Luz Para Florescer

Paula Marinho

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ESCLARECIMENTOS INICIAIS
As personagens Xena e Gabrielle são propriedade da Renassaince Picture e este conto não tem o intuito de ferir direitos autorais, mas, apenas, de homenagear personagens tão ricas quanto queridas, aproveitando delas alguns de seus atributos físicos e comportamentais para a confecção deste conto despretensioso que possui, outrossim, nada mais do que a intenção de acarretar e fornecer divertimento além de prestar um merecido tributo ao saudoso seriado. Divirtam-se.
 
NOTAS
A primeira parte desta uber passa-se no início dos anos noventa em uma cidade indeterminada do interior paulista.
Uma pequena parte do texto está escrito em inglês. Perdoem a ousadia de quem não sabe mais do que algumas palavras na língua-pátria de Virgínia Woolf e Oscar Wilde e os eventuais erros concernentes a esta falta. Obrigada.
Este conto possui a narração de cenas de sexo consensual entre mulheres maiores de idade.
Suzana: Hebraico, significa pura como um lírio. Variante: Susana. Representa a união entre a destreza e a habilidade. É própria de pessoas intuitivas e muito capacitadas, que sempre dominam as situações, especialmente no plano profissional, e estão sempre atentas a todos os detalhes.
Eleonora: Galês, Elienor. Luz.
 
 
 
Eleonora acordou num sobressalto como se tivesse, subitamente, se dado conta de algo. Sentou-se na cama e se lembrou do que era: primeiro dia de aula na universidade. Olhou para o despertador que esquecera de programar sobre o criado-mudo � 06:30. "Droga". Estava atrasada. Saltou da cama e foi direto para o chuveiro. Em quinze minutos estava pronta � tênis, calça de moletom azul e camiseta branca. Os cabelos louros e curtos pingavam molhando-lhe as espáduas, mas ela nem se preocupou em enxugá-los. "Inferno! Vou ter que pedir ao meu pai para me levar. Já está muito tarde para ir de ônibus".
Eleonora e o pai tiveram muitas e acirradas discussões sobre a carreira a ser seguida na universidade. O pai queria Direito. Era uma opção segura, dizia, uma carreira capaz de abrir muitos caminhos, inclusive o de continuar tocando a firma da família � Cavalcanti Advogados Associados � nome tradicional e conceituado em toda a região. Eleonora queria coisa completamente diferente: Educação Física. Sonhava estudar a fundo o esporte de alto rendimento e, quem sabe, contribuir de alguma forma para a sua evolução. Ela mesma era uma atleta de basquetebol. Armadora talentosa, rápida e ágil, fizera parte da seleção estadual juvenil, mas intuía que, com um pouco mais de 1m 60cm, não tinha chances significativas na seleção nacional.
Desceu as escadas do confortável sobrado onde morava com os pais e o irmão caçula e se dirigiu à cozinha. Como esperava, o pai já estava terminando a sua refeição matinal e se encontrava pronto para sair. Desde que se lembrava, Dr. Marcos Cavalcanti, ilustre causídico, herdeiro de uma dinastia de advogados que começara com seu avô, sempre acordara e saíra para trabalhar muito cedo, impecavelmente vestido, barbeado e com os cabelos loiros como os de Eleonora cuidadosamente penteados para trás. A mãe, Dona Clarisse, estava terminando de coar o café. Eleonora pegou uma xícara. Sempre gostara de café, forte e amargo. O pai, desde que parara de fumar nunca mais tomara café. Agora, no desjejum, somente leite, frutas e cereais, entre outras indicações alimentares. Recomendações médicas para a alta taxa de colesterol aliada à pressão alta e ao estômago castigado por anos de alimentação irregular, cigarro e estresse. Com a disciplina que lhe era peculiar, Dr. Marcos adotou integralmente a nova dieta.
- Bom dia � disse Eleonora caminhando até o fogão e servindo-se de uma boa dose de café cheiroso e fumegante. Deu um beijo na mãe.
- Bom dia, filha � respondeu Dona Clarisse com um sorriso afetuoso estampado na face roliça com simpáticas covinhas e brilhantes olhos verdes.
O pai deu uma olhada desaprovadora para a indumentária da filha e falou secamente:
- Bom dia.
D. Clarisse, sempre muito falante, absteve-se diplomaticamente de qualquer comentário. Eleonora suspirou baixinho e, mesmo assim, perguntou:
- Pai, será que o senhor poderia me deixar na universidade? Eu estou meio em cima da hora.
Dr. Marcos Cavalcanti levantou os olhos para a filha mais velha e chegou a abrir a boca para dizer algo, mas aparentemente desistiu com uma expiração abafada e disse sem maiores rodeios:
- Vamos.
Eleonora deu mais um beijo em D. Clarisse, colocou a mochila sobre os ombros, cortou um pedaço de bolo de fubá e saiu comendo atrás do pai.
Foi deixada a meio quarteirão do campus da Universidade Estadual de Santa Cruz. Os alunos chegavam aos montes pelos largos portões que davam acesso ao estacionamento da Universidade e dele aos muitos prédios dos diversos cursos. Eleonora entrou sorridente, observando, curiosa, o ambiente apinhado de vozes animadas, abraços de reencontro, e dos olhares indagadores dos novatos. Já estava atrasada uns dez minutos. Decidida, encaminhou-se ao prédio da Educação Física para descobrir onde era a sua sala.
- Srta. Suzana Maia Alcott.
Suzana caminhou resoluta como sempre e como se não estivesse apoiada em muletas para se locomover. Mesmo ligeiramente recurvada, de óculos escuros e os fartos cabelos negros presos num rabo de cavalo, todos os presentes lançaram-lhe olhares curiosos. Não era uma mulher que pudesse passar despercebida. Com mais de 1m 80cm, um rosto de linhas marcantes e um porte naturalmente altivo, Suzana chamava atenção em qualquer lugar pelo qual caminhasse, não obstante o fato de ser uma atleta mundialmente conhecida.
Suzana sentou-se em frente à mesa de vidro imaculadamente limpa. Em cima, alguns poucos porta-retratos, um computador, um bloco de notas e uma caneta Mont Blanc em prata fosca. No recinto, predominavam tons pastéis e azuis compondo um ambiente simples e sofisticado.
Dr. Mautner não demorou a sair da sala contígua. De compleição mediana, cabelos finos e claros já escassos, óculos de fina armação dourada, um rosto liso e eternamente ruborizado, ele exalava uma aura de tranqüilidade e serena confiança.
- Bom dia, minha querida Suzana. Como tem passado?
- Bem, na medida do possível. � disse Suzana esboçando o que poderia se chamar de um sorriso e já emendando com incontida impaciência. � E, então, Doutor? Fale sem rodeios, por favor.
- Muito bem... È muito grave. Mas, disso você já sabia. O rompimento dos ligamentos foi completo. A cirurgia é complicada. A recuperação demorada, sem prognósticos e, temo dizer, dolorosa.
- Doutor!- cortou Suzana � Eu vou poder jogar novamente?
- Existe a possibilidade.
- Concretamente, quais as chances de eu poder voltar a jogar?
- Suzana, eu não posso dizer, como você quer, quais as possibilidades em termos de porcentagem, por exemplo, de uma total recuperação. Mas, não vou te ocultar o que eu penso baseado em anos de experiência. Suas chances são pequenas, mas existem. Resta saber se você está disposta a passar por consideráveis extenuantes esforços, sabendo da possibilidade deles serem em vão, pelo menos no que concerne ao seu desejo de voltar a jogar.
Suzana não disse nada. Respirou longamente e olhou pela janela como que perguntando o que fazer à grande metrópole que enxergava do 15º andar do elegante prédio comercial em que se encontrava. Ela tinha apenas vinte e seis anos. Esperava jogar mais uns nove ou dez anos e depois se tornar técnica ou dirigente de algum clube. Talvez empresária esportiva, mas sempre ligada ao esporte que tanto amava e que sempre ocupara o primeiro lugar em sua vida - o basquetebol.
Componente da seleção brasileira desde os 17 anos, era considerada uma das mais talentosas alas da história do basquete nacional. Mesmo com as inúmeras viagens e a sua reconhecida dedicação quase obsessiva ao esporte, conseguira se formar em Educação Física pela Universidade pela qual jogava desde os tempos de juvenil. Há pouco mais de um ano, fora convidada a jogar na WNBA e após uma primeira temporada em que provou a sua capacidade e consolidou o seu nome como um dos maiores do mundo na posição, torceu o joelho no quinto jogo das finais e agora encarava, apavorada, o fato de nunca mais poder jogar profissionalmente.
Suzana voltou-se para o médico e segurando bravamente, como fizera toda a sua vida, a vontade de chorar, disse com firme convicção:
- Vamos lá, Doutor. Se existe uma chance, mínima que seja, eu vou me agarrar a ela com tanta força que ela não ousará me derrubar.
 
II
 
 
Eleonora estava apreciando a bela e moderníssima quadra de um dos três ginásios da universidade. Não via a hora de jogar nele, de experimentar as tabelas de acrílico, o piso de tábua corrida, novo, claro e brilhante com o símbolo da instituição pintado no círculo central. Assim, mergulhada em seus pensamentos, levou um susto quando a amiga Carla gritou:
- Elê!
Eleonora olhou para trás e avistou, não sem um sorriso divertido, a amiga se aproximando.O fato é que Carla sempre tivera uma forma, digamos, diferenciada de se vestir. Extrovertida e animada, parecia que a indumentária acompanhava o seu temperamento exuberante e ela fazia as mais inusitadas combinações de cores. Nesse momento, Carlinha chegava com uma calça jogging roxa com detalhes em laranja na altura da panturrilha, uma blusinha em lycra laranja com estampas de flores roxas e brancas circundando a cintura e com os cabelos partidos ao meio, presos em "Maria Chiquinha" com uma liga roxa e a outra laranja. O tênis (Graças à Deus!) era branco. Mas, a mochila...De um violento violeta (sem trocadilho) de fazer inveja a destaque de escola de samba.
- Oi, Carlinha - disse Eleonora dando um beijo carinhoso na bochecha da melhor amiga. � Eu estou aqui sonhando acordada. E aí?
- "Belê"! Como foi o primeiro dia de aula?
- Ah! Você sabe. Apresentações e mais apresentações de alunos, professores, grade curricular, e por aí vai. E você, como é o terceiro período?
Carla já estava no 2º ano de Educação Física. Era alguns meses mais velha que Eleonora e como as famílias eram vizinhas há muitos anos, elas eram amigas desde crianças.
- Parece que é legal. Pelo menos eu tenho certeza de que será melhor que o 1º ano, por que esse ninguém merece.
Eleonora deu uma risada sonora e agradável. Era de conhecimento geral os "shows" de Carlinha no laboratório de anatomia � matéria do 1º ano � quando a turma ia estudar em cadáveres. Foram tantos os faniquitos e desmaios que, por fim, Carlinha fora dispensada de assistir às aulas práticas no laboratório.
- Você é única, Carlinha. Cadê o Gianne?
- Sei lá, Elê. Esse meu namorado parece que toma chá de sumiço toda vez que se aproximam as eleições para o DCE. Mas, ele deve estar enfurnado no Centro Acadêmico urdindo plataformas políticas e se preparando para ser um futuro senador da república. Só pode ser! Qualquer dia eu me canso dessas infindáveis reuniões e mando o Gianne passear.
- Sei, sei � duvidou Eleonora.
Carla e Gianne namoravam desde os 15 anos. Ela, uma maluquinha adorável. Ele, um CDF, estudante engajado, desses de jeans surrados e óculos de aro redondo. Completamente diferentes e totalmente apaixonados.
- E aí, você vai fazer o teste da semana que vem? � perguntou Carla.
- Que teste?
- Ai, sua tonta! O teste para entrar no time de basquete da Universidade. Você não viu o cartaz afixado no quadro de avisos do salão central?
- Não eu...Tinha tanta gente no salão e no pátio...Eu não prestei atenção no quadro de avisos. Preferi vir conhecer o ginásio.
Carla saiu puxando Eleonora pela mão.
- Então vamos lá dar uma olhada agora, sua distraída.
"Às interessadas em fazer parte do time de basquetebol da Universidade que irá disputar uma vaga para participar da Liga Nacional".
"Teste de seleção - segunda-feira, 19:00, no ginásio central".
Paradas de frente para o aviso, Carlinha apoiou a mão sobre o ombro de Eleonora que, ao seu lado, lia o aviso pela décima vez e perguntou:
- Você vai?
Eleonora respondeu sem tirar os olhos do aviso.
- Eu não perderia isso por nada desse mundo.
- Não sei, Camilla. Obrigada pela proposta, mas, não sei se terei disposição para isso. Estou sem paciência alguma e...
- Suzie! � cortou Camilla.- Olha só! É juntar a fome com a vontade de comer. Você faz a sua fisioterapia aqui na Universidade que conta com uma das mais modernas instalações do país, sob a supervisão de uma das mais conceituadas fisioterapeutas do Brasil, esta modesta amiga que vos fala, faz um favor a um grande amigo meu e, de quebra, trabalha com o que você mais gosta na vida que é o basquetebol. Pôxa, Suzana, não tem nem o que pensar. Aceita, vai.
- Vou pensar.
- Vai pensar nada. Eu conheço esse seu "vou pensar". Você vai é se enfurnar na sua auto-suficiência de sempre e nem vai se lembrar mais da minha proposta. E, tem mais. Olha, Suzie, eu vou falar isso por que sou sua amiga e os amigos também servem para isso: nos fazer encarar a realidade de vez em quando. Então, aí vai. Você tem que considerar a possibilidade de não poder mais voltar a jogar e a oportunidade de treinar o time de uma das mais conceituadas universidades do país será, sem sombra de dúvida, uma experiência importantíssima se você tiver, como eu sei que você tem, pretensões futuras de continuar trabalhando com o basquete.
Silêncio.
- Você pegou pesado � falou Suzana com a voz grave e aveludada em tom mais baixo que o normal.
- Eu sei, minha querida � concordou Camilla com suavidade. - Peço desculpas por isso. Mas, eu sei também que, às vezes, esta é a única forma de se penetrar nessa sua cabeça dura, minha amiga.
Novo silêncio.
- Está bem, Camilla.
- Sensacional!
- Mas, existem algumas considerações.
- Diga.
- Hospedagem.
- Meu apartamento. E, nem comece com o "não quero incomodar", senão leva uma bronca.
Suzana resmungou algo incompreensível do outro lado, mas não retrucou e prosseguiu.
- Minha pouca mobilidade. Você sabe que eu só me desloco de muletas, ainda assim vagarosamente, e tenho que me sentar constantemente.
- Já cuidei disso. Você terá um auxiliar técnico, aliás, o mesmo do professor Leônidas, que se encarregará de repassar as suas instruções quando necessário. E, já providenciei uma cadeira especialmente para você com um suporte para a sua perna - gentileza da Clínica de Fisioterapia Dra. Camilla Carvalho. Mais alguma coisa?
- Não, Milla. Você é totalmente impossível. Só agora eu percebi que já tinha perdido a batalha mesmo antes dela começar.
- Perfeito, Suzana. Eu estou te esperando na próxima segunda-feira pela manhã.
- Mas, Camilla, é daqui a cinco dias...
- Dez horas, está bom?
- Milla, eu não terei tempo para nada. Eu preciso de pelo menos...
- Maravilhoso! Então, até lá.
- Camilla! � gritou inutilmente, Suzana.- Inferno! � praguejou já pensando no que levar na mala e estruturando mentalmente o plano inicial de treinamento.
 
III
 
 
Sentada no banco no centro do vestiário, Eleonora estava terminando de calçar o tênis enquanto pensava no teste que enfrentaria a seguir. Não estava nervosa, somente ansiosa para começar logo. A adrenalina já produzia seus efeitos e uma excitação crescente principiava a esfriar-lhe o estômago. Uma sensação que, longe de ser-lhe desagradável, emprestava-lhe uma estranha euforia.
Devidamente vestida e com a mochila nas costas, Eleonora caminhou para o ginásio. Não precisou nem chegar à porta para ouvir o burburinho anormal que vinha lá de dentro. "Será que a seleção de novas jogadoras era tão popular assim?" Quando entrou ela se deparou com um aglomerado de pessoas em torno de alguém que não conseguiu visualizar. Jogadoras, outros alunos e até uma boa quantidade de professores participavam da afluência inquieta. Eleonora reparou ainda máquinas fotográficas, cadernos, agendas e canetas nas mãos da maioria dos presentes e os comentários excitados acompanhados de olhares curiosos, confirmaram, definitivamente, a presença de algo extraordinário. Sem saber direito o que fazer, Eleonora ficou parada na entrada da quadra, imóvel e um tanto aturdida.
Subitamente, no meio da confusão, mais alta que a maioria das pessoas a sua volta, emergiu uma brilhante cabeleira negra. A figura se virou para o local onde Eleonora se encontrava e ela se deparou com o mais incrível par de olhos azuis que já tivera a sorte de contemplar. Enquanto o seu cérebro imediatamente elaborava uma mensagem de reconhecimento, parte de sua razão negava-se a acreditar no que os olhos viam, tamanho o espanto daquela aparição. Completamente embasbacada, Eleonora só conseguiu murmurar:
- Suzana Alcott.
Desde que começara a jogar basquete, ainda criança, Eleonora colecionava tudo o que dizia respeito à Suzana Alcott: fotos, reportagens, entrevistas, fitas de vídeo. Na porta do seu quarto, Eleonora ainda tinha um enorme pôster de Suzana arremessando a cesta que dera o campeonato mundial ao Brasil. Ela era o que mais se aproximava de um ídolo, de uma fonte de inspiração. Mais do que uma jogadora de técnica excepcional, Suzana sempre lhe parecera ter o porte inato de uma deusa. E agora, aquela deidade materializava-se à sua frente em meio a um séqüito de admiradores ultra-entusiasmados.
- Agora já chega - a voz grave, ligeiramente rouca e naturalmente autoritária fez a pequena multidão se calar como por encanto. � Desculpem-me, mas eu tenho um teste para conduzir e já estamos atrasados. Professor Jorge, providencie a retirada das pessoas que não participarão do teste e feche a porta do ginásio, por favor.
- Vocês ouviram a treinadora. Quem não for participar do teste de seleção, por favor, para fora do ginásio - disse o professor Jorge, auxiliar-técnico.
- Treinadora? � murmurou Eleonora com o coração disparado.
Não sem alguma dificuldade, o auxiliar-técnico, com a ajuda de alguns professores presentes, foi retirando os estranhos ao processo seletivo. Ginásio quase vazio, Suzana sentou-se com evidente alívio em uma cadeira de rodas que, Eleonora percebeu, tinha uma extensão especialmente colocada de modo a aparar confortavelmente e quase na horizontal, a perna direita. "É claro, a cirurgia", lembrou-se Eleonora que continuou observando Suzana, indisfarçadamente. Ela vestia o agasalho da Universidade Santa Cruz, azul com detalhes em laranja, tênis branco e segurava uma prancheta que, agora sentada, descansava sobre o colo. Os cabelos longos e negros caíam soltos sobre os ombros, contudo, Suzana os prendeu em seguida num rabo-de-cavalo evidenciando um rosto de linhas marcantes: queixo anguloso, maçãs salientes, nariz reto e elegante, boca cheia, larga e bem feita, sobrancelhas negras arqueadas, simétricas e voluntariosas sobre olhos de um azul realmente celestial. A televisão e as fotos nas revistas não lhe faziam justiça. Susana era a mulher mais bonita que Eleonora já havia visto.
Não demorou muito e o auxiliar-técnico postado ao lado de Suzana chamou as atletas para se aproximarem. As meninas foram se achegando timidamente, quase todas exibindo a mesma cara atarantada de quem não acreditava no que estava acontecendo.
- Vou pedir para que vocês se sentem a minha frente, por favor, já que, como podem notar, eu ainda não posso ficar de pé durante muito tempo e quero dar algumas explicações antes de começarmos - falou Suzana Alcott, com a mesma voz de contralto, baixa e agradável.
As atletas sentaram-se em raro silêncio, quase com cerimônia, em frente daquela que era praticamente uma lenda viva do basquetebol.
- Muito bem. Meu nome é Suzana Alcott.
"Como se ninguém soubesse", Eleonora pensou.
Suzana continuou:
- Eu estou aqui para substituir temporariamente o Professor Leônidas que, infelizmente, encontra-se com problemas familiares. Eu estou, no momento, com a minha mobilidade dificultada e contarei com a ajuda inestimável do Prof. Jorge e, espero, com a colaboração de vocês para obtermos a tão almejada classificação para a Liga Nacional. Por hora, vamos selecionar algumas jogadoras para integrarem o time principal. Para isso, colocarei candidatas e veteranas jogando juntas um coletivo monitorado, no qual poderei observar as qualidades de cada uma e sua possibilidade de contribuir para a equipe. O Professor Jorge comandará o aquecimento e logo começaremos. Obrigada.
 
 
 
IV
 
 
Suzana deixou-se cair pesadamente sobre a cama do quarto de hóspedes da amiga Camilla, que ainda não havia chegado, e repassou o dia.
Havia chegado à cidade pouco depois das nove da manhã. Alguns minutos mais tarde, o carro com motorista que a Universidade gentilmente lhe mandara buscar na capital, parou na frente do prédio de Camilla que já a aguardava com um sorriso de fazer o iluminado Buda parecer menos luminoso.
- Suzie! � exclamou a amiga acenando efusivamente com uma das mãos � Espere aí � completou, desaparecendo atrás da portaria.
Segundos depois, ela apareceu com uma cadeira de rodas vermelhas de assento preto, com o lado direito equipado com uma adaptação, para manter a perna levemente suspensa na horizontal.
- Ah, não, Milla! Eu posso perfeitamente andar � reclamou Suzana.
- Pode, mas não deve. E, perfeitamente...Uma ova! Não vá me dizer que não dói qualquer maior esforço. E, tem mais, a terapeuta aqui sou eu. Sente-se aqui já, Dona Suzana, e não discuta.
Suzana seguiu sentada e emburrada até o aconchegante apartamento da melhor amiga. Logo depois, Camilla lhe entregou uma pasta com informações concisas sobre o time � jogadoras, resultados, escaltes da última temporada, algumas anotações extras que o Professor Leônidas julgou pertinentes e uma lista com os nomes das candidatas a uma vaga no time. Tudo estava acontecendo tão rápido que Suzana não tivera ainda oportunidade de avaliar sistematicamente a sua atual situação. Pudera, Camilla era como um rolo compressor e, como se não bastasse, ainda havia afirmado descaradamente:
- Suzie, com você só funciona desse modo: rápido o bastante para não deixar você pensar. Senão, estamos todos perdidos.
À noite, aquele alvoroço inicial. Fotos e autógrafos para inúmeros rostos sorridentes. Contudo, finalmente, conseguira realizar a seleção e de quebra avaliar o nível e as características do time.
- Não foi mal � falou Suzana para si, enquanto colocava o travesseiro debaixo da cabeça e pegava as suas anotações. Havia escolhido uma pivô, inexperiente, com algumas deficiências técnicas, mas promissora; duas alas, razoáveis, uma delas com um ótimo arremesso de três pontos e uma armadora, Eleonora, baixinha, mas muito ágil, excelente domínio de bola e visão de jogo, natural liderança...Características bem desejáveis para a posição. No todo era um bom time, mas com muito a melhorar. Teria trabalho, mas antevia bons resultados.
- Suzana � chamou Camilla acabando de entrar no apartamento.
- Estou no quarto.
- E, aí? Como foi o primeiro contato? � disse Camilla aparecendo na porta.
- Agitado.
- É claro! Não é todo o dia que nós temos uma celebridade no campus.
- Pare com isso, Camilla.
- Não seja modesta, mulher.
Suzana jogou o travesseiro em cima da amiga que riu divertida. Suzana fingiu irritação:
- Cala essa boca enorme e me diz o que tem para comer aqui nesse boteco de segunda. Eu estou faminta.
- Meu Deus do Céu, quanta classe! Amiga, você voltou! � ironizou uma lacrimejante Camilla antes de levar mais uma travesseirada certeira.
 
Eleonora saiu apressada da sala de aula ao final da manhã. Por essas horas, o resultado do teste de seleção já devia estar afixado no mural do salão central. Teve que admitir, meio contrariada, que estava um pouco nervosa ao se aproximar do mural onde, efetivamente, percebia-se um papel com o símbolo do time de basquete. Eleonora chegou mais perto a ponto de ler quatro nomes em negrito no meio do papel. E...Lá estava � Eleonora Cavalcanti. Fora selecionada. Não! Não fora simplesmente selecionada. Fora escolhida por nada mais, nada menos que...Suzana Alcott. Sentia vontade de gritar.
- Elê! � um grito real tirou Eleonora dos seus devaneios. Carlinha vinha correndo com um indescritível conjunto verde e rosa. Sem diminuir o passo deu um pulo no pescoço da amiga quase derrubando Eleonora em cima do mural.
- Você viu? Eu já vi! Eu já vi! Você foi selecionada. Vamos comemorar, já. Litros de coca-cola e quilos de batata frita. Depois, horas de ergométrica. Mas, não importa, a ocasião merece.
- Calma, Carlinha, calma. � disse Eleonora, escapando com jeitinho do afetuoso estrangulamento.- Eu tenho que passar na secretaria para deixar um documento que eu fiquei devendo no dia da matrícula. Daqui a pouco a gente se encontra na lanchonete, ok?
- Ok. Mas, não demore.
- Ah! Carla! - Eleonora chamou a amiga que já se distanciava, célere como sempre.
- O quê?
- Você é mangueirense?
Carlinha fez uma cara abobalhada.
- Eu? Eu não. Por quê?
- Nada não.
- Louca. � resmungou Carla.
Eleonora seguiu sorrindo para a secretaria, mas logo o leve sorriso transformou-se numa gostosa gargalhada quando, de não muito longe, ainda pôde ouvir em claro e bom tom:
- Elê, vai se catar!
Carlinha havia finalmente entendido.
Eleonora entrou no prédio da administração assoviando uma música do Skank e foi direto para o balcão de atendimento no hall de entrada. Como ele se encontrava vazio naquele momento, preparou-se para esperar um pouco sem perceber uma figura sentada em um dos sofás ao fundo.
- De bom humor, Eleonora?
A até então animada loirinha, reconheceu a voz indagadora, com um frio na boca do estômago. Morta de vergonha sem saber bem o porquê, virou-se para ver Suzana Alcott perfeitamente à vontade de calça de moletom vermelha, camiseta regatas branca e os cabelos presos numa trança frouxa caindo por cima de um dos ombros.
Completamente muda por alguns segundos, Eleonora conseguiu sussurrar um quase inaudível:
- Oi, treinadora.
Suzana abriu um sorriso esplêndido que fez Eleonora sentir-se derretendo por dentro a ponto de ficar com as pernas bambas.
- Fora do treino é só Suzana. E, então, entusiasmada em compor a equipe?
- Estou, obrigada. � mais uma vez, a voz mal saiu perceptível.
- Não agradeça. Você mereceu. E, a propósito. Eu tenho fama de irascível - muitas vezes justificada, confesso � mas, eu ainda não mordi ninguém até hoje.
Mais relaxada com a brincadeira, Eleonora sorriu de volta e com a espontaneidade que lhe era peculiar olhou diretamente para os olhos de Suzana. Sem entender, a bela morena sentiu-se incomodada com a suave transparência daqueles olhos verdes. Mais surpresa ainda, ela se viu mergulhando naqueles dois lagos límpidos e, envolta pela inocente docilidade daquele olhar, por um breve instante, foi a sua vez de ficar sem palavras. Recuperou-se rapidamente, no entanto, e falou:
- Acho melhor você se sentar. A minha amiga está resolvendo umas pendências com a secretária. Bom...Nós acabamos de chegar e acredito que elas ainda devam demorar um pouquinho.
Eleonora sentou-se nem acreditando com quem estava ali conversando amistosamente. Era demais! Agora...Demais mesmo, era como Suzana era bonita. E a voz, meu Deus! Baixa, levemente rouca, com um sotaque um tanto indefinido, mas charmoso e suave como uma carícia. Dava para ficar horas ouvindo.
Suzana, por sua vez, observava sua atleta com o seu sorriso mais encantador enquanto conversava amenidades. Pele clara, aveludada e que se ruborizava por qualquer coisa. Rosto delicado de uma beleza graciosa, emoldurados por cabelos louros, lisos e repicados que lhe caíam constantemente sobre os olhos e lhe conferiam um ar meio sapeca...Uma tentação."Ei! O que é isso? Eu estou praticamente flertando com essa garota!". Antes que Suzana avaliasse a inesperada constatação, a porta da secretaria se abriu e Camilla saiu.
- Já terminei aqui, Suzie. Vamos almoçar? Eu tenho um paciente no primeiro horário da tarde e depois será a sua segunda sessão de fisioterapia do dia.
- Segunda sessão de tortura medieval, você quer dizer, sua sádica sem coração � brincou Suzana puxando a cadeira de rodas que estava ao lado e se movimentando para passar para ela.
Eleonora levantou-se rapidamente para auxiliá-la. Suzana deixou-se ajudar sem protestos, e para surpresa ainda maior de Camilla, agradeceu quase docilmente.
- Camilla, essa é minha armadora, Eleonora. Eleonora, essa é minha amiga e terapeuta, Camilla.
As duas se cumprimentaram com um mútuo oi e o sorriso sincero das almas que são naturalmente francas. Suzana se despediu e foi saindo acompanhada de Camilla que acenou um tchauzinho antes de se adiantar para abrir a porta do carro do lado do carona para Suzana entrar. Dobrou e guardou a cadeira no porta-malas.
- A super poderosa Suzana Alcott está amolecendo � provocou Camilla, ao entrar no carro.
- O que você quer dizer com isso? � perguntou Suzana, em um tom levemente irritado.
- Ora, em outros tempos, a resposta para quem tentasse ajudar a rainha da auto-suficiência a se levantar, seria o famoso olhar gelado "Não ouse me tocar" de petrificar instantaneamente qualquer bom samaritano desavisado. � Ou isso � continuou Camilla. - Ou essa garota tem algo especial e, nesse caso, se ela não fosse uma menina, eu diria que você poderia estar interessada nela.
- Ora, Camilla. Não seja ridícula.
O carro partiu com a risada de Camilla ressoando pela saída do campus.
 
 
 
 
 
V
 
 
Já estavam na quarta semana de treinos. O treinamento era puxado e justificava plenamente a fama de perfeccionista da atleta Suzana Alcott que, como treinadora, não exigiria menos do que muita dedicação de suas comandadas. Suzana já ficava de pé por mais tempo, embora ainda de muletas, e movimentava-se o máximo que podia por toda quadra gritando instruções e corrigindo posicionamentos. Após o deslumbramento inicial, todas já estavam acostumadas com a presença e a forma de trabalho da célebre jogadora. Também o auxiliar-técnico, Prof. Jorge, depressa de habituou ao modo de agir da treinadora e funcionava como uma segunda voz de Suzana. Todos eram unânimes em considerar que o time tinha melhorado muito. Suzana que já gozava da admiração, conquistou o respeito e a estima da equipe.
Entretanto, os primeiros dias de treino foram extremamente tumultuados. A imprensa não demorou a descobrir a famosa Suzana Alcott treinando um time feminino de basquete de uma universidade do interior. Logo, uma grande quantidade de correspondentes de emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas amontoavam-se na frente do ginásio do campus procurando entrevistá-la, filmar os treinamentos ou, mais seguramente, bisbilhotar a sua recuperação física. Após algumas declarações que considerou suficientes, Suzana tomou a decisão de ignorar os repórteres e seguir firmemente para a quadra com a ajuda do auxiliar-técnico, pois ainda estava sobre cadeira de rodas, até que o interesse da imprensa arrefecesse. Contudo, um episódio mudou sua aparente passividade.
Suzana seguia como de costume, séria e compenetrada, por entre uma boa quantidade de microfones e gravadores, quando um repórter soltou a infausta pergunta:
- Suzana, esta experiência como técnica significa o fim da sua carreira como jogadora?
O burburinho denunciou o frisson que a pergunta causara.
Suzana pediu para o Professor Jorge parar e retornar. Em seguida, pediu para que ele a apoiasse enquanto ela se levantava e se sustentava sobre a perna boa. A figura alta e imponente por si só causou uma atenta expectativa. O olhar gelado e a mandíbula rígida demonstravam claramente a sua enorme irritação. Eleonora, que vinha logo atrás de Suzana e acabou por ficar bem à sua frente, sentiu vontade de se abaixar como se aquele olhar pudesse fuzilar alguém. Contudo, contrariamente ao que se poderia imaginar, foi com uma voz calma e pausada que ela falou:
- Eu não tenho mais nada a falar para vocês. Vocês estão atrapalhando o meu trabalho e o sossego das minhas jogadoras. A partir desse momento, eu vou providenciar para que isso não mais aconteça.
A partir daquele dia, os jornalistas não puderam mais chegar perto do ginásio e, embora quase sempre tivesse um ou outro nas imediações, o time conseguiu tranqüilidade para treinar.
Desde quando conversaram no prédio da administração, Eleonora e Suzana desenvolveram uma mútua camaradagem. Todos os dias após o treino, Eleonora esperava Suzana para saírem batendo papo, quase sempre sobre basquete, até que chegasse Camilla, ou na sua eventual falta, um táxi, para leva-la para casa. As colegas chegavam a caçoar da pequena armadora dizendo que ela era a queridinha da treinadora, mas eram somente chacotas típicas de uma equipe de jovens atletas. Eleonora era uma companheira muito delicada e cortês para gerar inimizades, além disso, era ponto pacífico o fato dela ser a mais dedicada jogadora nos treinos. Parecia incansável. Estava sempre disposta. Dava tudo o que tinha para realizar com empenho e perfeição qualquer exercício requisitado. Um verdadeiro "leão de treino". Mais um motivo para brincadeiras. Devido ao seu tamanho e aos cabelos louros, começou a ser chamada de leãozinho. Bastava aparecer na quadra para alguém começar: "Gosto muito de te ver, leãozinho...", e aí, eram só risadas. Eleonora não se lembrava de ter se sentido tão contente em toda a sua vida.
Suzana via satisfeita o bom relacionamento da sua equipe. Também se afeiçoara às meninas. Acostumara-se á companhia de Eleonora ao final dos treinos e teria continuado nessa agradável rotina se não começasse a reparar que já esperava com incontida ansiedade o momento de ter a atenção da loirinha cativante só para si. Pior! Que seus olhos procuravam o cabelo dourado pela quadra e que, muitas vezes, chamava Eleonora para passar instruções apenas para ver aqueles olhos verdes captando, concentrados, cada palavra do que ela dizia. Preocupada, Suzana resolveu acabar com as conversas pós-treino a fim de evitar o que ela imaginava ser somente uma preferência, talvez explicada pela simpatia que nutria pela jovem armadora, mas que manifestada assim tão explicitamente, viesse a prejudicar o time. Sutilmente, Suzana passou a sair apressada do ginásio ou a conversar animadamente com outras jogadoras até que sua condução chegasse.
Decepcionada e confusa com a repentina mudança, Eleonora perdeu muito da sua espontaneidade com Suzana a ponto mesmo de ficar um pouco tímida em sua presença. Ainda assim, continuou a treinar com a mesma dedicação.
Foi durante o alongamento final naquela segunda-feira que a treinadora falou a novidade:
- Ok, garotas. Acho que já está na hora de avaliarmos o resultado do trabalho e o rendimento da equipe em situação de jogo. Portanto, marquei um amistoso para sábado próximo com o time adulto da cidade vizinha.
Foi um alvoroço.Um jogo depois de tanto tempo de treinamento duro era uma ótima notícia. Suzana acabou com o alarido com um gesto largo de silêncio e continuou:
- A partida será as 17:00. Todo mundo no vestiário às 16:00. Alguma pergunta?
Nenhuma pergunta.
- Muito bem... � Suzana não terminou porque Eleonora levantou o braço. � Você tem alguma pergunta, Elê?
- Não. É um convite. Eu quero convidar todo mundo para a minha festa de aniversário no sábado também, lá pelas nove horas da noite, em minha casa. Então, depois do jogo... Festa! Um sábado perfeito, não acham?
Nova agitação. Suzana achou melhor terminar por ali mesmo.
- Dispensadas.
As jogadoras foram saindo em pequenos grupos comentando as novidades e combinando a ida ao jogo e à festa. Suzana virou-se para pegar a prancheta sobre o banco e colocá-la na bolsa. Arrumou a bolsa esportiva de modo a não atrapalhar o seu deslocamento com as muletas e só então reparou que uma jogadora ainda não tinha saído. Eleonora estava em pé, bem a sua frente, esperando.
- Algum problema, Elê?
Suzana, de vez em quando a chamava pelo apelido como as demais colegas. Era mais curto e prático, principalmente durante o treino.
- Você vai, não é, Suzana? Digo...Ao meu aniversário.
- Não vou te prometer, Eleonora. Eu não sou muito de festas.
- "Tá"...Eu...Só queria que você soubesse que eu... Eu gostaria muito...Se você quiser, é claro...
Eleonora não era capaz de imaginar o quanto estava adorável toda tímida e embaraçada, apertando as mãos, com os cabelos molhados de suor grudados na testa e com os ternos olhos verdes hesitantes fitando Suzana, que não resistiu, e afastou delicadamente uma mecha de cabelo úmido sobre a fronte da garota.
- Está bem, Eleonora. Mas, eu vou ficar só um pouquinho. Combinado?
Eleonora não respondeu de imediato. O seu coração havia disparado no momento em que Suzana a tocou.
- Com...Combinado � conseguiu balbuciar meio atrapalhada. Saiu com um sorriso embasbacado no rosto e andando como se caminhasse em nuvens.
Suzana arrependeu-se da promessa no momento em que Eleonora saiu do ginásio.
- Droga! Lá vou eu me meter numa festa com um bando de adolescentes. E que raios de poder é esse que essa menina tem, que eu não consigo dizer não para ela? Suzana, Suzana, no que você está se metendo?
 
 
VI
 
 
O jogo foi emocionante. O time da Universidade Santa Cruz venceu nos últimos segundos com uma brilhante atuação da pequena Eleonora que correu muito, marcou como uma leoa, fez assistências, cestas e não saiu um instante da quadra, demonstrando um excelente preparo físico. Suzana estava satisfeita por enquanto, mas o time precisava melhorar em muitos aspectos, principalmente o conjunto.
O vestiário transbordava alegria e animação. Brincadeiras, gozações mútuas e comentários entusiasmados sobre lances da partida se misturavam numa feliz algazarra. Eleonora entrou no recinto em meio a cumprimentos, abraços e tapinhas no ombro, mas não tomou a costumeira chuveirada. Pegou rapidamente a mochila e gritou a todas:
- Daqui a pouco, todo mundo lá em casa, ok?
- Festa, festa, festa � foi o brado geral.
Eleonora saiu apressada, pois a mãe a esperava no estacionamento para levá-la para casa. Ela tinha que se arrumar a tempo de receber os primeiros convidados que não demorariam a chegar.
Pouco mais de uma hora depois, ela já estava pronta e ansiosa � "Será que ela viria mesmo?" Eleonora já não conseguia mais tirar Suzana da sua cabeça. Passava os dias pensando nela, sonhava com ela, contava os minutos para chegar a hora do treino e finalmente vê-la. Treinava como uma louca para impressioná-la, mas, atualmente, quando chegava perto dela, só conseguia agir como uma pateta. Deu um suspiro e saiu do quarto para a área da piscina onde seria a festa. Alguns minutos mais tarde, começaram a chegar os amigos e os familiares.
Suzana desceu do táxi em frente ao bonito sobrado que era a casa de Eleonora. Já se apoiava apenas em uma bengala e na outra mão carregava um presente para a aniversariante. Presente, aliás, que levou horas para escolher e que, por fim, cansou tanto a sua acompanhante, a pobre e exausta Camilla, que a fisioterapeuta chegou a ameaçar:
- Suzie, eu já estou morta de cansaço e se o seu joelho inchar por causa de todo este tempo em pé para escolher um simples presente de aniversário, eu juro que vou fazer você se arrepender amargamente.
Finalmente, encontrou algo que a agradou e ali estava.
O portão encontrava-se aberto e Suzana foi adentrando seguindo o barulho da música que vinha do fundo da casa. Seguiu por um jardim lateral e deu na parte de trás da residência onde já havia muitos convidados dançando no tablado montado sobre a piscina ou conversando por entre as mesas espalhadas pelo gramado. Impaciente, Suzana correu os olhos pelo ambiente festivo e barulhento até que avistou os cabelos loiros de Eleonora de costas para ela. Como que atendendo a um chamado misterioso, a jovem anfitriã se voltou repentinamente para ela e os seus olhos se encontraram.
Com um sorriso transbordante de felicidade, Eleonora veio caminhando em direção a Suzana que a esperava estática e boquiaberta. Aquela não era a menininha peralta a quem ela treinava todos os dias. Aquela era uma mulher... E... Deslumbrante! Eleonora trajava um vestido vermelho de alças, levemente rodado, à altura dos joelhos. De cintura marcada e com um generoso decote que deixava a mostra um colo alvo e perfeito, era sustentado por alças finas que começavam pouco acima dos seios e seguiam trançando pelas costas nuas e torneadas. Os cabelos brilhantes e escovados balançavam conforme ela andava sobre sandálias douradas de salto alto. Uma discreta maquiagem realçava a beleza dos olhos verdes e a perfeição da boca delicada. E, quando ela se aproximou o suficiente, um suave cheiro de flores silvestres a acompanhou, turvando ainda mais os sentidos de Suzana que, à falta de palavras, só conseguia olhar para aqueles olhos claros. Foi nesse instante que Suzana compreendeu que estava apaixonada. Total e irremediavelmente apaixonada.
Eleonora, quando viu que Suzana havia chegado, sentiu que, finalmente, o seu dia estava completo. Caminhou para ela com a freqüência cardíaca batendo recordes de rapidez "Meu Deus, que mulher bonita". Os cabelos negros e longos reluziam sob a tênue luz do jardim. A blusa de seda marfim, simples e elegante, caía vaporosa sobre o torso poderoso e flexível, e a cor realçava a tez morena do pescoço longo de contornos, ao mesmo tempo, suaves e vigorosos. Usava uma calça preta de corte clássico, perfeitamente ajustado ao corpo delgado e às pernas longas que, apesar da presença da bengala denunciando sua momentânea fragilidade, exalava uma aura de força e da conhecida potência que deu a ela a maior impulsão do circuito mundial. Sem maiores adornos que um par de brincos de ouro e ônix e um colar também de ouro com uma efígie que Eleonora não conseguiu identificar, Suzana era só simplicidade e beleza, sem contar o onipresente magnetismo pessoal que escapava dela com a mesma naturalidade com a qual respirava.
Ficaram ambas paradas e caladas, uma de frente para a outra, por alguns segundos em muda contemplação. Por fim, Eleonora falou quase num sussurro:
- Que bom que você veio.
Meio atordoada pela descoberta que acabara de fazer, Suzana demorou um pouco para articular um comentário:
- Eu...É... � olhou para o presente em sua mão e o estendeu para Eleonora � É para você.
- Obrigada.
Em instantes as duas já estavam cercadas por metade da festa. Todos encantados por estarem perto de uma atleta famosa. Suzana foi arrastada para dentro da festa pela gentil curiosidade dos amigos e familiares de Eleonora que apenas observou o inofensivo seqüestro com um sorriso divertido e só então pôde reparar no pequeno pacote em sua mão.
"Um presente dela". Ao retirar reverentemente o papel do embrulho, revelou-se uma caixinha de veludo preta, e, dentro dela, um colar de ouro finíssimo com um pingente esmeralda em formato de lágrima.
Eleonora olhou com ternura para a pequena jóia cuja sutil delicadeza denunciava uma enorme sensibilidade por parte de quem a escolhera. Em seguida, seu olhar procurou por Suzana e a encontrou tentando inutilmente recusar o enésimo salgadinho. Sorrindo de novo, desta vez com uma certa malícia, Eleonora partiu para uma missão de salvamento.
- Suzana, vamos ver agora aquilo que eu queria te mostrar.
Um primo de Eleonora, tenazmente postado ao lado da famosa atleta, redargüiu:
- Que é que você precisa mostrar para ela?
- Coisas de mulher. Venha, Suzana - Eleonora estendeu a mão e puxou Suzana para longe da tietagem explícita.
Ainda de mãos dadas, passaram pela sala onde algumas companheiras de equipe acenaram para as duas e entraram na calma do escritório do pai de Eleonora.
- Mais tranqüilo, não? � comentou Eleonora.
- Nem me fale.
- Suzana, eu queria agradecer o presente. É lindo. Eu adorei.
- Bem...Eu achei que combinava com você � justificou Suzana, um tanto embaraçada e fingindo um enorme interesse por uma coleção de direito civil na estante em frente.
Logo atrás dela, próxima o suficiente para tocar os cabelos negros apenas estendendo os braços, Eleonora perguntou baixinho:
- Por que você acha que combina comigo?
Sem se virar, Suzana respondeu pausadamente como que pesando cada palavra:
- Porque, como você, ele é singelo, mas lindo. Forte, mas delicado. E, além disso, a pedra tem a cor dos seus olhos.
Eleonora sentiu uma estranha combinação de sensações. Algo como o ventre enregelar ao mesmo tempo em que o rosto pegava fogo. Uma agitação violenta invadiu-lhe o íntimo e foi com a voz abafada pela emoção mal contida que ela falou:
- Você pensa...Quero dizer, você acha tudo isso de mim?
Suzana virou-se para Eleonora e não disse nada. Ficou olhando para a ela incapaz de elaborar o menor pensamento coerente. Não sabia lidar com o que estava acontecendo. Nunca dera muita importância a relacionamentos afetivos. O basquete sempre viera em primeiro lugar. Teve alguns namorados. Relacionou-se com uma colega de time, uma jogadora excepcional por quem sentira muito mais admiração do que propriamente atração, mesmo assim o namoro durou alguns meses... Mas, isso? Essa vontade indizível de tocar esta menina, de senti-la. Esse estremecimento incontrolável, essa excitação latejante só de imaginá-la em seus braços. Não. Isso nunca tinha acontecido.
Eleonora, no entanto, muito mais aberta ao inusitado, muito mais instintiva e emocional, não perdia um segundo desse delicioso encantamento, ponderando conjeturas. Simplesmente, deixava-se invadir pela energia forte e arrebatadora que pairava quase palpável entre as duas. Não percebia nada além da presença da mulher a sua frente e do seu desejo latente. Devagar, mas com doce determinação, foi erguendo a mão até tocar com extrema ternura uma mecha de cabelo escuro descansando sobre o ombro. Suzana não se moveu. Com a mesma terna resolução, tocou o queixo voluntarioso e deslizou a ponta dos dedos suavemente pelo contorno da face até o lóbulo da orelha para, em seguida, adotar um trajeto descendente em direção à penugem fina e abundante da nuca de Suzana que fechou os olhos enquanto ia sendo puxada pela pequena mão que a enlaçava pelo pescoço, completamente entregue.
De repente, alguém abriu a porta com estrondo. As duas se separaram como se tivessem levado um choque.
- Elê, você está aí? Mamãe mandou te procurar. Você tem convidados, menina!
Era o irmão caçula de Eleonora, com a costumeira indiscrição das crianças. Da mesma forma abrupta que entrou, retirou-se correndo agitado sem ter notado absolutamente nada de anormal.
Suzana passou a mão pelos cabelos e deu um longo suspiro.
- Acho melhor você dar atenção aos seus convidados.
Eleonora estava abrindo a boca para retrucar quando foi a vez da mãe dela entrar no escritório.
- Filha, sua madrinha acabou de chegar. Vá recebê-la e deixe de monopolizar a atenção de Suzana.
Dona Clarisse pegou Suzana pelo braço e saiu conduzindo-a, conversando animadamente.
- Vamos, querida. Você sabe que a Elê começou a jogar basquete por influência minha? Como você lida com o assédio constante das pessoas? Deve ser terrível. Você quer uma taça de vinho?
Suzana deixou-se conduzir sem uma palavra. Taça de vinho? Ela estava precisando mesmo era de uma boa dose de whisky. Duplo. Cowboy.
Eleonora demorou um pouco para desincumbir-se das obrigações de anfitriã. Enfim, conseguiu e saiu procurando Suzana pela festa, sem sucesso.
- Mãe, onde a senhora deixou a Suzana?
- Ah, filha, ela já foi. Pediu para eu me desculpar por ela por não ter se despedido de você. Mas, ela disse que o joelho a estava incomodando um pouco e que precisava descansar.
Para Eleonora, a festa tinha acabado.
 
 
 
VII
 
- Suzana, o porteiro interfonou dizendo que o táxi já chegou. Foi você quem pediu? Onde você...- Camilla parou de falar quando viu a mala ao lado da cama.- O que significa isso?
- Eu estou indo para a capital, Camilla.
- Assim, sem mais nem menos. Sem me consultar. Eu sou sua terapeuta, Suzie!
- Eu sei. Foi uma decisão meio abrupta. Mas, foi você mesma quem disse que já estava na hora de uma nova avaliação da cirurgia pelo Doutor Mautner.
- Ah! Então, você vai para a capital para se consultar. Tudo bem! Mas você poderia muito bem ter marcado a consulta para o fim da semana para não prejudicar os treinos. Porque esta loucura repentina?
- O Professor Jorge pode perfeitamente me substituir por uns poucos dias.
-É, ele pode... Olha, Suzie. Eu vou fingir que não há nada de errado porque, no final das contas, você vai acabar me contando.
Suzana tentou abrir a boca para fazer uma observação. Camilla a impediu com um gesto irritado.
- Não! Não me aborreça com explicações...Apenas... � respirou fundo - Volte. E, com boas novas, por favor � tentou sorrir.
- Eu vou voltar, Milla. Eu tenho um time para dirigir. Nunca fugi das minhas obrigações.
- Não, amiga. Você não foge das suas obrigações. Só dos seus sentimentos. Você não precisa me dizer nada para eu adivinhar que é isso, mais do que tudo, o que está te levando embora hoje.
Suzana não disse nada. Apenas se abaixou para pegar a mala, mas Camilla se antecipou e a pegou primeiro. Caminharam em silêncio até o elevador e assim permaneceram até a porta do táxi. Suzana quebrou o silêncio:
- Camilla, obrigada por tudo. Você é muito mais que uma amiga. Se você precisar... - Preciso sim!� cortou Camilla. � Preciso que você volte logo e enfrente o que está te inquietando tanto. Preciso que você saiba que eu estou aqui, que eu te amo e que você pode confiar em mim.
- Eu sei...Só me dê um tempo, por favor.
- Sempre.
As duas se abraçaram longamente. Suzana deu um beijo na testa de Camilla e entrou no táxi. Não olhou para trás quando o carro partiu.
 
Eleonora entrou ansiosa na quadra do ginásio. Mais do que qualquer coisa, ela queria ver Suzana. Havia passado todo o domingo olhando o pôster da jogadora atrás da porta do quarto. Sentira uma falta dolorosa e desconhecida da presença da bela morena. Não queria sair. Não queria conversar. Não queria nem mesmo comer. Somente queria ver aqueles olhos azuis e tocar novamente aqueles cabelos negros. Imaginava-se aninhada naqueles braços fortes. Foi preciso que Dona Clarisse ameaçasse arrancá-la à força do quarto se ela não descesse para almoçar. Eleonora beliscou qualquer coisa e voltou para o quarto. A única coisa que desejava era que o dia acabasse logo e a segunda-feira trouxesse Suzana de novo para os seus olhos.
Por hora, no entanto, Eleonora procurava, apreensiva, a conhecida silhueta alta, mas ela não se encontrava na quadra. Somente o Professor Jorge aguardava as atletas. Eleonora se aproximou dele.
- Boa noite, Professor Jorge. Onde está a treinadora?
- Boa noite, Eleonora. Ela ficará ausente alguns poucos dias. Precisou ir para a capital. Eu conduzirei os treinos até a sua volta.
Surpresa e desapontamento.
O auxiliar-técnico comunicou a mudança temporária às jogadoras e deu início ao treino. Sensível demais, magoada pela decepção, torturada por uma saudade que nunca havia experimentado, Eleonora treinou como um autômato. Nem um pingo da velha alegria, das peraltices ou do sorriso constante. De início, as colegas brincaram:
- Iiiih, o leãozinho está muito jururu, hoje.
-O que foi? Urucubaca de hiena?
A pequena armadora não rebateu, com o costumeiro bom humor, às provocações das colegas. Nem sequer respondeu. As jogadoras começaram a perguntar se ela estava doente. O Professor Jorge também. Aproveitando a deixa, Eleonora disse que não estava se sentindo mesmo muito bem. Foi dispensada do resto do treino e foi embora para casa internar-se novamente no quarto. Mas, desta vez, para prostrar-se de saudade.
De manhã, no pátio da universidade, Carlinha a encontrou abatida e desacoçoada.
- Pelo amor de Deus, Elê. Que cara é essa? Quem foi que morreu?
- Oi, Carlinha. Ninguém morreu. Eu só estou um pouco cansada. Você sabe, os treinos e tudo...
- Aham! Se eu não te conhecesse desde que nós duas usávamos fraldas, eu teria acreditado nesse seu blablablá. Vai...Conta aqui para a Carla velha de guerra o que é que "tá pegando".
- Não é nada, Carla. Eu já disse � a loirinha falou quase com raiva e saiu pisando duro em direção ao pequeno bosque nos fundos do prédio da Educação Física. Sem dar a mínima para o ataque de mau humor da amiga, Carlinha foi atrás.
Eleonora entrou no bosque e se sentou no banco de madeira numa clareira entre as árvores. Pela primeira vez em sua vida, sentia o coração opresso, repentinamente consciente da distância que a separava de uma mulher como Suzana. Ela era uma garota interiorana comum e insignificante. Isso nunca a havia incomodado antes. Não até agora.
Sofria por imaginar-se aquém das expectativas de Suzana. Nem ao menos se lembrava de que a bela morena por pouco não cedera aos seus encantos pueris. Estava infeliz. Estava com saudade. Amava e sofria.
Carla sentou-se ao lado dela sem dizer uma palavra. Eleonora ficou olhando para o vazio, quieta e calada, até que uma lágrima escorreu pela sua face sem que ela conseguisse detê-la. Antes do primeiro soluço, Carla já abraçava a amiga deixando que ela chorasse livremente em seu ombro.
 
 
 
VIII
 
 
O treino de sexta-feira já ia pela metade quando Suzana entrou no ginásio. Estava com o cabelo solto, de jeans e camiseta e tênis pretos. Simples e linda como sempre. Eleonora achou que fosse desfalecer. Ao notarem que a treinadora tinha chegado, as meninas pararam imediatamente o que estavam fazendo e correram ao seu encontro. Eleonora não saiu do lugar sentindo-se extremamente acanhada. Suzana, sorrindo da calorosa acolhida, fingiu ralhar com as suas jogadoras:
- Ei, que folga é essa! Voltem já para o treinamento, suas molengas. O primeiro jogo já é segunda-feira.
Suzana fingiu não perceber a pequena figura plantada no fundo da quadra. Tinha pensado muito nesses dias. Decidira que o melhor era manter uma certa distância de Eleonora. Tratá-la nos limites profissionais da relação técnica/jogadora até que o seu trabalho ali terminasse. Doutor Mautner ficara muito animado com a recuperação de Suzana e bem mais otimista com a possibilidade dela voltar a jogar. Mas, somente ao recobrar todos os seus movimentos é que seria possível avaliar se ela seria capaz de utilizar novamente toda a potência e agilidade que fizeram dela uma atleta de nível internacional. Portanto, tempo e trabalho era o que Suzana tinha a sua frente e nada iria perturbá-la na busca dos seus objetivos.
Suzana esperou o treino terminar para falar com suas jogadoras.
- O treino de amanhã será fisicamente leve, mas longo e eminentemente tático. Vamos lapidar jogadas, firmar posicionamentos de ataque e de defesa e corrigir uma ou outra falha de conjunto. É um treino importante e eu vou exigir muita concentração. Entendido? Muito bem, dispensadas.
Durante todo o tempo, Eleonora procurou o olhar de Suzana, que não veio. A morena retirou-se rapidamente. Uma colega perguntou qualquer coisa para Eleonora sobre uma jogada de ataque. Ela respondeu com indisfarçada impaciência e saiu atrás de Suzana para fora do ginásio. No entanto, Suzana já fechava a porta de um carro preto no estacionamento e saía dirigindo sozinha.
-Ela está dirigindo - murmurou Eleonora.
Algumas jogadoras já haviam saído pela porta do ginásio. Uma delas comentou:
- Vocês repararam no carro da Suzana? Putz! É um Jaguar XJ220. Demais!
- E o que é que tem demais? � perguntou outra.
- Ficou louca? É um Jaguar, garota. Olha, é o mais veloz carro de linha do mundo. Motor V6 biturbo, 542 cavalos de potência e pode chegar a 349 km/h.
- Credo, como você sabe tudo isso?
- Simples. É o carro que eu quero ter "quando crescer", tolinha.
Levou um empurrão de brincadeira.
- Vai sonhando.
As garotas seguiram rindo e brincando uma com as outras. Eleonora caminhou cabisbaixa para o ponto de ônibus sentindo-se mais triste do que jamais havia se sentido.
O treino de sábado era as cinco da tarde. O auxiliar-técnico comandou o aquecimento e logo elas já estavam fazendo um coletivo supervisionado pela treinadora que parava quando em vez para correções, pedir determinada jogada ou trocar uma ou outra jogadora.
Eleonora estava alheia e desatenta. Chorara a noite inteira. Praticamente não comera nada durante o dia todo e pela primeira vez desde que conseguia se lembrar, não se sentia feliz jogando basquete. Estava cometendo vários e repetidos erros. Suzana já a corrigira uma dezena de vezes. Nem de longe lembrava a armadora guerreira e criativa que sempre fora. Por fim, Suzana a substituiu, colocando-a no time reserva. Mesmo assim, Eleonora continuou apática e desconcentrada. O treino transcorria como um uníssono:
- Eleonora, a jogada é a quatro. Preste atenção, Eleonora, a bola passou na sua frente. Eleonora, a pivô estava livre Eleonora...Eleonora...Ele...
Por fim, Suzana não agüentou mais e gritou irritada:
- Pelo amor de Deus, Eleonora! O que você pensa que está fazendo? Deste jeito, eu vou ter que te mandar de volta para a iniciação esportiva. Eu nunca vi uma armadora jogar tão mal.
Todo mundo parou de jogar no mesmo instante. Eleonora, que até o momento mantinha o seu equilíbrio emocional por um fio, não agüentou mais e saiu correndo para o vestiário. Após alguns segundos em que todos ficaram meio paralisados, Suzana falou:
- Professor Jorge, continue o treino. Eu vou falar com ela.
Suzana caminhou para o vestiário pensando no quanto tentara evitar esse confronto. Mas, agora percebia que havia sido ingênua. Entrou no vestiário imaginando estar preparada para enfrentar o encontro com Eleonora e deixar tudo às claras, definitivamente.
Eleonora estava de costas para ela tentando inutilmente abrir o cadeado do seu armário já que não estava conseguindo acertar a fechadura.
- Eleonora � chamou Suzana.
Nada do que Suzana tenha imaginado a preparou o suficiente para aquilo. Quando a garota se virou para ela, Suzana se deparou com os olhos verdes marejados de lágrimas que escorriam sem controle pela face jovem e tão desamparada que Suzana experimentou a sensação de ter uma seta lhe trespassando o coração. Sentiu-se sem ar como se tivesse levado um soco na boca do estômago. Saber que tinha machucado a doce Eleonora a fazia sofrer além do suportável. Suzana cobriu a distância que as separava em um instante e abraçou Eleonora fortemente sem necessidade de qualquer palavra.
Foi como se o tempo deixasse de existir...Como se tudo deixasse de existir e restasse apenas a consciência daquele abraço.
Eleonora ergueu o rosto para Suzana que se deixou perder na doçura verdejante daquele olhar. Lenta e decididamente, a morena alta abaixou a cabeça e beijou cada um dos olhos molhados... E depois, levemente, os lábios da menina em seus braços...E, novamente...E, novamente. Quando percebeu, a suavidade dos beijos delicados transformou-se na incandescência de um beijo apaixonado, profundo e sensual. As bocas se uniram como se fossem moldadas uma para a outra. As línguas se acariciavam, sorviam, invadiam, descobriam-se entre respirações arfantes e braços se apertando sôfregos, ávidos por colar os corpos à beira da impossível fusão. Um desejo inconcebível tomou conta de Suzana. Nunca havia sentido nada tão intenso. Seu coração pulsava nas têmporas, ameaçava saltar do peito, latejava no sexo. Um resto de razão lembrou-lhe de onde elas estavam. Desprendeu a boca da boca de Eleonora como se abdicasse do paraíso. Abraçou a pequena loira, cingindo-a ao peito, esperando que a sua freqüência respiratória voltasse ao normal.
Eleonora volitava nas nuvens. Nada do que já sonhara poderia se comparar a estar nos braços de Suzana. Sabia, com a certeza dos vaticínios do coração, de que nada jamais se compararia. Quando pararam de se beijar, Eleonora, ainda enlaçando o pescoço de Suzana, encostou a cabeça sobre o peito da mulher mais alta que, por sua vez, pousou o queixo sobre a cabeça loura com tal naturalidade, como se elas tivessem feito isso a vida toda.
Permaneceram algum tempo abraçadas, de olhos fechados. Eleonora abriu os olhos somente para mergulhar nos de Suzana e compreender que seria para sempre uma náufraga naquela imensidão azul. Então, falou com toda a intensidade dos sentimentos que assomavam o seu coração jovem e franco:
- Suzana, eu te amo.
Suzana apenas sorriu com ternura e colocou os dedos sobre a boca delicada.
- Psiu... Nós vamos conversar sobre isso. Agora...Precisamos voltar. Senão, daqui a pouco, nós teremos um batalhão de salvamento invadindo o vestiário...Só não sei para salvar quem de quem � disse Suzana com aquele sorriso que deixava Eleonora completamente tonta.
- Nós precisamos mesmo? � resmungou Eleonora, fazendo um beicinho brincalhão.
- Aham � respondeu Suzana dando um beijinho rápido no lábio inferior ressaltado pela brincadeira e puxando rapidamente Eleonora pelo braço, antes que ela a agarrasse pelo pescoço novamente.
Entraram na quadra sorrindo e a equipe entendeu que tudo tinha dado certo. Eleonora voltou a treinar e, desta vez, feliz e concentrada, jogou bem. Ao final do treino, como de costume, Suzana reuniu as jogadoras.
- Meninas, na segunda-feira faremos o primeiro dos três jogos que teremos que vencer para de chegarmos à Liga Nacional. Nós temos, hoje, um time capaz de vencer este desafio e, mais do que isso, nós temos um time capaz de fazer uma bela figura na Liga e de firmar a Universidade Santa Cruz como uma força do basquete no Brasil. Acreditem, eu não falaria isso se não pensasse desta forma. Portanto...Descansem bem e não façam extravagâncias. Até segunda, dezenove horas, no Ginásio Municipal.
As atletas foram saindo comentando excitadas sobre o primeiro jogo que se aproximava. Suzana chamou:
- Eleonora, espere um minuto. Quero falar com você.
A jovem armadora apenas acenou com a cabeça, concordando. O auxiliar-técnico ainda perguntou se Suzana queria mais alguma coisa ao que ela respondeu que eles fariam uma pequena reunião segunda à tarde. Ela ligaria para confirmar o horário. Enfim, ficaram sozinhas.
- Elê, eu acho que deveríamos conversar sobre o que aconteceu...Sobre o que está acontecendo entre nós.
- Eu sei � concordou Eleonora.
- Bom...Nós podemos ir um lugar tranqüilo e...- Suzana não chegou a terminar a frase, um chamado vindo da porta do ginásio interrompeu-lhe, bruscamente.
- Filha!
Era a mãe de Eleonora.
- Eu estava passando por aqui e resolvi te pegar. Que tal uma carona para casa, héin? Oi, Suzana � cumprimentou D. Clarisse.
- Oi, D. Clarisse � devolveu Suzana antes de se dirigir para Eleonora. � Vá com sua mãe. A gente se fala amanhã.
- Você me liga? � perguntou ansiosa, Eleonora.
- Ligo.
- Promete?
- Prometo. Agora, vá.
Satisfeita, Eleonora saiu correndo. Mochila nas costas, cabelo loiro pulando irrequieto. A perfeita imagem da juventude saudável e despreocupada. Suzana foi andando devagar para o carro, pensando, agora sem a presença perturbadora da adorável loirinha, mais razoavelmente. Ela estava apaixonada. E, a julgar pelas sensações intensas e descontroladas que sentira simplesmente ao beijá-la, de uma forma como jamais estivera em toda a sua vida. Ela...Uma mulher adulta, com uma carreira consolidada, para qual estava certa de que voltaria em breve. Uma carreira fora do país...E, agora? Pela primeira vez em sua vida ela não sabia exatamente o que fazer. Pior! Pela primeira vez em sua vida, ela sentia que o basquete poderia perder a parada para alguma coisa, alguma coisa que parecia ter sido feita para inaugurar um sem número de primeiras vezes em sua existência. Alguma coisa de extasiantes olhos verdes e com um sorriso tão encantador que se poderia cometer loucuras somente para recebê-lo como recompensa.
- Estou perdida.
 
 
 
IX
Eleonora acordou cedo naquele domingo e desde o momento em que se levantou, atendeu a todos os telefonemas da casa. Andava pelo sobrado tão ansiosa que o irmão comentou:
- Meu Deus! Se esse príncipe encantado não ligar logo, a Elê vai desenvolver duas ou três úlceras antes da hora do almoço.
Como resposta, recebeu um tapa.
- Ai, ai! Ande logo, príncipe encantado, porque já começou a fase de espancamento dos fracos e oprimidos.
Antes que levasse um outro tapa, André saiu correndo para a área da piscina. Finalmente, por volta das onze horas, Suzana ligou.
- Alô � atendeu Eleonora.
- Eleonora? Suzana.
- Oi.
- Oi. É...Você pode sair agora?
- Claro.
- Então...Eu passo aí para te pegar em trinta minutos. Está bom?
- Está ótimo.
- Perfeito. Até daqui a pouco.
- Até.
Eleonora desligou o telefone e disparou escada acima. Experimentou umas dez roupas diferentes. Quando percebeu que o seu tempo estava se esgotando, optou por uma roupa que sabia que lhe caía muito bem: um top de tricô marrom e vermelho e uma mini-saia de sarja branca, sandália, bolsa, batonzinho básico e cabelos escovados até ficarem brilhantes. Pronta. Olhou-se no espelho. Pronta para matar. Desceu as escadas em tempo de ver pela janela o Jaguar preto parar na frente da casa.
- Mãe, "tô" saindo. Qualquer coisa me liga no celular � gritou Eleonora.
- Eleonora, aonde você vai? � disse D. Clarisse vindo dos fundos da casa. Contudo, apenas pôde ver Eleonora entrando rapidamente em um carro preto. � Mas, que menina impossível! Deixe essa saidinha chegar em casa. Onde já se viu...- D. Clarisse voltou resmungando para onde estava.
Suzana não tinha dormido direito pensando na sua situação. Levantou com cara de poucos amigos e Camilla comentou:
- Céus! Ainda bem que eu vou sair com o Mike para almoçar. Ele, pelo menos, não vai me aparecer com a cara de quem pode assassinar o primeiro desprevenido que se atrever a lhe passar pela frente.
Suzana grunhiu algo incompreensível como resposta.
- Você tem certeza de que não quer ir com a gente, Suzie?
- Tenho. Além de não ter vocação para segurar vela, eu já tenho outro compromisso.
- Tem, é? Por acaso, é o senhor misterioso que vem mexendo tanto com você ultimamente, héin, héin?
- Camilla, não encha! Suma! Tchau. Bye. Arivederci.
- No matter, baby. Você vai acabar me contando o que é, ou melhor, quem é esse mistério. Fui!
Logo depois, Suzana ligou para Eleonora. Trinta minutos após o telefonema estava, pontualmente, à porta da casa dela. Nem precisou chamá-la porque ela já vinha descendo pelo jardim do sobrado em direção ao carro. "Ai, Jesus. Ela precisa ser tão sedutoramente... Uma gracinha".
Eleonora entrou no carro e olhou para Suzana com aquele sorriso de derreter as calotas polares e falou:
- Aonde vamos, madame?
- Eu pensei em irmos ao apartamento da minha amiga Camilla, onde estou hospedada. Ela saiu e lá poderemos conversar com tranqüilidade � respondeu Suzana.
- Por mim, está ótimo.
Suzana não disse mais nada, parecendo absorta em seus pensamentos. Eleonora, desta vez, bem à vontade e nem um pouco intimidada pelo silêncio da outra prosseguia falante como sempre.
- Uau, esse carro é o máximo � disse passando a mão pelo banco de couro. � Sabia que ele é o carro de linha mais veloz do mundo?
Suzana ergueu as sobrancelhas e olhou um pouco surpresa para a garota, mas nada comentou. Eleonora continuou:
- Ele não é um pouco baixo demais para você? Digo, um pouco desconfortável para alguém da sua altura?
Desta vez, Suzana respondeu:
- Não. Eu gostei dele no momento em que o vi. E, se eu gosto, eu compro. Além do fato, é claro, de ser o mais veloz carro de linha do mundo � sorriu levemente.
Ao chegarem, Suzana pediu que Eleonora ficasse à vontade e perguntou se ela queria um suco ou um refrigerante. Ela respondeu que não queria nada. Suzana foi até o bar e serviu-se de uma dose de whisky sem gelo e tomou um longo gole. Repentinamente acanhada e sem saber bem o que fazer, Eleonora ficou olhando a decoração. Suzana, sabendo que teria que começar a conversa, deixou o copo sobre o balcão do bar e se aproximou.
- Eleonora � chamou Suzana, já preparada para desfiar o discurso que elaborara durante a noite insone e expor-lhe o quanto a situação delas era delicada (para dizer o mínimo). Pensara, durante horas, numa forma delicada de explicitar à jovem, todas as complicações advindas de uma relação como a delas, ainda mais, levando-se em consideração a idade de Eleonora e...
A elaboração mental dissipou-se como névoa efêmera no momento em que Eleonora pousou os olhos cor de esmeralda sobre ela. As palavras morreram na garganta e Suzana fez uma cara tão desnorteada que Eleonora esqueceu por completo a timidez que lhe acometera ao entrar no apartamento. Subitamente segura do seu poder sobre a bela jogadora, aproximou-se de Suzana e passando a mão pela nuca da mulher mais alta, agarrou-lhe suave e firmemente pelos cabelos e a puxou para si num beijo há muito ansiado.
Desta vez, Suzana permitiu-se experimentar sem reservas o tumulto de sensações que lhe acometia por ter Eleonora nos braços. Extirpou qualquer censura. Recusou-se a qualquer raciocínio. Rendeu-se à insanidade dos sentidos e perdeu-se na maciez da boca de sua jovem apaixonada, no calor provocante da pequena mulher ao encontro da sua pele, tão incandescente que ameaçava incendiar-lhe as entranhas qual fogo em madeira ressequida.
Instintivamente, Suzana subiu uma das mãos pelas costas nuas por sob o top de Eleonora enquanto a outra descia até as suas nádegas puxando-a para si como se a força desse contato pudesse aplacar o latejar do desejo pulsando em seu íntimo com uma intensidade extremamente tão próxima da dor.
Eleonora limitou sua consciência ao prazer indescritível de estar nos braços da mulher amada e mil vezes desejada. Mergulhou sem reservas na loucura principiada por um beijo capaz de despertar a vontade desvairada de engolir, sorver uma pessoa por todos os orifícios possíveis. Descobriu-se, de repente, ousada e sensual, e quando Suzana a puxou pelo quadril, abriu as pernas despudoradamente, erguendo, nesse movimento, a mini-saia para acima das coxas, abraçando a perna longa e vigorosa com as suas, oferecendo-lhe o calor úmido do seu íntimo...A certeza tátil do seu desejo e do que Suzana poderia conquistar se quisesse tomar para si.
A resposta veio imediata. Suzana gemeu profundamente e afastou a boca um instante para recobrar a respiração descompassada. Olharam-se intensamente. Um par de olhos azuis turvos de desejo fitou o rosto afogueado e o arfar irregular do peito da menina à sua frente. Suzana percebeu, então, o inevitável: desde sempre isto esteve para acontecer e ela nunca fizera, de verdade, nada para deter a fatalidade desse fluxo de acontecimentos. "Dane-se!".
Suzana tornou a baixar a cabeça na clara intenção de continuar o beijo. Mas foi impedida por um toque delicado no queixo. Em seguida, Eleonora afastou-se um pouco e sem tirar seus olhos dos intrigados olhos azuis, tirou lenta e decididamente o top por cima da cabeça.
Suzana abriu a boca, senão apenas de surpresa pela inesperada ousadia de uma menina, mas também para poder absorver mais ar aos pulmões assoberbados pelo coração batendo todos os recordes de velocidade.
Fitou o colo de pele clara e aveludada salpicado por pequenas sardas que desciam até os seios firmes, de mamilos rosados e pequenos. Absolutamente perfeitos. Suzana deixou escapar uma expiração abafada. Sem titubear, tirou também a blusa leve que vestia e o sutiã meia taça que caíram abandonados no tapete grená.
Olhos verdes translúcidos pareciam sorrir de tão brilhantes.
Eleonora, sem desviar o olhar e agora, visivelmente sorrindo, tirou as sandálias e a saia. Suzana, também com um sorriso pairando nos lábios, tirou os sapatos e a calça jeans. Jogou-os sobre o sofá. Admiraram-se intensamente. Eleonora sentia a pulsação nas têmporas. Suzana estendeu o braço. Eleonora tomou-lhe a mão e foi puxada para os braços da mulher que amava. Ah! O toque da pele da pessoa desejada. Sua textura, seu calor. A maciez dos seios, o deleite do contato das pernas nuas, a confusão de sensações...
Deitaram-se, beijando-se sobre o tapete. Devoravam-se num beijo antropofágico. Experimentavam-se, num passar de mãos contínuo, desordenado, profuso da mais pura sofreguidão.
Suzana rolou e colocou-se por cima de Eleonora. Começou por beijar cada pedaço do rosto da sua pequena amante. Desceu para o pescoço e mordiscou-o levemente, seguiu descendo pelo colo, passou a língua, como uma brisa, por um dos mamilos. Eleonora gemeu alto. Beijou e lambeu com volúpia o abdômen definido. Com desesperadora lentidão, foi tirando a calcinha, roçando os lábios e a língua primeiro pela virilha e descendo pelas coxas firmes, joelhos, pernas até os pés. Livrou-se da calcinha. Eleonora, de olhos fechados, arqueava o corpo e respirava com força a cada toque. Sentiu-se momentaneamente abandonada, abriu os olhos para ver Suzana tirando a sua calcinha e exibindo-se em toda sua esplendorosa nudez. Soltou uma exclamação de admiração. Suzana deitou-se nua sobre ela.
Indefinível a sensação.
Tão simples o ato. Tão erótico o efeito.
Abraçaram-se, esfregaram-se, procurando sentir na pele cada pedaço da pele da outra. Suzana capturou um dos seios de Eleonora com a boca e passou a suga-lo, intensamente excitada. Mordiscava, lambia, passava de um para outro com uma fome desesperada.
Eleonora puxava Suzana pelos cabelos enquanto soltava sons inarticulados. Enlaçou o torso da morena com as pernas e encostou o sexo pulsante e molhado em seu ventre e começou a movimentar os quadris, enlouquecida. Foi a vez de Suzana emitir um gemido longo e soluçante e passar a se movimentar ao ritmo de Eleonora que já não mais gemia, arfava e tremia.
- Pelo amor de Deus, Suzana.
Ao pedido feito com voz abafada, Suzana respondeu tomando o caminho dos pelos macios e louros entre as pernas de Eleonora. Lânguida, mas segura, a morena mergulhou a língua na maciez molhada que se abria para ela. Eleonora balbuciava palavras ininteligíveis enquanto respirava pesadamente e arqueava o tronco, procurando instintivamente a língua insinuante. O orgasmo intenso não demorou muito, tamanha a excitação da pequena loira que com as mãos sobre o rosto, soluçava como se chorasse.
Suzana elevou-se até ela e pegou uma mecha de cabelo loiro que beijou delicadamente. Deitou-se ao lado ainda segurando a mecha de cabelo. Eleonora tirou as mãos do rosto e se virou para a mulher ao seu lado. Olhou nos olhos dela. Suzana perguntou baixinho:
- Tudo bem?
Eleonora não disse nada, apenas balançou a cabeça assentindo. Levou a mão ao rosto de Suzana e o acariciou. Puxou-a para si. Abraçou-a. Colou a boca em seu ouvido e sussurrou:
- Meu amor, eu nunca estive melhor. O que você me fez sentir é...Indescritível! � presenteou-a com um sorriso largo e malicioso. - Agora, minha bela Suzana, é a minha vez.
Eleonora girou sobre Suzana e sentou-se em seu ventre. Inclinou-se e prendeu os longos braços morenos atrás da cabeleira negra. Suzana olhava maravilhada a visão privilegiada dos seios da sua amante. Eleonora desceu a cabeça para beijar voluptuosamente a boca de Suzana. Sugava, gulosa, a língua, os lábios e o queixo voluntarioso. Arqueou o corpo para deter-se no pescoço macio e forte que ela tanto admirava. Beijava, lambia, mordia os músculos poderosos. Sentia nos lábios o latejar da artéria pulsando vigorosamente no pescoço. Baixou o corpo até sentar-se no baixo ventre de Suzana, deslizou as mãos pelos braços longos até descansa-las sobre os ombros morenos, abocanhou um dos seios de Suzana com uma fome de séculos. Movida por um instinto desconhecido, passou a contornar os mamilos com a língua, primeiro lentamente e cada vez mais rápido até Suzana gemer alto. Mordiscava a ponta do mamilo ereta e intumescida, passava ao outro seio deliciando-se com o corpo magnífico da bela jogadora e ainda mais com os sons entrecortados que escapavam da boca de Suzana, delatando o efeito devastador das suas carícias na mulher que amava. Suzana falou com voz abafada:
- Agora, meu amor.
Eleonora perguntou com delicadeza:
- O que eu faço, meu amor, minha Suzana?
- Ponha a sua mão em mim.
Eleonora obedeceu prontamente e colocou a mão na umidade morna e delicada de Suzana. Sem que ela dissesse qualquer outra coisa, começou a massagear com firme suavidade o clitóris túmido. Um gemido alto confirmou que ela acertara. Ao lado do amor de sua vida (ela o sabia com firme convicção), observava, maravilhada, o rosto dela transfigurar-se na iminência do prazer.
- Eleonora, me penetre.
Sem titubear, Eleonora escorregou os dedos para o interior quente e macio de Suzana que comprimiu as pernas em torno da sua mão e a abraçou com força enquanto espasmos constantes tomavam o corpo moreno e o peito arfava irregularmente.
Gozou intensamente.
Permaneceram abraçadas ainda por longos minutos.
Suzana se afastou um pouco e olhou para os límpidos olhos verdes. Com um sorriso leve pairando nos lábios, perguntou:
- Quantas vezes você já fez isso, garota?
Eleonora sorriu de volta, buliçosa.
- Por acaso, a senhorita quer avaliar a extensão da minha vastíssima experiência sexual?
- Vastíssima?!! � exclamou Suzana, levantando-se sobre um dos cotovelos e fitando Eleonora com olhos interrogadores e ligeiramente divertidos.
Eleonora riu com gosto.
- Por que? Te incomoda o fato de eu ser uma mulher experiente?
- Eeeeeeu? Não. È apenas e tão somente curiosidade. Você se importaria de me dar um breve histórico de tão larga vivência, que deixaria Casanova roxo de inveja?
Eleonora enfiou a cabeça nos cabelos cor de ébano e falou baixinho:
- Eu não tenho nenhuma larga experiência, Suzana. A não ser um ex-namorado por quem eu julgava estar apaixonada aos dezesseis anos e que foi o primeiro homem da minha vida, eu não tive mais ninguém. Você foi a primeira mulher que eu já beijei e com que eu fiz amor...
Afastou o rosto para olhar os olhos azuis.
- E, Deus, eu vou agradece-lo cada dia da minha vida por isso, Suzana. Porque eu te amo e não consigo pensar em nada mais intenso e bonito do que o que eu vivi hoje com a mulher que eu amo.
Suzana capturou o queixo levemente trêmulo da linda menina com quem fizera amor. Olhou-a com infinita ternura e lhe deu um beijo leve nos lábios.
- Eu brinquei com isso, minha pequena Eleonora, foi porque em toda minha vida eu sequer cheguei perto do que eu senti nesta tarde com você. É tudo muito novo para mim também. Pelo menos, com essa intensidade...E também, temo dizer, com tanta complicação envolvida. Devo admitir que não estou acostumada a ter que medir ou dar conta dos meus atos. Isso me incomoda e me irrita muito. Eu queria poder...
Eleonora pousou a mão pequena nos lábios de Suzana.
- Isso não importa agora. Não agora. Mais tarde, minha bela Suzana. Beije-me, por favor, e me ame novamente.
Não foi preciso pedir outra vez.
 
 
 
 
X
Suzana acordou com o som da porta da sala se abrindo. Ela demorou um pouco para processar a situação em que se encontrava até a consciência simultânea do calor do corpo aninhado em seus braços e do barulho dos passos de Camilla aproximando-se do seu quarto, transformar-lhe o despertar, repentinamente, em sobressalto. Felizmente, Camilla teve a rara sensata idéia de bater na porta do quarto antes de entrar.
- Suzie, você está aí? Posso entrar?
- Não! � a resposta saiu mais alarmada do que Suzana pretendia.
Eleonora mexeu-se um pouco, mas como uma criança que está tendo um sonho delicioso, sorriu levemente e acomodou-se um pouco mais sobre o peito de Suzana. Camilla não perguntou mais nada e, discretamente, afastou-se do quarto. Com todo cuidado, Suzana desvencilhou-se do abraço da sua pequena amante e se levantou em silêncio. Vestiu um peignoir e saiu do quarto. A amiga estava na cozinha.
- Eu sabia! Eu sabia! � Camilla riu-se deliciada. � É ele. Está lá no seu quarto. Quem é? Como se chama?Eu conheço?
- Milla, quer calar essa matraca?! � disse Suzana, já meio exasperada.
A morena alta passou a mão pela cabeleira negra, seu gesto característico de inquietação, foi até a geladeira e serviu-se de um copo de água. Camilla tamborilava os dedos na mesa de tanta ansiedade, mas aguardou calada.
- Milla, eu...Eu devia ter dividido isso com você antes. Mas...Foi tudo tão rápido e inesperado, e...Novo para mim � Suzana tomou mais um longo gole. � Eu não sei como lhe dizer.
- Pelo amor de Deus, Suzie! O que pode ser tão difícil? Por acaso, o seu namorado é um bandido procurado? Um extraterrestre? � levou as mãos à cabeça. � Ai, meu Deus! É um professor da universidade, casado, pai de família...
- Não é nada disso � interrompeu, Suzana. � Olha...O melhor é você ver por si mesma. Venha.
Camilla seguiu Suzana até o quarto, intrigada e mortalmente curiosa. Mas, o que ela encontrou, deixou-a boquiaberta: dormindo o sonho dos anjos, uma garota loira, com a nudez parcialmente coberta por um lençol sobre o torso, repousava candidamente na cama de Suzana.
- Minha Nossa Senhora!
Sentada no sofá da sala, Camilla ainda não havia conseguido retirar o ar de surpresa da face.
- Suzana...Suzana, ela é menor?
- Tem dezoito anos.
- Graças a Deus.
- Eu não estou completamente louca, Camilla.
- Ah, está sim! Doida de pedra, Suzie!
Camilla respirou com força e falou com mais calma:
- Como isso aconteceu, Suzana?
- Eu não sei dizer. Só sei que, há semanas, eu mal consigo pensar em outra coisa. Eu tentei ignorar, me distanciar, fugir...Nada adiantou. As circunstâncias, ou talvez a minha vontade...Minha mais reservada e desconhecida vontade... Enfim, tudo pareceu convergir para este final. E, eu...Não tive forças para impedi-lo.
Suzana desabou sobre o sofá, abaixou a cabeça e passou as mãos pelos cabelos quase com raiva. Camilla olhou para a mulher angustiada ao seu lado e, desta vez, afirmou docemente:
- Foi por isso que você foi embora naquela pressa inexplicável a semana passada.
Suzana anuiu com a cabeça.
- Eu precisava de algum tempo e de distância para pensar com mais clareza. Imaginei que poderia retomar o domínio das minhas emoções novamente...Com a facilidade de sempre. Como você pôde perceber, eu estava enganada.
Camilla pousou a mão sobre o ombro da amiga num gesto de solidária compreensão, no entanto, de repente, pulou do sofá como que impulsionada por uma mola e exclamou:
- Espere aí! Agora, eu estou me lembrando. Esta daí é uma jogadora da sua equipe, não é? Você me apresentou, não tem muito tempo, lá na universidade. Meu Deus, Suzana! Ela é pouco mais que uma adolescente!
- Você acha que eu não sei, Camilla? Você acha que eu não me faço este questionamento a cada minuto do dia? Acontece que eu perco totalmente o controle quando ela chega perto de mim. É inexplicável
Camilla voltou a sentar-se ao lado da amiga.
- Suzie, você é capaz de imaginar as conseqüências de um relacionamento desse vir a público? Sem mencionar as complicações óbvias relativas à sua notoriedade, como a família dessa garota reagiria? A universidade, o time, seus fãs, seus patrocinadores e contratos...Suzana, para todos os lados que eu olho, eu só vejo encrenca, minha amiga. Você precisa acabar com isso, já!
Suzana não contestou, apenas tornou a baixar a cabeça, repentinamente, frágil como uma criança. Desta vez, Camilla se assustou de verdade.
- Suzana, eu não estou te reconhecendo.
- Eu não me reconheço mais.
- A coisa mais importante do mundo para você sempre foi a sua carreira.
- Em certos momentos, como quando eu estou com ela � apontou para o corredor � eu não tenho mais certeza.
- Pois precisa ter. Ninguém vive só de momentos. Em algum instante será necessário fazer escolhas. E você não vai poder culpar esta menina se, um dia, você desabar do alto patamar que ergueu com tanto sacrifício e que, até a pouco, prezava tanto.
- Talvez eu não tenha que escolher � retrucou Suzana com um sorriso triste e pouco convincente.
- Talvez, amiga talvez � disse Camilla chegando perto da amiga e a abraçando ternamente.
Já mais calma, Suzana entrou no quarto e sentou-se ao lado de Eleonora. Suavemente, passou a mão pelos cabelos loiros e deslizou os dedos pela face jovem e delicada. Eleonora ronronou preguiçosamente e abriu os olhos.
- Oi.
- Oi � respondeu Suzana.
Eleonora curvou-se um pouco e deitou a cabeça sobre uma das pernas fortes e longas.
- Posso saber ao que a senhora estava fazendo, que não está aqui deitada comigo? � brincou a loirinha, fingindo indignação.
- A minha amiga chegou � respondeu simplesmente, Suzana.
Eleonora sentou-se rapidamente, agora com uma real cara de preocupação.
- Algum problema?
Ao sentar-se, o lençol descobriu seu tronco revelando a pele alva e aveludada, os seios pequenos e firmes, a cintura fina e o fio de pelos claros dividindo-a ao meio e descendo mais espessos a partir do umbigo para o púbis ainda coberto pelo lençol. Suzana sentiu a boca seca e desesperadamente desviou o olhar para os olhos verdes translúcidos. Perdeu-se de vez. Agarrou Eleonora num abraço ávido e se deitou rolando a pequena jogadora sobre ela e a beijando sensual e profundamente.
- Não, não há nenhum problema � respondeu Suzana, após alguns segundos, com a voz rouca de desejo.
- Bom, nesse caso, vamos ver...Huuum - Eleonora fez uma carinha marota. � Eu estou acordada. Deitada numa cama com a mulher mais linda do mundo. Sem "neeeenhum" problema. Céus, o que fazer?
Suzana embarcou na brincadeira e falou maliciosamente:
- Se você não sabe o que fazer, eu posso sair e te deixar sozinha e sossegada para pensar.
- Quietinha aí, Dona. Milagrosamente, eu acabo de ter algumas idéias � emendou Eleonora lançando um beijo faminto nos lábios cheios e bem feitos da bela morena enquanto abria o peignoir para sentir, com o coração aos pulos, o calor da pele de Suzana sob a sua.
O quarto mergulhou numa torrente de sussurros e gemidos entrecortados.
 
 
 
 
 
 
 
 
XII
O primeiro jogo foi vencido pela Universidade Santa Cruz com relativa facilidade. Mas isso já era previsto. O grande adversário ainda estava por vir. Suzana avaliava que o último jogo seria o decisivo, pois a equipe em questão parecia ser a única capaz de tirar o seu time da Liga Nacional. Pouco falara com Eleonora desde o dia anterior com a desculpa de precisar se concentrar para a partida. A jovem pareceu compreender porque não a contradisse. A verdade é que Suzana sentia necessidade de um tempo para os próprios pensamentos e a presença de Eleonora tornava qualquer chance de ser razoável total e completamente remota. Suzana nunca havia sentido uma atração tão perturbadora em toda a sua vida. Muito menos jamais tinha permitido qualquer tipo de intromissão em seus planos sempre cuidadosamente traçados. Contudo, via-se, de repente, pensando formas de adequar a sua vida a de uma garota de 18 anos. Suzana estava mais insegura e assustada do que admitiria para si mesma.
Eleonora, ao contrário, parecia presa a uma onda de felicidade. Embalada pela confiança e o destemor próprio dos muito jovens, só enxergava que estava apaixonada e era correspondida. Não conversara com Suzana desde que ela a deixara em casa ao final da tarde do dia anterior. Não importava. Suzana tinha as suas responsabilidades. Era uma mulher adulta e uma profissional competente. Não queria que Suzana pensasse que ela era uma garota imatura que exigia atenção a todo o momento. Jogara muito bem porque jogara para ela. Agora, trocando-se após o jogo, não participava da enorme algazarra no vestiário. Só queria sair dali e estar a sós com Suzana. Ansiara por isso a cada segundo do dia.
Eleonora trocou-se numa velocidade inusitada e saiu às pressas do vestiário com a mochila cheia de roupas emboladas de qualquer jeito. Chegou ao estacionamento o mais rápido que pôde, mas, para sua decepção, o carro preto não estava mais lá.
O professor Jorge estava encostado no parapeito na entrada do ginásio. Eleonora dirigiu-se até ele.
- Professor, o senhor viu a treinadora?
- Oi, Eleonora. Sim. Ela foi embora assim que terminou a partida. Disse que tinha algo urgente a resolver e que teceria os comentários a respeito do jogo no treino de amanhã.
Não mais tão alegre como antes, Eleonora balbuciou um agradecimento e saiu caminhando. "Bom, se ela disse que tinha uma coisa urgente a fazer, é que porque deve ser algo realmente importante".Um pouco mais resignada, Eleonora pensou que poderia pelo menos ligar para ela quando chegasse em casa e ouvir aquela voz adorada antes de dormir. Só então, a jovem atleta se lembrou de que nunca havia ligado para Suzana. Não tinha o número. "Droga".
Suzana dirigiu uns quarenta minutos sem rumo pela cidade. Controlara-se, a duras penas, para não trair os seus sentimentos à vista de todos. Somente ela sabia da vontade enlouquecedoura que sentiu de abraçar Eleonora quando a viu entrar no ginásio antes do jogo, de uniforme, brincando com as companheiras, sorrindo cheia de sua doçura inata. Feliz e absolutamente linda. Quando percebeu que estava olhando para uma de suas atletas com uma tola cara apaixonada na frente de meia universidade, fingiu ter algo extremamente interessante escrito em sua prancheta até que conseguisse se controlar e manter uma postura neutra perante a sua equipe. Não estava acostumada a se desequilibrar. Não estava acostumada a disfarçar o que quer que seja, e isso a incomodava muito.
Eleonora saiu para o pátio com a nítida impressão de não ter escutado uma só palavra do professor. Estava com uma saudade insuportável se Suzana, do seu toque, do seu beijo, do cheiro inebriante dos cabelos negros. Andou desanimada até a cantina e pediu um suco de abacaxi. Apoiou-se no balcão e ficou observando sem interesse a balbúrdia de milhares de alunos caminhando e conversando ao mesmo tempo. Foi aí que notou Carla e Gianne acenando para ela. Eles se aproximaram.
- E aí, campeã � falou Gianne, dando um sonoro beijo na bochecha de Eleonora.
Carlinha também cumprimentou a amiga com um beijo e comentou:
- É, mas para quem foi a melhor jogadora de uma vitória importante, você não está com a cara muito animada, Elê.
- Eu? Imagina! Estou animadíssima. É que foi só o primeiro jogo, né? Ainda temos mais dois para podermos chegar às finais e eu estou meio preocupada. Só isso.
- Ei, relaxa, garota � falou Gianne. � Do jeito que vocês estão jogando, aliás, do jeito que você está jogando, Elê, não tem pra ninguém. Nossa, já são 09:40, eu tenho uma reunião no C.A.. Você vem, Carla?
- Não, amor. Vá indo. A gente se encontra ao final da aula. Combinado?
- "Tá" � Gianne beijou Carla e mandou um beijo para Eleonora. � Tchau, Elê.
Carla virou-se quase imediatamente para a amiga com aquela cara de "Me engana que eu gosto".
- Olha aqui, Eleonora Cavalcanti. Já não está na hora de me contar o que diabos está acontecendo com você?
Eleonora abaixou a cabeça um instante. Levantou-a e perguntou à amiga:
- Você pode faltar a esta próxima aula?
- Mas, nem eu tivesse prova, garota!
- Então vamos para um lugar mais sossegado.
Eleonora e Carla saíram da Universidade e se sentaram em uma sorveteria próxima ao campus, nessa hora, praticamente vazia. Carlinha pediu um sorvete de chocolate com calda de chocolate e cobertura de chocolate. Eleonora não quis nada. Carla esperou o sorvete chegar deu uma generosa colherada seguida de um suspiro de prazer e emendou:
- Estou pronta. Manda ver.
Eleonora pousou os expressivos olhos verdes sobre a melhor amiga e disparou sem maiores rodeios:
- Eu estou apaixonada por uma mulher.
Carlinha parou a colher a meio caminho da boca.
- Tô boba!
Eleonora continuou sem dar tréguas:
- Eu não estou só apaixonada. Eu estou entregue, de quatro, abestalhada. E, tem mais. Nós tivemos um fim de semana maravilhoso juntas. Mas, nós não nos falamos desde então, embora tenhamos nos encontrado ontem. Eu estou com tanta saudade dela que sinto o meu peito se dilacerar. No entanto, à medida que as horas passam, eu tenho cada vez a impressão maior de que ela está sutilmente me evitando e eu não sei o que fazer. Tenho vontade de gritar como uma louca. Por fim...Essa mulher é Suzana Alcott.
Eleonora parou a metralhadora verbal de pé, com as mãos sobre a mesa e olhando para o rosto estático e abobado de Carla que, após alguns segundos, conseguiu falar com um fio de voz:
-Desta vez, eu desmaio.
Eleonora desabou sobre a cadeira e ficou em silêncio. Carlinha não abriu a boca e se esqueceu completamente do sorvete. Com a mão apoiando o queixo ficou olhando para o vazio por um bom tempo, completamente silenciosa. Foi Eleonora quem falou primeiro.
- Você não vai dizer nada ou está ensaiando para falar alguma coisa do tipo: essa relação é antinatural, ou melhor, é contra as leis de Deus, ou ainda, como eu não pude perceber que era amiga de uma aberração pervertida...
- Cala essa boca, Eleonora! � gritou Carlinha, com o rosto bonachão, agora visivelmente irritado. Prosseguiu, falando entredentes. - Você acha que eu vou mudar com você ou fazer um discurso preconceituoso idiota porque você é homossexual? Você é a minha melhor amiga desde que eu me entendo por gente, mulher de pouca fé!... É claro, eu fiquei um pouco surpresa com a revelação...Mas, desde que você esteja feliz...- Deu de ombros. - Elê, o que de fato está me preocupando é a forte impressão, à partir do que você própria relatou, de que essa mulher vai machucá-la muito, minha amiga.
- Não pode ser, Carlinha. Foi intenso demais, bonito demais. Não há como ter sido uma mentira. Eu presenciei. Eu estava lá � Eleonora estava à beira das lágrimas e com a face jovem alterada pela angústia e a dúvida.
- Tomara, Elê. De verdade, tomara. Olha, se você está se sentindo assim, fale com ela. Se tudo foi tão intenso e lindo como você me disse, o mínimo que vocês devem uma a outra é sinceridade � Carla colocou a mão sobre a mão da amiga que tremia ligeiramente. � Você não tem treino hoje? Fale com ela.
Sentindo-se mais animada, Eleonora conseguiu dar um leve sorriso.
- É isso mesmo o que eu vou fazer � abriu um sorriso muito mais largo para a amiga. � Carlinha, você não existe.
- Menos, menos, por favor � Carlinha fez uma cara de falsa modéstia e olhou para o seu sorvete.- Ei, o meu sorvete virou suco! Sabe de uma coisa, me deu uma vontade louca de comer uma pizza.
- Sabe o que mais, amiga? De repente me deu uma fome danada. Vamos nessa � concordou Eleonora.
- Vou avisar o Gianne.
 
 
XIII
 
 
Ainda no vestiário, trocando de roupa para treinar, Eleonora sentiu o gosto amargo da decepção. Soube que quem conduziria o treino para pequenas correções táticas seria o Professor Jorge. Suzana tivera que viajar as pressas para a capital para consultar-se com o seu médico que só poderia fazer a avaliação de sua recuperação nesta data, pois estava viajando para um congresso no exterior e Suzana tinha que informar oficialmente ao seu time, nos Estados Unidos,o resultado do trabalho terapêutico pós-cirurgia, o mais rápido possível, segundo instruções do seu agente.
Apesar da sensação extremamente desagradável de frustração e impotência. Eleonora foi treinar mais resoluta do que nunca. Ela tinha tomado uma decisão e mais cedo ou mais tarde ela teria uma conversa definitiva com Suzana. A altiva jogadora não lhe escaparia.
No avião, olhando alheia pela pequena janela da aeronave, Suzana pensava na sua situação. Nunca havia experimentado uma excitação e um desejo de tão grande proporção como quando fizera amor com Eleonora. Sabia que estava apaixonada. Mas também sabia que a extrema juventude de Eleonora aliada ao fato dela ser uma mulher, além de uma sua comandada, era um prato cheio para especulações invasivas da imprensa, fonte de insinuações de falta de profissionalismo e mesmo de falta de ética, para não citar as inevitáveis acusações de depravação, ignomínia e besteiras puritanas similares. É claro que elas podiam manter o caso em segredo. Contudo, Suzana tinha um contrato de cinco anos no exterior, com uma multa rescisória astronômica. Eleonora acabara de entrar na universidade e mesmo que se dispusesse a acompanhá-la para os EUA, como ficariam os estudos? A família permitiria? Improvável...Se ela permanecesse no Brasil, teriam, para se ver, quatro ou cinco ocasiões por ano, no máximo. Suzana não se via no direito de amarrar uma jovem linda e promissora a uma relação caracterizada pela distância, alimentada por telefonemas, marcada pela ausência. "Não, não, não, mil vezes não".
Suzana estava arrasada.
Eleonora entrou na quadra para o aquecimento antes da segunda partida e seu coração deu um salto quando reconheceu a figura alta conversando com o mesário do jogo. Ficou, alguns segundos, parada como que pensando no que fazer. Uma colega que passava deu-lhe um tapinha leve e provocador na cabeça.
- Desce das nuvens, leãozinho. Nós temos um jogo para ganhar. Vamos nos aquecer, anda.
Eleonora deixou a mochila no banco e correu em direção ao auxiliar-técnico que chamava, impaciente, a equipe para o aquecimento.
O árbitro apitou avocando os times para o início da partida. As meninas se agruparam em volta da treinadora para a definição do time que iniciaria o jogo. Suzana foi clara e objetiva em suas instruções. Escalou as cinco titulares, entre elas Eleonora e definiu sucintamente o tipo de marcação e a tática de ataque que queria que elas utilizassem. Bradaram juntas, com força, o grito de guerra da equipe e se posicionaram para o início da partida. Em nenhum momento, Suzana se dirigiu mais que o estritamente necessário a Eleonora.
O jogo começou equilibrado. Paulatinamente, o time da universidade começou a impor o seu ritmo e apesar do placar um pouco mais apertado do que o do jogo anterior, ganhou a partida. Eleonora jogou bem. A firme decisão que tomara no dia anterior de falar com Suzana nem que tivesse que amarrá-la, dera-lhe a concentração necessária para tal.
Suzana reuniu as suas jogadoras, suadas e cansadas, mas extremamente felizes e as parabenizou. Lembrou-lhes de que ainda faltava mais um adversário e alertou-lhes da necessidade de se manterem concentradas e firmes nesse objetivo. Depois de mais algumas palavras encorajadoras, dispensou a equipe. Uma jogadora permaneceu no lugar.
Suzana encarou Eleonora e falou fingindo descontração:
- Isso não parece um tanto dejá vu, Elê?
- Precisamos conversar � disse Eleonora, ignorando o comentário.
- Não pode ser amanhã? Eu cheguei de viagem pouco antes do jogo e estou muito cansada.
De fato, Suzana parecia cansada. Estava com os olhos fundos e acentuadas olheiras marcando-lhe a face. Eleonora não se compadeceu.
- Não, Suzana, não pode ser. Mais uma noite como a que eu passei ontem e eu adoeço. A minha resistência está no fim.
Suzana olhou alguns segundos para o rosto delicado pronto a se desmanchar em lágrimas, mas inteiramente determinado a sua frente e soube que não tinha escapatória. A verdade é que ainda não se via pronta para um confronto com Eleonora. Na hora em que percebeu que a pequena jogadora estava postada a sua frente, sentiu o seu coração descompassar-se. Meu Deus, porque essa menina conseguia descompensá-la dessa forma? Sabia que estava se comportando como uma perfeita covarde, mas estava assustada com a intensidade dos seus sentimentos. Era algo inédito, ao mesmo tempo delicioso e atemorizante. Sentia ganas de abraçá-la com abandono e de beijá-la furiosamente como para demonstrar para si e para o mundo que aquela mulher era sua...Mas ficou parada e falou simplesmente:
- Está bem. Eu espero você se banhar e se trocar e, então, iremos conversar.
- Não. Tudo bem. Eu vou assim mesmo.
- Elê, você deu o sangue nessa partida. Deve estar louca por uma chuveirada revigorante e roupas limpas. Eu já concordei com você. Não vou sair daqui, na verdade...Eu vou te esperar no carro, está bem?
Eleonora pensou alguns segundos. Ela, realmente, estava ensopada de suor, suja e doida por um banho.
- Eu vou, Suzana. Não demoro. Mas, se quando eu sair você não estiver onde prometeu, eu juro que vou atrás de você e grito para quem quiser ou não quiser ouvir, tudo o que está entalado na minha garganta. Não duvide.
Suzana não duvidava.
Vinte minutos depois, Eleonora saiu do ginásio para o estacionamento e avistou o Jaguar preto. Firmemente, foi caminhando em direção a ele, mas à medida que ia se aproximando a sua coragem ia diminuindo e ela já não tinha mais certeza do que ia dizer. Contudo, não titubeou. Parou de frente a porta do passageiro, respirou fundo e entrou. Suzana, com as mãos no volante, olhava para frente e assim permaneceu.
- Muito bem, eu estou aqui, Eleonora. Pode falar.
- Suzana, olhe para mim.
Suzana olhou.
- Amor, o que está acontecendo? Por que você está falando desse jeito comigo? O que foi que eu fiz?
- Nada. Você não fez nada.
- Então, o que está acontecendo?
- Nada que você possa resolver.
- Pelo amor de Deus, Suzana. Fale comigo. Por que você tem que ser tão fechada, tão distante?
- Você não sabe? Eu sou assim.
- Não, não é � Eleonora fitou com infinita ternura o rosto de linhas marcantes e harmônicas, estendeu o braço e segurou-lhe o queixo. � Suzana, eu sei, porque te vi desarmada dessa sua armadura de indiferença. Porque eu te vi nua de corpo e de alma. Porque eu adormeci escutando o seu coração. Porque eu conheci a mulher terna e sensual, divertida e inteligente, forte e profundamente amorosa que é você. Não me venha com conversas sobre como você é. Para mim, você não precisa. Eu já sei.
Suzana agarrou Eleonora pela nuca e a beijou furiosamente. Eleonora correspondeu sem reservas. Foi um beijo sôfrego, urgente, atormentado. De repente, as bocas unidas com a força da aflição, passaram a se tocar com lenta sensualidade. Eleonora puxou Suzana para mais perto e aprofundou o beijo como se quisesse engolir a boca da mulher morena. E quando as línguas se tocaram famintas num delicioso roçar, invadir, ceder, acariciar-se voluptuosamente, um incontrolável desejo tomou conta dos pensamentos de Suzana. Vencida pela força dos seus sentimentos, ela se entregou ao prazer de ter Eleonora em seus braços e embrenhou as mãos por dentro da camiseta de algodão para tocar a pele aveludada de suas costas. Aproveitando-se de sua pequena estatura, a loirinha foi se aconchegando sobre o colo de Suzana que, imediatamente, colocou o banco o mais para trás possível deixando um espaço minúsculo, porém, devidamente aproveitado por Eleonora para deitar metade do corpo sobre Suzana e ficar de frente para ela. Na nova e confortável posição, Suzana pôde explorar com liberdade a barriga torneada e envolver o seio firme, nesse momento completamente intumescido, de Eleonora que gemeu ruidosamente, enquanto não se desfazia do beijo guloso e molhado.
- Suzana, eu quero você dentro de mim � falou Eleonora com a voz entrecortada pela respiração ofegante.
Cega de desejo, Suzana ainda tentou esboçar um protesto.
- Elê, nós não devemos...
Parou por aí. A garganta ficou repentinamente seca e o seu raciocínio completamente embotado quando Eleonora tomou a sua mão, levou-a para o meio de suas pernas e mostrou-lhe o paraíso quente e úmido debaixo do moletom. Sem maior hesitação, Suzana enfiou a mão por baixo da calça de moletom. Lenta e sensualmente, começou a massagear o clitóris de Eleonora que instintivamente passou a mexer os quadris em sintonia com o ritmo imposto pela sua amante.
Suzana, dentro...Por favor...Por favor.
Suzana ainda continuou com a doce tortura mais algum tempo e de repente penetrou a sua pequena amante com delicadeza, mas firmemente. Eleonora soltou um gemido abafado e agarrou com força os cabelos negros. Choques incontroláveis lhe tomavam o corpo. Sentiu que o gozo viria rápido e feroz. Arqueou o corpo como que para aprofundar o contato da mão de sua amada com a sua maior intimidade. Em seguida, o orgasmo veio com a força do seu amor por aquela mulher.
- Suzana...Suzana...Como eu te amo.
Abraçaram-se desesperadamente. Eleonora agarrou o pescoço da mulher que amava e enterrou o rosto nos cabelos de Suzana aspirando, como se pudesse reter no rosto, o delicioso perfume que vinha deles. Suzana apertou sua pequena amante contra o peito e entregou-se a maravilhosa sensação de profunda intimidade que o brando arfar da respiração de Eleonora sobre o seu tórax, lhe causava.
Ficaram nesse abraço silencioso por muitos minutos sem que qualquer uma das duas ousasse se desprender. Suzana adiantou-se:
- Elê?
- Huuum � Eleonora gemeu em resposta, afundando ainda mais o rosto naquela seda negra.
Suzana sorriu.
- Elê � repetiu.
Muito a contragosto, Eleonora deixou o seu recanto predileto e olhou para Suzana. Então, foi sua vez de sorrir. Um sorriso de pura felicidade ao vislumbrar naqueles olhos azuis como um céu sem nuvens, o lampejo do amor.
- Suzana...Você me ama � afirmou baixinho e devagar, mas com a mais terna convicção, a jovem jogadora.
Suzana apenas esboçou um sorriso carinhoso e triste.
Eleonora pegou o rosto da morena com ambas as mãos e deu-lhe sucessivos beijos no rosto, nos olhos e na boca.
- Meu amor. Meu doce amor. Meu único amor. Suzana, conte-me, por favor, o que está te preocupando tanto?
Suzana passou os dedos pelas sobrancelhas loiras, contornou a orelha pequena, a mandíbula delicada e a boca cheia e rubra. Fechou os olhos, deu um suspiro longo, soltou o ar com a força como um desabafo e falou:
- Você está certa, Eleonora. Eu estou preocupada e acho que você tem o direito de saber o porquê. Apenas...Dê-me um pouco mais de tempo, ok? Amanhã é o nosso último treino antes do nosso jogo mais importante. Temos que estar totalmente concentradas nele, principalmente eu e você, entendeu? Depois do jogo nós conversaremos e vamos tentar resolver isso juntas, está bem assim?
- Jura, Suzie?
- Suzie? � Suzana deu uma gostosa gargalhada. � Pouca gente me chama assim. E, quer saber? Ninguém com esse jeitinho lindo � Deu-lhe um beijo delicado na ponta do nariz. - Eu juro, sim, meu amor.
Eleonora abraçou Suzana com força e falou baixinho com a boca encostada em sua orelha:
- Por você, bela Suzana, eu espero milênios desde que eu tenha a certeza de que você voltará para mim.
 
O treino transcorreu normalmente mesmo com a presença de repórteres e emissoras de TV. Suzana havia permitido a entrada da imprensa no ginásio desde que os correspondentes não atrapalhassem o treinamento, somente ao final do qual Suzana permitiria a filmagem e daria entrevistas.
Findo o treino, Suzana foi cercada por microfones e câmeras. Acostumada, respondeu calma e pausadamente a todas as perguntas, a maioria sobre o seu sucesso na primeira experiência como treinadora. Inevitavelmente, contudo, a pergunta sobre a possibilidade de voltar a jogar surgiu logo depois. Todos silenciaram à espera da resposta. Suzana, deliberadamente, fez uma pausa mais longa que o normal e respondeu:
- Bem, vocês receberão esta notícia de primeira mão. Hoje, a minha terapeuta considerou o trabalho de reabilitação terminado e... Bem sucedido. Meu médico fará uma avaliação logo que chegar do exterior, e deve me liberar para começar a treinar. Então, se tudo correr como o esperado...Sim, eu vou voltar a jogar.
As perguntas choveram como um temporal de verão. Bem humorada, Suzana respondeu a mais algumas e se retirou. Eleonora acompanhou tudo de longe. Fiel ao compromisso selado à noite passada, treinou com afinco e apenas se aproximou da treindora para pedir instruções. Não pôde deixar de perceber, para sua enorme alegria, que Suzana a tratava com um discreto, porém evidente calor no olhar. Confiante na promessa da mulher amada, Eleonora saiu do ginásio cantarolando.
- Feliz, canarinho do reino?
- Ah? Oi, Carlinha. O que você está fazendo na universidade até essa hora?
- O que eu estou fazendo...Pois sim! Esperando o senhor Gianne Domenico terminar uma de suas indispensáveis reuniões. Eu até vi o finalzinho do treino e...A nossa famosa treinadora dando entrevista para a TV. Uau!
- Carlinhaaa!
- Ok, ok. Eu te esperei para te oferecer carona.
- Ai, que bom, Carla. Eu estou mesmo cansada.
- Só não sei se um favor ou um castigo te fazer andar naquela lata velha do Gianne, cheia de papel dentro. Oh, céus! O que eu tenho que agüentar em nome da democracia.
Eleonora acompanhou a amiga rindo da sua costumeira e teatral verborragia. Só então percebeu a cor do tênis que a amiga usava � um pink luminescente.
- Deus do céu, existe tênis dessa cor? � sussurrou incrédula.
Gianne já as esperava tranqüilamente sentado no fusca azul cor de calcinha.
 
XIV
 
O jogo foi emocionante. As duas equipes se alternavam no marcador. Suzana, agitada, gritava instruções sem parar. Ao final do segundo tempo, faltando apenas poucos segundos para o término da partida, a equipe da universidade perdia por um ponto e o outro time ainda tinha a posse de bola. Suzana pediu tempo.
- Meninas, nossa situação é complicada. Nós vamos tentar algo arriscado. Mas, agora, é tudo ou nada. Eu quero marcação individual, pressão quadra toda. Mas, sem falta, entenderam? Sem falta � virou-se para a loirinha completamente molhada de suor, ligeiramente arfante e com os olhos verdes atentos à treinadora. � Eleonora, você marca aquela ala que está acertando tudo hoje. Elas vão procurá-la em quadra para passar a bola, tenha certeza. Fique atenta como nunca ficou em sua vida, antecipe-se no momento certo... - Suzana colocou a mão sobre o ombro da sua jogadora e a olhou diretamente nos olhos. � Roube essa bola para mim, Elê.
Eleonora acenou com a cabeça.
O jogo reiniciou. O time adversário soltou a bola. Onze segundos. A armadora delas veio trazendo a bola sob marcação cerrada, conforme as ordens de Suzana. Sete segundos. A armadora parou, olhou para a esquerda e viu a ala de seu time, livre. Eleonora, inteligentemente, havia deixado que a jogadora que marcava aparentasse estar desmarcada. No momento em que a armadora esboçou a intenção do passe, concentrada e com a incrível agilidade que caracterizava o seu jogo, Eleonora antecipou-se e interceptou o passe. Cinco segundos. Eleonora partiu com a bola dominada e executou a bandeja no segundo em que o placar eletrônico sinalizava o fim da partida. O time da universidade ganhara por um ponto.
Emoção total. As jogadoras se abraçavam chorando. Eleonora se viu apertada por um sem número de braços. Num instante estava sendo carregada pelas colegas, eufóricas. Sentia-se entorpecida. Levitava em uma corrente de alegria e vitória. Não se lembrava de uma vitória pela qual se sentisse mais feliz em toda a sua vida. No entanto, seus olhos procuravam alguém. Desceu dos ombros das companheiras e caminhou em direção ao banco. Entre abraços, apertos de mão e esfuziantes congratulações, estava Suzana. Eleonora parou atrás dela quando a treinadora recebia mais um abraço de felicitações.
- Suzana � Eleonora falou tão baixo no meio daquela algazarra que não soube como Suzana escutou. Mas, a verdade é que pareceu que a famosa jogadora sentiu muito mais do que ouviu a voz diminuta, porque enrijeceu o corpo instantaneamente e se voltou sem qualquer hesitação.
Não houve necessidade de palavras. Suzana abriu os braços com aquele indescritível sorriso estampado no belo rosto. Eleonora se atirou neles de um salto e agarrou o pescoço da mulher adorada com a sede e o abandono dos guerreiros extenuados.
Suzana enlaçou a pequena jogadora pela cintura e a manteve suspensa do chão, cingida por um abraço vigoroso e emocionado. Pouco importava que rosto e os finos cabelos loiros estivessem molhados de suor e de lágrimas ou que o uniforme grudado ao seu agasalho não estivesse menos encharcado ou que as mãos sujas e maltratadas pela bola áspera lhe agarrassem sofregamente pelos cabelos. Não, nada disso importava a não ser a inefável mistura de amor e de orgulho, ternura e reconhecimento que Suzana sentia naquele momento.
Ambas se seguravam com força quase aflita, desejosas de prolongar indefinidamente o instante perfeito. Eternizá-lo. Teriam ficado nesse abraço por muito tempo, mas logo se viram cercadas e separadas por outras pessoas exigindo atenção das duas maiores heroínas do memorável confronto. Suzana, principalmente, viu-se novamente cercada por repórteres e câmeras. Eleonora também foi requisitada para algumas entrevistas, mas logo em seguida foi orientada a seguir para o vestiário para se aprontar para receber a premiação. Eleonora procurou Suzana com os olhos e a encontrou pegando seus pertences no banco de reservas enquanto uma leva de jovens admiradores se aproximava dela com máquinas fotográficas e agendas em punho. Eleonora pensou que Suzana ainda teria alguma dificuldade para sair da quadra. "Não importa. Mais tarde, teremos muito tempo só para nós duas". Despreocupada, correu para o vestiário, rindo e brincando com as companheiras.
Após alguns minutos, Suzana conseguiu se desvencilhar dos fãs. Carinhosamente, mas com firmeza. Tinha que, pelo menos, colocar uma camiseta limpa, após tantos efusivos abraços. Achou melhor usar o escritório da administração do ginásio. O mais sensato era já estar pronta quando tivesse que entrar no vestiário e acabar com o pandemônio, que ela sabia que encontraria por lá, fingindo uma tremenda bronca por elas estarem atrasando a solenidade. Sorriu só de imaginar a cena. Dentro do escritório, soltou os cabelos, tirou a roupa amarrotada e abriu a bolsa esportiva para pegar uma outra limpa. Ouviu o celular. "Melhor ignorar. Mais tarde eu ligo de volta". Vestiu a camiseta do time. O telefone continuava a tocar. "Não são muitas pessoas que têm esse número". Curiosa, olhou no visor o número que estava chamando. Admirada, atendeu imediatamente.
- Alô.
- Miss Alcott?
- Albert?
- Thanks God, Miss Alcott. I called you so many times just today.
(Graças à Deus, Senhorita Alcott. Eu liguei para o seu telefone várias vezes só hoje )
- What�s happening? And, please, Albert. Call me Suzana. You know me since than I was a child.
(O que está acontecendo? E, por favor, Albert. Me chame de Suzana. Você me conhece desde que eu era uma criança.)
- How you which, Suzana. It�s Lady Alcott.
(Como queira, Suzana. É a Lady Alcott. )
- Mom?
( mãe? )
- She´s sick, Suzana. She�s very sick.
(Ela está doente, Suzana. Muito doente.)
- But�How�How I know nothing about this. My mother never said anything about some disease.
(Mas�Como�Como eu não sabia nada sobre isso. Minha mãe nunca disse qualquer coisa sobre doença.)
- You know your mother, Suzana. Lady Alcott didn�t want tell you about and she prohibited us to inform you about her medical condition. Actually, she must coming in Brazil right now, Suzana.
(Você conhece sua mãe, Suzana. Lady Alcott não quis lhe falar e ela proibiu que nós a informássemos sobre a condição médica dela. De fato, ela deve estar chegando agora mesmo no Brasil, Suzana.)
- Mom? Here! Why?
(Minha mãe? Aqui! Por que?)
- Well, She said than Brazil�s doctors are the most excellent professionals of the world. Personally, I think she wants stay next to you in this moment, my child.
(Bem, Ela disse que os médicos do Brasil são os melhores profissionais do mundo. Pessoalmente, eu penso que ela quer fique perto de você neste momento, minha criança.)
- What you mean, Albert?
(O que você quer dizer com isso, Albert?)
- Your mother is dying. She goes to the Albert Einstein Hospital in São Paulo. She doesn�t have much time. Hurry, Suzana, if you want to see your mother alive.
(Sua mãe está morrendo. Ela esta se internando no Hospital Albert Einstein em São Paulo. Ela não tem muito tempo. Se apresse, Suzana, se você quiser ver sua mãe viva.)
Suzana ficou alguns minutos em silêncio. Suspirou longamente e falou:
- All rigth. Tomorrow, I...
(Tudo bem. Amanhã, eu...)
- My child, listen me. Probably, your mother won�t have tomorrow.
(Minha criança, me escute. Provavelmente, sua mãe não terá um amanhã.)
Limpas, penteadas e vestidas com os agasalhos do time da universidade, a equipe recebeu a premiação. Eleonora ainda recebeu um troféu como a melhor jogadora do torneio. Entretanto, estava intrigada. Suzana ainda não aparecera. Teria acontecido alguma coisa? A alegria que deveria estar sentindo nesse momento esvaiu-se em uma sombra de preocupação. Sentia uma mão gelada apertando-lhe o coração, como um pressentimento funesto. Esperou apreensiva e impaciente a solenidade acabar para sair correndo atrás do seu amor. Mal terminou a solenidade, Eleonora saiu perguntando a todos o paradeiro da treinadora. O professor Jorge estava tão ignorante quanto ela, assim como o pessoal da organização. Saiu correndo do ginásio, balançando a medalha no peito e carregando o troféu recém conquistado. O Jaguar não estava lá. Confusa e já sentindo um bolo obstruindo-lhe a garganta, impedindo-a de respirar livremente, passou os olhos apreensivamente pelos arredores até que avistou alguém.
- Camilla � gritou em desespero.
Correu atrás da melhor amiga de Suzana sentindo a pulsação acelerada palpitando nas têmporas.
- Camilla, onde está Suzana?
- Foi embora.
- Como foi embora?
O rosto da jovem jogadora estava tão aflito que Camilla respondeu com o máximo de suavidade que conseguiu:
- Olha...Eleonora, não é? Ela não me disse. Falou apenas que tinha um bom motivo. Eu acredito. Conhecendo-a como eu conheço, eu sabia que não deveria perguntar mais nada. Ela voltou para capital e nem mesmo permitiu que eu a acompanhasse.
Eleonora permaneceu olhando para Camilla com os olhos fixos e uma expressão completamente atônita, repentinamente sabendo o que é se sentir oca por dentro. Camilla ainda comentou antes de se retirar:
- Eu sinto muito.
O time viajou na semana seguinte para a capital a fim de participar pela primeira vez da Liga Nacional junto aos grandes times profissionais do país, novamente sob a direção do Professor Leônidas. Eleonora não foi. Caiu doente por quinze dias, vítima de uma febre e de uma apatia inexplicáveis.
 
 
Parte 2
 
 
09 anos depois...
 
Prólogo
 
- Eu estou ótima, mãe...Não, não está muito frio por aqui...Sim, eu estou me agasalhando. Mãe! Eu não sou mais uma criança! Use esta sua tagarelice para alguma coisa útil. Como está o meu sobrinho? � Eleonora mudou a face para um sorriso largo quando a mãe começou a contar as traquinagens do pequeno Matheus. André, irmão de Eleonora, fora pai aos vinte anos, e o sobrinho de dois anos era o xodó da tia coruja. Não bastasse o fato de ser uma criança linda e esperta, ele era a cara da tia � loirinho, olhos verdes e o mesmo sorriso cativante e irresistível. Eleonora o adorava. Depois de alguns minutos, despediu-se da mãe recomendando beijos para o pai e o irmão. Rapidamente, o seu pensamento voltou-se para o trabalho. Olhou para o relógio.
- Deus, oito e quarenta! Estou atrasada.
Com um mestrado em esportes coletivos de alta performance e diversas especializações específicas para o basquete, após uma elogiada temporada como preparadora física do time campeão paulista e brasileiro de basquetebol, fora convidada para compor a comissão técnica da seleção brasileira de basquete feminino em preparação para o campeonato mundial. Exultou de alegria e aceitou prontamente. Colocar os seus conhecimentos de anos de estudos em favor de uma seleção nacional, fora o que sempre sonhara. Agora, trabalhava intensamente com as atletas do selecionado brasileiro, treinando em Curitiba por dois meses antes do mundial.
Pegou a pasta sobre a cama do apart-hotel no qual morava há dez dias e saiu apressada. A seleção estava toda hospedada num recém inaugurado apart-hotel de propriedade de um dos seus patrocinadores. Tão novo, aliás, que em alguns andares ainda não haviam telefones instalados. Era o caso do quarto de Eleonora que, no entanto, pouco se aborreceu, pois o seu apartamento era um dos que possuía um pequeno luxo que ela, particularmente, adorava: uma banheira.
Por fim, após alguns dias de trabalho com a seleção, Eleonora pôde perceber que esta era uma equipe realmente habilidosa. A melhor em muitos anos. Estava feliz em fazer parte dela.
A única coisa que a aborrecia era estar longe de Luciana, bela e competente cardiologista com quem era casada há dois anos. Moravam em São Paulo num aconchegante apartamento em Vila Mariana dividido com Bertrand, um angorá cinza indolente e autoritário. Conheceram-se na residência de um casal de amigas em comum, logo depois de Eleonora voltar de sua especialização em Moscou. Eleonora sentiu-se imediatamente atraída pelos olhos castanhos profundos e suaves, e pelo sorriso caloroso e tranqüilo de covinhas quase infantis. Além disso, Luciana era muito bonita. Cabelos castanhos compridos, finos e ondulados. Tez clara e rosada. Nariz pequeno, boca de lábios finos, porém bem feitos. Estatura mediana, cerca de 1m 70cm, quadris largos, coxas grossas e firmes � a típica mulher brasileira. Eleonora não conteve um suspiro. Estava com saudade. Depois do treino, ligaria para a sua mulher.
 
 
Eleonora entrou no ginásio as nove em ponto daquela segunda-feira, início da segunda semana de treinamento da seleção. O time já estava todo lá. Procurou a técnica, Regina, por toda a quadra para se desculpar pelo atraso. Afinal, pedira para seguir para o moderno Centro de Treinamento onde treinava o selecionado brasileiro em seu próprio carro e não no ônibus da equipe - como de praxe � porque pretendia utilizar o horário de almoço e início da tarde, antes do segundo treino do dia, para rápidos assuntos particulares. Leia-se: procurar presentes para o sobrinho que faria três anos dali a alguns dias. Não gostaria que o seu presente chegasse depois da data do aniversário.
Enfim, encontrou-a no flanco lateral direito, cercada pelos demais componentes da comissão técnica e mais uma figura alta, escutando-a, com uma postura atenta e grave. O coração de Eleonora deu um salto. Ela sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Pensava estar mais preparada, mas as suas reações físicas involuntárias à simples percepção daquela presença a deixaram irritada. "Diabos, você é adulta, profissional e casada. Controle-se". Respirou fundo. Sentindo-se mais segura, caminhou até o grupo. Regina a notou se aproximando.
- Eleonora, venha cá. Deixe eu te apresentar uma atleta excepcional.
"Eleonora... Não pode ser". Suzana virou o rosto, vagarosamente, para trás. Sentiu uma mão gelada apertar-lhe o estômago. Seus olhos azuis brilharam levemente de surpresa. A mulher jovem e loira aproximou-se andando calma e naturalmente. Olhou com firmeza para o rosto da morena alta e estendeu a mão:
- Como vai, Suzana?
A técnica passou os olhos de uma para outra, atônita.
- Vocês se conhecem?
- Sim � Suzana respondeu simplesmente e apertou a mão estendida à sua frente. � Como vai, Eleonora.
 
I
 
 
- Então é isso, Eleonora. Suzana somente se apresentou hoje porque ainda estava finalizando o tratamento terapêutico da sua lesão na coxa esquerda. Ela está parada a um mês e meio. É de se esperar que, no momento, não possa treinar com o resto do time. Por isso, ela terá que fazer um treinamento à parte até que adquira condições físicas para se juntar à equipe.
- Mas, porque eu? � Eleonora perguntou à técnica, controlando-se para não demonstrar que estava à beira da histeria.
- Não seja modesta, Elê � Regina retrucou. � Dê uma olhada no seu currículo. Você é, obviamente, a mais preparada para colocar Suzana em forma outra vez.
- Não é isso. É que...E o restante da equipe, Regina? Eu também sou a preparadora física delas. Por que você não coloca o Oscar? � disse, referindo �se ao auxiliar técnico. - Ele é experiente e, com certeza, desempenhará o trabalho tão bem quanto eu e...
- Eleonora � cortou a técnica com um leve toque de irritação. � Eu sei que você é a preparadora técnica de toda a seleção, tanto quanto sei da sua capacidade profissional!
Regina respirou fundo e continuou com mais calma:
- Nós já temos o planejamento da preparação física do time, elaborado justamente por você, para as próximas semanas. Qualquer dúvida ou necessidade de reorganização do trabalho...Ora! Nós somos uma equipe. Nós nos reuniremos e resolveremos as pendências. Agora, Elê, a seleção necessita das suas habilidades para um trabalho especialíssimo. Eu não preciso te lembrar da importância de uma jogadora como Suzana Alcott para a seleção, preciso?
- Não...
- Então, estamos combinadas. Vocês começam amanhã, às oito. Suzana prefere começar mais cedo. Alguma objeção?
- Não.
- Ótimo.
 
Exatamente as sete e quarenta e cinco, Eleonora entrou com o seu carro no estacionamento do Centro de Treinamento. Pelo menos enquanto durasse o treino individual de Suzana, ela teria que vir de carro, pois o ônibus da seleção saía do apart-hotel um pouco mais tarde. Já estacionava o automóvel quando se lembrou de que nem ao menos procurara saber como Suzana chegaria ao treino. Suspirou com raiva e um certo desalento, estava dispersa demais. Não podia dar-se ao luxo de ser negligente dessa forma. Entrou no ginásio com o cenho carregado por uma expressão de claro aborrecimento consigo mesma. Para sua surpresa, Suzana já se encontrava lá.
- Bom dia � cumprimentou Eleonora, educadamente, esforçando-se em disfarçar a contrariedade instalada em seu rosto delicado.
- Bom dia � respondeu Suzana, sem demonstrar sinal de ter identificado os indícios de irritação evidentes no rosto de sua nova preparadores física.
Eleonora prosseguiu sem perda e tempo:
- Nós iremos, hoje, proceder a uma meticulosa avaliação das suas condições físicas atuais mediante alguns testes pré-definidos por mim. Pretendo ser o mais minuciosa possível a fim ordenar um planejamento específico mais eficiente. Tudo bem?
Suzana apenas assentiu com a cabeça.
Eleonora logo se esqueceu da sua irritação inicial ao iniciar a avaliação com a jogadora. Concentrada em seu trabalho, reservou-lhe todos os seus esforços e pensamentos até que se desse por satisfeita com a bateria de testes.
Ao final da avaliação, Suzana estava suada e ligeiramente arfante, mas totalmente compenetrada. Submetera-se aos testes com seriedade e disciplina. Em silêncio, o mesmo que manteve durante toda a duração dos testes, andou em direção à sua bolsa pensando com saudades em um bom e relaxante banho. Disciplinada, no entanto, esperava pacientemente as ponderações da sua preparadora física.
Ainda fazendo algumas anotações na prancheta, a pequena loira ergueu os olhos e observou discretamente a mulher à sua frente que, distraída, enxugava com uma toalha o suor do rosto e do pescoço. Suzana estava mais magra e mais musculosa. Possivelmente, resultado dos anos como profissional da WNBA. Nove anos depois, a não ser por algumas poucas rugas no canto dos olhos, ela continuava com o mesmo belo rosto. Talvez...Um quê de amargura pairasse, discreto, dentro daqueles olhos azuis. Um traço que ela não carregava mesmo naquela época de dúvida e aflição - quando não sabia se poderia voltar a jogar - na qual Eleonora a conhecera. De repente, Suzana virou o rosto e pegou Eleonora observando-a. Enrubescida, a pequena loira baixou os olhos rapidamente para a prancheta e, um tanto encabulada, falou mais apressada que o necessário:
- É isso. Vou passar o resto do dia planejando o seu treinamento. Você tem a tarde livre. Aproveite, é a última. Amanhã começaremos com tudo. Ok?
- That�s ok. Actually, I�m feeling well and...Sorry, quero dizer, me desculpe, eu não tenho falado muito português nos últimos anos � justificou-se Suzana. - Claro, está ótimo para mim. Eu estou me sentindo muito bem e você pode me forçar o quanto julgar conveniente.
- Então, estamos combinadas. E, a propósito, você pode se expressar em inglês quando quiser. Eu sou fluente em inglês e espanhol e me arranjo em francês e russo.
- É mesmo? � perguntou Suzana, visivelmente impressionada.
- É � respondeu laconicamente, Eleonora. � Bem, já vou indo � bateu a mão sobre a prancheta. � Ainda tenho muito o que fazer.
Suzana a viu saindo, andando com a mesma graciosidade da qual se lembrava, acrescida, para o seu inesperado deleite, de um balouçar insinuante de mulher consciente da sua feminilidade. Num impulso, Suzana a chamou:
- Eleonora!
Eleonora estancou e se virou.
- Sim.
- Eu...- Suzana assustou-se com a inexpressividade, quase frieza, dos olhos verdes nos quais ela só se lembrava de ter visto vivacidade, calor e amor. Ficou momentaneamente sem palavras. Recuperou-se em seguida.
- É...Obrigada. Eu pude perceber o quanto você é competente. Estou grata por você estar cuidando da minha recuperação física.
- Tudo bem � Eleonora respondeu e esperou alguns instantes para ver se Suzana diria mais alguma coisa. Como ela não o fizesse, acenou com a cabeça e foi embora.
Suzana respirou profundamente. "Meu Deus, ela está mais bonita do que eu me lembro. Os fantasmas realmente voltam à vida... E, nesse caso particular, mais atraentes e perigosos do que nunca".
A morena alta balançou fortemente a cabeça e falou alto para si mesma:
- Concentration, focus and hard work, Suzana. That�s all you need, girl.
Pegou a bolsa e seguiu para o vestiário.
 
Eleonora saiu caminhando aparentemente tranqüila. Quando entrou no carro, deitou a cabeça sobre o volante e tentou controlar a respiração descompassada.
- Não é possível que ela faça isso comigo até hoje � bateu a cabeça com força sobre o volante.
A verdade é que quando Suzana a chamara com aquela inesquecível voz grave e aveludada, ele quase tivera um ataque cardíaco, tamanho o salto que o seu coração dera. Sentiu-o batendo nas têmporas quando se virou para ouvir o que ela tinha a dizer. Tratou-a friamente e, no entanto, saiu rezando para que as suas pernas não tremessem.
- Droga, droga! � bateu as mãos com raiva no inocente volante. � Preciso falar com Luciana.
Deu a partida convicta de que a voz da sua esposa lhe devolveria a calma de que tanto precisava.
 
 
II
 
 
- Meu Deus, pequena! Você deve realmente estar sentindo a minha falta � Luciana deu uma risada leve e deliciada.
- Estou mesmo, amor. Minha cama está fria. Eu não escuto mais passos furtivos invadindo a cozinha de madrugada. Eu não encontro mais o litro de leite esquecido aberto sobre a pia, de manhã. Não há toalhas molhadas no chão do banheiro. Isso aqui está horrível!
- Meu Pai! O caso é grave! � Luciana riu alto desta vez. - Você está sentindo falta do que mais odeia que eu faça. Eu também estou morrendo de saudade, meu amor, mas neste próximo fim de semana eu não posso, pequena. Tenho uma cirurgia delicadíssima marcada para sexta-feira e vou acompanhar atentamente o paciente pelo menos pelas próximas quarenta e oito horas. Mas, na semana seguinte, eu prometo que vou te ver aí em Curitiba. Eu prometo...Eu te amo.
- Eu te amo - Eleonora desligou o telefone sentindo-se bem mais calma. Amava e era amada. "Ao inferno com Suzana Alcott". Vestiu o pijama e foi dormir confiante de que há muito exorcizara o espectro alto e moreno que lhe assombrara por tanto tempo.
Apesar do sobressalto inicial e diferentemente do que Eleonora receava, o treinamento durante o restante da semana transcorreu sem maiores percalços e conforme o programado. A verdade é que Suzana tornava o seu trabalho muito fácil. Era determinada e disciplinada, executava todos os exercícios sem uma sombra de reclamação. Educada e atenta, não era necessário dizer mais do que uma vez o que a preparadora física queria que ela executasse e se acaso lhe sobrevinha alguma dúvida quanto ao exercício, explanava-a com respeitosa cortesia. Eleonora começava a sentir-se menos receosa de não conseguir trabalhar tranqüilamente com Suzana.
A comoção inicial fora apenas o choque do reencontro após tantos anos. Só isso!
As coisas estavam se acomodando onde deveriam: um treinamento feito com planejamento e aplicado com eficiência pela treinadora, uma dedicação diligente por parte da jogadora e, por fim, um relacionamento entre mulheres adultas e profissionais dentro dos limites do profissionalismo e da polidez. Eleonora sentia-se mais leve.
Suzana, por sua vez, observava com cuidadosa discrição e crescente interesse essa "nova" Eleonora. Ultrapassada a natural surpresa do reencontro inesperado e sem deixar de se aplicar com a costumeira determinação ao sempre exaustivo início de treinamento de condicionamento físico, a jogadora não podia deixar de notar que o passar dos anos fizera muito bem à pequena loira. Ao belo corpo que já possuía quando pouco mais que uma adolescente, o tempo acrescentara curvas mais audaciosas, ainda que preservasse a musculatura rija e definida. À voz, que manteve o tom meigo e agradável, sobreveio um timbre mais firme, mais baixo e musical. No entanto, o que impressionava era a postura pessoal � segura, amadurecida, completamente ciente dos seus atributos físicos e da sua competência profissional.
Eleonora se tornara uma mulher linda e interessante.
Suzana tratou de afugentar tais pensamentos e de continuar, com dedicação redobrada, os exercícios que estava executando. Afinal, era para isso que ela estava ali...Que ambas estavam ali.
Ao final da semana, após o treino de sábado, Eleonora apresentou um relatório dos primeiros dias de treinamento na reunião habitual de fim de semana da comissão técnica. Trocou algumas impressões com Aline, a fisioterapeuta da equipe e com Oscar, o auxiliar-técnico. Por fim, saiu da reunião conversando informalmente com a técnica Regina que demonstrou claramente o seu contentamento.
- Estou muito satisfeita, Elê. Os resultados iniciais estão melhores do que eu esperava. A continuar esta evolução, Suzana poderá estar treinando com o resto da equipe em pouco tempo.
- É um tanto precoce afirmar categoricamente esta rápida prontidão � ponderou Eleonora, prudentemente. � Mas, eu acredito que sim � concordou com um sorriso e completou: - O maior mérito, contudo, cabe a Suzana que é muito aplicada.
- É...Vocês formam uma dupla perfeita. A propósito, como vocês se conheceram?
Eleonora hesitou um pouco, mas, por fim, falou simplesmente:
- Você se lembra de quando Suzana Alcott treinou, por pouco tempo, um time de basquetebol de uma universidade do interior paulista...Mais ou menos há uns dez anos atrás?
- Lembro, lembro. Foi quando ela estava se recuperando de uma lesão no joelho...Pouca gente acreditava que ela voltaria a jogar, naquela época.
- Pois, é. Eu era jogadora daquela equipe. Suzana foi minha treinadora.
- Que coincidência, hein? Agora é você quem a treina.
- É...- Eleonora concordou laconicamente. Despediu-se de Regina rapidamente e foi para o quarto descansar.
 
A segunda-feira chegou mais fria em relação aos últimos dias, prenunciando uma semana bem mais gelada que a anterior. Friorenta, Eleonora agasalhou-se bem, equipou-se com gorro e luvas e saiu para mais uma semana de trabalho com a famosa Suzana Alcott. Dirigia o carro pensando na inesperada facilidade com que estava trabalhando com Suzana e antevendo, numa perspectiva otimista, contudo palpável, uma recuperação física mais rápida do que ela esperava, a julgar pelo excelente resultado dos primeiros dias. Pelo andar da carruagem, a maior ala brasileira de todos os tempos não demoraria a treinar com o resto do grupo. Além do mais, em poucos dias ela estaria com Luciana. Sorriu satisfeita com a perspectiva. Foi ao encontro de Suzana com excelente humor.
À jogadora, não passou despercebida a mudança de humor da sua preparadora física. Eleonora estava mais descontraída e chegou a fazer algumas brincadeiras durante o treino. Em alguns momentos, pareceu a Elê de outros tempos, com suas traquinagens e o seu eterno sorriso meigo. Encantada e disposta a prolongar a trégua amigável o máximo possível, Suzana mostrou-se também mais solta e até se permitiu ser discretamente charmosa. Para o alívio de ambas, apesar do esforço sacrificante atinente ao treinamento de resistência física, o clima no ginásio beirava ao agradável.
Naquela sexta-feira, ao final da manhã, Suzana fazia o alongamento final, supervisionado por Eleonora, enquanto conversavam tranqüilamente sobre o processo de recuperação atlética de Suzana que se mostrava interessada em cada detalhe do planejamento traçado por Eleonora. A jovem preparadora física respondia com segurança e paciência às indagações da jogadora e parecia achar coerente que ela quisesse saber mais sobre o treinamento ao qual se dedicava com tanto empenho.
A verdade é que Suzana elaborava perguntas somente para ouvi-la falar movimentando as mãos alvas e delicadas enquanto discorria apaixonadamente sobre os meandros do seu trabalho. Nesses momentos, Suzana podia observá-la livremente sem trair a atração crescente que sentia a cada dia que passava. Fato perfeitamente plausível, pensava Suzana. Afinal, Eleonora era bonita, inteligente, charmosa...Nada mais natural que ela se sentisse atraída.
Apesar de pensar assim, no entanto, a mulher mais velha esforçava-se por disfarçar seus sentimentos. Não só para manter o relacionamento dentro dos limites estritamente profissionais, amigáveis quando muito, mas porque Suzana previa que não deveria transpor a cerca da simples e inofensiva camaradagem se não quisesse afastar esta afável Eleonora de si. A jogadora sentia, intimamente, que o fato delas terem tido uma história passada e...Mal terminada era a grande sombra que cobria a naturalidade de qualquer relacionamento entre ambas.
Suzana ainda não se dera conta da dimensão dessa sombra.
Nesse final de manhã, no entanto, estavam ambas de excelente humor. Terminado o alongamento, Suzana pegou a sua bolsa para se dirigir ao vestiário e tomar o banho costumeiro. Ficou surpresa ao notar que Eleonora a seguia ao invés de se despedir e tomar o caminho do hotel. Suzana parou e fitou a preparadora com o seu típico olhar indagador, erguendo uma das sobrancelhas. Eleonora também estancou e brincou, provocadora:
- Que foi? O vestiário é privativo da grande Suzana Alcott?
Suzana embarcou na brincadeira.
- Para você, "little boss", qualquer pessoa é grande.
- Ei! � Eleonora reclamou, indignada.
Suzana gargalhou com gosto.
- Você começou � continuou ainda sorrindo. � Eu só fiquei curiosa com a mudança de hábito.
- "Tá" legal � concordou a loirinha. � Eu preciso tomar banho aqui hoje porque não terei tempo de ir até ao hotel. A comissão técnica vai se reunir com o presidente da Confederação Brasileira de Basquetebol para um almoço. Você sabe...Um social básico seguido de uma apresentação informal do andamento dos treinamentos da seleção feminina � Eleonora fez uma careta de tédio.
Suzana respondeu com uma cara de fingida consternação.
- Acredite, Elê. Eu entendo per-fei-ta-men-te.
Se Eleonora percebeu que Suzana a havia chamado pelo apelido carinhoso, não demonstrou. Foram juntas para o vestiário. Uma vez dentro dele, colocaram as bolsas sobre o comprido banco de madeira de frente aos chuveiros e Suzana, apontando para o último boxe, informou:
- Só este último, o terceiro antes dele e este à minha frente, têm água quente. O último é o melhor de todos. Já que você tem um importante compromisso social, vou, extraordinariamente, ceder-lhe o meu chuveiro privativo.
Eleonora ensaiou uma mesura pomposa.
- Obrigada, Majestade. Jamais me esquecerei da sua condescendência.
Após risos mútuos e descontraídos, esqueceram-se momentaneamente uma da outra, entretidas em retirar roupas limpas e peças de toalete das respectivas bolsas esportivas para o merecido banho.
Suzana, com a naturalidade de quem fizera isso a vida inteira, principiou a tirar o uniforme de treino molhado de suor com rapidez e praticidade. Completamente nua, soltou, por fim, a farta cabeleira negra sobre as costas, sacundido os fios sedosos molemente de um lado para o outro e espalhando pelo recinto seu cheiro leve de lavanda que remontava, sutilmente, ao suave olor de lençóis perfumados.
Foi nesse instante que Eleonora, debruçada sobre os seus pertences e ainda vestida porque organizando, cuidadosamente, o agasalho que usaria no encontro a seguir, perceptiva à tênue mudança do ambiente, voltou um rabo de olho para a sua companheira de vestiário no momento em que ela lhe virava o corpo longilíneo em toda a sua esplendorosa nudez. A mulher mais baixa empertigou-se imediatamente como se tivesse levado um choque. Parada, muda e estupidificada, de frente àquele monumento em bronze dourado, a loirinha não pôde evitar correr os olhos surpresos e curiosos pelo corpo que se lhe apresentava sublime e desnudo: ombros largos seguidos por braços fortes e torneados, os seios fartos e firmes de mamilos cor de chocolate, o abdômen rijo e definido descendo para o triângulo de cachos negros cuidadosamente aparados e caprichosamente ladeados pela perfeição simétrica de pernas morenas, musculosas e longas. "Deus, ninguém merece um corpo assim".
E, no entanto, a pura e simples constatação era a de que Suzana era...Não! Continuava magnífica!
A morena respondeu ao exame com um dos seus raros sorrisos que pareciam iluminar todo o espaço à sua volta.
Tudo não demorou mais do que poucos segundos. Subitamente desperta do seu devaneio contemplativo, Eleonora, enrubescida até o pescoço, pegou apressada a sua toalha e o seu nécessaire balbuciando qualquer coisa como estar atrasada para encontrar o resto da comissão técnica e entrou de roupa e tudo no boxe do chuveiro.
Tomou um banho à jato mesmo com o incômodo de ter de se livrar das roupas no aperto do boxe minúsculo e dependurá-las amontoadas sobre as divisórias. Quando terminou, ainda escutava o som do chuveiro de Suzana. Por algum motivo que não conseguiu divisar, sentira-se imensamente acanhada com o incidente e, mais do isso, irritada com a sua reação. Não era mais uma adolescente para se perturbar tanto à visão de um corpo bonito (Lindíssimo, dizia-lhe uma impertinente voz interior). Repassou mentalmente e com calma o curto incidente. "Que bobagem, Eleonora. Você correu para o boxe do banheiro como para dentro dos portões do Convento das Irmãs Carmelitas. Que merda! Você é uma mulher adulta".
Para o seu maior embaraço, todo o acontecimento pareceu-lhe vergonhosamente ridículo. "Que merda! Merda!".
Terminou de calçar o último tênis ao mesmo tempo em que ouvia o chuveiro onde se banhava Suzana ser fechado e ver uma longa mão morena pegar a toalha sobre a porta de acrílico cinza. Levantou-se já pronta para sair e, decidida a manter uma postura madura, resolveu tratar o episódio com indiferente naturalidade. Despediu-se jovialmente da jogadora:
- Suzana, cuidado para não ficar mais enrugada que um maracujá de gaveta. Já vou indo. Até mais tarde.
A jovem treinadora ainda pôde ouvir algo parecido com bom almoço e até mais tarde antes de chegar ao corredor que dava para a quadra e alcançar a passos largos o pátio do estacionamento. Procurou afastar da cabeça qualquer pensamento traiçoeiro sobre o motivo de ter resolvido pentear os cabelos somente dentro do carro.
 
O treino da tarde foi tranqüilo e sem qualquer menção a respeito do "episódio vestiário". Suzana perguntou educadamente sobre o almoço e Eleonora teceu rápidos comentários sobre a chatice de sempre. Ambas se concentraram no programa a ser executado e apesar de diminuídas as brincadeiras, o ambiente no ginásio continuou ameno e amigável.
Eleonora acabou por se convencer de que estava há muito tempo sem a sua esposa e, portanto, sem sexo além de carente e emocionalmente fragilizada. Creditou a isso a sua inusitada reação à nudez de Suzana, que, afinal de contas, era uma bela e atraente mulher. Racionalizou, equacionou e, mais calma, foi trabalhar sentindo-se realmente tranqüilizada.
Apesar de não deixar escapar um sinal que denunciasse os seus pensamentos conflitantes e dedicar-se com a costumeira disciplina ao puxado treinamento físico, tranqüilidade era uma comodidade da qual Suzana não usufruía naquela tarde, principalmente, após observar com um misto de satisfação e estranhamento, o comportamento de Eleonora no banheiro.
Estranhamento, porque...Ora! Aquela Eleonora em nada lembrava a jovem desinibida, beirando à pura audácia, que fora a amante mais sensual e atrevida que jamais tivera. Satisfeita, porque constatara, sem sombra de dúvida, que a sua linda preparadora física ainda sentia algo por ela...Ah! Sentia...E isso, de certa forma lhe aliviava do fardo de saber-se terrivelmente atraída...De novo...Por sua antiga paixão. Mas não lhe furtava a capacidade de ouvir a prudência sussurrando-lhe ao ouvido que o melhor era deixar tudo como estava e torcer para que ambas escapassem incólumes por este período de doce provação.
Suzana pensava nisso enquanto fechava o zíper da bolsa azul e amarela da seleção, terminado o treino vespertino e após tomar a sua obrigatória chuveirada.
Passava das 18:30. Já era noite. Saiu para o frio do final do mês de julho na capital paranaense pensando no calor reconfortante do controle climático automático do seu Lexus SC 430 conversível parado no estacionamento do centro de treinamento da seleção. Entrou no carro com o top de alumínio, obviamente, erguido, ligou o motor e aproveitou, por um momento, o calor agradável que tomou conta do veículo sofisticado. Engatou a marcha ré e só então percebeu a figura pequena na frente do ginásio de gorro cor de cereja a cobrir-lhe os cabelos dourados e as orelhas delicadas, esfregando as mãos freneticamente. Suzana dirigiu o carro até Eleonora.
- O que você está fazendo aqui até agora, chefe? � perguntou Suzana, em tom brincalhão.
- Estou esperando um táxi que chamei há quase trinta minutos e que até agora não se dignou a dar as caras.
- Pelo amor de Deus, Eleonora! Nós estamos hospedadas no mesmo local. Você podia ter me dito que estava sem condução. O que aconteceu com o seu carro?
- Deu prego na saída do almoço. Você acredita? Injeção eletrônica, segundo o mecânico. Vou ficar sem carro até amanhã à tarde. E, quanto a você...Bom, eu não queria incomodá-la.
- Não é incômodo algum � Suzana abriu a porta do carro. � Entre, por favor.
Eleonora pareceu hesitar um instante, mas entrou. Não conteve um suspiro de alívio com a agradável temperatura do interior do veículo. Suzana comentou com um sorriso amável;
- Bem melhor, não?
Eleonora olhou para os olhos azuis carregados de simpatia e sorriu de volta com desenvoltura.
- Sem dúvida.
Suzana colocou uma música suave no cd player e seguiu em frente. Teceu alguns comentários gerais sobre a cidade e Eleonora concordou com a opinião de que Curitiba era realmente bonita e aprazível. Em seguida, passaram a conversar sobre o nível técnico das seleções que enfrentariam em breve. Em pouco tempo, ambas sentiam-se à vontade, discutindo entusiasticamente sobre um tema que era interessante a ambas. Suzana conhecia grande parte das melhores jogadoras do mundo, porque jogara inúmeras vezes com e contra elas. Eleonora passara horas infindáveis estudando o estilo e as táticas de cada time que a seleção brasileira poderia enfrentar em cada etapa do mundial. Foi com um certo pesar que interromperam a conversa ao chegarem ao apart-hotel.
- Obrigada, Suzana. Foi muito gentil de sua parte � Eleonora disse, olhando para Suzana que balançou a cabeça e respondeu:
- Não por isso. Foi um prazer.
Eleonora virou-se para abrir a porta. Contudo, voltou o rosto para comentar, quase divertida:
- Você sempre gostou de carros caros e sofisticados, não é Suzana?
- Não exatamente...- Suzana ia completar, Eleonora falou na frente.
- Já sei, já sei. Só quando você gosta dele. E, se você gosta...
- Eu compro � completou Suzana com uma breve gargalhada.
Eleonora também soltou uma risada descontraída e pensou, num átimo, que afinal, ela poderia, sim, ter uma relação amigável com Suzana Alcott.
- Bem, vou subir e tomar aquele banho relaxante...E, parabéns. Muito bonito o seu novo carro, Suzana...Quase tanto quanto aquele Jaguar que você tinha � Eleonora se arrependeu no instante em que tocou no assunto do carro que lhe trazia tantas lembranças. Doces e amargas. Ficou repentinamente rígida. Abriu a porta, apressada e com força desnecessária.
- Que eu tenho � apressou-se em dizer, Suzana.
- O que? � voltou-se Eleonora para entender o significado do comentário.
- Do Jaguar que eu tenho � explicou, Suzana, com uma calma monástica. � Eu nunca o vendi.
Eleonora ficou um instante olhando para o rosto bonito e anguloso completamente muda. Balbuciou uma despedida quase inaudível e saiu sem mais qualquer outro comentário.
 
 
 
III
 
 
 
 
- Eu não acredito, Luciana! O que foi que aconteceu?
- O meu paciente teve uma parada cardíaca no meio da madrugada. Eu fui chamada às pressas às três da manhã, Elê. Conseguimos reanimá-lo, mas teremos que fazer uma nova intervenção cirúrgica o mais rápido possível. Eu estou muito cansada. Preciso repousar um pouco agora, pois terei que enfrentar uma cirurgia de, no mínimo, cinco horas dentro em pouco. Eu sinto muito, amor.
- Não...Você é que me desculpe, Lu. Eu só fiquei decepcionada. Muito decepcionada. Acordei achando que em poucas horas eu estaria ao seu lado. E, agora, essa notícia...Estou com tanta saudade, amor. Olha...Me liga quando tudo terminar, está bem? Eu quero saber como você está e...Também o seu paciente � o tom ficou mais firme. - Prometa-me que não vai ficar sem se alimentar, Dra Luciana. Eu te conheço quando você fica ansiosa. Não quero nem ouvir falar de outro tratamento para úlcera, ouviu bem?
- Em claro e bom tom, sargento � Luciana brincou e continuou suavemente. - O que eu faria sem você, minha doce Eleonora? Até mais tarde, amor. Eu ligo assim que sair do centro cirúrgico.
Eleonora desceu para a recepção por volta das sete e quinze, tempo suficiente para pedir um táxi e não chegar atrasada ao treino. Luciana ligara às seis da manhã para a dar a triste notícia de que não poderia mais viajar para Curitiba. Falaram-se por quase uma hora. Eleonora compreendeu a emergência que afastara dela a sua mulher, mais uma vez, por mais alguns dias, mas não conseguia deixar de se sentir triste e impotente com o fato. "Não é fácil ser esposa de médica", cogitava, com um sorriso melancólico, andando cabisbaixa pelo hall de entrada do hotel.
- Está tudo bem?
A voz grave com um perceptível tom de preocupação fez a preparadora física erguer a cabeça loira e encarar Suzana Alcott levantando-se de uma das poltronas do hall.
- Suzana?
- Bom dia, Eleonora. Você me disse ontem que ficaria sem condução até hoje à tarde. O rapaz da recepção informou que você ainda não havia descido, portanto eu resolvi esperar aqui para irmos juntas � olhou com apreensão para o rosto abatido da jovem mulher à sua frente e repetiu: - Você está bem?
- Estou sim, obrigada. Não dormi muito bem esta noite. É isso. Gentileza sua me esperar. Não precisava...
- Claro que precisava! Somos uma equipe, esqueceu? � Suzana sorriu levemente. � Vamos, "little boss", prometo não te forçar muito esta manhã � falou com uma voz brincalhona e suave, ao mesmo tempo.
Eleonora teve que sorrir da brincadeira. Afinal, o papel de carrasco nazista era o dela, nessa história. Suzana podia ser extremamente delicada quando queria. Eleonora sabia disso.
 
 
No final da tarde daquele sábado, Eleonora terminava de expor à comissão técnica o seu relato semanal da evolução do trabalho de recuperação atlética de Suzana.
- Creio que mais uma semana e Suzana já terá condições de acompanhar o treinamento com o resto da equipe. Além do físico privilegiado, ela se dedica completamente ao treinamento que, como todo mundo sabe, não é nada fácil de suportar.
Regina assentiu com a cabeça, perguntou aos demais se tinham algum comentário a fazer e deu por encerrada a reunião. Saiu conversando com Eleonora sobre detalhes da preparação da seleção. De frente ao elevador, comentou:
- Mudando de assunto, Elê. O pessoal está combinando uma ida ao cinema. É uma boa chance de darmos todos uma espairecida. Vamos?
- Regina...Valeu. Mas o que eu quero mesmo é relaxar na banheira do meu quarto. Depois, um bom livro e "naninha". Mas, obrigada.
- Tuuuudo bem, mocinha reclusa. Se mudar de idéia... � Regina fez o sinal universal de "ligue-me", com as mãos.
Obrigada mais uma vez, Regina. Divirta-se.
Eleonora entrou no seu quarto por volta das 18:00 e ligou para o celular de Luciana, mas ela não atendeu. Devia estar no hospital. Em seguida, ligou para casa de sua mãe.
- Alô. André? Como vai, maninho? Onde está o meu garoto?
- Brincando feito um louco. Correndo pelo quintal inteiro. Encantado com a própria festa de aniversário. Você deveria estar aqui, Elê.
- Eu sei, meu querido. Eu gostaria muito. Ano que vem estarei aí, sem falta. Chame-o para mim, Dé.
- Está bem, maninha. Só pela Tia Lê mesmo ele largaria uma brincadeira para atender a um telefonema. Espere um minutinho.
Não demorou muito e Eleonora pôde escutar o esperado "Oi, Tia Lê". Falou alguns minutos com o pequeno Matheus. O suficiente para perguntar se ele gostara do presente que ela lhe enviara e se a festa estava boa até que a impaciência infantil exacerbada pelo som dos amiguinhos brincando, terminasse a conversa precocemente. Eleonora desligou com o sorriso nos lábios que o sobrinho adorado sempre lhe causava.
Encheu a banheira, ligou a hidromassagem e mergulhou no calor delicioso da água. Suspirou de prazer. Voltou o pensamento para a sua esposa. Estava mais conformada por ter que esperar mais uma semana para vê-la. Paciência!
O telefone tocou. Eleonora estendeu o braço e pegou o seu celular dentro do bolso do roupão dependurado ao lado da banheira.
- Alô.
- Amor?
- Oi, amor. Que bom ouvir a sua voz.
- Que bom ouvir você dizer isso. Eu percebi que você ligou, mas estava na UTI dando uma última olhada no estado do meu paciente. Ainda tenho uma pequena reunião com a minha equipe e não quis esperar chegar em casa para te ligar. Eu não vejo a hora de vir o próximo final de semana, minha pequena.
- Eu também, Lu � Eleonora falou bem languidamente. � Estou louca para ter você bem aqui juntinho de mim, dentro desta banheira extremamente inspiradora.
- Banheira?! Você está numa banheira?
- Aham � Eleonora continuou propositadamente bem devagar. - Nuazinha. Perfumada e...Totalmente bem disposta.
A voz de Luciana ficou baixa e enrouquecida:
- O que é isso? Uma tentativa de me matar?
- Longe disso! É mais um...Incentivo.
- É? Pois, mais um..."Incentivo" desse, e eu sou capaz de fretar um jatinho agora mesmo.
- Romântico, amor, muito romântico. Mas isso nos deixaria quebradas por anos a fio. Apenas...Venha o mais rápido que puder.
- Eu vou tentar chegar na quinta, está bem?
- Eu e a banheira estaremos esperando ansiosamente � brincou Eleonora, com malícia.
- Pequena, se eu não estivesse no meio da recepção do hospital com metade da minha equipe olhando para o meu rosto, você teria uma resposta à altura.
Eleonora deu uma risada sonora. Luciana completou:
- A propósito, pequena. Enviei uma pequena surpresa para você.
- Uma surpresa? Aqui para o Apart-Hotel?
- Deve estar chegando.
- Ah, Lu. O que é?
- Ei, é surpresa, garota! Depois você me liga e me conta o que achou.
- Tenho certeza de que vou adorar.
- Espero que sim. Tenho que desligar agora. Te amo.
- Te amo. Tchau.
Eleonora desligou de excelente humor e com um sorriso ainda pairando nos lábios, mergulhou a cabeça na água perfumada. Emergiu para escutar uma batida leve na porta. Como continuava sem telefone, um servidor do hotel vinha avisá-la pessoalmente no quarto quando havia algum recado para ela. Não teve dúvidas de que era a sua surpresa sendo entregue. Saiu da banheira apressada e ansiosa como uma criança. Vestiu o roupão de qualquer jeito. Nem se preocupou em se calçar ou com os cabelos molhados pingando sobre os ombros. Quase correu em direção à porta, mas quase desmaiou quando a abriu e deu de cara com...Suzana Alcott.
 
 
Por mais que Suzana refletisse, ela nunca conseguiria entender a capacidade que Eleonora tinha em conseguir deixá-la sem palavras. E, no entanto, bem à sua frente, com apenas um roupão amarrado frouxamente à cintura, o rosto e os cabelos molhados, deixando escapar gotas d�água que umedeciam sensualmente os cílios dourados e a boca rosada entreaberta de susto, estava a menina que a deixara completamente atordoada há quase uma década. Sim, a menina. Porque assim desalinhada, embaraçada e completamente enrubescida...Como ela parecia aquela garota de nove anos atrás!
Foi nesse momento que Suzana percebeu, entre a surpresa e o pasmo, num daqueles estalos repentinos, desconcertantes e inacreditáveis que nos sobrevêm sem aviso ou piedade, que ela não só desejava aquela mulher: ela era completamente louca por aquela loirinha linda e admirável...Deus! Ela sempre fora.
Suzana, imóvel, perplexa e sem reação, não conseguiu impedir a transparência do seu espanto em seu rosto visivelmente confuso ou o fluir desenfreado das suas lembranças e muito menos, o arfar da sua respiração descompassada denunciando toda a sua perturbação. A boca ficou repentinamente seca e os olhos se amiudaram quase escondidos por trás dos longos cílios negros.
Eleonora não sabia se fechava a porta na cara de Suzana, saía correndo de volta para o banheiro ou se desmaiava naquele exato instante, porque sensação de mal súbito não lhe faltava. Suzana era, definitivamente, a última pessoa do mundo que esperava ver nesse momento. E, como se não bastasse a cara abobalhada pelo susto e o fato de estar vestida daquela forma...Como ela conhecia aquele olhar!
Sentiu o corpo arrepiar-se incontrolavelmente. Irritada pela manifestação involuntária do seu corpo, conseguiu falar com dificuldade:
- Suzana.
- Nossa, Eleonora, me desculpe, eu...Tentei ligar...Bem, o rapaz da portaria disse que...O seu telefone não está...Você sabe...Ele me deixou vir aqui sem me anunciar porque me conhece e...
Aquela conversa confusa e desarticulada teve o poder de trazer Eleonora de volta do leve transe em que caiu, por alguns segundos, ao se deparar com Suzana em sua porta. Mais calma, chamou:
- Suzana...
A morena não deu sinais de que tinha ouvido.
- Me desculpe mesmo...
- Suzana!
- Sim?
- Eu entendi. Deixe eu me trocar, por favor, e então você me explica o que está acontecendo. Entre e feche a porta. Fique à vontade. Eu já volto
Alguns minutos depois, Eleonora apareceu vestida com um conjunto de jogging cor de rosa e chinelos, com os cabelos penteados e um par de óculos de grau com aro de tartaruga levemente avermelhado. Suzana a aguardava sentada no pequeno sofá da sala/cozinha do flat.
- Você está usando óculos?
Eleonora esboçou um breve sorriso.
- Somente quando eu sinto a vista um pouco cansada. Nada demais. E então? O que você quer falar comigo? � disse e fitou a morena alta com os olhos cor de esmeralda e o leve franzir de cenho aproximando as sobrancelhas - a sua expressão típica de atenta expectativa.
Suzana viu o tempo retroceder nove anos e novamente surgir à sua frente aquela pequena jogadora com seu adorável rostinho concentrado em cada palavra que ela dizia. Seu ventre contraiu-se dolorosamente.
- Como eu te disse...Desculpe, eu...Não queria te importunar em seu horário de descanso. Eu até poderia ter conversado com a Regina mesmo e ela te inteirar...Mas...Olha, o rapaz da portaria pode confirmar...Não há ninguém da equipe aqui, neste momento...Quero dizer...Só você...Quem, a bem da verdade, deveria ser a primeira a ser informada, mas...
Eleonora a interrompeu com um balançar impaciente das mãos.
- Suzana, em que lugar da sua vida você perdeu o dom de ser articulada?
A reposta veio imediata.
- No dia em que te conheci.
Eleonora ficou com a respiração suspensa. Não conseguiu emitir uma única palavra. Suzana prosseguiu:
- É incrível com eu sempre tive dificuldade em falar coerentemente com você. Mas, você sabe disso há muito tempo.
- Suzana � Eleonora falou baixinho. A mulher alta se levantou e andou em direção à pequena varanda à frente dela. Olhou para as luzes de Curitiba e suspirou longamente.
- Eu perco dois terços do meu vocabulário quando preciso te dizer algo importante e...Nesse momento...Bem...No instante em que eu te vi � Voltou os incríveis olhos azuis suplicantes para Eleonora. - Eu tenho tanto a falar...
A jovem loira abaixou o olhar defensivamente e falou com brusquidão:
- Não vejo o que você tenha a falar comigo, Suzana, senão sobre o treinamento. E quanto a isso, acredito que a nossa comunicação durante o treino seja bastante satisfatória. Você tem alguma reclamação?
Suzana passou as mãos pelo longo cabelo negro, expirou com força e não persistiu no assunto. Continuou com uma voz cansada, mas clara:
- Não, nenhuma...Certo! Bem, eu vou tentar ser sucinta. Vim aqui para informar-lhe de um compromisso de última hora e pedir que o meu treinamento comece um pouco mais tarde. Eu consegui há pouco um horário para fazer uma ultra-sonografia da minha coxa na manhã de segunda-feira. É uma medida preventiva aconselhada pelo meu médico. Eu poderia avisá-la amanhã, mas amanhã é domingo, dia em que as pessoas, em geral, tiram para descansar, para dar um passeio ou outro divertimento qualquer. Como disse, não queria importuná-la mais do que o necessário... É isso.
Eleonora respirou fundo. Sabia que tinha ficado irritada a ponto de ter sido rude. Tirou os óculos e passou a mão pelo rosto sentindo-se repentinamente exausta.
- Por mim, tudo bem, Suzana. Acho, inclusive, que é uma medida bastante pertinente. Você contatou a Aline, a nossa fisioterapeuta?
- Sim, ela vai me acompanhar.
- Ok. Podemos começar às dez. Está bom para você?
- Para mim está ótimo � respondeu Suzana. - Estamos combinadas, então, já vou.
Eleonora levantou-se rapidamente da poltrona para abrir a porta para a jogadora sair, mas, precipitada, tropeçou no próprio chinelo e tentou inutilmente dar um passo para recuperar o equilíbrio. Teria caído, inevitavelmente, se dois braços velozes não tivessem se adiantado e a amparado antes que ela fosse ao chão.
No momento em que segurou Eleonora, Suzana a trouxe para si ao mesmo tempo em que se ajoelhava sobre o assoalho. Eleonora a abraçou instintivamente. Num impulso, a jogadora apertou-a junto ao peito.
Suzana fechou os olhos. Seu coração batia descompassado. Aspirou o cheiro delicioso dos cabelos loiros. Sentiu a brandura dos braços de Eleonora em volta do seu pescoço, a maciez da tez aveludada do rosto claro e delicado contra o seu, e, admirada, pôde distinguir no próprio corpo a quase esquecida sensação de incandescência queimando-lhe o íntimo. Sensação esta, contraditoriamente interligada a outra - um frio abissal no estômago. Algo como o pressentimento de uma queda iminente e inevitável.
Eleonora viu-se, de súbito, aninhada no colo de Suzana, com o rosto abrigado na macia e perfumada cascata de cabelos negros. Por algum motivo obscuro, não se moveu imediatamente do lugar onde estava. Deixou-se ficar, sentindo o coração querer romper-lhe o peito e com a vaga, porém nítida impressão de que isso não era causado pelo alarme da ameaça do tombo. Enfim, passados alguns eternos segundos, quando Suzana afagou-lhe carinhosamente a face com a sua num movimento terno e íntimo, Eleonora, como quem acorda de um sonho, afastou o rosto, assustada. Empurrou Suzana pelos ombros desvencilhando-se do abraço e a olhou com os olhos verdes carregados de surpresa e espanto.
Permaneceram alguns segundos dessa maneira, cada uma tentando encontrar no rosto da outra a resposta para as suas reações. Suzana recuperou-se primeiro.
- Você está bem?
Eleonora não respondeu, continuou olhando fixamente para Suzana que insistiu um pouco preocupada.
- Eleonora, você se machucou?
A resposta da pequena loira foi levantar-se sem uma palavra e caminhar até a sacada como se precisasse de ar fresco para se equilibrar.
- Sim, Suzana, eu estou bem. Obrigada...Por me salvar de um tombo certo, e...Não, eu não me machuquei. Bem...Acredito que nós já tenhamos nos entendido. Então... - Eleonora soltou um suspiro incontrolável. - Será que você me poderia fazer um favor? Feche a porta quando sair. Eu agradeceria muito � disse Eleonora sem se virar para a mulher alta que a olhava com o coração apertado.
- Claro...Boa noite.
Eleonora não respondeu quando Suzana saiu silenciosamente. Não poderia. A sua voz sairia embargada por lágrimas grossas que já caíam dos olhos verdes e que logo se transformariam num choro soluçante, sentido e irrefreável, testemunhado apenas pelas luzes da cidade através da sacada.
 
 
IV
 
 
 
No domingo, praticamente toda a equipe tirou o dia para curtir o mais puro ócio. A maioria das jogadoras acordou tarde. Ficaram umas batendo papo na piscina do hotel, outras navegando na internet no cyber-café instalado ao lado da recepção.
Menos Suzana.
Ela não saiu do apartamento. Permaneceu quase todo o dia ensimesmada, refletindo sobre o episódio da noite anterior e no que aquilo realmente significaria dali para frente - a descoberta do seu asilado afeto e do poderoso desejo que ela já pressentia, mas que não avaliara a amplitude até o imprevisto acontecimento. O abraço repentino, a ternura e a vontade de protegê-la, a ânsia de amá-la, naquele momento, com toda a intensidade dos desejos libertos de algum baú cuidadosamente abrigado no sótão de seu coração. Por fim, a reação da mulher mais jovem - primeiro, o seu abandono ao abraço inesperado, o descompasso da sua pulsação que a morena pôde perceber no seio palpitante apertado em seu colo. Depois, o sobressalto, a fuga quase desesperada de seu toque como se ele a repugnasse. A indiferença da despedida...
- Inferno! � Suzana quase gritou levantando-se da cama na qual passara metade do dia. Correu os dedos pelo cabelo como sempre fazia em momentos de exasperação. Abriu a pequena geladeira da minúscula cozinha do flat e pegou uma cerveja. Bebeu um longo gole e deixou-se cair sobre o sofá. Soltou uma respiração curta e abafada seguida de um sorriso irônico e triste. O destino ria-lhe na cara. Tivera a prova cabal do que já intuía nas últimas duas semanas. Ela queria Eleonora como nunca. O destino terminou por destruir o trabalho do tempo e escancarou a superficialidade do esquecimento cimentado pelos anos ao jogar-lhe nos braços a sua menina dos cabelos dourados. Para lembrá-la de como é sentir o corpo e a alma aquecidos e encantados. Para lembrá-la, sobretudo, de quem fora a única pessoa que um dia lhe proporcionara esta sensação.
Pegou o telefone num impulso.
- Camilla? Ocupada? Será que eu podia ir até aí para a gente conversar um pouquinho? Eu estou precisando. "Tá". Daqui a uma hora, então. Beijo.
 
 
Eleonora saiu cedo do apart-hotel. Caminhou algum tempo a esmo pelas avenidas do centro de Curitiba. Em seguida, pegou a jardineira, um ônibus pitoresco em estilo antigo que faz o percurso dos parques da capital paranaense, na Praça Tiradentes. Desceu no parque Barigüi e continuou, pensativa, a caminhada pelas vias do parque repleto de pessoas aproveitando o tímido, porém reconfortante calor do sol do final da manhã fria naquele belo pedaço de verde entre o concreto da cidade.
Eleonora, absorta, mal se dava conta da população à sua volta. Fora ao parque em busca de espaço aberto para meditar livre de paredes claustrofóbicas, perguntas inconvenientes ou presenças desconcertantes. Nem ao menos trouxera o celular. Precisava de paz.
Sentou-se à beira do lago com as pernas dobradas, os braços abraçando os joelhos e o rosto claro e abatido sobre eles. Chorara muito. Como nunca havia chorado desde...Desde que Suzana a deixara sem qualquer explicação. Seu pensamento voltou àqueles dias de aflição e sofrimento. Só ela sabia como fora difícil levantar-se e retomar a sua vida. Só ela sabia o que era esperar inutilmente por um telefonema, uma carta, qualquer coisa que lhe tirasse daquela angústia...Angústia de "mulher parada, pregada na pedra do porto", mas que não teve direito a um único adeus, nem mesmo a uma falsa promessa misericordiosa. Contudo, de uma coisa ela não sabia. Uma coisa que descobrira ontem ao se desvencilhar dos braços e da suave carícia de Suzana. Ela ainda se sentia magoada. Aliás, muito magoada. Pior do que isso, a descoberta da mágoa camuflada por anos, mostrou-lhe a impossibilidade de postar-se impassível perto de Suzana. Não era apenas a comoção do encontro, aquela mulher ainda mexia com ela de uma forma inquietante. Mas, para a sua exasperação, ela não conseguia distinguir se era porque a presença de Suzana causava-lhe ainda uma amargura que julgava superada ou uma profunda atração que também imaginava extinta.
Levantou-se para retornar ao flat. "Seja como for, não há como continuar do jeito que está".
 
 
IV
 
 
 
Espere aí, Suzana. Você está me dizendo que veio dos Estados Unidos para se apresentar à seleção brasileira e deu de cara com aquela garota loira que virou a sua cabeça há quase dez anos atrás? � Camilla deu um assovio longo de espanto.
Suzana balançou a cabeça concordando.
- Com a exceção de que ela não é mais uma garota, é isso mesmo.
Ambas estavam sentadas uma de frente para a outra na confortável sala de estar da casa de Camilla em um condomínio fechado em Curitiba, cidade para onde ela se mudara depois de casar-se com Mike, um inglês de alma brasileira, diretor de uma multinacional. Ela tinha, hoje, dois filhos lindos de seis e três anos respectivamente e uma clínica de fisioterapia no bairro Chapangnat da capital paranaense, clínica, aliás, onde Suzana faria a sua ultra-sonografia no dia seguinte. Camilla sorriu maliciosa e perguntou:
- E aí? Como é que foi o encontro? A velha Suzana manteve a pose de sempre ou essas pernas intermináveis ameaçaram virar geléia?
Suzana arremessou a elegante almofada que compunha o jogo de sofá em cima da amiga
- Suzana, você precisa parar com essa mania � disse Camilla, rindo abertamente.
- E você precisa parar de me provocar � Suzana respondeu também com um sorriso para a sua amiga de anos. Logo depois, ela continuou com seriedade:
- Seria mentira se eu te dissesse que não fiquei imensamente surpresa. Nunca imaginei encontrá-la de novo. Eleonora era uma figura que eu havia apagado da minha vida. Pelo menos assim eu imaginava. Mesmo depois de revê-la e descobri-la mais encantadora do que nunca, ainda assim eu pensei que se tratasse de uma simples atração por uma mulher bonita e inteligente...Sei lá! Uma recaída...Estava enganada. Foi o que me revelou a noite passada.
- Sou toda ouvidos � Camilla chegou o corpo para frente, colocou os cotovelos sobre os joelhos e descansou o queixo sobre as mãos.
Suzana contou-lhe o que se passara na noite anterior e do que descobrira sobre os seus sentimentos ainda vivos por Eleonora. Camilla ouviu atentamente. Ficou algum tempo, calada, olhando fixamente para Suzana e opinou:
- Pelo o que você me contou, ela também ficou muito perturbada. Só não dá para saber bem o porquê. Em todo o caso e o mais importante é...O que você pensa em fazer?
- Sinceramente, Milla, eu poderia te dizer que não sei, que esta história parece tão complicada quanto a de anos atrás. Veja bem, não é só a proximidade do Campeonato Mundial e toda a responsabilidade profissional, minha e dela, que o envolve. Além disso, e principalmente, ela mudou muito, Camilla. Ela está tão arredia...Tão reservada. Ela me evita sempre que pode, embora delicadamente, em nosso dia-a-dia ou...Bruscamente, como ontem, quando não me permitiu falar o que eu sentia.
Suzana se levantou, caminhou para a lareira e fitou a bela aquarela dependurada acima dela, de modo a não manter contato visual com a melhor amiga. Respirou fundo e começou a falar:
- Ah! Camilla. Somente para você eu poderia confessar o que eu me recusei a enxergar...Enxergar em mim mesma - que loucura! - durante tantos anos, e que agora...Agora está tão claro. É como se...Como se eu tivesse precisado de um choque, um estalo violento e pungente para enxergar o óbvio...
Suzana baixou a cabeça e passou, nervosamente, as mãos pelos cabelos. Camilla, sensata, não se pronunciou e esperou que ela continuasse. Suzana levantou a cabeça, soltou uma expiração abafada e prosseguiu:
- Camilla, eu nunca mais toquei no nome dela, não é mesmo?
- Não comigo.
- Com ninguém.
Suzana soltou um risinho sardônico, curto e triste.
Apesar disso...Engraçado eu não ter te contado isso...Eu nunca vendi aquele Jaguar. É o único carro que mantive além do que era de meu pai. Eu simplesmente não consegui me livrar dele, Camilla!
Camilla continuou calada e pensativa enquanto Suzana caminhava pela sala e continuava com as suas revelações.
- Eu tenho guardado até hoje no fundo do armário... � Suzana riu novamente, mas desta vez como algo parecido com um soluço. - O agasalho da Universidade Santa Cruz, o que eu usava no último jogo. Eu que nunca liguei para isso e não possuo nem mesmo a minha camisa de campeã mundial. Você acredita nisso!?
Suzana, finalmente, olhou nos olhos da sua melhor amiga e os seus olhos eram como dois poços de água clara, tão vívida a tristeza estampada na íris azul. Confessou com rara simplicidade:
- Durante todo esse tempo, e você pode achar isso engraçado se quiser...Engraçado, não. Verdadeiramente patético. Eu nunca mais suportei ouvir a música "Leãozinho" de Caetano Veloso, sem sentir um aperto agudo no peito e, no entanto, sem conseguir mudar de música ou desligá-la. Todas as minhas namoradas, nenhuma com duração significativa em minha vida, eram, invariavelmente, pequenas e loiras. Pelo amor de Deus, minha amiga, onde eu estava com a minha cabeça? Onde eu confinei o meu coração!!?
Camilla, ainda emudecida, levantou-se e foi se sentar ao lado da amiga que desabara, desconsolada, no sofá. Colocou uma mão sobre o joelho dela e com a outra segurou o queixo de Suzana, levantando-o. Olhou-a nos olhos.
- Suzie, primeiro, eu não acho patético ou constrangedor e muito menos engraçado o que você está me contando. Humano, falível e talvez...Um pouco triste, sim. Triste, não por ser desgraçado ou aflito, mas pelo que nos privamos de felicidade por não enfrentarmos a nossa tristeza. E, por isso, você não sabe o quanto me alegra vê-la falando assim. Paradoxal? Não. Já estava mais do que na hora, minha querida, de você aceitar a sua tristeza. Admiti-la. Encará-la. E, então, se despedir dela. Só assim esse vulcão de força, de garra e de vontade que você desviou para tudo quanto é lado, menos para o que é mais importante, vai poder emergir...Para que você possa lutar, minha querida guerreira sem rumo...Lutar pelo que te faz sentir amor.
Suzana deu um sorriso débil e pousou a sua mão sobre a mão da melhor amiga. Camilla continuou:
- Mas, eu devo avisá-la de que esse seu caso pode ser ainda um pouco mais complicado do que você pensa. Lembra-se de que eu te contei que me encontrei com Eleonora naquela noite em que você foi embora sem qualquer explicação?
Suzana sinalizou um sim com a cabeça e recordou-se de que após quase dois meses ligara para Camilla e mal a deixara relatar o seu último contato com Eleonora. Naquela época, ela simplesmente não queria saber. Camilla prosseguiu:
- Pois bem, eu não pude te dizer que nunca havia visto tanta angústia, desespero e confusão em um rosto tão jovem. Alguma de nós é capaz de imaginar pelo que passou aquela menina quando você desapareceu da vida dela, desculpe amiga, sem a menor consideração?
Suzana tornou a baixar, tristemente, a cabeça.
- Ah! Querida. Eu sei que você dificilmente teria condições de pensar em qualquer coisa que não na tempestade infernal em que se tornou a sua vida naquela época. Mas, Suzie...Como essa mulher vai reagir, hoje...Digamos...A uma tentativa de reaproximação de sua parte? Mesmo que ela ainda sinta alguma coisa por você, minha amiga, o quanto de mágoa e desconfiança pode existir no coração dessa moça?
Suzana não respondeu de imediato. Levantou o rosto e ficou olhando para Camilla enquanto os olhos azuis se enchiam de lágrimas que, todavia, não caíram. Falou com uma voz baixa e abatida:
- Eu nunca me permiti pensar nisso. Eu...Só me encerrei em meu mundo de responsabilidades, muitas das quais eu nunca quis, para não me dar tempo de pensar no motivo de estar ali. E, no entanto, me deixei afogar no poço de ressentimento tão antigo quanto inútil que eu mesma construí e que, por fim, não me deixou enxergar mais nada por tanto tempo que...Eu já não via mais sentido em olhar para trás.
- Pois é, minha querida amiga. Você já devia saber que o passado mal resolvido sempre torna a bater em nossa porta.
- É verdade, Milla. Só que desta vez, fui eu quem magoou alguém que...
- Alguém que você amava � completou, Camilla.
- Não sei se...
- Suzana... � foi a leve repreensão da fisioterapeuta.
- Droga! Alguém que eu amava, sim � Suzana respondeu aos gritos. - E que eu não acreditava que pudesse me amar como...Não importa � continuou mais calma. - Eu deixei, eu magoei e, muito provavelmente perdi, o amor da minha vida por insegurança, covardia e, depois, desânimo. Eu não a mereço, Camilla.
- Isso não vem ao caso, Suzie. Apenas Eleonora pode te dizer o que você precisa ouvir. Talvez até o que você não queira ouvir. Mas eu acredito que isso seja absolutamente necessário até para que você possa seguir em frente, com coragem, se ela realmente te rejeitar, amiga. Até...Para dar àquela moça a explicação que ela sempre mereceu, e...Quem sabe, Suzana...Quem sabe, ela sempre quis ouvir.
- Ela pode não querer me ouvir.
- Pode. Mas, você não pode não tentar dizer!
Suzana não falou mais nada. Ficou sentada, silenciosa, olhando para o jardim da casa. Mas, quando as crianças entraram na sala, ás gargalhadas, nos braços do pai, Suzana sorriu para a família de Camilla com imenso carinho e se levantou para cumprimentá-los com verdadeira alegria. Já havia tomado a sua decisão: ela falaria com Eleonora de qualquer jeito. Mesmo que fosse escorraçada como um cão. E, por Deus, tentaria reconquistá-la com todas as forças da sua imensurável vontade e do seu amor. Já estava farta de desistir do que mais queria e amava.
 
Eleonora entrou em seu quarto um pouco antes das seis da tarde. Tirou o gorro, as luvas e o casaco e os colocou sobre a poltrona. Caminhou até o quarto e pegou o celular abandonado sobre a cama � oito chamadas não atendidas. Todas de Luciana. Nem bem chegou a pensar em retornar e o celular tocou.
- Alô.
- Eleonora? Pelo amor de Deus! Eu estou tentando falar com você há horas. Liguei uma dezena de vezes no seu celular. Telefonei para o hotel e o recepcionista disse que você tinha saído. Eu estou para morrer de aflição. Por tudo o que é mais sagrado, onde você esteve?
- Luciana...Amor. Primeiro...Calma.
Eleonora escutou uma respiração longa e forte do outro lado. Luciana falou pausadamente:
- Estou calma.
- Ótimo...Lu, me desculpe por ter causado tanta preocupação. Eu não tive essa intenção. Eu estive passeando pela cidade e deixei o celular no quarto...Puxa vida, eu perdi a noção das horas, foi isso! Por favor, me perdoe e não brigue comigo. Por favor,...
O tom era de súplica misturada com uma suave persuasão.
- Alguém consegue brigar com você, minha pequena? � Luciana falou com voz cansada.
- Então, não tente. Só me perdoe.
- Está perdoada.
- Hum, hum. Diga que me ama e que está com saudade.
- Deus, Elê! Eu sou uma fonte inesgotável de saudade e você sabe o quanto eu te amo.
- Eu também.
- Não faça mais isso.
- Não faço.
- Está bem. Só que, agora, eu vou ficar conversando horas a fio até me sentir plena da sua voz. Ah! Eu também quero ouvir eu te amo pelo menos umas dez...Não, quinze vezes nesse ínterim, e...Nem uma sombra de reclamação, Eleonora Cavalcanti, mesmo que eu saiba que você não suporta ficar muito tempo ao telefone. Entendido?
- Perfeitamente � Eleonora caiu pesadamente sobre o colchão. � Condições entendidas e aceitas. Vou falar eu te amo trezentas vezes se você quiser, e se ouvir essas mesmas palavras pelo menos uma vez nas próximas horas, isso valerá cada segundo das minhas orelhas ardendo.
Luciana não segurou a gargalhada.
- Você é, definitivamente, impossível, pequena.
- Eu recebi o seu presente � Eleonora comentou, suavemente e tocou com a ponta dos dedos a seda branca do bouquet de lírios sobre a sua cama.
- E gostou?
- Não só dos lírios que você bem sabe que são os meus preferidos, mas, principalmente, dos chocolates Godiva de avelã. Um esbanjamento desnecessário, meu amor...Mas, eles são realmente...Absolutamente...Terminantemente maravilhosos...A segunda causa da minha perdição.
Luciana perguntou com a voz rouca:
- E qual é a primeira?
Eleonora respondeu baixinho, mas perfeitamente audível:
- Você...
Paz restaurada, corações abrandados, elas ainda ficaram conversando mais algum tempo até desligarem em meio às palavras sempre doces da reconciliação.
Depois se falar com sua esposa, Eleonora se levantou da cama pensando em um banho relaxante. Uma ligeira tontura a lembrou de que não havia comido nada o dia inteiro. Foi aí que notou o telefone instalado sobre o criado-mudo. "Graças aos Deuses". Ligou para a cozinha e pediu um frango grelhado com salada e um suco de melão. Enquanto as sua leve refeição não chegava, ficou pensando no motivo de não ter contado a Luciana do seu encontro com Suzana.
É claro que a esposa sabia do seu relacionamento com a famosa jogadora no passado e, obviamente, Luciana tinha conhecimento de que Suzana estaria nessa seleção. Contudo, ela não tecera qualquer comentário à respeito, nem antes nem depois de Eleonora ter se juntado à equipe técnica da seleção. Talvez porque ela não desse importância a um acontecimento tão breve e ocorrido a tanto tempo ou...Talvez, e mais provavelmente, porque Eleonora nunca havia lhe contado os detalhes: do quanto fora apaixonada, do quanto havia sofrido ou de que havia ficado doente por semanas...Ou que demorou anos até que ela conseguisse ouvir o nome de Suzana ou vê-la na televisão sem que a sua garganta se contraísse de angústia...E, muito menos, lhe contaria a respeito das suas fortes reações à presença daquela mulher, agora. Não só para não afligi-la e, principalmente, não magoá-la, mas porque ela queria resolver essa situação sozinha. E iria resolver! Teria uma conversa definitiva com Suzana. Ouviria, sim, o que ela tinha a dizer, diria o que estava entalado na sua garganta por quase uma década e poderia, finalmente, arrancar essa página mal fadada da sua vida. Nunca fora uma pessoa de mentir para si mesma. Estava enganada quando pensou que não sentia mais nenhuma mágoa por Suzana? Enganara-se também quando imaginou que a presença da mulher por quem fora perdidamente apaixonada não a perturbaria? Pois bem! Hora de colocar as cartas na mesa...
O jantar chegou e ela se sentou para comer acompanhada da velha misteriosa calma que a acometia sempre que tomava uma decisão.
 
 
 
 
V
 
 
 
Suzana entrou no ginásio pouco antes das dez. Pela primeira vez em anos, sentia-se nervosa por ter que encarar alguém. A perspectiva de rever Eleonora tomara um sentido completamente diferente desde a última vez em que se encontraram. Estava ansiosa por conversar com ela mesmo que não soubesse ainda como iria começar a conversa e nem se ela estaria disposta a ouvi-la. Mas, não desistiria, pensava. Entretanto, ao entrar no ginásio, Suzana encontrou mais do que Eleonora a esperando. A técnica Regina e mais duas pessoas desconhecidas estavam conversando com a sua preparadora física.
- Suzana � Regina chamou, acenando com a mão.
Suzana se aproximou.
- Que surpresa, Regina. Aconteceu alguma coisa? Já não é a hora do treino da equipe?
- De fato, Suzana. Mas nós ainda teremos o treino da manhã. Estávamos à sua espera. Esses são Rita e Paulo, repórteres da ESPN. O canal solicitou permissão para filmar um dos nossos treinos a fim de fazer uma reportagem sobre a seleção brasileira de basquete que terá veiculação internacional. E, é claro, isso não poderia ser feito sem a presença da nossa estrela da WNBA.
Suzana respondeu à lisonja brincalhona balançando a cabeça com um sorriso leve estampado no belo rosto. A repórter estendeu a mão e falou:
- Suzana, prazer em revê-la.
- Nós já nos conhecemos?
- Na verdade, eu participei de uma reportagem com você há algum tempo atrás.
- Desculpe, eu não me lembro.
- Eu entendo. Nós gostaríamos de fazer uma entrevista com você mais tarde, se for possível. Fará parte do especial com a seleção brasileira, assim como algumas entrevistas com outras jogadoras e com a comissão técnica. Tudo bem?
- Por mim, sem problemas. Eleonora?
- Regina e eu já refizemos a programação do dia, Suzana. Você treina com o time agora de manhã para a realização das filmagens, e à tarde nós continuamos com a nossa preparação.
- Ok. Eu já devo me dirigir ao ginásio principal, Regina? Qual o uniforme que iremos usar?
- Vamos todos, Suzana. O seu uniforme de treino já foi separado e está com o Seu Joaquim � Regina falou, se referindo ao faz-tudo da seleção, o simpático e prestativo Seu Joaquim, quase um patrimônio do time, servindo à seleção feminina por mais de vinte anos.
Todos foram saindo em direção ao ginásio principal, distante uns duzentos metros do ginásio menor onde Suzana fazia o seu treinamento especial. Eleonora ficou um pouco para trás e se pegou observando o caminhar firme das longas pernas de Suzana, acompanhada pelo repórter Paulo, visivelmente encantado. De uma certa forma ela ficara aliviada com a novidade e a necessidade de adiar a circunstância de ficar sozinha com Suzana. Estava resolvida a falar com ela, mas isso não significava que se sentia confortável com a possibilidade.
Treinaram um par de horas, sendo cuidadosamente filmadas. Ao final, deram depoimentos e entrevistas breves aos jornalistas, de modo que a uma da tarde já estavam livres para almoçar. Suzana ainda ficou um tempo envolvida com mais alguns repórteres além de um sem número de adolescentes emocionados aos quais atendeu com paciência e simpatia, mas que a fizeram sentir saudade da tranqüilidade do seu treinamento à parte, no anônimo ginásio ao lado. Ainda não sabia porque não haviam encontrado ainda o seu refúgio, mas intuía que ele não demoraria a ser descoberto. Saiu do Centro de Treinamento perto de duas horas com o estômago grudando nas costas. Mas, o desconforto da fome não era nada perto da sua apreensão por falar com Eleonora. Definitivamente, paciência nunca fora a sua principal virtude. Mas, o destino ainda iria lhe dar mais uma chance de trabalhar em si, um pouco de resignação. Eleonora não apareceria para o treino da tarde.
Suzana andava de um lado para o outro parecendo uma tigresa enjaulada.
- Mas, que coisa, Regina! Assim tão de repente. E, ela como ficou? Deve ter sido um golpe e tanto. Eleonora é tão sensível. Você tem mais notícias?
- Calma, Suzana. Você está muito nervosa. Até parece que foi alguém da sua família. Não, eu ainda não tenho notícias novas. A própria Eleonora não sabia direito como aconteceu. Parece que o pai dela foi fazer uma consulta de rotina e o médico descobriu que ele estava à beira de um infarto. Foi internado às pressas e quando Eleonora foi avisada, ele já estava sendo preparado para a cirurgia. Ela pegou o primeiro avião para São Paulo, e lá alguém iria buscá-la no aeroporto e a levaria de carro para Santa Cruz. O Oscar vai conduzir o seu treinamento até a volta dela.
- Eu...Claro, tudo bem. Eu só queria saber notícias do Dr. Marcos. Se ela te ligar...Por favor, me mantenha informada.
- Você conhece o pai de Eleonora?
- Eu o conheci há alguns anos atrás.
- Sim, eu sei, Eleonora era jogadora no time que você treinou por algum tempo no interior de São Paulo. Mas...Eu não imaginava que você tinha chegado a conhecer a família dela.
- É...Foi numa festa na casa dela...Eu compareci e...Bom, eu conheci os pais e o irmão. São ótimas pessoas. Se ela ligar, não deixe de me comunicar, por favor.
- Tudo bem. Agora, vamos treinar. O campeonato está nos nossos calcanhares.
- Vamos.
No outro dia de manhã, Eleonora ainda não havia dado notícias. Somente no início da tarde, ela ligou para a técnica. Estavam todas terminando de almoçar quando Regina informou à equipe que o pai de Eleonora não corria mais risco de vida e que ela voltaria no dia seguinte. Mais tarde, Suzana a procurou.
- Ela disse mais alguma coisa, Regina? O Dr. Marcos está passando bem?
- Creio que sim, Suzana. Pelo que Eleonora me disse, a cirurgia transcorreu perfeitamente. Ele colocou algumas pontes de safena e está passando bem. Ainda se encontra na UTI somente por medida preventiva pós-operatória. Ela me pareceu bastante tranqüila e me adiantou que deve chegar por aqui amanhã, no início da noite.
Suzana deu um suspiro aliviado e agradeceu à técnica. Foi descansar um pouco no seu quarto deixando a técnica pensando em como não devemos nos deixar levar pelas aparências. Ela nunca imaginaria que Suzana Alcott fosse tão sensível aos problemas alheios.
 
Suzana entrou no ônibus da seleção após o treino e depois de uns vinte autógrafos aos fãs plantados no caminho para o veículo. Como estava treinando no mesmo horário da equipe com o auxiliar-técnico que acumulava momentaneamente a função de Eleonora, não precisava ir para o Centro de Treinamento no próprio carro.
Fato, aliás, que ela apreciava.
Suzana sabia da importância da união de um grupo em torno de um objetivo. E que isso passava pela convivência diária de toda a equipe entre si, focada nesse alvo comum, dentro e fora da quadra. Assim como, pela participação bem-humorada nas brincadeiras freqüentes e inevitáveis gozações dentro do time. Suzana, apesar de ser, de longe, a mais famosa atleta da equipe e de ser, por isso, a mais assediada pelos torcedores e pela imprensa, tinha um ótimo relacionamento com o restante das jogadoras e participava alegremente das molecagens das colegas, algumas das quais ela já conhecia há muitos anos, na seleção.
Chegou ao hotel conversando, bem humorada, com a armadora titular com a qual jogava há muito tempo. Ficou imediatamente alerta quando ouviu o nome de Eleonora sendo pronunciado pelo rapaz da recepção. Em seguida, escutou-o dizendo á técnica que Eleonora havia retornado e que pedira para avisá-la disso assim que chegasse. Regina agradeceu ao rapaz e pediu que ele ligasse para o apartamento da sua treinadora física.
- Elê? Ah! Desculpe, tudo bem? Eleonora está por aí? Eu espero, obrigada.
Suzana escutava a conversa com mal disfarçado interesse. "Havia vindo alguém junto com Eleonora? Quem seria?" Regina continuava a ligação.
- Oi, Elê. Como você está, menina? Que bom. Não, não precisa. Descanse da viagem. Eu sei que você não está chegando do Alasca, Eleonora. Mas, o trabalho pode esperar até amanhã. Você vem jantar conosco? Vai jantar fora. Certo. Até amanhã, então. Beijo.
Regina reparou em Suzana ao seu lado.
- Vamos jantar, Suzana?
- Vamos...Eu só vou dar um pulinho no meu quarto e já volto.
- Está bem, eu te aguardo no restaurante.
- Ok.
Regina seguiu em direção ao restaurante e Suzana caminhou até o elevador. A porta se abriu e ela deu de cara com Eleonora e uma mulher de cabelos castanhos, muito bonita. Ficou sem palavras, foi Eleonora quem se pronunciou:
- Oi, Suzana. Como passou desde segunda-feira?
- Oi, Eleonora. Bem, obrigada. E o seu pai, como está?
- Muito melhor, obrigada. Foi um susto e tanto, mas já passou. Ah! Suzana, essa é Luciana. Luciana, essa é...
- Suzana Alcott � antecipou-se Luciana com um sorriso simpático e estendendo a mão para a jogadora. � É um prazer.
- Prazer � respondeu Suzana apertando a mão estendida.
- Nós estamos saindo para jantar � disse Eleonora.
- Comida Italiana � completou Luciana, que continuou reportando-se a Eleonora. � Espero que um bom prato de massa retorne com o seu proverbial apetite, pequena. Eu estou espantada com o pouco que você está comendo ultimamente.
Algo em Suzana se acendeu como um alarme, fazendo o seu coração disparar. A percepção do tom de carinhosa intimidade que Luciana utilizava para falar com Eleonora a incomodou enormemente. Despediu-se com rapidez.
- Bem, bom apetite, então. Até amanhã, Eleonora. Prazer em conhecê-la, Luciana.
As duas jovens mulheres se despediram também e foram saindo enquanto Suzana escondia toda a sua confusão atrás das portas do elevador. Ela não conseguia divisar direito o que estava sentindo � um aperto na garganta, um gosto travoso na boca, uma vontade de chutar a parede do elevador com toda a sua força.
- Que diabos... - parou no meio da blasfêmia. Reconhecera o sentimento. Fazia muito tempo que não o sentia. Desde a infância. Quando vira Eleonora com aquela bela mulher ao lado sentira um dos mais antigos e insuportáveis sentimentos que assombram o coração humano. Ela quase tivera um acesso do mais puro e velho...Ciúme.
 
 
 
Eleonora olhava para a mulher dormindo com os cabelos castanhos espalhados sobre o travesseiro. Luciana fora buscá-la no aeroporto, levara-a para Santa Cruz e tranqüilizara-a quanto ao estado de saúde de seu pai. Acompanhara o pós-operatório juntamente com a equipe médica que fizera a intervenção cirúrgica no Dr. Eduardo e deixara a família sempre bem informada sobre o seu estado clínico, fazendo um enorme bem para D. Clarisse que estava extremamente nervosa.
E, agora, ela estava ali. Acompanhando-a, para que ela não se sentisse sozinha. Apoiando-a em seu trabalho. Luciana era uma pessoa rara. Eleonora sentiu uma onda de carinho tomar-lhe o peito. Acariciou levemente os finos cabelos castanhos. Luciana gemeu qualquer coisa incompreensível e ajeitou a cabeça sobre o ombro de Eleonora. "Como eu sou feliz em ter uma mulher como essa em minha vida. Que diabos eu tenho que ficar toda perturbada com a presença de Suzana. Caramba! Eu tenho que dar um fim a isso". Abraçou a esposa como se ela fosse uma bóia no meio de um oceano de vagas confusas e dormiu profundamente.
Os dois outros dias de treinamento foram extremamente interessantes. Suzana mal abria a boca. Eleonora não se esforçava para aumentar o contato verbal. Limitavam-se a instruções e elucidações corriqueiras. Contudo, Suzana sentia que iria explodir a qualquer momento. Isso não era algo comum em sua vida regrada e conduzida segundo a sua vontade. Eleonora, desde a primeira vez, sempre representara uma tremenda desordem em seus planos cuidadosamente traçados. Sentia ganas de sacudi-la como a uma boneca de pano e depois beijá-la como uma ensandecida.
Seu desejo estava à flor da pele. Cada vez que a loirinha se aproximava para uma explicação qualquer e o cheiro suave do seu perfume chegava aos sentidos de Suzana, a jogadora tinha que achar um ponto de interesse qualquer entre os cadarços do seu tênis para resistir à vontade de tomá-la nos braços ali mesmo com toda a força dos seus desejos represados. A frustração, o ciúme e a impaciência estavam transformando esses dias em algo semelhante às torturas infernais.
Para a sorte da sanidade mental de Suzana à beira de um colapso, Luciana foi embora no sábado à tarde. O domingo de plantão fora o preço que pagara pelos dias de folga ao lado da mulher. Eleonora a levou ao aeroporto em São José dos Pinhais, cidade contígua a Curitiba, e retornou ao hotel já sentindo saudade da delicada e segura presença de sua esposa. Entrou no saguão do hotel por volta das dezenove horas. Desta vez, a mão do destino estava ainda mais precisa. A porta do elevador se abriu e ela encarou a face de Suzana tão surpresa quanto a dela.
- Boa noite, Suzana.
- Boa noite.
Não fizeram mais qualquer comentário enquanto o elevador subia. Quando a porta se abriu no andar de Suzana, ela falou abruptamente:
- Precisamos conversar.
Eleonora estava prestes a soltar uma negativa. Contudo, era a oportunidade que ela também estava aguardando. Respondeu simplesmente:
- Vamos ao meu apartamento.
Entraram mudas no quarto de Eleonora que indicou, com um gesto, o sofá a Suzana para que ela se acomodasse. A loirinha se instalou na poltrona de frente e falou:
- Pois bem...
Suzana se mexeu, incomodada, no sofá. Sentia-se tomada por um acanhamento insólito. Não sabia por onde começar. Respirou fundo, pigarreou um pouco e falou mais baixo do que o normal.
- Eu te devo uma explicação há muito tempo.
- Suzana, você não...
- Me deixe falar.
Desta vez, Suzana recuperou a segurança. Uma estranha calma se apossou dela e ela continuou clara e pausadamente:
- Naquele dia em que eu desapareci da sua vida, minha mãe estava perdendo a dela para o câncer no Hospital Albert Einstein em São Paulo.
- Eu...Não sabia. Sinto muito.
- Nós não nos dávamos bem, Eleonora. Acho que a última vez que eu recebi um aceno carinhoso de minha mãe, senão em seus últimos dias, foi por volta dos sete anos. Ela era uma mulher fechada e rigorosa. E, no entanto, eu sofri como nunca imaginei com a sua agonia e com a sua morte.
Suzana se levantou como se não estivesse suportando ficar sentada.
- Meu nome de batismo é Suzanne Louise Catherine Alcott. Filha de Lady Catherine Mary Alcott, Condessa de Devonshire, e de um brasileiro mestiço de índio e português que ela conheceu numa viagem ao Brasil em meados da década de sessenta e com quem se uniu contra a vontade do poderoso Lorde Alcott, de quem era filha única. Ela se separou três anos depois e voltou para Londres com uma filha de cor acobreada para lembrá-la eternamente da sua momentânea insanidade juvenil.
- Suzana, eu não vejo porque...
- Por favor, Elê, deixe-me continuar. Eu preciso que você saiba um pouco da minha história para que possa me entender, me compreender...E, talvez...Me perdoar.
Eleonora olhou para aqueles olhos cheios de uma doçura triste e suplicante. Calou-se e se preparou para escutar pacientemente.
- Eu cresci em uma propriedade imensa e fria, em companhia de um avô que insistia ou em me ignorar ou em me criticar e de uma mãe que não sabia se amava ou se me deplorava. Tornei-me uma criança e depois uma adolescente arredia, indócil e incorrigível.
Suzana respirou profundamente, passou as mãos pelos cabelos negros e continuou:
- Minha mãe se casou novamente quando eu tinha oito anos com um primo distante. Um típico inglês insípido, mas de boa linhagem, como meu avô não se cansava de falar. Meu irmão, Robert, nasceu um ano depois e meu avô teve, finalmente, o seu herdeiro. Enquanto isso, eu era esquecida em um canto da estupenda mansão e, depois, no colégio interno para moças de boa família do qual só não fui expulsa em muitas ocasiões por influência direta de Lorde Alcott. Nessa época, eu era uma jovem rebelde, indisciplinada e completamente louca por uma atenção que nunca veio ou veio em forma de reprimendas ao meu comportamento inadequado. Foi nesse período que eu comecei a insistir em vir para o Brasil e viver com o meu pai - Suzana soltou um sorriso abafado e triste. � Um pai do qual eu nem me lembrava e que nunca havia sequer tentado falar comigo em todos aqueles anos...Mas eu não me sentia pertencente àquele mundo de empáfia e formalidades vazias. Quando eu fui pega no banheiro do colégio transando com a minha namoradinha, minha mãe resolveu que já era hora de outra pessoa dividir o encargo de uma adolescente tão...Indisciplinável, para utilizar as palavras dela.
Suzana olhou para Eleonora para se certificar de que ela estava escutando. Eleonora balançou a cabeça levemente como que para incentivá-la a continuar. Suzana prosseguiu:
- Vim para o Brasil aos quinze anos. Meu pai...Era um homem rude e desacostumado a ser carinhoso com quem quer que fosse, mas me recebeu com toda generosidade e paciência, talvez...A forma que encontrou para me demonstrar o seu afeto. Fui morar com ele e minha tia, uma mulher igualmente dura e introspectiva, mas que suportou com calma e conteve muitas vezes, com um inabalável senso de justiça, as explosões violentas de uma adolescente arrogante e rebelde. Não vou cansá-la com as minhas lamúrias sobre as minhas dificuldades de adaptação ou sobre o quanto eu fiz meu pai e a minha tia sofrerem com as minhas grosserias, basta dizer que meu pai morreu três anos depois, quando eu já representava a seleção juvenil de basquetebol e que só mantive contato com a minha tia, pois já morava e jogava em outra cidade do interior paulista, para resoluções quanto à minha herança: metade da mineradora que meu pai construíra e me deixara.
Eleonora ergueu as sobrancelhas. Suzana explicou:
- Sim...O bugre inculto tornou-se um bem sucedido e rico empresário da mineração. Eu incluí o nome de meu pai ao meu e adotei Suzana como meu nome, a partir de então.
Inesperadamente, Suzana adiantou-se e se ajoelhou em frente a Eleonora.
- O que eu quero lhe dizer é que eu nunca soube o que é ser amada com doçura e desprendimento. Quando você surgiu em minha vida com toda a sua capacidade de se entregar sem reservas, com toda a sua disponibilidade em me amar com toda a força dos seus sentimentos, com todo o arrojo da sua juventude, com toda a sua beleza, sua confiança, sua incrível delicadeza...Com todo o seu amor, eu...Simplesmente não acreditei. Eu não acreditava que alguém pudesse me amar daquela forma...E... � Suzana respirou fundo para impedir que suas emoções a impedissem de continuar. � Quando eu corri para ficar com a minha mãe, em seus últimos instantes...E, depois que ela morreu...A dor, a consciência do tempo desperdiçado e que não mais voltaria, a impotência e, depois, a letargia que tomou conta de mim, se encarregaram de me fazer pensar que você...A nossa história não passara de uma ilusão, uma miragem no deserto de emoções que era...Que é a minha vida. Eu te abandonei...Eu abandonei a sua lembrança...Eu te magoei e mutilei os meus sentimentos voluntariamente...
Suzana abaixou a cabeça e deixou que, agora, as lágrimas caíssem livremente pelo rosto e até o chão. Eleonora contemplou calada aquela mulher enorme ajoelhada, chorando à sua frente, ergueu a mão para acariciar o rosto moreno. De repente, sobreveio-lhe uma raiva súbita e violenta. Uma frustração insuportável fechou-lhe a garganta, dolorosamente. Eleonora falou com uma ironia incomum:
- Você quase me convenceu, Suzana Alcott. Essa história de pobre menina rica realmente me emocionou.
Surpresa, Suzana levantou a cabeça e olhou para aqueles olhos verdes brilhando de raiva.
- Eleonora, não é isso. Entenda, eu...
Eleonora continuou quase gritando:
- Você acha que pode vir aqui com essa historiazinha digna de um dramalhão mexicano e explicar a sua falta de consideração, de decência, de amor por m... - Eleonora engasgou e Suzana ergueu a mão para tocá-la. A jovem treinadora levantou-se num salto e se afastou para o meio da sala.
- Não toque em mim! Não ouse tocar em mim! Sua insensível, covarde...Eu tenho vontade de te bater, Suzana!
Suzana se levantou com o semblante calmo e grave. Aproximou-se de Eleonora e abriu os braços:
- Então, bata.
Eleonora parou de gritar, surpresa. Suzana se aproximou mais ainda, tomou uma das mãos delicadas e a trouxe ao peito.
- Bata.
Eleonora não retirou a mão. Continuou olhando-a, perplexa. De repente, deu um golpe fraco, quase um empurrão, sobre o peito de Suzana que não se moveu do lugar. Em seguida, começou a bater pausada e continuadamente e cada vez com mais força perto do ombro da mulher mais alta. Logo, passou a golpear com ambas as mãos e seguidamente os braços, os ombros e o colo moreno. Em poucos segundos, soluçava ao ritmo dos seus golpes. Suzana deixava-se apanhar estoicamente. Repentinamente, abraçou a pequena loirinha com firmeza e amor, Eleonora debateu-se numa tentativa de se esquivar do abraço. Inútil. Ela não era páreo para dois braços tão poderosos. Furiosa, desferiu golpes aleatórios pelo torso da jogadora que os suportou serena e sem reclamações. Impotente e soluçante, Eleonora pousou, cansada, as mãos sobre o peito arfante da sua captora. Ergueu o rosto para mirar a face morena.
Foi o bastante.
Suzana capturou aqueles lábios rosados, molhados de lágrimas, num instante. Surpreendentemente, Eleonora não se afastou. Agarrou Suzana pela nuca e esmagou a sua boca na boca dela, com fúria e urgência. Não era um beijo de paixão, era uma punição. Um grito de raiva e mágoa. Os lábios não se encontravam macios, machucavam-se, duros e cruéis.
Suzana permitiu-se ser beijada com a cólera represada por anos e que agora escapava, incontrolável, em um beijo dolorido e angustiado. Nem ao menos quando sentiu o gosto de sangue surgir do seu lábio inferior ferido, a jogadora soltou um único protesto.
Foi Eleonora quem parou.
Vermelha, ofegante e completamente incrédula, olhou para os olhos da mulher que ainda a abraçava. Sobre a bela face de Suzana, corriam lágrimas silenciosas e de sua boca principiava a cair uma pequena gota de sangue. Não se falaram. Apenas, fitaram-se demoradamente. Dos olhos azuis profundos, mareados por lágrimas que os faziam tomar a cor de um céu de outono, Eleonora percebia uma mensagem silente, mas significativa, de ternura e pesar, de amor e súplica...
Eleonora voltou os olhos verdes para o pequeno corte no lábio de Suzana. Sem uma única palavra, puxou a morena pela cabeça e passou a língua, delicadamente, pela gota de sangue que ameaçava escorrer pelo queixo anguloso. Quase imediatamente, fechou o corte com os próprios lábios e estancou a pequena hemorragia, comprimindo-o com a língua.
Suzana fechou os olhos. Sua respiração, já alterada, assumiu ritmos alarmantes. Passou as mãos longas pelas costas de Eleonora e a trouxe para si de modo que o corpo da treinadora se moldasse ao seu como que colado desde as pernas até os seios apertados contra o seu abdômen. Beijou-a profunda e sensualmente.
Eleonora gemeu baixinho. Sentiu os mamilos se enrijecerem e a sua pulsação começar a latejar no sexo. Seu corpo respondia com inacreditável rapidez a cada toque da bela jogadora. Suas narinas inebriadas pelo cheiro amadeirado da pele morena, suas mãos postas entre a nuca e os cabelos negros macios e abundantes, sua boca tomada pelos lábios cheios, brandos e exigentes, seu corpo colado àquele corpo atlético, forte e flexível, tudo parecia gritar em alto e bom som que havia encontrado o seu lugar. Desarmou-se de vez das últimas reservas que ainda lhe restavam ao que Suzana era capaz de lhe provocar.
O beijo transformou-se numa confusão de lábios, línguas e tateamentos febris, como se fosse possível uma sorver a outra pela boca, pela pele, pela respiração...Uma confusão de sensações conjuntas e, ao mesmo tempo, desconexas na desordem dos sussurros desarticulados e das mãos ansiosas.
Então...As roupas foram ao chão com a naturalidade da necessidade de se expandir essas sensações ao limite do impraticável.
Não existia mais espaço para a razão.
Com o cuidado de quem carrega algo tão leve quanto precioso, Suzana pegou Eleonora nos braços e a levou para a cama. Seu coração parecia querer saltar do peito e quando ela se deitou sobre a sua pequena loirinha, a extensão da sua excitação podia ser medida na Escala Richter.
Entretanto, foi Eleonora quem rolou por cima de Suzana e sentou-se sobre o seu baixo ventre, com as mãos postas sobre os ombros torneados. Com um olhar intenso, repleto de um sentimento que Suzana não conseguiu identificar de imediato, mas que percebeu ser extremamente importante naquele momento, a jovem loira percorreu com os olhos o rosto perfeito, os ombros esculpidos e simétricos, os seios fartos e bem feitos, o abdômen forte e definido. O que Suzana viu delineado naqueles olhos verdes como folhas tenras a fez sorrir com a perspectiva desenhada neles. Ela viu admiração...Desejo. Arrebatamento...Desejo. Delírio...Desejo. No torvelinho da febre que lhe tomava todo o corpo, Suzana ainda pôde sentir uma ponta de esperança preencher-lhe o coração.
Eleonora contemplava aquele rosto e aquele corpo incrível sem pensar em absolutamente nada senão na percepção aguda da beleza desnorteante da mulher sob sua pelve. Ela sempre achara Suzana a mulher mais linda em quem já pusera os olhos. Um conjunto de força e beleza que a fazia divorciar-se do juízo com a facilidade dos loucos. Suzana não era harmônica e serena, era provocante e visceral.
Deus! Como ela lutara para não ceder à sedução daquele corpo que lhe roubava o bom senso! Mas, agora, não queria mais lutar, o seu estômago se apertava na expectativa de possuí-lo...Não queria mais lutar, o seu coração ditava-lhe uma pulsação de velocista...Não queria mais lutar, o seu sexo latejava como mil tambores em uníssono...Não queria mais lutar porque não existia mais razão para enfrentar o império absoluto do instinto e do desejo. Debruçou-se sobre o torso moreno como quem mergulha em águas escuras, perigosas e encantadas.
Afundou o rosto nos cabelos negros, encontrando com a face o vale aveludado e perfumado entre a orelha e a nuca. Passou a explorá-lo com a boca e o nariz, aspirando-o, tateando-o com os lábios, redescobrindo com martirizante paciência, o cheiro e a textura das penugens quase invisíveis das laterais do rosto. Sobrevoou os lábios carnudos com os seus, tocando-os como a asa de uma borboleta. Aspirou fundo o hálito que escapava da boca entreaberta. Tornou ao pescoço, e quando menos se esperava, cravou dentes vampirescos sobre a jugular saltada enquanto seus braços escorregavam pelos braços longos, segurando-os atrás da cabeça. Suzana prendeu a respiração de susto e tesão.
Mas, quando a loirinha principiou um bailado voluptuoso com os quadris, Suzana gemeu alto de prazer ao sentir o triângulo de pelos dourados tocando o seu ventre num rebolado enlouquecedor. Sem mais se conter, Suzana livrou-se da doce prisão dos braços. Agarrou com firmeza as nádegas firmes e alvas e aumentou o contato da umidade abrasadora contra sua barriga. Eleonora não parava o bamboleio erótico e quando Suzana a apertou com as mãos fortes, o aumento instantâneo e intenso do contato quase a levou a um gozo imediato. Conteve-se devorando os lábios substanciosos num beijo consumidor.
Desceu aos seios fartos, abocanhando-os, um após o outro com uma gula capital. Lambia, sugava, mordia, comprimia-os com as mãos de encontro ao rosto perdido entre aqueles dois montes de beleza encimados por mamilos trigueiros, tensos de desejo. Suzana arfava e soltava palavras desconexas.
Eleonora prosseguiu burilando a barriga perfeita, brincando com o umbigo, mordiscando a cintura perto do quadril proeminente, causando pequenos sustos, gemidos profundos ou um choramingo suplicante quando roçava a língua sobre o início dos pêlos negros do púbis ao passar de um lado ao outro do abdômen dourado.
Suzana suportava tudo, perdida no doce purgatório entre o deleite e a agonia.
Sem aviso ou indulgência, a jovem treinadora, enfiou o rosto no meio das pernas musculosas e abocanhou a clitóris pulsante sem a menor piedade. Sugou-o inclemente para, em seguida, beijá-lo com torturante leveza. Suzana agarrou-lhe os cabelos numa súplica muda. Eleonora respondeu começando uma degustação, a princípio, delicada, com a língua macia e insistente de baixo para cima. Em seguida, mais firme, rápida e urgente, levando Suzana à beira do delírio, incapaz sequer de emitir um mínimo som articulado, arrastando-a a um gozo intenso e soluçante.
Aquela mulher enorme e poderosa quedava-se trêmula e arfante aninhada nos braços cuja pouca envergadura abraçava docemente os tremores incontroláveis do corpo moreno.
Não durou muito a aparente fragilidade. Ansiosa em possuir o corpo que a enfeitiçara por uma década, Suzana envolveu Eleonora com a pujança que lhe proporcionava os membros vigorosos e o desejo imperioso. Girou-a sobre o seu próprio corpo até colocá-la deitada de costas sobre si como sobre um tapete flexível. Nessa posição privilegiada, Suzana passou a explorar cada centímetro do corpo pequeno e perfeito com as mãos ávidas e insaciáveis. Passeou, exigente, as longas mãos por toda a extensão do tronco arrepiado da sua amante. Capturou-lhe ambos os seios, apertando-os, ora com força, ora com delicadeza, experimentando-os e dominando-os, circundando e apertando os mamilos crescidos e intumescidos com volúpia enquanto beijava e mordia a carne tenra acima da clavícula, próxima ao pescoço. Desceu uma das mãos sensualmente pela trilha de penugem dourada que dividia ao meio o abdômen delgado, e encontrou o paraíso quente e úmido por entre pêlos loiros.
Eleonora gemeu um sussurro entrecortado e arqueou os quadris, aflita por um contato maior que a aliviasse da doce agonia gritando a sua urgência no clitóris túmido.
Inabalável, Suzana começou a explorar aquela cálida maciez com os dedos atrevidos, descobrindo-lhe os segredos, despudoradamente. A mão restante achou o outro recanto de maciez na boca rosada da loirinha a qual passou a sugar-lhe os dedos com a ansiedade de quem espera impacientemente pela saciedade. Eleonora já estava à beira da loucura com aquela mão maravilhosa, massageando-lhe o íntimo, dominando-lhe a escalada do prazer com tanta propriedade. Quando julgou que não agüentaria mais, Suzana virou-a novamente, desta vez de lado, encaixou-se contra as nádegas perfeitas e, privilegiada pelos braços e dedos longilíneos, penetrou-a gentil e firmemente.
Eleonora quase gritou de surpresa e prazer. Começou a mexer-se, freneticamente, para frente e para trás. Para frente, de encontro aos dedos de Suzana, para trás, de encontro aos pêlos do sexo de Suzana, deliciosamente encostados em suas nádegas.
Suzana sincronizava os seus movimentos aos movimentos de Eleonora, que arfava e gemia descompassadamente. De repente, a loirinha contraiu-se num espasmo destemperado, apertou as coxas aprisionando a mão de Suzana entre as suas pernas e soltou um som longo e choroso, sinal de um orgasmo arrebatador.
Foi a vez de Suzana abraçá-la, protetora e carinhosamente, beijando-lhe seguidamente os cabelos sedosos.
Eleonora virou-se, sem uma palavra, e de frente para Suzana, deitou a cabeça sobre os seus ombros com um suspiro indecifrável. Suzana tornou a envolvê-la com os braços e colocou queixo sobre a cabeça loura, também silenciosamente. Não tinham necessidade de falar e não queriam desmanchar esse momento com palavras que, certamente, o destruiriam. Ficaram escutando as respirações uma da outra, grudadas, incapazes de se mexerem, temerosas em propiciar a menor mudança no estado das coisas. Nesta mesma posição, adormeceram.
 
Eleonora acordou com a tênue luz entrando pelos desvãos da cortina do seu quarto. Com leveza, desvencilhou-se delicadamente do abraço de Suzana. De bruços, apoiada sobre os antebraços, ficou olhando para a mulher adormecida com quem fizera amor à noite passada. O rosto, serenizado pelo sono, parecia ainda mais belo. Os cílios escuros dobravam-se de tão longos. O cabelo descansava como um manto negro sobre o travesseiro e uma mecha atrevida, repousava sobre a boca ligeiramente entreaberta. Eleonora afastou a mecha com um sorriso terno pairando nos lábios. Subitamente, seu coração acelerou-se de apreensão com a repentina consciência de algo. Seu estômago se contraiu e a garganta pareceu trespassada por uma seta enquanto ela fechava os olhos e um nome escapava dos seus lábios numa triste anunciação:
- Luciana...
 
 
Parte 3
 
 
Eleonora olhava, perplexa, para a mulher nua adormecida à sua frente. O desvario da noite anterior passara e ainda que o corpo dourado, languidamente abandonado sobre a cama, lhe atraísse o olhar como a uma mariposa embevecida pela luz, a sua mente já havia retomado o domínio sobre a razão e agora a sensação que experimentava era menos de arrependimento do que de uma boa dose de pânico.
Sua agitação pareceu ter sido percebida por Suzana porque a morena abriu lentamente os olhos cor de safira e Eleonora recebeu um olhar tão profundo e terno que, por um instante, a sua angústia foi encoberta pelas batidas do seu coração disparado. Murmurou quase inaudivelmente:
- Suzana...
A jogadora não proferiu uma palavra. Em resposta, ensaiou um sorriso fraco e continuou deixando aos olhos a tarefa de traduzir o que queria dizer naquele momento.
Eleonora ergueu os olhos para o teto numa tentativa de fugir daqueles dois pedaços de mar caribenho que a faziam perder o prumo e o bom senso. Respirou fundo.
- Suzana � chamou novamente, com mais firmeza, restabelecida do recente assomo de enternecimento.
A morena permaneceu calada algum tempo. Por fim, falou simplesmente:
- Sim.
- Precisamos conversar...
Silêncio.
Eleonora continuou sem se perturbar.
- O que aconteceu entre nós...Eu...Não deveria ter acontecido, Suzana... � Eleonora sentou-se na cama de costas para a jogadora. � Suzana, eu sou casada. Bem casada. Tenho uma vida, um lar, compartilho projetos e sonhos com outra pessoa.
Silêncio e olhos azuis indevassáveis.
- Eu tenho uma mulher linda a quem eu amo e respeito. Uma relação estável cheia de afeto, compreensão e apoio mútuos. Olha...Não vou dizer que o que ocorreu ontem à noite não foi intenso e não vou ofender este acontecimento ou o seu discernimento procurando desculpas no que quer que seja, mas...Isso foi um erro. Um erro que não se repetirá. Entendeu?
Silêncio.
Eleonora repetiu mais incisiva:
- Entendeu?
- O que você falou? Sim, eu entendi � Suzana respondeu com uma tranqüilidade imponderável.
- Então estamos de acordo.
- Não.
- O quê? � a jovem treinadora virou-se e fitou a mulher mais alta, calma e displicentemente deitada, recostada em um travesseiro dobrado sob a cabeleira negra.
- Eu disse que entendi o que você falou. Eu não disse que concordava � explicou a jogadora.
Suzana ouviu uma expulsão de ar sonora e exaltada saindo da boca entreaberta, e um rubor intenso tingir a face alva da loirinha � sinal de uma iminente explosão temperamental que poucas pessoas adivinhariam ser possível em uma pessoa com um rosto tão delicado. De fato, Eleonora exclamou quase gritando:
- Você não entendeu, não! Eu não quero nada com você!
- Eu não acredito � retrucou Suzana, inabalável.
Eleonora levantou-se da cama num salto e se postou de frente para Suzana com as mãos na cintura e uma expressão facial alterando-se entre o descrédito e a indignação. Já ia lançando um comentário colérico quando percebeu um sorriso malicioso vindo dos lábios de Suzana. Foi então que se lembrou de que não estava usando uma única peça de roupa. Puxou bruscamente o lençol sobre a cama e se cobriu, desajeitada.
- Su-Suzana, você é a pessoa mais presunçosa que eu conheço. Aliás, a sua presunção só não é maior que a sua incapacidade em ouvir o que não quer!
- Isso é verdade � Suzana falou grave e pausadamente enquanto se levantava e caminhava em direção a Eleonora.
A pequena loira observou aquela mulher alta e nua caminhando para ela lentamente, com os olhos fixos em seu rosto e o queixo voluntarioso cerrado de determinação. Percebeu-se incapaz de se mover. Suzana parou a poucos centímetros dela.
- Realmente, eu tenho grande dificuldade em ouvir o que eu não quero. Eu sei...Mas, o que você não sabe é do que eu sou capaz para conseguir o que eu quero.
Com o rosto quase tocando os seios rijos e morenos, Eleonora girou o corpo rapidamente na intenção clara de bater em retirada. Não deu sequer um passo. Suzana a abraçou pelas costas. Uma das mãos deslizou sob o lençol frouxamente enrolado no corpo da loirinha até capturar o seu palpitante seio esquerdo. O outro braço deslizou pela cintura até quadril, segurando-a colada ao poderoso corpo da atleta.
Eleonora ainda tentou escapar, mas sabia de antemão que era inútil. Apelou para o sarcasmo:
- Então, é desse jeito que você consegue o que quer...Impedindo os outros de fazer o que querem ou, mais precisamente, de fazer o que você não quer.
- Admito que já usei desse artifício muitas vezes em minha vida...Mas não é o caso agora � Suzana aproximou os lábios da orelha de Eleonora até roçá-los de leve na cartilagem macia. Sussurrou devagar. - Trata-se de uma pequena prova do que eu afirmei há pouco. Negue que o seu coração disparou ao toque da minha mão. Diga que não se arrepiou inteira com o meu rosto tão próximo ao seu. Diga...- deslizou os dedos longos pousados sobre o quadril para o início da virilha e encaixou ainda mais as nádegas da jovem treinadora contra o seu baixo ventre. �...que não está novamente molhada de excitação.
Com a respiração alterada, Eleonora respondeu entre-dentes:
- Seria estúpido, senão desnecessário, negar que eu sinto atração por você. Você é linda e sedutora. E sabe disso. Mas o que eu sinto não é nada mais do que isso: simples, ordinária e vulgar atração física. Mais nada!
Suzana afrouxou o abraço, colocou o queixo sobre a cabeça loira, respirou fundo e falou, séria:
- Você pode dizer o que quiser. Vou te citar uma frase que alguém me disse há anos atrás, que nunca saiu da minha cabeça e que eu vou repetir para você. Veja se reconhece: "... Porque eu te vi desarmada dessa sua armadura de indiferença. Porque eu te vi nua de corpo e de alma. Porque eu adormeci escutando o seu coração... Não me venha com conversas sobre como você é. Para mim, você não precisa. Eu já sei". Antes de você me vir com conversas sobre como você se sente em relação a mim, Eleonora... Lembre-se! Eu também estava aqui ontem.
Soltou-a. Eleonora permaneceu quieta no lugar.
Suzana começou a recolher as suas roupas e a vesti-las. Antes de sair, olhou para a mulher ainda estática ao lado da cama.
- Eleonora � chamou.
Não houve resposta.
- Eleonora, saiba de uma coisa. Eu me recuso terminantemente a desistir de você. Eu nunca mais farei isso! Você é o único e definitivo amor da minha vida e eu vou lutar por você como quem luta pela própria sobrevivência. VOCÊ entendeu?
Suzana saiu silenciosamente.
Eleonora seguiu devagar para o banheiro. Parou de frente a pia e se olhou no espelho. Um vácuo tomara o lugar do estômago e um nó cego habitava o meio da sua garganta. De repente, uma erupção de agonia e dor escapou por sua boca em forma de um grito angustiado e abafado... E um vidro de perfume francês achou o seu fim espatifado contra a parede ao lado da banheira.
 
 
 
 
I
 
 
 
- Carla?
- Quem...? Eleonora? � Carlinha olhou para o relógio sobre o criado-mudo � 07:00. Sentou-se na cama. � O que foi, Elê?
- Desculpe, ligar a essa hora, Carlinha. Eu...
- Espere um pouco � cortou, Carla. � Vou desligar aqui e atendê-la na sala - Colocou o telefone no gancho. Olhou para o marido adormecido ao lado e saiu da cama o mais suavemente que conseguiu. Passou para o corredor. Abriu a porta do quarto dos gêmeos e observou se eles também estavam dormindo. "Tudo em paz", pensou com um suspirou de alívio e foi atender a amiga, livre do assédio dos seus três bebezões.
- Alô? Pode falar, agora.
- Me desculpe mais uma vez, Car...
- Elê! Pare de se desculpar e solte logo a bomba.
- Como você...?
- Além do fato suspeitíssimo de você ter me ligado praticamente de madrugada? Mais de vinte anos de amizade, menina. Anda, desembucha.
- Suzana...
- O quê?
Antes que Eleonora repetisse o nome, Carlinha gritou na frente:
- Não me diga que você está falando daquela pessoa cujo nome começa com Suzana e termina com Alcott.
Eleonora não respondeu. O silêncio falou por ela
- Ái, minha "Nossa Senhora das Assombrações!" � exclamou Carla com a costumeira teatralidade. � Não me diga que...Não, não, não. Diga, sim. Conte-me tudo o que está acontecendo, Elê.
Sucintamente, Eleonora relatou os acontecimentos das últimas semanas para a amiga de infância. Carla ouviu sem interferir senão por alguns "ohs" e "merdas" esporádicos. No fim, Eleonora arrematou:
- Eu esperei anos para ela me dizer o que me disse hoje, e ela vem me dizer isso logo agora que tudo parece tão certo na minha vida. A impressão que eu tenho é a de um divertimento cruel dos destinos...Eu não sei como agir ou pensar. Na verdade, eu não sei dizer nem ao menos como eu me sinto. E ainda tem...
- Luciana � completou, Carlinha.
- Talvez seja o que mais me atormente � Eleonora falou baixinho.
- Não deveria.
- Por que? � perguntou Eleonora, intrigada.
- Antes de se preocupar com Luciana, você deveria descobrir o que você sente em relação ao que aconteceu. Antes de começar a se atormentar pelo fato de ter traído a sua mulher, você deveria pensar no motivo que a levou a voltar para os braços de Suzana.
Carlinha fez uma pausa. Eleonora a encorajou:
- Prossiga.
- Veja bem. Eu não estou dizendo que você não deva se preocupar com a sua esposa ou negligenciar os sentimentos dela. Por favor! Ninguém merece isso e muito menos, Luciana. Além disso, eu quero mais é que Suzana Alcott se afogue em qualquer um dos rios do inferno apenas por um só dos dias em que você permaneceu quase catatônica de tristeza e apatia. Mas...- Carlinha respirou fundo com que para dar mais ênfase ao que iria dizer. - Eu acho, minha amiga, que você deveria enfrentar esse fantasma do seu passado, repentinamente reencarnado, e encarar terminantemente o que ainda existe de Suzana Alcott em algum lugar do seu coração...Desconheço outra forma de se descobrir o que se sente em relação ao que quer que seja.
Eleonora demorou um pouco para tecer algum comentário, como que pesando as palavras que acabara de ouvir. Falou com cautela:
- Não, Carla. Eu posso não saber ainda o que sinto sobre Suzana, mas eu sei o que eu não quero. Eu não quero Suzana Alcott na minha vida nem para um exorcismo! Eu não quero qualquer contato com aquela mulher senão o estritamente profissional porque este é inevitável e eu vou terminar o trabalho ao qual me propus, com ou sem ela � Eleonora afirmou, exaltada.
- Eu realmente espero que você consiga, amiga.
- Eu não estou te entendendo, Carla! Eu acabei de dizer que não vou permitir que Suzana se aproxime de mim. Pôxa, Carlinha. Eu sou feliz com Luciana. Você sabe disso. Eu não entendi o tom de dúvida.
- Você quer mesmo saber o que me parece tudo isso, Elê?
- Quero.
- Muito bem. Eu acabei de te aconselhar a encarar esse espectro do seu passado e com ele os seus reais sentimentos. Você recusou. Disse que não quer nenhum contato com essa pessoa nem para esconjurar os seus demônios íntimos, porque você já é muito feliz com o que tem agora. Não duvido. Aliás, por esta postura firme, eu fico imensamente contente, mas...
- Mas?
- Não fique brava comigo, mas eu não consigo deixar de pensar que você pode não estar querendo encarar Suzana novamente porque já fez isso ontem e...Bom...Deu no que deu. Pronto, disse!
- Preciso desligar...
- Tudo bem. Desculpe se eu fui inconveniente, Elê.
- Não! Não...Você não foi. Vou tomar o meu café da manhã, agora.
- Ligue quando quiser.
- Ligarei, obrigada. Tchau.
Eleonora desligou pensativa e levemente aborrecida. O telefonema não a acalmara. Pelo contrário...Não esperava aquele posicionamento de sua melhor amiga. Imaginara um apoio contundente à sua disposição em evitar Suzana, mas ao invés disso... "Não sei porque estou dando tanta importância a isso. A Carla sempre foi meio maluquinha e imprevisível mesmo". Procurou ignorar um vago pensamento de como aquela doce maluquinha podia ser extremamente lúcida, às vezes.
 
 
A segunda-feira começou com uma breve preleção da técnica antes do início do treino, pois o dia marcava a contagem regressiva de trinta dias para o início do campeonato mundial. Regina explicitou o foco que seria dado ao treinamento neste último mês e aproveitou para anunciar que fariam cinco jogos preparatórios contra a seleção de Cuba dali a dez dias. Para não cansar a equipe, fariam três jogos em Curitiba mesmo e dois em São Paulo, de onde partiriam diretamente para a Espanha, sede do campeonato.
Também seria o primeiro dia de Suzana treinando em definitivo junto com a equipe. Por sinal, Suzana não só treinou bem como arrasou no treino. Os dois dias seguintes não foram diferentes. Parecia mais inspirada, atenta e dedicada do que nunca. Não havia uma única pessoa no ginásio que a vendo jogar não ficasse totalmente fascinada. Regina não estava apenas contente com performance de sua melhor jogadora, estava impressionada.
- É claro que precisamos afinar toda a equipe, mas...Caramba! Com Suzana jogando desse jeito, somos sérias candidatas ao título � disse a técnica, dirigindo-se a Eleonora que estava ao seu lado assistindo ao coletivo.
Eleonora apenas anuiu com a cabeça. Olhava, extasiada, para a altiva figura morena esbanjando a sua técnica impecável e o seu corpo vigoroso e flexível perfeitamente ajustado aos ditames de sua senhora. Suzana se agigantava em quadra, fazia jogadas sensacionais, passes mediúnicos, cestas certeiras. Estava irresistível. Não havia como não admirá-la. "Deus, ela é espetacular", pensava Eleonora sem conseguir reprimir a admiração. Focada no firme propósito de não se deixar aliciar pelos inúmeros atrativos da bela jogadora, Eleonora creditou este súbito fascínio ao entusiasmo produzido por uma atleta excepcional do esporte que era, afinal de contas, uma das paixões de sua vida.
Na verdade, Suzana estava dando tudo de si, utilizando tudo o que sabia e era capaz para atrair os olhares de Eleonora. Nos últimos três dias havia se mantido a uma distância reservada, disfarçando a ansiedade e a perturbação que a presença da jovem loira lhe causava. Sabia intuitivamente que devia deixá-la respirar um pouco, não forçá-la, pelo menos por enquanto. A loirinha, se confrontada, podia ser teimosa como uma mula. Devia cercá-la, cumulá-la com a sua presença constante, mas discreta. E então, com paciência e tenacidade, levar Eleonora a perceber que ainda era apaixonada por ela.
Na realidade, Suzana não estava totalmente segura como se empenhava em permanecer. Não. Mas estava completamente decidida. A atleta apostava todas as suas fichas em uma certeza tênue e uma esperança pujante. A certeza: Eleonora a desejava, não havia dúvida. A esperança: a de que aquele lampejo de paixão que Suzana vislumbrou nos olhos verdes em meio à incandescência sensual daquela noite em que fizeram amor, fosse um indício de que Eleonora poderia ainda amá-la. "Eu não sou conhecida como um gênio estrategista do basquete? Não sou capaz de criar um ataque certeiro apenas com uma rápida análise do adversário a ser ultrapassado? Pois bem! Eu vou usar toda essa minha capacidade estratégica para trazer Eleonora de volta para mim".
Confiante, Suzana parecia tomada de uma intensa jovialidade. Estava iluminada. Conversava com animação. Brincava com todos. Treinava com dedicação, empolgando a equipe. Sutilmente, aproveitava a mínima brecha para chegar perto de Eleonora, fazer-se vista por ela, sentida. Inventava meios de tocá-la inadvertida e acidentalmente, concebendo perguntas, imiscuindo-se na roda da comissão técnica para tecer comentários. Nessas ocasiões, esbanjava charme e distribuía os seus sorrisos devastadores com incomum freqüência. Estavam todos encantados.
Por menos que quisesse admitir, Eleonora não era imune ao magnetismo da bela morena. Ainda mais porque Suzana não se fazia por demais direta ou invasiva. Pelo contrário, era discretamente charmosa, aparentemente inofensiva. Talvez por isso, Eleonora começasse a se permitir observar disfarçadamente a figura altiva passeando pela quadra como uma princesa em seu reino. Talvez por isso, não tenha reparado nos tênues sinais de perigo quando se pegava observando o belo sorriso emoldurado por brilhantes olhos azuis, quase sempre acompanhado pelo menear gracioso das mãos longas de quando Suzana tecia um comentário particularmente espirituoso. Ou quando acompanhava as pernas fortes retesando-se poderosas no momento de um jump, invariavelmente certeiro.
Como tudo que não nos é totalmente explícito ou quando nos é particularmente difícil enxergar o óbvio, Eleonora ignorava os alarmes da sua consciência entorpecida por um par de pernas espetaculares, como algo de somenos importância.
Outra estratégia de Suzana, baseada no fato da comissão técnica costumar reunir-se informalmente após o treino para tecer comentários sobre o treinamento e trocar algumas idéias, foi cuidadosamente constituída. Como por encanto, Suzana adquiriu o hábito, depois do treinamento, de tirar a camisa de treino, soltar a vasta cabeleira negra ainda em quadra e ficar alguns minutos sentada no banco de reservas como que relaxando os membros cansados antes da chuveirada revigorante. O resultado era uma visão privilegiada do corpo soberbo mal coberto pelo top segurando os seios que se adivinhavam perfeitos, e a pequena bermuda de elanca, baixa o suficiente apenas para não ser indecente, grudada como uma segunda pele ao final do abdômen dividido e ao início das coxas morenas, musculosas e exatas. Um corpo para se cultuar.
Conclusão.
Um cerco de colegas de equipe encantadas, fotógrafos ávidos por fotos inéditas e fãs alucinados gritando das arquibancadas e de vez em quando presenteados com um sorriso ou um aceno - pequenas atenções recebidas com gritos ainda mais estridentes.
Eleonora olhava de soslaio o frisson em torno de Suzana.
No final daquela quinta-feira, Eleonora estava de pé conversando com a técnica Regina, o auxiliar Jorge e a fisioterapeuta Aline sobre o treino terminado há pouco. Suzana se encontrava confortavelmente sentada no banco com as longas pernas estiradas e cruzadas, os braços atrás da cabeça e um sorriso descontraído nos lábios enquanto conversava com três outras jogadora da seleção. Regina, observando a cena, não conteve um comentário:
- Deus realmente privilegia alguns seres humanos. Alguém aqui é capaz de achar algum defeito no corpo de Suzana?
Eleonora, Oscar e Aline olharam ao mesmo tempo para a jogadora palestrando animadamente com as companheiras de equipe.
Suzana que espreitava a sua presa com olhos de falcão, quando se sentiu observada, retesou o corpo espreguiçando-se como um gato caprichoso. Levantou-se em seguida, comentou qualquer coisa rapidamente com o grupo, pegou a bolsa e saiu andando para o banheiro. Diversos pares de olhos acompanharam a graça felina dos seus passos em direção ao vestiário, inclusive um par de olhos verdes hipnotizados por aquele andar cadenciado, ao mesmo tempo macio e vigoroso. Por alguns segundos, a quadra ficou tomada por um silêncio incomum.
Infelizmente, para algumas caras embasbacadas de admiração, Suzana sumiu pela lateral da quadra e anulou o encanto que ela ardilosamente criara em torno de si. Aline foi a primeira a comentar:
- Você tem razão, Regina. Suzana é linda.
- Eu não estaria exagerando se dissesse que Suzana é a mulher mais atraente que eu já vi em toda a minha vida. Que a minha mulher não me ouça � gracejou o auxiliar-técnico.
Regina ainda acrescentou alguma coisa, mas Eleonora já não a ouvia. Ainda olhava para a porta onde Suzana sumira. Tentava convencer-se de que o calor que lhe tomara o corpo e o acelerar imediato do seu coração devia-se a existência ainda de uma certa irritação com relação à Suzana. Era isso! Balançou a cabeça e tornou a prestar atenção no que dizia a técnica.
 
 
 
 
 
II
 
 
 
No outro dia, à noite, sentadas em uma mesa na varanda do Café em frente à piscina do hotel, Eleonora e Regina discutiam o posicionamento tático do ataque da seleção utilizando uma prancheta com uma quadra desenhada e um pincel de tinta lavável. Concentradas, debatiam acaloradamente a posição das pivôs em algumas das jogadas da equipe. Não perceberam a chegada de uma figura alta, parada atrás das cadeiras.
- Eu acho que a Márcia deveria se posicionar na lateral, nessa jogada � Suzana falou.
As duas cabeças se viraram ao mesmo tempo para a jogadora.
- Como? � perguntou a técnica.
Suzana sentou-se ao lado de Eleonora que ficou entre ela e a técnica. A jogadora pediu o pincel. Apagou os caracteres anteriores e desenhou rapidamente o posicionamento que julgava ser o melhor. Começou a explicar:
- Vejam bem, a Márcia é mais alta e mais pesada, tem maior presença no garrafão, por isso...
Suzana continuou a sua explanação de forma clara e objetiva, mas Eleonora não conseguiu prestar atenção por muito tempo. É que ao começar a sua explicação, Suzana debruçou-se sobre a mesa e também, levemente, sobre Eleonora que se viu de frente ao pescoço macio e forte. O braço moreno encostava-se ligeiramente ao da loirinha enquanto Suzana rabiscava na prancheta e o cheiro dos cabelos ainda úmidos do banho recente pairava como uma aragem inebriante em volta da cabeleira negra. Por fim, quando uma fina mecha escura escapou das demais roçando a face de contornos clássicos, Eleonora teve de fazer um esforço tremendo para controlar a vontade de colocá-los delicadamente de volta atrás da orelha. De repente, Suzana se virou para ela de modo que os seus rostos não ficaram mais que a uns poucos centímetros um do outro:
- O que você acha, Eleonora?
Pega de surpresa, a jovem treinadora abriu a boca com uma respiração rápida, mas não conseguiu emitir uma única palavra.
Suzana abriu um daqueles sorrisos avassaladores.
- O que foi, Elê? O gato comeu a sua língua? � brincou.
"Não. Uma tigresa... Uma tigresa de cabelos negros e íris cor do mar" ¹, pensou Eleonora. Recobrou-se não sem alguma dificuldade. Deu uma olhada ligeira na prancheta com o posicionamento sugerido por Suzana e os anos de estudo e intimidade com o basquetebol se encarregaram de colocá-la rapidamente a par da sugestão da jogadora.
- É...Bom, eu achei muito pertinente a sua colocação, Suzana. Acho que este posicionamento das nossas duas pivôs vai melhorar o desempenho da jogada dentro do garrafão e, mais ainda, ele permite liberar as alas para um possível arremesso da lateral, livre de qualquer marcação, se a jogada for bem feita.
Suzana abriu um sorriso ainda mais largo.
- É isso! Nós tínhamos uma jogada semelhante no meu último time da WNBA e ela foi muito eficiente por diversas vezes. O que você acha, Regina?
- Acho que vale a pena tentarmos, amanhã.
Suzana ainda estava com o rosto a um palmo do rosto de Eleonora que segurava a custo a sua agitação e, no entanto, não conseguia se afastar do calor que emanava da pele cor de bronze. E a voz...Ah! A voz de Suzana, que conversava descontraidamente com Regina, ainda continha o mesmo timbre grave e macio do qual Eleonora se lembrava e que até então não tinha se dado ao direito de usufruir sem uma barreira de proteção contra os efeitos daquele tom aveludado sobre os seus sentidos. Mas, como Suzana não parecia estar prestando atenção na loirinha, Eleonora permitiu-se desfrutar tanto do perfil perfeito quanto da voz memorável.
De repente, Eleonora deu-se conta do que estava fazendo. Levantou-se num salto, derrubando a cadeira na qual estava sentada. Dois rostos indagadores viraram-se para ela.
- E-Eu...Eu me lembrei de que estou esperando um telefonema daqui a poucos minutos. É...Importante. Tchau, Regina. Tchau, Suzana � balbuciou a loirinha, saindo apressada.
Regina olhou para Suzana, atônita. Suzana respondeu com um leve erguer de sobrancelhas, mas na verdade sentia ganas de gritar de alegria.
Eleonora entrou no elevador refeita da confusão e completamente irritada consigo mesma por ter feito novamente, na sua concepção, papel de idiota na frente de Suzana. "Droga, Eleonora! Controle-se!" Saiu para o corredor pisando duro e revalidando, mentalmente, o firme propósito de evitar Suzana o máximo possível.
 
 
 
 
No treino do final da semana, Suzana vislumbrou a chance de uma investida mais ousada. Estava conversando com Regina quando a fisioterapeuta da equipe se aproximou e perguntou se poderia se ausentar apenas na parte da tarde para se encontrar com a mãe, de passagem por Curitiba.
- Tudo bem, Aline. Não vejo problemas quanto a isso.
- É claro que eu vou deixar organizados, para a sua apreciação, os meus relatórios quanto ao tratamento das atletas com lesões, principalmente os relativos à torção no tornozelo da pivô Márcia e à lombalgia da Adriana, ambas em franca recuperação. Suzana está ótima � completou, sorrido para a jogadora que retribuiu, simpática. � No mais, qualquer problema é só ligar para o meu celular.
- Obrigada, Aline. Fique sossegada. Todos precisamos de um pouco do conforto familiar. Ao final do treino, se não houver qualquer ocorrência que necessite da sua atuação profissional, você está dispensada.
- Obrigada, Regina. Suzana... - a fisioterapeuta cumprimentou-as com um aceno da cabeça e se retirou.
O treino começou e Suzana dedicou-se a ele com o costumeiro afinco. Ao final do treinamento, relaxou, como estava se tornando de costume, no banco de reservas. Vigiou a fisioterapeuta despedir-se de Eleonora e Regina e sair. Esperou um instante, levantou-se e se dirigiu a elas com uma marcha ligeiramente dificultada. Regina a notou se aproximar daquela forma, com apreensão.
- Algum problema, Suzana?
- Minha coxa...
- Pelo amor de Deus, Suzana! Não me diga que você voltou a sentir a sua lesão.
- Não, não. Nada parecido. Está apenas dolorida. Nada que uma boa massagem não resolva.
- E, agora? A Aline acabou de sair.
Suzana olhou candidamente para Eleonora:
- A Adriana me contou que Eleonora é uma excelente massoterapeuta.
Eleonora imaginou ouviu sirenes de alarme. Suzana continuou:
- Você poderia me fazer esse favor, Elê? � Suzana perguntou com uma cara de inocência merecedora de um "Globo de Ouro".
Eleonora, surpresa e um tanto atônita, passou os olhos de Suzana para Regina. A técnica antecipou-se a ela:
- Já me disseram que você é mesmo muito boa, Elê. Tudo bem para você?
- Acho que sim, eu...
- Ótimo � apressou-se, Suzana. � Melhor no hotel. Lá tem uma sala de massagens que, acredito, podemos usar. Depois do almoço, então. Ás três horas está bom?
- Está...
- Te encontro lá � Suzana retirou-se em direção ao vestiário esforçando-se para não correr ou, mais provavelmente, não dar pulinhos como uma criança que aguarda um presente ansiado.
 
 
Eleonora chegou primeiro à sala de massagens do hotel. Recomposta da surpresa do pedido inesperado de Suzana, a recorrente impressão de que a jogadora pudesse estar forçando um encontro a sós dissimulando uma dor muscular inexistente, fazia a jovem treinadora sentir-se capaz de estrangular a mulher mais alta.
Quando Suzana apareceu na porta com um sorriso para lá de imaculado estampado no rosto, a loirinha quase consumou o assassinato. Contudo, Suzana veio caminhando com evidente dificuldade e, em um segundo, transformou a raiva de Eleonora em real preocupação.
- Você não acha melhor chamarmos a Aline para dar uma olhada nisso, Suzana?
- Não é necessário, Elê. Agora que eu esfriei, só está um pouco mais dolorido. Não se preocupe. Se eu sentisse que era algo mais que um desconforto passageiro, eu não só pediria como exigiria um atendimento profissional especializado. Nunca fui irresponsável com o meu corpo, Eleonora.
- Eu sei. Deite-se, então. Vou tentar aliviar um pouco dessa tensão.
- Acho melhor tirar o short � Suzana argumentou, já tirando o short jeans. Deitou-se apenas de calcinha sobre a maca.
Eleonora pegou o óleo de massagem e derramou-o sobre a mão para, em seguida, esfregá-las vigorosamente. Começou com um movimento preparatório de deslizamento pela coxa de Suzana. A jogadora deixou escapar um suspiro de prazer.
Concentrada, Eleonora executava o trabalho com perícia sem notar a pele morena sobre a coxa longa e musculosa na qual deslizava as palmas das mãos.
Esta consciência foi se instalando aos poucos.
De repente, Eleonora começou a observar as pernas perfeitas, admirar os contornos anatômicos dos músculos poderosos, a maciez aveludada da pele bronzeada. Suzana sentiu a sutileza da mudança. Fechou os olhos e fingiu estar alheia ao toque das mãos delicadas.
A treinadora não percebeu quando o toque profissional transfigurou-se lentamente em quase uma carícia. Como que hipnotizada, Eleonora olhava para aquelas pernas irretocáveis e seus dedos, tomados por uma vida própria, corriam deliciados pela superfície morena. Um gemido abafado acordou a loirinha do seu devaneio momentâneo. Suzana não lhe deu tempo de se recobrar do embaraço. Com a voz grave e rouca falou, sedutora:
- Tem um outro lugar que precisa urgentemente de alívio � disse e colocou a mão sobre mão de Eleonora trazendo-a para o meio das suas pernas. � O outro é bem aqui. Pegou a outra mão e a pôs sobre o seio intumescido e palpitante.
Debruçada sobre Suzana, perdida na imensidão dos olhos mais incrivelmente azuis que já pudera um dia ter a sorte de fitar, Eleonora não tinha reação. Sua mão sobre a intimidade úmida e quente daquela mulher belíssima, a outra sobre os seios maravilhosos que roubariam a razão de qualquer mortal, tiraram dela a menor chance de ser razoável.
Uma mão longa a puxou pelo pescoço e ela não demorou muito a se ver em um beijo profundo e sensual.
Deixou de raciocinar.
Seu coração batia recordes de velocidade, sua respiração era um simples interlúdio entre beijar e beijar, suas mão faziam o que ela ansiara por anos � tocar aquela mulher em lugares que só ela poderia. Fazê-la gemer como estava gemendo agora, ouvir seus sussurros dizendo o seu nome com a mesma voz enrouquecida com a qual ela sonhara por tanto tempo. Deus...
Suzana enlaçou-a pela cintura e a fez deitar-se sobre ela. Uma das mãos segurava-a pela nuca aprofundando o beijo o máximo possível. Abriu as pernas para encaixar com perfeição a pequena mulher sobre si. Um gemido mal contido a convenceu de que a manobra tinha sido bem recebida.
As mãos deslizaram rapidamente para as costas de Eleonora, insinuando-se por baixo da camiseta, tateando as costas torneadas. Eleonora não pensava, apenas sentia. Aninhada entre as pernas fortes, debruçada sobre o torso de bronze com a boca colada àqueles lábios cheios, artífices de um sorriso tão quente que fariam frias as temperaturas do meio-dia em pleno Saara, Eleonora realmente não tinha como raciocinar. Entregou-se inteiramente às sensações que Suzana lhe provocava. Deixou-se inundar numa nascente de excitação e calor. Emaranhou os dedos naquela floresta de cabelos negros. Perdeu-se no cheiro da pele morena, no gosto da boca, no prazer das mãos longas passeando nas suas costas.
Suzana sentia-se no paraíso. Em algum lugar de sua mente, ela se perguntava como pudera abdicar desse prazer infinito por tanto tempo. Absolutamente ninguém era capaz de lhe dar essa sensação de plenitude, amor e desejo que Eleonora lhe concedia com tanta facilidade. Sentia vontade de rir e de chorar, de ser capaz de colar a pequena loira à sua pele, consumi-la pelos poros até que ela se tornasse parte de si e nunca mais a abandonasse.
"Meu Deus! Isso é amor? Esta alegria estranha misturada com medo? Esta exultação e esse desespero? Este êxtase por possuir, essa agonia por temer perder?" Suzana parou de beijar, segurou a face delicada com ambas as mãos, fitou os olhos verdes e falou com veemência:
- Eu, nunca mais...Nunca mais...vou deixar você sair de perto de mim, Eleonora.
A jovem treinadora olhou para aqueles olhos azuis e não conseguiu dizer nada, mas como se uma simples verbalização pudesse despertá-la de um sonho bizarro, Eleonora levantou-se e desceu da maca completamente atarantada.
Não se encontrava capaz de compreender o seu comportamento. Como pudera se entregar com tanta facilidade? Que diabos de pessoa era ela que não tinha a menor determinação? Estava envergonhada e confusa. Apenas, sentia ganas de correr para um lugar onde ninguém conseguisse encontrá-la. Pousou os olhos cor de esmeralda na jogadora sentada sobre a maca olhando-a, aflita. Foi acometida por uma cólera fulminante.
- Você...Sua...Você armou tudo isso! Mentirosa! Traiçoeira! Nunca mais, encoste as mãos em mim. Não percebe que eu não quero você, que eu não suporto você?!
- Agora a pouco, não foi o que pareceu...
A face da jovem loira alterou-se para um vermelho ainda mais intenso.
- Cale a boca! Você...Você...Não ouse nem ao menos se aproximar de mim outra vez, Suzana. Abstenha-se mesmo de falar comigo, entendeu?
Eleonora saiu pisando duro, colérica.
Suzana deitou-se novamente com um suspiro. Não sabia mais o que pensar e a sua confiança de outrora se assemelhava cada vez mais a uma esperança diáfana. Pela primeira vez, aventou a hipótese de não conseguir trazer Eleonora de volta para si. E, depois de muito tempo em sua vida, sentiu medo.
 
¹ Alusão à música "Tigresa" de Caetano Veloso.
 
 
 
III
 
 
 
 
Deitada na cama com os olhos grudados no teto, possivelmente um dos lugares mais estúpidos e misteriosamente um dos mais escolhidos para se olhar quando se quer refletir sobre algo, Eleonora estava imaginando o que diabos estava acontecendo com os últimos fins de semana de sua vida. De repente, em todos os sábados acontecia-lhe alguma coisa crítica e desconcertante e todos os domingos ela passava em considerações e ajuizamentos a respeito dos acontecimentos do dia anterior. Parecia uma sucessão surreal, para não dizer infernal, de fins de semana exasperantes.
Há poucos minutos falara com Luciana. A esposa percebera a sua perturbação. Com a desculpa de estar sentindo a pressão exercida pela proximidade do Campeonato Mundial, Eleonora conseguiu escapar das perguntas de uma Luciana cada vez mais desconfiada. Por sorte, a notícia de que a equipe passaria uns dias em São Paulo antes de embarcar para a Europa deixou a médica tão contente que ela se esqueceu momentaneamente de especular o estado de espírito de Eleonora, claramente alterado, apesar dos esforços da loirinha por aparentar normalidade.
Mais calma e mais ponderada, nesse exato momento, Eleonora só conseguia pensar nas palavras de Carlinha e a confluência delas com os seus atos na sala de massagens. Estava abismada com a facilidade com que havia se rendido aos encantos de Suzana. Seu coração doía apenas em imaginar o sorriso doce de Luciana da mesma forma que seu ventre se contraía ao se lembrar do seu abandono nos braços de Suzana. Precisava avaliar melhor sua fraqueza e armar-se contra aquela sirena de cabelos negros e corpo de deusa. Sentia-se envolvida por uma teia invisível, porém resistente, e cuja força não iria mais subestimar.
- Você não me pega mais despreparada, Suzana. Nunca mais! � Eleonora falou alto para si mesma.
Levantou-se para tomar um banho morno que certamente a ajudaria a recuperar a vitalidade.
Não viu Suzana até o treino do dia posterior.
 
 
 
A semana começou com uma mudança nos hábitos que tinham se tornado diários na equipe. Habilmente, Eleonora conseguiu mudar o local da pequena reunião pós-treino da comissão técnica para o portão de saída do ginásio, com ela devidamente postada de costas para a quadra. Também de forma sutil, a treinadora física passou a tratar Suzana com um distanciamento ainda maior, evitando discretamente o menor contato com a jogadora. Suzana percebeu estas tentativas de evitá-la com apreensão, mas já havia recuperado um pouco da confiança despedaçada pela explosão de fúria da loirinha no dia da massagem. Como sempre, se recusava a desistir sem muita, muita luta. Esperava, pacientemente, a chance de se aproximar novamente do seu amor.
No dia primeiro jogo com a seleção de Cuba, o time já estava todo no ônibus para se dirigir ao Ginásio de Esportes quando Suzana entrou. Vasculhou o veículo em busca de um lugar vago e diversas vozes a convidaram alegremente para se sentar ao lado delas. No entanto, os olhos azuis perceberam uma figura pequena sozinha no fundo do ônibus. Não titubeou e caminhou incontinenti para ela. Sentou-se indiferente ao olhar de descrédito da loirinha.
- Posso me sentar aqui? � perguntou com um sorriso caloroso e já tomando assento antes de ouvir a resposta.
- Eu...Não acredito! � falou Eleonora. � Você realmente não conhece constrangimento, Suzana.
- Em determinados assuntos, nenhum mesmo!
- Será que é tão difícil entender que eu não quero a menor proximidade com você?
- Não, não é difícil. Eu acho que você realmente acredita que não me quer por perto. A minha função aqui é fazê-la ver que você está se enganando...
- Mas, é o fim da picada. Sua arrogância não conhece limites. Vou para outro lugar � Eleonora ensaiou se levantar, mas reparou no tamanho do obstáculo imposto pelas pernas longas espremidas entre os bancos. � Você pode me dar licença?
- Não.
Eleonora enrubesceu e se virou irritada para Suzana.
- Suzana, você está agindo como uma criança. Você acha mesmo que vai conseguir me convencer de alguma coisa se comportando dessa forma? Você só está conseguindo me irritar.
- Pelo menos eu obtive alguma reação. E depois...Ninguém fica tão adorável vermelha desse jeito, como você, Elê. Você tem noção do quanto fica atraente?
Eleonora não respondeu de imediato. Respirou fundo e falou lentamente tentando contornar a irritação:
- Você teve a sua chance há muito tempo, Suzana, e se mostrou indigna de qualquer confiança. Agora, a ocasião pertence à outra pessoa muito melhor do que você.
Se Eleonora pretendeu atingir Suzana em algum lugar doloroso, o intento foi mais do que certeiro. A face outrora sorridente da jogadora transformou-se. Uma máscara de surpresa e dor tomou conta do belo rosto.
Foi como se algo atingisse o estômago de Eleonora, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Suzana se pronunciou:
- Eu sei...Eu sei que eu tive a chance de ser imensamente feliz com a mulher que eu amo, há muito tempo atrás. Eu sei que provavelmente você esteja com uma pessoa muito melhor do que eu. Mas, o que seria de nós se não pudéssemos retificar os nossos erros e procurarmos ser felizes? O que seria de mim, cuja vida toda foi fugir do que amava, se eu não tivesse tido a chance de me reconciliar com minha mãe e ela comigo ou de me desculpar com o meu irmão pela brutalidade com a qual eu o tratava, por inveja e ciúme do amor que lhe dedicavam, e que me impediu por tanto tempo de reconhecer o amor que ele dedicava a mim?
Suzana olhou para Eleonora com os olhos turvos de tristeza.
- Mas a questão aqui não são as minhas historiazinhas de "pobre menina rica". A questão aqui é quem que, agora, está mentindo para si mesma - Suzana se levantou vagarosamente. � Mas...Talvez...Talvez seja eu, mais uma vez, quem esteja enganada. Afinal, eu tenho uma longa experiência em equívocos, não é mesmo?
Saiu e foi se sentar em outra poltrona.
Eleonora lutou para não deixar que o bolo em sua garganta se transformasse em choro compulsivo. Tratou de colocar os óculos escuros e observar a paisagem do final da tarde.
 
 
O time brasileiro venceu a seleção de Cuba por um placar apertado de três pontos de diferença com um jogo irregular, apresentando muitos altos e baixos. Suzana, apesar de jogar bem, não foi nem de longe a jogadora brilhante que era capaz de ser. Regina anotou cuidadosamente os pontos a serem melhorados, conversou brevemente com as atletas após a partida e, então, as liberou para descansar. Com a comissão técnica, marcou uma reunião logo em seguida de modo que Eleonora só foi se recolher perto da meia-noite.
Debruçada na sacada, indiferente ao frio ainda incômodo do fim do inverno, a jovem pensava no episódio com Suzana, no ônibus. Algo nos olhos azuis havia lhe dito que Eleonora tinha atingido a mulher mais alta em um ponto muito frágil. Mais ainda, era provável que ela tivesse conseguido, finalmente, que a jogadora desistisse dela. Então, porque essa angústia, essa...Decepção? "Não, não, claro que não". Eleonora pensava. Ela fora grosseira, rude. Não era um tipo de atitude que lhe fosse peculiar. Não estava acostumada a ser tão hostil, mas a verdade é que Suzana a exasperava, a desequilibrava a ponto dela não mais se reconhecer! "Era isso!". Sabia o que devia fazer. Na primeira oportunidade se desculparia.
Em uma outra sacada, naquele mesmo instante, Suzana olhava alheia para as luzes da avenida sem a mínima vontade de dormir. Pela primeira vez, desde que se decidira a reconquistar o seu grande amor, sentia-se desesperançada e quase incrédula da sua capacidade em conseguir o que pretendia, quase destituída da sua disposição em lutar. Afinal, se Eleonora demonstrava tanto desprezo por ela, não havia por que lutar. Estava abatida e lá no fundinho, despontava persistente, uma ponta de mágoa que ela nem sabia se tinha o direito de sentir.
Respirou profunda e desoladamente e foi se deitar.
 
 
Eleonora não teve a oportunidade de falar com Suzana senão após o segundo jogo com a seleção cubana. A seleção brasileira venceu novamente. Na prorrogação. Contudo, apesar do placar ainda mais apertado do que o anterior, a partida foi melhor, mais bem disputada e a equipe pôde corrigir alguns erros, principalmente, os de posicionamento. No final, foi um ótimo treino. Suzana não jogou nem melhor nem pior do que no último jogo.
Ao chegarem ao hotel, a maioria da equipe seguiu direto para os quartos. Suzana permaneceu no hall de entrada falando no celular. Caminhava de um lado ao outro do living com um sorriso estampado no rosto. Eleonora percebeu uma excelente oportunidade de conversar com Suzana a sós, então, esperou pacientemente que ela terminasse a ligação em um lado do balcão da entrada sem que a morena a percebesse.
Finalmente, Suzana veio falando e caminhando em direção ao elevador, de frente do qual se colocara a jovem treinadora que pôde escutar o final da conversa.
- Don�t say that, little brother. Forget it, ok?
Suzana soltou uma breve gargalhada.
- I understand you completely. So�I�ll see you in Spain, right?...You will try. Just, try a lot, ok? I miss you�Love you too. Bye.
Suzana disse as últimas palavras olhando indagadora para Eleonora. Desligou.
Eleonora se aproximou.
- Eu gostaria de falar com você.
O coração de Suzana deu um salto. Mas, escaldada, conteve a excitação exposta pela esperança - esta eterna reincidente. Respirou fundo e perguntou, aparentemente impassível:
- Agora?
- Sim.
- Muito bem. Sou toda ouvidos.
Eleonora olhou em volta. Estavam praticamente sozinhas no hall de entrada. Voltou os olhos para Suzana.
- Sobre aquele dia no ônibus...
Suzana se retesou.
- O que é que tem?
- Bom...Eu queria...
Eleonora fitou os olhos azuis atentos aos seus lábios e estancou. Suzana tinha um jeito de prestar atenção, pendendo a cabeça levemente para o lado e olhando intensamente para o seu interlocutor, que era de embaraçar qualquer um. "Diabos de mulher bonita". Eleonora desviou os olhos para o chão.
- Eu queria me desculpar...
- Não � Suzana cortou, firmemente.
Eleonora ergueu a cabeça, surpresa.
- Não, o quê?
- Não se desculpe.
- Porque não? Eu fui grosseira e...
- Ah! Então, você está se desculpando para se sentir melhor?
- Não! Eu apenas...Eu não queria dizer aquilo, Suzana.
- Queria, sim. Você realmente acha que eu não sou digna de confiança e não sei se posso culpá-la por isso. Mas, também, não sei se eu agüento mais isso!
- Suzana... � Eleonora quase suplicou.
- Não, Eleonora. Eu sei que fiz muita besteira. Eu sei que magoei muita gente, inclusive você. Mas, eu passei muito tempo da minha vida compreendendo e reparando os meus erros, exaurindo ressentimentos e, principalmente, tentando me perdoar. Esse esforço trouxe a minha família de volta para mim � minha tia, por exemplo, e Robert, com quem, aliás, eu estava falando há pouco... � Suzana passou as mãos pelos cabelos negros e, em seguida, estendeu os braços para Eleonora. � E aí, os destinos colocaram você novamente no meu caminho... � Deixou os braços caírem nas pernas. � E, no entanto, apesar de tudo, eu não sei mais o que fazer para alcançar o seu coração.
Eleonora argumentou baixinho:
- Eu nunca quis ferir você...
- Elê, você não está me ouvindo... Aliás, você não me entendeu. Você pode ferir, me bater, me matar...Eu não me importo! Desde que você esteja ao meu lado. Desde que você queira estar ao meu lado. Você quer?
Silêncio.
Suzana continuou, desolada.
- É isso! É disso que eu estou falando! - Suzana virou-se para ir embora. Parou e se voltou para Eleonora. Mais uma vez. - Eu não quero as suas desculpas. Eu não quero mais me desculpar. Chega! Olhe para mim.
Eleonora olhou.
- Eu não quero nem mais que você me perdoe ou que seja compreensiva, indulgente ou simplesmente lastimosa com o que nos aconteceu no passado. Eu quero que você olhe para nós duas, hoje! E seja apenas justa.
- Suzana, não é isso...
- Quer saber, Eleonora? Eu estou cansada.
Suzana foi embora e deixou a pequena loira parada olhando sem enxergar para a porta do elevador enquanto assistia ruírem muitas das convicções sobre as quais se sustentara até agora.
 
 
 
Os dias seguintes tiveram uma tônica completamente diferente. Suzana, embora tenha continuado expansiva e simpática, não ficava mais sentada conversando descontraída no banco de reservas após os treinos (para a tristeza de muita gente fora e dentro da quadra). E, principalmente, não olhava mais para Eleonora nem procurava motivos para se infiltrar na conversa da comissão técnica para falar com ela. Na verdade, só não ignorava a treinadora física completamente porque era obrigada a cumprimentá-la por cortesia ou se dirigir a ela quando em vez, durante o treino. Sua companhia constante, nos últimos dias, vinha sendo a armadora Adriana com quem entrava e saía dos treinos conversando animadamente. Eleonora observava essas mudanças procurando se convencer de que estava aliviada com o fim do assédio de Suzana. Mas, à medida que os dias passavam livres da presença intensa da bela morena, Eleonora se percebia cada vez mais nervosa e frustrada.
Ao final da semana, a loirinha entrou no ônibus absorta em seus pensamentos e tropeçou em uma mochila no chão do corredor.
- Desculpe, Eleonora � a jovem loira ouviu alguém dizer. � Eu devia ter colocado a mochila no bagageiro.
Era Adriana que já se levantava para colocar a mochila no bagageiro sobre as poltronas.
- Tudo bem, Adriana. Foi distração minha � retrucou Eleonora que só então reparou em Suzana sentada na poltrona da janela.
- Distraída treinadora? � perguntou a morena.
- O-ocupada.
- Entendo.
Eleonora procurou naqueles olhos azuis uma centelha do calor que lhe era sempre dirigido e só encontrou frieza e uma leve ironia. O coração doeu-lhe no peito como se tivesse sido trespassado por um punhal. Foi se sentar um pouco atrás, triste e confusa.
 
 
Eleonora andava de um lado para o outro na sala do flat. Passava das onze da noite depois do terceiro jogo contra Cuba o qual a seleção perdera. Sentia-se angustiada, mas não pela derrota recente. Pensara muito nas palavras de Suzana na última vez em que se falaram e mais ainda nas suas reações contraditórias em relação à jogadora. Primeiro, a distância astronômica entre a sua pretensão de não se aproximar de Suzana e a realidade incontestável da sua incapacidade em fazê-lo. Segundo, o fato de que estava se sentindo imensamente incomodada, para não dizer magoada, com a indiferença da jogadora. Estava ansiosa, sem fome, impaciente e irritadiça. Ligou para Carlinha.
- Gianne? Eleonora. A Carla está?
Escutou uma voz bocejante do outro lado da linha.
- Oi, Elê. Tá, sim. Só um instante.
- Nossa, Gianne! Eu te acordei? Desculpe.
- Não, Elê. Eu estou assistindo TV e a Carla está trabalhando no computador. Ela nunca dorme antes da meia-noite. Espera um pouco.
- Eleonora? � atendeu, Carlinha.
- Oi, Carlinha.
- Fala, amiga.
- Eu vou estar em São Paulo, amanhã.
- Que bom! Estou morta de saudade de você. Na verdade, estamos.
- Pois é. Vamos fazer dois jogos em Sampa, antes de viajarmos para o Mundial. Eu consigo entradas para você e o Gianne. Como estão as crianças?
- Terríveis...E maravilhosas.
- Que bom...
- Agora que você já fez a introdução, Elê. Pode começar com o motivo principal.
Eleonora deu uma risadinha abafada.
- Eu realmente não tenho segredos para você, Carla.
- Desista, amiga. Para mim, você é um livro escancarado. O que está acontecendo?
- Meus sentimentos estão muito confusos, Carla.
- Suzana...
- É.
- Eu sabia. Eu te avisei.
- Eu sei.
Eleonora contou os últimos acontecimentos. Carla comentou:
- O meu conselho é o mesmo, Elê. Encare.
Suspiro
- Você tem razão.
- Eu sempre tenho.
- Carlinha! Menos.
- Ok, ok. Onde você está, agora?
- No meu quarto.
- E ela?
- Provavelmente no dela.
- E o que você está esperando?
- Mas...Agora?
- Existe hora melhor?
Eleonora pensou um pouco.
- Muito bem. Vou falar com ela, já.
- É isso aí, garota! Boa sorte, amiga.
- Obrigada, Carlinha. Eu te amo.
Eleonora saiu imediatamente do quarto, pegou o elevador e parou na porta do apartamento de Suzana. Por um breve instante, sua coragem deu uma rateada. Respirou fundo e bateu. Levou um susto quando deu de cara com Adriana com um top e um short minúsculos.
 
 
 
 
 
IV
 
 
 
 
Eleonora olhou, embasbacada, para a mulher parada a sua frente. Uma confusão de sentimentos a fez ficar, extraordinariamente, sem palavras.
- Eleonora, aconteceu alguma coisa? � Adriana perguntou.
- Suzana está? � Eleonora conseguiu articular com dificuldade.
- Quem é? � perguntou uma voz grave.
- Eleonora � respondeu Adriana se afastando da frente da porta para que Suzana pudesse vê-la.
- Algum problema, Eleonora? - Suzana perguntou ao se aproximar da porta usando também shorts e uma camiseta regatas ligeiramente torta como se tivesse sido colocada às pressas. Eleonora sentiu a flecha preta do ciúme acertá-la no meio exato da garganta ². Seus olhos verdes brilharam de raiva e por pouco não conseguiu conter a explosão do seu insuspeito temperamento belicoso. Transformou a ira repentina em firme resolução.
- Preciso falar com você.
- Agora eu estou um tanto...ocupada.
Eleonora ignorou o comentário e se virou para Adriana.
- Você pode nos dar licença?
Adriana olhou para Suzana com cara de poucos amigos e depois para Eleonora com cara de exterminadora do presente e não pensou duas vezes.
- Claro � disse apressada.
Suzana falou rapidamente:
- Fique!
Atônita, Adriana titubeou.
Eleonora firmou a voz e falou em branda advertência:
- Deixe-nos, por...favor.
Desta vez, Adriana decidiu-se.
- Olha, Suzana, a gente se fala amanhã, tá?
Saiu.
Eleonora entrou sem esperar convite e fechou a porta atrás de si. Seu rosto estava vermelho e os olhos pareciam soltar faíscas. Perguntou com brusquidão:
- Você não acha que é um pouco tarde para uma colega de equipe estar no seu quarto?
- Você não acha que isso não é da sua conta?
- É claro que é. Eu sou da comissão técnica e devo zelar para que as jogadoras não percam o foco no campeonato.
- Ora, Eleonora. Por favor!
- O que ela estava fazendo aqui?
- Não parece óbvio?
Eleonora quase bufou e o seu rosto tomou a cor de um pimentão maduro.
- Suzana, você é insuportável!
- Você veio até aqui para me dizer isso? Aliás, treinadora, se não fosse o fato de eu saber que você não tem o menor interesse em mim, como já deixou bem claro, eu poderia pensar que você está com ciúme.
- Não, não poderia... � Eleonora falou tão suavemente em contraponto às palavras explosivas de alguns segundos atrás, que Suzana calou a boca, surpresa. A loirinha continuou falando, caminhando até a mulher mais alta. � Você não poderia...Você pode! Porque eu estou tomada, repleta, morta...
Suzana viu aquela jovem e linda mulher se aproximando com o peito arfante, o rosto corado, os cabelos loiros e sedosos balançando ao ritmo daqueles passos femininos submetidos aos quadris insinuantes, de um jeito que só Eleonora sabia caminhar. O coração da morena disparou ao mesmo tempo em que a boca ficou instantaneamente seca. Eleonora parou de frente para ela, a poucos centímetros de tocá-la com o rosto delicado voltado para cima, fitando os incrédulos olhos azuis e completou:
-...de ciúmes.
Eleonora estendeu os braços, enlaçou o pescoço da morena e a trouxe para si, completamente rendida.
Beijaram-se apaixonadamente.
Algum tempo depois, Suzana parou para respirar e falou com a voz rouca:
- Você é definitivamente, a pessoa mais surpreendente que eu jamais conheci, Eleonora. Onde está o "Não se aproxime de mim, nunca mais" ou "Eu não suporto você"? � Suzana perguntou, imitando os trejeitos da loirinha, com um sorriso nos lábios.
- Suzana?
- Sim?
- Cale a boca.
Eleonora roubou os lábios carnudos da jogadora para si, novamente. As bocas coladas pareciam moldadas uma para a outra. As línguas famintas invadiam espaços íntimos e macios sem qualquer pudor definindo um balé em duo perfeito e sincronizado. Sem parar de beijar a sua pequena amante, Suzana a foi conduzindo para o quarto. Caíram na cama entre beijos ardentes e uma confusão de gemidos, testemunhos claros do desejo incontrolável que tomava conta de ambas.
De repente, Eleonora afastou Suzana de si empurrando-a pelos ombros e olhou séria para o rosto moreno.
- Só mais uma coisa � começou a jovem treinadora.
- Diga � falou Suzana com um suspiro tenso que denunciava a súbita apreensão.
- Aprenda a descrever um círculo imaginário de no mínimo dois metros a sua volta.
- Para que? � perguntou a jogadora, agora, intrigada.
- Essa é a distância máxima que aquela Adriana pode chegar perto de você.
Suzana ficou boquiaberta, depois soltou uma gargalhada sonora.
- Deus me ajude com uma mulher ciumenta.
- Você ainda não viu nada, Srta Alcott. E agora, chega de falar...
Eleonora puxou Suzana para mais um beijo e a noite se transformou numa aposição de sensações e emoções intensas. Finalmente rendida aos seus sentimentos, Eleonora permitiu-se a uma entrega total. Não se tratava mais da sensualidade irreprimida que se libertava dividida entre o desejo e a culpa. Era a entrega sem limites ao deleite único que é a comunhão do prazer sensual com a alegria de se estar com quem mais se quer estar entre todas as pessoas do mundo.
Insuperável.
Fizeram amor sem urgência, gozando do prazer, sem par, de sentir a pele do ser amado em cada pedaço de sua própria pele. De sentir o sabor, o cheiro e reconhecer na voz da outra cada entonação de prazer ou necessidade, iminência ou demora que consiste na delícia de se fazer amor com quem se ama. Fizeram amor devagar como o abraço longo e emocionado que se dá em quem se ama muito e que esteve longe por muito tempo.
Quando, por fim, se abraçaram repletas de amar, Eleonora suspirou recostada sobre ombro de Suzana que a enlaçou com os seus braços fortes. Com a mão livre, Eleonora afagava carinhosamente uma mecha de cabelo negro e sem refletir, mas vindo do fundo de sua alma finalmente em paz, falou suavemente:
- Eu te amo.
Suzana desvencilhou-se com delicadeza da cabeça loira e se sentou na cama.
- Repita � pediu.
Eleonora sorriu aquele seu sorriso mais lindo, franco e doce.
- Eu te amo � repetiu. � Eu te amo, Suzana Maia Alcott desde que eu te vi naquele ginásio há dez anos atrás. Não! Não é verdade. Eu te amo desde que eu sou uma garotinha que recortava cada fotografia sua de qualquer revista, que assistia a todos os programas de esporte na esperança de vê-la e que perdeu de vez o coração quando olhou pela primeira vez diretamente para esses seus olhos azuis.
- Eleonora... � Suzana murmurou. Não encontrava palavras para explicar como, depois de tantos anos vivendo em tantas casas que já nem tinha mais conta, finalmente encontrava um lar num quarto de hotel. Porque o lugar simplesmente não importava, porque a sua casa era qualquer lugar em que Eleonora estivesse. Falou com simplicidade:
� Eu te amo, Eleonora, mais do que eu sou capaz de traduzir em palavras � disse e tomou a sua amada num abraço emocionado.
Dormiram uma nos braços da outra.
 
 
Eleonora despertou de madrugada com a face recostada no peito de Suzana e suavemente envolvida pelos braços longos. Uma luz tênue passava pela janela e iluminava brandamente a cama em que descansavam abraçadas. Afastou-se devagar e com cuidado para olhar a mulher mais alta. O belo rosto da morena exibia-se adormecido e relaxado. O corpo vigoroso quedava-se indefeso e inerte a não ser pelo brando arfar da respiração lenta e pausada do sono tranqüilo. Eleonora sentiu o coração encher-se de amor. Sabia que não tinha mais como negar a verdade cristalina de que amava Suzana como sempre. Desde sempre. Para sempre. Nunca haveria ninguém que a fizesse se sentir tão completa. Que despertasse nela esse sentimento estranho, mas irresistível, dividido entre a dor e a delícia. Sentiu ganas de afagar-lhe o rosto marcante, mas temeu perturbar-lhe um sono tão sereno. Aninhou-se com cuidado e novamente sobre o peito de Suzana que apenas grunhiu algo incompreensível e a abraçou com mais força. Eleonora voltou a dormir
 
 
Suzana acordou, mas não abriu os olhos. Sorriu com uma alegria que não sentia há mais tempo do que era capaz de se lembrar . O peso e o calor de um corpo pequeno sobre o seu peito faziam-na ter a certeza de que tudo fora real. Sentiu a cabeça de Eleonora se mexer e então abriu os olhos. Deparou-se com dois faróis esverdeados sob sobrancelhas claras e delineadas, olhando-a com amor. Sentiu a alma se aquecer.
- Bom dia � murmurou, Eleonora.
- Bom dia � respondeu Suzana tentando não explodir de alegria. � Dormiu bem, meu leãozinho?
- Nossa! Há anos ninguém me chama assim � exclamou a loirinha. � Dormi como um anjo. Também, extenuada como eu estava...- piscou um olho, marota.
- Não me venha falar de cansaço, garota. Se eu não conseguir jogar o próximo amistoso por puro esgotamento de energia, a culpa será sua, treinadooora.
- O que você vai fazer? Me denunciar?
- Talvez, sim...Talvez, não...Por um pequeno favor, quem sabe?
- Chantagem!
- Pura e simples.
- Eu sei quando estou encurralada. Diga o preço.
Suzana tirou o sorriso divertido dos lábios e falou com calma olhando profundamente para aqueles olhos verdes:
- Ser a minha mulher para sempre.
Eleonora sentou-se na cama e respirou com força.
- Provavelmente essa é a coisa que eu mais quis em toda a minha vida. Mas, hoje em dia, existe uma importante variante nisso tudo...
- A sua companheira � Suzana falou baixinho.
- É � Eleonora respondeu simplesmente. � Também é algo sobre o qual nós precisamos conversar.
- Eu sei � Suzana concordou e encarou Eleonora com uma pergunta surda pairando nos olhos, mas não se pronunciou a esse respeito e, sabiamente, deixou a jovem amante começar a conversa.
- Eu não sei bem como começar, Suzana...Eu te amo. Não tenha dúvida disso.
- Eu não tenho.
- Que bom...Mas é fato que eu também amo Luciana. Eu tenho com ela um casamento repleto de carinho, respeito e cumplicidade...
Suzana se moveu, incomodada, na cama, mas continuou calada. Eleonora continuou:
- Mas eu também não quero e nem sei se posso mais viver sem você. Entenda, meu amor, e, por favor, não se ofenda...O seu amor é ventania forte e incontrolável. Lindo em sua força, irresistível em sua magnitude. Envolvente. Intenso. Mas, se isso é algo de maravilhoso, também é assustador...E, por outro lado e do outro lado, está uma pessoa a quem eu adoro e a quem a simples perspectiva de magoar me faz sofrer. Eu estou confusa e...
- Em dúvida � Suzana falou na frente.
- Não é bem assim...- Eleonora tentou completar, mas a morena não deixou e continuou falando.
- Eu entendo. Não é nada fácil viver com um temporal ambulante como eu e...Você tem uma vida organizada...Um casamento, uma carreira...
Eleonora ficou olhando para Suzana despejando as palavras como uma metralhadora verbal, com um sorriso leve nos lábios. A jogadora continuou vertendo suas impressões, descontroladamente.
� Talvez seja melhor assim...Você voltar para a sua vida tranqüila e eu...Bom, eu posso, se isso significar a sua felicidade, viver a vida toda sem metade de mim. Por você...Para você ser feliz eu posso tentar, eu posso conseguir, eu...
Suzana não terminou, baixou a cabeça e se virou para sair da cama. Eleonora a segurou gentilmente pelo braço e disse com suavidade:
- Suzana, olhe para mim.
Suzana olhou.
- Não é nada disso, meu amor. Eu estou, sim, triste por ter que inevitavelmente magoar uma pessoa que eu amo e respeito, mas eu não estou em dúvida sobre nada. Escute: "... E, no entanto, a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida. E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz..." ¹. Eu não tenho qualquer dúvida, meu amor, simplesmente porque eu não tenho escolha. A minha alma já fez esta escolha há muito tempo, e ao contrário de você, eu não tenho forças para viver sem a metade de mim. E metade de mim é você, Suzie.
Eleonora escutou um profundo suspiro de alívio e recebeu aquele sorriso luminoso que tanto a encantava. Suzana estendeu o braço, puxou a pequena loira para si e a abraçou com força.
- Você fez referência a algo assustador? Você não é capaz sequer de imaginar o medo que eu senti de você me deixar sair dessa cama! � Suzana beijou carinhosamente os cabelos loiros. � A propósito, eu adoro quando você me chama de Suzie.
- Você já me disse isso.
- Disse e confirmo. Pouquíssimas pessoas me chamam assim. Justamente aquelas a quem eu mais amo. É íntimo e especial para mim, por isso eu adoro ouvi-lo vindo de sua boca.
Eleonora voltou o rosto para cima e sorriu docemente.
- Obrigada.
Suzana fitou-a embevecida e exclamou:
- Deus, como você é linda!
- Suzana, você já se olhou no espelho?
- Já. Mas, eu não faço o meu tipo.
- É? � Eleonora indagou, jocosa. � E eu posso saber qual é o seu tipo?
- Loira, delicada, olhos verdes � Eleonora abriu um sorriso ainda maior, Suzana continuou, divertida. � Baixinha, teimosa, brigona e ciumenta.
- Ei!
Suzana gargalhou com gosto enquanto suportava uma chuva de tapas brincalhões nos braços. Por fim, lembrou entre risos:
- Acho que nós temos que nos levantar, Leãozinho. Se não me engano, nós precisamos pegar um avião daqui a pouco.
- Meu Deus! Que horas são?
- Nove horas.
- Minha Nossa Senhora! Regina passará no meu quarto daqui a trinta minutos � Eleonora exclamou, saltando da cama. Vestiu a roupa como um raio e foi saindo, apressada.
- Ei, Srta. Cavalcanti. A Srta não está se esquecendo de nada, não?
Eleonora voltou no mesmo passo, deu um beijo terno na boca de Suzana e sussurrou com o rosto encostado no rosto moreno.
- Até daqui a pouco, meu amor.
- Até.
Eleonora saiu com passos rápidos balançando as madeixas loiras enquanto Suzana ficava imaginando o porquê de estar se sentindo tão embriagada se não havia bebido uma única gota de álcool².
 
¹ Parte do poema "Ausência" de Vinícius de Moraes
² Referência a um trecho com texto de mesmo teor do livro "Tomates verdes Fritos" de Fannie Flag.
 
 
 
 
V
 
 
 
 
A seleção chegou em São Paulo por volta da uma da tarde. Ao saírem pelo portão do desembarque, não demorou muito para que as jogadoras fossem notadas pelos presentes no aeroporto e se virem rodeadas por fãs. Cercada pelos admiradores, Suzana distribuía autógrafos e tirava fotos com invejável bom humor. Eleonora trocava algumas palavras com o auxiliar - técnico empurrando o carrinho com a sua bagagem. Foi então que viu Luciana parada, vestida de branco, com um enorme sorriso estampado no rosto. Seguiu ao encontro dela.
- Lu, que surpresa!
- Gostou? � perguntou a médica.
- Claro que sim - Eleonora respondeu com sinceridade e abraçou a esposa.
- Eu estou no meu horário de almoço � explicou, Luciana.
- Então, você não deveria estar comendo, doutora?
- Ver você me sacia muito mais. Estou com tanta saudade, pequena.
Eleonora a abraçou novamente sentindo as lágrimas querendo escapar-lhe dos olhos verdes. Esforçou-se para não vertê-las. Recompôs-se e falou:
- Muito bem, Dra Luciana, esta passa. Mas, trate de se alimentar antes de voltar ao trabalho, entendeu?
Luciana riu.
- Está bem. A que horas você volta para casa, meu amor?
- Umas oito da noite.
- Estarei esperando com aquele Talharim ao Pesto de que você tanto gosta e uma boa garrafa de vinho. O que você acha?
- Maravilhoso.
- Até mais tarde, pequena.
Luciana ainda acenou alegremente antes de sair pela porta do aeroporto.
Eleonora sentiu a intensidade de um olhar em suas costas como se a tocasse. Virou-se e deu de cara com Suzana olhando-a intensamente. Sorriu debilmente, baixou o rosto e seguiu cabisbaixa para o ônibus. Suzana sentiu vontade de segui-la, mas não o fez. Este era um problema de Eleonora em relação ao qual ela mais atrapalharia que ajudaria.
 
 
Fizeram um treino tático leve ao final da tarde. Em seguida, a equipe rumaria para o hotel. Eleonora pediu um táxi para levá-la para casa. Antes disso, Suzana a interpelou à saída do ginásio.
- Eleonora?
O som da voz de Suzana fez, como sempre, o corpo de Eleonora se arrepiar. Ficou de frente para a jogadora.
- Oi � respondeu timidamente.
Suzana intuía o quanto a situação em que se encontravam deveria ser difícil para um pessoa tão sensível e franca quanto Eleonora. Falou o mais suavemente que conseguiu, não obstante uma branda hesitação na voz traísse a inquietação que lhe perturbava a alma naquele momento:
- Só para te lembrar que eu estou aqui. Só para te dizer que eu sei o quanto deve estar sendo duro para você. Só para você saber que, embora o que você precisa confrontar deva fazê-lo sozinha, você não estará. Meu coração, a minha alma, cada um dos meus pensamentos estarão com você. Eu te amo tanto...
Eleonora interrompeu Suzana tocando os lábios da morena com a ponta dos dedos. O rosto da jovem treinadora traduzia uma ternura infinda e pela primeira vez desde que desembarcara, um sorriso largo pairava nos lábios rosados.
- Suzie...Você é capaz de perceber o quanto é afetuosa e doce?
O rosto moreno ficou anormalmente rubro.
- E-eu? Ora, só porque...
- Um coração de manteiga � continuou a loirinha, terna e ao mesmo tempo provocadora.
- Não exagere � Suzana falou encabulada.
- Não exagero. A poderosa Suzana Alcott é tão forte e ágil quanto é sentimental e terna. Essa mistura de força e delicadeza é uma das coisas que eu mais gosto em você � passou os dedos levemente pela face da jogadora. � Obrigada...
Suzana apenas balançou a cabeça em assentimento. Eleonora lançou-lhe mais um olhar amoroso e foi embora em direção à conversa mais difícil que teria em toda a sua vida.
 
 
 
 
A primeira criatura a saudar Eleonora quando ela entrou em casa foi Bertrand que, contrariando a sua costumeira indiferença felina, enroscou-se carinhosamente nas pernas da dona. Em seguida, Luciana surgiu sorrindo da cozinha. Vestia uma pantalona e uma bata claras e leves, e sandálias. Os sedosos cabelos castanhos estavam amarrados em um rabo de cavalo.
- Bem vinda, meu amor � Luciana disse e deu um beijo na boca de Eleonora.
- Oi � Eleonora disse simplesmente.
- Você parece cansada, pequena.
- E estou. Vou tomar um banho rápido e já volto.
- Claro � Luciana concordou com suavidade. � Vá tomar o seu banho que eu te espero com uma garrafa de vinho aberta � completou a médica dando um outro beijo rápido na jovem loira que retribuiu com um sorriso terno. Eleonora foi se dirigindo ao quarto, antes que entrasse, contudo, Luciana a chamou:
- Elê?
Eleonora se virou para a companheira.
- Eu estou muito feliz por você estar de volta à nossa casa.
Eleonora sentiu o peito se encher de carinho e respondeu com doçura:
- Eu também, Lu. Eu também...
Quinze minutos depois, Eleonora entrava na cozinha. Estava mais tranqüila. Os breves minutos de um banho relaxante tiveram o efeito de pacificar sua inquietude e relembrá-la de que o mínimo que aquela mulher maravilhosa que agora lhe estendia uma taça de vinho merecia, era sua honestidade.
- Quem vai trazer o seu carro, Elê?
- A Anita da Federação Paranaense, lá pela semana que vem. Ela tem que vir a São Paulo pelo menos uma vez por quinzena mesmo, e vai me fazer esse favor. Eu deixei o carro e a chave na sede da federação antes de vir para cá.
- Ah, sim. Você lhe deixou o telefone daqui de casa para ela me informar quando chegar ou o meu celular para o caso nada raro de eu não estar em casa?
Eleonora parou o garfo a meio caminho da boca.
- Caramba, eu me esqueci � Eleonora exclamou surpresa consigo mesma pelo fato incomum de um esquecimento tão primário por parte dela que sempre fora muito organizada.
Levemente envergonhada, recordou-se de que a confusão emocional das últimas semanas a fizera se descuidar de muitas coisas. Na verdade, qualquer coisa que não estivesse ligado ao seu envolvimento com Suzana..."Suzana". Um par de estonteantes olhos azuis, acompanhado do famoso sorriso perfeito e arrebatador pareceram se materializar a sua frente. Sentiu o ventre se contrair de ansiedade. Luciana a chamou, intrigada:
- Ei, garota! Onde você está? � perguntou, bagunçando carinhosamente os cabelos loiros ainda úmidos. � Este campeonato está tirando a minha mulher de mim. Vamos comer, pequena.
Eleonora respondeu com um sorriso abatido ao comentário quase presságio. E se Luciana tivesse reparado um pouquinho mais, teria atentado para um contorno leve, porém visível de tristeza no rosto claro.
Sentaram-se para comer.
Apreciaram com prazer a deliciosa massa que Luciana preparara conversando sobre os recentes acontecimentos em seus respectivos trabalhos. Por um instante, Eleonora se esqueceu da tarefa difícil que teria que levar a cabo ainda àquela noite e permitiu-se desfrutar da companhia profundamente agradável da esposa. Terminaram o jantar. Luciana estendeu a mão para Eleonora e a conduziu para a sala. Sentaram-se no confortável sofá azul sobre o tapete creme, espesso e macio. Eleonora tirou as sandálias para desfrutar da maciez do tapete que adorava. A médica pousou a mão sobre a perna da companheira e perguntou suavemente:
- O que está acontecendo, pequena?
- Lu...Eu...
- Nem tente negar. Eu conheço você. Está preocupada com alguma coisa e por causa disso está anormalmente calada e um pouco dispersa.
Eleonora abaixou a cabeça e suspirou:
- Eu não vou negar. Você tem razão.
Luciana pegou a mão de Eleonora e a loirinha armou-se de coragem para contar a ela o que estava se passando. Antes disso, a médica disse:
- Seja o que for, meu amor, eu estou aqui para te apoiar. Você não precisa enfrentar nada sozinha. Eu sempre estarei presente para te ajudar com as suas aflições. Você sabe disso, não sabe?
Eleonora sentiu um bolo formar-se em sua garganta impedindo-a de articular uma única palavra e o seu peito se apertar em tristeza. "Deus, como é difícil!". Os olhos verdes se encheram de lágrimas sentidas. Com dificuldade, abriu a boca para falar, mas a médica a abraçou com força e falou, preocupada:
- Meu Deus, Elê. Você está muito tensa. Na verdade, você me parece esgotada.
Eleonora abriu a boca para retrucar, mas a médica antecipou-se a ela.
- O mais importante, antes de qualquer coisa, é a sua saúde. Nós podemos conversar amanhã. Venha, vamos para o quarto.
Incapaz, física e emocionalmente, de resistir, Eleonora se deixou conduzir docilmente para a cama. Aquela situação lhe era supliciante, mas, nesse instante, ela mesma percebia que as fortes emoções a que fora submetida nos últimos dias pareciam ter lhe desabado sobre os ombros repentinamente. Necessitava com urgência de descansar. Dormiu como se estivesse dopada. Quando acordou, Luciana já havia saído para trabalhar e havia lhe deixado um bilhete carinhoso grudado à geladeira. Eleonora foi para o treino.
 
 
 
Durante o treinamento, Eleonora mal falou com Suzana. A jogadora, apesar da vontade de se aproximar da jovem treinadora, não o fez. Desenvolvera, com os anos como atleta de um esporte coletivo, a capacidade de deixar aos outros a resolução de uma jogada quando era essa a melhor opção, mesmo que a sua vontade sempre fosse a de resolver tudo sozinha. Nesse momento, sentia que o melhor era esperar Eleonora procurá-la. Mas, não muito. Até a sua paciência disciplinada ao longo de uma carreira vitoriosa, porém cheia dos altos e baixos comuns à vida de qualquer pessoa, tinha limites. Por hora, lançou toda a sua atroz expectativa em empenho no treinamento. Treinou como uma leoa. Regina elogiou a performance excepcional de Suzana, mas alertou-a para deixar um pouco de entusiasmo para o próximo amistoso. No fundo, estava animada com a volta à melhor forma da sua principal jogadora.
Ao final do treino, Suzana achou que já era hora de falar com Eleonora. Procurou-a pela quadra, mas não a encontrou. Dirigiu-se ao corredor que dava para os vestiários e nada. Decidiu tomar banho juntamente com a equipe que seguia ruidosa para o banheiro.
Suzana tomou um banho ligeiro, vestiu-se com pressa e saiu do vestiário bem antes que as demais jogadoras. Sua rapidez foi premiada com a visão de Eleonora conversando com o restante da comissão técnica no corredor a poucos metros do vestiário. Suzana parou um instante para admirar a sua amada. Eleonora comentava alguma coisa com Regina balançando os cabelos loiros e movimentando freneticamente as mãos ao mesmo tempo em que ficava involuntariamente ruborizada - traços característicos de quando queria ser contundente em um ponto de vista. "Que gracinha". Suzana não segurou um sorriso apaixonado. Nesse momento, Eleonora olhou para ela. Os olhos verdes emitiram, primeiramente, sinais de surpresa, depois de reconhecimento e, por fim, amor. Mais que recompensada por suas horas de apreensão, Suzana retribuiu o olhar, desta vez, cheio de saudade e desejo latente. Eleonora sentiu todo o corpo se arrepiar imediatamente como se uma corrente elétrica o perpassasse. Tentou disfarçar a perturbação, chamando a jogadora para se juntar ao grupo com mais ênfase que o necessário:
- Suzana! Oi...Venha se juntar a nós.
Suzana caminhou sorrindo para o pequeno grupo e recomposta de sua natural distinção, insinuou-se como um felino bem ao lado da jovem treinadora, tocando-a levemente enquanto cumprimentava a todos. Rapidamente, a jogadora entrou na conversa sobre os times considerados favoritos para as finais do campeonato. Eleonora, entretanto e de forma incomum, não abriu mais a boca. Sentia a presença de Suzana como um campo magnético atraindo-a irresistivelmente. Temia falar e não conseguir articular qualquer idéia. Pior! Temia que alguém percebesse a violenta tensão sexual entre ela e Suzana, tão grande que a estava obrigando a fazer força para respirar normalmente.
Aparentemente alheia a essa força, Suzana continuava conversando, descontraída.
Regina reclamou:
- Caramba, este corredor é muito abafado. Vamos esperar o restante do time na quadra? � sugeriu. O pequeno grupo concordou. Foram saindo. Suzana segurou dissimulada e rapidamente o braço de Eleonora e deu-lhe um apertão leve. Intrigada, a treinadora esperou um pouco. Logo em seguida, Suzana falou:
- Vamos, Elê?
Acompanharam os outros um pouco mais atrás. Quando iam se aproximando da pequena rampa de acesso à quadra, a morena puxou rápida e inesperadamente a loirinha em direção a uma porta lateral onde se lia: Administração do Ginásio. Entraram. Suzana trancou a porta atrás de si.
- Suzana, o que significa is... - Eleonora não terminou a indagação. Foi pega num abraço arrebatado e beijada com ardor.
- Deus, eu estava para ficar louca ali naquele corredor. Quase te agarrei na frente de todo mundo! � exclamou Suzana com a sua pequena amada firmemente cingida pela cintura quando finalmente pararam de se beijar.
Eleonora sorriu deliciada.
- Eu não pensei que você estivesse tão perturbada. Você parecia tão serena...
- Autocontrole, meu bem. São anos e anos de treino � respondeu Suzana com um sorriso brincalhão. � Mas você...Que bandeira, leãozinho! � Suzana deu-lhe um beijo na ponta do nariz.
- Eu? Imagina!
Suzana ergueu uma das sobrancelhas. Eleonora escondeu o rosto no peito da jogadora.
- Ái, ái. Eu dei bandeira mesmo, não foi?
- Aham.
- Você não está ajudando!
- Meu Deus, você me fez uma pergunta!
- Não era para concordar.
Suzana soltou uma risada.
Eleonora riu junto a princípio, mas logo depois soltou um longo suspiro como se tivesse se lembrado de algo incômodo. Suzana notou e perguntou:
- O que foi, Elê?
- Suzie, eu não consegui falar com a Luciana.
- Eu imaginei.
Foi a vez de Eleonora levantar uma das sobrancelhas e fitar a jogadora com olhos indagadores. Suzana continuou.
- Eu percebi pelo seu jeito amuado durante o treino.
- Ei! Eu poderia estar apenas...Triste.
- Nana-não � Suzana balançou a cabeça em negativa. � Quando triste, você fica abatida, meio jururu, mas não desassossegada como você estava desde a hora que chegou...E ainda tem a rugazinha logo acima do nariz que aparece quando você está preocupada ou aborrecida com algo.
- Eu estava com a rugazinha?
- Humrum.
- Eu nunca vou conseguir esconder nada.
- Não mesmo. Você é transparente como as águas de uma fonte, meu amor. E não fique desapontada com isso, sua transparência é uma das coisas mais belas que você possui.
Eleonora ficou nas pontas dos pés para dar um beijo terno na boca de Suzana.
- Obrigada.
- Tudo bem. Eu sei que está sendo difícil para você. E acho que você não falou com ela ontem porque teve um bom motivo...Ou não teve oportunidade. Vocês, por acaso...
- Sim?
- Vocês...
- O que foi, Suzana?
- Bom...Você ficou muitas semanas fora e não terminou com ela ontem, então...
- Não � falou a loirinha.
Suzana olhou para ela sem dizer uma palavra.
- Não, Suzie, nós não transamos.
Eleonora ouviu um suspiro aliviado.
- Elê, eu tento ser compreensiva, mas admito que não suporto a idéia de pensar que outra pessoa... � Suzana não terminou.
- Eu não faria isso nem com você nem com a Luciana.
- Eu sei...Eu...Me desculpe.
Eleonora puxou o pescoço de Suzana para baixo e a beijou profundamente.
Não demorou para que as bocas famintas abrissem caminho para as mãos insinuantes e sôfregas. Suzana meteu as mãos por baixo do abrigo de Eleonora enquanto a treinadora empurrava a morena para a parede a fim de encaixar o quadril na perna morena e movimentar-se insinuante sobre a coxa forte. Suzana gemeu rouco. Eleonora afastou o rosto só o suficiente para falar ofegante:
- É isso, Suzana. Não apenas essa intensidade, esse desejo... É...Essa mágica. Essa perfeição que é a minha boca na sua e o meu corpo no seu. Até as nossas respirações parecem se completar. È...
Suzana finalizou:
- Essa coisa tão certa.
- É.
Suzana respirou forte.
- Eu entendo e sinto isso também.
Sorriram uma para a outra.
De repente, o som de inúmeros passos e vozes do lado de fora da sala chamou a atenção das duas. A morena declarou:
- Parece que as meninas terminaram o banho.
- Precisamos sair � disse Eleonora.
Suzana comentou, marota:
- Então, vamos � ameaçou caminhar para a porta.
- Não! � Eleonora não a deixou se mover. � Nós não podemos sair assim. Como vamos explicar o fato de estarmos trancadas juntas na sala da administração do ginásio?
Suzana tentava inutilmente conter o riso que lhe escapava, abafado. Eleonora a fitou indignada e falou baixo e ameaçadoramente:
- Suzana Alcott, acho bom você ter algo em mente pra nos livrar dessa enrascada.
A jogadora colocou a mão sobre a boca para refrear a gargalhada. Eleonora pôs as mãos na cintura em sua típica posição de zanga. Os olhos verdes soltavam faíscas.
- Suzana, eu ainda sou treinadora dessa equipe e não preciso lembrar a uma jogadora do seu nível dos envolvimentos éticos da minha posição profissional.
Suzana conteve imediatamente o riso.
- Desculpe. Eu sei. Deixe-me pensar...Bom, parece que o barulho das conversas já passou. Você pode sair primeiro. Se alguém ainda estiver passando e lhe perguntar algo, você diz que estava falando ao celular e precisava de silêncio. Eu espero algum tempo e saio depois. E, então?
Eleonora pensou um pouco e por fim concordou com um aceno de cabeça. Foi saindo. Antes disso, um braço longo e forte a puxou pela cintura. Suzana sussurrou:
- Não tão rápido - deu um último beijo na boca rosada e completou com a fronte colada na fronte da sua loirinha: � Até daqui a pouco.
- Até � Eleonora respondeu baixinho com um sorriso nos lábios denunciando o fim da breve zanga com a sua amada. Saiu. Alguns minutos depois, a jogadora a seguiu.
 
 
 
 
 
VI
 
 
 
 
O ginásio estava lotado. Eleonora deixara ingressos para Carla e Gianne e para o irmão André na bilheteria. Ao ver o irmão entrando pelo portão que dava para as cadeiras privilegiadamente postadas de frente para o centro da quadra, abriu um sorriso brilhante que, no entanto, se apagou quando reparou na falta do pequeno Matheus ao lado dele.
- Pôxa, Elê. Ele está gripado e com febre � explicou o irmão pegando-a num abraço que ela insistia em não permitir demonstrando toda a sua contrariedade. � Se eu ao menos mencionasse que viria te ver é bem provável que o Matheus piorasse só de desgosto por não poder vir. Vamos, dê um abração no seu maninho preferido.
- Único irmão, você quer dizer � brincou Eleonora, mais conformada.
- Foi o que eu disse. Único e preferido.
- Eu só vou te perdoar porque você se abalou de Santa Cruz para me ver e eu estava morrendo de saudade de você, moleque.
- Ei! Eu não sou responsável pelo ataque de todas as bactérias, vírus e similares do mundo, não, tá bom?
- Não! Mas eu posso apostar que você deixou o Matheus ficar brincando na piscina até tarde e só o retirou da água quando os lábios dele já estavam roxos como berinjelas.
- Eu não faç...
- Carlinha! � Eleonora gritou para a amiga que entrava nesse momento.
Carla e Gianne entravam carregando os gêmeos como mochilas humanas na frente do tronco. Acenaram para Eleonora que puxou André pela mão e seguiu em direção aos seus dois amigos e seus filhos.
Se Carla havia se tornado mais discreta com a maternidade, o mesmo não se diga dos apetrechos das crianças. Os "cangurus" eram um, laranja, e o outro, violeta com inúmeros balões multicores e o pobre Gianne carregava ainda uma imensa bolsa mais verde e fosforescente que um meteorito de pura kriptonita. Os gêmeos, graças a Deus, vestiam discretos abrigos nas cores azul e amarelo. Eleonora os abraçou, emocionada.
Luciana apareceu logo depois. Conversaram animadamente alguns minutos. Em seguida, Eleonora precisou se despedir para se juntar à equipe.
O jogo começou.
A partida correu equilibrada a maior parte do tempo, mas Suzana foi o ponto de desequilíbrio. Jogando como não havia jogado as três últimas partidas, ela arrasou com o jogo, marcando 39 pontos e levando a seleção à vitória mais tranqüila até então � por uma diferença de 11 pontos.
A euforia no vestiário era contagiante e o sorriso aberto de Regina representava o sentimento de todos. Suzana, felicitada ininterruptamente por quem passasse por ela, procurava Eleonora com os olhos por todos os cantos. De repente, a sua busca incessante foi presenteada com um olhar terno e cúmplice. Seu coração se incendiou e a noite ficou finalmente perfeita. Por sua vez, Eleonora recebeu aquele sorriso deslumbrante que poderia transformar qualquer ambiente escuro e frio em um lugar de claridade cálida. E ela teve certeza mais uma vez de que era uma dependente sem cura daquele sorriso transbordante de amor somente para ela.
Após o banho, a equipe seguiu alegre e quase incógnita, senão pela presença de uns poucos fãs insistentes no caminho, para o ônibus parado à frente da discreta porta externa que dava saída aos escritórios e vestiários do ginásio. Suzana e outras jogadoras pararam para distribuir autógrafos aos admiradores encantados. Eleonora vinha logo atrás conversando com Regina. De repente, ouviu-se o um som claro de um carro cantando os pneus e em poucos segundos diversos pares de olhos avistaram, assustados, um automóvel em alta velocidade seguindo direto para onde se encontravam as jogadoras e os fãs. Foi tudo muito rápido. Em pouco mais de um instante, haviam cinco corpos atirados sobre o cimento. Eleonora se ouviu gritando. Carla, Gianne, André e Luciana que vinham calmamente contornando a estrutura arredondada do ginásio para encontrarem Eleonora, puderam presenciar a cena. Movida pelo condicionamento profissional, Luciana correu imediatamente para as vítimas.
O automóvel sumiu.
Eleonora, Regina e Aline fluíram ao mesmo tempo para os corpos inertes no chão. Luciana chegou à primeira vítima � uma adolescente de, no máximo, quinze anos. Enquanto verificava os sinais vitais da garota, a médica gritava para que chamassem socorro. Eleonora adiantou-se para junto de outra jovem desacordada, acompanhada de Aline, a fim de prestar os socorros de urgência. Pessoas gritavam horrorizadas e outras tantas chegavam de todos os lados, atraídas pelo barulho inconfundível de uma tragédia. Oscar e Regina tentavam conter os ânimos exaltados e afastar os curiosos das feridas até que chegassem as ambulâncias.
Foi no meio dessa balbúrdia que Eleonora reparou que existiam duas pessoas de agasalho azul e amarelo dentre as atingidas pelo motorista alucinado. E que de uma das vítimas com o agasalho da seleção, sobressaíam-se longos e fartos cabelos negros. A sua respiração parou por completo e o sangue lhe fugiu das faces. Como um autômato, Eleonora se levantou hesitante e foi se aproximando lentamente do corpo imóvel para ver, trêmula de pavor, o belo rosto moreno desacordado e coberto por uma espessa camada de sangue. Um som parecido com um grito fraco, sofrido e gutural escapou-lhe das entranhas. Sentiu-se sem pernas e o colega Oscar a amparou antes que caísse. André, a poucos metros da irmã, correu para ajudá-la. Eleonora o abraçou com força, premida de dor e medo. Olhando para Suzana, tão forte e altiva, desacordada, ferida, largada inerte sobre o solo, só conseguia balbuciar:
- Suzana...Suzana...Não! Não me deixe de novo, meu amor. Eu não conseguirei...Eu não vivo... � um soluço apertado escapou-lhe da garganta e ela afundou o rosto no peito do irmão. Carla e Gianne, abraçados aos gêmeos, olhavam aflitos para a amiga desesperada.
Ao lado, Luciana assistia a tudo. Parte do seu coração cobria-se de surpresa e luto, mas a outra parte quedava-se triste e conformada como que dizendo � "Eu já sabia".
 
 
A sala de espera do hospital, apesar da imprensa e de um bom número de curiosos permanecerem do lado de fora do edifício, estava cheia com os parentes das vítimas, dirigentes da Confederação Brasileira de Basquete e comissão técnica da seleção. Regina havia pedido às jogadoras que voltassem para o hotel e tentassem descansar. Oscar acompanhou a equipe, mas retornou logo em seguida para o hospital. Eleonora se despediu do irmão e dos amigos prometendo dar notícias logo que tivesse alguma novidade e seguiu para o hospital com Luciana que, nesse momento, estava dentro do pronto-socorro acompanhando o atendimento às vítimas. Preocupados, os presentes mal falavam entre si. Todos se levantaram de pronto quando Luciana apareceu no corredor. Afluíram para ela com o coração aos saltos. A médica foi sucinta:
� Eu não posso adiantar muita coisa, isso é encargo do médico responsável pelo Pronto Socorro que emitirá o boletim médico oficial em breve. Contudo, posso dizer que temos quatro das cinco vítimas fora de risco. Infelizmente, uma delas está em coma e o seu estado clínico é, no momento, imprevisível � olhou compassiva para os parentes aflitos e falou com suavidade: � Eu sei o quanto é difícil, mas peço que tenham paciência. Todas estão tendo o melhor atendimento.
As pessoas voltaram aos seus lugares para esperarem mais um pouco sobre notícias a respeito do estado de seus entes queridos. Luciana chamou a técnica:
- Regina.
A técnica se aproximou juntamente com o resto da equipe e dirigentes da confederação.
- A jogadora mais jovem...
- Selma.
- Sim. Ela fraturou a perna esquerda e um dos ossos do antebraço. Temo que ficará sem jogar um bom tempo. Quanto a Suzana... � Eleonora imaginou perceber um leve olhar de soslaio para ela quando a médica tocou no nome da jogadora. � Ela teve uma concussão e deverá ficar em observação por um par de dias. No mais, não sofreu qualquer fratura ou ferimento de maior gravidade.
Suspiros de alívio.
- Podemos ver as nossas meninas? � Regina pediu.
- Acho que sim...Acredito que elas já tenham sido transferidas para apartamentos individuais. Só um instante.
Luciana sumiu alguns minutos e voltou logo em seguida.
- Tudo bem. Mas, apenas três ou quatro de vocês podem entrar para não ocasionar muita agitação. Elas precisam descansar.
Ficaram uns olhando para os outros. Eleonora falou na frente:
- Podemos nos dividir. Assim, ficamos sabendo como está uma e outra sem cansá-las em excesso.
- Muito bem � concordou Regina. � Eu vou para o quarto de Suzana. Oscar, você veja como está Selma. Eleonora...
- Vou com você � a loirinha se apressou em dizer, mais temerosa de não conseguir do que de se revelar ansiosa demais em ver Suzana.
Aline foi com Oscar. O responsável pela comunicação social e o Diretor-Ténico da Confederação seguiram um em cada grupo.
O pequeno grupo entrou no apartamento onde estava deitada a famosa jogadora e cercou a cama com sorrisos aliviados. Sem se importar com os demais presentes, Suzana estendeu a mão para Eleonora que deu um passo até ela e capturou a mão estendida entre as suas. Perguntou suavemente:
- Como você está se sentindo?
- Como se tivesse sido atropelada � a morena brincou com uma voz fraca saindo do rosto abatido e sonolento. Eleonora riu um riso trêmulo e não conseguiu dizer nada. Suzana completou: - Eu estou bem. A doutor falou que eu não quebrei nada. Só me restou um corte na cabeça para me lembrar desse episódio para o resto da minha vida e um sem número de hematomas para me fazer lamentá-lo por algumas semanas.
Eleonora conseguiu comentar:
- Uma cabeça dura como a sua não quebra assim tão fácil.
- Pois é... � Suzana concordou fechando os olhos.
Lucina se aproximou.
- Ela foi sedada � falou para Eleonora. � Precisa descansar. Vamos.
Eleonora concordou com um aceno de cabeça. Olhou mais uma vez para o rosto amado adormecido e resistindo à vontade de tocá-lo com ternura, saiu do apartamento com Luciana. Andaram em silêncio até o carro da médica e assim permaneceram a maior parte do percurso de volta para casa. Luciana quebrou o silêncio:
- Quando aconteceu?
Absorta, Eleonora perguntou antes de pensar:
- O que?
- Quando você percebeu que estava apaixonada por Suzana?
Eleonora sentiu um frio polar no estômago. Respondeu baixinho:
- Eu não sei ao certo...
Luciana bateu as duas mãos no volante com força e gritou:
- Quando você ia a me conta isso?
O automóvel dançou perigosamente no meio da avenida.
- Luciana, você está dirigindo!
- EU SEI! Droga... � Luciana sinalizou e entrou a direita em um posto de combustíveis. Estacionou de frente à loja de conveniência. Permaneceu de cabeça baixa alguns segundos, respirou fundo e perguntou:
- Há quanto tempo vocês estão juntas?
- Lu, nós não...
- Eu não sou idiota, Eleonora! Vocês são um casal. Eu e 99% das pessoas presentes naquele quarto notamos isso.
Eleonora suspirou, resignada.
- Não foi nada planejado. Nós...
- Ah! Meu Deus! Isso não está acontecendo � Luciana bateu a cabeça duas vezes sobre o volante. Virou o rosto para Eleonora. � O que houve? Nós estamos tão bem. Pelo menos, eu imagino. Temos tanto planos. Nós... Eu fiz alguma coisa? Ando muito ausente? Trabalho demais e não te acompanho o suficiente. Elê...
- Não, Luciana � Eleonora exclamou com firmeza. � Não � confirmou com suavidade. � Não foi você ou eu ou qualquer problema em nosso relacionamento. Simplesmente...Céus! Essa expressão é um lugar comum terrível, mas é a pura verdade...Aconteceu. Foi inevitável.
- Como simplesmente aconteceu? � Luciana voltou a se alterar. � O que acontece em nosso coração sem que a gente queira?
- O inelutável.
Luciana abriu a boca para interromper, mas Eleonora a silenciou com um gesto.
- Não, Lu. Escute. Eu não premeditei. Eu nem ao menos percebi chegar e quando percebi ainda tentei lutar, mas perdi.
- Aquela mulher te fez sofrer como uma condenada.
- Fez.
- Ela te ignorou por anos a fio.
- Sim.
- E você ainda a quer.
- Sim...
- Aaaah! Por favor, Eleonora. Essa mulher não merece você. Nunca mereceu. Não merece nem a menos confiança. É uma aventureira. Uma...
- Não fale assim dela � Eleonora avisou.
- Você ainda defende aquela desclassificada, irresponsável, nefasta....
- Luciana, cale a boca! Você não é de depreciar assim uma pessoa sem conhecê-la. Não diminua a nossa história com...
- Você já fez isso � Luciana cuspiu, transtornada.
- Não, não fiz � Eleonora contrapôs suavemente. � Eu te amo.
- Ah!!- Luciana bufou em descrédito.
- Sim. Eu te amo, respeito e não me envolvi com outra pessoa porque o nosso relacionamento não me é extremamente importante � respirou fundo. � Entenda...Isso é, para mim, tão difícil de dizer quanto deve ser para você, ouvir. Contudo, é mais transparente verdade. Deus, Luciana! Você é tão importante para mim. Tão amada...Meu Deus...
- Diga logo � Luciana requereu, agora, com calma.
Eleonora suspirou profundamente e só então falou:
- Eu amo Suzana de uma forma que eu não consigo controlar, racionalizar ou conter. Escapa de mim sem controle, aos borbotões, tão inelutável quanto o ato de respirar. Você acha que é fácil encarar algo assim? Pois, não é. É assustador, temerário, imprudente. Mentiria se dissesse que não estou com medo.
- Mas, você vai assim mesmo.
- Eu preciso.
- Se você tivesse confiado em mim antes...Se tivesse me contado no início...
- Talvez. Talvez, Lu. Mas, seja sincera. Você queria realmente ouvir? Lembre-se de como você também adiou essa conversa o quanto pôde. Você é sensível o suficiente e me conhece demais para não ter percebido que eu estava diferente, perturbada já há um bom tempo.
Luciana baixou a cabeça.
- É. Eu sei. Mas, eu pensei que o nosso amor fosse capaz de resistir a essa tentação.
- E resistiria - Eleonora afirmou, convicta. - Se fosse uma tentação. Algo como um simples desejo ou um forte impulso. Mas, não é.
- O que você pensa em fazer? � Luciana perguntou com lágrimas caindo soltas dos olhos castanhos.
Com o coração em frangalhos, Eleonora respondeu:
- Vou para o hotel. Peço ao pessoal do apoio para buscar as minhas coisas amanhã.
- Você vai abandonar a nossa casa?
- Lu, por favor, não torne as coisas mais difíceis do que já são � Eleonora já chorava copiosamente.
- Essa mulher vai te arrasar mais uma vez.
- Lu...
- Vai te machucar, te humilhar.
Eleonora abriu a porta do carro.
- Não! � Luciana a segurou pelo braço. � Eu te amo.
- Eu também te amo. Esse é um dos motivos pelos quais eu estou indo, agora.
Eleonora se desvencilhou da mão de Luciana e saiu do carro. Caminhou até a avenida e acenou para um táxi. Entrou e deu o endereço do hotel onde estava hospedada a seleção e se afundou no banco traseiro. Tirou uma camiseta da mochila e chorou fartamente com a malha apertada contra os olhos.
Num posto de combustível, a poucos quilômetros dali, sem que ninguém a incomodasse, uma outra mulher soluçava incontrolavelmente com o rosto debruçado sobre o volante do automóvel.
 
 
 
 
 
 
VII
 
 
 
 
A equipe chegou na Espanha sob especulações da imprensa a respeito da capacidade da famosa Suzana Alcott de superar e se recuperar física e emocionalmente do acidente que por pouco não a vitimara. A seleção não contaria com a sua principal jogadora nos dois primeiros jogos da fase classificatória. Isto, sob veementes protestos de Suzana que já se sentia capaz de atuar. Contudo, Regina fora categórica em afirmar que queria a sua principal jogadora plenamente refeita e isso significava respeitar as ordens médicas quanto ao seu período de recuperação.
Dez dias antes, a equipe honrara os dois últimos compromissos com o time cubano mesmo após a inacreditável fatalidade e, nesse ínterim, Eleonora teve uma conversa esclarecedora com a técnica da seleção. Foi Regina quem a chamou para conversar logo após o último jogo contra Cuba e dois dias antes de embarcarem para a Europa.
- Eleonora, preciso falar com você. Você tem um tempo agora?
- Claro � Eleonora respondeu fechando um livro de contos que lia distraidamente sentada na agradável sacada do hotel e sentindo de antemão a apreensão típica de quem já antecipa o teor da conversa.
Regina sentou-se ao seu lado.
- Ante de tudo, eu quero deixar bem claro que eu não tenho nada com a sua vida pessoal ou de quem quer que seja.
Atenta, Eleonora apenas anuiu com a cabeça. Regina continuou:
- Mas, eu tenho todo o interesse com o que acontece com a equipe que eu dirijo.
Eleonora, mais uma vez, não se pronunciou.
- Você e Suzana.
- Sim.
- Não me interessa o tipo de relacionamento entre vocês duas, mas você há de convir comigo que nos encontramos em um momento delicado.
Silêncio.
- É, simplesmente, o mais importante evento do calendário do basquete feminino mundial.
- Eu sei � Eleonora esperava pacientemente o desfecho.
- E eu não posso deixar de zelar...
- Regina � Eleonora cortou a técnica com suavidade, mas com firmeza. � O que existe entre mim e Suzana não vai atrapalhar o bom andamento da equipe. Eu prometo.
- Mas, no dia do acidente...
- Aquilo foi um acontecimento mais do que dramático. Em todos os aspectos, inimaginável. Uma situação extrema e todos ficamos alterados.
Regina balançou a cabeça em assentimento, olhou firmemente para Eleonora e concluiu:
- Muito bem. Eu confio em você e na sua postura profissional, senão, aliás, você nem faria parte desta equipe. Sei que você cuidará para que, independente do seu tipo de relacionamento com Suzana, ele não interfira no trabalho com o restante do time.
- Você pode confiar nisso, Regina.
- Eu espero que sim.
A técnica se levantou para sair e Eleonora ainda fez mais uma pergunta:
- Mudando de assunto, alguma notícia sobre o causador do acidente?
- Sim. A polícia o identificou. É um garoto. Parece que foi uma espécie de vingança contra a ex-namorada que o abandonou por outra menina. Trata-se da adolescente que ainda está em coma e da outra que estava ao lado de Suzana e só quebrou braço. Lamentável, não?
- Sem dúvida.
Regina se despediu e se retirou deixando Eleonora pensando nas desgraças que o ciúme associado ao orgulho ferido pode causar.
 
 
Ganhamos a primeira partida contra Gana e perdemos a segunda para a Austrália. Nada para se desesperar. Dois times se classificariam para as oitavas de final e na terceira partida teríamos Suzana Alcott de volta. A jogadora não via a hora de poder atuar. Quase enlouquecera com comichões insuportáveis de pura ansiedade por ocasião do jogo contra a Austrália. Sentia-se plenamente restabelecida. Mais do que isso. Sentia-se plena. Estava fazendo o que mais gostava de fazer entre todas as coisas - jogar basquete, e tinha ao seu lado o grande amor da sua vida.
Um dia depois de sair do hospital, tivera uma conversa com Eleonora. A jovem treinadora lhe expôs sucintamente o difícil diálogo com Luciana e também a breve palestra com Regina. Suzana escutou tudo carinhosamente. De fato, doía-lhe ver no rosto de Eleonora o sofrimento por magoar alguém que amava. Impacientava-lhe o espírito irrequieto ter que concordar com Regina e segurar o seu ímpeto de grudar noite e dia em sua loirinha para não compurscar a harmonia da equipe, mas não conseguia disfarçar o seu contentamento por saber-se única para o amor de Eleonora. Suzana transpirava energia e segurança.
Mas, acima de tudo, a maturidade dera-lhe sensibilidade o suficiente para sentir quando sua amada precisava mais da companheira do que da amante saudosa e, nesse dia, por perceber o quanto o coração afetuoso e compassivo de Eleonora estava ferido, Suzana a envolveu num abraço terno e permitiu que a sua pequena amante repousasse a cabeça sobre o peito largo e chorasse mansamente, sem cobranças. Suzana deixou-se ficar afagando os cabelos loiros e sussurrando palavras doces até que os soluços esvaecessem. A partir desse dia, os laços que as unia tomou outra consistência e era como elas se acarinhassem e se encorajassem só com o olhar, já que, por acordo mútuo, resolveram se apartar discretamente até que o campeonato terminasse. O que poderia ser uma tortura para Suzana, ver aquela pequena beleza desfilar a sua graça encantadora sem poder tocá-la, ou para Eleonora, observar aquela perfeição morena distribuir o seu charme sem a chance de tomá-la em seus braços quando sabia que seria mais do que bem-vinda, transmutava-se em delícia ante a um simples olhar cúmplice, secreto, carregado de significados íntimos e de carícias ocultas.
Foi com esse estado de espírito que Suzana estreou no Campeonato Mundial.
Sobejamente aplaudida pelos presentes no ginásio, a maioria sabedora do drama por que passara a jogadora há poucas semanas atrás, Suzana não os decepcionou. Numa atuação soberba, levou a seleção a mais uma vitória. Saiu da quadra antes do apito final, exausta, mas feliz. Olhou para Eleonora no banco, rápida e intensamente, esperando que ela entendesse que este inebriante sabor de vitória e superação era, em grande parte, advindo dela. Eleonora devolveu-lhe um sorriso pleno de calor e entendimento.
A seleção venceu o outro jogo e foi para as oitavas como o segundo lugar do grupo. Encarou o respeitável time do Japão, disciplinado e renitente. Ganhou no minuto final. As quartas seriam contra a China. Outra pedreira.
O time, no entanto, parecia a cada jogo mais coeso, entrosado e inspirado. A equipe vinha num crescente e Regina enxergava isso como ninguém. Na noite da vitória contra o Japão, ela falou para Eleonora:
- Nós estamos bem, Elê. Nós estamos bem � repetiu pensativa. � Sinto cheiro de vitória. Não quero me antecipar, mas...Eu sinto, entende?
- Entendo perfeitamente, Regina � respondeu a treinadora física. � Eu também pressinto o mesmo.
- Ah! Eleonora. É um sonho. Um sonho realizado em etapas e nós vamos vencê-las uma por uma.
- Uma por uma � concordou Eleonora com um sorriso.
- Isso! � Regina deu um tapinha amistoso no ombro de Eleonora e foi se recolher. A cabeça da técnica fervilhava pensando no próximo jogo.
 
 
Passamos pela China com relativa facilidade dada a qualidade e tradição do adversário. A verdade é que, junto com o time, Suzana parecia ainda melhor. Seu jogo se agigantava a olhos vistos e já parecia natural aos espectadores, o longo e forte braço erguido a cada cesta certeira. O time brasileiro começava a despontar como um dos favoritos.
A semifinal foi especialmente dramática. Novamente contra a Austrália que vinha de uma vitória sobre o time da casa. Adversário competente e aguerrido, foram necessárias duas prorrogações para definir-se o vencedor. Ao final da segunda prorrogação, com a seleção brasileira dois pontos atrás no marcador e a dois segundos do final, Suzana executou um arremesso longo extraordinário, mais de um metro atrás da linha de três pontos, e o Brasil ganhou por um ponto de diferença na mais emocionante partida até então.
Estávamos na final.
 
 
 
A manhã, após o jogo da semifinal, parecia mais luminosa do que todas as manhãs de que Suzana se lembrava olhando a bela Madrid da sacada do seu quarto de hotel. Sua companheira de quarto descera cedo para o café, mas Suzana preferira ficar apreciando o sublime sentimento de sentir-se tão viva. O toque estridente do celular a tirou dos seus agradáveis pensamentos. Ela atendeu:
- Alô.
- Hello, big sister.
- Bobby!
- God, Suzie. Nobody call me like that anymore. Call me Lord Robert Alcott.
- Shut up, Bobby!
As risadas de ambos os lados das linhas denunciaram a brincadeira familiar.
- How are you, sister?
- Like never, brother. Where are you?
- London. But�I got a ticket to some basketball game tomorrow in�I�m not sure�Wait�Madrid, I think.
- You�re kidding me!
- No. I�ll go, Suzie. I�m very proud of you.
- Thanks. I�m waiting for you. I love you.
- I love you.
Suzana desligou com um sorriso radiante nos lábios. Alguém bateu timidamente na porta. Suzana foi abrir imaginando que num dia assim não era possível nada acontecer de ruim. Estava certa. Abriu a porta para ter o indescritível prazer de ver Eleonora. Não disse uma única palavra. Puxou-a para dentro do quarto. A jovem loira só teve tempo de falar:
- Suzana!
Ganhou um rápido e travesso beijo na boca.
- Você não desceu para o café...
Ganhou outro.
- Vim saber se você está bem...
Suzana não chegou a roubar o terceiro. A loirinha pegou o rosto moreno com ambas as mãos e quando Suzana achou que iria levar uma reprimenda por sua molecagem, foi puxada para o beijo mais quente e sensual das últimas semanas. Eleonora, então, segurou-a pelo pescoço com uma das mãos e com uma força imprevista pegou-a com a mão restante pelos quadris e encaixou a sua coxa entre as coxas morenas com ímpeto e precisão. Suzana se derreteu. Parou o beijo surpreendente e delicioso somente para exclamar:
- Uau!
Eleonora deixou escapar um único comentário:
- Que saudade, meu amor.
Pegou a mão de Suzana e puxou para o quarto.
- Elê, você tem certeza?
- Você trancou a porta do quarto?
- Sim, mas...
- Então venha.
- O que iremos dizer se a minha companheira de quarto voltar?
- Não sei. Não quero saber. Inventamos qualquer coisa. Deus, Suzana. Eu quero você mais do que respirar.
Eleonora enfiou as mãos entre o pijama e a pele de sua mulher e capturou a nádega firme com um suspiro de prazer. Qualquer protesto razoável que Suzana pudesse pensar nesse momento esvaiu-se como fumaça. Caíram sobre a cama sem pararem o beijo ardente.
Eleonora levou os lábios sedentos ao pescoço da morena saboreando-lhe os contornos precisos e o cheiro inebriante. Perdida num desejo imperioso, sentiu um ímpeto violento de rasgar a malha da parte de cima do pijama de Suzana para expor a pele aveludada de que tanto sentia falta.
Suzana anteviu a urgência de sua amante e tirou depressa a camiseta.
Eleonora afundou a boca no mamilo que se apresentava túrgido de excitação mesmo antes do primeiro toque. Sugou com volúpia os seios divinos. Suzana gemia alucinada agarrada aos cabelos loiros. Insaciável, Eleonora correu a língua pelo abdômen definido e descrevendo uma linha de fogo ventre abaixo, foi tirando com as mãos a parte debaixo do pijama enquanto a boca exigente explorava a pele desnuda entre beijos lépidos e lambidas lancinantes e se aproximava dos cachos negros exalando o cheiro sedutor da excitação feminina. Tirânica, Eleonora desdenhou o paraíso a sua disposição e continuou puxando as roupas perna abaixo, passeando os lábios quentes por dentro das coxas musculosas. Suzana respirava com dificuldade e só conseguia balbuciar:
- Eleonora...
Impiedosa, a loirinha retornou e mergulhou a língua sedenta na virilha macia, saboreando-lhe a carne tenra e demonstrando-lhe claramente o que viria depois. Suzana implorou:
- Por favor, meu amor...
Suzana ainda pôde ver olhos verdes marotos olhando para o seu próprio rosto transtornado de desejo antes de afundar a boca no centro pulsante do sexo da jogadora que precisou morder os lábios para não alertar meio hotel do estado altíssimo da sua excitação. Suas pernas tremiam de forma incontrolável, seu ventre se contraía forte e involuntariamente e, mais rápido do que ela conseguia se lembrar, o orgasmo veio intenso e delicioso. Antes que pudesse raciocinar, Eleonora alcançou-lhe a boca num beijo profundo e íntimo como somente são os beijos em que o ser amado trás na boca o nosso próprio gosto. Suzana sentia o peito tronar como mil baterias de escola de samba...Pronta para devolver à sua amada o prazer que ela lhe concedera, foi surpreendida por batidas firmes na porta.
- Suzana, você está aí?
- É a Márcia � a jogadora constatou, aflita. - Já vou! � gritou nervosa e olhou para Eleonora. � E agora?
Estranhamente, a loirinha riu como se tivesse se divertindo com a situação.
- Você tem um guarda-roupa? Só não me coloque na geladeira. Sou friorenta.
Suzana vestia a roupa apressada.
- Calma, Suzie. Nós podemos fingir que estávamos apenas conversando.
- Com essa minha cara pós-sexo e com esse seu rostinho malicioso, Eleonora? Nem meu avô acreditaria. Já sei! A sacada.
- A sacada?
- É. Eu dou um jeito de me livrar da Márcia em pouco tempo.
Eleonora foi para a sacada e Suzana fechou a porta e a cortina antes dela. Correu e abriu a porta.
- Desculpe, Márcia. É...Eu estava no banheiro.
- Você está bem, Suzana? Parece meio alterada.
- Éééé...Diarréia. Um pouquinho só...- completou Suzana com um sorriso sem graça. Sem saber porque, parecia enxergar uma certa loirinha tentando bravamente conter uma sonora gargalhada a poucos passos dali.
- Ih! A Regina não vai gostar nada disso.
- Não, não � apressou-se, Suzana. - Foi só um pequeno desarranjo. Já passou. Estou ótima.
- Que bom. Preciso usar o banheiro também. Você não o deixou imprestável, não é? � brincou a colega de time.
- Não. Pode usar sem medo. Fui uma lady sobre o trono � Suzana retornou a brincadeira.
Quando Márcia entrou no banheiro, Suzana correu para a sacada.
- Pronto. Pode ir. Rápido!
A jovem treinadora tinha lágrimas nos olhos devido ao riso reprimido. Caminhou tranqüilamente para a porta de saída. Suzana abriu a porta do quarto e sussurrou:
- Que traquinagem foi essa, Srta. Cavalcanti?
Eleonora respondeu no mesmo tom:
- O doce sabor da vingança. Lembra-se do escritório no ginásio?
- Ah! Uma mulher vingativa. Pois isso será uma eterna vendeta, minha amiga. Você não perde por esperar.
Eleonora retornou-lhe um olhar tão quente que Suzana quase perdeu o ritmo respiratório.
- Eu mal posso esperar.
Saiu.
Suzana fechou a porta, recostou-se nela e suspirou bem no instante em que a colega saia do banheiro.
- Você não vai tomar o desejum, Suzana?
- É, acho que vou, sim. De repente me veio uma fome...Uma fome de leão � riu da piada íntima e foi tomar uma ducha rápida.
 
 
 
 
 
 
 
VIII
 
 
 
 
 
O ginásio estava lotado para a grande final do Campeonato Mundial de Basquetebol Feminino entre as seleções do Brasil e da Rússia que vencera os Estados Unidos na outra semifinal. Os comentaristas se dividiam entre aqueles que acreditavam mais na tradição e afinamento do jogo das russas e os que admitiam uma vitória do surpreendente time brasileiro comandado pela melhor jogadora do campeonato, a primorosa Suzana Alcott.
Tinha tudo para ser uma grande final. E foi.
A partida começou nervosa para o jovem time brasileiro que, menos acostumado à pressão de uma final, errava muitas bolas fáceis e cometia faltas desnecessárias e tolas. Felizmente, o destempero não demorou muito. Habituada a inúmeras finais de campeonato, Suzana tomou para si a incumbência de acalmar a equipe, requisitando a bola nas transposições defesa-ataque e cadenciando o jogo até que os nervos do time alcançassem a harmonia entre ansiedade, agressividade e frieza.
O jogo equiparou-se. Os dois times se alternavam no placar. A diferença no marcador chegava a no máximo cinco pontos e invariavelmente tornava à igualdade. Suzana se esvaía em suor. Os cabelos negros outrora firmemente amarrados num rabo de cavalo encontravam-se despenteados e muitos fios soltos vinham grudar na tez molhada, mas a bela face não desmanchava a feição concentrada e determinada. A morena alta lembrava, nesse instante, uma guerreira comandando com segurança e altivez o seu pequeno exército. Gritava, apontava, instruía, incentivava e acima de tudo incendiava de ânimo as outras jogadoras.
Ao final da partida, a equipe russa converteu uma cesta e passou dois pontos à frente. Onze segundos para o final. Regina pediu tempo. O time acorreu a ela atento e nervoso. Regina pegou a prancheta para definir a jogada que escolhera para esta última tentativa de alcançar o topo do basquete mundial.
Eleonora e Suzana se olharam brevemente e nessa fração de segundo ambas retornaram nove anos no tempo e se lembraram de uma outra final não tão importante, mas não menos marcante em suas vidas. Suzana voltou o rosto atento para o que dizia a técnica. Definiram a jogada. Só que, desta vez, diferentemente de há quase dez anos atrás, quem seria duramente marcada para não receber a bola em condição de arremesso não seria uma jogadora da equipe adversária, seria Suzana � o coração da equipe brasileira.
O time brasileiro soltou a bola. A armadora Adriana a recepcionou e seguiu driblando para a quadra russa, marcada de perto pela adversária. Durante esses mesmos segundos, Suzana postou-se na cabeça do garrafão russo, quase imóvel. A jogadora que a marcava praticamente respirava em sua nuca e outra jogadora permanecia de guarda a menos de dois metros dali. Adriana chegou perto da linha de três pontos. Oito segundos. Suzana movimentou-se para a lateral do garrafão. Rapidamente, a pivô que se encontrava naquela posição avançou de encontro à marcação de Suzana e realizou um corta-luz perfeito. Como um raio, Suzana correu para a zona morta, atrás da linha de três pontos. A guarda correu desesperadamente atrás dela. Dois segundos. Adriana passou a bola para Suzana que a recepcionou e a arremessou quase em um único movimento enquanto a marcadora russa voava à sua frente tentando barrar-lhe o arremesso. Quando a bola voou das mãos de Suzana, milhares de olhos dentro do ginásio acompanharam o arco que ela descreveu no ar antes de cair certeira na cesta.
Fim de jogo.
Campeãs.
Um grito em uníssono ecoou do banco brasileiro e toda a equipe invadiu a quadra numa alegria incontida. Suzana foi erguida pelas companheiras e os braços levantados para o alto assinalavam um inconfundível gesto de vitória. Todos se abraçavam emocionados.
Suzana foi seguindo de abraço em abraço procurando por uma cabecinha dourada. Encontrou-a escondida como um cachorrinho nos braços de um urso envolvida pela maior jogadora do time brasileiro, com dois metros e cinco de altura. Não conseguiu reprimir um sorriso divertido pelo flagrante descompasso. Deu um tapinha no ombro da grandona e foi a sua vez de ser envolvida pelos braços monumentais. Ao final do carinhoso esmagamento, Suzana voltou-se para Eleonora. Abriu os braços num gesto tão conhecido e amado e Eleonora se aninhou no peito da mulher que amava.
Esqueceram-se por um momento do tumulto em sua volta, perdidas no prazer de estarem unidas, felizes e realizadas.
Meia hora depois, para o fim definitivo dos traumas passados de Eleonora, estavam todas presentes na premiação. A jovem treinadora se viu entrando com toda a equipe para ocupar o lugar mais alto do pódio juntamente com Suzana que envergava com a costumeira elegância, mas com incomum felicidade, o agasalho da seleção brasileira. Choraram juntas ao som do Hino Nacional. Acenaram, radiantes, para os torcedores de ambos os lados do ginásio. E, foi difícil saber quem estava mais orgulhosa quando Suzana recebeu o troféu de cestinha do campeonato mundial.
Um dia para nunca se esquecer.
Terminada a premiação e as aparentemente infindáveis entrevistas, Suzana alcançou Eleonora conversando com Regina. Pegou a mão da treinadora e perguntou à técnica:
- Posso requisitar a minha mulher um pouquinho pra mim?
Se Regina ficou surpresa com o comentário, não demonstrou. Sorriu compreensiva e respondeu:
- É toda sua. Você merece � disse e olhou carinhosamente para Eleonora. � E você também, Elê.
Eleonora, num gesto expansivo e sentimental, abraçou a técnica calorosamente.
- Todas nós merecemos, Regina.
Suzana puxou Eleonora em direção às cadeiras do ginásio do setor A, postadas à frente dos bancos de reserva.
- Aonde vamos? � Eleonora perguntou.
- Quero que você conheça alguém � explicou Suzana.
- Quem?
- Robert.
- O seu irmão? � Eleonora arregalou os olhos. � Mas eu estou toda desarrumada, Suzana!
Sem diminuir o passo Suzana retrucou:
- Ao contrário do resto da família, Robert é uma pessoa muito simples.
Eleonora olhou para Suzana com um cara de descrédito e súplica mudos. Suzana ignorou os sinais de aflição com um sorriso condescendente e a puxou ainda com mais firmeza. Entraram na área comum do ginásio onde ficam a lanchonete e os toaletes do setor. Suzana apontou para um homem jovem, alto e magro, de cabelos ruivos cuidadosamente aparados, recostado de frente ao balcão da lanchonete saboreando uma fumegante xícara de café. Ele se virou para elas no momento em que vinham se aproximando e Eleonora pôde constatar que ele tinha os olhos de um verde denso e algumas sardas no rosto tipicamente inglês. "Não se parece em nada com Suzana", Eleonora pensou. Mas então ele sorriu...O mesmo sorriso quente e avassalador e a loirinha não duvidou mais do parentesco.
- Suzie! � ele exclamou.
Suzana abriu um sorriso largo.
- Bobby!
- Oh, please...- Robert reclamou.
Abraçaram-se fortemente.
- Esta é Eleonora � Suzana apresentou.
- Muito prazer, Eleonora. Ouvi muito falar de você � cumprimentou Robert em um português perfeito, apertando a mão de Eleonora com firmeza.
- Você fala português...- Eleonora constatou baixinho.
O ruivo riu com gosto e comentou com Suzana:
- Você tem razão, Suzie. Ela é encantadora � olhou para Eleonora. � Eu fiz português como língua opcional na faculdade � explicou. - Além disso, uma certa pessoa... � piscou para Suzana -...Fazia da minha vida um inferno se eu errasse uma simples frase.
- Pois, então, deu certo. O seu português é excelente.
- Viu? � provocou, Suzana.
Robert abriu os braços em derrota.
- All rigth! Podemos ir jantar?
Suzana dirigiu-se a Eleonora:
- Com fome, amor?
Eleonora passou a mão sobre a barriga e fez cara de sofrimento.
- Isso lá é pergunta que se faça?
Os três saíram rindo bem humorados em direção a uma farta e grata refeição.
 
No dia seguinte, toda a seleção brasileira saiu para passear e fazer compras por Madrid. Suzana e Eleonora preferiram caminhar pelo belo Parque do Retiro desfrutando do prazer de estarem apenas as duas juntas. Mais tarde, sentadas para almoçar num pitoresco restaurante no charmoso Bairro Salamanca, Suzana argumentava:
- Eu parto amanhã para Los Angeles. Você poderia vir comigo. Umas duas semanas são o suficiente para eu resolver as coisas por lá e então voltamos juntas para o Brasil.
- Não posso, Suzie. Eu também tenho muitas coisas urgentes para resolver. E você sabe que a minha situação é, digamos, muito mais delicada do que a sua.
- Humf! � Suzana grunhiu. � Não gosto de você retornando para a casa da sua ex-mulher sozinha.
- É a minha casa também, Suzana. Pelo menos até eu me mudar de lá definitivamente. Não seja ciumenta.
- Inevitável � Suzana tentou brincar. � Você é linda, adorável, inesquecível... � piscou os olhos várias vezes como nos velhos filmes mudos. Depois, falou, séria: - Eu não a culparia se ela tentasse te reconquistar.
- Duvido muito, Suzana. De qualquer forma, não iria adiantar. Eu sou sua e essa é a mais simples verdade.
Suzana apertou a mão de sua pequena amada olhando-a intensamente. Por fim, concordou com um suspiro:
- Está bem. Mas eu quero a senhorita em um hotel e eu vou voltar em dez dias.
- Mas, Suzie...
- Oito, talvez.
Eleonora gargalhou alto.
- Ei, miss Alcott, cuidado para não deixar a casa e o salário para o time.
- Eu não me importaria se isso significasse chegar mais rápido para junto de você - Suzana replicou galantemente com aquele sorriso deslumbrante na boca cheia.
Foi a vez de Eleonora tomar para si a feição atoleimada dos enamorados.
Suzana não a deixou divagar muito e falou:
- Posso te convidar para jantar, hoje?
- Meu Deus, Suzana. Nós acabamos de almoçar � Eleonora retrucou brincalhona. � Depois, eu acho que preferiria ficar esta noite em um quarto sozinha com a minha mulher.
- A idéia é muito mais do que tentadora, amor. Mas... É que eu preparei uma noite especial e ela começa com um jantar num lugarzinho lindo e reservado. Depois...Bom, depois é surpresa.
Eleonora riu deliciada e perguntou, provocante.
- Alguma comemoração em especial?
- Surpresa.
- Aaaah, não, Suzana. Você sabe que não existe pior castigo para mim do que ficar curiosa.
- Vou compensar o sofrimento, amor. Prometo. Estamos combinadas?
Eleonora suspirou fingindo resignação.
- Combinado.
- Então nós nos encontramos às nove da noite no saguão do hotel.
- Tudo bem � Eleonora respondeu com um muxoxo e foi presenteada com um afago folgazão sobre os cabelos que terminaram solenemente despenteados sob veementes protestos da loirinha indignada.
 
 
 
No hotel, Suzana foi tirar uma boa sesta. Eleonora aproveitou para ir a uma pequena boutique ao lado do hotel onde, dias atrás, ela havia avistado um lindo vestido preto de corte justo e clássico, mas que se permitia à ousadia de uma provocante fenda posterior. Queria estar bonita. Intuía que esta seria uma noite muito especial. Provou o vestido e comprovou o seu caimento perfeito. Comprou-o. Saiu da loja alguns euros mais pobre e alguns sorrisos mais feliz.
 
Suzana acordou por volta das 16:30. Foi para o chuveiro e tomou um banho demorado. Quarenta minutos mais tarde saía do banheiro cantarolando um velho sucesso de Djavan. Olhou para a gaveta do criado-mudo e abandonou a melodia para dar espaço a um sorriso largo que lhe dominou o rosto. Puxou a gaveta e pegou uma caixinha de veludo negro. Abriu-a. Dentro dela, duas alianças de ouro rutilaram. Suzana suspirou feliz. Havia comprado as jóias logo depois da semifinal. Queria selar um compromisso com Eleonora. Pedi-la que fosse sua companheira pelo resto de sua vida. Sentia, sem a menor sombra de dúvida, que isso era o que mais queria acima de qualquer outro desejo que pudesse conceber. Imaginara uma noite perfeita. Sorriu ante a constatação de como Eleonora a transformara em uma mulher romântica. Guardou a caixinha e foi se vestir. Mal colocara a lingerie e o celular tocou. Atendeu-o distraída.
- Alô...Hi, Albert. What a surprise. What�s happening?
Calou-se para ouvir a resposta do antigo e mais fiel servidor de sua família. O belo rosto moreno tornou-se mortalmente pálido à medida que escutava o motivo da ligação.
- No, don�t tell me that. Please, Albert � a voz grave era quase um sussurro trêmulo e dolorido. Suzana respirou fundo. � Of course. I�m comming... Yes...Yes.
Suzana desligou incrédula e chocada. Ligou imediatamente para a recepção.
- Eleonora Cavalcanti, quarto 502, por favor.
- Ninguna persona en el apartamento, signora.
- Habla usted português?
- Um pouco.
- Você pode descobrir qual o próximo vôo para Londres, por favor?
- A senhora quer que eu faça a reserva?
- Sim, em nome de Suzana Alcott, por favor.
- Sim, senhora.
Suzana estava atordoada. Onde estava Eleonora? Ela não havia lhe dito que sairia para algum lugar e não havia levado celular para a Europa. Passou a mão nervosamente pelos cabelos ainda úmidos. Caminhou até o armário, colocou jeans, uma camiseta e apanhou uma jaqueta. Penteou os cabelos como um autômato e desceu ao saguão. O rapaz da recepção a atendeu com um sorriso educado.
- Srta. Alcott. Há um vôo para daqui a três horas. Já fiz a reserva. A senhora deseja um táxi?
Suzana apenas concordou com a cabeça. Em poucos minutos estava em um táxi em direção ao aeroporto. Em algum lugar da sua mente perturbada ela conseguia ponderar que Eleonora por certo ligaria para ela logo que soubesse que havia partido. Apalpou o celular dentro do bolso do casaco sobre o banco do táxi. No entanto, por ora, só conseguia pensar que Robert estava entre a vida e a morte e o seu coração doía como se traspassado por mil punhais.
Nesta tarde, contudo, os deuses pareciam estar especialmente cruéis. O rapaz da recepção terminou seu turno e saiu pela porta de serviço ao mesmo tempo em que uma sorridente loirinha entrava carregando uma sacola pela porta da frente. Trinta minutos antes, Suzana descera apressada do táxi com a jaqueta nas mãos sem perceber que o celular caía do bolso onde o colocara e jazia silencioso no chão ao lado do meio fio.
 
 
 
Eleonora tomou um banho relaxante e lavou com cuidado os cabelos finos e delicados. Saiu do banheiro e foi direto ao telefone. Olhou para o relógio: 18:40. Desistiu de pedir uma ligação para o quarto de Suzana, ela também devia estar às voltas com um bom banho. "Melhor eu me preparar e ligar quando estiver praticamente pronta", pensou lembrando-se com um sorriso de como Suzana ficava mal-humorada com atrasos. Entrou novamente no banheiro para secar os cabelos.
Por volta das 20:00, quase pronta, de moletom e camiseta, faltando apenas colocar o vestido e os sapatos, Eleonora ligou para a recepção e pediu para contatá-la ao quarto de Suzana. Alguém atendeu.
- Alô...Oi, Márcia. Eleonora. Posso falar com Suzana?
- Oi, Elê � a companheira de quarto de Suzana respondeu. � Ela não está.
- Não está? Ela deixou algum recado?
- Não, e isso aqui está muito estranho.
- Como assim estranho?
- Bom...o armário estava escancarado quando eu cheguei, algumas roupas de Suzana espalhadas pelo chão e parece que está faltando uma mochila dela como se...
- Ela tivesse ido embora às pressas � completou Eleonora.
- Isso.
Eleonora sentiu um frio abissal tomando-lhe o ventre. Desligou com um pressentimento terrível. Um medo intenso começou surgir, sorrateiro, em seu coração. Um medo antigo, conhecido, o mesmo medo que sentira há nove anos atrás e que rogara para nunca mais sentir novamente. Desceu correndo descalça até o saguão do hotel. Chegou ao balcão da recepção ruborizada e ofegante. Perguntou num espanhol atropelado pela hóspede Suzana Alcott. O atendente soube dizer apenas que ela havia deixado o hotel por volta das dezessete horas porque assim estava registrado pelo servidor do turno anterior, mas o motivo da saída precoce ou para onde ela havia ido, ele não sabia informar.
Eleonora se lembrou do celular.
Pediu o telefone da recepção e ligou. O celular chamou até cair na caixa de mensagens. Tentou ainda mais três vezes. Nada.
Eleonora olhou em volta como se procurasse algo ou alguém que a ajudasse. "Pode ser tanta coisa. Deve haver uma explicação". E, no entanto, a sua garganta estava quase fechada por um bolo amargo formado por descrença e um profundo pavor. Caminhou apática até uma poltrona e se sentou com as mãos cobrindo o rosto abaixado.
Desnorteada. Confusa. Impotente. Eleonora não queria nada. Nem ao menos chorar. Aliás, nem se quisesse. Não tinha mais lágrimas. Não tinha mais.
 
 
Parte 4
 
 
Os destinos enlaçam, os destinos cortam...Os destinos tornam a unir.
Os funcionários do hotel olhavam discretamente para a jovem mulher que há mais de uma hora quedava-se inerte numa poltrona do saguão com os translúcidos olhos verdes extáticos fitando algum ponto indefinido no espaço.
Um rapaz entrou pela porta da frente bem vestido e sorridente. Seguiu até o balcão e pediu qualquer coisa que havia esquecido por ocasião do seu turno de serviço. Olhou discretamente para loirinha inerte quando o colega que o substituira na recepção comentou alguma coisa. O rapaz se aproximou de Eleonora.
- Señora?
Eleonora olhou para ele sem movimentar um único músculo do rosto inexpressivo. O jovem continuou:
- Usted...Você estava perguntando por Suzana Alcott?
O rosto de Eleonora transmutou-se. Dos olhos verdes faiscaram sinais vivos de interesse.
- Sim � respondeu simplesmente.
O rapaz relatou-lhe os acontecimentos de algumas horas atrás. Eleonora escutou com atenção.
- Então, ela foi para Londres � Eleonora falou para si mesma.
- Sí, e también demasiado intranquila.
Eleonora fitou o seu interlocutor com o rosto claro repleto da sua conhecida determinação e pediu:
- Você poderia me fazer um favor?
- Seguramente.
- Pode me descobrir quando parte o próximo vôo para Londres.
- Seguro, señora. Quer que eu faça a reserva?
- Eu...Quero sim, obrigada. Em nome de Eleonora Cavalcanti, por favor � disse e caminhou resoluta para ao elevador. � Definitivamente, eu quero, sim!
Entrou no elevador.
 
 
Eleonora estava sentada na sala de espera do aeroporto aguardando a chamada do seu vôo para Londres.
Não estava ansiosa ou impaciente como era de se esperar. Expirara a sua cota de desespero. Agora uma calma determinada tomava-lhe a mente dominada pela resolução firme de encontrar Suzana e fazê-la explicar o motivo desse novo e repentino desaparecimento. Não era mais uma adolescente insegura, alquebrada pela sensação de abandono, derrotada pelo sentimento de impotência. "Não desta vez!". Desta vez ela iria atrás de Suzana até o inferno se fosse preciso, mas não passaria de novo pela tortura de não saber o que aconteceu. Definitivamente, não! Respirou fundo e abriu um livro de Gabriel Garcia Márquez para ver se o seu autor preferido lhe ocupava a cabeça com sua prosa fantástica.
Foi nesse instante que se deu conta de um pequeno detalhe: não sabia onde a família de Suzana residia. Não tinha sequer um número de telefone em Londres e talvez nem existisse um número em qualquer lista telefônica. O celular de Suzana continuava mudo..."Pense, pense, Eleonora". De repente, um nome lhe alcançou a memória: "Camilla". Levantou-se rapidamente.
- Alô � atendeu uma voz conhecida.
- Carlinha?
- Elê? E aí, campeã mundial?
- Carla, eu preciso de um favor � Eleonora disparou sem mais delongas.
- Xiiiii! Aí vem bomba. Diga, velha amiga.
- Preciso que você encontre o telefone de uma pessoa para mim. Chama-se Camilla...não sei o sobrenome. Fisioterapeuta, ex-professora da Universidade Santa Cruz. Mora atualmente em Curitiba e tem uma clínica lá. Eu preciso dessa informação o mais rápido possível � Eleonora falou num só fôlego.
- Minha Nossa Senhora! Calma, menina. Eu me lembro de quem se trata e nem precisa me dizer que Suzana está envolvida nisso...Pelo menos por enquanto. Depois, eu quero saber de tudo, tintim por tintim. Relaxa, você ligou para a pessoa certa. Não há nada na face da terra que eu não consiga bisbilhotar.
- Conto com isso, Carlinha. Vou embarcar agora e te ligo logo que pousar em Londres.
- Londres? O que você...
- Te conto depois. Até.
Eleonora desligou e seguiu em direção ao portão de embarque.
 
 
Suzana olhava estupefata para o irmão imóvel, cheio de tubos entrando por suas vias aéreas, cercado por aparelhos que o mantinham vivo. Não conseguia compreender a imobilidade e a palidez daquela face querida sempre tão jovial, alegre e calorosa. O coração doía-lhe desconcertado, incrédulo e miseravelmente surpreso.
Segundo o relato de Albert, conforme o que lhe disseram os policias e os paramédicos que socorreram Robert, o jovem Lorde Alcott vinha em seu carro esporte pela estrada que levava à casa de campo dos Alcott. Despreocupado e imprudente, acima da velocidade permitida para a estreita e antiga estradinha, ao fazer uma curva especialmente fechada, Robert dera de cara com uma carroça cheia de feno, tocada por um camponês da região. Pego de surpresa e em alta velocidade, ele não teve alternativas senão desviar para o lado e despencar pelo barranco costeiro, colidindo com uma árvore poucos metros depois.
Os ferimentos foram consideráveis.
Em coma, após uma série de intervenções cirúrgicas que duraram mais de sete horas seguidas e que ele só conseguira suportar devido à robustez do seu jovem organismo, Robert lutava pela vida. Suzana colocou a mão sobre a mão do único irmão como se quisesse doar-lhe parte da sua vitalidade.
A porta do apartamento se abriu e um ancião numa cadeira de rodas entrou empurrado por um enfermeiro. Suzana olhou inexpressiva para o avô velho e debilitado, mas ainda repleto da antiga arrogância brilhando nos olhos azuis frios. Não o cumprimentou. Tampouco o avô perdeu tempo com formalidades vazias. O velho Lorde Alcott atirou-lhe um comentário sem a menor preparação:
- I am sure than you know your duty, Suzanne�After all. Well, you are the last Alcott whit my blood. Now, you must worry with one heir.
- Cale a boca, velho insensível � Suzana falou entre dentes. � Robert ainda não morreu.
- Speak in english.
- Eu falo no idioma que eu quiser e não vou facilitar as coisas para você. Robert vai conseguir. E mesmo que ele não consiga... � Suzana engasgou. � Eu prefiro morrer a dar continuidade à sua maldita linhagem.
O velho escutou o desabafo sem mudar a expressão pétrea do rosto enrugado. Falou com calma:
- You will change your mind.
Deu ordem para o enfermeiro retirá-lo do quarto. Suzana voltou-se para o irmão.
- Ah, Bobby. Não me deixe, irmãozinho.
Desta vez, lágrimas abundantes e silenciosas correram pela face de Suzana.
 
 
 
X
 
 
 
Eleonora chegou em Londres de madrugada. Sem pestanejar, ligou para Carla que como se estivesse esperando a ligação ao lado do aparelho telefônico, atendeu prontamente. Eleonora não perdeu tempo:
- E então, Carlinha. Conseguiu?
- Primeiro, comece a desfiar loas aqui à sua velha amiga de guerra. Uma primorosa investigadora, brilhante...
- Carlinha!
- Ok, ok. Anote aí os telefones da Camilla. Ela não mudou o nome. Consegui os números da residência e da clínica.
Carla passou os números. Eleonora os anotou, agradeceu à melhor amiga e se despediu. Olhou para o enorme relógio quase em frente dos telefones públicos: quatro horas da manhã. Cerca de uma hora da manhã no Brasil. Confabulou consigo mesma se seria uma hora conveniente para ligar para Camilla. Decidiu-se.
Para sua surpresa, uma voz feminina atendeu ao telefone quase prontamente.
- Alô. Camilla?
- Sim.
- Desculpe a hora. Eu não sei se você ainda se lembra de mim. Meu nome é Eleonora. Eu...
- Eu me lembro de você, Eleonora. Está acontecendo alguma coisa com Suzana?
Eleonora não demonstrou espanto com a sagacidade de Camilla. Respondeu com calma:
- Na verdade, eu não sei ao certo, Camilla. Ela sumiu sem explicação ontem à noite. Nesse momento, eu estou em Londres porque tenho informações de que ela veio para cá. Mas não tenho como localizá-la...
- O celular?
- Não atende.
- Entendo... � Camilla ficou em silêncio alguns segundos. � Espere um momento.
Instantes depois, Eleonora tornou a ouvir a voz de Camilla.
- Eu tenho um velho telefone da residência da família de Suzana aí em Londres. Acredito que deva continuar o mesmo.
Camilla passou o número para Eleonora.
- Eleonora?
- Sim?
- Eu tenho certeza de que algo de muito grave aconteceu para Suzana sumir assim sem explicação e eu estou preocupada. Ela não te deixaria por nada que não fosse extremamente importante. Ela te ama muito.
- Eu espero que sim, Camilla. De qualquer forma eu não pretendo sair dessa cidade antes de escutar as explicações que ela tem a me dar. Suzana não vai me abandonar de novo como fez há nove anos atrás. Eu não vou deixar.
Camilla sorriu do outro lado do Atlântico. Gostava dessa menina.
- Eleonora, ligue-me quando tiver alguma notícia, por favor.
- Claro. Obrigada, Camilla.
Eleonora desligou. Olhou novamente para o relógio refletindo se deveria ligar para a residência dos Alcott àquela hora. "Claro que não, sua tonta. Você nem sabe se ela está realmente lá", ponderou. Resolveu esperar a manhã se adiantar um pouco mais na cafeteria, oportunamente aberta, onde poderia mergulhar a impaciência em litros de café. Mal esperou dar oito horas e ligou para o número que Camilla lhe dera. Uma voz de ancião atendeu à ligação. Eleonora perguntou em bom inglês:
- I would like to talk to Suzana Alcott, please. Is she there?
- Who would like?
- Eleonora Cavalcanti.
- Yes. Lady Alcott told me about you, Miss Cavalcanti. She slept in the hospital.
- Hospital? � Eleonora exclamou.
Albert explicou sucintamente a situação para Eleonora que sentiu o coração se apertar a cada palavra do distinto senhor. Esqueceu qualquer resquício de ressentimento que pudesse existir por Suzana não ter compartilhado esta terrível notícia com ela antes de ter se abalado de Madrid sem um único recado. Pensou tão somente na dor e no sofrimento que a mulher que amava poderia estar passando nesse momento. Suzana estava perdendo o irmão que adorava e revivendo mais uma de suas muitas perdas, provavelmente e novamente, sozinha. O peito de Eleonora se apertou dolorido de pesar e angústia. Saiu praticamente correndo pelo saguão do aeroporto depois que Albert lhe cedeu o endereço do hospital.
Eleonora caminhou pelo corredor que dava acesso ao apartamento onde estava Robert, trêmula de ansiedade por ver Suzana. Chegou à porta ao mesmo tempo em que chegava também um senhor idoso numa cadeira de rodas conduzido por um homem que parecia ser um enfermeiro ou acompanhante. O velho a olhou com altiva curiosidade e o leve arquear de uma das sobrancelhas que fez Eleonora se lembrar de alguém. Eleonora imaginou se este poderia ser o avô de Suzana. "Mas eu pensei que ele estivesse morto", pensou. Depois se lembrou de que Suzana nunca havia mencionado a morte do avô. Ela assim o supusera devido ao fato de Robert já envergar o título de Lorde. Abriu espaço para o velho senhor entrar e adentrou logo em seguida na pequena sala de espera antes do quarto. O velho dirigiu-se a ela.
- Are you some reporter?
- No, sir. I�m a friend.
- A friend of Robert, I suppose.
- In fact...I am not, sir. I am friend of Suzana.
- Well, welll � falou o velho lorde não sem um certo desdém. � One of Suzana�s girls.
Eleonora sentiu o rosto em fogo.
- No, sir. I�m not one of Suzana�s girls. I�m...
- My future wife � uma conhecida e profunda voz de contralto invadiu a saleta.
Eleonora sentiu o peito se aquecer. Virou-se para Suzana para ver consternada o rosto amado abatido, sulcado por olheiras fundas e os olhos azuis com o seu viço brilhante embaçado por uma sombra de tristeza. Caminhou para ela e a abraçou firme e docemente. A mulher mais alta pareceu diminuir nos braços de sua pequena amada e, numa atitude incomum, permitiu que Eleonora percebesse o tamanho da fragilidade com que se encontrava naquele momento. Eleonora só pôde abraçá-la mais forte. Suzana falou num sussurro:
- Você me encontrou.
- Eu iria até o último dos infernos, mas eu te encontraria.
- Obrigada.
- Não vamos falar mais nisso. Agora, precisamos cuidar de Robert � Eleonora disse amparando o rosto moreno nas mãos e olhando bem dentro dos olhos azuis.
Suzana sentiu ressurgir uma esperança que julgava desaparecida depois que viu o estado em que se encontrava o irmão, pelo simples fato de Eleonora estar ao seu lado. Algo como uma força ignota que somente Eleonora tinha o poder de lhe descortinar. Abriu um sorriso tímido para a sua pequena grande mulher e se pegou agradecendo silenciosamente a Deus por tê-la consigo.
O momento foi quebrado por um comentário desagradável.
- Should I be touched? Please! Save me of those scenes. Suzana, how is going my grandson?
- Na mesma � Suzana não se deu ao trabalho de falar em inglês mais uma vez.
- Could you say for this young woman than she is dispensable here? That�s family business.
- A única pessoa totalmente dispensável aqui é você, velho. Você não ama a Robert mais do que à sua estúpida linhagem. Portanto...Vá se acostumando com a idéia. Se Robert morrer, a sua descendência morre com ele � Suzana tornou a olhar para Eleonora. � Eu preciso de um café. Você me acompanha?
- Sempre.
Saíram juntas para a lanchonete do hospital, deixando o velho irascível sem a menor cerimônia.
 
Sentadas, cada uma com uma caneca de café sobre a mesa, Eleonora olhou para o rosto cansado da sua mulher e perguntou brandamente:
- Qual é o estado de Robert?
Suzana respirou fundo e respondeu:
- Ele sofreu várias intervenções cirúrgicas. Quebrou o fêmur e algumas costelas. Teve traumatismo craniano com lesões no lobo central direito. Os médicos não podem definir a extensão das seqüelas até que ele fique consciente...Se ele ficar consciente.
Eleonora colocou a mão sobre a mão de Suzana.
- Ele vai conseguir, Suzie.
Suzana sorriu fracamente e comentou:
- E ainda tem o meu avô...
- Pareceu-me uma pessoa bem difícil � Eleonora ponderou, cautelosa.
- Sim, ele é...O fato é que se Robert morrer sem lhe dar netos, o título e as propriedades passarão para o irmão mais novo de meu avô, que ele sempre considerou um idiota, e os filhos dele. Para um homem orgulhoso de sua estirpe como o velho Lorde Alcott, isso se assemelha a uma derrota inadmissível.
- Quando você falou que Robert era o atual lorde, eu pensei que seu avô tivesse morrido.
- Uma suposição compreensível. É que há cerca de três anos, quando meu avô se convenceu de que estava inválido, ele legou a Robert o título, as propriedades e todas as obrigações decorrentes deles. Bobby vinha fazendo um bom trabalho apesar das constantes interferências cheias de arrogância do velho. Na verdade, somente Robert suporta nosso avô com a paciência e o respeito que ele pouco merece � Suzana baixou o olhar. � Ah, Elê, o meu irmão é uma pessoa tão rara, gentil e carinhosa. Tão... - Suzana tornou a olhar para Eleonora com os olhos azuis cheios de lágrimas e não conseguiu completar a frase.
Eleonora apertou-lhe a mão tentando passar força e apoio à mulher que amava. Suzana soltou o ar com força e tentou se recompor. A loira esperou um instante e perguntou com cuidado:
- Suzie...Ele...O seu avô. Ele pode exigir que você se case e lhe dê um herdeiro?
Suzana conseguiu sorrir levemente ante o rosto claro tentando manter uma feição casual totalmente desmentida pela eterna denunciante rugazinha no nariz.
- Sim...
Eleonora abriu a boca, atônita.
- Há uns duzentos anos atrás � Suzana completou.
Um suspiro de alívio arrancou um raro sorriso largo do rosto da morena.
- Vamos voltar, meu amor? � Suzana perguntou. � O médico deve passar pelo quarto daqui a alguns minutos. Eu quero estar presente.
Eleonora anuiu com a cabeça e elas se levantaram.
Caminhando pelo corredor largo pintado de um suave verde claro, Eleonora falou a Suzana.
- Posso te fazer uma pergunta?
Suzana respondeu um tanto distraída:
- O que você quiser.
- O que você quis dizer com "future wife"?
Desta vez, Suzana parou e olhou para a mulher mais baixa.
- O que a expressão quer dizer: futura esposa.
- Não me lembro de ter sido pedida em casamento.
Suzana olhou ao redor, pegou a mão de Eleonora e se adiantou para uma porta sem número ou qualquer outra identificação. Entraram num cubículo cheio de materiais de limpeza.
- Não foi o jeito que eu planejei, mas...Eleonora, você aceita como esposa uma jogadora em fim de carreira, cabeça dura e que vive metendo os pés pelas mãos e com uma história de vida complicada, uma família mais ainda, mas que te ama mais que a própria vida?
Suzana terminou o breve discurso um pouco ofegante, fitando com olhos ansiosos a jovem loira pasma à sua frente. Eleonora prolongou o silêncio tempo demais para a impaciência de Suzana.
- E, então? � perguntou a morena sem mais se conter.
- Depende...- começou Eleonora, devagar.
- Depende do que?
- De você parar de me enfiar em todas as portas que encontrar abertas dos lugares mais estranhos daqui ao extremo oriente pelo menos pelos próximos setenta anos.
O rosto de Suzana se iluminou com aquele sorriso de endoidecer.
- Quer dizer que...
- Quer dizer, Suzana, que me casar com você é a coisa que eu mais quero desde que saí da infância.
A jogadora pegou sua pequena amada nos braços e a beijou profundamente.
- Deus, Eleonora! Como eu amo você.
- Eu também, Suzie, eu também.
A jovem treinadora tocou com infinito carinho o belo rosto moreno e falou com suavidade:
- Agora, venha, amor. Vamos cuidar do seu irmão.
 
Sete dias passaram invariavelmente iguais com relação ao estado do jovem lorde. Suzana ficava a maior parte do tempo no hospital com Eleonora ao seu lado dando-lhe apoio incondicional e suportando estoicamente as alfinetadas do velho lorde.
Naquela tarde, Eleonora fazia companhia a Robert. Suzana saíra para tomar um banho antes do início da noite. A loirinha lia, concentrada, um livro de contos de Clarice Lispector. De repente, uma estranha sensação a fez retirar os olhos do livro e olhar em direção à cama. Eleonora deu um salto da poltrona. Os olhos verdes de Robert a fitavam diretamente. Com o coração aos saltos, Eleonora perguntou:
- Robert?
O rapaz não respondeu. Piscou lenta e demoradamente e olhou diretamente para Eleonora como se para confirmar que a reconhecera. Adormeceu novamente em seguida.
Suzana chegou poucos minutos depois que Eleonora lhe telefonou contando a novidade. No rosto da mulher amada, Eleonora pôde perceber esperança e ansiedade misturadas em igual medida. O médico examinou Robert e mais uma vez recomendou paciência. O breve abrir de olhos podia significar muito...e nada. Percebendo a exasperação que tomava conta dos nervos exaustos de sua mulher, Eleonora falou com doçura, mas com inequívoca firmeza:
- Ele me reconheceu, Suzie. Eu vi isso nos olhos dele. Robert vai retomar a consciência e se recuperar. Eu tenho certeza.
Na manhã seguinte, a predição de Eleonora confirmou-se com indescritível felicidade. Robert abriu os olhos mais uma vez, olhou para a irmã que se levantara num salto da poltrona e sorriu debilmente. Eleonora chamou o médico.
Robert acordara.
 
 
Desde o dia em que acordou, o jovem lorde Alcott melhorou a passos largos. Uma semana depois, os três conversavam tranqüilamente enquanto Suzana alimentava o irmão com uma sopa de cor estranha, mas de aparência consistente. Robert engolia a gororoba empurrada impiedosamente por sua irmã não sem recorrentes reclamações entre uma colherada e outra.
- Aquela árvore não conseguiu me matar, mas tenho minhas dúvidas com relação a esta comida � reclamou Robert pela décima vez.
- Cale-se, Bobby, e coma. Você precisa ficar forte � retrucou Suzana.
De fato, Robert ainda estava muito magro. Ele que já era de compleição esbelta, estava, no entanto, visivelmente muito abaixo do peso. Encontrava-se com o rosto encovado e macilento e os cabelos ruivos raspados lhe conferiam um ar ainda mais debilitado. Suzana o alimentava sem misericórdia. Robert revirava os olhos, mas comia obediente. Nesses momentos, ele olhava como um cãozinho manhoso para Eleonora que os observava com um sorriso divertido nos lábios.
No final daquela tarde, Robert recebeu a visita do avô.
- I hope you have learned something with this...misfortune.
- Yes, grandfather.
- You should be more responsible � continuou o velho lorde. - One deception is enough for this family � disse e olhou afrontosamente para Suzana.
Suzana se levantou de imediato com os olhos azuis perigosamente semicerrados. Robert se antecipou:
- Suzie, sits down, please. Grandfather, don't worry. I will go back shortly to my responsibilities. But, I will ask to you with all respect. Never, never again you will insult my sister in front of me. I won't tolerate.
Robert foi sereno, mas contundente. O velho Lord Alcott não se pronunciou mais e Suzana percebeu com indisfarçável orgulho que o seu irmãozinho havia crescido, afinal.
Alguns dias depois, Robert voltou para casa. Suzana contratou um enfermeiro para ajudá-lo. Ele iniciaria a fisioterapia no dia seguinte. O ruivo já recuperara boa parte da cor saudável que ostentava na face antes do acidente e engordara um pouquinho. No mais, o seu natural bom humor cuidava para que ele já tivesse uma aparência de franca recuperação.
Suzana e Eleonora prepararam-se para se despedir. Robert reclamou como um menino mimado:
- Mas, tão cedo? Eu não estou tão bem assim, ouviram? Posso ter uma recaída ou algo pior...
- Bobby, você não terá uma recaída. Você está em plena recuperação. Além disso, qualquer um que olhe para você perceberá que apesar de ainda estar nessa cama, você é forte como um touro. Portanto, pare de agir como um bezerro desmamado.
- Eleonora...- Robert chamou à procura de uma aliada.
Eleonora riu bem humorada. Nos últimos dias, estes pedidos de socorro tinham sido uma constante. Robert sabia, com mal dissimulada esperteza, que a loirinha era a única capaz de dobrar a irmã com rara facilidade. Para o azar do jovem ruivo, Eleonora era tão meiga quanto era justa e equilibrada. Foi com um suspiro resignado que Robert escutou Eleonora concordar com Suzana.
- Já está na hora, Robert. Nós adoraríamos ficar mais tempo com você, mas além de o estarmos deixando em boas mãos, nós duas temos muitas coisas pendentes para resolver � Eleonora afagou com imensa ternura o cabelo ainda rente do irmão caçula de sua mulher. � Nós voltaremos assim que pudermos para visitá-lo. Eu prometo.
Robert fez uma cara de desolação e abandono que seria capaz de derreter o coração mais empedernido. Suzana se adiantou olhando duro para ele e fingindo zanga:
- Não se deixe levar por essa carinha desprotegida que esse moleque utiliza para ter o que quer desde que saiu dos cueiros, Elê.
- Que injustiça, Suzie � Robert reclamou.
- Eu é que sei, pestinha.
Risadas gerais fecharam o anúncio da despedida de Eleonora e Suzana.
Suzana e Eleonora partiram dois dias depois. Suzana para Los Angeles e Eleonora para São Paulo. Marcaram de se encontrar dali a dez dias.
Cada uma, sentada na poltrona de seus respectivos vôos, olhava pensativa pela janela do avião. Finalmente o furacão contínuo dos últimos meses parecia ter serenizado. Mas alguma coisa persistia em incomodar: ainda estavam separadas, mesmo que temporariamente.
Suzana se indagava do porquê de estar sentindo um inexplicável amargor na garganta e uma saudade dolorida, se fazia menos de duas horas que havia se despedido de sua loirinha.
Eleonora se perguntava se, em algum dia de sua vida, esta absurda sensação de temor que lhe tomava o peito desaparecia toda vez que Suzana por qualquer motivo se apartasse dos seus olhos.
 
 
XI
 
 
A manhã amanheceu chuvosa em São Paulo. Eleonora olhou para o céu cinzento pela janela do pequeno apartamento que ocupava há cerca de uma semana. Ela deveria estar aborrecida com a chuva inconveniente que impedira sua corrida diária no Ibirapuera justamente numa manhã em que um bom exercício físico a ajudaria a diminuir a ansiedade desse dia tão especial...Poderia...Mas nada seria capaz de aborrecê-la no dia em que Suzana chegaria para morar definitivamente no Brasil. Entretanto, isso não significava um correspondente estado de tranqüilidade. Pelo contrário. A sua expectativa era tão grande que se sentia mais próxima de uma insurreição das suas víceras revoltadas - escapando há horas do congelamento eterno pelo frio polar que lhe tomara o estômago - do que de uma calma e despreocupada espera. Esse tipo de fleuma impassível de monge budista passava longe da impaciência que lhe tirara o sono desde as três da madrugada.
Respirou fundo e cerrou a cortina.
Os quinze dias de Suzana nos EUA se estenderam por um mês. E ainda que se falassem todos os dias e ainda que Eleonora a tivesse encorajado a ficar até que todas as suas pendências profissionais e financeiras estivessem resolvidas, a loira sentia uma saudade quase insuportável da mulher que amava...Isso, fora um agravante constrangedor: o receio quase infantil de que ela pudesse lhe escapar pelos dedos por uma desconhecida e maléfica magia antes que a jovem treinadora pudesse visualizar novamente aqueles inesquecíveis e adorados olhos azuis.
Suzana só chegaria por volta das três da tarde em Cumbica. Eleonora passou as mãos pelos cabelos loiros, desde uma semana atrás, ligeiramente mais curtos. Precisava arranjar o que fazer até lá, senão corria o sério risco de surtar naquele apartamento.
Pensou em Carlinha. "Não!" Ela estava envolvida em um importante projeto de marketing e Eleonora não queria atrapalhar a amiga. Decidiu ver uma exposição de pintores brasileiros no MASP. "Ótimo", pensou. Ela ficaria, como sempre, por horas entretida no museu. Almoçaria por lá e depois seguiria direto para o aeroporto. A idéia lhe agradou. Pelo menos ocuparia a cabeça com outra coisa que não fosse um rosto marcante ornado por um sorriso de parar o trânsito.
Foi tomar banho.
 
 
Suzana mexeu-se inquieta na poltrona do avião. Já folheara, desinteressada, todas as revistas de bordo. Tentara, sem sucesso, assistir a um filme. Escutara um pouco de música por uns trinta segundos, mas nem mesmo Billy Holliday conseguira diminuir a sua ansiedade. Não sentia fome nem sede. Na verdade, nem sabia se ainda possuía algum órgão no oco que se tornara o seu ventre. Só o coração parecia denunciar sua presença pulsando aflito de saudade. Faltavam muitas horas para o esperado encontro e malgrado a vontade de conseguir dormir para que o tempo passasse mais rápido na dimensão alternativa da inconsciência, Suzana sabia que não conseguiria.
Decidiu pedir um scoth sem gelo na esperança de relaxar um pouco. Ficou olhando o horizonte pela janela do avião enquanto bebericava seu whisky e pensava em cabelos cor de trigo balançando ao vento.
 
 
 
Eleonora chegou ao aeroporto umas duas horas antes do horário de chegada do vôo de Suzana. Andou pelo aeroporto inteiro olhando impaciente as lojas de suvenires, roupas e pedras preciosas. Na última meia hora, parecia uma estátua parada na frente do painel que assinalava as chegadas internacionais.
O vôo finalmente chegou.
Havia ainda a passagem pela imigração, a espera pelas bagagens e a fila da alfândega, mas Eleonora já estava em frente ao desembarque. Algum tempo depois, os primeiros passageiros começaram a sair. Mais alguns minutos e a inconfundível cabeleira negra despontou atrás de outros viajantes passando pela porta automática. Eleonora sentiu o coração parar como se tivesse levado um susto para depois disparar sem controle.
Suzana passeou os olhos azuis pela pequena multidão que se aglomerava à frente da porta do desembarque até se deparar com um rosto claro e suave fitando-a com ansiedade e amor. A jogadora direcionou o carrinho de bagagem para ela tentando se desvencilhar dos demais passageiros que teimavam em cumprimentar os entes queridos logo à saída formando um engarrafamento de pessoas, malas e carrinhos que a fez praguejar baixinho. Finalmente, conseguiu. Suzana focou a sua pequena amada.
Eleonora estava imóvel com um meio sorriso leve no rosto e os olhos verdes líquidos de lágrimas que se deixavam perceber, mas que não precisavam cair para se mostrarem importantes. Vestia uma camiseta branca e uma calça de sarja cor de telha em cujos bolsos enfiara as mãos como se não soubesse o que fazer com elas. O conjunto simples demarcava-lhe a cintura delgada, realçava os braços torneados, revelava o pescoço macio ladeado por um colar de ouro fino com um pingente esmeralda de tantas lembranças. Os cabelos estavam ligeiramente mais curtos e mechas rebeldes caíam sobre a testa de um jeito quase infantil. "Como ela é linda", Suzana pensou, embevecida.
Eleonora observou a mulher da sua vida se aproximar sentindo-se incapaz de se mover simplesmente porque não conseguia divisar a extensão das suas emoções e muito menos como lidar com elas. Sentia alegria e aflição, euforia e fraqueza, excitação e alívio. Suzana caminhava mansamente em sua direção mais bonita do que ela jamais se lembrava. Vestia um terno elegante perfeitamente talhado em seu corpo esguio cujo casaco descansava no carrinho junto ao sobretudo pesado que denunciava a temperatura em queda no hemisfério norte. Dobrara a camisa de seda e desabotoara o colarinho para se adequar ao calor de São Paulo. No rosto, um Ray Ban tradicional escondia os olhos sedutores, mas realçava a boca cheia e os contornos clássicos do rosto.
Suzana saiu detrás do carrinho e parou de frente para Eleonora.
Ficaram se olhando como se para constatar a exatidão dos traços e a confluência destes com a lembrança milimétrica dos seus corações.
Código perfeito.
Abraçaram-se a meio caminho uma da outra com força, abandono e saudade. Um abraço sem tempo, quântico. Sem espaço, infinito. Sem outras presenças, único.A não ser...os fãs.
Uma mãozinha indiscreta bateu na cintura de Suzana. A jogadora tornou os olhos para o lado e para baixo. Uma garotinha de cerca de dez anos olhava para ela com olhinhos súplices. Gaguejou timidamente estendendo uma agenda coloridíssima:
- Me-me dá um autógrafo?
Suzana olhou para Eleonora que sorriu compreensiva. Suzana voltou-se para a criança e respondeu:
- Claro.
Não demoraram a surgir mais uma dezena de agendas, camisetas e revistas de todos os lados. Eleonora sentou-se num banco em frente. Suzana, sufocada por inúmeros pequenos corpos e outros nem tanto, procurava ser agradável com todos enquanto pensava desesperadamente em como se livrar daquele batalhão de admiradores. Procurou Eleonora por um instante e a encontrou sentada olhando o tumulto com um sorriso divertido no rosto. Eleonora mandou-lhe um tchauzinho bem humorado. Suzana devolveu o cumprimento com uma cara de "salve-me". Eleonora ergueu os ombros numa mensagem muda, mas perfeitamente compreensível de: "o que eu posso fazer?". Quase gargalhou com a cara de desespero que Suzana fez.
- Ela vai sobreviver � Eleonora falou baixinho para si sabendo de antemão que, apesar da cara aparentemente desesperada, Suzana apreciava aquilo. "Vou dar mais um tempinho, depois eu a resgato", pensou Eleonora que já não sentia mais um pingo de ansiedade. Suzana estava ali. Ela voltara para os seus braços, para a sua vida. Era o que importava.
De repente, Suzana se viu tocada levemente no ombro por uma mão longa, de unhas bem feitas, e adornada por anéis aparentemente caríssimos. Olhou para quem lhe chamara a atenção e se deparou com uma ruiva espetacular quase tão alta quanto ela mesma.
- Posso ganhar... - começou maliciosamente a bela mulher com um leve sotaque francês e um olhar que mediu Suzana dos pés à cabeça. -...um autógrafo também? � terminou com um sorriso que descortinava uma viva admiração e muitas promessas.
Suzana ia responder quando um pequeno furacão loiro interceptou o diálogo parando exatamente entre ela e a ruiva.
- A Srta Alcott não pode mais ficar. Ela já está atrasada para um compromisso importantíssimo.
Sobrancelhas negras arquearam-se ironicamente.
- Estou?
Olhos verdes faiscantes olharam para ela.
- Está, sim! � Eleonora falou com um sorriso cheio de perigosa doçura e sem mais delongas saiu caminhando na frente.
Suzana fitou a ruiva e balançou a cabeça num gesto claro de "então, estou".
- Com licença � a jogadora pediu gentilmente às pessoas à sua volta e se dirigiu à saída onde Eleonora já a esperava de braços cruzados e cenho nada amistoso.
Seguiram para o estacionamento.
Pararam de frente ao bagageiro do carro de Eleonora que o abriu abruptamente. Suzana, com a ajuda de uma Eleonora muda como uma porta, acondicionou pacientemente a pouca bagagem que trouxera. O restante das roupas e das peças de mobiliário que decidira manter, ela os enviara antes. Consigo carregava somente o indispensável.
- Pensei que você não se importasse com o fato de eu dar atenção aos fãs � Suzana comentou sem mais resistir à tentação de provocar a loirinha.
- E não me importo � Eleonora respondeu ainda de cara fechada.
- Mas você me impediu de dar um autógrafo àquela senhora, agora a pouco.
Eleonora apenas bufou e entrou no carro. Suzana entrou em seguida. Repentinamente, a jovem loira virou-se para ela com os cabelos loiros caindo desalinhados sobre a testa e as faces ruborizadas de indignação e disparou:
- Aquela...senhora � falou devagar. � Não teria necessidade do seu autógrafo.
- Como assim, não teria � Suzana perguntou com olhos azuis repletos de uma inocência deslavada.
- Se aquela...senhora...olhasse mais uma vez daquele jeito para você, o único autógrafo do qual ela precisaria estaria numa receita médica.
Suzana gargalhou alto. Pegou o rosto corado com ambas as mãos e olhou ternamente para a sua amada com um sorriso ainda pairando nos lábios cheios.
- Meu amor. Meu doce, ciumento, temperamental e mil vezes delicioso amor. Você é capaz de me fazer feliz em um minuto muito mais do que qualquer outra pessoa em toda a minha vida.
Beijou a loirinha com ardor.
Eleonora não pensou duas vezes para abrir caminho à deliciosa exploração da boca de Suzana. Ao contrário, puxou-a para mais perto ao agarrar avidamente a cabeleira negra e sedosa. A pulsação tomou o ritmo de um corcel em disparada.
Suzana se esqueceu do lugar onde estava. Esqueceu-se mesmo do tempo. Tudo o que realmente importava estava ao alcance das batidas do seu coração.
Eleonora teve que recuperar a razão em algum lugar da consciência e empurrar Suzana, pesarosa, mas com firmeza.
- Suzie, nós estamos no estacionamento do aeroporto.
- E o que tem?
A voz rouca expirando suavemente junto à pele sensível do pescoço quase fez Eleonora esquecer-se do bom senso.
- Suzana � disse, afastando a morena com dificuldade. � Nós teremos muita sorte se ninguém ainda nos fotografou depois daquela pequena multidão à sua volta a poucos minutos atrás.
Suzana olhou em volta.
- E, há menos que você queira seu nobilíssimo nome envolvido em um escândalo e exposto amanhã pela manhã em todas as bancas de revista daqui a Timbuctu, é melhor irmos para casa.
Suzana ainda perscrutou as imediações conscienciosamente. Após constatar a falta de qualquer alma a menos de cinqüenta metros delas, voltou-se para Eleonora sorrindo.
- Esta foi a melhor idéia que eu ouvi hoje.
- Qual? Evitar ataques ao seu imaculado título de lady? � Eleonora conseguiu brincar mesmo com o estômago visitando o ártico diante daquele sorriso incrível.
- Não...Ir para casa.
Eleonora devolveu o sorriso com amor e cumplicidade.
- Então, vamos.
Suzana pôs a mão possessivamente sobre o joelho de Eleonora e conjeturou se o dia poderia ser mais perfeito.
Podia.
 
 
Há cerca de uma semana atrás, Eleonora se mudara para um pequeno apartamento mobiliado de propriedade de seu pai e cujo último inquilino o desocupara repentinamente a fim de viajar para a Europa para estudar. O pai insistira para que ela morasse no apartamento pelo tempo que lhe conviesse. Eleonora só aceitou porque precisava de algo transitório até que resolvesse a sua vida com Suzana e mediante pagamento de aluguel, mesmo perante os veementes protestos do Dr. Marcos. A única coisa que Eleonora levou para o apartamento foi uma cama box king size que quase tomou todo o diâmetro do minúsculo quarto.
Há menos de um mês retirara seus pertences do apartamento que dividira com Luciana por três anos. Como o esperado, a despedida fora dolorosa. Eleonora tentou uma conversa, mas Luciana foi veemente em não querer trocar uma única palavra além do estritamente necessário. Eleonora não insistiu, sabedora, por experiência própria, de que as feridas precisam de tempo para se tornar minimamente suportáveis e então se curarem.
Da última vez que se encontraram, Luciana contou-lhe inexpressiva que aceitara uma especialização em cirurgia cardíaca nos Estados Unidos. Seria uma grande chance de aprender uma técnica inovadora trabalhando junto com uma equipe de profissionais altamente conceituados.
Eleonora a parabenizou com sinceridade e por um momento julgou perceber um vislumbre do brilho carinhoso que sempre convivera nos olhos de Luciana. A médica, porém, virou os olhos para o velho e temperamental gato deitado no tapete e falou:
- Eu gostaria de levar Bertrand.
- Está bem � Eleonora concordou simplesmente.
Despediram-se sem abraços emocionados e o gosto travoso na boca que só conhece quem já experimentou o sabor acre de uma separação magoada.
Eleonora caminhou tristemente até a porta. Virou-se de repente e deu de cara com Luciana olhando para ela com Bertrand nos braços e os olhos castanhos líquidos de tristeza. Eleonora pensou em dizer algo, mas se calou. Devolveu o olhar esperando que Luciana compreendesse que essa tristeza era inteiramente compartilhada. Voltou-se para ir embora, abriu a porta e saiu sem olhar para trás, mas a tempo de ouvir:
- "Tempus animae medicos" ¹
Fechou a porta refletindo que, às vezes, a prodigalidade da vida em nos conceder pessoas maravilhosas para amar pode ser paradoxalmente injusta se elas acontecem ao mesmo tempo.
 
 
Perto de uma hora depois, Suzana e Eleonora desceram na garagem do prédio de Eleonora. Caminharam até o elevador em silêncio. A loira ia à frente com uma maleta. Suzana seguia-a logo atrás com uma mala, uma valise e o sobretudo nas mãos, e os olhos ocupados com a visão dos quadris de Eleonora. A ansiedade de ficar a sós com a sua mulher era tanta que lhe pulsava nas têmporas como uma estranha dor de cabeça.
Eleonora, por sua vez, sentia o olhar de Suzana sobre si como o roçar leve de dedos atrevidos.
Entraram no elevador.
Nele já se encontrava uma senhora idosa cujos cabelos cor de violeta tinham um penteado bizarramente semelhante ao do poodle que carregava no colo. A cena teria sido cômica se a tensão sexual dentro do cubículo não estivesse a tal grau que não havia espaço para o menor toque de humor.
Chegaram ao andar de Eleonora que se adiantou para abrir a porta. A loirinha podia sentir na nuca o calor dos olhos azuis como raios ígneos. Entrou e seguiu até o sofá onde deixou a maleta. Quando se virou, a mulher mais alta fechava a porta atrás de si. Olharam-se intensamente. Eleonora se atirou na direção de sua mulher com o ímpeto de uma tempestade tropical, forte e abrasadora. Não só correu, saltou para os braços de Suzana que a agarrou no ar pela cintura com facilidade enquanto a mulher mais baixa enlaçava-lhe o pescoço com os braços e o tronco com as pernas e enchia-lhe o rosto de beijos sucessivos e afoitos, arrancando sorrisos deliciados de Suzana que, por fim, capturou a boca de sua pequena mulher com a sua e descortinou a vontade reprimida por semanas.
Incendiário
Com a respiração para lá de irregular, Suzana foi caminhando com o seu precioso fardo para o quarto que divisara rapidamente quando adentrara o apartamento.
Caíram na cama beijando-se alucinadamente. Entre elas não havia espaço nem mesmo para o pensamento. A saudade, o desejo sofreado, a necessidade uma da outra suplantava o senso, desvirtuava o tempo e se traduzia tão somente pelo desejo primário de se tocarem completamente nuas.
Tiraram as roupas com presa e sem cuidado. Botões Armani foram apartados de suas casas e conheceram a solidão do chão frio, displicentemente depostos de sua ilustre ascendência.
Suzana e Eleonora abraçaram-se finalmente juntas e nuas.
Corpos desnudos. Bocas e mãos perderam a preeminência para a simplicidade terna e ao mesmo tempo altamente sensual do abraço. Na urgência do momento, nada mais era necessário. Seios contra seios, pernas entrelaçadas, corpos difusos. Apertaram-se, esfregaram-se. Deslizaram na umidade dos sexos colados, comprimidos, estimulados pelo bamboleio erótico dos quadris em movimentos cada vez mais rápidos. Com a excitação em níveis estratosféricos o gozo veio para ambas, breve e intenso.
Ofegante e suada, Eleonora girou o corpo e se postou sobre Suzana com os olhos verdes brilhantes descortinando um olhar muito longe da saciedade.
- Hum...Agora é o momento de concretizar cada capítulo dos sonhos recorrentes que venho tendo há mais de cinco torturantes semanas. Espero que você tenha se alimentado, Lady Alcott.
- Não agora � a morena comentou com um meio sorriso.
- O que? � a loirinha perguntou, incrédula.
Suzana virou o corpo depressa e ficou por cima de Eleonora.
- Lembra daquele dia no hotel em Madrid?
- Vendeta...
Suzana apenas levantou a sobrancelha.
- Você não teria coragem...
Em resposta, a morena prendeu os braços da sua pequena mulher ao lado da cabeça. Eleonora comentou com os olhos semicerrados:
- Então, eu vou ser punida?
- Impiedosamente.
Sem mais esperar, Suzana abocanhou um dos seios claros com voracidade. Sem misericórdia, mordeu o biquinho rosado e túrgido alternando força e delicadeza, dor e delícia. Rendeu a mesma homenagem ao outro seio ao tempo em que as mãos longas e poderosas passaram a apertar a carne tenra das nádegas e das coxas de Eleonora que gemeu um protesto pouco convincente enquanto sua pelve já se elevava involuntária, demonstrando o que a respiração discordante já denunciava há tempos.
- Suzana, amor... � Eleonora falou em tom de súplica.
Quando os quadris da loirinha já se erguiam implorando mais que a voz, Suzana abriu caminho para o clitóris pulsante de sua mulher. Massageou-o com torturante lentidão. Um grunhido de impaciência a fez se apressar. Deixou dois dedos escorregarem para dentro de sua mulher e a penetrou gentil e firmemente. Eleonora gemeu alto. Suzana, sem retirar a mão, trocou de posição ficando por baixo e colocou Eleonora sentada sobre o seu ventre. A loirinha passou a se movimentar assentada no abdômen forte e no início dos pelos escuros encostando-lhe nas nádegas.
Suzana olhava hipnotizada para a sua mulher.
O rebolar insinuante do corpo lançando-se impudico à busca do gozo. O balançar dos seios, o ventre contraído, a respiração arfante, a boca rosada e perfeita entreaberta.
Suzana nunca a vira tão bela.
Entrelaçaram as mãos.
Por fim, Eleonora desabou sobre sua mulher choramingando os sons ininteligíveis e, no entanto, tão claros do prazer. Suzana a abraçou e beijou-lhe o topo da cabeça com infinito amor.
- Elê?
- Hum?
- Tudo bem?
- Maravilhoso � Eleonora repondeu com um suspiro. - Mas preciso...
- Sim?
- Preciso de um banho.
- Cla-claro.
Olhos verdes marotos fitaram olhos azuis um tanto confusos.
- Com você.
Sobrancelhas negras arquearam-se.
- Proposta interessante.
A loirinha se levantou.
- Interessante ficará quando eu lhe mostrar os...brinquedinhos que comprei especialmente para você.
- Que brinquedinhos?
- Eu não lhe contei?
- Não � Suzana respondeu com um sorriso malicioso bailando nos lábios cheios.
- Ah! Então esqueci de mencioná-los. Algum problema?
- Nenhum.
Eleonora se levantou lépida e seguiu na frente. Parou na porta do banheiro.
- Suzana? � chamou.
- Sim.
- Pare de olhar a minha bunda e venha já para este banheiro.
- Um prazer por vez, meu delicioso amor.
Os passos felinos tomaram o rumo do seu destino consubstanciado numa pequena mulher de cabelos loiros e sorriso de menina. E o resto do dia...O resto do dia foi dedicado a muitas e gostosas brincadeiras.
 
 
 
Suzana acordou com a agradável sensação de um peso morno e macio sobre o ombro. Além disso, um braço cobria-lhe o peito e chegava até o outro ombro onde a mão delicada agarrava frouxamente uma mecha de cabelo negro logo abaixo da nuca. Para encerrar, uma perna repousava em cima da sua, languidamente. Eleonora dormia com quase meio corpo em cima de Suzana. A morena sorriu e abraçou um pouco mais forte o corpo amado.
Eleonora murmurou algo indecifrável. Suzana imaginou ser reflexo de algum sonho, mas a loirinha falou de novo e, desta vez, Suzana divisou algo como: Eu...você.
A morena perguntou suavemente:
- O que?
Eleonora moveu um pouquinho a cabeça para o lado e falou preguiçosa, mas claramente:
- Eu babei em você.
Suzana abriu um sorriso e beijou o topo da cabeça loira.
- Você pode fazer de mim o seu babador predileto, meu amor, desde que eu seja o único e eterno.
- Então, prepare-se para acordar com uma poça de baba nos ombros todos os dias de sua vida � Eleonora retrucou.
- Jura?
- Eu não preciso jurar.
- Ah, precisa, sim.
Eleonora ergueu o corpo sobre os cotovelos e fitou Suzana.
- Para que você quer um juramento sobre algo que sabe que é verdade?
- Não, não para mim, amor � ergueu-se e deu um breve beijo na boca de uma intrigada Eleonora. � Mas perante todos os Deuses de todos os mundos. O que você quiser...
- Você quer dizer...- olhos verdes brilharam. � Uma cerimônia?
- É...Bom...Eu pensei em algo simples, mas bonito. Com a presença das pessoas que amamos.Tipo...para celebrarmos juntos solenemente, mas sem grandes formalidades, a nossa união e...
Olhos verdes sorriam no lugar dos lábios.
- Por que? Você não quer? É...Talvez não seja uma boa idéia mesmo. Vamos morar juntas e pronto. Ninguém...
Eleonora cortou a frase de sua mulher levando o dedo indicador delicadamente aos seus lábios.
- Suzana, calma. Eu adorei a idéia.
- Sério?
- Sério.
Suzana saltou da cama como se tivesse molas sob o corpo.
- Então não temos tempo a perder - falou andando pelo pouco espaço que restava no pequeno quarto enumerando as providências a serem tomadas como se já tivesse tudo planejado em sua cabeça.
Eleonora ficou observando-a movimentar as longas e perfeitas pernas pelo exíguo espaço entre a cama e a parede, nua e concentrada, sem conseguir deixar de pensar em como a vida lhe fora generosa ao lhe devolver o amor de sua vida.
 
 
¹ O tempo é o médico da alma.
 
 
 
EPÍLOGO
 
 
 
- Ái, meu Deus, onde estão as alianças? � Carlinha perguntou pela enésima vez olhando aflita pela sala de estar transformada em concentração dos padrinhos.
- Estão bem aqui, amor � Gianne respondeu novamente, colocando a mão sobre o bolso do terno.
- Não se esqueça de que sou eu que vou entregar.
- Eu sei, meu bem. Venha. Vamos até ali conversar um pouco com o André � Gianne estendeu a mão para a esposa que a recebeu com um sorriso carinhoso. Gianne olhou para Carla vestida num belo vestido turquesa cinturado, com os cabelos presos num coque aristocrático e a pele de pêssego discreta e cuidadosamente maquiada, e agradeceu mentalmente aos céus por aquela bela mulher, ainda que meio maluquinha, ser a sua mulher.
Sentados no confortável jogo de sofás, Camilla e o marido, Robert e a namorada, Eve, conversavam sobre o sítio que Suzana e Eleonora compraram em Atibaia, região serrana de São Paulo - local onde eles estavam agora para celebrar a união daquelas duas extraordinárias e amadas mulheres naquela bela tarde de abril.
O organizador chamou os padrinhos para se postarem em seus lugares a fim de se iniciar a cerimônia.
Camilla e Mike, Robert e Eve, André, prestes a se tornar um homem sério e a noiva, Lara, Carla e Gianne. Apenas quatro casais que, no entanto, englobavam as pessoas mais importantes na trajetória da história longa e conturbada de Suzana e Eleonora.
Antes de saírem, Carlinha ainda puxou Gianne pelo braço.
- Gi, nós contratamos baby-sitter?
- Não, amor. As crianças ficaram com sua mãe.
- Eu concordei com isso?
- Bom, Carla, digamos que você estava com a cabeça em outra esfera por causa deste casamento, e...Você concordou, sim.
- Ai, Gianne, nós deveríamos ter contratado. Você sabe que a minha mãe é um pouco, não, muito...Você sabe...Extravagante.
Gianne sorriu divertido.
- Não se preocupe, meu anjo. Afinal de contas, você sobreviveu, não foi?
Saíram todos para o jardim.
 
No dia anterior, Suzana e Eleonora haviam repassado com o cerimonial que contrataram, os últimos detalhes da cerimônia e da festa que aconteceria em seguida. Não que houvesse grande coisa a resolver. O profissional que contrataram era muito eficiente e sensível em captar os gostos particulares de cada uma das suas contratantes, esforçando-se para agradá-las ao mesmo tempo em que criava um ambiente confortável e de bom gosto.
A cerimônia simples e breve se iniciaria às 17:00 do dia 27 de abril no jardim da linda casa de campo que Eleonora e Suzana compraram e decoraram para compartilharem uma vida juntas. Distante 52 km de São Paulo, o sítio era a perfeita confluência entre paz, beleza e praticidade, não obstante elas conservarem uma confortável residência em Pinheiros, caso precisassem permanecer na capital. O horário � ao final da tarde � fora um pedido de Eleonora que gostaria de aproveitar a luz perfeita e o tom único do céu rosa azulado das belíssimas tardes de outono.
Nesse momento, conversavam sentadas na varanda sobre as novas perspectivas profissionais de ambas. Eleonora havia aceitado a direção de uma equipe da capital paulista, equipe ainda pequena e jovem, mas com excelentes possibilidades. Ademais, era a sua chance de iniciar uma carreira como técnica, cargo no qual pretendia chegar à seleção nacional. Suzana avaliava três propostas concretas, duas em São Paulo, uma delas na capital, e outra em Belo Horizonte, esta sobejamente mais vantajosa em termos monetários do que as demais.
- Eu estou realmente empolgada com time, Suzie. Ainda não é uma equipe para disputar um título, pelo menos nos próximos campeonatos, mas o elenco é muito promissor e o projeto do clube muito interessante. Apesar disso, acredito que faremos uma boa figura mesmo este ano.
- Eu tenho certeza disso, amor, também porque você faz parte desse projeto � Suzana falou com carinho e indisfarçável orgulho enquanto afagava ternamente a mão da mulher que amava.
Eleonora sorriu-lhe com amor e completou:
- Além disso, eu vou precisar preencher todo o meu tempo livre com alguma atividade que me envolva por completo nos dias em que você estiver treinando em Belo Horizonte.
- E quem disse que vou para Belo Horizonte? � Suzana perguntou com uma expressão indecifrável.
Eleonora olhou para ela um tanto confusa.
- Não é da capital de Minas a melhor proposta para jogar nos próximos dois anos?
- Uma das propostas, Elê.
- Sim, mas é a melhor.
- Pode ser a mais vantajosa em se tratando de salário, mas não é a melhor.
- Não?
- Não...
Eleonora já estava com um sorriso preenchendo quase todo o rosto quando perguntou:
- E eu posso saber porque a proposta de Minas não é a melhor...ou pensando bem... Posso saber qual é a melhor?
- Você pode saber as duas coisas, minha jovem senhorita Cavalcanti.
- Sou toda ouvidos.
- Não é a melhor porque vai me manter longe de casa por tempo demais, o que por si só já seria motivo o bastante para não ter a minha preferência...Logo...Por isso...Ontem eu fechei com o time de São Paulo, capital. Esta, sim, a minha melhor opção. Porque a melhor? Ora...Porque eu vou ficar a poucos minutos de uma certa técnica de uma pequena, mas, diga-se de passagem, promissora equipe de basquetebol, de quem, por uma estranha compulsão, eu não consigo ficar longe nem por poucas horas que dirá por dias.
O rosto de Eleonora já era todo sorriso.
Eu me comprometi por telefone, mas segunda-feira eu assino o contra... � Suzana não terminou a frase, Eleonora pulou em seu colo e encheu-lhe a face de beijos sucessivos. Suzana riu deliciada. Eleonora parou a enxurrada de beijos, pousou os olhos verdes no rosto moreno e argumentou com cuidado.
- Mas, Suzie. Você vai ganhar muito menos.
- Eu já tenho dinheiro mais do que o suficiente, Eleonora. O que eu jamais terei o suficiente é a sua presença, meu amor.
Olhos verdes marotos apoiaram o comentário que veio a seguir:
- Suzana Alcott, você é uma romântica incorrigível.
- Na-não, isso é apenas egoísmo, minha querida.
- Sentimental...
- Não abuse da sorte, leãozinho.
- Plangente!
- Deus me livre! Agora é oficial. Você vai sofrer, sua pequena atrevida.
Suzana abraçou Eleonora com os braços longos segurando-a sobre o colo enquanto desferia pequenas mordidas no pescoço da loirinha que ria a se acabar entre gritinhos de susto e prazer.
 
 
 
Os poucos convidados já estavam sentados nas cadeiras sobre o gramado de frente a um singelo altar coberto por uma toalha branca de renda e decorado com lírios, a flor preferida de Eleonora. Entre eles estavam os pais de Eleonora, incluindo um tranqüilo Dr. Marcos cuja facilidade em aceitar a homossexualidade da filha ainda no tempo da faculdade, quando a sempre franca Eleonora expôs à família a sua preferência por mulheres, surpreendeu a todos; a tia de Suzana, discreta e pouco falante, mas visivelmente amorosa com a sobrinha; Regina, Aline, Oscar e a esposa, algumas colegas do basquete mais próximas e alguns outros poucos amigos, a maioria amigos de Eleonora. Além dos padrinhos.
Quem celebraria a união seria um padre, amigo e confessor de Eleonora, cujas idéias sobre amor e comprometimento extrapolavam a ortodoxia católica e avançavam para o entendimento de que o amor é um só sob várias formas. Todas belas, todas dignas de respeito, todas com direito a viver plenamente sua cumplicidade e intimidade.
A música começou. Os padrinhos entraram ao som de Air on the G spring de Bach entoado por um trio para oboé, viola e piano postado ao lado do altar. Seguiu-se um breve momento de expectativa. De repente, o Andante do *Trio Sonata em Si menor de Haendel invadiu a tarde. Vindo de mãos dadas, sem acompanhantes, pajens ou damas-de-honra, Eleonora e Suzana apareceram no jardim. Os presentes abafaram um suspiro de encantamento.
Estavam belíssimas.
Ambas usavam roupas em estilo oriental. Batas longas ajustadas ao corpo sobre calças compridas.
A roupa de Suzana era em tom azul. As bordas das mangas e a barra das calças traziam bordados dourados ricamente confeccionados em desenhos complexos e belos. Os longos cabelos escuros estavam presos numa trança frouxa, mas entremeados aos fios negros, fios dourados surgiam de forma quase displicente como se não estivessem presos a nada, mas fossem algo como uma aura de ouro por entre a cabeleira de seda. Suzana parecia ainda mais uma deusa.
O traje de Eleonora era em tom de pêssego e ligeiramente rosado nas extremidades. As mangas da bata, ao contrário das de Suzana, eram vaporosas, em seda finíssima e igualmente bordadas em ouro. Os cabelos louros estavam soltos, mas cuidadosamente penteados. No pescoço, uma echarpe esvoaçava ao vento outonal. Eleonora parecia uma ninfa, diáfana e quase irreal.
Entraram.
Olhares de carinho e afeto vinham de ambos os lados do trajeto, mas Eleonora e Suzana não viam nada. Horas depois nem ao menos seriam capazes de repetir algumas das palavras tocantes e inspiradas de Padre Luís quão perdidas estavam em si mesmas...Quão inebriadas de uma felicidade delirante cuja face da realidade estava presa nos olhos uma da outra.
Demoraram-se nesse deslumbramento até que os convivas vieram cumprimentá-las. Parentes e amigos as abraçaram, um por um. Logo depois, seguiram todos para a festa organizada ali mesmo no jardim, em comemoração à união de duas pessoas tão especiais.
 
 
 
Camilla, Eleonora e Carlinha conversavam animadamente ao lado da piscina e a fisioterapeuta soltava gargalhadas sonoras em resposta aos comentários espirituosos da melhor amiga de Eleonora. Suzana se aproximou.
- Oi, meninas. Vocês me emprestam a minha esposa por um minuto?
- Só por um minuto, Suzana � Carlinha brincou. � Você vai ter o resto da vida para agüentar essa espoleta todos os dias de sua existência. Como uma boa alma caridosa, devo adverti-la sobre esta horrível sina. Ei! � Carla fez uma cara de assustada. � Agora é tarde demais! Você realmente não pensou nisso quando resolveu se casar com essa baixinha invocada, não foi mesmo, Suzana?
Levou uns tapas de Eleonora.
Suzana falou, sorrindo:
- Só por um instante, Carlinha, eu prometo.
Suzana pegou Eleonora pela mão e saiu conduzindo-a para dentro da casa.
- O que foi, amor? � Eleonora perguntou.
- Paciência, cara-pálida.
Entraram no quarto de ambas e Suzana a conduziu para a sacada.
- Eu só queria um momento a sós com você esta noite, Eleonora, porque eu tenho algo a dizer e...você me conhece, eu não conseguiria na frente de todo mundo.
Suzana pigarreou. Eleonora permaneceu em silêncio calmo e amoroso. Suzana começou a falar de olhos baixos, mas clara e suavemente.
- Hoje...Não é só o dia mais feliz da minha existência...Todos os campeonatos, todos os prêmios e vitórias empalidecem diante do tamanho da alegria que eu senti quando eu tomei a sua mão no jardim.
Suzana respirou longamente.
- Quando eu digo isso, quero dizer, quando eu falo ou escuto coisas do tipo: "Para o resto de nossas vidas", "Por toda sua existência", uma parte racional da minha mente diz que nada é eterno, que são tão poucos os casamentos que perduram até o fim da vida...que você pode não me amar para sempre e eu sinto um medo incômodo no meio dessa felicidade.
- Suzana...
- Não, espera! O que eu quero dizer é que não me importa que seja eterno, embora eu queira que seja com toda a força da minha alma, porque eu sei que vou te amar para sempre. Porque cada segundo perto de você é uma eternidade de carícias para o meu coração. Porque mesmo que um dia o deslumbramento acabe, ou o desejo de ficarmos juntas arrefeça, aquela menina serelepe e meiga, aquela mulher temperamental, mas plena de sublime delicadeza preencherá as minhas lembranças e tornará a inundar o meu peito do mais precioso sentimento que eu já tive o privilégio de sentir...Eleonora Cavalcanti, você é e sempre será o mais precioso presente que esta existência me concedeu. Você entende?
Lágrimas silenciosas corriam pela face de Eleonora que respondeu simplesmente:
- Sim, eu entendo.
Abraçaram-se longamente.
Suzana enxugou as lágrimas do rosto de Eleonora com os dedos. Depois a pegou pela mão.
- Agora, eu preciso compartilhá-la com os nossos amigos � Suzana falou com suavidade.
Eleonora concordou com a cabeça.
- Agruras do bom comportamento social � Suzana completou, fazendo cara de menininha contrariada e arrancando risos de sua mulher.
 
 
Eleonora e Suzana caminhavam de mãos dadas em direção aos convidados que as aguardavam no jardim.
- Sabe, Suzana... � Eleonora chamou à saída da porta de acesso ao jardim.
- Hum.
- Não é somente o fato de você ser uma mulher linda e sensível. Não é só o fato de você ser tão surpreendente e continuar a arquitetar mais e mais formas de eu te amar mais do que já amo...
Suzana estancou.
- Sabe...- Eleonora continuou. � Toda essa conversa sobre eternidade me fez lembrar daqueles apaixonados que tatuam o nome do ser amado no próprio corpo como uma lembrança indelével do seu amor e que, no entanto, comumente retiram ou cobrem quando o "amor eterno" acaba.
Suzana a olhou intrigada.
- Bem...Isso me deixou preocupada.
Suzana levantou uma das sobrancelhas mais intrigada ainda.
- Porque me fez pensar no que pode fazer a pessoa em quem o nome amado está tatuado na alma. Foi então que eu percebi que estava realmente encrencada.
Suzana abriu um sorriso maior que o sol poente lá fora.
- Eleonora, você é totalmente única � Suzana comentou entre risos antes de pegá-la e beijá-la com ímpeto.
- Hei, You! � Robert gritou. � Vocês não podem deixar isso para mais tarde? 
 
No jardim, os pais de Eleonora conversavam com a namorada de Robert sentados nas cadeiras confortáveis espalhadas pelo gramado. Ao lado da piscina, Mike juntou-se a Camilla para rir com gosto de mais um dos chistes de Carlinha. Alguns amigos dançavam no tablado montado um pouco mais adiante. A tarde caía.
Suzana e Eleonora caminhavam de mãos dadas em direção aos amigos e familiares que lhes vieram abençoar a felicidade do encontro.
O vento tépido do outono espalhava a fragrância das flores pelo espaço e o sol vermelho se deitava atrás da serra certo de que já cobrira a terra de luz suficiente para que os brotos tenros tivessem força para desabrochar para um novo tempo, amanhã e sempre.
Já havia lhes coberto de luz. De toda a luz para florescer.
 
 
 
FIM
 
 
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Desde já agradecida,
Paula

 

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