Apesar
da grande amizade que Julia tinha com a ruivinha Mariah, a jovem não
poderia faltar àquele treino de natação. Talvez conseguisse
uma bolsa na faculdade se ganhasse a próxima competição.
Isso ajudaria muito, já que sua família não tinha muita
condição de ajudá-la. Mas para isso teria que treinar
incansavelmente até o último minuto.
Juntou as coisas na mochila enquanto os outros saíam.
Nem reparou que a senhorita Wood ainda estava sentada em sua mesa corrigindo
algumas provas. Aquela voz suave a assustou.
- Hei Keller? Não vai com os outros ao shopping?
Engoliu seco. Por que ficava nervosa quando falava com
aquela mulher?
- Não senhorita Wood, tenho treino. Preciso ir
à minha casa pegar o material que esqueci.
- Posso te dar uma carona.
- Não precisa...
- O que é isso, será um prazer!
�Ok. Não era bem isso que eu tinha em mente, mas
recusar uma carona para casa é burrice!�
- Ok.
Esperou mais alguns minutos até a senhorita Wood
guardar as provas na sala dos professores. Observou quando aquela mulher
atraente veio em sua direção. Cabelos negros, olhos azuis
de safira e um charme no andar que poucos tinham. Vestia-se bem à
vontade; calça social, camiseta branca e jaqueta de couro. O olhar
era forte, expressivo e o sorriso, maravilhoso.
- Certo, acho que podemos ir, mas preciso passar no shopping
para pegar uns filmes que mandei revelar. Algum problema?
�Claro que tem problema! Deixei de ir ao shopping para
treinar, como é que vou aparecer lá assim, sem mais nem menos?�
- Humm... Tenho treino, senhorita Wood. Acho que fico
no ponto do ônibus, mesmo.
- Você vai comigo ao shopping e eu te levo em casa
para buscar suas coisas, depois te trago de volta, que tal? Não recusaria
um convite da sua professora predileta, recusaria?
�Claro que não, que pergunta!�, pensou. Não
sabia porque, mas não conseguia dizer não para ela. A amizade
das duas era muito forte, apesar de ser apenas um relacionamento professor/aluno.
Mas era o que aquilo era, certo? Não, não estava certo. Ela
não deveria ir até o shopping, principalmente, acompanhada
daquela mulher. E se sua amiga as visse? Com certeza iria ficar indignada.
- Certo, acho que não tem problema.
Mais uma vez tinha adiado os planos por ela. Mas por que?
Foram ao shopping. Julia estava nervosa. E se Mariah as
visse? Seria o fim! A sorte foi que não demoraram muito, como a senhorita
Wood disse que seria. Em seguida a professora cumpriu sua promessa e levou
a jovem em casa e depois de volta para a escola. Antes, a mãe de
Julia quis saber como andava o desempenho da menina nos exames e alguns
minutos foram perdidos ali.
- Pronto, está entregue! Não foi tão
ruim, foi?
- Claro que não... Já vai? � �Que pergunta
imbecil, Julia. Por que ela ficaria ali?� � Quer dizer, quer tomar um suco
depois do treino...? - �Humm... Essa foi terrível!�
- Seria uma boa. Onde eu me sento?
�Ok. Isso foi além do que eu esperava�, pensou.
O convite havia sido feito por educação, mas tinha uma ponta
de verdade.
- Ãnh... Humm... Senta ali na arquibancada. Mas
se demorar muito pode ir, não tem problema.
- Está querendo fugir do convite, senhorita Keller?
- Quê isso, professora! Não é isso,
não, é que...
- Olha, eu te espero, ok. E pode me chamar de Clair, pelo
menos enquanto estivermos fora de sala de aula... Certo?
Julia concordou com um sorriso tímido e correu
para o vestiário. Trocou de roupa depressa, parecia querer fazer
o tempo voar para que o treino acabasse rápido. Estranho, sempre
gostou dos treinos depois da aula, mesmo naqueles dias frios.
Duas horas depois, Julia se trocava no vestiário.
Com certeza a senhorita Wood não estaria mais lá, não
teve tempo de prestar atenção nela durante o treino. Saiu
e olhou em volta. Nada. Alguns pais buscando alunos, alguns professores
de educação física, mas nada da professora. Talvez
ela tivesse se cansado de esperar, talvez ela...
- Puxa, você nada bem, garota!
Julia assustou-se. Mesmo com a suavidade da voz a presença
de Clair ali já não era mais esperada.
- Obrigada senhorita Wood... Achei que tivesse ido embora...
- E perder a oportunidade de tomar um super suco de acerola
com laranja? �Magina�!
A jovem sorriu. Tinha o sorriso doce, sincero, inocente.
Os cabelos estavam molhados e presos com uma tira. A roupa era esporte,
jaqueta da equipe, calça Adidas e tênis. Uma estudante do final
do ginásio como outra qualquer, no auge dos seus dezessete anos.
À não ser por aquela amizade.
As duas caminharam pelo estacionamento e entraram novamente
no carro da professora. Ela disse que conhecia o lugar ideal para tomarem
o suco e que a deixaria em casa depois. Julia apenas concordou.
Na lanchonete...
- Mas então é só você ficar
entre as cinco primeiras?
- Não é �só eu ficar entre as cinco�,
elas são realmente boas!
- Mas você também é. E aposto que
é melhor do que elas.
Enquanto disse isso, a professora segurou as mãos
da jovem aluna, fazendo-a corar. Ela percebeu o desconforto da situação
e mudou de assunto.
- Você já tem par para o baile de formatura?
- Não gosto dessas baladas... Não tem ninguém
interessante na turma e se tivesse não me chamaria. Estão
mais preocupados com as meninas da torcida...
- E aquele rapaz que você namora... Ele não
vai?
- Acho que não...
- Sabe Keller, você tem a auto-estima meio baixa.
Não pode pensar assim! Você é muito melhor que aquelas
saltitantes loirinhas chefes de torcida. Se eu fosse um garoto inteligente
convidaria você.
�Quem dera você fosse um garoto inteligente... Hei,
quê isso?�
- Obrigada senhorita Wood.
Nesse instante Wood chegou mais perto de Julia e falou
segurando seu braço:
- Se me chamar de senhorita mais uma vez vai deixar de
ser minha aluna predileta!
As duas se encararam alguns segundos. Julia pode reparar
nos olhos penetrantes de Wood e quase se perdeu neles. Sorriu e desculpou-se
mais uma vez. Sentiu algo estranho quando foi tocada, mas achou melhor não
falar nada. Há algum tempo que sentia essas coisas e não havia
comentado com ninguém, nem com sua melhor amiga, Mariah, nem com
seu namorado, Carlos.
- Certo. Sem senhorita a partir de hoje, promessa!
Elas riram e descontraíram um pouco mais. Mas já
passava das sete da noite e Julia tinha que voltar para casa.
- Falei com sua mãe que te levava em casa depois
do treino. Vamos antes que fique mais tarde, certo?
- Certo.
As duas pagaram e foram embora. Na porta da casa de Julia,
Wood despediu-se dentro do carro com um abraço. Há muito tempo
a jovem estudante não ganhava um abraço daqueles, apertado,
quente, carinhoso. Mas o que a deixou mais intrigada foi o carinhoso beijo
que ganhou na testa. Aquilo sempre significou respeito para ela, mas vindo
de uma pessoa como Clair Wood, a professora mais linda e assediada do colégio,
isso era diferente, muito diferente...
- Nos vemos na aula amanhã?
A resposta veio sem maldade, mas imediata.
- Pode apostar.
Julia ainda ficou olhando o velho Mustang vermelho dobrar
a esquina. Em seguida entrou. Que dia...
As provas estavam acabando, o ano estava acabando e todos
só pensavam no tal baile de formatura. Todos, menos Julia. Ninguém
a havia chamado, talvez porque ela não dava espaço, ou porque
Carlos era grande demais para que alguém se atrevesse a convidá-la.
Mas ele também parecia não gostar dessas coisas e por causa
disso ela ficaria mesmo sem par.
Mas isso não a incomodava e sim o fato de não
conseguir tirar os olhos da linda senhorita Wood da cabeça. O que
era aquilo, afinal? Nunca teve sentimentos tão fortes por outra pessoa,
nem mesmo por Carlos... Muito menos por uma mulher! Aquela jovem mente estava
a ponto de fundir, se não fosse a leveza daquela voz para tirá-la
do transe.
- Pensando no baile, Keller?
- Nah...
Acho que não vou...
- Como assim? Quer dizer que eu vou ficar sozinha naquele
salão a noite toda?
- Perdão, Clair, mas e o seu marido?
- Robert? Tá brincando, né? Tem final do
campeonato na mesma noite. Não vai arredar os olhos da TV, aposto!
- Puxa, que pena...
As duas desviaram o olhar. Pareciam querer falar alguma
coisa, mas não conseguiam. Wood, mais uma vez, tomou o rumo da conversa.
- Posso passar na sua casa e te pegar. Assim sua mãe
não fica preocupada com você indo sozinha, o que acha?
�Maravilha, claro que eu quero! Podemos terminar a noite
juntas, também! Seria perfeito!�
- Não sei, senhorit...
- Sem essa de senhorita, Keller, já te pedi! Vai
me deixar sozinha no meio de um monte de adolescentes?
�Ai, Deus! Por que ela faz isso?�
A senhorita Wood era uma das professoras mais bonitas
do terceiro ano. Com vinte e oito anos, carinha e corpo de vinte, ela abafava
no colégio. Todos os marmanjos e a pirralhada ficavam babando quando
ela passava no corredor, ou com uma saia comportada, porém elegante,
ou com seu visual básico, jeans e camiseta.
- Claro que não! Vamos juntas, então...
- Ótimo! E à propósito, quando é
a competição mesmo?
- Nesse final de semana... Você vai estar lá...?
- Não perderia de jeito nenhum. � ela lançou
aquele sorriso forte e radiante que só ela sabia dar, a jovem quase
caiu para trás � Depois a gente combina direito.
Julia não teve tempo de responder. Levou outro
beijo na testa e ficou observando a beldade morena sair pelo corredor. Ficou
olhando até que foi interrompida por Mariah.
- A senhorita é fogo mesmo, héin? Foi ao
shopping com a senhorita Wood ontem e nem passou no boliche! Que amiga!
- Calma aí, Mari... Peguei uma carona com ela,
só isso. Ela teve que passar no shopping para pegar uns filmes e
eu estava junto. Não ficamos lá, tive treino, lembra? Campeonato,
bolsa...?
- Sei... E aí, o mala do Carlos resolveu se vai
ao baile?
- Acho que é mais fácil você passar
em matemática...
- Putz! Que sacanagem... Então você não
vai, mesmo?
- Sei lá... Tô armando uns esquemas aí,
uma carona, mas vou acabar indo sozinha mesmo.
- Tadinha da minha amiguinha... Chama a professorinha
querida para ir com você...
- Ciúmes? Que coisa feia, Mariah!
As duas riram e foram andando para o pátio. Julia
ainda olhou para trás a tempo de ver Wood olhando para ela sorrindo
e dando tchauzinho. Linda, um anjo.
Chegado
o dia da competição para a bolsa; todos do colégio
se reuniram para torcer por Julia. Mariah sentou-se ao lado da senhorita
Wood e mais alguns colegas de sala.
Wood parecia triste naquele sábado pela manhã,
não sorria, nem olhava direito para Julia. Algo parecia estar errado,
mas Julia não teve tempo de perguntar o que era. Estava tão
concentrada na disputa que pela primeira vez em sua cabeça não
passavam os olhos da professora do terceiro ano. De repente um calafrio
e a realidade daquilo tudo veio à tona. Era o fim do terceiro ano,
acabou. Não existiria mais a senhorita Wood!
- Deuses...
Como é que eu vou fazer?
Aquilo começou a bater em sua cabeça e mais
nada fazia diferença. Como iria fazer para continuar sem aquela pessoa
que sempre esteve ali, que sempre deu força? Uma pessoa que ela amava
como qualquer aluno ama seu professor... Ou não?
Faltavam alguns minutos para começar a última
disputa, a que garantiria o título de melhor nadadora e a bolsa na
faculdade. Mas Julia não conseguia mais se concentrar e estava visivelmente
abalada.
- O que houve com ela? � a voz suave da senhorita Wood
conseguia se fazer ouvir em meio aos gritos enfurecidos da torcida � Ela
parece nervosa... Mas estava tão bem agora à pouco...
- Não sei... Ela está estranha mesmo. O
que será que houve?
- Humm... Não sei, mas vou lá falar com
ela.
Wood se levantou e deu a volta na arquibancada, chegando
até a piscina. Julia estava sentada num banco com a cabeça
baixa entre as mãos. E para surpresa de Wood ela chorava.
- Keller, o que houve? Sente-se mal?
- Sim...
- Dói alguma coisa?
- Dói, muito...
As lágrimas escorriam descontroladas e as mãos
tremiam.
- Keller, está me assustando! Precisa de um médico?
- Não... � a jovem suspendeu os olhos cheios d�água
que encararam os azuis - Preciso de você...
Wood sorriu e abraçou Julia. Enxugou as lágrimas
da jovem com as mãos e olhou nos olhos dela.
- Estou aqui, lembra. Vou sempre estar, ok. Agora vá
lá e ganhe a sua bolsa!
Julia sorriu entre as lágrimas e levantou-se. Apertou
a mão amiga da professora e foi para sua posição. Não
era exatamente de uma amiga que precisava naquele momento, mas servia, por
enquanto.
�- E na raia quatro a jovem atleta, Julia Keller.�
Apesar de não ser tão alta quanto as outras,
Julia era de uma rapidez impressionante. Com dezessete anos ela tinha o
corpo moldado pelos anos de treino, olhos verdes e um sorriso encantador,
sem falar na voz extremamente doce.
Todos os colegas de Julia se levantaram da arquibancada
e aplaudiram a jovem atleta. Wood já havia voltado para seu lugar
e agora sorria para a jovem que aguardava o começo da competição
em sua raia.
Não foi surpresa o fato de Julia ter feito o melhor
tempo e ter sido procurada pelo treinador de uma faculdade e recebido a
tão sonhada bolsa. A grande surpresa foi o fato de Wood ter saído
antes da entrega das medalhas. Aquilo deixou Julia magoada e confusa. Por
que ela havia feito aquilo? Mas não conseguia raciocinar direito,
estava feliz demais naquele momento, apesar de sentir que faltava algo para
ser realmente completa sua felicidade.
Passados os trotes e a comemoração, a jovem
saiu de fininho à procura de sua professora. �Por que ela foi embora?�,
pensava alto. E foi num canto do estacionamento que Julia avistou Wood.
Foi até lá.
- O que houve? - a pergunta pareceu assustar a professora.
- Na... Nada. � ela enxugou o rosto molhado � Conseguiu,
héin? Eu sabia!
- Você está chorando Clair?? O que aconteceu?
- Não aconteceu nada, Keller. Acho melhor você
voltar para junto de seus amigos. Hoje é um dia para você comemorar
e...
- Mas eu queria que você estivesse junto! Vamos
para lá!
- Melhor não... Vou para casa. Depois conversamos,
ok?
- Mas...
Aquele beijo na testa de novo. Aquilo estava deixando
Julia mais confusa ainda. Ela correu atrás da professora e segurou-a
delicadamente pelo braço.
- Fiz alguma coisa errada?
A inocência da pergunta fez os olhos de Wood se
encherem mais ainda de lágrimas. Julia não sabia o que fazer.
A única coisa que passou pela sua cabeça foi abraçá-la,
o que acabou fazendo sem perceber. Sentiu a pele quente do pescoço
da outra se encostando ao seu e um arrepio percorreu seu corpo. Apertou
forte sua amiga contra o peito e afagou seus cabelos.
- Não vai me contar o que foi?
- Depois... Hoje é seu dia, depois te falo... Mas
não é motivo para você se preocupar.
- Então promete que não chora mais...?
- Ok, negócio fechado.
Ela lançou aquele sorriso contra Julia. Apesar
de um pouco forçado ainda assim era bonito. Foi embora em seguida.
A jovem a observou entrar no velho Mustang e ir embora. Aquilo lhe incomodava,
não o fato dela estar indo embora e não participando das comemorações,
mas o fato de que elas iam ficar longe uma da outra depois das férias
de verão. Talvez para sempre.
De repente toda aquela comemoração perdeu
o sentido.
- Como assim? Você vai com a professora?
- Qual o problema, você não quer ir!
- Não, não tem problema, só acho
estranho...
- Estranho é meu namorado não ir comigo
na minha formatura!
- Não vou discutir isso de novo com você,
Ju. Hoje tem final! E com meu time! Isso só acontece uma vez no ano!
- Formaturas não ocorrem com essa freqüência,
se não me engano
- Não seja sarcástica! Olha, boa sorte lá....
Depois a gente conversa, hoje você está impossível!
Ele saiu batendo a porta do quarto, mas Julia não
se importou muito. Sua cabeça estava mais preocupada com outras coisas.
Olhou mais uma vez o vestido, suspirou fundo e sorriu.
- Como pode existir uma coisa tão brega assim?!
Ela sorriu sozinha e começou a colocar aquele vestido
que não era tão feio, mas que parecia saído de um filme
hollywoodiano da década de 80. As coisas mudam tanto e as formaturas
parecem parar no tempo.
Às sete em ponto a campainha tocou. Julia entrou
em pânico, era ela. Olhou-se mais uma vez no espelho, se achou um
monstro e resolveu que não ia mais a essa besteira de formatura.
Chamou a mãe e mandou que avisasse a professora Wood que não
estava se sentindo bem e que não iria mais à festa.
- Mas por que, Ju? Aconteceu alguma coisa?
- Não, mãe, só não quero mais
ir!
A jovem fechou a porta na cara da mãe e sentou-se
na cama. Porque estava tomando aquela atitude não sabia. E também
não queria saber. Levantou-se e havia acabado de tirar o vestido
quando viu alguém entrando em seu quarto e fechando a porta.
- Senhorita Julia Keller! Não ouse me dar o bolo!!
Julia assustou-se com o jeito que a senhorita Wood entrou
no quarto, acabou deixando o vestido cair das mãos, ficando apenas
com a roupa de baixo.
Wood sentiu seu rosto queimar e virou-se de costas. �Por
que essa reação, Wood?�, pensou, �Uma mulher de quase trinta
anos com vergonha de uma pirralha!�
- Desculpe, Keller... Não sabia que estava se trocando...
- E não estou, estou me �destrocando�. Não
vou, não quero mais ir.
- Mas por que?
- Não fico bem nesse vestido aí, não
quero.
Wood se aproximou e segurou as mãos da jovem semi-nua.
- Não é todo dia que acontece o que vai
acontecer hoje. Estarei esperando lá embaixo.
Ela saiu e fechou a porta. Julia continuou com as mãos
estendidas como se alguém ainda as segurassem. Olhou o vestido no
chão e para o espelho. �O que ela quis dizer com �o que vai acontecer
hoje�? Será que ela tá falando do baile? Só pode ser,
né?�, pensou.
Pegou o vestido e vestiu novamente. Ajeitou o cabelo e
desceu as escadas com um pensamento na cabeça: sua mãe pagaria
caro por ter falado com a professora Wood para subir!
As duas não trocaram uma palavra no caminho para
a escola. Nem se olharam. O silêncio era perturbador e dessa vez Julia
resolveu começar a conversa.
- Vai me contar porque estava chorando?
- Não era nada importante, besteira da minha cabeça.
- Não quer falar, né?! Tudo bem, mas converse
comigo, pelo menos! Afinal, - uma brincadeira para descontrair não
mataria ninguém � eu sou seu acompanhante hoje!
Julia sentiu o olhar penetrante de Wood bombardear os
seus. Ficou sem fôlego, mas agüentou. O que era aquilo? Mas não
era hora de descobrir, haviam chegado.
A festa estava linda, uma pena Julia nunca ter se interessado
muito por aqueles encontros. Todos estavam muito bem vestidos, estilo bonequinhos
de bolo de casamento, mas bem vestidos. Ela não se sentiu tão
deslocada no meio daquela turma, afinal, eram a sua turma.
Wood logo avistou outros professores e pediu licença
a Julia para ir cumprimentá-los. A jovem ficou olhando sua professora
extremamente elegante indo em direção à mesa daqueles
velhos babões. Todos pareciam querer arrancar um pedaço dela
enquanto ela se aproximava. Aquilo incomodou a jovem.
Olhou à sua volta e avistou Mariah e o �date� dela,
um formando até bonitinho, mas que ficava ofuscado perto dela. Foi
até eles.
- Oi...
- Então o bundão do Carlos não veio
mesmo...?
- Acho que o futebol é mais importante para ele...
- Fica assim não, linda! Hoje é a nossa
noite, vamos nos divertir!
- Certo... Qualquer coisa eu vou estar sentada lá
perto da escada, onde ninguém pode me ver...
- Iiih, por que isso? � Mariah notou o olhar desiludido
em direção a senhorita Wood � Ah, você veio com ela,
né? Escuta, ela é uma pro-fes-so-ra. Não espere que
ela fique no meio de nós, reles mortais!
- Não tô nem aí para ela...! Vou beber
algo.
- Boa! Os meninos batizaram o ponche que o Saul está
tomando conta, só a gente pega lá. Tá forte,
muito bom!
Julia sorriu e foi em direção à bancada
das bebidas. Pediu um e experimentou, estava realmente muito forte. Mas
aquela noite era para ser tudo diferente, não era? Que fosse! Virou
de uma vez o copo e pediu mais um.
- Wow, calma aí, garota. Assim os professores vão
sacar! Pega leve.
- Não esquenta, Saul. Não sou mais criança...