Disclaimer: Essa é a primeira de muitas histórias que pretendo escrever. A finalidade desta era um concurso de fanfictions que se realizou no final do ano de 2000 e a intenção era participar numa categoria que ia até 20 páginas no estilo UBER. Com o tempo a história foi tomando vida própria e saiu do meu controle, crescendo de forma assustadora. Resultado: não terminei a história a tempo e, com isso, não consegui entrar no concurso!

Um detalhe interessante é que minhas personagens, Andréa Baccio e Carolinne Le Blanc, não são como as que estamos acostumados a ver na maioria das fanfictions. Elas têm semelhanças com as protagonistas da série, mas não se prendem a elas no desenvolver da história. Mas o amor que uma sente pela outra é indiscutível e mais forte que os laços sangüíneos. É um amor verdadeiro, desses que rompem todas as barreiras e duram para o resto da vida.

Essa história fala da relação entre duas mulheres adultas e contém descrições de cenas violentas e de sexo, portanto imprópria para menores. Se você é menor de 18 anos é melhor esperar um pouquinho para ler!

Se quiser imprimir a história fique à vontade, me sinto muito lisonjeada; mas não deixe de colocar esse disclaimer junto.

Se você gostou me fala, me escreve e se não gostou também. Pode soltar o verbo, é assim que a gente melhora! Meu e-mala é [email protected]

Obrigada pela atenção e... Have Fun!!!

Deya

O Último Café em Paris

Deya

[email protected]

 

Eram dez horas da noite, segunda feira. A lua iluminava uma linda Paris, banhada por um mar de estrelas; um bom motivo para largar o atelier, todos aqueles desenhos e rabiscos para tomar um cappuccino. O Café Paris era o lugar ideal. Apesar de ter saído de lá há poucas horas, porque era lá que Carolinne fazia um de seus "bicos" para poder continuar se sustentando, a grande verdade é que ela não conseguia ficar longe do lugar. Ali era mais como sua própria casa. Trabalhava como garçonete na parte da manhã e da tarde, e à noite se entregava ao trabalho em suas telas, sua verdadeira paixão. Também fazia desenhos para um jornal; toda ajuda era bem vinda para ela e, apesar do jornal não pagar muito bem, dava para sobreviver, juntando com o que ganhava no Café.

Já haviam se passado quase dois anos que a França ganhou do Brasil na Copa do Mundo. Conviver com aqueles franceses estava ficando difícil, pois eles ficaram extremamente insuportáveis, se achando os donos do mundo. Esse também era um bom motivo para Carolinne se trancar em seu apartamento todos os dias depois do expediente no Café. Trabalhava em seu atelier a noite toda; isso a ajudava a evitar as gozações inevitáveis de seus amigos franceses. E como se já não bastasse todos no país estarem contra ela, ainda havia seu noivo, Gustav, o mais arrogante de todos. Carolinne se perguntava todos os dias se existia algum francês mais chato que ele quando o assunto era futebol; ele não perdia a oportunidade de dizer que ganharam dos campeões do mundo e isso a deixava irritadíssima. Apesar dela não ligar muito para a competição em si, não gostava de ser provocada. E, afinal de contas, ela era brasileira; como poderia aturar tamanha afronta?

O atelier ficava dentro de seu apartamento. No meio da sala tinha apenas um pequeno sofá velho e sujo de tinta, uma mesa baixa, que havia virado uma espécie de "porta-tudo", vivendo constantemente lambrecada de várias cores, e uma escrivaninha cheia de cadernos, revistas e folhas, onde Carolinne fazia seus desenhos para a coluna do jornal.

Antes de ser comprado por Carolinne, o apartamento era um grande galpão que não era usado já há algum tempo. Não foi difícil comprar o imóvel da prefeitura; apenas teve que assinar alguns contratos afirmando que não transformar o lugar em mais um daqueles covis de delinqüentes juvenis. Conseguiu um preço muito bom; mesmo assim, Gustav a ajudou a pagar na época.

O primeiro andar foi transformado num ateliê, onde ela espalhou todas as suas telas e desenhos pelas paredes e em qualquer espaço que estivesse sobrando; num quartinho nos fundos ela colocou uma geladeira e um fogão, para que o lugar ficasse um pouco mais parecido com uma casa. No segundo andar havia dois quarto e um pequeno banheiro. Um dos quartos, o maior, ela pegou para si e colocou cama, armário e uma cadeira reclinável, onde passava alguns minutos do dia descansando e escrevendo alguns poemas. No outro quarto ela fez uma grande reforma e juntou-o com o banheiro, onde colocou uma banheira de hidromassagem. Ela não ligava se seu apartamento não tinha luxo, ou se tinha aparência de tudo, menos de um lar, mas dava uma atenção especial para o seu banheiro; passava mais tempo relaxando na banheira que em sua própria cama.

Passou as mãos pelo cabelo e sentiu que eles estavam um pouco sujos por causa da tinta. "Preciso tomar um banho", pensou.

Lavou os pincéis, guardou as tintas e as telas, e foi tomar um banho demorado, pois era difícil tirar toda aquela sujeira das mãos e dos cabelos.

Retirou a roupa e parou em frente ao espelho; gostou do que viu.

- Tenho que voltar a me exercitar; não vou conseguir manter meu corpo assim por muito mais tempo se continuar parada desse jeito!

Após alguns minutos de extremo relaxamento e uma chuveirada básica, sentiu-se nova. Saiu do banheiro e foi procurar algo confortável para vestir. Depois de olhar suas roupas por alguns segundos, colocou uma calça cargo bege desbotada com uma camiseta verde musgo; uma boina, que a deixava com um ar intelectual e ao mesmo tempo muito sexy, e um velho par de botas; esse ela não trocava por nada.

Ao sair do apartamento deparou-se com Pierre, um basset marrom, que pertencia ao único vizinho que Carolinne tinha; ele sempre era esquecido do lado de fora.

- Pierre!! Coitadinho de você; ele te largou aqui de novo? Espere aqui que eu vou chamá-lo, ok?

O pequeno cão abanou o rabo com tanta força quanto era sua felicidade em ver Carolinne. Ela chamou Arnaud, o vizinho. O velho, depois de agradecer, colocou a pobre criatura para dentro. Carolinne, então, seguiu seu caminho para o Café Paris, aonde chegou em alguns minutos.

Conhecia Bernard, o dono, desde quando havia se mudado para Paris, há um ano; foi idéia dele ela começar a trabalhar lá. Ele era um francês gordo com cara e jeito de italiano. Falava alto e gesticulava muito, diferente dos demais franceses, sempre muito discretos e arrogantes.

Ao entrar no Café, notou que Bernard estava sentado numa mesinha olhando alguns papéis e rabiscando qualquer coisa. Chegou perto e ele fez sinal para que ela sentasse ao seu lado.

- Como vai, senhor Bernard?

- Ainda me chamando de senhor, minha filha? Você pode me chamar só de Bernard!

- Ok... Mas o que houve com o senhor hoje... Notei que não esteve aqui nem de manhã, nem de tarde... Está doente?

- Antes fosse, minha filha... Negócios, negócios. Lembra que lhe contei que estava precisando de dinheiro para pagar algumas dívidas, contas, coisas desse tipo? Pois bem, não tive escolha senão vender o Café. Sei que devia ter conversado com você e com Rogèr antes... Achei que ia conseguir resolver tudo, mas as coisas foram ficando feias, saindo do controle... Talvez esses sejam os últimos dias do Café Paris...

- Oooh, meu Deus! Porque o senhor não aceitou o empréstimo quando lhe ofereci? Daria para pagar todas as dívidas e o senhor não perderia o Café! Naquela época o dinheiro das telas ainda não havia acabado...

- Sei, sei... E como lhe pagaria depois? Deixe estar, minha filha, deixe estar... As coisas não duram para sempre, principalmente as que já estão tão velhas...

- Não fala assim, Bernard... Mas quem foi que comprou o Café?

- Uma empresária que estava de olho neste ponto há alguns dias... Ali! Está vendo aquela mulher, perto da janela? Pois foi ela quem comprou o Café; quer transformá-lo numa dessas galerias de arte que você tanto gosta de ir...

Ele fez uma pequena pausa para tomar fôlego e continuou.

- Depois nós vamos conversar direito para ver o que é que vai acontecer com você e Rogèr. Deixe-me ir agora; tudo isso deixou esse seu velho amigo muito cansado, vou descansar a cabeça um pouco; preciso estar com ela bem fria para pensar nisso...

Ele acenou para o jovem garçom que atendia algumas mesas e este veio rápido em sua direção.

- Rogèr... Continue cuidando de tudo para mim hoje, ok?

- Pode deixar, senhor.

Bernard virou-se novamente para a jovem e lhe deu um suave beijo no rosto, saindo do Café em seguida, muito cabisbaixo. Podia-se ver a tristeza nos olhos dele; tantos anos trabalhando ali e agora tudo estava perdido. Carolinne começou, então, a imaginar se não haveria um jeito de salvar aquele lugar que ela tanto gostava e que tanto a ajudou quando ela veio morar em Paris. Talvez se ela conversasse com a tal mulher ambas pudessem chegar a um acordo.

Sentou-se num banquinho ao lado do balcão e ficou observando aquela estranha mulher; sempre fazia isso quando ia pintar um quadro, parava e ficava olhando cada detalhe de seu alvo para ver se descobria algo. Ora, ela era uma artista muito sensível e observadora; não precisou procurar muito para achar algo que pudesse usar ao seu favor. A mulher, que estava sentada numa mesa perto da porta, chamava a atenção por seus belos olhos azuis e seus cabelos negros muito lisos; vestia-se com elegância e tinha um ar superior e sério. Ela olhava pela janela enquanto tomava um cappuccino com creme. Carolinne pensou que seria mais fácil começar uma conversa de negócios se a conhecesse melhor. Algumas idéias começaram a passar por sua cabeça; talvez fossem absurdas, mas a raiva de ver o velho Bernard tão triste por causa de uma desconhecida a moveria, até mesmo, a fazer o impossível. Claro que o fato de não ter tempo para ficar arquitetando planos tornava a situação mais delicada.

Levantou-se do banco onde estava e foi andando em direção à mulher, olhando-a como se tivesse descoberto uma jóia rara. Parou à sua frente e deu um grito que a assustou; ela estava distraída.

- "Cé magnifique!"

A outra a olhou com um misto de emoções impossíveis de se explicar. Percebendo isso, Carolinne se desculpou.

- Desculpe se a assustei, mas seu rosto parece uma pintura! Uma mistura de beleza e serenidade... Gostaria muito de poder colocá-lo em uma de minhas telas!

Agora a mulher estava realmente espantada e, olhava a jovem com uma cara de quem pergunta "quem é essa estranha que aparece assim, de repente, quase me mata de susto e ainda me vem com essa história de querer me pintar?" Parecia que ia mandar Carolinne embora ou para algum lugar pior, mas algo a impediu de tomar essa atitude e apontou a cadeira à sua frente sugerindo que a jovem se sentasse.

Carolinne não hesitou e sentou-se logo na frente daquela estranha. Sentiu um arrepio por todo o corpo; parecia que os olhos daquela mulher podiam invadir sua mente e descobrir suas verdadeiras intenções. Tentou se concentrar, não queria passar para ela que estava insegura diante daquela situação. Foi a misteriosa mulher quem tomou a iniciativa da conversa.

- Obrigado pelo elogio; acho que isso compensa um pouco o susto que me deu. Suponho que posso, pelo menos, saber seu nome?

- Le Blanc; Carolinne Le Blanc.

- Senhorita Le Blanc. Humm... Assina suas telas assim?

- Huhumm... Por que?

As feições da mulher mudaram ligeiramente de incomodada para curiosa, e um leve sorriso surgiu em seu rosto mostrando que ela era ainda mais bela do que se podia imaginar.

- Que coincidência! Estive numa exposição no Brasil há alguns anos e vi alguns de seus trabalhos; até comprei uma de suas telas, o "Vale de Ouro".

- Sério!

Carolinne relaxou um pouco diante daquela estranha que, de certa forma, já a conhecia há algum tempo através de seus trabalhos. Já havia se esquecido da exposição que fizera no Brasil, apesar do sucesso de suas telas. Quase todas foram vendidas e isso a ajudou a pagar algumas contas, quando ainda estava no Brasil e a mudar-se para Paris, onde pretendia estudar um pouco mais sobre arte.

Hesitou em continuar com seu plano inicial; não sabia se seria mais adequado tentar uma tática mais sincera, mas o fato é que, aquela mulher era realmente muito linda e, de qualquer forma, odiando ou não, Carolinne estava decidida a pintá-la.

Saindo do transe que os olhos da mulher lhe impunham, tentou continuar a conversa.

- Ah... Gostou? Que bom! Já conhece meu trabalho... Me deixe pintá-la, então, senhorita... Humm... Me desculpe a falta de educação por não perguntar seu nome antes.

- Baccio; Andréa Baccio

- Ótimo, madame Baccio...

- Sem "madame", por favor; isso faz com que eu me sinta velha!

- Humm... Certo. Mas... Você também gosta de arte, pelo que me falaram.

- Já estou tão conhecida assim? Bom saber que faço diferença em qualquer lugar que vou.

Carolinne teve vontade de virar uma xícara de cappuccino naquela esnobe arrogante. Respirou fundo e superou essa vontade. Com um sorriso meio sem graça retomou a conversa, que durou mais alguns minutos até que a outra olhou para o relógio e constatou que estava um pouco tarde.

- Humm... Foi bom conhecê-la, Carolinne. Como está tão bem informada sobre minha pessoa, imagino que já deve saber que comprei esse Café e pretendo investir neste espaço transformando-o numa galeria de arte. - Ela fez uma pausa, tomou o restinho do café e continuou - Se todos os seus trabalhos forem como os que eu vi naquela exposição, tenho certeza de que ainda nos encontraremos por aqui... Claro, se você não se importar de me mostrá-los depois.

"Expor meus trabalhos? Isso seria ótimo!"; pensou a jovem. Só que em meio àquela euforia, Carolinne percebeu que estava se perdendo em seu plano. Organizou as idéias na cabeça e voltou à realidade.

- Humm... Ótima idéia. E... Quando pretende fechar o Café?

- Talvez mais para o fim do mês. - a mulher não entrou em detalhes - Gostaria de ver suas telas qualquer dia desses; depois pensamos nessa história de você me pintar. A idéia de ter meu rosto pendurado numa parede me incomoda um pouco.

- Veremos! Que tal amanhã... Eu saio do serviço às seis da tarde.

- Humm... Amanhã não posso; tenho outros compromissos. Deixe-me ver... Venha almoçar comigo na sexta-feira no restaurante chinês aqui perto. Humm... Às duas da tarde; depois podemos ver suas telas. Está bom para você?

Depois de fazer uma cara de "será que é uma boa idéia?", pois teria que pedir para Bernard liberá-la mais cedo, Carolinne concluiu que não teria oportunidade melhor. Concordou, então, com a sugestão de Andréa. Em seguida, ambas se despediram e foram embora.

Andréa ficou olhando Carolinne caminhando pela rua. A jovem era mais baixa que ela, mas de uma beleza muito suave, que transmitia uma paz estranha aos que se aproximavam dela. Seus cabelos eram cor de ouro, cortados rente à nuca com a franja um pouco maior, o que lhe dava um charme a mais quando ela os tirava dos olhos; estes eram verdes e pareciam estar sempre à procura de alguma coisa. Apesar da simplicidade de suas roupas, era extremamente charmosa.

Esperou até que a jovem saísse de sua visão, ligou o carro e foi embora.

 

Chegando ao seu apartamento, Carolinne notou o Xsara azul parado na porta; Gustav a estava esperando. Subiu, meio desanimada, pois sabia que ele iria implicar dela não estar em casa numa segunda-feira à noite e, principalmente, por estar chegando àquela hora. Quando abriu a porta do apartamento deu de cara com ele.

- Onde você estava? - ele falou num tom de voz ríspido - Estou aqui há horas e nada de você ligar! E porque não levou o celular?

- Humm... Me desculpe, esqueci... É que fui até o Bernard tomar um café e acabei perdendo a hora; trabalhei o dia todo e estava cansada de ficar trancada aqui dentro... Você acredita que ele vendeu o Café?

- Sei, sei... Bom, amanhã vou passar aqui para jantarmos juntos.

- Humm... Amanhã? Acho que não vou poder sair para jantar; tenho que organizar minhas telas porque parece que surgiu uma oportunidade bem interessante; vou negociar algumas delas para uma exposição, uma possível investidora, quem sabe...

- Mas será que toda vez que combinarmos de sair juntos você vai arrumar alguma desculpa para não ir? Qual o seu problema?

Carolinne havia se esquecido de que havia combinado de jantar com seu noivo justo naquele dia; aquilo seria motivo para mais uma briga.

- Humm... Eu sei, Gustav; me desculpe... Mas é que apareceu esse imprevisto; você sabe como é difícil de encontrar pessoas que queiram expor o trabalho de alguém que está começando, principalmente aqui em Paris.

Ele olhou-a com desprezo, como sempre fazia quando ela falava de sua profissão e, despedindo-se com um beijo seco, foi em direção ao elevador.

- Já vai?

- Estou cansado. Se tivesse um emprego de verdade saberia como é... Passei aqui só para te ver. Quando você tiver tempo para mim, me procure.

Ele entrou no elevador e foi embora. Carolinne não teve tempo para uma resposta; deixaria para uma outra hora. As coisas estavam um pouco complicadas porque Gustav não gostava do estilo de vida que Carolinne levava e as brigas estavam cada vez mais freqüentes.

Deixando de lado as preocupações com o "chato", deitou-se no sofá. Fechou os olhos e viu o rosto de Andréa. Sacudiu a cabeça para esquecer daquela mulher mas o fato é que não conseguia tirar aquele rosto de sua mente. Vai ver era porque Andréa é a mulher mais linda que tinha visto nos últimos dias.

Mesmo com raiva por aquela mulher estar tirando do velho Bernard o que ele tanto amava, levantou-se, pegou uma pequena tela, um lápis de carvão e fez um esboço do rosto dela assim como a conhecera no Café. Em poucos minutos o rosto enigmático estava à sua frente, da mesma forma que o havia visto da primeira vez, olhando pela janela uma Paris que acordava para a noite. Terminado o desenho, fitou-o com admiração e sem falsa modéstia. "Eu sou boa, mesmo!", pensou alto. Ela sabia que tinha talento, mas aquele desenho havia ficado perfeito! Sorriu satisfeita e, colocando o lápis sobre a mesinha, recostou-se novamente no sofá.

- Me aguarde, senhorita Andréa; isso ainda vai dar muito pano para manga!

E adormeceu.

Quando acordou no dia seguinte, Carolinne não se sentia muito bem. Nos últimos dias ela não estava comendo direito, e sim se entupindo de porcarias; com certeza, isso estava acarretando revoluções no seu corpo. Levantou-se, tomou um banho. No relógio marcavam dez e meia; havia dormido demais. Tinha que aproveitar o dia de folga para dar uma ajeitada no apartamento já que ia receber a visita de Andréa na sexta; não podia fazer feio na primeira numa ocasião tão importante!

Começou pela sala, que tinha uma certa semelhança com uma sala de jardim de infância; dessas que TODAS as crianças brincam com tubos de tinta e o resultado já se pode imaginar. Arregaçou as mangas e foi guardando algumas latinhas dentro de caixas que ficavam espalhadas de baixo da pequena mesa. "Não sabia que tinha tantas cores!"; espantou-se Carolinne. Passava tanto tempo trabalhando e esparramando suas coisas que acabava perdendo a noção de tudo que tinha.

Colocou as duas caixas que encheu em cima da pequena mesa e começou a varrer o chão. "Meu Deus! Quanto tempo será que eu não limpo isso aqui?" Uma poeira fina misturada com tinta raspada estava se acumulando já há algum tempo e deu um pouco de trabalho para varrer a sala/atelier inteiro.

Quando já eram três horas da tarde, Carolinne estava exausta, e nem havia passado pano no chão para dar uma aparência de limpo. A falta de exercícios começava a surtir efeito; todos os seus músculos doíam e só o que ela queria era tomar um banho quente e relaxante na sua banheira. Resolveu parar para tomar um café e comer alguma coisa.

Foi até a pequena cozinha e constatou que sua melhor opção, mais uma vez, seria ir até o Café. O hábito de fazer esses pequenos lanches na companhia de Bernard estava fazendo com que ela se esquecesse que precisava ter comida em casa também!

- Que vergonha! Tenho que fazer algumas compras... Como é que vou receber uma visita do tipo daquela Andréa se não tenho nada para oferecer?

Largou o pano de chão num canto, ajeitou seu cabelo colocando a boina, bateu a mão nas roupas retirando um pouco da poeira, e saiu em direção ao Café. Já eram quase cinco horas da tarde; por isso estava com fome. Ficou tão entretida com a limpeza do apartamento que não viu o tempo passar.

Em poucos minutos chegou ao seu cantinho preferido, o Café Paris. Foi direto ao balcão, onde mais gostava de se sentar quando não estava em serviço; assim poderia conversar com Bernard sem atrapalha-lo.

- Hei, Bernard... Como está hoje?

- Normal... Estou sentindo sua falta aqui no Café... Isso aqui fica meio sem graça sem você, acredita? Mas o que VOCÊ faz aqui? Disse que tinha que dar uma geral no seu apartamento...?

- Pois é... É que minha geladeira está meio ruim esses dias... Não tive tempo para fazer minhas compras do mês então vim aqui para me deliciar com essas gostosuras todas que você vende!

- Pode me bajular mesmo, minha filha; estou mesmo precisando...

- O que aconteceu?

- Aquela mulher veio aqui hoje cedo com uns engenheiros, arquitetos, sei lá mais o que, e ficou tirando medidas, apontando aqui e ali, falando que queria tirar isso e aquilo... Isso me deixou um pouco chateado; mas te ver me anima um pouquinho.

- Não fica assim não, Bernard; vou ver se posso dar um jeito nisso.

- Mas como, minha filha, se a mulher já está decidida a mudar tudo? Só um milagre para me salvar...

- Nunca ouviu falar que no Brasil para tudo existe um jeitinho... Me aguarde!

Carolinne pediu o de sempre: croissants e cappuccino com creme; e enquanto Bernard atendia os outros fregueses ela ficou ali pensando como faria para ajudar seu velho amigo.

Andréa estava em seu escritório com seu contador e alguns negociadores que haviam acabado de chegar da Itália.

- Então fica desse jeito, Luigi. Você acerta o preço com a transportadora e faz a gentileza de avisar aos cavalheiros quando as obras chegarem. Qualquer problema me avise de imediato; você sabe como e onde me encontrar.

- Ok, Andréa; pode deixar que resolvo tudo.

Andréa cumprimentou seus convidados e acompanhou-os até a saída. Luigi veio, então, ao seu alcance com uma cara não muito boa. Notou que ele queria dizer qualquer coisa que, provavelmente, não a deixaria muito satisfeita.

- Fala logo... O que foi dessa vez?

- É que... Luca está dando um pouco de trabalho para seus pais; achei que gostaria de saber.

- De novo? Obrigada... Vou ver se arrumo um tempo para ir dar uma olhada nesse "bambino" e dar uns puxões de orelha nele!

- Se precisar de qualquer coisa é só pedir.

Ela agradeceu apenas com um sorriso e voltou aos papéis que estavam em sua mesa. Antes de Luigi sair voltou-se para ele.

- Luigi... Você conhece uma artista que assina "Le Blanc"?

- Não... É nova?

- Mais ou menos... Na verdade conheci o trabalho dela no Brasil há alguns anos, ela é de lá. Gostei muito. Sabe aquela tela que ficava na sala do meu apartamento em Milão? Pois é; é dela. Engraçado esse negócio de coincidências, mas encontrei com ela ontem no Café Paris. Ela veio com um papo estranho de que queria me pintar e confesso que tive vontade de matá-la, mas alguma coisa me chamou atenção. Estava pensando... Seria interessante dar uma olhada nos trabalhos dela.

- Humm...

- Marquei nessa sexta, mas acabei de me lembrar... Tenho alguns assuntos para tratar, coisas no meu apartamento...

- Eu e Filipe podemos resolver o que estiver pendente. Se realmente acha que essa mulher tem talento...

Andréa sentiu uma certa ironia no ar.

- Por que esse tom irônico? Acha que estou interessada em outra coisa que não seja estritamente profissional?

Luigi lançou-lhe o mesmo olhar irônico de antes e sorriu.

- Não falei isso... É que você nunca foi muito aberta para novos negócios, sempre teve seus fornecedores de confiança e...

- Sempre é tempo para mudanças!

- Você é quem sabe...

Ele pegou suas pastas e seus documentos e se retirou, deixando Andréa com uma pequena dúvida.

"Será mesmo SÓ profissional?" Essa pergunta começou a martelar sua mente. Preferiu não pensar mais nisso, afinal, estava dando continuidade ao seus sonhos; outra galeria onde ela poderia mostrar todo o seu dom. E ela tinha mesmo um dom: descobrir novos talentos. Se Carolinne fosse mesmo uma revelação, ela só teria a lucrar com isso.

- Humm... Não posso perder essa oportunidade.

Olhou em seu charmoso relógio de bolso; quase cinco horas. "Acho que vou comer alguma coisa. - pensou alto.

Ajeitou suas coisas, de maneira que ficassem bem organizadas. Já ia saindo quando passou em frente a sala de Luigi, onde ele fazia algumas ligações.

- Quer almoçar?

- Almoço? A essa hora? Isso está mais é para jantar!

- O que for... Vamos?

- Humm... Acho que vou ficar te devendo essa, Andréa... Estou aguardando alguns telefonemas importantes agora no final da tarde. Fica para um outro dia, pode ser?

- Humm... Sem problema. Te vejo amanhã.

- Até...

Ela saiu do prédio e caminhou em direção ao seu carro. Guardou suas coisas no porta-malas e entrou rápido; uma chuvinha começava a cair. Quando se ajeitou no banco, começou a se perguntar se estava realmente com vontade de jantar.

- Acho melhor deixar para jantar mais tarde... Nem estou com tanta fome assim... Talvez um lanche ou até mesmo um...

Ligou o carro e já sabia, com certeza, para onde iria.

Carolinne estava desenhando em um guardanapo de papel. Havia uma menininha sentada duas mesas à sua frente que chamou sua atenção e ela resolveu desenhá-la.

Quando fazia os últimos retoques, notou alguém entrando. Claro que a jovem não pode deixar de notar que se tratava nada mais, nada menos, de que Andréa; linda como da primeira vez que a viu. "Uma pessoa tão linda assim deve ter um pouquinho de bondade no coração e a mente aberta para outras possibilidades", pensou a jovem enquanto fingia não notar na mulher que entrava pela porta. Percebeu que Andréa também a observava da porta.

A empresária estava vestindo um conjunto da calça cinza e uma blusa preta, com um aconchegante sobretudo cinza claro por cima; lá fora estava um pouco frio por causa da chuva. Ela era realmente muito charmosa... Mas a raiva que Carolinne sentia só servia para que ela a visse apenas como uma pintura, um objeto, nada mais que isso.

Sem ter como fugir do contato, Carolinne apenas rezou para que a outra não viesse em sua direção. Ledo engano; os passos da mulher se dirigiam justamente para onde a jovem estava.

Esperou, então, que ela viesse lhe cumprimentar.

- Boa tarde, senhorita Le Blanc; como vão as coisas?

- Bem, obrigada... Mas por favor, não precisa me chamar de senhorita, senão serei obrigada a chamá-la de madame novamente! Pode me chamar de... Le Blanc.

- Como preferir, Le Blanc. Me chame de Baccio, se é assim...

- Como preferir... Senhorita Baccio.

Andréa notou uma certa hostilidade no tom de voz de Carolinne, mas preferiu não comentar nada... Por enquanto.

- Coincidência você por aqui. - questionou Andréa tentando puxar assunto.

- A bem da verdade, venho muito aqui. Já você... O que faz por aqui numa tarde de terça-feira?

- Aparentemente, o mesmo que você; vim tomar um cappuccino, relaxar um pouco. Tenho que admitir que esse tal de Bernard tem mesmo o jeito para tocar esse lugar.

- É claro que tem; ele já trabalha aqui há trinta anos!

Andréa tinha que admitir; alguma coisa estava errada. Por que aquela garota sentia tanta raiva assim dela? Seria porque ela estava fechando aquele Café velho? Humm... É, podia ser.

-Bernard; capriche num cappuccino para essa "senhorita" aqui; afinal de contas ela é a dona agora... - e virou-se para Andréa - E esse é por minha conta, "chefe".

Carolinne deixou o dinheiro em cima do balcão e tornou a olhar para Andréa.

- Nos encontramos na sexta?

- Bom... Se preferir, podemos aproveitar a ocasião; você pode me mostrar suas telas agora... O que acha?

- Acho que não é uma boa idéia... Meu apartamento está meio bagunçado ainda e não quero causar má impressão.

- Não se preocupe com isso; estou interessada apenas no seu trabalho.

Carolinne achou melhor não levar Andréa até seu apartamento naquele momento; a semana não demoraria a passar e na sexta ambas conversariam sobre o Café, Bernard, suas telas, ou o que quer que fosse.

- Desculpe-me, Andréa, mas acho melhor não. Nos encontramos na sexta... A que horas mesmo?

- Deixe-me checar...

Andréa retirou uma pequena agenda eletrônica da bolsa e consultou-a.

- Às duas.

- Certo; estarei aqui. E outra coisa... Talvez seja melhor irmos direto para meu apartamento porque, como hoje estou de folga, na sexta tenho que cumprir meu horário aqui. Obrigada pelo convite.

- Você trabalha aqui... - Andréa olhou meio desconfiada para a jovem, mas aceitou as desculpas - Humm... Tudo bem.

Carolinne levantou, despediu-se de Bernard e saiu do Café. Antes de sair ainda deu uma discreta olhada para trás e bateu de frente com o olhar gelado de Andréa. Sentiu-se um pouco incomodada com aquilo, mas deixou para lá. O que ela queria mesmo era chegar rápido em seu apartamento, acabar de arrumar tudo e tomar um longo banho... "Isso sim vai ser muuuuuito bom!", pensou a jovem exausta.

Andréa encarou Carolinne até a hora em que a jovem virou-se e fechou a porta do Café; meros segundos, mas que duraram uma eternidade. Aquela garota a estava deixando intrigada.

Virou-se, então, para Bernard que servia mais um café a um senhor ao seu lado e reparou que o velho já não era o mesmo de dois dias atrás "Tudo isso por causa desse Café?", pensou.

- Bernard... Há quantos anos você trabalha aqui, mesmo?

- Mais de trinta...

- Então você deve conhecer o tipo de pessoas que freqüentam o Café, não é mesmo?

- É... Durante esses anos todos a clientela mudou muito; só vivendo tanto tempo para ver o que já passou por aqui. É cada coisa...

- Sei. Bom... Depois tenho que acertar algumas coisas com você o com seus funcionários. Vou voltar aqui mais para o fim da semana e conversamos.

A bela mulher tomou o último gole do seu café e levantou, dirigindo-se à porta. Saiu e entrou em seu carro, mas antes de ir embora, parou para pensar em algumas coisas que iam e vinham em sua cabeça incessantemente. "Não posso fechar essa porcaria de Café; ele já faz parte da história dessa cidade. Tenho que encontrar um jeito de aproveitar esse espaço sem que seja necessário uma mudança muito radical. Quem sabe esse tal Bernard continua trabalhando aqui... Aí aquela garotinha abusada vai parar de me olhar daquele jeito."

Ligou o motor e já ia arrancando quando brecou de uma vez.

- Mas o que raios está acontecendo comigo? Como se o que ela acha ou deixa de achar fizesse alguma diferença para mim!

Com um misto de raiva e alguma outra coisa que ela não sabia identificar (ou não queria), arrancou bruscamente e foi para o seu apartamento.

Carolinne chegou ao seu apartamento e soltou um longo suspiro quando viu o Xsara azul parado à porta. "O que ele está fazendo aqui de novo, Mon Dieu?", pensou alto.

Entrou no velho elevador, que subiu fazendo toda aquela barulheira de coisa velha se mexendo e em poucos segundos estava em seu apartamento. Gustav estava sentado no sofá lendo uma revista. Ela parou à sua frente com uma cara de interrogação tão expressiva que ele não pode deixar de perguntar o que estava acontecendo.

- Qual o problema, meu amor; parece cansada?

- E não deveria? Estou arrumando esse apartamento o dia todo; só saí agora para comer alguma coisa porque não tinha nada aqui. E você, o que faz aqui?

- Não posso mais vir visitar minha noiva? Puxa...

- Sem drama, Gustav! Desculpa... É que eu estou tão cansada e ainda tenho que acabar de arrumar algumas coisas. Meu corpo está dolorido, eu estou me sentindo um lixo, doida para tomar um banho...

Gustav se levantou e veio abraçar a jovem que visivelmente estava esgotada. Mas ele não queria apenas abraçá-la; queria sentir seu corpo, sua pele. Começou, então, a beijar seu pescoço, apertando-a cada vez mais para junto de si. Carolinne estava tão cansada, até mesmo para falar que não era o momento para fazer aquilo. Mas lutou contra esse cansaço e tentou soltar-se dos braços fortes de Gustav.

- Meu amor... Agora não... Preciso acabar de arrumar isso aqui; estou esgotada!

- Ah, Carol... Quanto tempo nós não nos deitamos ali naquela caminha gostosa, héin? Que tal a gente ir para lá, só um pouquinho...

Ele a estava puxando para o quarto e sem deixar com que ela saísse de seus braços. Começou a tirar a blusa da jovem e beijar todo o seu corpo.

Uma coisa estranha estava acontecendo com Carolinne já a algum tempo; ela não estava sentindo aquele prazer que sempre foi tão evidente no relacionamento dos dois. Ela não queria aquilo, não naquele momento e ele a estava forçando. Sem ter muito o que fazer ela juntou o resto de suas forças e o empurrou para frente, olhando-o com muita raiva.

- Ficou louco, Gustav? Qual a parte do "eu estou cansada" que você não entendeu?

- O que há de errado com você, Carolinne? Sabe há quantos dias não fazemos amor? Você está querendo o que? Me matar? É abstinência, agora?

- Deixa de besteira... Já disse que estou cansada; é só isso! Tenho que dar um jeito nisso tudo aqui porque na sexta-feira a tal Andréa Baccio vem aqui para ver minhas telas; quem sabe ela compra algumas ou as coloca em exposição, héin? Ia ser ótimo, não acha?

Ela viu aquela mesma cara de sempre; a mesma que ele a olhava há meses quando o assunto era o trabalho dela. Isso a deixava chateada e estava afastando os dois mais e mais a cada dia. Há dias não saiam juntos, não conversavam... Não faziam amor. Alguma coisa estava muito errada, mas nenhum dos dois via o que era; o fogo daquela paixão toda havia se esgotado. Talvez porque ambos foram precipitados demais ficando noivos tão jovens e não puderam ver a verdade; as coisas não são como naquele mundo encantado que todos pintamos quando estamos apaixonados.

- Você tem certeza que é só por causa desse seu trabalho? Podemos fazer uma viagem, só nós dois, para algum lugar distante, conhecer algo diferente... O que você acha?

- Gustav... Acorda! Você não ouviu nada que eu falei? Tem uma pessoa interessada no que eu faço. Não dá para jogar tudo para o alto de uma hora para outra. Você acha que tudo pode ser resolvido assim, "chutando o balde"? As coisas não são assim não, meu amor. Esse mundo em que você está vivendo é totalmente fora da realidade; pára e pensa um pouco. O mundo não gira em torno de você!

- Humm... Tudo bem, Carolinne. Você parece que entende tudo do mundo, da vida... Acho que esqueceu que eu te ajudei a pagar essa espelunca que você mora e...

- Alto lá, rapazinho! Espelunca, não! Meu apartamento tem tudo que eu preciso e não te devo nada; eu peguei emprestado e, quando recebi a grana das telas, te paguei tin-tin por tin-tin! Nunca mais ouse falar assim comigo!

- Certo... Eu vou embora, então. Quem sabe acho alguma coisa mais interessante para fazer do que ficar aqui ouvindo você me insultar.

Ele ajeitou a roupa e saiu do apartamento, batendo a porta violentamente.

- Que chato! O que deu nele? Será que ela não está vendo que eu estou pregada? Só pensa em sexo!

Carolinne olhou a sua volta; estava tudo praticamente arrumado, só faltava passar um pano para ficar brilhando.

- Pano? Sai fora!! Vou é relaxar um pouco na minha banheira; é disso que eu preciso. Tenho que esfriar a cabeça para poder pensar o que vou falar para aquela megera quando nos encontrarmos.

Retirou o macacão sujo de poeira e preparou um banho dos deuses. Entrou na banheira e jurou que nunca mais ficaria tanto tempo sem fazer uma demorada visita àquele santuário de prazer! Olhou o relógio na parede, sete horas da noite. "Daqui vou direto para a minha cama", pensou alto.

Depois de duas horas de relaxamento total, a jovem saiu da banheira, tomou uma rápida chuveirada e deitou-se em sua cama totalmente nua; estava cansada demais para se preocupar com roupas naquele momento.

Andréa estava em seu apartamento checando algumas notas da alfândega e outros documentos, quando o telefone começou a tocar. Esperou que Filipe atendesse, mas após o terceiro toque, lembrou-se que o havia mandado à farmácia para comprar algumas aspirinas; uma dorzinha de cabeça estava começando a incomodar.

- Quem será a essa hora... Alô?

- Ei, minha irmãzinha linda! Fala a verdade: está morrendo de saudade desse lindão aqui, ou não?

- Luca! Que bom ouvir sua voz! Como é que você está?

- Estaria melhor se me deixassem fazer o que eu quero... Achei que você ficaria do meu lado, mas já vi que a "mama" fez a sua cabeça, também!

- Ela não fez nada, atrevido! Fiquei sabendo foi de outras fontes que você anda aprontando por aí...

- ... Então mandou o babão do Luigi para me encher a paciência, não é mesmo?

- Olha como fala, menino! Luigi só fez um favor para mim e espero que você tenha entendido meu recado.

- Hum-hum... Fazer o que, não é? Mas vê se não esquece que mês que vem é meu aniversário, viu! Você vem para cá?

- Vou tentar, meu amor... Mas você sabe que eu acabei de mudar para cá; está tudo bagunçado no meu "apê". Vou ver como é que eu faço, ok?

- Qualquer coisa eu vou aí te visitar!

- Deus me livre!! Paris não precisa passar por isso!!

- Hehehehe!! Mas você bem que gostaria, não é?

- Humm... É difícil de dizer... Mas manda um abraço para todos aí, viu? E não esquece: te amo, capiche?!

- Também te amo!

Andréa desligou o telefone e recostou-se em sua cadeira. Ficou pensando se seria bom trazer Luca para Paris, para passar uns tempos; assim ele ficaria debaixo dos seus olhos e não causaria mais aborrecimento para seus pais. Mas Luca não era um adolescente rebelde; era apenas... adolescente! Chato, invencível, incurável e dono de todas as verdades, como geralmente eles são! Pensaria nisso com carinho e muita paciência.

- Tenho que pensar nisso direito; esse bambino vai infernizar minha vida aqui!

Continuou com seu trabalho e só parou quando Filipe chegou com suas aspirinas; já era meia noite. Tomou algumas e foi para a cama.

- Acho que estou precisando de férias... Só faltava agora essas dores de cabeça para me atormentar; já não chega todo o trabalho que tenho para cuidar dos negócios. E ainda tenho que me encontrar com aquela garota na sexta... Tomara que eu esteja certa com relação a ela.

Deitou-se e ligou a televisão. Poucos minutos depois adormeceu.

A semana transcorreu numa boa, sem maiores novidades. Andréa não apareceu mais no Café desde terça e, por incrível que pareça, Carolinne se sentiu um pouco aliviada com isso. A presença daquela mulher a incomodava de alguma forma que ela ainda não sabia explicar; talvez fosse arrogância, mas a jovem já não a achava assim. Pelo contrário, Andréa estava se revelando muito simpática e talvez até pudesse sorrir espontaneamente algum dia para ela. A verdade é que aquela mulher despertava uma curiosidade em Carolinne que ela não podia entender, a menos que enxergasse as coisas com outros olhos.

Na sexta-feira a jovem levantou cedo; sete e meia da manhã. Estava super bem disposta; há muito tempo não dormia tão bem.

- Vou fazer umas comprinhas; preciso colocar alguma coisa nessa geladeira!

Passou água no rosto e trocou de roupa. Abriu a janela do quarto e viu que estava frio lá fora. Vestiu uma calça jeans velha (ela realmente adora roupas velhas!), uma camiseta branca e uma blusa de flanela por cima. Mesmo vestida dessa maneira simples ela ficava linda!

Saiu do apartamento, pegou o elevador e dirigiu-se para o supermercado que ficava no fim da rua. Era um estabelecimento pequeno, mas que sempre tinha tudo que ela precisa. Comprou alguns biscoitos, patês, geleias, pãezinhos para o café da manhã (não podia ficar a vida inteira tomando cappuccino no Café Paris!), pegou também alguns congelados para uma refeição noturna rápida e alguns saquinhos de polpa natural de frutas; sua favorita era a de morango. Juntou tudo num carrinho e dirigiu-se ao caixa. Lá encontrou Antoinne, uma garota que conheceu quando mudou-se para Paris e foram, aos poucos, se tornando grandes amigas; ela trabalhava no caixa.

- Mas vejam só quem apareceu! Achei que estava fazendo greve de fome.

- Não debocha não, sua chata. É que não tenho tido tempo para sair e fazer compras e...

- ... E aposto que vai receber alguém em casa e está sem nada... Acertei?

- É isso mesmo, espertinha.

- Você devia comprar mais algumas coisinhas, então...

- Você sabe que não levo muito jeito para fazer comprar, Antoinne! E além do mais, não é nada especial que mereça que eu me preocupe com o que oferecer; é só porque eu, realmente, não tenho NADA em casa!

- Sei... E Gustav, como está?

- Não estamos muito bem... Não sei o que está havendo; parece que a gente está meio que... Esfriando! Será que eu estou ficando maluca, ou quê?

- Alguma explicação tem, lindinha... Vai ver você só não captou ainda... Sei lá!

- Que papo mais estranho, Antoinne! Bom... Deixa eu ir porque tenho que tomar um banho ainda e está quase na hora de pegar no pesado. Aparece lá na hora do almoço que a gente bota a fofoca em dia.

- Oba; adora fofoca! Vou sim!

Elas se despediram e Carolinne voltou para seu apartamento.

Chegando lá, a jovem guardou suas compras e aproveitou para jogar fora algumas coisas que estavam vencidas.

- Que horror... Não me lembro de ter comprado isso!

Após terminar tudo, correu para o chuveiro e tomou um banho rápido. Vestiu a mesma roupa que estava antes, com a diferença de que, ao invés da blusa de flanela colocou um moletom vinho que tinha o nome do Café Paris bordado no peito; era uma espécie de uniforme. Colocou o par de botas que não abria mão por nada no mundo; mesmo tendo outros sapatos preferia aquela velha bota confortável. Olhou-se no espelho; o cabelo estava daquele jeito de quando se dorme com ele molhado e acorda parecendo um espantalho. Penteou para cá, para lá, e, não gostando de nenhum jeito, deu uma sacudida na cabeça e deixou que ele ficasse de qualquer jeito mesmo. Pegou sua bolsa e foi para o Café; já estava atrasada.

Andréa não gostava de acordar tarde; eram raras as vezes que fazia isso. Apesar de ser a dona de algumas galerias e do escritório no qual trabalhava, gostava sempre de chegar mais cedo para dar o exemplo. Mas algo a prendeu na cama naquele dia. Espreguiçou, esticou os braços, os dedos, mas quando olhou para o lado levou um susto; havia alguém deitado ali. Chegou perto para ver o rosto. Parecia um anjo, mas ela sabia quem era; Carolinne! "O que ela está fazendo aqui?", pensou. E quando ia levantar para procurar Filipe para que ele lhe desse alguma explicação, a jovem, que encontrava-se nua ao seu lado, virou-se e abraçou-a. Naquele exato momento Andréa perdeu todas as suas forças e se entregou ao abraço quente daquela jovem. Sentiu a pele macia da outra encostando em todo seu corpo e não acreditou que aquilo pudesse realmente estar acontecendo. Virou-se, então, para Carolinne.

- O que você está fazendo aqui?

- Por que... Não gostou?

- G... Gostei, mas... Não esperava isso... Assim... Já?

- Não espere nada de mim; se você quiser vai ter que vir buscar!

Nesse instante, enquanto ela passava a mão nos cabelos da jovem e preparava-se para beijá-la, acordou. Assustada com o que havia acabado de sonhar, olhou para o lado, para ter certeza de que havia acordado. Não havia ninguém ao seu lado e ela estava abraçada com seu travesseiro. Sentiu um alívio estranho que logo foi substituído por uma sensação de perda; aquilo tinha sido gostoso... E tão real! Mas... O que significava?

Olhou no relógio da cabeceira; onze e meia.

- Putz!!

Levantou correndo e tomou um banho. Ajeitou o cabelo com um passador, colocou uma calça preta de linho, uma camisa branca, um pulôver e um casaco escuro de lã.

- Filipe... Avise Luigi que vou chegar atrasada... Não devia ter tomado aquele monte de remédio, acabei apagando. Fala para ele que vou passar no escritório e deixar os documentos em que eu estava trabalhando ontem à noite.

- Sim, madame... Mais alguma coisa?

- Humm... Ah, claro. Avisa também que vou passar na galeria e depois vou até o Café Paris; tenho uma reunião com aquela senhorita Le Blanc. Passo no escritório mais tarde, se der tempo.

- Como quiser.

Enquanto Filipe saía do quarto, Andréa deu uma última ajeitada na roupa, pegou a chave do carro e foi embora.

Passou primeiro no escritório e deixou os documentos para Luigi; em seguida foi para sua galeria, que ficava perto do Luvre. Tinha que checar algumas entregas que chegaram da Alemanha e da Itália; algumas peças iriam a leilão daqui a alguns dias.

Uma e meia da tarde. Carolinne estava naquela habitual correria; servindo um café aqui, um croissant ali, e por aí vai. Entre um cliente e outro ela dava um pouco de atenção à Antoinne, que a observava do balcão. Quando todos já haviam sido atendidos, Carolinne sentou-se um pouco ao lado de sua amiga e elas conversaram durante alguns minutos.

- Puxa! Isso aqui está movimentado hoje, héin! Será que todo mundo já sabe que o Café Paris vai acabar e veio tomar um último cappuccino?

- É; deve ser... Mas e essa tal mulher; será que vai rolar mesmo esse lance das suas telas? O que eu estou achando estranhíssimo é que você nem a conhece e já a convidou para ir até seu apartamento!

- Também não sei porque fiz isso; havíamos combinado de encontrar num restaurante aqui perto, mas mudei de idéia. Acho ela meio estranha; tem um olhar que me deixa desconcertada...

- Acha que ela vai te ouvir quando você falar para não fechar o café?

- Não sei, Anne... Não sei mesmo. Não consegui ler nada no rosto dela; é a mulher mais enigmática que já vi... Mas daria uma linda pintura!

Nem bem acabou de falar e Andréa entrou no Café. Estava realmente linda, como das outras vezes. Carolinne olhou para Antoinne e apontou com o queixo para a mulher que entrava.

- É essa aí...

As duas olharam juntas para Andréa que, apenas com um olhar, cumprimentou Carolinne de longe. Ela sentou-se na mesma mesa que havia sentado no dia em que Carolinne a conheceu.

A jovem levantou-se e foi até a mesa da outra com seu caderninho para anotar o pedido.

- O que deseja?

- Humm? Ah, é mesmo; havia me esquecido que você trabalha aqui.

- É... Uma ajudinha a mais no final do mês.

Andréa olhou a jovem com ar curioso. "Quem sabe essa garota pode me ser útil... Mas que diabo de sonho foi aquele?", pensou ela sem tirar os olhos da jovem.

- Então você é muito mais do que uma simples artista?

- Todos somos muito mais do que aparentamos... Deseja algo para beber?

- Recomenda alguma coisa?

- Temos um cappuccino shake que é uma delícia; é servido frio e vem com chantilly, se preferir.

- Parece muito bom. Quero um desse e um croissant, por favor.

- Como quiser.

Carolinne anotou o pedido e passou para Bernard, que estava atrás do balcão. Ela já havia falado com o velho amigo do convite da outra para almoçar, depois ver suas telas e, às duas horas, ela sairia para resolver isso.

- Quando você quiser pode ir, minha filha. Eu e Rogèr cuidamos de tudo aqui.

- Calma, Bernard! A coisa hoje está meio feia aqui! E ela vai fazer um lanche ainda... Enquanto isso ajudo vocês dois.

- Toma, leva o pedido dela e... Olha, ela parece que está te chamando... Vai lá, vai, vai!

Realmente, Andréa acenava para que Carolinne fosse até ela. A jovem pegou a bandeja e dirigiu-se para lá. Colocou o cappuccino em frente a Andréa e o croissant ao centro da mesa. Esperou para ver o que ela queria e a outra indicou a cadeira à sua frente com o queixo.

- Ainda estou de serviço...

- Não tem problema; teoricamente, sou sua chefe agora, lembra? Sente-se, por favor.

"Minha chefe... Se depender de mim, isso não vai durar muito!", pensou Carolinne. Indignada e com um sorriso meio forçado. Sentou-se à frente de Andréa.

- Pois bem... O que mais você faz, além de pintar muito bem?

- Humm... Bem... Trabalho para um pequeno jornal; faço alguns desenhos para uma coluna de arte, nada de mais.

- Interessante... Multi-talentos!

Enquanto conversava com Andréa, um cliente fez sinal para que ela levasse a conta. A jovem pediu licença e foi atendê-lo. Andréa pode, então, saborear seu lanche; não havia comido nada até aquela hora.

Alguns minutos depois, Carolinne voltou.

- Ok... Já posso ir agora... Vamos?

- Tem pressa de ficar livre de mim, senhorita Le Blanc?

- De forma alguma; apenas não quero atrapalhar uma mulher de negócios como você com pequenas coisas.

- Não se menospreze assim; eu não me engano quando digo que alguém tem talento... E você tem um dom em suas mãos e não faz idéia disso.

Carolinne se sentiu meio constrangida e riu, desculpando-se por ter sido tão rude. Andréa pagou a conta a Rogèr e saiu; foi esperar do lado de fora enquanto Carolinne se despedia de Bernard e Antoinne.

- Torça por mim, minha amiga; é hoje ou nunca!

- Estamos torcendo. Vai fundo!

Quando a jovem saiu, viu que Andréa a aguardava ao lado de um Land Rover preto que estava estacionado em frente ao Café. Seu queixo quase caiu no chão; aquele era o carro dos seus sonhos. Entrando no carro, a jovem indicou o caminho para seu apartamento. Andréa seguiu as instruções da jovem e poucos minutos depois estavam de frente para o pequeno prédio onde Carolinne morava.

- Humm... Interessante sua casa.

- Não moro só eu aqui; tem mais um apartamento do lado do meu.

- Humm...

- Vamos entrar, por favor; não é nada como o que você provavelmente está acostumada, mas é bem arrumado e limpo.

- É uma pena que você tenha ficado com essa impressão de mim, senhorita Le Blanc. Saiba que meu pai começou a vida dele num lugar muito menor que esse e chegou a ser dono de metade das galerias de arte de Milão. Mais uma vez subestimando seu potencial.

- Vamos parar de falar do meu potencial, por enquanto. Você ainda precisa ver minhas telas...

- É verdade. Não farei mais elogios a você, se isso te incomoda tanto.

Andréa desceu do carro e caminhou na direção da porta, pela qual viu um enorme elevador de carga no fundo. Foi até ele, seguida por Carolinne. Ambas entraram e subiram para o primeiro e único andar. O elevador fazia um barulho terrível enquanto subia, como se raspasse o metal na parede, mas era totalmente seguro.

Durante a subida o silêncio foi absoluto e Carolinne não sabia mais o que dizer, já que a última cortada de Andréa havia sido fatal. Desceram do elevador, no mesmo silêncio incômodo de antes, e a jovem viu o pobre e esquecido basset deitado à sua porta. Ele já pertencia mais à ela do que àquele velho vizinho chato.

- Pierre, meu amor! Aquele desalmado esqueceu você do lado de fora de novo? Como é que pode! Vem cá, vem... Hoje você vai ficar aqui comigo! Quem sabe um susto faz com que ele não se esqueça mais de você!

O pequeno cão adorava quando sua "dona" o convidava para entrar; parecia que ali era sua própria casa.

- Não se importa, não é senhorita Baccio? Ele é mansinho... Passa mais tempo aqui que com o próprio dono e eu não tenho coragem de deixá-lo do lado de fora.

A outra sorriu consentindo que não havia problema algum. Então, entraram.

O cão foi logo para um cantinho e dormiu, enquanto Andréa olhava o apartamento. Viu várias telas empilhadas num canto; umas cobertas com um pano fino, outras espalhadas pelas paredes da sala/atelier. Enquanto Carolinne batia a mão no sofá para tentar retirar um pouco de poeira que insistia em não sair, Andréa notou uma pequena tela num descanso. Estava reconhecendo aquele rosto... Era ela mesma!!! A jovem a havia pintado, afinal de contas. E tinha feito um ótimo trabalho. Ela olhou para a jovem e viu que esta estava meio encabulada.

- Acho que você não quer mais me pintar, não é mesmo?

Carolinne, totalmente envergonhada, olhou para a tela ao lado daquela linda mulher.

- É, acabei não resistindo... Coisa de artista! Estava sem nada para fazer e aproveitei para tentar colocar seu rosto na tela com o que eu guardei na memória daquele dia. Acho que foi um bom exercício... O que achou?

- Muito bom... Como eu disse antes, você tem talento, senhorita Le Blanc. Mas prometi não fazer mais elogios. Poderia me mostrar mais algumas, se não for incômodo?

- É para isso que estamos aqui, certo?

As duas andaram até um canto onde as telas estavam empilhadas. Carolinne mostrou uma por uma, contando a história de como teve a idéia para fazer cada uma delas. Explicou, ainda, que gostava muito de pintar o cotidiano das pessoas, mas tinha também algumas telas com paisagens do Brasil e outras mais abstratas. Era uma pintora completa, com uma variedade de estilos muito diversificada, o que atraiu mais ainda a atenção de Andréa.

- Parece que gosta muito do dia a dia das pessoas.

- É... Acho interessante.

- Humm... Fale-me dessa tela aqui. - Andréa pegou uma tela de tamanho médio, toda pintada em tons de cinza, com apenas um detalhe em azul.

- Ah! Essa é a minha preferida! Não pretendo vendê-la, é muito especial. Essa tela eu pintei na final da Copa de 98. Eu estava muito triste com a derrota do Brasil. Apesar de não dar muita importância para jogos, fiquei chateada em ver que foi tudo uma tremenda armação, foi um jogo entregue, entende? Pois é... Em meio àquela euforia toda do povo aqui em Paris, que gritavam freneticamente "Vive la France", um jovem, que cobria o rosto com as mãos, parecia sofrer por todos que torciam pelo Brasil. Subi correndo até meu apartamento e peguei uma tela. Esperei que ele erguesse o rosto para que pudesse esboçar o desenho do rosto dele. Essa cena não sai da minha cabeça até hoje. Quando voltei para o apartamento fiz os retoques com tinta. Então, para passar a dor que ele estava sentindo, coloquei todos os traços em tons de cinza e apenas suas lágrimas em azul. Chamei-a de "Le Moment Finale".

- É, o nome diz tudo. Ficou muito bonito. Ela passa essa impressão que você quis mostrar. Você chegou a conhecer o rapaz?

- Tentei... Convidei-o para tomar um cappuccino e conversar um pouco, para esquecer da tristeza e ele achou que eu estava zombando do sofrimento dele. Sumiu, nunca mais o vi... Talvez tenha sido melhor assim.

Carolinne começou a relaxar e baixou um pouco a guarda diante de Andréa. Já estava na hora de oferecer alguma coisa para sua convidada. Mas, apesar de estar mais confortável do que antes na presença dela, por que ainda estava se sentindo meio estranha com relação àquela mulher? Talvez porque havia sido tão rude com ela desde o primeiro dia e só o que ela fez foi tratá-la muito bem.

- Aceita alguma coisa para beber... Ou comer? Não sei se você almoçou...

- Não almocei. Me lembro de ter convidado alguém, mas essa pessoa me acha tão malvada que não aceitou...

- Puxa! Vai repetir isso para resto da vida, não é mesmo?

- Humm... Quando você perder um pouco do medo que tem de mim, prometo que paro!

- Medo? Não tenho medo de você! Está viajando...

Carolinne soltou uma risada descontraída e, ao mesmo tempo, tentava entender porque ela estava começando a se dar bem com aquela estranha que estava prestes a destruir o que ela mais amava. Definitivamente, não sabia explicar o que estava acontecendo. Só se...

- Olha só... Que tal se pedirmos alguma coisa para comermos? Eu fiz algumas compras, mas confesso que na cozinha sou uma negação!

- Com certeza não sou melhor que você... O que sugere?

- Bom... Gosta de comida chinesa?

- Boa pedida!

Andréa concordou com Carolinne e a jovem discou o número do restaurante. Pediram arroz chau-chau, frango xadrez, yakisoba, salada e rolinhos primavera.

- Vou abrir uma garrafa de vinho para bebermos enquanto esperamos a comida. Vai demorar só uns vinte minutos. É aqui do lado mesmo.

Andréa concordou, esboçando um lindo sorriso, desses que mexem só com o cantinho da boca. Carolinne parou e ficou olhando alguns segundos aquele sorriso, achou maravilhoso. Poderia pintá-la assim também, ficava tão linda sorrindo... A verdade é que poderia pintá-la de qualquer jeito... "Mas que diabo de fixação é essa, agora?", pensou a jovem enquanto ia buscar a garrafa.

Enquanto Carolinne procurava o vinho, a campainha tocou e o homem do restaurante já estava à porta para entregar o pedido. Andréa tomou a liberdade de abrir a porta e pegar o que haviam pedido. Fechou a porta e colocou tudo em cima da pequena mesa no centro da sala. Esperou que Carolinne voltasse, o que demorou alguns minutos porque a jovem não encontrava o abridor de garrafas.

- Arrumei esse apartamento no começo da semana para ficar mais fácil de achar as coisas e não adiantou nad...

Carolinne viu a comida em cima da mesa. Andréa estava sentada esperando que a ela voltasse.

- Não acredito que você já pagou a conta? Vamos dividir, pelo menos!

- O convite do almoço havia sido meu... Portanto eu pago!

- Você vem na minha casa, eu peço comida de fora e você paga tudo? Assim vai me deixar encabulada...

- Deixa de frescura e vem comer logo porque senão esfria! Podemos saborear o seu vinho enquanto comemos... Certo?

- Como você preferir.

Carolinne pegou uma toalha e estendeu sobre a mesa, buscou dois pratos, alguns talheres e duas taças. Ambas sentaram-se no chão (que estava, realmente, muito limpo), e serviram-se. Pareciam duas pessoas que se conheciam já há muitos anos e isso estava, de certa forma, incomodando a jovem. Como ela podia se dar tão bem com uma pessoa que ela nem conhecia e, principalmente, não gostava nem um pouco? Ou será que gostava? Aquela situação era muito estranha, mas mesmo assim elas estavam conseguindo se soltar. E já que não tinha outra alternativa senão ser, no mínimo, educada, começaram a conversar.

- Posso saber por que veio para Paris, senhorita Le Blanc?

- Bom... Vim morar aqui logo que terminei o curso e Belas Artes da UFMG no Brasi. Eu queria aprender mais sobre arte e imaginei que aqui seria o lugar perfeito para isso. Estou noiva há dois anos... Conheci o Gustav, meu noivo, numa exposição há quatro anos, quando vim até Paris para uma visita com alguns amigos da faculdade. Depois disso, trocamos correspondências durante alguns meses, então, Gustav resolveu ir para o Brasil conhecer meus pais e formalizar o namoro de uma vez. Acabou ficando por lá quase um ano resolvendo negócios das indústrias do pai dele; mas precisou voltar para cá. Eu não podia voltar com ele naquela época, pois não havia terminado a faculdade. Então, logo que concluí o curso, fiz aquela exposição que você foi, em parceria com alguns colegas do curso. Deu para juntar uma grana boa, pelo menos para começar a vida aqui; foi aí que vim para Paris.

- Mas você ficou noiva muito cedo, então... Quantos anos tem... Se a pergunta não for muito pessoal.

- É muito pessoal... Mas tudo bem; tenho vinte e seis.

- E as coisas estão indo bem entre vocês? - "Por que, diabos, estou perguntando isso?"

- É... Vão indo... Acho que nos precipitamos um pouco ficando noivos tão cedo, mas a gente se gostava tanto; decidimos arriscar. - a jovem passou a mão pelos cabelos, retirando-os do rosto e tomou mais um gole de vinho. Continuou - Uau! Acho que já falei demais de mim... Que tal se você falar um pouquinho da sua vida, agora? Ou será que você tem que manter esse ar misterioso seu para intimidar seus adversários?

- Adversários? Acho que não tenho nenhum... E minha vida é um livro aberto.

- Ok, madame; então conte-me tudo, não esconda-me nada!

- Bom... Acho que você notou pelo sobrenome que sou italiana, certo? Pois bem... Vim para cá porque, como você, sou apaixonada com arte. Sempre gostei de trabalhar com isso e o ramo está na família há gerações. Percebi que não havia lugar melhor para começar os meus negócios do que Paris. Foi, então, que resolvi investir aqui e comprei duas galerias que estavam praticamente falidas. Eu as reergui com muito esforço.

Carolinne bebia seu vinho sem tirar os olhos daquela mulher que parecia hipnotizá-la com seu jeito de contar as coisas. Andréa continuou.

- Estive no Brasil há alguns anos e vi uma exposição no Rio de Janeiro de uma jovem que, na época, julguei ser muito promissora e que assinava suas telas como "Le Blanc". Gostei muito do trabalho, até comprei uma de suas telas. Agora que estou me fixando em Paris, pretendo expandir meus negócios, abrindo mais uma galeria.

- Nossa; que história... A minha perdeu a graça!

- Pára com isso! Qualquer um pode ter o que quiser; só precisa se esforçar um bocado para isso.

- E quantas galerias sua família tem no total?

- Deixa eu ver... São mais de doze e elas se espalham pela Itália, Espanha, Portugal e, agora, essas que estou abrindo aqui.

- Puxa...

Quando acabaram de almoçar, Andréa ajudou Carolinne a levar os pratos e tudo o mais que usaram, para a cozinha. Andréa parecia estar gostando daquele apartamento, pois a todo instante ela balançava a cabeça como quem dizia "arrumadinho héin!"

- Sabe... gostei desse lugar; é bem rústico, mas muito aconchegante.

- Só espero que você não queira comprá-lo e transformá-lo numa galeria, também...

Carolinne viu que havia falado demais... Mas foi sem querer; culpa do vinho, provavelmente.

Andréa colocou a taça em cima da mesa e olhou firme para a jovem à sua frente.

- Você deve achar que eu sou um monstro mesmo, não é?

- Não... Desculpe; falei brincando...

Os pedidos de desculpa de Carolinne iam durar mais algumas horas se não tivessem batido à porta. A jovem pediu licença e correu para abri-la. Encontrou Gustav com cara de poucos amigos do lado de fora.

- Posso saber de quem é esse carro parado aí fora?

Surpresa com a pergunta, Carolinne apontou Andréa, que havia voltado para um canto da sala e observava algumas telas. Ele olhou com desconfiança para a mulher. Puxou Carolinne para fora do apartamento e encostou a porta.

- Não disse que ia se encontrar com alguém que queria expor essas telas suas?

- Isso mesmo; essa mulher está interessada no meu trabalho... Ei! Por que esse tom irônico, "essas telas suas"?

- Me desculpe, meu bem, mas acho que você devia procurar um trabalho de verdade para você. Esse negócio de arte... Não dá dinheiro, não tem graça! Não entendo como é que tem gente que gosta disso...

- Quem tem um pingo de cultura e de bom gosto aprecia bastante esse tipo de trabalho! Você mesmo já apreciou isso há alguns anos atrás, lembra? Ou será que esqueceu como nos conhecemos?

A briga havia começado. A maioria delas começava assim; Gustav não aceitava o estilo de vida de Carolinne e tentava mudar o que ela acreditava reduzindo seu trabalho a um mero hobby.

- Espera aí... Você está me chamando de burro?

- Depende do ponto de vista. Sem cultura, sem tato, sem sensibilidade... Acho que um burro acrescenta mais para a humanidade! O que você acrescenta? Nada! Já parou para pensar que essas mineradoras do seu pai estão destruindo o meio ambiente? Isso você não vê, não é mesmo?! A minha arte está na pintura e a sua, em destruir... E me faça uma gentileza, sim? Agora estou tratando de negócios e não quero que essa madame aí saiba que minha vida amorosa está um caos completo porque meu noivo não respeita minha opção de trabalho! Volta mais tarde; aí a gente pode conversar direito.

Gustav olhou-a com desprezo e entrou no elevador sem responder. Carolinne enxugou uma lágrima que quase desceu pelo seu rosto. O que havia acontecido com aquele cara legal que ela conheceu há quatro anos atrás? Será que ela havia se enganado? Em meio a esses pensamentos voltou para dentro do apartamento onde Andréa a aguardava um pouco constrangida de presenciar uma cena tão pessoal.

- Me desculpe; acho que estou no lugar errado e na hora errada! Se preferir, volto outro dia; não quero atrapalhar.

- Não se preocupe, senhorita Baccio. As coisas estão um pouco tensas ultimamente, mesmo. Ele é meio implicante comigo às vezes. Mas... E aí? O que achou das minhas telas?

-- Gostei muito! Creio que posso selecionar algumas para minha galeria.

A hora era essa. Carolinne não podia perder a oportunidade de conversar sobre a transformação do Café em galeria. Apesar da idéia ser muito atraente, ela sentia um afeto muito grande pelo lugar e por Bernard. Agora que já haviam conversado um pouco, poderia tomar a liberdade de falar o que estava pensando. Já havia sido tão rude com Andréa que isso não faria muita diferença agora.

- Gostaria de conversar com você a respeito do Café, senhorita Baccio... Ehh... Aceita mais vinho?

- Claro.

Carolinne se levantou, foi até a cozinha e voltou com outra garrafa.

- Não é preciso dizer como aprecio sua idéia de construir mais uma galeria de arte aqui em Paris, afinal, eu vivo disso, não é? Mas também não posso esconder o apego que tenho pelo Café Paris e por Bernard.

- Suponho que você não quer que eu mexa no Café; estou certa?

- À primeira vista eu tinha a intenção de tentar persuadi-la, de qualquer forma, a não fechar o Café; mas andei pensando e... Veja bem: você é uma mulher de negócios e não creio que desistiria de um investimento por um capricho qualquer; ainda mais de uma estranha.

- Tem razão.

- Será que você promete que pensa no assunto?

Andréa apenas cruzou os braços e olhou fundo nos olhos de Carolinne.

- Ok. Bom... O Café Paris tem uma ótima localização na cidade, um lugar onde passam vários tipos de pessoas o dia inteiro e à noite também. A maioria dessas pessoas aprecia a boa arte como também não dispensam um bom cafezinho em um lugar agradável para sentar e conversar. Entende?

Andréa ouvia tudo demonstrando muita atenção. Um estalo dentro dela dizia que algo começava a surgir, algo que não estava planejado; e quanto mais Carolinne falava, mais essa "coisa" queimava por dentro. Se lembrou que esse era um sentimento conhecido por ela, uma vez que já havia se envolvido, passageiramente, com outras mulheres. Mas ali a coisa era bem diferente. Cada palavra daquela jovem artista a hipnotizava de um jeito que ela não sabia como fugir; e o que ela estava dizendo fazia sentido. A experiente empresária, em meio a pensamentos embaralhados em sua mente, estava vendo um futuro promissor para a jovem, se ela fosse bem instruída. Andréa era o tipo de pessoa que se arriscava quando sabia que valia à pena. Deixou, então, que Carolinne concluísse sua explicação.

- ... E o que estou tentando dizer é que, talvez, você não precise fechar o Café, apenas fazer algumas pequenas mudanças...

- "E todos viveram felizes para sempre"... Não é assim que sempre acaba?

Carolinne sentiu sua cor sumindo. Achou que Andréa iria rir dela e suas idéias infantis e que diria apenas um "sinto muito, senhorita Le Blanc, mas sua idéia está fora de questão". Agora estava tudo perdido. Suspirou fundo e esperou para ver o que aquela mulher enigmática teria a dizer; agora estava se sentindo realmente constrangida.

- Pois bem... Vou dizer o que penso disso tudo, senhorita Le Blanc: sua idéia está completamente fora dos meus planos e, convenhamos, seria muito arriscado...

Carolinne achou que havia perdido seu tempo tentando fazer com que aquela mulher mudasse de idéia; infelizmente, agora, teria que ouvir tudo até o fim. Andréa tomou mais um gole do vinho e recostou na cadeira, sorrindo em seguida.

- ... Mas não deixa de ser uma idéia muito interessante. Vi como vocês trabalham lá, as pessoas que freqüentam o local. Notei também que você é muito apegada àquele Café e ao senhor Bernard; dou muito valor pelo que você está tentando fazer por aquele lugar e por seu amigo, senhorita Le Blanc. A questão é que preciso conversar com Luigi primeiro e colocar tudo isso no papel. Até lá podemos fazer o seguinte: o Café continua funcionando e Bernard, como já tem muita experiência e até já faz parte daquele lugar, pode e deve ficar tomando conta de tudo para mim como meu funcionário; se ele aceitar, claro. Eu entendo de arte, mas com relação a café... Só sei beber! Preciso da experiência dele e da sua também... Se quiser me ajudar.

Carolinne sorriu, consentindo e levantou a taça para que ambas pudessem brindar.

- Não imaginei que seria interessante fazer negócios com você, senhorita Baccio!

- Vamos fazer o seguinte, então: deixemos as formalidades para ocasiões formais, certo? Não está soando bem você me chamando de "senhorita" o tempo todo; estou me sentindo uma chata esnobe!

- Humm, você é quem sabe... Andréa.

Brindaram e continuaram a beber. É incrível o que algumas taças de vinho podiam fazer com duas pessoas que acabam de se conhecer; elas não se tratavam como grandes e eternas amigas, mas estavam no caminho certo, conversando, brincando, se embebedando.

Os olhos de Andréa, muito azuis, agora realçavam mais ainda sua cor viva e forte devido a leve embriagues; estava linda, perfeita, ou como Carolinne a descrevia: "uma pintura viva".

Os olhos da jovem seguiam cada movimento da outra e, em sua cabeça ela não entendia o porquê disso. Tentava não encará-la nos olhos, mas era quase inevitável. O álcool a colocou num estado de transe que ela não conseguia se livrar; nem se quisesse. E a verdade é que não queria! Sentiu uma sensação estranha percorrer todo seu corpo, algo que ela nunca havia sentido antes, algo que ela não acreditava poder sentir. Estava sentindo atração por... Uma mulher! Como era possível? Quanto mais se esforçava para entender, mais as coisas ficavam confusas para ela e mais linda Andréa parecia ficar.

Com esses pensamentos na cabeça, colocou sua taça em cima da mesa e foi até o banheiro; precisava molhar o rosto. Não estava passando mal; era um tipo estranho de tontura, como vertigem de altura. Em seguida, voltou para a sala e Andréa a esperava com um cigarro na mão. "Isso! Um cigarro vai muito bem agora".

- Posso fumar aqui no seu atelier?

- Fique à vontade... Pode me arranjar um?

Andréa estendeu o maço para a jovem que pegou um cigarro e o acendeu com o charmoso Zippo da outra. Na primeira tragada achou que fosse morrer e estendeu o cigarro para Andréa.

- Primeira vez?

- Não... É que parei de fumar faz uns três anos, por causa do Gustav; acho que desacostumei com o hábito... Desculpe.

- Tudo bem; é assim mesmo. Bom... Vou embora agora; estou me sentindo meio sonolenta; acho que bebi um "pouquinho" demais.

Um pouquinho? Ambas estavam totalmente embriagadas após duas garrafas de vinho.

Andréa foi tentar se levantar do sofá, que era muito baixo, e caiu sentada nele levando as mãos à cabeça.

- Melhor você não dirigir agora; é perigoso nesse estado... Pode ficar por aqui até melhorar, é só não se importar com a bagunça!

- Tudo bem... Acho que você tem razão. Faz muito tempo que não fico assim.

- É... Eu também. Costumava fazer esse tipo de coisa quando estava na faculdade. Pronto... Vamos fingir que somos adolescentes e beber como na época da faculdade. - "Que papo de bêbados mais estranho", pensou Carolinne) - Aquilo, sim, é que era muito bom! Vamos comemorar a sua futura "galeria/café"! Nossa; tem muito tempo que não tomo um bom vinho.

- Eu também, mas um bom vinho não é nada sem uma boa companhia...

Essas palavras fizeram a jovem balançar um pouco. Ela imaginou se poderia haver algum significado por detrás delas. Mas ambas estavam tão bêbadas; poderia ser só impressão. Mesmo porque, Carolinne não conseguia acreditar que uma coisa daquela pudesse acontecer com ela e uma mulher tão bem sucedida feito Andréa. Aliás, com nenhuma outra mulher!

Andréa pegou seu celular e ligou para seu apartamento.

- Vou avisar a Filipe que vou ficar por aqui; ele se preocupa à toa.

"Filipe? Quem era Filipe?", pensou Carolinne. Foi como se jogassem um balde de água fria no fogo que queimava estranhamente dentro dela. Sentiu um certo alívio misturado com uma frustração imensa. Então ela estava imaginando coisas; não havia nada de mais nas palavras daquela mulher deslumbrantemente embriagada à sua frente.

Já que tudo parecia uma ilusão devido ao teor alcóolico do momento, Carolinne buscou uma terceira garrafa e, minutos depois, quando Andréa deixou sua taça cair e essa se espatifar no chão em milhares de pedacinhos, elas viram que era hora de parar. Eram oito da noite e Carolinne lembrou-se que falou para Gustav voltar mais tarde; se ele a encontrasse naquele estado seria o fim. Levantou-se para ajudar a outra a erguer-se do sofá.

- Parece que o chão está fugindo dos meus pés! - falou Andréa entre risos; e como era lindo seu sorriso!

- Tudo bem, eu te ajudo. E não se preocupe com o chão; ele não vai a lugar nenhum! - passando o braço pela cintura da mulher, conduziu-a ao banheiro.

Andréa molhou o rosto e a nuca; estava ruim mesmo, assim como Carolinne... Talvez um pouco pior porque não tinha costume de beber e se alterava com facilidade. Sentia o braço da jovem segurá-la, mantendo-a em pé, mas parecia que ia desmontar a qualquer momento. Precisava deitar-se para descansar um pouco ou iria cair ali mesmo no banheiro.

- Preciso me sentar um pouco. Será que consigo chegar até o sofá? - falou rindo.

- Sofá? Eu não vou deixar você dormir naquele sofá velho! Você pode deitar no meu quarto. Eu tenho que resolver algumas coisas com meu noivo, que deve chegar a qualquer momento, e é melhor que você não esteja por perto para presenciar o "show".

- Não posso ficar na sua cama; seria muito abuso!

- Me poupe, Andréa! Depois dessa bebedeira toda você vai ficar cheia de "não me toques"? Sem essa!

Carolinne conduziu a amiga embriagada até sua cama e o inusitado aconteceu. Quando foi ajudá-la a se deitar, ambas perderam o equilíbrio e a jovem caiu sobre o corpo de Andréa. Foram segundos que duraram uma eternidade. As duas estavam com os rostos frente a frente e, inevitavelmente, se encaravam, olhos nos olhos, sem saber o que fazer. Os lábios quase se tocavam e um calor intenso percorreu o corpo das duas, fazendo seus rostos corarem. Carolinne pensou se aquele olhar tão profundo não era um sinal de que Andréa estava sentindo o mesmo que ela, mas... E o telefonema para o tal "Filipe"?

- Humm... Ehh...Desculpe; perdi o equilíbrio.

A jovem levantou-se rápido sentindo que metade da sua embriagues havia passado com aquele susto. Seu coração parecia querer saltar do peito. Imaginou que aquilo poderia ser culpa do vinho, afinal, haviam bebido demais. Mas todo mundo sempre diz que o álcool libera as pessoas, trás à tona os sentimentos mais escondidos, as vontades e desejos mais secretos. Ela estava realmente sentindo algo por aquela mulher. Poderia ser paixão e isso não tinha nada a ver com bebida. "Mas eu não sou gay!", falou para si mesma. "... Ou pelo menos não era até ontem!"

Viu que a outra havia fechado os olhos e agora dormia tranqüila. Olhou-a por alguns instantes e poderia ter ficado horas ali se a campainha não tivesse tocado. "Gustav", pensou. As brigas iriam recomeçar. Apagou as luzes do quarto e foi atendê-lo.

Caminhou com certa dificuldade até a porta, onde Gustav tocava insistentemente a campainha. Sabia que a conversa seria difícil e que não estava, definitivamente, em condições de discutir naquele momento. Pensou em mandá-lo voltar no dia seguinte, mas as coisas ficariam piores ainda. Por que aqueles olhos azuis não saiam de sua mente?

Abriu a porta. Gustav passou como um furacão por ela e parou diante de uma tela; a única que ele parecia gostar.

- Podemos conversar agora... Ou você ainda está ocupada?

Carolinne se aproximou de seu noivo; queria fazer um teste para ver se ainda se sentia confortável em seus braços, ouvir sua voz baixinho rente ao ouvido... Queria saber se ainda existia, em algum lugar dentro deles, aquela paixão toda de quando se conheceram, ou se aquela relação existia ainda só porque era uma situação um tanto quanto cômoda. Abraçou-o forte; ele estranhou, mas retribuiu. Falou baixinho em seu ouvido:

- O que está acontecendo conosco, héin Carolzinha?

- Shhhh! Deixe-me aqui um instante, sim?

Gustav afastou-a suavemente, segurou seu queixo e beijou-a. Sentindo o cheiro de bebida na boca da jovem, empurrou-a para o sofá e olhou-a com indignação.

- Você está bêbada, Carolinne; completamente bêbada! É isso que você fica fazendo quando não está naquela porcaria de Café, ou rabiscando essas telas aí? Pelo amor de Deus... O que é que está acontecendo com você?

Carolinne conteve algumas lágrimas e tomou fôlego para resolver aquela situação.

- O que está acontecendo? Está acontecendo é que eu não estou agüentando mais o jeito que você está me tratando, Gustav! O pouco caso com que trata minha vida, o jeito que se gaba da sua. Você não era assim, tão... Egoísta.

- Egoísta? Eu sou o mesmo de sempre; foi você quem mudou!

- Todo mundo tem que passar por algumas mudanças, mon ami, só que para melhorar e não para isso que você se tornou! No fundo eu continuo a mesma pessoa; já você... Não é mais aquela pessoa por quem me apaixonei.

- O que você está querendo dizer?

Carolinne se levantou, ajeitou a roupa, o cabelo, e olhou firme nos olhos do noivo.

- Estou bêbada, sim... E muito, aliás... Mas há muito tempo não me sinto tão bem!

- Então é isso? Você não quer acabar com tudo? Quatro anos investindo nesse relacionamento e agora vamos botar tudo a perder por nada?

- "Nada"? Como assim "nada"? Nós estamos falando de respeito, cara!! Se para você isso não significa nada, como é que pretende passar o resto da sua vida comigo, héin? Infelizmente, parece que não existe mais respeito entre nós.

Gustav foi até a janela; ele sabia que estava perdendo Carolinne já há algum tempo, mas não conseguia aceitar o fato, ou mesmo, entender o porquê disso. Voltou-se para ela, que aguardava dele uma resposta.

- Bom... Tenho que viajar de novo com meu pai para ajudá-lo numas conferências na Alemanha; ficarei fora alguns dias. Assim, nós dois teremos tempo para pensar no que está errado e tentar resolver da melhor maneira possível.

- Você está me pedindo um tempo?

- Estou "te dando" um tempo... Para você mudar, ou então... Não sei, vamos esperar, ok? Quando voltar te ligo e nos encontramos.

Ele beijo-a no rosto friamente e saiu sem maiores explicações.

- Um tempo para pensar? - falou alto Carolinne, ironizando a frase final do noivo - Para EU pensar? Ele só pode estar me zoando! Esse negócio de 'tempo para pensar' não existe! Ou é, ou não é, porra! Será que é tão difícil para o ego dele admitir que ELE é que está errado e que nada mais será como antes?

Por alguns breves minutos Carolinne esqueceu que Andréa estava em seu quarto completamente apagada. Pegou, então, o que restou da última garrafa de vinho e bebeu sozinha; agora ela teria tempo para pensar em muitas coisas, como por exemplo, o que voltou à sua cabeça naquele momento... Andréa. Mas como ela poderia investir em um sentimento se nem mesmo tinha certeza do que estava acontecendo? Carolinne gostava de aventuras, mas... Calma aí, pô! Esse terreno era totalmente desconhecido para ela! Tinha que pensar muito nas conseqüências de investir num relacionamento assim; e isso SE acontecesse alguma coisa. Valia à pena arriscar-se? Será que era possível que existisse algo entre as duas?

Tantas coisas se passavam na cabeça da jovem artista que ela começou a se sentir zonza. Recostou-se no sofá e ficou ali olhando a tela que havia pintado. O rosto perfeito, os olhos, a boca, tudo a fascinava. Carolinne a via com os olhos de uma artista, como uma pintura viva, mas seu coração começava e vê-la como uma mulher. Foi adormecendo aos poucos e caiu num sono profundo e sem sonhos.

Na manhã seguinte Carolinne acordou com o som de um celular tocando insistentemente. Atendeu, pensando ser o seu.

- Alô?

- Madame Baccio?

- Quem?

Então Carolinne se deu conta do que havia acontecido. Aquele celular era o da Andréa e ela estava... Dormindo em seu quarto!

- Aah... Desculpe, senhor... Quer falar com a senhorita Baccio?

- Oui, oui! Ce voux plair.

Carolinne levantou-se e sentiu todo o mundo rodar; entendeu bem o que Andréa quis dizer quando falou que "o chão está se movendo debaixo de seus pés"; e a dor de cabeça... Essa, era terrível!

Chegou em seu quarto e Andréa estava deitada em sua cama de lado, com as mãos juntas embaixo do rosto e as pernas encolhidas. Parecia sorrir, tão belo era seu rosto, mesmo enquanto dormia. Ficou olhando alguns segundos. Achou melhor chamá-la porque o homem a estava esperando ao telefone.

- Andréa... Desculpa te acordar cedo assim, mas é telefone para você.

- Ahm...? Ah! Sim... Que horas são?

Carolinne olhou no relógio do banheiro.

- Nove e meia.

- Mon Dieu! Eu já devia estar em casa; tenho uma reunião com Luigi! - ela pegou o telefone afobada e atendeu - Alô, alô! Filipe, me desculpe! Calma... Eu sei! Em poucos minutos estarei aí... Distraia Luigi até eu chegar, sim?

Andréa levantou-se rápido e procurou seus sapatos.

- Droga; marquei uma reunião com meu contador às nove e me esqueci completamente!

Em seguida correu até o banheiro, lavou o rosto e procurou sua bolsa.

- Sua bolsa está lá na sala... No sofá. - falou Carolinne enquanto observava Andréa se arrumar.

Incrível como ela continuava linda mesmo tendo acabado de acordar. Carolinne pensou se seria o momento de falar do incidente ocorrido na noite anterior, mas o tal Filipe não lhe saía da cabeça.

- Você não quer tomar um café, um chá, qualquer coisa? Sabe... Para acordar; melhorar uma eventual dor de cabeça...

- Ahá! Você também está sentindo, não é? Mas não, obrigada. Estou terrivelmente atrasada para uma reunião com o Luigi, meu contador. E ele fica um chato quando me atraso. Mas a noite foi ótima. Há muito tempo não me divirto tanto assim; podemos fazer isso mais vezes!

- Certo... Mas acho que seu marido não vai gostar de você ter dormido fora... Ainda mais na casa de uma estranha.

Andréa prendeu seus longos cabelos negros com um grampo deixando algumas mechas soltas e a franja caindo desarrumada no rosto. Estava simplesmente um espetáculo de mulher! Chegou até a porta e esperou que Carolinne viesse se despedir dela. Apertou a mão da jovem e deu-lhe um beijo suave no rosto.

- Não se preocupe com Filipe, ele é bem compreensivo... - e antes de entrar no elevador completou - ... E não é meu marido, é meu criado e meu amigo.

Entrou no elevador ainda com um sorriso encantador e acenou, despedindo-se. Enquanto o elevador descia, Carolinne gritou:

- Você não me deu seu telefone... Para conversarmos mais sobre o Café.

- Deixei um cartão meu na cabeceira da sua cama.

- Posso te ligar qualquer dia desses?

- Se você não ligar... Sei onde te encontrar! Até mais...

Carolinne sorriu largamente. Fechou a porta do apartamento e correu até seu quarto, procurando o cartão que Andréa teria deixado. Voltou para a sala e pulou no sofá; não podia acreditar no que parecia estar acontecendo: aquela mulher maravilhosa parecia estar "dando" em cima dela! Isso já tinha acontecido algumas vezes, quando foi em uma dessas boates alternativas com uns amigos da faculdade. E o tal Filipe não era ninguém; pelo menos não no sentido conjugal da palavra.

Sentiu sua cabeça rodar e chegou à conclusão de que havia dormido pouco. Aconchegou-se no sofá velho e ficou pensando se deveria falar com sua nova amiga a respeito de seus sentimentos.

Há alguns minutos dali Andréa ia para seu apartamento e, enquanto dirigia, pensava no que aconteceu na noite anterior. Lembrou-se dos olhos verdes de Carolinne olhando-a fixamente quando elas caíram na cama; lembrou também do coração da jovem que parecia não caber no peito; lembrou das conversas, do vinho, da aparente felicidade da outra ao ouvir que Filipe era apenas seu criado. Ela começou a sentir que era possível haver alguma coisa entre elas. "Mas e o noivo?", pensou. Qualquer um podia notar que o relacionamento dos dois não ia nada bem, mas eram quatro anos de relacionamento. E estavam noivos! Será que Carolinne estaria disposta a abandonar uma coisa que já estava certa por outra completamente fora da realidade? Mas que realidade era essa? Afinal, ela, Andréa, já havia se envolvido anteriormente com outras mulheres, mas na maioria das vezes foi algo tão superficial, tão sem emoção; assim como seus relacionamentos com outros homens. Só que agora tudo parecia tão diferente... O que ela sentia por Carolinne era mais profundo, era algo que não podia ser feito sem pensar porque ela tinha medo de se magoar. Tudo levava a crer que estava se apaixonando por aquela garota. Porém, gostou muito de conhecê-la e não queria arriscar a perder uma amizade tão agradável como aquela. A verdade é que Andréa não tinha muitos amigos por causa do seu temperamento explosivo.

Tinha que pensar primeiro no que Carolinne havia sugerido; transformar o Café numa espécie de centro cultural. Parou em frente ao Café Paris e ficou lembrando o quão ao acaso havia sido o encontro das duas. Não conseguia de forma alguma tirar da mente aqueles estonteantes olhos verdes. E como eram lindos aqueles olhos verdes!

Em seu apartamento, Carolinne ainda cochilava quando ouviu a campainha tocar. "Meu Deus; será que não se pode ter sossego nessa casa?", falou enquanto levantava sonolenta da cama. Quando abriu a porta deu de cara com Andréa, linda, como havia saído há alguns instantes. Sorriu, como se perguntasse o que ela estava fazendo ali de novo.

- Posso entrar?

- C... Claro! Que bom que voltou; preciso te dizer uma coisa muito importante e não posso adiar. Não sei como dizer, não sei qual será a sua reação, mas...

- Acho que já falamos demais por hoje!

Andréa sorriu e puxou a jovem para perto de seu corpo, beijando-a suavemente em seguida. Sentiu os lábios de Carolinne e o calor que emanava de seu corpo. Sentiu que necessitava daquele corpo jovem; queria senti-lo, tocá-lo, se entregar totalmente àquela linda mulher à sua frente.

Quando os lábios se separaram, Andréa olhou Carolinne fixamente, passando todo o seu desejo através daquele olhar e pode ver um fogo nos olhos da jovem; teve certeza, estava sendo correspondida.

- Não acredito que isso está acontecendo. Como eu queria beijá-la, Andréa!

- Por que não me disse nada?

- Medo de estar enganada... Isso nunca aconteceu comigo antes!

- Mas... Você está bem?

Carolinne não respondeu e agora era a sua vez de puxar a outra para junto de si. Beijou-a com tanta paixão que isso chegou a assustá-la. Sentiu um fogo enorme percorrer todo seu corpo e apertou Andréa mais ainda contra o peito. Sentiu o coração da outra batendo em ritmo acelerado e notou que o seu também estava completamente alterado. Quando percebeu, ambas já estavam em seu quarto. Andréa começou a tirar a camiseta da jovem enquanto esta tentava, desajeitadamente, desabotoar a blusa da experiente mulher. Andréa começou a beijar o rosto da jovem artista que agora se entregava completamente ao desejo. Desceu, suavemente, passando entre seus seios, enrijecidos de prazer, e chegou naquela barriga de músculos tão firmes, torneada, perfeita... Seu coração ia explodir! Empurrou Carolinne para a cama e deitou-se sobre ela. A jovem sentiu o peso da outra sob seu corpo e uma das mãos deslizando suavemente por ele, chegando até o zíper da calça. Um arrepio começou a percorrer-lhe desde os pés até o último fio de cabelo; algo que nunca havia sentido antes, não daquela maneira. "Meu Deus, o que estou fazendo?", pensava a jovem enquanto a outra a beijava incessantemente. Mas a verdade é que ela não queria que Andréa parasse; a verdade é que estava gostando daquilo tanto quanto a outra mulher. A situação saiu completamente do controle; aquilo se tornou um jogo de sedução e prazer que nenhuma das duas havia previsto. Carolinne sentiu algo invadindo seu corpo e soltou um breve gemido de prazer. Mais uma vez seu coração disparou, mas numa batida diferente, uma espécie de...

- TRRUUUUUU!!! TRRUUUUUU!!!

Puff!! Carolinne acordou; seu corpo estava banhado em suor. Olhou à sua volta e viu que ainda estava deitada no velho sofá. Eram quatro e meia da tarde e o telefone fixo em seu quarto tocava insistentemente. "Não acredito!", pensou. "Um sonho; foi um sonho!". Levantou-se, correu até o aparelho e atendeu, ainda com a respiração ofegante.

- Quem é?

- É assim que você atende as pessoas?

- Humm? Ah... Oi senhorita, quer dizer, oi Andréa. Desculpe, é que eu estava - "sonhando que estava fazendo amor com você no meu apê" - dormindo um pouco; me assustei com o barulho... Espera aí; como conseguiu meu telefone?

- Olhei na lista... Me desculpe tê-la acordado; não queria incomodar. É que... Bom; pensei se você poderia achar interessante ir a um leilão de arte comigo. Vai ser na minha galeria e podemos fazer alguma coisa depois, se você estiver de acordo.

"Se aceito? Mas é claro que aceito!", pensou Carolinne.

- Um leilão... Humm... Interessante. Vamos sim. Quando?

- Vai ser no sábado que vem, às oito da noite. Estou te ligando antes porque vou ficar fora essa semana e para você já ficar avisada e não marcar nada. O que acha?

- Legal... Como eu faço para chegar lá?

- Deixa que eu te pego aí, se não houver problema...

- Sem problema! Você me liga mais para o fim da semana e a gente combina direito a hora que você vai passar aqui, ok?

- Certo.

Carolinne sorriu do outro lado da linha achando tudo aquilo perfeito. Ver Andréa de novo, ir de carona com ela, o que poderia rolar depois... Parecia tudo muito interessante!

- Ok... Então, espero seu telefonema.

- Só uma pergunta... Tem certeza que isso não vai trazer problemas para você?

- Por que? Gustav? Não; ele não tem esse direito! E além do mais, vai estar viajando; não esquenta!

- Certo...

Carolinne resolveu puxar um pouco mais o assunto.

- E a reunião; seu contador ficou bravo?

- Nada... o Luigi é muito paciente comigo. E não era nada demais o que tínhamos para tratar; os velhos problemas de sempre, mas já está tudo resolvido!

- Então... Está combinado?

- Ok; até Sábado!

Despediram-se e desligaram. Carolinne teve vontade de dizer que estava pensando nela, que adorava a idéia de vê-la de novo, que estava completamente confusa com tudo que a estava acontecendo, mas que estava se sentindo muito bem, apesar de tudo. Mas, com certeza, ela saberia a hora certa de dizer o que a estava deixando tão confusa. Jogou-se na cama e ficou lembrando daquele sonho. "O que foi aquilo, meu Deus?", pensou alto. Ela já havia tido sonhos eróticos anteriormente, mas nada comparado àquilo; nada tão... Real! Isso era mais uma peça do quebra-cabeça que ela estava montando em sua vida.

Estava com uma preguiça enorme de levantar, mas tinha que ir até o Café repor as horas que não trabalhou. Não podia deixar Bernard na mão justo agora; e ele adoraria saber que existia uma grande possibilidade do Café continuar funcionando.

Tentou tirar da cabeça o que estava acontecendo e foi tomar um banho rápido.

Andréa desligou o telefone e foi a procura de Filipe; precisava orientá-lo para os acontecimento do próximo sábado, já que ficaria fora a semana toda.

- Filipe! Tenho uma convidada para o sábado que vem. Já que vou viajar amanhã e volto só na sexta, quero deixar tudo arrumado com você. Vou levar a senhorita Le Blanc para o leilão na galeria e depois vamos vir jantar aqui; por volta das dez ou onze horas da noite. Gostaria que você preparasse aquela lasanha ao molho branco e separasse na adega uma garrafa do meu melhor vinho.

- Humm... Ela é tão especial assim?

- Sim... Parece ser alguém muito especial, meu amigo.

- Isso é bom... Não vejo a senhora assim faz muito tempo. Mas... Vale à pena? Pelo que estou vendo, a senhora a conheceu há poucos dias; essa semana mesmo, se não me engano. A senhora já sofreu tanto com outros relacionamentos e com aquele tal de Pi...

- Não fale o nome desse desgraçado na minha casa, Filipe. Não quero pensar nesse homem por um bom tempo. E fique sabendo que não existe nada entre a senhorita Le Blanc e eu... Ainda. Talvez esteja surgindo uma grande afeição, mas nada que se possa dizer "nossa, como elas se amam!". Não vou me entregar a outro relacionamento sem ter certeza do terreno em que estou pisando.

- A senhora é quem sabe... Só não quero vê-la sofrendo de novo; isso me parte o coração!

- Obrigada pela preocupação... Mas não se preocupe; vou me cuidar dessa vez. Sei o que fazer agora. Faça-me um favor, sim; escolha uma roupa para eu vestir no sábado à noite, algo nem muito extravagante nem muito simples; não gosto de chamar a atenção pela luxúria, e sim pelo meu bom gosto. Ah! Mais uma coisa: providencie para que a tela que está no meu quarto seja entregue na galeria sexta que vem e mande colocarem no salão dois. Vou tomar um banho de sais agora; tenho que ir até o escritório ver se Luigi precisa de mim hoje ainda.

- Pois não, madame.

Andréa foi então para sua banheira relaxar um pouco. Ligou o pequeno aparelho de som que ficava numa estante e escolheu algo bem calmo. Ela tinha um cd que ela chamava de "cd de relaxamento"; ele já ficava no som pronto para tocar quando ela entrava na banheira.

Quando a música começou a tocar ela já estava dentro da banheira. Acomodou os braços nas laterais e fechou os olhos. Ficou imaginando se aquilo que estava acontecendo era sonho ou realidade. Estava tudo caminhando para o que ela queria; abriria outro local para expor novas telas, conheceu uma artista promissora, que prometia um sucesso enorme e, ainda, uma grande amiga e... amante. Amante? Já estava pensando assim da pobre coitada! O que Carolinne acharia se soubesse que tudo isso está indo muito além do profissional?

Cochilou e nem percebeu quando a música acabou. Acordou com Filipe batendo à porta.

- Madame... Já são sete horas! A senhora vai se encontrar com o Senhor Luigi ou posso preparar o jantar?

Andréa abriu os olhos lentamente; queria ficar ali até sábado, só esperando a hora de rever Carolinne, mas isso era impossível.

- Já vou, Filipe... Prepare algo para eu comer; alguma coisa grelhada, uma saladinha. Acho que vou chamar Luigi para jantar aqui comigo hoje.

- Pois não, madame.

Filipe foi para a cozinha preparar o jantar enquanto Andréa saía do banheiro. Ela vestiu um roupão branco, calçou suas pantufas do pernalonga e ligou para Luigi.

- Olá, meu caro... Tudo bem?

- Sim... Deseja alguma coisa?

- Seja menos formal comigo, Luigi; somos amigos, lembra?

- Claro, Andréa; me desculpe. O que ouve?

- Nada... só queria te convidar para jantar aqui em casa; não vou sair hoje mesmo e acho um porre comer sozinha.

- Desde quando?

- Desde... Hoje. Você vem ou não?

- Claro, lindinha; estarei aí daqui alguns minutos, ok?

- Ok... Traga o vinho!

- Sem problemas.

Os dois se despediram e Andréa foi a té a cozinha fazer companhia para Filipe enquanto ele preparava o jantar. Andréa não tinha o hábito de convidar pessoas para irem até seu apartamento e mesmo Luigi só aparecia lá para tratar de negócios. Foram raras as vezes que eles se encontraram apenas para um jantar ou para conversar à toa. Ela levava seus negócios muito à sério e não permitia que nada desse errado.

Luigi era uma pessoa que se podia chamar de "o grande amigo". O pai dele trabalhou anos com o pai de Andréa, cuidando de todos os investimento da família. Luigi seguiu os passos do pai e quando este faleceu, ele passou a tomar conta dos negócios da família Baccio. Quando Andréa assumiu as galerias de seu pai, ele passou a trabalhar com ela, cuidando de seus investimentos. A verdade é que esse italiano charmoso, de cabelos levemente grisalhos e pinta de galã de cinema queria mesmo era tomar conta do coração de Andréa, mas ela deixou bem claro, em nome daquela grande amizade, que as intenções dela com ele não passariam de uma bela amizade, e nada mais. Porém, mais tarde não pode deixar de mencionar que era gay, o que fez com que ele desistisse de vez daquela investida. Claro que ele ficou um pouco chocado na época, mas com o tempo se acostumou com a idéia e se tornaram até mais amigos do que antes. Por ser cerca de dez anos mais velho, ele transformou todo o amor que sentia por aquela mulher num sentimento fraternal e prometeu ao pai dela que nunca deixaria que nada de ruim acontecesse com sua bambina.

Alguns minutos depois Luigi chegou ao apartamento de Andréa.

- Ei; como vai?

- Bem... Entre; Filipe está preparando algo delicioso para a gente.

- Isso é bom. Mas que brilho é esse no seu rosto, héin Andréa? Notei que você está um pouco diferente essa semana. Isso por acaso tem alguma coisa à ver com aquela garota... Humm... Como é mesmo o nome dela... Le Blanc?

- Não começa, Luigi! Vamos sentar, tomar o nosso vinho e aí conversamos.

- Então tem alguma coisa... Não é?

Ela olhou para o amigo com um sorriso de quem esconde as coisas e apontou o tapete da sala, sugerindo que se sentassem ali para saborear o vinho.

Enquanto ele se ajeitava no chão, encostando as costas numa poltrona, Andréa colocou uma música suave para relaxarem. Logo em seguida sentou-se ao seu lado.

- Sabe o que é, Luigi... Não sei explicar por que raios está acontecendo isso comigo... De novo! Eu disse, aliás, jurei que nunca mais ia cometer uma besteira dessas, mas...

- Eeeehh... Já vi tudo! Bem que eu disse que você estava com um brilho diferente no rosto; eu te conheço muito bem, cara mia! Mas... E ela... Sabe de alguma coisa? Ela é...?

- Não sei se ela é gay; não perguntei. Mas acho que ela está sentindo alguma coisa também. Imagino que deve estar sendo muito pior para ela do que para mim...

- Por que?

- Ela está noiva de um cara e tem muito tempo. Não sei se isso poderia ser possível, entende? Eu... Ela... Nós duas... Não sei...

- Só tem um jeito de saber: você vai ter que abrir o jogo para ela... Espera aí; tem menos de uma semana que você conheceu essa garota e já está assim? Putz!! Acho que coisa é séria mesma!

- Eu nunca brinquei com sentimentos, Luigi... A verdade é que na minha vida não me envolvi tanto com as pessoas, não me entreguei. Antes era uma coisa sem emoção, entende; para falar a verdade, antes havia só desejo, algo que começava e acabava assim, num estalar de dedos. Mas agora... Agora está tão diferente...

- Você tem que se abrir para ela, falar o que está sentindo.

- Eu nunca fiz isso, Luigi! Não é muito do meu feitio...

- Você vai ter que colocar esse orgulho bobo de lado e encarar a realidade; se acha que vale à pena, arrisque! Arriscar faz parte da sua personalidade!

Luigi tinha razão; Andréa gostava de se arriscar, mas... Esse terreno em que ela está pisando é muito escorregadio, perigoso, alguém pode se machucar feio.

- Olha, Andréa; encare as coisas assim: você sempre disse que a verdade deve ser dita, doa a quem doer... São suas palavras, cara mia!

- Eu sei... Eu a convidei para o leilão da Gallery no sábado e ela topou na hora.

- Quando isso?

- Ontem. Tem algumas coisinhas que você não sabe. Fui conhecer algumas telas dela para ver se valia à pena investir e ela me deu uma idéia para aquele Café; achei muito interessante. Mas isso é uma outra história que teremos que conversar com calma depois. O interessante de tudo foi que... Bem... Eu dormi no apartamento dela e...

- O QUÊ????? Mas já!

- Ei; não é isso que você está pensando; deixa eu explicar! É que fui ver as telas dela. Conversamos, pedimos comida chinesa e bebemos umas garrafas de vinho. Bebemos além da conta. Ela não me deixou vir para casa; a verdade é que eu também não conseguiria vir porque estava bastante alterada para dirigir. Ela foi super atenciosa comigo e me cedeu a cama dela para que eu pudesse descansar; o noivo dela iria lá mais tarde e as coisas iam ficar feias. Quando ela foi me ajudar a deitar na cama... Bingo! Nos desequilibramos e caímos as duas na cama, uma de frente para outra, olhos nos olhos... Sabe o que é isso? Imagina a sensação que foi sentir aquela mulher em cima de mim! Mon Dieu...

- É... Deve ter sido demais, mesmo; até eu fiquei empolgado com a história... Mas e o resto?

- Que resto?

- Como "que resto"? O que rolou depois?

- Acredite se quiser... Nada! Nadinha!

- Conta outra, Andréa!

- Pára com isso, Luigi; estou falando sério! Ela ficou tão sem graça que levantou correndo e saiu do quarto.

- E você não fez nada?

- Queria que eu agarrasse a garota no apartamento dela? Você ficou louco? Mas eu fingi que dormi e notei que ela ficou olhando para mim por um tempo; só parou porque a droga da campainha tocou. Por causa disso que eu ainda tenho alguma esperança!

Luigi tomou um longo gole do vinho e olhou para além das janelas; estava uma noite agradável, apesar de um pouco fria. A chuva havia dado um tempo e as estrelas estavam brilhando por todo o céu. Ele olhou para sua amiga com um sorriso largo nos lábios e segurou seu queixo em uma das mãos com carinho.

- Você sempre soube o que fazer; não vai ser diferente agora, tenho certeza.

- Obrigada, Luigi.

Filipe veio ao encontro dos dois e anunciou que o jantar já podia ser servido. Eles, então, se levantaram e foram para a mesa.

Carolinne chegou ao Café Paris e um amigo seu estava sentado no balcão esperando que ela chegasse. Ela conheceu-o ali mesmo pouco depois que chegou a Paris. Eles acabaram se tornando muito amigos e talvez poderia até pintar um clima entre os dois se ele não fosse gay. Era um homem alto, com o corpo muito bem cuidado, os olhos de uma cor verde-amarelada incrível e o cabelo loiro todo repicado e na altura do pescoço. Vestia-se com elegância impecável e Carolinne só sentia muito por não se encontrarem com mais freqüência; ele era bailarino de uma grande companhia de dança e vivia fazendo centenas de apresentações pelo mundo todo.

- Carol! Que bom que, finalmente, consegui encontrá-la aqui!

- Jacques! Que bom vê-lo de novo! Faz tanto tempo que você não aparece por aqui. Como vão as turnês?

- Excelentes! Apresentamos na Espanha, Alemanha, Áustria e Suíça; foi um sucesso! Creio que agora vou ter um tempo para poder descansar um pouco. Começaremos uma nova temporada de apresentações daqui a três meses; até lá quero dormir bastante enquanto não estiver ensaiando e, claro, sair muuuuuito com minha velha amiga!

- Que bom, Jacques; fico feliz que as coisas estejam bem!

- Obrigado, Carol. Mas me diga o que há de novo. O que acontece no "reino da Babilônia?" Sinto cheiro de novidades... Aposto minhas sapatilhas!

- Novidades? Como assim?

- Veja bem: são sete horas da noite e você está aqui no Café trabalhando ao invés de estar infurnada naquele seu apartamento, parecendo uma Maria-maluca, toda suja de tinta pintando seus quadros ma-ra-vi-lho-sos. Eu sempre disse que só uma coisa poderia tirar você de lá... E há muito tempo que não é o Gustav!

- De onde você tirou isso, Jac... Pirou?

- Minha amiga, eu não passo muito tempo ao seu lado, mas sei quando está acontecendo alguma coisa diferente; eu te conheço, lindinha! Você é meio transparente. Me conta, vai!

- Ai Jac... Sinceramente? Não sei o que está acontecendo comigo. Não sei mais o que é certo, o que é errado, o que devo ou não fazer...

- Por favor, será que você poderia ser mais clara, querida? Defina para seu amigo aqui o que é isso de " certo, errado"...

Carolinne puxou Jacques para uma mesinha perto da porta, onde estava mais vazio. Ele sentou-se e ela trouxe-lhe café com bolinhos. Tinha que ficar em pé prestando atenção nos clientes; ainda estava de serviço.

- Bom; é que... Acho que estou me sentindo atraída por outra pessoa...

- Aleluia!! O mundo tem salvação, Mon Dieu! Sempre achei que você era muito para aquele Gustav e...

- ... E é por uma mulher.

- O QUÊ?? Não acredito! Que maravilha!! Eu sabia; todo mundo tem esse lado "papillon" escondido... Até você!

- Pára com isso, Jac! Eu não sou gay!

-... E os elefantes pulam de galho em galho...

- Olha, Jac; é sério. Nunca aconteceu isso antes; nem nunca passou pela minha cabeça!

- Tem sempre uma primeira vez para tudo, querida. Acho que ficar noiva daquele mala fez esse seu lado vir à tona.

- Será? Não fala assim dele, coitado; não é tão ruim assim... E eu nem sei se o que estou sentindo é atração mesmo...

- Certo. Me fale sobre ela.

- Seu nome é Andréa. É italiana, dona de várias galerias de arte fora de Paris e aqui também. Conversei muito com ela ontem e hoje porque estava tentando convencê-la de não fechar o café... Você soube do café, não é?

- Sim... Bernard me contou; continue.

- Pois bem. Ela foi lá em casa ontem à tarde para que eu pudesse mostrar minhas telas para ela e conversamos muito. Pedimos comida chinesa e...

- Acabou de conhecer a mulher e já jantaram juntas, no seu apê? Ai, ai, ai...

- Fica quieto, Jac; deixa eu falar! É porque ela havia me chamado para almoçar com ela no chinês ali embaixo para falarmos de negócios, mas eu recusei; estava meio fula da vida com ela por causa do Café. Quando ela chegou lá em casa estava com fome; eu até comprei algumas coisas, mas você sabe que eu sou uma negação na cozinha!

- Humm...Continua.

- Ela comprou uma de minhas telas no Brasil, numa exposição que fiz antes de vir para cá. Falou que gostou muito. Então, jantamos e tomamos umas garrafas de vinho e...

- Vocês transaram?

- NÃO, Jac! Pelo amor de Deus! Fica quieto senão não falo mais nada!

- Tudo bem; me desculpe, querida.

- Resumindo: ela olhou algumas telas, gostou delas e até já pensa em colocar algumas na outra galeria... Mas, apesar disso tudo, uma coisa me deixou muito preocupada... Não consigo parar de pensar nela! Não é uma coisa física, entende; apenas... Pensar! Acho ela linda, simplesmente deslumbrante; você tem que conhecê-la! Mas não sei se é paixão...Entende?

- Sei... É complicado de saber mesmo, ainda mais porque é a primeira vez que acontece esse tipo de coisa com você. Mas você não pode ficar estressada assim, querida. Tem mais é que tentar descobrir e entender o que está se passando nessa cabecinha sua... E nesse coraçãozinho também!

Carolinne olhou para fora e viu as pessoas andando pela rua. Imaginou que tipo de problemas elas tinham e como faziam para resolvê-los. "Será que isso poderia ser chamado de problema... Gostar de alguém?", pensou. Ela sacudiu a cabeça tentando desfazer seus pensamentos e olhou as horas.

- E sabe o que mais? Ela me chamou para ir a um leilão sábado que vem, numa galeria dela.

- Interessante... E vocês têm planos para depois?

- Não sei... Quem sabe um jantar, um passeio por aí; não planejei nada. Mas ela sugeriu que fizéssemos algo depois.

- Ótimo. Procure reparar se ela olha diferente para você e não se esqueça de uma coisa: liga para mim se precisar de qualquer ajuda, viu? Você sabe meu número. E faça o que seu coração estiver mandando; foda-se o resto! Se a gente não se arriscar de vez enquanto acaba desperdiçando a oportunidade de ser feliz; e você merece ser feliz, Carol! Se achar que seu lugar é com Gustav, vá em frente e lute para que as coisas melhorem entre vocês; mas se você acha que seu relacionamento com ele já não é mais o mesmo... Cai fora! Mas pensa direito no que você vai fazer para não sofrer mais ainda no final. Não se esqueça que nem sempre o que parece ser certo é o que se deve ser feito.

- Obrigado Jac; sabia que podia contar com você!

- Seeempre, minha querida!

Carolinne abraçou forte o amigo que, tomou o restinho do café e levantou-se para ir embora.

- Me ligue se precisar; meu número é o mesmo. - ele jogou-lhe um beijo no ar e saiu do Café.

Carolinne achou bom saber que tinha alguém que a conhecia tão bem. Talvez ele tivesse razão; ela bem que podia pensar mais com o coração e deixar a razão um pouquinho de lado; mesmo achando tudo aquilo uma loucura. Ouviu alguém chamar-lhe e foi atender; a noite seria um pouquinho mais longa que o normal.

Luigi colocou os últimos talheres na lava-louças e foi sentar-se junto com Andréa no sofá. Naquela noite ela havia dispensado Filipe para encontrar-se com a sua amante e a cozinha tinha ficado meio que por conta dela. Mas tudo foi resolvido rápido.

- Estava realmente divino esse salmão; Filipe tem muito bom gosto.

- Sim... E você tem muita sorte de tê-lo aqui para tomar conta de você.

- É... Obrigada por ter vindo; gosto da sua companhia também... Você sabe disso, não é?

- Sei sim.

Luigi olhou as horas; já era meia noite e meia.

- Puxa... O tempo voou! Vou indo; tenho que passar no Louvre ainda para olhar umas telas que o pessoal de lá quer que avaliemos. O trabalho chato fica todo para mim!

Andréa abraçou-o forte e deu-lhe um beijo estalado no rosto; ela gostava muito daquele homem, talvez fosse um dos poucos.

- Vejo você no escritório, ok?

- Ok...

- Pensa bem no que conversamos; se achar que vale à pena arriscar, vai fundo; e pode contar comigo para qualquer coisa.

Ele despediu-se com um aceno e entrou no elevador. Andréa esperou que a porta se fechasse, só então entrou. Estava um pouco cansada; talvez porque já era tarde e o vinho a havia deixado com um pouco de sono. Trocou de roupa e foi deitar-se. Pensou em ligar para o celular de Carolinne, mas o que iria dizer? "Oi... Estou com saudades desses olhos verdes e, já que você está trabalhando agora, liguei só para ouvir sua voz...".

- Mas que ridículo! - pensou alto.

Pegou um livro sobre arte renascentista no criado ao lado da cama e começou a ler. Folheou as páginas sem interesse, sem prestar atenção em nada; seus pensamentos estavam voltados para outra coisa, outra pessoa. Não conseguia deixar de pensar naquela garota e isso a estava deixando irritada; não gostava de perder o controle da situação.

Fechou o livro e devolveu-o ao criado. Estava com sono, mas também não conseguia dormir. Lembrou-se que tinha um remédio milagroso que Luigi trouxe da Índia e que era ótimo para insônia. Procurou na gaveta do criado e tomou. Minutos depois adormeceu.

- Carolinne, já são três e meia da manhã; vamos fechar. Já está bom por hoje! Se está querendo pagar seus pecados, não vai ser aqui!

- Eu sei, Bernard... É que queria repor as horas que estive ausente...

- Mas não tem ninguém aqui; todos já se foram. E se tudo que você me disse for verdade e der resultado... Então valeu à pena. Ande; "raspe" para casa... Senão amanhã você não acorda para vir para cá cedo!

Carolinne abraçou Bernard, acabou de fechar o caixa e foi para casa. Poucos minutos de caminhada separavam o apartamento de Carolinne e o Café, o que era muito bom porque, sair àquela hora da madrugada não era nada aconselhável.

A jovem chegou em seu prédio sem maiores problemas. Subiu até seu apartamento pelo grande elevador e entrou. As coisas estavam em ordem ainda, mas ela estava se sentindo muito cansada. Não gostava de trocar seu horário porque mudava completamente seu ritmo. Já eram quase quatro horas quando ela se jogou na cama sem nem mesmo trocar de roupa. Sentiu o corpo um pouco dolorido. Com o tempo ele foi relaxando e Carolinne foi ficando com sono. Ela fechou os olhos e viu Andréa na sua frente. Num salto, levantou-se da cama e olhou a sua volta; não havia ninguém ali.

- Acho que estou pirando... - falou para si mesma.

Deu mais uma olhada no quarto e na sala e voltou para a cama. Dessa vez retirou a bota e a roupa para que ficasse mais confortável. Estava frio. Enrolou-se, então, num cobertor e abraçou um dos travesseiros. Seus olhos foram fechando, fechando... Até que adormeceu.

Durante o resto da semana, Carolinne trabalhou muito para poder ocupar seu tempo e não ficar pensando no tão esperado sábado. Estava se sentindo muito ansiosa e não conseguia lhe dar com aquilo numa boa. Pensou em ligar para Andréa umas cinco vezes e desistiu no meio do caminho, achando sua idéia ridícula. O que falaria para ela? Nem isso sabia direito. Mas na sexta-feira, quando achou que Andréa havia esquecido do que haviam combinado, o telefone tocou em seu apartamento por volta das onze horas da noite.

- Oi... Desculpa estar ligando tão tarde; é que aconteceu alguns probleminhas aqui no aeroporto de Milão. Estou aqui até agora! Tudo bem?

- Tudo! Está tudo bem com você? Não foi nada sério, foi?

- Não, não... Apenas muita chuva, não pudemos decolar o dia todo; já era para eu estar aí.

- Achei que havia esquecido do que combinamos. Que bom que ligou...

- Eu nunca esqueço meus compromissos! Está de pé ainda, então?

- Claro! Estou esperando você aqui. Que horas fico pronta?

- Às sete e meia passo aí; está bom para você?

- Ok. Até amanhã, então.

Carolinne desligou o telefone e jogou-se na cama. Sorria sem mesmo perceber sua felicidade. "Que bom que ela ligou!", pensou.

Foi como se estivesse apenas esperando que ela ligasse; seus olhos começaram a se fechar lentamente e ela adormeceu. Trabalhou duro a semana toda e estava sinceramente pensando em pedir umas férias para Bernard. Com certeza ele não acharia ruim, desde que Rogèr ficasse em seu lugar.

Sábado, nove da manhã. Carolinne levantou-se cedo para ir trabalhar. Estava bem disposta, já que a sexta feira havia sido bem tranqüila. A verdade é que estava contando as horas para o tal leilão. Queria ver o que iria acontecer; estava resolvida a falar alguma coisa para Andréa, pelo menos o que estava sentindo; estava se sentindo como o Deus Atlas da mitologia grega, carregando o peso do mundo nas costas!

Mas a ansiedade estava deixando Carolinne louca e Bernard e Rogèr não puderam deixar de notar que havia algo de estranho. Quando no relógio os ponteiros marcavam cinco e vinte, seu coração parecia não caber no peito. Foi quando Bernard chegou perto dela para conversar.

- Minha filha, o que é isso? Tem formiga nos pés?

- Humm? Não...! É que ... Estou meio ansiosa, só isso.

- Com o que? Será que seu velho amigo pode saber?

- Com... - Carolinne não havia contado para Bernard o que estava "rolando" e achou melhor deixar as coisas como estavam, por enquanto. - ... Com um amigo que não vejo há muitos anos.

- Humm... Sei, sei... Ouviu essa, Rogèr!

O jovem sorriu e fez um sinal de positivo com o polegar; depois foi servir um casal que acabava de chegar.

Carolinne ignorou o sarcasmo de ambos. Pegou um pano e foi limpar as mesas, uma por uma, duas, três, quatro vezes. O que estava acontecendo? Aquilo tudo era nervosismo?

Enquanto limpava pala quinta vez o balcão, Antoinne chegou por trás dela de fininho e colocou ambas as mãos em sua cintura, o que a fez pular como um coelho.

- Ficou maluca, Antoinne!!! O que é isso????

- Credo... O que é isso pergunto eu! Que stress todo é esse?

Bernard entrou na conversa, como sempre.

- Também perguntei, mas ela não quis me falar; deixa quieto, pelo menos ela está deixando o Café mais limpo que bunda de neném!

O velho soltou uma gargalhada que ecoou por todo o ambiente, fazendo com que alguns clientes olhassem curiosos para os três.

- Não vem não, Bernard! - falou Carolinne ainda se recuperando do susto. - Estou completamente normal.

Antoinne esperou que Bernard tirasse mais um sarro da cara de Carolinne e cumprimentou Rogèr, seu namorado. Depois chamou a jovem num canto.

- Ok... O que é que está havendo? Tem alguma coisa acontecendo que você não me contou!

Carolinne hesitou um pouco. Mas pensando bem, Antoinne era tão sua amiga quanto Jacques e ela também merecia saber o que estava acontecendo.

- É que... Vou me encontrar com Andréa hoje.

- Com quem?

- Com a senhorita Andréa Baccio, a que comprou o Café.

- Humm... E?

- "E" o que?

- É por isso que está tão nervosa assim?

- Não estou nervosa...!

- Está sim... Olha para você; está limpando essa mesma mesa já tem uns cinco minutos!

- Tudo bem, você venceu! Eu conto, mas é melhor você sentar.

Carolinne contou tudo que tinha acontecido até ali, inclusive daquele sonho estranho que havia tido algumas noites atrás. Antoinne ouviu cada detalhe como uma ótima amiga e esperou que Carolinne concluísse para que ela pudesse falar.

- E foi isso. E hoje tem esse tal leilão e...

- É; o caso deve ser sério mesmo, para te deixar desse jeito...

Carolinne continuava limpando a mesa.

- Mas acho que não é nada para você se preocupar assim.

- Como não? Escuta... Estou te dizendo que acho que estou atraída por uma mulher e você me diz que não é nada para eu me preocupar? Qual parte você não entendeu?

- Qual parte VOCÊ não entendeu? E daí se é uma mulher, Carol... Podia ser um homem; a diferença é unicamente estética!

- Lá vem você...

- Mas é sério! E já ouvi dizer que o relacionamento entre duas mulheres além de ser mais saudável e amigável, é muito mais afetivo e carinhoso. Isso sem contar que você não corre o risco de engravidar!

- É mesmo... NÃO!!! Pode parar; você está fugindo do assunto! A questão é... Como é que pode?

- Carolinne... Você já conversou com o Jac?

- Já.

- Ótimo. Aposto que ele disse para você fazer o que seu coração estiver mandando, não foi?

- Huhmm...

- Pois eu concordo com ele... Acho que, independente de ser um homem, ou uma mulher, ainda assim é uma pessoa. E se é uma pessoa que você realmente gosta e que te faz bem, não tem porque se sentir mal por isso.

- Mas eu nunca...

- Eu sei, lindinha, eu também não, e não sei o que faria no seu lugar. Provavelmente ia ouvir minha super amiga que acha que sabe de tudo!

Elas riram; a brincadeira aliviou um pouco a tensão.

- A questão é que se você não se arriscar, também não vai saber se é isso mesmo que você quer.

- É... Não tenho escolha mesmo...

- Espera aí, não foi isso que eu quis dizer! SE você estiver à fim, encara; do contrário, sai fora e foda-se o resto! O mínimo que você pode fazer é falar com ela que não rola, que não é isso que você quer... Fim de papo.

Carolinne estava se sentindo um pouco mais confiante agora.

- Já que você está mais calma... Pára de limpar essa mesa, senão daqui a pouco ela some!

Elas riram de novo e Carolinne deu um forte abraço na amiga.

- Valeu, Antoinne; você e Jac me deram a maior força. Depois te conto como é que ficaram as coisas.

- Mas vai contar meeeeeeesmo! Nos mínimos detalhes! - Antoinne olhou no relógio e quase teve um troço. - Meu Deus! Tenho que ir para o supermercado. Me liga depois, ok?

- Pode deixar.

Elas se despediram e Antoinne foi embora.

Antoinne era muito bonita, apesar de estar um pouco acima do peso; mas, sem dúvida, tinha seu charme. Os olhos eram muito azuis, tinha a pele branca como neve e era mais alta que Carolinne um palmo, o que fazia com que ela ficasse elegante em qualquer tipo de roupa. Trabalhava no supermercado perto do prédio de Carolinne há seis meses; precisava de grana para pagar alguns cursos que de vez em quando ela inventava de fazer, e também para a faculdade de moda que iria tentar entrar no ano seguinte. Era uma boa amiga, esteve sempre presente quando Carolinne precisou. Claro que não a abandonaria justo naquele momento tão complicado.

Carolinne olhou para o relógio mais uma vez; quinze para as seis. Seria a conta dela chegar em casa e tomar um banho bem rápido; Andréa não parecia ser do tipo de pessoa que se atrasa.

Filipe saiu no seu passo apressado para providenciar a roupa e os ingredientes do jantar enquanto Andréa se despia e entrava no chuveiro. Se tivesse resolvido as coisas com Luigi mais cedo, teria tempo para o delicioso banho de sais que Filipe sempre lhe preparava. Mas não era o caso. Já eram seis horas e ela não queria chegar atrasada no primeiro... Encontro? Aquilo era um encontro? É; podia-se dizer que sim, devido às circunstâncias... E um encontro muito agradável, por sinal!

Saiu do chuveiro meia hora depois (era demorado lavar aquela cabeleira toda!). Vestiu um lindo roupão de seda japonesa e foi dar uma olhada na roupa que Filipe havia escolhido para a ocasião. Estava em cima da cama, como ele sempre fazia: uma calça de linho xadrez escuro, uma blusa branca e um blazer preto. Preferiu deixar o cabelo solto, já que não teria tempo de secá-lo e, como não gosta muito de maquiagem, passou somente um brilho nos lábios. Estava pronta.

- Filipe; tudo pronto para o jantar?

- Sim; agora é só esperar a senhora voltar.

- Certo... E aquele assunto que pedi para você resolver para mim?

- A tela já está lá.

- Ótimo. Vou indo, senão me atraso. Combinei de pegar Carolinne em seu apartamento e já são dez para as sete.

- Tem certeza que essa moça vale todo esse sacrifício?

- Pelo pouco que conheci de Carolinne até agora estou disposta a arriscar. Confie em mim, Filipe.

- Rezo para que saia tudo como a senhora está planejando. Boa sorte!

Andréa riu e concordou com seu criado. Filipe já estava na família há mais de vinte anos, sendo que os últimos dez passou junto com ela em Milão. Quando ela resolveu vir para Paris, ele veio junto. Fazia praticamente de tudo; era uma espécie de "Alfred" e cuidava dela o tempo todo, como se fosse sua própria filha. E como todo bom pai ele sabia de segredos sobre ela que dariam um livro. Ela o via mais como um amigo do que como um criado.

Em seu apartamento Carolinne havia experimentado quase todas as roupas do seu armário e achou que nenhuma delas combinava com a ocasião. Por fim, estava vestida com uma saia longa preta e uma blusa justa branca. E para calçar? "Botas?", pensou; "Não posso ir vestida assim... E de botas?" Arrancou, então, toda a roupa e deu mais uma olhada no armário. No quarto parecia ter passado um furacão; mas tudo bem, ninguém viria visitá-la, mesmo…

"Ding, dong!"

- Meu Deus; Andréa! Mas já?

Correu para atender a amiga, mas lembrou-se no meio do caminho que estava nua.

- Putz! - falou baixinho. - Calma aí; já vou!

Voltou correndo para o quarto, pegou um roupão no armário, vestiu e foi abrir a porta. Andréa olhou-a sorrindo.

- Será que cheguei muito cedo?

- Não... Desculpe-me, Andréa; eu é que me atrasei um pouco. É que estou com um probleminha; não encontro uma roupa legal para a ocasião.

- Deixe de besteira! Vamos dar uma olhada nas suas roupas; tenho certeza de que você tem alguma coisa que vai ficar perfeita em voc...

- NÃO!! Quer dizer, acho melhor você não entrar no meu quarto; está um verdadeiro caos!

- Prometo não reparar?

A linda mulher sorriu descontraída para a jovem. Em seguida, saiu caminhando em direção ao quarto e Carolinne nada pode fazer, senão acompanhá-la. Estranho; estava um pouco nervosa. Por que estava tão preocupada assim com roupas? Não era disso! Claro que Carolinne sabia muito bem se vestir, ela tinha um estilo próprio, mas parecia estar querendo impressionar aquela mulher de alguma forma.

- Nossa! Passou um furacão aqui?

- Ah, Andréa! Você disse que não ia reparar! - falou Carolinne, o rosto corado de vergonha.

- Desculpe… Não se preocupe com isso; você tem que ver o meu quarto como fica quando resolvo experimentar todas as minhas roupas! Filipe quase corre para colocá-lo em ordem. Deixe-me ver… Humm... Que tal esse vestido preto aqui?

- É velho; foi meu ex-noivo quem me deu…

"Ops", pensou Carolinne. Por que ela havia dito aquilo... Ex-noivo? Tudo bem que tiveram uma briga terrível há pouco tempo e as coisas ficaram sem resolver,; mas em momento algum foi dito que estava tudo acabado. Ou será que estava tudo acabado há algum tempo e eles não sabiam ainda?

- Carolinne…? Hei... Se você não quiser ir com este, escolhemos outro; tudo bem!

- Não... Não é isso, Andréa; desculpe-me, sim? É o jeito com que me referi a Gustav. Nem em nossas piores brigas cheguei a pensar nele como meu "ex"…

- Acho que você não está bem. Olha, vamos deixar o leilão para outro ocasião…

- De maneira nenhuma! Você sabe que cada leilão é único. Deixa ELE para lá; vou pensar em mim. E tem outra coisa: adoro esse vestido; vou com ele.

Andréa achou ótimo Carolinne ter aceitado a sugestão do vestido; ela estava ansiosa para vê-la dentro dele.

Aconteceu, então, um momento de silêncio absoluto. Andréa olhava o quarto à sua volta; não estava reparando na bagunça e sim imaginando se deveria ou não sair para a jovem se trocar. Carolinne também se sentiu um pouco constrangida naquele instante; não sabia se pedia que a outra esperasse um momento na sala ou se trocava de roupa com ela ali dentro. Sentiu-se aliviada quando Andréa falou que esperaria por ela na sala.

Andréa foi para a sala; acendeu um cigarro; estava se sentindo um pouco nervosa. Aquela jovem estava mexendo com a cabeça dela, isso não havia dúvida. E o pior de tudo, ela estava se apaixonando! Mas nem a conhecia direito!

A espera lhe proporcionava uma ansiedade quase juvenil. Provavelmente esse era o famoso amor à primeira vista.

Alguns minutos depois Carolinne saiu do quarto. Estava linda! O vestido preto ajustava-se perfeitamente ao contorno do corpo da jovem. Andréa sentiu que sua boca começava a ficar entreaberta, tamanha era a beleza de Carolinne com aquele vestido; achou melhor ir embora rápido, senão ela começaria a babar e seria, no mínimo, constrangedor.

- O que foi; não ficou bom?

- Ficou perfeito! Você está... - Andréa hesitou um pouco - ... Linda!

Andréa conteve sua agitação; não queria que ficasse tão óbvio seu interesse pela jovem.

- E então... Vamos?

- Vamos.

Ambas saíram do apartamento e foram para o carro de Andréa. Com aquela demora de veste-não-veste, demoraram quase meia hora para sair e, provavelmente, o leilão já havia começado. Mas naquela noite o evento era o que menos importava para ambas e a surpresa que Andréa havia preparado para a amiga, com certeza, a deixaria sem palavras.

Alguns minutos depois chegaram à luxuosa galeria de Andréa, a Mme. Baccio Gallery. Elas entraram e foram em direção a escadaria que levava ao salão principal, onde estava sendo realizado o leilão daquela noite. O prédio tinha em sua predominância o estilo gótico com leves pitadas de modernismo. Tinha uma infra-estrutura arrojada e o espaço era muito bem aproveitado. Havia também um estacionamento coberto ao lado do prédio para alguns clientes e convidados especiais.

Já eram nove horas e, apesar do leilão já ter começado, dois lugares à frente da bancada de exposições foram reservados para a dona da galeria e seus convidados. Andréa pegou a programação das peças que seriam leiloadas naquela noite e viu que sete já haviam sido vendidas. Os lances estavam sendo razoáveis; apesar do luxo, a galeria de Andréa ainda era nova e não tinha tantas peças famosas. Futuramente iria receber mais telas de grandes artistas e, consequentemente, de valores mais elevados.

Carolinne observava cada lance com muita atenção. Estava aprendendo um pouco sobre a preferência dos parisienses; isso a ajudaria na hora de escolher qual tela colocar à mostra no novo empreendimento de Andréa.

Mais algumas peças e foi dada por encerrada aquela noite de leilão; dezoito peças no total.

- Hoje a noite foi perfeita aqui na galeria. Confesso que foi além das minhas expectativas; dezoito é um número expressivo para uma noite, não acha?

- Claro!

Carolinne saiu da sala onde foi realizado o leilão e dirigiu-se ao salão principal, acompanhada de Andréa.

- Gostaria de dar uma andada por aí, se não se importa; está tudo muito diferente de quando vim aqui da última vez.

- É compreensível; o prédio estava arruinado antes de eu comprá-lo. Tive um pouco de trabalho, algumas despesas extras, mas tudo será compensado esse ano mesmo; tenho certeza. Os compradores não param de aparecer de todos os lugares, até de outros países, provavelmente pessoas que já conhecem o nosso trabalho com as outras galerias. Com isso surgem também novos patrocinadores de eventos, o que significa um pouco mais de lucro, é claro! - Andréa sorriu maravilhosamente e continuou - Algumas telas de grandes artistas já estão transitando por aqui; temos algumas que serão colocadas em exposição na próxima semana. Estão no outro salão, logo ali em frente... Quer dar uma olhada?

- Ótima idéia!

As duas se dirigiram para o salão onde outras peças estavam expostas. Havia ali várias telas de grandes pintores, mas uma chamou a atenção de Carolinne. A jovem não podia acreditar no que seus olhos viam e Andréa ficou contente com a reação dela.

- Gostou da surpresa?

- ...

- O que foi? Algum problema?

A vontade de Carolinne era de abraçar e rodopiar com Andréa pelo salão, mas não seria muito apropriado para a ocasião. Contentou-se em sorrir generosamente para a mulher à sua frente.

- Não acredito que você fez isso! Minha tela... Aqui... Numa galeria de verdade... Que maravilha... Não sei o que dizer!

- Humm... Que tal... "Obrigada"?

- Claro! Obrigada, obrigada mesmo!

Carolinne olhou nos olhos de Andréa e viu que a amiga a olhava de uma maneira diferente. O que Jac falou podia ser verdade; nem sempre o que é certo é o que deve ser feito. Talvez ela já estivesse olhando assim antes, mas só agora Carolinne estava percebendo, já que as coisas com Gustav estavam se desmoronando.

- Tenho uma sugestão: que tal se formos jantar lá em casa agora? Falei com Filipe que a convenceria de ir e ele prometeu caprichar no menu.

- Como posso recusar depois de uma surpresa dessas? Claro; mas gostaria de falar uma coisa antes...

"É agora", pensou Carolinne. Era o momento certo para falar qualquer coisa e mesmo que não falasse tudo, podia dar uma indireta bem... Direta!

- O que foi? - Andréa falou séria.

A jovem engoliu um seco e...

- Andréa!! Quanto tempo, querida! Como estão as coisas? Parece que pegou a mania do seu pai de ter bom gosto pela arte.

As feições de Andréa mudaram de repente quando aquele homem se aproximou. Seu rosto e sua voz tornaram-se sombrios e ela parecia não querer continuar aquela conversa que mal havia começado. Mesmo assim usou de sua classe habitual para dirigir-se àquele sujeito.

- Olá, senhor Bariccelli. O que faz em Paris?

- Deixe de cerimônia, minha amiga; só Pietro para você! - ele sorriu encantadoramente e continuou a falar - Estou apenas apreciando a boa arte. Adoro observar a beleza, você sabe. E por falar em beleza... Você continua linda, ou melhor, mais ainda! O que anda fazendo para estar tão bem assim? Não me diga que encontrou, enfim, seu grande amor?

- Acho que isso não lhe diz respeito, mas se quer saber, estou apenas indo bem com meus negócios e não tenho mais que me preocupar com certos inconvenientes.

- Sei... Que alívio, então; quer dizer que ainda tenho uma chance com você?

- Em respeito aos meus convidados não vou lhe dar a resposta que veio à minha mente.

- Humm... E que convidados! Não apresenta sua amiga?

Andréa olhou carinhosamente para a linda jovem ao seu lado e, muito a contra gosto, a apresentou àquele homem.

- Essa é a senhorita Le Blanc; vou expor seus trabalhos em uma de minhas galerias.

- Humm... Vejo que continua muito bem acompanhada, héin?

- E você continua o mesmo indiscreto de sempre.

- O que é isso, Andréa? Destratar um velho amigo na frente de sua convidada? Que coisa mais feia.

Pietro não era bonito. Era alto, um pouco magro, mas, mesmo assim, tinha seu charme. Vestia-se com muita elegância e estava impecável num terno preto de risca de giz. Tinha os olhos azuis muito claros e o cabelo ia até os ombros, presos num charmoso laço de fita preto, bem ao estilo do século dezesseis. Tinha um ar superior e arrogante e não parava de olhar para Carolinne, sem fazer a mínima questão de não ser notado; era realmente muito indiscreto.

Andréa olhou fundo nos olhos daquele homem e pedindo licença para a Carolinne, pegou-o pelo braço e conduziu-o até um canto do salão; a presença dele a irritava profundamente, isso Carolinne podia notar.

- Escuta aqui! Se você acha que tem intimidade de vir assim puxando papo comigo, ainda mais na frente...

- De quem? Da sua nova "amiguinha"? Por acaso ela já sabe que você, provavelmente, está querendo algo mais do que expor as telas dela?

- Vamos fazer o seguinte: você some daqui e eu não chamo os seguranças para te colocar para fora. Que tal?

- Continua a mesma esquentadinha de sempre héin... É bom saber que ainda provoco esse tipo de reação em você. Já estava de saída, mesmo; não se incomode em me acompanhar até a porta... Mas acho que você deveria investir em algo melhor, algo mais... Normal. Já tivemos um lance muito, digamos... Íntimo. Podemos repetir a qualquer hora, se você quiser.

- Não me venha com essa conversa de intimidade! No que depender de mim, nunca vai haver nada entre nós!

- Tudo bem. Mas pelo menos tenha a decência de contar para ela que você é gay. Aí veremos se esse joguinho seu continua... Nos vemos por aí.

- Não conte com isso!

O rapaz se despediu de Carolinne beijando sua mão e, olhando-a de maneira sedutora, saiu do salão. Andréa voltou para junto da amiga tentando conter a raiva que crescia dentro dela.

- Algum problema, Andréa?

- Nada sério; alguns homens simplesmente não sabem levar um fora, só isso.

- Você não é muito fã dele, certo? Mas ele é um charme...

- E eu estou muito bem acompanhada...

A frase saiu sem querer, pelo que Carolinne pode perceber. Ambas se olharam e sentiram seus rostos em chamas. Não havia mais dúvida, estava rolando alguma coisa.

- É; então... Vamos? Filipe deve estar nos aguardando.

- Vamos.

Andréa foi se despedindo dos amigos enquanto Carolinne observava sua tela de longe. Notou que algumas pessoas a olhavam e comentavam umas com as outras qualquer coisa que ela não pode entender; parecia ser algo bom, pois elas sorriam e balançavam a cabeça confirmando o que parecia ser um elogio. Era um de seus primeiros trabalhos e estava ali, em Paris, a cidade da arte, a cidade dos seus sonhos!

Após se despedirem de todos, saíram pela porta que levava ao estacionamento e foram para o apartamento de Andréa.

As duas chegaram ao apartamento já eram dez e meia. Não conversaram muito no caminho, preferiram ouvir algumas músicas no rádio; o clima havia ficado tenso depois da aparição de Pietro e Andréa parecia querer relaxar um pouco depois daquele encontro desagradável.

Desceram na garagem e subiram para o apartamento. Como era lindo! Carolinne ficou abismada com o tamanho e com o luxo. Uma enorme sala de visitas parecia convidar qualquer um para se sentar e tomar um bom vinho. Ao lado, uma sala de jantar com uma mesa maravilhosa de mogno e vidro. A jovem preferiu deixar para conhecer o restante do apartamento após o jantar, pois, agora, elas estavam realmente com fome. Mas não pôde deixar de fazer uma observação sincera.

- Seu apartamento é simplesmente maravilhoso! E fica tão perto da sua galeria... Deve ser legal morar aqui.

- É... Mas é meio solitário...

- Não entendo, Andréa. Como uma mulher bem sucedida, linda e tão carismática como você pode ficar sozinha assim?

- Anos de prática, talvez... Hehe... Estou brincando. É que gosto muito daquele ditado que diz que "antes só do que mal acompanhado", entende?

- Mas e aquele bonitão lá da galeria? Não rola nada mesmo?

- Já nos envolvemos uma vez, mas não deu muito certo. Ele não vale nada, Carolinne; aquela carinha de anjo engana qualquer um.

Carolinne preferiu não aprofundar mais a conversa; estava visivelmente estampado no rosto de Andréa que ela não se sentia confortável falando de Pietro. Mudou de assunto.

- Então... O que Filipe preparou para nós?

- Humm... Surpresa; espero que goste. Aguarde só um minuto que vou até a cozinha.

Andréa encontrou Filipe na cozinha.

- E então, meu bom amigo; como está a nossa lasanha?

- Perfeita, madame. Posso servi-la assim que quiser.

- Certo. Traga-nos uma garrafa de vinho tinto junto, por favor.

Andréa voltou para a sala e sentou-se à mesa. Carolinne, sentada à sua frente, observava tudo à sua volta admirada com a beleza do lugar. O jantar veio em seguida trazido por Filipe em um charmoso carrinho, onde se encontravam uma travessa enorme e uma garrafa de vinho num balde de gelo.

- Pedi a Filipe que preparasse algo mais simples; fiquei com medo de não acertar o seu gosto e achei que um prato mais tradicional seria adequado para a ocasião. Só esqueci que ele costuma ser tradicional no meu país... Mas acho que você vai gostar, afinal, no Brasil tem de tudo mesmo, não é? - ela sorriu para a jovem - ... E Filipe é um mago na cozinha.

- Ok... Então vamos a essa ambrosia! - falou a jovem com um sorriso radiante no rosto.

Filipe serviu a refeição e o vinho. Elas puderam comprovar o que Andréa havia dito; ele tinha mesmo o dom na cozinha!

Deliciaram-se com aquela lasanha especialmente preparada para a ocasião sem muita conversa; era realmente difícil falar enquanto comiam, pois estava divino.

Após alguns minutos de extremo prazer gastronômico, Carolinne limpou a boca com o guardanapo e suspirou alto, sorrindo.

- Nossa...! Me desculpe pela falta de educação, Andréa, mas é que estava muito bom, mesmo! Parecido com o que minha mãe costumava fazer para mim lá na minha terrinha. E o vinho... Hummm... Fantástico!

- Concordo... Me acompanha em outra garrafa? Acho que hoje é a minha vez de mostrar hospitalidade. Pelo que me lembro daquele dia você gosta de vinho branco, não é mesmo?

- Isso mesmo... Boa idéia!

- Filipe! Traga-nos outra garrafa, daquelas que ficam separadas na adega.

Carolinne riu baixinho, escondendo um pouco o rosto.

- O que está rindo?

- Nada; é que... Parece que você já havia pensado em tudo, héin?

- Tem algumas coisas que ainda não pensei...

Carolinne sentiu uma cutucada em seu ego, mas não sabia como tomar a iniciativa .Decidiu esperar por uma ocasião melhor, um sinal, uma luz no fim do túnel; o que viesse primeiro! A verdade é que não sabia como ia fazer!

- Que tal sentarmos na outra sala? - sugeriu Andréa - Lá podemos ficar mais à vontade e tomar nosso vinho ouvindo música... O que acha?

- Para mim está ótimo.

A sala era maravilhosa; bem ampla, com um grande sofá em L, uma pequena mesa ao centro com alguns enfeites simples, porém de muito bom gosto, e duas poltronas encostadas na parede, que ficavam de frente para o sofá. O lustre no centro da sala era de cristal com um conjunto de oito lâmpadas, mas encontrava-se apagado. Apenas um abajour ao lado das poltronas e outro ao lado do sofá iluminava o ambiente, dando um clima mágico para aquela noite; poderia dizer romântico, também! O aparelho de som, encontrava-se no outro canto da sala ao lado de um pequeno Scotch Bar com quatro banquinhos. Duas grandes janelas, que se ficavam atrás das poltronas, revelavam a bela cidade para as duas mulheres.

Enquanto Andréa se dirigia para o aparelho de som, Carolinne sentou-se numa das poltronas. Filipe serviu o vinho em ambas as taças e se retirou. A jovem virou o corpo para a janela e encostou-se no parapeito; a vista era belíssima. De repente seu coração deu um salto. A música que Andréa havia colocado lhe trouxe lembranças... Velhas lembranças.

- O que foi; não gostou da música?

- Não... É que um ex-namorado que eu gostei muito cantava essa música para mim; mas isso já faz anos.

- E por que um namoro que deixa esse tipo de marca acabou?

- ... É que ele morreu num acidente de carro.

- Ahh... Humm... Sinto muito; eu não pretendia...

- Não se preocupe; está tudo bem. Agora já encaro numa boa.

- Então... Vamos fazer assim; escolhe uma música que você gosta e eu prometo ficar quieta.

- Não quero que você fique quieta...

Carolinne tomou um gole do vinho e lançou um olhar sedutor para a outra mulher. Colocou a taça na mesa e foi em direção ao som. Achou engraçado o fato de estar tentando seduzir uma mulher, porém, muito. Nunca tinha feito isso antes, quer dizer, com uma mulher, mas algo estava lhe dizendo que ela devia continuar e ver no que ia dar aquilo tudo.

Enquanto Carolinne foi até o som e escolher o que queria ouvir, Andréa bebia seu vinho sem tirar os olhos dela. A jovem, depois de alguns segundos de procura, achou algo interessante, um cd que não ouvia há anos. Colocou. O som começou a sair suave pelas caixas do aparelho e aquela canção parecia entrar dentro de sua cabeça e convidá-la para dançar.

- Boa escolha; adoro essa música.

- Eu também. É boa para dançar...

Andréa olhou então nos olhos de Carolinne e se aproximou dela.

- Você acharia muito estranho se... Humm... Se eu te convidasse para dançar?

Carolinne não respondeu. Colocou sua taça de vinho em cima da mesa e pegou Andréa pela mão, conduzindo-a para um espaço mais aberto onde pudessem se movimentar com mais liberdade. Passou o braço pela cintura da mulher e puxou-a para junto de si delicadamente. Ficaram tão juntas que sentiram seus corações acelerando no peito, como se fossem explodir. As duas dançavam lentamente ao som daquela canção.

"... In the words of a broken heart

It's just emotions that's taken me over

Caught up in sorrow, lost in my soul

But if you don't come back

Come home to me, darling..."

Andréa era mais alta, por isso Carolinne tinha que olhar para cima para poder encarar seus olhos.

- Você dança muito bem, senhorita Le Blanc.

- Pode me chamar de Carol... Se você quiser.

- É? Humm... E o que mais eu posso fazer se eu quiser?

- O que você tem vontade de fazer?

Andréa respondeu àquela pergunta aproximando-se de Carolinne e beijando-a suavemente nos lábios. Segurou delicadamente o rosto da jovem entre as mãos enquanto os lábios das duas se tocavam. A jovem sentiu um calor estranho percorrendo seu corpo; a mesma sensação de quando teve aquele sonho com Andréa.

Após alguns segundos, que graças aos Deuses estavam sendo intermináveis, os lábios se separaram e as duas se olharam novamente. Agora sim, parecia que elas se conheciam há anos, que eram velhas amigas, ou muito mais que isso. Andréa passou a mão nos cabelos de Carolinne retirando-os dos olhos. Olhou-a de um jeito meigo, como quem acabava de achar o maior tesouro da vida, um jeito como ela nunca olhou para ninguém. Carolinne retribuiu a carícia com um abraço.

- Humm... Eeh... Toma mais uma taça de vinho comigo? - Andréa parecia encabulada.

- Eu adoraria!

Sentaram-se no chão, à frente do sofá e brindaram à amizade... Seja ela qual for!

- Me fale um pouco mais de você, Carol; já conheci seu lado profissional... Agora quero conhecer a pessoa por detrás da artista.

- Não tenho muito para falar. Passei por uma vida meio dura no Brasil. Foi muito difícil para eu pagar sozinha tudo o que precisava na faculdade; quem fala que só porque estuda em uma faculdade federal não tem despesas, está muito enganado. Mas no final das contas deu tudo certo. Meu orgulho maior foi ter conseguido vender minhas telas na primeira exposição que participei. Foi a glória! Calei a boca de muita gente, sabe? Gente que não acreditava que eu conseguiria. Ainda não sou uma artista de sucesso, mas luto muito para isso. Sou uma pessoa muito teimosa, não desisto fácil. Sei que pode demorar, mas um dia chego lá!

Andréa prestava atenção em cada palavra, em cada gesto. Achava Carolinne simplesmente linda e adorava olhar e ouvir ela falando. Esse jeito de olhar desconcertou a jovem.

- Por que está me olhando assim?

- Desculpe... Mas vou lhe confessar uma coisa: gosto de observar você falando. Antes eu não podia ficar te olhando assim; não sabia o que você podia pensar de mim, mas agora... Agora acho que posso te olhar, se isso não te incomoda...

- Não me incomoda... Só fico um pouco sem graça com alguém me olhando assim; mas não tem problema... Bom; já que falei mais um pouquinho de mim me fale de você.

- Bom... Minha vida é um pouco complexa. Apesar de não ter passado por esse tipo de dificuldade que você passou, tive muitas outras. Não sei se você sabe, mas dinheiro demais tem as suas desvantagens. Tinha muita gente em Milão que não gostava da nossa família; minha mãe dizia que era coisa de mafioso, mas meu pai detestava ser chamado assim. A verdade é que nossa família fazia parte de uma máfia muito antiga e todos eram muito respeitados e, também muito odiados por algumas pessoas. Por causa dessas desavenças com outras famílias eu quase não saí de casa até meus quinze anos, quando meu pai resolveu que seria melhor eu estudar fora. Estudei alguns anos num colégio interno na Suíça e depois me formei em Administração de Empresas, mas sempre gostei de arte. Esse ramo já está na família por gerações então resolvi segui-lo. Pouco tempo depois de formada, assumi algumas das galerias de meu pai. Alguns anos depois ele já estava muito velho para seguir com os negócios, então, assumi as que restaram. Ainda comprei outras de empresários falidos e às reergui, transformando-as em centros culturais e salões para exposição. Minha vida é isso! É... É isso. Toda a minha vida se resume em trabalho e mais trabalho.

- Mas mesmo com essas complicações você teve muito mais sorte que eu.

- Acho que não posso reclamar da sorte já que encontrei você. Não acredito muito em destino, mas o jeito que nos conhecemos e como as coisas estão caminhando... Parece que era para acontecer, entende?

- Também tenho essa sensação. Estranho... Mas a verdade é que no começo eu odiei você, Andréa, e queria apenas te convencer a não fechar o Café... Mas não sei o que aconteceu e ainda não sei explicar direito, mas quando conheci um pouco mais de você tive a impressão de estar indo pelo caminho errado. Foi aí que comecei a sentir por você algo que nunca havia sentido antes por... por...

- ...Uma mulher?

- É... Nunca senti isso antes e nunca imaginei que fosse sentir! Não é que eu achasse horrível, ou tivesse algum tipo de preconceito, mas é que meus conceitos pareciam já estar bem definidos e uma mudança dessas me assustou um pouco. Mas estou achando o máximo! Adorei ter te conhecido; você é uma mulher muito interessante.

- É bom saber que você está pensando disso tudo. Me senti um pouco insistente; queria estar ao seu lado o maior tempo possível para poder te conhecer melhor. O fato é que nunca me envolvi com ninguém dessa maneira e não me senti à vontade quando vi que precisava de você por perto para me sentir bem. Sempre me virei sozinha, nunca precisei de ninguém para nada; isso me assustou, também.

- Fico triste de saber que você nunca se envolveu assim com outra pessoa... Você é tão... Sensível!

- Sensível? Eu? Não, acho que não.

- Você se esconde atrás de uma armadura e acha que é impenetrável. O problema é que você não está evitado apenas que as coisas ruins te atinjam; as boas também ficaram de fora. Gostaria de poder mudar isso, mas acho que é pedir demais para um segundo encontro.

- Humm... Acho que tudo vem ao seu tempo. Esse não é o tipo de sentimento com que eu estou acostumada e não é o tipo de relacionamento que você costumava ter; temos que nos dar um tempo se quisermos nos entender sem pressionar uma à outra.

- Acho justo.

- É impressão minha ou você está começando a ficar tontinha!

As duas riram. Era verdade; Carolinne sabia que quando se levantasse iria sentir o chão rodar; e Andréa parecia ter a mesma sensação.

- Pelo pouco que te conheço, acho que você está levemente embriagada.

- Algum problema? - perguntou Andréa chegando mais perto da jovem.

- Não... Nenhum.

Elas fizeram mais um brinde e Carolinne se sentiu no direito aproximar seu rosto ao de Andréa e dar-lhe mais um beijo. A outra o aceitou com carinho, abraçando a jovem ternamente.

Carolinne olhou para o relógio e suspirou; estava um pouco tarde e tinha que voltar para seu apartamento. Olhou para Andréa e ia dizer alguma coisa quando os dedos da outra se colocaram sobre seus lábios impedindo-a de falar.

- Nem pense nisso! A uma hora dessas pode desistir de ir embora; não vou deixar.

- Mas...

- Vamos fazer o seguinte: vou separar um short e uma camiseta para você ficar mais confortável. Me aguarde um minuto aqui, ok?

- Pode ter certeza que não vou a lugar nenhum! - falou Carolinne com um sorriso que misturava embriagues, alívio e felicidade.

Alguns minutos depois, Andréa voltou vestindo uma camisa de flanela que chegava até os joelhos e com pantufas de coelhinhos nos pés. Carolinne não pode conter o riso.

- Se vissem a poderosa Andréa Baccio vestida assim acho que você perderia completamente o respeito!

- Por isso esse vai ser nosso primeiro segredo, ok? - a jovem sorriu para ela e botou a mão na boca como quem diz que dali não sai nada - Acho que o short que separei deve seervir em você; eu era mais magra quando comprei. Se não gostar da camiseta é só falar que pego outra. Pode se trocar no meu quarto, no fim do corredor; as roupas estão lá.

Carolinne dirigiu-se para o quarto onde Andréa havia indicado. Não tinha notado o tamanho do apartamento e só agora via suas dimensões. Ao entrar no quarto quase caiu para trás; era enorme e muito bem decorado, assim como a sala. Encostou a porta e trocou-se. O som ainda estava ligado na sala e Andréa a esperava para terminar a garrafa de vinho.

Quando chegou na sala deparou-se com a cena mais gostosa que já havia visto. A verdade é que nunca imaginou que ia achar uma cena daquelas gostosa, mas ela já não era a mesma Carolinne de ontem. Andréa estava dançando sozinha, com os braços envoltos nela mesma como se estivesse se abraçando. A jovem chegou de fininho por trás da amiga (ou seria amante?) e a abraçou suavemente. A outra se rendeu aos carinhos dela virando-se para beija-la e envolveu-a em seus braços num abraço forte.

Em seguida, sentaram-se no chão e pegaram suas taças de vinho; continuaram a beber apenas olhando uma para a outra, as mãos dadas como que dois, aliás, duas adolescentes que começavam a namorar. O sorriso no rosto de Carolinne mostrava que havia algo mais do que o vinho que haviam bebido; era uma expressão de felicidade que não dá para descrever, você tem que ver e sentir.

Então começou a tocar uma música que fez com que as duas se levantassem e começassem a dançar novamente. Era engraçado como elas pareciam se conhecer tanto e se sentiam tão à vontade uma com outra naquele momento.

Uma sensação estranha envolveu Andréa, como se algo começasse a tomar conta de seu corpo. Uma sensação que não sabia direito como definir; um embrulho no estômago, um frio na barriga... A sala parecia maior e tudo tinha um brilho diferente. Percebeu então que não era nada mais, nada menos que pura e total... Paixão! Mais uma vez elas estavam levemente embriagadas e pareciam despertar sentimentos uma pela outra. E a certeza disso veio quando as duas caíram no sofá, acidentalmente, Carolinne sobre o corpo quente de Andréa, as duas abraçadas, os lábios quase se tocando novamente. Sentiam a respiração quente uma da outra bater em seus rostos. Aquela parecia ser a hora para mais um passo, para ir mais longe... Mas não foi o que aconteceu. A questão é que o momento foi tão inesperado, tão mágico que ambas se esqueceram de tudo e ficaram ali abraçadas e se olhando por um longo tempo. Foi Carolinne quem quebrou o silêncio.

- Não entendo tudo isso que estou sentindo; é tão novo para mim... Mas gostaria de deitar aqui do seu lado. Me sinto protegida assim...

- Eu não me importo que você queira fazer isso. Pelo contrário; acho muito gostoso saber que você se sente protegida comigo.

Então Carolinne ajeitou seu corpo junto ao de Andréa, deitando a cabeça sobre seu peito e parte do seu corpo sobre o dela; queria encostar em cada pedacinho daquela mulher. Ela realmente lhe deixava mais segura, mais confortável, de um jeito que Gustav não a deixava mais. E enquanto adormecia sussurrou algumas palavras que assustaram Andréa, mas a fizeram sentir um preenchimento no peito que ela não imaginou que fosse possível.

- Acho que te amo...

A menção daquela frase poderia ser culpa do álcool e, talvez, o exagero daquela noite possa ter afetado o discernimento de Carolinne, mas a jovem parecia bastante sincera. Naquele exato momento era como a jovem conseguia explicar tudo que estava sentindo da maneira mais sincera possível. Mesmo assim não deixava de ser algo muito forte. Andréa abraçou-a com cuidado e, depois de um suave beijo na testa, adormeceu junto com ela.

Filipe entrou na sala para ver se precisavam de mais alguma coisa e deparou-se com a cena: a pequena jovem envolta nos braços de sua patroa como um animalzinho frágil nos braços da mãe. Foi até o quarto e buscou um cobertor; jogou-o sobre as duas em seguida.

- Espero que saiba o que está fazendo, minha filha. - murmurou o amigo fiel enquanto se retirava para o seu quarto.

Carolinne acordou com alguns gemidos vindos do seu lado. Era Andréa que parecia estar tendo um pesadelo. Esfregou os olhos, olhou as horas - 10:30 da manhã - e virou-se para acordar a outra.

- Ei... Eu estou aqui... Calma. - falou meio sonolenta enquanto a outra pronunciava algumas frases confusas.

- Você nunca mais vai chegar perto de mim, seu cretino... Nem de Luca!

Carolinne a sacudiu delicadamente pelos ombros. Andréa acordou inteiramente suada e lágrimas saiam involuntárias de seus olhos. Olhou então a sua volta e viu a jovem observando-a com ar muito preocupado; abraçou-a forte.

- O que aconteceu? Com quem você estava sonhando?

Andréa tentou fugir do assunto e inventou qualquer coisa.

- Não me lembro bem o que era...

- Você mandava alguém se afastar de você e de... Quem é Luca?

Andréa deu um salto no sofá.

- O que eu estava falando?

- Você estava brigando com alguém e dizia que ele não chegaria mais perto de você nem de Luca.

- Não me lembro o que eu estava sonhando. Luca é meu irmão mais novo; faz alguns meses que não o vejo. Não sei o por quê desse sonho...

- Calma, eu estou aqui. Sei que não sou grande coisa, mas...

- Realmente você não é grande coisa... Você é tudo.

Ela abraçou Carolinne novamente e puxou-a para bem próximo de si. A jovem sentiu que toda a força que a outra lhe passara aquele dia no Café Paris tinha seus momentos de fraqueza. Retribuiu, então, o abraço e levantou-se.

- Apagamos, héin?

- Pois é... Acho que Filipe esteve aqui e nos cobriu.

- Ah, Mon Dieu... Que vergonha!

- De Filipe? Não precisa; ele sabe que sou gay.

- Certo... - a jovem se levantou e esticou a coluna, espreguiçando-se inteira - Ai... Minhas costas estão me matando! Mas, mesmo assim, acho que nunca dormi tão gostoso!

- Que tal se tomássemos um café agora? Não sei quanto a você, mas minha cabeça está me dizendo que não foi uma boa idéia aquela bebedeira de ontem!

- Que nada; foi ótimo! Claro... Podemos esperar bem uns... Cinco dias para repetir a dose, por precaução!

Elas riram alto e nesse instante Filipe entrou na sala.

- Por acaso posso servir o café para as "senhoritas"? - falou com tom irônico.

- Ah, Filipe... Sem pressa! Tivemos uma noite ótima na galeria ontem; vendemos dezoito peças. Bárbaro, não?

- Oui, oui, madame... Mas acho que vocês duas deveriam comer alguma coisa depois daquela bebedeira. Preparei uma mesa de café para vocês com as coisas que você mais gosta; acredito que sua convidada vai aprovar.

Andréa sorriu para Carolinne e esta retribuiu. Quando Filipe saiu, Andréa pegou a jovem pelas mãos e a trouxe para perto de si.

- Queria saber se você gostou da minha surpresa ontem... No leilão.

- Claro que sim! E gostei mais ainda da surpresa aqui no seu apartamento. - e beijou suavemente os lábios da outra - Espero que possamos repetir isso mais vezes... Se você quiser.

Andréa encarou a jovem. Mesmo com os cabelos desajeitados de quem acabava de acordar, a beleza do seu rosto não se apagava; e ela ficava mais linda ainda com aquela carinha de sono, os olhos apertadinhos, como se não quisessem acordar de jeito nenhum.

Carinhosamente segurou o rosto de sua pequena amante e olhou fundo em seus olhos.

- Não vou esconder que isso tudo me assusta um pouco; tenho certeza de que você também se sente assim. Mas nunca me senti tão bem como estou agora! Gostaria de me encontrar com você de novo sim e repetir tudo isso. Adorei sua companhia ontem no leilão e aqui no meu apartamento descobri que tenho uma chance de conquistar você. Mas... Algumas coisas ainda me preocupam um pouco...

- Está falando de Gustav?

- ...É. Não gosto de pensar que estou destruindo um relacionamento; ainda mais de tantos anos como o de vocês...

- Olha, Andréa; isso tudo é muito novo para mim e tudo aconteceu muito rápido, sabe... Quero dizer, me sinto tão bem ao seu lado! Sei que alguma coisa está acontecendo com meu relacionamento com Gustav, mas não tem nada à ver com você; na verdade não é culpa de ninguém! Já vem acontecendo há algum tempo. Mas eu preciso ter certeza de tudo que estamos sentindo uma pela outra. Meu relacionamento com Gustav já está no fim, mas com você... Estamos começando algo novo, sincero; quero fazer tudo direito para não te magoar e não me machucar, também.

- Concordo com você. Humm... Você se lembra do que disse enquanto adormecia ontem?

- ...Humm... Não; o que foi?

Filipe voltou à sala dessa vez com uma jarra de suco em uma mão e um pote de docinhos na outra.

- O café vai esfriar, senhorita Andréa. Venha comer, menina! Sua convidada deve estar com fome também.

Preferindo não abusar da paciência materna de Filipe, ambas se dirigiram para a mesa e Carolinne se deparou com um manjar digno dos Deuses. Frutas, tortas, pãezinhos de todos os tipos, torradas, geleias. A jovem e esfomeada artista não conseguiu conter um desabafo de satisfação ao ver tanta coisa gostosa. Sentaram-se e comeram.

Minutos depois elas não agüentavam mais nada.

- Ehh... Acho que exagerei...

- Que nada; coma mais um pouco, senhorita. - dizia Filipe com seu ar maternal - ainda temos mais alguns bolinhos que estão acabando de assar lá no forno.

- O quê? Acho que você não gostou de mim, não é Filipe? Qual sua tática? Se parecer o máximo possível com uma mãe, daquelas que obrigam os filhos a comer de tudo, fazendo com que eu fique com medo de voltar aqui?

- Pelo contrário, senhorita. Se a sua pessoa não me agradasse, provavelmente estariam tomando café na cozinha com bolinhos de ontem!

Andréa interveio na descontraída conversa dos dois enquanto pegava mais um pãozinho.

- Vocês dois podem parar com essa "pseudo briga", héin?! E você, Carol, vê se come direito mesmo, não vai ficar com frescura; eu sei que você é boa de garfo, ou se esqueceu de ontem?

Carolinne corou ao se lembrar o quanto comera na noite anterior; mas a lasanha estava realmente deliciosa!

Andréa, vendo o constrangimento da amiga, puxou-a pelo queixo e aplicou-lhe um lambuzado beijo de calda de chocolate bem no meio da bochecha. Elas riram e continuaram a beliscar as gostosuras, foi quando o telefone de Andréa tocou. Filipe atendeu e em seguida veio chamá-la.

- É o Sr. Luigi. Disse que tem alguns detalhes para discutir com você a respeito de uns imóveis. Nada sério, mas ele preferia que fosse agora, pois está partindo para a Milão hoje a noite.

- Diga para ele me encontrar no Café Paris daqui a meia hora que conversaremos lá.

- Pois não.

Andréa virou-se para Carolinne que ainda limpava a lambança em sua bochecha e sorriu.

- Você não se importa de me esperar enquanto cuido de alguns detalhes com Luigi, não é?

- Sem problemas; vou para o meu apartamento e...

- Não! Quero que me espere aqui, por favor. Dorme mais um pouco; depois deixo você em casa. Não é pedir muito... É?

Sorrindo, Carolinne pegou a mão de Andréa e beijou-a suavemente.

- Claro que não. Eu espero sim.

- Certo. Mas agora você vai dormir na minha cama; assim suas costas vão melhorar um pouco; pedirei a Filipe que lhe dê um analgésico.

Andréa foi para o quarto seguida por Carolinne. Precisava tomar um banho e se vestir.

- Pode deitar aí enquanto tomo um banho; Filipe trará o remédio para você daqui a pouco, ok?

Carolinne concordou acenando com a cabeça e deitou-se na cama. O colchão era tão confortável que não demorou muito para a jovem adormecer. Acordou apenas para tomar o remédio que Filipe lhe trouxe e receber um beijo quente de Andréa antes dela sair. Em seguida enroscou-se novamente nos cobertores em cima da cama e dormiu.

Poucos minutos depois de sair de seu apartamento, Andréa já estava no Café Paris.

- O que foi, Luigi? Achei que já tínhamos resolvido tudo a respeito da sua viagem para Milão.

- Claro... Faltam apenas alguns detalhes; surgiram recentemente...

- Deixe-me adivinhar; problemas com Luca?

- Não sei se posso chamar isso de problema... É que ele não quer ir para a faculdade; disse que aquilo não é para ele.

- Como é que é? Esse garoto enlouqueceu?

- Pois é... Ele disse que quer viajar por aí, conhecer o mundo; coisas de jovens na idade dele.

- Diga que se ele se atrever a fazer isso corto toda a mesada que ele recebe DUAS vezes por mês! Quero ver se ele vai ter como sair e se aventurar por aí sem dinheiro! Fora isso, mais alguma coisa?

- Só algumas peças que seu pai insiste em colocar em exposição; não sei se seria boa idéia...

- Por que?

- São daqueles "amigos" do seu pai... Tenho um certo receio de que fazer negócios com Matheo Santarelli e sua família talvez possa nos prejudicar.

- Cuidado com o que fala; esses caras não são de brincadeira, Luigi. Se te pegam falando que desconfia deles, cortam sua língua!

Luigi engoliu um seco, mas logo Andréa lhe acalmou.

- Estou brincando! Olha... Você está cansado de saber como é esse negócio de palavra, não é? Honra. Você sabe que os Santarelli, principalmente o Matheo, devem a vida deles ao meu pai e essa dívida vai ficar comigo também para o resto da minha vida; meus negócios nunca estiveram tão seguros! Confie em mim!

- Se você está dizendo...

- Quanto àquele "bambino", mande ele me ligar se não tiver entendido alguma coisa, ok? E dê lembranças para todos lá em casa.

- Tem certeza que não quer vir comigo e vê-los pessoalmente? Faz tanto tempo que você não fala com seu pai...

- Tenho certeza e sei que ele está bem; preciso ficar aqui e cuidar da minha vida.

Ambos se despediram e Luigi foi embora; Andréa dirigiu-se para o balcão onde Bernard o limpava impecavelmente

- Oi, senhor Bernard; como está?

- Bem... Na mesma. Mais feliz de saber que está considerando a idéia de não fechar o Café.

- Certo. Mas o senhor parece cansado. Por que não tira uns dias de folga... Para relaxar um pouco.

- Férias? Nunca em trinta anos eu estive ausente do Café Paris! Não vai ser agora!

- Mas um dia o senhor tem que descansar!

- E vou; mas até esse dia chegar estarei aqui, firme e forte!

Andréa sorriu para o velho. Não o conhecia bem, apenas sabia que era seu conterrâneo, um homem trabalhador e que amava o que fazia; o Café era tudo para ele. Mas olhando bem para ele dava para perceber que alguma coisa não estava bem. "Será que ele está doente", pensou.

Pediu um cappuccino, que ele trouxe em poucos segundos, e telefonou para a casa de seus pais, em Milão.

- Ei mama! Aqui é tua bambina!

- Ma como... Genero, nostra filha no teléfono! Como está, filha mia?

- Va bene, mama, va bene... E Luca? Tem dado trabalho?

- Esse bambino tem unas idéias que me deixam louca! Noutro dia comprou una moto... tuo pai non diz nada e agora sai com ele para andar.

- Mama... São coisas da idade. Estou pensando em passear por aí; talvez no mês que vem, aproveitando que é aniversário dele. Aproveito para conversar um pouco com ele e ver se ele toma jeito. Já falei com ele uns dias atrás.

- Venha, filha mia, que tua família está com saudades de você, capiche?

- Capisco, mama. Vou ver se posso me ausentar por uns dias e faço uma visita para vocês... E vou levar alguém especial comigo.

- Humm... Um bambino... Ou una bambina?

- Una bambina, mama. Una bambina especialíssima!

- Medre de Dio; tuo cuore bate forte por esta bambina, filha mia?

- E como, mama; e como...

Andréa suspirou fundo e sorriu. Tomou um gole do cappuccino e recomeçou a conversa.

- Va bene, mama... Mande um baccio para meu bambino e peça e ele para se comportar, cierto? Outro para senhora.

- Tuo bambino vai adorar conhecer tua amiga; tenho certeza. Fica com Dio, filha mia.

Desligou. Era bom ouvir a voz da velha mama ao telefone e saber que estava tudo bem em casa. Mas Luca ainda era um calo no sapato; o garoto estava cada dia mais parecido com...

O telefone tocou; era Filipe.

- Madame, deseja algo especial para o almoço?

No apartamento de Andréa, Carolinne acordou de novo; seu telefone tocava insistente ao seu lado. Não acreditou quando olhou quem ligava.

- Gustav?

- Oi. Posso saber onde você está? Liguei para o seu apartamento ontem a noite toda e hoje pela manhã e nada de você atender.

Pensou em dizer a verdade, que estava na casa de uma amiga (bom de uma pessoa que era beeeem mais que uma amiga), mas não lhe pareceu uma boa idéia. A verdade é que queria dizer que não voltaria mais para aquele apartamento enorme, que não queria mais saber dele, que...

- Estou em casa... O telefone está com defeito já tem dois dias. Por que não ligou no meu celular logo de uma vez?

- Para quê? Para você dizer que sou um chato e fico te vigiando o tempo todo?

- E não está fazendo isso agora?

- Está vendo... Lá vem você!

- Eu nada, Gustav! Olha, estou cansada, tive uma noite muito puxada ontem; consegui expor uma de minhas telas numa galeria importante e fiquei a noite inteira acordada pensando nisso. Aí você me liga e começa uma briga completamente desnecessária... Tenha paciência!

- Ok, desculpe... Bom... Vou sair daqui amanhã; chego á noite. Gostaria de conversar com você, sobre a gente... Acho que devemos chegar a uma conclusão sobre isso tudo.

- A... Amanhã?? - Carolinne tentou disfarçar a surpresa; achou que ele fosse ficar mais tempo fora.

- É, amanhã. Passa lá em casa porque vou estar cansado da viagem.

- Humm... Ok. Amanhã a gente se fala.

Desligaram secamente. Carolinne tinha certeza agora; estava tudo acabado. "Mas que folga a dele!", pensou. "Ele quer conversar comigo e EU tenho que ir até a casa dele! Não existe mais romantismo..." Ela riu sozinha e, enquanto jogava o telefone para o canto ouviu vozes na sala; Andréa já estava de volta.

- ... Claro que está em ordem, madame! Eu mesmo a arrumei da última vez que fomos.

- Ótimo, Filipe! Então pegue o que é de costume levar e coloque tudo no carro; vou ver se podemos sair amanhã pela manhã. Tenho que conversar com Carolinne antes.

Nesse instante, Carolinne entrou na sala com aquela cara de sono característica de quem dormiu pouco. Andréa andou em sua direção e beijou-a ternamente no rosto, abraçando-a em seguida.

- O que está acontecendo? - quis saber a jovem.

- O que você acha de passar uns dias numa casa que tenho nas montanhas? Lá é tão lindo; tenho certeza de que você vai gostar!

- Claro, seria ótim...

Carolinne lembrou que Gustav chegaria no dia seguinte e ela havia combinado de se encontrar com ele para conversarem. Que dilema!

- O que foi; algum problema?

- Mais ou menos; é que Gustav me ligou agora a pouco dizendo que volta amanhã e quer conversar comigo...

Dava para ver que Andréa havia ficado um pouco chateada com aquela situação.

- Tudo bem; vamos outro dia, não tem problema.

- Humm... Preciso resolver isso com ele de uma vez. Não posso deixar as coisas seguirem desse jeito. Vou conversar com Bernard e pedir uns dias de folga; eu não tirei minhas férias ainda, então, acho que não vai ter problema. Podemos ir depois de amanhã, se você não se importar.

- Tem certeza? Olha; não quero criar nenhum tipo de aborrec...

- Quer parar com isso! EU quero ir com você e ponto final!

- Tudo bem... Que tal almoçarmos? Mais tarde te levo em casa.

- Combinado. O que Filipe está preparando?

- Alguma coisa exótica para impressionar você, suponho.

- Me impressionar? Por que?

- Porque ele gostou de você, Carol; ele tem um radar que avisa quando as pessoas são boas ou não.

- Que bom... Então ele sabe que eu não vou fazer mal a você, não é?

- Sabe.

Elas sentaram-se à mesa e tomaram um delicioso suco de laranja com morango; ainda havia alguns vestígios de ressaca da noite anterior.

Depois de almoçar um delicioso grelhado de salmão e um creme de aspargos, deitaram no tapete da sala e ficaram ouvindo música, até que Carolinne achou melhor voltar para sua casa.

- Acho melhor voltar; se Gustav ligar de novo vai estragar esse final de semana tão maravilhoso que tive! Não se importa se eu for agora, não é?

- Não precisa me dar explicações, Carol; sei que as coisas estão meio complicadas para você e, convenhamos, não apareci numa hora muito boa...

- Não fala assim... Você não podia ter aparecido numa hora melhor! Passa amanhã no Café; eu chego às nove.

- Tudo bem. Vá trocar de roupa que já te levo. Pegue nas minhas gavetas uma camiseta limpa e uma calça de molethon; não vai querer sair com aquele vestido de noite, vai?

Carolinne sorriu para ela, consentindo. Levantou-se, deu um beijo em seu rosto e foi até o quarto. Escolheu uma calça azul marinho e uma camiseta branca. Só então reparou que, num canto do quarto, haviam algumas medalhas. Chegou mais perto para ver de que se tratava. Descobriu que Andréa, alguns anos atrás, fora uma grande campeã de Jiu-Jitsi na Itália. Estranho como ela nunca mencionara nada.

Deixou de lado as medalhas e trocou de roupa. Minutos depois estava de volta à sala.

- Você está ótima! Minhas roupas ficam bem em você!

- Realmente; as que servem...

Andréa afagou os cabelos da jovem atrapalhando-os por inteiro. Depois conduziu-a em direção à porta. Desceram, pegaram o carro e seguiram para o apartamento de Carolinne. Um silêncio estranho estava no ar e nenhuma das duas decidiu quebrá-lo. Poucos minutos depois estavam na porta do prédio da jovem.

- Quer subir?

- Humm... Acho melhor voltar e ajudar Filipe. Coitado; ele faz de tudo para que eu me sinta bem e tenho certeza que deve estar quebrando a cabeça para arrumar o que eu gosto de levar.

- Ok. Humm... Está tudo bem?

- Cl... Claro; por que não estaria?

- Não sei... Você esteve meio calada nos últimos minutos.

- Ah... Isso. Bom... É que tudo isso é meio novo para mim, entende? Digo; estar com alguém que eu realmente gosto e que também gosta de mim... Não quero atrapalhar sua vida, não quero confusão para você... Mas quero continuar a te ver.

Carolinne olhou nos olhos de Andréa e viu algo estranho; parecia... Medo. Acariciou o rosto dela e beijo seus lábios suavemente.

- Também quero continuar te vendo! Não se preocupe tanto assim comigo. Me liga amanhã?

- Claro!

Elas se despediram com um abraço apertado e um beijo no rosto e Carolinne entrou no prédio. Andréa a acompanhou com os olhos e, quando a jovem entrou no grande elevador, foi embora. Tinha muita coisa para organizar para a viagem. Iria de qualquer forma, com ou sem Carolinne; estava se sentindo meio cansada e queria respirar um pouco do ar puro da montanha. Só havia um novo problema: conseguiria ficar longe daquela garota?

Segunda feira, oito e quinze da manhã. Carolinne acordou não acreditando no que havia acontecido no final de semana. Em sua secretária eletrônica haviam três recados de Antoinne e dois de Jac. Tinha que falar com eles, mas olhou no relógio e viu que já estava tarde e chegaria atrasada no Café. Correu para o chuveiro e tomou um daqueles "banhos de gato", arrumou-se rápido e saiu.

Chegou no Café às nove em ponto e Bernard estava sentado atrás da máquina registradora dando o troco para uma senhora. Quando ela se foi, a jovem se aproximou.

- Ei, Bernard! Pouco movimento hoje, héin?

- É... Parece que todo mundo resolveu tomar café em casa...

Ele soltou uma risada longa e alta, o que atraiu a atenção de Rogèr. Ele veio até os dois, já que haviam apenas três pessoas sentadas numa mesa do canto, a qual já havia atendido.

- Posso saber do que vocês estão rindo tanto? Também quero rir!

- Nada demais, Rogèr... Parece que todo mundo resolveu tomar café em casa, só isso.

- Ah... É verdade; as coisas estão meio paradonas aqui hoje...

Rogèr era um jovem parisiense como qualquer outro: nem alto, nem baixo, olhos verdes bem claros e um cabelo loiro escuro muito liso, cortado rente a nuca. Era elegante, mas nada que chamasse muita atenção. Ele sempre teve uma queda por Carolinne, mas viu que não tinha chance contra Gustav; acabou desistindo da idéia. Estava namorando firme com Antoinne há três meses e sua paixão por Carolinne ficou ofuscada pela simpatia e o carinho de Antoinne.

Bernard voltou a mexer na caixa registradora enquanto os Carolinne sentou-se ao balcão e Rogèr foi preparar um café para ambos. O jovem recomeçou a conversa.

- Será que você pode me dizer por que a Antoinne está tão estranha nos últimos dias?

- Estranha? Estranha como?

- Humm... A semana inteira ela estava parecendo muito ansiosa com alguma coisa... E não quer me dizer o que é! Sabe como eu fico neurado com essas coisas, Carolzinha... Acho que você sabe o que está acontecendo.

- Sei sim... Mas não tem nada à ver com vocês, não... É comigo.

- Como assim? O que está havendo?

- Bom... É que acho que vou terminar com Gustav...

Os olhos do rapaz se arregalaram e brilharam; não porque ele poderia vir a ter alguma chance com ela, mas porque ele achava que sua amiga merecia coisa muito melhor.

- Sem mais, nem menos? O que houve?

- As coisas não acontecem sem mais, nem menos, Rogèr; já tem muito tempo que tem algo errado conosco. Só agora eu percebi...

- Humm... E o que te fez perceber? Ou melhor,"quem" te fez perceber?

Carolinne analisou em sua mente se seria adequado falar da sua descoberta sexual; achou melhor conversar com Antoinne primeiro; não conhecia tão bem assim aquele jovem rapaz. Procurou uma explicação que pudesse soar razoável naquele momento.

- É que as brigas estão cada vez mais freqüentes e isso está me incomodando muito. Não quero passar o resto da minha vida brigando com uma pessoa.

- Sei... Que pena que as coisas foram terminar assim. Você sabe que eu não gosto muito daquele sujeitinho, mas espero que essa seja a coisa certa.

- Eu também...

Naquele instante, Antoinne entrou feito um foguete porta adentro e correu para onde Carolinne estava. Pegou-a pelo braço e chamou Bernard.

- Preciso dela só por dois minutinhos, viu Bernard?

O velho acenou que estava tudo bem; não havia mais ninguém ali para ser atendido.

Antoinne, quase sem fôlego, puxou Carolinne para o lado de fora do Café e ambas sentaram num banquinho que ficava em frente.

- O que... aconteceu... afinal de contas...?

- Ei... Calma! Respira direito! Por que você veio aqui agora?

- Falei que ia doar sangue por causa de um amigo que estava no hospital só para vir aqui e saber o que aconteceu no final de semana... Você simplesmente sumiu!!! Sabe muito bem que a curiosidade é capaz de me matar, sua ingrata!

- Me desculpe, Ann... Mas eu não acredito que você inventou uma mentira dessas só para saber do MEU final de semana!

- Claaaro; é o babado do momento! E não muda de assunto não, Carol! Me conta tudo... Os detalhes pode deixar para depois porque tenho que voltar para o mercado daqui a pouco. Quero o básico!

Carolinne tomou fôlego e contou tudo o que aconteceu no sábado e no domingo; desde a hora que Andréa a buscou em casa, até quando a deixou de volta.

- Mon Dieu! E foi gostoso, digo, beijar uma...?

- ... Uma mulher? Foi muito bom... Diferente, sabe. Uma sensação muito gostosa tomou conta do meu corpo e eu te juro que não sei explicar direito o que senti realmente; mas sei que gostei!

Antoinne observava sua amiga contando toda a história e notou que ela estava realmente entusiasmada com tudo aquilo. Foi quando uma idéia estranha tomou conta dela e, depois de certificar-se que não havia ninguém olhando, beijou Carolinne.

A jovem assustou-se um pouco com a atitude da amiga, que sempre foi extremamente hetero e completamente tarada por homens... Mas ela também era assim até conhecer Andréa! Esperou que ela terminasse o beijo (que foi divino!) para poder saber o que estava se passando na cabeça daquela maluca.

- Humm... Ok. O que foi isso?

- Fiquei curiosa, só isso. Tem razão, não dá para explicar! Claro que no nosso caso é diferente, mas é muito gostoso mesmo!

Quando se deram conta do que haviam feito, perceberam que Rogèr as observava à porta do Café com uma cara meio... estranha. Ele respirou fundo e chegou perto delas.

- Então era isso! Eu não me importo, Ann, mas vocês vão ter que me prometer que fazem isso de novo, assim, na minha frente.

As duas riram. Bom saber que Rogèr era um cara compreensivo e, convenhamos, qualquer homem fica extremamente excitado ao ver duas mulheres juntas; ainda mais duas tão lindas!

- Não começa a viajar, não, Rô! Não é nada disso que você está pensando. - a jovem virou-se para Carolinne e sussurrou em seu ouvido - Mas eu gostei muito!

Sorriu para a amiga, deu um suave beijo em seu rosto e pulou nos braços do namorado; tinha que dar algumas explicações antes que ele começasse a gostar da idéia... Começasse?

Carolinne passou uma das mãos nos lábios, ainda um pouco úmidos do beijo da amiga, e voltou para dentro do Café, deixando os dois à vontade para conversar. Mas que havia sido gostoso, havia! Era bom que Andréa não ficasse sabendo daquilo!

Alguns minutos depois, Antoinne entrou seguida de Rogèr, que estava com o queixo quase tocando o chão. Discretamente ele veio até onde sua amiga estava, sentou-se ao seu lado e comentou baixo.

- Quer dizer que a "toda-poderosa-senhora-de-tudo" é "sandalhinha"?

- É o quê?

- Ah... Você sabe... Sapatão, lésbica, "macho man", essas coisas...

- Se você me chamar disso algum dia, eu juro que te mato! Acho esses adjetivos extremamente vulgares!

- Desculpa, Carol... Não queria caçoar da sua opção sexual; é que não gosto muito daquela mulher!

- Eeeh, Carol... Acho que ele não gosta de qualquer um que se envolva com você!

- Ei! Espera aí... Quem estava beijando ela não era eu, não!!

- Podem parar com isso, vocês dois?

Antoinne deu um beijo estalado na boca de Rogèr e levantou-se de onde estava.

- Tenho que ir agora; ninguém fica tanto tempo assim doando sangue! E eu tenho que passar no posto médico ainda para doar de verdade; fiquei com a consciência pesada... Droga!

- É... Que bom que você ainda tem um pouco de juízo!

Carolinne viu que alguém abriu a porta do Café. Uma visão, um colírio para seus olhos naquela manhã fria; Andréa.

- Ops... Acho melhor a gente sair de fininho porque a "namoradinha" da Carol chegou!

- Shhhhhhh! Pára com isso, Rogèr! Ai de você se agir diferente com ela, viu!

Carolinne despediu-se de Antoinne, que saiu feito um furacão pela porta, e foi atender Andréa. Ela estava com uma pasta que parecia conter alguns documentos. Chegou perto e começaram a conversar baixinho.

- Bom dia, lindinha!

- Essa é nova! - falou Andréa com um sorriso enorme no rosto. - Você me chamar de lindinha?

- Desculpa... Esqueci que aqui você é só minha chefe...?

- Pára com isso; eu adorei! Posso conversar com você, Bernard e com o outro rapazinho por alguns minutos?

- É algo urgente?

- De certa forma... Sim. Tenho que acertar como as coisas vão ficar aqui no Café. Preparei a documentação e gostaria de resolver com os três.

- Ok...

Carolinne foi até o caixa chamar Bernard e acenou para Rogèr. Ambos vieram em direção à mesa em que Andréa estava. Ela começou falando.

- Desculpe atrapalhar o trabalho de vocês, mas é que preciso resolver alguns assuntos com relação ao Café.

Os olhos de Bernard fixaram-se naquela mulher; de certa forma, ela o deixava nervoso.

- Quando adquiri o Café Paris, minha intenção era fecha-lo para demolir e construir outra galeria. Mas graças a intervenção da senhorita Le Blanc encontrei uma solução melhor e que, de certa forma, trará um retorno muito maior se puder unir o útil ao agradável. É simples: o Café continua funcionando, mas vou fazer algumas pequenas modificações.

- O que sugere? - perguntou Bernard já quase roendo os dedos de tão nervoso.

- Bom... Pelas plantas que vi do local, lá atrás tem um galpão, onde vocês guardam o estoque... Certo?

Os três consentiram com a cabeça. Ela continuou.

- Pois bem... Podemos reorganizar o estoque num espaço menor e usar aquela área para fazer pequenas exposições. Vou ter que dar uma mexida aqui na frente, mas só para abrir uma porta que leve aos fundos. Lá atrás podemos colocar mais algumas mesas e uma música ambiente. Senhor Bernard...?

Bernard ouvia tudo com atenção. Coçava a barba bem feita com uma das mãos e tinha um ar sério e preocupado no rosto. Ele respirou fundo e pela primeira vez olhou Andréa nos olhos.

- Bom... O Café já não é mais meu, não tenho muito que falar... Mas apesar de não concordar muito com idéia dessa mudança, acho que vai ser bom para todos nós...

- Claro que vai, senhor Bernard; nada vai ser mudado aqui na frente. Apenas vou expandir o negócio.

O velho sorriu como se tivesse ainda um fio de esperança, afinal, ele ainda poderia continuar trabalhando ali.

- E quanto a nós? - Carolinne perguntou olhando nos olhos de sua amiga.

- Quanto a vocês, senhorita Le Blanc, acho que vou reorganizar o quadro de funcionários, contratar mais alguns. Mas vocês vão continuar aqui, claro. Especialmente o senhor Bernard, que já conhece tudo como a palma da mão. Só gostaria de saber se você, senhorita Le Blanc, estaria interessada em ser minha gerente, trabalhar como num departamento de arte, para poder cuidar do outro ambiente do Café, essa coisa de compradores, exposições, etc... O que acha?

Carolinne parou um segundo no tempo. "Será que Bernard não ficaria chateado?", pensou. Mas olhando para o velho amigo percebeu que estava tudo bem e que talvez não existisse ninguém melhor para ajudar a tomar conta do "novo Café Paris".

- Se você contratar mais funcionários e se Bernard estiver de acordo, não vejo porque não aceitar.

Andréa olhou para Bernard esperando seu consentimento para promover a jovem. Não sabia porque estava dando tanta atenção à opinião daquele velho ou porque estava fazendo tudo exatamente como Carolinne queria... Sim! Era o poder que Carolinne exercia sobre ela e isso a incomodava bastante.

- Não vejo porque não aceitar, minha filha! É tudo que você mais queria, trabalhar com arte, suas telas... Como vocês jovens dizem: "vai fundo"!

Carolinne abraçou Bernard e sorriu para o velho amigo.

- Ok. Já que estamos todos de acordo, aqui estão os contratos. Gostaria que vocês três lessem com calma e se concordarem com todos os termos, podemos assinar e fechar negócio de vez.

Cada um pegou uma cópia do contrato e foram levantando. Andréa pediu que Bernard esperasse um minuto. Rogèr e Carolinne foram atender dois fregueses que acabavam de chegar.

- Senhor Bernard, tem mais uma coisa.

O velho sentou-se novamente esperando a má notícia que ele não queria ouvir.

- O senhor sabe que é preciso fechar o Café por causa das reformas, não sabe? Não podemos correr o risco de incomodar os clientes com isso.

Bernard levou as duas mãos ao rosto e suspirou fundo.

- Eu temia que você dissesse isso. Será que não tem como...

- Seria muito incômodo para todos os clientes; o senhor não concorda?

- Por que sempre me pergunta se concordo ou não? O Café é seu, minha filha; as decisões são única e exclusivamente suas!

Andréa viu que a imagem que tinham dela era de uma pessoa amarga, sem coração. Mas ela podia amar, Carolinne era a prova disso!

- Eu não sou esse monstro que vocês me pintaram...

Bernard se sentiu extremamente sem graça. Desviou seus olhos para o chão porque não podia encarar Andréa novamente. Respondeu a pergunta sem olhar para ela.

- Claro, minha filha... Você está certa.

- Não se preocupe, senhor Bernard; tudo vai ficar pronto em poucos dias. Enquanto isso o senhor pode descansar. Quando tudo voltar ao normal o Café vai estar novo em folha!

- Não vou arredar o pé daqui enquanto não terminarem as obras! Pode ficar sossegada que eu tomo conta de tudo!

Andréa viu que seria uma briga perdida insistir que não precisava que ele ficasse ali. Sem opção, estendeu a mão para aceitar a oferta. Carolinne se aproximou dela com o contrato em uma das mãos.

- Por mim está tudo certo.

Rogèr parou ao seu lado e com um sorriso estendeu o contrato para Andréa.

- Para mim também está tudo ok... Principalmente essa parte que fala do salário; vou ganhar mais e...

Bernard deu um puxão na orelha de Rogèr que o fez gritar.

- Que é isso "pai"? Ficou doido?

- Reclamando do que recebia, não é?

- De jeito nenhum... Estou agradecendo porque vou receber um aumento; só isso!

Os quatro riram. Andréa pegou os três contratos e pediu que todos assinassem. Em seguida assinou também e apertou a mão de todos.

- Espero que sejamos uma grande família.

- "La Bella Máfia". - brincou Carolinne.

- Não exatamente; espero não precisar matar ninguém!

Mais risadas, essas um pouco nervosas por parte de Andréa porque ela sabia que se algum dia fosse necessário, era só dar um telefonema. Torcia para que isso nunca acontecesse com ela.

- Bom... Preciso ir.

Ela despediu-se de Bernard e Rogèr e caminhou em direção á porta, acompanhada por Carolinne. Conversaram, mais uma vez, num tom de voz baixo.

- Você está bem? - Andréa estava apreensiva.

- Por que não estaria?

- Espero que não tenha se sentido pressionada com o convite. Acho que vai ser interessante ter alguém que realmente entende de arte trabalhando aqui.

- Obrigada pela confiança; não vou te decepcionar.

Andréa estava meio sem graça de continuar a conversa; Carolinne percebeu.

- Quer perguntar mais alguma coisa?

- Humm... É que... Você acha que vai poder...

- ... Viajar com você? Claro que vou! Só preciso conversar com Gustav primeiro. Te ligo hoje à noite, ou amanhã de manhã.

- Estarei aguardando.

Carolinne abriu a porta para Andréa. A empresária estendeu a mão para despedir-se da jovem e sorriu para ela. Carolinne retribuiu o sorriso com outro e ambas apertaram as mãos.

As duas ainda se olharam um longo tempo antes que Andréa entrasse no carro e fosse embora. Carolinne a acompanhou com os olhos até que o carro da amiga virou numa esquina e desapareceu.

Sentiu algo que nunca havia sentido antes; era gostoso saber que tinha alguém gostava tanto assim dela. Uma felicidade quase inexplicável invadiu o seu peito e uma vontade louca de rir até para as paredes tomou conta da jovem. Tinha que se conter, afinal, Bernard não sabia de nada ainda e era melhor que ficasse assim, por enquanto; ele era meio conservador.

Respirou fundo e entrou. Apenas as duas pessoas que ela e Rogèr haviam atendido há alguns minutos, ainda continuavam ali.

Carolinne sentou-se ao balcão e ficou ali umas duas horas, apenas viajando num emaranhado de pensamentos e sentimentos que circulavam por sua cabeça. Bernard chegou perto dela e sugeriu que tomassem um cappuccino, o qual ele mesmo preparou na hora.

- Tem alguma coisa que está te incomodando, minha filha?

- Humm... Mais ou menos...

- Como o problema com o Café está resolvido, então só pode ser...

- É, é nele mesmo que estou pensando. Brigamos feio antes dele viajar e acho que está na hora de por um fim nessas brigas.

- Você quer dizer... Terminar? Mas são tantos anos!

- Mas acho que o amor acabou, Bernard; assim não dá para continuar.

- Eu te conheço muito bem, Carolinne; apareceu alguém que balançou seu coração, não foi?

Carolinne sentiu as mãos suarem, o coração disparar e o rosto arder; teve vontade de contar, mas ainda não era a hora.

- Talvez... Mas a verdade, mesmo, é que cansei de brigar. Vou conversar com ele hoje e resolver essa situação.

- Se precisar de qualquer coisa pode contar comigo.

- Claro...

- Estamos sem movimento por aqui hoje, quer ir para casa para descansar sua cabeça e pensar direito no que vai fazer?

- Humm... É uma boa idéia. Acho que vou viajar depois que conversar com ele; o Café vai estar fechado, mesmo, e não tenho que mandar nenhum desenho para o jornal essa semana. - ela olhou para seu velho amigo; ele parecia cansado. - Vai ficar tudo bem com você, Bernard?

- Claro; pode ir sossegada! Rogèr vai ficar aqui comigo até mais e depois eu fecho; vou ter que me acostumar com esse lugar fechado...

Carolinne despediu-se de Bernard e Rogèr. Ainda era uma hora da tarde e ela não sabia ao certo se Gustav havia chegado de viagem. "Tomara que não; assim posso descansar antes da confusão!", pensou alto. Seguiu o conselho de seu velho amigo e foi para o apartamento descansar a cabeça para ter certeza do que ia fazer.

Chegando em casa desligou o telefone do quarto e jogou-se na cama.

Andréa tentava não demonstrar, mas estava ansiosa. Ter que esperar Carolinne resolver o que ia fazer estava se tornando um suplício! Engraçado como nunca havia passado por esse tipo de situação antes. A toda-poderosa Andréa D'Angello Baccio estava nas mãos de uma jovem que conheceu hátão pouco tempo. Não; isso ela não podia admitir. Por mais amor que ela sentisse por Carolinne, nunca diria estar à mercê da outra... Mesmo que estivesse! Mas estava se tornando tão forte o que sentia; parecia que ia explodir. Como não conversava muito com outros funcionários do escritório e Luigi não havia chegado ainda, ficava andando de um lado para outro em sua sala.

Alguns minutos depois Luigi chegou ao escritório e o que ele viu foi, no mínimo, hilário; como bom amigo que era, não podia deixar de se preocupar.

- Ok... Já tem um buraco no chão de tanto você ir e vir; que tal a gente ir lá na minha sala para conversarmos à respeito do que está te deixando assim.

- Assim como?

- Assim... Ansiosa, nervosa, sem controle, etc... E não venha me dizer que isso é coisa da minha cabeça porque que eu te conheço tempo suficiente para saber quando alguma coisa está errada.

Andréa não estava à fim de discutir. Pegou o cigarro em sua bolsa e acompanhou Luigi até sua sala. Ele abriu a porta educadamente para ela e ambos entraram.

- Bem... Conta aqui para o seu "ombro amigo"; o que está havendo? Não me diga que você está assim por causa daquela gar...

- NÃO! É claro que não! Imagina se ia ficar assim por causa de...

- ... De alguém que você está perdidamente apaixonada?

- EU???

- Andréa... Somos adultos, já sabemos de muita coisa da vida; vamos pular essa parte em que você jura de pés juntos que não está acontecendo nada e que tudo isso não passa de um simples "rolo"; esses obstáculos em nossos diálogos só vão servir para atrasar mais ainda as coisas, sendo que, no final, você vai me contar de qualquer forma. Então, sem rodeios, sim?

As mãos de Andréa estavam suando, seu coração parecia querer sair do peito; não conseguia se lembrar de ter sentido algo assim antes; talvez quando estava no colegial e uma amiga segurou na sua mão, fazendo ela ter sentimentos diferentes com relação a uma mulher... Mas nada comparado àquilo.

- Não sou de ferro, Luigi. Tenho sentimento como todo mundo... É só isso.

- Você não precisa falar para mim que você não é de ferro, minha querida; eu sei! Você não precisa fazer esse tipo durão, que resolve tudo com um olhar; para mim não, sou seu amigo! Só quero saber se posso te ajudar de alguma maneira. Nunca te vi assim, tão nervosa... E nunca achei que isso pudesse acontecer com você. Essa garota está mexendo mesmo com a sua cabeça, héin!

- É... Só que eu estou com medo de estar fazendo a coisa errada... Para ela, entende? Ela disse que vai terminar com noivo porque acha que eles não têm mais nada à ver. Disse que gosta de mim e que quer continuar se encontrando comigo. E se não for o melhor para ela?

- E se for? E você; como é que fica? Estou vendo que você está realmente interessada nessa garota, mas não pode ficar pensando só nela, Andréa! Os seus sentimentos também estão em jogo. Você decidiu arriscar e, pelo visto, ela também! Ambas são adultas e agora é esperar para ver o que vai acontecer.

- Eu sei... Hoje fechei negócio com o dono do Café Paris; ele, um outro funcionário e Carolinne vão continuar trabalhando lá para mim. Eles já conhecem bem o lugar e com os conhecimentos de Carolinne sobre arte, poderei coordenar a nova galeria que quero montar no Café sem ter maiores preocupações.

- Que bom, querida. Agora deixe o barco correr... Você disse que ia tirar uns dias de folga... Pretende viajar para sua casa na montanha?

- Estou querendo ir para lá, sim. Até chamei Carolinne para ir comigo. Acha que estou sendo precipitada?

- Acho ótimo! Ela vai?

- Não sei ainda. O noivo dela chega hoje e eles devem conversar logo mais. Vou esperar ela me ligar.

- Se precisar de qualquer coisa é só me chamar, ok?

Andréa deu um tapinha no ombro do amigo, agradecendo sua ajuda e saiu da pequena sala, voltando para a sua. No meio do caminho lembrou-se que estava com vontade de fumar e não havia acendido nenhum cigarro até aquela hora.

- Vou acabar parando...

Chegou em sua sala e sentou-se diante de alguns documentos; decidiu terminar tudo o que tinha para fazer, assim poderia ir embora mais cedo. Achou que seria uma boa idéia ligar para Filipe e pedir que ele lhe preparasse algo para comer.

- Alô, Filipe... Sim, sim, está tudo bem. Só queria que você preparasse para mim um filé ao molho madeira e separasse uma garrafa de vinho... Não, eu vou sozinha... Carolinne? Não sei, mas ela não deve jantar conosco hoje. Isso, só eu. Não vou demorar. Até daqui a pouco.

Ela desligou o telefone, acendeu um Marlboro e começou a trabalhar.

Carolinne acordou após algumas horas de sono. Sua cabeça doía um pouco; parecia que estava prevendo o aborrecimento que iria enfrentar. Olhou no relógio, seis e quarenta da tarde. Havia desligado o telefone quando chegou e preferiu não ligar de novo; se quisessem falar com ela, que ligassem para o celular.

Levantou-se e procurou o pequeno aparelho para ver se tinha alguma mensagem. Havia oito chamadas não atendidas.

- Meu fã clube...

Ela riu sozinha enquanto olhava quem havia ligado. Não é preciso ser gênio para adivinhar. Havia sete ligações de Gustav e uma de Andréa. Ele não gostava de deixar mensagens na secretária, mesmo assim havia duas dele e mais uma de Andréa. Ela foi direto na mensagem de sua amiga.

"Oi Carol... É... Desculpa já estar te ligando, mas é que fiquei com saudade... Eu sei que você deve estar pensando 'mas ela me viu tem poucas horas!', mas é que... Ah, deu saudade, só isso. Queria saber se está tudo bem; liguei para seu apartamento e você não atendeu. Qualquer coisa que precisar, por favor, me liga, tá? Beijo..."

Como era gostoso ouvir a voz dela, mesmo por telefone e numa gravação. Mas agora ela tinha que encarar a fera; não podia adiar mais aquela conversa com Gustav. Discou novamente o número de sua caixa postal para ver as mensagens dele.

"Gostaria muito de saber onde você está! Acho que se esqueceu do que combinamos, pelo visto. Mas não é novidade para mim isso... Estou esperando você aqui em casa... E me faz um favor: liga esse telefone!"

"Que saco!", pensou Carolinne; "E ainda tem mais uma!"

"Carol... Você vem ou não? Estou te esperando aqui já tem um tempão! Está fugindo da nossa conversa...?"

Essa segunda mensagem deixou Carolinne mais nervosa do que estava. "Fugindo... EU?", esbravejou ela. "Esse cara deve estar ficando doido, mesmo... E extremamente egocêntrico!"

Ela ligou o telefone do seu quarto e discou o número de Andréa; seria muito bom ouvir a voz dela de novo antes de ir para a casa de Gustav. Dois toques depois Filipe atendeu.

- Senhorita Le Blanc! Janta conosco hoje?

- Obrigada, Filipe; tenho que resolver uns probleminhas. Andréa está?

- Claro; vou chamá-la.

Carolinne ouviu os passos de Filipe pelo apartamento; ela devia estar em seu quarto vendo TV, ou apenas descansando. Poucos segundos depois ela atendeu.

- Oi!

- Ei... Você ligou. Desculpe não ter atendido; desliguei o telefone quando cheguei porque senão Gustav não ia me deixar descansar nem um segundo. Esqueci que você também poderia me ligar...

- Não precisa se desculpar... Eu é que sou uma chata mesmo; não te dou trégua!

- Não me importo se você não quiser me dar trégua...

- Humm... Que bom! Mas... E aí... Humm... Já conversou com ele?

- Não. Estou indo para lá agora, por isso te liguei; ouvir sua voz me acalma.

- Que bom saber disso! E... Você tem certeza de que é isso mesmo que você quer?

- Nunca tive tanta certeza! Pára de se preocupar com isso, Andréa. Não estou dizendo que você tem que se amarrar em mim para o resto da sua vida. Independente de nós duas, meu relacionamento com Gustav já estava indo por água a baixo. Só que quando a gente se acomoda com uma situação é muito difícil de sair dela. Graças a Deus apareceu você... Isso me fez abrir os olhos. Só porque eu estou terminando meu noivado com ele não quer dizer que você vai ter que casar comigo.

- Humm... Que pena...

- O que disse?

- Nada, nada... Então... Me liga quando voltar.

- Ok... Bon apetit!

- Ahh; obrigada... Mas falta você aqui ao meu lado...

- Então vamos fazer o seguinte: eu passo aí depois... Tem problema se for muito tarde?

- Nenhum... Você dorme aqui, se for o caso.

- Combinado; vejo você mais tarde!

- Até...

A jovem colocou o fone no gancho e estirou-se na cama. Estava mais calma por ter falado com Andréa.

Levantou-se e tomou um banho. Pegou uma calça jeans clara e uma camiseta branca; o básico era seu estilo preferido. Foi até a janela e viu que estava frio lá fora. Pegou um molethon branco do Hard Rock Café de Paris e jogou nas costas para o caso de sentir frio.

- Bem, senhor Gustav... Vamos resolver isso!

Pegou sua bolsa e saiu. Chamou um táxi, de ônibus demoraria muito e ela queria acabar logo com isso para se encontrar com Andréa. Indicou o caminho para o chofer e foi pensando que nunca havia tido pensamentos tão egoístas com relação a Gustav; era o fim de tudo mesmo.

Alguns minutos depois e Carolinne chegou até a casa de Gustav, que ficava num condomínio fechado, na zona mais nobre e afastada da cidade. O guarda da portaria já a conhecia muito bem; deixou que ela passasse sem mais demora. Desceu em frente à casa de seu noivo (ou seria EX-noivo?), e pediu que o motorista a esperasse.

- Não vou demorar.

Dirigiu-se à entrada principal e viu que o carro de Gustav estava na garagem. Parou em frente à porta da casa e respirou fundo. Quando ia tocar a campainha a porta se abriu. Gustav estava do outro lado com um olhar meio perdido e segurava um copo de whisky numa das mãos; sabia que as coisas não iam terminar bem naquele dia.

- Nossa; você me assustou! Estava vigiando para ver se eu vinha?

- Estava sim... Esperei o dia todo; você não atendeu meus telefonemas, nem ligou de volta... Estava um pouco preocupado.

- E por que não foi lá em casa?

- Porque eu ainda tenho um pouco de amor próprio... Entra; vamos conversar no escritório do meu pai.

Carolinne entrou e seguiu para a pequena sala no final do corredor daquela imensa casa; conhecia aquele lugar de cor. Entraram e ele ofereceu algo para beberem. Carolinne notou que ele já devia estar bebendo há algum tempo, pois seus olhos estavam vermelhos e o cheiro de bebida que exalava dele era muito forte. Ia ser difícil.

Ele serviu um vinho para ela e pegou seu copo de whisky, sentando-se à sua frente, em seguida.

- Pois então, Carol... O que está havendo?

- Bem, Gustav... Acho que nós chegamos a um ponto do nosso relacionamento em que estamos passando mais tempo brigando do que juntos. É triste pensar que quando estamos juntos as coisas dão errado, não nos entendemos mais... Isso já tem um tempo, mas achei que podia ser coisa da minha cabeça...

- Parece que não é, então...

- Não. A verdade é que não estamos mais como antes. Acho que... Acho que aquilo tudo que sentíamos foi se esgotando com essas brigas infundadas e...

- Quem é ele?

Carolinne franziu o rosto numa expressão de dúvida e continuou olhando para ele.

- Quem é quem?

- Quem é o cara que você está saindo?

- Não estou saindo com cara nenhum!

Não deixava de ser verdade...

- Por que você está fazendo isso comigo? O que eu te fiz, héin? Sempre te dei tudo do bom e do melhor. Sempre quis que você tivesse uma vida de rainha. Mas você preferiu ficar nessa vidinha medíocre sua!

- Você está bêbado, Gustav! Não vou conversar com você assim!

Carolinne pegou sua bolsa em cima de uma pequena mesa e ia saindo quando Gustav segurou-a violentamente pelo braço.

- Ai!! Você está me machucando!!

- Você não vai embora sem me dizer o que está acontecendo! Eu não quero ficar fazendo papel de palhaço! Me fala; quem é ele?

Ele agora gritava enfurecido e apertava cada vez mais o braço de Carolinne.

- Você está ficando louco, Gustav; não existe "ele" nenhum... Me larga que você está me machucando!

- Então, será que... É ela? É isso?

Carolinne engoliu um seco. Ele não podia saber de nada, não tinha como. Mas por que aquilo, agora?

- Qual o seu problema?! Não quero mais discutir com você; quando estiver sóbrio a gente conversa.

Ela conseguiu soltar-se das mãos de Gustav e correu para a porta, mas ele a alcançou de novo e puxou-a com tanta força que ela caiu no chão.

Ela sentiu uma dor intensa acima do olho esquerdo e sentiu um líquido quente escorrer pelo seu rosto.

- Seu estúpido; olha o que você fez!!

Carolinne tentava estancar o sangue com uma das mãos enquanto com a outra afastava Gustav de perto dela.

- Fica longe de mim...

- Meu amor... Calma; eu não queria... Deixa eu te levar para o hospital!

- TIRE AS MÃOS DE MIM!!!!!!!!!!!!

Ela empurrou-o para o canto da sala e saiu, trancando a porta por fora para que ele não a seguisse. Correu em direção à porta de entrada e passou por ela meio aos trancos e barrancos; estava zonza por causa da pancada. Graças aos Deuses o taxista ainda estava lá.

Ele desceu do carro assustado e veio em seu auxílio.

- Madame... O que houve??

- Vamos embora, senhor. Meu noivo está fora de controle...

Ele ajudou-a a entrar no carro e partiu; ainda deu para ver Gustav saindo pela porta e correndo alguns metros atrás do táxi.

- Vamos para o hospital, por favor...

- É para já, madame! Por favor, mantenha-se acordada; acho que é perigoso dormir agora!

Carolinne tentou ligar para Andréa, mas não enxergava os nomes na pequena tela do celular.

- Por favor; o senhor poderia procurar o nome de Andréa Baccio na agenda do telefone? Ligue para esse número, sim; não enxergo direito...

O homem, imediatamente, pegou o celular de Carolinne e, enquanto dirigia rapidamente pela estrada achou o número e discou. Andréa atendeu.

- Onde você está, querida?

- Humm... Madame... Me desculpe, mas sua amiga pediu que ligasse para você porque... Bem, ela não está em condições...

Andréa levantou-se da cama assustada.

- O que houve?

- Parece que ela teve uma briga com alguém e está um pouco machucada; eu a estou levando para o hospital. Acho que ela gostaria que a Madame fosse para lá.

- Passe o telefone para ela, senhor!

O motorista chamou Carolinne, que já havia deitado no banco de trás do carro.

- Madame... Madame, não durma!! Olhe; sua amiga quer falar com você! Acorde! A senhorita precisa ficar acordada!!

Carolinne fez um esforço grande para abrir os olhos e pegar o telefone. Ajeitou-se no banco para tentar ficar acordada.

- An... Andréa...

- Carolinne! O que houve? Ele te machucou? Te feriu? Eu mato aquele desgraçad...

- Calma... Eu... Eu estou bem... Foi um acidente... Depois... Depois eu te conto...

- Vá para o hospital central; estou indo para lá! Calma, meu amor...

- Hospital... Central...

Carolinne deixou o telefone rolar para o banco e, sem perceber foi fechando os olhos lentamente. O motorista do táxi ainda tentou acordá-la, mas não teve sucesso. Ele ligou o pisca alerta e pisou fundo no acelerador para que chegassem o mais rápido possível. Ouviu o que Carolinne mencionou por último e rumou para o Hospital Central.

Poucos minutos depois chegaram. Andréa chegou junto com eles. Parou o carro de qualquer jeito e correu para o táxi. O motorista desceu e viu que Andréa já estava abrindo a porta para tirar a jovem.

- A senhorita deve ser a Madame Baccio, certo? Vou chamar os enfermeiros; fique aqui com ela.

O homem correu rampa acima e voltou minutos depois com dois enfermeiros e uma maca. Andréa já estava com Carolinne nos braços tentando fazer com que a outra ficasse acordada.

- Vamos, meu amor... Acorde! Você não pode dormir; não faça isso comigo, por favor...

Os enfermeiros chegaram com a maca e colocaram a jovem inconsciente em cima dela. Os dois enfermeiros subiram correndo a rampa que dava acesso ao hall de entrada e seguiram por uma porta que dizia "Somente Pessoal Autorizado". Andréa tentou entrar, mas foi barrada por um dos enfermeiros.

- Calma; a senhorita não pode entrar aqui. Deixe que agora nós tomamos conta de sua amiga.

Ela não tinha mais o que fazer. Voltou para o hall de entrada onde havia uma pequena sala de espera e sentou-se num sofá, acendendo um cigarro em seguida. O motorista do táxi veio até ela.

- Humm... Como ela está?

Andréa havia se esquecido do homem. Pegou sua carteira e retirou o talão de cheques.

- Desculpe; me esqueci do senhor. Quanto ficou a corrida?

- O que é isso, Madame; não vim aqui para cobrar, de jeito nenhum! Estou preocupado com aquela mocinha.

Andréa sentiu-se um pouco sem graça com a situação.

- Obrigada... Desculpe o jeito que falei; é que achei que o senhor...

- Meu nome é Jean-Luc; não precisa me chamar de senhor... E está tudo bem, minha jovem. Vou lá fora estacionar meu carro direito; quer que eu estacione o seu?

- Humm... Ficaria agradecida.

O homem pegou a chave nas mãos de Andréa e saiu pela porta principal.

Andréa estava sentada naquela pequena sala de espera já há alguns minutos, que pareciam intermináveis, quando uma médica jovem veio em sua direção.

- Boa noite... Andréa? O que faz aqui?

- Marrie? Que bom que é você que está aqui!

- Eu trabalho aqui! Mas o que houve; por acaso você é parente daquela garota que chegou agora a pouco?

- Humm... Não exatamente... Como ela está?

- Ela vai ficar boa. Foi apenas superficial. Fizemos alguns exames para ver se haviam danos internos, mas até agora tudo bem.

- Fiquei preocupada; havia tanto sangue...

- É que essa região da cabeça é cheia de pequenos vasos; qualquer corte, por menor que seja, parece ser muito pior do que aparenta.

- E eu posso vê-la?

- Claro! Estamos só esperando o resultado de mais alguns exames e ela poderá ir para casa. Acompanhe-me, por favor.

Andréa seguiu por um longo corredor onde havia várias salas. Chegaram até o quarto onde Carolinne estava e a jovem doutora deixou que ambas conversassem com mais privacidade.

Andréa sentou-se na cama, ao lado de Carolinne, e ficou olhando para a jovem. Ela parecia tão indefesa ali, daquele jeito. Sem falar nada, ambas se abraçaram.

- Como você está? O que houve?

- Tive uma discussão com Gustav... Ele estava bêbado e...

- Ele te bateu???? Eu juro que mat...

- Calma... Ele não me bateu; foi um acidente. Ele me puxou quando eu estava indo embora, eu escorreguei e caí no chão. Bati a cabeça em algum lugar que não me lembro. Coitado... Ele ficou todo preocupado...

- Coitado? Ficou louca? Olha como você está! É bom esse cara não chegar perto de você nunca mais, senão ele vai ter que se ver é comigo!

Carolinne olhou para aquela mulher sentada ali na sua frente e sorriu.

- O que foi? Por que está me olhando assim?

- Você está preocupada comigo...

- Claro que estou! Por que não estaria? Eu te amo...

As duas se olharam. "Eu te amo", pensou Carolinne. É uma frase bem forte; mas o que ambas sentiam naquele momento era amor, o mais puro e sincero amor. Ela segurou as mãos daquela linda mulher e beijou-as. Seus olhos se encheram de lágrimas e um nó na garganta dizia que ela não agüentaria segurar o choro.

- Você... Me ama?

Andréa sentiu seu rosto em chamas, mas era verdade; ela estava amando aquela jovem e não tinha porque não deixar que ela soubesse de todo esse amor.

- Sei que isso pode parecer assustador para você, mas... É a única forma como eu consigo explicar o que sento por você agora. E o que estou sentindo é muito forte. Preocupo-me com você sim, e vou sempre me preocupar enquanto estivermos juntas.

- Obrigada...

- Por que?

- Por gostar tanto assim de mim!

- Isso tudo, digo, nós... Foi tão de repente... E é tão gostoso...

Carolinne notou que os olhos de Andréa também estavam marejados. Lágrimas deslizaram pelo seu rosto e Andréa enxugou-as com as mãos.

- Por que você está chorando?

-- Não sei... Felicidade demais! Mas você também está!

- Eu? Não posso me render a esse tipo de fraqueza...

- Certo, senhorita-nervos-de-aço... Acho que pelo menos comigo você poderia mostrar esse lado sensível que eu tenho certeza que está guardado aí dentro em algum lugar!

- Não gosto de me expor, Carol... Já me machuquei muito por causa disso.

- Mas... Sou eu! Você acabou de dizer que me ama; acho que pode confiar em mim... Eu também amo você! Acho que você pode sentir isso, não pode?

Andréa olhou fundo nos olhos daquela jovem sentada à sua frente. Era perfeito demais; linda, simpática, esforçada e estava apaixonada por ela, amava ela. O que mais alguém iria querer? Claro, havia o noivo dela, mas pelo visto ele já era passado, principalmente depois do que tinha feito. Só de pensar que sua jovem amante estava ali por causa dele, o sangue fervia e uma vontade enorme de usar suas relações com a máfia começava a passar pela sua cabeça. Mas deixou de lado os pensamentos ruins e começou a ver o quão bom tinha sido conhecer aquela jovem. Olhou carinhosamente para ela e acariciou seu rosto com uma das mãos. Depois de alguns segundos de estase emocional, voltou a falar.

- A doutora Marrie é minha amiga e disse que está esperando os resultados de mais alguns exames; só por precaução. Depois vamos embora para nossa cas...

- ...

- Desculpe... É que queria que você ficasse mais perto de mim para eu poder tomar conta de você.

Carolinne abriu um largo sorriso e abraçou Andréa.

- Vamos para a "sua" casa. É melhor irmos com calma, ok?

Andréa sacudiu a cabeça afirmando que estava tudo bem. Naquele instante a doutora entrou quarto.

- Bem, bem... Como vai a nossa paciente? Sente-se melhor?

- Me sinto sim, doutora; obrigada.

- Gostaria de saber como a senhorita fez para se machucar assim. Você está levando ela para aquelas aventuras malucas suas, Andréa?

Carolinne olhou para Andréa esperando que a outra a ajudasse a inventar uma desculpa aceitável.

- Bom... É que eu estava passando pano no meu apartamento e escorreguei no piso molhado. Tive o azar de bater na quina da mesa.

A doutora Marrie olhava de Carolinne para Andréa; a história parecia não convencê-la.

-Senhorita, humm... Le Blanc, certo?

Carolinne concordou.

- Sei que pode ser constrangedor, mas se esse "incidente" foi algum tipo de agressão por parte de outra pessoa, acho que a senhorita deveria pensar melhor se...

- Eu já disse o que aconteceu.

- Tudo bem; me desculpe, então, senhorita Le Blanc... Seus exames. Os resultados foram satisfatórios e não houve mesmo nenhuma lesão no cérebro.

- Então ela já pode ir? - perguntou Andréa muito excitada com a idéia da jovem voltar para seu apartamento.

- É; acho que não tem porque segurá-la aqui por mais tempo. Ainda mais que foi só um "acidente doméstico"...

A jovem doutora encarou Carolinne nos olhos; sabia que a jovem estava mentindo, mas não podia obrigá-la a dizer nada.

Carolinne, meio sem jeito e um pouco zonza ainda, levantou e foi para o banheiro lavar o rosto e trocar de roupa; aquela camisolinha de hospital era um horror!

Enquanto isso, Andréa conversava com a doutora Marrie.

- Tem alguma coisa que ela tem que tomar cuidado, tipo, o que não comer, dormir... Ela não pode se deitar agora, não é mesmo?

- É bom ela ficar acordada por pelo menos mais uma hora, mesmo não havendo nenhum perigo. Os exames foram totalmente favoráveis e ela está com a saúde perfeita. Quanto ao que comer, não tem nenhuma restrição em especial; talvez uma refeição mais leve quando chegar em casa e nada de álcool, por favor, Andréa.

- Hummm... Fico feliz em saber disso.

Andréa desviou o olhar de Marrie porque, como ela conhecia a jovem doutora há muitos anos, sabia que aqueles olhos poderiam arrancar qualquer coisa de qualquer um; e não seria ela quem contaria a verdade.

Para alívio de Andréa, Carolinne não demorou mais que cinco minutos no banheiro e elas puderam ir embora.

Agradeceram os cuidados da doutora e ela deu uma última recomendação.

- Senhorita Le Blanc, cuidado quando for arrumar a casa da próxima vez. Se tiver algum problema sugiro que chame alguém para auxilia-la. - e olhou para Andréa. - E você, Andréa, vê se não some! Estou com saudade de ir naquela casa maravilhosa sua! Me ligue qualquer dia. Estou no mesmo número ainda.

Andréa sorriu para sua amiga e passou o braço pela cintura de Carolinne. Ambas caminharam em direção à saída, descendo a pequena rampa da entrada principal do hospital.

- Por que não contou a verdade para ela?

- Achei melhor não complicar as coisas. Imagine só: eu conto que foi uma briga com Gustav e que, apesar de não parecer, foi um acidente eu ter me machucado; ela iria acabar chamando a polícia... Você sabe como eles reagem com agressões desse tipo; iam falar que eu estava defendendo ele, porque era meu noivo, que isso, que aquilo. Ia complicar demais. Do meu jeito ficou bem mais fácil!

- Ok "senhorita Le Blanc"... Tem uma pessoa que você deveria conhecer melhor.

Quando chegaram ao estacionamento, um homem alto, de cabelos grisalhos, estava encostado em um táxi fumando algo que cheirava a chocolate. Ele viu que as duas mulheres vinham em sua direção, então, apagou o cigarro e sorriu para ambas.

- Mocinha, que susto você nos deu!

Carolinne olhou um pouco sem graça para Andréa, como se tentasse lembrar de onde conhecia aquele homem. Tinha uma vaga lembrança, mas...

- Não está lembrada? Esse é o senhor Jean Luc, Carolinne; foi ele quem te trouxe para cá.

Carolinne sorriu, agora um pouco mais descontraída, e apertou a mão do sujeito.

- Muito obrigada por me ajudar!

- Não precisa agradecer, criança. Nós existimos para isso, não é mesmo?

Ele consultou o relógio; nove e meia da noite.

- Humm... Está tarde; preciso ir. Cuide-se, minha jovem. Tome meu cartão; se precisar de alguma coisa é só me ligar, ok?

- Ok, senhor Luc. Obrigada, mais uma vez!

- Cuidem-se, as duas. - ele se virou, entrou no táxi e foi embora.

Andréa passou um dos braços pelo ombro da jovem ao seu lado e apertou-a contra seu corpo. Carolinne olhou para ela e notou que sorria.

- O que foi?

- Que susto você me deu...

- Está tudo bem agora.

- É, mas... E se ele te procurar? Ele com certeza deve ir atrás de você no seu apartamento, nem que seja para pedir desculpas. - fez uma breve pausa e abraçou a jovem - Quero estar lá com você; não vou te deixar sozinha de novo!

A expressão no rosto de Andréa havia mudado totalmente. Era ódio que brilhava em seus olhos e Carolinne pode ver isso claramente. Provavelmente era um lado dela que a jovem não conhecia e acharia muito melhor se ficasse escondido.

- Vamos pensar nisso depois, ok? Estou cansada e com fome... O que Filipe preparou para o jantar?

- Um filé ao molho madeira; acho que você vai gostar.

Carolinne concordou e elas entraram no Land Rover que estava estacionado à sua frente.

Chegaram no apartamento de Andréa poucos minutos depois e Filipe já aguardava aflito.

- Que demora, madame! Como é que me deixa aqui sem nenhuma notícia? - olhou na direção de Carolinne e sorriu para a jovem - E como você está, senhorita? Sente-se melhor?

- Bem melhor, Filipe; obrigada. Humm... Que cheiro é esse?

- Um filé ao molho madeira; gosta?

- Deve estar fabuloso!

- Então, já para a mesa, as duas!

Carolinne e Andréa sentaram-se à mesa e deliciaram-se com o prato preparado por Filipe. Estava realmente maravilhoso.

Após o jantar, enquanto comiam uma deliciosa sobremesa de sorvete de flocos com creme de chantilly e cobertura de chocolate, conversaram um pouco. Ficaram ali quase duas horas falando de assuntos que não tinham nada a ver com o incidente daquela noite.

- Puxa... Acho que, mais uma vez, exagerei na comida!

- Creio que a comida não foi tanto o problema; o pote de sorvete é que me preocupa! A doutora falou para você comer algo leve...

- Sorvete "é" leve! E muito, muito bom também!

- Sei; acho que agora você já pode descansar um pouco. O dia foi estressante.

- É; nem me fale! Humm... O que vamos fazer agora?

- Vamos para o meu quarto; você vai dormir na minha cama, eu durmo no sofá.

Carolinne fechou a cara igual a uma criança quando lhe tomam seu brinquedo favorito.

- O que foi?

- Como é que você vai tomar conta de mim se vai estar tão longe? Acho melhor você se deitar na cama comigo, ao meu lado; pode ser que eu precise de alguma coisa de madrugada...

Andréa sorriu e abraçou a jovem.

- Tudo bem; então vamos.

Foram para o quarto de Andréa. Carolinne vestiu uma camisa de flanela que lhe batia abaixo dos joelhos e deitou-se na cama. Agora que estava ali naquela cama macia e confortável, sentiu um sono enorme, seus olhos pesando, pesando...

Andréa cobriu-a com uma manta e deitou ao seu lado. Apoiando a cabeça com uma das mãos, ficou acariciando os cabelos de sua pequena amante, enquanto a olhava apaixonada.

Carolinne olhava para ela com os olhos serrados e com um sorriso delicioso no rosto que parecia dizer que estava tudo bem agora. Então seus olhos foram fechando até que caiu num sono profundo.

Alguns minutos depois, Andréa também sentiu seus olhos se fechando; estava muito cansada. Ajeitou-se na cama, o que fez com que Carolinne chegasse o corpo mais perto do dela e a abraçasse. Aos poucos foi adormecendo, ainda acariciando os cabelos da jovem.

Filipe bateu à porta para ver se elas precisavam de mais alguma coisa. Como ela estava aberta, empurrou-a levemente; ambas estavam adormecidas.

Era meia noite e o vento soprava inquieto lá fora; ia ser um dia frio.

Dez e meia da manhã. Carolinne abriu os olhos e viu que os braços de Andréa a envolvia num gostoso abraço. Apertou seu corpo mais para junto da outra e sentiu a respiração de sua amante em suas costas. Era realmente muito bom estar ali.

Um celular tocou. Andréa se mexeu na cama, virando-se para o outro lado. Carolinne procurou o aparelho e olhou quem ligava; era Gustav. Ficou olhando para o aparelho, decidindo se atendia ou não.

- Vai atender?

Andréa havia acordado e olhava para ela com os olhos ainda um pouco fechados de sono.

- Não sei... Não sei o que vou falar, o que ele vai falar...

- Está com medo?

- Não; não é isso... Não sei se quero atender.

O telefone parou de tocar. Ele havia deixado uma mensagem. Carolinne discou a senha e ouviu.

"Oi Carol... Acho que você não deve estar querendo falar comigo, não é? Queria pedir desculpas, conversar direito, entender o que aconteceu ontem... Me sinto péssimo com tudo isso. Me perdoa... Não vou pedir para você me ligar porque sei que não vai adiantar, mas pelo menos atende o meu telefonema da próxima vez; preciso me desculpar com você... E apesar de tudo que aconteceu eu te amo..."

Carolinne desligou o telefone e colocou-o na cabeceira da cama. Andréa estava deitada ao seu lado esperando para ver o que a jovem ia dizer.

- E então?

- Ele quer se desculpar... Mas não quero falar com ele agora.

Andréa puxou a jovem para perto de si e a abraçou. Continuaram deitadas por mais alguns minutos sem falar nada, apenas sentindo o calor, o carinho de uma com a outra, até que Filipe bateu à porta.

- Pode entrar, Filipe.

Ele entrou e parou diante da cama.

- O senhor Luigi perguntou se a madame gostaria de jantar com ele hoje à noite.

- Carolinne precisa descansar. Diga a ele que venha para cá por volta das sete horas para jantarmos todos juntos; quero que ele a conheça.

- Como quiser, madame.

Filipe saiu do quarto e fechou a porta novamente.

- Assim vou ficar muito mimada! Eu estou bem; posso sair para almoçar com vocês, se quiser.

- Quero você aqui do meu lado, onde eu possa te abraçar sem me preocupar com olhares curiosos.

- Ok... Mas vou ficar mimada!

Durante todo o dia Andréa encheu Carolinne de cuidados. Tomaram um revigorante café após se levantarem e depois deitaram no tapete da sala para ouvir um pouco de música. Andréa insistia que sua pequena amante não deveria se esforçar demais e Carolinne achou melhor deixar as coisas como estavam; a tanto tempo não era mimada desse jeito!

Às sete horas em ponto Luigi tocou a campainha. Filipe atendeu a porta e as duas esperaram até seu convidado entrar para cumprimentá-lo.

- Boa noite, Luigi; quero que conheça Carolinne.

- Então você é famosa senhorita Le Blanc que tem tirado o sono da minha amiga?

- Humm... Não queria tirar o sono dela... - Carolinne estava totalmente envergonhada.

- Não deixe minha convidada sem graça, Luigi!

- Foi brincadeira... Que prazer em finalmente conhecê-la, senhorita Le Blanc.

- O prazer é todo meu, senhor Luigi.

O charmoso homem sorriu para ela e tomou um gole de vinho.

- E então Andréa; vai tirar férias ou não?

- Vou sim. Tenho que resolver sobre as reformas que irei fazer no Café. Depois vou viajar e descansar um pouco.

- Sei... Mas pensa bem; você já deixou tudo anotado no escritório, não deixou? Pois então deixe que eu cuido de tudo; vá descansar.

- É... É uma boa. Faria mais esse favor para mim, Luigi?

- Com todo prazer.

Carolinne observava os dois conversando. Dava para notar que Luigi tinha por Andréa uma grande afeição; era bom saber que ela tinha pelo menos aqueles dois bons amigos. Mas subitamente lembrou-se que ainda trabalhava no Café e para o jornal; como ficariam as coisas quando começasse a trabalhar para Andréa?

Andréa levantou-se e foi até o quarto para buscar algumas anotações que havia feito em casa para entregar a Luigi. Ele aproveitou para conversar um pouco com a jovem.

- Parece que você acertou em cheio o coração da poderosa Andréa Baccio, héin!

- Acho que ela realmente gosta de mim, senhor Luigi.

- Sem formalidades, por favor. Me chame só de Luigi, sim? - ele sorriu para ela e continuou - E você pretende ir com ela para as montanhas? Lá é maravilhoso.

- Creio que talvez seja uma boa idéia, se levar em consideração o que anda acontecendo nos últimos dias. Mas preciso ver como vão ficar as coisas no Café; Bernard e Rogèr não podem ficar sozinhos muito tempo, seria injusto.

- Quanto a isso, a solução é simples: vou começar as obras imediatamente; assim quando vocês voltarem já vai estar tudo no lugar. Como o Café vai estar fechado temporariamente, Bernard não vai precisar de sua ajuda. Fique sossegada; cuidarei de tudo pessoalmente.

Carolinne sorriu para aquele simpático amigo que acabara de fazer. Nesse instante, Andréa voltou trazendo uma pasta com documentos.

- Aqui estão alguns cálculos que fiz, o que deve ser mudado, etc. O senhor Bernard disse que quer estar presente na obra. Converse com ele, Luigi. Ele trabalhou a vida toda e não quero que se sinta mal no Café depois das mudanças. Creio que ele pode dar boas dicas também. Está tudo anotado aqui e nos papéis que estão no escritório.

Luigi examinou os papéis e guardou-os novamente na pasta. Andréa chegou mais perto dele e sussurrou algumas palavras em seu ouvido.

- Tenha paciência com o senhor Bernard; ele já está velho, mas tem a cabeça boa ainda.

- Pode deixar tudo comigo.

Filipe chegou trazendo o almoço, que por sinal cheirava deliciosamente bem.

- Bon apetit. - falou ele.

Todos se serviram de um maravilhoso salmão grelhado com creme de aspargos e batatas amanteigadas. Para acompanhar, um vinho delicioso de uma safra especial, que Filipe havia escolhido cuidadosamente.

Após o jantar conversaram ainda durante alguns minutos. Luigi, notando o olhar cansado da jovem à sua frente resolveu que já era hora de ir embora. Despediu-se das duas com calorosos abraços e se foi.

Após fechar a porta, Andréa sentou-se no sofá com Carolinne.

- E agora; o que vai fazer? - perguntou Andréa à jovem.

- Preciso ir até o Café e conversar com Bernard. Vou adiantar para ele que as reformas vão começar essa semana e que o senhor Luigi é um cara legal, senão ele vai acabar implicando com ele à toa.

- Certo. Vou arrumar algumas coisas que pretendo levar para a viagem. Humm...

Andréa virou-se para a estante atrás da mesa e pegou as chaves do carro.

- Vá no meu carro. Aproveite para pegar suas coisas em seu apartamento. Pegue roupas quentes porque lá faz frio, muito frio, viu?

- Ok. Não vai mesmo precisar do carro?

- Não. Te espero aqui e qualquer coisa é só me ligar, ok? Você sabe do que estou falando...

- Certo.

Carolinne foi até o quarto, pegou um molethon de Andréa emprestado, o celular e voltou para sala.

- Certo; vou indo. Se precisar de alguma coisa, te ligo.

Andréa sorriu para a jovem e a beijou suavemente nos lábios. Carolinne sorriu de volta e saiu.

- Filipe... Me ajude a achar minha arma, sim. Não gosto de ir para as montanhas desprevenida.

- Como quiser, madame.

No Café...

- Carolinne!! O que houve com você, minha filha! Sumiu ontem a noite toda!

- É uma longa história, Bernard; depois te conto.

- Mas o que aconteceu com o seu rosto; está machucada! Não me diga que...

- Depois eu explico, Bernard. Queria conversar com você a respeito do Café. A senhorita Baccio pretende começar a reforma essa semana mesmo; o quanto antes melhor.

- Mas já?

- É, Bernard. Não fica chateado com ela. Ela está tentando fazer o possível para não te desagradar.

- Eu sei, minha filha; eu sei. Mas é que achei que ia demorar mais um pouco.

- Olha; quem vai cuidar de tudo por aqui é um cara chamado Luigi; ele trabalha para a senhorita Baccio há muitos anos. É um homem muito bom, Bernard, e você pode confiar nele. Ela falou para ele conversar com você, para que vocês possam trocar idéias a respeito da reforma.

- Isso é muito gentil da parte dela. Se você diz que posso confiar, então tudo bem. Quando ele vem?

- Deve vir hoje mesmo. Assim amanhã já dá para colocar a mão na massa.

- E como você vai se virar até ficar tudo pronto?

- Tenho ainda algumas economias e o emprego no jornal; dá para agüentar. Vou viajar uns dias para esfriar a cabeça; tive uma briga feia com Gustav ontem.

- Vocês...

- Está tudo acabado, Bernard. Cansei de fechar os olhos para as ignorâncias dele. Se ele me procurar diga que me casei e mudei, sei lá... Diga que não faz idéia de onde fui.

- Mas eu posso saber onde você vai?

- Vou sair por aí um pouco. Visitar uma amiga que mora no norte.

- Bom divertimento, então. Espero que quando você voltar já esteja tudo pronto.

- Eu também!

Ela beijou o velho amigo no rosto e saiu. Pegou o carro e tomou o caminho do seu apartamento. No caminho lembrou que deveria falar com Antoinne antes de viajar. Parou, então, no mercado onde ela trabalhava.

No apartamento de Andréa...

- Será que Carolinne tem um daqueles aparelhos de fazer waffles? Seria legal levar um porque o meu queimou da outra vez.

- A madame poderia ligar para ela e verificar.

Andréa pegou o telefone e discou o número. Uma chamada, duas. Na terceira alguém atendeu.

- Alô?

Andréa ficou muda. Não era Carolinne.

- Alô? Carol, é você? - falou a voz do outro lado.

Ela desligou o telefone, pegou sua bolsa em cima da mesa, verificou se sua arma já estava lá dentro e saiu correndo.

Quando Carolinne entrou no supermercado, sua amiga quase desmaiou. Inventou uma desculpa qualquer para poder largar o caixa e saiu puxando a outra para fora. As duas se sentaram dentro do carro para conversar.

- O que houve? Na sua casa não consegui falar com você a noite inteira! Nem no seu celular! Vocês brigaram, não foi... O que é isso no seu rosto?? Ah, Mon Dieu! Ele te bateu! Desgraçado!

- Antoinne...Posso falar?

A amiga respirou fundo e olhou curiosa para jovem, que parecia bem mais frágil naquela manhã.

- Tivemos uma briga feia. Ele estava bêbado e sem querer me jogou no chão; eu bati a cabeça numa quina e esse foi o resultado final - ela apontou para os pontos no supercílio - Mas está tudo bem agora.

- Tudo bem? Sei. Você, por acaso, dormiu...

- No apartamento da Andréa; sim. Ela achou melhor eu ir para lá, caso eu precisasse de alguma coisa. Mas acho que estava era com medo de que o Gustav fosse lá em casa. Mas nós dor-mi-mos!

- Que bom que ela se preocupa assim com você; fico mais aliviada.

- Ela disse que me ama, Ann...

- Wow! Isso está ficando sério, héin! Mas e você? A ama também?

- Sei que pode parecer absurdo, mas... Sim! Ela faz com que eu me sinta tão bem.

- Que bom; fico feliz por você, minha amiga. Tenho certeza que Rogèr também vai ficar. E o que você vai fazer agora?

- Bom; ela mandou um amigo dela cuidar das reformas que serão feitas no Café e pretende viajar uns dias. Me chamou para ir com ela. Como o Café vai estar fechado eu aceitei; vai ser bom dar fugida dessa zona toda!

- Isso mesmo, lindinha; aproveita sua vida. Quando voltar me procura, ok?

- Ah, vou procurar sim. Quem sabe você começa a trabalhar lá no Café com a gente, héin? Que tal?

- Vai ser ótimo! Ficar perto de você, Rogèr, do Bernard... E até da poderosa Andréa Baccio!

Ambas riram e se abraçaram. Antoinne se despediu da jovem e voltou para dentro do supermercado. Carolinne seguiu, então, para seu apartamento.

Quando chegou a surpresa não poderia ser pior; o Xsara azul estava parado na porta. Sentiu um frio na espinha e quase deu meia volta. Pegou o telefone no impulso de ligar para Andréa, mas desistiu. Teria que, mais uma vez, resolver aquilo sozinha.

Estacionou o carro e subiu. Pierre estava na porta; novamente abandonado. Ela tocou campainha na caso do vizinho, ele o colocou para dentro.

Abriu a porta do seu apartamento e Gustav levantou-se do sofá num salto. Correu na direção da jovem e a abraçou forte. Não queria soltá-la, mas Carolinne conseguiu se desvencilhar daquele abraço.

- Onde você estava? Fiquei preocupado! Mon Dieu; você está machucada!

- Não foi nada, estou bem.

- Meu amor, me desculpe; não foi minha intenção, você deve saber...

- Sei... O que você está fazendo no meu apartamento?

- Vim te ver, conversar; quem sabe resolvemos aquela briga e fica tudo bem...

Carolinne olhou incrédula para Gustav. Ele ainda esperava voltar depois daquilo! Que insano! Mas preferiu não se alterar. Respirou fundo e virou-se para ele.

- Gustav; quero que você escute com bastante atenção. Acabou! Chega! Deve ser difícil de aceitar, mas você vai ter que entender o que eu estou dizendo. Não dá mais certo, será que você não vê? Será que não viu em que ponto chegamos? Eu passei a noite no hospital por sua causa. E ainda tive que inventar um monte de mentiras para os médicos para não complicar com sua vida.

- Mas eu...

- Espere que eu estou falando! Não está mais dando certo, entenda isso!!

- Preciso saber uma coisa...

Carolinne esperou pelo que vinha, sabia o que ele iria perguntar e o mínimo que poderia fazer era ser honesta com ele, por pior que fosse a verdade. Nesse momento arrependeu de não ter ligado para Andréa.

- Tem alguém, não tem?

- Por favor, responda.

Os olhos dele estavam marejados e ela segurou para não chorar também.

- Tem.

Ele passou as mãos pelos cabelos e sentou-se novamente no sofá.

- Só quero saber mais uma coisa... Tem muito tempo?

Carolinne se sentiu um pouco mais aliviada de não ter que responder que estava com Andréa.

- Se quer saber se estava te traindo a não sei quanto tempo a resposta é não. Nosso relacionamento já estava desmoronando. Foi a pouco tempo que conheci outra pessoa, quando já tinha certeza de que não daria mais certo entre nós.

Isso não foi muito animador, mas era a verdade, pelo menos.

- Então é o fim... Mesmo?

- É...

- Sinto muito...

- Eu é que sinto muito, Gustav. Espero que você encontre alguém que te ame como eu te amei... E espero que você seja mais humilde e compreensível com ela do que foi comigo.

Ele levantou, enxugou o rosto e começou a caminhar em direção à porta. Voltou no instante seguinte e abraçou a jovem.

- Eu ainda te amo, Carol. Não vou te esquecer assim, de uma hora para outra... Quem sabe um dia a gente possa se entender de novo... Um dia...

Carolinne sentiu uma ponta de medo ao ouvir aquelas palavras, mas naquele momento, pelo menos, ele não faria nada com ela; estava muito abalado para tomar qualquer atitude. Com relutância retribuiu o abraço e ele se dirigiu à porta novamente. Quando a abriu, ele deu de cara com Andréa, que já ia tocar a campainha. Ambos se encararam por alguns segundos. Carolinne achou que naquele momento iria acontecer a maior tragédia dos tempos, mas Gustav apenas saiu passou pela porta e por Andréa como um furacão, entrando no elevador, e sumindo segundos depois.

Carolinne correu e abraçou Andréa.

- Que bom te ver. O que está fazendo aqui?

- Liguei para cá alguns minutos atrás e ele atendeu. Fiquei com medo de que pudesse acontecer alguma coisa com você aqui, sozinha com ele. Está tudo bem?

- Está sim... Acho que ele sabe que estou com você, mas a mente ainda não processou essa informação. Fico com pena; não deve ser fácil para perder a noiva, ainda mais para uma mulher!

- Está arrependida?

- Não... Apenas triste. Não consigo entender porque não deu certo, sabe. Uma coisa que começou tão bem, tão lindo, assim como...

- Como a gente? Você está com medo de que aconteça o mesmo com a gente, não é?

- Um pouco, sei lá... Me desculpe falar assim com você...

- Não peça desculpas. É completamente normal esse medo que você sente. Só quero que saiba que não será assim com a gente; não vou deixar.

- Nem eu.

As duas se beijaram e Carolinne fechou a porta. Foram para o quarto arrumar as malas.

- Já resolveu quando vamos? - perguntou Carolinne enquanto olhava para dentro do armário.

- Amanhã. - respondeu Andréa, sorridente - Ou você prefere esperar um pouco mais?

- Esperar para quê? Quero conhecer essa tal casa na montanha! Será que posso levar meu equipamento de escalada?

- Humm... Quer dizer que você também escala?

- Fiz um curso enquanto morava no Brasil; não sei se estou em forma ainda.

- Claro que deve levar; eu também tenho o meu, e completo. Se precisar de alguma coisa não se preocupe. Conheço umas vias ótimas!

- Excelente! Não vejo a hora de chegarmos!

Carolinne tirou suas roupas do armário e colocou em cima da cama para escolherem qual levaria. Tinham muito que arrumar!

Passaram o resto do dia arrumando a mala de Carolinne. Blusas de lã, molethons, gorros, luvas, toalhas, e muito mais. O equipamento de escalada precisou de uma mochila separada; era muita coisa. Mas no fim deu tudo certo e elas voltaram para o apartamento de Andréa. Filipe preparou algo leve para comerem e depois elas foram dormir; Andréa disse que queria sair cedo para chegarem antes do almoço. Levando-se em conta que elas é que teriam que preparar suas refeições nos próximos dias, era melhor se prevenirem chegando mais cedo e ajeitando as coisas nos seus devidos lugares.

Estavam tão cansadas quando foram dormir que nem repararam que se deitaram na mesma cama, uma do lado da outra, se abraçaram e dormiram pesado a noite toda.

Andréa acordou não eram nem seis horas ainda. Levantou-se devagar para não acordar Carolinne e foi até a cozinha, onde Filipe já preparava um bom café da manhã para as duas.

- Já de pé, madame? Achei que sairiam um pouco mais tarde.

- O quanto antes melhor. Faça um suco de laranja com acerola para mim e para a Carolinne, por favor. Vou deixá-la dormindo mais um pouco enquanto coloco as malas no carro.

- Sim, madame.

Andréa saiu da cozinha comendo uma torrada com geléia e foi até a sala onde as malas haviam sido deixadas. Levou uma por uma, organizou tudo no extenso porta malas do seu carro e voltou para a sala. Sentou-se no sofá, acendeu um cigarro e consultou o relógio; seis e quinze.

- Acho que já é hora de acordar aquela dorminhoca!

Acabou de fumar o cigarro e voltou até o quarto. Antes foi escovar os dentes para não acordar Carolinne com aquele gosto horrível de cabo de guarda-chuva misturado com cinzeiro na boca. Sentou-se na cama devagar e passou as mãos nos cabelos da jovem, beijando seu rosto suavemente.

- Ei... Já é hora de irmos; está tarde. Levanta.

Carolinne murmurou algo incompreensível e puxou Andréa para seu lado na cama.

- Não podemos ficar deitadas agora; vamos chegar muito tarde se demorarmos mais para sair. Anda; levanta!

Carolinne abriu os olhos. Andréa já tinha tido a oportunidade de presenciar aquela cara maravilhosa de sono que sua pequena amante tinha, mas a cada dia ela parecia mais e mais linda.

- Bom dia; dormiu bem?

- Como um anjo! Que horas são; você disse que está tarde...

- E está; já são seis e vinte.

Carolinne olhou para Andréa com uma cara de "isso é tarde?" e puxou a coberta por cima da cabeça.

- Carolinne... Temos que sair agora, não gosto de chegar lá muito tarde; perdemos a melhor parte do dia. Levanta.

E falando isso, Andréa puxou as cobertas e deixou Carolinne toda descoberta. A jovem encolheu-se na cama, estava um pouco frio naquela manhã.

- Está muito cedo! Vamos dormir mais um pouco...

- Humm... Eu me esqueci que você só pega serviço as nove da manhã. Mas está um dia lindo para viajar; vem ver!

Não adiantaria Carolinne continuar discutindo com Andréa e, percebendo isso, levantou-se e foi até o banheiro. Escovou os dentes e lavou o rosto. Em seguida foi para a sala, onde Filipe servia o café.

- Onde estão as malas?

- Já levei para o carro.

- Por que você não me chamou para ajudar?

- Preferi deixar você dormindo mais um pouquinho.

- Que chata! Não faz isso que...

-..."você vai me deixar muito mimada". Já sei. Mas custei para te acordar agora, imagine quarenta minutos atrás! Seria um suplício!

Carolinne jogou uma torrada em Andréa e sorriu para ela.

Tomaram um café reforçado e trocaram de roupa. Em seguida desceram para a garagem acompanhadas de Filipe, que parecia preocupado. Chegando lá embaixo, ele deixou seu lado materno falar mais alto.

- Madame... Eu sei que, provavelmente, as senhoritas querem ficar sozinhas, mas tem certeza que não quer que eu vá dessa vez? A senhorita pode precisar de alguma coisa e...

- Fique tranqüilo, Filipe; eu sei me virar sozinha. E tenho Carolinne comigo para não me deixar fazer nada de errado, certo Carol?

- Certo. Pode ficar tranqüilo que eu vou cuidar bem dela.

Enquanto Andréa guardava sua bolsa no banco da frente do carro, Filipe puxou Carolinne para um canto para dar mais algumas instruções.

- Não a deixe ficar sem blusa; lá é muito frio e ela tem mania de falar que não está com frio. E tem outra coisa; cuidado com aquelas vias que ela gosta de subir. Uma vez ela caiu de lá e se quebrou inteira. Foi uma tragédia! Helicópteros, os pais dela quase morrendo de preocupação...

- Aposto que está falando que me quebrei inteira naquela via, não Filipe? Foi só uma perna e uma costela.

- Mas foi preciso chamar um helicóptero para resgatá-la, madame!

- É porque a via é de difícil acesso e eu estava sozinha; agora tem alguém comigo... Fique calmo, homem! Assim vai começar a deixar a Carol neurada com a viagem!

Os três riram descontraidamente. Ambas se despediram de Filipe e entraram no carro, saindo em seguida da garagem.

O céu estava limpo, sem nenhuma nuvem; o dia não poderia estar mais perfeito. Tinham pela frente mais ou menos quatro horas de viagem até os arredores de Le Chateau, uma cidadezinha quase na divisa com a Bélgica.

A viagem já durava três horas e meia; estavam quase chegando. No começo, Carolinne ofereceu-se para dirigir se Andréa se cansasse. Minutos depois já estava apagada ao seu lado. Foram dormir tarde na noite anterior e acordar àquela hora da manhã não ajudava nada.

Andréa parou o carro em frente ao que parecia uma taberna. Virou-se para Carolinne ao seu lado e acordou-a suavemente.

- Ei... Acorde; quero lhe mostra uma coisa.

Carolinne, ainda um pouco sonolenta, abriu os olhos aos poucos e espreguiçou-se toda.

- Chegamos?

- Ainda não... É que quero te mostrar uma coisa. Venha, desça do carro.

Andréa desceu e esperou a jovem em frente ao estabelecimento, olhando fixamente para ele.

Carolinne chegou onde Andréa estava guiada pelo instinto (ou pelo cheiro de sua amante!) e parou ao seu lado, escorando a cabeça em seu ombro e fechando os olhos novamente.

- Não acredito que vai dormir de novo! - falou Andréa indignada. - Olhe o que está à sua frente!

Carolinne abriu os olhos entre uma resmungada e outra e deparou-se com uma paisagem incrível. Acordou de súbito e arregalou os olhos para ver direito o que estava à sua frente. Uma taberna toda ao estilo medieval. As paredes eram de pedra e o nome estava escrito num pedaço de tronco dependurado acima da porta; "Oráculo". Não havia janelas na parte da frente; talvez existisse alguma dos lados, mas dali de onde estavam ela não as enxergava. Era fantástico aquele lugar.

- Putz! Voltamos no tempo? Como é que você achou esse lugar? É maravilhoso!

- Quando comecei a vir aqui com mais freqüência, conheci uma garota apaixonada por mitologias e quando falei que também era uma apreciadora nata, ela me trouxe aqui. Existem poucas pessoas que vem aqui porque fica muito embrenhado na montanha. Só os morados das cidades vizinhas é que sabem desse lugar e mesmo assim nunca está totalmente cheio. É muito agradável e a comida é deliciosa!

Carolinne olhava espantada para aquele lugar que parecia ter parado no tempo.

- E nós vamos entrar... Não vamos?

- Claro! Aqui é onde meu pai compra a maioria dos vinhos dele; o coitado do Luigi tem que vir aqui pelo menos quatro vezes por ano e levar um estoque para a adega do meu velho. Eu também compro os meus aqui. Vamos; você tem que tomar a famosa cerveja quente do "Oráculo".

- Oráculo... Por que esse nome?

- É por causa de um velho de uns oitenta anos que freqüenta o lugar desde que foi fundado. Dizem que ele tem o poder de predizer o futuro das pessoas...

- O futuro, é... Sei.

-... E tem mais; dizem que ele nunca errou! Eu mesma estou agora em Paris porque ele me disse que lá eu ia encontrar sucesso nos negócios e... No amor...

- Humm... Você está inventando!

- Acredite se quiser... Vamos entrar.

As duas se dirigiram para a porta e entraram. O lugar era escuro, como naqueles filmes medievais, com mesas redondas de madeira espalhadas por todo um salão enorme, candelabros com as velas a intervalos regulares por todas as paredes, única fonte de luz no local, um balcão de madeira que parecia ser bem velho e muitas pessoas com feições sombrias.

- Não se assuste com as pessoas que vem aqui; são todos gente muito simples, mas gostam de entrar no clima do lugar. Só não entre numa briga com eles, por favor!

Carolinne balançou a cabeça concordando. Andréa acenou para alguém que parecia ser um dos garçons do local. Um jovem alto e robusto veio em direção as duas e sorriu para elas.

- Quanto tempo, Andréa! Já estava ficando com saudade de você; por onde andou? Por acaso o velho Leon acertou mais um de suas previsões? - disse isso olhando fixamente para Caarolinne.

- É... Parece que sim... E como estão as coisas com seus pais; sua mãe melhorou?

- Ela... Faleceu há dois anos... Mas não fique com essa cara porque muita gente não ficou sabendo, você não é a primeira. Fora a saudade dela, está tudo bem. O velho é bem forte, sabe como é...

- Sei... Meus sentimentos, Marc.

A conversa perdeu um pouco o rumo e se não fosse o rapaz recomeçá-la, Carolinne teria sugerido que era hora de ir embora.

- Vão querer algo para beber, suponho. Mas antes, deixe que eu me apresente à sua amiga, já que a sua educação parece que ficou em Paris. - falou o jovem virando-se para Carolinne e pegando sua mão delicadamente - Muito prazer. Meu nome é Louis D'Marrc, mas meus amigos me chamam de Marc. Sendo amiga de Andréa, e creio que seja bem mais que isso, - cochichou ele ao ouvido de Carolinne - pode me chamar assim também!

Carolinne ficou encabulada ao ver que o rapaz sabia que Andréa era gay e que ela a estava acompanhando. Mas a educação dele fez com que seu desconforto diante daquela situação passasse rapidamente.

- O prazer é todo meu, Marc; e você pode me chamar de... Carol.

- Ok, Carol; o que deseja beber?

- O que sugere?

Marc olhou para Andréa que tentava disfarçar uma cara sarcástica que surgiu em seu rosto.

- O que foi? O que...?

- Nada! Traga algo "leve" para ela; é a primeira vez que ela vem aqui e não vai querer espantá-la, não é mesmo, Marc?

- Certo; e para você o de sempre.

Andréa concordou. Ele se retirou e uns dez minutos depois voltou com uma bandeja, onde equilibrava uma jarra de vidro contendo um líquido vermelho escuro e uma caneca grande com espuma escorrendo pelas bordas.

Carolinne olhou para Andréa como se perguntasse o que era aquilo; a jarra, claro, era vinho, mas o que tinha na caneca?

- Carol, esse é cortesia da casa; todos que sentam aqui pela primeira vez tem que beber um desses.

- Mas... O que é?

- Primeiro você bebe depois te falo o que é. Não se preocupe que não é nada que você nunca tenha tomado.

Carolinne olhou o copo com receio. Não podia ver a cor do conteúdo da caneca porque ela era de madeira, mas o cheiro era delicioso, doce.

- Ah, tem mais uma coisa; tem que ser de uma vez! - falou o rapaz.

- Ok, vocês querem me envenenar ou o que?

Andréa sorriu para ela e sussurrou em seu ouvido.

- Você confia em mim?

Carolinne olhou para ela e depois para a caneca; não sabia se deveria beber aquilo, mas confiava em Andréa.

Respirou fundo e, sem parar para tomar fôlego, foi virando a caneca aos poucos até que a esvaziou. Colocou-a vazia em cima da mesa e limpou os cantos da boca com a manga da blusa.

Todos no recinto bateram suas canecas umas nas outras, brindando o que Carolinne havia feito. A jovem pegou a caneca e a ergueu como se agradecesse. Depois a colocou novamente sobre a mesa e virou-se para Andréa e Marc, que a observavam.

- Muito bom, Carol. Não é qualquer um que consegue tomar essa caneca de uma vez como você fez. Gostou?

- Muito bom; o que tinha aqui? Tem gosto de cerveja, mas tem mais coisa misturada aqui.

- Tem sim; é cerveja quente misturada com rum, whisky e licor de chocolate. Agora para completar... - continuou Marc -... Está vendo aquelas quatro canecas no alto daquela estante, perto da saída? Pois você tem que colocar a sua lá também.

Carolinne achou estranho. A estante não era muito alta; se levantasse o braço colocaria com facilidade a caneca lá em cima. Será que eles achavam que ela não seria capaz por causa de sua altura?

Levantou-se da cadeira, pegou a caneca e olhou novamente onde deveria ir. Era uma distância de mais ou menos uns quarenta metros, já que estavam no fundo da taberna. Respirou fundo e começou a andar. Foi quando percebeu que o chão parecia se mover embaixo dos seus pés. Alguma coisa o estava puxando para lá e para cá e ela não conseguia se manter equilibrada. Fechou os olhos para ver se melhorava, mas a sensação de tontura aumentou seguida de uma vontade estranha de botar tudo para fora.

Ela balançou a cabeça e recomeçou sua caminhada. A cada passo que dava, sentia as pernas mais e mais pesadas. "Mas que raio de bebida era aquela?", perguntava a si mesma. Apoiou uma das mãos numa cadeira, mas alguém a tirou do lugar e ela quase caiu. Viu que estava sozinha; teria que se virar para chegar até a estante para... Para quê?

- Droga; isso é um maldito jogo. Como fui cair nessa... Então é lá que tenho que colocar esse diabo de caneca... Então, vamos lá.

Puxou todo o ar que pode e traçou uma linha reta mental até o seu objetivo. Saiu cambaleando, para cá, para lá, até que, finalmente, alcançou a estante. Soltou o ar dos pulmões e fez um último esforço; esticou o braço e colocou sua caneca ao lado das outras quatro, virando-se em seguida para a platéia que a acompanhava desde o primeiro passo.

Todos a vibraram muito novamente, mas dessa vez se levantaram e batiam palmas. Ela sorriu para eles e quando foi fazer uma reverência em agradecimento aos aplausos, caiu de boca no chão. O freqüentadores bateram palmas mais alto ainda, como se aquilo também fizesse parte daquele "ritual".

Andréa levantou-se de onde estava e foi até sua amiga para ajudá-la a voltar e a se sentar. Carolinne foi praticamente carregada e sua boca sangrava um pouco. Sentou-se na mesa ao lado de Andréa com uma das mãos sobre o pequeno corte que ganhou com aquela brincadeira. Marc veio em sua direção com outra caneca.

- Beba isso para você se sentir melhor.

- Ficou louco! Não vou beber mais nada que você dois me oferecerem!

- Calma; isso é para você não passar muito mal depois. Se eu fosse você, tomaria.

Carolinne olhou para Andréa um pouco desconfiada, mas aceitou a outra caneca que Marc lhe oferecia.

Dessa vez o que lhe deram era amargo e gelado. Achou que fosse vomitar, mas segurou para não fazer feio.

- Que merda é essa? O outro pelo menos era bom!

- Esse é o levanta defunto do meu pai. Quem toma meu "Leon de Montagne" tem que beber esse cocktail do velho para se recuperar. Você vai ficar bem, acredite.

Andréa abraçou a jovem e beijou seu pescoço. Isso fez até o último fio de cabelo de Carolinne se arrepiar. Elas se abraçaram e Marc estendeu a mão para cumprimentá-la.

- Parabéns, senhorita; saiu-se muito bem!

- Bem... Em que? Em pagar o maior mico da Europa num estabelecimento cheio de gente não conheço?

Marc sentou-se ao seu lado e apontou para onde Carolinne havia deixado sua caneca.

- Está vendo aquelas outras canecas lá em cima, junto com a sua? Pois só quatro pessoas haviam conseguido atravessar esse lugar de ponta a ponta e colocar a caneca lá em cima. Eu, claro, dois amigos meus e sua amiga aí do lado que, aliás, foi uma das primeiras pessoas a experimenta-lo, há alguns anos atrás. Bem que o velho Leon disse que o próximo a conseguir cumprir o ritual seria uma mulher. Escuta o que eu digo; ele nunca erra.

O jovem apertou a mão de Carolinne e saiu para atender mais alguns clientes.

- Você também fez isso?

- Claro; esse moleque inventou isso há uns dez anos, quando eu e meu pai viemos passar férias aqui, na casa da montanha. Foi a primeira vez que eu pisei aqui no Oráculo. Conheci o velho Leon D'Avingon e suas adivinhações, Marc e sua família. - Andréa deu uma golada em sua caneca de vinho e continuou. - Ele disse que se apaixonou comigo assim que me viu e como estava insistindo horrores para que eu ficasse com ele, fizemos uma aposta: se eu perdesse teria que dar um beijo nele...

-... E se ele perdesse?

- Enquanto eu estivesse aqui com meu pai ele teria de servir as mesas vestido como aquelas garçonetes de filmes medievais.

- E o que tinham que fazer?

- Bom... Teríamos que virar de uma vez um drink maluco que ele havia inventado e depois atravessar o salão inteiro para colocar a caneca vazia lá em cima.

- E...?

- Ele tomou um tremendo tombo e se esborrachou no chão, quebrando uns três dentes, eu acho. Eu tive mais sorte. Consegui chegar até a estante e colocar a caneca lá em cima, mas depois escorreguei e fui de cabeça na quina de uma mesa. - mostrou uma grande cicatriz que ficava escondida pelos seus longos cabelos - o que me rendeu doze pontos aqui atrás.

- Putz! Alguém pode se machucar de verdade com isso!

- Nós notamos isso, só que já era muito tarde. Depois que alguns amigos dele ficaram sabendo, virou um espécie de ritual para todo mundo que vem aqui pela primeira vez.

- E ele pagou a aposta?

- Ah... Pagou sim, e se você achou que o que você fez foi pagar mico, tinha que ver ele servindo todos esses caras com um vestidinho lindo que a irmã dele emprestou. Foi terrível para ele, mas cumpriu sua palavra. Ele é um cara legal. E o pai dele também achou ótimo porque atraiu muitos curiosos. É muito engraçado ver as pessoas quase caind...

Carolinne fechou a cara nesse instante e cruzou os braços. Andréa viu que ela poderia ter ficado chateada com a brincadeira e chegou mais perto.

- Desculpe a brincadeira. Devia tê-la alertado quanto a isso...

Carolinne abriu um largo sorriso e olhou docemente para sua amante.

- Não se preocupe; não fiquei chateada... Afinal, minha caneca está lá em cima junto da sua, não está?

Andréa riu, consentindo com a jovem.

Ficaram ali algum tempo. Carolinne ainda ficou zonza durante alguns minutos e só mais tarde, quando comeu alguma coisa, é que melhorou em definitivo. Fizeram uma maravilhosa refeição, juntamente com a família de Marc, que não viam Andréa há mais de dois anos. Juntaram-se todos na cozinha, o senhor Maurice, pai de Marc, e Natalie, a irmã caçula de Marc. Serviram-se de todo tipo de carnes exóticas, que eram as especialidades do Oráculo, acompanhadas de um vinho da melhor qualidade. Claro que, devido às circunstâncias anteriores, Carolinne preferiu uma caneca de suco de uvas; sua cota de álcool já havia passado do limite, e muito!

Depois de se satisfazerem com tudo do bom e do melhor, saíram de taberna e foram se sentar num terreno gramado rodeado de grandes árvores que ficava nos fundos do estabelecimento. Já passava das duas da tarde e o sol estava forte.

- Você está indo para sua casa, Andréa?

- Sim, Maurice; vou levar minha amiga, Carolinne, para conhecer o lugar.

- Ela vai ficar encantada com aquela casa maravilhosa e a vista do vale. Quando formos pescar amanhã passaremos por lá para chamá-las, se quiserem ir...

- Claro; boa idéia... Ei, Marc. Leve seu equipamento; vamos mostrar algumas vias para Carolinne.

- Humm... Não sei se amanhã vou poder... Eu dou um jeito de avisar, ok?

Andréa se levantou e espreguiçou. Olhou o relógio novamente.

- Acho que já vamos; temos que arrumar algumas coisas quando chegarmos em casa. Espero notícias de você; qualquer coisa usem o rádio.

Marc concordou sacudindo a cabeça e virou-se para despedir-se de Carolinne.

- Não sei qual das duas tem mais sorte; você, por ter achado ela, ou ela, por ter achado você.

Ele abraçou a jovem e sorriu.

- Nos encontramos depois, certo?

- Ok - respondeu a jovem aliviada de estarem indo para casa; estava cansada e só queria saber de dormir um pouco.

Carolinne e Andréa se despediram de todos e ambas entraram no carro para seguir viagem.

Durante mais meia hora passaram por paisagens indescritíveis e terrenos que, só um carro como o que Andréa possuía poderia passar; riachos, pedras, troncos, havia milhares de obstáculos, sem contar alguns animais selvagens que apareciam uma vez ou outra.

Quando chegaram na casa o sol ainda estava alto. Descarregaram as bagagens e levaram algumas coisas para a cozinha. Não tinham muito que arrumar; Filipe já havia dado um jeito em tudo da última vez que ele estive por lá, mas Andréa queria mesmo era chegar logo em casa para ficar à vontade com Carolinne.

Depois de deixar as malas na sala de entrada, Carolinne foi até os fundos da casa, que dava vista para a montanha, e sentou-se numa poltrona para contemplar a paisagem. Minutos depois Andréa veio sentar-se ao seu lado, trazendo uma xícara de chocolate quente.

- O que está achando?

- É fantástico! Nunca vi nada assim.

- Pois é; eu também me apaixonei com esse lugar na primeira vez que estive aqui. E você ainda tem muito mais para conhecer, além disso que está vendo.

- E onde ficam as tais vias?

- Humm... - Andréa olhou para um canto esquerdo da montanha e apontou. - É para lá; amanhã vamos subir um pouco a montanha por uma das minhas preferidas, a "Via das Duas".

Carolinne deu uma golada no chocolate e olhou fixamente para o ponto onde Andréa havia apontado.

- Por que essa via chama-se "Via das Duas"? Você... Já levou alguém lá?

Andréa tomou seu chocolate vagarosamente e sorriu, olhando para a montanha.

- Bem... Sim.

- Humm... Pode me contar?

- Tudo bem; não quero ter segredos com você. Levei uma pessoa lá, sim, e uma vez, quando eu estava subindo, essa pessoa escorregou e quebrou a perna. Como estava ficando de noite nós dormimos por lá mesmo, para que no outro dia eu pudesse buscar ajuda...

- Vocês estavam... Juntas?

- Não; mas ficamos juntas naquele dia. Quando Marc ficou sabendo o que tinha acontecido, passou a chamá-la de "Via das Duas" e... Ah, quando formos amanhã você vai ver...

- O que tem de especial nessa via?

- Sossega! Amanhã você vai ver.

Andréa abraçou Carolinne e lhe deu um beijo. Elas continuaram admirando a paisagem até acabarem de tomar seus chocolates.

- Acho bom a gente arrumar as coisas e pensar em algo para comer mais tarde.

- Boa idéia. - concordou a jovem.

Elas se levantaram e entraram. Um vento frio começou a soprar.

- O que acha de fazermos uma sopa para aquecer um pouco?

- Ótima idéia! Veja se tem legumes na geladeira; vou pegar as panelas. - falou Andréa.

Uma hora depois a sopa havia ficado pronta. Estava deliciosa e quente, o que ajudou bastante a espantar o frio daquele começo de noite.

Acabaram de comer e arrumaram a cozinha. Estavam cansadas, principalmente Carolinne, depois daquele ritual estranho do qual participou.

Carolinne acompanhou Andréa até o segundo andar da casa, onde ficavam os quartos. Eram grandes e muito confortáveis.

- Ok... Qual desses é o meu? - perguntou Carolinne enquanto sorria sarcasticamente para Andréa.

Andréa puxou-a pela mão e chegaram a um quarto que era bem maior que os outros. Nele havia uma lareira num canto, uma televisão enorme e uma cama de casal encostada em outro canto da parede.

Carolinne olhou novamente para Andréa e viu que ela também sorria.

- Muito grande para uma pessoa só, não acha?

- Acho que eu posso resolver seu problema; fico aqui com você e ajudo a ocupar todo esse espaço; que tal?

Andréa sorriu para a jovem, que se jogou em seus braços e beijou-a.

Ambas buscaram suas malas e colocaram suas coisas no quarto. Em seguida, aprontaram-se para dormir. Estava realmente frio e foi preciso que Andréa pegasse mais dois cobertores.

Ainda ficaram algum tempo conversando, até que Andréa notou que Carolinne estava de olhos fechados. Olhou no relógio e viu que já era quase meia noite; "Por isso meus olhos também estão fechando", pensou. Ajeitou-se do lado de sua pequena amante, apagou a luz do abajur e adormeceu.

Carolinne acordou e viu que estava sozinha. Esfregou os olhos para identificar onde estava; havia se esquecido que estava viajando com Andréa.

Sentou-se na cama e, por uma janela aberta ao seu lado, pode ver que o sol já brilhava forte lá fora. Olhou no relógio; passava das nove.

Olhou à sua volta; a mala de Andréa estava aberta e algumas roupas estavam do lado de fora, em cima de uma cadeira. "Onde será que ela foi?", pensou a jovem. Havia começado a se levantar quando Andréa entrou pela porta trazendo uma enorme bandeja de café da manhã.

- Bom dia, dorminhoca! Achei que não fosse se levantar antes do almoço!

- Humm... Há que horas você se levantou?

- Por volta das sete e meia. Está um dia lindo lá fora, ótimo para escalar. O pai de Marc esteve aqui mais cedo perguntando se iríamos pescar com ele, mas como você ainda estava dormindo achei melhor que ele não nos esperasse.

- Me desculpe... Você podia ter me acordado! Agora fiquei sem graça...

- Oh, meu Deus; não fica assim! - e sentando-se na cama ao lado da jovem, Andréa deu um beijo na ponta de seu nariz - Olha só; Marc não pôde vir, teve que ficar no Oráculo para receber um carregamento de bebidas. Se mais tarde as coisas folgarem por lá, ele vem, pode ter certeza. Temos walktalkies para nos comunicarmos quando saímos para a montanha; não se preocupe. Agora, tome seu café sem pressa.

Carolinne olhou para aquela bandeja de café e não sabia por onde começar. Deliciou-se com frutas, pães, leite, biscoitos e um magnífico suco natural de laranja com morango, o que ela mais adorava.

- Nossa; que banquete! Posso saber o por que disso tudo?

- Vamos ter um desgaste físico muito grande subindo a montanha; temos que fazer uma super alimentação. Até chegarmos lá em cima vamos ficar sem comer nada.

Sentindo-se satisfeita, Carolinne levantou-se e colocou a bandeja, agora, quase vazia, no criado ao lado. Pegou sua mala para escolher o que vestir.

- O que eu visto? Estou mais acostumada a escalar em academia.

- Vista algo confortável e que não atrapalhe seus movimentos. Acho bom ir com uma blusa, pelo menos por enquanto, porque está frio lá fora; se sentir calor é só tirar e guardar na mochila. Eu já separei nosso equipamento e... Não encontrei sua sapatilha; você a trouxe?

Carolinne mexeu dentro da bolsa na qual havia trazido o equipamento e não encontrou sua sapatilha.

- Droga; sabia que tinha esquecido algo. E agora?

- Não tem problema, eu tenho uma que não serve mais em mim que deve servir em você. Se não servir, vamos até a casa do Marc que, com certeza, ele vai poder nos ajudar.

Andréa foi buscar a sapatilha enquanto a jovem acabava de se trocar.

Em poucos minutos as duas estavam na sala checando o equipamento novamente.

- Ok; parece que está tudo certo... E a sapatilha, ficou boa?

- Perfeita; parece que estou nas nuvens. A minha é tão ruizinha, coitada...

- Então fica com essa até você comprar outra; não quero você se arriscando por aí com uma sapatilha ruim.

- Ok. Estamos de saída?

- É; acho que podemos ir. Peguei alguma coisa para a gente comer quando chegarmos na via. Podemos pegar uns peixes com o Maurice lá no lago para comer mais tarde, também; e estou levando umas coisinhas extras na minha mochila; vamos acampar na montanha essa noite... Que tal?

Carolinne olhou pela janela e contemplou a montanha.

- Mas não é perigoso?

- Não onde vamos ficar; você vai gostar! Vamos.

Andréa puxou a jovem pelo braço e beijou-a. Colocaram as mochilas nas costas e saíram pelos fundos da casa, que ficava de frente para montanha.

- Vamos caminhar durante, mais ou menos, uns quarenta minutos até o rio onde o pai de Marc está pescando; quero te mostrar a paisagem por lá. Depois vamos andar mais umas duas horas até aquela parte da montanha, que é onde está a via - Andréa apontou um local à direita de onde estavam - Quando chegarmos lá, vai ser mais meia hora de subida pela "Via das Duas" até chegar onde quero te mostrar umas coisas. Até aí está tudo bem?

- Humm... Acho que sim. Mas se eu não agüentar o seu pique, você vai ter que me carregar!

- Se não houver outra alternativa, farei com o maior prazer!

Andréa abraçou-a pelos ombros e as duas puseram-se andar na direção do rio.

Nos primeiros quinze minutos caminharam lado a lado, olhando para os lados e falando de assuntos diversos, mas nos minutos restantes suas mãos sentiram uma atração impossível de se resistir e seguiram o resto do caminho de mãos dadas. Exatamente quarenta minutos depois, avistaram o Maurice pescando no rio. Caminharam até ele, as mãos desatadas, e foram recebidas com um grande sorriso. Foi aí que Carolinne percebeu como era grande a semelhança entre Marc e seu pai.

- Olá, crianças; chegaram tarde! O que houve?

Carolinne sentiu-se um pouco envergonhada ao perceber que foi culpa dela terem atrasado tanto. Mas Andréa conseguiu deixá-la mais à vontade.

- Também, senhor Maurice, depois daquela canseira que demos em Carolinne, ela tinha que descansar para podermos aproveitar melhor o dia.

- Com certeza, minha filha; não adianta nada descansar a mente e se esquecer do corpo; não fez bem.

Carolinne colocou a mochila no chão e deu uma grande espreguiçada. Notou que estava um pouco fora de forma porque suas pernas queimavam um pouco e sua coluna doía; por causa da caminhada e do peso da mochila nas costas. Olhou à sua volta e viu como era lindo aquele lugar. Imaginou que se Andréa a chamasse para morar ali com ela, não iria pensar duas vezes. Aquilo tudo seria uma tremenda fonte de inspiração; o rio correndo suave, as enormes árvores que o acompanhavam ao longo de seu trajeto, os pequenos animais que corriam ao sol, brincando, ou a procura de alimento. Tudo era o que Carolinne costumava chamar de "uma pintura viva"; sem falar que estava ao lado de seu grande amor.

- Carolinne, venha cá. - chamou Andréa; ela estava à beira do rio.

Carolinne caminhou até lá e parou ao lado dela.

- Vamos levar uns peixes para fazermos à noite?

- Humm... Você é que vai fazer, não é?

- É...

- Sem problemas, mas... Achei que íamos subir a montanha agora.

Andréa olhou sorrindo para Maurice e o velho estendeu um balde para a jovem.

- Já pesquei esses aqui; podem levar alguns se quiserem.

Andréa olhou para Carolinne que estava quase se jogando no rio de tanta vergonha. O velho deve ter achado que ela era a pessoa mais preguiçosa do mundo ou que não queria perder tempo com aquela coisa chata de pescaria. Mais uma vez Andréa veio em seu auxílio.

- Obrigada, Maurice; é muita gentileza sua. Vamos aceitar sim porque senão vai ficar tarde e não quero correr o risco de subir a montanha com esse sol forte na cabeça; é a primeira vez dela aqui e não quero arriscar.

- Está muito certa, minha filha. Eu me lembro das confusões que você e Marc já aprontaram nessa montanha... Ele pediu para lhe avisar que depois se comunica com vocês; ficou lá na taberna resolvendo alguns probleminhas, nada de mais, mas acho que vai ficar preso por lá o dia todo. Mas ele se comunica com vocês assim que tiver tempo.- o velho deu um puxão na vara e um peixe veio cair aos seus pés. - Não se esqueça de deixar seu rádio ligado, ok?

Andréa tirou o pequeno aparelho do bolso e ligou, ajustando a freqüência em que estavam os aparelhos do Maurice e Marc. Depois recolocou num bolso da bermuda que usava.

Maurice colocou três peixes numa vasilha, fechou-a bem e envolveu-a num plástico para não deixar sair o cheiro; entregou o embrulho a Carolinne, em seguida.

- Andréa sabe preparar um desses que fica uma beleza, você vai ver. - falou o velho enquanto sorria novamente para a jovem.

Carolinne sorriu de volta e olhou para sua amiga.

- Ok... - disse Andréa já entendendo a expressão do rosto - Vamos indo porque temos um bom pedaçço de chão pela frente. Diga a Marc que estamos esperando por ele... E boa pescaria para o senhor!

- Bom passeio para vocês também, minha filha. E tome cuidado com aquela montanha; você sabe como ela pode ser traiçoeira.

Andréa ficou séria de repente e apertou a mão do velho, consentindo com o que ele acabara de dizer. Carolinne também se despediu e ambas colocaram novamente as mochilas nas costas, seguindo seu caminho.

Alguns minutos de caminhada e Carolinne retomou as conversas.

- O que ele quis dizer com "você sabe que ela pode ser traiçoeira"?

Andréa suspirou fundo e olhou para a montanha.

- Bom... Há uns cinco anos, mais ou menos, estávamos eu, Marc e Lenice, irmã mais velha dele, subindo a montanha. Estava muito frio e tinha muita neve no topo. Uma avalanche nos pegou desprevenidos e nos atingiu em cheio. Marc e eu tivemos algumas fraturas, mas a irmã dele...

Carolinne entendeu exatamente o que Andréa quis dizer com aquele silêncio. Sentiu-se mau por ter tocado no assunto. Segurou a mão dela, como fizera no começo da caminhada e abraçou-a com carinho.

Caminharam em silêncio e de mãos dadas, até que, duas horas e meia depois, chegaram ao local da subida. Carolinne não acreditou no que estava vendo. Sentiu um frio na espinha naquele momento e lembrou da história da irmã de Marc; teve receio em continuar aquela aventura.

- Tem certeza que é seguro?

- Aqui é... Não fique tão impressionada com o que aconteceu com Lenice; aquilo foi muita falta de sorte... E foi por outra via que passamos naquele dia, uma que não usamos mais por ser muito perigosa. Até colocamos uma placa advertindo do perigo para que outros não passem pelo que passamos. - e segurando as duas mãos da jovem continuou - Eu nunca envolveria você em algo perigoso, pode ter certeza disso... Mas se você não quiser ir, tudo bem; podemos fazer qualquer outra coisa. Estando com você, não importa o que eu faça; vou sempre me sentir bem.

Carolinne sorriu para Andréa e olhou novamente para o caminho que iriam subir. Parecia fácil, mas esse tipo de coisa costuma ser mais do que aparenta.

Pensou um pouco se queria mesmo fazer aquilo antes de responder, mas a adrenalina já havia começado a correr em suas veias.

- Ok... Acho que não tem problema. Se você diz que é seguro...

- É seguro; acredite.

Andréa tirou o material da mochila e começou a arrumar tudo para subida, o que levou mais meia hora.

- Ok; estou pronta... E você?

- Está tudo bem... - Carolinne parecia um pouco insegura - Vamos logo que estou ficando ansiosa!

Começaram a subir. No começo a montanha ajudou um pouco. Era uma espécie de caminhada, só que um pouco inclinada. E foi assim durante os primeiros dez minutos. Depois a coisa começou a ficar mais séria.

A cada cinco metros havia um grampo onde deveria ser passada uma costura que evitaria que elas caíssem. Carolinne estava se saindo muito bem, apesar de estar fazendo uma força completamente desnecessária para subir.

- Assim você vai cansar muito rápido; ainda temos um bocado de pedra para subir. Relaxa; procure o melhor lugar para colocar as mãos e os pés... E não gruda na parede que você vai acabar escorregando!

Carolinne ouvia aquilo tudo e ao mesmo tempo tentava se concentrar para não cair até o próximo grampo. Enquanto subia resmungava para si mesma que "para ela deve ser fácil, ela já conhece o lugar", ou "eu nunca escalei fora da academia..." e outras coisas desse tipo. Mas continuou a subir sem pedir ajuda; queria provar, mais uma vez, que era capaz de se superar.

Os lugares onde Carolinne tinha que colocar as mãos e os pés para se apoiar estavam cada vez mais escassos e, para seu desespero, quarenta minutos depois de estarem subindo sem parar, não avistou mais Andréa quando olhou para cima.

- Onde ela está? - pensou alto - Cair ela não caiu, senão ela teria passado por mim... Mas que merd...

De repente uma cabeça apareceu do meio da rocha alguns metros acima.

- Ei, moleza; não temos o dia todo! Anda rápido; quero que conheça esse lugar.

Carolinne suspirou aliviada por ver que ela estava bem e deixou para repreendê-la mais tarde por não ter avisado daquela fenda.

Subiu mais uns cinco minutos e chegou onde Andréa a aguardava; uma pequena caverna no meio da montanha. E não era uma caverna comum; Andréa a havia equipado com alguns apetrechos para sobrevivência.

- Uau! Era esse o seu segredo?

- Huhum... Gostou?

- Claro! Como é que você fez isso?

- Bom... Quando eu estava fazendo essa via, me deparei com essa caverna no meio do caminho. Já estava escuro, então, avisei ao Marc que estava tudo bem e que ia passar a noite aqui. No dia seguinte ele veio até mim e decidimos trazer algumas coisas para cá, para uma eventual emergência.

- Que máximo. Humm...

- O que foi?

- Posso perguntar uma coisa?

Andréa mexia em algo dentro de sua mochila e respondeu sem olhar para a jovem. Sentiu pela voz de Carolinne que ela queria lhe perguntar alguma coisa.

- Quer saber quem estava comigo aqui, não é?

Carolinne baixou a cabeça e ficou olhando para o chão; sentiu-se uma intrometida por estar remexendo na vida de Andréa.

Andréa viu o constrangimento no rosto da jovem e sorriu, enquanto tirava um colchão inflável de dentro da mochila.

- Não tem problema. - ela suspirou e olhou para o teto da caverna, como se estivesse se recordando do passado - Foi Lenice...

- A irmão de Marc? Então ela era...

- Gay? Bom, não antes de me conhecer, eu acho. Mas tivemos algo muito legal, apesar de ter durado pouco. - ela sorriu olhando para a abertura da caverna e continuou - Depois que descobrimos essa caverna, sempre que eu vinha para a casa com meus pais a primeira coisa que fazia era vir para cá. Quando Lenice ficava sabendo que eu havia chegado, vinha para cá correndo, também. Éramos muito amigas, sabe? Ficávamos horas aqui conversando e um dia começou a chover forte; Marc não estava conosco. Conseguimos avisar pelo rádio que estávamos bem e que voltaríamos no dia seguinte assim que o tempo melhorasse. - fez nova pausa para encaixar a bomba de encher na válvula do colchão; continuou - Olhando agora é até engraçado porque aconteceu de repente. Estávamos conversando e ela parou de falar e ficou me olhando. Eu sabia muito bem onde aquilo ia chegar, mas preferi esperar um pouco; podia estar enganada, não é?

- Igual comigo...

- É... Da mesma forma que aconteceu com você, aconteceu com a gente naquele dia. Ela se aproximou e nós nos beijamos... - os olhos de Andréa lacrimejaram um pouco e ela se virou para esconder o rosto.

Carolinne chegou perto dela e abraçou-a por trás, encostando a cabeça em suas costas.

- Não precisa esconder de mim que você gosta dela...

- Gostava... - ela se virou no mesmo instante e segurou as mãos de Carolinne - Hoje eu gosto de você... Mais que isso; eu te amo! É que não foi justo o que aconteceu com ela, entende... Tão jovem, tão linda, tanta coisa ainda pela frente... Seria apenas um romance passageiro, não duraria mais que duas estações, isso eu pude ver na primeira vez que a beijei. Mas ela havia se tornado minha melhor amiga, como há muito eu não tinha encontrado.

Soltou as mãos de Carolinne e encheu o colchão o mais rápido que pode, ajeitando-o num canto onde o chão era mais nivelado.

Carolinne veio até ela novamente e envolveu-a em seus braços, fazendo com que ela se virasse lentamente e parasse com o rosto perto do seu.

As duas se encararam por alguns segundos. Em seus olhos dava para ver que ardia um fogo diferente do que elas sentiam normalmente, e os corações batiam num ritmo muito acelerado, como se fosse explodir no peito. Elas se beijaram e as mãos começaram a explorar seus corpos. Sentiam a rigidez dos músculos e a maciez da pela uma da outra. Os beijos foram se tornando mais intensos; alguma coisa nova estava acontecendo.

De repente, Carolinne conduziu Andréa carinhosamente até o colchão e deitou-se sobre ela. Sentiu a pulsação daquela mulher invadir seus ouvidos, e podia senti-la, também, em qualquer parte do corpo que tocasse. Na cabeça de Carolinne ela não sabia exatamente o que tinha que fazer, mas sabia que queria muito, o que quer que fosse. Ajoelhou-se, então, colocando uma perna de cada lado da cintura de Andréa e num movimento rápido tirou sua blusa e jogou-a para o lado. Andréa a olhava sem piscar, sem mover um único músculo.

Carolinne passou as mãos pelo corpo de Andréa e parou em seu pescoço, de onde desceu desabotoando sua blusa lentamente. Enquanto fazia isso, Andréa colocou as mão nas costas da jovem e sentiu sua pele macia passando por baixo de seus dedos. A jovem, então, procurou as mão de Andréa e conduziu-as até seus seios, que estavam rígidos como nunca estiveram antes. Andréa acariciou-os e fechou os olhos, mal acreditando no que estava acontecendo. A verdade é que estava se contendo ao máximo todos aqueles dias, mas o desejo de ter a jovem por inteiro a estava consumindo desde a primeira vez que estiveram juntas. Deixou de lado todo o pudor que poderia ainda existir entre as duas e levantou-se de uma vez, beijando Carolinne com uma fome indescritível.

Enquanto a beijava, uma das mãos percorria as costas da jovem e a outra desceu até o zíper da bermuda. Com muita experiência Andréa o desabotoou e abriu cuidadosamente. Num movimento rápido, porém, suave, colocou Carolinne no colchão e deitou seu corpo sobre o dela. A blusa aberta mostrava os seios de Andréa e ela sorria para a jovem, que a olhava com um desejo surpreendente.

- Tem certeza de que quer continuar? Se eu estiver indo rápido demais...

- Cala a boca...

Carolinne puxou Andréa e começou a beijá-la novamente. Enquanto isso, Andréa lutava para tirar a bermuda da jovem, que era muito justa, mas sua experiência falou mais alto. Segundos depois retirou também a sua e voltou a deitar por cima dela.

Sentiram seus corpos se encostando, a pulsação por toda a pele e uma sensação maravilhosa de prazer.

Andréa escorregou lentamente uma das mãos pelo corpo da jovem, chegando onde Carolinne poderia dizer que era o lugar mais sensível em seu corpo, naquele momento.

A jovem sentiu, então, algo novo, uma experiência extraordinariamente alucinante; Andréa estava dentro dela. A sensação que tinha era de êxtase total e a única coisa que conseguia era gemer baixo de tanto prazer e seguir os movimentos da outra lentamente.

Andréa pressionou seu corpo sobre o de Carolinne, sem sair de dentro da jovem, e começou a fazer movimentos ritmados para cima e para baixo. Sentia a jovem a apertando por dentro, sua respiração ficando ofegante e suas mãos passando por suas costas e as arranhando. Puxando ambos os braços de Carolinne, prendeu-os atrás da cabeça da jovem, segurando-os com a mão que estava livre. Aumentou, então, a intensidade dos movimentos e sentia o coração da jovem em sua mão. Ela gemia baixinho em seu ouvido, o que deixava Andréa cada vez mais louca. A jovem parecia tão frágil naquele momento que Andréa teve medo de machucá-la, se exagerasse na pressão. Mas quando diminuía, a jovem a olhava pedindo que não parasse.

Andréa continuou, então, mexendo seu corpo e beijando a jovem até que, num momento de puro prazer, Carolinne ergueu-se para junto do peito da outra e prendeu a respiração por alguns segundos. Lágrimas escorriam de seus olhos, lágrimas de prazer, e Andréa pode sentir o corpo da jovem se contraindo totalmente por dentro, apertando-a, e o líquido quente envolver sua mão; haviam alcançado o ponto máximo do prazer, algo que poucos conseguiam.

Soltou as mãos de Carolinne e deixou que ela a abraçasse. Deitou sua cabeça em seu peito, ainda dentro dela e beijou suavemente seu seio, erguendo os olhos para sua pequena amante.

- Machuquei você, meu amor?

Carolinne olhou para ela com um sorriso encantador e uma expressão que Andréa nunca mais esqueceria em sua vida.

- Foi a coisa mais linda... Que podia ter acontecido conosco...

Andréa notou que Carolinne tremia e sua respiração ainda estava ofegante, então, delicadamente, saiu de dentro da jovem. Um último espasmo de prazer tomou conta de Carolinne antes que Andréa estivesse totalmente fora e mais um gemido ecoou pela caverna.

- Tudo bem... Mesmo? - insistiu Andréa.

Carolinne olhou para Andréa; suas pupilas ainda estavam bastantes dilatadas, tamanho era o prazer que estava sentindo. O suor empoçava em seu peito e escorria pelos ombros. Um sorriso sem igual invadiu o rosto da jovem e ela abraçou aquela mulher à sua frente como se fosse a primeira e a última vez que a tinha nos braços. Respirou fundo, acariciou os cabelos de Andréa, que lhe caiam no peito e se misturavam ao suor quente que saía delas.

- Nunca me senti tão bem em toda a minha vida! Nem quando estava com Gustav, nem com ninguém. Não sabia que poderia sentir tanto prazer assim nos braços de uma mulher...

Andréa deitou-se ao lado de Carolinne e a jovem deitou em seu peito nu, acariciando seus seios com uma das mãos. Não havia mais vergonha e sim uma deliciosa cumplicidade entre as duas.

- Me senti assim também, na minha primeira vez com uma mulher. Fico feliz de ser a primeira a conhecer você sobre esse ponto de vista!

- Eu também...

A jovem levantou-se e olhou nos olhos de Andréa; aquele desejo ainda queimava dentro dela.

- Será que eu consigo...

- Você só vai saber se tentar; acho que é instinto, a gente sempre sabe o que fazer no final das contas!

Carolinne sorriu para Andréa e, suavemente, começou a beijar seu rosto. Foi descendo pelo pescoço e encontrou os seios dela, que, como os seus, também estavam rígidos de tanto prazer. Beijou-os e continuou a tocá-los com língua em movimentos circulares, o que deixou Andréa extremamente excitada. Enquanto fazia isso, olhava nos olhos da outra, gostava de olhar, de sentir aquele calor emanado pelo corpo e saber que ela estava causando aquilo tudo. E tudo isso se intensificava a cada movimento do corpo de Andréa, a cada gemido.

A jovem desceu mais um pouco e encontrou o abdômen torneado da outra, uma barriga perfeita, uma pintura, um convite aos desejos mais secretos. "Como não havia feito isso antes?", pensava ela a cada toque na pela da outra.

Suas mãos, agora, percorriam o corpo de Andréa; passavam por seus seios, voltavam ao seu rosto, seus cabelos e, enfim, deslizaram para um lugar onde jamais pensou que chegaria tão perto. Sentiu a umidade que crescia a cada instante e teve vontade de toca-la. Olhou nos olhos de Andréa mais uma vez e deixou que seus dedos deslizassem para dentro da outra. Ah...! Que sensação sem igual! Tentava, com muito carinho, repetir o que a experiente mulher havia feito com ela minutos atrás.

A jovem deitou-se sobre o corpo suado de Andréa e, levemente, moveu seu corpo no ritmo de seu coração. A medida que as batidas aceleravam, os movimentos também se intensificavam, e o êxtase tomou conta daquela mulher que se julgava mais experiente que a jovem artista.

Os movimentos acelerados, o toque, a expressão no rosto da jovem, tudo aquilo deixava Andréa quase fora de si e, no auge daquele ato de amor, ela percebeu que o mundo não significava mais nada; só queria estar ali ao lado dela e sentir o que estava por vir... E o que estava por vir a deixaria nas nuvens!

Andréa ergueu o corpo em direção à jovem e não se conteve ao soltar um gemido que ecoou na pequena caverna; só então ela pode relaxar, em meio a pequenos espasmos de prazer que ocorriam fora de seu controle. Entregou-se, então, a mais um beijo de sua amada. A jovem beijou Andréa com extremo carinho e, cuidadosamente, saiu de dentro dela, sentindo a essência quente em suas mãos.

Elas ficaram ali paradas, Carolinne deitada no peito nu de Andréa, a jovem acariciando seus seios, o suor escorrendo das duas como se fosse uma noite quente de verão. Uma sensação de leveza tomou conta delas e a respiração, antes extremamente ofegante, agora voltava ao normal; elas, então, começaram a sentir o vento gelado da montanha passar pela entrada da caverna.

- Acho melhor nos cobrirmos, ou vestirmos algo; está ventando frio lá fora e isso pode fazer mal para a gente depois de...

Andréa fez uma pequena pausa e olhou para a jovem. Ela a encarava serenamente, com um olhar expressivo de quem nunca se sentiu tão bem com outra pessoa. Ela acariciou seus cabelos e beijou-a na testa. Carolinne, então, completou o que a outra estava dizendo.

- ... Depois de fazermos amor. Foi isso que fizemos, não foi?

Andréa sorriu para a jovem.

- É; e foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos anos... Aliás, você foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos anos e eu nunca pensei que pudesse ser tão feliz assim!

Elas se abraçaram e se beijaram novamente. Andréa puxou sua mochila para perto e pegou um saco de dormir que estendeu de qualquer jeito sobre as duas, para manter a temperatura do corpo. Olhou em seu relógio e notou que havia passado algum tempo desde que entraram na caverna.

- Já são quatro horas... Está com fome?

- Um pouco; não comemos nada desde o café da manhã.

- Que tal se eu preparar um peixinho desses para a gente? Tem um fogareiro ali atrás e acho que duas ou três panelas. Eu trouxe alguns temperos que vão quebrar o galho...

- Ótimo... Mas você vai se vestir primeiro, não?

- Por que? Está com vergonha depois disso tudo?

- Não é isso, sua boba! - e Carolinne a beijou na ponta do nariz - É que se você não se vestir, não vou conseguir te deixar preparar nada!

Andréa sorriu para a jovem e se levantou, puxando-a em seguida. Envolvendo-a nua em seus braços pode ver que a jovem não era tão frágil quanto aparentava enquanto faziam amor.

- Vista-se também; não vamos arriscar a ficar doentes logo no primeiro dia. Temos muito para fazer ainda.

Carolinne concordou, balançando a cabeça e procurou uma blusa de frio em sua mochila; Andréa fez o mesmo.

- Fique deitada aí descansando enquanto preparo nosso almoço.

- Não precisa de ajuda? Posso fazer alguma coisa...

- Por enquanto não precisa. Descanse um pouco; daqui a pouco tenho certeza de que Marc vai se comunicar conosco, ou acabar aparecendo por aqui.

Andréa beijou Carolinne e foi pegar o que precisava para preparar a refeição.

Carolinne recostou-se no colchão e cobriu-se com o saco de dormir. Ele tinha o cheiro de Andréa; como era bom aquele cheiro!

Andréa pegou o fogareiro e trouxe para mais perto de onde elas estavam; a caverna não era tão funda, mas Andréa preferia guardar as coisas que ela e Marc haviam levado para lá mais no fundo, para que a água da chuva não molhasse tudo quando não estivessem por perto. Olhou dentro da mochila e tirou alguns frascos de tempero para preparar o peixe.

Uma hora depois estava tudo pronto; Andréa temperou dois dos três peixes e preparou-os numa chapa que havia encontrado junto com as panelas. Cozinhou, também, um pouco de arroz e fez uma salada básica com algumas verduras que trouxe na mochila.

- Está bom? - perguntou ela.

- Muito! - respondeu Carolinne. - Como é que cabe tanta coisa assim na sua mochila? Parece a bolsa Mary Poppins!

- É só ajeitar tudo com cuidado que sempre dá para levar o que quero... Espero que esteja satisfeita; vamos continuar subindo até o topo assim que tirarmos um cochilo.

- Você está brincando! Sério? Achei que íamos ficar aqui e amanhã ir embora para casa.

- Que falta de graça! Onde está seu espírito de aventura?

Carolinne fez uma cara de "acho que não tenho isso", e tomou um gole do suco que Andréa havia feito.

- Depois que você descansar vai se sentir bem mais disposta, você vai ver. E talvez Marc entre em contato conosco.

- Mas não vai ficar tarde para prosseguirmos?

- Não; demora um bocado aqui para escurecer. Vamos deitar um pouquinho e depois recomeçamos a subida.

Andréa estava resolvida e Carolinne não queria atrapalhar os planos que sua namorada havia planejado. "Namorada..." A palavra soava um pouco estranha aos ouvidos da jovem; vai ver era porque só havia tido namorados. Mas ao mesmo tempo que aquilo lhe parecia estranho, sentia-se muito bem. Era diferente, mas gostoso!

Carolinne já estava sentada no colchão quando a outra deitou ao seu lado. Ela puxou Andréa para junto de seu corpo e elas deitaram juntas. A jovem envolveu sua amante em seus braços e posicionou a cabeça atrás do pescoço. Sentiu o cheiro suave da pele dela e sorriu enquanto a apertava mais contra o corpo. Andréa também sorriu quando sentiu que a jovem a puxava mais e mais para perto de si e, com uma das mãos puxou o saco de dormir para cima de ambas. Em questão de alguns minutos estavam quase dormindo.

- Posso perguntar mais uma coisa?

- Claro... - respondeu Andréa, já meio sonolenta.

- O que você sentiu quando me beijou pela primeira vez? Quer dizer... Você acha que é só um romance passageiro, ou que temos alguma chance de continuar juntas?

Andréa suspirou fundo e sorriu, sem se virar para Carolinne. Apertou os braços da jovem junto aos seus e falou quase num sussurro.

- Eu te amo... Mais que tudo nesse mundo e ninguém pode mudar isso; ninguém.

Carolinne ficou feliz de ouvir aquilo; achou que só ela sentia um amor fora do comum pela outra, mas viu que era recíproco.

- Também te a amo... - sussurrou perto do ouvido de Andréa.

Alguns minutos depois adormeceram, Carolinne abraçando Andréa e ouvindo sua respiração calma e despreocupada; Andréa se sentindo nas nuvens, ou como alguém que havia encontrado um tesouro.

Uma voz longínqua ecoou pela caverna:

- Alô... Alguém está me ouvindo. Câmbio...

Nenhuma das duas acordou com os primeiros chamados de Marc. Ele estava tentando se comunicar com as duas havia dez minutos e elas permaneciam no mesmo sono tranqüilo. Mas da última vez que tentou, ele berrou; então Carolinne acordou.

A jovem esfregou os olhos e tentou encontrar quem estava berrando, apesar da voz parecer distante e metálica demais para estar por ali.

- SERÁ QUE VOCÊS PODEM ACORDAR? Câmbio, merda!

Dessa vez Andréa abriu os olhos de uma vez e enfiou a mão dentro da mochila, sem maiores explicações.

- Fala, Marc. Câmbio...

-Putz; é muito difícil acordar vocês! O que andaram fazendo a tarde toda? Câmbio...

Andréa olhou no relógio; sete e meia.

- Droga! Dormi demais... Não vamos poder subir o resto da montanha hoje...

- Alôôô? Dá para falar comigo, Andréa? Câmbio...

- Ah; me desculpe, Marc; dormimos demais e perdemos a hora. Acho que vamos ficar por aqui mesmo... Aconteceu alguma coisa? Câmbio...

- Não sei ao certo... Natalie saiu com uns caras dizendo que iam escalar e até agora nada dela voltar; estou um pouco preocupado. Câmbio...

- Ela está com o rádio? Podemos falar com ela? Câmbio...

- Não encontro a freqüência que eles estão; estou com medo deles terem ido para a Via Branca. Câmbio...

Franzindo as sobrancelhas e fixando o olhar num ponto qualquer, Andréa mudou totalmente a expressão do seu rosto. Parecia estar muito preocupada.

- Que via é essa? - perguntou Carolinne enquanto Andréa pensava o que responder para Marc.

- É a via onde Lenice morreu... Não acredito que Natalie seja estúpida a ponto de seguir esses babacas por aquela via; não é possível...

Ela voltou rádio para continuar a falar com Marc.

- Ok, Marc... Vamos fazer o seguinte: eu e a Carol vamos descer e encontramos com você no começo da Via das Duas. Tem jeito de você vir de jipe; assim chegamos mais rápido na Via Branca. Câmbio...

- Afirmativo; pego vocês daqui a uma hora lá embaixo. Câmbio final.

Andréa jogou o walktalkie dentro da mochila e começou a juntar seus pertences.

- Desculpe estragar nossa noite, Carol; mas não posso deixar Marc sozinho nessa. Se essa pirralha tiver ido para lá pode acontecer o pior... Não quero nem pensar.

- Não se preocupe comigo; vou junto com vocês e se puder ajudar...

Andréa sorriu meio desanimada para Carolinne, mas aceitou sua ajuda.

Em meia hora juntaram suas coisas, arrumaram um pouco da bagunça e se prepararam para descer. Estava escurecendo, mas para descer era bem mais fácil.

Em quinze minutos fizeram o trajeto de volta ao chão e Marc já estava lá esperando por elas. Trazia no jipe seu equipamento de escalada e vários rojões sinalizadores. Andréa olhou aquilo assustada, pois sabia o que queria dizer aquilo tudo.

- Você não vai subir aquela via; não vou deixar!

- Eu já perdi uma irmã; não vou perder a outra.

Ele estava decidido e nada do que Andréa dissesse mudaria seu jeito de pensar. Entraram no jipe e saíram a toda velocidade.

Meia hora depois chegaram até onde estava a placa de aviso que Marc e Andréa haviam posto, na subida da Via Branca. Lá estava parada uma caminhonete e um rapaz falava com alguém pelo rádio.

Marc desceu rápido e se aproximou, pegando o sujeito pela gola da camisa e levantando-o do chão alguns centímetros. Andréa pediu que ele tivesse calma, então, soltou o rapaz.

- Qual o problema, camarada? - falou o rapaz.

- Quem está lá em cima? - perguntou Andréa; Marc estava muito nervoso e Carolinne tentava acalmá-lo.

- Meu irmão e a namoradinha nova dele; ela até falou para ele não subir, por causa do aviso, que já morreu gente aqui, mas o cara tinha fumado um e ficou doido. Eu estava apagado na caminhonete e quando vi, já haviam subido.

Marc passava as mãos pelos cabelos quase não acreditando no que estava ouvindo. Correu, então, para o porta-malas do jipe e retirou seu equipamento. Começou a arrumar tudo para subir atrás e ver porque estavam demorando quando ouviu alguém falando no rádio.

- Ramon... ventando muito... não dá para ver nad... está machucada... neve descendo...

Marc arregalou os olhos. A situação estava pior do que eles imaginavam. Tomou o rádio da mão do rapaz e tentou conversar com o que estava lá em cima.

- Como é nome dele?

- Ravier...

- Ravier, sou Marc, irmão da Natalie; qual a situação? Câmbio...

- Muito vento... atalie escorregou ... brou a perna... talvez eu possa descer, mas o tempo está ruin aqui... cima. Câmbio...

- Vou subir para ajudar vocês. Câmbio...

- Não dá... faltando dois grampos... perigoso... tentar descer com ela... Câmbio.

Marc passou a mão nos cabelos novamente. Sabia que não adiantava tentar bancar o herói naquela hora porque não conseguiria chegar até eles se estivesse faltando dois grampos.

- Não faça nada, rapaz; espere até vermos o que pode ser feito. Agüente um minuto. Câmbio...

- ...ão demorem... muito frio aqui em cima. Câmbio...

Marc olhou para todos e chamou-os mais para perto.

- A situação é seguinte: como Ravier me informou, o tempo lá em cima está ruim e tem neve rolando do topo. Isso é muito mal porque se despencar uma avalanche ela acaba engolindo os dois. Natalie não tem nem como se defender pois, pelo que entendi, ela quebrou uma das pernas. - fez uma pausa, esfregou as mãos umas nas outras; estava ficando frio ali, também - A questão é que esse cara não vai conseguir descer com ela sozinho; não sei nem se ele vai conseguir descer! Mas acho que eu sozinho também não vou conseguir descer com os dois. - ele olhou para Andréa e ela entendeu o que ele quis dizer. Sem falar nada caminhou até o jipe.

Carolinne entendeu o que pretendiam fazer e ficou horrorizada. Foi ao encontro de Andréa, que pegava seu equipamento no porta-malas.

- Vocês não podem... - olhou para os lados e chegou mais perto do ouvido dela, falando baixo, para que Marc não a escutasse - Você não pode subir lá; é muito perigoso, você mesma me disse!

Andréa virou de costas para Marc e o rapaz e puxou Carolinne para que fizesse o mesmo; segurou em suas mãos.

- Eu sei que é perigoso, meu amor, mas não posso deixar que Marc faça isso sozinho.

- Mas será que não tem um resgate por aqui? Alguém com um equipamento melhor, sei lá... Eu sei que é a irmã dele, mas vocês não podem subir lá!

A jovem abraçou forte Andréa e chorou encostada em seu peito.

- Não quero te perder, Andréa...

- Calma; você não vai me perder, eu prometo. Vou voltar para você, ok?

Carolinne concordou com os olhos ainda cheios d'água e Andréa voltou para junto de Marc e do rapaz.

- Pronta?

- Huhum...

- Certo... Você, humm, Ramon, certo? - o rapaz consentiu - amarre as cordas no jipe para poder fazer a segurança de nós quatro ao mesmo tempo, se for preciso; consegue fazer isso? - o rapaz afirmou novamente; Marc continuou - Ótimo. Vamos subir e tentar trazer os dois antes que a montanha caia na cabeça deles... "E na nossa também!" - completou baixo para que ninguém ouvisse.

Passou a corda no freio e olhou para cima. Voltou-se para Ramon novamente para as últimas instruções.

- Fique de olho nessas cordas, rapaz; não deixe soltar, senão caímos todos, ok? E você, Carolinne, fique com os dois rádios e mantenha contato comigo e com eles; você vai ser nosso elo, certo?

- Pode deixar, Marc... Cuidado.

Marc e Andréa começaram a subir. Enquanto subiam, Carolinne mantinha contato com Ravier e Natalie.

- A ajuda está subindo; como vocês estão? Câmbio...

- ... frio, muito frio... Natalie desmaiou por causa... dor... Tomem cuidado com a neve... Câmbio...

Carolinne pegou o outro rádio e falou com Marc.

- Está muito frio lá em cima e parece que Natalie desmaiou por causa da dor. Está descendo neve do topo; tomem cuidado. Câmbio...

- Ok. Qualquer coisa me avise. Câmbio...

Eles continuaram subindo e Carolinne começou a ficar muito nervosa porque, depois de algum tempo, não conseguiu mais avistar os dois. As condições do tempo estavam ruins, parecia que ia chover a qualquer momento; estranho para um dia que começou tão ensolarado.

Vinte minutos depois, Marc fez contato de novo.

- Chegamos. A situação está um pouco melhor do que eu imaginava; Ravier está bem e pode descer sozinho. Natalie quebrou a perna mesmo e agora já está acordada de novo. Ravier vai descer na frente, em seguida vamos eu e Natalie e por último Andréa. Tem neve descendo do topo e vamos ter que agir rápido. Câmbio...

- Certo, Marc. Tem alguma coisa que você quer que eu faça? Câmbio...

- Procure alguns cobertores e deixe separado para quando chegarmos aí embaixo; está frio pacas aqui em cima! Câmbio final.

Carolinne fez o que Marc lhe pediu, separando alguns cobertores que estavam no porta-malas do jipe e deixando-os à mão. Só não conseguia entender porque Andréa estava descendo por último, sendo que ela estava sozinha. Provavelmente ela quis se certificar de que tudo correria bem e, se Marc precisasse de ajuda, descer era muito mais fácil do que subir.

Alguns minutos depois Marc entrou em contato novamente.

- Está ficando difícil agora, Carol; a neve está descendo em blocos maiores e batendo na cabeça e nas costas da gente. Mas acho que falta pouco. Câmbio...

Carolinne olhou para cima e pode avistar a uns quinze metros, três pequenos pontos; mas eles eram em quatro. Ela ficou preocupada. Nesse instante pedaços de neve rolaram até seus pés.

- Marc, já avistei três de vocês. Onde está Andréa? Tem neve caindo aqui. Câmbio...

- Deve estar descendo... Não dá para falar agora, Carol; temos que acabar logo com isso. Câmbio...

Carolinne angustiou-se mais ainda; o que estaria acontecendo com Andréa?

Mais um bocado de neve chegou ao chão e, junto com ele, veio também Ravier. O rapaz caiu de uma altura de, aproximadamente, uns cinco metros, e rolou para o lado de seu irmão Ramon, levando a mão ao peito.

- Putz; acho que quebrei alguma coisa aqui dentro! Ai...

- Onde está Andréa, Ravier? - perguntou Carolinne desesperada, estendendo um cobertor para ele; agora já avistava Marc e Natalie chegando.

- Não sei; estava atrás de nós...

Marc chegou com Natalie e, imediatamente, envolveu-a nos cobertores. A temperatura corporal da garota estava baixa por causa do frio e poderia haver risco de hipotermia. Ele olhou para cima e não avistou Andréa; ficou preocupado.

- Onde você está, Andréa... - falou baixo o rapaz, que começava a se preocupar com a amiga.

Mal acabou de falar e avistou neve descendo montanha abaixo.

- Merda! Todo mundo para o jipe, AGORA!!!

Marc pegou Natalie no colo e correu para o jipe, enquanto Ramon e Ravier faziam o mesmo. Entraram no carro e Marc pisou fundo na ré; uma avalanche caiu exatamente onde estavam segundos antes.

Agora em segurança, todos desceram e Carolinne foi a primeira a chegar no monte de neve amontoada. Estava desesperada; não havia visto Andréa e agora estava tudo tampado de neve. Pegou o rádio das mãos de Marc e começou a gritar por ela.

- ANDRÉA! Meu amor; fale comigo. Câmbio...

Ouvia-se apenas o ruído de estática no rádio. Carolinne continuou.

- Meu amor... Você está bem? Fale comigo. Câmbio...

Nesse instante, do meio do monte de neve, Carolinne avistou uma luva. Só podia ser ela. Correu como louca para o local, seguida de Marc e os dois irmãos. Começaram a cavar o mais rápido que podiam e foram desenterrando o corpo de Andréa do meio da neve. Ela estava imóvel e parecia não respirar. Dois minutos depois acabaram de remover totalmente a neve. Marc carregou sua amiga até onde estava o jipe, enquanto Carolinne pegava alguns cobertores. Ele deitou-a no chão, em cima de um cobertor e colocou outros por cima.

- Meu amor... Fale comigo!

- Ela... Ela não está respirando! - gritou Ravier apontando o peito de Andréa.

Carolinne encostou o ouvido no peito de sua amada e viu que era verdade o que o outro dizia. Tirou os cobertores de cima dela e colocou ambas as mãos sobre seu peito fazendo pressão. Depois soprou ar para seus pulmões; nada. Olhou desesperada para Marc que estava tão perplexo quanto a jovem. Tremendo e chorando, ela tentou de novo.

- Vamos, meu amor; você prometeu... - e pressionou o peito novamente, soprando mais ar em seguida - Não faça isso comigo...

Andréa tossiu forte, como se algo obstruísse sua garganta e ela precisasse assustadoramente de muito ar. Agarrou o braço de Carolinne enquanto respirava o mais rápido que podia. A jovem, não acreditando que sua amada estava bem, abraçou-a forte e chorou, agora de alegria. Com certa dificuldade, Andréa pronunciou algumas palavras.

- Eu disse... Que voltaria para você... Não disse...?

- Shhh; não diga mais nada. Vamos para um hospital para ver se está tudo bem.

- Não... Não preciso de hospital; estou bem. Eles é que precisam. - Andréa apontou para Natalie, que tremia de frio, e para Ravier, que não tirava a mão do peito.

Marc sorriu e colocou a mão no ombro de Carolinne.

- Não adianta insistir; ela não vai deixar levá-la para o hospital. Leve ela para casa no meu jipe; depois vou lá com meu pai para ele dar uma olhada e ver se está tudo bem. Vou levar os outros na caminhonete do Ramon.

- Nos encontramos mais tarde.

Marc carregou Andréa até o jipe e colocou-a no banco. Carolinne entrou em seguida e ambas partiram.

- Me dê as chaves, Ramon; vou levá-los para o hospital da cidade vizinha e, depois, meus caros amigos - e Marc ficou muito sério naquele momento - vamos conversar para saber de quem foi essa idéia absurda! Vamos.

Ele colocou Natalie na caminhonete; os outros dois rapazes entraram atrás. Então, partiram para o hospital.

O céu parecia estar desabando sobre a cabeça de Andréa. Ela não sabia como escaparia dali. Segurou-se contra a parede o máximo que pode até que um turbilhão de neve a arrastou montanha abaixo. Nesse instante ela acordou.

Olhou à sua volta e viu que estava em seu quarto, em sua cama; havia voltado para a casa, apesar de não se lembrar como. Sentiu uma pontada de dor no pulso esquerdo e viu que ele estava enfaixado; seu corpo também doía muito e tinha alguns arranhões no rosto, nas mãos e nas pernas. Procurou por Carolinne e avistou-a numa poltrona ao lado da cama; ela dormia. Recostou-se nos travesseiros e ficou olhando para ela. Soltou um suspiro de felicidade, o que fez com que a jovem acordasse de seu sono leve.

- Até que enfim você acordou... - a jovem levantou-se, espreguiçou e veio sentar-se na cama, ao lado de Andréa - estávamos preocupados com esse seu sono pesado.

Andréa tentou ver que horas eram, mas não enxergou o relógio na cabeceira da cama.

- Que horas são?

- Quatro.

- Da manhã...

-... Da tarde...

- Estou dormindo desde ontem à noite?

- Você estava cansada e torceu o pulso esquerdo. O pai de Marc veio aqui ontem e imobilizou com uma tala; não sabia que ele era médico...

- Humm... Aposentado. Ai... Que dor nas costas.

- Você está com vários arranhões pelo corpo, mas nada sério. Aquele tal de Ravier é que machucou feio. Marc me disse que ele quebrou seis costelas e uma delas perfurou o estômago; teve que ser transferido para um hospital maior às pressas. Ele ficou foi chateado de não ter tido tempo para amassar a cara dos dois! Ah, Natalie está bem e já foi para casa. Está todo mundo bem, agora.

Andréa sorriu para a jovem ao seu lado. Mesmo com as dores que estava sentindo, só o fato de saber que Carolinne estava ali se sentia muito melhor.

- Você ficou aqui a noite toda?

- É acho que sim... Não agüentei agora de tarde. Me bateu um sono; apaguei...

- Obrigado por tomar conta de mim.

- Vou sempre tomar conta de você... Apesar de você ser muito teimosa! Da próxima vez vamos a um hospital, ok?

As duas riram e Andréa fez sinal para que Carolinne deitasse em seu colo.

- Descanse um pouco; para um primeiro dia, foi muito agitado!

Carolinne concordou, balançando a cabeça e deitou a cabeça no peito de sua amada, encostando seu corpo no dela. Estava realmente cansada; sentia todos os músculos do corpo doloridos por causa da tensão do dia anterior. Bastaram alguns minutos para cair no sono de novo. Andréa ainda ficou acordada um tempo mexendo nos cabelos da jovem e sorrindo enquanto ela dormia. Não sabia que podia amar tanto assim uma pessoa. Carolinne lhe fazia muito bem e só sua presença já lhe transmitia uma calma inexplicável, uma sensação que ela nunca teve o prazer de desfrutar. Apesar de estar dormindo a tanto tempo, abraçou delicadamente a jovem e fechou os olhos.

Andréa acordou e olhou para o relógio; sete e meia da noite. Estava tão exausta com tudo que havia acontecido que dormiu sem interrupções no sono. Carolinne a abraçava carinhosamente e dormia sossegada o sono dos deuses. Tentou tirar o braço da jovem de cima de seu corpo sem acordá-la, mas foi em vão.

- O que foi, Andréa; está se sentindo mal?

- Não; só quero me levantar um pouco. Estou deitada desde ontem e meu corpo está doendo por causa disso.

- E seu pulso?

- Dói um pouco, mas já estive pior! Estou morta de fome; preciso fazer algo para comer e...

- Deixa que eu preparo; você vai ficar quietinha aí!

- Não vou, não; estou com o corpo dolorido de tanto ficar deitada. Você pode até preparar tudo, mas eu vou ficar lá junto com você!

Carolinne concordou com um sorriso e levantou-se, seguida de Andréa. Ambas foram para a cozinha e a jovem começou a procurar algo para cozinhar.

- Humm... Vou preparar uma macarronada brasileira para você; tenho certeza de que vai adorar!

- Olha que eu sou muito exigente com macarrão, héin!

A jovem sorriu e continuou a mexer na pequena dispensa onde elas haviam guardado o que trouxeram. Achou o macarrão, as latas de molho, temperos e o queijo. Na geladeira, pegou um frango congelado e uma lata de polpa de suco.

- Suco? Nah; vamos tomar um bom vinho!

- Não sei se seria uma boa idéia; acho melhor perguntar ao pai do Marc se não tem problema você beber e...

- Carol; eu estou ótima! Só torci o pulso; uma garrafa de vinho não vai fazer mal algum!

- Tudo bem, mas deixo meu protesto com relação a isso!

Andréa sorriu e beijou a jovem nos lábios. Em seguida foi até a adega, que ficava numa espécie de porão, e pegou o vinho. Andava com um pouco de dificuldade por causa dos arranhões que doíam um bocado quando raspavam nas roupas.

Carolinne botou a mão na massa, enquanto isso. Colocou o macarrão para cozinhar, e o frango no microondas para descongelar. Andréa chegou com a garrafa e a abriu, servindo o vinho em duas taças.

- Por que pegou vinho branco?

- Ué; você gosta de vinho branco, não gosta?

- Mas você gosta de tinto; vai ficar fazendo as coisas só para me agradar?

- Não é isso, sua chata! Você vai fazer macarrão com molho vermelho, não é? - a jovem concordou com a cabeça - Pois bem; vamos tomar vinho branco agora e quando o macarrão ficar pronto, tomamos um vinho tinto junto, entendeu?

- Humm... Por mim tudo bem.

As duas brindaram e beberam.

O frango demorou a descongelar; já o macarrão ficou pronto em poucos minutos. Carolinne picou o frango em pequenos pedaços e temperou com alho, sal e limão; em seguida, deixou descansar no tempero.

- Você deve pagar bem caro para ter esse tipo de tempero aqui.

- É o preço do que é bom!

A jovem socou o alho e colocou na panela para dourar ao fogo. Depois despejou a lata de molho e deixou ferver. Quando isso aconteceu, acrescentou os pedaços de frango e deixou que ficasse ali em fogo baixo por alguns minutos. Pegou uma vasilha de vidro grande e colocou parte do macarrão. Com o molho ainda fervendo, despejou parte dele até que cobrisse toda a camada de massa que havia colocado na vasilha. Repetiu o processo até que terminou o molho e o macarrão. Por cima colocou uma camada de queijo e levou até a mesa. Tudo isso levou cerca de uma hora.

- Humm... Acho que valeu à pena a espera; que cheiro bom!

- Agora prova e me fala o que achou.

Andréa serviu em seu prato uma quantidade generosa e, enrolando o garfo no macarrão, colocou uma boa garfada na boca.

Carolinne olhou preocupada. Andréa havia ficado muda e de olhos fechados.

- Oh, mon Dieu; está horrível! Eu sabia, não devia ter tentado...

- Pára com isso; assim nem me dá tempo para elogiar. Está fabuloso! Muito bom mesmo!

- Está falando isso só para me agradar?

- Não; está perfeito!

Carolinne sorriu e beijou a boca suja de molho de sua amada. Sempre gostou de agradar as pessoas, mas com Andréa era melhor ainda; ver aquele sorriso de satisfação no rosto e saber que era sincero, isso a deixava radiante.

Sentou-se ao lado de Andréa e ambas deliciaram-se com aquela ambrosia até não agüentarem mais. Andréa acendeu um cigarro e Carolinne pediu um trago; engasgou de novo e resolveu que seria melhor não voltar com aquele hábito horrível.

- Acho que você deveria parar de fumar, Andy; só te faria bem.

- Já ouvi muito isso de Filipe... Ei; de que você me chamou?

- Andy... Não gosta?

- Não... É que ninguém nunca me chamou assim. Mas eu gostei sim.

- Desculpe ficar te chateando com essa estória de cigarro, mas é que me preocupo com você, só isso.

Andréa olhou a jovem, que parecia sem jeito e apagou o cigarro num cinzeiro. Abraçou-a carinhosamente e, em seguida, beijou-lhe o rosto.

- Vou tentar para, ok? Vai ser difícil, mas vou tentar. Mas... Que tal se formos para o quarto; podemos conversar e...

- E...?

Andréa sorriu e levantou-se, puxando Carolinne pelas mãos até o quarto.

Tiveram uma noite calorosa de amor e, apesar de terem dormido a maior parte do dia, se sentiram exaustas depois do que fizeram. Adormeceram nuas, os corpos colados, a respiração quente e tranqüila, os braços envoltos uns nos outros.

Os dias que se seguiram foram de relaxamento, nada de aventuras muito perigosas. A irmã de Marc se recuperou do susto e jurou que não faria mais aquilo; queria provar que era capaz de superar o irmão e não havia pensado nos riscos. Andréa se recuperou rápido e o inchaço do pulso diminuiu aos poucos; já conseguia movê-lo com mais liberdade.

Pescaram, acompanhadas de Maurice, Marc e Natalie e tentaram algumas vezes entrar no lago, mas o frio os impediu. Caminharam por diversas trilhas que levavam a lugares cada vez mais lindos. Carolinne nunca havia estado em lugares tão maravilhosos. Claro que as paisagens em seu país eram belíssimas, mas não se pode fazer comparação com o que ela estava conhecendo ali naquelas montanhas geladas. Viram animais selvagens e observaram os pássaros fugindo do frio.

Foram duas semanas de descanso e sossego absoluto, algo que Carolinne não fazia há muito tempo, e nem em tão boa companhia. Gustav nunca foi muito de levar uma vida saudável, conhecer lugares exóticos; eram sempre os mesmos banquetes requintados e festas sem graça que ele a fizera freqüentar.

Estava tudo correndo perfeitamente, um sonho de lugar, ótimas companhias, boa cerveja, mas foram interrompidas por um telefonema de Luigi numa tarde em que tomavam uma cerveja quente no Oráculo.

- Gostaria de não ter que ir embora...

- Oh, meu amor; podemos ficar o tempo que você quiser.

- Precisamos voltar; já está tudo pronto e temos que organizar as coisas lá no Café. Não posso deixar Bernard esperando mais tempo; se ele não voltar a trabalhar já, vai acabar adoecendo.

- Estranho você mencionar isso porque o Luigi disse que ele não apareceu nos últimos dois dias. Será que aconteceu algo?

- Não apareceu? Estranho; Bernard não deixa de ir ao Café, nem que seja para ver se guardamos os guardanapos nos devidos lugares! Tem alguma coisa errada.

Carolinne deu uma golada em sua cerveja e dirigiu-se para o balcão, onde Maurice limpava alguns copos.

- Posso usar seu telefone, Maurice? Serei breve.

O velho sorriu e indicou o aparelho com o queixo. Carolinne discou o número de Antoinne e aguardou. Depois de três chamadas sua amiga finalmente atendeu.

- Carol! Cadê você?

- Estou na casa da Andréa, nas montanhas. Está acontecendo alguma coisa com Bernard? Luigi nos disse que ele não vai ao Café tem dois dias e você sabe como ele é com aquele lugar.

- Pois é justamente isso; ele está doente. Não consegui te achar no celular, então, eu e Rogèr o levamos para o hospital e...

- Hospital? - Carolinne sentiu um aperto no coração.

Andréa viu a angústia tomar conta do rosto de Carolinne e foi em sua direção. Segurou em sua mão, que estava gelada e úmida, e esperou que ela desligasse para saber o que estava havendo.

- Como assim? O que ele tem? - falou a jovem incrédula.

- Os médicos disseram que ele está com problemas no coração. Quando fomos à casa dele ontem para ver porque ele tinha deixado de ir ao Café ele reclamou de muita dor no peito; corremos com ele para o hospital.

- E como ele está agora?

- Melhor, mas não muito; acho que é grave, Carol.

- Volto hoje ainda.

Carolinne desligou o telefone e abraçou Andréa, não conseguindo conter o choro.

- Como não notei que ele estava ruim? E por que ele não me falou nada? Teimoso! Preciso voltar, Andy; você entende, não é?

- Claro. - enquanto falava, acariciava os cabelos da jovem tentando acalmá-la - Não se preocupe; vai dar tudo certo.

As duas se abraçaram e Carolinne foi ao banheiro lavar o rosto. Andréa usou o telefone novamente.

- Luigi... Bernard não foi ao Café porque está no hospital. Descubra em qual hospital ele está e cuide para que tenha todo conforto possível e que seja muito bem atendido; que não lhe falte nada!

O fiel amigo apenas concordou e ela desligou. Explicou a situação para Marc e Maurice enquanto esperava Carolinne. Ambas se despediram e voltaram para a casa de Andréa.

Arrumaram as malas o mais rápido que puderam e puseram-se a caminho de Paris. Andréa procurava as palavras certas para acalmar Carolinne, mas nada parecia consolar a jovem. Ficou em silêncio o resto da viajem sentindo apenas a mão quente da jovem pousada sobre sua perna enquanto dirigia.

- Carolinne! Que bom que você chegou. Os médicos disseram que vão operá-lo! - berrou Antoinne assim que viu sua amiga entrar pela porta do hospital.

Carolinne se assustou e apoiou-se em Andréa para retomar suas forças. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

Andréa notou a falta de iniciativa por parte de Carolinne devido ao choque da notícia e tomou o rumo da conversa.

- Quem é o médico responsável?

- Doutor Marco Canninghan. Luigi esteve aqui mais cedo e acertou tudo com esse médico; disse que era conhecido de vocês.

- Sim; ele é conhecido da minha família e é muito bom. Vou procurá-lo e saber como é que Bernard está.

Andréa entrou por um corredor a procura do médico e encontrou-o em sua sala, preparando-se para a cirurgia.

- Andréa; que bom vê-la! Pena que as circunstâncias não são as melhores.

- Eu sei, Marco. Como ele está?

- Nada bem, para ser sincero. Está com duas artérias entupidas e preciso fazer uma ponte no coração dele antes que seja tarde demais.

- E há riscos nessa cirurgia?

- Sempre há, Andréa; espero que corra tudo bem. O estado dele vem piorando desde hoje de tarde quando Luigi o transferiu para cá. Fiz o que foi possível, mas talvez só a cirurgia possa ajudá-lo agora. Tente se acalmar e espere com os outros na sala de espera, por favor. Preciso ir agora; assim que tudo acabar procuro você.

Andréa consentiu balançando a cabeça, mas segurou o médico pelo braço antes que ele saísse.

- Não deixe ele morrer, Marco... Por favor.

O médico sorriu para ela e a abraçou dizendo em seu ouvido que faria realmente todo o possível. Ele soltou-a e seguiu por um longo corredor até que entrou por uma porta e sumiu de vista.

Andréa voltou para junto dos outros levando as notícias que havia conseguido com seu amigo.

- O estado dele não é muito bom; precisa operar com urgência. Marco Canninghan é um bom médico e tenho certeza que fará tudo que estiver ao seu alcance.

- Ao seu alcance? O que você quer dizer com isso? - perguntou Carolinne enquanto as lágrimas rolavam em seu rosto - Tem algum risco?

- Bernard já está velho, Carol; podem haver complicações... Vamos esperar que dê tudo certo e deixar nas mãos dos médicos.

Carolinne não se conformava com a chance de perder seu velho amigo. Como ele poderia ter chegado àquele ponto sem falar nada com ela... Justo ela? E como ela não havia notado que ele estava tão ruim assim e a tanto tempo? Suas brigas com Gustav e agora, seu envolvimento com Andréa nublaram sua mente e não deixaram ela ver que seu melhor amigo estava morrendo diante dela. Ela empurrou Andréa para o lado e saiu andando pelos corredores do hospital.

- Não acha melhor ir com ela? - perguntou Antoinne a Andréa.

- Acho que ela não quer ninguém perto dela agora. É melhor deixá-la um pouco sozinha para que possa se acalmar.

Antoinne concordou com Andréa. Pelo menos por enquanto iriam dar um tempo para que ela entendesse que nada poderia ser feito, a não ser esperar.

Carolinne saiu do hospital e andou durante algumas horas pelas ruas mais próximas. Não percebeu que uma chuva fina havia começado a cair, deixando-a toda ensopada. Parou, então, diante de uma banca de jornais e comprou um cigarro, involuntariamente, como fazia há anos atrás. Acendeu-o e tragou várias vezes. Sentiu um pouco de tonteira e seus ouvidos doíam, provavelmente por causa daquela chuva e por estar com o corpo molhado. Quando acabou de fumar jogou o toco de cigarro na rua e percebeu que à sua frente havia uma igreja. Sem perceber, caminhou em direção àquela enorme catedral e entrou. Estava mais quente lá dentro porém, vazio; eram duas da madrugada.

A jovem sentou-se num banco e juntou as mãos em frente ao rosto. Não conseguia se lembrar da última vez que rezou; já não tinha mais tempo para isso. Fez uma oração, tentando se lembrar de alguns pedaços que ficaram esquecidos em sua memória. Ao mesmo tempo não conseguia parar de pensar em Bernard. Alguns minutos mais tarde uma voz conhecida a interrompeu.

- A cirurgia acabou. - disse Andréa. - Venha, vamos tirar essas roupas molhadas antes que você fique doente. Depois vamos procurar o médico e saber como Bernard está.

Carolinne não queria saber de trocar de roupa, só queria estar com seu amigo, saber se ele estava bem; mas Andréa exercia um poder sobre ela que a jovem não conseguia entender. Levantou-se, fazendo o sinal da cruz, e caminhou ao lado de Andréa até o hospital. Estava sentindo muito frio, agora.

Chegaram na sala de espera do hospital e o doutor Canninghan esperava por elas para dar as notícias. Carolinne chegou perto do médico e, com os lábios roxos e tremendo de frio pediu que ele não lhe escondesse nada.

- Não vou esconder, minha jovem. A cirurgia foi bem sucedida; fizemos uma ponte onde estavam entupidas duas veias e ele já está fora de perigo, desde que repouse bastante e se alimente bem.

- Posso vê-lo, doutor?

- Ele está na UTI se recuperando e mais tarde você poderá se encontrar com ele, se prometer que vai para casa trocar essas roupas molhadas; não quero ver outro paciente doente!

Carolinne concordou com um sorriso e um espirro. Andréa a envolveu num cobertor que um enfermeiro lhe arranjou e a abraçou.

- Vamos lá em casa para você tomar um banho, meu amor; sua boca está roxa de frio e você pode acabar pegando uma pneumonia.

- Mas depois quero voltar para cá...

- Eu trago você, prometo.

Andréa ajeitava os cabelos da jovem, tirando-os do rosto e olhava ternamente para ela. Tinha que cuidar dela; não suportava a idéia de perdê-la. Deixou sua pequena amante Antoinne e pegou seu celular, ligando para Luigi em seguida.

- Que bom que vocês voltaram; não sabia o que fazer! Se não fosse aquele tal de Luigi aparecer ficaríamos na mão.

- Como ele achou vocês?

- Não sei, mas recomendou que Bernard fosse muito bem tratado, porque era amigo de Andréa D'Angelo Baccio. Ela deve ser muito importante, mesmo...

- É... Mas para mim ela é importante por outros motivos...

- Eu sei. Como vocês estão?

- Tudo ótimo, não podia estar melhor. Fizemos uma viagem deliciosa, mesmo com alguns desastres embutidos; foi perfeito! Você não acreditaria como ela pode ser sensível e amável...

- Difícil de acreditar nisso; ela parece tão fria, séria... Mas que bom que vocês estão bem, fico feliz. Nós vamos ficar aqui até vocês voltarem, para o caso de alguma emergência, sei lá. Vê se toma um banho senão você vai ficar ruim também! Que idéia de doido, sair na caminhando na chuva!

Carolinne abraçou a amiga e foi em direção a Andréa, que já a esperava perto da saída. Ambas percorreram a pequena distância entre a entrada do hospital até o estacionamento em silêncio. Quando entraram no carro, foi Andréa quem puxou o assunto.

- Temos que chegar rápido em casa para você tomar um banho... Tire essa camisa e pegue uma outra ali atrás para vestir, só até chegarmos em casa; sua boca está azul de frio e isso pode te fazer mal e...

- Andréa, calma; eu estou bem! Por que você está desse jeito?

Andréa receou em falar que sentia um medo enorme de perder a jovem, que não suportaria viver sozinha novamente depois de ter conhecido alguém tão especial e que aquela situação com Bernard a havia deixado mais sensível. Tinha medo de ficar nas mãos daquela garota... Mas já não estava?

- O que foi; tem alguma coisa te incomodando? Por que não conversa comigo?

Andréa seguiu firme na direção sem voltar a falar nada, apenas dirigiu até seu apartamento e esperou que Carolinne entrasse no banho para encostar-se no sofá e deixar que as lágrimas escorressem pelo seu rosto.

Filipe não pôde deixar de ficar preocupado com aquela cena e, receando o que poderia ouvir, chegou de mancinho perto de sua patroa.

- O que está havendo, madame? Algo errado com a jovem?

- Não; receio que se tem algo errado, deve ser comigo.

- Não compreendo...

- Nem eu... Estou com medo, Filipe; pela primeira vez na minha vida, estou com medo de alguma coisa!

- Tem medo de perdê-la, madame? Não creio que seja possível.

- Nunca me senti tão bem e não sei se estou preparada para voltar a viver sozinha, entende; ela ocupou um lugar na minha vida que eu nem sabia que existia.

Carolinne olhava para Andréa da porta da sala com os olhos cheios d'água; sorria lindamente para sua amante. Andréa se levantou enxugando as lágrimas do rosto, e foi em direção a jovem.

- Oi... Você está aí faz muito tempo?

- Só o suficiente...

A jovem puxou Andréa para seus braços e beijou-a.

- Não precisa ter medo de me perder porque isso não vai acontecer! Será que você não vê o quanto eu gosto de você? Não me interessa que tenha sido de repente, que essas coisas são difíceis de acontecer e dar certo... Nós vamos dar certo! Nós estamos dando certo, será que você não vê? - a jovem colocou as mãos no rosto de Andréa e continuou com um sorriso de deixar qualquer um mole - Eu te amo, sua boba! Não me pergunte como posso estar sentindo isso tudo se te conheço a tão pouco tempo, mas eu sei o que estou sentindo e nunca tive tanta certeza. Converse comigo, Andy e nunca deixe de falar o que está sentindo por medo de me desagradar.

Andréa apertou a jovem contra seu peito e beijou-a no rosto. Ambas foram para o quarto descansar um pouco; a viagem havia sido cansativa e os acontecimentos ajudavam para que a tensão aumentasse a cada instante. Dormiram abraçadas durante algumas horas, quando Carolinne acordou assustada por causa de um pesadelo.

- Meu Deus; apagamos! Andy, preciso voltar para o hospital; Ann e Rogèr devem estar cansados. E eu tenho que saber se Bernard está bem.

- Claro; não precisa se justificar. Vou tomar um banho e já vamos...

- Não; você fica porque está cansada da viagem. Mais tarde, depois que você dormir um pouco, me liga e a gente se encontra.

- Tem certeza?

- Tenho... Obrigado por tudo que você tem feito por mim.

A jovem beijou sua amada e levantou-se. Vestiu uma calça jeans, uma camiseta branca, uma jaqueta e suas velhas botas, e voltou para o hospital.

Antoinne estava cochilando num sofá com Rogèr deitado em seu peito. Carolinne pousou a mão em seu ombro, mexendo-o levemente à fim de acordá-la.

- Carol...?

- Oi; desculpa ter demorado; é que deitei na cama um pouco e apaguei.

- Tudo bem, tudo bem... Acho que vou para casa agora; Rogèr também está cansado.

- Obrigado por tudo, Ann; não sei o que faria sem você.

- Que é isso, lindinha; amigo é para isso mesmo! Me liga se precisar de qualquer coisa, ok?

Carolinne sorriu concordando com sua amiga. Antoinne levantou-se, puxando Rogèr consigo. Mas antes que pudessem ter saído, o doutor Canninghan passou correndo por eles. Carolinne teve um mal pressentimento e foi atrás do médico.

- O que foi, doutor?

- Seu amigo teve uma parada cardíaca. Temos que agir depressa. - mal acabou de falar e sumiu por uma porta que dava para um longo corredor.

Carolinne não poderia ter outra reação, senão a de ligar para Andréa.

Andréa chegou poucos minutos depois ao hospital. Quando entrou na pequena sala, Antoinne chorava muito e Rogèr escondia o rosto entre as mãos num canto. Ela imaginou o pior.

O mesmo médico que havia conversado com elas mais cedo veio em direção a jovem.

- Onde ela está, doutor?

- Senhorita, fizemos todo o possível para salvá-lo, mas... Sinto muito.

Carolinne levou uma das mãos à boca; não acreditava no que estava ouvindo. Bernard... Morto? Estava prestes a explodir numa crise de nervos. Saiu correndo pelo corredor por onde o haviam levado mais cedo tentando encontrar seu amigo. Andréa e o médico foram atrás dela.

A jovem chegou até a UTI e encontrou Bernard deitado numa cama. Ele parecia dormir. Ela passou a mão em seu rosto e sentiu a pele já um pouco fria. Deu-lhe um beijo suave e segurou sua mão.

- Eu nem pude dizer o quanto era louca com você, héin? Você não agüentou ver o que fizeram com seu Café, não foi? Eu devia saber que seria duro demais para você tudo isso; como pude ser tão insensível...

A jovem debruçou-se sobre o peito do velho amigo e chorou. Andréa conseguiu encontrá-la alguns minutos depois. Chegou perto e puxou-a para junto de si, mas a jovem relutou em sair de perto do amigo.

- Meu amor, acabou. Venha, vamos cuidar para que ele tenha um funeral decente.

- Ele não agüentou ver o que fizemos com o Café dele. Foi culpa minha...

Andréa sentia-se mal com tudo aquilo, mas não podia deixar que Carolinne ficasse se martirizando por uma culpa que não existia. Virou a jovem bruscamente para seu lado e segurou em seus dois braços com força.

- Não foi culpa sua; pára com isso! Ele já estava doente há muito tempo; talvez se tivéssemos descoberto antes seria diferente... Mas não puxe a culpa para você!

Carolinne olhou fundo nos olhos de Andréa e um sentimento estranho tomou conta dela. Um lado obscuro de sua mente insistia em afirmar que tudo aquilo era culpa de Andréa. Quando percebeu que era ódio o que estavas sentindo, abraçou forte sua amada. Andréa a levou para fora daquela sala fria.

Carolinne sentiu a brisa quente em seu rosto. Já eram cinco e meia da tarde e o sol começava a se por. Olhou para o horizonte buscando algo que estava tão distante quanto seu pensamento.

Depois da morte de Bernard ela não teve forças para voltar ao Café e decidiu descansar um pouco na casa de seus pais em Santa Catarina, no Brasil.

Sentiu que alguma coisa abalou o relacionamento entre ela e Andréa, mas não conseguia entender o que era. Achou que se continuasse junto dela acabaria culpando-a pelo que tinha acontecido com seu amigo; e isso não seria justo.

Despediu-se de Andréa no aeroporto internacional de Paris e hoje, três meses depois, seu coração doía de saudade daquela pessoa a quem mais amava no mundo. Se arrependeu cada dia por tê-la deixado para trás. Ainda conversaram por telefone algumas vezes, mas algo estava diferente, e foram se distanciando lentamente. Há um mês não ligava e nem recebia nenhum telefonema, nenhuma carta, nada...

A jovem voltou para dentro de casa e sentou-se em sua poltrona preferida. Ficou ali por muito tempo, até que escureceu. Estava esperando a visita de sua melhor amiga, Luiza, que morava em São Paulo. Quando chegou ao Brasil, Carolinne escreveu para ela falando que ficaria uns dias na casa dos pais e pediu que ela fosse visitá-la assim que possível; contou sem muitos detalhes o que havia acontecido.

Por volta das dez e meia Luiza chegou e ambas se trancaram no quarto de Carolinne para conversar.

- Ok; pode me explicar tudo direitinho agora, porque aquela carta que você me escreveu estava, no mínimo, muito confusa!

- Desculpa, Lú... EU estou muito confusa... Mas resumindo, a estória é essa: conheci uma mulher em Paris, me apaixonei por ela, ficamos juntas um tempo e, porque perdi meu melhor amigo lá, acabei deixando ela para trás. Agora perdi contato com ela, estou sofrendo muito com isso e não vou suportar viver sem ela nem mais um minuto.

- Ufa... Ok; mais da metade de tudo isso que você "resumiu" para mim eu não fazia nem idéia de que estava acontecendo. Uma mulher, Carol? Você? E Gustav?

- Vamos deixar isso de lado um pouco e tentar resolver meu problema. Estou a três meses sem vê-la, perdi contato e não sei como faço para voltar e pedir desculpas pela minha ignorância!

- Fez besteira mesmo...

- Não te chamei aqui para dizer que fiz merda; preciso dos seus conselhos!

A jovem caiu no choro e Luiza viu que o negócio era realmente sério.

- Certo; o que vamos fazer... Bom; você ama mesmo essa mulher, não é? - a jovem confirmou balançando a cabeça - Pois bem... Você pega um avião e vai atrás dela e, se precisar, rasteja pedindo perdão.

- Me humilhar?

- Querida, qual a parte do "você é que está errada" que você não entendeu? Eu, particularmente, NUNCA faria isso, mas você é bem diferente de mim.

- Mas... E se ela não me quiser mais? E se ela acabar comigo dizendo que eu a abandonei, que havia prometido que nunca ia deixá-la e que...

- Carol; pára! Se você não fizer isso nunca vai saber e, pior que isso, vai se arrepender de não ter feito nada! Pega um avião e volta para Paris. Sua vida é lá agora. Você me falou que não voltaria por qualquer coisinha; pois então? Volta para lá e resolva sua vida, mulher! Prometo que vou te visitar assim que tiver uma brecha no hospital.

Carolinne abraçou sua amiga e sorriu, em meio a muitas lágrimas. Ela já imaginava que Luiza fosse dizer isso, mas precisava ouvir dela para pegar um pouco de ânimo e confiança.

- E então; o que vai fazer?

- Já estou aqui tempo demais... Vou voltar, arriscar a ser chutada...

- Ou perdoada. Pense positivo!

- Obrigada.

Luiza sorriu para sua velha amiga e a beijou no rosto.

Na manhã seguinte, Carolinne embarcou no primeiro vôo para Paris. Estava ansiosa por ver Andréa, mas tinha receio que a mágoa dela fosse muito grande. Depois de intermináveis horas voando, a jovem avistou o aeroporto de Paris. Devia ter avisado, mas preferiu fazer um surpresa.

Voltou até seu apartamento primeiro, para ver como estavam as coisas. Não encontrou Pierre sentado à porta e sentiu falta daquele pequeno amiguinho. Mais tarde foi saber que Arnaud mudou-se para uma casa numa cidadezinha do interior porque não queria ficar ali naquele prédio sozinho. De certa forma, a presença de Carolinne o reconfortava, mesmo que não tivessem muito contato.

O apartamento estava em ordem. Só um pouco empoeirado, mas inteiro. As telas continuavam cobertas com grossos panos para impedir que a poeira tomasse conta delas e os poucos móveis que tinha naquela sala enorme também estavam cobertos. Subiu até seu quarto e guardou suas coisas nos armários. Em seguida dirigiu-se para o Café.

Como sempre, chegou em poucos minutos e teve uma surpresa; aparentemente nada parecia ter sido mudado. Entrou e viu que era verdade, a única diferença eram alguns quadros novos nas paredes e a entrada para o amplo salão onde seriam realizadas as exposições estava barrada por um grande armário.

Procurou um rosto conhecido e sorriu ao ver Antoinne servindo algumas mesas. Sentou-se com a cabeça baixa, porém, notou quando sua amiga veio lhe atender.

- Boa noite; o que deseja?

Carolinne levantou o rosto devagar e viu a expressão confusa no rosto de Antoinne.

- Não vai nem me dar um abraço, Ann?

- Carol...

O rosto dela não se iluminou com o regresso da amiga, muito menos se fechou numa expressão de raiva pela outra ter o embora; Antoinne simplesmente não tinha expressão.

- O que foi? Já sei, está com raiva de mim...

- Não... Não é isso; é que... - um cliente acenou para Antoinne e ela teve que atendê-lo - Daqui alguns minutos acaba meu turno; me espera para a gente conversar, ok?

Carolinne consentiu e viu sua amiga se distanciando, indo atender outros clientes. Como ela estava diferente; mais magra, mais séria, mas ainda assim, muito bonita. E Rogèr. Sentado atrás do balcão, trabalhando no caixa, lembrava muito o jeito do velho Bernard. "As coisas parecem que mudaram um bocado enquanto eu estive fora", pensou. Teria que esperar até que Antoinne terminasse seu turno; só aí saberia de tudo que se passou na sua ausência.

Meia hora depois Antoinne tirou seu avental e sentou-se na mesa junto com Carolinne. Rogèr veio servir-lhes um cappuccino, mas quando a jovem foi cumprimentá-lo, ele apenas deixou o café na mesa e voltou para o que estava fazendo.

- O que há com ele?

- "O que há com ele?" Ora, Carol... Como acha que ele se sentiu quando você, simplesmente, foi embora? Eu amo esse cara e sei que ele me ama, mas também sei que ele ainda guarda um pedacinho do coração dele para você. Como é que você pôde fazer isso com a gente? Nós ainda estávamos vivos!

Carolinne sentiu um aperto no peito e não podia se defender; também achava que estava errada.

- Vai ficar calada agora?

- O que quer que eu fale?

- Diga, pelo menos, que sentiu saudade de mim...

A jovem abraçou a amiga e viu que seria perdoada pela covardia de ter ido embora.

- Fiquei furiosa quando soube que você havia ido embora e não se despediu de mim nem de Rogèr. Mas ele te perdoa algum dia, fica tranqüila.

- Sei que o que fiz é difícil de perdoar, mas eu estava tão confusa... Precisava de um tempo longe daqui e se contasse que estava indo embora, seria bem mais difícil.

- E agora; está melhor?

- Não sei; acho que fiquei pior do que antes, porque larguei tudo que eu mais amava para trás. Por isso voltei; precisava me desculpar com vocês e...

- Andréa.

- É. Sinto-me péssima por ter ficado longe dela tanto tempo e acho que, talvez, ela nem queira mais me ver... Me diz uma coisa; cadê as reformas que ela fez aqui?

- Depois que você foi embora ela não quis mais saber de reforma, de Café, de nada. Vinha ao Café todos os dias na esperança de te ver entrar por aquela porta, até que um dia não veio mais. Depois fui saber do Luigi que ela foi embora.

- Embora? Embora como; de Paris?

- É; Luigi que acertou com a gente os salários e é ele quem nos paga no final do mês. Mas acho que ela deve vender isso aqui, não vai demorar muito.

- Meu Deus; o que eu fiz... Como é que eu faço agora? Como vou encontrá-la?

- Me lembro dela ter comentado qualquer coisa de voltar para ver o irmão dela; talvez tenha voltado para casa, assim como você.

- Tem quanto tempo isso?

- Umas duas semanas... Espera; o que vai fazer?

- Vou para Milão procurá-la; não vou perdê-la sem antes poder me explicar e pedir perdão.

A jovem levantou-se, abraçou Antoinne e saiu do café. Voltou para seu apartamento. Lá colocou algumas roupas numa mochila e correu para o aeroporto. Estava decidida.

- Não vou perdê-la; não vou!

Andréa fazia um esforço enorme para sair da cama. Não costumava levantar tarde, mas desde que chegou a Milão há duas semanas, não fazia outra coisa senão dormir. Às vezes corria pelas ruas com Vicenzzo, o cachorro de seu irmão, mas não passava disso. A verdade é que quando Carolinne foi embora sua vida perdeu completamente o sentido. Não tinha fome, não queria sair e se divertir, não achava graça em nada e não se esforçava para melhorar as coisas. Apenas sofria. Achava que merecia sofrer por ter sido tão estúpida ao ponto de entregar seu coração a alguém de novo. Mas sentia uma saudade interminável de sua amada e nem as tardes alegres com Luca lhe fazia sentir melhor. Estava se destruindo aos poucos e, em breve, talvez não restasse nada além de uma casca sem qualquer sentimento.

Luca é quem mais sofria com a dor da irmã. Não gostava de vê-la daquele jeito e não tinha nada que pudesse fazer para alegrá-la.

- Vamos, Deca; vai ficar enfurnada nesse quarto o dia todo?

- Estou sem ânimo, Luca. Vai andar de moto, vai.

- Tudo isso por causa dessa tal Carolinne? O que ela tem de tão especial?

- Ah... Ela era muito especial, meu caro. E seus olhos... Eram tão envolventes; me lembravam o mar. Você devia tê-la conhecido; só assim entenderia porque sinto tanto a falta dela.

- Por que não foi procurá-la, então?

- Ela queria ficar sozinha e acho que me culpa pela morte do amigo.

- E se ela voltar um dia?

- Se... Já pensei nisso, mas acho que ela nunca mais vai voltar... Bom, chega desse papo, estou com fome. Vamos jantar na Cantina do Genaro; me deu vontade de comer uma pizza.

Andréa e Luca foram para o restaurante do velho amigo de seu pai. Seus pais estavam viajando; já que ela estava em casa para ficar com Luca, aproveitaram para descansar um pouco.

Chegaram ao tal restaurante e estava acontecendo uma típica festa italiana. Muitos dançavam, outros se embebedavam com vinhos da melhor qualidade e logo Luca encontrou seus amigos. Ele preferiu fazer companhia para a irmã do que ficar com eles e Andréa percebeu que ele fazia isso para agradá-la.

Depois de comerem e beberem bastante, Andréa tentou pagar a conta, mas o velho Genaro não deixou, como sempre fazia quando ela visitava sua cantina. Ela estava ficando cansada daquela agitação toda; resolveu ir embora. Viu que Luca ainda não queria ir; sugeriu, então, que ficasse um pouco mais.

- Fique aí com seus amigos; depois você volta para casa.

- Tem certeza? Volto com você, se quiser.

- Pode ficar tranqüilo que não vou pedir para você vir comigo. Fique e divirta-se; não existe coisa pior do que uma irmã estraga prazeres!

Ele abraçou-a e foi juntar-se a seus amigos. Andréa se despediu de Genaro e voltou para sua casa. Luca estava um pouco mais ajuizado desde que ela chegou; não precisava se preocupar com ele.

Chegou em casa alguns minutos depois e debruçou-se na janela. Viu uma estrela cadente e sorriu.

- Será que é pedir demais para vê-la pelo menos mais uma vez?

Sorriu com a fantasia boba e infantil. Deitou-se em sua cama e tentou dormir, mas a imagem de Carolinne não lhe saía da cabeça.

Os dias se passaram e nada de Andréa melhorar seu estado de ânimo. Luca já tentara de tudo; nada parecia alegrá-la. E foi numa tarde dessas em que tentava animá-la, que decidiu pedir ajuda aos seus amigos. Foi, então para o bar onde se encontravam regularmente para ver se achava uma solução.

- Não sei mais o que faço com ela; nada a faz ficar alegre de novo.

- Quem sabe se você apresentar sua irmã para a gente, talvez possamos fazer alguma coisa.

- E eu sou louco de apresentá-la para um bando de "Zé Ninguém" feito vocês? Sai fora!

- Tudo bem, tudo bem. Com a sua irmã a gente não tem chance, mas olha só aquela belezinha que está entrando agora!

Luca olhou para a porta e viu uma linda jovem entrando no bar. Seus cabelos estavam atrapalhados por causa do vento que soprava lá fora. Toni, um dos amigos de Luca levantou-se e esperou que a jovem passasse por eles. Os outros ficaram olhando; Luca observava a garota com certo interesse.

- O que uma gatinha como você está fazendo sozinha a uma hora dessas?

- Com certeza não estou procurando a SUA companhia!

A jovem continuou andando na direção do balcão enquanto Toni se sentava em meio a chacota os amigos.

- Dançou, companheiro! E foi feio, héim! - falou Luca enquanto ria sem parar.

- Não enche!

A jovem comprou um maço de cigarros e saiu do bar. Luca ficou intrigado com a figura da garota; parecia conhecê-la de algum lugar. Resolveu ir atrás para ver de onde a conhecia.

Saiu do bar e não avistou a jovem. Quando já ia voltando para dentro, ouviu um grito e correu na direção dele. A jovem estava sendo atacada por dois rapazes bem vestidos e Luca foi intervir.

- O que está havendo aqui?

- Cai fora, moleque. Finge que não viu nada e se manda!

- Acho que vocês estão perturbando a garota; podiam fazer a gentileza de deixá-la em paz?

Os dois rapazes se olharam e, enquanto um segurava Carolinne, o outro investiu contra Luca.

- Vamos ver se o gangsterzinho sabe se defender!

O rapaz puxou uma faca e atacou Luca que, com um movimento rápido, desviou-se do golpe e jogou o adversário contra uma parede, fazendo-o ficar desacordado. Carolinne aproveitou a falta de atenção do rapaz que a segurava e acerto-o com uma cotovelada bem no estômago, o que o fez cair. Luca estranhou, mas pegou a jovem pela mão e levou-a até sua moto, que estava estacionada a poucos passos dali. Carolinne subiu na garupa e eles foram embora.

Quando pararam, algumas quadras à frente, ela desceu e encarou seu salvador.

- Muito obrigada.

- Que isso; não foi nada. Mas... Será que posso repetir a pergunta que meu amigo lhe fez lá no bar?

- Humm? Ah; o que estou fazendo sozinha? Bem; procuro uma amiga.

- Posso convidá-la para um cappuccino? Isso não é um encontro, prometo!

Ela estava mesmo cansada de andar um dia inteiro e uma pausa não faria mal nenhum; já era noite e iria para pousada dormir quando se desfizesse daquele garoto que, apesar de aparentar ser muito novo, tinha os olhos mais lindos que ela havia visto. Se pareciam com os de alguém que ela tanto amava.

Carolinne sorriu e eles entraram numa pequena cafeteria ali perto; sentaram-se numa mesinha nos fundos.

- Posso te ajudar a achar sua amiga; conheço muita gente na cidade.

- Olha, garoto; vou ser sincera com você. Se acha que, com esse papo educado e esse charme todo vai me convencer de ficar junto com você no final da noite, pode esquecer; eu sou gay!

- Uau! Está tentando me assustar ou você fala isso para qualquer cara que se aproxime de você? A propósito, meu nome é Luca, caso você queira saber.

- Quer me deixar sem graça, não é?

- Por que?

- Fui uma estúpida e mesmo assim você não perde a classe.

- Minha irmã me ensinou que um homem nunca deve perder a classe, mesmo quando está por baixo.

- Me desculpe... Estou tão chateada com tantas coisas que estão me acontecendo que acabo descontando nos outros. Muito prazer; pode me chamar de Carol.

Luca apertou a mão da jovem e olhou fundo naqueles olhos verdes; como eram lindos.

Eles fizeram seus pedidos e o garçom trouxe um cappuccino com creme para cada um. Carolinne tomou uma boa golada e recostou-se na cadeira.

- Ah; que delícia! Estou andando o dia todo e não comi nada...

- Tem alguma idéia de onde sua amiga pode estar?

- Não... Como fui estúpida...

- Que é isso; não se martirize assim. Uma garota tão linda não devia ser deixada nem por um segundo; eu não deixaria...

- Você disso que isso não era um encontro, lembra?

- Desculpe; é que você é realmente muita linda. Se importa se eu pedir uma garrafa de vinho?

- Não sei se seria uma boa idéia...

- Não vai fazer essa desfeita com seu salvador, vai?

- Vai jogar isso na minha cara eternamente?

- Só se não aceitar beber comigo!

Carolinne sorriu e aceitou o convite. Incrível o poder de persuasão que o jovem exercia sobre ela.

Duas horas e duas garrafas de vinho mais tarde, Carolinne já sorria totalmente descontraída e Luca estava sentado ao seu lado segurando sua mão enquanto contava algumas estórias engraçadas para ela.

-... E ele disse que não podia ter sido ele porque ele estava na cama com outro; outro, sacou?

- Haahah! Mon Dieu, não acredito que isso é verdade?!

- Sério! Ele mesmo me contou.

Conversavam como bons amigos, mas quando Luca foi pegar sua taça, derramou o vinho na mesa, sujando a mão de Carolinne.

- Me desculpe...

- Não; tudo bem...

- Deixa eu limpar isso...

Enquanto segurava a mão de Carolinne no ar, Luca procurou um guardanapo, mas não havia nenhum na mesa e o garçom estava cochilando no balcão. Então, lançando um olhar muito sexy para a jovem, beijou sua mão e lambeu os dedos que estavam sujos de vinho.

- Agora está limpo.

Carolinne sentiu um arrepio na espinha e um desejo enorme percorrendo seu corpo. Sentiu Luca chegando mais perto dela e tentou se afastar um pouco. Mas seu corpo queria aquilo, sentia a falta do carinho, do toque, do beijo. Se entregou, então, àquele rapaz à sua frente recebendo um beijo suave e quente. Ele fazia movimentos delicados com a boca e suas mãos seguravam o rosto dela ternamente. Ela fechou os olhos e chorou.

Luca não pode deixar de notar as lágrimas que molhavam o rosto de Carolinne.

- Desculpa... Fiz algo errado?

- Não... Me desculpe, mas sinto tanto falta dela, Luca...

De repente Carolinne parou de chorar e encarou o jovem à sua frente. Olhou-o nos olhos, observou sua expressão, seus traços, e o choque que teve a fez levar as mãos até os lábios, como se tivesse cometido algum pecado.

- Ah, mon Dieu... Seu nome é Luca... D'Angello Baccio; não é?

Luca olhou para ela confuso, mas em poucos segundos compreendeu. Levou as mãos à sua cabeça com uma expressão horrorizada.

- Madona mia; ela vai me matar!

Luca chegou em casa correndo e puxando Carolinne pelo braço. Não podia acreditar que havia beijado a namorada de sua irmã! Subiu as escadas quase caindo e sacudindo a jovem de um lado para o outros e parou na porta do quarto de Andréa. Bateu na porta com força e não disfarçava sua alegria. Carolinne também não via a hora de ter Andréa novamente em seus braços.

- Sou eu Deca. Posso entrar?

Não ouve resposta. Ele bateu à porta novamente; nada. Ficou preocupado e resolveu entrar. A cama estava arrumada e os armários, vazios. Carolinne entrou em desespero. "O que ela fez?", resmungou o rapaz já pensando no pior. Carolinne apontou, então, um pedaço de papel dobrado em cima da cama. Luca pegou-o e abriu; era a letra de Andréa.

"Luca, sei que parece covardia minha e que nunca agi assim em toda a minha vida; mas as coisas estão um pouco diferentes agora. Não vou negar que esses dias estão sendo terríveis para mim. A vida sem Carolinne ao meu lado tem sido um tédio, um grande suplício. Sei que você deve estar achando isso tudo um exagero, eu mesma não entendo direito porque estou fazendo isso, mas acho que é mais ou menos o que acontece quando a gente está louco com uma pessoa e a perde de uma hora para outra. Tenho que tentar elevar meu ego. Ela não quis me procurar, paciência; vou viver minha vida de novo, sair dessa casca em que me meti depois que ela me deixou. Chega; você mesmo disse isso e agora eu entendi o que tenho que fazer.

Por isso resolvi dar uma volta por aí, conhecer outras pessoas e, quem sabe, me envolver de novo, mas dessa vez sem me entregar como fiz com ela.

Não se preocupe comigo, meu bambino; sei me cuidar. Eu é que fico com um peso muito grande na consciência de te deixar para trás, mas já está mais que na hora de você tomar juízo. Nossos pais chegam amanhã, por isso resolvi sair hoje, antes que você chegasse. Sei que iria tentar me impedir e sabe-se lá quais desculpas usaria para me segurar; eu acabaria ficando.

É a coisa certa a fazer, confie em mim.

Te amo muito! Depois que eu refrescar a cabeça, eu volto para você me dar uns puxões de orelha como aqueles que eu sempre te dei!

Manda um beijo para os velhos e se cuida; cuidado com suas companhias e não se entregue a qualquer garota, ouviu?

Beijos da sua irmã... Andréa D. Baccio"

Luca leu e releu o bilhete várias vezes. Não acreditava naquilo que estava escrito; justo agora ela resolve fazer isso? Agora que ele havia encontrado a solução para todos os problemas dela? Tudo bem que ele havia dado um super beijo na solução, mas essa parte ele poderia contar mais tarde!

- Ela está bastante magoada comigo; acho que a perdi para sempre...

- Não fala isso; vamos dar um jeito. Só preciso descobrir para onde ela foi; aí vamos atrás dela.

- E como você vamos fazer isso?

- Tenho meus contatos. Vamos descansar um pouco e amanhã vou dar uns telefonemas.

Carolinne percebeu que Luca não a olhava nos olhos e parecia muito sem graça, provavelmente por causa do que havia acontecido minutos atrás.

- Luca; não foi culpa sua o que aconteceu na cafeteria; como você podia saber? Eu é que pisei na bola feio; e justo com quem, mon Dieu!

- Não esquenta, Carol; isso fica entre nós, por enquanto. Depois a gente resolve como conta para ela. Não foi culpa sua, também; você estava carente e... Ah! Deixa esse papo chato para lá! Vamos dormir um pouco, ok? Você fica aqui no quarto dela e amanhã te chamo.

Carolinne concordou e sentou-se desolada na cama. Poucos minutos mais cedo e teria encontrado sua amada em sua própria casa. As lágrimas voltaram a nublar seus olhos, mas ela esperou Luca sair do quarto para se entregar a elas. Chorou o resto da noite.

Carolinne não conseguiu dormir e quando ouviu vozes vindo do hall de entrada da casa, se levantou, arrumou suas roupas na mochila e desceu para se encontrar com Luca; eram ainda seis horas da manhã.

Luca estava sentado no sofá conversando com um garoto baixo, que carregava uma bolsa preta embaixo do braço; aparentava ser bem mais jovem que ambos, usava os óculos na ponta do nariz e os cabelos atrapalhados, mas tinha um ar muito sério.

- Carolinne, quero que conheça Frederick Hans, o mago da informática; mas pode chamar ele só de Hans para ficar mais fácil. Ele é meu amigo de anos e vai nos ajudar a descobrir onde Andréa foi.

- Como?

O garoto de aparência juvenil abriu a bolsa que carregava embaixo do braço e tirou um pequeno computador. Arrumando os óculos, que caíam a cada movimento da cabeça, ele ligou o aparelho e começou a falar.

- Bom, senhorita Carolinne; com esse computador e uma linha telefônica posso acessar o banco de dados de aeroportos, estações de trem, rodoviárias, o que quiser. Fica fácil achar sua amiga assim.

Luca sorriu para Carolinne que parecia não acreditar que aquilo fosse possível. A jovem ficou olhando o franzino garoto ligar seu aparelho no telefone do quarto e digitar como um louco endereços e números. Parecia mais um daqueles hackers prontos a começar a terceira guerra mundial!

Os três ficaram ali durante mais de uma hora até que Hans bateu palmas par si mesmo, elogiando seu feito.

- Conseguiu?

- Claro; sempre consigo.

- Para onde ela foi? - perguntou Luca que parecia tão aflito quanto Carolinne.

- Para Berlin.

- Mas... O que ela foi fazer em Berlin? - perguntou Carolinne olhando para Luca e esperando uma explicação.

- Boa pergunta!

- Então, é para Berlin que vamos? - falou o jovem hacker.

Carolinne arregalou os dois olhos e, novamente, encarou Luca. Puxando-o para um canto.

- Que estória é essa de "nós"?

- Bom, é que contei que íamos procurar minha irmã e ele falou que ajudava se pudesse ir junto. Eu topei, não podia dispensar a ajuda dele... E para nossa sorte, ele fala alemão; saímos lucrando, viu!?

- Agora entendi o que sua irmã quis dizer com tomar juízo! Como vamos levar esse pirralho com a gente?

- Esse pirralho é um gênio e pode descobrir qualquer coisa usando um telefone e um computador... E ele não é pirralho; tem a mesma idade que eu!

Carolinne viu que Luca ficou um pouco ofendido com o que ela acabara de dizer, mas já era tarde demais para consertar. Ambos voltaram para perto do garoto e seu computador e tentaram organizar um plano de viagem.

- Ok; vamos para Berlin... Não sei quanto a vocês dois, mas eu não tenho grana para ficar rodando por aí, não! Para falar a verdade, não sei nem se tenho para essa viagem!

Carolinne cruzou os braços esperando que Luca lhe desse uma solução. Ele coçou o queixo com uma das mãos e olhou para Hans como se perguntasse o que fariam. O garoto sorriu, parecendo ter adivinhado o que seu amigo estava pensando.

- Posso dar um jeito nisso também...

Começou novamente a bater nas teclas do computador e várias telas iam se abrindo e fechando; Carolinne chegou a ficar zonza olhando para aquilo. Alguns minutos depois ele parou e sorriu.

- O que você fez? - perguntou a jovem, ansiosa.

- Temos três passagens esperando por nós no aeroporto.

- Hans! Isso é roubo, cara!

- Nada... Tirei da conta de algum milionário que nem vai notar. Acho que hoje é seu dia de sorte, senhorita Carolinne. - falou o garoto sorrindo para ela.

Uma horas depois os três estavam no aeroporto retirando suas passagens para embarcar para Berlin.

- Espero que dê certo; não quero ser presa por pirataria virtual e roubo de passagens!

- Seria uma boa; Andréa viria correndo se soubesse que estou com problemas!

Carolinne censurou Luca com um olhar fuzilante e continuou a andar na fila. Hans estava logo atrás com seu andar desleixado e os óculos a lhe escorregarem pelo nariz.

Foram minutos que pareceram uma eternidade. Tiveram que preencher alguns dados e mostrar seus passaportes; tudo correu bem. Em seguida pegaram as passagens e subiram correndo para o salão de embarque; estavam em cima da hora.

- Aí vamos nós, Berlin! - pensou a jovem ao entrar no avião - O que será que Andréa está fazendo agora?

O dia estava claro e o sol brilhava num céu tremendamente azul. Em poucas horas estariam na Alemanha.

Andréa abriu os olhos; sua cabeça doía como a muito tempo não acontecia. Estava um pouco escuro ainda, apesar de já serem dez horas da manhã. Nuvens pesadas de chuva pairavam sobre a cidade desde o dia anterior, quando ela chegou a Berlin. Notou que estava nua e achou estranho. Olhou à sua volta e viu que uma jovem dormia ao seu lado. Tentou se lembrar o que havia feito na noite anterior. Pequenos flashes de memória voltavam à sua cabeça, mas ela não se esforçava muito porque tudo parecia que ia desabar por causa da dor que estava sentindo. Com muito custo lembrou-se que no dia anterior ficou andando pela cidade meio sem rumo. À noite foi parar numa dessas boates undergrounds e, vagamente, lembra-se de ter conhecido alguém.

- Putz; dormi com ela...?

Não conseguia se lembrar do que havia feito, mas tudo indicava que tinha dormido com a jovem ao seu lado. Ambas estavam nuas e Andréa pode ver o corpo esguio da jovem. Era perfeito e lhe lembrava alguém...

- Acho que bebi demais ontem...

A jovem ao seu lado se mexeu e abriu os olhos lentamente. Andréa não sabia o que fazer; pensou em catar sua roupa e dar o fora dali, mas não seria justo. Não se lembrava nem mesmo do nome daquela garota!

- Bom dia. - falou suavemente para a jovem que a encarava.

- Posso fazer uma pergunta? - Andréa consentiu balançando a cabeça. - Quem é Carolinne?

Por essa Andréa não esperava.

- Como?

- Quem é Carolinne? Você chamou o nome dela a noite inteira enquanto dormia.

- Não... Não é ninguém.

- Não precisa mentir para mim. Acho que é alguém muito especial porque você veio para cá comigo e não rolou nada.

- Mas nós estamos...

- Nuas? Eu sei; mas não aconteceu nada. Estávamos até indo pelo caminho certo, mas quando você me chamou por esse nome e eu te perguntei quem era essa tal de Carolinne, você deitou no meu colo e começou a chorar sem parar. Quando adormeceu, ajeitei você na cama e apaguei do seu lado. Teria ido embora, mas estava muito cansada também. Quase aconteceu alguma coisa, mas ficou SÓ no quase mesmo!

- Me desculpe... Qual é mesmo o seu nome? Não me lembro de muita coisa que aconteceu ontem.

- Martina, mas pode me chamar só de Tina. O que você acha de se vestir e me contar o que houve.

- Não acho que minha vida pessoal lhe diz respeito.

- Também acho que não, Andréa, mas mereço uma explicação. Foi você quem me trouxe para esse hotel, tirou minha roupa e, na hora "H" saiu fora. Eu podia ter te roubado, te violentado. No estado que você estava eu poderia ter feito qualquer coisa, mas não fiz. Mereço uma explicação, não acha?

Andréa olhou aquela jovem nos olhos e viu que ela estava sendo sincera e, acima de tudo, estava certa. Ela poderia realmente ter feito qualquer coisa com ela. Como havia sido tão descuidada a ponto de pegar uma estranha numa boate e levado para um hotel?

- Tudo bem; acho que você merece uma explicação. Mas podemos sair daqui? Preciso comer alguma coisa. E que dor de cabeça maldita é essa?

- Você não se lembra de nada, mesmo! Tomou um porre fenomenal e, se não fosse tão linda e persuasiva, acho que não teria vindo com você! Vista-se; vou esperá-la no hall do hotel.

A jovem levantou-se e Andréa pôde ver seu corpo por inteiro. Estava completamente nua e sua pele parecia muito macia. Colocou as mãos na cabeça e apertou para ver se a dor parava; não adiantou. A única solução seria tomar um banho e comer alguma coisa para ver se melhorava.

Meia hora depois Andréa encontrou-se com a jovem no hall do hotel. Estava sentada em um sofá e vestia roupas escuras, provavelmente, as mesmas que usava na boate na noite anterior. Estava folheando uma revista quando Andréa se aproximou dela e sorriu.

- Podemos tomar um cappuc... Um café?

- Vamos; conheço uma cafeteria muito agradável.

Andréa aceitou o convite, apesar de não estar com muita vontade de pisar numa cafeteria de novo, e ambas saíram pela rua. Minutos de silêncio depois, chegaram a um lugar chamado "Bodega".

- Que raio de nome é esse?

- O lugar pertence a uma brasileira; perguntei uma vez o que o nome queria dizer, mas não me lembro da explicação que ela me deu. Mas pode confiar que é muito bom.

As duas entraram e sentaram-se numa mesa nos fundos. Pediram dois cafés expresso e conversaram durante muito tempo.

Andréa acabou contando tudo o que havia acontecido até ali; contou de Carolinne, do Café Paris, da viagem maravilhosa que havia feito com sua amante, de Bernard, tudo. Não sabia porque estava se abrindo assim para aquela jovem, mas esteve a ponto de ter muito mais intimidade com ela; aquilo não era nada.

- Puxa, que estória! Se é tudo verdade poderia escrever um livro.

- É tudo verdade, mas não gostaria de abrir minha vida para mais ninguém.

- Você deve ser do tipo que não conversa muito com as pessoas, acertei?

- Já fui pior; estou aqui contando tudo para uma estranha com quem eu quase transei e nem me lembrava o nome! Convenhamos; é um progresso!

- E como! Você vai superar isso. Mas me diga uma coisa; por que não foi atrás dela?

- Achei que ela queria dar um tempo...

- Me perdoe, Andréa, mas acho que você fez errado. Se a ama desse jeito que você contou, não devia ter deixado ela escapar assim, tão facilmente.

- Mas foi ela que quis ir embora!

- Já entendi tudo. Ela achou que acabaria culpando você pela morte do tal Bertrand...

- É Bernard.

- Ok, pela morte de Bernard; por isso voltou para a terra dela, para esfriar a cabeça e não deixar que um sentimento tão mesquinho tomasse conta da mente dela. É tudo tão fácil; o ser humano é que tem a compulsão de complicar!

- Você faz psicologia, Martina?

- Me formei ano passado. Entendo um pouco de comportamento humano.

- Entende, é? Pois então, me diga: o que Carolinne faria depois desse tempo todo?

- O que ela faria é tão óbvio que você pode se impressionar e se sentir horrível por ter sido tão precipitada vindo para cá.

- Ok; me impressione, então!

- Bom: não eu, nem você, mas pelo que me contou de Carolinne posso afirmar que ela, sim, deve estar te procurando nesse momento.

- O que; aqui?

- Aqui ou em qualquer outro lugar que você pudesse estar. Ela te ama, Andréa, pelo menos é o que percebi em tudo que você me contou; não acho que ela vá se contentar em perdê-la assim, por conta de um mal entendido.

Andréa deu uma golada em seu café. "Será?", pensou. Olhou no relógio da cafeteria; onze horas.

- Minhas costas estão me matando! De quem foi a idéia estúpida de dormir nesse banco? - indagou Luca, enquanto massageava sua nuca.

- Eu falei que podia ter conseguido vagas em um hotel para nós três.

- Isso é roubo, Hans! - esbravejou Carolinne - Não podemos sair gastando o dinheiro dos outros!

- Chega de briga, vocês dois! São dez e meia da manhã. Vamos comprar alguma coisa para comer e...

- Ei, espera aí. Se ela tiver usado o cartão de crédito posso saber em que hotel está.

Luca e Carolinne olharam boquiabertos para o jovem hacker.

- O que foi? Eu posso sim! Só preciso ligar meu computador num telefone.

Olharam em volta; o aeroporto não estava muito cheio. Logo avistaram um telefone público e correram para ele.

- Tem jeito mesmo, Hans? - perguntou Carolinne, incrédula.

- Devia confiar mais em mim, senhorita Car...

- Pare de me chamar de senhorita, rapaz! Sou pouco mais velha que você! Então, vamos ver se você é bom mesmo.

Hans entendeu aquilo como um desafio. Tirou alguns fios da bolsa onde carregava o leptop e ligou no telefone. Demorou alguns minutos, mas ali estava.

- Achei! Ela está no Hilton. Eu sei onde fica; meu pai sempre fica nele quando vem para cá.

- Vamos para lá, então!

Carolinne não estava acreditando que poderia, enfim, encontrar sua querida Andréa. Seus olhos se encheram d'água e ela saiu correndo pelo aeroporto. Luca e Hans saíram correndo em seu encalço. Os três subiram num táxi e Hans pediu ao motorista que fosse para o tal hotel.

Chegaram lá depois de vinte minutos. Tiveram um certo problema para pagar o motorista, mas Carolinne deu seu relógio afirmando que era um rolex e que valia muito mais do que aquela corrida. O taxista acabou aceitando, talvez para se livrar daqueles três adolescentes chatos.

- Você deu um rolex para o motorista?

- Ficou louco, Luca? Quem disse que tenho cacife para comprar um rolex? Aquilo era do Paraguai, uma falsificação muito mal feita; não sei como aquele cara engoliu essa! Mas vamos logo; estou ansiosa!

Entraram no hotel e, enquanto os dois esperavam no hall, Hans se encarregou de conversar com a recepcionista. Minutos depois voltou com a cara meio amarrada. Ele parecia estar querendo achar Andréa tanto quanto os outros dois.

- O que foi?

- Saco, ela saiu.

- Você descobriu para onde?

- Ei, sou bom com máquinas; esse cara aí é que é bom de falar com as pessoas! Mas descobri que ela saiu a meia hora junto com uma amiga.

- Amiga?

Carolinne olhou para Luca e segurou para não chorar.

- Pode parar com isso, Carol! Fica pensando só no pior, credo! Vamos dar uma volta aqui perto e ver se a encontramos. - e para animar a jovem ele completou, abraçando-a amavelmente - Deve ser só alguém que ela conheceu por aí.

Carolinne concordou com Luca, querendo acreditar no que ele lhe dizia.

- Tem meia hora que ela saiu. Bem... São dez para as onze. E ela saiu à pé... Humm... Se foi tomar café deve estar por perto, certo?

- Pode ser. - Carolinne olhava em todas as direções para tentar encontrar Andréa.

- Tem uma cafeteria aqui perto que é de uma brasileira e é muito boa. - Hans lembrou-se, batendo com a mão na testa - Meu pai gostava de me levar lá para tomar um cappuccino shake que é uma delícia; fica ali na frente.

Saíram apressados do hotel e começaram a caminhar pela rua. Carolinne nunca havia estado na Alemanha, mas achou tudo um pouco sem graça. As pessoas pareciam tão frias, insensíveis. Tudo tinha um tom meio cinza, talvez fosse pelo tempo, que estava nublado, mas não tinham a mesma alegria que ela costumava ver no Brasil e mesmo em Paris. E as caras; todas iguais!

Após cinco minutos de caminhada, ou melhor, correria, eles chegaram às portas de uma cafeteria pequena, mas com aparência aconchegante, chamada Bodega.

- Será que ela está aí? - perguntou Carolinne um pouco incrédula - Tem tantas cafeterias aqui quanto em Paris! Ela pode estar em qualquer uma e...

- Carol... - Luca segurou-a pelos braços - Você ama minha irmã daquele jeito que ela te ama?

- Mais que isso, até. Por que?

- Acredite, então; tenha um pouco mais de fé. Às vezes a fé vale mais que a razão.

Carolinne sorriu para o jovem. Uma energia nova surgiu dentro dela; provavelmente porque ela passou a acreditar que era possível encontrar sua amada ali dentro. Suspirou fundo e abriu a porta da cafeteria.

Não avistou Andréa, apenas alguns casais e uma jovem sentada sozinha numa mesa.

- Sua fé me passou a perna, Luca. - disse a jovem desanimada.

Luca já ia dizer que sentia muito quando viu Andréa saindo do banheiro. Quase não se conteve e mais parecia estar tendo uma convulsão quando, enfim, fez com que Carolinne visse o motivo da sua euforia.

- Andréa... - falou baixo a jovem.

Andréa parecia sentir a presença de alguém e, olhando para os lados, também avistou Carolinne. Não pode acreditar no que seus olhos lhe mostravam e ficou imóvel por alguns segundos até que Martina percebeu que ela olhava para a jovem que havia entrado na cafeteria.

- Vai ficar aí parada...? De novo? - falou Martina enquanto acabava de tomar seu expresso.

Andréa olhou para ela, depois para sua amada. Que cena mais estranha; Carolinne junto com Luca e... Hans? O que eles estavam fazendo ali? Sacudiu a cabeça tentando deixar seu lado racional de lado e caminhou em direção a Carolinne. Parecia não haver mais ninguém por perto quando elas se encontraram, frente a frente. Andréa estava um pouco mais magra, mas ainda assim era a mulher mais linda que Carolinne já tinha visto! E com tanta coisa na cabeça, tantas desculpas a serem pedidas, a única coisa que conseguiram falar foi...

- Oi... - falaram juntas.

Seus rostos ficaram vermelhos e aquilo parecia ser um primeiro encontro, como se elas não se conhecessem tão bem. Ficaram ali alguns segundos se olhando, mal acreditando que estavam uma diante da outra. Andréa acariciou o rosto da jovem com uma das mãos e tomou a iniciativa de conversar.

- Senti sua falta...

Carolinne sorriu e a beijou com tanta força e paixão, como se estivesse distante dela há anos. A verdade é que aqueles meses pareceram anos para ela.

- EU senti sua falta! - falou a jovem depois de beijá-la e abraçá-la - Não sei como pude deixar você...

Andréa selou os lábios de Carolinne com a mão e sorriu, segurando seu queixo em seguida. A jovem não conseguiu conter as lágrimas.

- Shhh; agora eu estou aqui. Não vou deixar você sair de perto de mim nunca mais.

Elas se abraçaram por algum tempo. Luca se aproximou, seguido de Hans, e parou ao lado das duas sorrindo.

- Até que enfim conseguimos encontrá-la!

- O que vocês estão fazendo aqui?

- É uma longa história e é melhor deixar para a Carol te contar mais tarde!

Andréa abraçou Luca e cumprimentou Hans. Em seguida lembrou-se que Martina devia estar tentando entender aquela confusão toda; voltou-se para ela abraçando Carolinne pelos ombros.

- Martina; essa é Carolinne. Carol; essa é minha amiga Martina

- Até que enfim conheci a tão famosa senhorita Le Blanc! Muito prazer.

- Igualmente! - Carolinne estava extasiada de felicidade e nem notou na beleza da jovem à sua frente.

Andréa juntou mais uma mesa e todos se sentaram para tomar comer alguma coisa. Conversaram de coisas que não tinham nada à ver com as duas; elas preferiram deixar para que conversassem mais intimamente mais tarde. Tomaram café e comeram uns sanduíches estranhos, porém, gostosos. Quando já passava das duas da tarde, Andréa sugeriu que voltassem para o hotel.

- Estou com uma dor de cabeça horrível, meu amor; queria descansar um pouco.

- Claro, mas... Nós três não temos dinheiro?

- Não tem problema; eu pago. Mas como é que vocês chegaram aqui sem dinheiro?

Carolinne olhou para Luca, que olhou para Hans, que fingiu que não era com ele.

- Acho que vou gostar de ouvir essa estória toda beeem detalhada!

Levantaram e saíram da cafeteria. Martina despediu-se de todos e estava indo embora, quando Andréa lhe chamou; chegou perto dela e falou baixo, aproveitando que Carolinne conversava com Hans e Luca.

- Obrigada por conversar comigo e... Me desculpe por ontem à noite.

- Tudo bem; só não conte para ela porque talvez isso possa magoá-la.

- Não sei se vou poder esconder isso dela, Tina; ela é a mulher da minha vida e não quero ter segredos com ela.

- Você é quem sabe. Foi um prazer te conhecer... Apesar de não ter sido como eu queria!

- O prazer foi meu!

Elas sorriram e Andréa abraçou Martina antes dela ir embora.

- Se precisar de alguma coisa é só me ligar, ok? - Andréa entregou um cartão com seu nome e telefone e o endereço da galeria em Paris.

Martina sorriu e apertou a mão de sua nova amiga; depois desceu a rua e sumiu, virando numa esquina.

Mais tarde no hotel...

- Vocês o quê?

- A idéia não foi minha. Esse amigo maluco do seu irmão é quem resolveu tudo. Mas está tudo bem, agora.

- Vocês são loucos, isso sim! Eu o deixo sozinho por um dia e olha o que faz!

- Não briga com ele, Andy; ele estava tão angustiado com tudo que estava acontecendo que...

- O que exatamente estava acontecendo?

Carolinne engoliu um seco; esqueceu que ainda não tinha contado o incidente no café, em Milão. Contar que havia beijado Luca não era melhor notícia para se dar num reencontro. Mas não poderia esconder nada daquela mulher maravilhosa à sua frente, a mulher que ela amava; então contou cada detalhe, desde sua saída do Brasil até sua chegada em Berlin. Andréa escutou tudo sem interrompê-la e no final, tomou um bom gole de vinho. A estória não havia agradado muito, isso Carolinne pode notar, mas Andréa não parecia estar a ponto de ter um ataque de nervos.

- Bom; se fosse qualquer outra pessoa tudo bem... - tomou o resto do vinho da taça e limpou uma gota que escorreu pelo canto da boca com a mão - Mas com o MEU IRMÃO!!

- Calma, Andy; ele não sabia, nem eu! E eu estava desolada, carente; se alguém tem culpa nisso tudo, esse alguém sou eu.

Andréa olhou Carolinne ali sentada na cama com uma cara tão triste que a fez esquecer da gravidade do que havia acontecido.

- Ai, ai... Tudo bem, Carol. Eu não devia ter desistido de você assim tão fácil...

- Você não desistiu... Só estava magoada.

Andréa aproveitou a deixa e contou o que quase aconteceu com ela e Martina. Carolinne ficou um pouco chocada, a princípio, mas depois viu que sua amada a amava tanto que havia sido incapaz de tocar naquela jovem.

- Acho que estamos quites. - falou Carolinne, sorrindo - Chega de tentar achar de quem é a culpa; vamos viver. Depois disso tudo só quero estar e ficar com você, para sempre.

- Eu te amo, Carol.

- Eu te amo, Andréa.

As duas se abraçaram e se beijaram. O que sentiam naquele minuto era uma necessidade louca do corpo uma da outra. Andréa deixou que suas mãos sentissem toda a delicadeza da pela de Carolinne e percorreu todo aquele corpo perfeito sem pressa nenhuma. Deitou-a na cama delicadamente e colocou seu corpo sobre o dela. Beijava cada pedaço daquele corpo jovem e sentiu cada tremor de prazer de sua amada.

Carolinne estava extasiada com todo aquele amor e carinho que Andréa a tocava; perdia completamente as forças com isso. Levou as mãos às costas de Andréa e sentiu os músculos tensos sob a pele.

- Por que está tão tensa, Andy?

- Estou com tanta saudade de você e tão louca de desejo pelo seu corpo que tenho medo de machucá-la...

- Relaxa; seu que você nunca faria isso.

Andréa sentiu seus músculos relaxarem um pouco quando as mãos da jovem tocaram seu quadril e o puxou para mais junto dela.

- Você quer...?

- Quero; como eu quero!

As duas se envolveram em beijos ardentes e suas mãos percorriam o corpo uma da outra sem descanso, nem trégua.

Elas fizeram amor a tarde inteira e nem ouviram quando Luca bateu à porta perguntando se queriam almoçar.

- Que horas são?

Andréa procurou seu relógio, mas o quarto estava irreconhecível. Não se poderia achar nada ali, tamanha era a bagunça. Viu, então no relógio do vídeo que eram sete horas da noite.

- São sete horas... Olha só para esse quarto.

Carolinne levantou de cima de Andréa e olhou o quarto à sua volta.

- Uau... O que nós fizemos aqui?

- Acho que isso que todos dizem que é "tirar o atraso"!

- Que horror! É; e você quase tirou o atraso ontem, né?!

- Pode parar por aí, mocinha, porque eu nem toquei naquela garota!

- Acho bom, mesmo.

- Olha só; está com ciúme!

- Não estou não!

- Está sim!

- Não estou; só não gosto de saber que minha namorada dormiu nua do lado de outra mulher, só isso!

Andréa a olhava deslumbrada. Seus olhos brilhavam e tinha um sorriso bobo nos lábios que a deixava ainda mais linda assim, logo depois de acordar.

- O que foi; por que está me olhando assim?

- Repete.

- O que? Que não gostei de saber que você estava nua na...

- Não; de que você me chamou? Repete.

- De minha namorada.

Andréa abraçou Carolinne e, quando percebeu que chorava, tentou disfarçar, em vão.

- Por que você insiste em esconder seus sentimentos de mim, meu amor?

- Me desculpe... - ela enxugou as lágrimas com uma das mãos - ... Mas tenho que me acostumar a dividir minhas emoções com outras pessoas; pelo menos com você...

- Não tente fazer isso como uma obrigação, Andy; eu te amo e por causa disso você pode se abrir comigo, confiar em mim. Sei que pisei na bola indo embora, mas eu voltei e nunca mais vou te deixar!

- Mesmo quando você foi embora eu ainda tinha a impressão que não havia acabado. Quando escrevi um bilhete e deixei para Luca encontrá-lo em meu quarto, coloquei tudo que gostaria de estar sentindo. A verdade é que não estava conseguindo suportar viver sem você... Mas a sensação de ter perdido o controle da minha vida estava me deixando mais arrasada e fato de ter perdido você me corroía a cada minuto. Achei que era meu fim...

- Não fala assim; você não é disso! O seu problema é o medo de se abrir com as pessoas; nem todo mundo que chega perto de você é para te sacanear. Veja como exemplo o Luigi, o Marc e a família dele; todos conseguiram enxergar através dessa sua carapaça. Você deve, sim, se proteger, mas isso não quer dizer se isolar de tudo e de todos.

- Agora não preciso de mais ninguém; tenho você do meu lado!

- Não deve pensar assim, também, Andy! Você é inteligente, bonita e sabe ser muito simpática quando quer; não prive as pessoas de uma companhia tão agradável como a sua!

- Você vai me deixar convencida...

- Não corro esse risco; eu te conheço!

- Você sabe que mudou a minha, não sabe?

- Sei que fiz alguma diferença e espero que as mudanças sejam para melhor. Como se sente?

Andréa sentou-se na cama e coçou o queixo. Nesse instante Luca bateu à porta novamente chamando ambas para comer alguma coisa no restaurante do hotel. Isso serviu para adiar um pouco mais o que queria falar com sua amada.

Ambas tomaram banho e se vestiram, indo em seguida se encontrar com Luca e Hans. Os dois as aguardava no hall de entrada.

- Não quero saber o que estava acontecendo lá em cima, só quero pedir, por favor, para irmos embora desse lugar esquisito.

- Como assim,esquisito? - perguntou Andréa intrigada.

- As pessoas são muito frias; quero minhas italianinhas!

- Sei... Parece que gosta de brasileiras também, não é mesmo, rapazinho?

Luca sentiu seu rosto em chamas e só não ficou mais sem graça porque Carolinne descontraiu a todos com seus protestos de fome.

Ao chegar ao restaurante e se acomodarem, Andréa estava um pouco mais séria, mas tentou disfarçar para não atrapalhar com o dia perfeito que estava tendo com sua amada. As sensações que a invadiam ela não sabia explicar, mas sabia que era algo muito bom, algo que fez despertar nela uma pessoa mais alegre, mais gentil, mais amiga. Foi aí que sentiu um nó na garganta. Estava totalmente apaixonada e tinha certeza que queria passar o resto de sua vida com Carolinne, mas teria que contar algumas coisas para ela, algumas coisas que estavam escondidas no seu passado do qual poucas pessoas sabiam da verdade.

Carolinne não pode deixar de notar quando reparou que o olhar de Andréa se perdeu em algum ponto ao longe.

- O que foi, Andy?

- Gostaria de conversar algumas coisas com você, mas não aqui. Quero voltar para Paris e terminar o que comecei; por nós duas e por Bernard. Mas gostaria que você viesse morar comigo; quero poder estar ao seu lado o máximo de tempo possível e poder cuidar de você.

- Nossa, isso até parece um pedido de casamento!

Os olhos de Andréa se iluminaram e ela nunca imaginou que se veria numa situação daquela. Sorriu para a jovem à sua frente e, se levantando da cadeira, ajoelhou-se aos pés daquela que ela tanto amava. Se tivesse pensado em fazer aquilo não teria sido tão natural.

- Quer se casar comigo, senhorita Le Blanc?

Os olhos de Carolinne brilharam ao ver aquela bela mulher à sua fazendo uma declaração tão linda e inesperada. Ficou sem palavras e até mesmo o ar lhe faltou. Lágrimas saíram de seus olhos sem que ela percebesse e Andréa teve medo de ter falado algo errado.

- Falei algo errado?!

- Não; é que... Eu não esperava isso...

- Pois pode esperar muito mais porque eu te amo, Carolinne, e isso não nem a metade do que vou fazer para provar meu amor por você!

Carolinne abraçou Andréa e a beijou no rosto. Como se sentiu feliz naquele momento. Não tinha palavras para descrever todas as emoções que passavam em sua cabeça e em seu coração. A única certeza absoluta que tinha era do amor que sentia por aquela que acabava de se declarar para ela.

- Amanhã bem cedo voltamos para Paris.

- E eu vou junto? - Luca parecia entusiasmado com tudo aquilo.

- Não senhor; seu aniversário é no mês que vem e eu prometi que você iria para lá, certo? Pois pode esperar mais alguns dias; assim tenho tempo para resolver algumas coisas que ficaram pendentes.

Luca não tentou discutir, pois sabia que era uma briga perdida.

Comeram, beberam e conversaram por muito tempo, até que o álcool começou a afetar as atitudes de Luca e Hans.

- Não devia ter deixado vocês dois beberem; olha só o estado de vocês!

E assim terminou aquela noite; Luca e Hans se revezaram no banheiro e, infelizmente, Andréa e Carolinne puderam ouvi-los de seu quarto durante um bom tempo, até que se entregaram ao sono e adormeceram abraçadas uma à outra.

Andréa e Carolinne chegaram em Paris às nove da noite. Depois de deixarem Luca e Hans em Milão, decidiram que iriam mesmo para o apartamento de Andréa. Carolinne ajeitou as poucas coisas que tinha levado para a viagem num espaço que Andréa arranjou em seu armário e ambas sentaram-se na sala para conversar. Filipe havia servido uma garrafa de vinho branco assim que se ajeitaram no sofá.

- Quero me casar com você de verdade.

- Como; na igreja?

- Por que não? Só porque somos gays não quer dizer que não somos filhas de Deus!

- Tem certeza que é isso que quer, Carol?

- Sim. Humm... Você parece não gostar muito da idéia...

- Não é isso; é que não sou muito apegada a igrejas, religião, essas coisas. Mas não vejo nada de mal em fazermos uma cerimônia simples, se você quiser.

- Eu adoraria, se não fosse te deixar chateada.

- Tudo bem. Vou providenciar isso. Mas quero deixar para fazer tudo isso quando Luca estiver aqui; gostaria que ele fosse meu padrinho.

- Tudo bem. Vou conversar com Anntoinne e Rogèr para ver se eles topam ser os meus. Rogèr estava um pouco bravo comigo quando cheguei aqui semana passada...

- Certo; você conversa com eles e mês que vem faremos tudo como combinamos.

Andréa pediu que Filipe trouxesse mais uma garrafa de vinho. As duas ficaram ali conversando até que foram interrompidas pela campainha.

Filipe abriu a porta e para surpresa das duas era Luigi.

- Senhorita Le Blanc! Quando voltou? Aliás; quando VOCÊ voltou, Andréa? Pensei que ia ficar pelo menos até o aniversário de Luca. Está tudo bem?

- Poderia estar melhor? - Andréa sorria enquanto olhava para Carolinne

Luigi olhou para as duas de mãos dadas no sofá e viu o sorriso que ambas esboçavam.

- Vejo que se entenderam, héin. Que bom; achei que Andréa ia voltar a ser aquela mulher carrancuda que era antes de te conhecer!

- Eu não era carrancuda!

- Era sim; não conversava com ninguém se não fosse assunto de trabalho. Agora você está muito melhor.

Andréa sorriu para seu amigo. Estava realmente diferente, não podia deixar de admitir; se sentia assim. Antes as coisas eram mais sérias, não se dava bem com ninguém e fazia questão de não manter muito contato com outras pessoas. Seu ciclo de amizades era bem reduzido, para não falar inexistente. Apenas o fiel mordomo Filipe e seu amigo de anos, Luigi, ainda ficaram ao seu lado enquanto os outros se afastaram do rosto frio e da aparência severa que ela levava para onde ia. Estava mais alegre, mais solta, mais feliz. E tudo isso tinha um nome; Carolinne.

Olhou, então, para sua jovem amante e beijou-lhe na testa.

- Temos uma novidade, Luigi. Eu e Carolinne decidimos nos casar.

- Uau! Calma, por que não me deu essa notícia devagar? Meus parabéns para vocês duas; fico muito feliz em ver que você encontrou alguém que gosta e se preocupa com você tanto quanto eu e Filipe!

- Eu também. Arranjaremos tudo para o mês que vem. Humm... Quer ser meu padrinho também? Vou chamar Luca, porque se não fizer isso ele vai ficar muito magoado, mas não vejo nada de mais em ter dois padrinhos. Você pode chamar aquela sua namorada, a Michelle; boa oportunidade para eu conhecer a futura senhora Trebiucoc.

- Mon Dieu; já está querendo me casar também?

Os três riram. Filipe já havia trazido mais uma taça para Luigi, mas ele recusou.

- Não quero atrapalhar vocês duas. Vim aqui só para ver se Filipe precisava de alguma coisa, mas estou feliz com a surpresa de vocês estarem juntas novamente. Fico mais tranqüilo sabendo que vai ter alguém para tomar conta dessa senhorita teimosa aí!

- Você está queimando meu filme, Luigi! Isso é imperdoável!

- Fique tranqüila, cara mia; as coisas estão exatamente como deveriam estar, com exceção de uma...

- Eu sei... E isso você pode resolver para mim. Quero tudo como planejamos no início. - Andréa virou-se para Carolinne e segurou suas mãos - Você se importa se voltarmos a mexerr no Café?

- De maneira alguma; acho que Bernard ficaria muito triste sabendo que tudo que deixamos o Café de lado. As modificações só vão fazer com que o lugar siga seu caminho, acompanhando o desenvolvimento da cidade. Às vezes mudanças são necessárias...

Luigi concordou com um sorriso. Levantou-se, então, e dirigiu-se à porta.

- Tem certeza que não quer ficar e tomar um vinho conosco?

- Tenho; vocês devem estar cansadas da viagem. Amanhã nos encontramos para um jantar; vou apresentar Michelle para você e Carolinne. Vocês vão gostar dela.

- Espero que sim, para o bem dela! - falou Andréa enquanto apertava a mão do amigo.

Os dois riram da brincadeira de Andréa e Luigi foi embora. Ela entrou e voltou para junto de sua amada.

- Parece que está tudo bem, então.

- É; mas você disse lá no hotel que queria me contar alguma coisa. O que era?

Andréa havia se esquecido de que falou para sua amada que queria conversar com ela. Mas seria muito difícil falar sobre aquele assunto assim, tão de repente.

- Não é nada sério; depois conversamos sobre isso. Quero dormir um pouco; estou meio cansada da viagem, mesmo. Quer mais vinho?

- Não; para mim está bom por hoje. Vamos nos deitar; quero você deitada aqui no peito e dormindo bem gostoso, um sono merecido.

Andréa abraçou Carolinne. Ambas se levantaram e foram para o quarto. Já passava da meia noite.

Oito e meia da manhã. Carolinne acordou com Andréa chorando ao seu lado. Ela estava dormindo ainda e parecia estar tendo mais um pesadelo com Luca. A jovem se levantou e acendeu o abajur, sentando-se em seguida ao lado de sua amada.

- Andy; acorda...

Andréa abriu os olhos e deparou-se com Carolinne à sua frente. O suor escorria de seu rosto e suas mão tremiam. Nunca havia focado daquele jeito.

- O que foi, meu amor? - Carolinne estava bastante preocupada porque nunca havia visto Andréa com aquela fisionomia; assustada - Sonhou com Luca de novo?

- É... O que eu falei?

- Não consegui entender; apenas ouvi o nome de Luca e vi que estava tendo outro pesadelo. Quer conversar a respeito?

- Não; não me lembro o que estava sonhando... E já estou melhor.

Andréa deitou-se novamente no peito de Carolinne e ficou lembrando o que havia sonhado. Mentiu ao dizer que não lembrava porque estava com dúvidas se contava ou não para sua amada o que estava acontecendo. Era uma situação delicada. Poucas pessoas sabiam dos segredos de Andréa e o conhecimento dos fatos poderia trazer risco à vida dos que sabiam. Pensou se não seria melhor deixar as coisas como estavam e não contar nada. Nesse instante o celular tocou; era Luigi.

- Ei; dormiu bem?

- Mais ou menos... O que há de novo?

- Nada de mais; chegaram umas telas de Indemburgo e gostaria que desse uma olhada nelas. Será que pode dar uma passada aqui?

- Sem problemas. Depois quero ir até o Café e ver como vão ficar as obras por lá.

- Ok; te espero aqui, então.

Andréa desligou o telefone e levantou devagar. Carolinne ainda parecia estar com sono.

- Fique aqui dormindo um pouco mais; vou resolver uma entrega lá na Gallery e quando acabar passo aqui para te pegar para irmos ao Café.

- Tem certeza que não quer que eu vá com você? Você está bem?

- Claro; pode ficar tranqüila. Te pego mais tarde.

Andréa beijou Carolinne e foi tomar um banho.

No chuveiro várias coisas se passavam na sua cabeça; o que havia acontecido anos atrás, o que haviam escondido há tanto tempo. Muitos iam sofrer quando a verdade fosse revelada, mas Andréa queria compartilhar isso com sua amada. Não poderia esconder dela um coisa tão importante, apesar de ter medo da reação dela.

Sacudiu a cabeça, afastando o mal pressentimento e acabou seu banho. Em pouco minutos estava elegantemente vestida e apressou-se em sair; temia que Carolinne acordasse e visse seu semblante preocupado. Por que se sentia assim justo agora, já que estava tão feliz e realizada? Carolinne era sua luz, sua inspiração e só tinha coisas boas a acrescentar à sua vida. Por que, então, se sentia tão angustiada? Essas perguntas que nunca passavam pela cabeça da inabalável Andréa Baccio estavam lhe deixando com medo.

Em Milão. Luca pilotava sua moto e conversa com Hans no celular, através de fones de ouvido.

- Que bom que resolvemos tudo entre sua irmã e a Carol...

- É, fico mais tranqüilo, também. O que vai fazer hoje?

- Preciso formatar minha máquina; acredita que me mandaram um vírus e eu caí direitinho? Sorte que eu tinha backup de tudo!

- É... Me liga quando acabar para tomarmos uma cerveja lá na cantina do Genaro, ok?

- Pode deixar.

Desligaram. Quando Luca foi retirar os fones do ouvido não viu que um carro avançou o sinal que ele atravessava e o carro atingiu a traseira da moto, fazendo com que o rapaz voasse alguns metros e batesse violentamente no chão. O carro não parou e Luca não tentou se mover; tinha medo de ter fraturado alguma coisa e sair da posição que estava não iria ajudar.

Nesse instante ouviu um carro brecando a poucos metros de onde estava e com cuidado virou a cabeça um pouco para o lado. Uma multidão já vinha se juntar à sua volta e um homem alto com um rabo de cavalo veio em sua direção.

- Ei, rapaz; você está bem?

- Não tenho certeza; meu braço dói um pouco

O homem olhou para o braço de Luca e viu a fratura expondo o osso do punho.

- Parece que não vai nada bem; tem uma fratura feia no braço. - ele olhou para os lados quando ouviu uma sirene; alguém havia chamado uma ambulância

Parece que já chamaram os paramédicos; você vai ficar bem, só não se mexa!

- Certo; obrigado senhor... Qual é o seu nome, senhor?

- Pietro.

- O meu é Luca Baccio. Muito obrigado, senhor Pietro

Pietro vi que se tratava do irmão de sua conhecida Andréa Baccio e pensou que ela não gostaria nada de saber que ele estava ali ajudando seu irmão.

- Não precisa agradecer, rapaz. A gente se vê por aí.

Os paramédicos imobilizaram a coluna de Luca e o colocaram numa maca. Ao levantarem a maca para colocar na ambulância, Pietro notou, através da roupa rasgada do jovem, uma pequena marca de nascença aparecer no lado direito da cintura. Seus olhos brilharam maquiavélicamente e ele olhou nos olhos do rapaz.

- Vou cuidar de sua moto; depois me encontro com você no hospital. - falou para o médico.

Luca parecia agradecido por aquela generosidade sem saber com quem falava; o maior inimigo de sua irmã.

Às dez e quarenta da manhã Carolinne entrou esbaforida na galeria de Andréa.

- Ué; o que está fazendo aqui? Falei que passaria lá depois para te... - Andréa notou que Carolinne parecia bastante preocupada - O que houve?

- Andréa... - Carolinne puxou Andréa para um canto onde havia uma cadeira e fez com ela se sentasse - Aconteceu um acidente com Luca; parece que bateram na moto dele e ele caiu.

Andréa sentiu sua cor se esvaindo e as pernas ficarem bambas.

- Co... Como ele está?

- Não sei direito; parece que está bem. Conversei com uma pessoa que o levou para o hospital e está lá com ele agora.

- Quem?

- Acho que você não vai gostar de saber...

Algumas horas mais tarde, Andréa e Carolinne chegavam ao hospital onde Luca fora enternado. Quando soube que Pietro estava acompanhando o rapaz não perdeu tempo e partiu imediatamente.

- Onde ele está? - Andréa perguntou na recepção; estava bastante irritada.

- Ele quem, senhora? - a atendente teve medo do olhar gélido que Andréa lhe lançou.

Carolinne viu que André estava para explodir; tomou a frente na conversa com a jovem e assustada atendente deu os dados de Luca. Poucos segundos depois já se dirigiam para o quarto 805, onde Luca estava. Pare desagrado de Andréa, Pietro mantinha uma conversa extremamente íntima como jovem rapaz. Ela ficou furiosa e não se conteve.

- Sai já daqui, seu desgraçado!

- Que é isso, Andréa; assim que trata a pessoa que trouxe seu... Irmão, não é mesmo?, para o hospital?

Carolinne viu que o sangue de Andréa parecia ferver dentro dela e viu em seus olhos uma pessoa que nunca imaginou que veria. Viu ódio e dor naquele olhar frio.

- Sai daqui antes que eu tome medidas mais drásticas!

- Certo; eu já estava de saída mesmo. Mas depois vamos nos encontrar porque quero conversar algumas coisas com você, cara mia. Passar bem.

Andréa acompanhou Pietro com o mesmo olhar gélido e virou-se para Luca.

- O que ele estava fazendo aqui?

- Calma! Qual o problema; ele é muito legal. Não sabia que haviam sido namorados; por que nunca me falou dele?

- Escuta aqui, rapaz; não quero você perto dele, está me entendendo?

- Porque? Ele me pareceu um cara legal. Me falou que deveria conhecer o filho dele que tem a minha idade.

Andréa sentiu náusea ao ouvir aquelas palavras. O que ele havia contado?

Caolinne notou que havia algo errado e procurou mudar um pouco o assunto.

- O que aconteceu, Luca?

- Um maluco avançou o sinal e bateu em mim; acredita que ele nem parou para prestar socorro? Filho da p...

- Olha a boca, rapaz! - Andréa já se acalmara um pouco, mas a preocupação estava em seus olhos.

Nesse instante uma enfermeira entrou no quarto. Andréa foi saber o que seria feito dali em diante.

- Fizemos uma tomografia e outros exames para ver se estava tudo bem com a cabeça e com o resto do corpo. O doutor Leopoldo Vicenzzo gostaria que ele ficasse aqui até amanhã para poder observar se há alguma mudança no quadro dele.

- Certo. Meus pais foram avisados?

- Sim; aquele cavalheiro que aqui estava tomou essa precaução. Devem chegar a qualquer minuto.

Mal acabou de falar e o pai de Andréa entrou como uma furacão no quarto.

- Cadê aquele desgraçado?

Ok. Dava para notar que Pietro não era muito querido pela família de Andréa, àexceção de Luca, é claro. O que Carolinne gostaria de saber é o por quê daquilo tudo.

- Calma, pai; ele já foi. Onde está a mama?

- Quase teve um colapso quando recebeu o telefonema daquele... daquele...

- Ok, ok; dá para alguém me explicar o que o senhor Pietro tem de tão terrível assim? Ele me pareceu...

- As aparências enganam, Luca; cansei de lhe dizer isso! - Andréa voltou a ficar nervosa.

Carolinne colocou a mão no braço de Andréa com a intenção de reconfortá-la, mas ela parecia fora de si e saiu furiosa do quarto.

- O que tem de tão terrível assim com aquele homem, mon Dieu?

- Também gostaria de saber, Carol... - Luca estava bastante intrigado.

O pai de Andréa saiu do quarto e foi procurar a filha. Há algum tempo haviam se desentendido, mas o fato é que se amavam mais que tudo no mundo. O senhor Antonni sabia que aquela situação estava ficando extremamente delicada, mas teriam que agir com calma, ou acabariam fazendo alguma besteira.

Do lado de fora do hospital, perto do estacionamento, Andréa fumava um cigarro encostada numa ambulância. Antonni se aproximou calmamente.

- O que faremos agora?

- Posso resolver isso para você, se realmente quiser.

- Papai! Não podemos agir assim! O senhor sempre condenou esse tipo de atitude e...

- Mas a segurança da minha família não estava em jogo.

- Mesmo assim... Deve haver outro meio.

- Essa é a jovem Le Blanc que você falou para sua mãe?

- Sim. Desculpe; nem apresentei vocês...

- Não importa. Você contou para ela?

- Não sei se devo...

- Você a ama?

- Mas é claro; mais que tudo nesse mundo!

- Pois devia contar, se ela é tão importante assim.

Andréa se sentia confusa pela primeira vez em muitos anos. Como contornaria aquela situação.

- Temo pela segurança dela, papai. O senhor sabe que Pietro é um mal caráter e não mediria esforços para ter seu...

Andréa olhou para seu pai e engoliu seco. Há muito anos não pensava na possibilidade de ter que contar a verdade para Luca; ele é quem mais sofreria com tudo aquilo.

Carolinne apareceu, então, na porta do hospital e caminhou em direção a Andréa e seu pai.

- Bom... Acredito que isso seja um assunto de família; acho que voltar apra Paris e...

- Nem pense nisso. Carol! Você faz parte da minha família, agora; não tem que ir embora.

- Mas... Acho que estou atrapalhando aqui...

Andréa viu que estava sendo injusta com sua amada; ela tentava apenas ser gentil e, provavelmente, estava tão perdida quanto Luca.

- Preciso conversar com você.

Carolinne assustou-se com o semblante sério de Andréa e preocupou-se mais ainda ao ver o pai dela saindo e olhando para as duas com uma desconsolada. A situação parecia séria.

- O que está havendo, Andy?

- É complicado de explicar... Não sei por onde começo...

- Que tal do começo?

- Certo. Não vou ficar com rodeios com você, Carol; você é a pessoa que eu mais amo no mundo e quero passar o resto da minha vida com você, eu sinto isso. Por isso é que tomei a decisão de te contar algumas coisas que aconteceram no meu passado; coisas que eu mesma quis esquecer e por isso poucos têm conhecimento. - ela deu um último trago no cigarro e jogou fora a guimba - A questão é que...

Andréa parecia constrangida com estava para contar e Carolinne viu medo em seus olhos. Não fazia idéia que sua poderosa Andréa Baccio pudesse ter medo de alguma coisa.

- Seja o que for, você não precisa ter medo de me contar. Eu te amo!

- Eu sei; é que... - ela olhou para o céu nublado e falou baixo algo que Carolinne não pode ouvir, ou provavelmente, julgou ouvir errado. Andréa olhou para ela, então, e Carolinne pode ver as lágrimas em seus olhos. Não, ela não havia entendido errado. Andréa repetiu o que havia dito olhando em seus olhos - Ele é meu filho, Carolinne; meu filho...

- Mon Dieu! Seu filho e de... Pietro!

Andréa continha as lágrimas o máximo que podia, mas a situação era delicada.

- Mas... Como? Ele sabe disso?

- Não sabia; parece que descobriu de alguma forma e isso pode nos causar muitos problemas.

- Por que você o odeia tanto, Andy?

Andréa não poderia fugir daquilo; teria que contar a história toda.

- Eu tinha quinze anos quando conheci Pietro. Ele era mais velho e parecia um ótimo rapaz. Quando estava passando férias nas casa de meus pais, ficamos juntos um tempo; um namoro infantil, para mim. Mas ele já era um homem e queria mais do que ser o namoradinho mais bonito da turma. Um dia ele forçou a barra e... - ele pigarreou - ... Estávamos sozinhos em casa e ele me... Ele...

- Ele te violentou?

- É. O resultado disso você já conhece.

- Luca...

- Meus pais acharam melhor viajarmos por uns tempos e quando voltamos Luca já havia nascido. Foi fácil fazer as pessoas acreditarem que ele era filho dos meus pais, há realmente alguma semelhança. Mas eu fiquei arrasada depois disso. Tomei um ódio por Pietro, algo que nunca imaginei que pudesse sentir por alguém. Por causa disso passei a desconfiar de todo mundo, não me dava bem com ninguém... Me tornei aquela pessoa fria que Luigi falou que era. Mas era muito mais fácil me afastar do que encarar esse tipo de pessoa de novo.

- Mas você não pode se afastar de todos assim! Tem pessoas que podem vir a gostar se você der espaço para que elas te conheçam, como eu conheci. Você é uma pessoa maravilhosa, Andy; eu sei porque você me mostrou isso. Deixe que as pessoas te conheçam.

- É difícil, meu amor... Mas estou aprendendo a me relacionar melhor com as pessoas.

- Quanto a esse Pietro... Desgraçado! Tomara que ele não apareça na minha frente tão cedo...

- Não sei o que fazer; não sei se devo contar para Luca...

- Se você não o fizer esse cara fará. É melhor que ele saiba a sua versão primeiro.

Andréa olhou nos olhos de sua amada. Ela parecia serena e tranqüila com a situação, mas conhecia Carolinne; no fundo ela estava se moendo de preocupação e tão angustiada quanto a própria Andréa.

- Vou contar hoje ainda; amanhã pode ser tarde.

- Se quiser, estarei com você.

- Preciso fazer isso sozinha, meu amor; me desculpe.

- Não se desculpe; eu entendo. Mas se precisar de mim é só chamar.

As duas se abraçaram e voltaram para dentro do hospital. Antonni conversava com dois homens enormes com ternos pretos na porta do quarto onde Luca estava instalado; pareciam seguranças. Andréa passou por eles e ambos acenaram com a cabeça, cumprimentando-a respeitosamente. Eles encararam, então, para Carolinne com a intenção barrá-la, mas Andréa lançou seu famoso olhar iceberg e eles recuaram entendendo que aquela jovem estava com ela.

Luca comia alguma coisa quando Andréa entrou no quarto. Ele olhou para ela com o mesmo olhar confuso de quando ela saiu do quarto.

- Agora vocês vão me explicar o que está acontecendo? Não sou mais criança, não!

Andréa sentou-se na cama ao lado dele e olhou para Carolinne. Ela entendeu que Andréa queria ficar à sós com o rapaz e saiu.

- Tenho algumas coisas para te contar, Luca; não vão te agradar muito e talvez você me odeie para o resto de sua vida, mas é a mais pura verdade.

Luca, agora, estava bastante assustado. Andréa tomou fôlego e contou tudo o que havia acontecido há dezoito anos entre ela e Pietro. Luca parecia não acreditar no que estava ouvindo; estava chocado.

- Então... Pietro é meu pai e você... Minha mãe?

- É.

- Por que não me contou isso antes? A minha vida inteira te chamei de irmã e você é minha mãe! Você não tinha o direito de fazer isso comigo!

- Na época eu era muito nova, Luca, e tinha medo de Pietro te levar embora. Não foi por maldade, foi questão de segurança para todos nós. Eu sabia que esse homem estava envolvido com gente muito perigosa, e ainda está. O que poderia acontecer se soubesse que tinha um filho e não deixaríamos que ele o levasse? Pense nisso, Luca. Não me julgue desse jeito. Não quero que você odeie esse crápula pelas coisas que ele me fez; ele é seu pai, mas não me odeie por tentar te proteger.

- Saia daqui...

- Não trate mal Antonni; ele sempre foi como um pai para você.

- Mas ele NÃO É meu pai! Saia daqui, AGORA!!

Luca estava transtornado com tudo o que ficara sabendo. Sua vida tomaria um novo rumo perante aquelas informações, mas sua cabeça estava muito cheia para pensar em tudo isso agora.

Andréa se levantou, contendo as lágrimas e saiu do quarto. Carolinne a aguardava na sala de espera e deparou-se com uma Andréa totalmente derrotada.

- Ele me odeia...

- Ele está transtornado com tudo que ficou sabendo, Andy; como se sentiria no lugar dele?

- Não sei, mas tenho medo do que possa fazer.

- Vocês deram uma boa educação para ele e tenho certeza que é um rapaz de princípios; ele vai entender. Dê tempo a ele.

Andréa abraçou Carolinne e deixou que as lágrimas rolassem pelo seu rosto. Antonni se aproximou preocupado das duas.

- Como ele está?

- Acho melhor não entrarmos lá, por enquanto. Deixe Vito e Fabianno tomando conta dele; eles não deixarão aquele bastardo passar por aquela porta. Vá para casa e acalme a mama; ela deve estar uma pilha de nervos. Vou com Carolinne para um hotel; é melhor assim.

- Você é quem sabe. Vou falar com Vito e Fabianno. Vá mais tarde lá em casa para conversarmos; sei que não é a melhor hora, mas sua mama ainda não conhece essa moça simpática que trouxe com você.

Carolinne corou ao ser elogiada pelo pai de Andréa. Haviam conversado durante alguns minutos enquanto ela conversa com Luca e Carolinne viu que ele era um homem bom, mas que não expunha seus sentimentos. Mesmo assim ela constatou que ele amava Andréa profundamente.

Os três se despediram e Antonni voltou para a porta do quarto de Luca. Ele sabia da verdade, mas o rapaz era como um filho para ele. Seria difícil vê-lo de outra maneira.

Andréa e Carolinne foram para uma pequena pousada perto do hospital. Comeram algo, sentaram-se em frente a televisão, mas a cabeça das duas estava muito cheia para prestarem atenção em alguma coisa ou conversarem.

Ficaram ali até que o sono começou a tomar conta das duas e ambas adormeceram recostadas no sofá; Carolinne deitada no peito de Andréa.

Ás oito da manhã Carolinne acordou ouvindo Andréa aos berros no telefone.

- Como vocês deixaram isso acontecer?

Parecia furiosa e aquele brilho de ódio voltou aos seus olhos. Era incrível como podia se transformar quando ficava nervosa.

- Procurem por ele por toda a cidade! Chamem todos os homens que estiverem disponíveis; quero saber onde ele está em uma hora! Não, não precisam levá-lo para casa, não quero que se machuque desnecessariamente. Apenas me avisem de novo.

Andréa desligou. A raiva que sentia estava a flor da pele. Ele pegou o pequeno abajur ao lado do sofá e arremessou do outro lado da sala. Carolinne chegou perto dela, mas recuou, temendo o ódio que via em seus olhos. Andréa não pode deixar de notar que sua amada estava com medo dela.

- Desculpe, Carolinne; é que não consigo me controlar quando o assunto é Luca. Onde esse garoto se meteu?

- Não queria sugerir isso, Andy, mas já pensou na hipótese dele ter ido procurar por Pietro?

Andréa sentiu seu coração parar. Será possível?, pensou.

- Não acredito que tenha feito isso.

- Andy, ele é pai dele; Luca vai querer ouvir a versão dele também.

Carolinne tinha razão; pensou Andréa. Pegou novamente seu celular e discou um número.

- Pai; acho que Luca pode ter ido atrás de Pietro. Eu sei que parece absurdo, mas é uma hipótese. Preciso saber onde encontrar esse desgraçado. Obrigada, pai. - e antes de desligar, pediu cautelosamente - Não faça nada com ele, pai; apenas me dê o endereço e deixe que eu resolvo.

Ela desligou e levou as mãos ao rosto; estava cansada apesar de ter conseguido dormir um pouco naquela noite e, principalmente, preocupada.

Esperaram durante alguns minutos quando o telefone de Andréa tocou novamente. Ela conversou séria e anotou num pedaço de papel um endereço; desligou em seguida.

- O que vai fazer, Andy?

- Vou buscar meu filho.

Dizendo isso pegou as chaves do carro que elas haviam alugado no aeroporto e verificou se sua arma estava na bolsa. Carolinne se assustou.

- Ficou louca? O que pretende fazer?

- Me defender, se for preciso.

- Não seria melhor chamar a polícia?

- Aqui não é Paris, Carol.

- E você não é nenhuma heroína, Andréa! Não pode fazer isso; é arriscado.

- Carol, fique calma; não vou usá-la se não for extremamente necessário. Confie em mim.

Carolinne estava com medo, mas as palavras de Andréa exerciam um poder sobre ela que não podia explicar.

Saíram e foram para o carro.

- É esse o endereço? - perguntou Carolinne impaciente.

- Huhum... Fique aqui e...

- Você vai entrar armada para encarar esse filho da puta e quer que eu fique aqui? De jeito nenhum!

- Carol...

- Não adianta, Andy; eu vou, você querendo, ou não!

Andréa viu que não adiantaria discutira com sua amada; enfim, encontrara alguém tão teimosa quanto ela.

A casa tinha uma grande rampa que levava à sede. No portão Andréa notificou a segurança de que queria falar com Pietro e eles abriram o grande portão imediatamente. Subiram até a casa e desceram do carro. Havia apenas dois seguranças vigiando a casa; Andréa pensou que se precisasse reagir teria que cuidar daqueles dois também.

Chegaram à porta e foram recebidos pelo mordomo. Andréa reconheceu o senhor grisalho que abriu a porta.

- Guilherme? Você trabalha para esse crápula?

- Os tempos estavam difíceis, madame; é bom ver que a senhora está bem.

Andréa sorriu e acompanhou o mordomo até um grande escritório, onde já se encontravam Pietro e Luca, e se retirou em seguida.

- Hora, hora; que cena interessante. A família toda reunida; papai, mamãe, a madrasta e o filho pródigo.

- Deixe de cinismo, Pietro. Vim buscar meu filho.

- NOSSO filho, você quer dizer.

- Não me importa; Luca vai comigo e não tente me impedir!

- Está me ameaçando, querida; e na minha própria casa?

Andréa encarou Pietro e viu que ele estava muito confiante; talvez tivesse convencido Luca a ficar com ele. O rapaz era maior de idade e podia escolher se queria ficar com o pai ou com a mãe.

- Entenda como quiser; vim buscar Luca e ele vai comigo!

A impressão que Carolinne tinha é que Luca parecia um pouco confuso com tudo o que estava acontecendo. Ele tinha um brilho apagado nos olhos e parecia distante, como se estivesse pensando em alguma coisa.

- O seu problema, Andréa, é que você não sabe a hora de sair de cena, não sabe perder. Agora que ele sabe a verdade por que não deixa o garoto ficar com quem ele sempre devia ter ficado, héin?

Andréa ficou muda; não sabia o que dizer. Se Luca quisesse ficar o que ela poderia fazer além de implorar, em vão, que ele voltasse para casa com ela?

Luca andou pelo escritório e olhou para os quadros na parede. Na verdade não via nada, seus pensamentos pareciam uma bola de neve e a cada minuto tudo ia aumentando mais, e mais, e mais...

- Ele tem razão... Mãe. - falou Luca muito sério - E já tomei minha decisão. Acho que fiquei tempo demais sem saber da verdade e tudo isso me fez crescer muito em poucas horas...

Andréa se preparou para sair derrotada daquela casa; nunca mais veria o filho.

- E justamente porque sei de tudo como aconteceu é que decidi continuar com você. Você é que sempre foi minha mãe, apesar de eu achar que era minha irmã. Sempre cuidando de mim, sempre me ensinando o que era certo ou errado. Você me transformou no homem que eu sou hoje sou muito grato a você por isso. Já você... - ele olhou com desprezo para Pietro, que parecia não acreditar no que estava ouvindo - Você tentou fazer com que eu odiasse minha própria mãe, sendo que tudo isso aconteceu por sua causa! E ela pedindo para que eu não o odiasse... Você não vale nada mesmo!

- Olhe como fala comigo, Luca; eu sou seu pai!

- Meu pai se chama Antonni Martiolle Baccio!

Andréa sentiu-se aliviada por ouvir aquelas palavras de Luca e recebeu-o num forte abraço. Agora ela podia abraça-lo como um filho.

- Isso não vai ficar assim!

Pietro caminhou até uma mesa de canto e retirou um revolver de lá.

- Se esse moleque não for ficar comigo não vai ficar com mais ninguém!

Apontou o revolver para Luca e atirou. Andréa, no impulso de proteger seu filho, entrou na trajetória da bala e recebeu o disparo, que a atingiu no canto esquerdo tórax. Ela caiu nos braços de Luca, levando a mão ao ferimento.

Carolinne, tomada pela fúria, pegou a arma de Andréa em sua bolsa e disparou três vezes. Duas balas acertaram Pietro; uma foi fatal.

Carolinne olhou no relógio: seis da manhã. Havia tido um pesadelo terrível em que via Andréa sendo crucificada e suas pernas sendo quebradas por Pietro, que vestia uma roupa de soldado romano. Rolou na cama quase a noite inteira e não conseguiu dormir. Sua cabeça doía terrivelmente e ela pediu a Filipe que lhe arrumasse algumas aspirinas. Ele entrou no quarto com uma bandeja contendo um farto café da manhã. Ela pegou as aspirinas, tomou com um pouco de leite e se deitou de novo.

- Senhorita Le Blanc; a senhora não pode ficar assim, sem comer nada. Não jantou ontem e aposto que também não almoçou lá no Café.

- Não se preocupe comigo; estou bem.

- Não, senhora; não está. E quando madame Andréa voltar vai achar que não cuidei de você direito! Coma pelo menos esse café da manhã que preparei; vai se sentir mais forte e vai ajudar a melhorar sua dor de cabeça.

Carolinne não podia recusar um pedido tão preocupado como o de Filipe. Ela sabia que ele estava tão aflito quanto ela com essa história toda e não podia, simplesmente, descontar nele. Sentou-se na cama e colocou a bandeja na sua frente; pensando bem, estava mesmo com um pouco de fome.

Quando acabou de comer o suficiente para deixar Filipe mais tranqüilo, devolveu a bandeja e deitou-se novamente. Antes dele sair perguntou por Andréa.

- Ainda não ligou, senhorita; creio que a essa altura o julgamento deve estar acabando e em breve saberemos o resultado final.

Ela sorriu desanimada e virou-se para o canto, puxando o cobertor por cima da cabeça. Não conseguia parar de pensar no que tinha feito; havia matado um homem. E como se já não bastasse o peso de tirar uma vida, Andréa assumiu a culpa por achar que sua família se daria melhor com aquela situação e por achar que Carolinne não suportaria aquele tipo de pressão. Estava correta, até certo ponto; não era o tipo de situação que Carolinne costumava enfrentar.

O incidente na casa de Pietro acabou inflamando a rixa que existia entre as duas famílias no passado e os familiares dele queriam que alguém pagasse por aquela morte.

Naquele dia nublado depois que Carolinne acertou dois tirou em Pietro, sendo um deles fatal, ela chamou a ambulância, os pais de Andréa e a polícia. Tudo poderia ter tomado um rumo totalmente diferente se Andréa não tivesse assumido a culpa nos disparos. Depois de se recuperar da bala que perfurou seu pulmão esquerdo, ela pôde depor e a versão que a polícia ouviu de Luca, Carolinne e de Guilherme, o mordomo, combinavam com o que ela havia contado.

Claro que tudo foi devidamente combinado antes que pudesse ser feito qualquer tipo de interrogatório; as coisas não poderiam ter saído melhor. A história oficial era que Andréa teria ido buscar seu filho e Pietro tentou impedi-la de levá-lo. Num acesso de loucura, o homem apossou-se de uma arma e disparou contra Luca; Andréa havia entrado na frente para proteger seu filho. Ao cair no chão, sacou sua arma da bolsa e desferiu os disparos contra seu agressor, que ainda ameaçava contra a vida dela e de Luca. Para a infelicidade de Pietro os disparos de Andréa foram mais precisos. Ela alegou legítima defesa e a polícia tentava encaixar as coisas porque parecia difícil entender como alguém com um ferimento tão grave quanto o de Andréa, pudesse reagir tão rapidamente.

O julgamento foi marcado quando Andréa ainda estava no hospital; uma forma de pressionar a ré e deixa-la sem defesa. Mas a família de Andréa era muito influente, então, conseguiu que esperassem até a sua total recuperação.

Passados quase quarenta dias, Andréa teve que comparecer ao tribunal para prestar seu depoimento perante o juiz e a banca de jurados, o que fez sem maiores problemas. A história estava tão bem repassada em sua cabeça que nem a pressão do advogado contrário conseguiu sobrepor a sua postura firme e cautelosa; Andréa sabia exatamente o que dizer e quando dizer. Ela se tornou a vítima da história e faltava pouco para que tudo se resolvesse.

Uma testemunha chave havia sido convocada e Carolinne não via a hora de receber notícias de Andréa, ou Luigi. Mesmo perdida em meio aos seus pensamentos, seus olhos não conseguiam mais ficar abertos a espera de notícias, então, ela adormeceu, depois de dias sem um minuto de sono tranqüilo.

O fato de estar em Paris, tão longe de sua amada a deixava terrivelmente arrasada, mas alguém tinha que tomar conta dos negócios enquanto Luigi orientava o advogado de Andréa. Luca havia sido convencido por Antonni a ficar no apartamento de Andréa em Paris junto com Carolinne para evitar que a mídia italiana o importunasse com perguntas indiscretas.

As horas se passaram e nada de notícias.

As duas da tarde Carolinne sentiu alguém tocar seu rosto. O toque lhe era familiar e o cheiro daquela pele também. Mesmo assim acordou lentamente, abrindo os olhos bem devagar para não sentir sua cabeça doer novamente. Achou que estava sonhando e, depois de esfregar os olhos com as duas mãos viu que Andréa estava realmente sentada à sua frente e sorria.

- Ei, dorminhoca. Filipe me disse que você foi muito teimosa com ele; não quis comer direito nos últimos dias.

Carolinne levantou e abraçou forte sua linda amante, esquecendo-se do ferimento que ainda cicatrizava no peito dela. Andréa soltou um breve gemido de dor e Carolinne se lembrou do machucado.

- Me desculpe, Andy; me esqueci...

- Não tem problema. Como você está?

- Bem, eu acho... O que aconteceu no julgamento?

Andréa sentou na cama ao lado da jovem e essa deitou a cabeça em seu colo.

- Bom; achei que poderíamos perder por causa dessa tal testemunha chave, que não fazíamos idéia de quem era, mas acabou saindo melhor do que a encomenda.

- Como assim?

- A testemunha era Guilherme, o mordomo de Pietro. O doutor Thomas Potter, o advogado da família de Pietro achou que com o testemunho dele pudessem selar meu destino, mas o fato é que Guilherme detestava aquela casa e aquele emprego. Não falei antes, mas ele trabalhou com meu pai uns tempos até começar a perder dinheiro com jogo. Sentiu-se envergonhado demais para continuar ali e foi embora da nossa casa. Parece que Pietro pagou as dívidas dele e em troca ele trabalhava como mordomo. Terrível...

- Mas ele testemunhou em seu favor, então?

- Para a tristeza de Thomas tudo que ele falou me favoreceu. Claro que ele omitiu algumas coisas e acrescentou outras, tipo, falando que eu atirei e não você, mas ele achou que devia isso ao meu pai, pelos anos que trabalhou conosco e foi tratado com tanta dignidade e respeito. Agora está tudo resolvido; acabou.

Carolinne abraçou Andréa novamente, agora com mais cuidado e olhou nos olhos dela.

- E o que pretende fazer agora?

- Acho que vou viajar um pouco... NÓS vamos viajar um pouco. Quero conhecer outros lugares com você.

- Podemos ir ao Brasil e eu te mostro como aquele país é maravilhoso!

- Claro; me parece uma ótima idéia. Você pretende contar aos seus pais sobre nós duas?

- Meu pai já sabe; quando estive em casa acabei contando. Minha mãe é que é mais quadradona; melhor deixar como as coisas estão. Podemos ir para outros lugares e no fim da viagem passar lá em casa para o meu velho te conhecer. Ele ainda não entende como é que eu posso terminar um noivado de dois anos e me juntar a uma mulher, mas vai entender um dia.

- Certo... Mas antes pretendo fazer uma coisa que ficou pendente.

Um mês depois, no dia seis de Dezembro, data do aniversário de Carolinne, Andréa estava sendo conduzida por seu filho até o altar de uma pequena igreja numa cidadezinha perto da fronteira com a Bélgica. Carolinne veio em seguida sendo trazida por Rogèr que, enfim, aceitara o pedido de desculpas de sua amiga e convite para ser padrinho. Antoinne esperava por ele ao lado do altar onde também estavam Luigi e Michelle, e a mãe de Andréa, que faria par com Luca.

O padre era um velho conhecido da família e não fez nenhuma objeção em celebrar a união das duas.

- Irmãos, irmãs; estamos aqui hoje para celebrar a união do mais puro amor. Andréa e Carolinne venceram as barreiras do preconceito e hoje estão aqui para oficializar sua união. Eu não vou enrolar com falatório desnecessário porque creio que esse momento já era esperado há muito tempo! Então, gostaria que ficassem de frente uma para a outra e fizessem seus votos.

As duas viraram de frente uma para outra e se olharam nos olhos. Estavam lindas! Andréa usava um vestido longo e justo todo bordado à mão e uma tiara com brilhantes prendia seus cabelos negros num charmoso coque no alto da cabeça, deixando apenas alguns fios da franja esvoaçando em seu rosto. Carolinne usava um vestido um pouco menos justo, mas que mesmo assim deixava à mostra todas as curvas de seu corpo. Seu cabelo havia crescido um pouco e encontrava-se preso por uma tiara e um véu que descia até o meio das costas.

Andréa foi quem falou primeiro.

- Diante das pessoas que amo eu venho declarar todo o amor que sinto por você. Prometo te proteger e te compreender nos momento mais difíceis e te amar mais e mais a cada dia. - pegou a aliança e segurou a mão trêmula da jovem - Você me aceita como sua companheira para os próximos anos e para todo o sempre?

Aquele estilo romântico não era muito do feitio de Andréa, não em público. Carolinne precisou engolir as lágrimas senão, não conseguiria responder

- Sim.

Andréa colocou a pesada aliança no dedo da jovem e beijou sua mão, sorrindo para ela em seguida. Foi a vez, então, de Carolinne fazer seus votos.

- Gostaria de poder falar tudo que eu sinto, mas não acredito que seja realmente possível dizer tudo isso em poucas palavras. Eu te amo, Andy, e juro te amar, te proteger e compreender nas horas mais difíceis. - ela pegou a mão de Andréa, que suava como nunca, e segurou a aliança com a outra mão - Você me aceita como sua companheira para todo o sempre?

- Sim. - Andréa falou firme e Carolinne pode colocar a grossa aliança no dedo de sua amada. O padre, então, tomou a palavra.

- Pois se ninguém aqui tem nada contra essa união, e eu realmente espero que não - e todos na pequena igreja riram - eu as declaro unidas pela benção de Deus... Como é mesmo que vocês disseram? Ah, sim! Para todo o sempre!

Andréa pegou o rosto de Carolinne nas mãos e beijou-lhe carinhosamente a face. Sorriu para a jovem que não continha mais as lágrimas e segurou suas mãos.

- Agora somos mulher... E mulher!

Carolinne sorriu descontraída e abraçou sua mulher. Aquilo lhe soava estranho, já que considerava Andréa como sua mulher já há algum tempo; mas tudo bem.

Ambas viraram-se para as poucas pessoas que estava ali e seguram seus buquês nas mãos.

- Ok, pessoal; são dois buquês. A chance dobrou! - gritou Rogèr empolgado.

Ao ouvirem isso as duas se viraram de costas e jogaram os pequenos arranjos de flores para o alto. Um foi parar nas mãos de Antoinne, que sorriu desajeitada para o orgulhoso Rogèr ao seu lado. O outro foi parar nas mãos de Michelle e Luigi ficou um pouco sem jeito, porém, feliz.

- Eu falei que ela seria a futura senhora Trebiucoc, não falei? - Andréa sorriu abraçando o amigo.

Dali rumaram para um pequeno salão atrás da igreja onde as duas receberiam os cumprimentos de todos que estavam presentes. Não eram muitos; os amigos de Carolinne não puderam vir do Brasil, nem seu pai, para não atiçar a curiosidade da mãe. Mas os três grandes amigos que ela havia feito até aquele dia compareceram; dois eram padrinhos e o outro era Jacque.

A família de Marc também veio prestigiar a união das duas, mesmo o senhor Maurice, que nada sabia até aquele dia, aceitou a união sem maiores problemas; no fundo ele sabia que Andréa e sua falecida filha tiveram algo bem íntimo no passado. Filipe disfarçava as lágrimas. Luigi sorria orgulhoso porque havia cumprido bem a missão e proteger aquele seu grande amor; agora era a vez de Carolinne assumir aquela responsabilidade, apesar dele estar sempre por perto. E por último, não menos sorridente e feliz, porém discreto, o pai de Andréa, que observava a tudo sem demonstrar sua alegria, mas que sem querer deixou cair uma lágrima que molhou seu paletó e lhe entregou para sua mulher.

- O que é isso, amore mio; chorando?

Ele apenas olhou com a cara um pouco mais rabugenta que o normal, mas sorriu em seguida, abraçando sua velha e amada esposa carinhosamente.

Andréa e Carolinne fizeram uma mega viagem pelo Brasil. Alugaram um Jipe Defender no Aeroporto de Fortaleza e se prepararam para rodar o país inteiro.

Primeiro foram até o Nordeste e conheceram praias lindas e algumas bastante movimentadas porque era carnaval. Andréa adorou Fortaleza, Natal e Porto Seguro. Teve uma ligeira insolação nos primeiros dias por teimar com Carolinne e não usar o protetor solar adequado; apesar de ter a pele um pouco mais escura que a da jovem, não teve muita oportunidade de tomar sol naquele país de clima mais frio. Mas tudo se resolveu rápido; sua resistência era impressionante.

Depois seguiram sua viagem para o Sudeste, onde Carolinne sabia que existiam grandes cidades históricas e serras maravilhosas com suas grandes cachoeiras. Fizeram rapel, rafting, canyoning e, claro, conheceram muitos jipeiros pelas estradas que adoraram a companhia das duas. Pararam por dois dias em Belo Horizonte, capital de Minas Gerias, porque Carolinne queria rever alguns amigos de faculdade. Continuaram com a sua viagem exploratória até São Paulo. Carolinne encontrou-se com sua grande amiga Luiza, que arrumou uma brecha na sua escala hospitalar para dar uma volta com a amiga e sua companheira. Ela sugeriu que continuassem a viagem por meios mais seguros porque a estrada que levava ao Sul do país era campeã de acidentes. Carolinne e Andréa concordaram.

Pegaram um vôo que as levou direto a Florianópolis. Lá elas não resistiram e acabaram alugando outro jipe. Percorreram toda a ilha conhecendo as principais praias e os lugares mais agitados para se curtir a noite. Deram uma parada na casa de Carolinne para Andréa conhecer seus pais e foi inevitável que ambos ficassem sabendo que as duas estavam juntas. A mãe de Carolinne entrou em choque por alguns dias, mas o pai assegurou que ela melhoraria um dia. Ficaram lá alguns dias para Carolinne, novamente, matar saudade de seus amigos. Mas não se demoraram em ir embora; era visível que Andréa estava amando tudo aquilo, principalmente por estar ao lado de Carolinne, mas não conseguia esconder a vontade de voltar para suas galerias.

Carolinne ainda levou Andréa para conhecer outras cidades do Sul que lembravam um pouco aquele clima europeu só para tentar amenizar a saudade que sua companheira sentia daquele friozinho gostoso e das lareiras. Conseguiu impressioná-la lhe mostrando Gramado e Porto Alegre, dentre outras cidades aconchegantes e de estilo europeu. Mas chegaram ao extremo sul do país e Carolinne achou que estava bom, por enquanto.

Ficaram viajando durante dois meses e meio; um tempo razoável para uma lua de mel... Razoável? Fala sério!

Voltaram para Paris em meados do mês de abril e Andréa se sentiu aliviada em ver que tudo que havia deixado para Luigi e Rogèr tomarem conta estava espantosamente organizado; conseguiam ser piores que ela!

As duas passaram no Café, ainda com as malas, para dar uma olhada em tudo e em todos.

- Olha no que você transformou meu namorado, Andréa! - Antoinne brincou ao reencontrarem-se no Café - só pensa em trabalho e quase não sobra tempo para mim!

- É; e esse barrigão que está começando a aparecer aí; parece que ele conseguiu arrumar um tempinho, héin?

- Como você sabe?

- Tenho um olho bem para essas coisas; já fui mãe, esqueceu? - falou Andréa se gabando da sua experiência.

Carolinne parecia indignada.

- Como você não me contou nada, Ann?

- TE CONTAR?? Vocês estavam incomunicáveis nessa mega lua de mel que resolveram fazer. Estava só esperando você chegar para contar.

Carolinne abraçou sua amiga e sorriu para Rogèr.

- Vai ser papai, héin; quem diria!

Ele sorriu orgulhoso e voltou para suas contas. Carolinne olhou cansada para Andréa e sugeriu que fossem para casa para desfazer as malas, tomar um bom banho e dormir um pouco.

- Parece uma ótima idéia! Amanhã nossa vida volta ao normal e podemos programar as exposições do próximo mês.

- Ótimo; então, vamos.

Despediram-se de todos e foram para o apartamento de Andréia, que agora também era de Carolinne.

Filipe as esperava de braços abertos, pronto para mil e um paparicos e dengos.

- Que demora! Fizeram boa viagem? Não precisam responder; pela carinha de cansada de vocês vejo que foi tudo maravilhoso.

- Acertou, Filipe. - Carolinne sorria para o amigo.

- Vamos desfazer as malas e tomar um banho...

- Podem deixar as malas comigo; vão descansar.

Andréa sorriu e puxou Carolinne pela mão.

- Quero um banho beeem demorado com você naquela banheira; o que acha?

- Hummm; interessante!

As duas foram para o quarto.

No dia primeiro de julho de dois mil e dois as duas juntaram uma turma de brasileiros no Café Paris para assistir a final da Copa. Carolinne não conseguia conter sua agitação; comeu todas as unhas, passava as mãos nos cabelos a cada minuto, batia na mesa e xingava. Sentia algumas dores, mas estava muito animada com o resultado.

- Puxa... Final; estamos na final!

- Meu amor; você já repetiu isso mil vezes! Isso não vai te fazer bem...

- Calma, Andy; mal também não pode fazer!

Nada melhor para Carolinne do que ver a França saindo logo no começo da copa; foi a glória. Ela até teve vontade de ver a cara de Gustav, mas não era o caso. Aliás, não tinha notícias dele há quase um ano. A última que teve foi que ele iria se casar e mudar para Alemanha, mas não confirmou se era verdade e nem recebeu o convite; também não havia enviado o seu para ele, então, ficou na mesma.

E o jogo começou. Carolinne movimentava as mãos da barriga para a cabeça, da cabeça para a barriga. As unhas não existiam mais; estava muito nervosa e suava um pouco também. Andréa não parava de olhar para ela preocupada que sua amada tivesse um troço a qualquer minuto.

Sempre que a bola chegava perto do gol adversário Carolinne gritava e esbravejava com os jogadores como se eles pudessem ouvi-la.

- Carol; Carol... Vai com calma...

- Fica fria, Andy; que coisa!

Mas de repente uma arrancada, um passe e...

- GOOOOOOOLL!!!!!

A galera explodiu em alegria dentro do Café. Todos gritavam e pulavam e Carolinne não queria ficar de fora. E foi aí que tudo começou.

Andréa notou a cara estranha que Carolinne estava fazendo, parecia que sentia dor, parecia...

- Ah, Madona mia; vai nascer!!

Carolinne sorriu em meio às contrações que começavam e apoiou-se em Andréa.

- Acho melhor você me levar a um hospital; senão sua filha vai nascer no meio do nosso Café!

A idéia de ter um filho estava na cabeça de Carolinne há muito tempo e quando Andréa sugeriu que fizessem uma inseminação artificial ela ficou muito contente. Mas fizeram da maneira mais inusitada possível; Andréa doou o óvulo, mas Carolinne foi quem gerou a criança. Assim, como o bebê não podia ser única e exclusivamente das duas, pelo menos um pouco de cada uma ficaria naquela criança; a semente de Andréa crescendo nove meses no corpo de Carolinne. Criativo!

Voltando ao Café...

Andréa não sabia o que fazer. Ficou imóvel por alguns segundos, mas foi cutucada por Carolinne e conseguiu sair do seu transe.

Em meio à confusão que acontecia dentro do Café, Andréa abriu espaço e foi conduzindo Carolinne até seu carro. Infelizmente, por terem sido eliminados tão cedo, o país estava funcionando normalmente, o que fez com que Andréa tivesse que se virar em atalhos para não pegar alguns engarrafamentos. Mas não daria tempo.

- Andy, a bolsa... Rompeu... Vai nascer...

- Aqui? No carro? Puta merda!

Andréa brecou o carro, ligou o pisca-alerta e desceu do carro. Carolinne estava deitada no banco de trás do Land Rover e segurava com uma das mãos no cinto de segurança. Parecia sentir uma dor incrível e Andréa achou que realmente não saberia o que fazer.

- Meu amor, o que eu faço? - agora Andréa estava em pânico.

Pessoas começaram a se juntar em volta o carro, mas nenhum médico apareceu.

- Ah, não; estou vendo a cabeça! - Andréa arregalou os olhos.

- Me ajuda, Andy... Está doendo!!

- Respira, meu amor; respira! Isso; assim! Está vindo!

Andréa não acreditou quando viu os ombros passarem, depois os bracinhos, as perninhas, os pezinhos; era uma menina. Fizeram questão de não saber o sexo; a surpresa seria mais interessante. Ela pegou sua blusa de flanela, o único pano limpo e quente por perto, e enrolou a pequena criança.

- É... É uma menina, Carol! Uma menininha linda; a sua cara!

- Bate no bumbum, Andy; ela precisa respirar.

E Andréa fez o que Carolinne pediu. No instante seguinte o choro da pequena criança tomou conta do carro e os curiosos em volta bateram palmas e gritaram. Nesse instante Andréa viu que o Brasil havia feito o segundo gol. Ela olhou para Carolinne que segurava aquela criaturinha nas mãos trêmulas.

- Como vamos chamá-la? - Carolinne perguntou com os olhos cheios de lágrimas.

- Que tal... Vitória?

Carolinne apenas sorriu e recostou-se no carro olhando para sua filha. Ela tinha os olhos de um verde tão vivo que, mesmo tão apertadinhos como estavam, já podiam ser vistos.

Ela estava sentindo um pouco de dor nas costas mas o pior havia passado assim que a criança nasceu.

- Agora vou leva-la ao hospital, já que o pior, digo, o melhor, já veio!

Andréa sorriu para Carolinne; seus olhos também estavam cheios d'água, mas dessa vez ela não segurou o choro.

O carro partiu pelas ruas movimentadas de Paris. Algumas pessoas gritavam que o Brasil tinha ganhado. Mas Carolinne não se importava mais com a vingança de quatro anos atrás; queria saber apenas da sua Vitória.

FIM ;)

Nota da autora:

Pois é; essa é história. Qualquer semelhança é mera coincidência... Talvez! A verdade é que nada acontece por acaso e se vocês acharam que as coisas aconteceram muito rápido por aqui, acho que devemos bater um papinho!

Espero que tenham gostado porque dei meu sangue nessa fanfiction. Sei que ela perdeu um pouco do significado real, mas acho que vocês vão me perdoar, certo?

Um abraço a todos;

Deya

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