Não
sem alguma dificuldade, o auxiliar-técnico, com a ajuda de alguns
professores presentes, foi retirando os estranhos ao processo seletivo.
Ginásio quase vazio, Suzana sentou-se com evidente alívio
em uma cadeira de rodas que, Eleonora percebeu, tinha uma extensão
especialmente colocada de modo a aparar confortavelmente e quase na horizontal,
a perna direita. "É claro, a cirurgia", lembrou-se Eleonora
que continuou observando Suzana, indisfarçadamente. Ela vestia o
agasalho da Universidade Santa Cruz, azul com detalhes em laranja, tênis
branco e segurava uma prancheta que, agora sentada, descansava sobre o colo.
Os cabelos longos e negros caíam soltos sobre os ombros, contudo,
Suzana os prendeu em seguida num rabo-de-cavalo evidenciando um rosto de
linhas marcantes: queixo anguloso, maçãs salientes, nariz
reto e elegante, boca cheia, larga e bem feita, sobrancelhas negras arqueadas,
simétricas e voluntariosas sobre olhos de um azul realmente celestial.
A televisão e as fotos nas revistas não lhe faziam justiça.
Susana era a mulher mais bonita que Eleonora já havia visto.
Não
demorou muito e o auxiliar-técnico postado ao lado de Suzana chamou
as atletas para se aproximarem. As meninas foram se achegando timidamente,
quase todas exibindo a mesma cara atarantada de quem não acreditava
no que estava acontecendo.
-
Vou pedir para que vocês se sentem a minha frente, por favor, já
que, como podem notar, eu ainda não posso ficar de pé durante
muito tempo e quero dar algumas explicações antes de começarmos
- falou Suzana Alcott, com a mesma voz de contralto, baixa e agradável.
As
atletas sentaram-se em raro silêncio, quase com cerimônia, em
frente daquela que era praticamente uma lenda viva do basquetebol.
-
Muito bem. Meu nome é Suzana Alcott.
"Como
se ninguém soubesse", Eleonora pensou.
Suzana
continuou:
-
Eu estou aqui para substituir temporariamente o Professor Leônidas
que, infelizmente, encontra-se com problemas familiares. Eu estou, no momento,
com a minha mobilidade dificultada e contarei com a ajuda inestimável
do Prof. Jorge e, espero, com a colaboração de vocês
para obtermos a tão almejada classificação para a Liga
Nacional. Por hora, vamos selecionar algumas jogadoras para integrarem o
time principal. Para isso, colocarei candidatas e veteranas jogando juntas
um coletivo monitorado, no qual poderei observar as qualidades de cada uma
e sua possibilidade de contribuir para a equipe. O Professor Jorge comandará
o aquecimento e logo começaremos. Obrigada.
IV
Suzana
deixou-se cair pesadamente sobre a cama do quarto de hóspedes da
amiga Camilla, que ainda não havia chegado, e repassou o dia.
Havia
chegado à cidade pouco depois das nove da manhã. Alguns minutos
mais tarde, o carro com motorista que a Universidade gentilmente lhe mandara
buscar na capital, parou na frente do prédio de Camilla que já
a aguardava com um sorriso de fazer o iluminado Buda parecer menos luminoso.
-
Suzie! � exclamou a amiga acenando efusivamente com uma das mãos
� Espere aí � completou, desaparecendo atrás da portaria.
Segundos
depois, ela apareceu com uma cadeira de rodas vermelhas de assento preto,
com o lado direito equipado com uma adaptação, para manter
a perna levemente suspensa na horizontal.
-
Ah, não, Milla! Eu posso perfeitamente andar � reclamou Suzana.
-
Pode, mas não deve. E, perfeitamente...Uma ova! Não vá
me dizer que não dói qualquer maior esforço. E, tem
mais, a terapeuta aqui sou eu. Sente-se aqui já, Dona Suzana, e não
discuta.
Suzana
seguiu sentada e emburrada até o aconchegante apartamento da melhor
amiga. Logo depois, Camilla lhe entregou uma pasta com informações
concisas sobre o time � jogadoras, resultados, escaltes da última
temporada, algumas anotações extras que o Professor Leônidas
julgou pertinentes e uma lista com os nomes das candidatas a uma vaga no
time. Tudo estava acontecendo tão rápido que Suzana não
tivera ainda oportunidade de avaliar sistematicamente a sua atual situação.
Pudera, Camilla era como um rolo compressor e, como se não bastasse,
ainda havia afirmado descaradamente:
-
Suzie, com você só funciona desse modo: rápido o bastante
para não deixar você pensar. Senão, estamos todos perdidos.
À
noite, aquele alvoroço inicial. Fotos e autógrafos para inúmeros
rostos sorridentes. Contudo, finalmente, conseguira realizar a seleção
e de quebra avaliar o nível e as características do time.
-
Não foi mal � falou Suzana para si, enquanto colocava o travesseiro
debaixo da cabeça e pegava as suas anotações. Havia
escolhido uma pivô, inexperiente, com algumas deficiências técnicas,
mas promissora; duas alas, razoáveis, uma delas com um ótimo
arremesso de três pontos e uma armadora, Eleonora, baixinha, mas muito
ágil, excelente domínio de bola e visão de jogo, natural
liderança...Características bem desejáveis para a posição.
No todo era um bom time, mas com muito a melhorar. Teria trabalho, mas antevia
bons resultados.
-
Suzana � chamou Camilla acabando de entrar no apartamento.
-
Estou no quarto.
-
E, aí? Como foi o primeiro contato? � disse Camilla aparecendo na
porta.
-
Agitado.
-
É claro! Não é todo o dia que nós temos uma
celebridade no campus.
-
Pare com isso, Camilla.
-
Não seja modesta, mulher.
Suzana
jogou o travesseiro em cima da amiga que riu divertida. Suzana fingiu irritação:
-
Cala essa boca enorme e me diz o que tem para comer aqui nesse boteco de
segunda. Eu estou faminta.
-
Meu Deus do Céu, quanta classe! Amiga, você voltou! � ironizou
uma lacrimejante Camilla antes de levar mais uma travesseirada certeira.
Eleonora
saiu apressada da sala de aula ao final da manhã. Por essas horas,
o resultado do teste de seleção já devia estar afixado
no mural do salão central. Teve que admitir, meio contrariada, que
estava um pouco nervosa ao se aproximar do mural onde, efetivamente, percebia-se
um papel com o símbolo do time de basquete. Eleonora chegou mais
perto a ponto de ler quatro nomes em negrito no meio do papel. E...Lá
estava � Eleonora Cavalcanti. Fora selecionada. Não! Não fora
simplesmente selecionada. Fora escolhida por nada mais, nada menos que...Suzana
Alcott. Sentia vontade de gritar.
-
Elê! � um grito real tirou Eleonora dos seus devaneios. Carlinha vinha
correndo com um indescritível conjunto verde e rosa. Sem diminuir
o passo deu um pulo no pescoço da amiga quase derrubando Eleonora
em cima do mural.
-
Você viu? Eu já vi! Eu já vi! Você foi selecionada.
Vamos comemorar, já. Litros de coca-cola e quilos de batata frita.
Depois, horas de ergométrica. Mas, não importa, a ocasião
merece.
-
Calma, Carlinha, calma. � disse Eleonora, escapando com jeitinho do afetuoso
estrangulamento.- Eu tenho que passar na secretaria para deixar um documento
que eu fiquei devendo no dia da matrícula. Daqui a pouco a gente
se encontra na lanchonete, ok?
-
Ok. Mas, não demore.
-
Ah! Carla! - Eleonora chamou a amiga que já se distanciava, célere
como sempre.
-
O quê?
-
Você é mangueirense?
Carlinha
fez uma cara abobalhada.
-
Eu? Eu não. Por quê?
-
Nada não.
-
Louca. � resmungou Carla.
Eleonora
seguiu sorrindo para a secretaria, mas logo o leve sorriso transformou-se
numa gostosa gargalhada quando, de não muito longe, ainda pôde
ouvir em claro e bom tom:
-
Elê, vai se catar!
Carlinha
havia finalmente entendido.
Eleonora
entrou no prédio da administração assoviando uma música
do Skank e foi direto para o balcão de atendimento no hall de entrada.
Como ele se encontrava vazio naquele momento, preparou-se para esperar um
pouco sem perceber uma figura sentada em um dos sofás ao fundo.
-
De bom humor, Eleonora?
A
até então animada loirinha, reconheceu a voz indagadora, com
um frio na boca do estômago. Morta de vergonha sem saber bem o porquê,
virou-se para ver Suzana Alcott perfeitamente à vontade de calça
de moletom vermelha, camiseta regatas branca e os cabelos presos numa trança
frouxa caindo por cima de um dos ombros.
Completamente
muda por alguns segundos, Eleonora conseguiu sussurrar um quase inaudível:
-
Oi, treinadora.
Suzana
abriu um sorriso esplêndido que fez Eleonora sentir-se derretendo
por dentro a ponto de ficar com as pernas bambas.
-
Fora do treino é só Suzana. E, então, entusiasmada
em compor a equipe?
-
Estou, obrigada. � mais uma vez, a voz mal saiu perceptível.
-
Não agradeça. Você mereceu. E, a propósito. Eu
tenho fama de irascível - muitas vezes justificada, confesso � mas,
eu ainda não mordi ninguém até hoje.
Mais
relaxada com a brincadeira, Eleonora sorriu de volta e com a espontaneidade
que lhe era peculiar olhou diretamente para os olhos de Suzana. Sem entender,
a bela morena sentiu-se incomodada com a suave transparência daqueles
olhos verdes. Mais surpresa ainda, ela se viu mergulhando naqueles dois
lagos límpidos e, envolta pela inocente docilidade daquele olhar,
por um breve instante, foi a sua vez de ficar sem palavras. Recuperou-se
rapidamente, no entanto, e falou:
-
Acho melhor você se sentar. A minha amiga está resolvendo umas
pendências com a secretária. Bom...Nós acabamos de chegar
e acredito que elas ainda devam demorar um pouquinho.
Eleonora
sentou-se nem acreditando com quem estava ali conversando amistosamente.
Era demais! Agora...Demais mesmo, era como Suzana era bonita. E a voz, meu
Deus! Baixa, levemente rouca, com um sotaque um tanto indefinido, mas charmoso
e suave como uma carícia. Dava para ficar horas ouvindo.
Suzana,
por sua vez, observava sua atleta com o seu sorriso mais encantador enquanto
conversava amenidades. Pele clara, aveludada e que se ruborizava por qualquer
coisa. Rosto delicado de uma beleza graciosa, emoldurados por cabelos louros,
lisos e repicados que lhe caíam constantemente sobre os olhos e lhe
conferiam um ar meio sapeca...Uma tentação."Ei! O que
é isso? Eu estou praticamente flertando com essa garota!". Antes
que Suzana avaliasse a inesperada constatação, a porta da
secretaria se abriu e Camilla saiu.
-
Já terminei aqui, Suzie. Vamos almoçar? Eu tenho um paciente
no primeiro horário da tarde e depois será a sua segunda sessão
de fisioterapia do dia.
-
Segunda sessão de tortura medieval, você quer dizer, sua sádica
sem coração � brincou Suzana puxando a cadeira de rodas que
estava ao lado e se movimentando para passar para ela.
Eleonora
levantou-se rapidamente para auxiliá-la. Suzana deixou-se ajudar
sem protestos, e para surpresa ainda maior de Camilla, agradeceu quase docilmente.
-
Camilla, essa é minha armadora, Eleonora. Eleonora, essa é
minha amiga e terapeuta, Camilla.
As
duas se cumprimentaram com um mútuo oi e o sorriso sincero das almas
que são naturalmente francas. Suzana se despediu e foi saindo acompanhada
de Camilla que acenou um tchauzinho antes de se adiantar para abrir a porta
do carro do lado do carona para Suzana entrar. Dobrou e guardou a cadeira
no porta-malas.
-
A super poderosa Suzana Alcott está amolecendo � provocou Camilla,
ao entrar no carro.
-
O que você quer dizer com isso? � perguntou Suzana, em um tom levemente
irritado.
-
Ora, em outros tempos, a resposta para quem tentasse ajudar a rainha da
auto-suficiência a se levantar, seria o famoso olhar gelado "Não
ouse me tocar" de petrificar instantaneamente qualquer bom samaritano
desavisado. � Ou isso � continuou Camilla. - Ou essa garota tem algo especial
e, nesse caso, se ela não fosse uma menina, eu diria que você
poderia estar interessada nela.
-
Ora, Camilla. Não seja ridícula.
O
carro partiu com a risada de Camilla ressoando pela saída do campus.
V
Já
estavam na quarta semana de treinos. O treinamento era puxado e justificava
plenamente a fama de perfeccionista da atleta Suzana Alcott que, como treinadora,
não exigiria menos do que muita dedicação de suas comandadas.
Suzana já ficava de pé por mais tempo, embora ainda de muletas,
e movimentava-se o máximo que podia por toda quadra gritando instruções
e corrigindo posicionamentos. Após o deslumbramento inicial, todas
já estavam acostumadas com a presença e a forma de trabalho
da célebre jogadora. Também o auxiliar-técnico, Prof.
Jorge, depressa de habituou ao modo de agir da treinadora e funcionava como
uma segunda voz de Suzana. Todos eram unânimes em considerar que o
time tinha melhorado muito. Suzana que já gozava da admiração,
conquistou o respeito e a estima da equipe.
Entretanto,
os primeiros dias de treino foram extremamente tumultuados. A imprensa não
demorou a descobrir a famosa Suzana Alcott treinando um time feminino de
basquete de uma universidade do interior. Logo, uma grande quantidade de
correspondentes de emissoras de rádio e televisão, jornais
e revistas amontoavam-se na frente do ginásio do campus procurando
entrevistá-la, filmar os treinamentos ou, mais seguramente, bisbilhotar
a sua recuperação física. Após algumas declarações
que considerou suficientes, Suzana tomou a decisão de ignorar os
repórteres e seguir firmemente para a quadra com a ajuda do auxiliar-técnico,
pois ainda estava sobre cadeira de rodas, até que o interesse da
imprensa arrefecesse. Contudo, um episódio mudou sua aparente passividade.
Suzana
seguia como de costume, séria e compenetrada, por entre uma boa quantidade
de microfones e gravadores, quando um repórter soltou a infausta
pergunta:
-
Suzana, esta experiência como técnica significa o fim da sua
carreira como jogadora?
O
burburinho denunciou o frisson que a pergunta causara.
Suzana
pediu para o Professor Jorge parar e retornar. Em seguida, pediu para que
ele a apoiasse enquanto ela se levantava e se sustentava sobre a perna boa.
A figura alta e imponente por si só causou uma atenta expectativa.
O olhar gelado e a mandíbula rígida demonstravam claramente
a sua enorme irritação. Eleonora, que vinha logo atrás
de Suzana e acabou por ficar bem à sua frente, sentiu vontade de
se abaixar como se aquele olhar pudesse fuzilar alguém. Contudo,
contrariamente ao que se poderia imaginar, foi com uma voz calma e pausada
que ela falou:
-
Eu não tenho mais nada a falar para vocês. Vocês estão
atrapalhando o meu trabalho e o sossego das minhas jogadoras. A partir desse
momento, eu vou providenciar para que isso não mais aconteça.
A
partir daquele dia, os jornalistas não puderam mais chegar perto
do ginásio e, embora quase sempre tivesse um ou outro nas imediações,
o time conseguiu tranqüilidade para treinar.
Desde
quando conversaram no prédio da administração, Eleonora
e Suzana desenvolveram uma mútua camaradagem. Todos os dias após
o treino, Eleonora esperava Suzana para saírem batendo papo, quase
sempre sobre basquete, até que chegasse Camilla, ou na sua eventual
falta, um táxi, para leva-la para casa. As colegas chegavam a caçoar
da pequena armadora dizendo que ela era a queridinha da treinadora, mas
eram somente chacotas típicas de uma equipe de jovens atletas. Eleonora
era uma companheira muito delicada e cortês para gerar inimizades,
além disso, era ponto pacífico o fato dela ser a mais dedicada
jogadora nos treinos. Parecia incansável. Estava sempre disposta.
Dava tudo o que tinha para realizar com empenho e perfeição
qualquer exercício requisitado. Um verdadeiro "leão de
treino". Mais um motivo para brincadeiras. Devido ao seu tamanho e
aos cabelos louros, começou a ser chamada de leãozinho. Bastava
aparecer na quadra para alguém começar: "Gosto muito
de te ver, leãozinho...", e aí, eram só risadas.
Eleonora não se lembrava de ter se sentido tão contente em
toda a sua vida.
Suzana
via satisfeita o bom relacionamento da sua equipe. Também se afeiçoara
às meninas. Acostumara-se á companhia de Eleonora ao final
dos treinos e teria continuado nessa agradável rotina se não
começasse a reparar que já esperava com incontida ansiedade
o momento de ter a atenção da loirinha cativante só
para si. Pior! Que seus olhos procuravam o cabelo dourado pela quadra e
que, muitas vezes, chamava Eleonora para passar instruções
apenas para ver aqueles olhos verdes captando, concentrados, cada palavra
do que ela dizia. Preocupada, Suzana resolveu acabar com as conversas pós-treino
a fim de evitar o que ela imaginava ser somente uma preferência, talvez
explicada pela simpatia que nutria pela jovem armadora, mas que manifestada
assim tão explicitamente, viesse a prejudicar o time. Sutilmente,
Suzana passou a sair apressada do ginásio ou a conversar animadamente
com outras jogadoras até que sua condução chegasse.
Decepcionada
e confusa com a repentina mudança, Eleonora perdeu muito da sua espontaneidade
com Suzana a ponto mesmo de ficar um pouco tímida em sua presença.
Ainda assim, continuou a treinar com a mesma dedicação.
Foi
durante o alongamento final naquela segunda-feira que a treinadora falou
a novidade:
-
Ok, garotas. Acho que já está na hora de avaliarmos o resultado
do trabalho e o rendimento da equipe em situação de jogo.
Portanto, marquei um amistoso para sábado próximo com o time
adulto da cidade vizinha.
Foi
um alvoroço.Um jogo depois de tanto tempo de treinamento duro era
uma ótima notícia. Suzana acabou com o alarido com um gesto
largo de silêncio e continuou:
-
A partida será as 17:00. Todo mundo no vestiário às
16:00. Alguma pergunta?
Nenhuma
pergunta.
-
Muito bem... � Suzana não terminou porque Eleonora levantou o braço.
� Você tem alguma pergunta, Elê?
-
Não. É um convite. Eu quero convidar todo mundo para a minha
festa de aniversário no sábado também, lá pelas
nove horas da noite, em minha casa. Então, depois do jogo... Festa!
Um sábado perfeito, não acham?
Nova
agitação. Suzana achou melhor terminar por ali mesmo.
-
Dispensadas.
As
jogadoras foram saindo em pequenos grupos comentando as novidades e combinando
a ida ao jogo e à festa. Suzana virou-se para pegar a prancheta sobre
o banco e colocá-la na bolsa. Arrumou a bolsa esportiva de modo a
não atrapalhar o seu deslocamento com as muletas e só então
reparou que uma jogadora ainda não tinha saído. Eleonora estava
em pé, bem a sua frente, esperando.
-
Algum problema, Elê?
Suzana,
de vez em quando a chamava pelo apelido como as demais colegas. Era mais
curto e prático, principalmente durante o treino.
-
Você vai, não é, Suzana? Digo...Ao meu aniversário.
-
Não vou te prometer, Eleonora. Eu não sou muito de festas.
-
"Tá"...Eu...Só queria que você soubesse que
eu... Eu gostaria muito...Se você quiser, é claro...
Eleonora
não era capaz de imaginar o quanto estava adorável toda tímida
e embaraçada, apertando as mãos, com os cabelos molhados de
suor grudados na testa e com os ternos olhos verdes hesitantes fitando Suzana,
que não resistiu, e afastou delicadamente uma mecha de cabelo úmido
sobre a fronte da garota.
-
Está bem, Eleonora. Mas, eu vou ficar só um pouquinho. Combinado?
Eleonora
não respondeu de imediato. O seu coração havia disparado
no momento em que Suzana a tocou.
-
Com...Combinado � conseguiu balbuciar meio atrapalhada. Saiu com um sorriso
embasbacado no rosto e andando como se caminhasse em nuvens.
Suzana
arrependeu-se da promessa no momento em que Eleonora saiu do ginásio.
-
Droga! Lá vou eu me meter numa festa com um bando de adolescentes.
E que raios de poder é esse que essa menina tem, que eu não
consigo dizer não para ela? Suzana, Suzana, no que você está
se metendo?
VI
O
jogo foi emocionante. O time da Universidade Santa Cruz venceu nos últimos
segundos com uma brilhante atuação da pequena Eleonora que
correu muito, marcou como uma leoa, fez assistências, cestas e não
saiu um instante da quadra, demonstrando um excelente preparo físico.
Suzana estava satisfeita por enquanto, mas o time precisava melhorar em
muitos aspectos, principalmente o conjunto.
O
vestiário transbordava alegria e animação. Brincadeiras,
gozações mútuas e comentários entusiasmados
sobre lances da partida se misturavam numa feliz algazarra. Eleonora entrou
no recinto em meio a cumprimentos, abraços e tapinhas no ombro, mas
não tomou a costumeira chuveirada. Pegou rapidamente a mochila e
gritou a todas:
-
Daqui a pouco, todo mundo lá em casa, ok?
-
Festa, festa, festa � foi o brado geral.
Eleonora
saiu apressada, pois a mãe a esperava no estacionamento para levá-la
para casa. Ela tinha que se arrumar a tempo de receber os primeiros convidados
que não demorariam a chegar.
Pouco
mais de uma hora depois, ela já estava pronta e ansiosa � "Será
que ela viria mesmo?" Eleonora já não conseguia mais
tirar Suzana da sua cabeça. Passava os dias pensando nela, sonhava
com ela, contava os minutos para chegar a hora do treino e finalmente vê-la.
Treinava como uma louca para impressioná-la, mas, atualmente, quando
chegava perto dela, só conseguia agir como uma pateta. Deu um suspiro
e saiu do quarto para a área da piscina onde seria a festa. Alguns
minutos mais tarde, começaram a chegar os amigos e os familiares.
Suzana
desceu do táxi em frente ao bonito sobrado que era a casa de Eleonora.
Já se apoiava apenas em uma bengala e na outra mão carregava
um presente para a aniversariante. Presente, aliás, que levou horas
para escolher e que, por fim, cansou tanto a sua acompanhante, a pobre e
exausta Camilla, que a fisioterapeuta chegou a ameaçar:
-
Suzie, eu já estou morta de cansaço e se o seu joelho inchar
por causa de todo este tempo em pé para escolher um simples presente
de aniversário, eu juro que vou fazer você se arrepender amargamente.
Finalmente,
encontrou algo que a agradou e ali estava.
O
portão encontrava-se aberto e Suzana foi adentrando seguindo o barulho
da música que vinha do fundo da casa. Seguiu por um jardim lateral
e deu na parte de trás da residência onde já havia muitos
convidados dançando no tablado montado sobre a piscina ou conversando
por entre as mesas espalhadas pelo gramado. Impaciente, Suzana correu os
olhos pelo ambiente festivo e barulhento até que avistou os cabelos
loiros de Eleonora de costas para ela. Como que atendendo a um chamado misterioso,
a jovem anfitriã se voltou repentinamente para ela e os seus olhos
se encontraram.
Com
um sorriso transbordante de felicidade, Eleonora veio caminhando em direção
a Suzana que a esperava estática e boquiaberta. Aquela não
era a menininha peralta a quem ela treinava todos os dias. Aquela era uma
mulher... E... Deslumbrante! Eleonora trajava um vestido vermelho de alças,
levemente rodado, à altura dos joelhos. De cintura marcada e com
um generoso decote que deixava a mostra um colo alvo e perfeito, era sustentado
por alças finas que começavam pouco acima dos seios e seguiam
trançando pelas costas nuas e torneadas. Os cabelos brilhantes e
escovados balançavam conforme ela andava sobre sandálias douradas
de salto alto. Uma discreta maquiagem realçava a beleza dos olhos
verdes e a perfeição da boca delicada. E, quando ela se aproximou
o suficiente, um suave cheiro de flores silvestres a acompanhou, turvando
ainda mais os sentidos de Suzana que, à falta de palavras, só
conseguia olhar para aqueles olhos claros. Foi nesse instante que Suzana
compreendeu que estava apaixonada. Total e irremediavelmente apaixonada.
Eleonora,
quando viu que Suzana havia chegado, sentiu que, finalmente, o seu dia estava
completo. Caminhou para ela com a freqüência cardíaca
batendo recordes de rapidez "Meu Deus, que mulher bonita". Os
cabelos negros e longos reluziam sob a tênue luz do jardim. A blusa
de seda marfim, simples e elegante, caía vaporosa sobre o torso poderoso
e flexível, e a cor realçava a tez morena do pescoço
longo de contornos, ao mesmo tempo, suaves e vigorosos. Usava uma calça
preta de corte clássico, perfeitamente ajustado ao corpo delgado
e às pernas longas que, apesar da presença da bengala denunciando
sua momentânea fragilidade, exalava uma aura de força e da
conhecida potência que deu a ela a maior impulsão do circuito
mundial. Sem maiores adornos que um par de brincos de ouro e ônix
e um colar também de ouro com uma efígie que Eleonora não
conseguiu identificar, Suzana era só simplicidade e beleza, sem contar
o onipresente magnetismo pessoal que escapava dela com a mesma naturalidade
com a qual respirava.
Ficaram
ambas paradas e caladas, uma de frente para a outra, por alguns segundos
em muda contemplação. Por fim, Eleonora falou quase num sussurro:
-
Que bom que você veio.
Meio
atordoada pela descoberta que acabara de fazer, Suzana demorou um pouco
para articular um comentário:
-
Eu...É... � olhou para o presente em sua mão e o estendeu
para Eleonora � É para você.
-
Obrigada.
Em
instantes as duas já estavam cercadas por metade da festa. Todos
encantados por estarem perto de uma atleta famosa. Suzana foi arrastada
para dentro da festa pela gentil curiosidade dos amigos e familiares de
Eleonora que apenas observou o inofensivo seqüestro com um sorriso
divertido e só então pôde reparar no pequeno pacote
em sua mão.
"Um
presente dela". Ao retirar reverentemente o papel do embrulho, revelou-se
uma caixinha de veludo preta, e, dentro dela, um colar de ouro finíssimo
com um pingente esmeralda em formato de lágrima.
Eleonora
olhou com ternura para a pequena jóia cuja sutil delicadeza denunciava
uma enorme sensibilidade por parte de quem a escolhera. Em seguida, seu
olhar procurou por Suzana e a encontrou tentando inutilmente recusar o enésimo
salgadinho. Sorrindo de novo, desta vez com uma certa malícia, Eleonora
partiu para uma missão de salvamento.
-
Suzana, vamos ver agora aquilo que eu queria te mostrar.
Um
primo de Eleonora, tenazmente postado ao lado da famosa atleta, redargüiu:
-
Que é que você precisa mostrar para ela?
-
Coisas de mulher. Venha, Suzana - Eleonora estendeu a mão e puxou
Suzana para longe da tietagem explícita.
Ainda
de mãos dadas, passaram pela sala onde algumas companheiras de equipe
acenaram para as duas e entraram na calma do escritório do pai de
Eleonora.
-
Mais tranqüilo, não? � comentou Eleonora.
-
Nem me fale.
-
Suzana, eu queria agradecer o presente. É lindo. Eu adorei.