Nurit e Hansar - A Conquista de Gea

 Ana Luísa Benner

 2006

Disclaimers: Primeiro as regras: No texto a seguir existem cenas de sexos entre as personagens femininas, portanto, se de sua parte houver desaprovação quanto a esse conteúdo, aconselho a não continuar a leitura. A pessoa que mantém o site não pode, de maneira alguma, ser responsabilizada pelo conteúdo deste texto, pois tudo a que ele se refere é de minha autoria.

As personagens principais desta fic alt/über são criação minha, tendo uma semelhança muito grande com as personagens principais do seriado XWP. Mas são apenas semelhanças, pois nunca houve de minha parte, qualquer intenção de violar os direitos detidos pelos USA Studios/Renaissance Pictures sobre essas personagens. No mais, tudo que estiver escrito aqui é de minha autoria e é protegido por regras de direitos autorais.

Gente, demorou, mas consegui terminar essa fic! A todas que me cobraram (podem ter certeza que não achei ruim) meu muito obrigada pelo incentivo e pela paciência. Nessa fic eu quis fazer várias e pequenas homenagens a pessoas especiais que colaboraram com idéias e incentivos.

A primeira homenagem, sem dúvida, é para uma pessoa especial e única, que me sugeriu a cena da hipotermia e em torno da qual eu criei toda a história.

Segundo: as personagens principais têm uma filhinha. Essa homenagem é para duas amigas muito queridas, que ainda serão as mamães mais corujas que conheço!

Terceiro: a inspiração de escrever uma fic com temática futurista veio de uma fic escrita nesse estilo chamada Guerreiras Espaciais (publicada neste site). A autora é a amiga e escritora talentosa Leth Cross. Essa fic foi uma das primeiras que li na internet e adorei, por isso esta homenagem.

E por fim, ofereço essa fic de presente para as amigas Gogóia (me incentivou muito), RoseAngel (além do incentivo, escreve que é uma maravilha) e Paula Marinho (escreve, incentiva as amigas a escrever e tem um talento único!).

Como andei inventando uns nomes diferentes, gostaria que vocês soubessem como se pronunciam, pois foi assim que surgiram na minha cabeça: os nomes próprios Kalim, Nurit, Tai, Liam, Gea e Mordum têm acentos agudos na primeira vogal (ex: Kálim).

"Senadora Nurit! Senadora Nurit! Como se sente após a vitória de seu projeto?" � o repórter conseguiu perguntar, enquanto a senadora era cercada de jornalistas.

"A vitória do projeto não foi minha e sim de toda a população da Terra. � ela respondeu. � Todos acompanharam o desenvolvimento dessa idéia desde que ela surgiu e acredito que chegamos a essa vitória porque o mundo percebeu a importância que ela tem."

Os repórteres tentaram fazer mais perguntas, mas com todos falando ao mesmo tempo ficava impossível ouvir cada um.

"Por favor, por favor, aguardem a entrevista coletiva da senadora. Todos terão suas respostas." � o assessor de Kalim interferiu, afastando a multidão para que ela passasse.

Entrando no elevador que a levaria até sua sala, ela sorriu para ele, agradecendo a ajuda para escapar do burburinho.

"Parabéns, Kalim!" � ele a felicitou.

"Obrigada, Sumant. Estou muito cansada, mas realmente feliz por essa vitória!"

"Todos estamos. Afinal, acompanhamos tudo de perto e sabemos o quanto foi difícil." � ele sorriu também, mostrando os dentes muito alvos no rosto negro e forte.

"Agora temos de fazer isso andar, ou melhor, voar!" � ela saiu do elevador direto para sua mesa e jogou-se em sua cadeira. Aquela última sessão no Senado Mundial tinha sido longa e agitada. Por mais de um ano ela e alguns outros senadores lutaram para aprovar seu projeto de uma colônia terráquea num planeta batizado com o nome de Gea, descoberto fora do Sistema Solar e aquecido pela estrela anâ SXK 31, amarela como o Sol. Conseguiram, mas estava exausta.

Apesar do projeto ter recebido apenas dois votos contra, ela teve de passar horas em inúmeras reuniões com senadores de todos "Os Cinco Grandes Continentes". O projeto era grandioso e necessário, e por isso mesmo ela precisou do apoio da opinião pública do mundo todo. Chegou a perder a conta de quantas viagens fez, dando palestras e explicando o projeto detalhadamente para platéias em todo o globo. Agora ela só queria alguns dias de descanso ao lado de Tai, mas antes de voar para casa, teria de dar a última entrevista coletiva.

Antes mesmo de pensar no que faria primeiro, o comunicador holográfico chamou e ela viu o rosto de Sumant novamente.

"Kalim, os Senadores Jordan e Bradshaw estão aqui. Querem lhe falar."

"Mande-os entrar, por favor." � ela pediu.

A porta do gabinete deslizou e os dois senadores entraram. Jordan era jovem ainda, tinha uns quarenta anos e era o vigor em pessoa.; já Bradshaw ostentava uma barriga simpática e cabelos brancos já há muito tempo.

"Antes de tudo, parabéns, Kalim." � Bradshaw cumprimentou, não esperando convite para depositar todo seu peso em uma das cadeiras em frente à mesa dela. Robert Jordan imitou-o.

"Obrigada, mas vocês também fizeram sua parte." � ela agradeceu, finalmente recostando-se na cadeira macia e sentindo as costas doerem um pouco.

"Fizemos, claro, mas o empenho foi seu; sabemos disso. E agora, o que vai fazer primeiro?" � Jordan perguntou.

"De imediato, organizar uma missão para instalar um pequeno núcleo de povoamento em Gea. Já tenho dados detalhados sobre o clima e temos de levar gente para fazer as primeiras experiências com plantações."

"Precisamos saber o que exatamente poderemos produzir por lá." � Bradshaw observou.

"Isso mesmo, Linnus. � ela falou, cruzando as mãos longas sobre a mesa de vidro. � O clima produz apenas duas estações distintas e as temperaturas quase não passam de 22 graus no que podemos chamar de "verão". E pelo que alguns agrônomos me afirmaram, isso vai nos proporcionar boas safras de grãos, principalmente trigo. Além de podermos criar gado nas vastas planícies."

"Não por acaso, os alimentos de que mais precisamos." � Robert completou e Linnus Bradshaw balançou a cabeça branca, concordando.

"Agora, aproveitando que vocês estão aqui, gostaria de fazer um convite aos dois." � ela falou.

"Convite?!" � os dois senadores perguntaram ao mesmo tempo.

"Eu serei a coordenadora do projeto, tanto aqui quanto em Gea, quando a colônia já estiver instalada, mas preciso de um chefe administrativo do Alto Comando, que eu gostaria que fosse você, Linnus. E também preciso de um representante permanente do Senado Mundial. E esse seria você, Robert." � ela explicou aos dois.

Eles olharam-se e ficaram mudos.

"Bem, Kalim, eu não esperava esse convite..." � Jordan começou.

"Nem eu." � Bradshaw copiou-o.

"Mas vocês aceitam." � ela jogou, rindo.

"Ehh, não sei... eu... Você tem certeza?" � Jordan continuava surpreso.

"Claro que tenho! Vocês dois foram os colegas que mais se empenharam em me ajudar e acreditaram no projeto desde o início. Nada mais justo e correto do que continuarem comigo agora. Vamos, aceitem. Por favor."

Eles se entreolharam de novo e ela sabia que ambos estavam tentados a aceitar. Mas eles tinham famílias que também precisavam aceitar a proposta.

"Sei que vocês precisam pensar e consultar suas famílias. � ela disse, vendo os dois concordarem com a cabeça. � Não será necessário que se mudem definitivamente para Gea, se não quiserem, mas passarão boa parte do ano lá. Conversem com todos em casa e depois me dêem a resposta, certo?"

Os dois amigos deixaram sua sala e Kalim ficou pensativa por uns instantes. Eles precisam aceitar. É só a eles que conseguirei confiar esses cargos, ela ponderou.

Lembrando-se da coletiva e de que tinha de ligar para Tai antes de sair ela ordenou ao comunicador holográfico em sua mesa que chamasse sua casa.

"Ela já deve ter chegado da base", pensou enquanto o equipamento fazia a ligação.

"Tai?" � a imagem de sua esposa se formou à sua frente.

"Olá, amor! Via a aprovação pela tv. Parabéns!"

"Obrigada, querida. Essa vitória também é sua!"

"É nossa, pronto. Você vem para casa hoje?" � a comandante perguntou, colocando uma mecha de cabelo louro atrás da orelha.

"Sabe que eu adoro quando você faz isso?" � Kalim olhou-a enternecida.

"O quê?Ah, o cabelo?"

"É."

"Depois de quatro anos você ainda consegue me encabular." � Tai respondeu, ligeiramente vermelha.

"É porque eu a amo!"

"Venha para casa então." � ela pediu com ar maroto.

"Tenho de dar uma coletiva ainda. E também passar no consultório da Dra. Bergen. Se der tempo." � Kalim soltou um suspiro de cansaço.

"Então será hoje?"

"Você guardou o indutor de ovulação que ela receitou?"

"No cofre do quarto! E já tomei o primeiro." � Tai brincou, puxando as pernas para cima do sofá e abraçando os joelhos.

"Boba." � Kalim riu dela.

"Boba, não! Será nossa bebezinha e isso é sério!"

"Eu sei, amor. Estarei aí o quanto antes."

"Vou esperar. Te amo."

Kalim desligou e se dirigiu à porta do gabinete. Enquanto a porta se abria e ela saía, pensava em tudo que teria de fazer daquele momento em diante. E teria de se apressar se quisesse cumprir o que acabara de prometer a Tai.

*******

Era o ano 2797. O Senado Mundial era uma imensa ilha artificial construída em aço e concreto na costa do Continente Africano, no exato ponto onde se cruzam as imaginárias Linhas do Equador e de Greenwich. Seus cinco edifícios principais, ovalados e com 52 andares cada um, representavam os Cinco Grandes Continentes. O edifício em diversos tons de vermelho representava o Continente América, seguido pelo de cores azuis que representava o Continente Europa, a imensa estrutura negra representava o Continente África, o amarelo para o Continente Ásia e o verde para o Continente Oceania. Ali se reuniam 21 senadores de cada um dos cinco continentes em que os países do mundo inteiro haviam se reunido há exatamente trezentos e cinqüenta anos atrás. Ao redor, prédios menores abrigavam as secretarias de apoio, estacionamentos, hotéis para visitantes, shoppings, restaurantes e também o Museu do Senado, instalado na ala norte da ilha e abrigando toda a história política humana.

A Senadora Kalim Nurit era uma das representantes do Continente Oceania e foi a idealizadora de um projeto audacioso de colonização extraterrestre. Ela pensou nisso por diversos motivos, mas o principal deles era que apesar do controle rigoroso de natalidade, adotado por quase todos os países no final do século XXI, a população humana atingira mais de vinte e cinco bilhões de habitantes e o abastecimento de água e alimentos entraram em colapso, passando a ser as principais preocupações dos governantes.

A produção e a industrialização de alimentos passaram a ser feitos em escala gigantesca em todos os países, acelerando o aquecimento da atmosfera e provocando alterações irreversíveis no clima do planeta.

Em 2050 os combustíveis fósseis chegaram à beira do esgotamento total, quase dando lugar a novas e caras tecnologias, mas em 2053, uma reserva de proporções nunca vistas ou imaginadas foi descoberta no norte da então América do Sul, sob a Floresta Amazônica. O mundo teve de escolher entre preservar a floresta ou ter petróleo por mais oitenta anos. A segunda opção venceu.

As novas tecnologias não foram abandonadas por causa da nova reserva de petróleo, mas com mais esse período de queima de hidrocarbonetos, o efeito-estufa, já há muito tempo reconhecido como o grande vilão do aquecimento global provocou derretimento das calotas polares e alterações drásticas no clima. Como resultado as terras emersas do mundo perderam quase 8% de seus contornos. Dessa forma, a perda de mais de 10 milhões de km2 de terras, incluindo dezenas de cidades litorâneas e imensas áreas de cultivo, em contrapartida ao aumento da população, obrigaram o Senado Mundial a tentar inúmeras soluções durante centenas de anos.

Há um ano e meio a Senadora Nurit apresentara uma solução que até então nunca havia sido cogitada antes: uma grande colônia fora da Terra, no planeta Gea. Outras colônias tinham sido instaladas fora do planeta, mas a maioria era de cunho militar e as que recebiam civis não tinham mais do que alguns milhares de habitantes. Alguns planetas, ainda dentro do Sistema Solar, também tinham recebido pequenas colônias, mas não eram lugares propícios a muita gente. Os planetas vizinhos a Terra não tinham oxigênio na atmosfera e as colônias ali instaladas eram pequenas redomas artificiais. No projeto da senadora, bilhões de pessoas poderiam ir morar em Gea, desafogando a superpopulação da Terra.

Gea era um planeta menor que a Terra, repleto de oxigênio e com temperaturas que variavam entre -21ºC e +25ºC; um grande oceano de água doce e um único e imenso continente central, que era três vezes maior do que todas as terras emersas da Terra juntas e apresentava apenas uma vegetação rasteira. Os animais presentes se resumiam a pequenos seres que não eram maiores do que os menores mamíferos terrestres. Com essas características e algumas adaptações possíveis com a tecnologia terráquea, o planeta Gea se transformaria na única saída possível à espécie humana.

Descoberto por volta de 2740, o planeta vinha sendo estudado e estava mostrando que era capaz de abrigar seres humanos e outros animais. A senadora Kalim Nurit viu isso e criou o projeto. Estudou cada detalhe, cada possibilidade e cada dificuldade que enfrentariam. E a humanidade encontrou uma saída.

*******

Kalim seguiu pela passarela suspensa no ar, fechada em arcos de aço e vidro. Dezenas de metros abaixo, as águas azuis do Atlântico chicoteavam os pilares da estrutura gigantesca que sustentava a ilha artificial. Ela pensou no mundo em que vivia; no mundo onde sua filha viveria. Olhando para as ondas, sentiu um medo repentino; medo do que viria a seguir para ela e para Tai. Percebeu que do mesmo jeito que as ondas enganavam os olhos com sua cor límpida, escondendo a poluição e a sujeira jogada nos mares por séculos, o futuro delas também estava escondido em Gea. Era incerto e poderia enganar, mas também não podia deixar de ser vivido. Não agora que elas tinham o projeto pela frente.

Os olhos dela correram das ondas para o céu com poucas nuvens e seu peito se elevou num pequeno suspiro. De toda forma estavam felizes, pensou, olhando algumas gaivotas que brigavam contra o vento. O rosto delicado de Tai lhe veio à mente e a senadora ficou ali, absorta em pensamentos.

Pensou no quanto amava Tai. No quanto era feliz com ela. Não conseguia e nem queria imaginar sua vida sem a presença constante e intensa daquela pequena mulher. Forte e altiva como só ela sabia ser, a Capitã Tai Hansar era seu motivo de viver. E seu refúgio. Quando ela viajava, comandando missões, Kalim sentia a casa vazia, sem o som daquela risada contagiante. Mas adorava que, quando chegava, como uma criança ela se jogava em seu pescoço e pedia um beijo, pedia colo e amor. Tinham uma vida de dedicação uma à outra. Se amavam a ponto de se sentirem parte uma da outra; duas metades que se completavam; unidas de forma definitiva, inseparáveis, apaixonadas.

Sumant veio apressado pelo corredor para avisar que a esperavam para a entrevista coletiva e tirou-a de seus devaneios.

A Dra. Kalim Nurit era engenheira ambiental e estava no segundo mandato como senadora do Continente Oceania. Ela estudava os problemas da superpopulação da Terra, suas causas, efeitos e possíveis soluções desde sua graduação.

Durante os estudos que fez do planeta Gea, ela conseguiu ver nele a possibilidade de ajudar a humanidade e o planeta Terra ao mesmo tempo. Idealizou o projeto e o montou com a ajuda de sua esposa. Elas pensaram em todos os detalhes, desde as instalações necessárias, os custos, o tempo de realização e quais e quantos seriam os primeiros colonos. Agora, depois de ter conseguido a aprovação do projeto, ela falava ao mundo sobre essa nova conquista humana.

"Senadora, como serão escolhidos os primeiros colonos?" � um repórter perguntou, iniciando a coletiva.

"No início levaremos cientistas e engenheiros, principalmente agrônomos, pois precisamos saber o que poderemos produzir em Gea. Além disso, construiremos as primeiras instalações para estudos e testes, para sabermos em que local do Continente Central poderemos nos instalar. Gea não será nossa colônia de férias." � ela brincou.

A platéia repleta de jornalistas de todos os Continentes se descontraiu e um dos repórteres aproveitou para levantar a mão e perguntar.

"Pretende morar em Gea? Levará sua esposa, Senadora?"

"Estou aqui para responder a perguntas sobre o projeto." � ela respondeu com o mesmo bom humor.

"Mas eu soube que obteve autorização governamental para terem um bebê." � ele insistiu.

Kalim estreitou os olhos azuis em direção ao repórter ao sentir a invasão que a pergunta continha e a reação da platéia de jornalistas.

"Como eu disse, as perguntas devem ser a respeito do projeto. Se o assunto mudou, creio que a coletiva está encerrada."

Um outro repórter, que ainda não tinha conseguido fazer nenhuma pergunta, se apressou em salvar a entrevista.

"Senadora, a senhora comandará a missão?"

Quarenta minutos depois, uma senadora ainda mais exausta estava de volta em seu gabinete. A toga verde, a cor do Continente Oceania, com o símbolo do Senado Mundial estampado no peito foi tirada com cuidado e guardada. No seu lugar, Kalim colocou o uniforme verde com finas listras laterais douradas. Era o símbolo dos cidadãos da Oceania, assim como os outros Continentes também vestiam seus cidadãos com uniformes em cores próprias.

"Quando esse pessoal vai deixar minha vida pessoal em paz, Sumant?" � ela perguntou ao assessor sentado à sua frente.

"Provavelmente nunca." � ele riu.

"É assim com você e Robert?"

"Sempre foi. Depois que tivemos Bernard, então, a coisa piorou de vez. Eu não apareço muito, mas ele como senador..." � ele suspirou de leve.

"É. Eu e Tai estamos apenas começando e já estou reclamando, desculpe."

"Não se preocupe." � ele riu de novo.

"Convidei Robert para ser o representante do Senado em Gea." � ela disparou para o amigo, aproveitando que a conversa era amena.

"Ora, que novidade!" � ele ficou surpreso.

"Ele vai falar com você primeiro, claro. E o convite é para você também."

"Para mim também? Mas... bem, não sei... Você acha seguro irmos para lá?" � ele quis saber.

"Não há restrições de segurança no planeta e toda a instalação da colônia vai demorar vários anos. Quero dar oportunidade a todos que quiserem ir. Por isso estou pensando em criar um programa que leve o colono e sua família por um ano, prorrogável por mais um. Mas no caso do pessoal da administração não será assim. Expliquei a Robert que não será necessário morar definitivamente em Gea, mas se vocês forem, passarão boa parte do ano por lá. Também acho que será bom para a carreira de vocês dois." � ela explicou.

Sumant levantou-se e foi até a janela ampla que dava para o mar. Sua grande e negra estatura destacava-se na parede clara perto dele. Eles eram amigos desde os tempos da universidade e Kalim sempre teve um grande respeito pelo amigo africano. Ele enfrentara preconceitos e dificuldades imensas para ficar ao lado do namorado senador, branco e rico. Começaram a namorar no último ano de faculdade e poucos anos depois tiveram autorização para terem um filho. A família de Robert simplesmente ignorava que Sumant existia. Não aceitavam sequer o neto, que era mulato. Mas inteligente e talentoso que era, ele fora um dos engenheiros ambientais responsáveis por vários projetos de preservação dos poucos pedaços de meio ambiente natural que restavam na Terra. E virara conselheiro do Senado Mundial e assessor de Kalim desde quando ela se elegera senadora pela primeira vez.

"Eu não devia ter feito o convite?" � ela perguntou, observando o amigo.

"Ah, não, não é isso que estou pensando, minha cara! É que não sei o que devemos fazer."

"Vou continuar precisando do meu engenheiro ambiental favorito! Essa proposta não é tentadora?" - ela brincou.

Ele riu e sentou-se.

"Sei que fez o convite pensando nas nossas carreiras. Também estou pensando nisso. Minha dúvida é se Gea será um bom lugar para nós."

"Pergunte a Bernard se ele quer ir e converse com Robert. Não é nada imediato."

Depois que Sumant saiu ela guardou seus objetos pessoais numa maleta e pelo comunicador pessoal, pediu à segurança que preparasse seu módulo de transporte.

Caminhando pelos longos corredores envidraçados, ela observava o mar do Atlântico revolto sob seus pés e ligou para o consultório da Dra. Anne Bergen. Soube que se chegasse em uma hora seria atendida. Radiante, ela fez a identificação de rotina na saída do plenário e saiu para o dia claro. O sol equatorial era forte e intenso, mesmo no final da tarde. Entrando no módulo, deu a ordem ao computador de bordo para onde queria ir.

"Continente: Europa, cidade: Genebra, local: consultório da Dra. Anne Bergen."

O painel do veículo lhe mostrou que estaria lá em trinta e dois minutos.

Depois de deixar o módulo de transporte estacionado num prédio reservado só para isso no centro de Genebra, Kalim caminhou por ruas repletas de cafés charmosos e pensou que assim que tivessem uma oportunidade, ela e Tai fariam uma pequena viagem pelo Continente Europa, para descansarem. O Velho Continente ainda preservava suas cidades cheias de belíssimas atrações e queria desfrutar um pouco disso ao lado de sua esposa.

Alguns quarteirões à frente, ela chegou ao consultório da médica. Ela e Tai conheceram-na através da indicação de Sumant e Robert, que fizeram com ela a preparação de um óvulo doado e fecundado com um espermatozóide também preparado, que trazia as características dos dois. Esse óvulo fora recebido por uma amiga de ambos, disposta a dar à luz o pequeno Bernard.

"Kalim, parabéns pela vitória do seu projeto!" � a embriologista cumprimentou-a, estendendo-lhe a mão.

"Obrigada, Anne."

"Sente-se."

Kalim simplesmente desabou todo seu tamanho na poltrona em frente à médica.

"Você me parece muito cansada. Não está pretendendo fecundar Tai hoje, está?" � a médica olhou-a com ar de interrogação.

"Há alguma restrição?" � ela perguntou, tentando disfarçar.

"Eu aconselho as futuras mamães a fazerem isso com calma e depois de umas boas horas de descanso. Além disso o indutor de ovulação precisa fazer efeito." � a médica sentenciou.

"Mas eu acho que Tai já deve ter tomado, Anne. Não seria melhor..."

"Eu sei que vocês estão ansiosas para isso, mas pondere. Você está cansada, estressada depois daquela votação. A ovulação de Tai vai durar de 3 a 5 dias. Não precisam ter pressa. Quando coletei seu óvulo para prepara-lo, pedi que você estivesse bem tranqüila, não foi? Agora a fecundação também dever ser da mesma maneira."

"Acho que você tem razão. Como sempre!" � Kalim sorriu, vencida pelo argumento.

"É isso mesmo. Seja uma paciente obediente, vá para casa, descanse e deixe isso para amanhã."

Pelo comunicador em sua mesa, a doutora chamou sua auxiliar. A médica mais jovem entrou na sala alguns minutos depois trazendo uma pequena caixa metálica e fosca, com o nome de Kalim impresso no metal. A doutora Bergen apertou um botão lateral e a tampa se abriu devagar. No seu interior, protegido por uma bolsa gelatinosa, estava um minúsculo óvulo do tamanho de uma ervilha.

"Kalim, este é o seu óvulo preparado para fecundar Tai. Na verdade o óvulo esta aí dentro, mas de tão pequeno, não podemos vê-lo. Esse globo que o envolve contém agentes transportadores que o levarão até o óvulo de Tai."

"E o que devemos fazer?" � a senadora perguntou um pouco nervosa.

"Bem, tanto faz. Você ou ela podem colocar o globo na entrada do útero dela. Isso vocês escolhem, pois o resto os transportadores fazem. Essa parte eu não preciso dizer a vocês como se faz, não?" � a doutora brincou, deixando Kalim ligeiramente vermelha.

"Realmente, não precisa." � a senadora respondeu, limpando a garganta.

De volta ao seu módulo de transporte pessoal, Kalim deu ordem para que ele a levasse para casa, em Wanaka, na ilha sul da extinta Nova Zelândia. O painel informou-a de que a viagem demoraria uma hora e vinte e sete minutos. Frustrada por ter de esperar por esse tempo todo sem absolutamente nada para fazer, pediu ao computador de bordo que colocasse sua poltrona na posição horizontal e fechou os olhos para descansar.

Enquanto o aparelho levantava vôo, a voz metálica do computador informou-a dos noticiários, já que ela sempre o deixava programado para isso, e ao invés de dormir decidiu que verificaria suas mensagens pessoais enquanto voava. Ao ditar o nome do seu provedor, a máquina abriu espaço para sua senha pessoal na tela e ela digitou os números e letras. Nas imagens que via, desfilavam pela tela um rol de elogios à aprovação do projeto. A maioria de colegas senadores.

As famílias de ambas também tinham mandado mensagens: uma da mãe e da irmã de Tai, duas da mãe e do pai de Kalim e uma de seu irmão mais velho, que morava no Continente Ásia. Amigas do Continente Americano, moradoras de São Paulo, no antigo Brasil, felicitavam-na pelo sucesso e mandavam beijos a ela e a Tai, pedindo que as visitassem. Um sorriso satisfeito surgiu sob as maçãs altas do rosto dela, ao ver que a aprovação de seu projeto estava em toda a rede, ocupando o lugar de destaque que merecia.

Desviando os olhos da tela, ela deu ordem para que a poltrona voltasse a ficar na horizontal e olhou distraída para a minúscula paisagem africana que corria sob seus pés. Pensou em Tai. O rosto tão querido tomou conta de sua mente e ela ficou imaginando como seria o pequeno bebê que surgiria de ambas. Elas tiveram a opção de escolher com quem o bebê se pareceria, ou que cor de cabelos e olhos teria, mas preferiram deixar que o processo de fecundação desse o resultado final.

Pegando a caixa dentro de sua maleta, ela ficou olhando para aquele minúsculo globo transparente e conhecendo sua mulher como conhecia, um ligeiro arrepio de excitação passou por sua espinha, fazendo-a imaginar "como" fariam a fecundação.

O módulo entrou em sua vaga pela abertura da garagem no sétimo andar e abriu a porta. Antes que Kalim saíssem o comunicador de bordo avisou-a de que tinha uma chamada de Tai.

"O que foi, amor?" � ela perguntou já com um pé fora do módulo.

"Tem uma dúzia de repórteres esperando você na sala de reuniões do prédio. E fui eu quem os deixou entrar; dei a ordem ao porteiro eletrônico." � a loirinha já se adiantou, vendo a expressão de descrédito no rosto de Kalim.

"E por que, amor? Estou tão cansada!" � a senadora ainda quis saber, sem entender porque ela tinha feito aquilo.

"Porque só assim eles vão nos deixar em paz essa noite. Ficaram me ligando a tarde toda. Não tive descanso desde que cheguei da base. Você já deu a coletiva no Senado; se falar agora e dizer que será a última vez, vão ficar quietos até o projeto começar a sair do papel. Fale com eles, amor, por favor!"

Kalim riu e exigiu:

"Então venha me dar um beijo antes, estou aqui na garagem."

Tai nem desligou o comunicador e apareceu na porta social que dava para a garagem.

"Essa é a exigência para mais uma entrevista?" � perguntou, grudada no pescoço de Kalim e colando seus lábios nos dela.

"Hum-hum." � foi a resposta.

"Então vou deixa-los entrar todas as vezes que quiserem."

Ela desceu e foi recebida com várias perguntas ao mesmo tempo já na entrada da sala de reuniões.

"Senadora, pode nos dar uma palavra sobre o projeto?" � se adiantou um repórter mais afoito.

"Quando será a primeira missão?" � foi a pergunta de outro.

O alvoroço que se seguiu atrás dela foi maior ainda. Kalim sabia que não poderia demorar muito com aquilo, afinal outras pessoas moravam no prédio e não tinha o direito de impor a elas aquele bando de repórteres ávidos por notícia.

"Bem, vamos lá: as regras aqui são as mesmas das entrevistas coletivas, então levantem a mão antes de perguntarem, por favor." � ela anunciou.

Um jornalista com o crachá do Herald na lapela do casaco foi o primeiro.

"Senadora, quais serão suas primeiras providências em relação ao projeto aprovado hoje?"

"O Senado Mundial vai liberar as primeiras verbas e vou organizar uma equipe para a primeira viagem a Gea."

"Deixará suas funções no Senado definitivamente, senadora?" � outro repórter levantou a mão.

"Acredito que esse projeto vai além do meu mandato. Serei a coordenadora do projeto." � ela sorriu ao responder.

"Vai se candidatar de novo, então?"

Kalim franziu de leve a testa ao olhar para a repórter loura que se apertava num terninho de gosto duvidoso. Ela sabia que essa pergunta surgiria a qualquer momento; e estava pronta para respondê-la.

"O projeto é longo e vai demandar vários anos da minha vida e também daqueles que estiverem envolvidos comigo nisso. Já estive em dois mandatos no Senado Mundial e minha preocupação agora é apenas com o desenvolvimento do projeto e a sua implan..."

"A senhora não respondeu minha pergunta." � a loura interrompeu, arrogante.

Kalim fitou-a com os olhos tão estreitados que mal se via o brilho azul e perigoso por trás dos cílios espessos. O saguão ficou em silêncio pelo tempo que ela demorou em responder.

"Quer uma resposta mais direta, senhorita Dramber?" � ela perguntou lendo o nome da repórter no crachá.

"Se possível..." � a loura continuou com o tom arrogante.

"Bem, eu diria que "o projeto é longo e vai demandar vários anos da minha vida e também daqueles que estiverem envolvidos comigo nisso. Já estive em dois mandatos no Senado Mundial e minha preocupação agora é apenas com o desenvolvimento do projeto e a sua implantação imediata"."

A loura não teve tempo de retrucar. O saguão ficou pontilhado de risos contidos.

"Mais alguma pergunta?" � Kalim perguntou, satisfeita com a cara de idiota que a loura fez ao se calar.

"A senhora pretende ser uma das residentes da nova colônia, Senadora?"

"Na verdade ainda não sei. Essa implantação vai demorar um bom tempo e há o período de adaptação pelo que todos teremos de passar. Mas posso lhe garantir que gosto muito de morar na Terra."

Uma risada divertida correu pela sala, mas Kalim se preveniu ao ver o braço da loura se erguer de novo no meio da pequena aglomeração.

"Pretende formar uma família em Gea, Senadora?" � a repórter insistiu, de novo com aquele ar petulante.

Kalim sabia que aquela jornalista estava querendo tirá-la do sério, mas decidiu que não permitiria isso. Sem desfazer o riso que ainda pairava em seus lábios desde a piada anterior, ela fixou a loura deselegante e respondeu:

"Senhorita Dramber, se está interessada em minha vida particular ao invés do Projeto Gea, é só dizer. Se você quer confirmar a nota do The Mirror dizendo que eu e minha esposa conseguimos uma autorização para termos um bebê, pode publicar a confirmação. Se vamos formar nossa família aqui na Terra ou em Gea, isso vai depender de como todo o projeto vai se desenvolver."

De novo um silêncio, agora mais pesado, pairou sobre a sala. Dessa vez a tal repórter percebeu que deveria recolher seu estoque de petulância, pois todos os colegas a olhavam com ar de desaprovação.

Depois de mais algumas perguntas sobre o orçamento do projeto, Kalim deu por encerrada a entrevista. Estava cansada demais para continuar ali indefinidamente, até que aqueles jornalistas todos se cansassem de interrogá-la.

Deixando a função de esvaziar o saguão do prédio ao robô-porteiro, ela entrou no elevador e se recostou numa das paredes depois de apertar o número 7 e esperar a sala de sua casa surgir diante de seus olhos. Dentro de sua maleta a pequena caixa prateada tinha toda sua atenção agora.

A porta do elevador se abriu e ela não viu Tai na sala. Ou pelo menos ela não estava à vista. Ao erguer a maleta para jogá-la numa poltrona próxima, como sempre fazia, seu gesto foi cortado bem no meio pelo vislumbre da caixa prateada que ela continha. Com delicadeza, colocou a maleta sobre um aparador antigo e já ia levando os dedos nos fechos quando ouviu um tilintar de gelo num copo.

"O que tem nessa maleta que a fez colocá-la com tanto cuidado aí em cima?" � Tai perguntou, apoiada no portal da sala de jantar, com um sorriso maroto no rosto e segurando um copo cheio de gelo e suco de laranja.

"Quer mesmo saber?" � Kalim sorriu de volta, virando-se para ela e deixando que os dedos deslizassem nos fechos da maleta, sem abri-la.

"Adoraria." � sua pequena capitã respondeu, se aproximando com um ar que já beirava a devassidão estampada no rosto delicado.

"Adivinhe! � Kalim provocou, chegando perto dela e abraçando-a pela cintura.

"Tem alguma coisa a ver com eu passar nove meses vendo minha barriga crescer?"

"Humm... digamos que tem." � a morena respondeu baixando os lábios devagar e tocando o canto da boca de Tai.

"Então podemos começar a contar agora." � ela respondeu, já sentindo os lábios sedentos de sua mulher tocarem os seus de novo.

"Ahã, na... não Tai, a dra. disse que devemos esperar até amanhã. Estou muito cansada e ..."

Mas quando deram por si já estavam na cama imensa e macia, envoltas na mais pura paixão. Os dois corpos nus se enroscaram e se exploraram sem pressa, as mãos e lábios percorrendo cada centímetro de pele já conhecido. Elas queriam se amar, sentir o corpo uma da outra, sentir o cheiro único que cada uma tinha. Kalim gostava de sentir a boca de sua mulher percorrê-la sem cerimônias e sem pudores.

Gostava de sentir a língua úmida e tensa buscar lugares que só ela conseguia encontrar e oferecer-lhe todo o prazer que se podia imaginar. Gostava dos dentes dela roçando em seus seios numa deliciosa falsa ameaça de tortura. Sabia que na verdade a boca dela estava ávida por sugá-los até ela implorar-lhe que descesse e vasculhasse seus pêlos negros e molhados em busca de um ponto teso de excitação e ansioso para ser tomado e submetido aos caprichos daqueles lábios.

Tai gostava das mãos de Kalim em seu corpo. Gostava da posse que sentia nelas, do poder que elas tinham sobre seu desejo e o quanto elas eram capazes de torná-lo quase incontrolável. Gostava de sentir aqueles dedos longos explorando sua intimidade, movendo-se ao ritmo que ela queria, fazendo-a voar, fazendo-a se perder em sensações que dominavam todos os seus sentidos.

Ela sentiu seu íntimo molhado receber um dedo firme e ávido. Sentiu-o deslizar até seu interior e mover-se com o propósito de tirar-lhe a noção de tempo ou de qualquer outra coisa. Mas com pesar ela percebeu que ele se retirou logo, que a deixava; mas não percebeu que uma caixa prateada se abria sobre os lençóis, e que de dentro dela, um pequeno globo gelatinoso era retirado. Mas percebeu quando o dedo novamente se apossou dela; e percebeu também que ele não se movimentou de início, mas que foi penetrando-a até tocar o órgão que abrigaria o pequeno glóbulo.

Quando os transportadores entraram em contato com seu íntimo delicado, Tai sentiu um ardor no lugar onde o dedo de Kalim a tocava. Ela abriu os olhos e soube. A Dra. Bergen havia dito que ela sentiria algo parecido. Então ela viu... Kalim, a mulher que ela amava, ali, olhando-a com amor. Com os braços enlaçando seu amor e puxando-a para si, ela sentiu de novo o ardor percorrer seu interior e percebeu que queria coroar aquele momento da melhor maneira possível. E sentiu-se preencher de vida.

*******

No terceiro mês a barriga de Tai começou a aparecer. Dentro dela, Liam crescia e deixava as futuras mamães cheias de orgulho e expectativa. A gravidez não poderia estar indo melhor, disse a Dra. Bergen, e Kalim lembrou-se da idéia que tivera quando fora ao consultório para buscar o óvulo.

"O que você acha de viajarmos um pouco, querida?" � Kalim perguntou, enquanto ainda estavam na cama numa manhã de sábado, e ela sentia os dedos de Tai deslizarem entre seus cabelos.

"Viajar? Para onde?" � a curiosidade natural da loirinha já tirou-a do lugar imediatamente.

"Pensei em irmos a Paris, Milão, Madrid. Lugares românticos no Continente Europa."

"Você sempre adivinha o que eu quero. Como consegue isso?" � Tai perguntou, abraçando as costas dela.

"Humm, tenho uma bola de cristal; daquelas que as bruxas antigas usavam."

"E o que você está vendo agora nessa bola de cristal?" � Tai perguntou, se divertindo.

"Estou vendo... deixe-me ver... você e eu no meio de uma plantação de uvas, humm... parece ser o Vale do Loire... estamos provando um ótimo vinho." � Kalim fingiu passar as mãos em volta de uma bola imaginária.

"Então não sou eu aí na sua visão, porque eu e Liam não podemos tomar vinho."

"Ah, é! Acho melhor ajustar essa antena. Não está captando as mensagens direito."

As duas começaram a rir e a planejar a viagem.

Menos de dois meses depois entraram no módulo de transporte para viajar pelas paisagens estonteantes das regiões da Toscana, Castella, Champagne e todas mais que elas puderam visitar em 30 dias de descanso e diversão pelo Continente Europa. Descobriram cidadezinhas encantadoras no interior da antiga França; na velha Itália, se deliciaram com passeios sem fim pelas vielas romanas.

Tai não podia tomar qualquer coisa com álcool, mas experimentou todos os tipos de doces, possíveis e imagináveis, em todos os lugares que entravam. Ela engordava apenas o que era esperado pela gravidez e Kalim se perguntava como ela conseguia isso comendo tantas pizzas, spaguettis e paellas que jantavam. Sem contar as sobremesas com chantilly que ela consumia sem a menor preocupação.

Estavam em uma pizzaria em Florença quando uma velha senhora italiana, dona do restaurante, viu que Tai estava grávida e aproximou-se risonha.

"Ma che bella ragazza! Quando nascere il bambino? � ela quis saber.

"Bambina." � Tai corrigiu, orgulhosa.

"Si! Una bambina! Come si chiamara?"

"Liam". � Kalim respondeu.

"Auguri, ragazze, auguri! Buona apetito." � a senhora retrucou e saiu a servir outras mesas.

"Grazie!" � ambas responderam, felizes.

Tai ficou olhando para a mulher que se afastava. Com um sorriso no rosto, olhou para sua mulher e por entre os copos, tocou a mão de Kalim. Sim, estavam felizes. Liam nasceria dali a quatro meses e a primeira missão a Gea já estava quase pronta. Antes que o bebê nascesse, Tai seria a capitã que iria conduzir a frota de naves que pousaria pela primeira vez no planeta levando colonos. Diante dela estava a mãe de sua filha. Naqueles olhos azuis cintilantes, ela só via amor e ternura. Devoção até. Antes de Kalim ela chegara a achar que aquele tipo de amor não existia, que almejava algo impossível. Mas ao conhecer a bela senadora, ela soube que não estava querendo demais, esperando demais. Teve certeza de que era possível ser feliz e amar de forma plena. Entregar-se sem medo ao que a mulher que amava lhe oferecia com paixão.

Liam nasceu na manhã de uma sexta-feira. Veio ao mundo berrando a plenos pulmões e encontrou suas mães com os olhos molhados por lágrimas de felicidade e cheias de orgulho, exibindo sorrisos que iam de um lado a outro do rosto. Ainda no hospital da base aérea, onde nasceu, recebeu várias visitas de amigos de suas mães, ansiosos por verem o rostinho rosado daquela menininha tão esperada.

Tai e Kalim ficaram afastadas do trabalho por três meses, curtindo a filha desde os primeiros momentos. Sumant e Robert ficaram encarregados de representarem Kalim no Senado e nos assuntos de Gea por esse período. E na base, a prima de Tai, Adrian, assumira as funções da capitã temporariamente.

A primeira missão a Gea tinha acontecido há dois meses e a próxima demoraria mais de um ano para acontecer de novo. E a pequena Liam já estaria dando os primeiros passos quando isso acontecesse.

O tempo passou rápido e as outras missões a Gea chegaram novamente. E a família Nurit-Hansar pensava em um dia, talvez, morar em Gea. Liam crescia e aprendia tudo sobre o planeta, tanto em casa quanto na escola, onde o projeto de sua mãe senadora virara tema de algumas aulas onde as crianças aprendiam noções de geografia.

"Quero ser "geaista". � ela disse aos três anos.

Tai e Kalim entreolharam-se.

"E o que é "geaista, filha?" � Tai perguntou.

"É quando a gente estuda para ser de Gea!" � a menina respondeu resoluta.

"Ah!" � foi a única resposta que suas mães encontraram.

"E você quer ir morar em Gea também?" � Kalim perguntou, tentando sondar a opinião da pequena.

"Talvez." � foi a resposta simples.

A atenção da menina não estava mais em Gea e sim nos blocos coloridos que ela montava no chão do seu quarto de brinquedos.

As mamães olharam-se de novo e ficaram observando a filha em silêncio. Mas ambas pensavam no mesmo assunto: morar em Gea. Como disse Liam, talvez.

Mas a resposta a esses pensamentos foram amadurecendo ao mesmo tempo que os anos se passavam e elas se envolviam mais e mais com a vida no planeta, que também já tinha entrado numa certa rotina. Conversando muito sobre a possibilidade cada vez mais próxima, elas acabaram por concordar que as muitas viagens que tinham de fazer até o planeta estavam fazendo com que ficassem separadas por muito tempo. Isso porque por várias vezes Tai comandou as frotas de naves, mas Kalim não pudera viajar por compromissos no Senado. De outras vezes fora a vez de Kalim ir e Tai não poder estar no comando das viagens. Com isso passavam semanas sem se ver.

Acabaram por decidir passar um ano em Gea. Robert e Sumant já estavam ficando por lá voluntariamente. Os dois afirmavam que tinham se apaixonado pela vida mais saudável que tinham no planeta despoluído e só vinham à Terra quando era realmente necessário. Bernard já tinha se adaptado às mudanças e cobrava a presença de Liam. Desde que a menina crescera o suficiente, eles passaram a brincar juntos e ficaram amigos já que ele era apenas dois anos mais velho que ela.

O projeto já tinha quase seis anos e Gea já tinha recebido vários bilhões de pessoas e agora sua população flutuava em torno dos cinco bilhões de habitantes. Estavam concentrados no centro do Continente Central, onde as temperaturas eram mais amenas. Dali partiam, como em circunferências que se formam a partir de um ponto, as vastas plantações e núcleos industriais onde todos trabalhavam.

*******

A nave-mãe levantou vôo e a Capitã Hansar conferiu os últimos dados que apareciam na tela colorida à sua frente. Uma linda menininha de cabelos louros e olhos azuis estava agora ao seu lado na ponte de comando, esticando-se sobre os pezinhos minúsculos para tentar ver o que a mãe fazia.

"Mamãe, posso dar a ordem quando chegar a hora de voar na horizontal?" � a pequena perguntou com olhos esperançosos.

"E a Comandante Liam sabe a hora certa de fazer uma nave-mãe desse tamanho sair da decolagem vertical para voar rumo a Gea?" � Tai perguntou baixando-se para deixar seu rosto junto ao da filha.

"Claro que sei! � ela se apressou em dizer � Foi você que me ensinou, lembra?"

"Sim, eu me lembro, querida, mas eu apenas lhe "disse" como se faz. E até hoje você só fez isso em naves pequenas, como o nosso módulo de transporte e ele estava programado para reconhecer sua voz. Esse computador não vai reconhecer a sua voz de comando. Uma nave-mãe é muito pesada e tem milhares de pessoas aqui dentro. Deixe que a mamãe faz isso, certo?"

"Ahh, mamãe..." � a pequena reclamou, fazendo cara de decepção.

"Venha cá e veja como eu faço. Quando você crescer e virar a Comandante Liam, você vai ter sua própria nave para fazer voar."

Tai deixou que a filha a observasse enquanto dava as coordenadas em voz alta e as telas e gráficos mostravam o caminho que a nave faria para alcançar a colônia terráquea criada no planeta Gea.

Uma das portas da ponte de comando se abriu e a Senadora Nurit avançou para junto do painel onde Tai e Liam estavam. O símbolo do Senado Mundial reluzia no braço esquerdo do uniforme verde.

"Mamãe!" � a menina foi ao seu encontro correndo.

"Foi você quem colocou a nave na horizontal?" � ela perguntou, piscando para Tai e abaixando-se de sua grande altura até sua filha.

"Mamãe não deixou. Disse que eu ainda sou muito pequena para isso."

"E não é mesmo, minha pequena?" � a senadora disse, levantando-a no ar até seu colo.

"Ah, sou, mas..."

"Então não teime com sua mãe, está bem?" � Kalim a interrompeu com um beijo estalado na bochecha rosada.

"Está bem." - a menina olhou-a e pareceu aceitar quue não havia mesmo jeito.

A imensa nave seguiu seu curso com tranqüilidade e somente os soldados responsáveis pelos equipamentos estavam agora na sala de comando.

A família Nurit-Hansar seguiu para o dormitório da capitã. No quarto, Liam jogou-se sobre a cama de suas mães e pediu ao painel de comodidades de lazer do quarto que ligasse a tv. No segundo seguinte, um painel branco e flexível surgiu na parede, mostrando imagens de desenhos animados digitais.

"Quer tomar um banho, amor?" � Kalim perguntou.

"Quero. Você vem comigo?" � Tai respondeu, descendo o fecho de metal do uniforme.

"Vou." � a morena respondeu, enquanto ia até o painel de comodidades de alimentação e pedia o jantar para as três. Como estavam em uma nave espacial, as opções não eram muitas, mas o que tinham era do gosto de todas.

A água quente e revigorante cercou as duas por todos os lados dentro do box que já ficava embaçado pelo vapor. A tensão dos preparativos da viagem de mudança definitiva foram se esvaindo delas junto com a água. Juntas naquele projeto desde sua concepção, elas abraçaram-se felizes debaixo da torrente quente. Mesmo com a ducha ligada dava para ouvir os sons dos desenhos que Liam assistia. Elas ficaram em silêncio por um momento, ouvindo a vozinha da filha brincando no quarto.

"Não podíamos estar mais felizes, não é?" � Tai disse, beijando o contorno da orelha de Kalim.

"Eu nem consigo imaginar como. Nosso projeto deu certo e temos nossa filha aqui conosco. Não quero mais nada!" � Kalim respondeu, rindo.

"Ah, não! Tem uma coisa que eu quero!"

"E o que seria?"

"Huumm... temos de esperar Liam dormir." � a lourinha respondeu com ar matreiro.

As duas riram alto. No instante seguinte, uma vozinha curiosa soou do outro lado do box enfumaçado:

"Do que vocês estão rindo?"

Kalim abriu uma fresta da porta e colocou a cabeça pingando água para fora.

"Estamos rindo porque estamos felizes. Vamos morar em Gea por um ano. Eu e sua mãe nos amamos e amamos você. Que tal esse motivo?"

"Parece bom." � a menina respondeu, botando as mãozinhas na cintura.

"Então vamos fazê-lo ficar ótimo!" � Kalim escancarou a porta do box e abraçou sua filha, levando-a para debaixo da água com roupa e tudo. As três se refestelaram na brincadeira até não querer mais. Liam fingia espernear por causa da água e ria feliz. Kalim e Tai trocaram um olhar apaixonado e beijaram a filha, uma de cada lado.

A nave-mãe viajava em ritmo tranqüilo e Liam entrou no pequeno escritório anexo ao quarto e pulou no colo de Kalim.

"Mamãe, posso ver seu trabalho?"

"E o que a minha filhinha quer saber sobre esse monte de papéis? � Kalim perguntou a ela, tentando se reequilibrar na cadeira depois do baque que a menina lhe dera."

"Acho o seu trabalho legal. Você criou Gea e isso é muito legal! � a menina retrucou olhando-a vivazmente � Como é criar um planeta?"

"Ah, querida, a mamãe não criou Gea. Ele já existia. Olhe só: eu apenas tive a idéia de levar gente da Terra para lá; só isso!"

"Como, só isso?! Se você pensou na idéia, então ela é sua. Quando faço um desenho na escola, ele é sempre meu."

"Eu sei, mas quando você faz um desenho não precisa que as outras crianças concordem com você, não é?"

"É." � ela respondeu.

"Só que eu tive a idéia e precisei que muitas outras pessoas concordassem com ela, antes de fazê-la funcionar. Levar pessoas para morar em outro planeta é uma coisa muito séria e precisa da aprovação de muita gente. Por isso demorou tanto. Você ainda nem havia nascido quando tudo começou."

"Eu lembro! � ela retrucou animada � Você e a mamãe me contaram que eu fui para a barriga dela no mesmo dia em que concordaram com a sua idéia, lá no Senado!"

Kalim sentiu um pequeno nó de emoção subir-lhe à garganta e beijou os cabelos louros da filha.

Tai acabara de entrar no pequeno vestíbulo e pegando nos pequeninos braços que se estendiam para ela, rodopiou com Liam no colo. Ela abaixou-se e deu um beijo em sua esposa.

"Esta menininha andou dando trabalho, Senadora?"

"Ah, não! Ela estava me entrevistando." � Kalim respondeu enlaçando as duas.

"Entrevistando?" � Tai fingiu franzir a testa, gostando do contato da mão de Kalim em suas costas.

"Não, não! Eu estava querendo ajudar a mamãe no trabalho dela! É legal criar um planeta!" � Liam defendeu-se rapidamente.

"E eu estava explicando que não criei um planeta, só tive a idéia de trazer gente para ele; como fiz todos esses anos aos jornalistas."

Tai ia responder quando a tela de comunicação do quarto chamou-a e o rosto claro e bem feito do Tenente Marden apareceu.

"Atender apenas em modo de voz." � ela ordenou à tela do equipamento preso na mesa do quarto e colocou Liam no chão.

A menina foi ao encontro de Kalim e pulou em seu colo, mas ficou atenta ao que Tai conversava com seu subordinado.

"Capitã Hansar falando. Algum problema, Tenente Marden?"

"Não, senhora, capitã. Chamei apenas para avisá-la de que no final da tarde estaremos nos aproximando de Gea e também para pedir permissão para preparar as equipes de desembarque."

Ela sentou-se na cadeira e ficou próxima à tela. Virando-a para que câmera não captasse imagens do quarto, ordenou que o equipamento transmitisse também em vídeo.

"Calculei que chegaríamos apenas no final da noite, Tenente." � ela disse.

Marden ficou ligeiramente rosado.

"Hã... é... capitã, na verdade me precipitei. Vamos mesmo chegar no final da noite, mas eu quis adiantar a preparação das equipes."

Tai sabia reconhecer a competência de seus comandados e o Tenente Marden era um dos que merecia sua confiança. Era eficiente sem ser puxa-saco, como a maioria.

"Não há problemas em adiantar as equipes, tenente. Ao contrário, acho isso ótimo. Vou para a ponte de comando daqui a 10 minutos."

O oficial quase não disfarçou o alívio por não receber uma repreensão e respondeu um "Sim, senhora" rápido e desligou a transmissão.

Quando se virou para o quarto, ela viu que Liam já estava distraída com o computador de Kalim e deparou-se com sua esposa encostada numa das cadeiras e olhando-a com uma intensidade conhecida no olhar.

"Quais são as intenções por detrás desses olhos azuis que eu tanto amo, minha senadora?" � ela perguntou, aproximando-se e deslizando as mãos pela cintura da outra.

"As piores, pode ter certeza." � Kalim respondeu, beijando-lhe o canto da boca.

"E elas vão perdurar até depois que Liam dormir? Tenho de voltar para a ponte de comando agora."

O olhar felino e cheio de desejo de Kalim foi o suficiente para Tai. Sem tirar os olhos de sua mulher, ela soltou-se do abraço e foi andando devagar até a porta enquanto a senadora ficou vendo-a mandar um beijo para Liam e sair da câmara familiar.

Estava realizada, apaixonada e feliz, Kalim pensou. Ela ouviu a voz da filha que brincava com um jogo interativo em seu computador e sorriu para si mesma. Talvez Gea não fosse o lar definitivo das três, mas até ali tinha dado tudo certo e o planeta seria a casa escolhida por algum tempo. Estava ansiosa.

Naquela noite o vulto de Gea apareceu nas telas da sala de comando. Tai deu ordens para que as equipes se preparassem. A imensa nave, seguida por várias menores, aproximou-se da janela atmosférica do planeta e ali esperaria pelo momento de entrar exatas 22 horas e 15 minutos.

"Capitã, já entramos na área de comunicação de Gea. A base já está preparada para nos receber. Poderemos pousar às 20:34 de amanhã, hora local." � uma sargento que cuidava do radar da nave avisou-a.

"Obrigada, Sargento Carter." - Tai falou e voltou-se para a tela a ssua frente. Finalmente Gea estava ao alcance dos radares da nave-mãe e no final da noite seguinte estariam desembarcando. O cristal plano da tela à sua frente mostrava a distância e outros dados do vôo. Ela suspirou levemente e sorriu para si: mais uma chegada a Gea que ela comandava.

"Tenente, convoque a equipe para o desembarque. � ela ordenou a Marden. � Quero tudo o mais seguro possível. Pode me dar a temperatura que vamos encontrar ao desembarcar?"

"Sim, Capitã. Vamos encontrar a Estação Gea I aos 5ºC. Todos já estão preparados para o frio e os equipamentos mais delicados já estão prontos."

"Vou para minha câmara familiar. Me avise sobre qualquer novidade. Amanhã estarei na ponte de comando às 8 horas."

"Sim, capitã. Cuidaremos de tudo." � o Tenente Marden respondeu, batendo continência junto com a Sargento Carter, enquanto Tai devolvia o cumprimento militar e saía da sala.

Kalim levantou os olhos de seu computador assim que ouviu as portas do quarto se abrirem. Ficou esperando que Tai aparecesse na porta de seu escritório. Adorava vê-la chegar, envolta pelo tecido sintético e colante do uniforme do Exército Mundial. Podia sentir a pulsação acelerar enquanto acompanhava o andar macio de felina que ela gostava de mostrar quando via que estava sendo observada. Era de propósito; sempre teve certeza.

Ela surgiu no vão da porta e parou. Cruzou os braços sobre o colo que aparecia o suficiente para atiçar a imaginação da senadora e fitou-a com os olhos semi-cerrados. Kalim apenas ficou na posição que estava, segurando a caneta-laser. Não conseguiu deixar de correr os olhos por aquele corpo que tanto amava.

"Ainda não terminou seu trabalho, Senadora?"

"Terminei nesse exato momento."

Kalim se levantou, indo até onde ela estava. Parou perto o suficiente para sentir o perfume conhecido que exalava da pele de sua mulher. Sentiu o velho arrepio percorrer-lhe as costas quando a mão de Tai tocou seus lábios. Ela percebia que Tai desenhava os contorno deles com os olhos, beijando-a por antecipação. O desejo cresceu dentro dela como havia acontecido desde a primeira vez que se amaram. Viu a respiração de ambas se alterar aos poucos, viu os lábios de Tai murmurarem algo que ela não ouviu, mas que seus olhos engoliram e saborearam em cada movimento. Percebeu por alto que aquela boca se aproximava devagar, que cobria a sua com paixão e luxúria. Reconheceu a pressão daquele pequeno corpo enroscado, fundido ao seu.

Era aquela sensação que amava, que não saberia mais viver sem. Tentou ficar imóvel, para provocar, mas seus braços a traíram indo de encontro a Tai, envolvendo-a como queriam, pediam, suplicavam. Ela só teve raciocínio suficiente para ordenar que a porta do escritório se trancasse. Desceu as mãos até os quadris grudados nos seus e puxou-os o necessário apenas para tirar a outra do chão e levá-la até sua mesa. Sua mente registrou fechos do uniforme que ela foi abrindo e pequenas partes nuas se mostrando para ela. Kalim quis amar sua mulher sobre os papéis em que trabalhava. Não se importou onde estavam. Quis apenas vê-la se contorcer sob o toque de sua boca, render-se às investidas de suas mãos sedentas, o calor e a umidade que saíam do seu próprio corpo e marcavam uma trilha pontilhada de puro prazer. Não podia resistir àquele cheiro, àquela súplica que vinha dos lábios de Tai, que agora ela ouvia, pedindo mais em cada palavra de amor que sussurrava.

Não podia parar. Seu corpo conduzia sua mente, se fundia com o corpo de Tai. Quando ouviu o grito abafado de prazer e sentiu que a mão dela a procurava, seu último fio de controle de soltou. Deixou-se invadir e apreciar. Ofereceu a ela seu prazer, guardado até aquele último segundo.

E dormiram exaustas de amor.

"Mamãe Tai?"

Elas abriram os olhos e só então se lembraram de onde estavam: nuas no sofá do escritório. Liam estava do outro lado da porta, chamando.

"Mamãe Tai?"

Elas se assustaram com a voz da filha do outro lado da porta. Estavam nuas no sofá do escritório, mas não puderam deixar de rir da situação. Desde que Liam ficara crescida o suficiente para bater nas portas onde estavam, isso havia se tornado uma constante.

"O que foi, querida?" - Tai perguntou, já se vestindo,, acompanhada por Kalim.

"É que o tenente está chamando você no comunicador." - a menina respondeu do outro lado, desinteressada.

"Nossa, que horas são? Marden ficou de me ligar às 20:30! Abrir a porta!" - ela ordenou depois de se certificar que Kalim já estava vestida também.

Correndo até o comunicador na mesa da sala, ela ordenou ao equipamento que mostrasse o rosto do tenente enquanto Kalim se aproximava. Liam voltara para a tv.

"Pode falar, Tenente." - ela disse ao subordinado.

"Capitã, como pediu, estou ligando no horário. Gostaria de vir verificar os preparativos para o pouso?"

"Sim. Obrigada, tenente. Já vou descer."

A capitã ordenou que o comunicador silenciasse, voltou-se para Kalim e abriu um sorriso de satisfação.

"Chegamos. Estamos a duas horas de Gea."

Liam, que já estava de volta ao ouvir que chegaram, começou a pular em sua ansiedade de criança. A menina pediu para ir à ponte de comando com Tai. Kalim foi junto. Queria acompanhar o pouso de onde sempre acompanhou todos os outros em que esteve presente.

Quando chegou o momento da nave-mãe entrar na atmosfera de Gea, todos na ponte de comando estavam em suas poltronas e presos por cintos de segurança. As telas de comunicação que Tai comandava mostravam o desenho esverdeado do Continente Central abaixo delas e as coordenadas da Estação Gea I. A nave oscilou ligeiramente por alguns segundos ao atravessar a primeira barreira de ar e depois estabilizou, indo ao encontro da única e imensa porção de terra do planeta. Aos poucos as imagens na tela de comando incrustada na parede da sala foram mostrando os contornos dos campos cultivados e da Estação Gea I: uma seqüência de edifícios recém-construídos por missões de exploração enviadas pelo Senado Mundial. No final da cadeia de prédios já era possível ver a gigantesca pista de pouso para onde a nave se dirigia.

As mãos das duas mulheres instintivamente se procuraram sobre o painel. Era a nova vida que as esperava desenhando-se naquela tela. Ao lado delas, Liam mal podia esperar pela hora do desembarque.

Depois da tensão que sempre acompanhava a entrada na atmosfera, a nave-mãe pousou tranqüilamente na plataforma de pouso norte, construída para receber as maiores naves vindas da Terra e foi seguida pelas dezenas de naves menores que a acompanhavam.

O Projeto Gea estava funcionando a tempo suficiente para que toda nave que pousava no planeta pudesse se deparar com enormes plantações de grãos, legumes e frutas; imensas áreas de pastagens irrigadas com seus milhões de bovinos em processo de engorda; além de fábricas que processavam os alimentos para serem levados para a Terra.

A porta da nave se abriu e Tai teve de segurar Liam pela gola do uniforme mirim que a menina usava. A pressa infantil já a colocara em situações perigosas perto de portas automáticas e suas mães tinham de ficar atentas. Além disso, a ansiedade da menina era evidente e ela não parava de perguntar como era a nova casa onde iam morar.

"Liam, calma. Já vamos descer e teremos de esperar sua mãe conversar com o Senador Jordan." � Tai procurou acalmar a filha.

"Vou para a mesma escola de Bernard?" � a pequena quis saber.

"Sim. Ele está em outra classe, mas vocês poderão se encontrar muitas vezes." � Tai respondeu, conduzindo-a pela mão e descendo com ela pela rampa que formava automaticamente outros degraus a cada passo que elas davam.

A atenção da menina voltou-se para os prédios brilhantes que se erguiam à sua frente. Adiantada, Kalim foi de encontro ao amigo e Senador Jordan, que lhe deu as boas-vindas.

"Espero que gostem dessa estadia." � ele falou.

"Tenho certeza de que vamos gostar, Robert. Sumant está na administração?" � Kalim quis saber.

"Está. Ele deve ligar para você mais tarde; quer que se acomodem primeiro para depois falar de assuntos de trabalho. Falando nisso, Kalim, podemos marcar uma reunião para amanhã de manhã?"

"Algum problema?" � ela quis saber, franzindo ligeiramente a testa.

"Não, não. Queremos apenas discutir com você a possível exploração das Montanhas do Leste. O pessoal da Mineralogia esteve nas bordas da cordilheira e trouxeram amostras de solo. A possibilidade de exploração de minério de ferro e de alumínio é animadora." � o jovem Senador afirmou, animado.

"Isso é uma excelente notícia! � Kalim se alegrou � Vou acomodar minha família e amanhã faremos uma reunião com o conselho. Quero mais detalhes."

"Está certo. Acomodem-se e me chame amanhã assim que estiver disponível para uma reunião rápida. Como vão Tai e Liam?"

"Veja você mesmo." � a senadora indicou sua família que se aproximava ao amigo.

"Ora, vejam só! Sabe que Bernard já perguntou quando você viria, Liam? Como vai, Tai?"

Elas ficaram conversando com o senador enquanto a pequena deu um jeito e se afastou alguns passos, admirada com o movimento da pista de pouso onde estavam. Ela já se preparava para explorar um módulo de transporte individual estacionado ali perto quando Kalim chamou-a de volta.

O Senador Linnus Bradshaw, amigo de Kalim, era quem estava no comando dos milhares de funcionários responsáveis pela administração da estação. Ele e a esposa tinham se adaptado sem qualquer problema ao clima de Gea e estavam gostando das temperaturas amenas e do ar sem fumaça que o planeta oferecia. As fábricas ali instaladas tinham sido projetadas para poluírem o menos possível e todo o lixo produzido por elas e pelos colonos era reciclado.

Os dois ostentavam seus cabelos brancos e vinham receber as integrantes da nave-mãe acompanhados de um dos netos.

"Minhas queridas! Sejam bem-vindas!" � Lílian Bradshaw cumprimentou as recém-chegadas.

"Como vai, Sra. Bradshaw?" � Kalim cumprimentou a mulher do senador que já se entretia com Liam.

Todos em Gea tinham uma residência fixada pela administração da Estação e organizada pelo pessoal responsável pela parte burocrática daquela mega estrutura que se formou no planeta. Os senadores presentes ali tinham um setor exclusivo, com casas concentradas no bloco residencial G. Era um número pequeno, mas perfeitamente suficiente, pois os senadores envolvidos diretamente com o projeto eram poucos.

E foi para lá que Kalim levou sua família, acomodando-se na casa espaçosa e confortável. Ela e Tai já tinham decorado a casa pessoalmente, nas diversas vindas a Gea. Não queriam a impessoalidade da decoração-padrão feita em todas as residências.

"Adorei a casa, meu amor. É bem mais espaçosa do que a nossa." � Tai beijou-a com carinho.

"Eu também gostei, mamãe! Onde é o meu quarto?" � Liam quis saber.

"É só subir a escada e ir até a última porta do lado esquerdo." � Kalim respondeu.

A menina disparou escada acima e desapareceu. As duas mulheres só ficaram ouvindo o ruído contínuo dos passinhos dela percorrendo o quarto e explorando tudo.

"Está feliz, amor?" � Kalim perguntou.

"Muito! Tenho você e Liam: o que mais poderia querer?"

"É, você tem razão! Não precisamos de mais nada.

Na manhã seguinte Kalim providenciou que Liam fosse para a escola, enquanto Tai cuidava do desembarque de todo o material trazido pela gigantesca nave-mãe. Seria um trabalho para vários dias, já que parte da carga era composta de material de automação, peças de robôs de trabalho e equipamentos de produção agrícola e industrial. A Senadora deixou a filha na escola, já fazendo amizade com outras crianças e foi ao encontro de seu amigo Robert Jordan, pronta para a primeira reunião em Gea.

Ela caminhou até o módulo de transporte que lhe foi designado pela administração e ordenou em voz alta que seu destino era o prédio do Alto-Comando de Gea. O aparelho fechou-se quando ela se acomodou no acento único e levantou vôo, indo para a região oeste de Gea I.

O robô da recepção recebeu Kalim com uma leve reverência ao identificar eletronicamente o brasão do Continente Oceania em seu uniforme e pediu que ela passasse pelo scanner de íris, para reconhecimento oficial. Ela ouviu sua identificação sair do auto-falante da máquina e em seguida a porta de alumínio à sua frente abriu-se com um zumbido característico. O robô desejou-lhe uma boa reunião e voltou-se para atender outro cidadão que se apresentava na recepção.

A pauta da reunião era o achado mineralógico potencialmente comercial descoberto nas Montanhas do Leste. Quando Kalim entrou, o Senador Jordan distribuía os gráficos que analisavam a amostra de solo trazida pela equipe de exploração aos outros participantes da reunião: o chefe do Alto-Comando Administrativo da Estação, Senador Linnus Bradshaw, o Dr. Jean Marriot, cientista-chefe da equipe de explorações e a comandante do destacamento do Exército Mundial presente no planeta, a Capitã Adrian Hansar, que era prima de Tai.

Ela cumprimentou os presentes e abraçou a prima, depois de quase nove meses sem vê-la.

"Como vai, Kalim? Quanto tempo! Como estão Tai e Liam? Elas vieram mesmo?" � a jovem capitã bombardeou-a de perguntas enquanto se abraçavam.

"Sim, vieram. E estão muito bem. Liam até já foi para a escola e Tai está supervisionando o desembarque da carga da nave-mãe. Como está Morani?" � ela perguntou sobre o marido de Adrian, que também era tenente.

"Está bem. Foi trabalhar num posto avançado, mas deve estar de volta amanhã. Por favor, sente-se aqui ao meu lado. Como estão as coisas na Terra?"

"Continuamos lutando para sobreviver."- Kalim brincou, pegando um gráfico que o Senador Jordan lhe estendia.

"Eu sinto saudades de lá, mas depois que vocês se acostumarem ao ar despoluído de Gea, vão ficar como eu e Geremy: não vão querer voltar."

"Viemos para ficar um ano, Adrian. Será que vamos nos adaptar assim tão fácil?"

"Podem apostar! � a capitã respondeu, entusiasmada � a Terra virou uma lata de sardinhas e aqui não há aperto ou poluição. Podemos povoar ordenadamente todo o Continente Central, Kalim! Ele é muito maior do que todas as terras emersas da Terra juntas. Pode apostar nisso!"

"Senhoras e Senhores, vamos começar nossa reunião?" � o Senador Jordan interrompeu a conversa das duas, convidando os presentes a sentarem-se na mesa de reuniões.

Todos discutiram por duas horas as possibilidades de exploração de minério de ferro e de alumínio das Montanhas do Leste, defendidas fervorosamente pelo Dr. Marriot. Ele baseava suas opiniões nos dados presentes nos gráficos que Kalim tinha nas mãos e que eram entusiasmadores, ela tinha de reconhecer. O déficit desses minerais na Terra era enorme e a descoberta de jazidas em Gea seria uma solução e tanto.

A Tenente Adrian também era favorável à exploração, depois de ter sido inicialmente contrária a permitir que parte de seu batalhão escoltasse as expedições às montanhas. Como tinha participado da primeira exploração por terra e acompanhado a segunda através de monitoramento à distância, usando pequenos módulos aéreos não-tripulados; havia chegado à conclusão de que seria possível a exploração das montanhas. Ela, porém tinha algumas ressalvas em relação ao deslocamento das equipes, pois o terreno era extremamente íngreme e perigoso, exigindo experiência sólida em ambientes muito frios como aquele.

A reunião estava chegando ao fim e todas as autoridades presentes eram unânimes em concordar com a imediata organização de uma expedição que levaria os primeiros técnicos e equipamentos necessários à sondagem das minas. O Dr. Marriot, então, olhou para o monitor na sua frente e pediu, em francês, que um técnico de sua equipe se apresentasse. Depois de alguns minutos a porta da sala abriu-se e um rapaz que não aparentava ter mais de trinta anos entrou nervoso e apressado.

"A todos os prresentes, este é Pierre Foucand, técnico de minas de minha inteirra confiance. � ele apresentou o rapaz � Pierre, porr favorr, explique às autorridades como pode serr feito o trrabalho de explorração."

O técnico gaguejou um agradecimento e explicou por quase meia hora como seria organizada a expedição.

Kalim observou-o com atenção. Para um técnico de confiança do professor, ele lhe pareceu muito nervoso, aflito até. E ela teve certeza de que não era pelo fato de estar falando diante das maiores autoridades ali presentes.

Quando a explanação terminou, as pessoas foram se dispersando, já com uma nova reunião marcada para a manhã seguinte. Mas Kalim não deixou a sala, assim como o jovem Pierre, que guardava numa pasta, alguns papéis que havia trazido. Ela estava intrigada com o comportamento dele. Parecia-lhe que aquele cientista desejava falar alguma coisa além do que fora explicado sobre a expedição e que não lhe fora dada a chance de falar.

"Monsieur Foucand, poderia falar-lhe um instante?" � ela chamou-o.

"Clarro, Senadorra. Alguma dúvida quanto à expediçon?" � ele pigarreou, ficando ainda mais inquieto.

"Quanto a isso, não. Mas me pareceu que não lhe foi dada a chance de falar o que realmente queria."

Ele baixou os olhos para os papéis que tinha nas mãos e ficou mudo por alguns momentos.

"Acrredito que tudo foi dito, senadorra. � ele continuou juntando os papéis apressadamente e fechou a pasta com dedos um pouco trêmulos. � Ehh, prreciso ir agorra. Com licença."

Kalim ficou olhando o homem sair voando da sala.

"Ele tem algo para dizer e não quer. Ou não pode." � pensou.

Deixando a sala para trás, ela seguiu para os elevadores de vidro que deixavam ver o setor residencial ao sul. Ficou intrigada com o comportamento do jovem técnico e comentou isso com Tai durante o jantar.

"No mínimo isso é estranho." � a loura ponderou enquanto apreciava um bife suculento que há muito não via na Terra.

"Estou pensando em tentar falar com ele amanhã. Talvez ele esteja amedrontado porque é jovem e não tem autorização do Dr. Marriot para falar."

"Faça isso. Se for algo sério, o professor é quem vai se enrascar por não ter nos dado ciência do tal mistério."

No dia seguinte, antes da reunião já marcada, Kalim chegou ao Alto Comando e foi direto para sua sala. De lá pediu ao comunicador que localizasse Foucand. Em dois minutos a imagem do técnico surgiu na tela.

"Está à minha prrocurra, senadorra?" � ele perguntou receoso.

"Sim. Eu gostaria de falar com você. Pode vir até minha sala antes de começarmos a reunião?"

"Clarro. Estou indo agorra mesmo." � ele desligou em seguida.

Inquieta, Kalim ficou esperando que o comunicador anunciasse que Foucand estava na ante-sala. Enquanto isso tentava imaginar o que ele escondia e em como tiraria a informação dele. Cientistas não costumavam delatar colegas ou dar informações das quais não tivessem certeza; por isso teria de convencê-lo a contar o que quer que fosse.

O comunicador anunciou o rapaz e Kalim deu a ordem para que a porta se abrisse.

Visivelmente incomodado, Foucand procurava o que fazer com as mãos.

"Sente-se, Monsieur Foucand." � ela convidou, tentando deixa-lo mais à vontade.

Ele sentou e ficou em silêncio.

"Ontem fiquei com a impressão de que você gostaria de ter dito mais alguma coisa durante a reunião. Estou certa?" � Kalim resolveu ser direta com ele.

"N... não, senadorra. Eh... tudo ficou esclarrecido, non?"

"Para mim, não. Você estava e está nervoso agora. Porque não me diz do que se trata? Não queremos colocar as equipes de exploração em risco, monsieur. Se você tem alguma informação importante, mas que acha que não deve passar por cima de seus superiores para me contar, devo lhe adiantar que será pior se algo acontecer por causa de sua omissão." � ela acrescentou em tom suave, mas firme.

Ele pareceu pensar e avaliar a situação rapidamente. Kalim sabia que tinha atingido o ponto: sua fama de compreensiva, mas durona não tinha sido lapidada facilmente. Foucand tinha entendido o recado.

Pegando uns papéis dentro de uma pasta que carregava, ele entregou-os a ela.

Kalim entendeu no mesmo instante que passou os olhos experientes pelos dados.

"Fontes de calor nas montanhas?" � ela perguntou, ainda incrédula.

"Me desculpe falarr assim na ausência do meu superiorr, Senadorra, mas tenho tentado falarr com o Prrofessor desde que chegamos da viagem às montanhas e ele não me ouve." � ele começou a se explicar, ainda com medo.

"Me dê detalhes." � pediu.

"Durrante a expedição, obserrvei sinais estrranhos prróximos à entradas de alguns canyons que não foram explorados. Erram sinais de civilização, Senadorra!"

Kalim franziu a testa e ficou reta em sua poltrona:

"Como, sinais de civilização? Algum de nós já havia passado por esses canyons?"

"Não, senhorra. E é porr isso que me prreocupo. Rrastrreei a rregion com módulos não-trripulados e identifiquei sinais frracos, mas visíveis de calorr. Inforrmei ao prrofessor, mas ele acrredita que son animais das montanhas. Além disso, acredito que os sinais que encontrrei non son de animais."

"O que quer dizer com isso?" � Kalim já pressentia problemas com aquela informação.

"Querro dizer, Senadorra, que estou prreocupado. Gostarria de ter falado às outrras autorridades sobrre isso, mas já vim parra a reunion com orrdens do prrofessorr parra non dizerr nada. Na opinion dele, isso é uma bobagem e só irria incomodarr as autorridades, pois o objetivo maiorr é iniciarr a minerraçon. Tenho cerrteza de que os sinais que encontrrei forram feitos porr máquinas crriadas porr humanos."

"O senhor tem provas do que está afirmando? Afinal nossos meios de transporte já não usam rodas há mais de duas décadas."

"Sei disso, mas crreio serrem máquinas antigas. Tenho registrros fotogrráficos das marrcas e o arrquivo digital dos equipamentos usados no rrastrreamento dos sinais de calorr." � ele respondeu.

"Eu gostaria de vê-los." � Kalim pediu.

Ele retirou da pasta mais alguns gráficos que mostravam escalas de sinais térmicos no lado oeste das montanhas e cinco fotos de marcas no gelo. Kalim examinou-as e percebeu tratar-se de rastros parecidos com esteiras de antigos trenós de carga; mas não eram nítidos.

"Monsieur Foucand, não tenho conhecimentos para afirmar se isso são marcas de trenós de neve antigos, mas já me recordo de ter visto marcas parecidas na minha infância. Não tenho informações de que alguma equipe já tenha visitado as montanhas. Isso seria muito perigoso e ilegal se fosse feito sem autorização do Conselho de Gea. Por favor, aguarde na sala de reuniões enquanto reúno o conselho novamente. Precisamos verificar essas informações."

O jovem técnico ficou lívido e mais assustado. Em seu íntimo, se lamentava por ter falado demais. Agora provavelmente, pensou ele, seu emprego iria pelos ares.

"Se... Senadorra, eu... eu não gostarria de incomodarr os membrros do conselho com isso. O Dr. Marriot..."

"Ele vai nos dizer porque não nos informou isso antes e vamos investigar. Não podemos arriscar um parafuso sequer desta expedição, quanto mais uma vida humana. Essa informação que me deu abre uma questão sem precedentes na história da colonização de Gea, Monsieur Foucand. Pelo que entendi, se suas impressões forem corretas, isso significa que não estamos sozinhos nesse planeta e essa informação não pode ser simplesmente confundida com "animais da montanha"! O Dr. Marriot, no mínimo, deveria ter dado mais atenção à informação e verificado sua veracidade, nem que fosse a título de curiosidade."

Kalim levantou-se com as fotos nas mãos e começou a caminhar ao redor da sala. Tinha de pensar. Aquela informação era importante demais para ser ignorada. As fontes de calor detectadas por Foucand poderiam mesmo ser de animais, mas as marcas no gelo eram no mínimo estranhas. Em sua mente analítica, ela pensou nas muitas conseqüências de outros humanos, e pior, de quem eram esses outros humanos, estarem em Gea antes dos colonos.

De onde estava, ela fixou o olhar preocupado no amedrontado Monsieur Foucand e ordenou ao comunicador:

"Entrar em contato com todos os membros do Conselho de Gea e informar que a Senadora Kalim Nurit solicita uma reunião urgente para discutir assunto referente à expedição. Convoque também a Capitã Tai Hansar."

A máquina respondeu, com voz mecânica, que cumpriria a ordem imediatamente.

"O que está me dizendo, Senadora Nurit?"

A voz do Senador Jordan estava repleta de incredulidade. Tanto ele quanto os outros três membros do conselho estavam estupefatos com a idéia de que outros humanos poderiam ter vindo para Gea antes dos primeiros membros do Projeto.

"É isso mesmo, Jordan! � ela retrucou. � Precisamos saber, antes de tudo, se o Senado Mundial autorizou alguma nave terráquea a pousar em Gea antes de sairmos em busca desses sinais. Precisamos saber com "o quê" estaremos lidando."

"Kalin, assim como você, estou no meu terceiro mandato e nunca soube de qualquer expedição autorizada a vir para Gea. Mesmo por que, o planeta foi descoberto há algumas décadas apenas e desde então vem sendo estudado aleatoriamente, como mais um na Galáxia de Andrômeda. Foi o seu projeto que despertou nosso interesse em povoá-lo."

Na ponta da mesa de reuniões, a Tenente Adrian pediu a palavra. Tai estava ao lado dela e só observava.

"Isso é verdade, Kalin. O Comando Militar saberia se alguém tivesse botado os pés aqui antes. Mesmo que fosse clandestinamente. Temos o controle de todo o espaço interplanetário conhecido e também de todas as naves que saem da Terra."

"E se não forem da Terra?" � ela perguntou, causando um leve burburinho entre seus quatro espectadores.

"Impossível. � retorquiu Adrian � Nossa tecnologia teria detectado qualquer forma de vida extraterrena; você sabe disso."

"Então posso afirmar que o que fez essas marcas e apareceu nos detectores de calor, ou são animais ou são humanos?" � desta vez foi o Senador Bradshaw quem perguntou.

"Nada além disso, Senador, pode ter certeza." � foi a afirmação de Adrian.

Como militar presente no Conselho, ela tinha a responsabilidade sobre toda a segurança do planeta e fazia isso muito bem. Naqueles quase seis anos, os problemas de segurança em Gea não tinham passado de pequenas brigas e ameaças entre funcionários que foram construir as instalações ou entre os fazendeiros instalados nos vastos campos de produção. Mesmo porque, a paz reinava na Terra há centenas de anos e as poucas armas existentes estavam sob rigoroso controle do Exército e do Senado Mundiais.

Linnus Bradshaw manifestou-se de novo:

"Meus caros, o que devemos fazer, se me permitem aconselhar, é organizar uma força-tarefa e procurarmos o lugar onde esses sinais apareceram nas montanhas. Não vai adiantar ficarmos aqui discutindo se são humanos ou animais. Precisamos saber do que se trata. E rápido, porque se forem humanos teremos de descobrir como vieram parar aqui. Acho difícil que seja gente da Terra, já que o Senado Mundial saberia disso."

Por alguns instantes a sala ficou em silêncio, todos pensativos e ao mesmo tempo apreensivos com a situação. Por fim, Adrian tomou a palavra novamente:

"Concordo com o senador. Posso formar um pequeno contingente de soldados treinados para irmos até o ponto de detecção dos sinais para verificarmos sua origem. Acredito que vinte membros serão suficientes."

"Concordo, tenente, mas nossos pesquisadores só descobriram animais de pequeno porte até agora, completamente inofensivos. Pode parecer bobagem, mas estou preocupada com a segurança dessa equipe. Acho que devemos ir preparados; com armas potentes."

Tai se manifestou pela primeira vez desde que começaram a reunião. Kalim olhou para sua esposa e reconheceu aquele cenho franzido de preocupação e que ela aprendera a valorizar. Sempre que ela tinha suas intuições, sabia que devia ouvi-la, pois aprendera que ela estava sempre certa. Por algum motivo que ela desconhecia, aqueles olhos verdes sabiam quando havia algum perigo real por perto.

"Capitã Hansar, ainda acho um exagero..." � já foi argumentando o Senador Jordan.

"Senador, � interrompeu Kalim, olhando para o amigo � parece mesmo um exagero levar algumas de nossas armas mais potentes para as montanhas, mas aprendi a ouvir as opiniões da Capitã Hansar. Não vai fazer diferença se a equipe se armar melhor. E todos estarão mais seguros."

"Concordo com a capitã, senador. Segurança nunca é demais." � acrescentou a Tenente Hansar.

"Bem, talvez tenham razão então..." � o senador encolheu os ombros, concordando.

Naquela mesma manhã o Dr. Jean Marriot foi convocado a fornecer todos os dados que sua equipe havia colhido nas montanhas para que a equipe militar soubesse o caminho a ser seguido. O Conselho quis saber porque ele não tinha informado sobre os sinais e o velho pesquisador teve de se esmerar em faze-los acreditar que fora apenas por achar que eram animaizinhos sem importância. Mesmo assim, o chefe do Alto Comando despachou-lhe uma repreensão. Uma informação daquelas não poderia ter sido desprezada por um cientista experiente como ele.

Sete detectores remotos foram enviados para as coordenadas fornecidas pela equipe do professor com a missão de identificarem novamente os sinais e também outros possíveis locais que estivessem emitindo sinais de calor. Por quatro dias os detectores enviaram sinais negativos, mas no quinto dia imagens de rastros na neve acumulada em um canyon apareceram, enviadas por um dos detectores.

Para preocupação da Capitã Hansar, que fora encarregada de organizar e chefiar a força-tarefa, estranhamente o detector parou de enviar imagens, após cerca de cinco minutos das primeiras imagens enviadas. O técnico responsável pela manutenção dos aparelhos afirmou-lhe que provavelmente o equipamento ficou sem bateria e caiu, mas Tai não confiou totalmente nisso. Preferiu trabalhar com a hipótese de que havia sido derrubado. Os outros aparelhos voltaram sem registrar nada.

"Querida, não pense nisso." � Kalim tentava desviar-lhe a atenção do detector desaparecido enquanto assistia-a vestir seu uniforme para enfrentar o frio das montanhas.

"Estou tentando, mas estou apreensiva. Não gostei desse desaparecimento."

"O aparelho não desapareceu, apenas caiu."

Kalim tentava não demonstrar, mas também achava estranho. Também não tinha acreditado em baterias pifadas, mas não podia afligir Tai com suas preocupações. Estava apreensiva com aquela missão, mas não podia mandar outra pessoa no lugar de sua mulher. A Capitã Hansar era quem mais entendia de missões em Gea. Mas a senadora mal conseguia disfarçar o quanto estava aflita. E mesmo sabendo que Tai acharia desnecessário se soubesse, colocou um micro localizador preso na gola do uniforme que ela usava. Pelo menos saberia onde ela estava e se algo acontecesse, poderia mandar ajuda o quanto antes.

"Onde está Liam?" � Tai perguntou, fechando o zíper que subia até seu peito.

"Na casa de Robert e Sumant, brincando com Bernard."

"Amor, por favor, chame-a. Quero me despedir. Estou indo para a base e não sei se terei tempo de passar aqui antes de partirmos."

De onde estava, Kalim ordenou ao comunicador que ligasse para a casa dos amigos. Um ponto azul surgiu na tela e a imagem da robô doméstica expandiu-se a partir dele.

"Olá, Sara."

"Como vai, Senadora Nurit?" � cumprimentou a robô.

"Muito bem, obrigada. Você poderia interromper a brincadeira das crianças e mandar Liam para casa?" � pediu Kalim

"Claro! Eles não vão gostar, mas vou fazer isso. Eu a acompanharei."

"Obrigada." � Kalim agradeceu e desligou.

Vendo o olhar de inquietude de Tai, Kalim levantou-se e abraçou sua mulher.

"Acalme-se, está bem? Senão vou ficar preocupada antes mesmo de você partir."

Tai enlaçou-a pelo pescoço e encostou seu nariz no de Kalim. Ela sempre fazia isso quando queria carinho. Kalim acariciou o rosto delicado e beijou-a já com saudade. A missão duraria apenas alguns dias, mas a idéia de ficar sem sua mulher não lhe soava interessante.

Dez minutos depois a porta da frente deslizou e Liam irrompeu pela casa, deixando Sara na porta, esperando alguma ordem. Tai pegou a filha no colo e deu ordem à robô para que retornasse para seus proprietários e ela se foi, emitindo pequenos ruídos.

"Mamãe, você já vai para as montanhas?" � a pequena quis saber, observando o uniforme.

"Sim, já vou, querida. Quero que se comporte do mesmo jeito que quando estou em casa, ouviu?"

"Pode deixar! Mas vou poder voltar à casa de Bernard para brincar nesses dias?" � retrucou a pequena.

"Só se mamãe Kalim deixar."

"Está bem!"

""Agora apronte-se para a aula de natação. Vamos deixar você lá."

"Preferia ir me despedir de você na base." � Liam já foi tentando negociar.

"Não, senhora!! Quando estávamos na Terra você jamais quis matar uma aula de natação. Vai mudar de idéia agora? � Tai fez cara de desaprovação.

"Não, mamãe. É que... eu não queria que você fosse..." � a menina fungou de leve, já quase chorando e se agarrando a Tai.

"Meu amor, vou voltar em poucos dias. E você não vai ficar sozinha; mamãe Kalim está aqui." � ela tentou acalmar a filha olhando para Kalim num pedido mudo de ajuda.

"Não se preocupe, Liam. Mamãe não vai demorar na missão e enquanto isso vamos ficar bem juntinhas esperando que ela volte. Agora não chore, senão a mamãe vai ficar muito preocupada, ok?" � Kalim abraçou as duas ao mesmo tempo.

"Está bem." � respondeu a pequena, contrariada e indo colocar seu maiô de natação.

Kalim e Tai olharam-se em cumplicidade. Ficaram abraçadas até que a filha voltou, já pronta para a aula, mas ainda chorosa.

Foi difícil convencer Liam a ficar na aula de natação enquanto Tai saía para a missão. A menina chorou e se agarrou a Tai. Ela não era de fazer birra, mas parecia não querer deixar Tai partir. Depois de meia hora de conversa, elas conseguiram deixar a pequena na aula de natação. As mães da menina sofriam junto com ela. Ver sua filhinha chorando era a pior coisa para Tai e Kalim; e foi com muito pesar que elas foram para a base militar, onde encontraram Adrian e o restante da equipe prontos para partir. Geremy Morani, marido de Adrian também faria parte da missão.

Antes de embarcarem nas naves militares, Tai deu um beijo em sua esposa.

"Cuide de você e de Liam para mim, está bem?" � ela pediu, já na rampa de acesso à nave.

"Pode deixar. Cuide-se também." � a senadora despediu-se, beijando-a mais uma vez.

Enquanto a nave subia verticalmente, deixando o espaço-porto da Base Militar de Gea e sendo seguida por outras duas, a Senadora Nurit tirou seu comunicador do bolso e observou a tela diminuta: um ponto vermelho deslocava-se no mesmo ritmo da nave onde Tai viajava. Mostrava-lhe em alta definição e com todos os dados ao lado da imagem, que a pessoa que ela mais amava na vida ia naquele momento, em direção às Montanhas do Leste.

O comboio de três naves militares demorou exatos quarenta e sete minutos para aterrissar no sopé da primeira montanha que formava uma cadeia contínua de rochas escarpadas e íngremes a que os primeiros estudiosos de Gea deram o nome de Montanhas do Leste. Destoando completamente do restante do Continente Central, que era quase tão plano quanto um tapete, aquele aglomerado de elevações rochosas mostrava que o continente havia sofrido um único acidente geológico, mas que ele fora suficiente para criar escarpas assombrosas, de mais de nove mil metros de altitude. Ficava no extremo leste do Continente Central, terminando na costa.

Sob as ordens das Capitã e Tenente Hansar, a equipe montou um acampamento-base na entrada menos íngreme das montanhas. Era dali que partiriam, divididos em duas equipes, para buscar os sinais que vinham de cento e cinqüenta quilômetros adentro, nos vales centrais da cadeia de rochas.

As barracas, montadas com placas de material metálico e resistente ao frio, ficaram prontas em duas horas e a capitã já estava organizando as equipes que seguiriam em separado na busca.

"Sargento Chong e mais quatro soldados seguirão as coordenadas que abordam os sinais pelo sul. A Tenente Hansar, eu, o Sargento Luden e dois soldados seguiremos as coordenadas que chegam aos sinais pelo norte. O Tenente Morani e a Sargento Clark ficarão aqui para qualquer evento. Todos estão indo na direção de sinais até agora estranhos aos nossos registros, portanto deverão tomar todo cuidado. Podem ser simples animais, mas também podem ser problemas que não poderemos menosprezar. Todos estão com seus comunicadores?"

"Sim". � foi a resposta em uníssono.

"Ótimo! Testem suas armas nos dois módulos." � a tenente ordenou.

Todos da equipe, que se reunira num círculo em meio à neve, voltaram-se para fora do círculo, sacaram suas pistolas e testaram-nas, apontando para as rochas ao redor. Primeiro no modo paralisante, que por ondas eletromagnéticas, paralisava o cérebro da pessoa atingida, como num desmaio repentino ; e testaram também o modo neutralizante, que fora projetado para, literalmente, "fritar" o cérebro do atingido, matando a pessoa ou animal no mesmo instante.

Com as armas funcionando perfeitamente, as duas equipes embarcaram nas naves e saíram para fazer o reconhecimento das rotas descritas nas coordenadas fornecidas pela equipe do Dr. Marriot. Enquanto as naves se deslocavam mais para perto do lugar onde os sinais foram detectados pela primeira vez, na tela do computador de bordo da nave de Tai, vários sinais de calor começaram a aparecer. A Tenente Adrian foi a primeira a ver.

"Capitã, veja! Os sinais estão próximos do primeiro local onde a equipe do professor os detectou antes. E estão parados!"

Olhando a tela, Tai confirmou a localização: 37 quilômetros adentrando as montanhas, na direção que estavam seguindo.

"Vamos nos aproximar devagar. Quando estivermos a poucos quilômetros, vamos mandar localizadores não tripulados para fazer a verificação inicial."

Sem que a capitã ou a tenente precisasse ordenar, o Sargento Luden, que estava no painel de comando providenciou que a nave se dirigisse para o lugar que brilhava na tela do computador e avisou a nave com a equipe do Sargento Chong que estavam indo para lá.

Em poucos minutos o sinal estava a menos de 2 quilômetros de onde a nave flutuava a 300 metros do chão rochoso e coberto por mais de 15 centímetros de neve. Na barriga da nave, uma abertura deixou passar um pequeno localizador não tripulado, que se aproximou do lugar seguindo as ordens vocais dadas pela Capitã Hansar, diretamente da cabine de comando.

A câmera acoplada ao aparelho mostrava as escapas de duas paredes rochosas que formavam uma fenda profunda e estreita. Os dados ao lado da imagem indicavam que não tinham mais de quatro metros de largura. Seguindo do alto, o localizador passeava sobre o labirinto de pedras pinceladas de branco e começou a registrar alguns sons.

"Tenente, venha ouvir isso." � a capitã chamou.

"Parecem grunhidos!" � Adrian observou, depois de ouvir por um tempo.

"Luden, podemos analisar os sons antes mesmo do localizador nos dar as imagens?" � Tai perguntou à sargento que estava no painel de controle.

"Em um minuto, capitã."

O localizador transmitia os dados colhidos para o computador da nave e o resultado da análise dos sons apareceu na tela em frente a Tai e Adrian no mesmo instante que o localizador mostrou as imagens.

Eram blasidiotones, pequenos mamíferos carnívoros.

"Ah, eu não acredito que viemos até aqui para perseguir esses dentuços feiosos!"

Tai não conseguiu segurar o riso. Os blasidiotones eram animaizinhos de pêlo branco e espesso, que viviam em bandos de seis ou sete pelos lugares frios de Gea. Foram identificados logo na primeira expedição que explorou o planeta. Eles tinham a mandíbula proeminente e grunhiam alto quando estavam reunidos para se aquecer.

A Tenente Adrian também começou a rir enquanto pedia para o computador contactá-la com a outra equipe para que ela a informasse do que tinham encontrado.

"Pode rir, prima. � Tai não se continha � Sei que fizemos papel de bobos vindo atrás das informações furadas de Foucand, mas não precisa debochar.

"Não estou deboch..."

Adrian não terminou a frase. O estrondo na lateral da nave foi tão forte que todos se agarraram nos assentos. Tai viu o computador informar numa das telas que a nave estava perdendo altitude e na outra, ouviu e viu o Sargento Chong retornando a mensagem de Adrian:

"Capitã Hansar, nós também encontramos os sinais, mas nosso localizador não mostrou blasidiotones. Descobrimos que..."

A transmissão foi cortada quando outro estrondo atingiu os ouvidos da equipe toda dentro da nave que caía.

 

Em seu escritório no prédio do Conselho de Gea, Kalim pensava em Tai enquanto verificava no localizador o local onde ela se encontrava. O sinal estava perfeito e ela sorriu, satisfeita.

A tela de seu computador pessoal emergiu do tampo da mesa e avisou-a que o chefe do Alto Comando estava na ante-sala, querendo falar-lhe com urgência.

Ela levantou uma sobrancelha, perguntando-se qual seria a urgência. E mal terminou de dar a ordem para a porta se abrir e o Senador Bradshaw irrompeu pela sala, arrastando-se pesadamente.

"Senadora, sinto por lhe importunar com essa urgência, mas achei que deveria saber o quanto antes..."

"Por favor, sente-se e acalme-se, senador. O que devo saber?" � ela perguntou.

O senador sentou-se na poltrona em frente a mesa de Kalim e respirou várias vezes antes de começar a falar novamente.

"Vou explicar: eu tenho um filho que é primeiro-sargento do Exército Mundial. Ele trabalha estação prisional Otelo 3, na órbita de Vênus. Mesmo sabendo ser praticamente impossível alguém ter saído da Terra sem que o Exército Mundial tenha ficado sabendo, pedi a ele que tentasse verificar isso para mim." � ele ofegou e parou de falar por um instante.

"O que está me dizendo?" � Kalim começava a ficar preocupada com aquilo.

"Sei que é ilegal e até arrisquei a carreira do meu filho, senadora, mas aquela história de pequenos animais fazendo marcas na neve não me convenceu. Sou velho demais para acreditar em coincidências. E foi realmente o que eu pensei: meu filho descobriu algumas poucas, mas importantes informações. Há mais de vinte anos, um grupo de prisioneiros fugiu de Otelo 5. É outra estação prisional na órbita de Saturno. Essa informação ficou escondida nos bastidores da administração prisional por todo esse tempo por causa de interesses políticos do antigo diretor da estação, mas sempre houve uma suspeita. Como meu filho está lá há dois anos, já tinha ouvido falar da fuga e confirmou isso com alguns colegas mais antigos. Ele não descobriu nada oficial, apenas velhos boatos."

"E o senhor desconfia que esses prisioneiros estão..."

"Em Gea. Houve perseguição, mas nunca foram localizados. E a última vez que souberam deles, estavam seguindo coordenadas que indicavam a direção de Gea. Eram todos perigosos, condenados à prisão perpétua por crimes horrorosos na Terra. Dezenove homens e oito mulheres." � ele terminou.

Kalim sentiu seu coração gelar. Toda gama de pensamentos passou por sua mente em poucos segundos: Tai estava nas montanhas. Perto de criminosos.

Ela pegou automaticamente o localizador. O aparelho mostrava que Tai se deslocava muito devagar, provavelmente a pé. E o sinal estava inexplicavelmente fraco.

Procurando por um conector, ela ligou o localizador ao seu computador e pediu que entrasse em contado com o comunicador portátil de Tai. Depois de esperar alguns segundos, o aviso piscou na tela: indisponível.

"O que faremos, Senadora?" � o velho político perguntou, ainda ligeiramente ofegante.

"Vamos busca-los! Agora! Dos fugitivos cuidaremos depois."

Uma reunião extraordinária foi feita às pressas no Conselho de Gea. Kalim não suportava o fato de não conseguir contactar Tai. Toda a missão estava fora do alcance dos comunicadores. E isso era impossível!!

"Precisamos mandar uma equipe de busca agora! E eu mesma vou chefia-la!" � ela declarou num tom mais além do que todos estavam acostumados a ouvi-la. Seu nervosismo era evidente.

"Senadora, não é necessário. Temos soldados que estão se preparando nesse exato momento e que podem cumprir a missão sem coloca-la em risco também." � o senador Jordan tentou argumentar.

"Eu sinto muito, Robert, mas é Tai que está lá. Não vou ficar aqui esperando notícias de braços cruzados."

"Eu sei, mas..."

"Por favor. Peço-lhe que cuide de Liam para mim, sim?"

"Claro, Kalim. Cuidaremos dela." � o senador desistiu de tentar argumentar com ela. Conhecia a amiga e sabia que ela não desistiria.

Sob o comando da senadora, mais de vinte naves alçaram vôo da base militar em direção às montanhas. Pouco antes de embarcarem, a torre de comando da base recebera informações de um mini-localizador não-tripulado que foi lançado assim que iniciaram a reunião e que encontrara a nave de Tai despedaçada no fundo de um desfiladeiro de rochas. Além disso, a outra nave e também a equipe de terra que ficara na entrada da cadeia de montanhas não respondiam às tentativas de comunicação.

Para seu alívio e desespero ao mesmo tempo, o localizador não encontrara nenhum corpo, mas havia vestígios de sangue na neve, significando que alguém da equipe poderia estar ferido na queda da nave.

Kalim rezava à Deusa para que não fosse Tai.

"Por favor, proteja-a!" � ela pedia silenciosamente, enquanto sua nave decolava.

Os técnicos do exército lhe disseram que o mau tempo poderia impedir que os sinais chegassem até eles, mas Kalim ficava cada vez mais apreensiva. Estavam em 2797; aquilo não podia estar acontecendo! A tecnologia que tinham não podia ser vencida por uma nevasca!

Kalim tremia visivelmente e seu coração batia descompassado e aflito pela vida de Tai. Sua mulher, seu amor, sua vida estava naquelas montanhas! Correndo perigo! Por mais que tentasse, não conseguia deixar de imagina-la nas mãos daqueles fugitivos. Ela estava viva, tinha essa certeza em seu coração. Mas não mandara nenhum pedido de socorro. Ela tinha um comunicador portátil preso no braço esquerdo que não podia ser tirado a não ser na base, através de um código digitado em seu painel e isso preocupava Kalim mais ainda.

"Isso só pode significar que o comunicador foi destruído." � ela pensava.

Seus olhos azuis corriam do painel da nave, que mostrava a posição que estavam e o tênue sinal do localizador que ela colocara na gola do uniforme de Tai. O sinal estava parado naquele instante, indicando uma área não-explorada das montanhas. A cada momento em que via o sinal, ela agradecia à Deusa pela benção de Tai estar viva, pois o localizador se mantinha em funcionamento convertendo o calor do corpo de quem o portava em energia. O fato de estar fraco significava apenas que Tai estava numa área de difícil acesso.

Num lampejo ela observou o tempo que o computador da nave indicava que demorariam para chegar ao sinal do localizador de Tai: 1 hora e 45 minutos.

"Terzigt, - ela chamou a segundo-tenente ao seu lado - vamos demorar demais para chegar. As coordenadas seguidas pelas equipes de busca não as levaram para tão longe."

"Senadora, acabei de obter informações que o computador de bordo analisou usando as coordenadas que as equipes seguiram e a que estamos seguindo agora, em direção ao localizador da Capitã Hansar. O sinal está a 2400 km ao sul das coordenadas que eles seguiam." � a tenente informou, séria.

Kalim gelou no mesmo instante em que a tenente pronunciou a distância.

"Isso significa que "foram levados" para lá, pois recebemos a informação de que a nave havia caído há menos de vinte minutos!"

"Não pode significar outra coisa, senhora."

"Então aqueles fugitivos estão em Gea." � Kalim balbuciou para si mesma, tentando raciocinar direito.

"O que disse, senadora?" � a tenente ficara sem entender, já que não sabia da informação dada pelo governador.

Mas Kalim já não ouvia o que a moça dizia. Sua cabeça dava voltas desesperadas, pensando no que Tai poderia estar passando.

"Se aqueles fugitivos aprisionaram toda a missão e os estão escondendo, isso só pode significar que não têm boas intenções." � ela pensava consigo.

Precisava agir; agir com urgência.

"Vamos seguir para as coordenadas do localizador o mais rápido que essas naves conseguirem voar." � ela ordenou, tentando impedir que suas mãos tremessem.

Tai sentiu como se estivesse num daqueles elevadores de brinquedo que despencam no ar em parques de diversões. O cinto de segurança manteve-a presa em sua cadeira e antes de desmaiar, ela teve tempo de sentir o baque da nave contra a camada espessa de neve que cobria um vale entre as cadeias rochosas.

Quando acordou, percebeu que havia sangue em sua boca e a cabeça latejava e doía; sentia a pressão do cinto que a salvara sobre o peito. E então ela percebeu, mesmo antes de abrir os olhos, que algo duro lhe cutucava o queixo, como se quisesse faze-la virar o rosto.

Abrindo os olhos com dificuldade, viu a luz forte de uma lanterna invadir-lhe a visão e conseguiu identificar o cano de um dispositivo imobilizador conhecido como "nêutron". Era usado em prisões. Imediatamente, mesmo com o raciocínio prejudicado pela tontura que sentia, ela percebeu que não estava entre amigos.

Um sujeito com a barba por fazer, cabelos compridos e usando uma veste que um dia fora azul, toda remendada, segurava o nêutron a dois centímetros do rosto dela.

"Abra os olhos, vamos!" � ordenou ele, com voz ríspida.

Tai tentou falar, mas sua boca estava repleta de sangue e ela sentiu quando um pouco dele escorreu por seu rosto.

"Essa aqui está viva, Tom!" � ele gritou para alguém.

"Quem morreu? Quem são vocês?" � ela murmurou, não conseguindo impedir que o sangue escorresse todo para fora da boca.

"Não interessa! Cale-se!" � ele ordenou de novo, enquanto cortava com uma faca de caça, a tira do cinto de segurança.

Tai abriu os olhos inteiramente e viu a nave destruída à sua volta. Só quando tentou mover o braço esquerdo foi que percebeu que estava quebrado, tomando consciência da dor instantaneamente. Mas o sujeito não pareceu se importar e arrastou-a para fora da cadeira.

"Ei, meu bra..." � ela gemeu de dor.

Sem dar ouvidos a ela, o sujeito puxou-lhe o braço direito, onde estava o comunicador individual e apoiando parte dele num canto vivo do painel destruído da nave, bateu com o cano da arma, destruindo-o.

Ele não acertou seu braço, mas assim que deu o primeiro passo ela percebeu um corte fundo na coxa direita que sangrava muito. Por todo corpo Tai sentia dores de contusões sofridas durante a queda. Viu rastros de sangue pelo chão da nave e foi empurrada por uma abertura na fuselagem, feita provavelmente por um cortado a laser, por onde um homem corpulento passaria sem a menor dificuldade. Ao passar, ela sentiu o frio da neve que caía cortar-lhe os lábios feridos.

Ali fora, sobre a neve manchada de sangue, estavam o corpo de sua prima Adrian.

"Adrian! � ela gritou, sentindo as pernas tremerem.

Ela tentou aproximar-se, mas o sujeito de azul empurrou-a bruscamente mais para adiante, junto dos outros dois soldados que também estavam muito feridos, mas vivos.

"Ela era minha prima, seu..." � Tai começou a gritar.

Mas não houve tempo. Ela só sentiu o punho dele bater em sua têmpora e deixa-la tonta novamente. Ela caiu aos pés de um dos soldados, que com as mãos amarradas por uma corda improvisada com os fios da nave, não teve muito o que fazer.

O homem afastou-se depois de amarrar os punhos e tornozelos de Tai e deixou os três amontoados sob a neve, tiritando de frio.

"Quem são eles?" � ela murmurou entre-dentes.

"Não sei, capitã. Só sei que nos derrubaram com aquele lançador de mísseis ali." � o soldado apontou com o queixo para a arma, encostada ao lado da nave que agora era saqueada por um grupo de homens. Eles vestiam as mesmas vestes remendadas que o sujeito que agredira Tai, mas de várias cores.

"São terráqueos! Como vieram parar em Gea?!"

"Não faço idéia, capitã. Eu estava no compartimento de carga e eles me tiraram da nave primeiro. Fiquei observando-os: as armas que têm são antigas; usam roupas remendadas. E quando me trouxeram, havia um velho transportador estelar estacionado a uns vinte metros daqui. Veja as marcas na neve. � ela apontou novamente com o queixo, agora em direção oposta. � Fiquei aqui por 10 minutos e vi quando esse transportador levantou vôo, parecendo que ia cair ao invés de voar."

"Não entendo. Estão sendo agressivos conosco. Nos derrubaram. Por quê isso?"

"Pelo jeito estão..."

"Vocês aí, calem-se se quiserem continuar vivos! � uma mulher com longos cabelos desgrenhados e salpicados de neve chegou perto deles e chutou a perna de Tai.

"Ei!"

"Eu disse para se calar!" � e encostou um imobilizador enferrujado na testa da capitã.

Tai fuzilou-a com o olhar e a mulher lhe respondeu com um risinho cínico no canto dos lábios, voltando para a nave, onde seus companheiros traziam para fora toda a carga de armas e suprimentos da missão que ficara inteira.

O soldado ficou quieto até a mulher sumir de vista e continuou:

"Pelo jeito estão interessados nas nossas armas e suprimentos."

Nesse instante, um ruído estranho sobrevoou o lugar onde estavam e Tai viu o velho transportador fazer-lhes sombra e ir pousar com estrondo no mesmo lugar onde estivera antes.

A porta da nave se abriu e dela saíram mais estranhos, agora empunhando as armas da missão.

"Eles pegaram o pessoal da base e da outra nave!" � Tai arregalou os olhos quando viu Chong, Luden, Morani, Clark e mais outros soldados serem trazidos para junto deles. Todos eles estavam amarrados e tinham sinais de agressão nos rostos. Trouxeram também os corpos de outro soldado que provavelmente tinha morrido na queda da nave.

"Capitã... vocês estão bem?" � perguntou o Tenente Morani, quando foi empurrado com violência e caiu perto de Chong.

"Estamos, tenente. O que eles fizeram? Destruíam o acampamento?"

"Não, senhora. Trouxeram tudo! Não deixaram nada para trás! Fizeram um ataque surpresa e quando vimos estavam com umas armas velhas apontadas para nossos narizes." � respondeu.

O tenente olhou em volta e perguntou a um soldado onde estava sua esposa. O pobre coitado, sem saber o que dizer, correu o olhar em súplica para a Capitã Hansar.

Ela olhava para seu primo, e mordeu o lábio ferido para tentar segurar as lágrimas que corriam novamente.

O semblante do tenente ficou imediatamente tenso e ele esqueceu até mesmo da hierarquia militar.

"Tai, o que aconteceu? Onde está Adrian?"

O amontoado de militares ficou num silêncio pesado.

"Geremy, eu... Adrian..." � a capitã não conseguia falar.

"Senhor, ela morreu na queda da nave."- o Tenente Luden disse em voz baixa.

Morani não disse nada. Mas seu rosto se contraiu de uma forma que revelava toda a dor e incredulidade que estava sentindo. Ele caiu de joelhos e ficou estático por alguns momentos, parecendo paralisado. O único sinal de que ainda estava vivo eram as lágrimas que corriam de seus olhos. Tai ajoelhou-se ao lado dele e os dois choraram.

*******

"Agora só falta saber o que farão conosco. Mas de onde vem essa gente? Como vieram parar em Gea? Há quanto tempo estão aqui para terem esses equipamentos ultrapassados? Viemos em busca de prováveis sinais deixados por humanos, mas francamente eu não imaginava que fossem assim. E o pior: como nunca soubemos deles?"

As muitas perguntas fervilhavam na cabeça de Tai e de todos os seus subordinados, mas não havia resposta. Seu braço doía a ponto de deixa-la tonta e a neve acumulava-se sobre seus cabelos e roupas. Por sorte o uniforme era próprio para o frio que enfrentavam, mas já percebera o olhar de cobiça que a mulher de cabelos desgrenhados lançara para ele. Ela pensou em Kalim. Como queria estar com ela, coberta de carinhos e cuidados! Ao seu lado, Morani ainda parecia paralisado pela perda da esposa. Não falara mais nada desde o momento em que ouvira a notícia da morte de Adrian.

Enquanto congelavam sobe a neve, toda a nave fora saqueada e o velho transportador entulhado com o produto do roubo. E quando terminaram, os estranhos esfarrapados, agora empunhando as armas da tripulação ao invés dos imobilizadores velhos, vieram em direção ao grupo de militares amontoados e quase congelados.

"Levantem-se!" � um deles ordenou, gritando.

Tai ergueu-se lentamente e percebeu que sua perna estava sangrando sob o uniforme. O frio tinha anestesiado-a e ela ia percebendo os ferimentos aos poucos.

Todo o grupo levantou-se e foi arrastado para dentro do transportador.

"Para onde nos levarão?" � perguntou à mulher.

"Você não vai querer saber, belezinha!" � a outra desdenhou, cutucando a perna ferida com o imobilizador.

"Arrgh!" � Tai gritou de dor.

A velha nave levantou vôo aos trancos e foi em direção oeste, avançando mais ainda para dentro da cadeia de montanhas geladas.

Tai não soube precisar quanto voaram, mas pela velocidade da nave, achou que percorreram uns 2000 km ou mais. Quando pousaram e foi levada com os outros para fora da nave, viu-se no centro de uma espécie de aldeia, onde algumas crianças brincavam com bonecos de neve e fumaça saía de chaminés sobre as casas improvisadas com pedaços de fuselagem de naves antigas. Algumas outras eram de pedra empilhada de forma que se erguessem paredes. Eram quinze casas, e da porta de cada uma delas saiu alguém para espiar.

Num instante toda a aldeia se reuniu na tosca praça para comemorar aquela espécie de conquista. Todos os capturados ficaram amarrados no centro da aldeia por mais algum tempo, quase mortos de frio. Os ferimentos deles tinham parado de sangrar, mas uma fina camada de gelo vermelho cobria-os sem dó. Eles viram quando seus seqüestradores trouxeram os corpos de Adrian e do outro soldado. Tai apertou os lábios feridos, mas não conseguiu segurar lágrimas de pesar e raiva.

Por ordem do homem de azul, desrespeitosa e displicentemente, os corpos foram jogados dentro de um buraco cavado na neve, a uns cem metros de onde estavam e bem ao lado de um paredão rochoso. Nesse lugar havia o que se pareciam com túmulos, com algumas lápides feitas de pedra. Devia ser o cemitério deles, Tai pensou. Mas antes, para horror de todos que ficaram vivos, as roupas foram tiradas dos corpos e trazidas para dentro de uma das casas. Iam servir para alguém, com certeza.

Nesse momento pareceu a Tai que o Tenente Geremy Morani foi tomado por um ataque súbito. Vendo o corpo de Adrian ser despido sem qualquer respeito, ele foi tomado de dor e fúria. De um golpe ele conseguiu se soltar e avançou como um animal raivoso sobre o homem de azul que parecia ser o líder. Gritando em desvario, o tenente desferiu um soco no rosto do homem, que apesar de ligeiro, não conseguiu ser mais rápido que ele. O estranho se levantou e se preparou para lutar. Os dois rolaram pela neve apenas pelos segundos que demorou para os outros interferirem.

Mas quando Morani foi imobilizado, todos ali assistiram à cena mais covarde que já tinham visto: aproveitando que o tenente não podia reagir, seguro por dois homens, o sujeito que ele atacara tomou um imobilizador das mãos de um outro e apontou para a cabeça dele e atirou no mesmo instante.

Tai não conseguiu gritar. Sua voz não saía e seu corpo tremia quase que em convulsão. Não acreditava no que tinha visto. Geremy Morani fora executado na frente de todos! Até mesmo das crianças que brincavam ali perto! Um mal-estar tomou conta de dela e de todos os seus companheiros. Todos estavam estupefatos.

Pás de neve foram jogadas sobre Adrian, Morani e o outro soldado. Ela ia berrar que eles não tinham o direito de fazer aquilo, mas não teve tempo: novamente aquele maldito cano de imobilizador empurrou-lhe o rosto com violência, fazendo-a se calar. Uma raiva incontida crescia dentro dela, fazendo seu peito arfar e soltar baforadas de vapor no ar gelado. Queria chutar cada um daqueles idiotas! Queria puni-los!

O homem de trapos azuis se aproximou deles e avaliou cada um. Os olhos escuros e sombrios pararam em Tai depois de lerem a insígnia de capitã no braço esquerdo.

"Você é a líder aqui, Capitã... Hansar?" � ele perguntou, seco, vendo seu nome na plaqueta em seu peito.

"Sou a capitã que está comandando essa equipe de buscas." � ela respondeu no mesmo tom.

"E o que buscavam?"

"Porque não me diz com quem estou falando primeiro?" � ela propôs, num desafio.

"Aqui, capitã, as coisas acontecem do meu jeito. Eu faço as perguntas; e se tiver vontade, respondo às suas. O que vieram buscar?" � ele retorquiu, vergando os lábios rachados de frio num sorriso desdenhoso.

Tai permaneceu em silêncio, avaliando se devia ou não responder.

"Vocês nos derrubaram, mataram três de nós. Por quê? Pelo que estou vendo vocês estão aqui em Gea a bem mais tempo do que n..."

Antes de terminar a frase, ela viu que ele se aproximou tão rápido que não conseguiu definir se levou um tapa ou um soco.

"Já disse que quem pergunta aqui sou eu!" � a voz soturna soou pelo pequeno vale onde a aldeia se encravava. Alguns dos outros membros daquela "tribo" recuaram assustados, principalmente os mais jovens.

Tai viu alguns pingos do seu próprio sangue caírem na neve pisoteada e levantou os olhos para ele, cheios de raiva e do mais puro desejo de justiça. Aquele sujeito assustava até mesmos seus companheiros, mas não a intimidaria.

"Mas já que insiste tanto em saber quem somos... capitã, - debochou ele novamente. � Meu nome é Mordum, sou o líder aqui. Somos sobreviventes. Sobreviventes de uma fuga de prisioneiros da estação prisional Otelo 5, em Saturno. Estamos nesse planeta, que vocês resolveram explorar, há 22 anos."

"E porque nos derrubaram?"

Ele riu, acompanhado por vários outros que os cercavam.

"Não lhe parece óbvio? Vocês estavam chegando perto demais. Vimos seus brinquedinhos nos procurando e sabíamos que logo chegariam em nós. Além disso, - ele olhou com um certo carinho para o imobilizador em suas mãos � essas armas novinhas em folha serão muito úteis para nós depois desses anos todos reciclando as que temos da fuga."

"Você não foi inteligente... Mordum. � Tai devolveu o desdém, levantando o queixo num desafio. � Você, mesmo sendo o líder aqui, deveria saber que sua pequena aldeia não vai se esconder do Exército Mundial para sempre. Em algumas horas estarão aqui..."

"Não me importo com sua opinião! � ele agarrou-a pela gola do uniforme e levantou-a até a altura do seu rosto, vociferando em seu rosto. � Ninguém conhece estas montanhas como nós! Não me desafie, sua idiotazinha!"

E soltou Tai sobre a perna quebrada do Sargento Chong.

"Levem-nos todos para "A Caverna"!" � ele ordenou aos outros.

A mulher de cabelos desgrenhados aproximou-se das soldados com uma arma em riste e as fez caminhar em direção a uma saída estreita do vale. Os homens foram arrastados para a mesma direção, e quando chegaram perto de uma escarpa, viram uma abertura na rocha. Na entrada uma outra mulher da mesma idade da primeira fez com que as soldados a acompanhassem e as obrigou a tirarem seus uniformes, fazendo-as vestir uma espécie de macacão, também remendado.

Tai percebeu que as roupas deles eram assim, pois não tinham de onde tirar tecidos para confeccionar novas peças. Então deveriam reformar todas. Ela vira algumas mulheres usando peças feitas de pele de blasidiotones, mas não eram muitas, já que não era fácil encontrar esses animais e eles eram bem pequenos, sendo necessários muitos deles para se fazer uma única calça.

Ela ficou apenas com suas roupas de baixo e até mesmo a parte de cima ela foi obrigada a entregar à mulher. Quando estava colocando o macacão, percebeu o olhar de cobiça que a outra lhe lançava e ignorou-a.

"Só me falta isso agora." � pensou.

Voltando à entrada do que lhe pareceu um depósito, ela e as outras foram empurradas para dentro e foram colocadas numa única cela escavada na rocha. A porta era feita de fuselagem, como quase tudo naquele lugar.

Eles devem ter roubado muitas nave na fuga, pensou.

"Vamos, andem!" � ordenou a mulher.

"Precisamos tratar nossos ferimentos." � Tai argumentou com ela.

"Não se preocupe, queridinha. Vamos mandar um serviço de enfermagem só para vocês." � e caiu na gargalhada, junto com a outra que cobiçara Tai.

Dentro da caverna não era noite nem dia. A luz fraca que pairava sobre suas cabeças vinha de luzes de emergência que Tai reconheceu como sendo de naves interestelares. Tinham baterias nucleares e por isso ainda funcionavam.

A Sargento Clark gemia de dor. O braço quebrado, os lábios e a perna ferida de Tai latejavam. Nenhuma delas tinha saído ilesa das quedas das naves, mas por sorte estavam vivas. O frio era intenso e cortante, mesmo dentro da cela; e todas estavam com fome.

Os estranhos não os mantiveram ali por mais que quarenta minutos. Mais algum tempo se passou e o líder, acompanhado da mulher desgrenhada e mais dois deles apareceu e a cela foi aberta.

"Saiam."

"Para onde..."

"Já disse que sem perguntas!" � repetiu ele.

Fora da caverna um transportador menor do que aquele em que foram trazidos esperava. Todos os outros membros da missão já estavam embarcando também. Seriam levados para outro lugar.

O transportador rangeu e levantou vôo, tomando uma direção que Tai não soube precisar. Encostada na parede de aço frio, ela tentou falar com o soldado Gyllian, que estava ao seu lado.

"Gyllian, você ouviu alguma coisa? Alguma outra informação sobre essa gente?"

"Sim, capitã. Os homens que nos vigiaram quase não falaram entre si, mas consegui ouvir que não querem nos manter aqui porque acharam um localizador."

"Mas tínhamos vários localizadores: os das naves, os nossos pessoais, os das cargas."

"Eles encontraram e destruíram todos. Os nossos, portáteis, foram os primeiros. Quase me arrancaram o braço ao quebrá-lo. Eles vasculharam todas as naves e destruíram os localizadores, mas parece que este estava em um dos nossos uniformes." � o rapaz respondeu, cochichando para não ser ouvido.

"Mas..." � imediatamente Tai pensou em Kalim. Tinha sido ela! Sim! Ela devia ter colocado um localizador em seu uniforme. Isso era bem coisa de Kalim. Se ela soubesse teria protestado no mesmo instante, mas agora estava agradecida por seu amor se preocupar tanto.

Só restava saber agora se dera tempo de Kalim localizar o sinal antes do localizador ser destruído.

*******

A muitos quilômetros dali, os olhos azuis de Kalim não acreditavam no que viam: o sinal do localizador desaparecera! Primeiro ficara parado por muitos minutos, depois se deslocara toda aquela distância das coordenadas originais, depois ficara parado novamente até que...

"Não! Não pode ser! Tai não morreu! Não é possível, não..."

"Senadora? � a militar ao seu lado percebeu seu desespero. � Senadora, a senhora está bem?"

Kalim se apoiava nas laterais de sua cadeia, apesar de estar segura pelo cinto de segurança. Ela conseguia ouvir as batidas do próprio coração.

"Senadora?" � a moça chamou mais uma vez.

"Ah, desculpe, eu.... Eu, eu não posso crer nisso, não..." � ela exclamou passando a mão trêmula pelos cabelos negros.

"Não pode crer no quê, senadora?"

Ela soltou o cinto de segurança e levantou-se. Queria andar; queria pensar.

"Eu coloquei esse localizador no uniforme da Capitã Hansar. E agora o sinal desapareceu! Isso só pode significar que ela..."

"Não, senadora, ela não morreu. Por favor, acalme-se. �Terzigt também soltou seu cinto e foi até Kalim, fazendo-a voltar ao assento. � O computador está seguindo o sinal, lembra-se? O localizador funciona transformando o calor do corpo em energia e o sinal só desaparece de repente, como aconteceu, quando é destruído. Se sua fonte de energia morrer, ele transmite um alerta antes de ficar sem energia."

"Tem certeza?" � Kalim quis saber, ainda incrédula.

"Tenho certeza. O calor do corpo de quem morre não se extingue rapidamente. Vamos seguir o sinal até a última vez que foi detectado."

Kalim sentou-se novamente e tentou colocar os pensamentos no lugar. Depois de um tempo em silêncio, chamou a soldado.

"Terzigt, antes de sair da base, o Senador Bradshaw me procurou e me deu uma informação que até aquele momento, somente ele e o filho sabiam: há 22 anos houve uma fuga de prisioneiros da estação prisional Otelo 5, na órbita de Saturno. O senador considerou a possibilidade deles estarem em Gea, já que fugiram nesta direção e nunca foram recapturados."

"Mas, senadora... como conseguiram fugir de Otelo 5?! É uma fortaleza estelar!" � ela assombrou-se.

"Ainda não sei, mas tudo indica que eles foram os responsáveis pela queda de nossas naves. Não há outro motivo. Agora me diga: você conhece alguém que possa ter acesso aos arquivos de Otelo 5? Tem como conseguir mais informações a respeito desses fugitivos? O senador disse que seu filho não pôde dar mais detalhes para não arriscar seu posto, mas agora qualquer informação que obtivermos pode salvar as equipes que estão nas montanhas".

"Acho então que posso ajudar, senadora. Minha esposa trabalhou em Otelo 5 por dois anos, na área de segurança eletrônica. Como eu, ela é segundo-tenente do Exército Mundial, mas da divisão prisional e tem colegas militares que trabalham até hoje em Otelo 5. Creio que ela tem como conseguir informações a respeito dessa fuga." � ela afirmou, já pedindo ao comunicador para entrar em contato com a base.

"Por favor, consiga isso o mais rápido possível!" � Kalim pediu, esperançosa.

Passados alguns segundos a imagem da mulher de Terzigt apareceu na tela do painel. Depois de expor o que precisavam para ela, a tenente passou a palavra para Kalim, que estava de pé atrás de seu assento.

"Fale com ela, senadora."

"Bem, tenente, sua esposa já explicou o que precisamos. Pode nos ajudar?"

"Creio que sim, senadora. Como disse, ainda tenho amigos que trabalham em Otelo 5. Se a senhora der uma ordem expressa, posso pedir a eles que abram os antigos arquivos que provavelmente contém registros dessa fuga." � a jovem uniformizada respondeu do outro lado.

"Você tem a minha ordem. Em quanto tempo pode conseguir?"

"Não mais do que demora uma ligação estelar."

"Ótimo! Vamos esperar seu retorno."

Cerca de 5 minutos depois a tenente estava de volta na tela do comunicador.

"Senadora, foram 27 fugitivos. Roubaram onze transportadores de grande porte, armas e muito mantimento. Sinto dizer, mas são violentos: na fuga, mataram 5 guardas e feriram 17. Tenho a lista com os nomes."

"Muito obrigada, tenente. Serei eternamente grata. Terzigt, por favor, imprima os nomes."

"Sim, senhora." � respondeu ela.

Do painel da nave começou a emergir uma lista com 27 nomes. Todos condenados por crimes sérios, cometidos tanto na Terra, quanto em algumas pequenas colônias mantidas no sistema solar.

"Teremos de tomar muito cuidado tenente, pois eles devem estar com nossas armas. Por favor, chame aqui o Capitão Wu." � Kalim pediu.

Em poucos minutos a figura oriental do capitão surgiu atrás da porta deslizante da sala de comando.

"Pois não, senadora."

"Capitão, ficamos sabendo que um grupo de fugitivos de Otelo 5 está em Gea e provavelmente foi o responsável pela queda das naves da missão. Precisamos de uma estratégia para a abordagem."

O capitão arregalou os olhinhos puxados de quem não acredita no que ouviu.

"Fugitivos de Otelo 5? Mas como?"

"Já faz 22 anos, capitão. Só não sabíamos que estavam aqui. A captura falhou na época e eles ficaram livres para viverem num planeta despovoado. Naquela época, Gea estava apenas sendo estudado e eles se esconderam nessas montanhas. Não me pergunte como essa informação ficou escondida durante tantos anos, mas ficou."

"E quantos são?"

"Calculando o número inicial de fugitivos, o tempo que faz e o fato de que possivelmente tiveram filhos nesse período, creio que não são mais de 40 no total. Não mais de 35 adultos. O contingente que temos nestas 20 naves é suficiente para enfrenta-los ou precisamos pedir ajuda?"

"Temos 70 soldados a bordo, senadora. Nosso armamento é pesado e suficiente." � ele garantiu com veemência.

"Ótimo! Assim entraremos em ação assim que chegarmos, sem precisar esperar por ajuda. Por favor, assuma o comando e organize esse contingente. Não sei o que enfrentaremos, mas o senhor conhece mais estratégias de batalha do que eu. Confio no seu trabalho." � a senadora ordenou ao capitão.

"Pode deixar, senadora!" � ele bateu os calcanhares e saiu apressado.

*******

Mais ou menos uma hora depois de levantarem vôo, o velho aparelho pousou e todos foram levados para fora.

Tai não acreditou no que viu: estavam sobre a superfície congelada de um lago imenso. O frio ali parecia pior a cada passo que davam contra o vento gélido. Ela não conseguia imaginar onde os esconderiam naquela imensidão plana e gelada. Mas no instante seguinte ela viu: cercado por uma espécie de "iglu", um buraco no gelo se abria e se transformava numa rampa que se inclinava da superfície congelada do lago para dentro dele, com degraus toscos escavados a intervalos irregulares.

A capitã sentia-se fraca e percebeu que seus dedos das mãos e pés estavam muito gelados. Começou a mexê-los para tentar se aquecer e fazer o sangue circular. Ela teve tonturas. Olhando para seus companheiros, viu que todos também estavam muito abatidos e fracos.

"Kalim, por favor, querida, venha logo!", ela pediu em pensamentos.

Atrás deles, os homens de Mordum empunhavam as armas e os faziam andar em direção ao buraco. No lugar das botas do exército, próprias para o frio, tinham recebido umas botas velhas, provavelmente usadas por eles na antiga prisão. Mas Tai já estava agradecendo por não terem deixado-os descalços no gelo.

A rampa de gelo descia por muitos metros, entrando mais profundamente no lago congelado. Chegaram a uma câmara menor que A Caverna. Parecia um lugar feito para cerimônias religiosas, pois tinha uma mesa no centro e fileiras de blocos que serviam de assentos, todos esculpidos em gelo. Mas das paredes saíam vários corredores, também escavados, que partiam em todas as direções.

Dessa vez eles não deixaram que todas as mulheres ficassem juntas. Nem os homens. Cada um deles foi levado para um daqueles corredores. Tai foi empurrada aos trancos por uma outra mulher que estava na câmara quando chegaram. Ela tinha o rosto claro e sem vida, aparentando uns 50 anos.

O corredor por onde Tai foi levada não tinha iluminação e a mulher foi andando atrás dela com uma lanterna portátil iluminando o caminho. Somente depois de vários minutos caminhando e passando por outras entradas no gelo, surgiu uma luz no final do corredor. A mulher empurrou-a para dentro de uma cela minúscula, onde havia uma cama velha apenas. A cela era iluminada pela mesma luz fraca d�A Caverna, que estava presa no teto.

A mulher saiu sem dar uma palavra e por um instante Tai se perguntou como ficaria presa ali, pois a cela não tinha porta. Mas ao sair, a mulher puxou várias barras de aço embutidas horizontalmente na parede de gelo, travando-as sabe-se lá de que forma pelo lado de fora.

A mulher se foi e Tai ficou sentada na cama tentando ordenar os pensamentos. Sentia frio e fome, e seu braço doía como se lhe cortassem a alma; ficou encolhida sobre a cama. Sentiu uma tontura embrulhar seu estômago e achou que era por causa das dores. Não sabia quanto sangue tinha perdido pelo ferimento da perna antes dele congelar. O macacão que lhe deram para vestir não era grosso o suficiente para livra-la do frio e com o passar do tempo, percebeu um sono leve chegar devagar e lhe pareceu que tremia muito. Mas ela não pensou nisso; sentia vontade de dormir, mesmo que fosse naquela cama horrível.

"Preciso descansar para esperar Kalim chegar com Liam. Elas vão chegar... vão chegar..." � ela balbuciou, já febril, caindo num sono agitado e angustiando.

*******

A aldeia foi coberta pela sombra das naves militares e a pequena população entrou em pânico. As mulheres recolhiam as crianças aos berros enquanto os soldados do Exército Mundial que vinham por terra cercavam as poucas casas. Ouviram-se disparos de imobilizador no modo de neutralização e um jato de luz refletiu numa parede de aço e bateu em seguida numa rocha.

Gritos e ordens ecoavam pelas paredes de pedra enquanto os encarregados de defenderem a aldeia se escondiam nas casas e de lá disparavam em direção aos soldados. As naves que ainda sobrevoavam a aldeia pousaram, ficando apenas duas no ar como reforço, e a aldeia foi cercada. Um soldado aproximou-se de uma das casas e já apontava para a janela quando o cano de um imobilizador apareceu do outro lado da pequena praça e acertou-o nas costas. O facho de luz queimou o uniforme e o rapaz caiu no mesmo lugar onde estava.

O Capitão Wu gritou em direção à casa:

"Vocês estão todos cercados e não adianta resistir! Já sabemos de onde vieram e mata-los vai ser um favor para a população de Gea! Rendam-se agora!"

Um silêncio curto foi interrompido por outro disparo de imobilizador e foi possível ver um fugitivo correndo em direção ao antigo lança-misseis. Mas não houve tempo: de onde estava, ao lado do Capitão Wu, a senadora apontou para o sujeito e acertou-o bem no pescoço. Ele tombou instantaneamente pela ação do modo paralisante da arma.

Quando desviou os olhos do fugitivo paralisado, Kalim viu um vulto esgueirar-se por entre as casas em direção à escarpa rochosa que fazia fundos com a aldeia. Terzigt perseguia outro que ia em direção oposta.

"Ali deve ter alguma passagem, mas você não vai fugir." � ela murmurou para si mesma e foi atrás dele.

A senadora havia recebido um ano de treinamento militar no último ano da universidade. Era uma opção para os pesquisadores que pretendiam trabalhar em lugares inóspitos da Terra. Agora esse treinamento estava realmente sendo útil.

Correndo desabalada pela neve, ela viu quando o homem de azul entrou por uma fresta na rocha. Cautelosamente, ela o seguiu. Tinha aprendido a nunca se expor para alguém que carregasse uma arma. Ao chegar na borda da rocha, viu que ele parara, tentando ajustar o modo de tiro do imobilizador.

"Fique onde está e solte a arma." � ela ordenou, apontando a sua para a cabeça de Mordum.

Entre os dois havia um pedaço de rocha quase da altura de Kalim e antes de sair correndo pela fresta, o homem disparou o imobilizador em direção a ela. O tiro atingiu as pedras e a senadora só teve tempo de vê-lo desaparecer em meio à neve.

Avançando devagar e procurando sempre se proteger nas reentrâncias, ela caminhou seguindo as marcas na neve que ele deixara.

"Você não vai longe, seu filho da mãe! Por estar fugindo assim, você só pode ser o líder desse lugar. Quer se preservar, não é? Mas não vai conseguir!" � ela pensava.

Mais adiante ela percebeu pelas pegadas que ele já não corria mais e tomou mais cuidado. Por sorte ele ainda não sabia manejar a arma direito e alguns passos à frente, Kalim ouviu-o mexendo no imobilizador de novo. E foi por pouco que ela não levou um tiro novamente.

"Não adianta me seguir! � o fugitivo gritou para ela, desafiante. � Você não conhece esses caminhos e vou fritar você com esse brinquedinho aqui! Ahahahahahahhaha!"

Enraivecida pelo deboche daquele desgraçado, Kalim apontou para onde ele estava e fez vários disparos, fazendo voar fragmentos de rocha para todo lado. Como resposta, viu passar à sua frente vários fachos de luz que ele também disparou, tentando acerta-la.

A senadora saltou de trás da rocha e não esperou a reação dele. O facho de luz atingiu-o no mesmo instante. Duro no chão, ele só movia os olhos, assustado com a surpresa de ser atingido tão rapidamente.

"Que bom que você está confiante desse jeito! Só que posso fazer muito mais do que você imagina, seu verme!"

Um outro soldado foi morto enquanto Kalim perseguia o líder, mas logo a aldeia foi dominada e todos foram presos. Mas não encontraram nenhum vestígio da equipe seqüestrada.

"Onde estão os soldados?" � o Capitão Wu perguntou pela milésima vez sem obter resposta.

Todos estavam calados. Kalim havia perguntado a todos, com a lista de fugitivos na mão, quem era quem, mas ninguém respondia. Parecia um pacto de silêncio.

O homem de azul fora trazido para junto dos outros e já dava sinais de voltar ao normal, mas também não abria a boca. Apenas olhava Kalim com um olhar feroz.

Os soldados de Wu já tinham vasculhado toda a redondeza da aldeia e só encontraram os destroços das naves e os equipamentos roubados. Encontraram inclusive, A Caverna e o restante do material que abrigava.

O último sinal do localizador fora captado naquele lugar e um dos soldados encontrou uma pilha de uniformes em uma das casas, na gola de um deles, ainda com as insígnias de Tai, Kalim encontrou o minúsculo chip destruído, todo amassado.

Agora ela já tinha certeza de que o homem de azul, algemado e sentado com os outros era o líder ali, pois todos olhavam para ele como se esperassem que ele fizesse algo que os salvaria de um momento para outro.

"Qual é seu nome?" � ela perguntou.

Silêncio.

"Qual-é-o-seu-nome?" � ela se enfureceu, desferindo um chute no queixo dele que fez a neve em volta ficar salpicada de sangue.

Ele rolou pelo chão e fez menção de levantar e atacar Kalim, mesmo com as mãos amarradas.

"Mordum, não!" � gritou uma mulher no meio do grupo preso.

Num lampejo, Kalim percebeu o que teria de fazer para saber do paradeiro de Tai e do resto da equipe a tempo de salva-los.

Ela caminhou calmamente até a mulher, e pegando-a pelas vestes esfarrapadas, trouxe-a para perto do sujeito. Na outra mão ela ergueu o imobilizador e de um golpe, colocou-o no modo neutralizador.

"É a mulher dele, não?" � perguntou com ar displicente. Suas entranhas tremiam, mas ela tinha de fazer.

Ele não respondeu.

"Responda!" � ela vociferou.

A mulher encolheu-se e respondeu baixinho:

"Sim, sou."

"Então vamos negociar: você me diz onde estão os soldados que vocês seqüestraram e eu... serei boazinha com o seu maridinho."

"Co... como assim?" � a mulher gaguejou, confusa.

"Estou dizendo que vou mato-lo bem aqui diante do seu nariz se não me disserem onde estão os soldados!" � Kalim berrou no ouvido da mulher, que se encolheu mais ainda.

"Não, por favor! Não posso dizer." � a mulher desesperou-se.

O Capitão Wu arregalou ligeiramente os olhos. Nunca tinha visto a fúria da Senadora Nurit. Ela parecia uma leoa encolerizada. Os olhos intensamente azuis faiscavam de raiva.

"Escute aqui, minha cara. Vocês são fugitivos da lei, destruíram duas naves do Exército Mundial, mataram soldados e oficiais e agora querem me dizer que não vão dizer onde estão os outros?! Tudo bem, tenho outras maneiras de descobrir" � e apontou a arma para a cabeça de Mordum.

"Não!" � a mulher gritou.

O tiro passou de raspão pela orelha de Mordum. Nem ele mesmo conseguia acreditar.

"Por, por favor, eu digo, eu digo onde estão! Não faça nada com ele, por favor."

Nem mesmo o Capitão Wu, que já tinha visto muitas demonstrações de ousadia, deixou de ficar surpreso com o que viu.

Mas Kalim tinha suas razões e elas fervilhavam em seu íntimo: tinham levado Tai para algum lugar e descobriria nem que tivesse de arrancar o fígado de cada um daqueles fugitivos.

 

Sabendo que havia apenas sete fugitivos vigiando o grande buraco no lago congelado, que Kalim descobriu existir, cinco das vinte naves foram para as coordenadas indicadas pela mulher de Mordum. Ele apenas olhou-a com rancor e continuou em silêncio. As outras 15 cuidaram de transportar o que havia restado das naves destruídas e dos equipamentos recuperados.

Como a entrada estava bem no centro do lago e seriam vistos assim que se aproximassem, o Capitão Wu optou por um ataque rápido e aéreo. Se destruíssem a entrada, tinham equipamento próprio para abrir caminho novamente.

Já era noite quando se aproximaram do buraco e a câmera de aproximação da nave mostrou dois fugitivos correrem para dentro assim que viram a chegada do comboio.

Com precisão, um míssel foi lançado bem na entrada e destruiu parte da rampa que levava às masmorras de gelo.

Ao descer da nave, Kalim apontou uma lanterna potente em direção ao gelo espalhado pela superfície congelada e viu que ainda existia uma fresta por onde poderiam passar.

Ao chegarem na câmara principal, percebeu que estava se expondo demais e voltou um pouco, pois os dois vigias poderiam estar por ali ainda. Não havia sinais de que eles tinham se ferido no ataque à entrada.

Vários soldados circundaram a câmara e entraram de dois em dois nas muitas passagens à sua volta. Ela ouviu uma ordem de "pare" e dois tiros de imobilizador. Em poucos segundos os soldados voltaram arrastando os dois vigias, duros feito pedra.

Ainda faltavam cinco deles. Os soldados sabiam que poderiam estar em qualquer lugar e a busca poderia ser longa, mas continuaram. O Capitão Wu, segurou Kalim pelo braço:

"Senadora, espere que todos sejam presos. Não se arrisque. Tenho certeza de que a Capitã Hansar está bem."

Ela não respondeu ao capitão, mas deixou-se ficar. Ela queria agir, buscar por Tai o quanto antes, mas ele tinha razão. Aquele buraco gélido poderia ter muitas armadilhas e não podiam se arriscar.

Enquanto isso o corpo de Tai perdia calor aos poucos. Ela já parara de tremer involuntariamente e respirava muito devagar, desmaiada em hipotermia.

********

Não demorou muito para que os outros fossem presos também. Os soldados gritaram pelos labirintos que a aldeia havia sido invadida e isso os fez se entregarem.

A última mulher a ser presa indicou o lugar onde estava cada um dos soldados presos e foi levada para a nave. Kalim e outro soldado da equipe dispararam pelo corredor que ela indicara e demoraram a ver a luz fraca que vinha da cela de Tai.

Vendo-a por detrás das barras de aço, ela chamou-a e não teve resposta.

"Tai?"

Para desespero seu, ela estava com o rosto voltado para a parede e nem se mexia na cama improvisada.

"Tai, responda!" � ela gritava enquanto tentava destravar as barras que lhe impediam de passar.

O soldado pediu licença e quanto Kalim se afastou das barras, ele apontou o imobilizador para a parede de gelo e fez voar pedacinhos dele para todo lado. Uma a uma as barras foram caindo no chão a seus pés e ela entrou na cela.

Kalim tocou-a primeiro no pescoço, para tentar sentir-lhe o pulso. Ela ainda estava viva, mas estava estática, gelada e pálida como se tivesse levado um tiro de imobilizador.

Desesperada, Kalim não sabia o que fazer. Seu amor estava morrendo e ela não sabia o que fazer!

Num relance ela se lembrou: calor! Tai precisava de calor!

"Soldado, corra até a nave e traga um transportador e um médico! Vou aquecer a capitã. Vá! Rápido!" � ela ordenou ao rapaz, que saiu correndo pelo corredor escuro.

Tirando a capa grossa, ela despiu-se rapidamente e despiu Tai daqueles trapos imundos. Enrolando-se na capa com ela, Kalim ficou deitada sobre sua mulher, tentando passar o calor de seu corpo para o dela. Em desespero, beijava-lhe o rosto machucado e branco, esfregava seus braços e pernas para que o sangue circulasse e a aquecesse. Os minutos se arrastavam e Tai demorava a reagir.

Enquanto se agitava para que seu corpo produzisse mais calor, ela rezava e pedia:

"Não a leve de mim, por favor! Não a leve de mim!"

Ela daria sua vida por Tai. Porque ela era sua vida, era sua metade perfeita. Aquela pequena e maravilhosa mulher dera um sentido à sua vida; dera razão para querer ter alguém ao seu lado. Antes dela não se imaginava merecedora de um amor tão completo, tão inteiro e capaz de transformar a tristeza em que vivia na alegria que sentia ao vê-la chegar todos os dias em casa. Queria que todo o amor de seu coração se transformasse no calor que Tai precisava para viver. Queria ter alguma coisa; qualquer coisa que tirasse dela aquela dor, aqueles ferimentos horríveis e arroxeados pelo frio. Seu peito doía e se angustiava com a possibilidade de Tai não voltar; de ser tarde demais. Baixinho ela pedia para que o soldado chegasse logo com o socorro. Pedia à Deusa que fizesse o coração encostado ao seu bater de novo com toda vida pulsando nele.

Então ela viu que sua querida começava a ganhar um pouco de cor na pele branca e seu rosto foi deixando a cor azulada. Tai já tremia levemente, mostrando que estava reagindo. Ainda inconsciente, ela balbuciou alguma coisa que lembrava o nome da filha e da esposa. O frio na cela era extremo e Kalim tentava pensar em mais alguma coisa que pudesse aquece-la, mas não havia nada. Ela então se agitava, tremendo com força para produzir calor o quanto podia.

Por algum tempo ainda, o temor assombrou os olhos de Kalim, mas depois Tai começou a mostrar que acordaria. A senadora chorou de felicidade.

"Você está salva, meu amor! Você está salva!" � ela repetia entre lágrimas.

A capitã abriu os olhos por um instante e tornou a fecha-los. Nesse momento o Capitã Wu chegou com o Tenente-médico Mayers e ele foi logo preparando uma medicação que faria Tai reagir mais rapidamente.

"A senhora salvou sua esposa, senadora. Se não tivesse feito o que fez para aquece-la, talvez não chegássemos a tempo. Continue com ela. Vou aplicar uma medicação, mas ela precisa de calor e isso não temos aqui, somente na nave, e não acho sensato transporta-la agora." � ele afirmou, pedindo para que Kalim tirasse um braço de Tai debaixo da capa para poder aplicar-lhe a medicação.

Ficaram ali por mais uns 20 minutos, tempo que Tai levou para recobrar os sentidos devagar e acordar sob os olhos atentos da senadora.

"Oi, amor." � Kalim chamou-a com carinho.

"Oi... onde estamos?"

"Numa caverna de gelo, feita pelos fugitivos de Otelo 5. Eles prenderam você aqui, lembra?"

"Ah, eu... sim, eu acho que desmaiei..."

"Não foi desmaio, capitã. � era a voz do tenente-médico. � A senhora quase congelou; entrou em hipotermia."

Tai olhou as pessoas que a cercavam ainda sem entender muito bem o que acontecera, mas estava feliz de estar nos braços de seu amor. A tripulação lhe trouxe um uniforme que ela vestiu com dificuldade antes do médico colocar-lhe uma tala para imobilizar o braço e faze-la subir num transportador individual para leva-la até a nave.

Kalim caminhou ao lado do transportador que se movia devagar para não piorar os ferimentos de Tai. Sentia-se recompensada por ela estar viva. Não queria nem pensar na hipótese de ter perdido seu amor.

Chegando perto da porta de embarque da nave, ela parou e olhou a entrada semi-destruída do buraco. Aquele lago deveria estar congelado há milhões de anos e continuaria assim por outros tantos, pensou. Era o lugar onde Tai quase morrera, aprisionada por um bando de loucos. Ela chamou o Capitão Wu.

"Capitão, encontraram mais alguém na caverna?"

"Não, senadora. Todos foram presos. Não encontramos nada além de alguns apetrechos que provavelmente eles usavam para alguma cerimônia religiosa e pedaços de naves antigas." � o capitão respondeu.

"Então quero que destrua esse lugar. Agora." � foi a ordem.

O capitão pareceu que já esperava por isso. Saiu apressado e entrou na nave principal, que estava equipada com armamento pesado e ordenou que uma carga considerável de explosivos fosse distribuída dentro da escavação e detonada assim que todas as naves estivessem no ar.

Vários soldados se encarregaram disso e Kalim foi para junto de Tai, que recebia cuidados médicos junto com os outros militares feridos na missão. Todos estavam bem, mas a Sargento Clark quase tinha entrado em hipotermia também.

Assim que o aparelho levantou vôo, elas ouviram uma explosão forte e várias outras que a seguiram.

"O que foi isso?" � a capitã quis saber.

"Mandei destruir o buraco." � Kalim respondeu, séria.

"Mas, Kalim, podia ter mais alguém lá dentro!"

"Verificamos tudo, querida. Não havia mais ninguém. Além disso, aquele lugar não serviria para nada. Quero esquecer que existiu." � ela falou, tentando afastar aqueles momentos terríveis de sua lembrança.

"Eu estou bem. Não fique assim, ok?" � Tai fez um carinho no rosto anguloso e tirou uma mecha de cabelos negros de cima daqueles olhos que tanto amava.

"Eu sei. Mas não queria conviver com a existência daquele lugar. Mesmo que a centenas de quilômetros de distância."

A nave que as transportava seguiu direto para Gea I, indo pousar ao lado do hospital do Exército Mundial, instalado na base militar.

"Kalim, Adrian e Geremy..." � ela lembrou os primos.

"Eu sei, querida. Sinto muito."

"Vocês trouxeram os corpos?" � a capitã quis saber.

"Sim, capitã, providenciamos tudo. Eles terão um funeral digno." � o capitão Wu respondeu.

Tai foi medicada e ficou sabendo que ficaria em observação até a manhã do dia seguinte, quando poderia ir para casa. O corte na perna foi fechado usando-se colágeno e tecido retirado das costas dela para que não ficasse cicatriz e o braço foi imobilizado, após a fratura ser constatada como não sendo muito grave.

"Kalim, amor, por favor, vá buscar Liam. Quero vê-la."

"Ela está na casa de Robert. Volto em 10 minutos." � a senadora sorriu ao sair deixando um beijo leve nos lábios ainda feridos de sua mulher.

Liam irrompeu pelo quarto do hospital e só não se jogou sobre o braço imobilizado da mãe porque Kalim a segurou a tempo.

"Mamãe! Você está bem?"

"Estou, querida. Só vou ficar com o braço assim por algum tempo." � Tai abraçou a filha com o braço livre.

"E dói muito?" � a pequena quis saber, sentando-se aos pés de Tai.

"Agora não, mas quando quebrou, doeu bastante, por causa do frio."

"O Bernard disse que você prendeu uns caras maus lá nas montanhas. É verdade?"

"Na verdade mesmo, foram os "caras maus" que me sequestraram e a mamãe Kalim ajudou o Capitão Wu a nos encontrar e ele os prendeu." � a capitã explicou para a menina.

"Ah, bom. Vou dizer ao Bernard que ele está enganado, então." � ela replicou com vivacidade.

"Ora, ora! A família está reunida de novo! Que bom!" � disse o tenente-médico que estava cuidando de Tai ao entrar no quarto.

"Quero acreditar que você veio me dar alta, tenente." � Tai insinuou de leve.

"Pode acreditar! A senhora acha que Liam já não me persuadiu lá fora?" � ele piscou para a menina, que retribuiu prontamente.

"Então quando posso ir?"

"No final da tarde a Senadora Nurit poderá vir busca-la. � e diante da decepção de Tai, ele se adiantou. � É para seu próprio bem ficar aqui mais algumas horas. Não se esqueça que ainda pode haver pequenas hemorragias internas que devem ser controladas imediatamente."

"Está certo." � ela conformou-se.

"Vamos, filha?" � Kalim chamou a menina para seu colo.

"Eu queria ficar com a mamãe!" � ela pediu, chorosa.

"A mamãe vai descansar agora, meu amor. O doutor vai dar um remédio para ela e se você ficar aqui, vai apenas vê-la dormir. À noite, quando você voltar da escola, ela já estará em casa. Está bem?"

"Está bem." � e foi para o colo de Kalim.

"Tchau, amor." � ela abaixou-se com Liam no colo e deu um beijo leve em Tai. Liam imitou-a.

"Não me esqueça aqui, por favor." � Tai brincou, vendo-as sair.

"Nunca!"

No final da tarde, a estrela SXK 31, amarela como o Sol da Terra, iluminava a planície coberta de campos cultivados que Tai via pela janela ao lado de sua cama. Ela conseguira dormir um pouco, induzida pela medicação, mas a maior parte da tarde passara pensando no rosto maligno de Mordum.

Sentia uma raiva incontida por tudo que ele havia feito e provocado. Adrian estava morta por causa dele. Morani também. Vários soldados estavam feridos e duas naves e uma infinidade de equipamentos destruídos. Tudo por causa daquele cretino, ela pensava. Ela apertou os dentes numa tentativa de não chorar quando pensou em Adrian. Haviam crescido e também feito quase que toda a carreira militar juntas. Ainda não concebia a idéia que não a veria mais.

Assim que Kalim entrou no quarto para leva-la para casa ela quis saber o que fariam com os fugitivos.

"Dos 27 que fugiram de Otelo 5, apenas 19 continuam vivos. Alguns morreram na viagem para cá e outros não suportaram o frio das montanhas."

"Mas podiam ter vindo viver nas planícies! Aqui a temperatura é amena!" � Tai admirou-se.

"Foram para as montanhas sob as ordens de Mordum." � Kalim respondeu, vendo a testa de Tai franzir.

"Aquele crápula!" � ela trincou os dentes ao falar.

"Todos foram interrogados e deram detalhes da fuga e de como viviam no gelo. Mas Mordum não deu uma única palavra. Parece que ficou mudo desde que a aldeia foi invadida. Ele não permitia que ninguém falasse em se mostrarem a nós. Eles sabiam o tempo todo que o planeta estava sendo ocupado, mas ele se negava a negociar. Achava que se aparecessem, seriam levados de volta pra Otelo 5."

"Se foram condenados e mais ainda, mataram para fugir, é exatamente lá que devem ficar! Principalmente ele! Aquele assassino matou Adrian e Geremy, Kalim!" � ela retrucou, já com lágrimas nos olhos.

"Eu sei, querida. Mas agora vai pagar pelo que fez. Consultei Robert e o Conselho vai recomendar que ele fique na prisão pelo resto da vida."

"Só tenho pena daquelas crianças..." � Tai enxugou o rosto com a mão.

"Eu também. Elas serão levadas para a Terra e encaminhadas ao programa de adoção do Senado Mundial. Vou cuidar disso pessoalmente." � Kalim respondeu, fixando o olhar azulado em Tai.

"Pessoalmente... quer dizer... o que quer dizer com "pessoalmente"?" � a capitã ficou sem entender.

"Quero dizer que se você e Liam quiserem, poderemos voltar para a Terra. Gea não nos recepcionou bem."

"Bem, eu... não sei, querida... eu gosto daqui..."

"Se você quiser ficar, não será problema algum. Afinal viemos para trabalhar e temos muito que fazer aqui. Só pensei que seria melhor para nós, depois do que lhe aconteceu." � Kalim se apressou em adiantar.

"Não sei o que pensar."

"Então decida depois. Não precisa pensar nisso agora." � Kalim sorriu e deu-lhe um beijo carinhoso.

"Ei, vai demorar para eu poder beijar você como se deve!" � Tai levou a mão aos lábios roxos.

"Eu sei esperar. � a senadora retrucou, rindo. � Agora apóie-se no meu braço para andar. Não quero ver esse corte se abrir."

"Não será preciso, senadora. � o médico entrou no quarto trazendo uma bengala de alumínio, com um cabo bem fino. � Isso vai ajudar mais do que seu braço."

"Eu? De bengala? Você só pode estar brincando, tenente!" � Tai ficou perplexa ao ver o objeto antigo nas mãos dele.

"Bem, eu adoro fazer suturas. Ainda temos um pedaço de tecido das suas costas que pode ser usado para fazer outra se caso a da perna se abrir por esforços exagerados. Se senhora quer abrir os pontos da sua perna é só não usa-la. Vou ter prazer em "costura-la" de novo!" � ele zombou da careta que ela fez.

"É melhor usar, Tai." � foi o conselho de Kalim.

"Estou vendo que hoje não vou ganhar nenhuma mesmo! Vamos, me dê isso!" � ela concordou, rindo.

Elas foram saindo devagar pela lateral do hospital e estavam entrando no transportador estacionado quando Tai viu um movimento de soldados a uns 100 metros.

"O que é aquilo, Kalim?"

"Parece que estão levando os fugitivos para o hangar de embarque. Serão levados para Otelo 5 ainda hoje."

"Me leve até lá!" � ela pediu.

"O quê?" � a senadora não entendeu.

"Me leve até lá! Quero dar uma palavrinha com Mordum!" � e saiu andando com dificuldade em direção ao grupo que seguia para um transportador de presos que nunca havia sido usado antes em Gea.

"Tai, por favor, vamos pra casa! Isso não vai trazer Adrian e Geremy de volta!" � Kalim tentou argumentar.

"Sei que não vai, mas vai me fazer um bem danado!" � e continuou andando.

"Espere, entre no transportador. Não pode andar tudo isso!"

Ao descer do transportador, que Kalim pousou perto do grupo, ela pediu ao soldado mais próximo que parasse o transporte e ordenou que o sargento encarregado viesse ao seu encontro. Um rapaz muito franzino para o seu cargo apareceu e bateu continência para Tai.

"Sargento, traga até mim o prisioneiro de nome Mordum, por favor."

"Sim, senhora capitã!" � ele virou-se e obedeceu prontamente.

Os soldados que faziam a escolta do grupo de prisioneiros olharam com curiosidade para sua capitã. No íntimo de cada um, eles se perguntavam o que ela poderia querer com o ex-líder do grupo. Ainda mais logo depois de ter deixado o hospital.

Do meio dos prisioneiros os soldados tiraram o homem que ainda usava aqueles farrapos azuis.

"Tirem as algemas dele." � ela ordenou.

Incrédulos os soldados olharam-se uns aos outros, sem entender a ordem.

Ao lado de Tai, Kalim não estava menos surpresa e apreensiva.

"Tai..."

"Sei o que estou fazendo, Kalim." � ela retrucou antes que a senadora pudesse intervir.

"Mas, capitã..."

"É uma ordem, sargento! Deixe-o livre diante de mim!" � ela o fuzilava com os olhos escurecidos.

Os soldados obedeceram e o colocaram diante de Tai. Mordum pareceu triunfar quando esfregou os pulsos marcados pelo aço das algemas e fixou o olhar perigoso na capitã. No entanto os soldados ficaram lado a lado com ele, para evitar qualquer ataque.

Mas não foi Mordum quem atacou. Com a mão livre que segurava a bengala pelo meio, Tai levantou o objeto com tanta rapidez e com tanta força que um golpe no ar atingiu o rosto dele em cheio. Ela bateu o cabo da bengala de modo que cortasse e não apenas machucasse. Um corte longo e profundo abriu-se da curva do queixo até quase o nariz. E quando ele se curvou de dor para o lado, com a mão tapando o rosto que sangrava, ela finalizou o golpe batendo com o corpo da bengala nas costelas dele. Ao lado dela, Kalim ouviu quando quebraram.

"Isso é só para você se lembrar de mim, toda vez que olhar para essa cicatriz, seu canalha!" � ela gritou na cara dele.

Um lampejo de fúria apareceu nos olhos de Mordum. Mas ele não revidou; parecia derrotado dentro daquelas vestes esfarrapadas; o rosto sangrando e a humilhação sem tamanho que a capitã o fizera passar deixavam-no pequeno e miserável. Parada atrás de Tai, Kalim sentiu o peito inchar de orgulho.

Os soldados arrastaram Mordum para junto do grupo novamente e todos foram colocados na nave que os levaria até Otelo 5. Ironicamente estavam voltando para o lugar onde haviam matado para fugir há tanto tempo e agora voltavam como assassinos de novo.

Elas saíram dali em direção ao transportador e ouviram as risadas dos soldados atrás de si. E Kalim ouviu quando um deles disse para outro:

"Esse idiota teve o que merecia. Adoro a Capitã Hansar, cara!"

"Eu também." � ela exclamou, rindo para Tai enquanto ajudava-a a entrar no transportador.

Em casa Liam não desgrudava da mãe. A menina queria cuidar pessoalmente dos ferimentos que precisavam de curativo.

"Acho que temos uma médica na família, Tai. Você perdeu sua candidata a comandante." � a senadora sorriu ao ver a menina se empenhar para fazer os curativos sem qualquer medo, apesar da falta de habilidade típica das crianças.

"Concordo. Estou sendo muito bem cuidada."

"Aprendi isso na escola." � Liam esclareceu enquanto colava o adesivo que prendia a bandagem no corte.

"Na escola? Puxa, quando eu estava na escola não ensinavam isso!" � Kalim fingiu admiração.

"É legal, mamãe. Você ia gostar." � a pequena afirmou.

"Acho que vou à escola com você só para aprender a cuidar dos ferimentos da mamãe Tai."

"Pode ir. Mas você é muito grande. Vai precisar de uma carteira maior."

Elas caíram na risada e Kalim foi obrigada a admitir que a filha estava certa. As três estavam na grande cama do quarto delas e se deitaram juntinhas, conversando depois que Liam terminou de cuidar dos curativos. Já era noite e acabaram adormecendo.

Apesar de estar segura em meio a Liam e Kalim, Tai sonhou com gelo e imobilizadores encostados em seu rosto ferido. Queria fugir de Mordum e salvar Adrian, mas seus pés ficavam presos na neve alta em meio a rochas e casas feitas de fuselagem. Ela lutava bravamente, corria entre os desfiladeiros de rochas e tentava se esconder dos tiros de imobilizador que pipocavam ao seu redor. No sonho, o terrível líder dos fugitivos tinha a cicatriz que ela fizera no rosto dele e ria sombriamente. Mas ela começou a reagir dentro do sonho. A neve já não prendia mais seus pés e ela conseguia correr mais. Ao lado de uma casa abandonada ela encontrou um imobilizador, mas Mordum continuava em seu encalço. Ela se escondeu atrás de um rochedo e esperou.

"Vou pega-lo." � pensava.

Quando ele surgiu diante dela, os dois apontaram seus imobilizadores. E ela acordou agitada. Ao seu lado, Kalim e Liam ainda dormiam e ela acalmou-se. O quarto estava escuro e ela ficou pensando no líder dos fugitivos.

Ele já estava longe e não oferecia mais perigo, mas a capitã sabia que não conseguiria esquecer que ele fora responsável pela morte de Adrian e de Geremy. Os dois estavam pleiteando uma autorização para terem um bebê e formarem uma família. Agora estavam mortos. Aquilo doía demais em Tai.

Ficou pensando na proposta que Kalim fizera. Talvez voltar para a Terra fosse a melhor coisa a fazer naquele momento. Mas também não queria deixar tudo para trás. Tinham planejado aquela mudança durante vários anos. Agora ela não sabia o que fazer e não queria decidir sozinha. Não queria que aquele incidente fosse a única razão para voltarem atrás. Olhando sua mulher dormindo em seu ombro, ela percebeu o que ela quis dizer quando lhe propôs voltarem. Do mesmo modo que Kalim, ela também não suportaria se a perdesse e entendeu a dor que ela sentira diante dessa possibilidade. Ressonando, Kalim se mexeu e falou, ainda dormindo:

"Te amo..."

O coração de Tai acelerou com o sentimento que bateu dentro dela. Lágrimas de alegria correram de seu rosto e molharam os cabelos de Kalim. Encostando os lábios na testa da senadora, beijou-a e apertou-a devagar nos braços, para que ela não acordasse.

"Eu também, meu amor."

Sumant e Robert trouxeram Bernard para brincar com Liam no domingo de manhã e aproveitaram para visitar Tai. Acabaram ficando para o almoço; por insistência de suas amigas.

"Desde que vocês se mudaram para Gea, não tínhamos ninguém para almoçar conosco no domingo." � Tai recordou.

"Agora podemos colocar isso em dia, não é?" � o amigo africano respondeu.

"Não sei, Sumant. Kalim está pensando em voltar para a Terra quando eu melhorar. Confesso que eu também estou pensando nisso." � Tai resolveu contar ao amigo sobre suas dúvidas.

"Desculpe a intromissão, mas não creio que vocês devam voltar apenas por causa do incidente. Quando digo apenas, não é menosprezando o que vocês passaram, Tai. Se eu me visse na situação que Kalim passou; se visse Robert morrendo, como ela viu você, acho que ficaria louco. Mas estou pensando em tudo que vocês planejaram. Não deixem isso para trás logo no início. Sei que podem superar o que aconteceu."

"Estou tentando pensar por esse aspecto também. Todas nós gostamos muito daqui, apesar de não fazer nem duas semanas que estamos no planeta."

"É isso! Faz muito pouco tempo, Tai! Acho que Kalim está tentando proteger vocês três das lembranças ruins, mas seja aqui, seja na Terra, elas vão existir sempre; não há como escapar a não ser que vocês superem." � ele argumentou

"Talvez você tenha razão. Não vou decidir agora. Quero pensar com mais calma. Vou deixar o tempo passar um pouco para não tomar uma decisão sob os efeitos do que aconteceu." � ela suspirou de leve, olhando Liam que brincava com o filho de Sumant.

"Bernard já se adaptou bem, não é?" � ela resolveu mudar de assunto.

"Sem dúvida! Ele adora Gea! Já fez amigos e diz que não quer voltar para a Terra nem nas férias. Só fiquei preocupado outro dia em que ele chegou em casa um pouco triste por que um coleguinha havia feito brincadeiras a respeito dele ser filho de gays e ainda por cima um deles ser negro. Sei que é coisa de criança; ainda mais na idade dele, mas é aí que se vê onde nasce o preconceito. Nós ensinamos Bernard a se defender e a professora repreendeu o garoto na mesma hora, mas é o tipo de coisa ao qual não me acostumo." � ele falou com o olhar triste.

"Eu e Kalim temos sorte disso ainda não ter acontecido com Liam, mas já a preparamos quando acontecer. Preferia que orientação sexual e cor da pele já não fossem itens relevantes para avaliar as pessoas; pelo menos nos dias de hoje."

"Mamãe, eu e Bernard podemos brincar no meu quarto?" � Liam pediu, interrompendo Tai.

"Podem, mas arrumem tudo daqui a meia hora e desçam para almoçar, combinado?"

"Combinado!" � os dois responderam e dispararam escada acima.

Enquanto a dupla de pai e mãe orgulhosos viam seus pimpolhos correrem para a brincadeira, a outra dupla de pai e mãe, Robert e Kalim, vinham da cozinha trazendo alguns petiscos para antes do almoço.

Robert já tinha uma taça de vinho na mão e ofereceu outra a Sumant. Tai ganhou um copo de suco, já que não podia beber por causa dos medicamentos que estava tomando.

Os quatro ficaram conversando e os dois amigos tentaram mais uma vez dissuadir as duas da idéia de deixarem Gea. Robert estava inconformado com a possibilidade.

"Vocês não podem ir embora, Kalim! Esse projeto tem tanto de vocês! Não podem deixar tudo para trás. Vocês nem tiveram tempo de se acostumar à nova casa!"

"Você tem razão, Robert. Mas ainda temos de pensar bastante no assunto. Não é uma decisão fácil." � a senadora respondeu.

"Bem, não vamos ficar aqui enchendo vocês com nossas opiniões. É claro que não queremos que nos deixem, mas se decidirem ir, vamos respeitar a decisão de vocês." � Sumant acrescentou, terminando uma taça de vinho.

Naquela noite, quando os amigos foram embora e elas estavam no quarto sozinhas, Tai ainda estava pensativa.

"Amor, se eu soubesse que a minha idéia ia deixar você assim nem teria falado." � Kalim observou.

"Não estou triste. Apenas pensativa. Vem aqui comigo, vem. É tão bom sentir você assim perto." � a loirinha pediu de um jeito que, nem se Kalim quisesse, poderia negar.

Kalim sorriu e deitou junto dela. Ficaram abraçadas por um longo tempo enquanto a senadora roçava os dedos devagar pelas costas ainda doloridas de sua mulher. Não se conformava por ela estar daquele jeito, mas quando pensava na pancada que ela dera no rosto daquele sujeito, se sentia um pouco vingada.

"Vamos combinar uma coisa?" � Tai falou depois de alguns minutos.

"Que coisa?"

"Não vamos mais falar nisso por um mês. E vamos evitar pensar também. Não posso viajar antes disso mesmo." � ela propôs.

Kalim sorriu de novo e olhou-a com todo carinho que era capaz.

"Você sempre tem as melhores idéias!"

"Adoro quando você admite isso." � ela fez-se de esnobe.

"Não abuse do seu estado..." � Kalim avisou, brincando.

Os dias passaram e Tai foi se recuperando devagar. A fratura no braço não era séria, mas ficar com ele imóvel tendo um mini-furacão em casa para segurar não era relativamente fácil. A senadora voltou ao trabalho intenso que a administração daqueles vários bilhões de pessoas exigia.

O Senador Bradshaw, ela e o Capitão Wu fizeram um relatório recomendando ao Exército Mundial que julgasse com severidade Mordum e seu grupo, além de relatar com detalhes os feitos do bando dele em Gea.

Como haviam combinado, nada foi dito sobre voltar ou não para a Terra. Mas intimamente elas pensavam no assunto. E tinham de admitir: aqueles dias em que "realmente" estavam vivendo em Gea; Tai se recuperando e já quase voltando ao trabalho e Kalim envolvida com os assuntos do Senado e da Estação, estavam fazendo com que a vivência no planeta fosse da maneira que elas tinham planejado que fosse: tranqüila e pacífica.

A cada novo dia, Liam vinha da escola contando uma história diferente e se adaptava sem qualquer problema. O fato de ter Bernard para brincar e fazer-lhe companhia era de grande ajuda.

Depois de um mês e pouco, Tai já estava bem e voltou a trabalhar. A base militar tinha muito com que ocupa-la. As marcas dos ferimentos já tinham desaparecido e ela não sentia qualquer dor.

As colheitas nas áreas mais longínquas do Continente Central estavam começando e o transporte da produção agora estava todo a cargo da Capitã Hansar. As naves especialmente desenvolvidas para isso eram gigantescas e bem parecidas com as que ela estava acostumada a comandar em viagens interestelares. De diferente tinham os compartimentos de carga, que receberam uma saída especial que se acoplava aos imensos silos de armazenagem instalados na área leste da Estação.

Esse trabalho nas colheitas deteve toda a atenção da capitã por mais de dois meses. O assunto "volta à Terra" fora quase que totalmente esquecido por elas, tamanho era o empenho que se dedicavam às suas atividades. E elas realmente não teriam tempo para pensar nesse assunto de novo.

Era final de tarde e Tai estava em sua sala na base quando o comunicador em sua mesa informou que havia uma chamada de Kalim.

"Oi, amor! O que foi?" � ela atendeu.

"Queria falar com você. Vai chegar cedo em casa hoje?" � a senadora respondeu do outro lado; enigmática, mas sem esconder o riso.

"Nossa! Que mistério é esse que só posso saber em casa?"

"Nada de mais. Estou te esperando." � e desligou.

A capitã deu ordem para o comunicador desligar e voou para casa. Encontrou sua mulher no escritório, de onde ela tinha ligado.

"Ei! Assim não vale! Você me fez sair correndo da base." � ela reclamou, beijando a senadora.

"Curiosidade é o seu único defeito." � Kalim brincou.

"Ah, vamos! O que é?"

"Não é nada demais como eu disse! Sente aqui comigo e me ouça." � ela puxou Tai para o sofá.

A capitã não tirava os olhos dela. Kalim ria interiormente, pois sabia o quanto sua mulher era curiosa. Qualquer mistério a tirava do sério.

"Quero dizer que estamos muito felizes aqui e que se você quiser podemos esquecer aquela história de voltarmos para a Terra! Só isso!"

"Ai!! Eu não acredito que você fez essa cena toda só para me deixar curiosa!"

"Não é cena! Estou dizendo que estive pensando muito nisso e reconheço que estamos muito bem aqui e que não precisamos voltar."

Tai olhou para Kalim e seus olhos ficaram marejados de lágrimas. Aquela mulher diante dela era o objeto do seu amor e o que ela acabara de dizer era um dos motivos para isso fosse uma verdade absoluta.

O final do dia em Gea encontrou-as abraçadas e apaixonadas.

FIM

Meninas, agradeço se vocês me disserem se gostaram ou não! E-mail para: [email protected]

Um abraço a todas!

Ana Luísa Benner

Março/2006


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