Nada Mais

Deya

 

Disclaimer: Essa é a história de uma adolescente que tenta viver um grande amor, mesmo sabendo que todos poderão ir contra o que ela sente.

Se você for menor de idade ou onde você mora não é permitido esse tipo de leitura, sugiro que pare por aqui; a autora, nem a dona do site assumem nenhum tipo de responsabilidade pelo não cumprimento desse alerta.

Se você gostou me fala, me escreve e se não gostou também. Pode soltar o verbo, é assim que a gente melhora! Meu e-mala é [email protected]

No mais, divirtam-se com mais esse pequeno romance.

Deya 

Nada mais

Deya

 

1ª Parte
 
É incrível como as coisas parecem estar escritas para acontecerem... E foi naquele ano que tudo começou, sem explicação, sem porque. Apenas começou.
 
- Vai fazer o que depois da aula, Ju? Vamos ao shopping jogar boliche, você vem?
- Tenho treino, não posso. Fica para a próxima.
 
Apesar da grande amizade que Julia tinha com a ruivinha Mariah, a jovem não poderia faltar àquele treino de natação. Talvez conseguisse uma bolsa na faculdade se ganhasse a próxima competição. Isso ajudaria muito, já que sua família não tinha muita condição de ajudá-la. Mas para isso teria que treinar incansavelmente até o último minuto.
 
Juntou as coisas na mochila enquanto os outros saíam. Nem reparou que a senhorita Wood ainda estava sentada em sua mesa corrigindo algumas provas. Aquela voz suave a assustou.
- Hei Keller? Não vai com os outros ao shopping?
 
Engoliu seco. Por que ficava nervosa quando falava com aquela mulher?
- Não senhorita Wood, tenho treino. Preciso ir à minha casa pegar o material que esqueci.
- Posso te dar uma carona.
- Não precisa...
- O que é isso, será um prazer!
 
�Ok. Não era bem isso que eu tinha em mente, mas recusar uma carona para casa é burrice!�
- Ok.
 
Esperou mais alguns minutos até a senhorita Wood guardar as provas na sala dos professores. Observou quando aquela mulher atraente veio em sua direção. Cabelos negros, olhos azuis de safira e um charme no andar que poucos tinham. Vestia-se bem à vontade; calça social, camiseta branca e jaqueta de couro. O olhar era forte, expressivo e o sorriso, maravilhoso.
- Certo, acho que podemos ir, mas preciso passar no shopping para pegar uns filmes que mandei revelar. Algum problema?
 
�Claro que tem problema! Deixei de ir ao shopping para treinar, como é que vou aparecer lá assim, sem mais nem menos?�
- Humm... Tenho treino, senhorita Wood. Acho que fico no ponto do ônibus, mesmo.
- Você vai comigo ao shopping e eu te levo em casa para buscar suas coisas, depois te trago de volta, que tal? Não recusaria um convite da sua professora predileta, recusaria?
 
�Claro que não, que pergunta!�, pensou. Não sabia porque, mas não conseguia dizer não para ela. A amizade das duas era muito forte, apesar de ser apenas um relacionamento professor/aluno. Mas era o que aquilo era, certo? Não, não estava certo. Ela não deveria ir até o shopping, principalmente, acompanhada daquela mulher. E se sua amiga as visse? Com certeza iria ficar indignada.
- Certo, acho que não tem problema.
 
Mais uma vez tinha adiado os planos por ela. Mas por que?
 
 
Foram ao shopping. Julia estava nervosa. E se Mariah as visse? Seria o fim! A sorte foi que não demoraram muito, como a senhorita Wood disse que seria. Em seguida a professora cumpriu sua promessa e levou a jovem em casa e depois de volta para a escola. Antes, a mãe de Julia quis saber como andava o desempenho da menina nos exames e alguns minutos foram perdidos ali.
 
- Pronto, está entregue! Não foi tão ruim, foi?
- Claro que não... Já vai? � �Que pergunta imbecil, Julia. Por que ela ficaria ali?� � Quer dizer, quer tomar um suco depois do treino...? - �Humm... Essa foi terrível!�
- Seria uma boa. Onde eu me sento?
 
�Ok. Isso foi além do que eu esperava�, pensou. O convite havia sido feito por educação, mas tinha uma ponta de verdade.
- Ãnh... Humm... Senta ali na arquibancada. Mas se demorar muito pode ir, não tem problema.
- Está querendo fugir do convite, senhorita Keller?
- Quê isso, professora! Não é isso, não, é que...
- Olha, eu te espero, ok. E pode me chamar de Clair, pelo menos enquanto estivermos fora de sala de aula... Certo?
 
Julia concordou com um sorriso tímido e correu para o vestiário. Trocou de roupa depressa, parecia querer fazer o tempo voar para que o treino acabasse rápido. Estranho, sempre gostou dos treinos depois da aula, mesmo naqueles dias frios.
 
Duas horas depois, Julia se trocava no vestiário. Com certeza a senhorita Wood não estaria mais lá, não teve tempo de prestar atenção nela durante o treino. Saiu e olhou em volta. Nada. Alguns pais buscando alunos, alguns professores de educação física, mas nada da professora. Talvez ela tivesse se cansado de esperar, talvez ela...
- Puxa, você nada bem, garota!
 
Julia assustou-se. Mesmo com a suavidade da voz a presença de Clair ali já não era mais esperada.
- Obrigada senhorita Wood... Achei que tivesse ido embora...
- E perder a oportunidade de tomar um super suco de acerola com laranja? �Magina�!
 
A jovem sorriu. Tinha o sorriso doce, sincero, inocente. Os cabelos estavam molhados e presos com uma tira. A roupa era esporte, jaqueta da equipe, calça Adidas e tênis. Uma estudante do final do ginásio como outra qualquer, no auge dos seus dezessete anos. À não ser por aquela amizade.
 
As duas caminharam pelo estacionamento e entraram novamente no carro da professora. Ela disse que conhecia o lugar ideal para tomarem o suco e que a deixaria em casa depois. Julia apenas concordou.
 
 
Na lanchonete...
- Mas então é só você ficar entre as cinco primeiras?
- Não é �só eu ficar entre as cinco�, elas são realmente boas!
- Mas você também é. E aposto que é melhor do que elas.
 
Enquanto disse isso, a professora segurou as mãos da jovem aluna, fazendo-a corar. Ela percebeu o desconforto da situação e mudou de assunto.
- Você já tem par para o baile de formatura?
- Não gosto dessas baladas... Não tem ninguém interessante na turma e se tivesse não me chamaria. Estão mais preocupados com as meninas da torcida...
- E aquele rapaz que você namora... Ele não vai?
- Acho que não...
- Sabe Keller, você tem a auto-estima meio baixa. Não pode pensar assim! Você é muito melhor que aquelas saltitantes loirinhas chefes de torcida. Se eu fosse um garoto inteligente convidaria você.
 
�Quem dera você fosse um garoto inteligente... Hei, quê isso?�
- Obrigada senhorita Wood.
 
Nesse instante Wood chegou mais perto de Julia e falou segurando seu braço:
- Se me chamar de senhorita mais uma vez vai deixar de ser minha aluna predileta!
 
As duas se encararam alguns segundos. Julia pode reparar nos olhos penetrantes de Wood e quase se perdeu neles. Sorriu e desculpou-se mais uma vez. Sentiu algo estranho quando foi tocada, mas achou melhor não falar nada. Há algum tempo que sentia essas coisas e não havia comentado com ninguém, nem com sua melhor amiga, Mariah, nem com seu namorado, Carlos.
- Certo. Sem senhorita a partir de hoje, promessa!
 
Elas riram e descontraíram um pouco mais. Mas já passava das sete da noite e Julia tinha que voltar para casa.
- Falei com sua mãe que te levava em casa depois do treino. Vamos antes que fique mais tarde, certo?
- Certo.
 
As duas pagaram e foram embora. Na porta da casa de Julia, Wood despediu-se dentro do carro com um abraço. Há muito tempo a jovem estudante não ganhava um abraço daqueles, apertado, quente, carinhoso. Mas o que a deixou mais intrigada foi o carinhoso beijo que ganhou na testa. Aquilo sempre significou respeito para ela, mas vindo de uma pessoa como Clair Wood, a professora mais linda e assediada do colégio, isso era diferente, muito diferente...
- Nos vemos na aula amanhã?
A resposta veio sem maldade, mas imediata.
- Pode apostar.
 
Julia ainda ficou olhando o velho Mustang vermelho dobrar a esquina. Em seguida entrou. Que dia...
 
 
As provas estavam acabando, o ano estava acabando e todos só pensavam no tal baile de formatura. Todos, menos Julia. Ninguém a havia chamado, talvez porque ela não dava espaço, ou porque Carlos era grande demais para que alguém se atrevesse a convidá-la. Mas ele também parecia não gostar dessas coisas e por causa disso ela ficaria mesmo sem par.
 
Mas isso não a incomodava e sim o fato de não conseguir tirar os olhos da linda senhorita Wood da cabeça. O que era aquilo, afinal? Nunca teve sentimentos tão fortes por outra pessoa, nem mesmo por Carlos... Muito menos por uma mulher! Aquela jovem mente estava a ponto de fundir, se não fosse a leveza daquela voz para tirá-la do transe.
- Pensando no baile, Keller?
- Nah... Acho que não vou...
- Como assim? Quer dizer que eu vou ficar sozinha naquele salão a noite toda?
- Perdão, Clair, mas e o seu marido?
- Robert? Tá brincando, né? Tem final do campeonato na mesma noite. Não vai arredar os olhos da TV, aposto!
- Puxa, que pena...
 
As duas desviaram o olhar. Pareciam querer falar alguma coisa, mas não conseguiam. Wood, mais uma vez, tomou o rumo da conversa.
- Posso passar na sua casa e te pegar. Assim sua mãe não fica preocupada com você indo sozinha, o que acha?
 
�Maravilha, claro que eu quero! Podemos terminar a noite juntas, também! Seria perfeito!�
- Não sei, senhorit...
- Sem essa de senhorita, Keller, já te pedi! Vai me deixar sozinha no meio de um monte de adolescentes?
 
�Ai, Deus! Por que ela faz isso?�
 
A senhorita Wood era uma das professoras mais bonitas do terceiro ano. Com vinte e oito anos, carinha e corpo de vinte, ela abafava no colégio. Todos os marmanjos e a pirralhada ficavam babando quando ela passava no corredor, ou com uma saia comportada, porém elegante, ou com seu visual básico, jeans e camiseta.
- Claro que não! Vamos juntas, então...
- Ótimo! E à propósito, quando é a competição mesmo?
- Nesse final de semana... Você vai estar lá...?
- Não perderia de jeito nenhum. � ela lançou aquele sorriso forte e radiante que só ela sabia dar, a jovem quase caiu para trás � Depois a gente combina direito.
 
Julia não teve tempo de responder. Levou outro beijo na testa e ficou observando a beldade morena sair pelo corredor. Ficou olhando até que foi interrompida por Mariah.
- A senhorita é fogo mesmo, héin? Foi ao shopping com a senhorita Wood ontem e nem passou no boliche! Que amiga!
- Calma aí, Mari... Peguei uma carona com ela, só isso. Ela teve que passar no shopping para pegar uns filmes e eu estava junto. Não ficamos lá, tive treino, lembra? Campeonato, bolsa...?
- Sei... E aí, o mala do Carlos resolveu se vai ao baile?
- Acho que é mais fácil você passar em matemática...
- Putz! Que sacanagem... Então você não vai, mesmo?
- Sei lá... Tô armando uns esquemas aí, uma carona, mas vou acabar indo sozinha mesmo.
- Tadinha da minha amiguinha... Chama a professorinha querida para ir com você...
- Ciúmes? Que coisa feia, Mariah!
 
As duas riram e foram andando para o pátio. Julia ainda olhou para trás a tempo de ver Wood olhando para ela sorrindo e dando tchauzinho. Linda, um anjo.
 
 
Chegado o dia da competição para a bolsa; todos do colégio se reuniram para torcer por Julia. Mariah sentou-se ao lado da senhorita Wood e mais alguns colegas de sala.
 
Wood parecia triste naquele sábado pela manhã, não sorria, nem olhava direito para Julia. Algo parecia estar errado, mas Julia não teve tempo de perguntar o que era. Estava tão concentrada na disputa que pela primeira vez em sua cabeça não passavam os olhos da professora do terceiro ano. De repente um calafrio e a realidade daquilo tudo veio à tona. Era o fim do terceiro ano, acabou. Não existiria mais a senhorita Wood!
- Deuses... Como é que eu vou fazer?
 
Aquilo começou a bater em sua cabeça e mais nada fazia diferença. Como iria fazer para continuar sem aquela pessoa que sempre esteve ali, que sempre deu força? Uma pessoa que ela amava como qualquer aluno ama seu professor... Ou não?
 
Faltavam alguns minutos para começar a última disputa, a que garantiria o título de melhor nadadora e a bolsa na faculdade. Mas Julia não conseguia mais se concentrar e estava visivelmente abalada.
- O que houve com ela? � a voz suave da senhorita Wood conseguia se fazer ouvir em meio aos gritos enfurecidos da torcida � Ela parece nervosa... Mas estava tão bem agora à pouco...
- Não sei... Ela está estranha mesmo. O que será que houve?
- Humm... Não sei, mas vou lá falar com ela.
 
Wood se levantou e deu a volta na arquibancada, chegando até a piscina. Julia estava sentada num banco com a cabeça baixa entre as mãos. E para surpresa de Wood ela chorava.
- Keller, o que houve? Sente-se mal?
- Sim...
- Dói alguma coisa?
- Dói, muito...
 
As lágrimas escorriam descontroladas e as mãos tremiam.
- Keller, está me assustando! Precisa de um médico?
- Não... � a jovem suspendeu os olhos cheios d�água que encararam os azuis - Preciso de você...
 
Wood sorriu e abraçou Julia. Enxugou as lágrimas da jovem com as mãos e olhou nos olhos dela.
- Estou aqui, lembra. Vou sempre estar, ok. Agora vá lá e ganhe a sua bolsa!
 
Julia sorriu entre as lágrimas e levantou-se. Apertou a mão amiga da professora e foi para sua posição. Não era exatamente de uma amiga que precisava naquele momento, mas servia, por enquanto.
 
�- E na raia quatro a jovem atleta, Julia Keller.�
 
Apesar de não ser tão alta quanto as outras, Julia era de uma rapidez impressionante. Com dezessete anos ela tinha o corpo moldado pelos anos de treino, olhos verdes e um sorriso encantador, sem falar na voz extremamente doce.
 
Todos os colegas de Julia se levantaram da arquibancada e aplaudiram a jovem atleta. Wood já havia voltado para seu lugar e agora sorria para a jovem que aguardava o começo da competição em sua raia.
 
Não foi surpresa o fato de Julia ter feito o melhor tempo e ter sido procurada pelo treinador de uma faculdade e recebido a tão sonhada bolsa. A grande surpresa foi o fato de Wood ter saído antes da entrega das medalhas. Aquilo deixou Julia magoada e confusa. Por que ela havia feito aquilo? Mas não conseguia raciocinar direito, estava feliz demais naquele momento, apesar de sentir que faltava algo para ser realmente completa sua felicidade.
 
 
Passados os trotes e a comemoração, a jovem saiu de fininho à procura de sua professora. �Por que ela foi embora?�, pensava alto. E foi num canto do estacionamento que Julia avistou Wood. Foi até lá.
- O que houve? - a pergunta pareceu assustar a professora.
- Na... Nada. � ela enxugou o rosto molhado � Conseguiu, héin? Eu sabia!
- Você está chorando Clair?? O que aconteceu?
- Não aconteceu nada, Keller. Acho melhor você voltar para junto de seus amigos. Hoje é um dia para você comemorar e...
- Mas eu queria que você estivesse junto! Vamos para lá!
- Melhor não... Vou para casa. Depois conversamos, ok?
- Mas...
 
Aquele beijo na testa de novo. Aquilo estava deixando Julia mais confusa ainda. Ela correu atrás da professora e segurou-a delicadamente pelo braço.
- Fiz alguma coisa errada?
 
A inocência da pergunta fez os olhos de Wood se encherem mais ainda de lágrimas. Julia não sabia o que fazer. A única coisa que passou pela sua cabeça foi abraçá-la, o que acabou fazendo sem perceber. Sentiu a pele quente do pescoço da outra se encostando ao seu e um arrepio percorreu seu corpo. Apertou forte sua amiga contra o peito e afagou seus cabelos.
- Não vai me contar o que foi?
- Depois... Hoje é seu dia, depois te falo... Mas não é motivo para você se preocupar.
- Então promete que não chora mais...?
- Ok, negócio fechado.
 
Ela lançou aquele sorriso contra Julia. Apesar de um pouco forçado ainda assim era bonito. Foi embora em seguida. A jovem a observou entrar no velho Mustang e ir embora. Aquilo lhe incomodava, não o fato dela estar indo embora e não participando das comemorações, mas o fato de que elas iam ficar longe uma da outra depois das férias de verão. Talvez para sempre.
 
De repente toda aquela comemoração perdeu o sentido.
 
 
- Como assim? Você vai com a professora?
- Qual o problema, você não quer ir!
- Não, não tem problema, só acho estranho...
- Estranho é meu namorado não ir comigo na minha formatura!
- Não vou discutir isso de novo com você, Ju. Hoje tem final! E com meu time! Isso só acontece uma vez no ano!
- Formaturas não ocorrem com essa freqüência, se não me engano
- Não seja sarcástica! Olha, boa sorte lá.... Depois a gente conversa, hoje você está impossível!
 
Ele saiu batendo a porta do quarto, mas Julia não se importou muito. Sua cabeça estava mais preocupada com outras coisas. Olhou mais uma vez o vestido, suspirou fundo e sorriu.
- Como pode existir uma coisa tão brega assim?!
 
Ela sorriu sozinha e começou a colocar aquele vestido que não era tão feio, mas que parecia saído de um filme hollywoodiano da década de 80. As coisas mudam tanto e as formaturas parecem parar no tempo.
 
Às sete em ponto a campainha tocou. Julia entrou em pânico, era ela. Olhou-se mais uma vez no espelho, se achou um monstro e resolveu que não ia mais a essa besteira de formatura. Chamou a mãe e mandou que avisasse a professora Wood que não estava se sentindo bem e que não iria mais à festa.
- Mas por que, Ju? Aconteceu alguma coisa?
- Não, mãe, só não quero mais ir!
 
A jovem fechou a porta na cara da mãe e sentou-se na cama. Porque estava tomando aquela atitude não sabia. E também não queria saber. Levantou-se e havia acabado de tirar o vestido quando viu alguém entrando em seu quarto e fechando a porta.
- Senhorita Julia Keller! Não ouse me dar o bolo!!
 
Julia assustou-se com o jeito que a senhorita Wood entrou no quarto, acabou deixando o vestido cair das mãos, ficando apenas com a roupa de baixo.
 
Wood sentiu seu rosto queimar e virou-se de costas. �Por que essa reação, Wood?�, pensou, �Uma mulher de quase trinta anos com vergonha de uma pirralha!�
- Desculpe, Keller... Não sabia que estava se trocando...
- E não estou, estou me �destrocando�. Não vou, não quero mais ir.
- Mas por que?
- Não fico bem nesse vestido aí, não quero.
 
Wood se aproximou e segurou as mãos da jovem semi-nua.
- Não é todo dia que acontece o que vai acontecer hoje. Estarei esperando lá embaixo.
 
Ela saiu e fechou a porta. Julia continuou com as mãos estendidas como se alguém ainda as segurassem. Olhou o vestido no chão e para o espelho. �O que ela quis dizer com �o que vai acontecer hoje�? Será que ela tá falando do baile? Só pode ser, né?�, pensou.
 
Pegou o vestido e vestiu novamente. Ajeitou o cabelo e desceu as escadas com um pensamento na cabeça: sua mãe pagaria caro por ter falado com a professora Wood para subir!
 
 
As duas não trocaram uma palavra no caminho para a escola. Nem se olharam. O silêncio era perturbador e dessa vez Julia resolveu começar a conversa.
- Vai me contar porque estava chorando?
- Não era nada importante, besteira da minha cabeça.
- Não quer falar, né?! Tudo bem, mas converse comigo, pelo menos! Afinal, - uma brincadeira para descontrair não mataria ninguém � eu sou seu acompanhante hoje!
 
Julia sentiu o olhar penetrante de Wood bombardear os seus. Ficou sem fôlego, mas agüentou. O que era aquilo? Mas não era hora de descobrir, haviam chegado.
 
A festa estava linda, uma pena Julia nunca ter se interessado muito por aqueles encontros. Todos estavam muito bem vestidos, estilo bonequinhos de bolo de casamento, mas bem vestidos. Ela não se sentiu tão deslocada no meio daquela turma, afinal, eram a sua turma.
 
Wood logo avistou outros professores e pediu licença a Julia para ir cumprimentá-los. A jovem ficou olhando sua professora extremamente elegante indo em direção à mesa daqueles velhos babões. Todos pareciam querer arrancar um pedaço dela enquanto ela se aproximava. Aquilo incomodou a jovem.
 
Olhou à sua volta e avistou Mariah e o �date� dela, um formando até bonitinho, mas que ficava ofuscado perto dela. Foi até eles.
- Oi...
- Então o bundão do Carlos não veio mesmo...?
- Acho que o futebol é mais importante para ele...
- Fica assim não, linda! Hoje é a nossa noite, vamos nos divertir!
- Certo... Qualquer coisa eu vou estar sentada lá perto da escada, onde ninguém pode me ver...
- Iiih, por que isso? � Mariah notou o olhar desiludido em direção a senhorita Wood � Ah, você veio com ela, né? Escuta, ela é uma pro-fes-so-ra. Não espere que ela fique no meio de nós, reles mortais!
- Não tô nem aí para ela...! Vou beber algo.
- Boa! Os meninos batizaram o ponche que o Saul está tomando conta, só a gente pega lá. Tá  forte, muito bom!
 
Julia sorriu e foi em direção à bancada das bebidas. Pediu um e experimentou, estava realmente muito forte. Mas aquela noite era para ser tudo diferente, não era? Que fosse! Virou de uma vez o copo e pediu mais um.
- Wow, calma aí, garota. Assim os professores vão sacar! Pega leve.
- Não esquenta, Saul. Não sou mais criança...
 
Ela pegou o outro copo e foi sentar-se num canto. Ficou observando a senhorita Wood conversando desanimada com as outras professoras, ela não parecia se divertir, também. Queria ir até lá, conversar com ela, mas o que falaria? E que fixação era essa com a professora? Sempre gostou muito dela, mas de uns meses para cá algo estava diferente. Parecia sentir-se vazia, com vontade de gritar, de dizer coisas confusas que passavam por sua cabeça; coisas que ela nunca havia sentido e não compreendia com clareza. Por que estaria gostando tanto assim daquela mulher? Ela nunca havia pensado dessa forma, mas a possibilidade dela ter se apaixonado pela professora começava a rondar seus pensamentos.
 
Ficou tanto tempo pensando em �porquês�, em �como� que nem se deu conta que anunciavam o rei e rainha do baile. Despertou de seus sonhos confusos e esticou o pescoço. Claro. Amanda Portman e George Wallace ganharam o título que tanto aguardavam, não foi surpresa para ninguém. Então alguém anunciou que naquele ano escolheram também o rei e a rainha dos professores. Qual não foi sua surpresa ao ver a linda professora, senhorita Wood, subindo no palco acompanhada do asqueroso professor de educação física. Aquilo havia sido manipulado. Todos sabiam que o professor William era apaixonado por ela há anos e mesmo sabendo que ela era casada ficava jogando charme. Ela estava visivelmente constrangida, mas sorriu deslumbrantemente e aceitou a coroa que colocaram em sua cabeça. Então veio a tal valsa dos formandos e aí Julia não agüentou. Levantou-se e foi para fora do salão. A lua estava alta, bonita. Sentou-se num banco e ficou olhando as estrelas. Naquele instante viu uma estrela cadente e sorriu dos seus pensamentos.
- Quem me dera...
 
Fechou os olhos e sentiu-os encherem-se de lágrimas. Mais essa agora... Por que estava chorando? Tudo bem, o ano havia acabado, seus amigos iam se dispersar, cada um para o seu canto, ela iria para a faculdade. Mas tinha algo mais...
 
Nesse instante alguém tocou seu ombro. Sentiu um arrepio, era ela, sabia antes mesmo de olhar. Conhecia aquele toque, aquele perfume. Abriu os olhos devagar e virou o rosto. Lá estava ela, linda.
- Por que veio para fora?
- Fala sério... Esse negócio de valsa é do tempo da minha avó!
- Posso me sentar aqui? � falou Wood apontando o banco em que Julia estava.
- Claro...
 
A professora sentou-se e fitou as estrelas. Há muito tempo o céu não estava tão lindo.
- Hoje é o último dia... � Julia apenas murmurou algo incompreensível �... Não vai ficar com seus amigos? � mais uma vez um murmúrio �... Está chateada comigo por algum motivo, Keller?
 
Julia queria falar o que estava sentindo, mas as palavras não saíam de sua boca. Wood começou a se preocupar.
- O que f...
 
A jovem virou-se para a professora e abafou suas palavras com um beijo. Tão suave e tão sutil que ambas pareciam flutuar naquele céu estrelado.
 
Uma lágrima desceu sorrateira no rosto da jovem e a mão da professora veio apanhá-la carinhosamente. Não precisariam mais de palavras naquele momento, não ali. O que tinha para ser dito já havia sido dito com muito mais que palavras. Julia olhava a professora com os olhos marejados, talvez pelo que tinha feito, talvez por ser aquele o último contato que teria com aquela mulher que ela acabara de descobrir que amava.
 
 
 
2ªParte
 
Depois da formatura muita coisa mudou. O namoro de Julia com Carlos terminou pouco tempo depois de se formarem. Mariah não queria estudar ainda e foi tentar ser atriz em Hollywood, onde se casou com um diretor de cinema. Já a professora... Bom, aquele beijo nunca foi esquecido, mas a senhorita Wood foi vista pela última vez um mês depois da formatura, naquele dia fatídico quando embarcou para a Austrália.
 
As duas estavam tentando se entender depois daquele beijo e o que mais atrapalhava era o fato de Julia ser bem mais nova que Wood. Se viram poucas vezes naquele mês, mas quando se encontravam tinham a sensação de que aquilo não ia durar.
 
No aeroporto Julia não conseguiu chegar perto de Wood. Ficou de longe olhando a mulher que mais amava no mundo indo embora. Não podia fazer nada, mas mesmo assim sentiu uma ponta de arrependimento quando viu Wood olhando para todas as direções no saguão, como se procurasse alguém. Será que procurava por ela? Talvez nunca viesse a saber.
 
A faculdade estava exigindo o máximo dela, mas pelos menos conseguia conciliar o estudo com os treinos. Não queria ser daquelas burrinhas que passavam de ano porque estavam no time do colégio. Ela conseguiu o respeito dos professores, dos colegas e dos treinadores. Tinha suas regalias por causa disso, mas nada excessivo. Com vinte e um anos, um currículo de peso no campo dos esportes e vários títulos conquistados pela faculdade, Julia se preparava para uma competição nacional, onde teria de se esforçar em dobro. Mas todos acreditavam nela. A competição seria daí a dois meses e ela estava treinando duro dia e noite, no horário do almoço, férias, feriados e fins de semana. Era uma atleta modelo.
 
Parecia que nada podia abalá-la. Nada até aquele dia.
 
 
O coordenador de turma entrou na sala naquela sexta feira. Os alunos estavam em polvorosa porque o professor de Introdução ao Processo de Publicidade e Propaganda havia sido despedido e esperavam não ter aula por um bom tempo.
 
Todos se sentaram com a entrada do senhor Hamilton e esperaram para ver quem seria a próxima vítima.
- Bem, classe. Vocês sabem que tivemos alguns problemas com o professor Luiz e tivemos que tomar algumas providências. Graças à Deus conseguimos um substituto à altura dele. Quero que vocês dêem as boas vindas à senhorita Wood.
 
Julia sentiu o coração parar, o ar parecia pesado e suas mãos começaram a suar. Não podia ser ela...
 
A nova professora entrou na sala e todos ficaram mudos. Parecia que não só Julia perdera a fala, mas todos os outros também. Como ela estava linda, mais morena, o corpo mais trabalhado, os cabelos mais compridos e negros como nunca e aqueles olhos... Ah, aqueles olhos! Eram eles que hipnotizavam todos naquela sala.
- Vou deixá-los com a senhorita Wood para que se conheçam melhor. Tenham um bom dia.
 
O velho coordenador saiu e fechou a porta. O silêncio era assustador. Wood olhou em volta e assustou-se ao ver um rosto conhecido. Era aquela jovem. Aquela que ela nunca tirara da cabeça, a dona daquele beijo...
- Bom dia para vocês também...
 
Todos riram. Wood também riu, aquele famoso sorriso arrebatador. Julia teve de se controlar, teve vontade de chorar, de vomitar, ficou muito nervosa.
- Bom, espero que esse silêncio não seja porque já não gostaram de mim. Acabei de chegar e não pretendo sair tão cedo.
 
Novamente os alunos sorriram, novamente aquela ânsia de vômito.
- Olha, vou falar um pouco de mim para que me conheçam melhor, ok? Aos poucos vou conhecendo vocês. Meu nome é Clair Wood, mas quando o diretor não estiver perto, vocês podem me chamar só de Clair, ok? Bom, acabo de chegar de Sidney. Fiz meu doutorado lá e resolvi que já era hora de voltar. A verdade é que fiquei cansada de assistir aula. Fala a verdade, assistir aula é um saco, não é? � todos riram, menos Julia � Pois é... Queria voltar a dar aula o mais rápido possível, achei que ia pirar por lá. Mas a experiência foi fantástica. Conheci muitos lugares e pratiquei tudo quanto foi tipo de esportes radicais. Foi muito bom. Agora estou de volta, estou em experiência na faculdade e, quem sabe, fique com vocês por alguns semestres.
 
Todos bateram palmas, especialmente os homens. Julia olhou aquele bando de tarados e teve vontade de matar cada um deles. Socou apenas o que estava mais próximo, seu amigo Beto.
- Ai, Ju! Essa doeu. Por que fez isso?
- Deixa de ser exibido que você não gosta dessas coisas. Ela não faz seu tipo nem de longe.
- Não mesmo, mas tenho que fazer meu filme, não tenho?
- Não com ela!
- Por que não? Espera aí... É ela, não é? A tal Clair que você vive falando, que você fala dela até dormindo...
 
Julia não falou nada.
- Ju, fala comigo...
- Tudo bem, Beto. É ela... Não esperava encontrá-la agora... E aqui...
- Acho que a Lorien já era...?
- Que mania! Não tenho nada com a Lorien! E não tenho nada com a senhorita Wood, nunca tive. Ela foi embora e nem ligou para o que eu sentia. Hoje não quero mais saber, nem pensar nela.
- Você devia se ouvir falando; está patética. Pára porque de mim você não consegue esconder as coisas.
- Chega Beto! Acabou o assunto, encerrou. Não quero saber dela, do que ela fez, do que ela veio fazer, com quem está... Não quero saber nada. Tenho mais com o que preocupar.
 
Beto não falou mais nada, não adiantava discutir com alguém fora de si. Porque era assim que Julia parecia estar, fora de si. A aparição da senhorita Wood tanto tempo depois a deixou transtornada.
 
A jovem abaixou a cabeça na carteira e tentou não ouvir aquela voz, nem o que ela contava tão animadamente. Os outros alunos já estavam em volta dela ouvindo o que ela tinha para contar de suas experiências e todos se divertiam muito com as histórias da nova professora.
 
Mas Wood notou que Julia não se juntara ao grupo. Perguntou para um aluno por que aquela pessoa não se juntara à eles.
- Ah, ela é esquisitona assim mesmo, só sabe treinar e treinar. Parece que não gosta de se divertir muito, não.
 
Engraçado como as coisas não haviam mudado. Julia continuava a mesma de sempre, só que mais bonita, pelo que Wood pode ver daquela distância. Os cabelos estavam diferentes, mas ela ainda tinha a mesma beleza inocente de quando a viu pela última vez no colégio.
 
Não a chamou, preferiu deixar para outra ocasião. Já estavam quase chegando as férias de Natal e teria tempo de revê-la fora da sala de aula.
 
 
- Tem certeza de que não quer vir comigo, Ju?
- Tenho. Não curto essas festas... Vai com fé e não esquece meu presente!
- Puxa... Vou sentir sua falta...
- Deixa de bichice, Beto! Vou estar aqui quando você voltar, ok? Fica tranqüilo.
 
Os dois se abraçaram e Beto saiu do quarto cabisbaixo. Julia sabia que ele gostava muito de estar junto dela, mas depois que perdeu os pais num acidente há dois anos ela não quis mais saber de nenhuma dessas festas familiares. Preferia ficar no seu apartamento, curtir um livro e treinar, sempre treinar. Apesar de se sentir sozinha muitas vezes achava que assim era melhor.
 
Dois dias depois de Beto viajar para a casa dos pais ela já se sentia péssima. Era sempre assim. E por isso foi para a faculdade treinar um pouco. Estava frio demais, sorte a piscina ser aquecida.
 
Nadou durante horas e quando sentiu que ia desmaiar de cansaço e fome resolveu sair. Enrolou-se na toalha e foi até o vestiário se trocar. Quando saiu reparou que alguém se aproximava, provavelmente a mesma pessoa que ela julgou ter visto na arquibancada enquanto treinava. Quando abriu a porta deparou-se com Wood.
- Oi.
 
Não teve reação. Perdeu a voz, as forças. Teve vontade de correr, de chorar. A fome apertou. Não sabia o que dizer, não sabia o que pensar. Falou, então, a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
- Quer comer alguma coisa comigo?
 
�Que coisa mais estúpida! Não estamos mais no colégio!�, pensou Julia.
- Nossa. Depois de tantos anos achei que pelo menos um abraço eu ia ganhar.
- Desculpa... É que...
 
Wood puxou Julia pelo braço delicadamente e a envolveu num abraço apertado, gostoso, saudoso.
 
Julia sentiu seu corpo estremecer e apertou a amiga em seus braços retribuindo o carinho. Segurou-se para não chorar, não era hora para isso.
- Senti sua falta, Keller.
- Também senti a sua, senhorita Wood.
 
Wood afastou Julia e, com um sorriso, apertou a bochecha da jovem.
- Ainda com isso de �senhorita�? Acho que somos adultas o suficiente agora, não?
- É... � Julia sorriu encabulada � Olha, estou meio com fome. Vamos comprar alguma coisa...
- Claro. Podemos comer lá em casa.
 
A jovem não teve como negar. Uma hora depois chegaram ao apartamento de Wood com alguns pacotes do McDonald�s. Sentaram-se à mesa e comeram. Julia não sabia como começar a conversa com sua velha amiga e professora, mas parecia ter necessidade de falar alguma coisa com ela. Sentiu muito a falta daquela mulher. Talvez se falasse a verdade...
- Senti sua falta, Clair. Muito... Tanto tempo sem notícias suas...
- Me desculpe. Minha vida ficou muito confusa depois... Depois daquele dia. � ela deu uma mordida no sanduíche -... E eu consegui a bolsa para o doutorado em Sidney. Acho que devíamos ter conversado mais. As coisas no meu casamento começaram a ir mal... Muita coisa aconteceu.
- Eu não devia ter te beijado naquele dia, foi irresponsável, infantil...
- Não! Não foi. Foi maravilhoso, mágico e... E eu gostei... Muito. Não deixei de pensar naquele beijo um só dia enquanto estive fora.
- Então por que não telefonou, ou mandou notícias?
- Não queria atrapalhar sua vida, Keller. Eu não era a pessoa certa para você, eu era sua professora!
- E hoje... Por acaso você é a pessoa certa?
 
Wood levantou uma sobrancelha como fazia enquanto pensava. Não. Definitivamente não. Julia ainda era aluna dela.
- Você é minha aluna de novo, Keller. Acha mesmo que daria certo? Se descobrissem poderia dar o maior problema e...
 
Julia se levantou e andou em direção a porta.
- Foi bom revê-la, senhorita Wood. Nos vemos quando as aulas recomeçarem.
 
Ela saiu do apartamento sem maiores explicações. Wood ficou sem reação. Queria ter ido atrás, mas não podia, não queria alimentar aquela paixão. Não podia.
 
Desiludida, a professora foi para o quarto; deitou-se na cama e chorou.
 
Julia chegou em casa e procurou por uma garrafa de whisky que havia ganho de uma amiga há alguns meses. Como ela não bebia deixou guardada para o caso de uma visita mais importante. Na verdade estava guardando para o dia que seus pais fossem visitá-la no novo apartamento que a faculdade havia alugado para ela. Esse dia nunca chegaria, não tinha porque continuar guardando aquela garrafa. Pegou um saco de pistache, serviu uma dose do whisky e sentou-se na poltrona da sala. Ficou ali olhando seus troféus e medalhas. Os conquistados na faculdade estavam expostos na galeria de esportes. Lembrou-se de como era bom o tempo que seus pais a acompanhavam para todos os campeonatos e torciam por ela sem nenhum intuito de lucrar com aquilo. Sabia que ali todos gostavam dela pelo sucesso, pelas vitórias. Sem seus troféus ela era apenas mais uma estudante de Comunicação.
 
Ficou ali durante alguns minutos bebendo e acabou adormecendo. Não estava acostumada a beber e foram precisos apenas três copos para deixá-la sonolenta.
 
 
O telefone tocou às dez da manhã. Julia se levantou assustada e sentiu o chão fugir de seus pés. Ainda estava meio zonza. As costas doíam e um gosto horrível na boca a deixou enjoada. Dormir na poltrona não foi uma boa idéia.
- Alô...
- Keller! Onde você está?
- Quantas horas?
 
Julia olhou no relógio e viu que passava das dez. �Deus do céu�, pensou.
- Desculpe treinador, dormi demais! Estarei aí em alguns minutos.
- Não quero que treine desse jeito. Amanhã você compensa. Por acaso andou bebendo, ou se drogando, Keller?
 
Keller se assustou com a pergunta, mas aquele homem parecia ter um faro para encrencas. Talvez fosse o único professor da faculdade que realmente se importava com ela. Que bom que ela não havia ido treinar, isso seria uma decepção para ele.
- Não, treinador.
- Amanhã às oito, ok?
- Estarei aí. Me desculpe.
 
Eles desligaram o telefone. Julia assustou-se, nunca tinha bebido daquele jeito. Não era muito, mas havia bebido. O encontro com Wood a havia abalado de verdade. Não conseguiu tirar aqueles olhos de safira da cabeça naqueles quatro anos e agora ela estava de volta.
 
Entrou no chuveiro e tomou um banho gelado para ver se melhorava. Enquanto trocava de roupa ouviu a campainha tocar. �Quem poderia ser�, pensou. Sacudiu os cabelos curtos para tirar o excesso de água e vestiu um roupão. Pelo olho-mágico da porta não pode acreditar no que via. Wood.
 
Abriu a porta.
- Como me achou?
- Olhei seu endereço nos arquivos da faculdade. Você saiu tão de repente ontem, nem conversamos direito...
- Não estou a fim de conversar hoje, Clair.
 
A morena entrou no apartamento assim mesmo e retirou seu casaco.
- Escuta aqui menina, deixa de ser infantil!
- Infantil? Eu? Vai à merda!
- Olha como fala com sua professora!
- Na minha casa eu não sou sua aluna!
 
Aproveitando-se da raiva, saudade, desejo, de todos os sentimentos guardados, escondidos dentro de si, Wood puxou Julia pelo braço e a beijou. Não como aquele beijo no baile de formatura, mas um beijo amadurecido, um beijo de mulher.
 
Julia ficou relutante no começo porque estava com raiva daquela mulher que queria negar o que sentia, mas depois relaxou e aceitou o beijo ardente.
 
A jovem empurrou Wood, então, para o seu quarto e começou a desabotoar-lhe a blusa. Ficou frente à frente com aqueles seios perfeitos, a pele macia. Beijou o pescoço e desceu até os seios com fome, uma fome reprimida pelos anos. Acariciou-os tendo o cuidado de não machucar Wood devido ao desejo quase incontrolável. Depois desceu a mão para as pernas da professora e sentiu a umidade quente que tomava conta da mulher.
 
Wood não conseguia fazer com que aquela menina parasse; na verdade não queria, mas sabia que não deviam. Sentiu Julia entrando e fazendo movimentos delicados e excitantes dentro dela. Achou que fosse enlouquecer, tinha que tentar manter a sanidade. Sentiu quando a jovem a conduziu para a cama e deitou-a, deitando-se por cima em seguida. Sentia o corpo daquela jovem mulher sobre o seu e os movimentos ritmados. Beijou a boca com ferocidade no momento do orgasmo e, em seguida, deixou-se cair na cama sem forças. Ainda sentia os espasmos dentro de si e quando a jovem saiu delicadamente, gemeu mais uma vez de prazer.
 
Julia beijou Wood na testa e deitou ao seu lado. Sua respiração estava acelerada, seu coração parecia que ia explodir. Não acreditava que tinha feito aquilo. Sentiu Wood respirando longa e pausadamente, tentando se controlar.
- Você está bem?
- Estou... Nunca me senti tão bem. Mas acho que falta uma coisa...
 
Julia olhou para a professora e viu o fogo nos olhos dela. As safiras pálidas pareciam ter um brilho diferente daquele que ela conhecia.
 
Wood virou o corpo e se posicionou em cima de Julia. Queria se sentir dentro dela. Sentiu quando seus seios tocaram os dela e o calor vindo de entre as pernas firmes da jovem a excitou. A umidade era grande, o desejo inominável. Cada toque, cada beijo, cada movimento, tudo fazia Julia se contorcer de prazer. Mas quando Wood levou a mão para o meio das pernas da jovem e entrou naquela umidade quente e excitante, Julia não se conteve. Gemeu alto, se agarrou às costas da outra, lágrimas saíram de seus olhos. Lágrimas de prazer, lágrimas de uma longa espera, de um sonho distante que agora era pura realidade.
 
Wood aumentou o ritmo dos movimentos com a mão, a jovem a acompanhava e pedia mais. Queria mais.
- Clair, não pára... Por favor...
 
Wood pôde sentir quando a jovem a apertou quando teve um orgasmo forte, alucinante. Ela gemeu junto com sua parceira e diminuiu o ritmo, sentindo a respiração ofegante daquela garota que tentava voltar a si embaixo dela.
 
Alguns minutos depois, as duas estavam deitadas na cama totalmente nuas, as roupas esparramadas pelo quarto, o cheiro do desejo e do prazer no ar, as pernas entrelaçadas.
- Você é louca...
- Por que?
- Por não ter me dito que era isso que queria naquela época.
- Keller, você era minha aluna. Ainda é! Deus... Acho que isso não devia ter acontecido...
 
Julia se levantou e virou para aquela mulher linda e nua ao seu lado.
- Não acredito que vai começar com isso de novo. Somos adultas agora, Clair! Eu não vou mais negar o que sinto por você... Eu te amo!
- Não diga isso, você não sabe o que é o amor. Quem ama sofre, viu como ficou quando fui embora...
- Quer dizer que vai embora de novo?
- Não. Quero dizer que não podemos fazer isso. Vou acabar te fazendo sofrer. Você vai perder seus amigos, sua bolsa e eu vou perder meu emprego...
- Então é isso? Você está com medo de perder seu emprego? Puxa... Achei que eu significava mais para você...
- E significa! Sabe o que é não sair com ninguém por quatro anos porque não conseguia tirar você da cabeça? Sabe o que é chorar toda noite porque você não foi se despedir de mim no aeroporto quando parti?
- Eu fui ao aeroporto e vi quando você parou no portão de embarque, mas não tive coragem de ir até lá... � Julia abaixou a cabeça - Eu já te amava naquela época, agora não é diferente... Não vá embora de novo.
 
A jovem cobriu os olhos com as mãos. Não conseguia conter o choro.
- Não chore, linda. Me desculpe... Tenho medo de estar fazendo algo muito errado.
- Sabe o que minha mãe disse alguns dias antes do acidente? �Se ela voltar algum dia, diga o que você sente�. � a jovem olhou fundo nos olhos de Wood - Eu te amo, é isso o que eu sinto!
- Sua mãe morreu? Quando?
- Um ano depois que você partiu. Ela e meu pai voltavam de uma viagem e sofreram um acidente. Os dois morreram...
- Minha nossa, Keller. Como você passou por tudo isso sozinha?
- A gente aprende a ser forte. E por ser forte é que eu te esperei até hoje... Não quero te ver indo embora de novo...
 
Wood abraçou a jovem e deitou-a em seu peito.
- Meu amor... Isso vai nos trazer problemas...
- Passo por cima de qualquer coisa para ficar com você, se você também quiser ficar comigo.
- É o que eu mais quero.
Elas se beijaram novamente e se levantaram para tomar um banho. Wood ficou no chuveiro enquanto Julia preparava algo para comerem.
 
Enquanto almoçavam não trocaram uma palavra, pareciam desconhecidas.
- Aconteceu alguma coisa no trajeto do meu quarto até aqui?
- Não... Desculpe. Estava apenas pensando...
- Em...?
- Robert...
- Seu marido?
- Ex-marido. Me divorciei dele assim que voltei. Estávamos brigando demais, não dava mais certo. Mas agora acho que sei o motivo pelo qual não estava mais dando certo...
- Não põe a culpa em mim, não!
- Não é sua culpa, mas foi por sua causa, hoje eu sei disso, Keller. O que eu achava que sentia por ele eu sentia era por você. E era impossível não sentir isso. Agüentei o quanto pude porque você era muito nova, minha aluna. Aí você me beijou na sua formatura e eu tive uma ponta de esperança, um sonho bobo, como se eu pudesse sentir aquele tipo de coisa.
- Mas por que não poderia? Você é humana, afinal! Somos adultas agora, já disse. Se naquele tempo não podíamos nos arriscar, hoje podemos. � Julia olhou ternamente para os olhos de safira à sua frente � Vamos tentar, Clair?
 
Wood sentiu os olhos se encherem de água. Queria falar sim, mas tinha medo. Julia acariciava seu rosto suavemente e sorria.
- Não tenha medo de ser feliz, por favor!
 
Wood se levantou e beijou Julia na testa.
- Eu quero... Eu... Eu também te amo.
 
Julia beijou e abraçou forte a mulher em seus braços. Nesse instante a campainha tocou. As duas se assustaram.
- Está esperando alguém?
- Não.
 
Ouviram alguém gritar.
- Julia, sua ingrata! Tá frio aqui fora, abre logo!!!
 
Julia arregalou os olhos. Era Mariah!
- Meu Deus, mas já vão ficar sabendo de nós?
- Então existe um... �nós�? � Julia sorriu de lado enquanto beijava Wood nos lábios.
- Sossega, Keller! Onde eu me escondo?
- Hahahaha! Essa vai ser boa! � Julia passou a mão pelo queixo e sorriu � No armário, onde mais? Hahaha!
- Gracinha...
 
Wood correu para o quarto de Julia e entrou no armário. Com certa dificuldade fechou a porta e tentou não se mexer. Acabou esquecendo, em meio àquela correria, que não gostava muito de lugares fechados.
 
Julia abriu a porta e Mariah pulou em seu pescoço.
- Meu Deus. Como você está linda, como sempre... Que inveja.
- Deixa de ser boba, Mari, você é maravilhosa.
- Me dê o seu abraço mais gostoso, sua chata!
 
As duas se abraçaram e Mariah deu um beijo de leve nos lábios da amiga.
- Que saudade de você, linda! Como estão as coisas na faculdade?
- Bem...
- Humm... Não senti firmeza nisso. O que está acontecendo, Ju?
 
Será que não podia ter uma vida pessoal? Todos pareciam saber, ou querer saber de tudo na vida dela!
- Se te contar você não vai acreditar...
- Pode falar, já vi mais coisas absurdas que você possa imaginar, acredite.
- Clair voltou...
 
Mariah sentiu seu queixo caindo levemente em direção ao chão e segurou-o. procurou por uma cadeira e ambas se sentaram no sofá.
- Clair...? A sua Clair...?
- A minha Clair...
- Como? Quando? Onde? Por que? Como assim?
- Calma! Assim você me deixa louca! � Julia suspirou � Ela é minha professora de novo.
- Ah, não! Ninguém merece! Vocês conversaram?
- Mais ou menos...
 
Mariah notou dois pratos e dois copos em cima da mesa. Olhou desconfiada para a amiga.
- Ju... � ela apontou para os pratos.
 
Julia sabia que não poderia esconder uma coisa importante dessas de sua melhor amiga. Sussurrou, então, no ouvido dela.
- Vem comigo.
 
As duas foram para o quarto e Julia puxou a porta do armário. Wood saiu lá de dentro reclamando da falta de ar naquele lugar fechado.
- Me lembre de nunca mais me esconder no...
 
Wood notou Mariah parada ao lado de Julia. Seu rosto corou e a respiração ficou um pouco mais difícil. Procurou pela bolsa para pegar a bombinha. Em seguida sentou-se na cama.
- Já colocou no jornal da faculdade, Keller? � perguntou a professora totalmente sem graça com a situação.
- Não seja rabugenta, senhorita Wood. Alooow! Sou eu, Mariah Lindsey! Lembra de mim? Acha mesmo que eu não sabia que já tinha rolado algo entre vocês? Por favor...
- Claro que me lembro de você. Deus... Isso vai dar rolo...
- Não se preocupe, senhorita Wood. Não contei para ninguém há quatro anos, não vou contar agora.
 
Wood sorriu sem graça e segurou a mão de Julia.
- Me desculpe, Mariah. Estou um pouco na defensiva ainda. Como está?
- Digamos que... Catando os caquinhos...
- O que houve, Mari? � Julia segurou a mão da amiga.
- Me separei de Will... Acho que vou vir morar por aqui, ficar mais perto dos meus amigos. Não tenho mais nada, Ju. Ele está me pagando uma pensão porque sabe que se me deixar por mim mesma eu morro de fome. Não fiz nada na minha vida senão atuar; não sei fazer mais nada. Preciso recomeçar.
 
Mariah colocou as mãos no rosto e chorou. Wood foi até a cozinha buscar um copo com água.
- Você pode ficar aqui comigo, Mari. Tem o Beto morando também, mas ele é uma ótima pessoa. Quando você ajeitar sua vida você decide se quer sair ou continuar aqui conosco.
- Não quero atrapalhar, Ju...
- Você nunca atrapalhou, Mari. � Julia abraçou a amiga novamente � Senti tanto a sua falta.
 
As duas se abraçaram e choraram juntas. Wood chegou naquela hora. Pôde ver como aquela jovem por quem se apaixonara era sensível, uma amiga, acima de tudo. Estava decidida, queria se arriscar. Aonde tudo aquilo chegaria ninguém poderia dizer.
 
 
3ªParte
 
Passados alguns meses o Campeonato Estadual de Natação começou. Depois de quatro dias Julia se destacara entre as concorrentes e já era finalista em sua principal categoria. Mas a tensão estava deixando-a cada vez mais nervosa.  Não conseguia ficar parada.
 
Andava em círculos desde às 6 da manhã e se não fosse a presença de Wood e Mary já teria ficado louca.
- Acho que você deveria ficar mais calma, Keller... Isso não vai te fazer bem.
- Não consigo... Viu aquelas finalistas? Vou competir com a mulher que fez o melhor tempo da competição. Ela deixou meu recorde no chinelo!
- Não é assim também, Ju! � agora Mary começava a ficar tensa também � Ela é boa, mas você também é. E ela parece um tonhão! Credo! Viu os braços dela?
- Ai, acho que vou ao banheiro...
 
Julia correu mais uma vez para o vestiário. Já era a quinta vez naquela manhã.
- Não sei, Wood... Ela está muito nervosa. Você poderia ir lá dentro, aproveitar que estão todos assistindo a competição... Sei lá, eu fico aqui olhando.
 
Wood achou que talvez fosse uma boa idéia. Sorriu para Mary e se dirigiu ao vestiário. Trancou a porta ao entrar e procurou por Julia. Encontrou-a sentada no chuveiro, as lagrimas corriam seu rosto sem perceber. Wood ficou arrasada com aquela cena. Sentou ao lado da jovem e passou a mão pelos cabelos molhados. Julia assustou-se com a presença.
- Não fica assim, Ju... Essa não é você, você não tem medo de nada!
- Tenho medo de decepcionar muitas pessoas...
- Você não deve nada para ninguém, nem para mim! Você vai lá fora e vai dar o melhor de si!
- E se o melhor de mim não for o suficiente?
- Pois para mim é.
 
Wood beijou Julia suavemente. Sentiu como estava tenso aquele corpo jovem. O beijo se tornou mais quente, as mãos começaram uma exploração gostosa. Os olhos fechados pareciam saber que aquele momento era muito delicado, que nada poderia dar errado.
 
Julia sentiu quando Wood abriu seu roupão e as mãos quentes começaram a tocar seu corpo por sobre o maiô ainda úmido. Elas se beijaram com mais intensidade, Julia sentia seus músculos relaxando. Aquilo parecia uma massagem erótica e estava deixando-a bastante excitada, também.
- Quero fazer amor com você aqui... Agora...
 
Wood olhou nos olhos da jovem. Ainda via lágrimas, mas não pareciam mais de tristeza. Ela sorriu e tirou o maiô de Julia delicadamente. A jovem sentiu um arrepio percorrer suas costas e um frio na barriga. Nunca tinha feito amor com alguém num vestiário. Mas o lugar não fazia a menor diferença naquele momento, queria aquela mulher dentro dela.
 
Ambas se despiram totalmente e Wood levantou-se, puxando Julia para cima. Encostou a jovem na parede e ouviu o suspiro devido ao frio em contato com a pele quente. Beijou a jovem com intensidade, mas sem agressão. Sentia a umidade e um calor gostoso começando a tomar conta entra as pernas. Sentiu que consigo também não era diferente. Sentia-se encharcar de prazer, apenas por encostar-se àquela garota. Desceu a mão delicadamente até o pequeno triângulo e, sem pressa, pôs-se dentro da jovem.
 
Julia gemeu em seu ouvido. O ritmo começo a aumentar. Wood entrava e saía devagar, o que deixava a jovem cada vez mais louca. Podia sentir os músculos se contraindo de prazer e depois de alguns minutos uma explosão trouxe o orgasmo forte, quase incontrolável. Julia precisou morder o ombro de Wood para não denunciar aquele ato ilícito. Uma aluna e uma professora trocando muito mais que carícias no vestiário.
 
Ambas respiravam ofegantes e se abraçaram antes mesmo de Wood sair de dentro da jovem. Logo que saiu, mais um suspiro e outro orgasmo, menor que o primeiro, mas não menos prazeroso.
 
Wood beijou Julia com ternura, com o rosto entre suas mãos e olho nos olhos da jovem.
- Agora você vai lá e vai ganhar aquela medalha para mim.
 
Julia sorriu e consentiu com a cabeça. Beijou a mulher à sua frente e pôs-se a vestir o maiô e o roupão. Wood fez o mesmo e vestiu suas roupas.
- Só uma coisa... � ela passou a mão no ombro que estava extremamente dolorido � Espero que da próxima vez você encontre um maneira melhor de se conter, senhorita Keller.
 
Julia puxou a gola da camisa e viu que havia feito um estrago no ombro de Wood. A marca dos dentes era funda e um pouco de sangue minava de um dos lados.
- Meu Deus! Desculpa Clair!! Meu Deus...
- Não esquenta. Depois da competição vamos discutir isso lá em casa...!
 
Julia sorriu e arrumou a gola da blusa.
- É melhor sairmos; Mary está igual a um pit-bull lá na porta!
 
A jovem sorriu e beijou Wood. Em seguida, saíram do banheiro. Mary esperava a alguns metros da porta olhando no relógio. Ficou eufórica quando viu as duas saindo.
- Não quero nem imaginar o que aconteceu lá dentro, mas é que só faltam cinco minutos para você competir. Acabou de anunciar. Você está bem?
- Melhor impossível.
- Vejo que a conversa de vocês foi beeeeem esclarecedora... Bom, vamos nessa, então.
 
As três se dirigiram para o ginásio. Wood e Mary foram para a arquibancada e Julia foi para sua raia.
 
Incrível como sentia seus músculos leves, a tensão tinha desaparecido. Aquela mulher sabia como lidar com situações de tensão.
 
Ela olhou para os lados e viu Lorien, a nadadora que tinha feito o melhor tempo do campeonato. As duas ainda não tinham se enfrentado numa situação como aquela e talvez a outra estivesse confiante demais. Isso poderia ser um problema. Olhou para a arquibancada e viu Wood. Ela sorria de um jeito impossível de se descrever, parecia ter orgulho de torcer pela jovem. Julia sorriu e nem percebeu que alguém a chamava.
- Ei, Keller. Enfim estamos aqui no mesmo barco.
- Lorien..? Oi. Desculpa, não ouvi você me chamando..
- Eu notei. Mas você e a senhorita Wood poderiam ser um pouco mais discretas. Tem pessoas que não aceitariam isso nunca.
 
Julia sentiu seu sangue secar nas veias. Como ela sabia?
- Calma. Não é comigo que você tem que se preocupar, ok? Estamos no mesmo barco, já falei...
- Você...?
- Pode apostar. E digo mais... � ela olhou para a arquibancada e sorriu desanimada � É uma pena que ela tenha chegado primeiro... � falou apontando para Wood com o queixo.
 
Agora Julia corou de vergonha. Quer dizer que aquele mulherão estava de olho nela há algum tempo? Como podia ser tão cega. Sorriu para sua rival e estendeu a mão.
- Que vença a melhor.
- Com certeza. Quem sabe depois a perdedora possa pagar um drinque para a vencedora... Aí, quem sabe, você me apresenta aquela amiga maravilhosa que está ao lado da senhorita Wood.
 
Julia sorriu e apertou forte a mão de sua nova cúmplice.
- Não sei se daria certo, mas pode deixar, eu te apresento para ela! Boa sorte.
- Idem.
 
As duas se posicionaram em suas raias, uma ao lado da outra. Ainda se olharam mais uma vez e sorriram. Não existia rivalidade entre as duas, apenas uma competição saudável.
 
Ao som do tiro de partida as duas pularam juntas e foram juntas do começo ao fim. Nadavam numa sincronia jamais vista em competições daquele porte.
 
Um minuto depois a prova chegava ao fim, mas não se podia dizer quem havia chegado primeiro. Apenas a fotografia poderia falar. Esperaram alguns minutos até que um juiz veio até as raias e anunciou a vitória de Julia por um milésimo de diferença.
 
Julia ajoelhou-se felicidade. Agora as lágrimas eram de alívio. Sentiu que alguém tentava erguê-la, era Lorien.
- Parabéns, Keller. Acho que perder para uma competidora como você não é tão humilhante assim.
 
Julia abraçou Lorien e olhou na direção de Wood. Ela batia palmas vigorosamente e sorria maravilhosamente, orgulhosa.
 
 
A entrega da medalha foi um orgulho para Julia e todos da faculdade. Todos sorriam, batiam palmas e pareciam se sentir realizados com aquela vitória. Mas essa entrega, com direito a hino e tudo mais, não foi mais bonita que quando as quatro, Wood, Julia , Mary e Lorien, chegaram no apartamento da jovem. Julia ajoelhou-se e colocou a medalha no pescoço de Wood.
- Sabia que você conseguiria, Keller.
- Consegui por você, aliás, por nós duas. E... � ela olhou para as duas amigas paradas ao seu lado e ajoelhou-se aos pés de Wood -... Tenho mais uma coisa para dar a você... � Ela tirou uma pequena caixa do bolso da jaqueta e abriu-a em frente a professora � Se casaria comigo, senhorita Wood?
 
Wood ficou sem fala. Não sabia se olhava para a jovem, ou para a jóia dentro da caixa, ou para as duas amigas de Julia que estavam tão boquiabertas quanto ela. Sorriu nervosa, aquilo era um passo maior que o esperado. Talvez porque ela achava que quem faria isso seria ela, e não a jovem aluna prodígio.
 
Ajudou Julia a se levantar e abraçou-a forte. Tentava conter as lágrimas, mas o momento era forte demais até para ela.
- Você vive me surpreendendo, Keller... Ainda vou morrer de susto um dia!
- E isso por acaso é um... Sim...?
- Desde aquela primeira vez que te beijei já era um sim, minha querida. Sim, eu quero, é tudo que eu mais quero. Eu te amo!
 
As duas se abraçaram e se beijaram. Lorien se sentiu meio fora do clima e falou que ia embora. Mary interveio.
- Quê isso! Não senhora. Vamos comemorar todas juntas. E aquela história que a Ju me falou de que quem perdesse pagava a bebida?
- Ah, é... Tem isso.
- Pois é. Vamos comprar alguma coisa para bebermos. Tenho que aproveitar que meu dinheiro do mês ainda não acabou! Hahaha!!
 
Mary e Lorien saíram e as duas mulheres apaixonadas ficaram olhando intrigadas uma para a outra.
- Será? � falou Julia.
- E por que não?
 
As duas sorriram, se beijaram e colocaram as alianças nas mãos. Em seguida se abraçaram.
- Vamos preparar algo para comermos. Acho que essa noite vai ser longa...
- Pode apostar. 
 
                                                        FIM...?
 
Bem happy end, não é mesmo? Mas tenho pavor de finais infelizes, por isso é melhor acostumarem-se. Mas tem uma coisa; se quiserem uma continuação da confusão que pode acontecer nas vidas de Sophie e Clair é só dar o sinal e eu dou um jeito de escrever, ok?
 
Um grande beijo p todas

 Deya 

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