Por Acaso a Felicidade
Rose Angel
2005
Aí pessoal...
Olha eu aqui de novo... Mais uma vez escrevendo no estilo ALT/UBER.
Vale o velho lembrete de que esta história contém temas adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, onde você mora é proibido ler esse tipo de material ou for homofóbico, não continue a leitura. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho aparece não aceita responsabilidade legal pelo não cumprimento desse alerta.
Essa história tem as protagonistas inspiradas nas personagens de Xena e Gabrielle que são marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Elas são usadas aqui sem intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright.
Espero que gostem e desejo a todos uma boa Leitura!
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Por Acaso a Felicidade
Era início do mês de outubro de 1999 e a cidade de Santa Cruz do Sul se preparava para os festejos da Oktoberfest, festividade de origem germânica, trazida pelos imigrantes, e que conferia àquela região um encanto especial, atraindo visitantes das mais variadas localidades que vinham em busca de diversão e, obviamente, de um bom chopp. A cidade toda se preparava para a festa anual e as ruas ganhavam uma decoração que servia de pano de fundo para os desfiles dos carros alegóricos e das inúmeras bandinhas, grupos folclóricos e demais atrações da festa. Toda a cidade parecia sorrir feliz. Santa Cruz do Sul constitui-se em uma cidade de colonização alemã, onde os costumes, tradições e o folclore sempre foram mantidos pelos descendentes dos primeiros imigrantes, que desbravaram esta região do Vale do Rio Pardo, no centro do estado do Rio Grande do Sul.
Naquele ano de 1999 a cidade se apresentava como um mercado promissor para novos empreendimentos, quer pelo seu crescimento demográfico como pela economia em vias de expansão. Assim sendo várias empresas resolveram apostar naquele mercado, inclusive o Magazine Libanês, renomada loja de móveis e utilidades para o lar, cuja matriz em São Paulo procurava ramificar seus investimentos em outras regiões.
Já passava das dezenove horas quando Fernanda finalmente entrou na suíte que ocupava no Hotel Edelweiss, no centro da cidade. Definitivamente não se sentia bem. Sua cabeça pesava e uma sensação de náusea parecia fazer rodar o quarto à sua volta. Estirou-se na cama ampla, na esperança de que o mal estar fosse passageiro. No entanto, a cada minuto que passava sentia-se pior. Naquele momento desejou não estar só. Eram em situações como aquela que Fernanda sentia uma ponta de saudades do tempo em que ainda morava com seus pais. Mas ali estava ela, uma mulher independente, segura de si, sem nenhum compromisso com quem quer que fosse além dela própria. No auge dos seus 34 anos tinha conseguido a independência financeira e podia se dar ao requinte de morar naquela luxuosa suíte do Hotel Edelweiss.
Levantou-se e remexeu em sua bolsa à procura de um remédio para náuseas. Havia somente um pacotinho de sal de frutas, o qual ingeriu na esperança de melhorar aquela sensação horrorosa. Deitou-se novamente e após alguns minutos começou a sentir dores no ventre. Arrastou-se até o banheiro, sentindo o chão instável sob os pés.
Era domingo e Fernanda havia participado de um almoço de confraternização com os funcionários da loja que gerenciava, em comemoração aos aniversariantes do trimestre. Não havia bebido mais do que duas cervejas, no entanto sentia-se como se houvesse entornado um barril inteiro de wodka. Por certo comera algo que lhe fizera mal, embora não fizesse idéia do que fosse, talvez a esfirra de carne que comera na metade da manhã. Mal conseguiu chegar até o vaso sanitário, onde passou muito mal. Arrastou-se de volta para a cama e pegou o interfone:
- Portaria – disse uma voz cordial.
- Por favor, aqui é do 301, chame um táxi... preciso ir até o hospital... não me sinto bem...
- Pois não, senhorita Fernanda, imediatamente – respondeu o rapaz com a voz preocupada - Já estou subindo para ajuda-la.
- Está tudo bem, Otávio. Só estou com um pouco de mal estar... – respondeu Fernanda tentando amenizar sua situação – não se preocupe...
- Certo, certo, já estou chamando o táxi, senhorita.
- Obrigada.
Em menos de cinco minutos ouviu-se uma suave batida na porta do quarto 301:
- Senhorita Fernanda, o táxi já está aguardando lá embaixo. Posso ajuda-la a descer?
A porta se abriu e Fernanda respondeu:
- Muito obrigada, Otávio.
Fernanda nem havia trocado de roupa, estava com uma aparência péssima. Apoiou-se no jovem que lhe estendia a mão gentilmente e deixou-se conduzir até o veículo estacionado na porta do hotel. No táxi conseguiu contar a Otávio, embora sucintamente, o que sentia e este tentou tranqüiliza-la. Fazia seis meses que Fernanda residia no Hotel, desde que seu avô resolvera expandir os negócios da família e inaugurara uma filial do Magazine Libanês naquela cidade. Por questões de comodidade optou por instalar-se na confortável suíte 301 do Hotel Edelweiss, sendo que acabou por familiarizar-se com os funcionários do local. Fernanda tinha um temperamento extrovertido, porém era uma profissional bastante exigente. Seus subordinados acabavam desenvolvendo uma atitude de comprometimento e respeito por ela, uma vez que Fernanda sabia exatamente como dosar disciplina, dedicação e senso de justiça. Gerenciava o Magazine Libanês e seus funcionários tinham adoração por ela. Na verdade era quase que impossível conhecer aquela figura de porte elegante, pele morena e encantadores olhos azuis sem deixar-se cativar. Apesar disso, quando necessário, Fernanda era capaz de se impor em quaisquer situações e não admitia conviver ou trabalhar com pessoas nas quais não confiasse ou que tentavam tirar proveito de sua generosidade. Era uma mulher que exigia sempre transparência nas relações.
Otávio conduziu Fernanda pelo hall de entrada do Hospital, que se localizava nos fundos da Catedral, fazendo com que se sentasse enquanto se dirigia até a recepção. Ela mal conseguiu se lembrar de como entrou no Hospital, tamanha sua indisposição. Ainda na recepção tinha vaga lembrança de haver sido amparada por pessoas de uniforme branco, no momento em que se sentiu desfalecer.
Fernanda começou a ouvir vozes longínquas, porém permanecia com os olhos fechados. A sensação de dor e náuseas que sentia havia passado e uma agradável sonolência lhe impedia de abrir os olhos. Tentou lembrar-se do que havia acontecido, porém vagas imagens apareciam em sua mente, como flashes num filme antigo. Gradualmente porém, conseguiu recordar-se do que havia ocorrido. Lembrou-se que, ao entrar no Hospital, logo após chegar ao balcão da recepção sentiu o chão rodar e uma sensação de desmaio apagou todos os seus sentidos até aquele momento. Por certo foi Otávio quem forneceu seus dados na recepção. Ouvia um murmúrio de vozes ao fundo:
- Paciente apresentando sintomatologia compatível com quadro de intoxicação alimentar. A febre cedeu um pouco, mas ela permanecerá baixada, em observação. Aqui está a prescrição da medicação. Uma boa noite enfermeira.
- Boa noite, doutora. – respondeu uma voz melodiosa que fez com que Fernanda tentasse adivinhar quais lábios haviam pronunciado aquelas palavras.
Neste momento Fernanda sentiu um toque suave, de mãos quentes, em seu braço. Abriu os olhos e contemplou o mais belo par de olhos verdes que os seus já haviam visto.
- E então?... É caso perdido ou não?... – balbuciou sorrindo em voz baixa, ainda sob efeito de sedativos.
Aquela figura angelical retribuiu-lhe o sorriso e respondeu bem humorada:
- Depende... se tinha algum compromisso para hoje é caso perdido, caso contrário ainda resta uma esperança.
- Graças a Deus! – respondeu Fernanda, observando melhor aquela figura que lhe ministrava uma medicação pelo abocat colocado em sua mão.
Observou o quanto era graciosa aquela figura e questionou:
- Esse anjo da guarda tem nome?
- Valquíria.
- Amazona de Odin...
Valquíria levantou os olhos encarando Fernanda:
- A senhora conhece...
- Mitologia nórdica?... Com certeza. Mas "senhora" está no céu, me chame pelo nome.
- E qual é?
- Fernanda, se é que você já não bisbilhotou na minha ficha.
Valquíria sorriu e respondeu:
- Belo nome para uma moribunda...
- Que animador!
Fez-se um silêncio enquanto Valquíria verificava os sinais vitais de Fernanda. Fez algumas anotações num formulário e continuou:
- A senhora, digo, você vai passar a noite aqui conosco.
- Como assim? Eu vou para casa, quero dizer, para o hotel, amanhã é dia de trabalho...
Valquíria aproximou-se do leito e colocou sua mão na testa de Fernanda.
- A doutora que te atendeu não te deu alta, amanhã de manhã ela passa aqui pra conversar contigo. Olha, fica tranqüila, esta noite eu estou de plantão nesta unidade, qualquer coisa é só chamar, certo?
Fernanda sentiu o toque afetuoso daquela mulher em sua testa e nem pensou em contra argumentar. Na verdade tinha consciência de que estaria melhor ali. Além disso, estava gostando da idéia de ser cuidada por aquele anjo da guarda. Valquíria apagou a luz do quarto e saiu. Fernanda olhou em volta e a luz indireta do corredor permitiu que vislumbrasse em meio à penumbra um quarto decorado com um crucifixo sobre a cabeceira da cama e um quadro retratando flores na parede ao lado da porta. Havia apenas a sua cama e um armário embutido, além de um pequeno sofá e uma cadeira estofada num canto. Fernanda sentia-se bem melhor e adormeceu profundamente.
Na madrugada Valquíria adentrou no quarto e acendeu a luz de cabeceira para ministrar a medicação de Fernanda e verificar novamente seus sinais vitais. Percebeu que ela dormia profundamente e antes de toca-la parou ao lado da cama e se pôs a observar melhor aquela mulher que parecia entender bastante de mitologia. Os cabelos negros emolduravam o rosto anguloso. A boca simétrica tinha um contorno sensual e apesar da aparência abatida era a imagem de uma bela mulher, quase uma deusa, uma deusa grega, pensou Valquíria. Tais pensamentos a reportaram há anos atrás, quando ainda morava no orfanato, e olhara para uma colega com a mesma perspectiva com a qual analisava Fernanda naquele momento. Lembrou-se da atração que sentiu e dos contratempos gerados por aquela situação. Tratou de afastar aqueles pensamentos, pois lhe traziam lembranças desagradáveis.
Verificou a temperatura de Fernanda e sua pressão arterial, com muita delicadeza, tentando não despertar a bela adormecida de seu sono reparador. No entanto Fernanda entreabriu os olhos e deparou-se com Valquíria a fitá-la.
- E então, se sente melhor?
- Sim, bem melhor. Aquela sensação de náusea passou. Só tenho sono.
- A sonolência é por causa da medicação.
- Você poderia me alcançar um pouco de água?
- Claro. – respondeu Valquíria servindo um pouco de água num copo.
Valquíria levantou um pouco a cabaceira da cama e, suavemente, ajeitou o travesseiro nas costas de Fernanda para que a mesma ficasse numa posição confortável. Levou o copo com água até os lábios de Fernanda e esta ingeriu alguns goles.
- Que bom que as paredes pararam de se mexer... – brincou Fernanda.
- Pois é.
- Você deve estar pensando que eu tomei todas ontem, não é mesmo?
- De forma alguma, não costumo bisbilhotar a vida dos pacientes. – respondeu Valquíria cordialmente.
- Muito ético.
Valquíria sorriu.
- Mas o pior é que eu não bebi, antes tivesse enchido a cara!
As duas sorriram. Valquíria arrumou sua bandeja de materiais, baixou a cama de Fernanda, ajeitou novamente o travesseiro e preparou-se para sair.
- Você já vai?
- Já. Precisa de mais alguma coisa?
- Companhia. Você me acordou e perdi o sono. E quando perco o sono gosto de jogar canastra. – brincou Fernanda.
- Então vamos combinar assim: depois que eu atender a todos os outros pacientes, e caso tu consigas um baralho, eu volto para uma partidinha. – respondeu Valquíria sorrindo e franzindo o nariz encantadoramente.
Fernanda não pôde deixar de notar o quanto aquela mulher de uniforme branco era bela. Tinha por certo o mais belo sorriso que já vira.
- Você acha que na bodega aqui ao lado eles venderiam um baralho para uma mulher com um avental de bundinha de fora e arrastando um suporte de soro? – perguntou Fernanda fingindo seriedade.
- Acho difícil...
- Então vou tentar dormir e adiamos nosso joguinho para outro dia.
- Combinado. Se precisar de alguma coisa é só chamar, certo?
- Certo.
Valquíria apagou a luz de cabeceira e já estava saindo do quarto quando Fernanda chamou:
- Valquíria.
- Sim?
- Obrigada.
- Obrigada por que?
- Por tudo...
- Esse "tudo" é minha obrigação.
- Não... atender quem não está bem com dedicação e paciência é mais do que obrigação, é uma questão de postura.
Valquíria sorriu com meiguice e fechou a porta atrás de si. Fernanda fechou os olhos e não teve dificuldades em adormecer. Sonhou com uma cavalgada por entre as nuvens, onde uma amazona de Odin lhe acenava do alto de um cavalo branco.
Na manhã de segunda-feira, bem cedo, Fernanda despertou com a claridade que prenunciava os primeiros raios de sol, como fazia habitualmente. Por um momento teve o ímpeto de levantar-se, tomar seu banho e sair para a caminhada que fazia todas as manhãs, antes dos 50 minutos na academia. Porém logo se deu conta de onde estava e aquietou-se, aguardando pacienciosamente na esperança de que Valquíria fizesse a ronda em seu quarto. Não demorou muito para a porta do quarto se abrir.
- Que paciente comportada! Dormiu a noite toda. – disse Valquíria.
- Mas estou quase fazendo xixi na cama. Posso levantar e ir até o banheiro?
- Claro que pode. Vem, eu te ajudo.
Valquíria desconectou o equipo do soro, pois o mesmo estava quase terminando e ajudou Fernanda a levantar-se. Esta última ficou um pouco tonta e segurou-se no braço de Valquíria.
- Fica um pouco sentadinha que já passa essa tontura. – disse Valquíria segurando-a pelos ombros, com firmeza.
Logo Fernanda sentiu-se melhor.
- Tudo bem, agora acho que já consigo andar sem me estatelar no chão.
- Então vamos.
Valquíria percebeu que Fernanda já estava bem e deixou que entrasse sozinha no banheiro cuja porta ficava do lado esquerdo da porta de entrada do quarto. Aquela ala era a dos convênios e todos os quartos daquele andar eram pequenas suítes, simples mas bem equipadas.
- Não precisa fechar a porta. Se te sentires tonta me chama.
- Eu tô legal.
Ao retornar Fernanda disse:
- Não deviam colocar espelhos em banheiros de hospital. A gente fica com uma aparência péssima!
- Não exagera, tu não estás tão mal assim.
- Ótima enfermeira, mas péssima mentirosa. Eu tô sem um pente aqui, nem escova de dente eu tenho! Preciso voltar para o hotel.
- Daqui a pouco a Drª Maristela vem te ver e aí a senhorita dirá isso a ela... – respondeu Valquíria imaginando que Fernanda não teria alta naquele dia.
Mal havia acabado de dizer aquilo e a médica entrou no quarto, para revisar a paciente.
- Bom dia.
- Bom dia – respondeu Fernanda.
- Como está te sentindo?
- Melhor, bem melhor, pronta para voltar para o trabalho.
A médica sorriu e pegou a planilha da paciente para ver como havia passado a noite.
- É, o quadro está estável. Mas eu quero que permaneça ainda dois ou três dias em observação.
- O quê??? DOIS OU TRÊS dias?
- Sim. A informação que obtivemos é que tu moras no hotel, certo?
- É, moro.
- Não há uma pessoa que poderia ficar te cuidando, uma dieta adequada. Com certeza é um quadro de intoxicação alimentar e exige cuidados nessas primeiras horas.
- Mas eu tenho os meus compromissos profissionais.
- Encare como umas férias forçadas. Fique boa logo e logo retornará ao trabalho.
Fernanda percebeu pelo tom de voz da médica que não haveria possibilidade de negociação. Estava fadada a permanecer ali por mais um tempo. Olhou para Valquíria que as observava dos pés da cama e disse:
- Parece que você vai ter que conseguir um baralho, enfermeira.
Ambas sorriram, somente Drª Maristela não entendeu a piada. Despediu-se de Fernanda e saiu do quarto. Valquíria aproximou-se da cama e disse:
- Bom, eu também estou indo.
- Você volta à noite?
- Não, volto hoje à tarde. Meus plantões são os da tarde, essa noite fiz plantão extra. Parece que tu não vai te livrar de mim tão cedo.
- Bom, pelo prognóstico da doutora parece que ainda nos veremos um tempinho nessa situação.
- É, parece. – sorriu Valquíria – Cuide-se.
- Pode deixar.
Valquíria saiu do quarto deixando Fernanda perdida em seus pensamentos: "Bom, tudo tem um lado bom... ficando aqui mais dois dias vejo essa menina novamente...", e sorriu.
Valquíria foi direto para casa, tomou um banho, deitou-se e dormiu profundamente. Não chegou a buscar Nina na casa da vizinha, pois precisava dormir um pouco antes de voltar para o hospital. Nas ocasiões em que fazia plantão extra era Dona Eda quem levava Nina para a escola.
Fernanda passou a manhã bem e na passagem do plantão da tarde Valquíria foi até seu quarto para ver como estava.
- Eu me comportei direitinho. Não tentei fugir, comi uma gororoba horrorosa que me serviram sem reclamar e até já penteei o cabelo!
- Muito bem, a senhorita está de parabéns! – respondeu Valquíria.
- Eu liguei para o hotel e eles mandaram alguns pertences pessoais, e uma muda de roupas para quando eu tiver alta. E olha que eu estou até me acostumando com esse modelito sensual... – disse Fernanda em tom de brincadeira, referindo-se ao avental que todos os pacientes usavam.
Valquíria não pôde deixar de rir, pois realmente era estranho usar aquele traje com abertura nas costas. Mas mesmo assim Fernanda continuava bela. Valquíria não resistiu e fez o que muito raramente costumava fazer, uma pergunta pessoal para os pacientes que atendia:
- Tu moras no Hotel?
- Moro.
- Há quanto tempo?
- Desde que cheguei na cidade, seis meses.
- É estranho morar em hotel, não é?
- Já me acostumei. Meu ritmo de vida é muito corrido, não teria tempo para os cuidados que uma casa requer.
- Mas... e a tua família?
- São Paulo. São todos de lá.
Valquíria se deu conta que estava sendo muito invasiva e desconversou, sentindo-se constrangida. Pegou sua bandeja e dirigiu-se para a porta. Antes que pudesse sair foi Fernanda quem disparou:
- E você? É daqui mesmo?
- Sou.
E antes que Fernanda pudesse formular outra pergunta Valquíria sorriu amavelmente e pediu licença para se retirar:
- Tu já sabes, se precisar é só tocar a campainha.
- Eu sei.
Durante a tarde Valquíria entrou duas vezes no quarto de Fernanda, uma a pedido desta, outra para os procedimentos de praxe. Fernanda percebeu que aquele setor estava bastante movimentado naquela tarde. Soube que faltaram dois funcionários e os que estavam de plantão mal davam conta dos afazeres. Naquele final de tarde Valquíria não chegou a se despedir de Fernanda antes de sair, tamanha a correria. No início da noite Fernanda perguntou por ela e foi informada de que já havia saído. Uma ponta de tristeza invadiu aqueles olhos azuis. "Custava ter dado um tchauzinho?", pensou. Passou bem durante a noite e pela manhã sentia-se muito melhor. Ficou feliz quando Drª Maristela lhe disse que ficaria só mais um dia no hospital e que na manhã seguinte, se o quadro permanecesse como o apresentado até então, iria receber alta. Frente à perspectiva de retomar sua rotina percebeu-se pensando em Valquíria. O fato de provavelmente não voltar a vê-la deixou Fernanda com um sentimento de peso. No entanto, logo em seguida sorriu, pois se deu conta que Santa Cruz do Sul não chega a ser uma metrópole, portanto não seria tão inviável encontra-la casualmente na rua. Ainda mais que sabia dos seus horários de chegada e saída do hospital. "Mas o que é isso, Fernanda, perdeu a noção das coisas?", pensou consigo mesma, "essa garota tem a vida dela, e eu a minha, e ponto final". Ainda perdida nesses devaneios Fernanda escutou uma voz conhecida logo atrás dela:
- Oi, soube que esta paciente esteve tão comportada que provavelmente terá alta amanhã.
Fernanda virou-se e percebeu aquela figura conhecida sorrindo amigavelmente para ela.
- Pois é...
- Fico feliz que esteja bem.
- Acho que vou sentir falta desse paparico, ein?
Valquíria sorriu timidamente, baixando os olhos.
- Vamos verificar essa temperatura e pressão arterial?
- Aposto que estou melhor que você!
- Não duvido. Sua carinha está muito melhor hoje.
Valquíria fez algumas anotações na planilha médica e preparava-se para sair.
- Hoje você passará aqui antes de sair? Gostaria de me despedir, pois amanhã à tarde provavelmente não estarei aqui.
Valquíria fitou Fernanda nos olhos e esta sustentou o olhar. A primeira sorriu afetuosamente e respondeu:
- Passo sim. Ontem não passei porque o dia realmente foi muito estressante, e eu tinha um compromisso importante.
- Está perdoada. – respondeu Fernanda controlando sua vontade de perguntar qual compromisso seria.
Valquíria saiu do quarto e Fernanda perdeu-se novamente em seus pensamentos: "deve ter saído com algum namorado...", "aliança ela não usa...", "mas e eu com isso!". Fernanda ligou para o Hotel e falou com Otávio pedindo-lhe um favor. Não havia passado ainda duas horas e o rapaz chegou até o Hospital portando uma encomenda para Fernanda. Foi até o quarto e esta lhe agradeceu o favor prestado.
- Fico te devendo essa, Otávio.
- Que é isso dona Fernanda, a senhora não me deve nada não. Até amanhã.
No final da tarde, conforme o prometido Valquíria passou no quarto 209 para se despedir de Fernanda. Sentia um misto de felicidade pelo restabelecimento dela e uma ponta de angustia por não mais encontrar aqueles olhos azuis expressivos, sempre dispostos, e aquele bom humor habitual difícil de ser encontrado, principalmente num ambiente como aquele.
- Promessa é dívida! Aqui estou para te dar tchau. Fico feliz que esteja bem.
- Aposto que vai sentir saudade... – disse fitando Valquíria diretamente nos olhos, deixando-a um pouco desconcertada e emendando logo em seguida – afinal não é sempre que deve aparecer uma paciente exemplar e comportada como eu.
- É verdade. Vou sentir falta sim.
- Mas a cidade é pequena, a gente se topa por ai qualquer hora dessas. Olha só, eu queria te dar um presentinho, por favor não repare. – disse Fernanda estendendo um vaso com violetas azuis.
- Não precisava... mas são lindas. Muito obrigada.
Valquíria não pôde deixar de reparar que o azul das flores era da mesma tonalidade que o azul dos olhos de Fernanda. Sorriu feliz.
- Se você quiser, qualquer hora dessas, conhecer a loja que eu gerencio, apareça lá. É o Magazine Libanês.
- Já passei pela frente inúmeras vezes, mas nunca entrei. É uma loja muito sofisticada para o meu poder aquisitivo.
- Mas passa lá pra gente tomar um cafezinho... quando não tiveres nenhum compromisso no final de tarde... – disse Fernanda na esperança de descobrir onde Valquíria estivera ontem.
- Quando der eu passo sim. Se não tiver nenhuma apresentação de flauta doce para assistir... – respondeu saindo do quarto e deixando Fernanda curiosa com a resposta.
Fernanda sorriu e pensou: "hummm... amante da música..." .
Valquíria caminhava pelo longo corredor do Hospital com seu vaso de violetas. "Elas ficarão lindas na janela da cozinha", pensava, "Nina vai gostar".
Conforme o esperado na manhã seguinte Fernanda teve alta e retornou para suas atividades normais já na tarde daquela quinta-feira. As duas semanas que se seguiram foram bastante tumultuadas, exigindo a dedicação exclusiva de Fernanda na loja. Valquíria não havia cumprido ainda a sua promessa de passar na loja para tomar um cafezinho. Não foram raras as vezes em que Fernanda pensava nela. Fazia algum tempo que não direcionava suas idéias para mulher nenhuma. Nos últimos quatro anos não havia tido nada mais do que flertes, casinhos passageiros sem nenhum tipo de compromisso nas entrelinhas, isso ainda em São Paulo. Desde que chegou a Santa Cruz do Sul nem isso. A inauguração e o gerenciamento daquela nova filial estavam consumindo todo seu tempo disponível. No entanto, desde que conheceu Valquíria, esse seu lado passional começou a aflorar novamente. As vezes sentia vontade de revê-la. No dia em que precisou comparecer ao Hospital para consultar com a Drª Maristela, para uma revisão, marcou propositalmente para o turno da tarde. Para sua decepção porém, ao passar no setor de Valquíria, informaram que ela estava de folga.
Quando Valquíria assumiu seu plantão na tarde daquela quinta-feira e entrou no quarto 209 não era o belo par de olhos azuis, com os quais já havia se acostumado, embora há tão pouco tempo, que lhe sorriu. A nova paciente era uma senhora de mais de oitenta anos a qual Valquíria recepcionou com a simpatia e a meiguice que lhe eram habituais. Nos dias que se seguiram também se surpreendeu em vários momentos com o pensamento direcionado para aquela figura morena e imponente com a qual havia convivido profissionalmente por tão pouco tempo, mas que lhe despertava desejos que não ousava admitir para si mesma. Nessas ocasiões lhe afloravam recordações amargas de tempos passados...
O domingo, dia 24 de outubro, amanheceu ensolarado. Como de costume Fernanda acordou cedo e saiu para caminhar. Andou por mais de duas horas, retornou ao hotel, tomou um banho e logo depois o seu café da manhã. Havia dito a si mesma que naquele dia não pensaria em trabalho. Precisava descansar. Por volta de dez horas da manhã resolveu sair novamente, desta vez para passear. A cidade estava em plena Oktoberfest e Fernanda resolveu borboletear pela praça central.
Logo em frente à Catedral de estilo gótico, com suas duas torres como que perfurando o firmamento e direcionadas ao infinito, descortinava-se a paisagem da praça central, com seu lago e chafariz ao centro e toda arborizada ao redor. No final uma pracinha com brinquedos para a criançada, ao lado dos sanitários. Vários bancos de madeira e de pedra circundavam a praça e encontravam-se posicionados estrategicamente sob a sombra das árvores, a fim de proporcionar aos freqüentadores do local uma opção de descanso enquanto observavam a alegre movimentação do local e da rua principal. A praça estava bastante movimentada, muitos ônibus repletos de turistas aportaram na cidade para desfrutar dos festejos da festa do chopp. Fernanda caminhava vagarosamente ao lado do chafariz quando avistou uma figura conhecida sentada na sombra de uma árvore e lendo um livro distraidamente. Reconheceria aquele perfil onde quer que fosse e sentiu seu coração disparar um pouco. Valquíria estava absorta em sua leitura e nem percebeu a aproximação de Fernanda. Somente quando esta última parou à sua frente e lhe cumprimentou é que levantou os olhos.
- Bom dia meu anjo da guarda.
Valquíria abriu um de seus sorrisos mais cativantes e respondeu:
- Ótimo dia agora! É bom revê-la, e tão bem disposta.
- Posso sentar?
- Claro! – respondeu Valquíria chegando mais para o canto do banco. – Passeando um pouco?
- É. Fiz um propósito de tirar o dia de folga. Folga mesmo! Sem nem sequer lembrar que a loja existe. Aliás, fiquei esperando a sua visita para um cafezinho.
- Pois é... não deu ainda. Também ando numa correria neste fim de ano.
- Família?... – bisbilhotou Fernanda.
- É...
Neste momento uma vozinha gritou ao longe, e fez com que Valquíria se virasse para responder:
- POSSO TIRAR O TÊNIS?...
- NÃO...
Fernanda virou-se também e avistou uma figurinha aparentando 4 ou 5 anos de idade, cabelos castanho claros com alguns reflexos dourados, cacheados, que lhe caíam sobre os ombros quase até a cintura, pele clara e olhar maroto. Insatisfeita com a resposta a menina correu até elas e argumentou:
- Mas eu tô com calor no pé!
- Mas, descalça tu pode machucar os pés. Tem muita pedra em volta, e os cachorros fazem as necessidades no chão. Tu bem sabes...
Nesse momento a menina olhou para Fernanda e sorriu de orelha a orelha:
- Ooooi!!!
- Olá! – respondeu Fernanda observando o quanto era belo o sorriso e o olhar daquela menina. Tinha olhos castanhos, e seus cílios eram escuros, longos e curvos, emoldurando aquelas pequenas janelinhas de ver o mundo. Algumas sardas pontilhavam seu nariz pequeno e arrebitado.
Valquíria tratou de fazer as apresentações:
- Fernanda, esta é a Nina. Nina, Fernanda, uma... amiga minha.
- Muito prazer, Fernanda, como tu é bonita!
Fernanda não pôde deixar de sorrir da espontaneidade de Nina:
- Bondade tua. Você é que é linda. – respondeu colocando o dedo na ponta do nariz suado da criança.
- Já que eu não posso tirar o tênis vou voltar para o balanço. – disse Nina já se preparando para sair correndo.
- Peraí mocinha... vem cá prender esse cabelo.
Nina ficou de costas para Valquíria que puxou o cabelo da menina num rabo-de-cavalo, prendendo-o com um elástico colorido que tinha ao redor do pulso.
- Pronto, pode ir.
Nina disparou igual um raio, subindo no balanço com a rapidez e a agilidade que somente os primeiros anos da infância nos conferem. Fez-se um pequeno silêncio, quebrado por Fernanda:
- É sua filha?
- É... não... quero dizer, é sim.
- Como assim? – quis saber Fernanda.
- Hoje eu sou a mãe dela. Desde que a mãe biológica dela morreu eu fiquei com ela.
- E faz tempo?
- Quase dois anos.
- Deve ter sido uma barra pesada para ela...
- Se foi! Mas ela é uma criança bem resolvida, e feliz.
- E... e o pai dela?... quero dizer... o seu... marido?
Valquíria sorriu divertindo-se com o gaguejar de Fernanda.
- Eu não sou casada.
- Mas deve ter namorado...
- Não tenho não, somos só Nina e eu mesmo. E a Pipoca.
- Pipoca?
- É. Nossa cachorrinha, o xodó da Nina.
- Ai, desculpe pelo interrogatório, não quis ser invasiva, foi só curiosidade, desculpe.
- Tudo bem. Mas e tu?
- Bom, eu estou morando no hotel, como você já sabe, e é o melhor para mim, pelo menos por enquanto. E vivo só. Eu e Deus.
- E como vai a tua saúde? Te recuperaste bem mesmo?
- Sim. Voltei para uma revisão e fui dada como nova em folha pela Drª Maristela!
- Eu fiquei sabendo.
- Como? – questionou Fernanda.
Desta vez foi Valquíria quem gaguejou:
- É... é que... que me disseram que havias me procurado.
- Verdade. Passei no teu setor para te dar um oizinho.
- Eu estava de folga.
- E hoje, também está?
- Estou. Mas não se consegue ficar em casa num domingo ensolarado com uma criança pequena... – respondeu sorrindo.
- Olha só... vocês não gostariam de almoçar comigo?
- Não quero incomodar...
- Mas não é incômodo algum, muito pelo contrário, me daria uma grande satisfação.
Valquíria baixou os olhos e sorriu timidamente.
- Tudo bem. Acho que a Nina vai adorar, ela está sempre pronta para um programa diferente na sua rotina. Até aula de flauta ela faz!
- O conserto de flauta doce... – disse Fernanda pensativa, mais para si mesma do que para sua interlocutora.
- Como?...
- Nada, nada não. E onde as senhoritas gostariam de almoçar?
- Qualquer lugar, tu escolhe.
- Dia desses eu almocei naquele restaurante lá no Parque da Gruta dos Índios, conhece?
- Conheço. É bom mesmo.
Nesse momento Nina chega até elas novamente, correndo esbaforida com uma bola de futebol na mão, a qual havia deixado até então ao lado dos balanços.
- Devagar, menina, não precisa levantar poeira.
Nina gargalhou e sentou-se, enfiando-se entre elas, colocando a bola no colo.
- Você gostaria de almoçar comigo hoje? – perguntou Fernanda para a pequena.
Os olhinhos de Nina brilharam, porém antes de responder olhou para Valquíria como que pedindo uma autorização para aceitar o convite. Valquíria assentiu sorrindo e Nina respondeu:
- Adoraria!!!
- Então acho que mereço um beijinho e um abraço, não mereço? – disse Fernanda.
- Fernanda, essa menina está toda suada, olha só a sujeira da roupa...
Antes porém que Valquíria terminasse a frase Nina havia se jogado nos braços de Fernanda, envolvendo-a pelo pescoço e sapecando-lhe um beijo estalado na face. Fernanda colocou a pequena em seu colo e perguntou:
- E essa bola aí? É só enfeite ou você sabe jogar alguma coisa.
- Eu jogo futebol na escola. Sou centroavante! Mas final de semana não tenho com quem treinar... – respondeu fazendo uma careta de deboche e reprovação para Valquíria.
- Nossa, que problemão!!! Mas isso a gente resolve fácil. – respondeu Fernanda colocando Nina no chão e pegando a bola que estava no banco – hoje eu treino contigo, campeã.
As duas saíram correndo atrás da bola chutada por Fernanda, ante o olhar perplexo de Valquíria. Passado o choque inicial Valquíria não conseguiu deixar de se divertir com a cena. Fernanda era uma mulher muito alta e Nina um toquinho de gente. Apesar de já contar cinco anos de idade era magra e miudinha. As duas trocavam passes e quando tentavam driblar e tirar a bola uma da outra Fernanda precisava cuidar para não atropelar Nina, ou pisar nela. Era engraçado ver aquela cena, pensava Valquíria, afinal Fernanda era uma mulher de fino trato, uma gerente de loja. E naquele momento parecia que as duas tinham a mesma idade. Reparou que Fernanda vestia um abrigo em tom azulado com listas laterais coloridas, justo, que deixava transparecer os contornos de suas pernas longas e bem malhadas. Usava uma camiseta branca, também justa e tinha os cabelos presos num coque. Naquela altura, porém, o coque já havia se desfeito e os cabelos pendiam soltos na testa agora molhada de suor. Nina também estava com os cabelos desgrenhados e suados. Valquíria havia fechado o livro que estava lendo e o colocou em sua sacola, uma vez que havia perdido totalmente o interesse pela leitura, pelo menos naquela manhã. Quando Fernanda e Nina resolveram voltar para junto dela sentaram-se lado a lado, encharcadas de suor e ofegantes devido ao esforço físico.
- Preciso beber alguma coisa... – disse Fernanda com a respiração entrecortada.
- Eu também. – disse Nina.
Valquíria sorriu e disse:
- Descansem um pouco madames, eu vou buscar uma água mineral para as duas. – e levantou-se caminhando em direção ao bar do quiosque central.
- Sem gás! – gritou Fernanda.
Em menos de cinco minutos Valquíria retornou com duas garrafas de água e quatro canudinhos.
- Essa perna de pau tem muito o que aprender comigo – provocou Fernanda em tom de brincadeira.
- É, mas eu corro muito mais! – respondeu Nina sorridente – E canso menos!
- Tá bom... mas no drible eu sou melhor.
- Mas eu aprendo rápido.
- É garota, com esse pique teremos uma futura jogadora da seleção feminina de futebol das olimpíadas de 2012. – disse Fernanda.
Nina sorriu contente e assentiu com a cabeça. Elas pegaram a água e sorveram avidamente.
- Se pretendemos realmente almoçar juntas quem sabe eu levo essa moleca para casa, ela precisa de um banho... – disse Valquíria.
- Eu não sou a única... – respondeu Nina debochadamente.
- É verdade! – assentiu Fernanda – Vamos fazer o seguinte: eu vou para o hotel, me arrumo e pego vocês em casa ao meio dia, pode ser?
- Pode!!! – respondeu Nina.
- Nina, eu acho que a pergunta foi pra mim... – disse Valquíria em tom de reprovação.
- Desculpa então.
- Tudo bem, senhorita afoita. Pode ser sim, Fernanda.
- Aonde é que vocês moram?
- É aqui pertinho, umas seis quadras. Indo aqui pela rua principal, depois do quiosque, é a quarta rua à esquerda. Aquela da sorveteria na esquina.
- Sei. – respondeu Fernanda.
- É no número 921. Quer anotar?
- Não precisa. Minha memória é muito boa. Bem melhor que a minha capacidade de correr... – disse Fernanda cutucando Nina no braço.
A menina deu uma gargalhada e abraçou Fernanda, enlaçando-a pelo pescoço e pendurando-se nela igual um sagüi.
- Nina... – disse Valquíria – tu tá toda suada... não incomoda a Fernanda.
- Deixa ela – respondeu Fernanda retribuindo o abraço apertado – eu estou mais suada do que ela...
Valquíria sorriu e pegou a menina pela mão. Despediu-se de Fernanda:
- Então, até daqui a pouco.
- Até. – respondeu Fernanda.
- Tchau Fernanda! Eu vou ficar te esperando, tá? – disse Nina efusivamente colocando sua bola em baixo do braço. – Não demora!
- Tá. – sorriu Fernanda – Eu não demoro não, campeã.
Fernanda ainda observou Valquíria e Nina caminhando de mãos dadas rua abaixo. Nina ia saltitante e quase na esquina ela se virou, soltou a mão de Valquíria e acenou para ela, que retribuiu o aceno. Fernanda levantou-se e caminhou até o Hotel Edelweiss. Estava feliz por haver reencontrado Valquíria. Também havia simpatizado muito com Nina. Talvez pelo fato da personalidade da menina lembrar a dela própria naquela idade. Tratou de tomar um banho, colocar uma bermuda e uma camiseta, calçar um par de tênis e pegar o carro na garagem do hotel. Pontualmente as doze horas buzinou em frente ao número 921 e viu uma figura diminuta, branca e quadrúpede disparar em sua direção vinda de dentro da casa. Era pipoca que latia dando sinal de que havia gente chegando em casa.
Fernanda observou que se tratava de uma construção antiga, uma casa geminada cuja parede da frente se localizava exatamente na divisa entre o terreno e a rua, sem nenhum espaço de pátio frontal. Havia somente duas janelas estreitas com venezianas de madeira que davam para a rua. Ao lado um corredor também estreito levava a uma porta de acesso lateral, que vinha a ser a entrada principal da casa. Por esse corredor era possível ver que nos fundos do terreno havia um pequeno pátio com algumas árvores, e muitas folhagens pendiam naquela restrita viela que levava aos fundos da casa.
Com os latidos de Pipoca anunciando sua chegada Fernanda viu o rostinho de Nina espiando na janela da frente e acenando para ela:
- A gente já tá indo!
Fernanda acenou de dentro do carro num sinal de que havia entendido e que aguardaria por elas. Em menos de dois minutos a porta lateral se abriu e Nina assoviou para Pipoca, que já havia acabado de latir e àquela altura do campeonato sacudia o rabo efusivamente na direção do carro como que para dar as boas vindas à Fernanda. A cachorrinha correu na direção de Nina que a colocou para dentro de casa fechando a porta. Após correu na direção do portão. Vestia um macacão curto, estilo jardineira, de jeans alaranjado e um top branco com detalhes em laranja nas mangas por baixo. Calçava um par de tênis brancos, e uma meia soquete cor de laranja. O cabelo fora lavado e estava solto sobre os ombros, ainda molhado. Uma travessa branca com florzinhas amarelas segurava-lhe o cabelo para que não caísse em seus olhos. Estava de fato uma gracinha. Fernanda saiu do carro, um gol com o logotipo da firma que gerenciava discretamente estampado na lateral do veículo, e abriu os braços para Nina que pulou em seu colo beijando-lhe as faces.
- A Val já vem. Ela demora pra se arrumar... nunca vi tão enrolada! Parece uma dondóca.
Fernanda não pode deixar de rir.
- Mas em compensação a senhorita é rapidinha.
- Alguém tem que ser rápida nessa casa, né?
- Tá certo! Mas a "dona rapidinha" está muito bonita, huuummm e perfumada.
- Eu tomei banho!
- Eu também.
- Quando é que a gente vai jogar futebol de novo?
- Pode ser hoje mesmo, vai pegar a bola pra gente levar junto.
Nina deu uma gargalhada de satisfação e saltou do colo de Fernanda. Valquíria já vinha saindo e Nina entrou em casa quase que a atropelando.
- O que é isso, menina?
- Vou pegar a minha bola!
- Deixa essa bola em casa.
- Mas foi a Fernanda que disse pra eu pegar – respondeu já dentro de seu quarto.
Novamente passou por Valquíria como um foguete, com a bola embaixo do braço e enfiou-se para dentro do carro de Fernanda. Valquíria fechou a porta da casa e caminhou até o portão.
- Pontualidade britânica – disse Valquíria.
- Uma das minhas qualidades. – respondeu Fernanda sorrindo.
- Parece que uma certa caroneira já se instalou. – disse Valquíria olhando para Nina que a encarava sorridente.
- Pois é... – respondeu Fernanda. – Mas vamos lá então.
O Parque da Gruta dos Índios não ficava muito longe e elas foram direto para o restaurante. O local estava bem movimentado devido aos turistas, e tiveram alguma dificuldade para estacionar. Por fim conseguiram uma vaguinha à sombra, quando um carro manobrou para sair do parque. Optaram por pedir um filé da casa, cuja porção alimentava com fartura três adultos. De sobremesa Nina quis sorvete de morango. Após o almoço caminharam pelo parque, cuja vegetação fornecia uma sombra acolhedora que abrandava o ardor do sol daquele dia de primavera.
- Você quer andar no teleférico, Nina? – perguntou Fernanda.
- Eu quero!
- Bom, eu espero vocês aqui. – disse Valquíria instalando-se num banco de madeira à sombra densa de uma copa de árvore, bem defronte ao lago onde patos e gansos nadavam languidamente e algumas capivaras aproveitavam para tomar um banho de sol dentro dos limites do lago.
- A gente volta daqui a pouco, então. Tchauzinho... – acenou Nina pegando Fernanda pela mão.
A dupla entrou na fila do teleférico e subiu até quase a entrada das cavernas. Nina quis entrar nas grutas de pedras e mostrava à Fernanda os lugares que já conhecia de outras visitas com a turma da escola. Depois de quase quarenta minutos desceram novamente e encontraram Valquíria que observava a natureza à sua volta.
- E então, desbravadoras! Encontraram algum homem das cavernas? – brincou Valquíria.
- Nãããooo... e nem a macaca Chita... – respondeu Nina debochada.
- Graças a Deus! Senão era mais um bichinho de estimação que faria companhia à Pipoca! – disse Valquíria.
- Demoramos muito? – questionou Fernanda.
- Não, eu me distraí observando o movimento e nem vi o tempo passar.
Perto de onde elas estavam havia uma pracinha com alguns brinquedos bem rústicos, construídos com paus de eucalipto e cordas. Nina pediu para brincar:
- Posso ir nos brinquedos?
- Pode. Mas te cuida. – respondeu Valquíria.
Nina disparou e subiu no escorregador pela escada de cordas. Fernanda sentou ao lado de Valquíria.
- Essa garota é sempre serelepe assim? – perguntou Fernanda.
- Não. Só quando está acordada.
Ambas riram.
- Na verdade ela é um encanto. Apesar de ser muito ativa ela é bastante obediente. Não tenho problemas com ela não.
- Ela não tem mais ninguém?
- Não. A mãe dela foi criada no mesmo orfanato que eu, aqui em Santa Cruz. Nos reencontramos há três anos, quando eu voltei para a cidade e fui trabalhar no Hospital. A mãe dela trabalhava na limpeza e Nina tinha dois anos nessa ocasião. O pai dela, segundo a mãe me contou, foi embora antes dela nascer e nunca mais apareceu. Ela tem uma tia paterna que também trabalha no setor de limpeza do hospital, mas nunca sequer pergunta como ela está, acho que é porque ela e a mãe de Nina não se davam. Nina é registrada só no nome da mãe. E essa tia é como se não existisse. Na verdade Nina nem a conhece.
- Mas com certeza você consegue suprir a falta que Nina deve sentir da mãe. Ela aparenta ser uma criança de bem com a vida.
- E é. Quando a mãe dela morreu eu nem pensava em ter filhos... foi bem complicado...
- Imagino.
- Mas aí eu me coloquei no lugar dela... é muito triste crescer sem uma figura materna de referência, e eu falo por experiência própria.
- Imagino... A mãe dela morreu de repente?
- Sim. Atropelamento. Eu estava de plantão naquele dia. Quando ela deu entrada ainda estava viva e me pediu para cuidar de Nina caso algo lhe acontecesse. E foi a última coisa que disse.
- Eu imagino a tua situação.
- Não imagina, não. Acho que ninguém consegue imaginar. Eu é que fui busca-la na creche e conversei com ela sobre a morte da mãe. Nunca vou esquecer o olhar daquela criança me perguntando se a mãe voltaria para vê-la um dia, e onde ela iria morar. A fragilidade daquele olhar me fez leva-la para casa. E hoje sou eu que não vivo mais sem ela.
Fernanda olhava para Valquíria com afeto e admiração.
- Valquíria, você realmente é uma pessoa especial.
- Que é isso? Qualquer pessoa na minha situação faria o mesmo.
- Não sei...
- E além do mais agora eu tenho uma família.
- Você não conheceu seus pais?
- Lembro vagamente da minha mãe. Meu pai teve um caso extraconjugal com minha mãe e mudou-se para Fortaleza quando eu tinha dois anos. Nunca mais soube dele. Ficamos minha mãe, eu e minha irmã mais velha, com cinco anos na época. Dois anos depois minha mãe morreu e fomos para o orfanato aqui mesmo em Santa Cruz. Minha irmã que era bonita e mais saudável foi adotada. Eu era uma coisica horrorosa, de pernas finas e aparência entisicada. Acabei ficando no orfanato e quando minha aparência melhorou eu já havia passado da idade de adoção.
Fernanda ficou calada. Não sabia o que dizer naquela situação. Resolveu que o melhor seria só ouvir.
- Aí eu cresci, estudei, fui para a capital... – Valquíria fez uma pausa como que tendo uma recordação ruim – e voltei para Santa Cruz de novo.
- Porque você voltou?
- Não sei bem... um pouco de cada coisa... necessidade de voltar às minhas raízes, desilusão amorosa, saída do emprego, lance de grana... de tudo um pouco. Aí estava me organizando por aqui quando adotei a Nina. Precisei trancar a faculdade e estamos aqui... batalhando.
- Qual faculdade?
- Odonto. Parei faltando dois semestres.
- E porque você não termina?
- Tem o lance da grana e o do tempo. Tenho feito muito plantão extra no hospital.
- E quem fica com a Nina?
- A dona Eda, minha vizinha e dona da casa que eu alugo. Ela e o Seu Arno são um casal de idosos, sem filhos, e adotaram a Nina como neta. Eles me ajudam bastante. Aliás eu nem sei o que faria se não fossem eles. Mas a Nina tem o seu mérito, ela é uma criança cativante.
- É mesmo! – concordou Fernanda.
- Mas desculpe se eu estou falando tanto de mim...
- Tudo bem... eu que perguntei.
- Mas, e tu Fernanda? Não sente falta da tua família.
- Sim e não. Sim, às vezes sinto bastante... mas sempre fui muito independente. Saí de casa com dezenove anos e desde então eu sou dona do meu nariz. Nunca gostei desse negócio de compromisso. Já vivi com duas pessoas, e acabei voltando para a minha maravilhosa vida de solteira. – sorriu – Minha família toda mora em São Paulo, capital, menos o meu avô que mora numa fazenda em Sete Barras. E hoje o destino me trouxe até aqui! E eu estou adorando.
- A cidade?
- E a companhia. – respondeu Fernanda encarando Valquíria que baixou os olhos e sorriu timidamente.
- Obrigada pela parte que me toca.
- De nada. Mas você fez por merecer, afinal cuidou tão bem de mim.
- Eu já disse que não fiz mais que a minha obrigação.
- E eu já disse que fez. Foi sensível, pacienciosa e amável. Mas não cumpriu uma promessa.
- Que promessa? – quis saber Valquíria, curiosa.
- Você me deve uma partida de canastra. Tá com medo de uma derrota vergonhosa?
- De forma alguma. Aliás, preciso mesmo de uma parceira para os jogos de canastra com a dona Eda e o Seu Arno.
- Aahhh... me quer como aliada e não como adversária?...
- E eu sou boba? Com essa tua lábia é capaz de me fazer perder as calças.
Ambas tiveram que sorrir.
- E quando vai ser esse confronto? E valendo o quê? – quis saber Fernanda.
- Costumamos jogar um carteadinho nas sextas-feiras, quando eu não estou de plantão. Vale desde balas de goma até bolachinhas recheadas. Mas é Nina quem acaba comendo todo o lucro da noite, qualquer que seja o vencedor.
Fernanda riu muito:
- Muito promissor esse joguinho, ein? Sou capaz até de ficar viciada.
- É um risco...
- Mas eu topo ser a tua parceira nessa jogatina só se você passar na loja durante a semana para saldar a tua outra dívida.
- O cafezinho...
- Pois é. E então?
- Tudo bem. Eu passo sim, antes de sexta-feira.
- Combinado então.
Nesse momento Nina veio correndo até elas, o cabelo esvoaçante e a testa suada.
- Tô com sede!
- Vai até aquela barraquinha e compra água mineral pra gente – disse Valquíria estendendo uma nota de dez reais para a menina.
- Quer que eu te ajude? – perguntou Fernanda.
- Não precisa, não. Pode ficar aí que eu trago a água pra gente. – e saiu correndo de novo.
- Devagar! – gritou Valquíria.
Nina se virou e perguntou bem alto:
- Copinho ou canudo?
- Pra mim copo! – Respondeu Valquíria.
- Dois! – emendou Fernanda.
Nina se dirigiu saltitante até a barraquinha de bebidas.
- Eu fico impressionada com a desenvoltura dessa garota. – disse Fernanda.
- Tu não viu nada ainda.
- Ela é muito decidida, parece ter mais maturidade do que a idade cronológica.
- Dizem que a dor ensina a gemer... Nina precisou aprender a se virar sozinha desde pequena, eu passo muito tempo no hospital. A mãe dela também trabalhava muito.
- Mas isso com certeza é da personalidade dela.
- É, pode ser.
Nina voltou até elas com uma sacolinha plástica contendo três garrafas de água mineral, dois copos de plástico e dois canudinhos. Tratou de distribuir as garrafas e os copos. Ficou com os canudos.
- Íííí... eu esqueci de perguntar se vocês queriam a água com gás, e trouxe todas sem.
- Tudo bem, tá ótimo assim. – respondeu Fernanda – você não quis pegar refrigerante?
- A gente tem um combinado... – disse Nina direcionando o olhar para Valquíria - ...que eu só tomo refri nos domingos, ou em festas, que é pra não cariar os dentes, e nem ter celulite.
Fernanda não conseguiu evitar uma gargalhada frente à preocupação de uma criança de cinco anos de idade com celulite.
- Mas hoje é domingo! – disse Fernanda.
- Pois é... – respondeu Nina - ...só que ontem eu tomei, e era sábado. Tô compensando hoje. Combinado é combinado!
- Gente... essa menina não existe! – riu Fernanda abraçando e dando um beijo na testa de Nina.
- Vamos jogar bola??? – perguntou Nina animadamente.
- Nina... a Fernanda quer descansar. – retrucou Valquíria.
- Descanso de noite. Vamos bater uma bolinha sim, quinze minutos, ok?
- Ok!
- Mãe, joga com a gente?
- Só quinze minutinhos? – questionou Valquíria.
- Só...
- Tá bom então. – respondeu Valquíria que na verdade se derretia toda quando Nina a chamava de mãe.
Era engraçado, às vezes Nina a chamava pelo apelido, Val. Outras vezes de mãe. Valquíria nunca havia dito à Nina como ela deveria lhe chamar, um belo dia, porém foi a própria menina que perguntou se poderia chamá-la de mãe. Foi um processo natural, sem cobranças nem imposições. Certamente era por isso que a relação das duas era tão autêntica.
Os quinze minutos de jogo se estenderam por mais de uma hora. Em determinado momento Valquíria se jogou no gramado e exclamou:
- Falta!
- Não faz cena, ninguém encostou em ti... – respondeu Fernanda ofegante.
- Falta... de condições de continuar de pé!!!
Fernanda também se jogou no chão ao lado de Valquíria, rindo e sentindo suas pernas pesadas de tanto correr, isso que era habituada a fazer exercícios físicos. Nina saltou sobre elas e abraçou o pescoço de Valquíria, gritando:
- Ganhei, ganhei!!!
Fernanda puxou Nina para seu lado e fez cócegas em sua barriga fazendo a garota gargalhar e se retorcer no chão.
- Eu te dou "ganhei"... – disse Fernanda enquanto fazia cócegas em Nina.
Finalmente as três se esticaram lado a lado no chão, no meio do gramado verde bandeira, sentindo os batimentos cardíacos pouco a pouco voltarem ao normal. Recuperadas ainda caminharam pelas trilhas, encheram a barriga com sorvetes, doces e cachorro-quente, andaram de pedalinho no lago, brincaram de esconde-esconde nas grutas e observaram os animaizinhos do parque. A tarde passou sem que elas percebessem o correr das horas. Quando o sol se pôs no horizonte perceberam que já estava ficando tarde. O horário de verão atrasava em uma hora o poente, aumentando o dia e diminuindo a noite, porém a lembrança da segunda-feira fez com que Valquíria sugerisse retornarem para casa. Já anoitecia quando Fernanda estacionou o carro em frente a casa de Valquíria e Nina. Desembarcaram, e a menina deu um abraço apertado e um beijo em Fernanda e disse:
- Obrigada pelo passeio, eu adorei. Agora vou soltar a Pipoca, senão ela faz xixi dentro de casa e sou eu quem tenho que limpar!
- Nada mais justo, a cadela é tua. – respondeu Valquíria.
Nina deu mais um beijinho em Fernanda e entrou correndo em casa. Antes de entrar Valquíria sorriu para Fernanda:
- Obrigada pela companhia, foi uma tarde maravilhosa.
- Eu digo o mesmo. Vou te esperar para um cafezinho na loja, ein? Antes de sexta-feira.
- Tá. Eu passo lá sim. Talvez na quarta ou na quinta-feira.
- Vou esperar. – respondeu Fernanda entrando no carro e girando a chave na ignição.
Valquíria esperou no portão até que o carro dobrasse a esquina. Pelo retrovisor Fernanda pode ver a silhueta pequena a observa-la partir. Sorriu consigo mesma pensando em quanto fora divertido seu domingo. Ao chegar no Hotel Edelweiss foi direto para o banho. Enquanto deixava a água morna escorrer-lhe pelas costas pensava: "Tipo interessante essa Valquíria, aliás, muito interessante. Mas não posso investir numa relação dessas... como poderia me prender com uma pessoa que já tem uma filha?... E que por certo nem cogitaria olhar para mim com esses olhos... Não, isso não é pra mim... não nasci pra viver em família... mas a Nina é um encanto. Encanto mesmo é a mãe dela. Que olhos lindos, verdes e expressivos... Que é isso, Fernanda? Tá ficando doida?... E os teus princípios de liberdade acima de tudo... Bom, mas nada me impede de ter uma grande amiga, não é mesmo? Claro que não... Vai ser bom... é, acho que vai...". Fernanda mal se deitou e ferrou no sono, tamanho era o seu cansaço. Dormiu como um anjo.
Valquíria e Nina também se recolheram logo após o banho. Nina estava tão cansada e havia comido tanto que nem quis jantar antes de se deitar. Enquanto colocava seu pijama disse para Valquíria:
- Mãe, aonde tu conheceu a Fernanda?
- No hospital. Ela esteve baixada por uns dias.
- Ahãã... sabe, eu adorei ela. Eu posso convidar ela para a minha próxima apresentação de flauta?
- Claro que pode. – respondeu Valquíria – Eu só não sei se ela poderá ir... é que ela é muito ocupada, tem muito trabalho...
- Mas as apresentações são de noitezinha, hora em que as pessoas voltam para casa...
- Eu sei, meu amor... faz assim: convida, e deixa que ela vai se puder, certo?
- Certo.
Valquíria fez uma trança no cabelo de Nina, para evitar nós nas pontas e choradeira para pentear as madeixas no outro dia pela manhã. Havia escovado cuidadosamente o cabelo antes de trança-lo.
- Mãnhe...
- O que?
- Eu queria muito que ela fosse na minha apresentação. É que os meus colegas levam um monte de gente e eu só tenho a Dona Eda, o Seu Arno e tu.
- O que importa não é a quantidade de gente, Nina e sim o quanto as pessoas que vão te ver gostam de ti.
- Tu acha que eu toco mal?
Valquíria sorriu e abraçou Nina:
- Não, minha querida. Tu tocas maravilhosamente bem.
Nina retribuiu o abraço e continuou:
- Depois tem a minha formatura do pré... eu vou convidar a Fernanda também.
- Mas isso é só daqui ha dois meses... depois a gente pensa nisso, tá?
- Mas se eu convidar logo ela não marca nenhuma outra coisa para aquele dia.
- Meu amor... a gente nem sabe o dia certo...
- Pode deixar que eu me informo amanhã!
- Tá bom. Vamos dormir então?
- Vamos.
Valquíria arrumou a bicama do único quarto da casa e ajeitou Nina entre as cobertas na cama de baixo. Deu-lhe um beijo de boa noite e apagou a luz. Somente com a luz da cabeceira acesa tentou ler um pouco, mas sentiu que seria vencida pelo sono. Antes de adormecer pensou em Fernanda, no quanto simpatizava com ela, até demais... tratou de afastar sentimentos perturbadores de seu pensamento. Não queria correr o risco de se magoar novamente. Apagou a luz e adormeceu profundamente, num sono sem sonhos.
Os dois dias que se seguiram Fernanda passou praticamente dentro da loja. A proximidade do final de ano fazia com que tivesse que aumentar os pedidos, pensar em decoração nova, gerenciar os gastos com os encargos sociais dos funcionários, tipo 13º salário e férias, organizar os festejos de final de ano dos funcionários, enfim, uma agitação só. Por vezes pensava na tarde do domingo anterior e sorria consigo mesma, lembrando do quanto tinha se divertido. Na quarta-feira Fernanda percebeu-se várias vezes olhando na direção da porta da loja. Deu-se conta que estava na expectativa da visita de Valquíria. A tarde passou, no entanto, sem nem sinal dos olhos verdes de seu anjo da guarda. Quando já era hora de fechar a loja Fernanda ainda foi até a rua e espiou para ambos os lados na esperança de divisar uma silhueta conhecida. Porém não avistou ninguém e retornou para o hotel.
No dia seguinte, quinta-feira, o movimento na loja foi intenso. Fernanda estava satisfeita com as vendas.
Logo após as 19 horas Valquíria caminhou na direção do Magazine Libanês. Havia saído do plantão e resolvera saldar a sua dívida. No dia anterior estava muito cansada e não teve ânimo de passar na loja. Havia trocado de blusa, vestia uma de crepe amarelo queimado, porém sua calça e sapatos brancos não deixavam dúvidas acerca de sua área de atuação. Parou em frente a loja e observou a ampla vitrine que denotava a elegância e a sofisticação daquela casa comercial. Pensou em quanto deveria ser complicado gerenciar aquele empreendimento. Empurrou a porta envidraçada e foi envolvida pelo frescor do ar condicionado e pelo agradável perfume de madeira dos móveis em exposição. Olhou ao redor encantada com a beleza destes. Instintivamente procurou por Fernanda, mas não conseguiu encontra-la até onde seu campo de visão alcançava. Logo em seguida uma funcionária vestindo um uniforme verde oliva impecável aproximou-se:
- Boa tarde, posso ajuda-la?
- Obrigada. Eu gostaria de falar com a Fernanda, ela trabalha aqui, não é mesmo?
A funcionária esboçou um sorriso discreto, como que não compreendendo bem a pergunta, e respondeu:
- Sim... Dona Fernanda encontra-se no escritório. A quem devo anunciar?
- Valquíria.
- Um momento, por favor. – respondeu a mulher dirigindo-se para os fundos da loja.
Valquíria aproveitou para observar um pouco mais os produtos em exposição. Eram móveis em estilo colonial e utilidades para o lar, tudo o que se podia imaginar, distribuídos em dois salões amplos, interligados por um pórtico arredondado. Em menos de dois minutos Fernanda veio recepciona-la sorridente:
- Ora, ora... se não é a pagadora de promessas!
Valquíria sorriu e respondeu:
- Antes tarde que nunca!
- De fato. Mas vamos até o escritório. – disse Fernanda conduzindo Valquíria pelo ombro.
Entraram num ambiente bastante acolhedor, uma sala grande e clara, com janelas amplas que deixavam entrar a claridade natural, embora o sol já estivesse escondendo-se por trás das copas das árvores. No entanto a claridade da rua ainda se fazia presente, auxiliando a luminosidade branca e artificial das lâmpadas fluorescentes. Fernanda apontou uma cadeira estilo Luís XV, muito confortável e dirigiu-se à mulher que as havia seguido:
- Por favor, Lourdes, dois cafés.
- Sim senhora, dona Fernanda.
Valquíria observou nos trajes e na pose de Fernanda. Nem parecia a mesma pessoa do domingo anterior, que havia passado a tarde rolando na grama e brincando com sua filha.
- E então, - quis saber Fernanda – o que achou da loja?
- Linda, muito linda mesmo.
- Que bom que gostou. Eu dedico quase que todo o meu precioso tempo para deixa-la à altura dos clientes.
- É uma loja para a elite.
- Nem tanto. Temos produtos muito bons com preços não tão salgados assim. E trabalhamos muito a questão dos prazos, o que facilita e pesa bastante na hora de fazer uma compra.
Valquíria não pôde deixar de rir:
- Tu é mesmo uma comerciante em potencial. Conseguiu me convencer!
- Ossos do ofício – respondeu Fernanda sorridente.
Nesta feita ouviu-se uma batidinha discreta na porta, que logo em seguida entreabriu-se para a passagem da funcionária com uma bandeja. A mulher depositou-a na mesa de Fernanda:
- Obrigada, Lourdes, pode deixar que eu mesma sirvo.
- Com licença. – respondeu e retirou-se.
- Açúcar ou adoçante?
- Açúcar, uma colherinha só.
Fernanda serviu os cafés e continuaram a conversa.
- Onde tu trabalhavas antes de vir para esta cidade? – perguntou Valquíria curiosa.
- Sempre trabalhei no comércio. Na verdade sempre nesta mesma empresa.
- Coisa difícil de se ver.
- Não quando se nasce praticamente dentro dela.
- Como assim?
- O Magazine Libanês foi fundado por meu avô materno.
- Mas então... tu não és funcionária daqui, tu és a dona?
Fernanda riu:
- Mais ou menos, digamos que acionista. E gerente geral.
Valquíria começou a reparar naquele escritório, tinha realmente a cara de Fernanda. Ficou analisando a figura imponente à sua frente que sorvia o seu café com a classe de uma dama da nobreza britânica.
- Pensando no quê? – questionou Fernanda frente a expressão meditativa de Valquíria.
- Nada... só que, sei lá. Tava pensando porque é que tu trabalha tanto, afinal poderias pagar alguém para fazer o teu trabalho.
- Ledo engano, senhorita. Primeira lição do vovô Salim: "é o olhar do dono que engorda o gado"! Em investimentos desse porte, envolvendo abertura de filiais, principalmente em outro Estado, não dá para deixar por conta de outros, não. E eu gosto do que faço. Mas com certeza daqui há, mais ou menos, um ano já vai dar para ficar mais relaxada. É só uma questão de estabilizar a nova filial e pronto.
Valquíria estava prestando bastante atenção nas palavras de Fernanda e impressionou-se com a segurança com que sustentava suas posições. Era, de fato, uma mulher de negócios.
- Mas vale a pena ficar sozinha neste quase fim de mundo? Para quem veio de uma grande metrópole?
- Tudo vale a pena. Gosto de novas experiências.
- Mesmo que estejas sozinha?
Fernanda calou-se por um momento. De fato, por vezes sentia falta, não só da família, mas de uma companheira. Sentia falta do toque macio da pele de uma mulher, do cheiro doce e das carícias íntimas, do ficar junto, ir ao cinema, jogar cartas... Olhou para Valquíria e desconversou:
- E a nossa partidinha de canastra? Está de pé para amanhã?
- Está. Já comentei com a Dona Eda e com o Seu Arno e eles estão ansiosos pelo grande confronto!
Fernanda gargalhou.
- E qual vai ser o horário do embate?
- Lá pelas 21 horas, para dar tempo de eu sair do plantão com calma, tomar um banho, dar janta para Nina, supervisionar as tarefas da escola...
- Eu passo lá então nesse horário. Olha só, eu até já comprei as balas e as bolachas recheadas.
Ambas tiveram que rir.
- E a Nina, como vai?
- Ótima. Tem perguntado por ti.
- Porque você não a trouxe junto?
- É que eu vim direto do hospital, se passo em casa acabo me enrolando e não saio mais.
- Sei como é isso.
- Bom, eu não quero mais roubar o teu tempo, já vou indo. Muito obrigada pelo café.
- De nada. Mas você não me rouba tempo nenhum, muito pelo contrário, é um prazer encontra-la. Eu não tenho muitos amigos por aqui...
- Coincidência. Conheço um lote de gente, mas amigos mesmo... acho que só a Dona Eda e o Seu Arno.
- E agora eu.
- É. E agora tu. Mas então, eu já vou indo – disse Valquíria levantando-se.
Fernanda também se levantou, abrindo a porta do escritório para ela e acompanhando-a até a saída da loja. Na porta principal curvou-se dando um abraço em Valquíria e dois beijinhos nas faces:
- Obrigada novamente pela visita. Beijinhos na Nina.
- Vou dar sim, pode deixar. Até amanhã.
-Até.
Fernanda ficou observando enquanto Valquíria seguia a pé para casa. Seu caminhar era compassado e a calça justa deixava ver a silhueta de seu corpo pequeno e com curvas sedutoras. Fernanda sentiu um calor lhe subindo pelo corpo. Conhecia bem aquele sentimento, e sabia o que significava. Ficou preocupada. Foi trazida de volta à realidade pela voz de Lourdes:
- Podemos fechar as portas, dona Fernanda?
- Sim, sim, podem. Eu também já vou indo.
Na noite seguinte, após o expediente na loja, Fernanda passou no hotel, tomou seu banho, trocou de roupa e por volta das oito e meia saiu para a casa de Valquíria, resolvera ir a pé. A noite estava agradável e as primeiras estrelas já brilhavam no céu. Munida de uma sacola com o numerário simbólico Fernanda caminhou devagar passando pela praça, onde se deteve no quiosque e comprou uma garrafa de vinho branco. Carregava ainda nos braços um urso bege de pelúcia que comprara para Nina. Faltando cinco minutos para as nove horas chegou no portão da casa de Valquíria. Novamente foi Pipoca que a recepcionou, a princípio latindo e logo após abanando o rabo. Em seguida Valquíria abriu a porta e dirigiu-se até o portão, sorridente:
- Boa noite!
- Boa noite. Cheguei cedo?
- Não mesmo. Pontual. Vamos entrando. – disse Valquíria cumprimentando Fernanda com um abraço discreto e oferecendo-se para pegar a sacola que carregava. – deixa que eu te ajudo com a sacola.
- E a Nina?
- Terminando de tomar banho. Aquela lá esquece da vida dentro d’água.
- Ela sabe o que é bom! – respondeu Fernanda.
Valquíria conduziu Fernanda para dentro da residência. A casa não era muito grande, construção antiga, uma sala comprida com um corredor que possuía duas portas: a primeira era o banheiro, a segunda o quarto. No final do corredor era a cozinha, com uma porta nos fundos que dava para o pequeno quintal. O pé direito da construção devia medir mais de três metros de altura e o forro era de madeira envernizada. As paredes internas pintadas de branco conferiam um aspecto asseado à casa. Os móveis eram bem modestos e na cozinha havia um fogão antigo, vermelho, com um dos queimadores desativado, e uma pequena geladeira bege. No quintal havia duas laranjeiras, uma goiabeira e um abacateiro, do qual pendia um pneu suspenso por uma corda, que servia de balanço para Nina, invenções do Seu Arno. A casinha de Pipoca ficava nos fundos do quintal, embora a mascote ficasse presa dentro de casa quando Valquíria e Nina não estavam. Haviam muitas folhagens suspensas e em vasos no quintal. No muro de pedras uma trepadeira florida disputava espaço com um pe´de maracujá que ostentava pequenos frutos, ainda em formação.
Fernanda sentou-se na sala, colocando o urso a seu lado.
- Aceita um cafezinho? – perguntou Valquíria.
- Aceito sim.
- Aliás, tu comeu alguma coisa? – quis saber Valquíria - A janta está quentinha, se quiser eu te sirvo.
- Olha, posso ser sincera?
- Claro.
- Eu belisquei alguma coisinha na loja, mas já estou com fome. Vou filar a tua janta sim.
- Então vem cá. – disse Valquíria levando Fernanda até a cozinha. – dá uma espiadinha nas panelas e vê o que tu queres.
Fernanda, sem nenhuma cerimônia, levantou as tampas das panelas e sentiu o cheiro maravilhoso do feijão novinho, do arroz e da carne de panela. Reparou no vaso de violetas azuis no parapeito da janela basculante, bem em frente à mesa.
- Que maravilha. Esse cheirinho me lembra a comidinha da minha vó Ester.
Valquíria sorriu e alcançou um prato para Fernanda. Estendeu uma toalha de tecido xadrez marrom claro impecavelmente limpa na pequena mesa e colocou os talheres sobre ela. Abriu a geladeira e pegou uma vasilha com folhas de rúcula e de alface já lavadas. Colocou sal e azeite de oliva para temperar.
- Nossa, que delícia – exclamou Fernanda – desse jeito eu vou ficar mal acostumada. Faz meses que não como uma comidinha caseira, sabia?
- Pois sinta-se em casa para vir sempre que quiser. Mas eu não sou muito boa na cozinha não. Só sei fazer o básico mesmo.
- Mas está delicioso. Eu é que sou uma negação na cozinha. Até o meu ovo frito sai deformado.
Valquíria riu:
- É só uma questão de treino: fritar ovos é uma ciência! – brincou - Queres um suco de laranja? Ou limão?
- Água, por favor.
Valquíria serviu-lhe um copo de água gelada e sentou-se à mesa com ela, após servir um prato para si também. Ao longe, por detrás da porta do banheiro, escutava-se a conversa de Nina e suas risadas com os brinquedos que levara para o banho. Como em muitas casas antigas, havia uma banheira esmaltada e enorme no canto do recinto, bem debaixo do chuveiro. Nina adorava encher a banheira e ficava um bom tempo brincando na água. Saía dali quando Valquíria chamava ou quando percebia que suas mãozinhas já estavam bem murchas pela imersão. Em dado momento seus ouvidos captaram uma conversa na cozinha e percebeu que Fernanda já havia chegado. Tratou de enxugar-se e vestir-se e foi para junto delas. Abraçou Fernanda efusivamente:
- Oi... eu tava morrendo de saudades, sabia? – disse Nina teatralmente.
- Eu também. – respondeu Fernanda.
- Sente-se mocinha, que eu vou servir o teu prato.
Nina sentou-se ao lado de Fernanda e tratou de devorar sua janta. Estava com fome. Quando terminaram foi Nina quem recolheu os pratos e colocou um banquinho em frente à pia para lavá-los, ante o olhar atento de Fernanda.
- Deixa que eu lavo os pratos – disse Fernanda.
- Não mesmo – respondeu Nina – Tu é visita, e visita não lava a louça. E a louça da janta é atividade minha.
- Então eu seco.
- Não precisa. A gente deixa no escorredor e depois é só guardar amanhã de manhã. Mas se tu queres fazer alguma coisa pega aquela latinha ali, ó... – disse Nina apontando para uma prateleira baixa – e coloca a ração no prato da Pipoca que está do lado de fora da porta.
Fernanda assentiu e fez o que Nina havia lhe pedido. Valquíria terminou de tirar a mesa e foram para a sala. Quando Nina avistou o urso no sofá seus olhinhos brilharam e olhou rapidamente para Fernanda.
- Eu trouxe pra ti. Espero que goste.
Nina pulou e abraçou Fernanda.
- Adorei!!!
Soltou Fernanda e correu abraçando seu urso de pelúcia.
- O nome dele vai ser Fernando. – disse Nina.
- Nina! Por favor... – disse Valquíria.
- Belo nome! – respondeu Fernanda. – Aliás esse urso tem cara de Fernando mesmo.
Valquíria balançou a cabeça, desistindo de argumentar.
- Mas então, vamos ao nosso joguinho? – perguntou Valquíria.
- Vamos lá.
Nina correu na frente levando seu Fernando nos braços. Fernanda pegou sua sacola com as guloseimas e o vinho e seguiu Valquíria. Elas fizeram a volta pela frente do pátio e entraram na casa ao lado, cuja parede fazia divisa com a que ocupavam.
Já passava das nove e meia e o casal já as aguardava.
- Seu Arno, Dona Eda, esta é Fernanda, a amiga da qual eu falei.
- Muito prazer – disse Fernanda.
- O prazer é todo nosso! – exclamaram – Por favor fique à vontade, a casa é sua.
- Obrigada. Eu trouxe um vinho branco, não sei se vocês gostam.
- Eu gosto muito! – respondeu Seu Arno. – Mas não precisava se incomodar.
- Ora, não foi incômodo algum, muito pelo contrário.
- Mas então vamos ao nosso joguinho – disse Dona Eda apontando para a mesa que já estava preparada com uma toalha verde escuro e um baralho novinho no centro.
Numa cadeira ao lado Fernanda avistou pacotes de balas e bolachinhas. Não pode deixar de sorrir. Ligaram a televisão e colocaram uma fita com um desenho animado que haviam locado para distrair Nina. Esta aninhou-se no sofá, abraçou seu urso e começou a ver televisão. Realmente era uma criança que não incomodava em nada. Sabia perfeitamente diferenciar a hora de brincar e a hora de aquietar-se para não perturbar os adultos. "Coisa difícil de se ver hoje em dia", pensou Fernanda. A noite transcorreu muito agradável. Jogaram até quase três horas da manhã. Fernanda e Valquíria fizeram uma boa dupla e no final computaram mais guloseimas do que haviam levado inicialmente. No entanto resolveram deixa-las por lá mesmo, uma parte para Nina e a outra para o jogo da sexta-feira seguinte, para o qual foram intimadas pelo casal. Eles eram extremamente simpáticos. Não tinham filhos, tinham uma única sobrinha que havia ido para a Alemanha estudar, casara por lá e não retornara mais ao Brasil, a não ser para ocasiões de visitas. Portanto o casal ficava muito solitário. Para amenizar a situação ajudavam a cuidar de Nina e participavam das atividades do grupo de terceira idade, no projeto mantido pela prefeitura local. Nina já havia adormecido há muito tempo. Quando Valquíria quis acorda-la para ir para casa Fernanda disse que a levaria no colo. Pegou a menina com facilidade, levando-a até sua casa e colocando-a em sua cama.
- Queres ficar aqui? – perguntou Valquíria – é muito tarde.
- Não dá. Amanhã tenho que estar na loja cedo.
- Mas tu vieste a pé?
- E o que é que tem isso? Volto a pé.
- Mas é perigoso.
- Eu sei me cuidar, não se preocupe.
- Então me liga quando chegares no hotel. – disse Valquíria pegando um bloquinho de rascunho e anotando o número de seu telefone.
- Tudo bem. Deixa eu anotar os meus números pra ti também, do hotel, da loja e celular. – respondeu Fernanda pegando também uma folha do bloco.
- Fernanda...
- O quê?
- Obrigada pela companhia.
- Eu que devo agradecer.
- E obrigada pelo carinho com a Nina.
- Isso é mérito dela. Ela é uma criança muito afetiva e cativante.
- Mas mesmo assim. Obrigada. E me liga quando chegar.
- Ligo sim. E vê se aparece na loja durante a semana.
- Pro cafezinho?...
- É, pro cafezinho.
- Vou fazer o possível, mas se não der nos vemos na próxima sexta. Te esperamos para o jantar.
Fernanda sorriu afetuosamente. Elas se despediram e Fernanda seguiu a pé para o hotel, tendo a noite estrelada como pano de fundo para suas divagações. Tão logo entrou em sua suíte ligou para Valquíria.
- Pode dormir tranqüila, meu anjo da guarda, que eu já cheguei. Sã e salva.
- Ótimo. Durma com Deus – disse Valquíria.
- Igualmente.
"E pretendo sonhar com os anjos", pensou Fernanda após desligar o telefone, "aliás com um belo anjo da guarda".
Os próximos dias transcorreram normalmente, sendo que Valquíria marcou todos os plantões extras noturnos possíveis, em função dos gastos a mais de final de ano, tais como presentes de Natal, rematrícula de Nina, etc. Só evitou trabalhar nas sextas-feiras, pois não queria deixar seus parceiros de jogo na mão. Na verdade, não queria perder a oportunidade de encontrar Fernanda, na qual estava pensando com muita freqüência durante o dia.
Na quinta-feira, véspera do segundo jogo de sua nova parceria, Fernanda estava em seu escritório quando Lourdes bateu à porta e disse:
- Dona Fernanda, com licença...
- Sim?
- Tem visita para a senhora.
Os olhos de Fernanda brilharam, imaginando quem estaria à sua procura, provavelmente para tomar um cafezinho. Antes que pudesse levantar de sua cadeira uma cabeleira encaracolada enfiou-se através da porta e de Lourdes, espiando para dentro do escritório.
- Oizinho... adivinha quem veio te visitar?...
Fernanda abriu os braços, sorridente, convidando Nina para um abraço afetuoso. A menina correu até ela, grudando-se em seu pescoço e sendo levantada do chão. Passou as pernas ao redor da cintura de Fernanda, como um filhote de primata se agarra à mãe. Estava com o uniforme do colégio e tinha sua mochila cor-de-rosa presa às costas. Fernanda ficou olhando para a porta, na expectativa da entrada de Valquíria. Nina percebeu o olhar de Fernanda e disse:
- A Val não veio, eu vim sozinha!
- Sozinha??? Como assim? E ela sabe disso?
- Calma... Sozinha, sozinha não. A dona Eda me trouxe, mas ficou lá na loja olhando os tarécos de cozinha. Aí aquela moça me trouxe aqui. É que eu pedi pra passar aqui porque precisava te trazer uma coisa...
- O que é? – perguntou Fernanda curiosa, colocando Nina no chão.
A garota sentou-se na cadeira em frente, colocou sua mochila no colo e abriu o fecho do bolso externo. Retirou uma folha de papel cuidadosamente dobrada e a estendeu à Fernanda, ostentando um sorriso de orelha a orelha. Fernanda verificou tratar-se de um convite para uma apresentação de flauta doce, no anfiteatro de sua escola, que se realizaria dentro de duas semanas, numa sexta-feira.
- E então? – Perguntou Nina com ansiedade – Tu vai poder ir? É na outra sexta-feira, sem ser amanhã.
- Com toda a certeza, eu jamais perderia um espetáculo da minha artista preferida.
Nina começou a pular de felicidade.
- Ôba, ôba, ôba...
Fernanda teve que rir frente à explosão de alegria da menina.
- Escuta, a Valquíria não vai passar aqui hoje?
- Acho que não, ela tem plantão hoje à noite. A Dona Eda me pegou na escola e eu vou dormir na casa dela. Amanhã tu vai jantar lá em casa, né? A Val disse que tu vai. Ela até já passou no supermercado e comprou um monte de coisas pra janta, tem até sorvete de sobremesa.
- Quanta honra. Com toda essa gentileza eu não poderia deixar de ir, não é mesmo?
- É.
Nesse momento a porta do escritório se abriu vagarosamente e uma voz conhecida disse:
- Com licença... estou procurando uma mocinha que não me esperou... – disse Dona Eda em tom de brincadeira.
- Boa tarde, querida. – cumprimentou Fernanda levantando-se para abraçar a velha senhora.
- Mas a senhora ia demorar muito, eu sei que gosta de ficar vendo enfeites, e panelas, e vasos, e tudo. – justificou Nina.
- Tá bom... e então, Fernanda, pronta para amanhã?
- Prontíssima.
- Nosso joguinho vai ser na casa da Valquíria, ela me falou que quer fazer uma jantinha antes.
- Por mim tudo bem.
- Vamos indo então, Nina?
- Ahaaa... a gente recém chegou... – protestou Nina.
- Mas aqui não é lugar de visita, é lugar de trabalho, e a gente está atrapalhando a Fernanda.
- Não estão, não, Dona Eda. Amigos não atrapalham. – respondeu Fernanda cordialmente – eu já estou quase acabando meu expediente mesmo hoje.
- Mas eu tenho que ir para casa atender o Arno, ele gosta de tomar um café com leite nesta hora.
- Escuta, Nina poderia ficar aqui comigo mais um pouco? Depois eu a levo até sua casa, sei que ela vai dormir lá hoje, não é mesmo? – questionou Fernanda.
- Eu não sei, não perguntei para a mãe dela...
- Por favor, Dona Eda... – pediu Nina – eu prometo que me comporto... e a minha mãe ia deixar sim, eu sei.
- Está bem... mas as sete e meia eu a quero em casa, para jantar e dormir cedo. Amanhã é dia de aula.
- Pode deixar que eu serei pontual – disse Fernanda – eu só vou leva-la para tomar um sorvete.
Nina saltitou novamente de felicidade.
- Me dá a tua mochila que eu levo pra casa – pediu Dona Eda.
Nina estendeu sua mochila e deu um beijo na velha senhora:
- Obrigada Dona Eda!
Dona Eda era uma senhora alta, cerca de 1,75m, pele clara e olhos azuis esverdeados. Era bem gorducha e suas faces eram avermelhadas. Já o Seu Arno devia medir 1,60, se muito, e era bem magrinho, quase um "pau de virar tripas". Era engraçado vê-los passear de mãos dadas, devido à desproporção entre os tipos físicos. Mas estavam sempre juntos, e dançavam sem maiores constrangimentos nos bailes da terceira idade dos quais participavam. Seu Arno era um piadista nato e não perdia uma oportunidade de fazer uma anedota envolvendo sua mulher. Nina gargalhava toda vez que Seu Arno dizia: "não posso arriscar de deixar a Eda irritada, senão ela senta em cima de mim e eu viro uma panqueca!". Ao que Nina respondia: "íííí, seu Arno, lá vem a dona Eda... e eu acho que ela tá braba!".
Dona Eda foi para casa, caminhava compassadamente devido ao seu peso. Pensava pelo caminho: "acho que a Valquíria não vai ficar chateada de eu ter deixado a Nina ficar um pouco com a Fernanda, afinal é amiga dela, até já convidou para ir em casa, e quando a Valquíria convida alguém para ir em casa é porque é gente de confiança, eu conheço aquela menina. E a Fernanda parece ser uma boa moça, trabalhadora, de família, uma boa companhia pra Valquíria que anda sempre tão sozinha, não se diverte, é só do trabalho pra casa e da casa pro trabalho...".
Fernanda tratou de terminar rapidamente seu serviço pendente enquanto Nina esperava por ela sentada numa poltrona no canto do escritório. Ficou esperando em silêncio para não atrapalhar Fernanda, sendo que observava atentamente seus movimentos e sua conversa ao telefone com alguns fornecedores. Quando Fernanda finalmente desligou o telefone e olhou para Nina com uma expressão de quem estava pronta para sair, a menina lhe disse:
- Quando eu crescer quero ser gerente de loja, igual a ti.
Fernanda riu e perguntou:
- E posso saber porquê?
- Porque é legal, e porque eu gosto de falar no telefone, e porque a gente usa roupas legais. Eu queria ser médica, mas eu tenho nojo de sangue, e de curativo. Então eu decidi ser gerente de loja! E jogadora de futebol, nas horas vagas.
Fernanda sorriu afetuosamente frente ao projeto de vida de Nina:
- E querer é poder, sabia? – disse Fernanda.
- A Val já me disse isso.
- Mas, vamos ao nosso sorvete?
- Vamos!!! – respondeu Nina levantando-se num pulo.
Fernanda pegou sua bolsa, deu a mão à Nina e ambas saíram em direção à rua. Ainda dentro da loja Fernanda dirigiu-se a um funcionário:
- Eu vou sair mais cedo hoje. Qualquer problema estou no celular. Mas, por favor, só se for urgente, ok? Caso contrário eu resolvo amanhã.
- Pode deixar, dona Fernanda. Um bom descanso.
- Obrigada e igualmente.
- Tchauzinho garotinha bonita. – disse o rapaz para Nina.
- Nina. Meu nome é Nina. E tchauzinho pra ti também. – respondeu acenando.
As duas passaram rapidamente no hotel, onde Fernanda trocou de roupa, colocando uma vestimenta mais confortável. Esse era um de seus maiores prazeres: trocar a roupa de executiva por um agasalho esportivo e um par de tênis. Depois foram caminhando na direção da sorveteria. No caminho passaram por uma banca de revistas, pois Fernanda queria comprar uma revista de palavras cruzadas, um de seus passatempos preferidos. Nina foi direto na seção de livros infantis. Apesar de estar somente semi-alfabetizada adorava livros.
- Escolhe um livro pra você, Nina.
- Mas eu não tenho dinheiro...
- Eu quero te dar de presente.
- Não precisa...
- Mas eu faço questão.
- Então tá! – respondeu Nina alegremente escolhendo um livro de capa dura com a história de um cruzeiro de navio repleto de animais. – Pode ser qualquer um?
- Pode.
- Então eu quero esse aqui. – disse estendendo o livro para Fernanda – não é muito caro?
Fernanda sorriu e respondeu:
- Você podia ser neta do meu avô Salim, sabia?
- Porquê???
- Sempre preocupada em conter os gastos...
- Mas a Val me diz sempre que não dá pra gente comprar tudo o quer, tem que levar só o que o dinheiro dá.
Fernanda se abaixou e abraçou Nina afetuosamente:
- Mas esse livro dá pra levar, sim, ok?
- Ok! – respondeu Nina sapecando um beijo estalado na face de Fernanda.
Fernanda pagou a conta e elas seguiram para a sorveteria, instalando-se numa mesa em frente à porta, de onde podiam observar o movimento da calçada. Nina pediu um sorvete de morango e pistache, com cobertura de chocolate granulado. Fernanda pegou o de sempre, chocolate.
- Eu A-DO-RO sorvete, sabia???!!! – disse Nina.
- Imaginava... – sorriu Fernanda.
- A Val também gosta. Ela gosta de sorvete de uva, acho que é por causa da cor.
- Realmente é uma cor bonita. A do pistache também.
- Pois é. Fernanda... posso te pedir uma coisa?...
- Pode. O quê?
- Tu vai na minha formatura do pré?
- Huuummm... talvez... – respondeu Fernanda – se é que eu vou receber um convite.
- Claro que vai! – respondeu Nina com os olhos brilhando de felicidade – Eu só não sei ainda o dia. Eu já perguntei, mas a minha professora ainda vai marcar. Eu já passei de ano, a professora já falou pra minha mãe. Eu quase já sei ler. Sei fazer o meu nome, o nome da minha mãe e o teu.
- O meu? – surpreendeu-se Fernanda.
- O teu! Quer ver? Tem uma caneta aí contigo?
- Não, mas isso não é problema. – respondeu Fernanda levantando-se e pedindo uma caneta no balcão.
Pegou um guardanapo e estendeu para Nina junto com a caneta. Nina empurrou o sorvete para o lado e começou a desenhar o nome de Fernanda. Ao terminar estendeu o guardanapo solenemente para a amiga. Fernanda percebeu que realmente ela sabia escrever seu nome e sem saber porque se emocionou com aquilo. Aquela grafia infantil encantou seus olhos e pôde perceber o carinho e a admiração que Nina tinha por ela. Olhou carinhosamente para a criança e disse:
- Que letra linda... e você sabe mesmo escrever o meu nome.
- Eu não te disse? Eu pedi pra professora me ensinar. Gosto de saber escrever o nome de quem eu gosto. Também sei fazer Eda, Arno e Pipoca.
- Que ótimo! – riu Fernanda – Mas agora toma o resto do sorvete, senão vai derreter.
- Iiiii... é mesmo!
Fernanda dobrou cuidadosamente o guardanapo e o guardou no bolso de seu agasalho. Olhou para Nina e impressionou-se com a capacidade daquele pequeno ser de fazer com que ela se sentisse responsável pelo que havia cativado, assim como o Pequeno Príncipe. Após o sorvete ainda deram uma volta na praça, onde Nina andou de balanço e brincou no escorregador, sob o olhar atento de Fernanda. Um pouco antes das sete e meia Fernanda entregou Nina na casa de dona Eda, conforme o combinado. Encontrou a referida senhora às voltas com o marido que teimava em querer continuar sentado na rua.
- Mas Arno, já está caindo sereno, depois fica resfriado!
- Mas eu quero ver a lua, Eda! Vem aqui também, assim a gente namora um pouquinho...
- Olha as meninas, Arno! Não diz semvergonhices!
Tanto Nina quanto Fernanda tiveram de rir da cena, principalmente do rubor das faces de dona Eda.
- Esse Arno é teimoso como ele só... – reclamou dona Eda.
- Tá bom, tá bom! Para fazer a minha Edinha feliz eu entro em casa... mas só se eu ganhar um beijinho.
Dona Eda deu um tímido beijinho na testa do marido e este se levantou sorridente de onde havia se instalado para observar o nascente da lua em quarto crescente. Fernanda se despediu e voltou para o hotel, deixando Nina que ficou no portão lhe acenando enquanto não dobrava na esquina da rua principal. No caminho se deu conta que estava se afeiçoando àquela garotinha, mais até do que imaginava. Sentia vontade de ficar mais tempo com ela. E com a mãe dela também.
No dia seguinte Fernanda tratou de telefonar para o hospital e perguntar à Valquíria se ela queria uma carona na saída de seu plantão, afinal gostaria de ir cedo para ajuda-la a preparar a janta.
- Mas não precisa se incomodar. Eu preparo tudo sozinha. Aliás, a senhorita disse que não sabe nem fritar ovos... – respondeu Valquíria.
- Mas sei lavar as verduras e coloco a mesa como ninguém.
- Bom, nesse caso te espero na saída do hospital, lá pelas sete e quinze.
- Combinado. – respondeu Fernanda, desligando o telefone.
Ficou recostada em sua cadeira de trabalho, com o olhar fixo no vazio e pensando em Valquíria. Ela era uma pessoa meiga, extremamente dócil, e ao mesmo tempo conseguia ser firme e persuasiva quando as situações assim o exigiam. Era de fato uma mulher especial. E bela, muito bela.
Pontual como sempre Fernanda aguardava Valquíria em frente à porta principal do hospital, um pouco antes da mesma aparecer na portaria. Valquíria embarcou no carro de Fernanda e elas foram para a casa da primeira, onde Nina já as aguardava ansiosamente, de banho tomado, vestida e penteada, como uma pequena lady. Ao ouvir o barulho do carro correu para o portão, para recebe-las, chegando antes mesmo de Pipoca. Dona Eda já estava lá também e assistia à sua novela na TV da sala. Seu Arno viria mais tarde, depois de arrumar o liquidificador da esposa, o qual havia desmontado e agora sobravam peças. Nina ficou na sala com Dona Eda e Fernanda ajudou Valquíria na cozinha, depois dela tomar um banho e mudar o uniforme do hospital. O cardápio era uma massa caseira com molho branco e frango assado no forno, com saladas verdes, alface, rúcula e radite. Enquanto Valquíria preparava os pratos quentes Fernanda se distraía lavando as verduras e arrumando a mesa. Conversavam animadamente:
- Quer dizer que a Nina te fez uma visita ontem? Essa menina está ficando passadinha.
- Deixa ela, fiquei contente. – respondeu Fernanda.
- A primeira coisa que ela me contou foi sobre o sorvete que vocês tomaram ontem.
- Pois então... você não ficou chateada de eu ter ficado um pouco com ela, ficou?
- Não, de forma alguma. A dona Eda veio cheia de explicações, mas não fiquei chateada não, muito pelo contrário. Nina acaba ficando muito sozinha. Eu sei que sou muito exigente com ela, não sou de deixar ficar indo em casa de colegas, enfim, como eu não tenho tempo de acompanhar de perto prefiro que ela fique em casa. Mas contigo é diferente...
- Diferente?...
- É, eu te conheço... e confio em ti.
- Muito obrigada. Apesar da gente se conhecer ha pouco tempo eu já gosto bastante dessa menina. – disse Fernanda.
Valquíria se virou para Fernanda encarando-a e disse:
- Eu sei. E ela gosta de ti também, muito.
- E a mãe dela? – disparou Fernanda à queima roupa, também encarando Valquíria nos olhos.
Valquíria sentiu o coração disparar e percebeu a sutileza nas entrelinhas da pergunta de Fernanda. Em outra situação ficaria desconcertada, mas naquele momento reagiu desconhecendo-se. Manteve o olhar em Fernanda e respondeu com um sorriso enigmático:
- O que é que tu acha?
Desta vez foi Fernanda quem se surpreendeu com Valquíria e antes que pudesse formular uma resposta Nina irrompeu na cozinha:
- Tô com fome!
As duas mulheres recuperaram a linha e Valquíria respondeu:
- Tá quase pronto, meu amor. Pode ir lá chamar o Seu Arno. Diz pra ele que daqui a quinze minutinhos a gente janta.
- Tá bom. – respondeu Nina e saiu correndo da cozinha.
Valquíria voltou a sua atenção para o molho novamente, que quase havia queimado no fundo da panela. Fernanda deu mais uns retoques na mesa e questionou:
- E então? Tá legal a arrumação desse jeito?
Valquíria observou a mesa com um olhar inquiridor e depois de certo tempo disse:
- Ótimo! Está contratada como copeira dessa residência!
Ambas tiveram que rir.
- Você tem um sorriso lindo, sabia? – disparou novamente Fernanda.
- Pára com isso, senão eu fico convencida.
- Mas é verdade. Aliás, você É uma pessoa linda. Nina não poderia ser diferente sendo educada por você.
- Fernanda, pára com isso. Tô ficando sem jeito.
- Mas é verdade Val. Acho que existem poucas pessoas no mundo como você. Eu pelo menos conheci bem poucas, sabia?
- Ah, tá! – respondeu Valquíria. – Mas tu também é diferente.
- Diferente como?
- Diferente. Tu é uma pessoa que tem uma família rica e mesmo assim trabalha, e vem aqui em casa e fica à vontade como se estivesse na tua.
- E não deveria?...
- Claro que deveria, mas é que... eu te vi na loja, eu vi a executiva, a acionista, a mulher de negócios. As pessoas te tratam com cerimônia. E aqui em casa eu vejo uma outra Fernanda... uma Fernanda que passou horas brincando com uma menina que mal conhecia... que não se importa em conviver com uma pessoa que não tem nada e nem ninguém...
- Tem sim, tem uma filha maravilhosa que é um encanto graças a ela.
Valquíria baixou os olhos. Fernanda continuou:
- Tudo nesta vida tem um porquê. E eu com certeza estou muito feliz de ter ficado doente, afinal assim eu conheci vocês duas, e a dona Eda e o Seu Arno, e a Pipoca.
Valquíria sorriu:
- Grande achado!
- Grande mesmo...
Neste momento ouviram conversas na sala. Era o Seu Arno que vinha chegando. Valquíria serviu o jantar que foi elogiadíssimo por todos. Logo após Nina foi ver televisão e as duplas foram para o joguinho de canastra tão esperado. Naquela noite o Seu Arno e a Dona Eda ganharam disparados. Talvez porque as adversárias estivessem bastante distraídas e não raras vezes ficavam trocando olhares como que tentando adivinhar o que a outra pensava. E o que menos tentavam imaginar eram as cartas que cada uma tinha nas mãos...
Naquele final de semana Valquíria trabalhou no sábado e no domingo, e durante a semana que se seguiu também não teve tempo de passar na loja. Na quarta-feira foi Nina quem conseguiu convencer dona Eda a passar com ela na loja após a escola, para reforçar o convite de sua apresentação de flauta que seria dali ha dois dias.
- Tu não esqueceu do meu concerto, esqueceu? – quis saber Nina.
- De forma alguma. Esse compromisso já está marcado na minha agenda. – respondeu Fernanda solenemente.
Nina sorriu satisfeita.
- Hoje eu não posso demorar. A dona Eda não queria passar aqui, mas eu falei que era só um minutinho, e que era importante. Aí ela deixou, e já ficou lá na loja bisbilhotando as novidades. Além do mais eu prometi pro Seu Arno que eu vou com ele na Floricultura, para escolher os pinheirinhos de Natal.
- De Natal? Mas ainda estamos na primeira quinzena de novembro, falta muito tempo para montar a árvore.
- Mas como a gente usa pinheiro de verdade ele gosta de ir bem cedo e escolher os mais bonitos. Depois do Natal ele planta as mudas por aí. Ele me falou que já plantou mais de duzentos!
- Mas ele não passou por tantos Natais assim... – sorriu Fernanda.
- Não... mas ele planta mesmo quando não é Natal. Ele me contou que na terra dele tinha muitos pinheiros, por isso ele gosta deles.
- Aha... entendi.
- Eu gosto mesmo é de arrumar a árvore. Sou eu quem bota a estrela no topo!
Fernanda sorriu para Nina e a abraçou afetuosamente. Por momentos relembrou sua infância, e os Natais em sua casa, onde a criançada acabava sempre brigando por causa da estrela. E sempre era ela quem conseguia ser erguida no colo e colocava o símbolo máximo no topo da árvore. Sentiu uma ponta de melancolia e se deu conta de que estaria sozinha naquele ano, pois seria impossível deixar o trabalho naquela época. A loja iria funcionar até as 21:00h do dia vinte e quatro de dezembro. Provavelmente seria o dia em que as vendas atingiriam o pico do mês. Não teria como ir para casa de seus familiares. E seria o último Natal daquele milênio. Como que captando os pensamentos de Fernanda, Nina lhe perguntou:
- Tu vai pra casa da tua mãe no Natal?
- Não... não vai dar, vou ficar por aqui mesmo.
- E onde tu vai passar o Natal?
- Trabalhando...
- Não... quero saber depois do trabalho.
- Ainda não sei.
- Então por que é que tu não passa o Natal com a gente? – convidou Nina sorrindo – Lá em casa é bem legal! O Seu Arno se veste de Papai Noel, mas eu sei que é ele. – riu Nina – porque ele é muito magricelo e a barriga postiça fica caindo. Mas eu finjo que não sei que é ele, assim ele fica bem contente. Eu gostaria que tu fosse passar com a gente.
- Não sei...
- Não sabe o quê?
- Eu não gostaria de incomodar.
- Mas tu não incomoda! E a Val vai ficar contente se tu for.
- Mas ela nem imagina que você está me convidando.
- Mas ela gosta de ti.
- Ela falou isso?
- Não falou mas eu sei. Ela gosta.
- Bom, eu vou pensar, ok? Vamos combinar assim: a gente não fala nada pra Val e se ela convidar eu vou.
- Mas na minha apresentação tu vai, né?
- Vou, eu já disse que vou.
- Então tá. – disse Nina levantando-se e pegando sua mochila que estava no chão ao lado da mesa de trabalho de Fernanda – eu já vou indo. A gente se vê na sexta-feira.
- Até lá.
Fernanda se abaixou e abraçou Nina que lhe envolveu o pescoço carinhosamente repousando sua cabeça no peito de Fernanda enquanto passava a mãozinha por uma mecha de cabelo negro. Levantou o rosto e deu um beijo afetuoso na face de Fernanda. Abriu a porta e ainda virou-se para acenar um tchauzinho através do vão da porta. Fernanda permaneceu pensativa. De repente todo seu ímpeto de liberdade e independência sentia-se relegado a segundo plano, cedendo lugar a uma vontade de novamente passar um Natal em família, e o que era mais perturbante, junto a uma família que não era a sua.
Já passavam das oito horas da noite quando Fernanda finalmente terminou seus afazeres no escritório naquela sexta-feira. Olhou no relógio e se deu conta que lhe restavam somente quinze minutos para chegar até o anfiteatro da escola de Nina. Não teria tempo de passar no hotel e resolveu ir direto dali. Retocou a maquiagem e foi a pé, uma vez que a escola era bem perto dali.
Quando Nina pisou no palco a primeira coisa que fez foi passar os olhos na platéia. Na primeira fila estavam Valquíria, dona Eda e Seu Arno. Havia um lugar vago entre Valquíria e dona Eda, que ela havia pedido para a mãe guardar para Fernanda. Não conseguiu disfarçar o ar de decepção quando se deu conta que o lugar estava vazio. No entanto, no momento seguinte, os seus olhos brilharam e ela acenou de cima do palco para uma figura imponente que adentrava pelo corredor central do recinto. Nina fez um sinal com a mão indicando à Fernanda onde sua mãe estava sentada. Percebendo a movimentação Valquíria se virou e também acenou para Fernanda. Valquíria não pode deixar de contemplar aquela figura que se aproximava, ostentando um sorriso largo e encantador. Vestia um conjunto preto, saia e bleiser, com uma blusa de seda azul que lhe realçava a cor dos olhos. O cabelo estava preso num coque e brincos prateados em forma de pingentes lhe adornavam os lóbulos das orelhas. Os sapatos sociais, com salto, a deixavam ainda mais alta. O passo cadenciado e a figura imponente fez com que quase todos os presentes desviassem os olhares do palco e observassem sua caminhada até a primeira fila. Fernanda, tentando ser discreta, cumprimentou o casal de idosos e Valquíria com um aperto de mão. Instalou-se em sua poltrona reservada de antemão e acenou discretamente para Nina, que sorriu de orelha a orelha. A menina vestia uma túnica amarelo ouro, assim como os demais artistas, e tinha o cabelo preso numa trança. A apresentação durou cerca de uma hora e meia, onde se apresentaram os aprendizes de flauta, violão, teatro e dança. No final, após os aplausos onde todos os que se apresentaram voltaram para o tablado, Nina correu até a beirada do palco e Fernanda pegou-a no colo, trazendo-a para a platéia.
- Meus parabéns, garota! Você toca muito bem! – disse Fernanda.
- Obrigada. – respondeu Nina orgulhosa.
- E essa roupa está muito bonita também.
- Eu adoro amarelo!
- Bom, - disse dona Eda – nós vamos indo. Hoje temos um aniversário para ir, de uma amiga do grupo da terceira idade. Nosso jogo fica pra semana que vem.
- Estão com medo da revanche, ein? – brincou Fernanda.
- Não mesmo – respondeu Seu Arno – espera só até a próxima. Vai ser outra lavada! – e sorriu para elas.
- Tudo bem... vamos ver. – disse Fernanda.
O casal se retirou e Valquíria disse:
- Bom, vamos jantar lá em casa?
- Tenho uma idéia melhor. Que tal um jantar fora para comemorar a performance da nossa artista?
- Não sei.
- Olha só, é por minha conta. Eu quero retribuir o jantar da semana passada. – emendou Fernanda.
- Tá bom. – concordou Valquíria.
- Uêêêba!!! – gritou Nina.
Nina abraçou Fernanda e saiu caminhando a seu lado, apresentando-a a seus coleginhas toda orgulhosa.
- Essa é a Fernanda, minha amiga!
Fernanda retribuía os cumprimentos enquanto Valquíria se divertia com a situação, pois Nina estava deixando Fernanda tonta, tamanha agitação e ânsia de apresenta-la aos colegas. Fazia tempo que Valquíria não via Nina tão feliz num evento da escola. Elas pegaram um táxi e foram até um restaurante próximo à entrada principal da cidade.
Já instaladas numa mesa de canto conversavam animadamente enquanto esperavam que o garçom trouxesse o pedido. Fernanda elogiava a apresentação de Nina, para alegria desta e orgulho da mãe coruja. Nina havia tirado sua túnica amarela e estava com um vestido em tom lilás, com minúsculas margaridas amarelas estampadas em toda sua extensão. O cabelo solto, cuidadosamente escovado antes de sair de casa já apresentava sinais de rebeldia, fazendo com que Valquíria prendesse as mechas encaracoladas com uma presilha em forma de borboletas, evitando desta forma que as madeixas invadissem o prato de comida da menina.
- E então, a flautista está com fome? – perguntou Fernanda.
- Muuuuita!
- Que bom, porque lá vem o nosso pedido.
Os olhos de Nina brilharam em frente ao prato de batatas fritas com bife.
- Nunca vi ninguém gostar tanto de batatas fritas. – riu Valquíria.
- Crianças sabem o que é bom... – emendou Fernanda.
- Eu também adoro panetone... – disse Nina – ainda bem que o Natal tá chegando...
- Falando em Natal, - disse Valquíria – um passarinho me contou que certa amiga nossa não vai passar com a família...
Fernanda olhou rapidamente para Nina, fingindo uma cara feia. A garota disfarçou daqui, disfarçou dali e disse:
- Ai, desculpa, eu sei que tu pediu pra eu não falar, mas escapou.
- Sei... – disse Fernanda.
- É verdade então. – falou Valquíria.
- É. Não vai dar para ir. A loja funciona até a noite, não ia dar tempo.
- Nós gostaríamos muito que passasses o Natal conosco – continuou Valquíria. – Somos só Nina, Seu Arno, Dona Eda e eu. É a nossa grande família!
Fernanda sorriu e assentiu:
- Obrigada pelo convite. Eu vou sim. Mas chego tarde.
- Não tem importância, a gente sempre espera a meia noite mesmo.
- Então está combinado.
- Ôba!!! – disse Nina num gritinho.
- Como essa época de final de ano é agitada. Eu ando bem cansada. Tenho praticamente morado dentro do hospital. – disse Valquíria.
- Em tudo que é lugar é assim. Na loja também. Quase não tenho tempo de respirar! Mas não me queixo, pois é a melhor época de vendas. Mas depois do Ano Novo tudo volta a normalidade...
- Pois é...
- Quando é tua próxima folga? – quis saber Fernanda.
- Neste domingo, porque?
- Nada... é que eu tava pensando... eu quero dar um pulinho na capital. Mesmo não indo para casa no Natal quero mandar alguns presentes. Meu avô é fascinado por antiguidades e aos domingos tem uma feira muito interessante, o Brique da Redenção, conhece?
- Conheço.
- Que tal a gente ir até lá?
- Bom...
- Se você não estiver muito cansada, é claro. Não quero atrapalhar o teu descanso.
Nina acompanhava aquele diálogo com a maior atenção, controlando sua vontade de dizer: "aaaah... vamos?..."
- Tudo bem, acho que vai ser ótimo fazer um programa diferente.
- Eu vou adorar!!! – exclamou Nina, mal cabendo em si de contentamento.
Elas terminaram de jantar e novamente pegaram um táxi para voltar para casa. As primeiras a desembarcar foram Valquíria e Nina.
- Então vamos combinar assim: no domingo eu pego vocês aqui por volta de oito horas, pode ser?
- Está ótimo. – respondeu Valquíria.
- Então, uma boa noite às duas!
- Boa noite. – respondeu Valquíria.
Nina estendeu os braços e Fernanda pegou a menina no colo:
- Muito abrigada por ter ido. Eu fiquei muito feliz. – disse Nina dando um beijo carinhoso no rosto de Fernanda.
- Foi um prazer, querida. Eu adorei ter ido.
Nina abraçou Fernanda bem forte e lhe deu mais um beijo estalado na face. Fernanda a colocou no chão e entrou no táxi que a aguardava. Nina e Valquíria acenaram para ela antes de entrarem em casa, enquanto o táxi se afastava lentamente. De volta ao hotel Fernanda custou a conciliar o sono. Sentimentos estranhos estavam perturbando seus pensamentos nas últimas semanas. Realmente estava se afeiçoando de uma forma muito especial àquela menina meiga de cabelos revoltos, e à mãe dela também.
No dia seguinte, sábado, Nina mal conseguia conter sua expectativa. Quando Valquíria chegou em casa, por volta das dezenove e trinta horas, a menina já havia separado sua roupa para o dia seguinte, os acessórios que combinavam, o par de tênis, a mochila e o óculos de sol com armação estilo gatinha. Valquíria foi obrigada a rir, ela própria não era tão organizada quanto Nina. Logo após a janta a menina foi se deitar, como que para o tempo passar mais rápido. Valquíria sentou na sala, em frente à televisão ligada, porém seus pensamentos estavam muito longe. Pensava em Fernanda, em seus olhos azuis, em seu sorriso encantador, em seus cabelos perfumados, em seus atributos físicos... e um calor começou a invadir-lhe os sentidos. Resolveu tomar um banho frio. E depois foi se deitar.
No dia seguinte, um amanhecer num céu azul sem nuvens prenunciava um domingo quente e ensolarado. Fernanda acordou cedo, deu uma caminhada, tomou uma ducha e um bom café da manhã, vestiu uma calça jeans corsário e uma blusa regata de algodão em cor salmão. Calçou seus tênis e pegou sua bolsa esportiva a qual colocou atravessada nas costas. Prendeu o cabelo num rabo-de-cavalo e escolheu um de seus óculos de sol, o que considerou melhor adequar-se àquela vestimenta. Pegou a chave de seu carro e dirigiu-se para o estacionamento do hotel. Ao passar pela portaria Otávio cumprimentou-a:
- Bom dia, dona Fernanda!
- Bom dia, Otávio.
- Vai dar um passeio?
- Vou. – respondeu Fernanda enveredando na direção do estacionamento.
- Dona Fernanda, - interveio Otávio – a senhora quer que eu peça para trazer o seu carro?
- Não, obrigada, pode deixar que eu mesmo pego. – respondeu alegremente já cruzando a porta de saída do hall do hotel.
Conforme o combinado, às oito horas ouviu-se uma buzinada na frente da casa de Valquíria. Nina, que já estava pronta desde as sete horas, gritou para sua mãe que ainda estava terminando de se arrumar:
- A Fernanda chegou!!! A Fernanda chegou!!!
- Tô indo! – respondeu Valquíria – Vai indo para o carro e diz que eu vou já.
- Fuuui! – respondeu Nina e saiu correndo para o portão de entrada.
Fernanda havia saído do carro e abraçou Nina afetuosamente, erguendo-a no colo:
- E aquela tua mãe enrolada? Já tá pronta ou a gente vai ficar esperando muito? – brincou Fernanda.
Nina riu e respondeu:
- Já tá vindo aí.
Fernanda acomodou Nina no banco de trás ajustando o cinto de segurança na criança. Em menos de cinco minutos Valquíria foi ao encontro delas. Após fechar a porta da frente e assegurar-se de que Nina não havia esquecido de colocar água e ração para Pipoca cruzou o portão de saída do pátio. Fernanda a aguardava sorridente do lado de fora de seu carro, de braços cruzados e escorada no capô do veículo. Valquíria não conseguiu esconder seu ar de satisfação ao vê-la e retribuiu o sorriso encantador. Passados os segundos da troca de olhares Valquíria observou o carro no qual estava prestes a entrar. Foi tomada de surpresa, pois esperava fazer uma viagem de Gol, o que já conhecia, da loja. E o que se descortinava à sua frente era a visão de uma magnífica BMW prateada, quatro portas, com cheirinho de recém ter saído da concessionária.
- O que é isso? – perguntou Valquíria boquiaberta.
- Olha, pelo que me conste é um carro estacionado, com uma menina dentro, e uma mulher encostada do lado de fora.
- Gracinha... – respondeu Valquíria esboçando um sorriso frente ao deboche de Fernanda. – Estou me referindo justamente ao carro.
- Então respondi certo.
- É teu?
- Olha, eu ainda não costumo furtar veículos e levar inocentes moças para um passeio antes de assassina-las.
- Debochada!
- Bobinha...
- Eu perguntei porque nunca entrei num carro desses.
- Então terá o prazer agora. Posso não ter uma casa, mas não abro mão de ter um carro à minha altura...
- E convencida! – respondeu Valquíria sorrindo.
- Mas é verdade, ou você acha que ele não combina comigo??? – provocou Fernanda chegando bem perto de Valquíria.
Esta ficou desconcertada ante a proximidade da outra e desconversou rapidamente:
- Combina sim. Vamos então?
Fernanda abriu a porta do carro para Valquíria num gesto gentil e fazendo uma reverência quando ela entrou.
- Uma carruagem digna de uma rainha. – brincou Fernanda.
Valquíria foi obrigada a rir da teatralidade da outra. Nina impaciente disse:
- A gente vai ou não vai?
- Calma, guriazinha. – retrucou Valquíria.
- Já estamos partindo senhoritas. – disse Fernanda pondo o carro em movimento.
Valquíria observou a BMW por dentro e ficou encantada com a praticidade e o conforto daquele carro. Tinha tudo o que se podia imaginar. Seria possível morar dentro dele, pensou.
Chegaram em Porto Alegre antes das dez horas. Estacionaram numa garagem onde Fernanda costumava deixar o carro quando vinha à capital e logo em seguida estavam percorrendo o Brique da Redenção em busca de novidades e diversão. O Brique era uma feira já tradicional na cidade e todos os domingos reunia um burburinho de gente. A diversidade de pessoas era grande e os vários grupos étnicos, sociais, políticos e religiosos conviviam pacificamente entre si naquele espaço democrático e expressavam, cada um, sua ideologia através das vestimentas, atitudes, costumes e atividades. O dia ensolarado contribuiu para que as pessoas se animassem a sair de casa naquele dia dedicado ao descanso e à recarga de energias para a nova semana que se iniciaria no dia seguinte.
Nina aproveitou cada minuto do passeio. Ajudou Fernanda a escolher os presentes de seus pais e avós, comeu algodão-doce, pipoca, crepe, andou nos brinquedos do parquinho de diversões, tomou refrigerante, muito refrigerante, afinal... era domingo.
Valquíria também se divertiu bastante. Cada vez mais se encantava com Fernanda, com seus trejeitos, seu modo de encarar a vida, sua simpatia e bom humor. Fernanda, por sua vez, estava adorando a companhia das duas novas amigas. Deu-se conta de que fazia um bom tempo que não se divertia tanto, aliás, nunca curtiu muito a aproximação com uma criança. O convívio com crianças, na sua vida adulta, nunca lhe fora proporcionado. Seu irmão mais velho era casado e tinha três filhos, porém morava no exterior e não convivia muito com a família. O segundo irmão era um Dom Juan, tinha inúmeras mulheres, mas nenhum filho, para alívio dos pais que se davam conta que Raul não tinha maturidade ainda para constituir uma família, apesar dos seus trinta e cinco anos. O seu irmão mais novo, Salim, Salimzinho para os de casa, era casado mas também não tinha filhos. Desta forma, sem sobrinhos por perto, Fernanda nunca havia convivido com crianças desde que havia saído da adolescência e de casa. E naquele momento estava gostando da experiência.
No decorrer da tarde Fernanda sugeriu levar Nina ao Planetário. Havia uma sessão às cinco horas. Nina ficou encantada com o espetáculo projetado no teto em forma de abóbada celeste, prestou atenção em cada detalhe e a cada astro que se movia ou surgia no fundo escuro ela arregalava os olhos e nem piscava de tão atenta. Ao sair questionou:
- Quanto tempo a gente precisa estudar pra ser astronauta?
- Muito tempo... – respondeu Valquíria – muito tempo... além do quê se fica muito tempo longe de casa.
- Então melhor é ser gerente de loja mesmo. – disse Nina pensativa.
Valquíria e Fernanda tiveram que rir da espontaneidade da menina. Depois foram passear um pouco pela cidade e ver o pôr do sol no Rio Guaíba, em frente ao Gasômetro. Antes de retornarem à Santa Cruz do Sul ainda foram comer o famoso cachorro-quente do Rosário, cujo tamanho quase fazia com que o maxilar dos ávidos devoradores se desencaixasse na primeira abocanhada. Por volta das nove horas da noite tomaram a estrada de volta para casa. Nem haviam rodado os primeiros quilômetros e Nina adormeceu no banco de trás do carro. Estava exausta, pois havia saracoteado o dia todo.
- Cansada? – perguntou Fernanda.
- Um pouco. O dia foi bem agitado. Foi ótimo, mas agitado. E tu?
- Um pouco também. Na verdade é um cansaço cumulativo. Desde a inauguração da loja eu ainda não relaxei. Na próxima semana eu viajo para São Paulo a negócios.
- E vai ficar muito tempo fora? – quis saber Valquíria.
- Não. Três ou quatro dias somente. É só o tempo de visitar alguns fornecedores e dar um beijo nos meus pais e meus avós, principalmente no vovô Salim, que já tem reclamado a minha ausência ha meses. Aí ele faz aquela chantagem emocional do tipo: "eu não ando me sentindo muito bem, é o coração, a pressão, pode ser que não vejas mais teu avô com vida se demorares mais um pouco para vir...", essas coisas. – respondeu Fernanda.
- Ele parece ser muito apegado contigo. Deve sofrer pela distância.
- Realmente, eu adoro o vovô. Nós somos muito parecidos. Ele tem senso de humor, e disse que eu herdei dele o tino para os negócios. – riu Fernanda.
- E não é verdade?
- É... não deixa de ser. Mas sou muito mais mão aberta que o vovô! – gargalhou Fernanda. – Aquele velho é fogo. Se não fosse a vovó eles por certo ainda estariam com o fusca 64, "muito econômico", segundo o vovô.
Valquíria teve de rir imaginando o temperamento do avô de Fernanda.
- Vai ser bom para ti revê-los. – disse Valquíria.
- Com certeza. Mas eu precisava mesmo era de férias... – sorriu.
- Nem me fale. Eu bem sei o que é trabalhar muito. Também estou bem cansada. E tem a Nina, fico me culpando por não ficar mais tempo perto dela, mas se eu não trabalhar nos plantões extras não consigo manter o mínimo das necessidades dela.
- A escola dela não é publica, não é mesmo?
- Não. Consegui uma bolsa por causa de algumas freiras que me conheciam. Da escola da Nina eu não abro mão. Não é preconceito em relação à escola pública, não é isso, mas não podemos negar, infelizmente, que a questão dos conteúdos e carga horária é cumprida com muito mais rigor nas escolas particulares. E com certeza o estudo é a coisa mais importante que eu posso dar para ela.
- Realmente.
- E depois tem o resto todo, material escolar, roupas, calçados, alimentação, contas da casa, e aí vai. Mas tenho conseguido ir levando. – Valquíria sorriu.
- Pois é, não é fácil. Mas mesmo não ficando mais tempo com a Nina você tem conseguido ser uma boa mãe, essa menina é um encanto e te adora.
- Eu sei... e é recíproco.
Fez-se um silêncio e Fernanda perguntou:
- Quando é que você tira férias?
- Acho que só em julho. Até já tenho férias vencidas, mas agora não posso nem pensar em tira-las, não nessa época. Por que?
- Não, é que... bom, eu tava aqui pensando... já que estamos as duas estressadas, quase a beira de um ataque de nervos, - riu Fernanda – porque não tiramos uma semana de folga depois do Natal e passamos o Ano Novo na praia? Uma semaninha só. Afinal é o Ano Novo da virada do século! Acho que Santa Cruz do Sul conseguirá sobreviver sem nós. Além do quê acho que a Nina iria gostar. Pois parece que ela vai passar as férias escolares todas em casa, não vai?
- Vai... – respondeu Valquíria cabisbaixa e pensativa. – Mas infelizmente não vai dar para ir não. Uma pena.
- Porque não?
- Porque não.
- Grana?
- É. Também. Tem o hospital. E não temos condições de pagar hotel, passagens, essas coisas... e não tem graça viajar às custas dos outros.
- E quem falou em hotel?
- E tu pretende ficar aonde? Numa cadeira na beira da praia? – brincou Valquíria.
- Não senhora! Na casa do vovô Salim! Ele tem uma casa em Garopaba, Santa Catarina, conhece?
- Não, não conheço não.
- Ele quase não vai lá, aliás sou eu mesmo quem mais utiliza aquele paraíso. E ele não costuma me cobrar aluguel! Bom, o problema da hospedagem está resolvido. Comida tem de sobra na dispensa. Toda vez que eu aviso que vou para lá o vovô pede para o caseiro entupir a geladeira e o freezer de comida. Ele pode até ser mão fechada com os outros, mas quando o assunto é a neta preferida a coisa muda de figura – riu Fernanda – e por último as passagens. Eu vou de carro e tanto faz irem três pessoas ou uma, que o gasto com gasolina é o mesmo, logo, só sobrou o hospital...
- Tu nunca pensaste em mudar de ramo profissional? – Perguntou Valquíria.
- Porque?
- Com esse discurso o mundo perdeu uma ótima advogada!
As duas tiveram que rir.
- Me dá um tempo para pensar, tá? – pediu Valquíria.
- Tudo bem – respondeu Fernanda olhando para o relógio de pulso – sessenta segundos. Contando...
- Boba. Tô falando sério.
- Eu também. Olha, pensa pelo lado da Nina...
- Isso é chantagem.
- Não. É bem querer. Eu já gosto bastante dessa menina e acho que ela merece um tempinho maior ao lado da mãe e... de uma amiga.
Valquíria ficou séria e pensativa. Fernanda não quebrou o silêncio, dando tempo para Valquíria ordenar os pensamentos, até que esta respondeu:
- Eu vou ver o que posso fazer no hospital. Só não prometo nada, mas vou tentar.
- Ótimo.
- Tira essa ar de satisfação da cara – disse Valquíria cutucando Fernanda no braço – eu disse que vou ver... pode não dar certo.
- Mas vai dar.
- Ô criatura obstinada.
- Otimista.
- Tá certo...
Viajaram mais um tempo em silêncio, cada qual perdida nos seus próprios devaneios. Depois retomaram o diálogo conversando sobre assuntos os mais variados, desde televisão até receitas culinárias. Ao chegarem defronte à casa de Valquíria acordaram Nina que mal conseguia manter-se em pé devido ao sono. Fernanda tomou a menina nos braços e a levou até a cama. Após Valquíria acompanhou-a até a porta.
- Aceita um cafezinho antes de voltar para o hotel?
- Não precisa, vai dar trabalho.
- Não precisa ou não quer?...
- Tudo bem, eu quero.
Valquíria passou um café rapidamente e elas sentaram à mesa da cozinha.
- Fernanda, obrigada pelo dia de hoje. Nos divertimos muito.
- Não há o que me agradecer, foi um prazer passa-lo com vocês. Bom, eu já vou indo, afinal amanhã é segunda-feira. – disse Fernanda levantando-se e sorvendo o último gole de café de sua xícara.
- Eu te acompanho até o portão.
Valquíria abriu a porta para Fernanda e caminharam vagarosamente até o carro. Fernanda virou-se para Valquíria e disse:
- Não esquece de marcar as nossas férias...
- Tá bom. Assim que eu tiver uma resposta passo na loja e te aviso.
- Vou esperar. - Respondeu Fernanda inclinando-se e dando um beijo na face de Valquíria.
Esta última ficou na ponta dos pés e retribuiu o beijo abraçando afetuosamente a amiga. Fernanda arrepiou-se ao sentir o calor do corpo de Valquíria de encontro ao seu. Por um momento teve o ímpeto de envolve-la pela cintura e lhe beijar a boca, mas conseguiu conter-se, respirando fundo. Assustou-se com a química que aquele toque havia lhe desencadeado. O cheiro da pele e dos cabelos de Valquíria tinha lhe deixado excitada e custou um pouco a se recompor. Por momentos ficou estática, sem saber o que fazer.
- O que foi? – perguntou Valquíria ao perceber a mudança no comportamento de Fernanda.
- Nada. Não foi nada. Eu já vou indo. Estou começando a ser vencida pelo sono. Boa noite então.
- Boa noite.
Fernanda embarcou em sua BMW e seguiu para o hotel, ainda sob o efeito do toque de Valquíria. Após tomar um banho deitou-se e tentou relaxar. No entanto seus pensamentos borbulhavam num turbilhão. Havia convidado Valquíria para passar uma semana com ela na praia, e bem sabia o que estava se processando em seu interior. "Seja o que Deus quiser", pensou. Adormeceu e dormiu a sono solto até ser despertada pelo bip de seu relógio de pulso. Tinha o sono leve e geralmente acordava antes do relógio despertar, mas naquela manhã perdeu inclusive a hora de sua caminhada. Parecia haver acordado em câmera lenta. Foi para a loja e passou o dia todo pensativa. Feliz, mas pensativa.
Na terça-feira antes do fechamento da loja Fernanda foi surpreendida pela chegada de Valquíria, pouco depois das sete e meia. Valquíria nem sequer foi anunciada por Lourdes. Ao entrar na loja disse para a funcionária que já conhecia o caminho e que estava sendo aguardada. Quis fazer uma surpresa para Fernanda. Quando a porta do escritório se entreabriu após uma suave batida, a gerente nem sequer desviou os olhos da tela do computar, no qual enviava um e-mail a fornecedores, pensando tratar-se de Lourdes com o café que havia pedido. Proferiu um "pode entrar" sem maior atenção e continuou o que estava fazendo sem olhar para a figura de olhos verdes que lhe sorria perto da porta de entrada. Percebendo com o canto dos olhos que a pessoa havia parado e não falava nada, olhou naquela direção e surpreendeu-se ao ver Valquíria. Não conseguiu conter o largo sorriso de satisfação ao revê-la.
- Desculpe, não vi que era você!
- Eu percebi. – respondeu Valquíria – Mas não quero atrapalhar. Quem sabe eu volto mais tarde, ou amanhã.
- De forma alguma – disse Fernanda caminhando na direção de Valquíria para cumprimenta-la.
Neste momento Lourdes entrou no escritório com a bandeja e dois cafés servidos.
- Com licença.
- Obrigada, Lourdes.
A funcionária se retirou e Valquíria disse:
- Bom... para o bem de todos e felicidade geral da nação... consegui os dias de folga no hospital, na semana entre Natal e Ano novo.
- Que maravilha! Então já posso avisar o vovô.
- Pode. Embora falte mais de mês, pode.
Fernanda continuou:
- A Nina já sabe?
- Não, ainda não. É que somente hoje consegui falar com a minha chefe. Não quis levantar uma expectativa na Nina sem antes ter certeza.
- Claro.
- Fernanda, também passei para te dizer que eu vou precisar trabalhar nessa sexta-feira à noite. Por isso o nosso joguinho fica para uma próxima vez.
- Tudo bem. Até é bom dar uma folga que é para evitar de ficar viciada! – proferiu Fernanda em tom de brincadeira – E na próxima semana sou eu que não vou estar aqui. Viajo quarta ou quinta-feira, e volto no domingo.
- A gente se fala na tua volta então.
- Certamente.
- Eu vou indo então. Preciso pegar a Nina ainda.
- Então... até.
- Até. – respondeu Valquíria e dirigiu-se para a porta.
Antes que saísse, Fernanda chamou:
- Val...
- O que? – respondeu virando-se para dentro.
- Acho que vou sentir saudades.
Valquíria sorriu docemente para ela, permanecendo em silêncio e olhando-a nos olhos. Sem dizer nada saiu em direção à rua. Fernanda permaneceu em sua cadeira de trabalho, olhando por um bom tempo na direção da porta, de olhos fechados, sentindo o perfume deixado por Valquíria.
Os dias seguintes passaram muito rápido, Valquíria trabalhou inclusive no final de semana. Na quarta-feira Fernanda embarcou para São Paulo, não sem antes ligar para a casa de Valquíria na noite anterior para se despedir de Nina. Na verdade queria ouvir a voz de Valquíria antes de viajar. Sua ida à São Paulo foi tranqüila. Os negócios tiveram êxito e seus pais ficaram radiantes ao revê-la. Mas quem ficou realmente radiante foi seu avô, que não lhe deixou ficar na casa dos pais e sim na dele. Apesar de sentir-se bem na companhia do avô, Fernanda não via a hora de retornar à Santa Cruz do Sul. Tamanha ansiedade não passou despercebida aos olhos astutos e observadores do vovô Salim:
- Afinal, qual é o real motivo da minha neta querer retornar tão cedo para aquela cidade distante e deixar esse pobre avô quase morto de saudade?
- Não apela, vovô! – riu Fernanda, tentando desconversar.
- E então? O que é que a senhorita achou por lá? Mais precisamente, quem a está aguardando lá?
- Vovô!!! Por favor.
- Eu não nasci ontem... e te conheço bem.
- Acho que não tão bem assim...
- Tudo bem, não quer falar, eu respeito. Mas eu não sou bobo.
Fernanda abraçou o avô afetuosamente:
- Você é uma raposa velha! Tem razão, eu não quero falar, até porque eu também não sei direito o que está acontecendo.
- Imagino...
- Mas eu tô bem.
- Seja o que for, minha filha, tem o meu apoio.
Novamente Fernanda abraçou o avô e lhe deu um beijo na careca.
- Eu te amo, sabia?
- Eu também, minha filha, eu também.
No dia em que Fernanda retornou para o Rio Grande do Sul, antes de sair da casa do avô, este lhe disse:
- Veja se não demora tanto para vir me ver.
- Pode deixar, eu venho mais seguido.
- E... Fernanda, aproveita a praia para relaxar e te aconselhar com as ondas. O mar é um ótimo mestre. Ele acalma e ajuda a encontrar as respostas escondidas dentro de nós mesmos.
Fernanda ficou impressionada com a capacidade do avô de quase ler seus pensamentos. Nunca havia conversado diretamente com ele sobre sua homossexualidade, mas isso era apenas um detalhe. O avô a conhecia muito bem, e mais que isso, a amava e a aceitava como era, com suas escolhas e seu estilo de vida.
- Pode deixar, vovô... eu vou fazer isso sim.
Eram pouco mais de nove horas da noite de domingo e Fernanda mal havia acabado de largar as malas no hotel. Correu para o telefone e discou o número da casa da Valquíria. A ligação chamou até cair. Deveria estar no hospital. Em seguida ligou para a casa de Dona Eda e uma vozinha conhecida atendeu ao telefone:
- Alô?
- Nina?
- Fernanda!!! Eu tava morrendo de saudades! Pensei até que tu tinha esquecido de mim.
- Querida, eu cheguei agora. E também estou com saudades. E a tua mãe?
- Trabalhando. Ela me falou da praia e eu AMEI!!! Eu não conheço o mar, só de fotos.
- Então vai conhecer agora.
- Ai, mas vai demorar quase um mês ainda!
- Mas passa logo.
- Fernanda, eu já sei o dia da minha formatura, é no dia 11, um sábado de tarde. Tu vai?
- Não sei... tenho que ver... nos sábados a loja funciona...
- Aaahh... por favor... vai.
- Tá bom. Pedindo assim...
- Ôba, ôba, ôba! E tem outra coisa. Eu preciso de ajuda para montar a árvore de Natal e o presépio. E daqui ha três dias já é dia primeiro, e eu acho que a minha mãe vai estar trabalhando, e a dona Eda é muito gorda e não consegue subir na cadeira para me ajudar. E o Seu Arno é muito magro, não consegue me levantar no colo pra eu pôr a estrela na árvore. Tu me ajuda?
- Garota! Você engoliu um toca-discos! Calma... eu te ajudo sim.
- Que bom!
- Pede pra tua mãe deixar todos os tarecos da árvore à mão, que eu te ajudo a montar. Chego na tua casa por volta das sete e meia, tá? E depois a gente sai pra jantar. Não esquece de avisar a Val.
- Não esqueço não. Te espero na quarta, então.
- Um beijo.
- Outros... muitos. – respondeu Nina e desligou.
Fernanda teve de rir da torrente que era Nina. Lamentou não ter conseguido ouvir a voz de Valquíria. Desarrumou sua mala, mas não colocou as roupas no armário. Definitivamente a organização do armário ficaria para o dia seguinte. Pediu a janta no quarto, tomou banho e dormiu profundamente. Sonhou com as palavras do vovô Salim.
Na manhã seguinte chegou na loja bem cedo, eram pouco mais de sete da manhã. Nem bem havia aberto a porta de seu escritório quando o telefone tocou. "Quem será a essa hora?", pensou. Ao atender ouviu uma voz bastante conhecida e ficou radiante.
- Madrugou? – perguntou Valquíria.
- Como você sabe que sou eu?
- Primeiro: conheço o teu "alô" e segundo: só tu mesmo para estar tão cedo na loja.
- Pois é.
- Mas como foi a viagem?
- Tudo bem, tudo correu como eu esperava. – respondeu Fernanda.
- Desculpa ligar tão cedo, mas é que depois que eu me deitar vou ferrar no sono até o meio dia, para retornar ao hospital à tarde. É que ao chegar Nina já estava acordada e me falou que tu havias ligado. E me contou também que vais ajuda-la a montar a árvore.
- Pois então...
- Fernanda, não vai atrás dessa menina, senão ela te aluga! Acho que ela pensa que não tens mais nada para fazer.
- Val, tudo bem. Eu não me importo. Vai ser depois do expediente mesmo.
- Mas tu andas cansada...
- Descanso depois. Se eu não pudesse com certeza eu diria, ok?
- Jura? – insistiu Valquíria.
- Claro.
- Bom, então tá. Eu tenho plantão na quarta-feira à noite. A Nina vai dormir na casa da dona Eda.
- Se você não se importar eu saio para jantar com a Nina depois da árdua tarefa de armar a árvore e o presépio. Depois deixo ela na casa da dona Eda, não demoro muito.
- Tudo bem, só não quero que ela atrapalhe a tua rotina.
- Já disse que não atrapalha.
- Bom, tu que sabe... – respondeu Valquíria – Nos vemos nessa sexta-feira? Na nossa costumeira jogatina?
- Nossa! Falando assim me sinto uma jogadora contumaz! – riu Fernanda – Mas, nos vemos sim. No horário de sempre.
- O Seu Arno e a dona Eda já estão reclamando da nossa escapulida...
- Só eles é que estão sentindo falta dos meus belos olhos?... – provocou Fernanda.
Fez-se um breve silêncio no outro lado da linha e Fernanda quase pode visualizar a expressão de Valquíria.
- Não... mais gente também...
- Muito me alegra saber.
- Bom, mas vamos ficando por aqui mesmo porque este zumbi que vos fala precisa descansar.
- Tá certo... um bom descanso.
- Obrigada. Tchauzinho.
- Tchau.
Valquíria desligou e Fernanda ficou sorrindo para si mesma. Sua percepção lhe dizia que a amiga estava sentindo por ela a mesma atração que despertava. Por certo estava perturbada com isso, assim como ela própria, por toda a situação. Resolveu parar de pensar e deixar as coisas acontecerem por si mesmas, "como as águas dos rios que se ajustam às margens...", pensou.
Antes de adormecer Valquíria também pensou nas provocações de Fernanda. "Não... não posso estar enganada... ela me olha diferente, e me diz coisas com segundas intenções. Mas, nossas realidades são muito opostas. Ela não tem planos de ter uma família, muito menos uma filha... melhor parar de pensar e dormir".
Na quarta-feira, conforme o prometido, Fernanda chegou na casa de Valquíria bem no finalzinho da tarde. Nina estava sozinha, mas Fernanda percebeu movimentação na casa de dona Eda, sinal de que ela estava ali. No chão da sala havia três caixas, uma da árvore artificial, a outra com os enfeites da árvore e a terceira com o presépio. Também havia uma sacola com barba-de-pau, colhida pelo Seu Arno, para os detalhes da decoração.
- Já tá tudo aqui, ó... é só montar – disse Nina.
- Então, mãos à obra, mocinha.
Fernanda encarregou-se de montar a estrutura da árvore, sendo observada por Nina que ia lhe alcançando os ramos por ordem decrescente de tamanho. Uma vez montada a estrutura Fernanda colocou as luzes em volta da árvore, que de pé media cerca de 1,60m, além da mesinha sobre a qual havia sido posta. Depois colocou as correntinhas de minúsculas estrelas douradas de galho em galho, como se formassem ondas até o topo da árvore. Logo em seguida as duas começaram a pendurar as bolas coloridas e os demais enfeites: anjinhos de feltro, miniaturas de casinhas de madeira, maçãs vermelhas, laços de fita dourados, pequenos Papais Noéis, meias luas, pingentes transparentes que refletiam a luz dos pisca-piscas e muitos outros enfeites, alguns comprados e outros feitos artesanalmente pelas mãos habilidosas de dona Eda. Por último jogaram aleatoriamente uma razoável quantidade de fios prateados, que caíam e se alojavam sobre os galhos, emaranhando-se nos enfeites e projetando a luz artificial em reflexos multicoloridos. Pronto! A árvore estava montada. Só faltava a estrela, que era a última coisa. Agora restava montar o presépio. Sob a árvore Nina estendeu um pedaço de carpete verde que servia de tablado para a estrebaria de madeira construída pelo Seu Arno com alguns gravetos e pedaços de sarrafo. Cobriram essa estrutura com barba-de-pau e pronto! Estava armada a casa do Menino Jesus. Nina se encarregou de dispor os personagens, Maria, José, os Pastores, os Reis Magos, o burro e a vaca, o camelo e o Anjo da Anunciação. Por fim, solenemente, Nina depositou cuidadosamente a figura do Deus Menino na manjedoura. Bateu palmas de contentamento e disse para Fernanda:
- Agora só falta a estrela!
Nina pegou a estrela de seis pontas, na verdade o cometa dourado, e olhou para Fernanda com os olhos brilhando de satisfação. Entendendo a mensagem Fernanda tomou Nina nos braços e levantou-a do chão, erguendo-a até o topo da árvore. Nina encaixou a estrela no cume e novamente bateu palmas e soltou um gritinho de satisfação. Fernanda baixou a menina e indicou a tomada, para que acendesse as luzes. Nina ligou a flecha na tomada e a sala foi iluminada pelas luzes coloridas da árvore e do presépio.
- Ficou lindo!!! – gritou Nina alegremente abraçando Fernanda pelo pescoço. – Vou chamar a dona Eda e o Seu Arno para ver. – e saiu correndo na direção do portão.
Logo em seguida retornou puxando dona Eda pela mão.
- Devagar, menina. – dizia a velha senhora.
Seu Arno vinha logo atrás, fingindo empurrar dona Eda pelo traseiro. Ao avistarem a obra de arte das duas bateram palmas:
- Muito Bem!!! Está lindo!!! – disseram quase que em uníssono.
- Obrigada pela parte que me toca! – sorriu Fernanda.
- Acho que a minha mãe vai adorar!
- Com certeza! – concordou dona Eda. – Vocês não querem comer alguma coisa lá em casa?
- Obrigada, mas pensamos em comer algo menos nutritivo e mais artificial, tipo xis e sorvete... – brincou Fernanda. Nina riu.
- Essa juventude... – disse dona Eda.
- Pode deixar que a gente não vai demorar. É só mesmo o tempo de fazer um lanchinho e já trago a Nina de volta.
- Você é que sabe, minha filha. A Valquíria já tinha me dito que vocês iriam dar uma saidinha. Vamos Arno, a tua sopinha já deve estar pronta.
- Sopinha... ela quer me matar de fome. Eda, eu quero um bife!
- De noite, não!
- Mas Eda, eu tenho fome!
- Quem sabe vem conosco, Seu Arno... – brincou Fernanda.
- Boa idéia, mas se eu for a Eda me escalda com a sopa na volta!
Todos gargalharam da piada do velho. O casal foi para sua casa, ainda discutindo qual seria o cardápio da janta de Seu Arno.
Antes de saírem para jantar Nina olhou para Fernanda e disse:
- Vem aqui no quarto que eu quero te mostrar uma coisa.
- O que? – quis saber Fernanda curiosa.
- Vem que eu te mostro.
Fernanda acompanhou Nina até o quarto e sentou na beirada da cama de Valquíria, enquanto Nina abria uma gaveta de uma cômoda antiga onde costumava guardar seus pertences mais significativos, quase seus tesouros. Do fundo da gaveta retirou cuidadosamente um porta-retratos onde um rosto de mulher sorria amavelmente. Nina estendeu o porta-retratos para Fernanda que examinou detalhadamente o semblante que lhe sorria. Tratava-se de uma mulher jovem, aparentando pouco mais de vinte anos, cabelos negros e lisos, pele clara, olhos de um azul quase translúcido, rosto redondo onde duas covinhas nas faces não deixavam dúvidas acerca de quem seria aquela figura até então desconhecida para Fernanda.
- É a minha mãe. – disse Nina – a minha mãe biológica.
- Bonita. – respondeu Fernanda sem saber muito bem o que dizer.
- Eu te acho parecida com ela, por causa do cabelo e dos olhos.
Fernanda esboçou um sorriso afetuoso.
- Você consegue lembrar dela?
- Mais ou menos. Às vezes eu custo um pouco pra me lembrar do rosto dela.... aí tenho que olhar para a foto dela pra não esquecer. Ela era gordinha e baixinha assim ó... – continuou Nina fazendo um gesto com a pequena mão, como que tentando mostrar a estatura da mãe. – Mas o cabelo era igualzinho ao teu...
Nina ficou em silêncio contemplando a fotografia e continuou:
- Eu já perguntei pra Val porque é que a minha mãe teve que ir embora... aí ela me explicou que as vezes Deus precisa de anjos e escolhe alguns aqui na terra. E a minha mãe era muito boa, por isso foi escolhida. A Val também me disse que ela sempre vai cuidar de mim, mesmo quando eu for grande.
- Com certeza, minha querida, com toda a certeza... – respondeu Fernanda abraçando Nina e aconchegando-a em seu colo.
-Fernanda...
- O que?
- Vamos comer? Eu tô com fome.
- Sim senhorita! Vamos lá. – respondeu Fernanda levantando-se com Nina agarrada a seu pescoço.
Colocou a criança no chão, para que ela guardasse o retrato da mãe e saíram do quarto.
Fernanda e Nina foram até uma lanchonete perto da praça central. Depois de comerem Fernanda levou a menina de volta e seguiu para o hotel. Não conseguia parar de pensar na expressão de contentamento de Nina ao colocar o Menino Jesus na manjedoura e a estrela na árvore. Realmente aquela criança lhe fazia recordar dela própria naquela idade, de suas expectativas e de quanto o seu avô lhe fazia as vontades, mesmo a contragosto dos pais em algumas situações. Seguiu sorrindo enquanto caminhava perdida em seus pensamentos.
Nas duas sextas-feiras que se seguiram eles se reuniram para jogar canastra, a primeira na casa de Valquíria, ocasião na qual as atenções estavam voltadas mais para a árvore e o presépio do que para o jogo propriamente dito. Na segunda, foram na casa do casal e as conversas giraram em torno da formatura de Nina que seria no dia seguinte. Fernanda combinou que iria pegá-las de carro, para depois jantarem fora em comemoração. Convidou o casal de amigos que aceitaram prontamente. Valquíria estaria de folga. Nina estava numa expectativa tremenda, só falava nisso. Experimentou a roupa umas vinte vezes, e outras tantas o sapato de verniz vermelho. Seu vestido era de veludo azul marinho com detalhes vermelhos, um encanto.
No sábado, bem cedo Fernanda saiu para sua caminhada habitual e depois de passar no hotel foi para a loja. A formatura de Nina seria no anfiteatro da escola, no mesmo lugar da apresentação de flauta. Fernanda saiu da loja às dezesseis horas, pois não queria se atrasar. A formatura estava marcada para as dezessete horas. Passou no hotel, pegou o carro e foi até a casa de Valquíria. Todos já estavam prontos esperando. Nina estava uma graça. Valquíria havia prendido seu cabelo com uma travessa azul marinho com flores vermelhas cujo miolo era uma pedrinha prateada, e de onde pendiam cachos cuidadosamente arrumados com gel. Parecia uma princesa saída de um conto de fadas.
- Nossa, que menina linda! – exclamou Fernanda.
Nina ficou toda boba e correu para abraça-la. Chegaram na escola com antecedência e pegaram lugares na primeira fila. Nina foi para junto de seus colegas. Fernanda havia levado uma máquina fotográfica para registrar o evento para a posteridade. Fernanda reparou em Valquíria, em quanto estava linda. Vestia um tubinho básico, preto, que deixava à mostra todas as curvas de seu pequeno corpo generosamente esculpido pela natureza. Seu cabelo loiro e liso pendia solto até a altura dos ombros. Estava maquiada, e mesmo com uma pintura discreta o contorno delineado de seus olhos realçou a cor verde dos mesmos. O batom também discreto deixava seus lábios com um aspecto úmido e brilhante. Fernanda sentiu vontade de beija-los. Sentou-se ao lado de Valquíria e sorvia o perfume de seu corpo. Disfarçou e encostou sua perna na dela, sentindo o calor e a maciez de sua pele. Como estava ficando visivelmente perturbada resolveu prestar atenção no início da cerimônia. Os formandos entraram em fila e foram aplaudidos de pé por pais, mães, avós, tios, amigos, enfim pessoas que os consideravam importantes e especiais. E de fato, Nina estava se tornando, ou melhor, já havia se tornado especial na vida de Valquíria, e de Fernanda também.
Durante a cerimônia Fernanda tirou várias fotos de Nina e no final aproveitou para fotografar Valquíria e o casal de amigos. De repente Seu Arno disse:
- Mas essa fotógrafa não vai aparecer nas fotos? Me dá o aparelho aqui e vai pro lado de lá.
Fernanda lhe explicou como manusear a máquina e fez pose ao lado de Valquíria, tendo Nina entre elas, abraçada ao pescoço das duas.
No final da cerimônia foram todos jantar no quiosque da praça central. Seu Arno aproveitou e deixou de lado sua sopinha na janta, perdendo-se atrás de um prato de talharim e de um suculento pedaço de filé mal passado. Dona Eda olhava de revés para o marido, em sinal de desaprovação, mas acabou desistindo e deliciando-se também com um saboroso prato de massa. Aliás, todos comeram muito bem. Nina repetiu duas vezes e só parou por causa de Valquíria que disse ela que ficaria sem sobremesa se não fosse com calma.
- Hoje é um dia especial, Valquíria. Deixa a garota comer. – disse Fernanda.
- Sim senhora, depois sou eu que fico acordada atendendo a coisa querida passando mal com dor de barriga...
- Tá certo... – respondeu Fernanda.
- Eu quero sorvete de sobremesa! – pediu Nina.
- Uma bola só. – ponderou Valquíria.
- Tá booom... de uva, por favor. – pediu Nina ao garçom, fazendo uma careta de contragosto.
Fernanda foi obrigada a rir da cara de Nina.
- Amanhã a senhorita come outro sorvete, quando digerir o banquete de hoje... – brincou Fernanda.
- Tá legal!!!
Conversaram no restaurante por longo tempo, até que Fernanda levou o pessoal para casa.
- Vamos tomar um cafezinho? – convidou Valquíria.
- Vamos. – Aceitou Fernanda sem cerimônias.
Dona Eda e Seu Arno foram para sua casa e Nina foi direto para o banho. Valquíria e Fernanda sentaram na cozinha para tomar café.
- Valquíria, essas duas semanas agora vão ser muito agitadas. Nem sei se conseguirei vir aqui na sexta-feira.
- Aaah, que pena... – respondeu Valquíria – quero dizer... tudo bem... eu sei que essa época é a melhor das vendas... mas é que o Seu Arno e a Dona Eda ficam na expectativa... mas, tudo bem...– gaguejou.
Fernanda riu da torrente de explicações de Valquíria.
- Não seria uma pena porque você vai deixar de ver esses meus olhos azuis?... – provocou Fernanda.
Valquíria corou.
- Convencida! E boba. – respondeu caminhando em direção ao fogão onde a água da chaleira entrava em ebulição.
Passou um café e serviu Fernanda que a encarava de maneira à quase deixa-la constrangida. Percebendo o embaraço de Valquíria, Fernanda desviou o olhar e questionou:
- E os preparativos pras nossas férias?
- Nem tive tempo de arrumar nada. Nina já está com a mala pronta.
Ambas riram e Valquíria continuou:
- Mas eu me organizo rapidinho. Tu já decidiu o dia que a gente vai?
- Pensei no dia 26, no domingo.
- Tá ótimo.
- Valquíria, olha só, eu realmente não sei se venho aqui na próxima sexta, mas se não der a gente se fala durante a semana pra combinar.
- Mas no Natal tu vens, né?
- Com certeza. Só que a loja fecha bem tarde. Mas chego antes da meia-noite!
- A gente costuma ir à missa do galo, na Catedral. Vai ser as dez da noite. Depois vem pra cá.
- Se der tempo eu vou com vocês, se não, venho depois, direto, combinado?
- Combinado.
- Bom, eu já vou indo... – disse Fernanda sorvendo o último gole de café.
- É cedo...
- Não é não. Amanhã você não trabalha?
- Trabalho. Essas duas semanas eu vou dobrar alguns dias.
- Então...
- Fernanda, obrigada por ter ido. Foi muito importante para a Nina... e pra mim.
Fernanda riu com o canto da boca, um sorriso encantador.
- Pra mim também. – respondeu Fernanda e abaixou-se dando um beijo na face de Valquíria. – Até...
- Até...
Fernanda dirigiu-se para o hotel pensando em como seu Natal seria diferente naquele ano...
As duas semanas que se seguiram foram exaustivas, tanto para Valquíria quanto para Fernanda. Esta última, apesar de todo o burburinho e agitação conseguiu arrumar um tempo e dar uma fugidinha na casa do Seu Arno e Dona Eda no dia em que costumavam jogar canastra, para alegria de todos, principalmente dela própria...
No dia 22, à noite, após o fechamento da loja, houve a festa de Natal dos funcionários do Magazine Libanês. Todos ganharam uma cesta de Natal e jantaram juntos no salão de um clube local. A festa terminou muito tarde, sendo que o pessoal não arredava pé devido à música e a cerveja de graça. Fernanda sempre adotou a política de entrosamento entre os membros de sua equipe de trabalho. Para tal costumava reunir o pessoal trimestralmente para comemorar os aniversários e nas ocasiões especiais como o Natal. Pouco depois da meia noite Fernanda pediu licença e foi para o hotel, estava exausta e precisava descansar.
Na sexta-feira, 24 de dezembro, véspera de Natal, Nina pulou da cama bem cedo. Quando Valquíria acordou a menina estava varrendo a sala e já havia organizado as almofadas no sofá, colocado a mesa do café, dado comida para Pipoca, colocado o lixo para fora do portão, separado sua roupa de ir à missa e colocado flores no vaso da sala.
- Nina... por favor... o que é que está acontecendo afinal?... – quis saber Valquíria, ainda sonolenta.
- Nada, ué! Eu só tô arrumando a casa pra de noite.
- Nina, minha querida – disse Valquíria fazendo com que Nina sentasse em seu colo, no sofá – são nove horas da manhã... falta muito pra de noite...
- Mas eu tô adiantando as coisas!
- Vamos combinar o seguinte: eu tenho meu último plantão antes das férias agora à tarde. Quando eu voltar a gente organiza tudo juntas, ok? A Dona Eda vai assar o peru e a gente só vai precisar fazer as saladas, portanto, nada de corre-corre, certo?
- Certo!
- Então larga essa vassoura e vai pro pátio brincar um pouco. E me dá um beijo de bom dia.
Nina abraçou Valquíria e a beijou afetuosamente:
- Mãe, eu te amo, sabia?
- Sabia... eu também te amo, minha flor. Agora vai.
Nina saiu correndo para o quintal e foi direto para seu balanço no galho da goiabeira. Valquíria ficou rindo da expectativa da filha. No fundo sabia que Nina estava radiante porque Fernanda passaria o Natal com elas, e porque iriam para a praia juntas. Percebia a grande afeição que Nina sentia por Fernanda e se dava conta de que era recíproco. Ela própria estava ansiosa frente ao veraneio que poderia ser promissor...
Na loja Fernanda mal teve tempo de esquentar sua cadeira de trabalho. Passou o dia todo para cima e para baixo. O movimento na loja superou as expectativas e no meio da tarde Fernanda recebeu uma ligação telefônica de seu avô:
- Alô??? É você, minha neta?
- Oi vovô! Tô morrendo se saudades!
- Como vai movimento na loja?
- Acima das expectativas!
- Bom, bom, muito bom. Natal gordo...
- Vovô, vovô, sempre o mesmo Salim! A propósito, eu vou bem, obrigada.
- Eu já ia perguntar... sua vó Ester manda beijos.
- Outros para ela. E a mamãe e o papai? Todos bem?
- Tudo bem. Vamos sentir sua falta de novo.
- Mas eu estou bem, vou passar o Natal...
- Na casa da amiga que vai pra praia contigo. – entrecortou o vovô.
- ... pois é.
- Feliz Natal para vocês, então. Muito dinheirinho no bolso, peru e panetone na barriga e amor no coração.
- Para nós todos querido... eu te amo.
- Eu também te amo, minha neta preferida!
- Vovô!!! Se a mamãe ouve vai ficar chateada.
- Aaahh, ela sabe o que eu penso dos meus outros netos!
- Mas, por favor, tente ser discreto! – riu Fernanda.
- Vou tentar. – grunhiu Salim. – Agora vai, vai, vai cuidar de loja, que tempo é dinheiro!
Fernanda gargalhou e despediu-se do avô. Quando percebeu já eram mais de nove e meia. Somente alguns poucos clientes ainda estavam na loja. Logo que saíram os funcionários fecharam as portas, despediram-se de Fernanda e correram para suas casas. Fernanda foi até o hotel e tomou um banho rápido. Já havia separado sua roupa pela manhã. Entrou na Catedral quando todos se levantaram devido à entrada do sacerdote na nave central do templo. Fernanda, de pé no fundo da igreja na tentativa de localizar Valquíria e Nina, não podia deixar de notar a suntuosidade daquele local, a arquitetura gótica, a acústica perfeita, as cores das paredes, a Via Sacra, os afrescos e os vitrais. Quão bela era a capacidade humana de se expressar através da arte, pensou. Logo conseguiu identificar os cabelos louros de Valquíria e foi até elas. Nina a abraçou contente. Seu Arno e Dona Eda estavam sentados no mesmo banco e Fernanda cumprimentou os amigos. Depois da missa foram para casa.
Fernanda havia pegado seu carro no hotel, pois não queria voltar a pé para casa, nem tão pouco sentia vontade de carregar a sacola com presentes que preparara para a ocasião. A ceia seria na casa de Valquíria e quando Fernanda adentrou na sala percebeu que a casa toda estava arrumada para o ocasião. Haviam presentes embaixo da árvore e Fernanda colocou os que havia trazido numa sacola junto dos que já estavam aguardando a meia noite para serem abertos por seus donos. Percebeu o ar de curiosidade disfarçada de indiferença que Nina lançava para os presentes embaixo do pinheirinho. Achou graça da menina que volta e meia dava um jeito de bisbilhotar os nomes nos pacotes. Por volta de onze e meia Dona Eda trouxe o peru e colocou no centro da mesa da sala. As saladas e o arroz à grega já estavam dispostos simetricamente sobre a toalha vermelha com detalhes natalinos nas bordas. Havia também um lindo arranjo de frutas suculentas e apetitosas. Nina olhava para a mesa e lambia os beiços. Quando o relógio bateu meia noite todos se cumprimentaram desejando votos de felicidades e fraternidade. Sentaram-se à mesa e Valquíria sugeriu fazerem uma oração.
- Hoje é uma ocasião especial – iniciou Valquíria – estamos reunidos como devem estar reunidas milhares de pessoas no mundo todo, com o mesmo objetivo. Este foi um ano onde tivemos a bênção de conhecer uma pessoa muito especial, que se tornou nossa grande amiga, e companheira de contravenção... – riu Valquíria referindo-se aos jogos sistemáticos de canastra – mas, brincadeiras à parte, eu queria agradecer por este momento, pois a vida é feita de momentos... que Deus nos dê saúde, prosperidade, sabedoria e a graça de mantermos nossa amizade por mais um ano, dois, três, para sempre...
- Eu também quero dizer uma coisa! – tagarelou Nina – Eu tô contente porque a nossa família tá aumentando! E eu amo vocês e eu queria comer logo pra gente abrir os presentes!
Todos tiveram que rir. Fernanda olhou para as pessoas à sua volta e seus olhos se encheram de lágrimas. Pegou a mãozinha de Nina e a de Valquíria e disse:
- Bom... de minha parte eu gostaria de agradecer a acolhida desta família. Se eu não tivesse conhecido vocês certamente estaria no hotel me preparando para ver os fogos de artifício da sacada com uma garrafa de champanhe na mão... e sozinha. Mas, como eu não pretendo ser a responsável pela ansiedade de certa pessoa nesta mesa, vou ser breve. Estou realmente muito feliz de estar aqui com vocês, e posso dizer do fundo do meu coração que vocês quatro ocupam um grande espaço dele. Muito obrigada por existirem.
Todos abraçaram Fernanda que tentava em vão esconder a trajetória de uma gota cristalina que teimava em escorrer-lhe do canto dos olhos. Para a alegria de Nina logo começaram a cear. Dona Eda e Nina tomaram refrigerantes, enquanto que Fernanda, Valquíria e Seu Arno se deliciaram com um vinho tinto seco, de fabricação local, direto da adega de um amigo de Seu Arno.
Quando terminaram de comer Nina correu para o sofá e sentou-se ao lado da árvore. Seu Arno disse em tom disfarçado:
- Bom... já está tarde, eu preciso ir deitar que amanhã eu acordo cedo. Como nunca tem presentes pra mim mesmo vou para casa... a Eda vai ficar mais um pouco, não vai?
- Sim, vou. – respondeu a velha senhora.
- Ele tá disfarçando... – Nina cochichou no ouvido de Fernanda - ...ele vai se vestir de Papai Noel... espera só pra ver...
- Quem sabe a Nina toca uma musica de Natal na flauta, para ver se o Papai Noel escuta e passa por aqui – disse Dona Eda.
- Agüenta aí que eu vou pegar a flauta – respondeu Nina e saiu correndo na direção do quarto.
Voltou com seu instrumento de sopro e uma pasta com partituras. Chegou a tocar somente uma música quando se ouviu uma batida seca na porta.
Toc, toc,toc...
- Quem é? – perguntou Dona Eda.
- É o Papai Noel!!! – respondeu Seu Arno disfarçando a voz.
Nina pulou e abriu a porta para o velhinho, puxando-o pela mão e fazendo-o sentar-se ao lado da árvore de Natal. Procurava não olhar muito para ele, para não sentir vontade de rir, devido à magreza do Papai Noel, apesar do travesseiro na barriga.
- Ho, ho, ho.... tem gente comportada nessa casa???
- TEM!!! – gritaram todos em uníssono.
- Bom, nesse caso eu vou entregar os presentes que meus ajudantes já colocaram neste pinheirinho. Deixa eu ver... Nina! Cadê a Nina?
- Sou eu!!! – pulou contente.
Nina ganhou um pacote enfeitado com fitas amarelas. Era um vestido feito por Dona Eda. Ganhou ainda uma boneca de Valquíria e um par de tênis novos. Seu Arno deu uma caixa de bombons de licor para Dona Eda e esta deu uma camisa nova para o marido. O casal deu uma vela aromática para cada uma das moças. Valquíria havia comprado um vinho para Seu Arno, pois ela sabia que ele era apreciador, e um conjunto de colar e brincos para Dona Eda, que era vaidosa e adorava se arrumar. Fernanda escolheu uma cesta de Natal para o casal, com as mais variadas especiarias e bebidas. Custou um pouco para escolher o presente de Valquíria e optou por um perfume, mesmo sendo um presente bem pessoal, apostava que Valquíria adoraria a fragrância, e de fato adorou o Byzance, de Rochas. Valquíria não sabia bem o que dar para uma pessoa que aparentemente tinha tudo o que desejava. Acabou escolhendo um livro de Mitologia Grega, que Fernanda amou. Quando entregou todos os presentes que estavam embaixo da árvore o velhinho falou:
- Huuumm... quase ia me esquecendo... tem um presente que eu trouxe agora e esqueci do lado de fora da porta! Só não lembro bem para quem é...
Os olhos de Nina brilharam e um sorriso de orelha a orelha se estampou em seu rostinho lindo.
- Aaah, lembrei! – continuou o velhinho – é pra Nina!
A menina pulou igual milho de pipoca em frigideira quente e correu na direção da porta. Ao chegar do lado de fora soltou um gritinho de felicidade. Entrou em casa radiante de felicidade empurrando uma bicicleta lilás, com um cestinho dianteiro e pedais com detalhes prateados. Mal cabia em si de contentamento e olhou um por um não sabendo a quem agradecer o presente. Fernanda riu feliz ao ver a satisfação da garota. Valquíria olhou para ela e disse baixinho:
- Fernanda... pelo amor de Deus, o que é isso?
- Se não me engano é uma bicicleta... pelo menos peguei como sendo.
- Não faz gracinhas... não podemos aceitar...
Fernanda sorriu para os demais e discretamente conduziu Valquíria pelo braço até a cozinha onde perguntou:
- Como não podem aceitar? O presente não é pra ti, é pra Nina.
- Mas é muito caro!
- Valquíria, por favor! Não estrague a noite com um orgulho besta. Você não viu a carinha dela? Vai ter coragem de dizer que ela tem que devolver o presente?
Valquíria baixou os olhos e se calou. Fernanda continuou.
- Vai me dizer que você nunca sonhou em ter uma bicicleta quando era criança.
- Claro que sonhei...
- E teve?
- Não...
- E hoje, se ganhasse uma, seria a mesma coisa?
Valquíria respondeu baixinho, mais para si mesmo:
- Não.
- Pois então! Tudo tem seu tempo, depois perde a graça! Não deixe o tempo de Nina se perder com o teu orgulho besta. Eu não comprei uma bicicleta pensando no preço, e sim porque toda criança adora bicicleta! Dá pra entender?
- Dá. – assentiu Valquíria um pouco envergonhada – desculpe...
- Tudo bem... – respondeu Fernanda envolvendo Valquíria num abraço – vamos voltar para a sala.
Ambas sentiram um calor invadindo seus corpos através daquele contato. Valquíria sentia o abraço quente de Fernanda envolvendo-a por completo. Fernanda cingiu Valquíria como quem segura o mundo nas mãos. Sentiu o corpo pequeno estremecer envolto em seus braços. Valquíria levantou os olhos e o azul celeste mergulhou no verde marinho, a proximidade das bocas deixou Valquíria com a pulsação acelerada e Fernanda sentiu vontade de beijar aqueles lábios. Porém respirou fundo, dando-se conta de onde estava e de que Nina poderia irromper na cozinha a qualquer momento. Lentamente afastou-se de Valquíria, embora isso quase lhe infringisse uma dor física. Esboçou um sorriso e pediu:
- Vamos? – apontou para a sala.
As pernas de Valquíria custaram um pouco a entender as ordens de seu cérebro. Por muito pouco não havia beijado aquela mulher tão encantadora, sem nem pensar na situação que poderia se originar daí. Respirou fundo e retornou à sala, seguida por Fernanda. Nina já estava na calçada da rua andando em sua bicicleta nova, cuidada de perto pelo Papai Noel, que àquela altura do campeonato já havia perdido a barriga postiça. Dona Eda comia mais um pedaço do bolo de nozes da sobremesa.
Já eram quase três horas da madrugada quando Nina esboçou o primeiro indício de sono. Valquíria, sentada no sofá da sala, pegou a filha no colo e ajeitou-a para que pegasse no sono. Seu Arno e Dona Eda já haviam ido para casa. Fernanda pegou Nina já adormecida dos braços de sua mãe e a levou até sua cama. Depois tratou de despedir-se rapidamente de Valquíria e ir para o hotel, antes que chegasse ao extremo de agarrar Valquíria e dar vazão à torrente de sensações que vinham fluindo nos últimos tempos. Chegou a pensar se aqueles dias na praia seriam dias de descanso e descontração ou uma tortura chinesa. Decidiu pagar para ver.
- Amanhã eu vou fazer os preparativos da nossa viagem. – disse Fernanda – não terei tempo de passar aqui, mas no domingo de manhã eu pego vocês aqui, ok?
- Tudo bem.
- Às seis horas tá bom? Aí a gente ainda chega em tempo de aproveitar um pouco do domingo.
- Tá ótimo.
- Boa noite, então. E obrigada por tudo.
- Eu é que agradeço, por mim e pela minha filha...
Fernanda sorriu com o canto da boca e deu uma piscadela com o olho direito. Entrou em seu carro e voltou para o hotel. A imagem de Nina voando em sua bicicleta nova não lhe saía da cabeça. Nem tão pouco a sensação do corpo de Valquíria em suas mãos. Tomou um banho frio e foi se deitar.
Na casa de Valquíria também houve quem vagasse até quase cinco horas da manhã, tentando racionalizar o que se passava. Chegou a pensar em desistir da viagem, mas se deu conta que não seria justo com Nina, que estava na expectativa há semanas. Também tomou um banho frio e pegou no sono quando a primeira claridade da manhã irrompia a escuridão da noite, apagando o brilho das estrelas que, assim como Valquíria, também foram dormir.
Valquíria não conseguiu acordar antes do meio dia e quando saiu da cama não encontrou Nina dentro de casa. Foi até o pátio nos fundos da casa e encontrou Nina andando em sua bicicleta nova, indo e vindo velozmente.
- Vai acabar fazendo um buraco no chão de tanto andar pelo mesmo caminho! – brincou Valquíria.
- Eu não saí do pátio porque tu não tinha acordado ainda, e eu ia levar bronca se saísse sozinha!
- Ia mesmo!
- Vamos na praça mais tarde?
- Nina, eu preciso arrumar as nossas coisas...
- As minhas eu já arrumei. As da Pipoca também.
- Da Pipoca? Ela vai ficar com a Dona Eda.
- A Fernanda disse que ela pode ir junto!
- Tu pediu pra levar?
- Não, ela que falou.
- Nina...
- É verdade, pode perguntar pra ela.
- Tudo bem, eu acredito em ti. Mas quero só ver se ela enjoar no carro...
- Ela não vai enjoar, esqueceu que ela já andou de carro outras vezes?
- Pois é verdade... e gosta de ir na janela... tô bem arrumada! – disse Valquíria sacudindo a cabeça e entrando em casa para preparar alguma coisa para comer.
Valquíria fez um almoço rápido e tratou de arrumar suas malas. Decidiu levar somente o essencial. Revisou as roupas que Nina havia separado para levar. A menina havia deixado o urso Fernando sentado ao lado de sua mochila, junto com duas revistinhas da Turma da Mônica para a viagem. Valquíria levou Nina até a praça no meio da tarde para que curtisse sua bicicleta nova, porém ficaram pouco tempo. Trataram de voltar para casa para dormirem cedo. Logo depois da janta foram se despedir do Seu Arno e da Dona Eda, pois no dia seguinte eles provavelmente ainda estariam dormindo na hora em que Fernanda ficara de passar para pegá-las. Às dez horas já estavam deitadinhas, preparando-se para dormir.
Fernanda também preparou os últimos detalhes da viagem. Fez alguns encaminhamentos na loja, revisou o carro, abasteceu, fez as malas. Quando percebeu já eram quase dez e meia. Ligou para Valquíria para ver se estava tudo certo.
- Alô? – disse uma voz doce, já imaginando quem estaria no outro lado da linha.
- Oi Valquíria. Tudo certo para amanhã de manhã?
- Tudo. Inclusive a Pipoca...
Fernanda gargalhou ao telefone.
- Me diz sinceramente, foi a Nina que pediu para levar a cachorra, não foi?
- Não, eu que sugeri, pois sei como ela gosta da mascote.
- Fernanda, tu não existe, sabia?
Novamente Fernanda teve que rir.
- A casa tem um pátio enorme, não vai ter problema nenhum.
- Tá bom... me convenceu. – respondeu Valquíria.
- Então eu tô passando aí às seis.
- Estaremos aguardando.
- Boa noite. – disse Fernanda carinhosamente
- Boa noite... e sonhe com os anjos. – respondeu Valquíria e desligou.
Fernanda sorriu para si mesma. Sonharia com um anjo sim, de olhos verdes, sorriso tímido... e uma certa dose de ousadia...
Pouco antes que a primeira claridade da manhã surgisse por detrás da linha do horizonte Fernanda acordou. Eram quase cinco horas da manhã e o relógio ainda não havia despertado. Fernando tinha essa capacidade de acordar independente da hora que fosse preciso. Era como se no seu cérebro houvesse um timer, era assim desde pequena. Trancou o despertador e foi tomar um banho demorado. Embora fosse uma mulher bastante segura de si estava de fato numa grande expectativa de viajar com Valquíria e Nina. Mal cabia em si de excitação. Tratou de secar os cabelos deixando-os caídos soltos sobre os ombros. Vestiu-se e ligou para a portaria do hotel pedindo que pegassem suas malas.
Enquanto isso Valquíria e Nina também faziam os últimos preparativos para a viagem. Na noite anterior Nina havia dado banho em Pipoca, e após seca-la com o secador de cabelos de Valquíria deixou-a dentro de casa, para evitar que se sujasse. De manhã bem cedo Nina deixou Pipoca fazer um xixizinho no pátio e a colocou para dentro de novo, passando novamente uma escova em seu pêlo. Ela estava de coleira nova e parecia entender que sairia a passeio, pois sentou-se comportadamente ao lado do sofá da sala. Valquíria deu um copo de Nescau para Nina e observou-a sentada no sofá tendo Pipoca a seus pés, com a mochila de um lado e Fernando do outro. Não saberia dizer qual das duas, Nina ou Pipoca, estavam com a expectativa maior. Quando o carro de Fernanda estacionou em frente à casa Pipoca levantou as orelhas e soltou um latido agudo, ficando em posição de prontidão. Nina pulou do sofá e correu em direção à porta:
- É a Fernanda!!! Vamos mãe!
- Já tô indo, garotinha! Deixa a Fernanda entrar...
Nina correu até o portão e antes que Pipoca corresse à sua frente disse:
- Parada aí, Pipoca!
A cachorra se manteve sentada, porém abanava a cauda alucinadamente e saltitava só com as patinhas da frente.
- E aí pessoal! – disse Fernanda entrando em casa de Valquíria. – Tudo pronto?
- Desde ontem! – respondeu Nina.
- Então perdemos tempo, poderíamos ter saído ontem?... – brincou Fernanda.
- Nina... – disse Valquíria em tom de repreensão.
Fernanda riu. Ajudou Valquíria a pegar as malas e ajeitou Nina e Pipoca no banco traseiro. Cintos de segurança colocados, bagagens ajeitadas, casa fechada. Tudo pronto e colocaram o pé na estrada. Nina mal cabia em si de contente. Aliás, não era só ela que estava radiante...
A viagem transcorreu tranqüila, tomaram um café na estrada por volta de nove horas. Perto do meio dia pararam para almoçar e antes das três da tarde chegaram à Garopaba.
Fernanda estacionou o carro em frente à casa de seu avô e antes que desembarcasse um homem de meia idade correu para abrir o portão. Era Manoel, o caseiro da residência, que já esperava a patroa. Acenou para elas enquanto o carro cruzava o portão de entrada da residência. Valquíria observou que a casa era de frente para o mar. Uma casa ampla, com uma varanda onde estavam penduradas algumas redes. Da varanda, em direção ao mar, um gramado verde parecia um tapete que se estendia fazendo divisa com a areia fina que se projetava água adentro. Valquíria sentiu vontade de correr em direção ao mar e jogar-se em suas ondas de coloração esverdeada e espumas brancas. Fernanda, como que lendo os pensamentos da amiga disse:
- Dá vontade de dar um mergulho, não dá?
- Realmente... é lindo. – respondeu Valquíria sem desviar os olhos da água.
Nina, com Pipoca no colo, desceu do carro e caminhou em direção ao gramado. Estava boquiaberta com a extensão daquele mar esverdeado que ia além do que sua vista poderia alcançar. Nina nunca tinha visto o mar e aquela visão deixou a menina encantada. Colocou Pipoca no chão para que corresse um pouco e foi até Fernanda e Valquíria.
- Eu não sabia que tinha tanta água assim no mar! – disse Nina inocentemente.
- Pra você ver... e isso aqui é só um tantinho assim do tamanho total do mar! – respondeu Fernanda abaixando-se para pegar Nina no colo. – Olha só, a gente não enxerga o fim nem o começo.
- É mesmo. – concordou Nina. – A gente pode tomar banho de mar agora?
- Podemos. – respondeu Fernanda – Mas antes vamos descarregar o carro e dar uma ajeitadinha nas coisas, ok? Aí a gente dá um mergulho, pode ser?
- Pode!!! – respondeu Nina alegremente.
Valquíria assistia à conversa das duas, sorridente, vendo a faceirice da filha e a paciência de Fernanda. Manoel descarregou as malas e Fernanda conduziu Valquíria até o quarto que ocuparia com Nina. A casa era muito confortável. As divisórias eram de tijolos à vista, assim como as paredes externas. Havia cinco quartos, sendo um deles uma suíte, que era o quarto de Fernanda. Valquíria e Nina se instalaram no quarto da frente do de Fernanda, onde uma ampla janela descortinava-se para um gramado e um galpão logo adiante cuja porta cerrada não permitia a Valquíria ver o que havia ali dentro. No centro do gramado havia um caramanchão coberto totalmente por um pé de maracujá. Um pouco mais à frente uma figueira muito antiga sustentava três balanços de corda que oscilavam em sua sombra aconchegante impulsionados pelo vento que vinha da praia. Mais ao longe Valquíria percebeu uma casa simples de alvenaria que mais tarde descobriu ser do caseiro e de sua família. Manoel era casado com Josefa e tinham quatro filhos: Samir com 11 anos, Sandra com 8 e os gêmeos Diego e Denise com 4.
O quarto de Valquíria era realmente muito confortável, com uma vasta cama de casal no centro, um roupeiro antigo de madeira escura, uma penteadeira com uma cadeira torneada, um pequeno sofá num canto, dois criados mudos parafusados na parede em ambos os lados do leito e um ventilador de teto no centro do aposento. Valquíria arrumou suas roupas e as de Nina no armário e vestiu um maiô preto com detalhes em verde limão, colocando uma canga verde trançada ao redor do corpo como se fosse um vestido. Nina botou seu biquíni novo, amarelo com flores em cor de laranja e branco. Em menos de uma hora estavam com tudo arrumado. Valquíria emplastou Nina com filtro solar, pois a menina tinha a pele clara. Aproveitou e passou nela também. Nina espalhou o filtro em seus ombros e lambuzou a ponta de seu nariz numa brincadeira provocativa.
Fernanda, por sua vez, também ajeitou suas coisas em seu quarto e vestiu um sunquíni azul marinho cujo top tinha um detalhe em branco nas laterais e no decote.
Quando Valquíria e Nina saíram do quarto Fernanda já as aguardava na varanda.
- Dá uma olhadinha aqui no resto da casa, Valquíria. – disse Fernanda – levando-a até as demais peças. – Aqui são os outros quartos, esse aqui foi transformado em escritório, aqui é a sala de jogos, a cozinha.
Quando entraram na cozinha Valquíria deslumbrou-se com um armário envidraçado de onde se avistava os mais variados temperos.
- Fernanda, isso aqui é um paraíso para quem gosta de cozinhar! – brincou Valquíria.
- Josefa que o diga! Ela faz uma comidinha saborosa.
- Ah... mas eu quero cozinhar também...
- Não senhora! A senhora aqui é hóspede, e veio para descansar, não para cozinhar!
- Mas eu adoro cozinhar.
- Mas não nas férias...
- Tudo bem, só uma vezinha então.
- Tá certo... – riu Fernanda frente à insistência de Valquíria. – Agora vamos dar um mergulho? A Nina já deve estar lá fora.
- Será que ela foi pro mar sozinha? – disse Valquíria apreensiva.
- Acredito que não. Eu pedi pra ela ficar esperando a gente nos balanços. – respondeu Fernanda.
Quando elas saíram Nina se embalava num dos balanços de corda enquanto conversava animadamente com uma garotinha morena.
- Bom, pelo visto vocês já se apresentaram? – quis saber Fernanda.
- Mãe, essa é a Sandra, ela mora ali ó – disse Nina apontando para a residência do caseiro – e é filha daquele senhor que abriu o portão pra gente!
- Muito prazer, Sandra. – disse Valquíria.
- Igualmente – respondeu a menina.
- E ela tem três irmãos, - emendou Nina – o Samir, o Diego e a DDenise.
- Bom, vamos dar um mergulho antes que Nina forneça a ficha completa da família? – disse Fernanda debochando.
Valquíria riu. Nina fez uma careta e desceu do balanço pegando Fernanda pela mão.
- Tchauzinho Sandra, depois a gente brinca mais, tá? – disse Nina.
As três caminharam até o mar. Fernanda havia pegado uma prancha de isopor, dessas pequenas que era de um de seus sobrinhos. Entrou com Nina na água enquanto Valquíria estendia sua canga na areia e sentava para contemplar o balanço das ondas. Aliás, olhava também para o balanço do caminhar de Fernanda em direção à água. Nina corria na frente saltitando e jogando água para os lados. Fernanda correu e mergulhou numa onda que vinha em sua direção. Saiu do outro lado do degrau de água e ajeitou os cabelos que, agora molhados, pendiam soltos sobre seus ombros. Valquíria sentiu a boca seca frente à visão daquela mulher, principalmente após deixar Nina sentadinha no raso brincando com a prancha e caminhar na direção dela com a cadência de uma escola de samba em dia de desfile do primeiro grupo. As gotas d’água que escorriam pelo seu corpo deixavam rastros em sua pele morena como se fossem cursos de rios desbravando territórios ainda inexplorados. Valquíria sentiu desejo de acompanhar a trajetória daquelas gotículas com a ponta dos dedos e quando Fernanda sentou à sua frente percebeu que a pele dela estava arrepiada. Com isso seus mamilos ficaram enrijecidos e projetavam-se em relevo por sob o top molhado. Valquíria desviou o olhar temendo que suas pupilas delatassem seus pensamentos.
- A água tá uma delícia, vamos dar um mergulho? – convidou Fernanda.
- Não tá muito fria?
- Não tá não, tá ótima.
- Mas tu tá arrepiada...
- É por causa da brisa... – respondeu Fernanda com um tom de divertida malícia, levantando-se e estendendo a mão para Valquíria, que se deixou suspender e caminhou até a beira do mar.
Passaram por Nina e Valquíria recomendou:
- Fica aqui querida, não vem pro fundo. A Fernanda e eu vamos dar um mergulho e já voltamos.
- Pode deixar, eu tô adorando brincar com as ondas.
Valquíria e Fernanda entraram mar adentro. A água estava realmente muito boa, quase morna. Aquela praia não tinha ondas muito violentas e se podia entrar sem receio de maiores repuxos. O clima também estava ajudando. Dias ensolarados e quentes. A estiagem castigava quem dependia da chuva para a lavoura. Fernanda no entanto estava adorando aquele clima. Não pôde deixar de observar Valquíria na água, com o maiô molhado desenhando os contornos de seu corpo. Seus pêlos dourados capturavam gotas de água salgada e os raios do sol daquele final de tarde refletiam sua luz alaranjada em cada partícula daquele líquido, conferindo uma coloração brilhante àquela pele alva. Valquíria parecia ter saído de um livro de conto de fadas. Era a imagem da perfeição, pensou Fernanda.
Ficaram na praia até o sol se por no horizonte. Quando entraram para tomar banho Josefa já preparava a janta. Depois das apresentações Valquíria foi supervisionar o banho de Nina, e separou roupas para a filha vestir. Logo em seguida tomou seu banho. Fernanda também tomou banho e quando voltou para a cozinha Josefa já tinha terminado a janta e voltado para sua casa. Deixou a mesa posta e as panelas no fogão.
A cozinha dava para uma enorme varanda envidraçada que ficava voltada pra o mar. Era a peça mais usada da casa, onde uma mesa comprida de madeira acabava sediando jogos de cartas, refeições, conversas, trabalhos manuais, enfim, era a verdadeira "sede social" daquela residência. Dois confortáveis sofás e duas poltronas estofadas ficavam num dos cantos, perto de uma televisão suspensa num suporte no outro canto da parede. No lado de fora da varanda havia um área coberta, onde redes pendiam como que convidando para uma sesta. Da varanda interna podia-se subir uma escada de madeira com um corrimão encerado que levava a um mezanino, onde uma janela em forma de arco permitia avistar a imensidão do mar.
As veranistas estavam exaustas e foram dormir logo após a janta. Recolheram-se aos seus respectivos aposentos e mal deitaram as cabeças nos travesseiros adormeceram profundamente.
A segunda-feira despontou com um céu límpido prenunciando um dia ensolarado e quente. Valquíria despertou lentamente espreguiçando-se e rolando de um lado para outro na vasta cama de casal. Tateando se deu conta de que estava sozinha, Nina já havia se levantado, como sempre. Languidamente estirou novamente os membros superiores e inferiores, imitando o movimento de um felino ao despertar. Pouco a pouco foram se materializando em sua memória lembranças da noite anterior, onde após um dia agradabilíssimo, porém agitado, mergulhou naquela cama macia após um banho relaxante. Os lençóis tinham um perfume suave e o travesseiro antialérgico poderia ser comparado a uma nuvem de algodão doce. A temperatura à noite caiu um pouco e Valquíria puxou um cobertor para que não sentissem frio. Mergulhadas naquele ninho aconchegante ela e Nina haviam pegado no sono quase que instantaneamente. Valquíria levantou-se lentamente e sentiu um aroma de café fresco no ar. Deu-se conta de que estava com fome. Olhou para o relógio que marcava onze horas da manhã. Vestiu-se e saiu do quarto. Não pode deixar de perceber a porta do quarto de Fernanda aberta e não resistindo à curiosidade espiou para dentro. A cama estava arrumada e o quarto exalava o perfume de Fernanda. Valquíria fechou os olhos e inspirou profundamente, como que tentando capturar e reter aquela fragrância dentro de si. Ainda com a sensação olfativa do quarto de Fernanda foi até a cozinha.
A mesa estava posta, o café pronto numa cafeteira elétrica num canto do balcão e um vaso com flores, o qual prendia um bilhete escrito numa caligrafia harmônica e com duas assinaturas conhecidas: "Bom dia dorminhoca, acordamos cedo e fomos para a praia. Deixamos o café pronto. Fique tranqüila que emplastei Nina de filtro solar! Esperamos por você na praia. Beijos, Fernanda e Nina."
Valquíria sorriu e levou o bilhete aos lábios, involuntariamente, beijando-o com suavidade. Olhou em volta, sentou-se à mesa e tomou café. Havia um pão caseiro delicioso que deveria ter sido feito pela esposa de Manoel. Valquíria saciou-se e aproveitou para bisbilhotar nos armários da cozinha, para verificar o que havia disponível para fazer no almoço. Satisfeita com o que encontrou pegou uma maça na fruteira e dirigiu-se para a rua.
Neste momento Josefa vinha chegando e cumprimentou Valquíria:
- Bom dia, eu sou a Josefa, esposa do Manoel. Vim preparar o almoço para vocês.
- Bom dia. Eu sou a Valquíria. Muito prazer.
- Igualmente – respondeu Josefa.
- Olha só Josefa, hoje você está de folga.
- Como assim? E o almoço?
- Hoje eu é que vou cozinhar...
- Mas a dona Fernanda me disse para...
- Não importa o que a Fernanda tenha dito. Eu decidi cozinhar hoje. Pode deixar que depois eu falo com ela.
- Bom... a senhora é que sabe...
- Fique tranqüila que está tudo bem. É que eu adoro cozinhar. E vi que tem uns ingredientes bem interessantes na despensa, para novas experiências gastronômicas! – riu Valquíria.
- Então eu vou indo. Se a senhora precisar de alguma coisa é só chamar.
- Obrigada Josefa.
A serviçal se retirou sem entender bem o que se passava, mas decidiu não polemizar, afinal recebia para cumprir ordens. Já que não precisaria cozinhar decidiu que naquela manhã daria prioridade a uns trabalhos de costura que estava fazendo, para aumentar o ganho da família.
Valquíria caminhou em direção ao mar tentando localizar a dupla dentro d’água. Não demorou a vislumbra-las devido aos latidos de Pipoca que fazia festa fora da água enquanto Fernanda e Nina divertiam-se furando as ondas. Percebeu que Nina estava com um colete salva-vidas infantil cor de laranja amarrado ao tórax. Ficou satisfeita ao ver o cuidado que Fernanda tinha com sua filha. Chegou perto e se pôs a contempla-las pensativa. Depois de um tempo foi Fernanda quem percebeu sua presença e acenou para ela. Pegou Nina pela mão e saíram do mar. Pipoca correu saltitante na direção delas.
- Mãe!!! – gritou Nina alegremente – A gente já andou de bicicleta e caminhou na praia. Agora estamos brincando de furar ondas.
- Bom dia madrugadoras! – brincou Valquíria. – Obrigada pela gentileza do café.
Fernanda fez uma mesura, num gesto teatral, como se fosse um mordomo, sendo imitada por Nina:
- Nada mais que nossa obrigação, madame.
Valquíria teve que rir das palhaçadas das duas.
- Isso aqui é um verdadeiro paraíso – disse Valquíria olhando para os lados.
- Realmente. – respondeu Fernanda – você precisa conhecer as pedras que ficam perto do morro, maravilhosas... podemos ir lá pela tarde.
- Podemos sim.
- Ôôôbaaaa!!! – pulou Nina, sempre pronta para qualquer movimento.
Valquíria deu um tapinha no traseiro da filha.
- Vamos dar um mergulho? – convidou Fernanda –A água está uma delícia.
- Não sei...
- Tenho uma idéia melhor – continuou Fernanda – Vamos até aquele trapiche, - disse apontando - tem um jetsky atracado lá.
Antes que Fernanda terminasse a frase Nina disparou correndo naquela direção, seguida de Pipoca. Valquíria questionou:
- Mas não é perigoso?
Fernanda passou o braço sobre seus ombros, conduzindo-a cordialmente.
- Perigoso é viver... – respondeu Fernanda sorridente.
Valquíria sentiu o frescor da pele molhada de Fernanda de encontro à sua. Sentiu-se incapaz de esboçar qualquer reação, deixando-se conduzir por aqueles braços fortes porém delicados. Fernanda conseguia deixa-la desnorteada com um simples toque. A morena, por sua vez, também percebia o quanto aquela pele suave e macia lhe despertava os desejos mais contidos, enclausurados há bastante tempo dentro de um baú rotulado trabalho. Em verdade vinha se dedicando exclusivamente ao trabalho nos últimos tempos, relegando sua vida pessoal a segundo plano. Com a desculpa de que não lhe sobrava tempo para nada, acabava afastando qualquer vínculo que pudesse configurar compromisso. Deu-se conta de que despertava dentro dela algo de novo, talvez uma nova perspectiva de ver o mundo e o leque de possibilidades que se descortinavam a partir daí. Isso assustava Fernanda porém, apesar dos riscos, estava decidida a não fugir de seus sentimentos. Como boa jogadora pagaria para ver. Como se a vida fosse um jogo...
Chegaram até o trapiche e Fernanda colocou o jetsky na água, sorrindo para a dupla que a observava atenta:
- Muito bem, quem é a primeira caroneira?
- EU!!! – saltou Nina.
Fernanda ajeitou a menina atrás dela e partiu veloz fazendo zigue-zagues por sobre as águas verdes do mar. Nina estava radiante. Por vezes abanava para Valquíria, porém sem desgrudar-se da cintura de Fernanda. Depois de quase meia hora retornaram para a beira da praia.
- Muito bem, agora vamos nós! – disse Fernanda dirigindo-se à Valquíria.
- Ai, eu não sei, eu tenho um pouco de medo.
- Confie em mim. – disse Fernanda estendendo a mão e fitando Valquíria nos olhos.
Valquíria se virou para Nina e disse:
- Fica aqui com a Pipoca, nada de entrar na água sozinha.
- Pode deixar, mãe, eu vou brincar aqui na areia.
Valquíria olhou para Fernanda e sorriu pegando em sua mão estendida e se ajeitando na garupa do jetsky. Não teve outra alternativa a não ser encostar bem o corpo em Fernanda e abraça-la pela cintura. Sentiu a firmeza de cada músculo daquele corpo e o contato com sua pele molhada pela água salgada fazia com que aderisse a ela, como se houvessem ventosas em seus poros. O jetsky iniciou sua corrida e automaticamente Valquíria ia colando mais o seu corpo ao de Fernanda, conforme a velocidade aumentava. Por fim deitou seu rosto nas costas de Fernanda, sentindo no canto da boca o sabor da pele salgada. A proximidade das duas fez com que Fernanda se entesasse, forçando seu corpo de encontro à mulher atrás de si. Valquíria, por sua vez, sentiu o corpo de Fernanda se espremendo junto ao seu e abriu mais suas pernas como que acolhendo-a em seu interior. Instantaneamente sentiu uma umidade invadir-lhe as entranhas e um calor emanando de seu sexo. Fernanda fechou os olhos e pode sentir o calor atrás de si. Era como se o tempo houvesse parado, ou tivesse deixado de existir. A sensação era de um fogo crescente e pôde sentir sua pulsação em todos os poros de sua pele. Fernanda abriu os olhos, respirou fundo, e antes que perdesse o controle de suas reações e do jetsky fez uma manobra por sobre as águas e afastou-se um pouco de Valquíria. Com aquele movimento Valquíria também foi trazida de volta à realidade. Olhou para a margem e avistou Nina a acenar-lhes. Por um momento sentiu um misto de insegurança e angústia, não sabia definir ao certo seu sentimento. Estava adorando sentir o contato do corpo de Fernanda junto ao seu, mas sentia culpa por talvez estar se aproveitando dela. Fernanda, por sua vez, também estava se sentindo perturbada, sem saber definir direito que sentimento era aquele que turvava suas atitudes racionais e colocava em xeque suas concepções de vida e de liberdade. Na verdade, sabia sim... só não queria admitir o que era. Resolveu retornar para a praia. Ambas desembarcaram caladas, deixando a cargo de Nina e Pipoca a recepção efusiva. Fernanda deixou o jetsky no trapiche e voltaram para casa sem trocar palavras entre si, somente olhares tímidos com o rabo dos olhos. Ao entrarem em casa Fernanda estranhou a ausência de Josefa.
- Onde será que está Josefa?
- Ela esteve aqui logo que eu acordei, mas pedi que deixasse o almoço por minha conta. – respondeu Valquíria.
- Valquíria... – retrucou Fernanda.
- Por favor, não diga nada a ela. Fui eu quem pediu que voltasse para casa. Eu vi que na dispensa tem alguns ingredientes interessantes...
Fernanda sorriu dando-se por vencida.
- Tá bom... mas só por hoje.
- Só por hoje. Agora me deixem tomar banho primeiro, para começar logo o almoço. Nina, come uma fruta agora, depois vai tomar banho e tirar esse biquíni molhado. Não senta no sofá. Fica lá fora até a hora de entrar no banho. Não deixa a Pipoca subir no sofá também. Limpa os pés dessa cachorra.
- Quantas ordens! – brincou Fernanda.
- Experimenta baixar a guarda pra ver se tu consegue segurar essa garota depois... – riu Valquíria dirigindo-se para o banheiro.
Valquíria abriu o registro da água quente e entrou naquele jato forte e morno. Deixou a água escorrer por sobre sua cabeça, como que tentando fazer com que clareassem suas idéias e sentimentos, retirando todas as dúvidas que turvavam sua visão e lhe enchiam o coração de insegurança. Após o banho sentia-se bem melhor. Fernanda também havia tomado seu banho e logo em seguida Nina também.
Valquíria entrou na cozinha e começou a preparar o almoço. Mal havia começado e Fernanda se ofereceu para ajuda-la, assim como Nina.
- Muito obrigada meninas, mas estão dispensadas! O almoço é surpresa. Já para a sala! – disse Valquíria imitando um general e apontando a porta da cozinha.
Frente ao tom decidido de Valquíria, nem Fernanda nem Nina discutiram. Trataram de sentar no sofá e esperar comportadamente.
Após cerca de uma hora Valquíria estava com o almoço pronto. Quando entrou na varanda para colocar a mesa deparou-se com Fernanda deitada no sofá tendo Nina estirada de todo o comprimento sobre seu corpo, abraçada a ela, deitada de bruços com a cabeça em seu peito. Ambas dormiam profundamente. Pipoca estava enrosquilhada sobre uma das canelas de Fernanda, e também dormia a sono solto. Nina estava com um shortinho rosa e uma mini blusa vermelha. Fernanda com um top e um short brancos. O contraste da pele morena de Fernanda com a pele clara de Nina desenhava uma bela imagem. Os cabelos negros e lisos misturavam-se aos cachos castanhos dourados soltos sobre as costas. Valquíria parou para admirar aquela cena. Desejou inconscientemente que ela se repetisse para sempre. Já que sua filha não tinha um pai, que tivesse ao menos duas mães... pensou. Tratou de afastar esse pensamento da cabeça. Enquanto ainda contemplava o sono do trio, Pipoca pressentiu estar sendo observada e abriu um olho preguiçosamente. Ao avistar Valquíria pulou de cima de Fernanda e deu um latido agudo, de pura satisfação. O barulho de Pipoca despertou as belas adormecidas que lentamente começaram a se mexer.
- O almoço está pronto – disse Valquíria carinhosamente.
Valquíria serviu panquecas de frango, uma salada de batatas com maionese feita por ela mesma, saladas verdes e de tomates com orégano. Tudo isto regado a um suco de laranjas, natural. Refeição simples, porém saborosa. As três comeram e após um breve descanso foram até as pedras, seguindo uma trilha costeando o mar. Levaram a câmera fotográfica de Fernanda e tiraram belas poses. Retornaram para casa quase noite.
Como as três agitavam muito durante o dia acabavam se recolhendo cedo, exaustas. Dormiam como anjos.
Na terça-feira passaram a maior parte do tempo na beira da praia, embaixo de um enorme e colorido guarda-sol. Conforme o combinado Valquíria não chegou nem perto da cozinha. À noite caminharam até o centrinho, onde uma feira de artesanato local atraía a atenção dos visitantes. Fernanda comprou algumas bijuterias para Nina e peças de decoração para casa. Acabaram fazendo um lanche por lá mesmo, arrematado por um saboroso sorvete. Quando eram mais ou menos onze horas da noite retornaram para casa.
Na quarta-feira o tempo ficou ofuscado e perto do meio dia choveu. Elas haviam ido à praia pela manhã e aproveitaram a tarde para dormir e depois jogar cartas, dominó, dama e assistir televisão. Ao anoitecer o horizonte clareou novamente assumindo uma coloração rosada, prenunciando um amanhecer com sol.
Realmente a quinta-feira amanheceu sem chuva. Aproveitaram a praia de manhã e Fernanda convidou para almoçarem num restaurante que servia frutos do mar. Nina adorou comer siri na casca. Tanto Fernanda quanto Valquíria apreciavam frutos do mar e comeram até se satisfazerem.
Ao retornarem para casa Manoel veio falar com Fernanda:
- Com licença, dona Fernanda...
- Sim, Manoel?
- Será que eu poderia deixar as crianças aqui com a senhora um pouco?... desculpe a ousadia, mas é que eu preciso levar a Josefa até o hospital...
- Mas o que é que ela tem, homem de Deus? – quis saber Fernanda preocupada, já pegando as chaves do carro para leva-la.
- Não é nada grave, não, dona Fernanda... é que a gente acha que ela tá esperando nenê de novo...
- Mais um? Você não brinca em serviço ein, Manoel? – brincou Fernanda.
O homem enrubesceu e deu um sorriso tímido. Fernanda continuou:
- Mas porque ela precisa ir ao hospital? Ela está se sentindo mal?
- Não, não é isso... ela vai fazer um exame. Esses pra ver se tá de barriga mesmo, eu não sei dizer o nome.
Valquíria riu da simplicidade do homem. Fernanda continuou:
- Bom, então eu vou levar vocês lá. Você se importaria de ficar com as crianças, Valquíria?
- Claro que não. Podem ir descansados.
- Não precisa nos levar, Dona Fernanda. O compadre Armando vai passar aqui em casa daqui há uma meia hora. Depois nos traz de volta. Só ficando com as crianças já é uma mão na roda pra nós.
- Tudo bem então, Manoel. Pode mandar a turma. Assim a Nina tem com quem brincar.
Por volta de quatro horas da tarde Manoel mandou os filhos para a casa de Fernanda. Como a tarde estava bonita Valquíria e Fernanda ficaram na praia com as crianças. Enquanto a trupe, incluindo Pipoca, corria e brincava na areia e na água Fernanda e Valquíria sentaram-se à sombra do guarda-sol observando o mar.
- E então, o que está achando das férias? – indagou Fernanda.
- Maravilhosas. – respondeu Valquíria com o olhar no horizonte.
- Daria pra ficar aqui pra sempre, não daria?
Valquíria demorou um pouco para responder até que se virou para Fernanda, encarando-a:
- Daria sim, com certeza daria...
Fez-se um longo silêncio. Fernanda estava há dias pensando em conversar com Valquíria sobre a vida de ambas. Desejava saber mais dela e queria falar sobre seu passado, conhece-la e dar-se a conhecer. Mas lhe faltava oportunidade, pois nina estava sempre por perto. E agora estava com a faca e o queijo nas mãos, pensou. No entanto faltava-lhe coragem. Porém não poderia desperdiçar aquele momento. Respirou fundo, armou-se de intrepidez e ousadamente perguntou:
- Você já viveu com alguém?
- Não... quer dizer, viver, viver, não vivi. Só fiquei junto.
- E faz tempo?
Valquíria baixou os olhos e ficou em silêncio. Fernanda continuou:
- Olha só... me desculpe se fui invasiva, não precisa responder.
- Mas eu não me importo de responder. Faz tempo sim. Muito tempo... – fez-se novo silêncio até que Valquíria continuou – É engraçado... acho que nunca falei da minha vida com ninguém...
- Se não quiser não precisa...
- Mas eu quero. – respondeu Valquíria encarando Fernanda, para depois novamente dirigir seu olhar para o mar – Como tu já sabe eu fui criada no orfanato. Fiquei lá até meus 19 anos. Poderia ter ficado mais, se não fosse por ter sido expulsa...
- Expulsa?...
- É. Um dia a madre me surpreendeu muito próxima a uma colega de orfanato. Na verdade a gente estava quase se beijando – Valquíria diminuiu o tom de sua voz e olhou para o chão – é engraçado, porque foi quase mesmo... nunca chegou a acontecer. Nós duas éramos muito chegadas, dividíamos o mesmo quarto, aí foi surgindo uma atração, sei lá... e no dia em que finalmente estávamos quase partindo para a ação chegou a madre superiora e nos deu o maior flagra. Eu não preciso dizer tudo o que ouvi, não é mesmo?
- Não... não precisa.
- Pois é, depois daquele dia eu passei a ser vista como uma das duas pervertidas do orfanato, uma anormal. Na verdade eu não fui expulsa literalmente, mas de uma forma velada. Quando a gente se dá conta que não é bem quista em algum lugar só resta cair fora. E foi o que eu fiz. Eu tinha curso de atendente de enfermagem e fazia o auxiliar. Quando terminei fui para a capital. Aluguei um quarto de pensão e arrumei emprego no Hospital Belém Velho. Depois consegui entrar na Santa Casa.
Valquíria deu uma pausa, como que para tomar fôlego. Fernanda estava imóvel ouvindo Valquíria. Nem mesmo o burburinho das crianças correndo conseguia desviar sua atenção. No fundo sentiu uma ponta de satisfação ao saber do interesse de Valquíria por uma mulher, mesmo que no passado. Isso lhe aliviava, de alguma forma, qualquer sentimento de culpa por deseja-la. Não queria ser ela a perversora daquele anjo de candura. Após alguns segundos Valquíria continuou:
- Na Santa Casa eu tratei de fechar os olhos para quem quer que fosse. Tentaria deixar a minha "anormalidade" relegada a segundo plano. Até que um belo dia Adriano me convidou para sair. Ele era médico, mais velho, lindo, mas casado. No nosso primeiro encontro eu não sabia que ele era casado e resolvi que ele era o homem ideal para ser o meu primeiro. E assim foi. Depois do nosso terceiro encontro ele me falou da mulher, que não se separaria dela, que tinha filhos... eu decidi continuar com ele, até que meu amor próprio falou mais alto. Eu não queria mais ser a outra. Porém o nosso rompimento não foi fácil. Ele estava disposto a continuar com as duas e me seguia diariamente. Um dia quase me atropelou na saída da faculdade. Eu já estava cursando odonto. Aí decidi que era hora de dar mais uma virada na minha vida. E acabei voltando para Santa Cruz do Sul. Logo em seguida Nina entrou na minha vida, e aqui estou. – Valquíria olhou para Fernanda e sorriu melancolicamente.
- Mas agora as coisas estão bem melhores, não estão? – disse Fernanda tentando desanuviar seu semblante.
- Com toda a certeza, sem termo de comparação. – respondeu Valquíria mais animada. – E isso tudo é passado. Não volta mais. E não adianta sofrer pelo que já foi.
Fernanda sorriu assentindo com a cabeça.
- E tu, Fernanda? Já viveu com alguém? – disparou Valquíria.
- Já. Eu sempre fui muito dona do meu nariz. Saí de casa com 19 anos também. Mas isso eu já te contei. Fui viver com um colega de faculdade, ele tinha a mesma idade que eu, mas era um CDF, coitado... só pensava em estudar. Era lindinho, mas intelectual. Me cansei no segundo mês de convivência. E ele era só mais ou menos na cama... – riu Fernanda - ...depois morei sozinha até namorar o Marcelo. Com ele fiquei dois anos. Quase nos casamos. Mas um belo dia me descobri perdidamente apaixonada pela irmã dele.
Valquíria encarou Fernanda boquiaberta e sorriu incrédula. Fernanda continuou:
- Eu resolvi falar para ela... e levei um sonoro bofetão na cara! Lembro até hoje daquele tapa. Acho que foi o único na minha vida que eu não revidei. Depois conheci uma pessoa especial na faculdade, uma professora. Com ela foi diferente. Ficamos juntas por quase cinco anos, até o dia em que ela me disse estar apaixonada por outra aluna. Sofri como um cachorro, mas sobrevivi. Hoje eu continuo amiga dela, aliás uma grande amiga. Eu e Débora mantemos contatos até hoje, nos ligamos seguido. Ela continua como sempre, trocando uma aluna por outra, mas fazer o quê?... – sorriu Fernanda. – Depois tive alguns casinhos, nada sério. Hoje me dedico só ao trabalho, não tenho tempo para mais nada, pelo menos por enquanto... ou até encontrar alguém que faça valer a pena arrumar um tempo...
Fernanda encarou Valquíria com um olhar atrevido, fazendo-a desviar o seu. Ambas deram-se conta de que aquela conversa poderia mudar o rumo de suas vidas para sempre. Estavam aliviadas em terem aberto os corações. Valquíria nunca sentiu-se bem tendo que esconder o seu passado, nem tão pouco Fernanda era dada a dar maiores explicações de sua vida para quem quer que fosse. No entanto, com Valquíria, sentiu necessidade de clarear certas questões. Estava, de fato, sentindo-se mais leve.
Nesse momento as crianças irromperam na direção delas:
- Estamos com fome!!! – gritaram todos.
- Então vamos lá dar comida para essas feras! – disse Fernanda para Valquíria sorrindo encantadoramente, prometendo com o olhar que aquela conversa teria continuidade...
No finalzinho da tarde Manoel e Josefa chegaram para pegar as crianças. Estavam sorridentes.
- E então? – quis saber Fernanda.
- Vem vindo mais um molequinho por aí! – respondeu Manoel.
- Ou molequinha! – retrucou Josefa.
- Parabéns! – disseram Valquíria e Fernanda. – Que seja bem vindo ao mundo!
- Obrigada – disse Josefa.
Pegaram as crianças e foram para casa. Fernanda e Valquíria não conseguiram mais conversar naquele dia, pois Nina estava sempre perto delas, principalmente de Fernanda. A garota tinha adoração por ela. Chegava a ficar contemplando Fernanda enquanto esta fazia qualquer movimento. E era recíproco. Fernanda estava adorando ficar com Nina, curtia cada momento da alegria e da disposição da menina. Alegrava-se também em desfrutar da companhia da mãe dela...
Já era sexta-feira e a semana havia passado num piscar de olhos.
- Realmente o tempo é relativo – conjeturou Fernanda pensativa.
- Por que é que tu estás dizendo isso? – quis saber Valquíria, embalando-se numa rede em frente à Fernanda e tentando equilibrar a cuia com o chimarrão que estavam tomando.
Valquíria gostava de tomar chimarrão, bebida tipicamente gaúcha, e havia conseguido persuadir Fernanda a acompanha-la, mesmo que a princípio a mesma houvesse reclamado do sabor amargo. "A gente se acostuma e acaba gostando", argumentou Valquíria. E Fernanda estava percebendo que nos últimos dias vinha fazendo as vontades de Valquíria, e não estava se incomodando com isto, muito pelo contrário, agradar Valquíria lhe dava prazer. Cada vez que a loirinha sorria franzindo seu nariz graciosamente Fernanda se derretia de satisfação. E tentava fazer de tudo para agrada-la, até tomar chimarrão... Só pedia que a água não estivesse tão quente, afinal não gostaria de ser escaldada viva, ao que Valquíria sorria e assentia, deixando a tampa da garrafa térmica semi-aberta.
- O tempo é relativo porque sempre voa quando a gente está fazendo algo prazeroso e se arrasta quando existe sofrimento. – conjeturou Fernanda.
- É verdade...
- A semana já passou e faltam só dois dias para a gente voltar pro batente.
- Pois é... eu já tinha pensado nisso.
- É uma pena, não é mesmo?
Valquíria baixou os olhos e concordou balançando a cabeça em sinal de afirmativo.
- Mas vamos ver pelo lado bom – continuou Fernanda – podemos repetir a dose sempre que der!
Valquíria sorriu e concordou. Estavam na área coberta em frente ao mar. O astro rei estava quase se pondo e as sombras compridas formadas pelo ângulo dos raios de sol se projetavam em direção à areia da praia. Nina e seus novos amigos corriam pelo gramado verde num animado jogo de futebol, tendo Pipoca como excelente zagueira. Por sobre a linha do horizonte, no lado do nascente, sobre as águas verdejantes do oceano, uma lua cheia esbranquiçada e translúcida surgia como que emergindo de dentro do mar empurrada pelas Ondinas ou pelo próprio Netuno. A noite seria clara e propícia a um passeio à beira mar. Era dia 31 e a virada do milênio teria show de fogos de artifício na beira da praia, espetáculo aguardado ansiosamente por Nina.
Enquanto contemplavam o ocaso, grandiosa apresentação da mãe natureza, o telefone sem fio tocou e Fernanda atendeu enquanto sorvia pequenos goles de chimarrão.
- Alô? Ora, ora, quem é vivo sempre aparece! – disse Fernanda em tom animado.
- Que novela pra te achar, ein? Celular é só pra enfeite, é?... Ainda bem que continuo tendo meus contatos. – disse a voz do outro lado da linha.
- Mentirosa. Você sabe que sempre que eu preciso recarregar minhas baterias é para cá que eu venho!
- Tá certo! Não foi tão difícil mesmo! – disse Débora sorridente – Escuta, você ainda lembra que dia é segunda-feira?
- Claro que lembro. Dia 3 de janeiro, só não lembro bem qual dos meus conhecidos faz aniversário nesse dia... – respondeu Fernanda debochadamente, fingindo esquecimento.
- Cachorra! Acho bom lembrar, senão te risco da minha lista de convidados!
Fernanda gargalhou:
- E como eu poderia esquecer? Nos últimos tempos eu recebo o mesmo convite em toda a virada de ano!
- Mas no ano passado você não foi!
- Trabalho, minha querida, trabalho...
- E este ano? Vou ficar esperando em vão? – perguntou Débora fingindo sedução.
- Não... com certeza sua festa estará repleta de aluninhas novas pra te dar os parabéns.
- Fernanda!!! Faz favor!
Fernanda gargalhou novamente. De fato sentia muita afeição por Débora, mas só. O amor e a atração física haviam cedido lugar a um sentimento fraterno e de cumplicidade.
Valquíria não pôde deixar de ouvir a conversa e percebeu de quem se tratava. Inconscientemente franziu o cenho. Fernanda, muito perspicaz, percebeu o desconforto da amiga e tratou de encurtar aquela conversa.
- Muito bem, dona aniversariante, aonde vai ser a festa? – quis saber Fernanda - ... sei, sei onde é... a gente volta na segunda de manhã. Se eu não estiver muito pregada eu vou sim.
- A gente?... – disse Débora curiosamente – Quem é que está aí com você? Alguma namoradinha nova?
- Débora... menos.
- Aaah... entendi tudo...
- Não entendeu nada não. – retrucou Fernanda.
- Convida a tua amiga para vir junto, quero conhecer.
- Nem pensar.
- Fernanda... eu prometo me comportar, não faço nenhum comentário pra te deixar sem graça. Prometo!
- Tá bom, vou pensar.
- Tá combinado então, espero vocês! Beijo na boca. – respondeu Débora e desligou antes que Fernanda desse tchau.
Fernanda colocou o telefone no chão e sorriu balançando a cabeça.
- Era sua ex? – perguntou Valquíria com certa contrariedade na voz.
- Era. – respondeu Fernanda brandamente, quebrando o clima tenso – ela sempre me convida para o aniversário dela. É dessas pessoas que adoram festas.
- E tu vai?
- Só se você for comigo.
- Como assim? – surpreendeu-se Valquíria.
- Só vou se você for comigo. - Respondeu Fernanda pausadamente.
- Mas ela nem me conhece!
- Mas te convidou. – disse Fernanda.
- Me convidou?
- Juro! Além do quê eu preciso de uma guarda-costas para que ela não me ataque sorrateiramente! – respondeu Fernanda fazendo um gesto teatral.
Valquíria foi obrigada a rir. Fernanda sabia como convence-la.
- Falando sério, vai ser uma festa bacana num bar, em Porto Alegre, um lugar bem interessante, vários ambientes, música ao vivo e mecânica, pista de dança, videokê, eu gostaria que você me acompanhasse... – pediu Fernanda com um tom de voz para o qual seria impossível formular uma resposta negativa.
- Acho que eu tô precisando mesmo sair um pouco. Vamos lá então. Só não vai dar pra ir se a dona Eda não estiver em casa, por que aí eu não tenho com quem deixar a Nina.
- Então liga pra ela agora e combina. – disse Fernanda estendendo o telefone.
Valquíria sorriu e fez a ligação. O casal ficou radiante ao receber notícias delas, estavam saudosos. Dona Eda comprometeu-se em ficar com Nina na segunda-feira, poderiam ir tranqüilas. Fernanda não conseguiu disfarçar o contentamento. Parecia uma criança que havia ganhado um presente muito esperado.
O sol se pôs e após comerem alguma coisa leve Fernanda convidou Valquíria e Nina para caminharem até o centro. Josefa prepararia a ceia de Ano Novo para elas.
No caminho da cidade uma suave brisa vinda do mar agitava os cabelos loiros de Valquíria. A lua cheia iluminava o cenário da noite transformando-o quase que em dia. Era possível deslocar-se sem o auxílio de nenhuma iluminação artificial. As três vestiam roupas brancas para a virada do ano. Nina trajava um vestido de malha de algodão bem curto, com o decote em viés deixando descoberto um dos ombros e preso no outro por um lacinho prateado. Calçava sandálias brancas, com pequenas flores em relevo. Seu cabelo estava solto e usava uma tiara elástica branca. Valquíria também usava um vestido branco, estilo tubinho, corte reto e curto. Moldava-lhe as curvas do corpo e realçava o suave bronzeado que havia adquirido naqueles dias, apesar do uso constante de filtro solar. Calçava uma sandália estilo romana, de couro branco. Fernanda estava com um top e uma calça comprida de malha, de cintura baixa. Calçava tênis brancos e havia prendido o cabelo num rabo-de-cavalo. Também tinha as curvas do corpo moldadas pela roupa justa, isto sem falar na marca da calcinha rendada que aparecia sob a malha branca. Quando Valquíria viu Fernanda naquela roupa chegou a ficar sem ar, boquiaberta. Estava realmente deslumbrante. A pele morena, com o bronzeado acentuado pelo sol dos últimos dias, contrastava com a alvura da vestimenta. Fernanda ainda fez uma maquiagem discreta. Nina também pediu para usar o batom de Fernanda. No final das contas o trio estava de parar o trânsito.
Caminharam vagarosamente até o centro, admirando a luz do luar e alguns fogos que já explodiam no céu do último dia de dezembro. Chegaram na praça central antes das onze horas da noite e sentaram num banco de madeira para observar o movimento, enquanto comiam algodão-doce. Perto da meia noite foram até a beira da água e quando a contagem regressiva chegou ao zero abraçaram-se efusivamente enquanto um show de fogos multicoloridos explodia no ar. Os morteiros coloridos desenhavam círculos de luz que se desmanchavam em gotas cintilantes, ardendo de encontro ao manto negro da noite. As estrelas ficaram momentaneamente ofuscadas pelo brilho dos fogos. A lua, porém, seguia majestosa e radiante, como que indiferente ao espetáculo que se descortinava a seus pés, como uma verdadeira rainha.
Na beira da praia, após beijarem e abraçarem Nina, Valquíria e Fernanda se entreolharam em silêncio.
- Você fez um pedido na virada? – perguntou Fernanda.
- Fiz. E tu?
- Eu também. – respondeu Fernanda.
- E o que foi?
- Segredo. E o teu?
- Segredo também...
Neste momento Nina correu e entrou no meio das duas:
- Posso jogar bola aqui na beira da água? – perguntou Nina referindo-se a uma imensa bola de plástico amarela e prateada que Fernanda havia comprado para ela um pouco antes numa barraca na praça central.
- Pode, querida... – respondeu Valquíria.
- Mas e se eu molhar os pés?...
- Não faz mal... – completou Valquíria.
- Ôôôbaaa!!! – gritou Nina correndo e chutando a bola para longe.
Valquíria e Fernanda começaram a caminhar na beira da praia, lado a lado, seguindo Nina em sua brincadeira. Em dado momento estavam tão próximas que as mãos acabaram se tocando. Fernanda olhou para o lado e ao invés de retirar sua mão acariciou suavemente o dorso da mão de Valquíria com a sua. Valquíria também não se esquivou do toque, muito pelo contrário, suavemente retribuiu o afago e entrelaçou seus dedos aos de Fernanda. Caminharam assim, de mãos dadas por um longo trecho. Fernanda sentia-se como uma colegial, seu coração havia disparado com aquele toque e custava a recuperar seu ritmo normal. Valquíria agradeceu aos céus por ser noite, pois enrubesceu ao sentir que Fernanda retribuiu o seu entrelaçamento de mãos. As mãos de ambas transpiravam, mas o toque era macio e terno. Em dado momento Fernanda olhou para Valquíria e disse:
- Vamos pular as sete ondas que manda a tradição da virada?
- Vamos sim – respondeu Valquíria sorrindo – Nina! Fica aqui que a gente vai entrar na água.
- Eu quero ir junto! – disse Nina.
- Não senhorita. Depois tu te resfria e fica doente. Fica aqui jogando bola. Não sai daqui. A gente tá te cuidando de dentro d’água!
- Tá bom, mãe...
Fernanda e Valquíria, ainda de mãos dadas, correram na direção das ondas. Pularam sete ondas e na oitava jogaram-se na água, mergulhando na pequena parede de água e saindo por trás dela. Sob a luz do luar estavam felizes como se fossem duas adolescentes. Uma jogava água na outra numa brincadeira divertida. Nina as observava da beira da praia e ria das duas. Sob a claridade da luz prateada Valquíria não pode deixar de notar a transparência do top molhado de Fernanda. Colado ao seu corpo deixava à mostra, em relevo, os mamilos escuros e entumecidos pela ação da água fria, ou seria por causa da proximidade de Valquíria?...
Ao saírem da água Fernanda passou o braço por sobre os ombros de Valquíria, conduzindo-a até a areia onde sentaram para observar as ondas. Nina juntou-se a elas. Disfarçadamente Fernanda também não conseguia deixar de notar a silhueta molhada de Valquíria por baixo do vestido branco. Na tentativa de ordenar seus pensamentos e entender o que se passava com ela, Fernanda conscientizou-se, naquele momento, de que estava de fato se apaixonando por Valquíria. A simples visão daquela mulher conseguia lhe fazer esquecer o mundo. E o seu desejo de liberdade, que cultivava até então, estava cedendo lugar à vontade quase que incontrolável de se deixar acorrentar para sempre por aqueles olhos verdes. "Danou-se", pensou Fernanda.
Valquíria, por sua vez, não conseguia afastar a sensação de bem estar que o simples toque de mãos de Fernanda havia lhe causado há poucos minutos. O calor e a energia daquele contato lhe invadira a alma. O que havia sentido naquelas mãos era mais do que um simples carinho e proteção: era amor. E desejo.
Ficaram na praia até quase duas horas da madrugada. Quando Nina começou a dar sinais de cansaço e de fome retornaram para casa, afinal uma ceia as aguardava. As roupas estavam secando no corpo. Faltando ainda algumas quadras para chegarem em casa Fernanda pegou Nina no colo, pois a menina estava quase que entregue ao sono. Chegando em casa Nina despertou para comer. As três se deram conta de que estavam famintas e devoraram o peru assado e as frutas da ceia.
Em seguida Nina bocejou e aninhou-se no colo de Fernanda, pegando no sono. Esta, após coloca-la na cama, ficou olhando demoradamente para Valquíria, antes de dizer:
- Boa noite... e feliz Ano Novo.
- Feliz Ano Novo... – respondeu Valquíria com a voz embargada pela emoção.
Fernanda sorriu com o canto da boca, um sorriso sedutor e apaixonado. Sentindo que estava prestes a partir para cima de Valquíria deu dois passos para trás e saiu do quarto, não queria correr o risco de acordar Nina.
- Fernanda... – chamou Valquíria à meia voz.
Fernanda se voltou para Valquíria e esta continuou:
- Esse foi o melhor final de ano que tive na vida...
- Eu também... acredite... eu também.
Dizendo isto saiu e foi para seu quarto. Tomou um banho frio e se deitou. Ficou olhando para o teto com um sorriso de satisfação estampado no rosto. Estava amando.
Valquíria também tomou uma ducha, morna, e virou-se de um lado para outro na cama, cuidando para não acordar Nina. Sua vontade era bater na porta do quarto de Fernanda e passar a noite com ela. Cada vez que pensava em Fernanda ficava com a boca seca e com o coração descompassado. Estava apaixonada, e como nunca estivera antes. E todos os seus sentidos sinalizavam que Fernanda também a queria. Deu um beijinho na testa de Nina e apagou a luz de cabeceira. Sentia-se insegura, pois sabia o que Fernanda pensava sobre se prender a alguém. Mas ao mesmo tempo algo lhe dizia que deveria investir naquela mulher. A razão e o bom senso lhe indicavam uma retirada estratégica, porém o desejo e a paixão lhe gritavam: "dane-se o bom senso!".
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Nos dois dias que se seguiram Fernanda e Valquíria não conseguiram mais conversar a sós. Como que sentindo pesar pelo iminente término das pequenas férias, Nina não desgrudou de Fernanda. A menina estava muito apegada a ela e Valquíria já havia se acostumado a deitar com Nina e, no meio da noite, dar falta da menina, que passava para o quarto de Fernanda aninhando-se em sua cama e abraçando-a amorosamente. Como as duas costumavam acordar cedo era Fernanda quem preparava o café da criança para logo depois saírem para a praia, para caminhar, jogar bola, correr, dar muitos mergulhos, andar de jetsky ou simplesmente sentar na beira do mar e fazer castelos de areia. Aquela semana realmente estava sendo bem diferente de tudo o que Fernanda já vivera até ali. Nunca havia se dedicado a uma criança antes, aliás nunca tivera muita paciência com seus sobrinhos, mas com Nina estava sendo diferente. Ela era diferente. Era uma companhia tão animada que às vezes Fernanda se esquecia da diferença de idade entre elas. Se algum dia Fernanda desejasse ter um filho por certo gostaria que fosse igual à Nina.
No sábado foram até um parque de diversões que havia chegado à cidade por aqueles dias e naquela tarde abriria seus portões aos visitantes. Chegaram no parque à tardinha, quando o sol já estava se pondo e as luzes dos postes e das casas iam gradualmente se acendendo. A música animada, o movimento giratório dos brinquedos, as luzes coloridas e a algazarra da juventude eram marca registrada de qualquer parque de diversões. Todos, sem exceção, tinham o mesmo espírito festivo e animado. Nina quis andar em todos os brinquedos e Valquíria ficou imensamente feliz por Fernanda acompanha-la, principalmente nos brinquedos giratórios. O máximo que Valquíria conseguia suportar sem enjoar era a roda gigante, isto se não olhasse muito para baixo. Já Fernanda parecia estar se divertindo tanto quanto ou mais do que Nina. As duas desceram da montanha russa com as faces vermelhas e com os cabelos totalmente desgrenhados.
- As duas, sentem aqui! – disse Valquíria fingindo um tom autoritário e apontando para um banco perto do chapéu mexicano.
Obedientes Fernanda e Nina sentaram lado a lado sem entender o porquê da ordem. Valquíria se aproximou por trás de Nina e pegou suas madeixas encaracoladas, juntando-as num rabo-de-cavalo no alto da cabeça, passando os dedos delicadamente para ajeitar os fios rebeldes. Prendeu-os com um elástico colorido. Para a surpresa de Fernanda, Valquíria foi para trás dela e fez a mesma coisa com os seus cabelos que, apesar de lisos, estavam tão revoltos quanto os de Nina. Enquanto Valquíria ajeitava os cabelos de Fernanda não pode deixar de sorver o perfume que emanava dos fios negros. O toque de Valquíria em sua nuca fez com que todo seu corpo se arrepiasse e ela se entesou no banco, como um felino surpreendido por um predador. Valquíria sentiu o movimento sutil de Fernanda e acariciou seus cabelos suavemente, fazendo com que gradualmente relaxasse. Da mesma forma que prendeu os cabelos de Nina, puxou os de Fernanda para trás, prendendo-os com outro elástico colorido que tinha na bolsa.
- Pronto! – disse Valquíria satisfeita – agora vocês estão com cara de gente de novo!
As três caíram na gargalhada. Fernanda olhou para Valquíria lançando-lhe um sorriso sedutor, como quem dizia com os olhos: "aproveitadora...".
No domingo à noitinha começaram a arrumar as coisas para o retorno para casa no dia seguinte. Nina estava visivelmente entristecida.
- Ei, que carinha é essa? – quis saber Valquíria enquanto dobrava algumas roupas que havia recolhido do varal.
- Nada...
- Como nada? Onde está o meu sorriso lindo? – interferiu Fernanda.
- Tá aqui. – respondeu Nina esforçando-se para sorrir.
Valquíria sabia o porquê daquela expressão. Fernanda também. A morena aproximou-se de Nina e fez com que a menina sentasse em seu colo. Nina a abraçou pelo pescoço e Fernanda sentiu que a criança estava quente, provavelmente febril.
- Sabe, eu estou um pouco triste porque a gente já vai voltar amanhã... – disse Fernanda abraçada à Nina.
- Eu também. – respondeu a criança.
- Mas a gente pode voltar sempre aqui. Nos finais de semana a gente pode dar uma fugidinha, o que é que você acha? – disse Fernanda carinhosamente.
Nina olhou para ela e abriu um sorriso:
- Eu acho muuuito bom!
- Então está combinado. E durante a semana, você promete dar uma passadinha na loja todo dia para me dar um oi?
- Prometo.
Fernanda chamou Valquíria com um aceno e pediu que tocasse Nina. Valquíria percebeu que a filha estava quente. Fernanda indicou a caixa de medicações que ficava no armário do escritório e Valquíria pegou um termômetro. Nina estava com 38,5° de temperatura. Não apresentava quaisquer sinais que indicassem algum problema maior, nem mesmo sua garganta estava avermelhada. Provavelmente o estado febril era emocional. Fernanda pegou Nina no colo e levou a menina até o banheiro, dando-lhe um banho morno, quase frio. Depois do banho sentou com ela no sofá da varanda e propôs uma partida de dominó. Depois de cerca de uma hora a temperatura de Nina já havia normalizado e ela brincava e sorria alegremente. Naquela noite ela pediu para dormir com Fernanda e pegou no sono abraçada a seu pescoço. Lentamente Fernanda se afastou, depois de Nina dormir, e ajeitou a criança a seu lado. Somente com a luz de cabeceira acesa ficou olhando para aquela figura angelical que dormia serenamente. Sentiu um afeto imenso por ela e passou a mão pelos cabelos encaracolados, afagando-os. Do corredor Valquíria avistou a cena pela porta entreaberta, quando voltava do banheiro para seu quarto. Parou e ficou observando o olhar carinhoso que Fernanda dirigia à sua filha. Suspirou encostando-se no marco da porta. Fernanda percebeu sua presença e sorriu para ela:
- Parece um anjo dormindo... – disse Fernanda baixinho.
- Parece mesmo.
- A febre não voltou – disse Fernanda tocando a testa da menina.
- Ela já teve estados febris emocionais. Na verdade está triste porque vamos voltar amanhã. E porque ela vai ficar sem te ver no dia a dia.
Fernanda baixou os olhos.
- Eu também vou sentir falta dela... – respondeu à meia voz enquanto Valquíria se virava, entrava em seu quarto e fechava a porta - ... e da mãe dela também... – completou.
Na segunda-feira, como de costume, Fernanda e Nina acordaram cedo e foram dar um mergulho na praia. Na volta acordaram Valquíria para tomar café. Combinaram de retornar ainda pela manhã, para que Fernanda pudesse dar uma relaxada nas costas antes de seguirem para Porto Alegre, pois seriam muitas horas dirigindo, embora Fernanda adorasse dirigir e seu carro fosse muito confortável.
Almoçaram no caminho e no restaurante Valquíria falou para Nina:
- Querida, hoje à noite eu vou com a Fernanda no aniversário de uma amiga dela.
- Ôba! Posso ir também?
- Não, Nina, não pode. – respondeu Valquíria carinhosamente.
- Por que?... – quis saber Nina fazendo beicinho.
- Porque é um aniversário de gente grande. – respondeu Valquíria.
- Nina, olha só... – emendou Fernanda – vai ser uma festa à noite, num bar, onde só entram pessoas adultas, é proibido levar crianças.
- E por que?
- Porque o ambiente é fechado, tem gente que fuma, bebe, termina muito tarde, tem música alta, enfim, é programa pra gente grande.
- Quando eu crescer vocês me levam?
- Levamos, se bem que quando estiveres grande e tiveres idade para ir nesse lugar, acho que não vais querer sair com a tua mãe... – riu Valquíria.
- Por que?
Fernanda e Valquíria gargalharam.
- Porque sim, garota! – respondeu Fernanda batendo com seu dedo na ponta do nariz de Nina.
- Eu falei com a Dona Eda e pedi pra ela te cuidar. Tu vais dormir na casa dela hoje, pois não sei que horas voltamos. – combinou Valquíria.
- Eu já tô com saudades da Dona Eda e do Seu Arno.
- Eles também, com toda a certeza. – disse Valquíria.
Ao término do almoço seguiram viagem e antes das seis horas estavam em Santa Cruz do Sul. Fernanda ajudou Valquíria a descarregar as malas.
- Eu vou dar uma passadinha rápida na loja e depois vou para o hotel. Quero ver se eu durmo um pouco, uma horinha que seja já vai me deixar nova. – disse Fernanda. – Lá pelas nove horas eu passo aqui pra te pegar, pode ser?
- Claro, está ótimo. – respondeu Valquíria – Eu vou ver se me recosto um pouco também.
- Então tchau, até mais. – disse Fernanda sorridente.
- Até...
Fernanda passou na loja rapidamente e foi para o hotel. Tomou um banho e se deitou com as pernas sobre uma almofada para melhorar a circulação de retorno. Adormeceu e sentiu-se renovada após uma hora de sono. Vestiu-se e passou numa floricultura para pegar um buquê de rosas amarelas para Débora. Às nove horas estava defronte à casa de Valquíria. Buzinou e a loira apareceu logo em seguida, caminhando em sua direção. Vestia uma calça preta, de um tecido acetinado, justa, de cintura baixa e boca de sino. Uma bata em estilo indiano, com estampas em tons de verde musgo e ocre, com detalhes bordados em um finíssimo fio dourado. Um tamanco preto completava o conjunto. Os cabelos escovados e soltos sobre os ombros e a maquiagem discreta davam um toque todo especial àquela figura que se movia compassadamente em direção ao carro.
Fernanda não se conteve e desceu para abrir a porta do carro para ela. Quando Valquíria chegou perto Fernanda pode sentir o perfume de sua pele, Byzance, que havia dado de presente a ela. Sorriu com o canto dos lábios e disse:
- Você está linda...
Valquíria sorriu, franzindo seu nariz:
- São os teus olhos. Aliás... – respondeu Valquíria olhando Fernanda de cima a baixo - ...tu é que caprichou no visual... é para agradar a professorinha?... – continuou provocante.
- Pode ser que seja para agradar... mas não a professorinha. – respondeu encarando Valquíria.
O tiro havia saído pela culatra. Valquíria ficara rubra até a raiz dos cabelos. Tratou de entrar no carro e puxar o cinto de segurança. Fernanda fechou a porta num gesto gentil e entrou no seu lado com um sorrisinho maroto nos lábios.
- Eu não tive tempo de comprar nada para a tua amiga. – disse Valquíria.
- Não tem importância, aliás não precisava se preocupar mesmo, eu peguei umas flores – respondeu apontando para o banco de trás.
- São lindas. – disse Valquíria.
Durante a viagem conversaram sobre assuntos banais. Na verdade as duas estavam tensas, como que esperando uma iniciativa da outra para rumarem para um assunto mais pessoal. Valquíria reparou que Fernanda vestia um macacão preto sem mangas, colado ao corpo. Uma sandália e uma bolsa prateadas. Cabelos soltos sobre os ombros. Somente um bracelete prateado no pulso esquerdo e um anel no dedo anular. Estava a imagem da beleza personificada num corpo de mulher. Valquíria chegava a ficar sem ar. Chegaram à capital antes das onze horas. Fernanda deixou o carro num estacionamento perto da Santa Casa, onde sempre costumava guarda-lo nas suas idas à Porto Alegre. O guardador já a conhecia e cumprimentou-a cordialmente:
- Boa noite, dona Fernanda!
- Boa noite, Nelson.
Dali pegaram um táxi e em poucos minutos estavam defronte ao local da festa. A porta de entrada era em forma arredondada, de tijolos à vista e dava para um corredor estreito. Da rua não se ouvia nenhum barulho que revelasse tratar-se de um lugar com música dançante. O corredor levava a um ambiente pequeno onde havia um balcão de bar com cadeiras altas e algumas mesinhas espalhadas. Uma música suave tocava ao fundo. Logo após um outro ambiente descortinava uma pista de dança, com música ao vivo, lenta, onde vários pares dançavam enrosquilhados. Valquíria aguçou a vista devido à penumbra e percebeu tratar-se de um lugar GLS, pois vários pares que dançavam eram do mesmo sexo, tanto homens quanto mulheres. Inicialmente ficou meio sem graça, mas percebendo a descontração de Fernanda contagiou-se com a música e começou a se embalar discretamente enquanto a morena tentava localizar a aniversariante.
- Ela não está aqui – sussurrou Fernanda no ouvido de Valquíria.
Rumaram para outro ambiente, este com música mecânica, dançante, em volume altíssimo, onde seria impossível conversar ou localizar quem quer que fosse devido aos efeitos da luz negra. Fernanda pegou Valquíria pela mão e fez com que a seguisse até outro ambiente, um salão confortável, com vários lugares para sentar e um videokê num canto. E lá estava Débora, de mão no microfone cantando alegremente. Quando avistou Fernanda parou a música no meio e caminhou na direção dela com os braços abertos. Valquíria percebeu que era uma mulher madura, depois descobriu que estava completando 54 anos, de porte médio, de loiros cabelos encaracolados, quase ruivos, cortados na altura dos ombros. Tinha um sorriso encantador que deixava à mostra duas covinhas nas faces.
- Ora, ora, se não é a morena mais linda que eu já conheci!... – disse Débora.
- E você é a maior mentirosa que eu conheci! – respondeu Fernanda abraçando a amiga e oferecendo-lhe o buquê de flores.
- Obrigada, são lindas. – disse a aniversariante.
- Débora, esta é Valquíria, uma amiga.
- Muito prazer – disse Débora com simpatia analisando Valquíria de cima a baixo.
Antes que Débora fizesse algum comentário que pudesse constranger Valquíria, Fernanda perguntou:
- Se bebe nesta festa ou não? Eu estou de boca seca.
- O de sempre, baby? – perguntou Débora provocante.
- Uma cerveja. E pra você, Valquíria? – perguntou Fernanda.
- Uma cerveja também.
Débora levantou o braço chamando o garçom. Fez os pedidos e informou serem convidadas, dispensando as comandas.
- Mas não se prenda por nós, continue com o seu show, eu estava gostando – brincou Fernanda.
- Então com licença, não posso descuidar da minha criança – disse Débora apontando para uma jovem alta e ruiva, com porte de manequim que acenava para ela.
Fernanda puxou Débora pelo braço e cochichou ao seu ouvido:
- Deby, ela é uma criança! Você ainda vai ser processada por abuso de menores!
- Criança não! Já fez 18 anos, é maior, logo... – respondeu Débora sorrindo de orelha a orelha e piscando o olho para Fernanda.
- Pervertida! – disse Fernanda.
Virou-se para Valquíria e apontou para dois lugares vagos num sofá, num canto do ambiente. A bebida delas foi servida e alguns tira-gostos.
- E então, chocada? – questionou Fernanda.
- Com o local ou com a aniversariante? – disse Valquíria em tom divertido.
- Com as duas coisas.
- Não... eu não me assusto com pouca coisa...
- Ainda bem. – riu Fernanda e continuou após um breve silêncio – É bom estar aqui... contigo. Acho que fiquei mal acostumada...
- Com a minha companhia?
- É... com o som da tua voz, o teu riso, o teu jeito de arrumar o cabelo...
- Posso te confessar uma coisa? – perguntou Valquíria com alguma timidez.
- Pode...
- Eu também. Acho que também fiquei mal acostumada.
- E isso é bom?
- Depende do ponto de vista... – respondeu Valquíria – se não causar sofrimento...
Fernanda fitou Valquíria pensativa. Sorriu amorosamente. Fernanda sabia como desanuviar o coração de Valquíria com um simples sorriso. Nesse momento Débora chamou-as:
- Meninas, venham aqui, vamos descobrir novos talentos!
- E agora? A gente tem como escapar? – brincou Valquíria.
- Acho que não... mas vamos mostrar nosso talento! – disse Fernanda levantando-se e conduzindo Valquíria para perto do videokê.
Para surpresa de Fernanda, Valquíria enturmou-se rapidinho com as candidatas ao show de calouros e em dado momento dirigiu-se ao microfone. Remexeu no índice de músicas e escolheu uma de Ivan Lins. Ajeitou-se num banquinho redondo e esperou a música começar para cantarolar a letra melodicamente. Para surpresa ainda maior de Fernanda, e para seu deleite, Valquíria cantou quase que toda a música olhando diretamente para ela.
"Vieste na hora exata
Com ares de festa
E luas de prata
Vieste com encantos
Vieste com beijos silvestres
Colhidos pra mim
Vieste como a natureza
Com mãos camponesas
Plantadas em mim
Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens pra dentro de mim
Meu amor
Vieste à hora e a tempo
Soltando meus barcos
E velas ao vento
Vieste me dando o alento
Me olhando por dentro
Velando por mim
Vieste de olhos fechados
Num dia marcado
Sagrado pra mim
Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens
Pra dentro de mim
Meu amor..."
Quando terminou de cantar depositou o microfone no suporte enquanto era aplaudida pelos que estavam ao redor e caminhou languidamente até Fernanda, olhando-a nos olhos. Seu olhar dispensava palavras. O coração de Fernanda disparou. Decididamente, queria aquela mulher, e estava na hora de lhe dizer isso. Dirigiu-lhe um olhar sedutor e disse:
- Muito bem... minha vez – e levantou-se caminhando até o microfone.
Escolheu a música e sentou-se no banco estofado redondo e alto, ficando de frente para Valquíria, a fim de poder encara-la. Quando a música começou Fernanda simplesmente desviou o olhar da tela e cantou a música de cor, do começo ao fim, quase num sussurro, olhando diretamente para os olhos de Valquíria.
"Eu preciso de você
Porque tudo que eu pensei
Que pudesse desfrutar da vida
Sem você não sei...
Meu amanhecer é lindo se você comigo está
Tudo é mais bonito no sorriso que
Você me dá
Eu não vivo sem você
Porque tudo que eu andei
Procurando pela vida agora eu sei
Que andei sabendo que em algum lugar
Te encontraria
Pois você já era minha e eu sabia
Como a abelha necessita de uma flor
Eu preciso de você e desse amor
Como a terra necessita o sol e a chuva
Eu te preciso
E não vivo um só minuto sem você
Mas eu preciso de você
Porque em toda a minha vida
Nem por uma vez amei alguém assim
Você é tudo e muito mais do que eu
Sonhei pra mim
E é por isso que eu preciso de você..."
Ao final também foi aplaudida, aliás, mais do que aplaudida, foi quase ovacionada. Débora sorria abraçada à sua namoradinha, entendendo perfeitamente o que se passava com sua querida amiga. Fernanda, elegantemente, levantou-se de onde estava e caminhou até Valquíria, sem desviar os olhos dela, em momento algum. Valquíria também mantinha seus olhos fixos nos de Fernanda, tendo um brilho de emoção refletido no verde esmeralda.
Fernanda sentou-se novamente em frente a Valquíria, sem pronunciar palavras, e tomou sua mão suavemente levando-a aos lábios. O ósculo delicado e quente fez com que Valquíria estremecesse por inteiro e uma sensação de calor lhe invadisse o corpo. Por instantes teve a impressão de que todos naquele ambiente seriam capazes de ouvir os batimentos de seu coração. Pressionou a mão que lhe afagava trazendo-a para junto de seus lábios e retribuiu o beijo, afagando em seguida a mão de Fernanda com a sua face. Valquíria, com a voz embargada pela emoção perguntou:
- Tem certeza?...
- Absoluta.
Fez-se novo silêncio entre elas, e era como se o burburinho à volta houvesse desaparecido. Apenas os olhares se cruzavam e diziam o que milhões de palavras não seriam capazes de proferir. Fernanda aproximou seus lábios do ouvido de Valquíria e perguntou baixinho:
- A senhorita gostaria de dançar comigo?
- Sim... gostaria imensamente.
Fernanda levantou-se e conduziu Valquíria até o ambiente onde a música lenta e a penumbra convidavam ao abraço. Percebendo a retirada estratégica das duas Débora ainda gritou:
- Desistiram de cantar?
De costas, sem fazer menção de se virar, Fernanda acenou discretamente para ela, numa clara alusão de que naquele momento o que menos queria era cantar, pelo menos ao microfone, já no ouvido de certa pessoa...
Quando adentraram na pista de dança tocava uma música antiga "Rock and Roll Lullaby". Valquíria virou-se para Fernanda aproximando-se lentamente e abraçando-a pelo pescoço. Fernanda passou os braços ao redor da cintura de Valquíria puxando-a para bem perto de si, colando seu corpo ao dela. Podia sentir o calor e a pulsação de Valquíria. Olhavam-se nos olhos e Fernanda percebeu que jamais havia sentido tamanha emoção. Nunca em sua vida fora tocada com tamanha ternura e intensidade. Sentiu o desejo arder num crescente dentro de si e vagarosamente aproximou seus lábios dos de Valquíria, que se ofereciam quase que suplicantes por um beijo, alheios a tudo o mais em sua volta.
Os lábios se tocaram de forma branda, as línguas explorando vagarosamente cada canto das bocas sedentas por aquele beijo. Era como se o tempo houvesse parado naquele momento. Fernanda acariciava as costas de Valquíria enquanto esta afagava sua nuca, passando-lhe a mão por entre os cabelos negros. Fernanda puxava Valquíria cada vez mais de encontro a si, sentindo cada curva de seu corpo moldar-se ao corpo daquela mulher. Não saberiam dizer por quanto tempo ficaram se tocando, nem tão pouco quanto tempo durara aquele contato de lábios. O que perceberam foi que nenhuma delas jamais havia sentido algo tão intenso. E mais, que tinham necessidade uma da outra, que os corpos ardiam de desejo, que as bocas estavam sedentas de mais beijos, e que elas não queriam mais ficar naquele lugar. Queriam estar a sós.
Foi Fernanda quem sussurrou ao ouvido de Valquíria:
- Vamos sair daqui? Eu quero ir para casa.
- Eu também... eu preciso...
- Então vamos sair de fininho, sem que ninguém perceba, senão a Débora faz um escândalo. – disse Fernanda.
- Não sei não, ela até que estava bem entretida...
- Mas não quero arriscar. – respondeu Fernanda pegando Valquíria pela mão e saindo pela tangente.
Ao cruzarem a porta de saída Fernanda falou alguma coisa ao pé do ouvido do porteiro, que assentiu educadamente:
- Pedi para ele avisar a aniversariante da nossa saída... mas só daqui a uns vinte minutos – disse Fernanda com um sorriso nos lábios.
Novamente pegaram um táxi até o estacionamento e partiram de Porto Alegre antes da uma e meia da madrugada. Às três horas chegaram à Santa Cruz, a estrada estava deserta e Fernanda aproveitou para pisar fundo no acelerador. Durante a viagem pouco se falaram, Valquíria apenas recostou-se no ombro de Fernanda e afagava seus cabelos e rosto enquanto dirigia. Não se excedeu nas carícias para não atrapalhar Fernanda e distrair sua atenção da estrada. E só Deus sabe o esforço que isto lhe custou...
Fernanda estacionou no pátio interno do Hotel Edelweiss e virou-se para Valquíria, afagando-lhe carinhosamente a face, contornando seus lábios com a ponta dos dedos. Sem dizer palavras tirou a chave da ignição e abriu sua porta. Valquíria também desembarcou e seu coração estava acelerado a ponto de senti-lo pulsar na garganta. Fernanda conduziu Valquíria pelo pátio interno do hotel, indicando-lhe a entrada principal. Ao passarem pela portaria Otávio estava de plantão e cumprimentou a hóspede mais assídua daquele estabelecimento, quase sem conseguir disfarçar a expressão de encanto que a figura de Fernanda naqueles trajes causava a qualquer um:
- Boa noite, dona Fernanda!
- Boa noite, Otávio. – respondeu Fernanda cordialmente caminhando na direção dos elevadores acompanhada de Valquíria.
Antes de entrar no elevador Fernanda se voltou para o jovem e disse em tom brando, porém resoluto:
- Otávio, eu não quero ser perturbada até segunda ordem, não recebo ligações e não estou para ninguém.
- Sim senhora, dona Fernanda, pode ficar tranqüila. – respondeu Otávio educadamente.
Fernanda se virou e abriu a porta do elevador para Valquíria. Otávio olhou para as duas mulheres com uma expressão curiosa, mas logo em seguida tirou seu livro de palavras cruzadas de dentro da gaveta e continuou distraindo-se com seu passatempo predileto, enquanto a madrugada apenas começava para alguns...
Fernanda abriu a porta de sua suíte para Valquíria e quando esta entrou no quarto, girou a chave na fechadura atrás de si. Voltou-se para Valquíria e sorriu maliciosamente:
- Você quer beber alguma coisa?
- Água. – respondeu Valquíria que estava com a boca seca.
Fernanda foi até o freegobar e serviu um copo de água gelada, estendendo-o para Valquíria. Esta sorveu dois goles de água e depositou o copo na cômoda ao lado da porta. Lentamente aproximou-se de Fernanda que a observava parada, imóvel. Valquíria tocou as mãos de Fernanda com as suas, fazendo com que entrelaçassem as mãos. Fernanda puxou Valquíria para si abraçando-a com volúpia. Naquele momento elas não conseguiram mais conter o turbilhão de sentimentos que ficaram abafados já há algum tempo. Como se fossem lavas incandescentes numa explosão incontida do seio da montanha elas deixaram aflorar cada gota daquele desejo de se entregar.
Fernanda se deu conta de que havia muita roupa entre elas e num movimento delicado levantou e tirou a blusa de Valquíria, puxando-a sobre seus ombros. Fitou o colo arredondado e beijou os seios pequenos, afastando com os dentes as rendas do sutiã. Valquíria, na ânsia de ser tocada, tratou de desprender seu sutiã, deixando seus seios à mostra, para deleite de Fernanda. Em seguida, com delicadeza, Valquíria puxou o fecho do macacão de Fernanda, baixando a parte de cima e deixando exposto o torso nu. Mergulhou na maciez daqueles seios de mamilos escuros e rijos de excitação. Num movimento ágil Fernanda livrou-se do macacão tirando junto a calcinha de lycra preta que vestia e a sandália prateada. Valquíria deu um passo para trás e contemplou-a totalmente desnuda, linda. Sensualmente jogou suas sandálias para o lado e abriu seu zíper, num convite explícito à Fernanda para que a ajudasse a se livrar daquele fardo. E Fernanda não se fez de rogada. Aproximou-se e baixou a calça e a calcinha, ajoelhando-se a seus pés e fitando-a de baixo para cima. Jamais a imagem de uma mulher despida a fascinara tanto quanto aquela. Levantou-se e abraçou Valquíria, sentindo a suave textura da pele nua. Os corpos se moldavam um ao outro, as mãos exploravam cada parte ainda desconhecida para a outra. Fernanda suspendeu Valquíria do chão num abraço, fazendo com que ela entrelaçasse as pernas ao redor de seu corpo. Caminhou até a cama e sentou-se na beirada, puxando Valquíria para cima de si. Sentia a umidade de Valquíria escorrendo de encontro a seu sexo, também encharcado de excitação, com a pulsação tão acelerada e forte que chegava a doer. Beijou os cabelos de Valquíria, sua boca, seu pescoço, seu colo, posicionando seu sexo de encontro à sua coxa. Valquíria iniciou um movimento de quadril deixando rastros na perna de Fernanda. Esta também acompanhava os movimentos de Valquíria, aumentando a intensidade conforme aumentavam os gemidos de sua amante. Transbordando de excitação Fernanda levou sua mão abrindo caminho por entre o triângulo de pelos dourados e encontrando o ponto sensível do prazer de sua amada. Valquíria gemeu alto e arqueou seu corpo, fazendo pressão na mão de Fernanda que deliciava-se com o ato de dar prazer àquela mulher. Num ímpeto Valquíria também levou sua mão até o sexo de Fernanda que abria suas pernas oferecendo-se por inteiro, incondicionalmente. Dessa vez foi Fernanda quem não conseguiu conter um grito de puro êxtase. Em golpes de volúpia sussurrou ao ouvido de Valquíria:
- Val... ããhhhããa... eu te... amo...
- Eu... eu também, meu amor... eu te amo... eu te quero... toda...
Sem conseguirem mais conter o ápice do prazer, explodiram quase que ao mesmo tempo num orgasmo pleno de um sentimento de completude, como se formassem, naquele momento, um único ser.
Desfaleceram uma nos braços da outra sentindo-se no paraíso. Era como se os corpos fossem feitos de elementos etéreos, sentiam-se flutuar. Continuavam acariciando-se amorosamente. Valquíria levantou os olhos para encarar Fernanda. O azul celeste encantou-se com o verde esmeralda.
- Eu te amo... – disse Valquíria.
- Eu também te amo... – respondeu Fernanda beijando suavemente os lábios de sua amada.
Novamente os beijos se tornaram mais ardentes e os corpos se acenderam na chama do desejo e da excitação. Amaram-se até quase o nascer do sol e adormeceram abraçadas, com um sentimento de plenitude... e felizes.
Pela manhã Fernanda acordou com Valquíria aninhada em seus braços, dormindo com a cabeça repousada sobre seu peito. Muito delicadamente afagou os cabelos loiros tomando cuidado para não despertar Valquíria de seu sono. Fechou os olhos, respirou fundo e suspirou feliz. Mentalmente fez uma retrospectiva de toda sua vida, de todas as suas convicções e objetivos até então. Era engraçado, porque a partir do momento em que fizera amor com Valquíria sua visão de mundo e suas perspectivas em relação ao futuro mudaram radicalmente. Assim como uma fênix que renasce das cinzas com um novo espírito, rompendo a barreira da vida e da morte, a Fernanda ávida de liberdade dera lugar à Fernanda sedenta de um porto seguro para atracar. E esse porto tinha endereço certo, e lindos olhos verde-esmeralda. Sentindo o calor do corpo nu de Valquíria junto ao seu percebeu que necessitava daquele contato para sempre para continuar vivendo, como se fosse ar e água, alimento e abrigo.
Após algum tempo, pressentindo o despertar de Fernanda, Valquíria abriu os olhos e sorriu para a mulher amada, o sorriso mais encantador que já tinha esboçado até então:
- Bom dia, meu amor... – disse com voz sonolenta.
Fernanda respondeu com um sorriso e um beijo.
- Ótimo dia... – disse Fernanda com um olhar amoroso.
Valquíria aconchegou-se mais junto ao corpo de Fernanda, como se quisesse fundi-las numa só. Muito provavelmente porque não queria se afastar dali. Num lampejo porém, Valquíria também tomou consciência da realidade e suspirou de encontro ao peito de Fernanda.
- Qual o motivo desse suspiro? – quis saber Fernanda.
Após um breve silêncio Valquíria respondeu, encarando Fernanda nos olhos:
- E agora?
Fernanda afagou seu rosto. Havia entendido muito bem o sentido da pergunta e respondeu:
- Eu te amo como nunca amei ninguém na vida...
- Eu também...
- ... e nada vai separar a gente agora. Eu prometo. Confia em mim.
Valquíria abraçou Fernanda com força e esta última continuou:
- Hoje eu preciso pensar... colocar alguma ordem na minha cabeça e na minha vida... nas nossas vidas. À noite a gente janta e conversa. Agora eu quero mais um beijo... muitos beijos... e tudo o mais que eu tenho direito... – disse Fernanda girando Valquíria e deitando-se sobre ela.
- Escuta... tu não tem que trabalhar hoje? Eu só começo amanhã... – disse Valquíria quase sufocada pelos beijos de Fernanda.
- Depois... agora... eu quero você... – e foi beijando o pescoço, o colo, os seios de Valquíria que já se abria para as carícias e os toques da mulher que amava.
Ficaram na cama até quase meio dia, até que Valquíria reclamou:
- Tu queres me matar de esgotamento e de fome? Me usa, abusa e não me dá de comer? Sabe que até aos escravos não se nega comida? – disse em tom de brincadeira.
Fernanda percebeu que também estava faminta.
- Meu Deus! Como pude ser tão cruel com quem me proporcionou o maior deleite que já saboreei na vida? Mil perdões! Tentarei me redimir agora, já. – disse Fernanda teatralmente levando a mão até o telefone e ligando para a portaria.
- Por favor, café da manhã para duas pessoas no meu quarto. – pediu Fernanda – Eu sei, eu sei que já está na hora do almoço, mas eu quero café. E completo, por favor. E logo.
- Fernanda, eu não acredito que tu pediu café pra nós duas aqui no hotel?... – disse Valquíria.
- E você pensou que eu pediria aonde? Na bodega da esquina?
- Mas, Fernanda, o que é que os funcionários vão pensar?
- Que eu sou uma mulher de sorte... – respondeu Fernanda com um ar malicioso.
- Fernanda!
- Eu não me importo com o que os outros pensam, nunca me importei e não vai ser agora. Aqui eu sou hóspede, pago e quero ser bem atendida, e pronto. E eu não estou aqui para que pensem sobre mim, estou aqui porque me é conveniente, e para que atendam às minhas necessidades. E agora eu necessito urgentemente de um café, porque certa pessoa me lembrou que eu estou morta de fome!
- Pois essa certa pessoa também está morrendo de fome! – respondeu Valquíria sapecando muitos beijos no rosto de Fernanda.
Em menos de quinze minutos ouviram uma batida discreta na porta:
- Dona Fernanda, seu café da manhã.
- Pode deixar aí que eu já pego. – respondeu Fernanda enquanto colocava um roupão de seda para esconder sua nudez.
Ao abrir a porta o funcionário entrava no elevador e acenou discretamente para ela. Fernanda puxou o carrinho para dentro do quarto e os olhos de Valquíria brilharam de felicidade. Elas comeram até se saciar. Terminando a refeição Fernanda suspirou:
- Pois é... eu tenho que ir até a loja. Acabou-se a minha vidinha folgada da semana passada...
- E eu tenho que pegar a Nina. A Dona Eda já deve estar preocupada.
- Não deve não... – brincou Fernanda – ela sabe que eu te cuido direitinho...
- Fernanda! Faz favor!
Fernanda gargalhou e abraçou Valquíria. Beijou-lhe os lábios e antes que as carícias se excedessem afastou-se dela:
- Eu vou tomar um banho. E acho que você devia fazer a mesma coisa. Mas depois de mim, senão eu não vou pra loja!
- E nem eu pra casa...
- Aliás, na saída vê se compra um limãozinho e chupa antes de entrar em casa... – disse Fernanda.
- Pra que?
- Pra tirar esse teu ar de satisfação da cara! Todos vão perceber que você provou desse néctar aqui... – respondeu Fernanda apontando para si mesma.
- Palhaça! – disse Valquíria sorrindo e arremessando um travesseiro em Fernanda que se esquivou e entrou no banho.
Quando Fernanda saiu do box Valquíria entrou. Ao terminar seu banho percebeu que Fernanda estava quase pronta. Rapidamente se vestiu, pois queria descer com ela.
Caminharam juntas até a loja e antes de entrar Fernanda disse:
- Me espera de noite, eu passo na tua casa, aí aproveito pra dar um beijinho na Nina.
- Eu te espero pra jantar.
- Tá. E, Valquíria... pede pra Dona Eda ficar com a Nina de novo nesta noite... a gente precisa conversar.
- Fernanda...
- Eu tô falando sério. A gente precisa conversar.
- Tá bom. Eu vou morrer de saudades.
- Eu também... eu também – respondeu Fernanda inclinando-se e dando um beijo respeitoso na testa de Valquíria. Em seguida entrou na loja.
Valquíria foi para casa, pegou Nina e aproveitou a tarde para descansar. Estava exaurida da noite de amor. Exausta, mas feliz, muito feliz. Na verdade nunca sentira tamanha felicidade na vida. Porém estava preocupada com o rumo que tomaria a sua vida, e com a conversa que teria com Fernanda. Estava confusa, mas as palavras de Fernanda soavam como um bálsamo em seus ouvidos: "eu te amo... confia em mim".
Naquela terça-feira Fernanda tratou de encaminhar as pendências da loja. Realmente ela era indispensável para que tudo funcionasse como uma engrenagem. Apesar de seu esforço em manter sua atenção exclusivamente nos assuntos do trabalho, pelo menos naquela tarde, inúmeras vezes seu pensamento se desviava para a noite de amor que tivera com Valquíria, e o que aquela mulher significava para ela. Mais ainda, seu pensamento estava voltado para o futuro, para tudo aquilo a que estava disposta a transformar em sua vida. Percebendo que seu trabalho não estava mais rendendo o que deveria deu-se por vencida, sucumbindo à sua mente que fervilhava como o turbilhão de uma cachoeira em época de enchente, pegou sua bolsa e retornou para o hotel por volta das dezoito horas.
Ao entrar em seu quarto ainda sentiu o suave perfume de Valquíria, seu cheiro havia se arraigado na roupa de cama, nas paredes, nos quatro cantos do aposento. Fernanda respirou fundo, tirou a roupa e tomou um banho. Deixou a água escorrer por sobre seu corpo da cabeça aos pés, como que tentando lavar todas as suas dúvidas e seus medos, clarear suas idéias e ordenar os pensamentos. Após o banho serviu-se de uma dose de whisky com gelo e sentou-se na sacada de seu quarto, olhando para a paisagem da rua, porém sem enxergar o que quer que fosse. Fechou os olhos e ficou naquele estado meditativo por quase uma hora. Por fim levantou-se determinada. Vestiu-se e deixou o Hotel Edelweiss rumo à casa de Valquíria. Fez o trajeto a pé. Há duas quadras do hotel havia uma floricultura, na qual Fernanda comprou um buquê de rosas vermelhas. Mais adiante passou num armazém e comprou uma caixa de bombons para Nina.
Valquíria preparou o jantar com antecedência. Estava ansiosa esperando por Fernanda. Vez por outra seus medos afloravam e sentia-se como que acordando de um sonho. "Não..." pensava, "Fernanda não poderia querer nada mais sério com ela. Fernanda era uma mulher cuja realidade e os projetos de vida eram muito diferentes dos dela. Não se prenderia numa relação onde havia uma criança envolvida, era muito compromisso...". No entanto esses pensamentos eram afastados instantaneamente de sua mente cada vez que recordava o olhar de Fernanda e o modo como se amaram naquela noite. Além do mais ela lhe dissera: "confie em mim".
Valquíria estava tão absorta em seus pensamentos que por mais de duas vezes Nina a trouxe de volta à realidade:
- Mãe... MÃE!
- O que é menina? – respondeu Valquíria.
- No que é que tu tá pensando?
- Nada... nada de mais, porque?
- Porque eu tô te chamando ha horas e tu não ouve.
- O que é que tu queres?
- Quero saber se a Fernanda vem aqui hoje.
- Vem, querida, ela vem jantar conosco.
- Uêêêba!!! – vibrou Nina.
- Nina, depois do jantar eu gostaria que tu fosses para a casa da Dona Eda.
- Por que? Eu quero ficar com a Fernanda!
- Olha só... a Fernanda e eu precisamos conversar sobre um assunto bem sério.
- Mas eu juro que não atrapalho!
- Não é uma questão de atrapalhar, Nina. É que existem assuntos que são de adultos, entende?
- Não, não entendo.
- Nina... é importante para mim. Por favor... alem do quê, tu vais ter tempo de curtir a Fernanda, acho que ela vem cedo.
- Tá bom. Mas amanhã eu posso ir na loja?
- Se ela concordar, pode.
- Tá bem, então. É que eu adoro ela, mãe...
- Eu sei querida, eu sei.
Nesse momento Pipoca latiu contente e abanou o rabo na direção da porta de entrada. Fernanda já havia entrado pelo portão e limpava os pés no capacho da porta da frente.
- Ô de casa! – gritou Fernanda.
Nina disparou para recebe-la, atirando-se em seus braços. Fernanda ergueu a menina num abraço, cuidando para não desfolhar o buquê que trazia para Valquíria.
- Eu tava morrendo de saudades! – disse Nina.
- Eu também, garota. E a tua mãe, cadê?
- Na cozinha, terminando a janta.
- Olha o que eu trouxe pra você. – disse Fernanda estendo os bombons para Nina que sorriu de orelha a orelha.
- Obrigada!... – respondeu Nina - ...as flores são pra minha mãe, né?/font>
- São.
Nina pegou Fernanda pela mão e a arrastou até a cozinha.
- MÃE... OLHA QUEM CHEGOU!!!
Quando Valquíria e Fernanda se olharam de frente quase não conseguiram disfarçar toda vontade que sentiram de se jogar uma nos braços da outra. Fernanda estendeu-lhe as flores:
- Pra você...
- São lindas... – respondeu Valquíria. – Deixa eu colocar num vaso...
- Mãe, eu tô com fome! – disse Nina.
- Eu também! – emendou Fernanda.
- Muito bem, a comida está pronta. Será que as duas famintas poderiam pôr a mesa?
- Claro! – responderam as duas.
Jantaram num clima animado. Nina estava radiante com a presença de Fernanda. Em sua inocência não percebeu o tênue clima de tensão que pairava no ar. Fernanda estava inquieta, queria dizer a Valquíria tudo o que havia, durante horas a fio naquela tarde, definido como prioridade em sua vida. Por volta de dez horas da noite Dona Eda bateu na porta:
- Com licença... boa noite! Eu vim buscar uma menininha para dormir comigo lá em casa! – disse a velha senhora amigavelmente – Esta noite o Arno volta tarde, ele foi jogar bolão no clube e eu preciso de companhia.
- Eu vou pegar o meu pijama – respondeu Nina – e o Fernando.
Em minutos Nina estava pronta e se despediu de Fernanda:
- Amanhã eu posso ir na loja te ver?
- Pode, querida, claro que pode. – respondeu Fernanda dando um beijo em Nina – Eu vou ficar te esperando. A gente pode comer um sorvete, combinado?
- Combinado!
- Até amanhã, então.
- Até amanhã! – respondeu Nina saindo de mãos dadas com Dona Eda e arrastando Fernando embaixo do braço.
Passados alguns segundos Valquíria foi até a porta e girou a chave na fechadura. Não queria ser surpreendida no que estava prestes a fazer. Sem conseguir mais controlar sua emoção atirou-se nos braços de Fernanda que a envolveu num ardente e apaixonado abraço, procurando desesperadamente saciar a sede de beijos naqueles lábios macios e quentes que lhe sorriam convidativos. Com as respirações ofegantes beijaram-se com paixão, os lábios querendo sugar a essência da alma de cada uma. Após um tempo conseguiram separar as bocas.
- Eu quase morri de saudades... – disse Fernanda apaixonadamente.
- E eu? Eu tive que esperar as horas se arrastarem... – respondeu Valquíria.
- Val... a gente precisa conversar...
Valquíria afastou-se de Fernanda. Respirou fundo e disse:
- É... precisamos. Olha, Fernanda, eu... eu não quero que tu mudes a tua vida, a tua rotina, os teus conceitos por mim...
- Val, deixa eu começar. Por favor.
- Tá. – respondeu Valquíria sentando-se no sofá e colocando as mãos sobre o colo, preparando-se para ouvir.
Fernanda sentou-se na poltrona em frente e começou a falar, olhando Valquíria bem dentro dos olhos.
- Desde hoje de manhã o que eu mais fiz foi pensar... Aliás, eu só faço pensar já há um bom tempo.
Valquíria, calada, prestava atenção em cada palavra que Fernanda proferia.
- Desde que eu te vi pela primeira vez naquele hospital, quando acordei e vi os mais belos olhos verdes existentes no mundo, eu percebi que minha vida nunca mais seria a mesma. Depois eu conheci a Nina... e conheci verdadeiramente você. E a cada dia que passava eu te admirava mais. E o que era encanto e fascinação se transformou em amor. Um amor que eu jamais imaginei ser possível de sentir. Antes de te conhecer eu tinha um modo de ver a vida, hoje eu tenho outro, bem diferente. Na verdade eu acho que sempre alardeei aos quatro ventos minha convicção de que sendo livre e solta eu era feliz porque eu nunca havia conhecido a verdadeira felicidade até então. E quando falo em felicidade me refiro a um estado de espírito onde o que menos importa é o "eu", e o que mais importa é o "nós". E isso quem me ensinou foi você. Apesar de ter nascido numa família abençoada, de nunca ter passado por nenhuma privação material, sempre ter batalhado por meus ideais até consegui-los, eu nunca havia me sentido plena. E é assim que eu me sinto agora. É assim que eu me sinto com você. E isso me assustou muito a princípio. – Fernanda respirou fundo, tomando fôlego e continuou – Quando a gente foi para a praia eu me deparei com um sentimento que há muito eu havia esquecido. Eu me peguei com vontade de ter um lar. Não somente uma casa, mas um lar. Ter alguém me esperando no final do dia, alguém para tomar café da manhã comigo, alguém para conversar antes de dormir... E eu percebi que é isso que faz com que as pessoas tenham ânimo para continuar vivendo. A gente precisa ter um lugar para voltar no final do dia, um lugar onde a gente encontre o amor e o aconchego. E, Val... esse lugar, o meu lugar, é contigo. E é por isso que eu preciso saber, Val, se você está disposta a ser o meu porto seguro, assim como eu quero ser o teu. Eu quero uma família, Val, uma família completa, uma mulher, uma filha e uma cachorra... – Fernanda saiu de onde estava sentava e ajoelhou-se aos pés de Valquíria, segurando-lhe as mãos entre as suas e olhando-a nos olhos - ...eu quero que você me diga: aceita dividir a sua vida comigo?
Fernanda estava com a voz embargada pela emoção. Valquíria levou suas mãos aos lábios beijando-as delicadamente. Fitando-a nos olhos incrivelmente azulados respondeu com voz suave, mas convicta:
- É tudo o que eu quero dessa vida. Eu preciso de ti, Fernanda... Hoje eu não consigo imaginar a minha vida longe de ti... Eu te amo.
- Eu também te amo... muito... mais do que tudo. – Respondeu Fernanda abraçando-a pela cintura e repousando sua cabeça no colo de Valquíria.
- Mas... eu não sei, eu tenho medo... – titubeou Valquíria.
- Medo? Do que?
- De como vai ser a nossa vida... como a gente vai conseguir esconder a nossa relação da Nina...
- Como é que é?!!! – empertigou-se Fernanda, encarando Valquíria com seriedade.
- Eu... a gente... o que é que a gente vai dizer pra Nina?... Tu sabe como é criança... criança conta o que acontece em casa... e o que os outros vão dizer?...
- Val, - disse Fernanda levando as mãos aos cabelos - eu não acredito no que eu tô ouvindo. Valquíria, eu não estou te reconhecendo...
Valquíria baixou a cabeça escondendo o rosto com as mãos sentindo-se angustiada pelas suas dúvidas. Fernanda respirou fundo e continuou:
- Val, escuta... eu entendo perfeitamente o teu sentimento de querer preservar a nossa relação e, principalmente, a Nina. Eu sei que não é fácil criar uma criança... eu sei que não é fácil conviver numa sociedade onde ainda nos consideram anormais ou, o que é pior, doentes. Mas, Valquíria, eu estou numa fase da minha vida onde o que menos me importa é a opinião alheia, onde o que menos preciso é da aceitação dos "outros", como você disse. Val, eu não quero brincar de casinha, de mamãe-mamãe e filhinha. Eu quero construir um lar. Eu quero uma família, eu quero uma casa. Ou você pensa em continuarmos assim, uma morando aqui e a outra no hotel, e vez por outra nos encontramos para uma trepada?...
Valquíria levantou os olhos para Fernanda, surpresa pela colocação rude, e exclamou:
- Não! Claro que não é só isso!
- Então, Val, você vai precisar ter a coragem de encarar nossa vida como ela realmente é. E mais do que isso, assumi-la como ela se apresenta. Val... imagina a gente arrumando uma casa pra nós. Como é que vamos explicar pra Nina que ela vai ter um quarto e "nós" outro? Você e eu no mesmo quarto, já pensou? Ou nós vamos ter que, durante toda a vida, esperar a Nina pegar no sono para termos algum tipo de contato físico? Nós vamos nos encontrar como criminosas na calada da noite dentro da nossa própria casa? Não, Val, decididamente não é isso que eu quero pra mim! – Fernanda respirou fundo e continuou – Valquíria, a gente não constrói uma vida, uma família, que não seja com fundamento na verdade.
- Eu sei Fernanda! Eu sei! – disse Valquíria com lágrimas escorrendo dos olhos verdes. - Eu também acho que uma vida se constrói em cima de verdades. Mas eu só não sei como falar essa verdade para a minha filha! E se ela comentar com alguém, Fernanda? Tu sabe que o preconceito existe! E a Nina vai sofrer com isso! Eu não quero que a minha filha sofra...
Fernanda envolveu Valquíria carinhosamente pelos ombros e disse:
- Eu também não quero que a Nina sofra. Mas nós não podemos coloca-la numa redoma de vidro. Com certeza nós vamos encarar uma barra pesada. Mas se vamos ser uma família, a Nina precisa ser a primeira a saber da gente. Ao invés de tentarmos protege-la dos problemas vamos prepara-la emocionalmente para que saiba lidar com eles. Eu sei que vamos enfrentar preconceitos, principalmente a Nina, na escola, no grupo de amigos, pois eu sei que realmente crianças comentam o que se passa em casa. Mas nós vamos estar junto com ela para que ela se dê conta de que é possível sobreviver a contratempos, a preconceitos, a chacotas... que o importante é ter quem se ama ao nosso lado. E isto ela certamente terá! Na verdade este é o preço que se paga por ter uma família diferente. Mas que não deixa de ser uma família... uma família capaz de amá-la imensamente e de defende-la frente a quaisquer dificuldades.
- Tu tens razão, Fernanda. Toda a razão. Na verdade eu acho que quem tem medo de enfrentamentos sou eu... a Nina tira de letra...
- Mas para isso eu estou aqui, meu amor. Você não acha que vale a pena tentar? Vamos nos dar uma chance de sermos felizes? E dar à Nina a chance de participar dessa nossa felicidade?
Valquíria, já mais calma, enxugou as lágrimas de seu rosto e respondeu:
- Vamos, vamos sim.
De alguma forma Fernanda conseguia transmitir a Valquíria uma força interior que ela até então desconhecia. Fernanda fazia com que conseguisse superar seus receios, e ouvindo-a falar suas dúvidas e temores se dissipavam como fumaça diluindo-se no éter. E o que ficava em seu coração era um sentimento de plena confiança de que tudo daria certo.
- Fernanda... eu estou disposta a enfrentar qualquer coisa a teu lado. Qualquer coisa. Mas, e a tua família? O que o teu avô vai dizer ou fazer? E os teus pais?
- Valquíria, eu nunca escondi nada da minha família. Eles simplesmente acham mais fácil não perguntar. Mas eu nunca menti, nem vou mentir. E o meu avô pode até não me aceitar, ou nunca mais querer olhar na minha cara, o que eu acho pouco provável, mas ele vai ser o primeiro lá de casa a ser informado da minha... da nossa decisão.
- Bom... nesse caso, Fernanda, temos que ter uma conversa séria com a minha filha amanhã. – disse Valquíria.
- Nossa filha, a partir de agora somos uma família, lembra? – disse Fernanda com voz firme. – Mas, até amanhã temos muitas horas para matar as saudades que a longa tarde nos infringiu, concorda?
- Plenamente... – respondeu Valquíria apaixonadamente, capturando os lábios de Fernanda num beijo.
- Huuuummm... você beija bem pra caramba...
- Faço o que posso... – respondeu Valquíria fingindo falsa modéstia.
- Convencida.
- Quem mandou me elogiar.
Fernanda abraçou novamente Valquíria e os beijos se tornaram mais ardentes. Os corpos ávidos por saciarem a vontade de se entregar arfavam a cada toque de mãos e línguas. Os sexos umedecidos pela excitação ardiam como brasas incandescentes. Valquíria puxou Fernanda pela mão até o quarto. Fechou a porta atrás de si e jogou Fernanda sobre a cama, deitando-se sobre ela. Arrancaram as roupas com voracidade e se amaram com paixão e doçura, com volúpia e suavidade. Os corpos suados adormeceram abraçados, numa proximidade onde era impossível distinguir onde terminava uma e começava a outra. A partir daquela noite estavam, de fato, juntas.
No dia seguinte, como sempre, Fernanda foi a primeira a despertar. Olhou no relógio de cabeceira e viu que já eram sete e meia. Precisava trabalhar. E Valquíria também, além do quê logo Nina bateria na porta, a garota acordava cedo como ela.
- Val... – sussurrou Fernanda ao ouvido de sua mulher - ...acorda amor, já está na hora de levantar...
- Aaah não... deixa eu dormir mais um pouco...
- Logo a Nina vai vir para cá.
Valquíria espreguiçou-se e abraçou o corpo nu de Fernanda, aconchegando-se nela.
- Huuumm... que coisa boa... – gemeu Valquíria baixinho.
- O que?
- Te sentir... eu poderia ficar assim o dia todo...
- Ah, sim... e morreríamos de fome, as duas. Vamos lá, dona dorminhoca, hoje é dia de batente. – disse Fernanda enchendo Valquíria de beijos.
- Tá bom... teus argumentos me convenceram... – respondeu Valquíria com a voz pouco convicta, virando-se de lado para deixar Fernanda levantar.
A vantagem de dormirem numa cama de solteiro era que não havia como se afastarem uma da outra. Haviam passado a noite grudadinhas...
Fernanda levantou-se e foi direto para o banheiro tomar uma ducha rápida. Vestiu-se e foi para a cozinha adiantar o café enquanto Valquíria tomava seu banho.
Colocou o leite para ferver e pôs a mesa. Quando Valquíria apareceu, com um roupão felpudo e a toalha enrolada na cabeça, Fernanda a abraçou pela cintura e a beijou demoradamente. Ficaram tão distraídas que o leite entornou sobre o fogão. Num pulo Fernanda desligou o gás.
- Olha só o que dá ficar de safadeza... – disse Valquíria debochada, sentando no banquinho em frente à mesa.
- Mas eu nunca vou limpar um fogão com tamanha satisfação, certa de que valeu cada gotinha do leite derramado... – respondeu Fernanda abraçando-a por trás e introduzindo sua mão na abertura frontal do roupão, acariciando-lhe suavemente os seios e beijando-lhe a nuca.
Valquíria estremeceu. Fernanda retirou a mão e sentou-se a seu lado, deixando Valquíria a recompor-se.
- Mas como você mesmo disse, vamos parar com a safadeza... – falou Fernanda fazendo-se de difícil.
- Ah, cachorra... isso não se faz...
Ambas tiveram que rir. Valquíria lembrou-se de destrancar a porta da frente e retornou para a mesa. Enquanto tomavam café Fernanda disse:
- Val, olha só... a gente não vai poder ficar morando aqui...
- Eu não havia pensado nisso, ainda...
- Mas eu sim, aliás eu já te falei que nos últimos tempos eu só penso... Nós vamos precisar de uma casa com, no mínimo, três quartos. A gente precisa de privacidade e a Nina já está na idade de ter o seu próprio espaço. E eu preciso de um escritório em casa, para poder ficar mais tempo perto de vocês.
- Mas, isso vai ficar muito caro.
- Francamente Valquíria, lá vem você de novo com esse papo de grana. Você sabe que dinheiro não é problema.
- Mas eu não quero ser sustentada por ti. Não é correto.
- E quem disse que eu vou "te sustentar"? Se a gente realmente pretende iniciar uma vida juntas não pode existir esse lance de "teu dinheiro, meu dinheiro". E além do mais você trabalha. Val, não faça com que eu me sinta culpada por minha situação financeira ser diferente da tua.
- Desculpa... tu tens razão.
- Tudo bem. Só o que eu te peço é que não sejas orgulhosa... não comigo. Eu quero construir uma vida com você, Val. Eu quero que tenhamos o melhor, nós e a nossa filha.
- Tu tem razão, já falei... eu sou uma boba mesmo.
- Bom, como eu tava dizendo, pensei em alugar uma casa, acho que vou dar uma olhada nas imobiliárias hoje. Você pode vir comigo?
- Amor, eu hoje começo a trabalhar e não tenho como faltar, senão deixo meus colegas mal.
- Tudo bem, eu vejo quais os imóveis disponíveis e a gente dá uma olhada no sábado de manhã, pode ser?
- Pode.
Valquíria sorveu um gole do seu café e disse:
- Fernanda, a gente precisa conversar com a Nina.
- Eu sei. Pode ser hoje à noite? Eu venho jantar aqui de novo.
- Pode, mas eu acho que hoje a Nina não vai querer dormir na casa da Dona Eda, sabendo que tu vais dormir aqui.
- E quem disse que eu vou dormir aqui?... – brincou Fernanda.
Valquíria sorriu:
- Minha intuição... e os bicos dos teus peitos que estão saltando da camiseta só de imaginar este corpinho aqui nas tuas mãos.
- Ai que golpe baixo... – riu Fernanda.
- Mas falando sério, - continuou Valquíria - eu conheço o meu eleitorado. Depois da novidade que a gente tem para contar, ela não vai arredar o pé daqui.
- Não faz mal. Ela tem o direito de querer curtir a nossa felicidade. Assim a gente dorme cedo e recupera um pouco da energia usada excessivamente nas últimas duas noites...
- Olha que nesse excesso eu quero mais é me acabar! – gargalhou Valquíria.
- Ô... nem fale!
Antes de terminarem o café Nina irrompeu na cozinha e soltou um gritinho de felicidade quando viu Fernanda:
- Fernanda!!! Tu dormiu aqui?
- Dormi. Eu e tua mãe conversamos muito, e ficou tarde. Aí ela me convidou para ficar aqui.
- Aaahh, porque é que vocês não me chamaram???
- Já era tarde, meu amor. – respondeu Valquíria carinhosamente.
- Vamos fazer assim: - continuou Fernanda – hoje eu venho de novo para jantar e durmo aqui outra vez, pode ser?
- PODE!!! Tu vai dormir comigo, na minha cama!
- Olha que eu sou muito grande...
- A gente se aperta que cabe! – respondeu Nina que sempre tinha uma solução para tudo.
- Tá bom, então, a gente se aperta. – concordou Fernanda. – Agora eu vou indo porque eu preciso passar no hotel e mudar de roupa.
- Hoje a gente vai tomar sorvete, lembra? – cobrou Nina.
- Lembro sim – respondeu Fernanda sorvendo seu último gole de café – pede pra Dona Eda te levar lá no final da tarde que depois eu te trago de volta, ok?
- Ok! – disse Nina alegremente.
Fernanda deu um beijinho na testa de Nina e um na testa de Valquíria. Por pouco não a beijou na boca, tamanha sua vontade. Elas se encararam e sorriram em cumplicidade.
Naquela tarde Valquíria assumiu seu plantão sorridente. Mal cabia em si de felicidade. Seus colegas repararam e perguntaram se ela havia visto algum passarinho verde. Lembrando-se dos olhos de Fernanda ela respondia alegremente: "azul, um passarinho azul".
Fernanda também estava que era só sorrisos. Por três ou quatro ocasiões Lourdes reparou sua chefe com o olhar parado e sorrindo consigo mesma. Era evidente que havia acontecido alguma coisa, no mínimo, maravilhosa para ela. "Que bom, a dona Fernanda é uma pessoa muito boa, merece ser feliz", pensou Lourdes.
Por volta das dezessete horas Dona Eda levou Nina até a loja, deixando-a aos cuidados de Fernanda. Tomaram sorvete e depois Nina foi com ela até o hotel para pegar uma muda de roupas. Ao sair do plantão no hospital Valquíria chegou a passar na loja, mas lhe informaram que Fernanda já havia saído com Nina. Foi para casa, para adiantar a janta.
Enquanto preparava as panelas e lavava as saladas Valquíria preparava-se psicologicamente para conversar com Nina. Ensaiava o que falar, mas não conseguia achar palavras adequadas para seu discurso. Decidiu improvisar. Na hora da conversa por certo saberia o que dizer. E assim o fez.
Fernanda e Nina chegaram por volta das vinte horas. Após o jantar colocaram os pratos na pia e Nina pegou o banquinho para alcançar na torneira e lavar a louça, ao que Valquíria disse:
- Nina, deixa os pratos aí, depois eu lavo.
- Mas eu sempre lavo...
- Meu amor, a gente precisa conversar – disse Valquíria brandamente – Na sala.
- O que foi que eu fiz?... – perguntou Nina, pressentindo a seriedade da conversa no tom de voz da mãe.
- Nada, meu amor, tu não fez nada. É só que a Fernanda e eu queremos conversar contigo, te contar umas coisas. – continuou Valquíria.
- Coisas que vocês conversaram ontem?
- É. – respondeu Valquíria.
Era incrível a capacidade de Nina em perceber certas situações. Era uma criança bastante perspicaz para sua idade. Nina deixou a banqueta em baixo da mesa da cozinha e foi para a sala, sentando-se formalmente no sofá.
- Pode falar, mãe.
- Na verdade Nina não sou só eu que preciso conversar contigo. A Fernanda também precisa. É que o assunto é o mesmo.
Nina ficara calada, os olhinhos arregalados, pronta para ouvir o que havia para ser dito.
- Nina, - começou Valquíria – eu sei que tu gosta muito da Fernanda...
- Gosto mesmo, eu te adoro Fernanda! – disse Nina sorrindo para Fernanda.
- Eu também, Nina. – respondeu a morena.
Valquíria continuou:
- Bom, desde que a gente conheceu a Fernanda nós fomos ficando cada dia mais amigas. E como você, eu também gosto muito dela, Nina, muito mesmo. E a cada dia que passava eu percebi gostar mais dela ainda. E ela de mim.
- E de mim não?
- Claro que sim, bobinha! – respondeu Fernanda – mas é que da tua mãe eu gosto de uma forma diferente.
- Como assim? – perguntou Nina.
Valquíria respirou fundo e após tomar fôlego continuou:
- Nina a gente tem muitas formas de amar, e tu sabes disso. A gente ama a mãe de uma forma, os amigos e os colegas de outra, os avós de outra, os animais e as plantas de outra e os namorados de outra ainda. Mesmo tudo sendo amor, esse amor se manifesta de forma diferente. Não existe um que seja maior que o outro. Todos são imensos, mas diferentes. Você entende isso?
- Acho que sim.
Valquíria fez uma pausa, baixou os olhos, como se lhe faltassem palavras. Fernanda percebeu que ela estava apertando suas mãos nervosamente. Levantou-se e sentou ao lado dela, colocando suas mãos sobre as dela num gesto de segurança e disse:
- Nina, o que a sua mãe está querendo dizer é que eu e ela... enfim, a gente se gosta de uma forma especial. A gente se ama não só como amigas, a gente se ama como namoradas.
Nina franziu uma sobrancelha e permaneceu calada. Fernanda continuou:
- Eu sei que é uma coisa diferente do que costumamos ver na rua, na televisão, na escola. Geralmente os casais que a gente está acostumado a ver são um homem e uma mulher, não é mesmo?
- É. – concordou Nina.
- Mas existem casais que não são assim. São duas mulheres, ou dois homens. E embora muitas pessoas digam que isso é errado ou feio, de fato não é. Só é diferente. Porque amar nunca é feio, Nina. Amar sempre é bonito. E a gente se ama muito... muito mesmo... – disse Fernanda olhando amorosamente para Valquíria e continuando logo em seguida – E a gente quer formar uma família, morar junto, viver junto.
Nesse momento os olhos de Nina brilharam.
- Então tu vai vir morar aqui com a gente??? – perguntou efusivamente.
- Mais ou menos.
- Como mais ou menos? – quis saber Nina.
- Aqui a casa é pequena, só tem um quarto...
- Mas a gente divide contigo. Eu não me importo de dormir no chão, tu pode ficar com a minha parte na bicama.
Fernanda abriu os braços e Nina se jogou em seu colo abraçando-a carinhosamente.
- Muito obrigada mesmo, Nina – continuou Fernanda – mas a gente pensou em alugar uma casa maior, com um pátio maior para a Pipoca, com um quarto só pra você...
- Um quarto só pra mim? – novamente os olhos de Nina brilharam – E eu vou poder escolher a cor da minha colcha?
- Vai, meu amor, vai sim.
- E onde é que tu vai dormir? – bisbilhotou Nina.
- Com a tua mãe, nós vamos ter um quarto nosso. É que os casais precisam ter uma coisa que se chama intimidade.
- Eu sei... vocês vão transar, né?
Valquíria chegou a se engasgar com a colocação da filha, mas Fernanda manteve-se impassível e respondeu:
- Vamos. Vamos transar, sim. A propósito, Nina, você sabe o que é transar?
Nina a fitou pensativa e respondeu:
- Sei lá! Foi um colega meu que falou que os pais dele transam.
- E ele te explicou como é?
- Não deu tempo, a professora chegou e depois eu esqueci de perguntar.
Fernanda sorriu e continuou:
- Pois então eu vou te explicar.
Valquíria permanecia muda e estava rubra até a raiz dos cabelos.
- Nina – disse Fernanda – quando duas pessoas se amam e resolvem namorar elas querem ficar bem próximas uma da outra. Bem, bem juntinhas mesmo. E elas não querem nada entre elas, nem as roupas. Por isso as pessoas se despem e se abraçam bem forte, como que querendo entrar uma na outra para chegar até o coração. Aí elas se fazem muito carinho, se beijam na boca e ficam agarradinhas por muito tempo. Aí depois adormecem abraçadas, e quando acordam de manhã a primeira coisa que querem ver é o amor dormindo do lado. E os casais querem fazer isso sem ninguém olhando, por isso chamamos de intimidade. Deu pra entender?
- Deu. Então vocês tiveram intimidade ontem, né?...
- Tivemos. – respondeu Fernanda que tinha a capacidade de não se perturbar com os questionamentos de Nina, ao contrário de Valquíria que corava a cada nova pergunta da filha.
- Mas vocês vão casar? Como os outros casais? – continuou Nina.
- Vamos casar, sim. Mas não como os outros casais, porque as outras pessoas ainda não entendem e não aceitam aqueles que são diferentes. Por isso a gente casa diferente. A gente se muda pro mesmo lugar, faz um jantar, chama os amigos e pronto: casamos.
- Se a Val se casasse com um homem eu ia ter um pai, e agora? O que é que tu é minha?
- Tua outra mãe. Você é uma das poucas crianças que vai ter duas mães, ein?
- Isso vai me dar um trabalhão na hora de fazer o cartão pro dia das mães na escola... – conjeturou Nina.
Valquíria e Fernanda gargalharam.
- Mas você economiza no cartão do dia dos pais, garota! – disse Fernanda sorridente.
- É mesmo, pensando por esse lado...
Fernanda abraçou Nina bem forte e disse:
- Eu te amo, sabia, garota levada!
- Eu também te amo... mãe.
Fernanda havia se mantido senhora da situação até aquele momento, porém Nina sabia como fazer desmoronar aquela fortaleza. Era a primeira vez que alguém a havia chamado de mãe, e aquela palavra soou doce como um bálsamo. Fernanda abraçou a menina bem junto ao seu peito e respondeu enquanto uma lágrima escorria do canto dos olhos azuis e um soluço embargava sua voz:
- Eu também te amo... filha.
Valquíria também não conseguiu conter as lágrimas e abraçou as duas. Nina olhou para elas e perguntou serelepe:
- Porque é que tá todo mundo chorando, ein?
- E quem é que tá chorando aqui, garota. Não tá vendo que é um cisco no meu olho? – disse Fernanda.
- Sei... – respondeu Nina franzindo a sobrancelha.
- Nina, tem outra coisa... – disse Valquíria – eu gostaria de conversar com a Dona Eda e o Seu Arno sobre a Fernanda e eu antes de qualquer pessoa. Por isso eu te peço que não comentes nada com ela ainda. Deixa que eu falo, ok?
- Tá, pode deixar, boca de siri. – respondeu Nina fazendo um gesto com a mão como se costurasse a boca.
- Nina, tem mais uma coisa... – disse Fernanda.
- O que?
- ...a gente vai enfrentar uma barra a partir de agora.
- Como assim?
- Nina, quando a gente é diferente dos outros, da maioria, muitas vezes a gente sofre algo chamado preconceito. É quando, por ignorância ou medo, as pessoas julgam os diferentes como errados. E muitas vezes dizem coisas bastante cruéis, coisas que ferem e que magoam. E ter duas mães é algo diferente... E é possível que você escute coisas que não vá gostar, coisas que te façam ficar triste, brava ou até chorar. Você consegue entender isso?
- Acho que sim. Lá na praça tem um menino que usa muletas. Ele é meu amigo, mas ele não consegue correr, nem subir no escorregador. Ele é diferente de todos os meus outros amigos. Mas eu gosto de conversar com ele, ele me empresta os gibis dele. Aí outro dia uns guris ficaram chamando ele de aleijado. Ele chorou. Eu fiquei furiosa e disse pra ele não se importar que eles eram uns chatos. Então, acho que chamar o meu amigo de aleijado é preconceito, né?
- Exatamente, Nina. É isso mesmo. Garota esperta. – disse Fernanda – E agora, tendo uma família diferente, é pra você que as pessoas dirão palavras rudes e ofensivas. E você precisa ser forte o suficiente para ouvi-las sem se abalar e levantar a cabeça. Você acha que consegue?
- Claro que sim. Se me xingarem eu digo um palavrão bem feio! E viro a cara! E nem ligo! – respondeu Nina com empáfia.
- Grande garota! – disse Fernanda beijando a filha.
- E quando é que vocês vão casar? Quando a gente vai se mudar? Quando eu vou poder ter o meu quarto? E a Pipoca vai ganhar uma casinha nova também? A dela tá um horror de velha!
- Nina!!! – disse Valquíria – Calma...
- Mas eu preciso saber, que é pra arrumar as minhas coisas.
Fernanda e Valquíria riram muito da menina.
- Vai ser breve – respondeu Fernanda – amanhã mesmo a gente começa a procurar uma casa.
- E eu posso procurar junto?
- Pode. Taí... amanhã a Val não ia poder ir mesmo, então vamos nós. – disse Fernanda.
- Ôôôbaaa!!!
- Deus do Céu... – disse Valquíria – o que me espera com vocês duas sob o mesmo teto...
- Você agradecerá a Deus todos os dias por conviver com pessoas tão despachadas, bonitas, inteligentes, simpáticas e modestas! – respondeu Fernanda.
Nina gargalhou.
- Tô bem arrumada! Mas eu tô adorando isso. – disse Valquíria bem animada – Muito bem, guriazinha, hora do banho. Vai rapidinho que a gente também quer tomar uma ducha antes de deitar. E vamos dormir logo que amanhã é dia de batente.
Nina saiu correndo e cantarolando, "la,la,ra,la,ra...a gente vai se mudar, la,la,ra,la,ra, eu vou ter um quarto só meu..."
Sozinhas na sala Valquíria e Fernanda se entreolharam:
- E então? Até que nos saímos bem, ein? – disse Valquíria.
- Pois é. Se bem que esse "nós" fica por tua conta, que quem teve que descascar o abacaxi da transa fui eu! – respondeu Fernanda fingindo indignação.
Valquíria sorriu:
- Desculpa, amor, mas a Nina realmente me desconcertou. Eu não sabia o que dizer. Tu salvou a pátria.
Fernanda abraçou Valquíria e beijou-a nos lábios com doçura.
- Tão tímida... nem parece aquela louca que eu conheço na cama... – provocou Fernanda.
Valquíria ficou vermelha até a raiz dos cabelos:
- Para com isso, Fernanda, olha que a Nina pode ouvir.
- Mas é verdade...
- Mas não precisa publicar na Zero Hora!
Fernanda novamente capturou os lábios de Valquíria, desta vez com avidez.
- Acho bom a gente parar por aqui... afinal hoje temos companhia para dormir, lembra? – disse Valquíria.
- Tem razão, acho que eu vou tomar um banho frio. Ufa! Vou pegar uma água gelada! Você quer?
- Preciso. Aliás, pega uma cerveja. Tô precisando de um pouco de álcool na minha corrente sangüínea.
- Boa pedida. Vou beber até cair. Só assim eu desmaio do teu lado! – riu-se Fernanda enquanto se dirigia para a cozinha.
Quando Nina saiu do banho encontrou Valquíria e Fernanda abraçadas no sofá da sala, bebendo uma cervejinha bem gelada e conversando animadamente.
- Tô pronta! Pode ir a seguinte. Ah, Fernanda... regra da casa: a última que tomar banho seca o box!
- Pois não, general! – respondeu Fernanda brincando.
- Nina, que coisa feia! – repreendeu Valquíria.
- Mas se a gente vai morar junto a Fernanda tem que saber das regras da casa.
- Meu Deus, eu criei um monstro! – disse Valquíria olhando para Fernanda e sorrindo.
Depois que as três tomaram banho foram se deitar. Nina havia arrumado sua bicama para Fernanda e deitou a seu lado, espremidinha no canto. Fernanda puxou a menina para cima de sua barriga, fazendo com que se deitasse sobre ela de todo o comprimento. Nina a abraçou e começou a mexer no lóbulo de sua orelha, uma mania que tinha desde bebê, até adormecer. Pipoca havia se instalado sorrateiramente num cantinho do quarto, enrosquilhando-se e escondendo o focinho na barriga, como que para disfarçar sua presença. Parecia entender o que se passava e estava feliz de pertencer àquela família. Ninguém teve coragem de coloca-la para rua, para dormir na sua casinha. Por aquela noite poderia ficar ali mesmo. Valquíria deu um beijo em Nina e em Fernanda, apagou a luz da cabeceira e pegou no sono. O álcool a fazia dormir rapidinho. Fernanda também pegou no sono logo. Sentia-se inexplicavelmente feliz. Havia encontrado o seu lugar no mundo.
Pela manhã Fernanda e Nina tomaram café. Ainda não haviam terminado e Valquíria entrou na cozinha sonolenta:
- Eeei, ninguém ia me acordar não? A gente não tá de férias. – disse Valquíria esfregando os olhos e dando um beijinho na testa de Nina e um selinho na boca de Fernanda.
Nina deu uma risadinha ao ver a cena.
- Tá rindo do que, garota. – perguntou Fernanda.
- De vocês! Tão namoraaaando!
- Estamos sim senhorita!
- Ai, é tão bonitinho... – suspirou Nina.
Fernanda e Valquíria riram da carinha de Nina.
- Bom, eu já vou indo pra loja. Ao meio dia eu venho te pegar na casa da Dona Eda. – disse Fernanda dirigindo-se à Nina – A gente almoça e depois vai ver as casas, ok?
- Ok, ok, ok!!! – respondeu Nina efusivamente.
- Depois eu te trago em casa.
- Mas tu vem para ficar aqui hoje, não vem? – quis saber Valquíria.
- Huuummm, pode ser. Mas antes que tal a senhora jantar comigo à luz de velas no hotel? – perguntou Fernanda olhando Valquíria nos olhos.
- Íííí... vai faltar luz hoje, é? – disse Nina.
- Não, não vai faltar luz não... – respondeu Valquíria - ...só que a gente vai jantar namorando.
- Mas porque não jantam namorando com a luz acesa? – quis saber Nina.
Fernanda e Valquíria se entreolharam sorridentes e a primeira respondeu:
- Coisas de casal...
- Aaaah... Então eu não vou poder ir junto, né?
- Hoje não. – respondeu Fernanda – Hoje o jantar é para as tuas mães. Mas depois a gente te pega na Dona Eda e vem dormir aqui, tá?
- Tá bom.
- Nina... – disse Valquíria – tu lembra que eu te pedi pra não falar nada pra Dona Eda e pro Seu Arno da gente, lembra?
- Lembro sim.
- Eu te peço de novo. Deixa que eu falo com eles, certo? Por enquanto esse assunto é segredo só nosso, só entre nós três, combinado?
- Combinado! Eu adooooro segredos! – respondeu Nina.
- Que bom! – suspirou Fernanda levantando-se.
Valquíria foi leva-la até a porta enquanto Nina terminava seu café. Em frente à porta de saída Valquíria abraçou Fernanda e beijou-lhe os lábios amorosamente.
- Vai com Deus, amor.
- Fica com Ele. – respondeu Fernanda.
- Tu me espera aqui quando trouxeres a Nina ou quer que eu vá para o hotel depois? – perguntou Valquíria.
- Eu te pego na saída do teu plantão. Te trago aqui para trocares de roupa e aí a gente vai jantar. E comer a sobremesa... – disse Fernanda no ouvido de Valquíria, maliciosamente.
- Huuumm, algo me diz que eu vou adorar esse jantar...
Já era quase uma hora da tarde quando Fernanda pegou Nina e foram almoçar no restaurante do Quiosque na praça central.
- Me desculpe o atraso, Nina – justificou-se Fernanda – mas é que eu tive de resolver uns problemas na loja.
- Tudo bem. Mas eu tô morta de fome!
- Então vamos comer logo!!!
Depois do almoço sentaram um pouco num banco da praça onde uma imensa árvore projetava sua sombra aconchegante e convidativa ao descanso. Nina estava bastante falante e feliz. Não cansava de fazer planos e falar da casa nova. Após as duas horas começaram a visitar algumas casas, acompanhados por corretores de móveis de duas imobiliárias locais. Visitaram sete casas dentro do que Fernanda propusera aos corretores. Acabaram se encantando por uma distante cerca de cinco quadras da praça central. Ampla, três quartos além da suíte, cozinha espaçosa, dependência de empregada, sala com dois ambientes, garagem para dois carros, pátio frontal com um gramado impecável e pátio nos fundos com um pequeno pomar e espaço suficiente para Nina brincar e correr livremente, além de instalar uma casinha nova para Pipoca. A propriedade era toda murada e tinha porteiro eletrônico tanto no portão de acesso quanto na porta da garagem. Era perfeita para elas.
Antes das dezoito horas Fernanda levou Nina até a casa de Dona Eda, ficando de retornar após o jantar. Passou na loja rapidamente e foi para o Hotel Edelweiss tomar um banho e mudar de roupa. Quando faltavam cinco minutos para as dezenove horas pegou o gol branco do Magazine Libanês e plantou-se em frente ao hospital, aguardando a saída de Valquíria. Sabia que sempre demorava um pouco em virtude da troca de plantão. Quando Valquíria saiu, seus olhos procuravam por Fernanda e ao avistarem o carro conhecido sorriram como cristais de esmeraldas. Caminhou em sua direção com sensualidade no andar. Fernanda respirou fundo e agradeceu aos céus por aquela deusa pertencer a ela.
- A moça está sozinha?... – provocou Valquíria debruçando-se na janela do carro, deixando Fernanda a poucos centímetros de seu peito, cujas curvas suaves ficaram expostas no decote de sua blusa que tinha os dois primeiros botões abertos.
- Olha... até o momento sim. Eu esperava que uma das mulheres que passassem aqui pela calçada se oferecesse para me fazer companhia...
- Qualquer uma?...
- Não. Uma em especial. A mais linda de todas as mulheres dessa galáxia...
- Bom, então vou indo porque não sou eu! – respondeu Valquíria virando-se e fingindo ir embora.
Fernanda num pulo abriu a porta do carro e segurou-a pelo braço:
- Eu não costumo me enganar facilmente, mocinha... eu sei bem a deusa que se esconde embaixo desse uniforme branco! – respondeu abraçando-a afetuosamente.
- Fernanda! Eu tô na frente do meu serviço! Pode ter gente conhecida olhando!
- E daí? Que se acostumem... E eu nem te dei beijo na boca! – provocou a morena.
- Fernanda! Faz favor! – disse Valquíria ruborizada.
Fernanda gargalhou e soltou sua presa. Valquíria fez a volta e entrou no carro.
- Eu adoro te ver vermelhinha, sabia? – brincou Fernanda.
- Imaginava!
- Prometo me comportar mais da próxima vez! – disse Fernanda em tom teatral – É só não me provocar...
- Tá bom... – riu-se Valquíria.
Em casa Valquíria tomou uma ducha rápida e mudou de roupa. Antes das vinte horas instalaram-se numa mesa no restaurante do Hotel Edelweiss. Tanto Fernanda quanto Valquíria estavam deslumbrantes. Vestidas com simplicidade, mas com a aura luminosa dos apaixonados que transforma simples seres humanos em deuses. Não conseguiam disfarçar o encantamento mútuo e qualquer pessoa que as observasse mais amiúde seria capaz de perceber o que se passava. Eram só sorrisos.
- Nós visitamos sete casas hoje à tarde, mas gostamos realmente de uma, aqui perto da praça. – disse Fernanda entre uma garfada e outra – vamos vê-la no sábado de manhã?
- Pode ser – respondeu Valquíria com entusiasmo – estou curiosa para vê-la.
- Eu acho que você vai gostar. A Nina adorou! Na verdade eu também. Aquela casa tem a nossa cara! É uma casa relativamente nova. Está em estado impecável, não precisa de reformas, é só mobiliar e pronto! Os donos foram morar no exterior com um dos filhos e não quiseram se desfazer do imóvel.
- Eu imagino a agitação da Nina. Ela não te incomodou muito?
- Não. A Nina é uma criança adorável. Ela só tem a disposição de uma criança saudável.
- Pois é... – riu Valquíria.
- Eu quero me mudar o quanto antes – disse Fernanda fitando Valquíria com seriedade – Eu não quero mais ficar longe de você...
Valquíria sorriu amorosamente e assentiu com a cabeça:
- Nem eu... nem eu.
- Você não tem como tirar uns dias no hospital para tratarmos de mobiliar a casa e fazermos nossa mudança?
- Amor... eu recém tirei uns dias...
- Dá um jeitinho e tira outros... é importante.
- Tá bom, eu vou ver o que posso fazer. De repente peço para antecipar minhas férias.
- Isso! Assim teríamos tempo suficiente.
- Eu vou tentar.
Elas terminaram o jantar, e a bem da verdade nem repararam no cardápio. Estavam muito mais interessadas na sobremesa...
Fernanda levantou-se e conduziu Valquíria até seu quarto. Mal fecharam a porta, jogaram-se uma nos braços da outra, numa ânsia de se tocarem e darem vazão àquele turbilhão de sentimento que parecia querer explodir dentro delas. As roupas foram tiradas rapidamente e, abraçadas, jogaram-se sobre a colcha de seda macia. Fernanda deitou-se sobre Valquíria e beijou-lhe os lábios e a nuca. Desceu a boca pelo colo suave ao tato e capturou um mamilo entumecido de excitação, sugando-o com delicadeza e passando a língua em seu contorno. Valquíria gemia deliciando-se com a sensação. Fernanda passou a sugar os seios de Valquíria com mais vigor. Em seguida deslizou em direção ao triângulo de pêlos dourados enquanto Valquíria abria suas pernas oferecendo-se à mulher que amava. No momento em que Fernanda abocanhou o sexo encharcado de Valquíria esta contorceu-se e sufocou um grito de prazer. Não conseguindo se conter Valquíria virou-se com a agilidade de uma pantera e, sem que Fernanda precisasse parar de suga-la, alcançou o sexo de sua amante com a boca. Ajeitaram-se colando os corpos num 69 maravilhoso. Valquíria deliciava-se com o gosto de sua mulher e passava a ponta da língua em movimentos circulares na protuberância carnuda que aumentava de tamanho a cada estímulo de sua boca. Fernanda arqueava o corpo e ambas movimentavam-se em ondulações sobre a seda deslizante. Quando os movimentos se aceleraram ambas explodiram em gozo, permanecendo abraçadas na mesma posição enquanto esperavam que os batimentos cardíacos se normalizassem. Nem bem haviam recuperado o fôlego Valquíria esgueirou-se sobre Fernanda e reiniciou os carinhos ousados excitando sua mulher a ponto de faze-la gozar em sua coxa rapidamente.
- Aaai, mulher depravada! – disse Fernanda – Quer acabar com a minha resistência?
- Já???...
- Como já? Na minha idade eu preciso de no mínimo dez minutos entre um orgasmo e outro, sabia?
- Pois eu já quero mais é me acabar de minuto em minuto... vovó.... – disse Valquíria sedutoramente.
- Aaah, é assim, é? Deixa a vó te dar o que você quer então... – sorriu Fernanda respirando fundo.
Novamente reiniciaram as carícias e a excitação aflorou borbulhante como as águas num manancial entre rochas. Amaram-se até ficarem saciadas e plenas uma da outra. Ainda abraçadas Fernanda passava a mão pelos cabelos de Valquíria que encontrava-se em estado de sonolência.
- Amor... – disse Fernanda baixinho, olhando para o rádio relógio do criado mudo – já são onze e meia... a gente ficou de pegar a Nina hoje.
- Huuum, é mesmo. – respondeu Valquíria abraçando Fernanda com mais intensidade. – Eu podia ficar aqui pro resto da vida.
- Mas nós temos uma filha, mãe desnaturada. Só quer saber de sacanagem, é?
Valquíria olhou-a nos olhos e respondeu com seriedade:
- Não é só sacanagem, não. Eu podia morrer nos teus braços que morreria feliz.
- Meu amor... – disse Fernanda beijando com suavidade os lábios de Valquíria - ...mas eu te quero bem viva... e quente...
- Pervertida! – disse Valquíria dando leves beliscadinhas na barriga de Fernanda. – Vamos lá então, senão a coitada da Dona Eda não dorme hoje.
Tomaram uma ducha rápida e se vestiram. Pegaram Nina e desculparam-se com Dona Eda pelo atraso.
- Tudo bem... – disse a velha senhora – o Arno ainda não veio pra casa mesmo, hoje é dia de jogo de bolão e ele só chega lá pela uma hora.
Valquíria e Fernanda se entreolharam com olhar maroto. Uma adivinhou o pensamento da outra: "podíamos ter aproveitado mais um tempinho...".
- Dona Eda, amanhã a senhora vai estar em casa de manhã?
- Vou.
- E o Seu Arno?
- O Arno vai na casa do Schiffmann, eles vão arrumar uma estante.
- Eu poderia passar aqui lá pelas dez horas? Gostaria de conversar com a senhora.
- O que foi que houve, Valquíria? – perguntou Dona Eda evidenciando preocupação.
- Nada não, nada sério. É só umas coisas que eu queria lhe contar.
- Sobre o que? – Perguntou a velha com curiosidade.
- Amanhã eu conto – sorriu Valquíria.
Fernanda pegou Nina no colo, pois a menina já estava dormindo, e foram para casa. Valquíria arrumou as camas e colocou Nina na cama de baixo. Ela e Fernanda se aconchegaram bem e dormiram na cama de cima. Desta vez Pipoca ficou em sua casinha, no quintal, não teve oportunidade de se esgueirar por entre as pernas delas. Na verdade a cachorra dormia tão profundamente que nem viu quando elas chegaram.
- Belo cão de guarda! – ainda brincou Valquíria.
No dia seguinte tomaram café juntas. Fernanda disse que teria de viajar até a capital para resolver alguns negócios da loja e teria um jantar com fornecedores. Voltaria muito tarde para Santa Cruz e iria direto para o hotel. Na manhã seguinte, sábado, passaria para pegar Valquíria e Nina para mostrar a casa à Valquíria.
Enquanto terminava seu café, após a saída de Fernanda, Valquíria se preparava para conversar com Dona Eda. Deu uma arrumada na casa e pediu para que Nina ficasse comportada vendo televisão que ela iria até a vizinha para uma conversa séria, e Nina sabia bem do que se tratava.
Valquíria cruzou o portão da casa dos vizinhos e respirou fundo. Dona Eda a recebeu afetuosamente.
- Entre, querida, entre.
Valquíria instalou-se numa poltrona na sala e novamente respirou fundo, tentando ordenar seus pensamentos e escolher palavras adequadas àquela revelação que estava prestes a fazer.
- Quer um cafezinho, Valquíria?
- Não, obrigada.
- Mas então me diga o que tens pra contar, estou curiosa.
- E o Seu Arno? Saiu mesmo?
- Sim, saiu. Este só volta na hora do almoço!
Valquíria baixou os olhos, estava nervosa. Dona Eda percebeu sua ansiedade e disse:
- Eu vou buscar um copo de água.
Antes que Valquíria pudesse dizer qualquer coisa Dona Eda foi até a cozinha e serviu um copo com água gelada, trazendo-o para Valquíria. Esta sorveu alguns goles e começou a falar:
- Bem, Dona Eda... é que... eu nem sei como começar...
- Quem sabe pelo início?...
- É, quem sabe – sorriu Valquíria e continuou – Eu sei que a senhora e o Seu Arno gostam muito da Nina e se acostumaram com a nossa presença aqui ao lado. E a Nina adora vocês também...
Dona Eda, calada, encarava Valquíria com uma expressão séria.
- Mas nos últimos tempos aconteceram fatos que mudaram muito a nossa vida, a minha e a de Nina... e a de Fernanda. – disse Valquíria parando um pouco para tomar fôlego – nós fomos nos conhecendo melhor, ficando mais amigas, cada vez mais. Eu não tenho ninguém, além de Nina e vocês, é claro. A Fernanda também está longe da família, então isso acabou nos aproximando... e a gente decidiu... bem, decidimos morar juntas.
A velha senhora continuava calada, somente escutando o que Valquíria tinha a dizer. Não queria interrompe-la para não interferir na sua linha de raciocínio.
- Então, Dona Eda, a Fernanda e eu decidimos alugar uma casa, uma casa maior... Mas pode ficar tranqüila que vai ser aqui por perto, e Nina vai vir vê-los todos os dias, e sempre que for preciso ela ficará aqui com vocês... enfim, não queremos mudar essa relação que Nina tem com vocês. Só vamos mudar de casa.
Valquíria calou-se. Após alguns instantes Dona Eda disse:
- Valquíria, minha filha, eu não posso dizer que não estou surpresa... afinal eu e o Arno já estamos acostumados com vocês. Vamos sentir muita falta dessa proximidade. Mas eu sei que a gente não tem o direito de querer governar a vida dos outros. Eu quero que vocês sejam felizes. E a Fernanda é uma ótima moça, e tem demonstrado ser uma grande amiga, e a Nina gosta muito dela. Acho que vai ser bom morar com uma amiga.
- Dona Eda, é... – gaguejou Valquíria – ...é que... tem mais uma coisa. Olha... bem, a Fernanda e eu... é... eu e a Fernanda não vamos só morar juntas, nós vamos viver juntas.
- Ué, mas quando se mora junto se vive junto, não é assim?
- Dona Eda, olha só, a senhora não está entendendo, presta atenção: a Fernanda e eu não nos gostamos só como amigas... a gente se gosta muito mais... nós estamos apaixonadas. E decidimos viver juntas.
Valquíria percebeu a cor das faces da velha amiga sumirem gradativamente e pensou que ela fosse desmaiar, visto permanecer calada, boquiaberta, olhando para ela.
- Dona Eda! A senhora está passando bem?
- E...estou... – respondeu a mulher recuperando a cor do rosto aos poucos.
- Então, por favor, diga alguma coisa. – pediu Valquíria.
- Agora sou eu que não tenho o que dizer...
- Dona Eda, o que a Fernanda e eu sentimos uma pela outra é um sentimento muito bonito, é amor. E nós estamos dispostas a lutar por ele. Nós queremos formar uma família junto com a Nina. E gostaríamos muito que a senhora e o Seu Arno fizessem parte dela, como fazem hoje.
Dona Eda permanecia calada, como que assimilando cada palavra proferida por Valquíria, tentando digeri-las e entender o que se passava.
- Pelo amor de Deus, Dona Eda, fale alguma coisa! – pediu Valquíria com lágrimas no canto dos olhos.
- Valquíria, eu não consigo entender essa coisa, esse tal de... nem sei dizer o nome...
- Homossexualismo.
- É. Isso pra mim é coisa feia, Valquíria. Coisa de gente sem-vergonha...
- Não é, Dona Eda. Sem-vergonhice é roubar, é prejudicar os outros, é tentar levar sempre vantagem em tudo, é mentir para tirar proveito próprio! Isso é ser sem-vergonha. Eu não acho que amar uma mulher faz de mim uma pessoa pior do que eu sou... nem melhor. Eu sou a mesma Valquíria. E vou continuar sendo... Dona Eda, amar não pode ser considerado feio, ou sujo, ou imoral. Amar uma mulher é diferente do que estamos acostumados a ver, mas não é errado. Apesar de todo o preconceito que existe nós resolvemos viver juntas sim, e criar a Nina com a mesma dignidade com a qual ela seria criada se tivesse um pai e uma mãe, ao invés de duas mães.
- Main liebe got! – disse Dona Eda levando as mãos ao rosto.
Valquíria tomou mais alguns goles de água. Levantou-se, foi até a cozinha e serviu um copo para a amiga. Alcançou-o sentando-se ao lado dela no sofá.
- Dona Eda, se a senhora não quiser mais falar comigo, ou quiser que eu saia da sua casa amanhã mesmo, eu vou entender...
- Valquíria, - interrompeu a velha – acho que tu não entendes nada de amizade, nem de família.
Valquíria calou-se, surpreendida, e Dona Eda continuou:
- Em primeiro lugar, tu dissestes que eu e o Arno somos a tua família, não é mesmo?
- É.
- Pois no meu conceito de família, Valquíria, as pessoas não podem virar as costas para os parentes no primeiro contratempo. Os pais não devem abandonar os filhos porque eles não são exatamente como gostariam que fossem. E eu te considero como uma filha, Valquíria. E nós nos conhecemos ha tempo suficiente para dizer que somos amigas, grandes amigas. E amigos também não viram as costas por qualquer besteira.
Valquíria estava com os olhos marejados de lágrimas, e Dona Eda continuou:
- Eu posso não entender bem esse negócio de uma mulher gostando de outra, de um homem beijando o outro na boca... mas eu entendo de amizade. E tu, Valquíria, continuas sendo minha amiga, mais do que isso, uma filha, a filha que eu nunca tive. Eu te conheço e sei bem do teu caráter. E embora há menos tempo, também conheço a Fernanda, e não costumo me enganar com as pessoas, e ela é uma boa moça, tem caráter, é trabalhadora, é gente de bem. Então eu não posso condenar vocês. Eu só preciso me acostumar com a idéia.
Valquíria abraçou Dona Eda, que retribuiu o carinho afagando os seus cabelos grisalhos.
- Escuta Valquíria, eu só te peço pra não falares nada pro Arno. Deixa que eu falo. Ele é meio cabeça dura, custa um pouco a entender as coisas. As vezes ele embravece, mas depois de um tempo ele amansa e fica tudo bem. Eu sei como e quando contar as coisas para ele.
- Tudo bem – respondeu Valquíria enxugando uma lágrima que lhe escorria no canto dos olhos.
- E quando é que vocês pensam em se mudar?
- Logo... ainda não sabemos bem quando, mas será em breve.
- Mas eu é que vou continuar buscando a Nina na escola! E ela vai dormir aqui em casa algumas noites.
- Claro, minha querida. Eu já disse que não vamos mudar em quase nada a nossa rotina, só vamos morar em outra casa.
- Bom... se é assim... se já está tudo resolvido... sejam felizes.
- Obrigada, Dona Eda, muito obrigada. Agora eu vou indo, o trabalho me espera. Eu vou dizer pra Nina vir para cá agora. Pedi que ela ficasse em casa enquanto conversávamos.
- A Nina sabe dessa... mudança?
- Sabe. E sabe o que vai ser diferente na nossa casa nova. Sabe que vai ter, quero dizer, que já tem duas mães.
- Bom... então me manda a pequena. Ah, Valquíria, pede pra ela não comentar nada com o Arno, está bem.
- Pode deixar.
Valquíria beijou as faces de Dona Eda e saiu. Explicou para Nina o que havia conversado com Dona Eda e pediu que mantivessem o "segredo" por mais um tempo. Menos com a Dona Eda, pois ela já estava sabendo de tudo. Nina comprometeu-se a não comentar nada com ninguém. Valquíria foi para o serviço.
Quando retornou à noitinha buscou Nina. Deu janta para a filha e colocou-a na cama. Ficou acordada por um tempo, lendo. Depois recolheu-se, pois sabia que Fernanda retornaria muito tarde. Estava com sono e precisava acordar cedo no dia seguinte para ver a possível casa nova.
Fernanda passou o dia em contato com fornecedores e com a transportadora da firma. À noite, após o jantar de negócios na capital voltou para Santa Cruz do Sul. Quando entrou no quarto do Hotel Edelweiss o relógio marcava duas e meia da manhã. Pensou em ligar para Valquíria e dizer boa noite, porém ficou com pena de acorda-la, sabendo que por certo estaria dormindo. Tomou um banho e se deitou, pegando no sono quase que instantaneamente.
O sábado amanheceu com algumas nuvens cinzentas encobrindo o sol. Algumas poças d’água nas ruas indicavam que durante a madrugada havia chovido. A temperatura havia caído um pouco, contrastando com o calor dos últimos dias e a manhã estava propícia para dormir até mais tarde. Fernanda despertou por volta das oito e meia, muito além do horário que costumava acordar. Realmente havia ficado muito cansada da viagem do dia anterior. Lembrou-se de seu compromisso para aquela manhã e levantou-se num pulo. Antes mesmo de lavar o rosto ligou para a casa de Valquíria. Uma voz sonolenta atendeu:
- Alô...
- Bom dia, eu gostaria de falar com a miss Santa Cruz – brincou Fernanda.
- A miss Santa Cruz não está... – respondeu Valquíria entrando na brincadeira – mas serve a primeira princesa?
- Huuum, acho que sim... desde que a primeira princesa seja tão bela e gostosa quanto a rainha.
- Pode ser... isso é uma questão de ponto de vista...
- Então acho que terei de ir pessoalmente até aí para ver com meus próprios olhos... e fazer meus próprios julgamentos...
- Tu tens cinco minutos para chegar até aqui... eu tô morrendo de saudades... – disse Valquíria com voz melosa.
- Pedindo assim eu vou sair até de pijama. – brincou Fernanda – Eu também estou morrendo de saudades, minha dorminhoca. Esqueceu que a gente combinou de ver a nossa possível futura casa agora de manhã?
- Ahaaa, mas já amanheceu? – riu-se Valquíria.
- Se a minha glândula pineal não está desregulada, já. Mas mesmo que não tenha amanhecido, eu preciso te ver, logo...
- Então vem. Vem tomar café com a gente. Pelo barulho de água a Nina já está tomando banho.
- Tô indo então... te amo.
- Eu também te amo... vem logo.
- Beijo.
- Beijo.
Em menos de meia hora Fernanda chegou na casa de Valquíria. Foi recebida efusivamente por Nina, que tinha os cabelos molhados e soltos sobre os ombros.
- Oi Fernanda! A mãe tá tomando banho.
- Tem café nessa casa para uma faminta?
- Tem sim! O leite já está na leiteira, é só aquecer. E eu já coloquei a mesa. – respondeu Nina. – A gente vai mostrar a casa pra Val hoje, né?
- Vamos sim.
- Ela tá curiosa. Me disse que tá louquinha pra ver!
- Que bom, espero que ela goste, assim como a gente gostou.
- Eu acho que ela vai adorar!
Nesse meio tempo Valquíria saiu do banho enrolada numa toalha azul felpuda, tendo uma toalha pequena enrolada nos cabelos, como um turbante. Ao ver Fernanda seus olhos se iluminaram e foi em sua direção para abraça-la. Fernanda a envolveu pela cintura num abraço forte, apertando-a por longo tempo junto a si. Valquíria levantou o rosto e deu um beijo nos lábios de Fernanda.
- Aaaaiii que saudades que eu tava! – disse Valquíria.
- Só você? Eu quase morri de saudades, sabia?
- Huuum, quanto trelelê... – debochou Nina.
- Deixa de ser metida, garota – disse Fernanda fingindo indignação.
Nina riu.
- Vem aqui vem, - disse Valquíria puxando Fernanda pela mão na direção do quarto – Nina, acaba de colocar a mesa, a gente já vem.
- Tá booom!
Quando elas entraram no quarto Valquíria fechou a porta enquanto Fernanda a envolvia novamente pela cintura, desta vez beijando sua boca com paixão e avidez. Fernanda acariciou a pele fresca de Valquíria, recém perfumada pelo óleo após o banho que costumava usar. Abraçaram-se com força, como que tentando dissipar a falta que sentiram uma da outra na noite que passou. Após alguns momentos Valquíria tentava se recompor:
- Para com isso mulher... a Nina está esperando a gente pra tomar café.
- A minha fome é outra – respondeu Fernanda beijando Valquíria na nuca.
- A minha também... mas agora vamos ter que nos contentar com café mesmo – respondeu Valquíria afastando-se um pouco e deixando cair a toalha que a envolvia – Eu preciso me vestir.
Fernanda contemplou o corpo nu de Valquíria e sentiu o seu acender-se como uma pira. Jogou-se para trás, sentando-se na cama, fazendo uma força sobre humana e resistindo à tentação de deliciar-se naquele corpo:
- Isso... muito bem... mostra um banquete para quem está morrendo de fome... – brincou Fernanda.
- Mais tarde eu te dou esse menu completinho, com direito à rodízio de sobremesas, ok?
- Tenha certeza que eu vou cobrar essa promessa. – disse Fernanda com a voz embargada pela luxúria.
Levantou-se e saiu do quarto sem tocar em Valquíria, pois se o fizesse certamente Nina tomaria seu café sozinha...
Na cozinha Nina esperava sentadinha na mesa.
- Até que enfim, ein! – disse Nina – Eu tô com fome.
- Como assim, "até que enfim"?...
- Pensei que vocês iam ficar até amanhã lá no quarto.
- Não seja exagerada, nós só ficamos conversando uns cinco minutinhos. – disse Fernanda – é a enrolada da tua mãe que custa a escolher uma roupa para vestir.
- Tá...
Nisto Valquíria entrou na cozinha:
- Posso saber qual é o assunto que vocês estão conversando?
- É sobre a demora de vocês no quarto – respondeu Nina.
- Nina! Não seja abusada. – disse Valquíria.
- Eu já falei pra ela... – disse Fernanda – que é você que ficou enrolando para escolher a roupa!
- Aaah éééé???... – disse Valquíria olhando para Fernanda com ar de contrariedade, colocando as mãos na cintura.
- É. – respondeu Fernanda, com a cara mais deslavada possível.
Valquíria foi obrigada a rir. Serviu o café para elas e logo em seguida foram ver a casa.
Conforme a expectativa de Nina e Fernanda, Valquíria adorou a casa. Encantou-se com a propriedade e combinaram de fazer a mudança tão logo fosse possível. Valquíria contou para Fernanda que havia conseguido antecipar suas férias, que seriam a partir da próxima quarta-feira. Porém teria que trabalhar direto nos próximos quatro dias, não teria folga no domingo. Fernanda combinou que Nina passaria a tarde de sábado e o domingo com ela. Naquela tarde começou a escolher os móveis para o quarto de Nina.
No domingo à noite Nina ficou com Dona Eda, e Fernanda e Valquíria dormiram no hotel. Estavam ansiosas para matar as saudades e se amaram até quase de manhã.
Na segunda-feira Valquíria fez plantão à noite, além de sua tarde normal de trabalho, e na terça-feira Fernanda dormiu na casa delas.
Enfim chegou a quarta-feira e Valquíria estava finalmente de férias.
Na quarta-feira pela manhã quando Valquíria abriu os olhos sentiu um aroma agradável de café recém passado. Olhou no relógio e já eram nove e meia. Estava sozinha no quarto. Tanto Fernanda quanto Nina já haviam levantado. "Fernanda já deve ter ido para a loja", pensou, "e Nina deve estar brincando no pátio", "huuuumm, mas e esse cheirinho de café?..."
Espreguiçou-se demoradamente, feliz por estar de férias, feliz por Fernanda haver entrado em sua vida, feliz por estar de mudança para uma casa nova com a mulher que amava, feliz por sua filha estar feliz também, enfim, mal cabia em si de felicidade. Sem sequer pentear os cabelos foi até a cozinha. Para sua surpresa Fernanda estava ainda de calcinha e camiseta, chinelo havaiana e um elástico colorido de Nina a lhe prender os cabelos num rabo-de-cavalo frouxo sobre os ombros. Sentada à mesa da cozinha lia o jornal distraidamente, sendo que nem percebeu a aproximação de Valquíria. Esta parou na entrada da cozinha e escorou-se no marco da porta, fitando Fernanda amorosamente. Realmente amava aquela mulher de forma profunda e irrestrita. Encantava-se com seus mais simples trejeitos, gostava de observa-la e perceber os detalhes de seu rosto, de suas mãos, de como passava a mão no cabelo, como gargalhava efusivamente, como seus olhos deixavam transparecer seu estado de espírito, enfim, poderia ficar admirando-a por horas a fio.
Quando finalmente Fernanda percebeu a presença de Valquíria a fitá-la, abriu seu mais belo e encantador sorriso:
- Bom dia, meu amor! Acordou cedo! Pensei que fosse dormir até mais tarde, afinal hoje começam as tuas férias...
- Huuuumm, senti o cheirinho... – respondeu Valquíria franzindo seu nariz.
- Do café?
- Não, do teu perfume... – disse Valquíria abraçando Fernanda e beijando-a nos lábios.
- Huumm, confessa que não foi o meu perfume, não... foi o café...
- Os dois então...
- Tá. Vem, senta aqui que eu te sirvo. – disse Fernanda levantando-se e pegando uma xícara para Valquíria. – E então? Vamos tratar de organizar a nossa casa? Já está tudo certo na imobiliária, contrato assinado e tudo. É só mobiliar e fazer a mudança.
- Escuta... a senhorita não deveria estar trabalhando agora de manhã? – perguntou Valquíria.
- Bom, eu decidi tirar umas férias também. Não vou conseguir trabalhar com a cabeça voltada para a nossa casa, não vai dar. Combinei com o vovô que preciso de férias. E tem a Lourdes que é uma funcionária bem antiga e conhece bem o serviço. E vou deixar o Davi, que também é de extrema confiança, na gerência. Aliás, foi o próprio vovô que sugeriu que eu tirasse uns dias para organizar minha vida nova. – disse Fernanda sorrindo maliciosamente com o canto da boca.
- Como assim? – quis saber Valquíria.
- Bom, Val, eu liguei pro vovô segunda à noite. Precisava contar pra ele sobre a minha mudança de casa, enfim, de vida. Na verdade eu queria sutilmente deixar nas entrelinhas nosso relacionamento e deixar para falar pessoalmente com ele sobre a gente. Mas o velho é uma raposa, e como eu já te falei, me conhece muito bem. – riu-se Fernanda – Eu nem bem havia começado a contar-lhe sobre a minha decisão de alugar uma casa e sair do hotel, e adivinha o que ele me perguntou?
- Não faço a mínima idéia...
- Me perguntou quando eu irei leva-la até sua fazenda, e a Nina, para que ele as conheça, pois precisa ser o primeiro a cumprimentar a pessoa que conseguiu aprisionar o coração de sua neta favorita. É claro que eu fiquei muda. Foi ele quem continuou me perguntando se eu estava feliz. E eu respondi que sim, muito, muito feliz mesmo. E ele me disse que era isso que importava para ele. E me sugeriu férias, desde que eu prometesse visitá-lo tão logo nos mudássemos... uma visita com a minha nova família.
Valquíria boquiaberta engoliu em seco:
- Eeeeu não vou! Vou morrer de vergonha do teu avô!
- Por que?
- Sei lá... quero dizer, porque ele sabe da gente... porque ele pode não gostar de mim... porque... sei lá porque!
Fernanda gargalhou e disse:
- O velho Salim não morde, não! Muito pelo contrário. Minha intuição me diz que ele vai te adorar. E a Nina também.
Valquíria respirou fundo e sorriu:
- Que boba que eu sou, né? É claro que nós vamos contigo sim. Do teu lado eu não tenho medo de nada, nem de ninguém.
- Que bom. – sorriu Fernanda brandamente. – Mas então toma logo esse café e vamos dar jeito na vida, mulher!
- E a Nina cadê? – perguntou Valquíria.
- No quintal, brincando. Já tá pronta, de banho tomado e tudo!
- Grande novidade...
Valquíria e Fernanda levaram menos de dez dias para definir os móveis e comprar tudo o que faltava na casa nova. Valquíria tinha poucas coisas, pois alugou a casa mobiliada de Dona Eda. Desta forma era praticamente tudo novo. A maioria dos móveis o avô de Fernanda fez questão de que fossem da loja, pois queria ter o prazer de colaborar com a felicidade da neta. Em duas semanas mudaram-se definitivamente para a casa nova. Nina estava deslumbrada com seu quarto e com seus brinquedos novos. Fernando tinha um lugar de honra na sua cama e era com ele que Nina adormeceria abraçada.
Valquíria percebeu que Seu Arno estava um pouco diferente com ela nos últimos dias, mas encontrava-se tão absorta em seu corre-corre de mudança que nem deu muita importância. No dia em que foi entregar a chave em definitivo para o casal encontrou Dona Eda chorosa e seu Arno taciturno. Ao entrar na casa deles Dona Eda abraçou-a carinhosamente e começou a chorar.
- Eu sei que isto é o melhor pra vocês, mas eu não posso deixar de sentir saudades... – disse Dona Eda, enxugando as lágrimas.
Valquíria sentou-se e dirigiu-se aos dois:
- Eu gostaria que soubessem, muito embora já o saibam, que eu realmente os considero como a minha família. Vocês são os pais que eu nunca tive, e foram vocês que me acolheram quando eu tanto precisava, e vocês são os avós que a Nina conhece... Nós só estamos mudando de casa, mas não vamos mudar de família. E é isto que eu quero que vocês tenham a certeza. A nossa casa está aberta para vocês, sempre, em qualquer momento e situação. E... – Valquíria ficou com a voz embargada pela emoção, enquanto duas lágrimas escorriam dos cantos de seus olhos - ...e eu não quero que esqueçam que... que eu amo vocês.
Seu Arno, que até então havia permanecido sério e calado, levantou-se e abraçou Valquíria com afeto. Passou a mão nos cabelos loiros e disse simplesmente:
- Eu desejo que vocês sejam felizes...
Deu um beijo na testa de Valquíria e saiu da sala antes que as lágrimas delatassem sua emoção. Dona Eda suspirou aliviada:
- Eu pensei que o Arno fosse ser rude contigo... mas me enganei com meu velho.
- A senhora falou para ele sobre mim e Fernanda, não é mesmo?
- Falei. O Arno não é bobo. Ele percebe as coisas. No começo pensei que ele fosse morrer de desgosto, disse que era coisa de gente desavergonhada e sem moral. Ele disse coisas muito ofensivas, eu até fiquei assustada. Depois eu sei que ele pensou no que tinha dito e aquele conceito não combinava com a nossa Valquíria. Hoje eu vi que ele vai conseguir aceitar essa situação, porque ele gosta muito de ti, minha filha. Ele só vai precisar de mais um tempinho ainda.
- Eu sei, e eu gosto dele, de vocês dois.
- Bom, mas me conta, e a casa nova?
- Está linda! Nós estamos pensando em fazer uma janta ainda esta semana para a "inauguração oficial". – brincou Valquíria – E vocês são os nossos convidados.
- Nós vamos sim! Eu e o Arno vamos estar lá!
- Vamos marcar para daqui a dois dias então? Hoje é... dia 18, né? Fica pro dia 20, nesta quinta-feira.
- Está marcado! – respondeu a velha senhora.
- Bom, então eu vou indo. A Nina e a Fernanda já foram para lá. Não quis trazer a Nina por não se tratar de uma despedida. Depois a Fernanda e ela dão um pulinho aqui pra lhe dar um beijo, certo?
- Certo, minha filha. Vá com Deus e boa sorte!
- Obrigada. – sorriu Valquíria.
Antes de sair Valquíria ainda parou em frente ao pequeno portão de madeira e deu uma olhada na direção da casa na qual havia vivido nos últimos tempos e onde havia sido feliz. Deu um sorriso e virou-se, seguindo a pé em direção à sua nova casa.
Desta vez, em frente ao portão alto de ferro, Valquíria parou novamente e vislumbrou o que, a partir daquele dia, seria sua nova morada. A residência ampla, com as janelas abertas onde já pendiam cortinas e onde se escutava o latido alegre de Pipoca, evidenciava que aquele lugar já estava povoado e transbordava de sentimentos de felicidade. Naqueles dez dias elas conseguiram transformar aquela casa vazia num lar, onde a energia emanada daquele amor que sentiam havia colorido as paredes e o teto, penetrado nos alicerces e nas aberturas. Na verdade, em qualquer casa que alugassem a energia seria a mesma, pois tinham a certeza de que a felicidade as acompanharia aonde quer que fossem.
Valquíria teve o cuidado de entrar com o pé direito no portão e na soleira da porta. Estranhou o silêncio dentro de casa, somente Pipoca latia pressentindo sua chegada. Pareceu ter visto a cortina da sala movimentar-se de soslaio, porém acreditou ter sido somente impressão. Quando girou a maçaneta e entrou na sala sobressaltou-se com o grito de Nina e Fernanda:
- SURPRESA!!! Feliz casa nova!!!
A sala estava repleta de balões coloridos amarrados em pencas em lugares estratégicos. Uma faixa, com um letreiro vermelho enfeitado com lantejoulas prateadas, ostentava a seguinte mensagem: FELICIDADES!!!
Valquíria sorriu e foi efusivamente abraçada por Nina e por Fernanda. Recuperando-se do susto disse em tom de brincadeira:
- Bom, sobrevivi à recepção de boas vindas!
Todas gargalharam.
- A gente deixou a Pipoca de guarda, para dar sinal quando tu chegasse! – disse Nina alegremente.
- E parece que ela cumpriu seu papel à risca! – respondeu Valquíria sorridente.
Na mesa da sala elas haviam estendido uma toalha e no centro havia um bolo, além de alguns salgadinhos e refrigerantes. Uma garrafa de champanhe repousava num balde de gelo. Fernanda propôs um brinde. Valquíria serviu guaraná para Nina numa taça enquanto Fernanda tratava de estourar o champanhe.
- Saúde e felicidade!!! – brindaram.
Após comerem os salgadinhos e o bolo, Nina correu para o pátio dos fundos para andar de bicicleta, sendo perseguida por Pipoca numa brincadeira divertida.
Fernanda sentou-se de viés no sofá da sala e Valquíria recostou-se entre suas pernas, sendo envolvida num afetuoso abraço. Por instantes ficaram em silêncio, somente trocando carícias e saboreando o gosto da nova vida.
- Sabe, Fernanda... às vezes parece que eu estou sonhando... eu olho em volta e é tudo tão bom, tão inacreditavelmente perfeito...
- Mas não é sonho não, meu amor. É realidade. É a nossa realidade a partir de agora.
- Há menos de cinco meses atrás eu jamais imaginaria que estaria vivendo um momento como esse. – disse Valquíria pensativa.
- E há menos de cinco meses atrás eu nem imaginava que encontraria o amor da minha vida aqui neste canto do mundo. – respondeu Fernanda beijando Valquíria carinhosamente nos lábios. - Eu te amo...
- Eu também te amo, muito, muito, muito, muito...
- Nossa! Quanto amor!
- É muito mesmo. – disse Valquíria olhando Fernanda nos olhos, com seriedade – Eu não consigo mais imaginar a minha vida sem ti. Promete que nunca vai me deixar?...
- Prometo. E você, promete não me trocar por duas de vinte e cinco quando eu completar cinqüenta? – brincou Fernanda.
- Sua boba... – disse Valquíria beijando Fernanda com paixão.
- Huuumm, acho bom a gente dar uma maneirada nesse arreto – disse Fernanda com a respiração entrecortada – afinal a noite é uma criança...
- E a madrugada uma tarada... – emendou Valquíria sorrindo com malícia.
- Ôôô, nem fale... mas ainda não são nem seis horas da tarde e a nossa criança está bem acordada! – sorriu Fernanda.
- Então quem sabe a gente faz um mate e senta numa sombra no quintal?
- Sim senhora, vamos matear então. – respondeu Fernanda dando mais um abraço apertado em Valquíria antes dela levantar e ir até a cozinha colocar água para esquentar.
Já instaladas confortavelmente em cadeiras à sombra cerrada de uma figueira nos fundos do quintal, as duas mulheres conversavam enquanto Nina brincava ao redor.
- Val, eu estive pensando sobre como vai ser a nossa vida daqui pra frente...
- Como assim? Vai ser igual a que levávamos antes, só que morando na mesma casa.
- Mais ou menos, Val. Olha só, essa casa é muito grande, a gente passa o dia fora, precisamos de alguém que faça o serviço por aqui. E tem a Nina, ela não pode ficar sozinha.
- Mas a Dona Eda quer continuar cuidando dela enquanto estivermos trabalhando.
- Tudo bem, mas uma coisa é cuidar por que gosta dela, outra é ter o compromisso diário com ela. Dona Eda já está idosa e não é justo que assuma um compromisso que é nosso.
- Acho que tu tens razão, mas eu não posso simplesmente dizer para ela não ficar mais com a Nina.
- Mas não é isso que eu estou dizendo. O que eu pensei foi em contratar uma pessoa em turno integral, e no dia em que a Dona Eda não estiver disposta, ou tenha algum compromisso, tenhamos quem busque a nossa filha na escola e com quem ela possa ficar em casa. Além do quê eu não quero que a minha mulher fique se preocupando com arrumação de casa e com cozinhar. E eu sou uma negação nessas coisas!
- E tu já pensaste em alguém?
- Já. Na Antônia, a servente lá do Magazine. É uma pessoa que trabalha conosco desde a inauguração da loja, uma ótima pessoa, meia idade, responsável, não costuma faltar, é pontual, extremamente caprichosa. Eu até já havia pensado em promove-la, mas ela não tem muito estudo e na loja não tenho como passa-la para o setor de vendas, onde poderia ter um salário melhor. Acho que ela toparia trabalhar aqui em casa. Só temos que ver como ela se sai na cozinha.
- Mas... e os comentários com os outros funcionários da loja?...
- Ela é discreta. E além do mais eu não tenho nada a esconder. Quem não estiver satisfeito ou ousar tecer qualquer tipo de comentário sobre a minha vida pessoal pode procurar outro lugar para trabalhar.
- Bom, se tu achas que vale a pena tentar com ela, tudo bem. – disse Valquíria.
- Val, tem outra coisa...
- O que?
- Você não pensa em terminar a faculdade?
- Pensar eu penso, mas...
- ...mas a hora é agora.
- Mas eu não posso deixar de trabalhar, na verdade não quero. Tu sabe o que eu penso sobre isso.
- Eu sei. Mas em nenhum momento eu cogitei a possibilidade de deixares de trabalhar. É só uma questão de ajuste de horários. Se você não fizer plantões extras à noite pode estudar aqui mesmo na USC. Pensa bem, Val, só faltam dois semestres.
- Mas vai ficar muito caro...
- Com o teu salário não dá para pagar a faculdade?
- Dá. Mas só isso, mais nada.
- Pois o resto eu garanto.
- Mas não é justo...
- É sim. Eu sou uma visionária, Val, esqueceu? Tenho faro para bons negócios. E uma clínica dentária é um negócio bem rentável. Vamos encarar isso como um investimento em nossa renda familiar, certo? E a curto prazo.
- Fernanda, alguém já te disse que com a tua lábia poderias ser advogada?
- Já, muitas pessoas...
- Pois serias capaz de colocar Deus atrás das grades e o diabo em liberdade!
Fernanda gargalhou e continuou:
- E então? Podemos pedir o reingresso?
- Podemos. – assentiu Valquíria balançando a cabeça.
- Amor... eu já estou imaginando aquela cadeira confortavelmente reclinável do teu consultório... huuumm, eu vou adorar fazer amor contigo nela...
- Pervertida!
- Confessa que você também fica imaginando... confessa... – provocou Fernanda e chegou bem perto para sussurrar no ouvido de sua mulher – eu marcando o horário da última consulta... com um vestido justo, sem nada por baixo... sentando naquela cadeira e me abrindo todinha pra você... implorando a tua boca em mim...
Valquíria foi obrigada a se abanar e respondeu:
- Tá bom, tá bom!...
- Não falei? É só começar a imaginar que sobe um calor...
- Toma um mate então, pra ver se melhora. – disse Valquíria alcançando a cuia para Fernanda.
- Val, esse negócio quente vai me fazer subir pelas paredes!
- No momento, só se for nessa figueira! – divertiu-se Valquíria.
Ambas caíram na gargalhada.
- O que foi??? – gritou Nina. – Do que é que vocês tão rindo?
- Nada, garota! Coisa de gente grande! – respondeu Fernanda.
- Sempre a mesma resposta: "coisa de gente grande"! – reclamou Nina imitando Fernanda.
Valquíria riu, pois Nina a imitava com perfeição, mas não deixou de retrucar:
- Nina... não seja abusada.
Mas Nina nem ouviu, já corria na direção oposta, com Pipoca atrás dela e os cabelos abanando ao vento.
- Amor, tem mais uma coisa... – disse Fernanda.
- O que é agora, Fernanda? Mais novidades???
- Que tal se a gente fosse passar mais uns dias na praia. A Nina gostou tanto. E eu gosto muito do mar. Serve para recarregar as minhas baterias. – argumentou Fernanda.
- Booom... se for para recarregar as baterias da mulher que eu amo, quem sou eu para não concordar?
- E depois a gente podia ir até a casa do vovô Salim...
- Eu adoraria. Mesmo com uma sensação de frio na barriga eu tenho muita vontade de conhece-lo.
- Então tá combinado. Que tal se a gente for no domingo agora? A gente pega o contra-fluxo do trânsito na estrada. – perguntou Fernanda.
- Pode ser. Assim a gente curte um pouquinho nossa casa nova, faz uma viagem de lua de mel para a praia, faz uma social com a família, enfim, se prepara para começar a vida no retorno das férias... eu estou amando isso tudo, sabia?
- E eu amo você. – respondeu Fernanda inclinando-se e beijando Valquíria nos lábios.
Naquela primeira noite na casa nova elas assistiram televisão juntas, amontoadas no sofá da sala, comendo pipoca doce após o jantar. Já Pipoca, a cachorra, dormia enroscada no tapete no lado de dentro da porta de entrada, alheia ao burburinho das três. Nina estirada no colo de suas duas mães, abraçada à bacia de pipocas, não conseguiu ver nem mesmo a primeira parte do filme que passava. Estava tão cansada de tanto brincar durante o dia que adormeceu profundamente. Fernanda a carregou no colo e a deitou na cama, colocando Fernando a seu lado. Beijou a testa da menina, apagou a luz e encostou a porta do quarto.
Voltando para a sala abraçou Valquíria convidando-a para deitar.
- A senhora não acha que está na hora de se recolher?
- Acho que está...
- E o filme?
- Prefiro outro... – respondeu Valquíria maliciosamente.
Com um movimento rápido Fernanda tomou Valquíria no colo, conduzindo-a como a uma noiva pelo corredor na direção do quarto. Ao entrar no aposento empurrou a porta com o pé enquanto Valquíria desajeitadamente girava a chave na fechadura.
- Enfim sós. – disse Fernanda.
- Enfim sós... – respondeu Valquíria capturando a boca de sua mulher num beijo sôfrego e apaixonado, ainda em seu colo.
Fernanda a colocou de pé na cama, abraçando-a pela cintura e fitando-a de baixo para cima, como se fosse a estátua de uma divindade grega sobre um pedestal de mármore. Valquíria tirou sua blusa expondo seus seios numa atitude provocativa. Fernanda acariciou suas costas e beijou sua barriga, mordiscando o elástico de seu abrigo e o puxando para baixo. Valquíria desvencilhou-se da calça de abrigo e Fernanda passou os dedos no contorno de sua calcinha rendada. Valquíria gemia baixo e abria suas pernas enquanto Fernanda passava os dedos por baixo da renda, procurando a cavidade molhada de seu sexo. Quando tocou sua mulher, Fernanda a sentiu encharcada, tamanha sua excitação. Emanava um cheiro adocicado e quente. Percorreu seu sexo lenta e suavemente, sentindo Valquíria forçar sua cavidade contra a mão que a acariciava. Com os olhos escurecidos pelo desejo Valquíria praticamente arrancou a camiseta de Fernanda. Com a mão que tinha livre a morena tratou de tirar a parte de baixo de sua própria roupa, ficando totalmente nua, para o deleite de sua amada. Também com a mão livre tirou a calcinha rendada de Valquíria. Fernanda puxou Valquíria em sua direção abraçando-a e fazendo com que se deitasse na cama, estirando-se em seguida sobre ela. A sensação dos corpos unidos pulsando um sobre o outro, a energia que emanavam por todos os poros, o sentimento de unidade e completude advindo daquele ato de amor jamais poderia ser definido em palavras. Fernanda continuava acariciando a protuberância carnuda e ereta de sua mulher, e a sentia aumentar de tamanho a cada novo toque, enquanto Valquíria deliciava-se passando a língua nos seios firmes de Fernanda e arrancando gemidos de prazer da morena. No auge da excitação Valquíria implorou:
- Entra em mim... dentro... eu te quero dentro de mim...
Fernanda com servidão obedeceu prontamente introduzindo o dedo médio na cavidade úmida e quente de Valquíria, que arqueou o corpo num movimento de prazer. Fernanda iniciou movimentos rítmicos, introduzindo mais um dedo, para o delírio de Valquíria que mexia seus quadris num vai e vem sincronizado.
- Ãããaahh... assim?... é assim que você quer?...
- É... mais... assim... uuhhmm...
Nisto Valquíria também penetrou Fernanda, que abria suas pernas como que implorando ser tocada bem fundo.
- Ããããhhh... que delícia... ãããã... Val... eu te amo...
Não conseguindo mais se conter explodiram em gozo. Continuaram abraçadas, deitadas uma sobre a outra. Não conseguiam separar os corpos. Era como se estivessem interligadas por cordões invisíveis uma à outra. Naquela noite fizeram amor até quase o amanhecer, quando as estrelas começavam a perder sua luminosidade para a primeira claridade da manhã, afinal não tinham hora para acordar mesmo. Estavam de férias, e em lua de mel...
Na quinta-feira que se seguiu, conforme o combinado com Dona Eda, Valquíria fez um jantar especial para o casal de amigos. Logo após as vinte horas ouviram a campainha do portão tocar. Era Dona Eda. Estava sozinha.
- Cadê o Seu Arno? – quis saber Nina, curiosa.
- Foi jogar bolão. Outro dia ele vem. – respondeu a velha senhora.
Valquíria baixou os olhos, não conseguindo disfarçar o ar de tristeza. Sabia perfeitamente o motivo da ausência do amigo. Dona Eda percebendo a decepção nos olhos de Valquíria disse-lhe baixinho ao passar por ela:
- Ele só precisa de tempo...
Valquíria assentiu com a cabeça sorrindo tristemente. Nina praticamente arrastou Dona Eda para dentro de casa na ânsia de mostrar-lhe seu quarto, e a casa toda. Dona Eda ficou encantada. Após a decepção inicial Valquíria logo se animou frente a alegre agitação de Nina, sendo que o jantar transcorreu animadamente. Por volta das onze e meia Dona Eda disse que iria para casa. Fernanda fez questão de leva-la, mesmo sendo perto. Nina foi com ela. Ao deixarem a amiga em frente à sua casa Fernanda notou um semblante espiando por uma fresta da janela, delatado pela luz projetada por um abajur aceso. Era o Seu Arno, que por certo havia ficado em casa, mas não resistiu à saudade e decidiu dar uma espiadinha para ver se avistava Nina. "Paciência", pensou Fernanda, "como disse a dona Eda, vamos dar tempo ao tempo"...
Naquele domingo foram novamente para Garopaba, na casa do vovô Salim, sendo que combinaram de visitá-lo em, no máximo, dez dias. Pegaram dias bastante quentes e ensolarados. Após a primeira semana Nina já estava com a pele bem bronzeada. Fernanda também estava mais morena do que o seu normal, com um bronzeado em tom dourado. Valquíria é quem mais se esquivava do sol, preferindo permanecer mais branquinha mesmo. No dia três de fevereiro novamente levantaram acampamento, desta vez em direção ao estado de São Paulo, para conhecer o tão famoso vovô Salim.
Fernanda havia telefonado para o avô, dizendo que chegariam no finalzinho da tarde ou início da noite. Saíram de Garopaba ainda de madrugada e Fernanda tocou direto, parando somente para almoçarem e para rápidos lanches e idas ao banheiro. Valquíria estava visivelmente ansiosa e Fernanda tentava fazer com que relaxasse:
- Já te falei que o velho Salim não morde...
- Eu sei, mas mesmo assim estou nervosa. – respondeu Valquíria.
- Eu tô louca pra conhecer o vovô e a vovó! – disse Nina.
- Quanta intimidade! – brincou Valquíria.
- Tá certa a garota! – disse Fernanda – Nina, você vai adorar aquela dupla, eles são divertidos.
Eram pouco mais de dezoito horas e ainda havia sol alto na entrada da porteira da fazenda, por causa do horário de verão, quando a BMW estacionou e Fernanda acenou para um peão que corria para abrir o enorme portão de madeira. O carro enveredou por uma estrada de chão batido, ladeada por vegetação nativa cerrada, impedindo quem estivesse na rua de ver o interior da propriedade. Após cerca de cinqüenta metros o caminho se alargava e o cenário se abria para um campo verdejante que subia encosta acima, tendo como destino uma imensa casa de madeira rústica e tijolos à vista, com sacadas em todo o redor e telhas de barro esmaltadas que davam um toque de requinte àquela construção.
Na escadaria da frente uma figura masculina aguardava a chegada das visitantes, talvez com a mesma ansiedade de Valquíria. Fernanda estacionou o carro em frente à casa, desembarcou e caminhou na direção do avô, abraçando-o afetuosamente:
- Meu querido, que saudades!
- Eu é que estou saudoso, minha neta! – respondeu o velho abraçado à Fernanda.
Nina e Valquíria desembarcaram logo em seguida e esperavam no sopé da escada que Fernanda e o avô lhes dessem atenção. Percebendo a aproximação das duas o velho afastou-se de Fernanda que lhe deu passagem para que andasse na direção delas. Vovô Salim parou observando-as com seriedade. Ajeitou seus óculos na ponta do nariz como que a perscrutar as novas integrantes da família. Valquíria sorriu timidamente enquanto Nina abriu um sorriso de orelha a orelha e acenou para ele. O velho, esboçando um sorriso e abrindo os braços para Nina perguntou:
- Será que eu não mereço um abraço da minha bisneta?
Nina correu até ele e abraçou-o pelo pescoço, enquanto o mesmo se curvava para pegá-la no colo. Valquíria sorriu aliviada, também se aproximando para cumprimenta-lo. Salim colocou Nina no chão e abraçou Valquíria:
- Bem vinda, minha filha. Bem vinda a esta casa e a esta família. – disse o velho.
- Muito obrigada, e muito prazer. – respondeu Valquíria.
- Ester! Ester! – gritou Salim, para em seguida dirigir-se à Fernanda – Não adianta, não adianta... vovó está cada dia mais surda. Acredita que não ouviu vocês chegando?
- Deixa de ser implicante, vovô! Vai ver ela está distraída. – retrucou Fernanda.
Neste momento um senhora extremamente simpática veio ao encontro delas. Era baixinha e magra, porte delicado e cabelos grisalhos. Rosto fino e expressivo, com belos olhos azuis, como os de Fernanda. Já o vovô Salim era um homem mais alto, quase da altura de Fernanda, magro e com olhos escuros. Os poucos cabelos que ainda tinha circundando a cabeça eram brancos como o algodão. Mas o que mais chamava a atenção no rosto do vovô era o nariz. Seu nariz era enorme e encurvado, sendo que costumava usar seu óculos para perto bem na ponta da gigantesca saliência olfativa.
A vovó Ester também cumprimentou as três de forma efusiva, convidando-as para entrar.
- Vocês devem estar famintas! – disse a avó.
- Eu tô! – respondeu Nina com espontaneidade.
- Que bom, pois eu fiz uma janta especial para vocês! – disse a velha senhora.
- Vovó, nós precisamos de um banho antes. – disse Fernanda.
- Eu preparei o quarto de hóspedes para vocês. – disse a avó.
Fernanda sorriu lembrando-se que o quarto de hóspedes tinha uma enorme cama de casal enquanto que o seu, que ficava ao lado, era muito aconchegante, mas só tinha uma cama de solteiro.
- E Nina pode ficar no teu quarto. – emendou a avó.
Novamente Fernanda riu para si mesma e assentiu com um movimento de cabeça. Parece que o avô se encarregara de preparar a avó para recebe-las. Salim sempre tivera essa qualidade: era franco e direto, não costumava fazer rodeios. Um dos empregados da fazenda descarregou as malas, colocando-as nos quartos.
Após um reconfortante banho, prepararam-se para jantar.
- E então? Fizeram boa viagem? – questionou Salim.
- Ótima viagem! – respondeu Fernanda – pela estrada e pela companhia! – emendou sorrindo.
- Bom, bom... – disse o avô. – E você, Valquíria, o que achou aqui da fazenda?
- Eu estou achando tudo ótimo – respondeu timidamente – o local e a companhia.
- Obrigado pela parte que me toca. – riu-se o velho.
- Eu tô adorando esses bolinhos de carne! E o macarrão também! – elogiou Nina, para deleite da vovó Ester que havia preparado a janta especialmente para elas.
- Realmente a comida está maravilhosa – falou Valquíria.
- Que bom que vocês gostaram, eu fiz com muito carinho.
- Vovó... muito obrigada. – disse Fernanda.
- Eu não tenho mais me dedicado à cozinha como antes, agora costumo deixar por conta das minhas ajudantes. Não tenho mais a disposição de tempos atrás – riu-se a velha – Mas hoje é um dia especial e coloquei a mão na massa, literalmente.
- E a tua mãe Fernanda, tem falado com ela? – quis saber o avô.
- Olha vovô, faz uns quinze dias que a gente não se fala. Não tive quase tempo de telefonar para ninguém nas últimas semanas. E você, tem falado com ela?
- Tenho, ela está bem. O teu pai continua o mesmo, teimoso e mandão.
Fernanda teve que rir. O avô e o pai sempre acabavam discutindo quando se encontravam, os dois eram vinho da mesma pipa, e se fossem pai e filho ao invés de sogro e genro, não seriam tão parecidos. Cada qual queria fazer valer a sua opinião logo, era discussão na certa. Mas no fundo se gostavam. Salim admirava a capacidade de negociar do genro, que trabalhava com revenda de automóveis há mais de três décadas. Tanto que havia concordado em lhe dar a mão da única filha em casamento.
Logo após o jantar Fernanda pediu licença para se recolher, estava exausta da viagem. Valquíria e Nina também a acompanharam. Salim convidou Nina para uma pescaria no dia seguinte, ao que a menina respondeu com entusiasmo:
- Eu vou adorar! E eu não tenho nojo de minhoca! A Val tem.
- Nina... – resmungou Valquíria.
Todos tiveram que rir.
Mal se deitaram e adormeceram profundamente. Fernanda nem viu quando Valquíria terminou de pentear o cabelo, passou um creme no rosto e deitou a seu lado. Ela deu um beijinho na face de Fernanda e aconchegou-se a seu lado, pegando no sono quase que instantaneamente.
Na manhã seguinte, à mesa do café, vó Ester, Nina e vovô Salim conversavam animadamente quando Fernanda e Valquíria entraram na cozinha.
- Muito bonito, ein? Onde estão as boas maneiras? Quer dizer que não se espera mais ninguém para tomar café nessa casa? – brincou Fernanda.
- A gente só tá conversando, mãe. – disse Nina – agora que vamos começar a comer, né vovó?
- É sim, minha querida, deixa essa faladeira pra lá.
Nina olhou para as duas com uma cara debochada. O avô sorriu frente à expressão levada da menina. Aquela garota o fazia lembrar-se de Fernanda na infância.
- Nina, você quer uma fatia de pão com geléia de morangos? – perguntou a avó partindo uma fatia de um enorme pão caseiro que ela mesma havia feito.
- Só meia fatia – respondeu Nina – que é pra não colocar pão fora se eu não conseguir comer tudo.
- Isto, isto... menina esperta, tem futuro. Economizar para ter. – riu-se o avô.
- Ponto à favor da Nina! – gargalhou Fernanda – Viu só vovô? O senhor arrumou uma bisneta à altura da filosofia dos Abdala, ein?
Desta vez foi o velho Salim quem gargalhou.
- Pois é... alguém nessa família tinha que ser parecido comigo...
Depois do café Nina e o avô foram pescar. A propriedade tinha um lago enorme, alimentado pela água de uma nascente incrustada num barranco pedregoso, com imensa quantidade de peixes. Na margem direita havia um píer onde ficava atracada uma canoa de madeira movida a remos. Salim e Nina colocaram coletes salva-vidas apesar do lago não ser muito profundo. O velho, porém, era precavido, principalmente em se tratando de uma criança. Após ele remou até o meio do lago, onde lançaram as linhas na água, seguras por caniços finos de bambu. Uma pescaria bem rústica.
Enquanto Valquíria ajudava vó Ester na cozinha, Fernanda observava o avô e Nina no meio do lago. Suas lembranças retrocederam à sua infância, nas ocasiões em que também pescava com o avô, naquele mesmo barco. Lembrou-se de como achava imensa aquela extensão de água, quase um oceano, e hoje era capaz de atravessa-la à nado de ponta a ponta num piscar de olhos. Lembrou-se das histórias que o avô contava e que agora Nina deveria estar ouvindo, e o quanto se sentia feliz naquele pequeno espaço do mundo. Sorriu para si mesma e sentiu-se feliz e grata ao destino pelo momento que vivia junto de sua mulher, de sua filha e dos avós.
O dia transcorreu rapidamente e à noite Nina estava bastante cansada. Valquíria pediu licença e após a janta foi colocar Nina na cama. Vó Ester também se recolheu. Fernanda e o avô sentaram-se em cadeiras de vime com almofadas estofadas na área em frente à porta de entrada. Fernanda serviu dois cálices de licor e alcançou um para o avô, que acendeu um cigarro com um isqueiro prateado.
- Salim, Salim... o médico não proibiu o cigarro? – disse Fernanda.
O velho deu uma longa e profunda tragada, soltando a fumaça vagarosamente e observando seu bailado em direção às nuvens. Sorriu para Fernanda e respondeu:
- Proibiu. E eu de fato não tenho fumado, só de vez em quando. Deixa eu aproveitar que a tua avó não está vendo – emendou com ar maroto.
- Tá certo... – riu-se Fernanda, tomando um golezinho de seu licor, saboreando a ardência adocicada que lhe escorria garganta adentro.
O avô observou Fernanda atentamente e comentou:
- Essa moça está te fazendo muito bem...
Fernanda somente sorriu e assentiu com um maneio de cabeça.
- Eu não pensei que um dia você fosse assumir uma criança, Fernanda.
- Nem eu vovô, acredite, nem eu. Conhecer a Val e a Nina foi a melhor coisa que me aconteceu na vida.
- Imagino... Fernanda, nós nunca conversamos diretamente sobre sua vida pessoal...
- Por que nunca havíamos tido oportunidade. – respondeu Fernanda.
- Eu diria, necessidade. – emendou o avô.
- É... – sorriu Fernanda.
- Eu sempre percebi que você era uma adolescente diferente... e eu falo no bom sentido, você sabe... mesmo quando você saiu de casa para morar com aquele bicho-grilo metido a intelectual eu não cheguei a me preocupar, pois eu tinha certeza que você sabia se cuidar, e que aquela história não ia longe, como de fato não foi. Depois você andava com amiguinhas pra cima e pra baixo, mas nunca chegou a permitir que ninguém entrasse de fato, de forma efetiva, na tua vida.
Fez-se um breve silêncio e o velho continuou:
- Quando você me telefonou avisando que iria para a casa da praia com uma amiga eu pensei: minha menina foi fisgada. Como um peixe, sem nenhuma chance de escapar da linha que o prende... Eu senti pelo teu tom de voz que algo havia mudado dentro de ti, Fernanda. E agora, hoje, eu entendo o porquê.
Fernanda continuava calada, com os olhos fixos em um ponto qualquer do manto escuro da noite, em alguma estrela longínqua que projetava sua luz à milhões de anos até que chegasse a ser vista pelos olhos dos habitantes do planeta terra...
- E eu quero te dizer, minha filha, que eu vejo a felicidade nos teus olhos, na tua alma, e fico muito feliz com isso. Você foi, é, e sempre será a neta da qual eu mais me orgulho. E eu consegui entender perfeitamente o motivo dessa tua mudança ao conhecer a Valquíria e a Nina. Você soube escolher a pessoa certa, minha neta...
Fernanda olhou para o avô amorosamente e duas lágrimas rolaram de seus olhos, como se fossem duas gotículas de água naquele oceano azulado que refletia a luz do luar em quarto crescente.
- Vovô... eu sempre o admirei, e você sabe disso. E a cada dia que passa eu te admiro mais. E eu também tenho orgulho de ti... E eu tenho certeza que a minha filha também terá... porque você é especial... – disse Fernanda levantando-se e sentando-se ao lado do avô, abraçando-o e colocando a cabeça em seu colo, enquanto o velho afagava seus cabelos.
- Você lembra quando andávamos de canoa no lago? – perguntou Salim.
- Claro que lembro! Lembro quando você me contava a respeito do peixe gigante que vivia nas profundezas e se alimentava de crianças desobedientes!... – riu-se Fernanda.
- Pois é. A Nina está determinada a pescá-lo! – gargalhou Salim – Disse que só precisa achar uma minhoca gigante para fazermos a maior fritada de peixe da história!...
- Como é que eu nunca pensei nisso antes! – gargalhou Fernanda.
Os dois ficaram conversando até quase duas horas da madrugada. Quando por fim se recolheram todos os demais já dormiam a sono solto.
A semana que passaram na fazenda dos avós foi suficiente para Nina conquistar mais dois admiradores, e Valquíria também. No dia em que retornaram para casa o avô praticamente obrigou Fernanda a prometer que viriam visitá-los com mais freqüência. Salim pediu que ao menos mandassem Nina, caso o trabalho das duas não permitisse que se afastassem de Santa Cruz do Sul.
- Eu mando busca-la de avião. – argumentou o avô.
- Tudo bem, vovô, a gente manda a Nina mais seguidamente, pode deixar.
Despediram-se dos velhos e na sexta-feira, dia 11 de fevereiro, rumaram para casa.
Valquíria deveria retornar ao trabalho naquela sexta-feira, porém tinha direito a quatro folgas por horas a mais trabalhadas. Desta forma somente retornaria ao trabalho no hospital na terça-feira.
No sábado aproveitaram para descansar da viagem e à tardinha Fernanda foi até a casa de Antônia para conversar com ela sobre a possibilidade de trabalhar em sua casa. Conforme o esperado por Fernanda ela aceitou o convite de bom grado, contente pela oportunidade de aumento salarial, e também pela confiança que Fernanda estava depositando nela. Antônia sabia o quanto Fernanda era exigente em se tratando de seus contratados. Combinaram que Antônia começaria a trabalhar com elas naquela segunda-feira, aproveitando o dia livre de Valquíria que lhe passaria as rotinas da casa.
No domingo ficaram em casa o dia todo, preparando-se para entrar no ritmo normal de trabalho, que recomeçaria na manhã seguinte. Nina brincou bastante tempo no quintal de casa. Deu especial atenção para Pipoca que havia ficado aos cuidados de Dona Eda enquanto viajaram. Valquíria dormiu praticamente a manhã toda e Fernanda parte da tarde, deitada numa rede entre duas árvores no pátio dos fundos. À noite recolheram-se cedo e namoraram até quase meia noite, "para dar sorte durante a semana", como disse Fernanda divertidamente.
Na segunda-feira Fernanda acordou cedo e retomou sua rotina de caminhadas. Não foi para a academia por que uma das primeiras coisas que fez na casa nova foi arrumar um quarto com aparelhos que costumava usar na academia, também presentes de seu avô. Desta forma podia tratar de manter a forma em casa mesmo e ficava mais tempo com Nina que também costumava acordar cedo. Antes das oito horas da manhã já haviam tomado café e quando Antônia chegou Valquíria recém havia levantado. Fernanda foi para loja e Valquíria ficou passando a rotina da casa para Antônia, que assimilava tudo com rapidez e praticidade.
No dia seguinte foi Valquíria quem retomou seu trabalho. Aos poucos tudo foi se organizando no dia a dia daquela família. Antônia integrou-se muito bem no novo emprego e demonstrou ser uma pessoa confiável e bastante responsável, com a qual tanto Valquíria quanto Fernanda tinham a tranqüilidade de deixar Nina. Além do quê primava pela discrição. Mesmo ciente da relação afetiva entre Fernanda e Valquíria, que não faziam segredos e não tinham nenhum tipo de restrição de comportamentos ou diálogos dentro de casa, não costumava tecer nenhum tipo de comentário a respeito delas fora de seu local de trabalho, nem em seu círculo de amizades. Respeitava as patroas pelo que eram: pessoas dignas e corretas, simplesmente com uma forma de amar diferente do que se costumava considerar aceitável dentro dos parâmetros sociais e afetivos pré-estabelecidos. Mais que isso, não só as respeitava como admirava o modo de vida que levavam. De fato Antônia conhecia poucos casais que se davam tão bem, e poucos também que sabiam como educar seus filhos com limites e com extrema afetividade, como era o caso delas. Antônia sentia-se feliz por trabalhar ali e passou a ser tratada, com o decorrer do tempo, quase que como alguém da família.
Valquíria providenciou seu pedido de reingresso na faculdade e no início de março ela retomou seu penúltimo semestre de odontologia. Nina também voltou às aulas e reencontrou seus colegas de pré-escola desta vez na primeira série. Costumava ir para a casa de Dona Eda e Seu Arno pelo menos duas vezes por semana após as aulas e passava algumas horas com eles. Dona Eda tinha o hábito de revisar os cadernos de Nina e ajuda-la nas lições de casa. Fernanda também assumiu essa função em casa, e era ela quem acabava indo às reuniões de pais e mestres, em virtude de seu horário ser flexível, ao contrário de Valquíria que não tinha como faltar ao serviço no hospital. Já Valquíria cuidava dos detalhes das roupas da menina, do uniforme, supervisionava a alimentação para que Nina não se entupisse de porcarias, para as quais Fernanda sempre fazia vistas grossas. Enfim, conseguiam dividir as tarefas de forma harmônica, cada qual com suas peculiaridades, e davam à Nina o suporte emocional e material que qualquer criança necessita para desenvolver-se e tornar-se uma pessoa íntegra, com valores éticos e capaz de respeitar o próximo e a natureza.
O mês de março passou rapidamente e abril chegou trazendo as boas novas dos preparativos da festa de aniversário de Nina, que completaria seis anos no dia dezoito. A data cairia numa terça-feira, sendo que combinaram comemorar no sábado seguinte. Fariam um churrasco ao meio dia e uma mesa de doces à tarde. Fernanda telefonou para seus pais convidando-os, uma vez que eles ainda não conheciam Nina nem Valquíria, nem tão pouco a casa nova delas. Eles ficaram de ir. Os avós de Fernanda também prometeram à Nina não faltar.
Uma das coisas que entristecia Valquíria era o fato de Seu Arno ainda não haver ido na casa delas. Sabia das dificuldades do amigo em lidar com o relacionamento delas, e que precisaria de tempo para conseguir aceita-las e voltar a conviver com elas como antes. Mas não conseguia deixar de sentir-se magoada com aquela situação. Não que ele a tratasse mal, mas estava distante e parecia não conseguir transpor a barreira que ele mesmo havia erguido. "Paciência...", pensava Valquíria.
Exatamente uma semana antes da festa de aniversário de Nina, num sábado, Valquíria estava de folga em casa. Era início da tarde e Fernanda estava na loja, recebendo mercadorias e encaminhando pedidos de outras tantas, quando a campainha do portão da casa delas soou uma única e rápida vez, como se a pessoa que estivesse chegando não quisesse perturbar o sossego dos moradores da casa. Nina estava jogando um game no computador do escritório e nem percebeu o toque da campainha, tamanha sua distração. Antônia havia saído para comprar pão no mini-mercado da esquina e Valquíria deixou seu livro de lado, marcando a página com uma tira de cartolina colorida, presente de Nina, para posteriormente retomar a leitura do ponto onde havia parado. Ao abrir a porta da frente mal conseguiu disfarçar a surpresa. Esperando por trás das grades do portão estava o Seu Arno, sozinho, ostentando um sorriso meio sem graça. Ao avistar Valquíria acenou para ela, que acelerou o passo e abriu o portão. Ela abraçou o velho afetuosamente e aos poucos, timidamente, ele foi retribuindo o abraço, para alegria de ambos.
- Que grata surpresa, Seu Arno! – disse Valquíria – Vamos entrando!
- Desculpe eu vir sem avisar... eu não quero incomodar...
- Não é incômodo nenhum, vamos. – respondeu Valquíria dando o lado para que o amigo passasse e fechando o portão atrás dele.
Conduziu-o até a sala e fez com que sentasse numa confortável poltrona ao lado da janela cujo parapeito ostentava vários vasos de violetas, muitos deles dados pelo próprio amigo. Seu Arno estava desconcertado e não sabia bem o que falar. Foi Valquíria quem começou:
- Que bom que o senhor finalmente teve um tempinho de vir conhecer a nossa casa, nem imagina o quanto ficamos felizes com isso.
O velho esboçou um sorriso baixando os olhos:
- Não foi bem tempo que faltou, Valquíria... digamos que foi... você sabe... coisas de um velho cabeça-dura.
Valquíria sorriu e respondeu:
- Mas o importante é que o senhor está aqui! A Fernanda vai ficar muito feliz quando souber, e a Nina então, quando se der conta de que o senhor está aqui vai vibrar! Ela está jogando no computador, nunca vi gostar tanto. Nem percebeu a sua chegada.
- Pois é justamente por isso que eu vim. Eu não conseguiria faltar ao aniversário da pequena. Ela me convidou e me disse que vai ter um churrasco. E eu acho que vocês vão precisar de um assador. Você eu sei que não sabe assar uma carne decentemente, e a Fernanda eu acho que também não sabe, então...
Valquíria foi obrigada a rir, percebendo o rodeio que o amigo estava fazendo para justificar sua aproximação.
- Com toda a certeza, Seu Arno, eu não conheço melhor assador que o senhor! – concordou Valquíria – A Fernanda é uma negação na cozinha, e eu... bem, o senhor já sabe como fica o meu churrasco – riu-se lembrando de uma vez em que a carne havia ficado tão dura que até mesmo Pipoca teve dificuldades em devora-la. – O senhor acaba de cair do céu e resolver um problema que estava nos tirando o sono! – completou Valquíria.
O velho sorriu feliz.
- Venha cá, deixe eu lhe mostrar a casa, e vamos surpreender Nina.
Valquíria mostrou a casa para o amigo e deixou o escritório por ultimo. Quando Nina se deu conta da presença do amigo ficou radiante. Ela o convidava insistentemente para visitá-las e ele sempre lhe dava uma desculpa. Porém, água mole em pedra dura...
Seu Arno acabou ficando por um bom tempo, tomou o café da tarde com Nina e por volta das dezessete horas Fernanda chegou em casa. Ao ver o velho amigo sorriu feliz. "É... as coisas estão de fato entrando nos eixos... E isso é bom", pensou Fernanda.
- Bem vindo, meu amigo! – disse Fernanda com entusiasmo.
- Obrigado – respondeu o velho.
- Escuta, o senhor não acha que está na hora de retomarmos as nossas noites de jogatina e bebedeiras? – brincou Fernanda.
- Mais do que na hora! – disse Seu Arno – A Eda não me deixa beber uma cervejinha em casa.
- Então vamos reativar o nosso cassino, aí fica tudo liberado! – disse Fernanda. – Mas por enquanto quem sabe uma cervejinha?...
- Eu te acompanho! – respondeu Seu Arno com satisfação.
Fernanda foi até a cozinha e trouxe uma cerveja estupidamente gelada para eles. O velho bebeu com gosto e ao sorver o último gole pediu:
- Não contem pra Eda, senão ela me perturba o resto do ano!
Todos riram.
- Então vamos nos encontrar para um joguinho na semana que vem! – disse Fernanda.
- Combinado, então! Bom, agora eu tenho que ir. Já passei a tarde toda com a pequenina. Ela tentou me ensinar uns jogos no tal de computador, e eu até que me saí bem.
Nina riu e respondeu:
- Mas tem que treinar muito mais!
- Então só me resta vir aqui mais seguido.
- Ôôôbaaa!!! – gritou Nina abraçando o amigo que se despediu e retornou para sua casa.
Quem muito se alegrou com a ida do velho até a casa delas foi Dona Eda, que em verdade era a grande responsável por aquela reaproximação, aliada à Nina.
Após o jantar, quando Nina estava distraída fazendo seu dever de casa, Fernanda comentou:
- Quer dizer que conseguimos domar a fera?
- Pois é... eu fiquei realmente muito feliz. Eu gosto muito dele, ele é uma boa pessoa.
- Eu sei, com certeza eu sei. Ele é cabeça-dura, mas um grande amigo. Acho que agora as coisas vão ficar como antes.
- Deus queira. – respondeu Valquíria – e vai querer!
Na semana seguinte grande parte do tempo foi destinada aos preparativos da festa de aniversário de Nina. Esse era o tema constante nas horas das refeições em família.
- E então, Nina, já decidiu qual a decoração da festa? – quis saber Valquíria – Eu preciso comprar os enfeites.
Nina fez uma cara de "ainda estou pensando"... Valquíria insistiu:
- Quem sabe os ursinhos carinhosos, ou a coleção Moranguinhos, ou a turma do Mickey e da Minnie...
Nina e Fernanda se entreolharam e desataram a rir ao mesmo tempo.
- O que foi, ein? – quis saber Valquíria – Eu disse alguma bobagem?
- Imagine... – debochou Fernanda - ...ursinhos carinhosos, ui, ui, ui.... – e cutucou Nina no braço, que continuou rindo.
- O que é que vocês duas querem afinal? – perguntou Valquíria com uma ponta de irritação.
- Olha só, mãe... a gente... eu e a Fernanda estivemos pensando em algo mais... assim, diferente!
Novamente as duas caíram na gargalhada. Antes porém que Valquíria realmente se zangasse Nina continuou:
- Eu queria uma coisa assim como... Egito Antigo!
- O QUÊ??? – surpreendeu-se Valquíria – Fernanda, isso é coisa da tua cabeça!
- Não é não! – defendeu-se Fernanda – Essas viagens são da tua filha!
- É que eu vi num livro! Eu queria um bolo em forma de pirâmide, e uma vela de múmia!
- VELA DE MÚMIA?!!!... E tu concorda com isso, Fernanda?
- Eu não tenho nada contra... Além do quê o painel de fundo da decoração poderia ser com o sarcófago do Tutankamom...
- Quer saber do que mais? Vão se catar as duas!!! Querem decoração? Pois façam vocês mesmas! Eu tô fora dessa palhaçada!
- Huuuumm... que brabinha... – disse Fernanda.
Valquíria fez menção de se levantar da mesa, mas Fernanda a segurou pela mão.
- Amor... por que essa zanga toda?
- É que a festa já está aí e precisamos nos organizar... E vocês ficam brincando.
- Mas não é brincadeira, mãe! Eu quero um bolo de pirâmide.
Valquíria respirou fundo, olhou para as caras deslavadas à sua frente e foi obrigada a sorrir pensando nas caras dos convidados deparando-se com uma vela em forma de múmia.
- Nina... – disse Valquíria pausadamente – Múmias são nojentas, múmias fedem, múmias não são decoração adequada para um bolo de seis anos de idade. Ainda se fosse para o bolo de noventa anos de certas pessoas – disse dirigindo um olhar para Fernanda – tudo bem, mas no de seis anos se costuma colocar algo menos... antigo.
Fernanda mal conseguia conter o riso.
- Então eu quero uma decoração espacial! Um bolo em forma de nave, e uma vela em forma de ET. – disse Nina.
Novamente Valquíria respirou fundo, esboçou um sorriso amarelo e disse:
- Estamos evoluindo...
- Val, - disse Fernanda brandamente – Olha só, o aniversário é dela, deixa a menina escolher. Afinal pouco importa se no bolo vai ter uma vela de múmia, de ET, de ursinho, de Mickey, de Torre Eifel ou do Colosso de Rodes, tanto faz... O importante são as pessoas que virão para abraçar a nossa filha no aniversário dela. As pessoas que amamos e que são importantes para nós virão na NOSSA casa, para abraçar a NOSSA filha, e é isso que importa, mais nada.
Valquíria sorriu e baixou os olhos:
- Eu sou uma estressada mesmo... – disse tranqüilamente.
- Mais ou menos... mas eu te amo. – respondeu Fernanda.
- Eu também te amo, mãe! – disse Nina.
- Mas múmia, não! – emendou Valquíria.
- Tá bom... – concordou Nina – Então decoração espacial!
- Tá certo. Decoração espacial! Para uma festa de menina! Eu mereço...
- Val... se tem alguém que não pode ter qualquer tipo de preconceito somos nós... – lembrou Fernanda.
- É verdade...
- Uêêêbaa!!! – vibrou Nina – Vou ter uma espaçonave na minha festa!
Enfim chegou o sábado! Por volta das oito horas da manhã Valquíria observou o seu redor e custou a acreditar no que seus olhos viam. Os painéis da decoração da festa estavam prontos. É óbvio que elas não encontraram nada que fizesse menção a uma decoração espacial nas lojas da cidade. Mas Fernanda não se deu por vencida. Podia ser uma negação na cozinha, mas era uma artista nos trabalhos manuais e de desenho e pintura. Trabalhando em equipe com o Seu Arno confeccionaram eles próprios a decoração da festa. Não contentes em deter-se nos painéis e nos enfeites resolveram construir uma nave espacial no quintal, para as brincadeiras das crianças. Seu Arno era excelente marceneiro e fez o que seria uma nave espacial em madeira, de forma oval, com dimensões de mais ou menos 2,5m de raio e altura de 2m, um espaço suficiente para acomodar cerca de seis "tripulantes" confortavelmente. Confeccionou um painel de controle com chaves de luz, tomadas velhas, alavancas de madeira e um guidão de uma bicicleta de corrida. A nave era pintada por fora com tinta prateada, com detalhes em vermelho. Por dentro a madeira foi pintada de branco. A nave tinha janelinhas redondas, mais parecendo um submarino, e uma porta que se abria para baixo, transformando-se em rampa de acesso. Fernanda se divertiu muito ajudando o Seu Arno, assim como Nina. Fernanda reservou todas as tardes daquela semana para se dedicar aos preparativos da festa. E a "nave", com toda a certeza, seria a estrela da festa. Nina mal conseguia conter a expectativa de mostrar seu brinquedo aos colegas de aula. Mas não contou nada para eles, dizia somente que em seu aniversário eles teriam uma surpresa.
O bolo e os doces ficaram por conta de Dona Eda. O almoço, com exceção do churrasco, ficou a cargo de Antônia e Valquíria. Dona Eda fez um bolo delicioso e Fernanda construiu uma maquete perfeita de um foguete em isopor para enfeitar o bolo, ao lado da qual colocaram uma enorme vela cor de rosa, para alegria de Valquíria, que queria dar um toque feminino ao arranjo.
Outro impasse foi a roupa de Nina. Valquíria queria que a filha usasse um vestidinho branco e vermelho, presente do vovô Salim e ela queria uma "roupa espacial". Novamente Fernanda salvou a pátria. Comprou um tecido de lamê prateado e encomendou em sua costureira um macacão sem mangas, com uma gola alta engomada e um fecho na frente. Comprou ainda um par de botas brancas, de cano alto, onde desenhou nas laterais, com tinta vermelha, o mesmo símbolo que haviam pintado na porta da nave. O conjunto era arrematado por um cinto largo de couro vermelho e fivela prateada. Nina estava transformada numa desbravadora de galáxias!
Por volta das dez horas da manhã um carro estacionou na frente da casa e se pôs a buzinar. Fernanda viu que eram seus pais e seus avós. Eles vieram de avião e locaram um carro no aeroporto. Foram recebidos efusivamente por Nina que correu para abraçar vovô Salim e vovó Ester. Foi apresentada aos pais de Fernanda, Magda e Franco, e explicado que eles também eram seus avós. Eles mostraram-se receptivos com a menina e com Valquíria, para alegria de Fernanda. Valquíria também se mostrou disposta a estreitar os laços com os pais de Fernanda, muito embora naquele primeiro momento não conversassem sobre o relacionamento das duas explicitamente.
Por volta de onze e meia chegaram os colegas de Nina. Ela convidou somente seus amigos mais chegados, num total de nove crianças. Algumas mães e pais acompanharam os filhos e em pouco tempo a casa estava repleta. Antônia havia chegado antes das sete horas da manhã, assim como Dona Eda e Seu Arno, que tomou conta da churrasqueira. O almoço foi servido por volta da uma hora.
Nina ganhou muitos presentes e estava radiante com sua festa. As cinco horas foi cantado o "Parabéns à Você" e servidos os salgadinhos e o bolo. Depois a criançada ainda inventou um jogo de futebol, do qual Fernanda participou, assim como seu pai. O velho Franco tinha um fôlego quase tão bom quanto o de sua filha. Naquela altura do campeonato Nina já estava sem as botas e jogava descalça na grama do quintal. Sua roupa de "viajante galáctica" estava suada e seus cabelos totalmente revoltos grudavam-se na testa e na nuca encharcada de suor. Mas ela estava feliz. E era o importante.
Quando o ultimo visitante foi embora já eram nove e meia da noite. Valquíria e Fernanda despencaram no sofá da sala. Nina estava entretida vendo seus presentes no seu quarto. Salim olhou para as duas figuras exauridas e gargalhou:
- Haja saúde para acompanhar essa meninada, ein?
- Ôôô vovô, nem fale, eu tô acabada! – disse Fernanda.
- Mas foi uma festa encantadora – disse Magda – Aliás essa menina é encantadora, bem que o papai e a mamãe já haviam nos falado sobre ela, não é mesmo Franco?
- Realmente. – concordou o pai de Fernanda – Mas quem sabe a gente vai indo procurar um hotel, pois vocês precisam descansar.
- Absolutamente! Vocês ficam aqui conosco! – disse Valquíria enfaticamente.
- Mas nós não queremos dar trabalho. – respondeu Magda.
- Não é trabalho nenhum, mamãe. Por favor... – disse Fernanda – Você e o papai ficam no quarto de hóspedes e o vovô e a vovó ficam no nosso. A gente dorme no quarto da Nina.
Fez-se um silêncio pela referência aos quartos, enquanto os pais de Fernanda entreolhavam-se um pouco desconcertados. Apesar de terem ciência da situação da filha tinham muita dificuldade em falar sobre o assunto. Valquíria também ficou sem jeito. Vô Salim riu da situação e descontraiu:
- Pois para mim está ótimo! Eu quero agora é tomar um banho e me deitar! Já não tenho mais idade para essas empreitadas!
- Sei... – provocou Franco – O senhor é capaz de enterrar a nós todos ainda!
Salim riu-se e vovó Ester o acompanhou para separar suas roupas. Antônia arrumou os quartos e preparou alguma coisa para a janta, praticamente "ressuscitou" o almoço, afinal havia sobrado muita coisa. Após lavar o último prato Fernanda foi leva-la em casa.
- Antônia, eu nem sei como te agradecer pela força. Fico te devendo essa.
- Que é isso dona Fernanda, não tem que agradecer nada não. Eu fiz pela Nina mesmo, ela merece.
- Mesmo assim, muito obrigada.
Quando voltou para casa todos já estavam recolhidos, com exceção de Valquíria que a aguardava recostada no sofá da sala. Sorriu amorosamente ao vê-la chegar.
- E então? O que achou da festa da nossa criança? – quis saber Fernanda.
- Não tenho palavras...
- Modéstia à parte, mas a decoração ficou o que há de bonita, ein?
- Tu é que é bonita... a mulher mais bonita que eu já vi, com certeza a mulher mais maravilhosa que existe nessa galáxia...
- Para com isso, sua boba, eu já sou convencida por natureza, vou ficar pior!
- Mas é verdade...
Fernanda deitou-se sobre Valquíria no sofá e beijou-a carinhosamente nos lábios. Ficaram abraçadas por um tempo em silêncio.
- Vamos deitar? Eu tô com as costas em frangalhos. A Antônia arrumou uma cama pra gente no quarto da Nina, no canto que sobrou sem presentes do quarto da Nina quero dizer. – riu-se Valquíria.
- Ai, vamos sim, que se eu pegar no sono aqui vou acordar toda torta amanhã.
- Fernanda...
- Huum?
- Será que os teus pais gostaram de mim? E da Nina?
- Claro que sim. Qualquer pessoa se apaixona fácil pelas minhas duas beldades!
- Eu tô falando sério, Fernanda.
- Eu também!
- Mas tu poderias ter nos poupado do comentário do quarto, ein? – disse Valquíria lembrando da saia justa que ficaram.
Fernanda riu muito.
- Mas o vovô Salim sempre se sai bem! – disse Fernanda divertidamente – Val, não é segredo para ninguém que dormimos juntas! Ou será que os meus pais pensam que eu sou assexuada? Ou louca? Pois só sendo louca ou assexuada, para não agarrar e fazer amor com a mulher mais de-li-ci-o-sa desse sistema solar...
- Fernanda...
- Fernanda o quê?... é verdade! Eu te amo.
- Eu também te amo.
Beijaram-se amorosamente.
- Fernanda... vamos dormir? Dizer que a gente dorme juntas, tudo bem, mas fazer teus pais presenciarem esse... agarramento, caso resolvam beber água, aí já é demais, né?
- Tá certo...
Valquíria e Fernanda adormeceram abraçadas na cama arrumada no chão do quarto de Nina. Estavam de fato exaustas, mas felizes. Nina dormia abraçada em Fernando. Depois de tomar banho foi direto para a cama, só teve ânimo para beijar e dar boa noite aos avós. Dormia com um sorriso nos lábios e por certo seus sonhos a estavam levando por uma viagem intergaláctica.
Os pais e os avós de Fernanda foram embora no dia seguinte, logo após o jantar. Valquíria estava de folga novamente e passaram o dia em casa com as visitas. Tanto Franco quanto Magda saíram de lá com uma ótima impressão acerca de Valquíria, além de também estarem encantados com Nina. Embora no fundo desejassem que a filha se casasse com um homem, entrando numa igreja de véu e grinalda, se deram conta de que Fernanda estava bem, e feliz.
E o tempo foi passando...
Valquíria e Fernanda organizavam sua rotina acompanhando Nina da melhor forma possível. A menina estava participando oficialmente do time infantil de futebol de sua escola. Era um time misto, pois não havia meninas suficientes para se formarem dois times. Ela treinava duas tardes por semana. Continuava com suas aulas de flauta doce e já havia cogitado a possibilidade de ingressar no coral da escola.
Na manhã daquela quarta-feira de maio, enquanto tomavam café, as três conversavam animadamente.
- Mãe, neste domingo tu vai ter folga no hospital?
- Vou, porque?
- Que legal! É que vai ter campeonato de futebol na minha escola, e eu queria que vocês duas fossem me ver jogar.
- E desde quando a senhorita sabe desse campeonato?
- Desde a semana passada... mas eu esqueci de falar.
- Então tiveste mais sorte que juízo, guriazinha! Da outra vez avisa antes.
- Tá bom!!!
- E o resto do time? – quis saber Fernanda – Jogam bem como a minha campeã ou são uns pernas de pau?
- Mais ou menos... – riu-se Nina - ... o Mauro joga bem, a Juliana tambéém. O Diego é meio mocorongo, mas em compensação a nossa goleira é dez! É a Katiane, não deixa passar uma bola! E sabem quem é o capitão do time?... Euzinha aqui ó!
- Que ótimo! Então vamos ver se voltamos para casa com o troféu. – disse Fernanda. – E que horas começam os jogos?
- Às nove horas.
Valquíria não conseguiu disfarçar o ar de contrariedade:
- Mas porque tão cedo? Melhor que fosse só de tarde.
- Mas aí é muito quente, mãe!
- É... parece que tem gente que vai ter que acordar cedo no domingo... – provocou Fernanda, rindo da cara zangada de Valquíria.
Nina terminou seu café e foi escovar os dentes para ir para a escola. Fernanda acariciou o rosto de Valquíria, deu-lhe um beijinho nos lábios e lhe disse divertidamente:
- Como diria o Garfield em suas "pérolas de sabedoria": "Viva uma vida selvagem: tenha filhos!"
Valquíria foi obrigada a sorrir e concordar com ela:
- Pois é...
Fernanda também se levantou da mesa e acabou de se arrumar. Saiu com Nina e a deixou na escola, indo para a loja logo em seguida. Valquíria voltou para a cama e dormiu mais um pouquinho, antes de aprontar suas coisas e ir para o hospital.
No domingo pela manhã Valquíria arrumou uma garrafa térmica com água para o chimarrão, uma sacola térmica com sanduíches naturais e um pequeno isopor com água mineral gelada. Preparou a erva na cuia e aguardava Nina que terminava de colocar sua camiseta do time e calçar seus tênis. Fernanda já estava pronta, de bermuda de cóton preta, camiseta branca folgada com uma estampa da Oktoberfest e um tênis branco sem meias. Seu óculo de sol estava pendurado no decote da camiseta e havia prendido os cabelos num rabo de cavalo, que pendia da parte de trás do boné preto que colocara para proteger o rosto do sol. Valquíria vestiu uma calça de abrigo azul marinho e uma regata branca. Também colocou um boné e óculos de sol. Passou muito filtro solar em Nina, pois o jogo seria na quadra externa da escola.
Chegaram cedo e conseguiram um lugarzinho estratégico, à sombra de uma árvore atrás de uma das goleiras. Algumas mães de colegas de Nina sentaram perto delas aproveitando a sombrinha aconchegante e o chimarrão. Conversaram animadamente e quando o time de Nina entrou em campo aplaudiram de pé. Nina era magrinha e portanto, sobrava camiseta, ou faltava corpo, porém corria com desenvoltura e era muito boa nos dribles. Fernanda sorria orgulhosa:
- Olha o que é a ginga dessa garota! – dizia para Valquíria.
A cada lance mais disputado Fernanda se levantava e gesticulava. Chegou a ir até a beira do campo e dar uns gritos do tipo:
- Aqui pela esquerda! Vamos lá! Bota pra correr, pô!
Valquíria se divertia com aquele envolvimento de Fernanda. Ela chegou a levar uma olhada meio atravessada do professor de educação física e treinador do time. Resolveu sentar novamente ao lado de Valquíria. Em determinado momento um garoto do time adversário deu uma entrada mais brusca em Nina. Com agilidade ela saltou por cima das pernas do garoto, mas não conseguiu evitar a queda, rolando como se fosse a própria bola do jogo e levantando logo em seguida, somente esfregando um pouco a sua canela.
- Lance normal! – gritou o juiz.
- Lance normal o cacete! – esbravejou Fernanda. – Você não apita falta não, ô filho da puta! – gritou indignada.
Valquíria olhou para Fernanda espantada, ela não costumava usar aquele vocabulário. Como Fernanda havia se levantado e fazia menção de ir até o campo, Valquíria a segurou pelo braço e falou ao seu ouvido:
- Amor, o que é isso?
- Isso o quê? Aquele pivete quase quebra a perna da minha filha e esse veado não expulsa o cara? Nem falta ele deu!
- Fernanda, o "cara" deve ter no máximo sete anos! Calma... é só um jogo.
Fernanda sentou novamente, controlando sua fúria. Algumas mães olharam meio de viés para ela que ainda bufava. Valquíria riu sem graça para elas.
- Pe-lo-a-mor-de-Deus, mulher, te aquieta! Tem gente olhando... – pediu Valquíria baixinho.
- Pronto, já sentei! Mas se a Nina não salta igual um leopardo ela tava com a perna quebrada!
- Amor, são coisas que acontecem em jogos. – continuou Valquíria ao pé do ouvido de Fernanda – A nossa filha não dança balé, ela joga futebol, lembra?
Fernanda foi obrigada a sorrir.
- E ela joga bem pra caramba, né não? – disse Fernanda orgulhosa.
- Joga. Mas se toda vez que encostarem nela tu tiveres o ímpeto de bater no juiz, a carreira dela será breve.
- Pior que é verdade, né? Mas eu não consigo ver machucarem a nossa gatinha.
- Mas ela está bem, olha lá. Tá correndo igual um pé de vento.
- Menos mal...
O jogo deu o placar de sete a dois para o time de Nina. Três gols foram dela. Em cada um deles Fernanda vibrava como se fosse o jogo da seleção brasileira em final de campeonato mundial. Fizeram uma pausa para o almoço e à tarde retomaram os jogos. E não deu outra, ao final da terceira partida o time de Nina foi campeão naquela tarde de domingo. Cada participante ganhou uma medalha e o troféu ficou para a escola. Nina estava radiante, mas com certeza não mais do que Fernanda, que colocou a filha nos ombros para comemorar o título. Antes de voltarem para casa passaram no restaurante do quiosque para saborearem sorvetes. Fernanda e Valquíria tomaram uma cervejinha bem gelada, enquanto Nina brindava com Fanta uva. Mesmo já sendo o mês de maio o dia estava quente e abafado, o chamado veranico de maio. Depois passaram na locadora e escolheram dois filmes para assistirem à noite. Ainda antes de se dirigirem para casa passaram na casa do Seu Arno e da Dona Eda para dar um oizinho.
No mês seguinte o inverno começou oficialmente e o clima havia esfriado bastante. Nina já fazia planos para viajar nas férias de julho, iria para a casa do vô Salim. Seriam somente duas semanas de férias e ela passaria dez dias em Sete Barras. Iria sozinha, de avião, e o avô a pegaria no aeroporto.
Fernanda e Valquíria conversaram algumas vezes sobre a situação jurídica de Nina, e Fernanda manifestou seu intuito de adotar a filha, pela questão dos bens que possuía. Valquíria tinha o Termo de Guarda provisório da menina, mas até então não havia visto necessidade de oficializar a adoção. Fernanda porém, era muito prática e objetiva nesses assuntos legais. Como a lei não permitia que casassem, e não seria possível adotar Nina em conjunto, optaram por Fernanda formalizar a adoção. O interessante é que foi o avô de Fernanda que questionou com ela sobre a situação de Nina. Ele fazia questão de incluí-la como herdeira de seu patrimônio. Fernanda planejava entrar com a documentação na Vara da Infância e da Juventude do Fórum de Santa Cruz do Sul no próximo mês.
Uma semana antes das férias de julho Fernanda saiu da loja um pouco antes do meio dia para pegar Nina na escola e almoçar com ela em casa. Estava a pé e quando se aproximava da escola viu uma cena que a deixou, no mínimo, preocupada. Nina estava sentadinha com outros colegas na escadaria em frente à entrada principal do colégio e da calçada um homem observava o pequeno grupo de crianças. Fernanda intuitivamente diminuiu o passo enquanto Nina se levantava e corria, numa brincadeira com os amigos. Fernanda sentiu um mal estar quando percebeu que a atenção daquele estranho estava totalmente voltada para Nina. O homem acompanhava seus movimentos no pátio, e a menina nem percebia estar sendo observada. Antes que ele pudesse esboçar qualquer tentativa de aproximação Fernanda acelerou sua marcha e entrou no portão principal, indo ao encontro de Nina e abraçando-a forte junto ao peito.
- Oi mãinha... – disse Nina agarrando-se ao pescoço de Fernanda – O que foi? Tu tá tremendo?
- Nada não, acho que é frio... mas dá cá um beijinho na ponta do meu nariz que eu esquento rapidinho – disse Fernanda tentando disfarçar o desconforto.
Com a filha nos braços virou-se em direção à saída, e para sua surpresa o homem não estava mais lá. Disfarçadamente olhou para todas as direções, num ângulo de 180° e não avistou mais o sujeito. Na escola não poderia ter entrado, pensou. Com Nina segura pela mão acenou para um táxi que passava naquele momento.
- Aonde é que a gente vai? – quis saber Nina.
- Pra casa.
- Mas de táxi? É tão pertinho!
- É que este sapato está me machucando – respondeu Fernanda inventando a primeira desculpa que lhe veio à cabeça.
Nina não questionou mais. Quando entraram em casa Fernanda ainda olhou para os lados desconfiada, porém não viu nenhum movimento suspeito. Valquíria, que a conhecia muito bem, percebeu sua intranqüilidade e quando Nina saiu de perto questionou:
- Meu amor, o que foi que aconteceu?
- Não sei, Val, mas eu tive uma sensação muito ruim agora há pouco...
E relatou brevemente o ocorrido.
- Pode ser coisa da minha cabeça, eu sei. Mas por via das dúvidas eu não quero a Nina longe dos nossos olhos por uns dias, pelo menos até a ida dela para a casa do vovô. Nessa semana vamos chegar sempre antes da aula dela terminar, certo?
- Tudo bem, vamos sim.
Nisto Nina veio para perto delas e mudaram de assunto.
Na semana seguinte Fernanda literalmente montou guarda na frente da escola, porém não avistou mais o estranho. Assim que Nina entrou de férias elas a mandaram para a casa dos bisavós, que a aguardavam ansiosamente.
Fernanda e Valquíria aproveitaram para fazer uma lua-de-mel em casa, afinal depois que passaram a morar juntas eram os primeiros dias que ficavam totalmente sozinhas. O episódio da escola foi praticamente esquecido e Fernanda tentou se convencer de que tudo foi fruto de sua imaginação. Aproveitou as férias de Nina, tendo mais tempo disponível, e entrou com a documentação solicitando a adoção da menina, no Fórum de Santa Cruz do Sul.
No dia 22 de julho Nina retornou da fazenda do vovô Salim, sendo que suas aulas recomeçariam no dia 24. Tanto Fernanda quanto Valquíria estavam morrendo de saudades da filha, que também chegou demonstrando ter sentido a falta delas, apesar dos paparicos do vô Salim e da vó Ester. Até os avós Magda e Franco foram passar uns dias na fazenda com a neta.
O mês de julho transcorreu normalmente e agosto havia chegado com temperaturas muito baixas e chuvas abundantes. Nina, Valquíria e Fernanda costumavam esquentar-se nas noites de inverno em frente à lareira e tomando um chocolate quente enquanto Pipoca dormia enroscadinha num tapete de lã colocado estrategicamente ao lado da parede de tijolos da lareira, que ficava aquecida pelo fogo.
Na manhã do dia sete de agosto, uma segunda-feira, o telefone do escritório do Magazine Libanês tocou e Fernanda atendeu. Era Valquíria que estava visivelmente transtornada no outro extremo da linha.
- Val, meu amor, o que houve? Por favor, para de chorar e me diz o que aconteceu...
- Fernanda, vem pra casa, agora... – soluçava Valquíria.
- Pelo amor de Deus, o que foi que houve com a Nina?
- Nada... ainda não...
- Como assim, ainda não???
Valquíria continuava soluçando e Fernanda desligou, dirigindo-se para casa imediatamente. Encontrou Valquíria desabada no sofá da sala e Antônia tentando fazer com que bebesse um copo de água com açúcar. Antes que Fernanda chegasse a perguntar qualquer coisa Antônia lhe disse, tentando tranqüiliza-la:
- A Nina está bem, está na escola.
Fernanda respirou aliviada e abraçou Valquíria, apertando-a junto a si. Se Nina estava bem qualquer outra coisa poderia ser resolvida.
- Pronto... pronto. Tá tudo bem agora.
Valquíria a abraçou com força. Aos poucos foi se acalmando e estendeu uma folha de papel para Fernanda. Ao ler o teor da correspondência Fernanda entendeu o porquê do desespero de sua mulher. Era uma intimação referente ao processo da guarda de Nina. Seu pai havia aparecido e pleiteava a guarda da filha judicialmente e fora marcada uma audiência para dali ha três semanas. Fernanda sentiu um aperto no peito e instantaneamente lhe veio à memória o homem que havia observado Nina atentamente na escola.
- Desgraçado! – disse Fernanda mais para si mesma do que para Valquíria.
- O quê?
- Nada, pensei alto.
- E agora, Fernanda??? O que vamos fazer? Ele vai tirar a nossa filha! O que vai ser da gente? – disse Valquíria recomeçando a soluçar.
Antônia havia ido para a cozinha e também chorava baixinho, não conseguia imaginar aquela casa sem as peraltices de Nina.
- Val... calma! – disse Fernanda segurando-a pelos ombros.
- Como calma??? Nós vamos perder a Nina!!!
- Não vamos não!
- Como não Fernanda? Ele é o pai dela!
- E daí? NÓS somos a família dela! – respondeu Fernanda enfaticamente.
- Mas para a justiça ele é o pai, tem direitos sobre ela!
- Não é bem assim, Val.
- COMO NÃO? – disse Valquíria levantando o tom de voz, em desespero – Qual o Juiz que vai dar a guarda da Nina para um casal de... de...
- De quê???...
- De... Você sabe!!!
- De que Val??? Tenha a coragem de dizer!!! DE LÉSBICAS??? – exaltou-se Fernanda.
- É! De lésbicas... – repetiu Valquíria desabando num choro compulsivo.
Fernanda novamente a aconchegou em seu peito, abraçando-a com força, tentando reconforta-la e passar-lhe uma segurança que ela mesma tinha dificuldade em sentir. Lágrimas escorreram de seus olhos azuis e Fernanda sentia como se fossem gotas de lava incandescente a queimar-lhe as faces. Ficaram chorando abraçadas em silencio por longo tempo. Fernanda tentava ordenar seus pensamentos e não deixar que o desespero a impedisse de tomar as providencias que se faziam necessárias naquele momento. Com delicadeza afastou-se um pouco de Valquíria, beijou-lhe a testa e lhe disse pausada e convictamente, encarando-a nos olhos:
- Valquíria, eu te prometo, ninguém vai levar a nossa filha embora. Ninguém. Confia em mim.
Valquíria deu um suspiro profundo e assentiu com um movimento de cabeça. Enxugou as lágrimas de seus olhos e tomou as mãos de Fernanda entre as suas.
- Eu confio, meu amor, eu confio.
Fernanda esboçou um sorriso. Levou as mãos de Valquíria até seus lábios, beijando-as com suavidade. Respirou fundo, levantou-se e pegou o telefone. Ligou primeiro para Dona Eda, pedindo que fosse pegar Nina na escola e ficasse com ela à tarde, talvez até o outro dia. Pelo seu tom de voz a velha senhora percebeu que algo não ia bem. Fernanda prometeu explicar-lhe depois, mas que ficasse sossegada, pois tudo se resolveria. Pelo menos por enquanto Fernanda estava tranqüila em relação ao pai de Nina, ele não tentaria pegá-la à força, muito pelo contrário, tentaria pelos meios legais, "mas por que?", pensava Fernanda, "porque somente agora?". Alguma coisa não fechava naquela história.
Logo em seguida ligou para sua advogada e grande amiga:
- Marília? Fernanda. Preciso de você aqui ainda hoje.
- Como?
- Isso que você ouviu. Ainda hoje. Estou reservando passagem pra você num vôo pra hoje. (...) Como não pode? Teus filhos já são homens, minha amiga. E marido não conta. Você tem cinco marmanjos em casa que podem muito bem se virar sem a mamãezinha por um ou dois dias. Marília, por favor, é muito importante. É a minha vida que está em jogo...
- Tudo bem, Nanda. Pelo teu tom de voz dá pra perceber que boa coisa não é. Você pode me adiantar alguma coisa?
- É a Nina. O pai dela apareceu, e quer a guarda.
- Huuum... casinho complicado.
- Eu sei, por isso preciso de VOCÊ, que é a melhor profissional que eu conheço.
- Sei... não tente me bajular, dona Fernanda. Eu já concordei em ir.
- Eu te amo, sabia? Se você não fosse hétero, e se eu não amasse a Val... você não me escapava!
- Boba! – riu-se Marília.
- Estamos te esperando.
- Deixa eu arrumar a minha mala, então. Bye.
- Bye.
Logo em seguida Fernanda reservou uma passagem aérea para Marília no vôo das dezesseis horas. Também telefonou para a loja avisando que não retornaria naquele dia. Em seguida sentou-se ao lado de Valquíria que já estava aparentemente mais calma.
- Amor... alguma coisa nessa história não está fechando. Olha só, porque um pai totalmente ausente apareceria somente agora? Me conta de novo e em detalhes a história da Nina.
Valquíria repetiu a história que Fernanda já conhecia e ela prestava atenção em cada detalhe, mesmo que pudesse parecer insignificante.
- Bom, então a irmã desse sujeito ainda trabalha no hospital, e sabe que você está com a Nina, e provavelmente sabe que nós estamos morando juntas, uma vez que eu vou seguidamente te buscar no hospital. Bom, outra coisa, se a mãe da Nina morreu em decorrência de um acidente de trânsito ela tem um seguro em dinheiro depositado em Juízo, não tem?
- Tem, mas é uma conta que só poderá ser mexida por Nina, quando completar maioridade. – respondeu Valquíria.
- Ou?...
- Ou... se o responsável provar que precisa da quantia para prover os cuidados que ela necessita enquanto é menor...
- Bingo! – disse Fernanda - O ordinário quer o dinheiro.
- Não pode ser só isso...
- É só isso! Um homem que nem sequer registrou a filha, que nunca quis conhecer a menina e deu no pé antes dela nascer, vai querer o quê? Ganhar o céu? Não seja ingênua, Valquíria.
- Pois é... você pode ter razão sim...
- Eu tenho certeza. Agora vamos esperar a Marília para ver o que podemos fazer. Mas enquanto isso precisamos manter a calma, entendido?
- Entendido.
- Val, a Nina precisa da gente nesse momento, e temos que estar bem. Precisamos passar confiança pra nossa filha, pois medo ela vai sentir por si só quando souber o que está acontecendo.
- Eu sei.
- Então vamos melhorar essa cara! Vai lavar o rosto e vamos almoçar.
- Eu tô sem fome...
- Eu também, mas precisamos comer alguma coisa. As pessoas pensam melhor de barriga cheia!
Valquíria sorriu. Fernanda era muito especial mesmo. Conseguia transmitir uma segurança e uma força interior capaz de dar ânimo em qualquer situação, por mais difícil que pudesse parecer. E mesmo que as evidências e a razão apontassem para uma situação desesperadora, ao lado de Fernanda, e ouvindo-a falar, tinha a plena convicção de que não perderiam a filha.
Por volta das dezenove horas um táxi estacionou em frente à casa delas. Marília desembarcou e ajeitou os cabelos lisos e loiros que teimavam em escorregar do coque preso por duas hastes de madeira atravessadas, que ostentava no alto da cabeça. Ajeitou o óculo de armação redonda na ponta do nariz e esperou que o motorista retirasse sua mala do veículo. Equilibrou-se no topo de sua sandália de salto agulha altíssimo, segurando sua pasta de couro junto ao peito e a bolsa no ombro direito. Fernanda foi ao seu encontro, pagou a corrida e abraçou Marília.
- Obrigada por ter vindo, muito obrigada mesmo. Fico te devendo essa.
- Vou anotar no meu caderninho...
- Deixa que eu pego a tua mala. – disse Fernanda.
- Deixo! É o mínimo que a senhora pode fazer para compensar esse meu desvario de viajar em menos de seis horas!
Fernanda riu e abraçou novamente a amiga, que era pequena e magra, e praticamente sumia no abraço da morena, mesmo tendo sua altura aumentada em pelo menos doze centímetros pelo salto da sandália.
Marília, já instalada confortavelmente numa poltrona reclinável, após tomar um banho e comer alguma coisa, pediu que a amiga contasse em detalhes o que estava acontecendo. Munida de uma prancheta, um bloco de folhas pautadas e uma caneta de escrita fina e vermelha, fazia anotações enquanto Valquíria e Fernanda repetiam novamente e em detalhes a história toda.
- Bom, recapitulando então: - proferiu Marília – o suposto pai abanndonou a companheira ainda gestante, não registrou a filha, nunca procurou a menina até o presente momento e nunca sequer contribuiu em nada para a criação de Nina. Ponto a nosso favor.
Valquíria sorriu feliz com a colocação de Marília, que continuou:
- No entanto, a lei brasileira é clara, os pais biológicos têm prioridade sobre qualquer outro familiar, desde que possuam condições de prover aos filhos a satisfação das necessidades básicas de alimentação, educação, moradia e garantia de dignidade.
Valquíria levou as duas mãos ao rosto evidenciando desânimo. Fernanda envolveu-a pelos ombros, numa atitude de proteção e conforto.
- Valquíria – continuou Marília – você não sabe sequer o nome desse homem?
- Não, a mãe da Nina nunca falava nele, ao contrário, qualquer referência que pudesse remeter a ele fazia com que mudasse de assunto ou se fechasse totalmente. As poucas vezes que falou dele foram sobre seus gastos outras mulheres e no jogo, além das bebedeiras.
- E ela alguma vez referiu agressões físicas?
- Não. Pelo menos não para mim.
Marília fez mais algumas anotações e concluiu:
- Bem, minhas amigas, ainda é cedo para que eu possa emitir qualquer parecer. Amanhã quero ter vistas ao processo com a procuração que você me passou Fernanda, e somente então, de posse dos dados desse sujeito, é que vou começar a elaborar uma estratégia. Amanhã eu levanto a ficha dele. Mas até lá vamos aguardar. Eu só quero que vocês saibam que é um caso difícil, e que depende muito também do entendimento do Juiz que dará o veredicto. E vamos nos preparar para lidarmos com preconceitos e com juízos de valor. Preciso ser mais clara?
- Não. – respondeu Fernanda.
Valquíria somente sinalizou com a cabeça.
- Ótimo então. Mas eu quero deixar bem claro também, principalmente para você Valquíria, que ainda não me conhece o suficiente, que eu farei o possível para que tenhamos ganho de causa, e que não podemos entrar nessa batalha se não tivermos a convicção de que é possível sairmos como vencedoras. Entendido?
Fernanda sorriu confiante. Essa era a Marília que conhecia, a advogada brilhante que seria capaz de garantir a Nina o direito de permanecer com elas, com a família que considerava como sua, com as mães que amava e que a amavam como se a tivessem parido.
Na manhã seguinte, assim que o Fórum abriu suas portas, Marília dirigiu-se à Vara da Infância e da Juventude, munida da procuração de Fernanda e disposta a aprofundar e tomar ciência do caso. Fez cópias dos autos e voltou para a casa das amigas. Leu toda a documentação cuidadosamente enquanto sorvia pequenos goles de café preto. À primeira vista tudo parecia dentro dos parâmetros legais. Procedeu algumas anotações e ligou para seu escritório na capital paulista.
- Alô, Alcebíades? Preciso que você levante a ficha de um cidadão para mim. Preciso de "serviço completo", fui clara?
- Claríssima, senhora.
- Anote os dados aí.
Fernanda e Valquíria foram até a casa de Dona Eda enquanto Marília foi ao Fórum. Nina costumava ter mudas de roupas na casa de Dona Eda e como estava com seu material escolar acabou indo direto para a aula pela manhã. Aproveitando que Nina estava na escola contaram os últimos acontecimentos para a velha amiga que escutava tudo com um ar de preocupação estampado no rosto. Combinaram que Fernanda pegaria Nina na escola, para que a menina não desconfiasse de nada e a levaria para almoçar em casa. Diriam simplesmente que Marília era uma amiga de São Paulo que tinha vindo visitá-las. Por volta das quatorze horas Dona Eda iria até a casa delas e convidaria Nina para ir até a sorveteria, e para depois dormir com ela de novo. Isto daria oportunidade à Marília de fazer os contatos necessários sem que Nina pudesse ouvir do que se tratava. Nina era uma criança esperta e seria difícil inventar desculpas caso ouvisse algo a respeito dela. Fernanda e Valquíria decidiram conversar com Nina quando Marília já tivesse uma estratégia em vista e quando a situação estivesse pelo menos um pouco mais clara para elas.
Logo em seguida passaram no hospital, onde Valquíria dirigiu-se à administração para informar que não trabalharia naquela tarde também. Já havia faltado no dia anterior e como não entrou em detalhes, simplesmente alegou sérios problemas pessoais, lhe foi dito que descontariam as faltas de seu salário e que sua situação seria estudada pela direção do hospital. Valquíria não estava disposta a discutir, sendo que levantou-se e saiu. Conversou com Fernanda sobre o ocorrido.
- Eu senti um tom de, digamos, ameaça na voz do diretor. Eles não admitem funcionários faltosos. Mas eu não estou em condições emocionais de trabalhar hoje. – disse Valquíria.
- Eu sei, meu amor, e você está certa.
- Eu trabalho com vidas... será que é tão difícil das pessoas entenderem que a gente precisa estar bem? Imagina se eu dou uma medicação errada, ou sei lá, desato a chorar no quarto de um paciente?
- Val, você não precisa justificar isso pra mim. Eu concordo plenamente contigo. E mais. Eu acho que a gente está vivendo um momento extremamente delicado e a Nina vai precisar de nós muito presentes. Eu não tenho como deixar totalmente a loja de lado, mas posso jogar com meus horários. Já o hospital tem horários muito rígidos, exige muito... Val, porque você não deixa o trabalho por enquanto?
- Não, Fernanda, eu não posso...
- Não pode porque?
- A gente já conversou sobre isso. – respondeu Valquíria.
- Só que antes o destino da nossa filha não estava em jogo. Nesse momento a Nina precisa de você, de nós. Além do mais é o teu último semestre na faculdade, e ano que vem, se Deus quiser, você estará no seu consultório. Pensa bem, amor...
Valquíria ficou calada, cabisbaixa. Caminharam mais uma quadra em silêncio até que Valquíria disse:
- Eu acho que novamente tu tens razão. Enquanto essa situação da Nina não se resolver eu não vou ter cabeça pra mais nada mesmo. Amanhã eu peço afastamento do hospital.
Fernanda passou o braço sobre os ombros de Valquíria e caminharam abraçadas e em silêncio até o portão de casa.
Conforme o combinado Fernanda pegou Nina na escola e foram almoçar em casa. Marília foi apresentada a ela e Nina fez questão de lhe mostrar sua espaçonave e seu quarto, e Fernando. Marília sorria frente à simpatia e espontaneidade de Nina. Por volta das duas horas Dona Eda foi até lá e convidou Nina para ficar com ela. A menina ficou radiante à simples menção de um sorvete e tratou de arrumar suas coisas. Ao sair disse para Marília:
- Amanhã eu volto. Hoje eu vou dormir na Dona Eda. É que eu tenho que cuidar dela. O Seu Arno sai para jogar bolão e volta tarde, aí eu tomo conta dela.
- Ainda bem que eu tenho esse anjinho da guarda! – disse Dona Eda.
Nina caminhava saltitante segurando a mão da velha senhora enquanto se dirigiam para a sorveteria da praça central. Dona Eda, bem avisada, observava atentamente qualquer movimentação ao seu redor, porém conforme Fernanda havia previsto, não houve nenhuma tentativa de aproximação por parte do pai de Nina.
Às quinze horas o telefone tocou. Ligação para Marília. Era Alcebíades, do escritório de São Paulo. A advogada ouviu atentamente o que lhe passavam do outro lado da linha. Um esboço de sorriso pareceu querer brotar do canto da boca de Marília, porém ela permaneceu impassível. Só dizia eventualmente: "sim", "sim", "correto". Fernanda e Valquíria a observavam atentamente, como que tentando adivinhar se as novidades eram boas ou más pela expressão de seu rosto. Doce ilusão. Marília mantinha-se séria e inexpressiva. Condicionamentos da profissão. Após minutos que pareceram horas ela finalmente deu o sinal do fax e desligou o telefone. Em instantes o papel começou a projetar-se como uma torrente interminável. Parecia que a documentação enviada não teria mais fim. Depois de alguns minutos ouviu-se o sinal do aparelho indicando o término do envio e Marília finalmente recolheu todo o material, dobrando-o cuidadosamente em forma de gaita enquanto lia alguns trechos do mesmo.
Valquíria e Fernanda estavam impacientes.
- E então? – perguntou Fernanda sem conseguir se conter.
- Fernanda... – respondeu Marília com seriedade - ...sempre apressadinha.
- Puta que pariu, Marília! Desembucha logo!
A advogada abriu-se num sorriso discreto:
- Melhor do que a encomenda! Esse cidadão, Sr. Adamastor Moreira Holtz, está mais sujo que pau de galinheiro. Cheques sem fundo, arruaça, perturbação da ordem pública, atentado ao pudor quando alcoolizado, calúnia e difamação, furto simples, desacato à autoridade, falsidade ideológica e por último, 171, estelionato.
- E como é que esse homem anda solto? – quis saber Valquíria.
Marília sorriu:
- É como costumam dizer no popular: "chinelagem". O sujeito é um grandessíssimo cretino, mas nunca fez nada que uma fiança ou uns dias no xilindró não resolvessem, com exceção do 171, pelo qual ainda está respondendo.
- Mas isso é ótimo! – vibrou Fernanda.
- Devagar com o andor, querida. É bom. Ótimo é ganhar a causa. Mas isso nós vamos ter que esperar para ver. Outra coisa, o miserável não tem endereço definido. O que forneceu é o da irmã dele, aqui em Santa Cruz do Sul. Também consta o da mãe dele, numa favela na periferia de Porto Alegre.
- Mas com esses antecedentes, qual seria o Juiz que daria a guarda de uma criança para um homem desses? – questionou Valquíria.
- Eu acho difícil que dê para ele. – respondeu Marília - Mas existe essa avó, e essa tia...
- Que nunca procuraram a menina! Que, aliás ela nem sabe que existem! – entrecortou Fernanda.
- Mas que são a família biológica dela. E como eu já disse, aqui neste caso específico vamos ter de lidar, além do que reza a lei, com juízos de valor, e com preconceitos. Cada cabeça, uma sentença.
- Isso não é animador... – disse Fernanda.
- Mas não é o fim do mundo também. Nós vamos ter que provar que para a Nina o melhor é continuar com vocês. É com esse enfoque que nós vamos sustentar a nossa defesa. Valquíria, o que é que você tem de fotos dela? Eu quero ver todas, desde bebê se possível, ou pelo menos do tempo que está contigo. Quero também fotos atuais, casa, quarto, festa de aniversário, cachorra, escola, tudo. Quero também o boletim escolar dela. Quero a tua carteira de trabalho, Valquíria. E a tua declaração de Imposto de Renda, Fernanda. Nossa luta começa agora!
Em pouco tempo Marília reuniu tudo o que precisava. Fez mais alguns contatos telefônicos para conseguir mais dados sobre os familiares biológicos de Nina, mais especificamente sobre o pai. Juntou a documentação necessária e compilou o material que considerava suficiente para dar ganho de causa às amigas. Com tudo organizado encaminhou o que julgava necessário ao Fórum e guardou algumas evidências como cartas na manga para a ocasião da audiência. Era como ela dizia: "não se deve dar todo o ouro para o bandido...". Concluído temporariamente seu trabalho em Santa Cruz do Sul preparava-se para retornar a São Paulo, para suas "crianças", como ela costumava dizer. Marília tinha quatro filhos homens, tendo o mais velho 20 anos, os gêmeos com 18 e o mais novo com 15. Antes de retornar ainda conversou com Fernanda e Valquíria.
- Bom, meninas, vocês sabem que agora vamos nos ver só no dia da audiência. Nós já conversamos bastante sobre isso, mas eu quero recapitular alguns pontos principais com vocês. O advogado deles vai querer detonar a moral de vocês agarrando-se à questão da homossexualidade. Isso, se for questionado pelo Juiz, não há como negar. O importante é que vocês respondam as perguntas de forma convicta, de cabeça erguida e em nenhum momento cedam às provocações. Isso é pra você, Fernanda.
- Tá, já entendi. – respondeu Fernanda fazendo uma careta para a amiga.
- Outra coisa, lembrem-se que o enfoque é o bem estar de Nina, não o de vocês. E nada de choradeiras na frente do Juiz, entendido Valquíria?
- Entendido...
- Bom, então estamos conversadas. Amigas, até breve.
- Até. – responderam as duas.
Fernanda foi levar Marília até Porto Alegre, para pegar o vôo rumo à sua casa. Valquíria ficou em casa, esperando Nina para almoçar. Naquela tarde foi até o hospital, disposta a definir sua situação funcional. Colocou sua impossibilidade de trabalhar naquele momento e pediu para sair.
No final da tarde Fernanda já estava de volta. Valquíria lhe contou sobre sua ida ao hospital e que havia pedido formalmente para sair do serviço. Nina, ouvindo a conversa, perguntou:
- Tu vai sair do hospital, mãe?
- Vou.
- Por que?
- Bem... é porque eu tô cansada.
- Cansada?
- É, tenho que me dedicar à faculdade neste semestre, depois de me formar aí eu penso em voltar.
- Aaahhh, tá bom então. Eu tô gostando disso, assim tu fica mais tempo comigo! – disse Nina abraçando Valquíria carinhosamente.
Valquíria custou mas conseguiu conter as lágrimas, tentando ser forte. Apertou a menina bem forte junto a si.
- Eu te amo, guriazinha, tanto, tanto... – disse Valquíria.
- Eu também te amo, mãe.
Fernanda abraçou as duas.
Naquela noite, depois que se certificaram de que Nina estava dormindo, Valquíria e Fernanda conversaram.
- Valquíria, a gente precisa conversar com a Nina...
- Eu sei, mas não tenho coragem.
- Mas vamos ter que arrumar coragem. Ela precisa saber o que está acontecendo e o que pode mudar na vida dela.
- Fernanda... é isso que me assusta... tudo pode mudar na vida dela, e na nossa.
- Uma coisa não vai mudar. Nós vamos permanecer juntas e com a Nina.
- Como é que tu tem tanta certeza?
- Porque a gente vai ficar com a Nina por bem ou por mal.
- Como assim?... – assustou-se Valquíria.
- Val, ninguém vai tirar a nossa filha. Se nós não conseguirmos a guarda dela... a gente foge com ela.
- Fugir? Como?
- Não seja ingênua Valquíria. Quando se tem os contatos certos, o mais fácil é conseguir sair do país sem ser descoberto. E o vovô Salim tem os amigos que precisamos.
- Mas Fernanda, é arriscado! E é ilícito!
- Nem tudo que é lícito é moral, Val, ou você prefere entregar a Nina pra esse cretino?
- Claro que não!
- Então não tem outro jeito.
- Mas a gente vai passar a vida fugindo?...
- Só o tempo que for necessário. E se tiver que ser a vida toda, que seja. Desde que estejamos juntas.
Valquíria abraçou Fernanda, que a aconchegou amorosamente de encontro ao peito. Decidiram esperar mais uns dias para conversar com Nina, deram-se um prazo de uma semana.
O tempo realmente é relativo. Sabe se arrastar quando queremos que passe logo ou acaba voando quando desejamos que se arraste. Já era dia 21 de agosto e a audiência que definiria a vida futura de Nina, Valquíria e Fernanda seria dali a exatamente uma semana. Era preciso contar à Nina o que se passava, sendo que não havia mais como protelar aquela conversa. À noite, após o jantar, Fernanda e Valquíria chamaram Nina.
- Nina, meu amor, vem aqui um pouco... – pediu Fernanda – a gente precisa conversar contigo.
Nina deixou sua brincadeira de casinha e sentou-se ao lado delas. Observou as expressões tensas e sentiu como que uma mão gigante a lhe apertar o coraçãozinho, pressentindo más notícias.
- Nina... nós temos uma coisa pra te contar... é uma coisa difícil de dizer e nós vamos precisar que você seja forte. – disse Fernanda pegando a menina no colo.
- O que é?... – perguntou Nina em voz baixa, com a expressão séria.
- Nós recebemos uma carta do Fórum, do Juiz que está cuidando da tua adoção, lembra que a gente te falou? Aqueles papéis que vão te fazer ser a nossa filha legalmente?
- Lembro.
-Então. Só que, além de nós, tem mais uma pessoa que quer ficar com você...
- Mas eu não quero! Quero ficar com vocês!
- Eu sei querida. E nós também. Mas é que apareceu um senhor e pediu para ficar contigo. Ele diz que é o teu pai...
Nina ficou uns segundos em silêncio, pensando no que ouvira.
- Mas eu não preciso de um pai agora. Eu já tenho duas mães. Até já fiz os cartões pra vocês no dia das mães. E não fiz pro dia dos pais! Eu não quero esse pai!
- Nina, calma. – continuou Valquíria – sabe aquela amiga nossa, a Marília?
- Sei.
- Ela é uma pessoa que vai nos ajudar a ficar contigo. Ela é advogada. Na semana que vem nós vamos no Fórum e o Juiz vai decidir com quem tu deves ficar...
- Eu vou ficar com vocês!!!
- Vai, meu amor, vai sim.
- Nina – disse Fernanda – Vamos encarar isso como um jogo, ok?
- Como assim? – quis saber Nina.
- Um jogo de pega ou esconde.
- Como é esse jogo?
- É assim: no dia da audiência, se o Juiz disser pra você ficar conosco a gente corre e te pega! Te pega no colo e vem para casa. Se ele disser que tu deve ficar com o teu pai a gente dá um jeito de se esconder. – explicou Fernanda.
- E como a gente faz isso? – perguntou Nina com os olhinhos brilhando.
- Fácil. Tu vai estar com ele e a gente segue vocês, escondidinhas. Aí quando der a gente te faz um sinal e você corre até a gente e aí fugimos e nos escondemos dele pra sempre.
- Tá!!! – concordou Nina animada - Mas quanto tempo vai demorar até a gente fugir?
- Aí eu não sei bem. Pode ser um dia, dois, uma semana. Mas eu te juro, a gente te pega de volta! – disse Fernanda com os olhos marejados de lágrimas.
Nina a abraçou forte. Apesar da confiança nas palavras de Fernanda, a criança estava com medo. Aliás, Valquíria e Fernanda também estavam com medo. Até Pipoca andava desanimada e entristecida nos últimos dias.
- Mãe... eu não quero ir embora daqui. – disse Nina para Fernanda enquanto esta a colocava na cama, cobrindo-a com seu edredom de tecido estrelado.
- Você não vai, meu amor. Se sairmos daqui vamos todas juntas. Nós três e a Pipoca! – respondeu Fernanda dando um beijo na testa de Nina – Boa noite, dorme com Deus e sonha com os anjos. Eu te amo.
- Eu também. Boa noite mami.
Fernanda saiu do quarto e apagou a luz. No quarto delas Valquíria já estava sob as cobertas quentes. Fazia bastante frio naquela noite de inverno. Fernanda se deitou e suspirou profundamente. As duas estavam caladas, olhando para o teto. Não tinham palavras. Após um curto tempo a porta do quarto entreabriu-se lentamente, enquanto uma batidinha leve na porta antecedia um "posso entrar?". Era Nina com Fernando em baixo do braço.
- A gente pode dormir aqui essa noite? O Fernando tá com frio... e com medo...
- Claro, meu amor, - disse Valquíria levantando a ponta das cobertas – vem aqui, vem, corre.
Nina saltou na cama, sendo jogada por Valquíria no meio delas. Aconchegaram-se bem, ajeitando Fernando no travesseiro de Valquíria e Nina junto ao travesseiro de Fernanda. Pipoca, ouvindo a movimentação no corredor, também abandonou a sua caminha ao lado da lareira e entrou pela fresta da porta deitando-se no tapete ao lado da cama, enroscando-se bem e encostando-se à ponta do edredom que caía até o chão.
- Família unida é família feliz! – disse Fernanda.
- E que Deus permita que continue assim... – completou Valquíria.
Finalmente o dia da audiência havia chegado. Marília estava na cidade desde a véspera. Naquela noite ninguém conseguiu dormir bem. Os sonos foram povoados por pesadelos e sensações angustiantes. A manhã arrastou-se lânguida e morosamente. Vovô Salim havia chegado em Santa Cruz do Sul há três dias. Valquíria, Fernanda, Marília e Salim já haviam traçado o plano A e o plano B. O plano C, que Marília desconhecia, havia ficada a cargo de Fernanda e vô Salim. Tudo para garantir a Nina que ficasse com sua família, a família de seu coração. Pouco depois do meio dia Dona Eda e Seu Arno também chegaram a casa delas. Nina estava apreensiva. Valquíria estava uma pilha. Fernanda serviu-se de uma dose de whisky sem gelo antes do almoço.
- Olha lá ein, Fernanda? – repreendeu Marília – Eu preciso de você sóbria.
- Me deixa Marília, eu preciso dar uma relaxada.
- Quem sabe sexo ao invés de álcool?... – brincou Marília ao ouvido de Fernanda, para descontrair.
A morena riu sem graça e deu uma cutucada no ombro de Marília que a fez quase perder o equilíbrio.
- Isso, ainda desconjunta a advogada! Quer botar tudo a perder?
- Vai à merda, Marília. – respondeu Fernanda, também em tom de brincadeira.
A advogada aproximou-se de Fernanda e a abraçou afetuosamente:
- Amiga, ânimo! Onde está a Fernanda que eu conheço?
Fernanda largou o copo, ainda pela metade, e respondeu:
- Tá aqui. – e retribuiu o abraço – Por favor, trás a minha filha pra casa... – implorou com a voz entrecortada pela emoção.
- É isso que eu vim fazer aqui, não é?!!!
Com antecedência de quinze minutos Marília, Valquíria e Fernanda chegaram ao Fórum e esperavam a chamada para a audiência. Um pouco mais tarde Nina, levada por Salim e Dona Eda, chegava ao Fórum e aguardava numa sala contígua.
Pontualmente as quatorze e trinta e cinco foram chamadas para o início da audiência. Tanto Valquíria quanto Fernanda haviam se esmerado na apresentação. Fernanda trajava um conjunto de calça e blaser, de linho azul marinho, com uma blusa de lã bege por baixo, de gola rolê, enquanto Valquíria usava uma saia de lã preta e um casaco, também de lã, cor de vinho, com detalhes em preto. Uma maquiagem discreta disfarçava as marcas faciais de uma noite mal dormida, aliás várias noites insones.
Logo após acomodarem-se nas cadeiras laterais, entraram no recinto o pai de Nina acompanhado de seu advogado. Fernanda respirou fundo tentando conter seu impulso de voar no pescoço daquele homem e estrangulá-lo lentamente. Conseguiu dominar sua fúria e fazer com que seu lado racional prevalecesse naquele momento, afinal precisava estar tranqüila para reverter aquela situação em favor delas.
Valquíria não conseguia encarar os dois homens. Fernanda passou a analisar o homem à sua frente. Era um sujeito bastante alto, mais alto que ela, com certeza, compleição física forte, claro, cabelos quase loiros, olhos numa tonalidade azul água, quase translúcidos. Estava de barba feita e sua vestimenta era simples. Tinha as faces coradas e os olhos vermelhos, próprios de quem é dado ao vício da bebida. Aparentava nervosismo e evitava de olhar na direção delas.
O Juiz era um senhor mais velho, aparentando mais de sessenta anos, sério e com óculos de lentes espessas. Calvo e vestido impecavelmente. O branco de seu colarinho chegava a reluzir em baixo da luz artificial da sala. Iniciou a sua explanação colocando que a audiência tinha como objetivo definir a guarda da menina Anelise.
Era engraçado chamarem Nina de Anelise, pensou Valquíria, raríssimas vezes havia se dirigido a ela desta forma. Foi despertada de seus devaneios quando o advogado opositor começou a falar.
- Meu cliente vem requerer a guarda de sua filha legítima após saber da morte da mãe da menina. Soube que a filha estaria desassistida e deseja cumprir suas obrigações de genitor.
Frente àquela colocação Fernanda mexeu-se na cadeira, sendo contida pela mão de Marília, por sob a mesa.
- E por que somente agora decidiu fazê-lo? E qual o motivo de não haver registrado a filha? – questionou o Magistrado.
- Meu cliente desconhecia a gravidez da ex-companheira. Soube da existência da filha através de sua irmã que trabalha no mesmo hospital da pessoa que está com a menina no momento.
O Magistrado calou-se e examinou as provas constantes no processo referentes aos antecedentes de Adamastor.
- Sr. Adamastor, - disse o Juiz dirigindo-se ao pai de Nina – o senhor se considera apto a cuidar de sua filha?
- Sim senhor – respondeu o homem.
- Mesmo tendo uma, digamos, propensão a envolver-se em situações que infringem a lei? – indagou referindo-se aos processos que tinha.
- Eu estou mudado. Minha filha me fez mudar. Eu já paguei o que devia. Eu tô fazendo tratamento nos Alcoólicos Anônimos, aí deve ter o comprovante, e quero ficar com a menina. A minha irmã vai me ajudar, a minha mãe também.
- O senhor reside aonde? – continuou o Juiz.
- No momento com a minha irmã.
- No momento. E antes?
- Com a minha mãe.
Novamente o Juiz se calou. Marília pediu a palavra, sendo concedida.
- Inicialmente, senhor Juiz, eu gostaria de ressaltar que a menina não se encontra "desassistida" como referiu o nobre colega, muito pelo contrário. Desde o óbito da genitora vem sendo muito bem cuidada por minhas clientes, conforme constam provas nos autos. – disse Marília referindo-se às fotos, boletim escolar e tudo o mais que havia juntado ao processo – e eu gostaria de confirmar algumas datas com o Sr. Adamastor.
- Prossiga. – disse o Juiz.
- Sr. Adamastor, o senhor chegou a viver por oito meses com a falecida mãe de Anelise, correto?
- Sim, foi mais ou menos isso.
- E seria de meados de 1993 até fevereiro de 1994?
- É... acho que foi...
- Acha ou tem certeza? – insistiu Marília.
- Protesto Meritíssimo. – interferiu o advogado – isso não é relevante.
- Responda. – disse o Magistrado dirigindo-se ao pai de Nina.
- Tenho certeza.
- Bom, neste caso, considerando-se que Anelise nasceu em abril de 1994, na ocasião da separação a mãe já estava com sete meses de gestação. E o senhor não havia percebido que sua companheira estava grávida?
- Protesto Meritíssimo. – disse novamente o advogado, enquanto Adamastor se mexia nervosamente na cadeira.
- Continue – disse o Magistrado à Marília.
- Meritíssimo, esse senhor não somente abandonou a companheira gestante como também nunca sequer manifestou o menor interesse no bem estar da criança. Nunca contribuiu em nada para o sustento da menina e o que é pior, negou à própria filha o direito de crescer ao lado de um pai. E agora que a criança está adaptada a um lar estruturado, e feliz, pretende, numa atitude egoísta e sem levar em conta o sentimento da filha, arrancá-la desta rotina estável e saudável e inseri-la quem sabe aonde. Novamente esta criança será exposta ao trauma de ser separada abruptamente das pessoas que ama e que lhe servem de referência.
- Que tipo de referências, nobre colega? – interveio o advogado – E qual o conceito de "lar estruturado" a que se refere? Não me consta que o lar de um casal de lésbicas seja o mais adequado para a criação de uma criança. Será que duas "sapatonas" criariam uma criança com valores morais mais adequados do que o próprio pai?
Valquíria neste momento conseguiu encarar o homem de frente, porém manteve-se impassível. Fernanda também respirou fundo e não mexeu um músculo sequer da face. Marília exaltou-se:
- Eu gostaria muitíssimo, Magistrado, que fosse solicitado ao nobre colega manter a educação e a ética neste tribunal, pois em nenhum momento nos dirigimos ao seu cliente como vigarista, bêbado, arruaceiro e mentiroso, o que de fato é! Portanto, minhas clientes exigem respeito na forma de tratamento. Se o nobre colega possui alguma ressalva ou preconceito em relação ao homossexualismo que tenha pelo menos a decência de tratar da questão com um vocabulário adequado, menos chulo e agressivo.
- Por favor, senhores advogados, mantenham-se! Vamos prosseguir esta audiência com a devida educação! – exaltou-se o Juiz.
- Senhora Valquíria, - continuou ele – a senhora está com a menina desde o falecimento da mãe, correto?
- Correto.
- E na ocasião vivia maritalmente com alguém?
- Não. Eu vivia só quando assumi a Nina, digo a Anelise.
- E agora? Vive maritalmente?
- Vivo.
- E com quem? – continuou o Juiz.
- Com Fernanda. – respondeu Valquíria dirigindo um olhar para sua mulher.
- E desde quando vocês moram juntas?
- Desde janeiro deste ano.
- E a senhora, dona Fernanda, poderia me dizer porque solicita a adoção de Anelise, e não a sua... companheira? Isto considerando-se que era ela quem havia assumido a menina após a morte da mãe.
- Bom, considerando-se que pela legislação vigente seria quase que impossível adotá-la em conjunto com Valquíria, optamos por ser eu quem formalizasse a adoção, pela questão dos bens da família. Meu avô faz questão de incluí-la como uma das herdeiras de seu patrimônio.
- Eu gostaria de ressaltar – interferiu o advogado – que aqui não devem ser consideradas as situações econômicas e sim as questões afetivas e de laços consangüíneos. O fato de meu cliente ser de condição humilde não o faz menos capaz de responsabilizar-se pela filha.
- Com certeza não são as condições financeiras que o impedem de cuidar adequadamente da filha... – disse Marília ironicamente.
- Por favor... – disse o Juiz num tom repreensivo, dirigindo-se à Marília.
- Desculpe. – disse ela.
"Cara deslavada..." pensou Fernanda, rindo internamente da expressão da amiga. "E que grandessíssimos filhos da puta esses dois aí...".
- Bom, é incontestável o fato de que a criança em questão encontra-se bem assistida em suas necessidades, porém a lei é clara, e garante aos familiares biológicos a prioridade nas questões de guarda e de criação. – referiu o Magistrado.
Valquíria desabou com aquela colocação. Fernanda sentiu seu coração pulsar descontrolado e o sangue a acelerar-se em suas veias. Marília interferiu, pedindo novamente a palavra.
- Por favor, senhor Juiz, eu gostaria de fazer mais algumas colocações.
- Pois tem a palavra.
Marília respirou fundo e continuou:
- Sabemos perfeitamente o disposto em lei, Meritíssimo, no entanto o que viemos decidir nesta ocasião envolve muito mais do que um postulado jurídico. Trata-se da vida de uma criança, uma pessoa em desenvolvimento, um ser humano com vínculos, emoções, sentimentos... E vínculos, Meritíssimo, não se fazem da noite para o dia... Afetos se constroem com a convivência, com as pequenas coisas do dia a dia, com os sorrisos a cada manhã, com os puxões de orelha quando necessários, com as noites em claro, com as dores de garganta, com o primeiro dente que cai, com o joelho machucado, com a reunião de pais e mestres, com a ida ao teatro na escola, com as quedas de bicicleta, com os piqueniques de sábado, com a flor colhida no jardim do vizinho, com banhos de chuva, com os beijos de boa noite, com o abraço protetor nos dias de medo... Vínculo é isso, Meritíssimo. E esse sentimento Anelise tem pelas minhas clientes, e não por um pai desconhecido para ela. Aliás, Sr. Adamastor, o senhor conhece a sua filha?
- Conheço... claro que conheço...
- Mas conhece das espiadelas furtivas no portão da escola ou conhece de fato?
- Eu já disse que conheço e pronto.
- Então, qual é o prato preferido de sua filha?... – continuou Marília.
- Protesto Meritíssimo! – pulou o advogado.
- Protesto negado. Responda.
Fez-se breve silêncio, sem que o homem respondesse. Valquíria sentiu os olhos encherem-se de lágrimas, mas conseguiu controlar sua emoção. Marília continuou:
- E o brinquedo preferido de sua filha, Sr. Adamastor, o senhor sabe qual é?...
Novo silêncio.
- E a cor dos olhos de sua filha, o senhor saberia me dizer?
- São... claros...
- Não senhor! São castanhos! – exaltou-se Marília – O senhor sequer conhece a sua filha!
"Olhos, olhos, olhos...", pensava Fernanda, como um turbilhão fervilhando em sua mente, algo estava lhe batendo no inconsciente e não conseguia saber o que era. "OLHOS!!!" Era isso! Como um manto negro que fosse arrancado e deixasse a luz do sol passar, Fernanda virou-se para Marília e puxou-a de encontro a si, cochichando algo veementemente em seu ouvido.
O Juiz bateu seu martelo pedindo silêncio, Marília empertigou-se e em tom mais brando falou:
- Meritíssimo, eu gostaria de fazer uma última pergunta ao Sr. Adamastor.
- Francamente, isso está indo longe demais, senhor Juiz! – protestou o advogado.
- Seja breve. – disse o Juiz dirigindo-se à Marília.
- Sr. Adamastor, o senhor é realmente o pai de Nina?
- Claro que sou.
- O senhor tem certeza disso?
- Tenho... claro que tenho – titubeou o homem.
- Então não se oporia a fazer um exame de DNA?
- Protesto Meritíssimo! – exaltou-se o advogado.
- Se oporia ou não? – insistiu Marília.
- Responda – disse o Juiz.
- Não... isso não é preciso... mas eu faria sim... – disse sem a menor convicção na voz.
- Mesmo tendo a certeza de que daria negativo? – questionou Marília.
- Por favor Meritíssimo – interferiu o advogado – isso é pura perda de tempo.
- Não é não! Pois esse homem não tem chances de ser o pai de Anelise, e ele sabe disso.
- O que a leva a fazer essa afirmação de forma tão categórica, senhora advogada? – quis saber o Magistrado.
- Lições de biologia, senhor Juiz. O Sr. Adamastor tem olhos azuis, a mãe da criança também, logo se tivessem um filho em comum teria necessariamente olhos claros, pelo gene recessivo. Ele não é o pai de Anelise.
Fez-se mais um breve silêncio onde os dois homens cochicharam entre si. Fernanda segurou a mão de Valquíria por baixo da mesa e Marília manteve-se impassível e inexpressiva. Por fim o Magistrado continuou.
- Frente aos argumentos não me resta outra alternativa, para não incorrer em equívocos solicitar um exame de DNA.
- Não é preciso – disse secamente Adamastor – Eu desisto.
- Então o senhor admite que não é o pai biológico da criança? – indagou o Juiz.
- Não sou mesmo. Aquela vagabunda já tava de barriga quando foi viver comigo.
- Modere seu palavreado neste recinto! – exaltou-se o Magistrado – Eu posso enquadra-lo por desacato à autoridade, ou por falsidade ideológica, como desejar! Afinal por qual motivo pleiteava a guarda dessa menina?
Adamastor baixou os olhos e ficou em silêncio.
- Eu posso imaginar, senhor Juiz – disse Marília.
- Pois diga.
- Pelo valor de seguro pago pela morte por atropelamento da mãe da menina. Foi depositado em Juízo.
- Foi por isto, senhor? – indagou o Magistrado.
Adamastor continuou calado, com o olhar fixo no chão. O advogado guardou seus papéis em sua pasta e mal conseguiu disfarçar sua contrariedade por não saber daquela parte da história de seu cliente.
- Não creio ser necessário dar continuidade a esse impasse. Por favor retirem-se, - disse o Juiz aos dois homens – e aguardem do lado de fora da sala. Depois retomamos nossa conversa.
Em seguida virou-se para a oficial ao seu lado e questionou:
- A criança está aqui?
- Sim senhor.
- Então por favor que venha até aqui.
Valquíria e Fernanda estavam com a sensação de terem recuperado a razão de viver, era como se uma pedra enorme houvesse sido retirada de cima de seus ombros, e como se a angústia que lhes apertava o coração houvesse se dissipado como que por encanto.
Marília virou-se para elas e disse baixinho:
- Calma... ainda não terminou. Ainda existe a possibilidade de Nina ser encaminhada a um abrigo.
Novamente Fernanda e Valquíria ficaram apreensivas. Neste momento a porta se abriu e Nina entrou conduzida pela Oficial de Proteção. O dia estava frio e Nina vestia uma calça de lã vermelha e um casacão xadrez com capuz em tecido estofado e quadriculado, nas cores laranja, marrom, vermelho e amarelo. Um gorro de lã amarelo deixava cair pelas laterais o cabelo crespo e solto da menina. Ela ainda usava um par de luvas amarelas, conjunto com o gorro. Ao avistar as mães sorriu para elas, correndo em sua direção. A Oficial chegou a tentar fazer com que se sentasse na cadeira do centro, mas Nina foi mais rápida e abraçou Valquíria, sentando-se em seguida no colo de Fernanda.
- Tudo bem, pode deixá-la à vontade. – disse o Juiz dirigindo-se à Oficial, que fazia menção de chamar Nina para sentar-se em frente ao Magistrado.
Nina encarou o Juiz ciente de que ele a havia chamado para conversar. Pela primeira vez a figura sisuda esboçou um sorriso, cumprimentando a criança:
- Boa tarde.
- Boa tarde. – respondeu Nina educadamente.
- Qual o seu nome?
- Anelise Aguiar. Mas todos me chamam de Nina. E o seu? – quis saber Nina.
Os adultos sorriram frente à espontaneidade da criança.
- João Alberto. E eu sou o Juiz que trata dos casos das crianças aqui nesta cidade.
- Isso eu já sabia. A Val e a Fernanda me disseram.
- E o que mais elas lhe disseram? – continuou o Magistrado.
- Que o meu pai apareceu e quer ficar comigo. Mas eu não quero. Eu quero ficar com elas!
- Anelise... Nina, eu gostaria que tu me contasses com quem moras.
- Eu moro com as minhas mães, a Valquíria e a Fernanda. E a Pipoca, minha cachorra. Eu queria um gato, mas ainda não tenho. Acho que a Pipoca ia ficar com ciúmes.
- Com certeza... – concordou o Juiz – e como é o seu dia?
- Como assim?
- O que é que tu fazes, desde de manhã.
- Bom, eu acordo cedo, eu e a Nanda. A Nanda sai pra correr e eu fico tomando banho e colocando meu uniforme. Aí chega a Antônia, a moça que trabalha lá em casa. Ela faz o café e quando a Fernanda chega eu tomo café com ela. Às vezes ela malha um pouco, eu também, gosto da bicicleta ergométrica! Ela não me deixa mexer nos pesos. Na luva de box eu posso, mas é pesada. Depois do café a gente vai no quarto dar um beijo na Val que ainda tá dormindo. Ela é muuuito dorminhoca – disse Nina olhando com uma carinha levada para Valquíria – Depois a Fernanda me deixa no colégio. Perto do meio dia alguém me busca na escola e me leva pra casa pra almoçar. Às vezes é a Val, ou a Nanda, ou a Antônia, ou a Dona Eda, ou o Seu Arno, que são nossos amigos. Quando a Dona Eda me busca eu fico um pouco na casa dela. Aí de tarde eu tenho escolinha de futebol e aula de flauta-doce. Tem um dia da semana que não tenho nada de tarde, aí eu fico em casa. Nesses dias eu convido meus amigos pra brincar lá em casa, na minha nave espacial!
- Tu tens uma nave espacial? – questionou o Juiz.
- Tenho!!! O senhor pode ir lá em casa ver. Foi o Seu Arno e a Fernanda que fizeram. Cabe assim de gente, ó! – fez um gesto com os dedinhos – Aí eu brinco bastante! Nos dias que eu tenho atividade chego em casa lá pelas cinco horas. A Val sai pra faculdade as seis, agora ela saiu do hospital, tá só estudando, antes ela trabalhava de tarde e ia direto pra aula. Depois que a Fernanda chega a Antônia vai embora. Aí eu tomo banho e faço os temas de casa. A Fernanda me ajuda. Depois a gente janta, eu vejo televisão, brinco no meu quarto, brinco no computador, jogo dominó com a Fernanda, um monte de coisas. Depois eu vou dormir. Às vezes a Val chega depois que eu fui dormir, mas ela vai me dar um beijo assim mesmo. Eu seeempre tenho que escovar os dentes antes de deitar. A Nanda não se liga muito nisso, mas a Val me faz levantar se a Nanda conta que eu esqueci de escovar.
- No que faz muito bem! – assentiu o Magistrado.
- Acabou com o meu cartaz, ein garota. – disse Fernanda em tom de brincadeira.
- Nos fins de semana a gente passeia, se diverte, eu brinco, e é isso. Ah, esqueci de dizer que nas férias eu vou para a casa do meu avô Salim e da vó Ester, lá na Fazenda em Sete Barras. Na verdade eles são avós da Fernanda, meus eles são bisavós. Mas eles não são muito velhos não. O vô Salim tá ali fora me esperando. – continuou Nina.
- A senhorita tem uma vida bem ativa, não é mesmo? – comentou o Juiz.
- É sim. Mas eu gosto mesmo é do futebol. A Fernanda diz que eu jogo bem pacas!
Fernanda sorriu para a menina.
- Joga bem mesmo, campeã.
- E me conte sobre sua casa. Tu tens um quarto?
- Tenho, e é lindo.
- E o resto da casa?
- Tem o quarto delas – respondeu Nina apontando para Valquíria e Fernanda – o escritório, o quarto de hóspedes, o outro quarto que virou academia, a sala, a cozinha e os banheiros. Ah, e tem também o quartinho e o banheiro da Antônia. Tem também a garagem, a casinha da Pipoca, a minha nave espacial, e... e só.
- Muito bem, e qual dessas senhoras é a tua mãe? – perguntou o Magistrado.
- As duas.
- As duas?
- É. Em vez de ter um pai e uma mãe, eu tenho duas mães. E não preciso de pai!
- Mas isso não é muito comum.
- Mas eu não me importo. Eu amo a Val e a Fernanda. Elas são a minha família, depois que a minha mãe morreu. – disse Nina baixando os olhos.
- E tu te sentes feliz?
- Ah-rãã. Eu sou feliz. Acho que é porque eu rezo todos os dias pro meu anjo da guarda. Quando a minha mãe morreu, eu fiquei muuito triste. Mas a Val me explicou que quando Deus precisa de anjos lá no céu ele escolhe umas pessoas legais aqui na terra e leva, por isso ele escolheu a minha mãe, porque ela era boa. Mas em compensação, pra eu não ficar sozinha Deus me mandou a Val. Depois a Nanda. Me mandou duas mães. Acho que Ele gosta de mim. E por isso eu sou feliz. E por isso eu não quero mudar de família.
O velho Magistrado calou-se, examinou novamente os autos, coçou o queixo. Novamente dirigiu-se à Nina:
- Bom, mocinha, a nossa conversa fica por aqui. Agora eu vou pedir que tu acompanhes essa moça que te trouxe, pois nós adultos precisamos conversar mais um pouco.
- Tá bom então, tchauzinho... – acenou para o Juiz, deu um beijo em Fernanda e em Valquíria, e estendeu a mão para a Oficial de Proteção que a conduziria de volta à ante-sala.
Após alguns instantes de silêncio depois de Nina sair da sala, Marília falou:
- Meritíssimo, creio não haver impedimentos para que minhas clientes possam concretizar a adoção da menina. Existem provas nos autos de que a criança está muito bem assistida. Desde que a mãe foi ao óbito Anelise tem recebido os cuidados materiais e emocionais que necessita, prova está de que se trata de uma criança saudável, comunicativa e feliz.
Breve pausa se fez e o Magistrado tirou os óculos e cruzou as mãos sobre o processo aberto em cima de sua mesa. Fitou as três mulheres com seriedade e iniciou seu pronunciamento:
- Este caso configura-se numa situação bastante atípica: a disputa pela guarda de uma criança pelo pai, que se descobre não ser pai, e por uma mãe que vive maritalmente com outra mulher. Sinceramente, eu lhes digo que não entendo essas situações de homossexualidade, e nem aceito. Mas também não cabe neste momento avaliar e julgar o que não está em pauta. Estamos aqui para decidir o futuro da menina que espera ali fora, na sala ao lado. Senhoras, mesmo não entendo e nem aceitando o modo como vivem, não posso deixar de lhes parabenizar pelo que fizeram e continuam fazendo por esta menina. Ela de fato demonstra ser uma criança educada, com valores, com postura adequada para uma criança de sua idade, enfim, uma criança perfeitamente normal, como qualquer criança criada por uma família de moldes tradicionais. Pelas provas constantes nos autos, e pelo que pude constatar nesta oitiva, realmente não encontro nenhum motivo para revogar a guarda de Anelise. Nem tão pouco encontro fundamentos para não dar um parecer favorável ao pedido de adoção da menina Anelise, em favor da Sra. Fernanda Abdala Segati. Expeça-se a guarda definitiva com vistas à adoção. Declaro encerrada a audiência. – proferiu o Magistrado dirigindo-se à escrivã e dando início à redação do termo de audiência.
Valquíria fechou os olhos e segurou firme a mão de Fernanda por baixo da mesa, enquanto uma lágrima, agora liberta, escorria do canto de seus olhos. Marília esboçou um sorriso de sucesso. Fernanda respirou aliviada e disse mais para si mesmo do que para os outros, "graças a Deus". Após a assinatura da documentação, finalmente elas puderam ir ao encontro de Nina, que esperava ansiosa pelas novidades. Pela expressão de felicidade estampada nos semblantes das mulheres, nem foi preciso dizer em palavras qual havia sido o veredicto. Valquíria abriu os braços, indo ao encontro de Nina que correu e se jogou em seus braços.
- Vamos para casa, minha filha...
Nina a abraçou forte.
Fernanda passou pelo avô e disse baixinho em seu ouvido, o que somente Marília que estava ao lado escutou:
- Pode dispensar o helicóptero.
Salim sorriu aliviado.
- O que foi que você disse, Fernanda? – quis saber Marília, desconfiada.
- Nada não... Era só o plano C.
Marília somente balançou a cabeça. Dona Eda desatou numa choradeira só, quando lhe foi dito que estava tudo resolvido e que Nina voltaria para casa com eles.
Passaram para pegar o Seu Arno e foram todos para a casa de Fernanda e Valquíria. Resolveram fazer um churrasco na janta para comemorar. Salim e Seu Arno foram comprar a carne e os demais ingredientes necessários.
Os homens trataram de assar a carne. Antônia, vó Ester e Dona Eda preparam as saladas e os pratos quentes. Valquíria e Fernanda só borboletearam para cima e para baixo, queriam mais era curtir a felicidade de ter a pequena Nina definitivamente em casa.
Após o jantar Nina ficou jogando dominó com Seu Arno, Valquíria e Dona Eda. Antônia tratou de organizar a cozinha enquanto Fernanda, Marília e vô Salim sentaram na área da frente para tomarem um drinque. Enquanto bebericavam Marília questionou:
- Escuta, que história era aquela de helicóptero, ein?
Salim e Fernanda se entreolharam e sorriram.
- Plano C, queridíssima. – respondeu Fernanda.
- Como assim, plano C?...
- Simples, caso não conseguíssemos resolver a situação de Nina pelas vias legais usaríamos outros métodos... – continuou Fernanda.
- Mas isso seria seqüestro!!! – exclamou Marília.
- Chame como quiser, mas eu não entregaria a minha filha assim no mais para um vagabundo qualquer.
- Mas vocês seriam caçadas pela polícia!
- Marília, minha cara, no exterior é difícil encontrar pessoas que sabem se esconder...
- Eu não acredito no que estou ouvindo...
- E se fosse com um dos teus filhos? – perguntou Fernanda.
Marília calou-se pensativa. Por fim respondeu:
- Eu trataria de arrumar um helicóptero...
Os três sorriram.
- Mas, enfim, graças a Deus e a você minha amiga, não foi preciso recorrer ao plano C. – disse Fernanda sorridente.
- A mim não, a VOCÊ! – respondeu Marília – Graças a tua perspicácia e atenção aos detalhes nós ganhamos a causa. Como é que te deste conta do detalhe dos olhos?
- Simples. Eu nunca colei nas provas de biologia. – riu-se Fernanda.
- Mesmo assim, foi muita perspicácia...
- Eu chamaria de desespero.
- Eu chamaria de capacidade de racionalizar, mesmo frente a uma situação de conflito – disse Salim, que até então ouvia atentamente – virtude que serve tanto para se livrar de apertos quanto para enriquecer!... – riu-se o velho.
- Bom, o importante é que agora tudo está resolvido! – respondeu Fernanda.
- E devo dizer que foi uma decisão com duplo sabor de vitória, - continuou Marília – conseguimos garantir uma família para Nina e marcamos um ponto a favor na questão da quebra de preconceitos.
- É verdade... – concordou Fernanda.
- Então vamos brindar a nossa felicidade! – disse Salim erguendo seu copo e sendo acompanhado pela neta e por Marília.
- Saúde e felicidade!!! – disseram os três.
Aquela noite foi especial para todos. Depois das visitas irem para casa e de vovô e vovó estarem acomodados no quarto de hóspedes, Valquíria, Fernanda e Nina foram dormir. Novamente dividiram a mesma cama. Naquela noite queriam Nina no meio delas, bem abraçadinha. Na noite seguinte retomariam a rotina normal da menina dormir em seu quarto. Novamente Pipoca aproveitou a deixa e infiltro-se no quarto delas, enrosquilhando-se nos pés da cama, numa ponta da coberta que caía até o chão.
Salim e Ester ficaram ainda por mais cinco dias com a neta, antes de retornarem a Sete Barras. Marília retornou a São Paulo no dia seguinte à audiência, para supervisionar a rotina de seus filhotes e de seu esposo.
Valquíria, Fernanda e Nina também retomaram suas atividades rotineiras. A primeira semana de setembro trouxe de volta a tranqüilidade àquela família. No final de setembro Fernanda estaria de aniversário, no dia 27, e logo em seguida, no dia primeiro de outubro era Valquíria quem completava mais uma primavera, literalmente. Combinaram de comemorar no dia primeiro de outubro, que cairia num domingo. Resolveram fazer um almoço para os familiares e amigos, porém ainda não tinham definido aonde.
A primavera chegou novamente à cidade de Santa Cruz do Sul colorindo as ruas com as nuances vivas das flores em seu esplendor. O aroma dos jasmins adocicava a brisa suave do entardecer daquela sexta-feira, dia 22 de setembro. Os dias estavam esquentando gradualmente, com temperaturas que permitiam o uso de bermudas e camisetas ao sol. Valquíria estava se dedicando com exclusividade e afinco ao ultimo semestre da faculdade. Estaria formada em menos de três meses e isto a deixava num misto de ansiedade e euforia. As duas conversavam após a janta, enquanto Nina assistia a uma fita de vídeo de um desenho animado.
- Bom, já acertei os detalhes no restaurante do clube. – disse Fernanda.
- Mas tu acha que é mesmo preciso? Quem sabe a gente comemora aqui em casa mesmo.
- Nem pensar. Quero um almoço em grande estilo para comemorar o nosso aniversário este ano. Aliás, nós temos bons motivos para comemorar.
- Com certeza. – concordou Valquíria. – E os teus pais, já confirmaram se vem ou não?
- Eles vêm. Acho que até os meus irmãos vêm, com exceção de Fausto que mora no exterior.
- Que bom. – disse Valquíria – Fernanda... mas no dia 27 a gente podia comemorar o teu aniversário de uma forma especial, e digamos mais... íntima. Não podemos?
- Huuumm, isso é uma proposta?
- Como queira...
- Vou considerar uma proposta... indecente, mas tentadora...
Valquíria sorriu com sensualidade, fazendo Fernanda sentir um arrepio percorrer-lhe a coluna.
- ... E eu aceito... – continuou Fernanda com voz baixa e rouca – e você já tem algo em mente?
- Mais ou menos, eu pensei que talvez pudéssemos ir até aquela boate, onde dançamos juntas pela primeira vez. E depois uma esticadinha... num motel?...
- Ora, ora, a minha esposa está bem saidinha, ein? Mas quem sou eu para não satisfazer os teus desejos? Essa escrava que vos fala está pronta para sucumbir aos teus delírios de luxúria e satisfazer a tua sede de delícias... – respondeu Fernanda teatralmente, fazendo Valquíria gargalhar.
- Me aguarde então! – respondeu a loira.
- Val... tem uma coisa que eu preciso te falar...
- O que é?
- É o vovô, ele ligou para a loja hoje cedo e conversou bastante comigo.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, nada de mais.
- É que pro vovô conversar "bastante", sem se preocupar com o custo da ligação, o assunto deve ser muito importante. – brincou Valquíria.
Fernanda riu e respondeu:
- É bem importante mesmo. Bom, é o seguinte: o vovô está pensando em abrir uma filial da loja na capital, em Porto Alegre.
- E isso significa?...
- Que sou eu que vou gerenciar a loja nova. – disse Fernanda. – Aí ou eu retomo a minha vida de ficar em hotéis durante a semana e vir para casa nas sextas- feiras ou... a gente se muda para a capital.
Valquíria fitou Fernanda pensativamente e questionou:
- E pra quando seria esse empreendimento?
- O mais breve possível. Dois meses, talvez. Ele quer inaugurar antes do Natal, para aproveitar a ocasião.
- Fernanda, nós estamos vivendo juntas e construindo uma vida juntas. Se for o melhor para o nosso futuro vamos para a capital. – disse Valquíria com determinação – Além do mais eu não sou louca de deixar essa mulher-tentação sozinha durante a semana toda!
Fernanda sorriu.
- Meu amor... eu passaria a semana toda sonhando com a sexta-feira, e você sabe disso. Mas eu fico muito feliz em ter de fato uma companheira, uma pessoa que esteja disposta a batalhar junto!
- Mas eu não posso ir antes do término das aulas da Nina. – disse Valquíria.
- Eu sei, nem pensei nisso, mas ela deve entrar de férias no máximo na primeira semana de dezembro. E você também já deve ter concluído o curso nessa data.
- SE DEUS QUISER! – disse Valquíria com as mãos para o alto.
- Val, eu tô pensando em comprar uma casa ao invés de alugar.
- Ai amor, eu não sei, tu que sabe se vale a pena.
- Investir em imóveis sempre vale a pena. E a gente vai acabar ficando por lá mesmo. Tenho o pressentimento que não vamos ficar somente com uma filial em Porto Alegre. E se vamos ficar eu quero ficar bem.
- Será que a Nina vai gostar da idéia? – perguntou Valquíria.
- Criança gosta de novidade, Val. E ela vai ter novos amigos, conhecer novos lugares. As mudanças acabam nos fazendo crescer. E ela é nossa filha, vai ter que ir aonde a gente for, pelo menos até que seja adulta e independente.
- Ai Fernanda, não fala assim. Eu não consigo imaginar a nossa menininha crescida, saindo de casa.
- Mas os filhos são do mundo, meu amor, e com a Nina não vai ser diferente... – disse Fernanda amorosamente.
- Eu sei... mas prefiro não pensar. Pelo menos por enquanto.
- Tá bom. Mas então eu posso começar a procurar a nossa nova casa? – perguntou Fernanda.
- Claro que pode. – assentiu Valquíria.
- Depois de tudo mais ou menos encaminhado a gente conversa com a Nina, ok?
- Tudo bem.
- Mas voltando ao assunto que muito me interessou... fala com a Dona Eda pra ela ficar com a Nina no dia 27. Afinal a noite e a madrugada prometem...
- Pode deixar.
As duas se entreolharam com paixão e cumplicidade, firmando a promessa de comemorarem à duas o primeiro aniversário de Fernanda que passariam juntas.
No dia 27 Fernanda foi acordada por Nina, que se jogou sobre ela ainda adormecida, cobrindo-a de beijos e abraços. Valquíria também se acordou com a fuzarca e aproveitou para afofar Fernanda com beijos e braços. As três tomaram o café da manhã juntas. Fernanda trabalhou na loja somente pela manhã. Ao meio dia pegou Nina na escola e almoçou em casa com elas. O dia estava com uma temperatura agradável e Fernanda convidou Valquíria para dormirem um pouco numa enorme rede de casal que estava estendida à sombra entre duas árvores no fundo do quintal, enquanto Nina brincava no pátio, entretida em sua espaçonave, cujas únicas tripulantes na ocasião eram ela e Pipoca. Valquíria queria mesmo descansar para estar bem disposta à noite. Adormeceram abraçadas e dormiram profundamente. Um pouco antes das dezesseis horas Dona Eda e Seu Arno chegaram na casa delas, trazendo um enorme bolo confeitado. Antônia já os aguardava de soslaio no portão, enquanto Nina, em silêncio, vigiava as dorminhocas, afinal queriam fazer uma surpresa. Antônia já havia feito salgadinhos, e comprado bebidas. Nina a ajudou a encher balões coloridos, que ficaram escondidos no quarto de Antônia. Rapidamente decoraram a mesa da sala e penduraram os balões. Quando tudo estava ajeitado Nina correu para o fundo do quintal.
- Manhêê... – chamou a pequena.
Valquíria e Fernanda se espreguiçaram, haviam dormido direto e estavam doloridas de ficarem na mesma posição.
- O que foi, garota... – quis saber Fernanda ainda sonolenta.
- Vem aqui dentro um pouco!
- Pra que?...
- Surpresa!!! – exclamou Nina e saiu correndo.
- Vamos lá ver o que me espera! – brincou Fernanda.
Valquíria riu e a acompanhou de mãos dadas.
Ao entrarem na sala todos irromperam no cântico do "Parabéns a você", enquanto velinhas com o numero 35 ardiam ao lado de hastes incandescentes espetadas no bolo, que se consumiam espalhando faíscas luminosas e pareciam querer transformar o bolo num espetáculo de queima de fogos de virada de ano. Quando terminaram de cantar Fernanda fez um pedido e apagou as velinhas, que teimavam em reacender-se a cada nova assoprada, até que por fim, vencidas pela persistência de Fernanda, sucumbiram num pavio enegrecido. Nina correu na direção dela, jogando-se em seu colo, abraçando-a afetuosamente e cobrindo-lhe a face de beijos. Valquíria também a abraçou e lhe deu um "selinho" nos lábios. Era engraçado como manifestações de carinho como aquela não chocavam mais as pessoas que conviviam com elas, muito pelo contrário, os amigos conseguiram assimilar a magnitude do sentimento que as unia, e o carinho expresso por contatos físicos passou a ser encarado com naturalidade.
As sete e meia Dona Eda e Seu Arno foram para casa, levando Nina com eles, conforme previamente combinado. Antônia passaria a noite ali para cuidar da casa. Antes das nove da noite estavam prontas e saíram para Porto Alegre. Por volta de onze horas adentraram no bar onde haviam se tocado de forma mais íntima pela primeira vez e onde puderam pressentir, no sabor do primeiro beijo, o que o destino reservava para ambas.
Dançaram muito, divertiram-se novamente no videokê e quando o relógio marcava quatro e quinze da madrugada pegaram o carro e foram para um motel para dar continuidade às comemorações do aniversário de Fernanda.
A aniversariante escolheu o melhor motel que conhecia e pediu champanhe no quarto. Brindaram à saúde e à felicidade e fizeram amor. Amaram-se até quase a exaustão, entregaram-se àquele sentimento que as transformava em um só ser, em uma só energia, em um só coração. Adormeceram nuas, com pernas e braços entrelaçados, sob lençóis de seda azulada, onde ficava difícil distinguir onde terminava uma e começava a outra, tamanha a proximidade e o enlace dos corpos das amantes.
Na manhã seguinte retornaram para Santa Cruz do Sul, e embora estivessem sem pressa era necessário que Fernanda passasse na loja no início da tarde. Agora precisavam se preparar para o almoço de domingo.
E finalmente o domingo chegou. Fernanda e Valquíria acordaram cedo, antes de Nina. Os avós e os pais de Fernanda haviam chegado na sexta-feira, e estavam hospedados na casa delas. No dia anterior foi a vez dos irmãos de Fernanda chegarem. Vieram Salimzinho e a esposa e Raul, sendo que se hospedaram no hotel Edelweiss, por recomendação de Fernanda.
Ao meio dia foram todos para o restaurante do clube, que reservou um dos salões para a festa de Fernanda e Valquíria. Além da família de Fernanda estavam presentes Dona Eda, Seu Arno, Antônia, Lourdes e mais alguns funcionários da loja, os donos do Hotel Edelweiss e Otávio. Eram cerca de vinte e cinco pessoas. Divertiram-se bastante. Fernanda contratou um grupo musical da região, que tocava músicas alemãs, de bandinhas. Depois do almoço muitos convidados acabaram entrando no clima festivo do compasso musical e entraram a tarde dançando alegremente. Seu Arno, com as faces rosadas pela quantidade de chope ingerido, rodopiava com Dona Eda pelo salão. Vovô Salim e vovó Ester também eram uns pés de valsa. Todos se divertiram muito.
No início da noite os familiares de Fernanda retornaram para suas cidades, somente Salim e Ester permaneceram até a terça-feira, para ficar mais um pouco com Nina.
No mês de outubro Fernanda dedicou-se exclusivamente a nova filial do Magazine Libanês em Porto Alegre. A loja de Santa Cruz ficou sob a gerência de Davi, auxiliado por Lourdes. Além da loja Fernanda procurou uma casa na capital Rio-grandense do Sul. Fernanda passou o mês viajando de uma cidade para outra. Por vezes ficava em Porto Alegre, quando se sentia muito cansada para enfrentar a estrada. Valquíria estava prestes a concluir seu curso e se dedicava com exclusividade a ele. Nina também estava quase entrando na época dos exames finais na escola.
Era início de novembro e Fernanda conversava com Valquíria após o almoço naquela tarde de domingo.
- A loja está quase pronta para a inauguração. Faltam somente detalhes – disse Fernanda – acho que vamos inaugurar na próxima semana.
- Que ótimo. Sabe, Fernanda, eu gostaria que este final de ano já tivesse passado... são tantas etapas por concluir, e mudanças por ocorrer.
- Logo, logo passa. Quando a gente menos espera já foi. – respondeu Fernanda – Olha só, eu achei uma casa bem boa, bom estado e bom preço. Fica num bairro um pouco afastado do centro, no extremo sul, mas vale a pena pelas belezas naturais do lugar. E como a nova filial fica no bairro Azenha, acaba dando só uns vinte minutos de carro. Eu gostaria que pudéssemos vê-la ainda esta semana, pois quero me mudar logo que a Nina acabar as aulas. Até porque a minha mulherzinha já vai ter recebido sua nota final...
- Nem me fala, quando eu penso que é na semana que vem, chega a me dar dor de barriga! – disse Valquíria.
Fernanda riu-se.
- Calma, vai dar tudo certo.
- Eu sei, mas mesmo assim sinto um frio na barriga.
- Normal... Bom, então que tal você ir comigo para Porto Alegre amanhã? A gente volta no fim da tarde. A Dona Eda pega a Nina na escola pra gente.
- Pode ser. – concordou Valquíria animada.
No dia seguinte viajaram para Porto Alegre bem cedo. Antes das nove horas estavam pegando a chave do imóvel na imobiliária, no bairro Tristeza. Rumaram para a zona sul da cidade. Quanto mais se afastavam do centro tanto mais a paisagem se modificava, e ao passarem pelo bairro Hípica até mesmo o ar ficava diferente. Os prédios altos cediam lugar a casas de no máximo dois pisos. O cenário urbano ia se transformando numa paisagem mais rural, onde o verde dos morros contrastava com o céu azulado daquela manhã de novembro.
Quando chegaram no bairro Belém Novo Valquíria se encantou com a simplicidade do pequeno centro, onde um único semáforo orientava o fluxo pouco movimentado do trânsito local. Em frente à igreja Nossa Senhora de Belém ficava uma escola pública e uma praça, onde uma figueira anciã espalhava sua sombra generosamente como que a abraçar o seu redor e os bancos de pedra onde os passantes costumavam descansar e onde havia uma feirinha de artesanato em alguns dias da semana. Na mesma quadra, dobrando a esquina, havia uma escola particular onde Fernanda planejava matricular Nina. No espaço de apenas algumas quadras Belém Novo congregava tudo o que era indispensável para seus moradores: duas farmácias, três supermercado, uma peixaria, o Banco, três restaurantes, um bazar, uma lotérica, duas lojas de calçados, duas lojas de 1,99, três ferragens, uma sorveteria, uma relojoaria, uma padaria, uma loja de autopeças, uma vidraçaria, um fotógrafo, duas locadoras de fitas, dois CTGs, uma lojinha esotérica, uma cabeleireira, dois consultórios médicos, dois consultórios veterinários, duas lojas de roupas e confecções, uma papelaria, o cartório, enfim, o básico para que seus moradores não precisassem se deslocar até o centro de Porto Alegre toda vez que precisassem de alguma coisa. Valquíria estava adorando aquele cantinho afastado do centro da capital. Seguiram pela rua principal, e após dobrarem à direita na sinaleira foram até a beira da praia, onde o Rio Guaíba exibia suas águas, naquele momento quase que sem ondas, parecendo um grande lago de cristal incrustado entre morros de vegetação cerrada. Suas águas eram de uma coloração escurecida, ainda resquícios de anos de descaso das autoridades que permitiram o escoamento de toda a rede de esgotos em suas águas. Obras para a despoluição do Guaíba haviam sido concluídas recentemente, porém a natureza leva tempo até se restabelecer das agressões que sofre. Mas o Guaíba certamente se restabeleceria e suas águas novamente seriam o refúgio para os dias escaldantes dos verões, onde crianças e adultos compartilhariam a mesma sensação de alegria ao banhar-se naquelas águas circundadas por tão exuberante natureza.
Fernanda e Valquíria seguiram até o final do asfalto e continuaram por uma estrada de chão batido, que era apelidada de Volta do Veludo, tendo o rio de um lado e do outro a encosta do morro do Veludo. Mais adiante Fernanda desviou por uma estrada que subia o morro e lá do alto se avistava o Guaíba e parte da Barra do Ribeiro. Uma escadaria de pedras cercada por vegetação semicerrada permitia que se chegasse a pé até a estrada por onde haviam passado. Como estavam de carro seguiram pela estrada circular e novamente chegaram na rua principal. Fernanda ainda rodou pelo bairro mostrando a Valquíria os pontos mais conhecidos daquela localidade. Por fim estacionou o carro em frente a uma ampla residência de dois pisos mais um mezanino, há uma quadra da igreja. Havia um portão automatizado, porém tinham somente a chave do portão auxiliar. A casa estava desocupada e o proprietário tinha pressa em vender, por motivo de mudança de estado. Como a casa que ocupavam no momento, aquela também possuía um pátio frontal e outro pátio maior nos fundos, inclusive com uma piscina ovalada medindo cerca de sete por quatro metros. A casa possuía cinco quartos, duas salas, uma suíte, uma cozinha com dois ambientes, garagem para três carros, churrasqueira e dependência de empregada, além do espaçoso e ensolarado mezanino, todo envidraçado e de frente para a torre da igreja. Conforme o esperado por Fernanda, Valquíria adorou a casa e o bairro. E Nina também iria gostar. Valquíria não gostava do burburinho das grandes cidades e aquele bairro era tranqüilo o suficiente e não muito longe do centro da cidade.
Naquela manhã decidiram que aquela seria a casa delas. Passaram na imobiliária e acertaram a compra.
Na semana seguinte Valquíria obteve aprovação em seu curso, com nota final 9,8. Nina entrou em férias e Fernanda providenciou a mudança para a sexta-feira, dia 17 de novembro. No dia 24 houve a inauguração da filial do Magazine Libanês.
Dona Eda e Seu Arno ficaram muito entristecidos pelo fato de Nina estar se mudando para outra cidade, porém compreenderam os motivos de Fernanda e Valquíria e acabaram auxiliando na mudança e prometendo visitá-las com freqüência. Antônia acabou vindo junto. Já há algum tempo enfrentava problemas de relacionamento com seu marido, e como seus filhos estavam adultos e independentes, aproveitou para por um fim no seu casamento desgastado e começar uma vida nova.
O Natal foi passado na casa nova, com a presença de Dona Eda e Seu Arno e dos avós de Fernanda, Salim e Ester. Os pais acabaram ficando em São Paulo, pois o irmão de Fernanda estava por chegar do exterior e passaria o Natal com eles.
Naquele ano Fernanda não conseguiria tirar férias, devido à demanda de trabalho na loja, naqueles primeiros tempos de funcionamento. Mas não abria mão de passar os domingos em casa com seus dois amores: Valquíria e Nina. Também tentava chegar o mais cedo possível em casa durante a semana e nas tardes de sábado. Mas da metade do ano em diante a situação se estabilizaria e ela teria mais tempo de dedicar-se à família.
Nina foi matriculada na escola que ficava há uma quadra de sua casa e acabava indo a pé, levada por Antônia, embora insistisse em querer ir sozinha, alegando saber o caminho de olhos fechados. Havia se adaptado muito bem à nova casa e à nova cidade. Sua única preocupação na ocasião em que foi informada da mudança foi com sua "nave espacial", questionando se poderia leva-la junto, fato solucionado facilmente em contato com a firma de mudanças. Desta forma seu veículo espacial repousava soberbo no pátio ao lado da piscina, continuando a encantar seus colegas de escola e a sediar a maior parte das brincadeiras da turma.
Valquíria montou seu consultório dentário em Belém Novo mesmo, conseguindo uma ótima clientela, quer pelo seu excelente trabalho e dedicação, quer pelo fato de não haver muita concorrência no bairro.
O inverno chegou e com ele as férias de julho. Nina foi novamente para a casa do vovô Salim que contava os dias para receber a bisneta. Depois levaria a menina para visitar Dona Eda e Seu Arno, antes de traze-la de volta para casa, no final do mês.
Naquele sábado, após duas semanas de chuva intensa, o sol voltou a brilhar, tímido, mas mesmo assim irradiando sua luminosidade que transformava as tonalidades cinzentas do inverno em prenúncios de primavera, apesar de faltarem ainda dois meses para a estação das flores.
Fernanda havia ficado em casa, deixando a Loja aos cuidados do subgerente. Pretendia dedicar o dia ao descanso. Após o almoço dormiu um pouco e quando acordou sentiu falta de Valquíria que havia adormecido a seu lado.
No mezanino iluminado pelos raios do sol que já iniciava sua descida rumo às águas do Rio Guaíba, Valquíria observava o parapeito interno da janela onde uma carreira de vasos de violetas das mais variadas cores adornava a vidraça e refletia a luz solar. Perdida em seus pensamentos sorvia lentamente uma caneca de chocolate quente para espantar o frio. Não chegou a sobressaltar-se quando Fernanda a abraçou por trás, uma vez que havia escutado seus passos subindo pela escada de madeira envernizada. Beijou-lhe a nuca carinhosamente, fazendo Valquíria encolher-se num arrepio, sorrindo para ela.
- Fugiu de mim?...
- Não, meu amor, só acordei antes... – respondeu Valquíria beijando a boca de Fernanda com suavidade.
- Tá bom...
- É que tu tava dormindo tão bonitinha, com um beicinho de soninho... aí não tive coragem de te acordar. – disse Valquíria docemente.
Fernanda a abraçou bem forte de encontro ao peito, enquanto observava a paisagem da grande janela envidraçada.
- O dia hoje está lindo... – disse Fernanda.
- E o céu com o azul maravilhoso dos teus olhos... – respondeu Valquíria.
Fernanda sorriu e disse apaixonadamente:
- Eu me sinto a mulher mais feliz do mundo, sabia? Aliás, é você que me faz sentir assim.
- A recíproca é verdadeira. Sabe, eu tava aqui pensando em como a nossa vida mudou desde que a gente se conheceu...
- E mudou pra melhor. – respondeu Fernanda.
- Pois é... Quer um chocolate? É bom pra esquentar. – ofereceu Valquíria.
- Huuumm... acho que eu quero outra coisa pra esquentar... – disse Fernanda maliciosamente enquanto ligava o ar condicionado do aposento e puxava Valquíria para o sofá encostado à parede lateral.
Naquele fim de tarde elas se amaram até que o astro rei imergiu nas águas profundas do Rio Guaíba e seus últimos raios deixaram de iluminar a torre da igreja, cedendo lugar à luminosidade fria da lua cheia que nascia no lado oposto da abóbada celeste.
Adormeceram nuas e abraçadas envoltas num edredom alaranjado e com a certeza de que a felicidade estava ali bem ao lado, ao alcance da mão.
E viveram felizes para sempre???...
Com toda a certeza, mas com a plena convicção de que a felicidade não é um achado e sim uma conquista, não é uma situação, e sim um modo de ser e de encarar a vida.
FIM