo? S� espero que n�o desperdisse esse presente que Deus mandou para voc�! - e seguindo pelo corredor se virou para tr�s antes de entrar no elevador - Voc� � bem bonita, senhorita Lacciezzi; formam um casal fascinante!

Ela entrou no elevador e foi embora.

Izabelle olhou para Hanfred; ele tamb�m estava boquiaberto. Sem insultos? Sem agress�es? Alguma coisa havia mudado naquela mulher.

Ambos entraram novamente no quarto. Sophie sorria perdida em lembran�as.

- Posso perguntar o que voc�s conversaram?

- Nada de mais... Mas acho que ela n�o � assim t�o m� pessoa.

- Tive essa impress�o a pouco. Ela ainda te ama, Sophie...

- ...E sabe que voc� me ama mais que tudo nesse mundo. S� espero que ela encontre algu�m como eu encontrei.

- Eu te amo...

Sophie puxou Izabelle delicadamente para mais perto e beijou-a; um beijo caloroso, por�m suave.

- Eu tamb�m te amo e nunca vou te deixar, nunca!

Elas se abra�aram e choraram juntas. O pesadelo havia acabado e elas poderiam voltar �quela vida tranq�ila que levavam em Lars. Que sonho poderia ser mais perfeito?

FIM

Uber      Home

Hosted by www.Geocities.ws

1