Onde Você For 

 Deya

 

DISCLAIMER: Muitas pessoas leram "O último café em Paris" e pediram que eu continuasse a escrever as minhas fanfictions. Satisfeita com o resultado alcançado estou dando continuidade às aventuras de mais duas personagens fictícias com personalidades forte e muito amor no coração. 

Essa é história de duas mulheres adultas e contém relatos da intimidade entre essas duas personagens. Se você é menor de 18 anos, ou onde mora não é permitido esse tipo de leitura, pare por aqui. A autora não assume nenhuma responsabilidade pelo não cumprimento desse aviso. 

Aguardo, mais uma vez, os comentários e críticas de vocês.  

Have fun! J

 

Deya 

 

 

O dia ia meio cinza, como sempre era naquela cidade chuvosa e triste. Tudo, na verdade, parecia triste e sem graça, mesmo se fosse um dia de sol. E a tensão daquele momento deixava o dia ainda mais opaco.

 

Numa avenida movimentada de New York, por volta das cinco da tarde, Alessandra tenta entender porque escolheu aquela profissão. Trabalhava para o FBI há quinze anos. No começo achava que tudo se resumia em alguns anos prendendo bandidos, uma aposentadoria recheada e um relógio de ouro, mas aquilo tudo era muito real, perigoso e não se parecia em nada com os filmes policiais onde os bandidos sempre levam a pior. Não; não era exatamente aquilo que ela imaginou que seria.

 

 

Ela estava do outro lado de uma rua, olhando para uma loja de conveniência. Um fugitivo do 6º Distrito apontava nervosamente uma arma para uma jovem.

 

- Só tem aquela refém? � perguntou a Tenente Alessandra a um dos oficiais sob seu comando.

 

- Positivo; o dono da loja se escondeu nos fundos e nos avisou através de um celular que havia alguém suspeito lá dentro.

 

- E vocês têm certeza que se trata mesmo de Vasquez?

 

- Positivo; capturamos as imagens da câmera de segurança interna e confirmamos que era ele.

 

- Droga; ele vai acabar matando aquela jovem... Acho que vou...

 

- Acho melhor esperar o Capitão, Tenente; da última vez ele ficou uma fera!

 

- Eu sei, mas não temos tempo para burocracia; eu prendi Vasquez duas vezes e sei do que ele é capaz. Vou entrar; continue falando com ele; tente mantê-lo calmo por mais alguns minutos.

 

- O que você vai fazer?

 

- Você vai ver...

 

 

Alessandra saiu de onde se escondia e, sorrateiramente se aproximou da entrada lateral da loja; encontrou duas janelas e, para sua sorte, uma delas estava apenas recostada. Por ali ela conseguiu entrar.

 

 

Lá dentro o clima estava tenso; Vasquez apontava a arma para a cabeça de uma jovem que, apesar das circunstancias, parecia bem calma. Alessandra podia ouvi-lo gritar de onde estava.

 

- Não entrem, ou eu a mato! Eu a mato!

 

 

Alessandra estudou todas formas de alcançar Vasquez, mas teria de ser direta e agressiva, desarmando, imobilizando e tirando a refém de perigo em frações de segundos. Não gostava muito de armas; guardou a sua no coldre e avançou silenciosamente para uma prateleira atrás dos dois.

 

 

A jovem viu quando Alessandra se aproximava e tentou ajudar. Juntou todas as forças e socou o infeliz bem na boca do estômago. Vasquez aliviou um pouco a pressão que fazia no pescoço da jovem e Alessandra aproveitou para avançar sobre ele. Conseguiu desarmá-lo de primeira, mas Vasquez se recuperou e retirou uma faca de algum lugar, apontando-a em seguida para Alessandra. A luta foi fantástica e, enquanto a Tenente dava seus golpes precisos, seus socos e chutes, os homens que aguardavam do lado de fora adentraram no recinto apontando suas armas para Vasquez. Este, por sua vez não desistia de lutar, mesmo estando perdendo.

 

- Vasquez, Vasquez; pela terceira vez... Você não desiste nunca? Vamos embora de uma vez e eu prometo não te machucar mais.

 

- Sua vadia; não vai me levar de novo!

 

- Não me deixa escolha...

 

Dando um mortal inacreditável, Alessandra acertou Vasquez, jogando no chão a alguns metros de onde ela estava.

 

- Chega; podem leva-lo. � ele falou para o mesmo homem com quem conversara minutos atrás.

 

 

Enquanto falava isso não teve tempo de ver Vasquez pegando a arma que lhe havia sido tirada e que se encontrava a poucos centímetros de onde ele fora arremessado. Alessandra viu de relance a cena; correu em direção a refém e ficou entre ela e o atirador. Vasquez atirou duas vezes e ambos os tiros atingiram Alessandra em cheio no peito. O restante dos homens do esquadrão atiraram e abateram Vasquez. A jovem refém agora tinha Alessandra caída em seus braços.

 

- Hei... Fique acordada! � e virando-se para os homens do FBI gritou - Alguém chame uma ambulâ;ncia!!

 

 

Alessandra ouvia as vozes ao longe, mas o que não podia deixar de reparar eram os lindos olhos verdes que lhe pediam que ficasse acordada. O impacto havia sido forte e, como ele disparou duas vezes no mesmo lugar, provavelmente uma bala havia atravessado o colete. O mundo parecia rodar e ela não tinha forças para nada. Entregou-se ao cansaço, a vista escureceu e ela desmaiou.

 

 

 

 

No hospital Vanessa tentava saber notícias de Alessandra.

 

- Você não entende; ela salvou minha vida... Só quero saber como ela está! Também sou médica; exijo um pouco de respeito aqui!

 

 

Um homem com um abrigo do FBI veio na direção da discussão.

 

- O que está havendo... Hei; você é a refém, não é?

 

- Graças aos Deuses alguém com alguma sanidade! Sim! Meu nome é Vanessa, doutora Vanessa; vim assim que soube que ela estava aqui. Você entende, não é? Preciso agradecer...

 

- Quer um conselho, doutora? Acho melhor a senhora ir embora para casa e deixar como está; ela estava apenas cumprindo seu trabalho e...

 

- Só saio daqui depois que falar com ela.

 

 

A jovem mostrava-se irredutível.

 

- Ok, doutora... Mas vou logo avisando; ela não é flor que se cheire! A propósito, meu nome é Rupert, Sargento Rupert, ok? Venha comigo.

 

Vanessa acompanhou o jovem e educado rapaz até uma ala separada de onde saiam várias pessoas com abrigos do FBI.

 

- Boa sorte � falou ele enquanto abria a porta do quarto para Vanessa entrar.

 

 

Andréa estava um pouco pálida, mas nada conseguia tirar a beleza daqueles olhos azuis, daquele rosto sério. Os cabelos estavam jogados para trás e a franja caía despenteada na testa. Usava uma camisola de hospital por onde se podia ver uma tipóia em um dos braços.

 

 

Vanessa aproximou-se da cama e sorriu; talvez um de seus mais belos sorrisos.

 

- Oi...

 

 

Alessandra apenas olhou para a jovem sem responder.

 

- Alessandra, não seja indelicada � Rupert tentou acalmar as ciosas - Ela veio agradecer por você ter salv...

 

- Se a nossa amiguinha aqui não tivesse bancado a policial eu não estaria aqui!

 

- O quê? � Vanessa indignou-se � Um momento; ouvi alguns comentários pelos corredores que diziam que se aquele cara não tivesse escapado DE NOVO, nada disso teria acontecido! Portanto, senhorita, não venha jogar a culpa dos erros de vocês em mim! Quem estava com uma arma na cabeça era eu, ok?!

 

 

Todos ficaram terrivelmente sérios; nunca ninguém havia levantado a voz para o Tenente Alessandra e parecia que tudo naquele quarto iria pelos ares em segundos.

 

- Não me olhe com essa cara porque em mim você não mete medo, ainda mais aí onde você está. É bom saber que você está bem, mas é uma pena ver que é uma pessoa tão insuportável e ingrata! Melhoras.

 

 

Vanessa saiu do quarto a tempo; Alessandra já se levantava e arrancava o soro do braço bom.

 

- Quem ela pensa que é? Essa... Essa... Rrrrr!

 

- Calma; Tenente. Olha o ferimento! Ela já foi...

 

 

Agarrando Rupert pela gola do abrigo ela puxou-o para mais perto.

 

- Se deixar entrar mais alguém aqui eu mesma cuido para que você vire guarda de trânsito pelo resto da sua vida!

 

 

Rupert foi empurrado para a porta e preferiu sair antes que as coisas piorassem para ele. Ele era o único que conversava com Alessandra e sabia de algumas coisas a respeito dela que muitos dariam o braço para saber.

 

Ele caminhou pelo corredor em direção da lanchonete. Lá viu Vanessa sentada tomando um café. Pegou um sanduíche, uma Coca e caminhou em direção a jovem, parando ao seu lado.

 

- Oi; será que posso me sentar aqui?

 

- Claro...

 

 

Rupert sentou-se e olhou para a jovem.

 

- Doutora; me desculpe a falta de educação da Tenente, mas eu avisei.

 

- Eu sei... Mas ela precisava falar daquele jeito?

 

- Acredite; ela foi razoável com você. Se fosse qualquer um de nós do esquadrão teria arrancado as tripas e servido no almoço!

 

- Não se desculpe por ela, Sargento; fui estúpida mesmo, não devia ter reagido daquela forma, mas não sei o que me deu... Fiquei com medo dela falhar e...

 

- Uma coisa que você tem que saber sobre a Tenente: ela nunca falha; NUNCA!

 

- Então ela é uma heroína saída direto desses seriados de TV, não é mesmo?

 

- Não deboche... Ela só faz o serviço dela bem feito... Muito bem feito.

 

- E você é aquele carinha bonitinho que é louco com ela, mas não tem coragem de falar porque tem medo dela como todos os outros. Fica só idolatrando ela de longe... Conheço esse tipo também.

 

- Hei! Agora está me ofendendo!

 

- Desculpe, Sargento... Isso tudo me deixou nervosa; preciso voltar para o hotel, dormir um pouco e voltar para minha casa e minha vida normal amanhã.

 

- Certo... Da próxima vez que nos encontrarmos pode me chamar de Rupert, certo?

 

- Certo... E você pode me chamar de Vanessa; nada de doutora, ok?

 

 

Ela se levantou e, educadamente, despediu-se do jovem com um aperto de mão.

 

 

Depois de encarar aquela fera sem educação, Vanessa só queria saber de tomar um bom banho e dormir sossegada até o dia seguinte, sem interrupções. E foi o que fez. Em seguida comeu alguma coisa que pegou no frigobar e pulou na cama jogando a toalha no chão. Costumava deitar-se nua já que morava sozinha; ali naquele hotel ninguém a incomodaria.

 

 

Enroscou-se nos lençóis limpos e cheirosos e abraçou o travesseiro, como sempre fazia. O rádio estava ligado numa estação qualquer e tocava uma de suas músicas favoritas. Pensou que no dia seguinte estaria de volta para seu cantinho mágico, seu apartamento em Los Angeles, seu consultório com vista para Malibu; tudo parecia perfeito.

 

 

E enquanto pensava em tudo aquilo viu aqueles olhos azuis em sua mente; o que estariam fazendo ali? Adormeceu minutos depois.

 

 

 

 

Duas semanas depois do incidente, Alessandra foi chamada para uma reunião com seu Capitão.

 

- Não tenho tempo para essas reuniões, Drake.

 

- Não quero saber se você tem tempo ou não; você vai me ouvir e vai fazer o que eu mandar, ou então está fora.

 

 

Ok; ele estava realmente nervoso. Alessandra sentou-se numa confortável poltrona, ainda com o braço na tipóia, e olhou desdenhosamente para ele.

 

- Ótimo. Saiba que aquela atitude sua colocou em risco a vida do refém e...

 

- Aquela garota estúpida não tinha nada que se mexer! Ele estava na minha mira!

 

- Silêncio! Hoje eu falo, você escuta!

 

 

Alessandra se calou novamente.

 

- Não posso encobrir essas atitudes suas por muito tempo, Al. � ele sentou-se e passou a mão na testa suada; conversar com Alessandra nunca era fácil - O Comandante pediu que te afastasse por uns dias, para você esfriar a cabeça, tirar umas férias; entende?!

 

- Claro que não entendo! Querem me tirar de cena? Não acredito que você concordou com isso, Drake...

 

- Claro que não concordei, mas o máximo que pude fazer foi assegurar que você faria uma fisioterapia para melhorar esse braço e com isso ficaria uns dias de molho.

 

- O QUÊ???

 

- Olha; facilite as coisas para todos, Al. Tem gente que faria de tudo para te ver fora daqui, mas sabem que precisam de um bom motivo para isso; não dê esse motivo para eles. Vou marcar um médico para você fazer sua fisioterapia e quero um comprovante de que você compareceu às sessões... A todas elas, está me ouvindo?

 

Alessandra apenas resmungou alguma coisa, mas não tinha como discutir com as ordens finais do seu Capitão.

 

- Certo; acho que você deve precisar no máximo de uns dois meses para voltar a funcionar como antes...

 

- O que é isso; ficou louco? Nunca tirei férias porque não suporto ficar à toa; como vou ficar parada dois meses?

 

- Vou manda-la para um amigo meu que trabalha em L.A. Assim você pode aproveitar um pouco do sol e descansar enquanto não estiver no consultório.

 

- Espero que você esteja brincando, Drake!

 

- Tanto não estou como você parte amanhã. Mandarei a passagem e o endereço para o seu apartamento. E sem discussão! Dispensada.

 

Alessandra nem teve tempo de argumentar porque o Capitão Drake saiu da sala e deixou-a lá com seus pensamentos e xingamentos.

 

- Merda!

 

 

Levantou-se e foi para seu apartamento. Lá arrumou uma pequena bolsa onde colocou alguns shorts, camisetas, camisas, roupas íntimas e de banho, um tênis e uma bota. Depois foi deitar-se; aquele dia estava sendo terrível, assim como os dois últimos.

 

- Que raio aquela garota tinha de reagir àquele assalto? Estúpida! E quem paga o pato sou eu! Espero não encontrá-la nunca mais... - ela apagou a luz do abajur e recostou-se na cama -... Nem aqueles olhos verdes...

 

 

 

 

- Doutora; o paciente que fará aquele tratamento de dois meses já chegou.

 

- Dois meses? Ah, sim; me lembro de ter conversado com meu pai a respeito. Ele me passou o caso porque era uma simples recuperação de ferimento a bala. Certo, Diane; traga-o até minha sala enquanto vou ao banheiro, por favor.

 

 

A secretária concordou e voltou para recepção; pediu que Alessandra a seguisse até o consultório. Ela estava, como sempre, mal humorada, com a cara fechada e resmungando baixo, como fazia sempre que estava chateada com alguma coisa que saía do seu controle.

 

 

A sala era bem iluminada e tinha vários aparelhos fisioterápicos. Uma maca num canto exibia lençóis impecavelmente brancos e vários livros ficavam enfileirados numa pequena prateleira ao lado da estante, onde ficava o computador e dois pequenos arquivos de endereços.

 

Alessandra achou tudo muito arrumado, até demais para um homem; mas ele era médico e deviam ser todos assim. Qual não foi sua surpresa ao ver Vanessa entrando por uma porta com uma pasta nas mãos.

 

- Muito bem, senhorita Alessandra Cicconi... � Vanessa achou aquele nome bem peculiar; olhou para a paciente - Oh meu Deus; você?!

 

- Que palhaçada é essa? Você não é o doutor Ashley?

 

- Não; sou a doutora Ashley. O doutor Ashley é meu pai; ele me passou o seu caso por ser uma simples recuperação e...

 

- Simples recuperação? Que merda; não acredito que Drake fez isso comigo!

 

 

Alessandra se levantou e começou a sair da sala. Vanessa correu na direção dela tentando argumentar alguma coisa, mas não teve jeito. Andréa saiu bufando pelo consultório, batendo portas e resmungando que Drake ia lhe pagar por aquilo.

 

 

Diane, a secretária de Vanessa, veio correndo até a sala da doutora assim que o furacão Andréa saiu.

 

- O que foi isso, Ashy? Que mulher louca era aquela?

 

- Lembra do lance em New York? Conheça minha salvadora; Tenente Alessandra Cicconi, o mau humor em pessoa!

 

- Puxa, mas ela seria um encanto... Se não fosse tão grossa!

 

- É; a bela e fera numa mesma pessoa... Ai, que dia. Tenho mais alguém hoje?

 

- Não; pensando em pegar uma praia?

 

- Por que não? Descansar um pouco... Isso; vou mesmo. Resolva qualquer coisa que aparecer, ok? Estou com meu celular se precisar falar comigo.

 

- E quanto a ela; a "Miss Simpatia"?

 

- Explique a meu pai o que aconteceu; é problema dele.

 

 

Diane concordou e Vanessa se retirou. Um dia de praia para aliviar um dia tenso. Ótimo.

 

 

 

 

- Não acredito; que coincidência! � falava o Capitão Drake ao telefone.

 

- Uma ova! Você faz isso é para me irritar!

 

- Tenho meios melhores para irritar você, minha amiga. Agora preste atenção; vou marcar novamente e você voltará lá amanhã de manhã.

 

- Você está sendo muito sacana, Drake.

 

- Você deveria dar uma chance a ela; é uma ótima menina, pelo que eu me lembro...

 

- Sei, sei... Mas se não der certo procuro outro médico; feito?

 

- Como você quiser; só faça tratamento e fique longe de confusão por uns dias, ok?

 

 

Alessandra concordou e desligou o telefone. Olhou à sua volta; o FBI estava pagando pelo tratamento e Drake emprestou sua casa de praia, onde poderia descansar e se divertir também; se é que ela sabe o que é isso!.

 

 

Colocou um biquíni, um short, uma camiseta por cima e foi dar uma volta na praia. A tipóia incomodava um pouco, mas nada que uma cerveja não fizesse esquecer.

 

 

 

 

Eram duas horas da tarde, o dia estava maravilhoso; o céu, de uma azul incomparável.

 

 

Vanessa estendeu sua toalha na areia e deitou-se de costas para o sol. Colocou a bolsa de lado e pensou que talvez seria melhor guarda-la no carro. Mal pensou isso e um jovem passou correndo e catou a bolsa dela, saindo correndo em seguida.

 

- Hei!! Volte aqui, seu filho da p...

 

 

Ela não terminou a frase; levantou e começou a correr. Corria e gritava para que parassem o garoto, mas ninguém se movia. Até que alguém esticou um braço na frente dele, jogando-o no chão.

 

 

Vanessa correu até onde o garoto estava e pegou a bolsa, dando um tapa na cabeça dele, que se levantou assustado e saiu correndo.

 

- Moleque atrevido! � e virou-se para agradecer ao seu salvador � Muito obr... Ah, não; você de novo?!

 

- Parece que você é meu carma, agora!

 

- Certo... Humm... Não vou te perturbar dessa vez; obrigada mais uma vez e desculpa o incômodo.

 

 

Alessandra sentiu-se um pouco miserável com suas atitudes e resolveu erguer a bandeira de paz.

 

- Certo; doutora. Acho que vou ter que me acostumar com a sua cara, de qualquer forma. Meu chefe já deve ter remarcado minha consulta com sua secretária; ele insiste que eu faça o tratamento com você.

 

- Nesse caso, acho que você vai ter que me aturar... Droga; minhas coisas estão na área, lá adiante. Bom; poderia dizer que foi um prazer revê-la se você não tivesse tanto ódio assim de mim... Nos encontramos amanhã no consultório.

 

 

Vanessa saiu andando carregando a bolsa por uma das alças sem olhar para trás. Alessandra ficou observando aquela figura caminhando pela praia, a pele muito clara em contraste com o biquíni azul marinho, o cabelo loiro curtinho esvoaçando ao vento; "O que é isso?", pensou ela. Sorriu de seus pensamentos e continuou andando em direção ao píer ali perto.

 

 

 

 

Depois de tomar um pouco de sol, Vanessa foi até o restaurante de seu amigo Raul que ficava no píer ali perto. Sentou-se ao balcão e pediu uma cerveja.

 

- Hei, Raul; o que conta de novo?

 

- Temos carne nova no pedaço... � com o queixo o rapaz indicou a mulher sentada alguns bancos mais para o fundo.

 

 

Qual não foi a surpresa Vanessa ao ver que era Alessandra.

 

- Não acredito que ela está aqui...

 

- Você conhece?

 

- Mais ou menos; a gente se esbarra de vez em quando.

 

- Se esbarra... Em que sentido?

 

- Não nesse sentido que você está pensando; mal conheço a figura. Mas vou te avisando; cuidado!

 

- Humm; perigosa. Meu tipo!

 

- Perigosa, não sei... Mas é muito grossa! Não é para você, meu amigo; talvez ela se dê melhor com um iceberg do que com uma pessoa de carne e osso.

 

- Olha; se você está falando isso para eu sair do seu caminho, não precisa se preocupar...

 

- Corta essa, Raul! Não quero nada com essa mulher!

 

 

O rapaz sorriu e voltou aos seus afazeres. Vanessa tomava sua cerveja e tentava não olhar para a mulher sentada alguns bancos à frente dela. Mas era impossível não olhar. Agora que não estavam mostrando as unhas uma para a outra ela podia ver como a outra era linda. O cabelo negro estava preso num rabo de cavalo e algumas poucas mechas caiam do lado das orelhas, se encontrando sutilmente com a franja. Os olhos azuis brilhavam com a claridade que vinha das janelas; pareciam um oceano sem fim. O corpo era malhado e bem cuidado e, apesar de ainda estar com a tipóia, não perdia o charme. Tinha um ar superior; parecia que estava acima de qualquer um daqueles pobres mortais à sua volta. "Que petulância!", pensou Vanessa; "Mas ela é bem bonita..."

 

 

Mal disse isso e Alessandra a viu no balcão. Sorriu inconsciente e ergueu a cerveja como se brindasse. Vanessa também sorriu e levantou-se, caminhando na direção de dela.

 

- Que coincidência... � falou Alessandra sem olhar para Vanessa.

 

- É; venho aqui sempre... Acho que os Deuses estão nos testando; ver quem mata quem primeiro, coisa desse tipo.

 

- Os Deuses? Que raio de expressão é essa?

 

- Mitologia Grega; às vezes falo essas bobagens.

 

- Certo, doutora... � Alessandra terminou sua cerveja num grande e último gole, passou as costas da mão na boca e levantou-se � Não se preocupe; não estou aqui para matar ninguém. Parece que sou seu anjo da guarda, lembra?

 

 

Ela sorriu de lado, despediu-se com um aceno e saiu do restaurante. Vanessa ficou olhando para ela; andava com certo charme, também. Era alta, isso ela notou no fatídico encontro no consultório.

 

- Talvez fosse até interessante... � cortou seus pensamentos pela metade e sorriu do que pensava �... Seria interessante.

 

 

 

 

Às dez horas da manhã Alessandra compareceu ao consultório da Dra. Ashley. Diane olhou para aquela figura alta, esbelta e terrivelmente séria e teve a visão de um novo confronto entre sua amiga doutora e o furacão nova-iorquino. Sorriu gentilmente para ela e pediu que se sentasse e aguardasse alguns minutos. Em seguida foi até a sala de Vanessa.

 

- Ashy; aquela "coisa" está ai fora de novo!

 

- Coisa...? Ah; certo. Fique tranqüila, Di; não vamos nos matar, prometo.

 

- Vou estar com meu bastão de basebol lá na minha sala se precisar, ok? - Vanessa riu e pediu que Alessandra entrasse.

 

 

Diane era amiga de Vanessa desde os tempos de faculdade. Trabalhava para o Dr. Ashley no consultório dele, mas como o velho andava muito cansado ultimamente e resolveu tirar umas férias sem previsão para voltar, a jovem doutora achou melhor que Diane fosse trabalhar com ela. As duas eram muito ligadas e às vezes Vanessa achava que Diane poderia ser bem mais que uma simples amiga, se elas quisessem.

 

 

Poucos segundos depois Alessandra entrou no seu traje esporte; calça de moletom azul marinho, top preto com uma camisa aberta por cima e um boné do FBI.

 

- Certo, senhorita Cicconi; primeiramente eu...

 

- Não; primeiramente, eu gostaria de te pedir para parar com esse negócio de "senhorita", ok?

 

 

Vanessa olhou para ela e sorriu; talvez pudessem se tornar amigas um dia... Talvez em mil anos!

 

- Certo... Alessandra. Primeiramente gostaria de ver a extensão dos estragos causados pela bala. Poderia retirar sua camisa e ficar apenas com o top?

 

 

Alessandra tirou lentamente a camisa, entre uma careta e outra e posicionou-se na frente da jovem doutora.

 

- Vou precisar mover seu braço um pouco.

 

 

Mais uma vez Alessandra concordou. Sentiu a mão suave da jovem doutora tocando suas costas e seu braço. Sua pele arrepiou-se toda e ficou um pouco sem jeito. Vanessa notou que aquela mulher estava incomodada com alguma coisa e resolveu quebrar o clima tenso.

 

- O corpo fica sensível durante muito tempo depois de uma lesão dessa.

 

 

O fato é que Vanessa também sentiu algo quando tocou a pele de Alessandra. Viu a musculatura das costas bem definida, os músculos torneados. Sentiu um calafrio na espinha.

 

- Certo. Você tem uma musculatura bem forte aqui; não vamos precisar dos dois meses que o seu chefe recomendou.

 

- Não vou poder voltar antes, de qualquer forma.

 

- Como assim?

 

- Tem pessoas por lá que não gostam do jeito como trabalho.

 

- Andou pisando em alguns calos, suponho.

 

- É; mais ou menos isso.

 

 

A consulta continuou tranqüila, seguida dos primeiros exercícios para a recuperação dos movimentos do braço de Alessandra. Ela tinha que dar notícia de seus progressos praticamente todos os dias para seu superior e amigo, Capitão Jonas Drake.

 

 

Chegando em casa ligou para ele.

 

- Parece que vocês duas ainda não se mataram; fico feliz com isso.

 

- Não enche, Drake; isso aqui é um saco, esse sol irrita meus olhos, essas pessoas correndo e pulando pela praia sem nada para fazer... Será que ninguém trabalha nesse raio de lugar?

 

- Isso se chama diversão, Alessandra; acho que você ainda deve lembrar o que é isso.

 

- Humm... A doutora Ashley disse que não preciso de dois meses de tratamento.

 

- Pois eu digo que precisa; e não ouse voltar antes disso!

 

- Isso são férias forçadas; que absurdo!

 

- Entenda como quiser, minha cara. Mas você vai ficar aí e ponto.

 

 

Ambos desligaram o telefone. Alessandra estava ficando de saco cheio daquele lugar ensolarado onde todos pareciam se divertir o tempo todo. Resolveu ir até o píer tomar uma cerveja; lá não se envolveria em nenhuma confusão.

 

 

 

 

Vanessa chegava cedo todos os dias ao consultório para preparar os exercícios de Alessandra. Chegou, guardou sua bolsa no armário; achou estranho o fato de Diane não estar ali. Ligou para ela.

 

- Di; o que ouve? Você está bem; não veio trabalhar...

 

- Meu Deus, Ashy... Não está falando sério, está? Hoje é sábado... E são oito da manhã!

 

 

Vanessa olhou no calendário em sua mesa e riu.

 

- Desculpe, Di; não sei o que deu em mim...

 

- Eu sei o que deu em você... A beldade nova-iorquina está tirando você do ar. Me deixa dormir mais um pouquinho, vai! Depois a gente conversa.

 

 

Diane desligou o telefone e Vanessa ficou com cara de quem não entendeu nada.

 

- Ela não pode estar falando sério... Será?

 

Juntou suas coisas e voltou para casa. Trocou de roupa e resolveu conversar um pouco com Raul; ele entendia um pouco dessas coisas, apesar de não ser totalmente gay. Nem ela própria sabia se era totalmente gay. Já havia namorado rapazes e chegou a gostar muito de um deles; mas nunca conseguiu manter um relacionamento duradouro e intenso. Com mulheres sentia muito mais prazer, mas parece que ainda não havia encontrado a pessoa certa.

 

 

Vestiu-se confortavelmente, short, camiseta e tênis, e foi até o píer.

 

 

Chegando lá chamou Raul num canto do bar e começou a conversar com ele. Contou do fato ocorrido naquela manhã e que andava meio distraída.

 

- Não sei, Ashy... Fica difícil assim. Você nem conhece essa mulher direito; só sabe que ela não é de muitos amigos, trabalha no FBI e sempre aparece para te salvar.

 

- Acho que ela não é tão terrível assim; é muito durona, só isso.

 

- Quer um conselho: vai com calma, ok. Cuidado para não se machucar... � Raul cutucou Vanessa com o cotovelo e apontou para Alessandra com o queixo; ela estava sentada no fundo do bar � Vai lá; quem sabe você não fica mais "amiga" dela.

 

 

Vanessa engoliu um seco, mas decidiu arriscar. Levantou-se e foi em direção a Alessandra.

 

- Outra coincidência? � perguntou Vanessa sorrindo.

 

- Talvez não; achei que você estaria aqui.

 

- Achou?

 

- Huhum... Queria saber se você sabe de algum lugar legal para sair à noite; estou ficando entediada de praia, sol, areia... Não curto muito isso.

 

- Ah, sim; você gosta mesmo é de chuva, tiros, tons de cinza no céu, mais tiros... Deve estar muito monótono aqui para você...

 

- Não seja sarcástica.

 

- Desculpe, mas é que você é a única pessoa que está num lugar maravilhoso desse, de férias e não consegue se divertir... Ou talvez não saiba o que é isso.

 

- Está falando igual ao Drake...

 

- Sinal de que tenho razão. Vamos fazer o seguinte; quer ir numa festa na praia hoje à noite? Um luau; tenho dois convites.

 

- Não sei...

 

- Prometo que se você estiver se divertindo muito te levo embora correndo! Promessa!

 

- Sarcástica... Tudo bem; aceito. Mas e se eu não gostar?

 

 

Vanessa ficou muda; queria falar que era problema dela, ou que ela poderia simplesmente ir embora, ou enche-la de beijos... Não; melhor não.

 

- Você pode me crucificar na praia e quebrar minhas pernas...

 

- Vou pensar numa coisa menos cruel.

 

 

As duas riram e Alessandra terminou seu lanche.

 

- Vamos tomar um pouco de sol na praia? Ops; esqueci... Você é anti-diversão.

 

- Nah... Não gosto muito de sol, dói meus olhos; mas mesmo assim já dei minha corrida pela praia hoje por volta das cinco.

 

- Cinco da manhã? Ok, essa é sua idéia de diversão... Tudo bem, não vou discutir. Te encontro aqui às sete da noite, pode ser?

 

- Tudo bem... Mas acho que é uma grande furada; vou estragar sua noite.

 

- Deixa que eu me preocupo com isso.

 

 

As duas se despediram e mais uma vez Vanessa ficou olhando Alessandra sair do restaurante. No minuto seguinte chamou Raul.

 

- Cara... Preciso de dois convites para o luau da praia. Você tem aí?

 

- Só tenho mais um... Vou ver se arrumo outro.

 

- Vai ver, não, Raul; arrume!

 

- Você e suas confusões... Cuidado, Ashy.

 

 

Vanessa levantou-se e foi para a praia. Deitou-se na areia um pouco, entrou no mar, sentou-se e ficou observando o movimento. Nem reparou que de longe Alessandra olhava para ela.

 

- Que diabos está acontecendo comigo?

 

 

Talvez ela não soubesse de que se tratava... Talvez tivesse medo de saber.

 

 

 

 

As quinze para as sete Vanessa apareceu no bar e pegou os convites com Raul.

 

- Não faz idéia do trabalho que deu para arrumar isso. Tive que pagar mais caro!

 

- Não faz mal; você é um anjo!

 

 

Vanessa pagou os dois convites, pagou o que devia e olhou à sua volta. Raul parecia preocupado com alguma coisa.

 

- Escuta aqui; vai ser um luau bem mistureba, héin. Vai ter gente careta, mas também vai ter muita bicha e sapata.

 

- Detesto quando você usa esses termos...

 

- Ok; vai ter muito hetero, homo e indecisos... Melhorou?

 

- Não debocha... Quantas horas?

 

- Cinco para as sete... Será que ela vem?

 

 

Vanessa sentiu um aperto no peito; "por que ela viria?", pensou. Mal se conheciam e seu relacionamento não passava de profissional. Que coisa estúpida esse encontro...

 

 

Quando o relógio marcou oito horas Vanessa desistiu de esperar; ela não viria.

 

- Não fica assim, Ashy...

 

- Assim como? Não estou nem aí! Ela que perdeu a chance de se divertir um pouco; acho que ela não estaria mesmo preparada para esse tipo de programa... Como fui trouxa a ponto de achar que ela sairia do mundinho dela para fazer um programa ligth desses? Que burra que eu...

 

 

Nesse instante Raul cutucou Vanessa no braço; Alessandra entrava pela porta do restaurante com uma calça corsário, uma camiseta branca justa e tênis. Os cabelos estavam soltos e um pouco puxados para trás da orelha; os olhos, azuis e estonteantes como sempre. Ela viu Vanessa mais adiante e olhou o relógio; em seguida sorriu e caminhou em direção aos dois.

 

- Acho que estou atrasada...

 

- Um pouco... � falou Vanessa tentando esconder o sorriso de felicidade ao vê-la � Aconteceu alguma coisa?

 

- Não... Podemos ir; antes que eu mude de idéia.

 

 

Vanessa concordou e ambas saíram.

 

 

 

 

A praia ficava a apenas alguns minutos dali e elas foram andando; o silêncio chegou a incomodar em certos momentos, mas Vanessa respeitou aquilo. Parecia que elas estavam se dando um tempo para se soltarem; parecia que aquele silêncio falaria mais do que se estivessem conversando há horas.

 

 

Enfim, chegaram a tal praia que pertencia a um clube onde organizavam aquele tipo de festa sempre. As pessoas estavam vestidas bem à vontade e algumas usavam roupas de banho.

 

 

Após entrarem Vanessa foi logo numa barraca onde estavam distribuindo a cerveja - o convite dava direito a tudo, incluindo a bebida; por isso tinham sido tão caros! Ela se encontrou com alguns velhos conhecidos, apresentou Alessandra a todos e começou a conversar com seus amigos.

 

 

Alessandra olhou tudo à sua volta e, apesar do lugar ser realmente maravilhoso, aquele agito, aquelas pessoas, nada daquilo combinava com ela. Procurou logo um lugar mais sossegado e foi sentar-se na areia perto da arrebentação sem que Vanessa percebesse. Ficou de longe observando a jovem doutora que conversava e brincava com todos e parecia realmente estar se divertindo ali. Reparou em detalhes que lhe escaparam em outras ocasiões; o jeito de tirar a franja dos olhos, o risinho de lado quando acha que alguém está fazendo hora com ela, as coxas firmes que se mostravam discretas por baixo da saia santropê, os músculos das costas que se mexiam a cada movimento mais brusco dos braços. Incrível como se repara em pequenos detalhes quando se pára para olhar uma pessoa. Ficou alguns minutos ali, até que Vanessa procurou por ela ao seu lado e não achou. Viu quando a jovem doutora pediu licença a seus amigos e saiu para procura-la no meio da festa; só então a perdeu de vista e entregou-se a seus pe

nsamentos.

 

 

Alguns minutos depois Vanessa avistou Alessandra num ponto mais afastado; pegou duas cervejas e foi para lá.

 

- Muita diversão para uma noite?

 

- Hum? � absorta em seus pensamentos Alessandra nem viu quando Vanessa se aproximou e sentou-se ao seu lado - Ah, me desculpe; é que aqui parecia mais tranqüilo... Podemos ir para lá se você quiser.

 

- Não precisa. � ela estendeu a cerveja para Alessandra � Não entendo como uma pessoa tão segura de si não consegue se...

 

 

Alessandra interrompeu Vanessa com seu olhar fuzilante; se não estivesse tudo em paz ela acharia que a outra iria mata-la a qualquer minuto.

 

- Escuta... Eu não queria vir; para falar a verdade ainda estou tentando descobrir porque vim. Quando cheguei em casa estava decidida a ir deitar, dormir e só acordar na segunda-feira. Não sei o que deu em mim para vir aqui; não gosto de me encontrar com pessoas que não conheço, não gosto de festas assim...

 

 

As duas se encararam por alguns segundos; Alessandra continuou.

 

- E fico me perguntando por que você me traria numa festa dessas, com esse tipo de pessoas.

 

- Ah, desculpa; é que... Desculpa; acho que não devia ter te trazido aqui e...

 

Alessandra não esperou que Vanessa concluísse a frase. Aproximou-se dela e, segurando o delicado rosto da doutora com uma das mãos, deu um suave beijo em seus lábios.

 

 

Vanessa sentiu seu corpo estremecer; o que era aquilo? O que aquele furacão nova-iorquino estava fazendo com ela? O beijo durou segundos, mas para a jovem doutora pareceu uma eternidade. Sentiu o calor dos lábios de Alessandra, das mãos, achou que estivesse sonhando. Não que amasse aquela mulher de paixão, mal a conhecia; mas sentia uma atração forte pela beleza, pela força, pelo físico e, agora, por aqueles lábios.

 

 

Elas se separaram e Vanessa manteve os olhos fechados; não queria acordar, não queria que aquilo acabasse. Foi Alessandra que a trouxe de volta a realidade.

 

- Tudo bem?

 

 

Vanessa não teve vontade de falar; apenas abraçou Alessandra em puro reflexo, ou sei lá o quê que aquilo significava.

 

 

Alessandra, por sua vez, ficou sem reação. Não estava acostumada a ter alguém em seus braços daquela maneira. Uma sensação estranha percorreu seu corpo, algo que ela não podia controlar e isso a assustou um pouco; não gostava de perder o controle da situação. Mesmo assim envolveu Vanessa num abraço carinhoso que nem ela mesma sabia que podia dar. A outra se aconchegou mais ainda nos braços fortes de Alessandra e a apertou contra seu peito.

 

 

Ficaram ali em total silêncio, apenas ouvindo o barulho das ondas que quebravam tão próximas a elas; falar não faria diferença naquele momento. Separaram-se algum tempo depois e se olharam novamente. Dessa vez foi Vanessa quem falou.

 

- Por que você tem esse medo todo de se envolver com as pessoas?

 

- Não tenho medo; só... Só não gosto.

 

- Nunca recebi um abraço tão gostoso em toda a minha vida! Por que você é assim, tão fechada? O que aconteceu de tão grave na sua vida que te fez fechar as portas para o resto do mundo?

 

 

Alessandra olhou para o horizonte; o sol já havia se escondido há algum tempo, mas ainda se via uma claridade ao longe. Nunca havia conversado sobre seu passado com ninguém e agora aquela estranha � que ela acabara de beijar � queria discutir por que ela era assim, tão fechada. Aquilo era abuso, intromissão; ela tinha sua privacidade e ninguém podia invadi-la. Nem mesmo aqueles olhos verdes...

 

- Não sei se estou preparada para falar da minha vida com uma pessoa estranha...

 

- Estranha? Mas você acabou de me beijar!

 

- Isso não torna você uma das minhas melhores amigas...

 

- Você não sabe mesmo conviver com as pessoas, héin?!

 

- Olha, fiz isso porque achei que você também queria e...

 

 

Vanessa olhou nos olhos de Alessandra, segurando o queixo da outra com uma das mãos.

 

- E eu queria mesmo; mas queria também te conhecer porque, não sei como, me senti atraída por você. Queria conhecer você um pouco melhor para ver se valia à pena me arriscar, se era loucura minha me envolver com um iceberg que nem o sol daqui consegue derreter.

 

 

Alessandra não conseguia tirar seus olhos de Vanessa; a jovem tinha um certo domínio sobre ela que não sabia explicar de onde vinha, ou como aconteceu. Foi tudo tão de repente...

 

 

Suspirou fundo e segurou a mão da doutora gentilmente.

 

- Também quero te conhecer; conhecer além da doutora que está cuidando de mais um paciente, entende. Queria uma chance... Mas preciso de um tempo para me acostumar com isso; há anos não estou junto com alguém.

 

 

Vanessa sorriu e beijou a mão que segurava a sua tão delicadamente; nem parecia que pertenciam àquela mulher que dava piruetas e pontapés em quem saísse dos eixos.

 

- Ok... Tudo a seu tempo.

 

 

E elas se beijaram novamente.

 

 

 

 

Vanessa acordou e olhou as horas; oito da manhã. Teve um sonho estranho. Estava numa festa com uma de suas pacientes � a mais linda de todas, isso era verdade! � e elas haviam se beijado e ficado juntas a noite toda. Riu daquilo e levantou-se lentamente, esfregando os olhos. Mas quando olhou para o outro lado da cama, lá estava Alessandra. Dormia calmamente deitada de costas com os braços debaixo da cabeça como apoio. Ela estava nua e exibia, mais uma vez, os músculos de suas costas, tão cultivados ao longo dos anos.

 

 

Vanessa se assustou e achou que ainda estava sonhando. Recostou-se novamente no travesseiro e passou a mão pelos cabelos sedosos de Alessandra, pelas costas de pele tão macia. Era real.

 

- Bom dia... � Alessandra falou ainda com os olhos fechados.

 

 

Vanessa assustou-se com ela e sorriu em seguida.

 

- B... Bom dia...

 

- Você não está sonhando, se é isso que está pensando.

 

- Humm... Que horas chegamos?

 

- Por volta das três... Acho que bebemos demais.

 

 

Vanessa tentava se lembrar o que tinha acontecido depois daquele primeiro beijo, mas uma névoa encobria seus pensamentos e nublava sua memória. Não conseguia se lembrar de quase nada sem que sua cabeça doesse horrores!

 

 

Alessandra viu o constrangimento da jovem doutora e levantou-se, recostando-se nos travesseiros. Vanessa pode ver parte daquele corpo perfeito, encoberto apenas por um fino lençol.

 

- Meu Deus; você está nua...

 

- Hum; é verdade... E foi você quem tirou minhas roupas.

 

- Meu Deus...

 

- Agora não é hora para ética profissional, Vanessa; acho que já somos bem crescidas para algumas coisas.

 

- É, mas... Não era para ser assim... Não me lembro de nada! De nada...

 

 

O incômodo de Vanessa era justificável; ficar com uma pessoa uma noite inteira, se divertir, transar com ela e no final não se lembrar de nada; aquilo parecia muito embaraçoso, pelo menos para Vanessa parecia.

 

- Vem cá...

 

 

Alessandra puxou Vanessa para perto de si e deitou-a em seu peito; não acreditava que estava se envolvendo assim com alguém, mas estava gostando muito. Sentia-se tão bem como há muito tempo não sentia. Aquilo deveria ser "estar apaixonado"!

 

- Olha... Não sou muito boa para falar. Sei que você não deve se lembrar de muito que aconteceu ontem; mas posso te dizer que foi tudo maravilhoso. Se te fizer sentir melhor, eu... Bem... Eu me diverti muito ontem à noite, tanto na praia como aqui, sozinha com você. Não sei se isso alivia esse desconforto que você está sentindo, mas é o que eu posso fazer agora por você.

 

- Me lembro de umas coisas... Você dançou!

 

- Ai, ai... Preferia que não se lembrasse de certos detalhes...

 

-... E me carregou para o mar e entramos juntas nele de roupa...

 

-... Você não está tão ruim assim!

 

-... E fizemos amor na areia da praia...

 

- Wow; aí você embolou tudo! Isso rolou foi aqui no seu quarto... � Alessandra suspirou fundo e sorriu de lado; aquele sorriso malicioso que derrubava qualquer um - Desculpe o comentário que vou fazer, mas seu corpo me deixou meio louca ontem...

 

 

Vanessa riu e abraçou forte Alessandra. Não que estivesse acostumada a se envolver tão intimamente, mas aquela mulher tinha algo que a atraía mais que qualquer outra pessoa o havia feito. Um charme, um jeito de falar, um jeito de abraçar, um jeito de beijar; nunca ninguém a abraçara, nem a beijara como Alessandra o fizera.

 

- Fico me perguntando que fim isso vai ter... � questionou Vanessa.

 

- Não sei; o fim pode estar bem perto, ou não. Acho que depende de como vamos encarar as coisas.

 

- Você mora tão longe e daqui a alguns dias vai embora. Acho que somos como mais um daqueles romances de verão.

 

- Pode ser, mas o fato é que me sinto atraída por você agora e se temos tão pouco tempo, por que ficar pensando na despedida?

 

- Acho que é inevitável...

 

 

Alessandra ergueu-se na cama e agora Vanessa podia ver os seios firmes, a pele morena, os cabelos a cair pelos ombros. Ela segurou as mãos da jovem doutora e beijou-as. Vanessa sorriu.

 

- Vamos curtir; você disse que me mostraria como me divertir. Então me mostre!

 

- Gostaria que as pessoas nos vissem juntas para saberem como você pode ser sensível e carinhosa.

 

- Tem coisas que são melhores se compartilhadas com poucos. Não divido minha intimidade com os outros; eles podem usar isso contra mim.

 

 

Vanessa aninhou-se de novo nos braços de Alessandra; não queria sair dali nunca mais. Parecia que o mundo tinha acabado e só restado aquele quarto, as duas juntas. Que poder era esse que essa mulher exercia sobre ela?

 

 

A verdade é que nada mais importava, pelo menos ali, naquele momento. E o jeito era não pensar no fim, mas sim, no presente, no agora.

 

- Quer dar uma andada na praia? � perguntou Vanessa um pouco insegura da resposta.

 

- Claro; por que não?

 

 

Elas se levantaram e trocaram de roupa; Vanessa emprestou uma camisa para Alessandra e elas saíram. Em certos pontos as mãos se encontravam uma com a outra e iam andando assim pela praia deserta. Não precisavam se incomodar em serem vistas porque apenas um ou outro transeunte aproveitava o sol que já, àquela hora da manhã, ardia. Andaram por alguns minutos.

 

- Preciso dar uma passada em casa; olhar se alguém ligou... Se Drake ligou, para ser exata.

 

- Se quiser posso voltar sozinha daqui...

 

- Quero que você vá comigo.

 

 

A resposta foi firme e sem direito de negativa.

 

- Ok. Depois voltamos até minha casa, pegamos meu carro e podemos ir até o parque aquático; acho que consigo fazer você se divertir lá!

 

- Humm... Não sei; multidão...

 

- Não seja rabugenta; vai ser ótimo!

 

 

Andréa suspirou alto e, relutante, concordou; aquele sorriso e aqueles olhos verdes pareciam conseguir o que queriam sempre.

 

Algumas horas depois as duas se divertiam no parque aquático; Vanessa conseguiu levar Alessandra a vários brinquedos, principalmente os que pareciam perigosos demais.

 

 

Depois de um dia inteiro de diversão, ambas estavam exaustas.

 

- Acho que eu deveria ter tirado uma foto sua enquanto andávamos naquele toboágua; ninguém vai acreditar se eu falar que você se divertiu ali.

 

- Não ouse contar para ninguém, doutora Ashley.

 

- Por que? Foi ótimo! Acho que todo mundo deveria saber!

 

- Não inventa... Tem coisas que são mais gostosas quando guardamos com a gente, já falei...

 

 

Nesse instante chegou até as duas um desses fotógrafos de parque, desses que tiram fotos instantâneas para recordações.

 

- As duas lindas senhoritas gostariam de uma foto? Não sei se é possível, mas acho que vocês ficariam mais lindas ainda!

 

- Não... � falou Alessandra secamente.

 

- Que é isso? Claro que nós queremos; fica de recordação. � e chegando mais perto sussurrou no ouvido dela � Não vou mostrar para ninguém.

 

 

Alessandra estava relutante, mas acabou cedendo.

 

- Ok... Uma foto...

 

 

O homem se posicionou e focalizou.

 

- Cheguem mais perto, como boas amigas; isso é uma foto alegre!

 

 

As duas coraram levemente e chegaram mais perto. Alessandra abusou da pouca distancia para abraçar Vanessa. Daquele jeito os sorrisos saíram mais espontâneos.

 

- Olha que beleza; vai ficar maravilhosa!

 

 

Ele bateu a foto e entregou o papel que saiu da Polaroid para Alessandra.

 

- Ficou boa, senhorita?

 

- Humm... Ficou; pode tirar mais uma?

 

 

Vanessa assustou-se com aquilo, mas não falou nada. O homem bateu, então, a segunda foto e entregou novamente para Alessandra. Por que entregava para ela? Será que parecia que ela estava no comando?

 

Alessandra pagou pelas fotos e o homem foi embora.

 

- Toma; para você se lembrar de mim de um jeito diferente.

 

- Diferente como?

 

- Sorrindo... Não é sempre que faço isso.

 

- E por isso que você pediu que ele tirasse outra?

 

 

Alessandra não respondeu, mas Vanessa sabia qual seria a resposta.

 

- Você quer guardar uma com você, não é? Para quando você for embora...

 

- É... Acho que é isso.

 

Vanessa sentiu os olhos se enxerem de lágrimas e virou o rosto para o lado. Mas era impossível disfarçar.

 

- Vanessa... Não faz isso; vamos aproveitar enquanto estamos aqui.

 

- Não sei como você consegue simplesmente não pensar nisso.

 

- Acredite, eu penso. Mas aprendi que não posso ficar pensando nesse tipo de coisas, Ashy. Perco a razão, perco a direção. Gosto de saber onde estou pisando, gosto de ter o controle, entende?

 

- Entenderia melhor se você me contasse um pouco mais de você... Me deixasse te conhecer.

 

 

Alessandra suspirou e vasculhou o passado em sua mente. Tanta coisa triste, tantas perdas.

 

- Muitas coisas aconteceram comigo, Ashy. Perdi muitas pessoas em quem confiava e amava. Uma dessas pessoas foi uma parceira do FBI. Eu a amava, ela não sabia, mas para mim estava bom daquele jeito. Trabalhávamos juntas e eu ia vivendo. � ela fez uma pausa e suspirou � Sabe o que é um dia você confiar numa pessoa e no outro ver que nada era o que você imaginava?

 

- Ela fez alguma coisa com você?

 

- Ela traiu o departamento e eu... Eu...

 

- Você teve que prende-la.

 

- Eu a matei, Ashy... Não foi culpa minha, ela estava de capuz, haviam feito uma emboscada... Eu nunca teria atirado se soubesse que era ela. Nunca.

 

- Eu acredito em você, minha querida. Mas não pode se culpar por isso, não pode mesmo.

 

 

Vanessa abraçou Alessandra e viu que ela podia ser frágil, que ela era frágil e que a única coisa que tornava dura era essa carapaça que havia construído ao redor para que não a enxergassem como ela realmente era.

 

 

Alessandra retribuiu o abraço e conteve as lágrimas que queriam descer. Sentia-se bem nos braços daquela jovem doutora, não pensou que se pudesse se sentir assim de novo nos braços de outra mulher.

 

 

 

 

As consultas transcorreram normalmente e as duas se encontravam sempre depois que Vanessa saía do consultório.

 

Depois de um mês de tratamento o braço de Alessandra estava normal de novo. Não precisava mais das sessões de fisioterapia.

 

- É, senhorita Cicconi; parece que não precisa mais de meus cuidados.

 

 

Alessandra aproximou-se de Vanessa e, suavemente, beijou-a.

 

 

Nesse instante, Diane entrou na sala levando alguns papéis e deparou-se com a cena. Ficou em choque assistindo aquilo até que Vanessa notou sua presença.

 

- Di...!

 

- Ah... Bem... Não queria atrapalhar nada; é que... Você me pediu a ficha da senhorita Cicconi e... Meus Deus; perdão, Ashy!

 

- Calma, Di; relaxa... Devia ter te contado.

 

- Por que? Vocês... Vocês estavam... � Alessandra parecia confusa.

 

- Não! Nós não temos nada; é que ela é minha melhor amiga e... � Vanessa tentava se explicar enquanto Diane saiu da sala devagar, sem ser notada � Hei, onde ela foi?

 

- Saiu a pouco. Acho que ela gosta de você...

 

- Diane? Não, não mesmo. Somos apenas amigas, muito amigas. Vou falar com ela; me aguarde um segundo, sim?

 

- Claro; vou ligar para meu capitão, enquanto isso.

 

- Fique à vontade; volto já.

 

 

Vanessa saiu rápido e foi em direção a recepção. Diane estava sentada em sua cadeira com as duas mãos no rosto; parecia chorar.

 

- Diane; o que ouve?

 

- Me desculpe, Ashy. Sempre falei que nunca me envolveria com você, conversamos a respeito disso muitas vezes; mas vendo você com aquela mulher fiquei... Fiquei...

 

- Com ciúmes?

 

- Acho que é... Me desculpe.

 

 

Vanessa aproximou-se de sua amiga e abraçou-a. Diane a abraçou forte também e enxugou as lágrimas nos olhos.

 

- Não queria te ver sofrer por causa dela.

 

- Mas ela não me fez nada de mal, Di!

 

- Mas vai fazer! Ela vai embora e você vai ficar triste de novo, como quando terminou com aquele carinha da faculdade.

 

- Di; eu sabia que isso podia acontecer quando o tratamento dela chegasse ao fim. Quis correr o risco. Ela é incrível; você não acreditaria se te contasse.

 

- E agora; como é que você vai ficar?

 

- Não vou pensar nisso agora, Di; talvez tenha mais alguns dias para ficar com ela, quem sabe.

 

 

As duas se abraçaram novamente e Vanessa voltou para sua sala. Alessandra desligava o telefone quando ela entrou.

 

- Falou com o capitão?

 

- Falei; mandou um abraço para você.

 

- Humm...

 

- No que está pensando?

 

- Que agora você vai embora...

 

 

Alessandra se levantou, foi até onde a doutora estava e abraçou-a.

 

- Não preciso partir agora. Drake me disse que não posso voltar ainda, que tenho que cumprir os dois meses que ele estipulou para mim; como se fossem férias.

 

- Então você só não vai embora porque ele mandou você ficar...

 

- Não. � ela ergueu o rosto de Vanessa com uma das mãos e acariciou-lhe levemente a face � Não vou embora porque quero ficar com você enquanto ainda posso.

 

 

Vanessa não conseguia conter o choro. Aquilo parecia tão surreal. E o fato dela ficar não mudava nada; mais um mês e ela teria de ir embora. Não podia pensar naquilo; não naquele momento.

 

 

As duas se beijaram e decidiram ir para a casa de Alessandra e ficar juntas, sozinhas e sossegadas.

 

 

 

 

Vanessa acordou cedo e preparou algo para comerem. Seus olhos estavam inchados, como se não tivesse dormido direito e tivesse chorado a noite toda. Ela havia ficado acordada quase que a noite toda pensado muito no que estava acontecendo e seu lado racional achou que era melhor aquilo terminar ali antes que ela se envolvesse mais com Alessandra. Não que isso já não estivesse acontecendo, mas talvez se parassem com aquilo naquele momento o sofrimento seria menor.

 

 

Alessandra acordou alguns minutos depois e viu que Vanessa não estava ao seu lado. Sentiu falta daquela pele macia encostando à sua, então, levantou-se para procura-la. Encontrou-a sentada no sofá tomando uma xícara de chá. Ela chegou perto da jovem médica e beijou seu rosto. Sentiu que Vanessa parecia fugir de seu contato, isso a chateou.

 

- Aconteceu alguma coisa?

 

 

Vanessa não sabia como começar a conversa, não sabia o que dizer. Sabia que tudo aquilo a estava matando por dentro.

 

- Acho melhor você ir embora...

 

- O quê?

 

- Já acabamos o seu tratamento e...

 

- Por que está fazendo isso, Ashy?

 

 

Vanessa virou-se para Alessandra, os olhos estavam cobertos de lágrimas.

 

- Você não entende? Não quero ficar com você mais um mês e te ver indo embora! Não vou conseguir passar esses dias ao seu lado sabendo que estou correndo contra o relógio! Não quero isso, é demais para mim...

 

 

Alessandra engolia o choro, não queria demonstrar fraqueza.

 

- É isso mesmo que você quer?

 

- Não, mas é o que deve ser feito...

 

 

Alessandra não conseguia mais conter as lágrimas. Virou-se e foi para a cozinha, onde chorou baixo por muito tempo. Vanessa foi para o quarto pegar suas roupas e, sentada na cama, chorou baixinho para que Alessandra não a ouvisse. Seria melhor assim.

 

 

No dia seguinte Ashy acordou cedo e foi até onde Alessandra estava. Queria se despedir, mas não queria perder contato com aquela mulher fascinante. Quem sabe num futuro distante pudessem se encontrar novamente.

 

 

Bateu várias vezes e não houve resposta. Achou estranho porque ela disse que iria embora só na próxima semana.

 

 

Um vizinho que saía de casa viu a jovem tentando olhar dentro da casa.

 

- Está procurando aquela mulher? Ela foi embora hoje cedo, antes das cinco. Achei até que alguém estava tentando invadir a casa, mas era ela saindo.

 

Vanessa sentiu seu corpo esfriar, uma solidão estranha, um vazio. "Ela se foi", pensou.

 

- Ela deixou um envelope caso alguém viesse aqui.

 

- Alguém... Quem?

 

- Humm... � o homem tirou o envelope do bolso � é para Dra. Ashley.

 

- Sou eu.

 

 

Ela pegou o envelope e abriu com cuidado. A polaroid, mais nada. Apenas a foto do parque, ela havia esquecido na casa e Alessandra a estava devolvendo como uma recordação e um adeus.

 

 

O vizinho pediu licença e foi embora. Vanessa sentou-se na escada e chorou enquanto olhava a foto. Um rádio em algum lugar ali perto tocava uma canção. A letra da música era triste e fez com que Vanessa lembrasse mais uma vez de Alessandra.

 

 

"If I could, then I would

 

I'll go wherever you will go

 

Way up high, or down low

 

I'll go wherever you will go�"

 

 

 

Seis meses depois de Alessandra ter ido embora Vanessa tentou se acostumar com a falta que aquela mulher fazia. Mudou o corte de cabelo para tentar começar uma nova vida. Não saía mais, não se divertia, não se interessava por ninguém, não tinha mais vontade de continuar como era antes de Alessandra aparecer. Sua vida nesses últimos meses havia sido apenas trabalho e mais trabalho. Precisava ir a Nova York novamente resolver alguns assuntos para seu pai, mas estava adiando a viagem há dois meses, não queria correr o risco de se encontrar com Alessandra novamente.

 

 

Diane estava preocupada.

 

- Tem seis meses que essa mulher te deixou e você ainda está assim. Não me conformo com isso, Ashy! Uma pessoa cheia de vida como você sempre foi... Quem te vir não te reconhece...

 

- Di... Vou te contar uma coisa. Não foi ela quem me deu um fora, fui eu, ok. Fui eu que a mandei embora, fui eu quem desistiu, fui eu... Pára de falar que ela estragou com minha vida porque a culpa disso tudo é minha. Eu não quis nem mesmo arriscar para ver o que aconteceria. Chega desse papo, ok? Estou cansada...

 

 

Vanessa sentou em sua poltrona e chorou. Naqueles últimos meses não havia conseguido parar de pensar um minuto na poderosa senhorita Cicconi. Aquilo a estava enlouquecendo.

 

- Desculpa, Ashy... Como eu poderia saber? Mas por que você a mandou embora, então?

 

- Medo... Medo de me arriscar...

 

- Então vá atrás dela.

 

- O quê? � Vanessa achou que tinha ouvido mal.

 

- Você ouviu, vá atrás dela. Se você a ama desse jeito não vejo porque não se arriscar. Mas vá preparada para tudo. Raiva, ressentimento, vê-la com outra pessoa, e acabe com tudo de uma vez. Fique com ela, ou esqueça dela. Uma pessoa não pode viver assim, na sombra de outra. Isso vai te destruir! Pensa que não sei que você transferiu a maioria dos seus pacientes para o seu pai? Isso não é justo com você, Ashy, nem comigo! Lutamos para ter essa clínica e você põe tudo a perder por causa de uma mulher!? Chega disso, não acha?

 

 

Vanessa enxugou as lágrimas e olhou firme para Diane.

 

- Acho que você tem razão. Vou resolver isso de uma vez... Já devia ter feito isso há muito tempo.

 

 

Vanessa embarcou no dia seguinte para Nova York e sentiu o coração apertado com a possibilidade de encontrar Alessandra de novo. Ela poderia estar com outra pessoa e isso seria difícil de agüentar, mas agora era tarde. Precisava resolver isso para tentar retomar sua vida novamente.

 

 

Algumas horas depois chegou àquela cidade fria e pulsante. Nova York parecia uma bomba preste a explodir. Estranho como um lugar não pára nunca.

 

 

Desembarcou as duas da manhã e não queria dormir, não dormia direito há seis meses. Resolveu deixar as coisas no hotel e sair para beber alguma coisa. Não conhecia muito da cidade, mas sabia de lugares interessantes para se freqüentar. Um deles era o "Stop", um bar gay que era freqüentado pela nata da cidade. Um lugar discreto, organizado e agradável onde as pessoas podiam se curtir, dançar e beber sem se preocupar com câmeras e bisbilhoteiros. Muitas pessoas importantes desfilavam ali dentro e era difícil conseguir entrar. Mas Vanessa conhecia o dono. Ele fez um tratamento com ela há alguns anos e como ficou se sentindo muito bem depois de tudo convidou Vanessa para conhecer seu bar. Ela tinha um cartão vip para entrar sem passar pela fila.

 

Lá dentro uma música alucinante arrebentava os ouvidos, as coisas tinham mudado por ali. As pessoas pareciam às mesmas, mas o agito estava diferente. Reconheceu um dois políticos acompanhados de garotas e garotos de programa finos, uma mulher que havia sido sua professora na faculdade, um amigo de seu pai dançando com um rapaz uns vinte anos mais novo. Quem entrasse ali com uma câmera ficaria rico.

 

 

Mas um rosto lhe chamou atenção. César, o barman, havia estudado com ela há muitos anos e era seu amigo ali naquela cidade de pedra.

 

 

Foi em direção ao balcão e sentou-se.

 

- Será que consigo tomar uma cerveja gelada aqui?

 

 

O rapaz se virou e viu a jovem médica que sorria depois de tanto tempo.

 

- Ashy!! Quanto tempo!!!!!

 

- É... O trabalho enobrece o homem... Acho que isso serve para as mulheres também...

 

- Acredito que sim! Como você está? Humm... Não parece muito bem. Aconteceu alguma coisa?

 

- É uma longa história, César, precisaria de algum tempo para contar...

 

- Certo. Espere aí um minuto que vou ver se o outro barman já chegou. Peço para ele me substituir mais cedo.

 

 

Ele colocou uma cerveja em frente a jovem e saiu. Vanessa tomou um gole e fechou os olhos, estava precisando daquilo.

 

 

Alguns minutos depois César reapareceu.

 

- Pronto. O Vinicius vai ficar aqui para mim. Agora me conta, qual o safado deixou você assim?

 

- Bom, para começar não foi �ele�...

 

- Humm... Essa é nova para mim. Desde quando você é gay, Ashy?

 

- Não sei, mas o fato é que me sinto melhor com mulheres que com homens...

 

- Ai, droga... Agora perdi de vez a minha chance...

 

- Deixa de ser bobo! Eu sei que do que eu gosto você corre às léguas!

 

- Mas não espalha! � os dois riram � Mas me conta, quem te deixou assim?

 

- O nome dela é Alessandra, é do FBI.

 

- Cruzes! Olha as confusões que você arruma, Ashy! Deve ser "um bronco" essa mulher.

 

- Ela não é isso, não. É muito gentil e delicada quando quer!

 

- E você está apaixonada, pelo visto.

 

- Totalmente. Achei que a esqueceria quando nos separamos, mas não paro de pensar nela um minuto sequer!

 

- E como é que esse relacionamento inusitado teve início?

 

 

Vanessa contou tudo desde o começo não poupando nenhum detalhe importante. Mostrou a foto dela para o amigo e notou que ele sorria.

 

- O que foi?

 

- Nada. Ela é muito bonita, você tem bom gosto.

 

- E um péssimo tato para relacionamentos...

 

- Pára com isso. Então, você vai atrás dela?

 

- É minha última esperança. Tenho que resolver isso de uma vez.

 

- Concordo. Mas descanse um pouco antes. Você falou que tem algumas coisas para resolver aqui. Resolva-as primeiro e depois faça o que tem que ser feito sem se preocupar com mais nada.

 

- Como sempre você tem razão, César. Vou para o hotel dormir um pouco. Amanhã, assim que levantar, resolvo o que vim fazer e depois venho para cá para conversarmos melhor. Pode ser?

 

- Claro. Assim tomamos uma cervejinha juntos e você me conta como está a vida naquela cidadezinha chata que você vive.

 

 

Eles se despediram e Vanessa voltou para o hotel. Estava sem sono ainda, mas preferiu tentar dormir. Tinha que ser menos imatura e fazer as coisas direito, se estivesse com a cabeça quente e cansada não conseguiria resolver nenhuma das duas coisas as quais tinha planejado.

 

 

Chegando no hotel tomou um banho relaxante e comeu alguma coisa. Deitou-se na cama e, remexendo na bolsa, encontrou um vidro de calmantes leves. Tomou um e ligou o rádio. Antes de adormecer escutou uma canção conhecida. Uma lágrima desceu pelo seu rosto.

 

 

"And maybe I'll find out

 

A way to make it back someday

 

To watch you, to guide you

 

Through the darkest of your days

 

If a greater wave shall fall

 

And fall upon us all

 

Then I hope there's someone out there

 

Who can bring me back to you�"

 

 

 

 

O dia amanheceu nublado, como a maioria dos dias naquela época do ano em Nova York. Alessandra acordou com o telefone tocando. Olhou o relógio, nove da manhã. Atendeu o aparelho desejando torturas múltiplas a quem lhe telefonava àquela hora num dia de folga.

 

- Acho bom seu importante...

 

- Deixa de ser rabugenta, Al. Preciso conversar com você.- As nove da manhã, na minha folga? Fala que você está brincando...

 

- Tem uma pessoa que gostaria que você conhecesse...

 

- Já falei que não quero me envolver com ninguém, César! Deixa de ser chato! Vou mandar te prender por distúrbio...

 

- Do seu sono? Vá em frente, mas antes dê uma passada aqui no Stop. Hoje à noite, por volta das onze. Estou te esperando.

 

 

Ele desligou e deixou Alessandra no ar. Como ela odiava quando seu amigo fazia isso. Conheceram-se há alguns anos quando Alessandra estava no bar e impediu que um maluco quebrasse tudo porque o barman não dava bola para ele. Ficou amiga daquele jovem porque ele parecia bem centrado, tinha uma mentalidade diferente para pessoas daquela idade.

 

 

Só não entendia o porquê dessa obsessão dele em vê-la com alguém. Desde que voltou para Nova York Alessandra havia mudado, nunca esteve tão fria quanto estava agora. O Capitão Drake se arrependeu de tê-la mandado para L.A., mas agora era tarde. Teriam que lhe dar com o furacão novaiorquino mais furioso ainda.

 

 

Ela colocou o telefone no gancho e esfregou os olhos. Não, não ia levantar de jeito nenhum.

 

 

Puxou o lençol e voltou a dormir.

 

 

 

 

Nove da noite. As horas passaram rápido e Vanessa não via o porquê de ficar sozinha e depressiva naquele hotel. Havia rodado o dia todo resolvendo algumas coisas para seu pai e para o consultório. Estava cansada de olhar para as paredes do quarto e resolveu sair mais cedo. Tomou um banho e foi para o Stop encontrar-se com César. Estava se sentindo como naqueles dias em que saía da faculdade e chapava todas com os amigos. Tudo bem que isso aconteceu apenas duas vezes, mas não tinha porque não ter uma terceira.

 

Chegando lá, sentou-se ao balcão e pediu para chamarem seu amigo, César. Ele apareceu alguns minutos depois.

 

- Nossa, mas já?

 

- Credo... Vou embora, então!

 

- Não é isso, boba! Tô brincando. Vamos nos sentar ali no canto, reservei uma mesa para a gente.

 

- A gente... Quem?

 

- Convidei uma amiga para se juntar a nós.

 

- Ai, lá vem você querendo empurrar alguém para cima de mim. Pode parar, César!

 

- Relaxa. É só uma amiga que, como você, está numa pior, sofrendo porque quem ela amava simplesmente a deixou.

 

- Nossa... Que péssimo.

 

 

Os dois conversaram sobre várias coisas. Vanessa contou mais um pouco de seu relacionamento relâmpago com Alessandra, César contou dos seus rolos com homens e mulheres famosas que freqüentavam o bar.

 

 

Vanessa estava de costas para entrada e não viu quando Alessandra entrou e procurou a mesa que César havia reservado. Avistando-o ela caminhou naquela direção.

 

- Oi César... � ela olhou para o lado e não acreditou no que seus olhos viam � Ashy, quer dizer, Dra. Ashley?

 

- Senhorita Cicconi? Que surpresa.

 

- Pontual como sempre, héin Al. Vamos, sente-se, peça alguma coisa para beber. A propósito, vocês já se conhecem?

 

- Provavelmente você sabe que sim, César. Não se faça de bobo. � falou Alessandra com sarcasmo.

 

 

O rapaz sorriu.

 

- Bom, tenho que resolver algumas coisas no bar. Volto daqui a pouco. Será que vocês podem conversar como duas mulheres adultas sem se matar?

 

Ambas olharam sérias para César enquanto ele se afastava com um sorriso nos lábios.

 

 

Vanessa não tirava os olhos de Alessandra. Ela parecia ainda mais linda, usava a franja um pouco maior presa para trás em trancinhas finas. Seu rosto aparecia muito mais assim e seus olhos pareciam realçar. Estava magnífica, mas parecia muito irritada com aquela situação.

 

 

Alessandra não gostava de ser enganada, não gostava de entrar num terreno sem saber quais armas deve usar. Estava com a guarda baixa e rever Vanessa deixou-a mais desarmada. Sua única defesa era não olhar para aquela mulher à sua frente, aquela mulher que ela amou um dia e que deixou uma marca muito forte quando saiu de sua vida. Queria levantar, mas suas pernas não lhe respondiam.

 

 

Notando que nada aconteceria se não tomasse uma atitude, Vanessa puxou conversa.

 

- De onde conhece César?

 

- Daqui.

 

- Podia pelo menos olhar para mim enquanto fala...

 

- Por que? Ashy, não queria te ver de nov. se soubesse que era isso que César estava tramando não teria vindo nunca! Você me magoou muito.

 

- Não teria dado certo, Alessandra! Você aqui, eu lá em L.A. ...

 

- E alguma coisa te faz pensar que agora daria certo por que?

 

- Não sei, queria apenas me desculpar de como agi, queria te ver... Senti tanto a sua falta...

 

 

Alessandra queria voar em cima de Vanessa e abraça-la, mas um lado obscuro seu a proibia de perdoar o que havia acontecido. Ela simplesmente havia desistido sem lutar, sem saber se daria certo, ou não.

 

- Me desculpe, Dra. Ashley. Se tem alguma coisa para resolver com o departamento pode procurar o Capitão Drake. Entre nós duas não há mais nada a ser dito. Com licença.

 

 

Alessandra se levantou e foi embora. César tentou impedi-la de partir, mas foi arremessado contra a parede.

 

- Faça isso de novo, rapazinho e nunca mais te tiro da suas enrascadas!

 

 

Ela soltou-o e saiu do bar. Ele arrumou a gola da camisa e foi em direção a mesa onde Vanessa virava mais um copo de tequila.

 

- Hei, menina, calma aí!

 

- Ta tudo bem, César. Você tentou, ela não quer nada comigo. É assim. Acho que vou embora amanhã, cuidar da minha vida, voltar a viver e sem a senhorita Cicconi na minha cabeça.

 

- Não fala assim, Ashy. Vamos tentar falar com ela de novo e...

 

- Não, César. Ela foi bem clara quando disse que não há mais nada a ser dito entre nós duas. Acabou.

 

 

Vanessa virou mais um copo e debruçou-se sobre a mesa. César sentou ao seu lado e pediu mais duas doses, abraçando sua amiga em seguida.

 

- A noite vai ser longa, minha amiga.

 

 

Beberam até tarde e Vanessa não se lembra de como foi parar na cama do hotel.

 

 

 

 

Vanessa acordou de manhã com uma baita dor de cabeça, a boca parecia uma lixa e o corpo doía como se tivesse levado uma surra. Uma surra moral, talvez, pois ela não havia se esquecido do fora que havia levado de Alessandra. Levantou-se e foi até o banheiro. Molhou o rosto, o cabelo curto facilitava um banho improvisado na pia. Sentiu-se melhor quando molhou a cabeça.

 

 

No sofá do quarto César dormia esparramado como um gato depois de uma noitada. Ela ficou com dó de acorda-lo. Deixou-o ali e pediu que entregassem almoço para dois, no quarto.

 

 

Pôs-se, então, a juntar suas coisas. Iria embora naquele dia mesmo e nunca mais voltaria naquela cidade, nem a negócios.

 

 

Alguns minutos depois a comida chegou e ela acordou César para que ele a acompanhasse na refeição.

 

- Você vai embora mesmo? Puxa, poderíamos fazer alguma coisa, como nos velhos tempos. Tem quase dois anos que você não aparece aqui, Ashy!

 

- Não... Quero ir embora. Já resolvi o que vim fazer aqui e agora quero voltar para a minha casa. Porque você não vem comigo, podemos tomar umas cervas lá no píer. Tenho amigo que é uma graça.

 

- Quem sabe outro dia. Agora não posso sair de férias no bar.

 

- É... Quem sabe...

 

 

Os dois fizeram a refeição em silêncio. Agora era a hora de César respeitar a dor de Vanessa.

 

 

Uma hora depois César tinha que voltar para o bar, então, despediu-se de Vanessa.

 

- Gostaria que você passasse lá no bar para nos despedirmos direito, tenho que sair correndo agora.

 

- Não. Não vou correr o risco de você aprontar mais uma para mim. Vem cá e me dá um abraço.

 

 

Ambos se abraçaram forte, César conteve o choro, Vanessa também.

 

- Não chora, Ashy. Você vai encontrar alguém que te mereça.

 

- É... Tomara que sim.

 

 

Ela deu-lhe um beijinho na boca e acompanhou-o até a porta.

 

 

 

 

- Não quero saber se o que você tem para falar é importante, ou não. Você me enganou e não quero papo com você por algum tempo.

 

- Escuta aqui sua policial cabeça dura. Para mim você não tem que fazer esse tipo todo, não. Sei que você ainda gosta dela! E ela está indo embora, droga!

 

 

Alessandra parou o que estava fazendo e olhou para César.

 

- E eu com isso. � ela tentava esconder as lágrimas � Que vá, não tenho nada com ela.

 

- Ok, você é quem sabe. Eu vou para o bar trabalhar. � antes de sair ele deixou um bilhete em cima da cômoda � Caso queira saber o horário e a plataforma...

 

 

Ele saiu e bateu a porta.

 

 

Alessandra pegou o papel na cômoda, embolou e jogou no lixo.

 

- Chega.

 

 

Saiu, batendo a porta violentamente.

 

 

 

 

Vanessa aguardava o horário do seu vôo impaciente. Queria sair daquela cidade o mais rápido possível. Mas o que mais a incomodava era a sensação de que Alessandra poderia aparecer ali correndo, lhe pedindo desculpas, pedindo que ficasse. E ela ficaria se a outra pedisse.

 

 

Os minutos foram passando e o sonho de ver sua amada não aconteceu. Então ela ouviu o chamado para o seu vôo. Estava na hora de ir embora. Pegou sua bolsa e foi para a sala de embarque. Na porta ainda deu uma boa olhada no aeroporto, esperou que todos entrassem na sua frente, mas não viu Alessandra. Suspirou e sem mais demora, adentrou o portão de embarque.

 

 

No avião aconchegou-se na sua poltrona e tentou relaxar. Tentou não pensar naqueles olhos azuis. Impossível. Chorou mais uma vez, não acreditava que estava indo embora. Mas agora estava fazendo o certo, pelo menos assim pensava.

 

 

Ouviu o ronco dos motores. De volta para casa, enfim.

 

 

 

 

Alessandra entrou correndo pelo aeroporto. O avião estava taxiando na pista, não conseguiria. Havia se atrasado. Então teve uma idéia, insana, mas o que importava? Se não fizesse algo perderia a mulher que ama para sempre!

 

 

Correu para o setor de fiscalização e pediu ajuda aos seus colegas do FBI de plantão.

 

- Tenente, isso pode complicar para todos nós.

 

- Escuta aqui, sargento Rupert. Se você não fizer isso por mim eu mesma farei e do meu jeito!!

 

 

O sargento já sofrera a ira de Alessandra muitas vezes, mas dessa vez ela parecia obstinada a fazer o que queria.

 

- Ok, vamos ver o que podemos fazer.

 

 

O sargento Rupert deu alguns telefonemas, brigou com algumas pessoas, xingou e no final sorriu.

 

- Pronto.

 

- Te devo essa, sargento.

 

- Disponha!

 

 

O sargento se dirigiu para a pista de decolagem. O avião acabara de retornar e estacionar em frente ao hangar.

 

Dentro do avião os passageiros estavam indignados, pois não sabiam o que estava acontecendo. Quando uma das aeromoças tentava explicar o que aconteceu a porta da frente se abriu o sargento Rupert entrou. Olhou um por um dos passageiros e apontou para Vanessa em sua poltrona.

 

- Queira me acompanhar, senhorita.

 

 

Vanessa estava tão avoada que não percebeu que o rapaz que a chamava era o sargento Rupert. Segui-o sem perguntas. Todos no avião a olhavam com uma interrogação na cabeça.

 

 

Rupert levou-a até a sala do FBI e pediu que aguardasse um pouco. Ela sorriu triste e debruçou-se na mesa, de costas para a porta.

 

 

Minutos depois ouviu alguém entrar na sala. Não se mexeu, mas perguntou:

 

- O que eu fiz de errado dessa vez?

 

- Queria me abandonar... De novo.

 

 

Ouviu aquela voz e não pode acreditar. Era ela. Não queria se virar; tinha medo de que aquilo fosse um sonho... Mas parecia real. Era ela.

 

- Al...?

 

- Isso não é um sonho...

 

 

Vanessa virou-se lentamente, ainda não acreditava que aquilo estava acontecendo. Viu Alessandra parada à porta, os braços cruzados no peito, o olhar sério. Sentiu vontade de levantar e voar no pescoço daquela mulher, mas suas pernas estavam moles, não conseguia se mover.

 

- Será que eu fiz alguma coisa errada para você não vir aqui e me dar um abraço?

 

 

A jovem médica empurrou a cadeira e levantou-se, abraçando Alessandra com força. Era real. Beijo-a com força, com paixão, como se aquele beijo fosse o último. As lágrimas rolavam sem que ela percebesse, mas estava feliz.

 

- Não chore...

 

- Não posso segurar... Te amo. Te amo demais, não sei como consegui ficar tanto tempo sem te ligar, sem me desculpar, sem pedir que voltasse. Me perdoa?

 

- Não tem o que ser perdoado. Você fez o que achou que era certo.

 

- Fui precipitada, infantil. Achei que tinha te perdido para sempre.

 

- Não perdeu e nem vai perder, se é isso que você quer.

 

- Quero você ao meu lado. Onde e como não me importa. Quero você...

 

- Drake não vai gostar quando souber disso... Nem seu pai.

 

- O que vamos fazer, então?

 

- Acho que preciso de um pouco de sol, mar, diversão...

 

- Diversão? Você? Será que ouvi direito?

 

- Não seja sarcástica...

 

- Vem morar comigo, então...

 

- Conseguiria viver comigo debaixo do mesmo teto?

 

- É o que mais quero!

 

 

As duas se beijaram novamente. No autofalante do aeroporto uma música fez Vanessa se lembrar de um dia em que tudo que ela mais queria era estar naqueles braços de novo. Agora não deixaria que aquela mulher se afastasse mais, nunca mais.

 

 

"(�)I know now just quite how

my life and love might still go on

in your heart, in your mind

I'll stay with you for all of time

 

If I could, then I would

I'll go wherever you will go

Way up high, or down low

I'll go wherever you will go

If I could turn back time

I'll go wherever you will go

If I could make you mine

I'll go wherever you will go

I'll go wherever you will go."

 

Nota da autora:

 

Se você gostou me fala, me escreve e se não gostou também. Pode soltar o verbo, é assim que a gente melhora! Meu e-mala é [email protected]

 Grande abraço e beijo no coração

 Deya

 

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