ENCONTRO
Rose Angel
2005
Alô Pessoal !!!
Pois é... Enfim saiu mais uma fic, a minha terceira neste estilo UBER. Espero que vocês gostem. Desta vez eu sei que o tema é meio polêmico, mas... vamos ver como me saí. E para saber, só mesmo se vocês me derem um "alôzinho" depois de ler, pelo [email protected]
Mandem ver, digam se gostaram ou não, afinal sempre se pode melhorar na próxima, não é mesmo?
E só para lembrar: esta história contém temas adultos expondo relações sexuais explícitas entre duas mulheres adultas. Se você for menor de 18 anos, onde você mora é proibido ler esse tipo de material ou for homofóbico, não continue a leitura. A escritora e a pessoa que mantém o website onde esse trabalho aparece não aceita responsabilidade legal pelo não cumprimento desse alerta.
Essa história tem as protagonistas inspiradas nas personagens de Xena e Gabrielle que são marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Elas são usadas aqui sem intenção de lucro ou de infringir as leis de copyright.
Bom, a cidade de Vale Verde é fictícia, existindo apenas na imaginação. Quanto as demais localidades são bastante conhecidas para quem mora ou já viajou por estas paragens...
E as personagens foram "batizadas" em homenagem a duas encantadoras amigas. Beijos pra vocês, Lúcia e "Ana Luisa"!
Boa leitura!!!
Encontro
Passava um pouco das quinze horas quando Ana estacionou numa travessa pouco movimentada no centro de Canoas. O verão estava no auge e o mormaço deixava o ar carregado. Nem sequer uma brisa corria naquela tarde escaldante, fazendo com que as árvores permanecessem inertes, como que guardando energias para sobreviver à previsão de longa estiagem para o estado do Rio Grande do Sul.
Ana trancou a porta do veículo, pegou uma leva-tudo com seus documentos e dirigiu-se para uma das ruas principais, parando em frente ao prédio envidraçado em cujo gramado frontal jazia imponente letreiro de metal dourado, cuidadosamente lustrado, onde se lia: FORUM. Enxugando o suor da testa com a parte externa da mão, num movimento que descolou algumas madeixas dos cabelos negros que teimavam em grudar na fronte, Ana adentrou na suntuosa construção. Suntuosa não tanto pela arquitetura, mas pelo que representava.
Caminhou até a porta onde havia uma placa pendurada com os seguintes dizeres: "bata e aguarde". E logo abaixo: "Assistente Social". Ana deu duas batidinhas discretas na porta e postou-se ao lado da entrada aguardando ser atendida. Não demorou muito e a porta entreabriu-se, sendo que uma fisionomia conhecida convidou Ana a entrar. A morena levou alguns segundos até recuperar-se da surpresa. Boquiaberta fitou a figura que lhe sorria amigavelmente. Num gesto afetuoso a mulher à sua frente estendeu os braços e a envolveu num abraço apertado. Ana mal conseguiu retribuir, como que custando a acreditar no que se passava. Entrou na sala e a Assistente Social indicou-lhe uma cadeira, sentando-se à sua frente.
- Ana... quanto tempo. – disse a Assistente Social.
- Pois é. – respondeu Ana ainda surpresa pela coincidência – Nunca imaginei que te reencontraria... nessa situação.
- Tu não mudaste nada.
- Impressão. Mudei muito. – respondeu Ana.
- Acho que nem tanto... sempre metida em confusões...
Ana remexeu-se na cadeira, baixando os olhos, mantendo a mesma seriedade com a qual entrara naquele recinto.
- Bom, Ana, eu confesso que estou feliz em te rever. – continuou a Assistente Social – faz tantos anos...
- Dezoito.
- Dezoito anos... e tu estás com a mesma carinha de antes.
Ana esboçou um discretíssimo sorriso amenizando a expressão séria daquele lindo par de olhos azuis e fitou a amiga.
- Olha Denise, vamos acabar logo com isso? Eu tenho mais o que fazer.
- Imagino. Mas afinal o que andas fazendo da vida?
- Além de me meter em confusões?
- É.
- Consertos.
- Como assim?
- Consertos. Conserto quase tudo que estraga. Desde elétrica até hidráulica e encanamentos. Também construo qualquer coisa. E entendo um pouco de mecânica, de carros e de máquinas pesadas.
- Fantástico... sempre me surpreendendo. – disse Denise.
- Não sei porque a surpresa. Você já deve ter lido nesse catatau aí. – respondeu Ana apontando para o processo que se encontrava sobre o centro da mesa.
- Bom, tu hás de convir que não é uma atividade comum a uma mulher.
- É...
- Ana, tu sabes o teor da tua sentença, não sabes?
- Sei.
- E já pensaste em algum lugar para prestar o serviço comunitário?
- Não, qualquer lugar está bom. – respondeu Ana com a secura que lhe era peculiar.
Denise ficou quieta olhando a amiga diretamente nos olhos, com uma expressão carinhosa:
- Ana, Ana... sempre arredia. Eu senti a tua falta quando foste embora com o teu pai para o Rio de Janeiro. Eu sempre gostei de ti.
Ana respirou fundo e respondeu:
- Eu sei. Eu também. Afinal você era minha única amiga. A única colega que andava com o "patinho feio", com a esquisita da escola. E eu nunca imaginei que fôssemos nos reencontrar nessa situação.
- Há males que vem pra bem... – disse Denise.
- Tá... vou tentar acreditar nisso.
- Acredite. Você sempre teve muitas virtudes, mas teimava em esconde-las sob um manto de rebeldia.
- Denise... sem lengalengas, por favor.
- Tá certo. Bom, vamos ver o que temos aqui. – respondeu Denise abrindo um enorme livro de capa dura com uma infinidade de anotações manuscritas.
Após alguns momentos de silêncio, enquanto Denise lia atentamente sua listagem de recursos, Ana pediu:
- Denise...
- O quê?
- Eu... bom... eu preciso sair de circulação por um tempo. Se tiver alguma coisa longe daqui... interior... eu prefiro.
Denise fechou o livro, tirou os óculos e fitou Ana com seriedade:
- O que é que está havendo?
- Olha, não é nada em relação a esse processo. É outro assunto.
- O que é então?
- Bom... é... é que eu me envolvi com uma dona aí... e agora preciso cair fora.
- Porque?
- A mulher é casada. E o marido descobriu. E ele é barra pesada.
- Ana! Pelo amor de Deus, o que tu estás me dizendo?
- Que eu sou lésbica, esqueceu?
- Não... Isso eu já sabia. Me refiro a esse "caso". Me defina barra pesada.
- Envolvimento com drogas.
- Usuário?
- Traficante. – respondeu Ana.
Denise levou as duas mãos ao rosto. Respirou fundo e continuou:
- E tu? É usuária? Ou o que é pior...
- Claro que não, Denise! Afinal, você me conhece ou não?
- Acho que sim.
- Então?... Olha, nem fumar eu fumo mais... parei com o cigarro antes que ele acabasse comigo há mais de dez anos, ou seja, nem droga lícita! Tudo bem, às vezes eu exagero na bebida, mas depois do acidente nem isso. Eu admito que sou pavio-curto, desaforada, me perco por um rabo de saia, vivo arrumando confusão, mas não sou mau caráter! Eu trabalho honestamente como qualquer pessoa, e o fato que me trouxe aqui hoje foi uma fatalidade, você sabe, está aí nos depoimentos. E o fato de eu ter que sair de circulação não tem nada a ver com esse processo! Eu só transei com a mulher do cara! Só isso. E agora a dona anda atrás de mim. E o cara também. É isso. E eu quero cair fora. – Ana deu uma pausa, respirou fundo e continuou – Eu tô cansada, Denise... quero sossego.
A Assistente Social baixou os olhos, respirou fundo, recolocou os óculos e respondeu fitando Ana diretamente nos olhos:
- Eu vou ver o que posso fazer.
- Obrigada. Eu fico te devendo essa.
- Me dê uma semana.
- É muito.
- Dois dias.
- Tudo isso?
- Ana, eu não faço milagres!
- Por favor...
- Volta aqui amanhã.
Ana sorriu pela primeira vez naquele encontro.
- Amanhã cedo estou aqui.
- As onze. – retrucou Denise.
- Tudo bem, as onze. – respondeu Ana levantando-se.
Denise levantou-se também e abraçou a amiga afetuosamente:
- Apesar de tudo... foi bom te rever. – disse a Assistente Social – Ana... cuide-se.
Ana assentiu com a cabeça retirando-se da sala. Denise sentou-se e começou a recordar sua infância e adolescência. Ana sempre fora uma criança diferente, arredia, rebelde. Estudaram juntas desde a primeira série, na mesma escola pública. Tornaram-se amigas e cresceram juntas. Denise conseguia ver a Ana que o restante dos colegas e professores não conseguiam. Ana sempre fora uma criança decidida e teimosa, porém convivia harmonicamente com ela, sendo que conseguiram estabelecer uma relação de verdadeira amizade e respeito mútuo. Na adolescência, quando Ana se apaixonava perdidamente por meninas, era para Denise que confidenciava seus sentimentos. Quando os pais de Ana resolveram se mudar para o Rio de Janeiro elas perderam o contato. Ambas sentiram falta uma da outra, mas o tempo e a distância acabam relegando grandes amizades, e por vezes amores, ao esquecimento...
E agora novamente os caminhos delas haviam se cruzado. Denise sentiu que precisava fazer algo por sua amiga. Novamente folheou atentamente seu livro de recursos e contatos sem encontrar nada que lhe parecesse adequado. Fechou os olhos tentando resgatar do fundo da memória alguma alternativa. Num repente abriu os olhos e sorriu para si mesma. Pegou sua agenda telefônica e fez uma ligação para Vale Verde, cidadezinha pequena localizada na região das missões, próxima a São Nicolau e Santo Ângelo.
No convento das irmãs do Sagrado Coração de Cristo Rei o dia havia transcorrido calmo, como todos os demais, porém sob um tórrido e escaldante calor de quase quarenta graus à sombra. Antes do nascer do sol a irmã Lúcia, assim como as demais freiras e noviças acordaram e se dirigiram à capela para as orações matutinas. Após fizeram o desjejum no refeitório coletivo e cada qual passou a realizar sua tarefa diária.
Irmã Lúcia era responsável pelo trato das galinhas e dos coelhos durante o período de férias. No início do período letivo retomaria o sétimo semestre do curso de história e lecionaria na escola anexa. Lúcia também acabava auxiliando na cozinha e na limpeza geral do convento, junto com a irmã Clara e as noviças, nos turnos em que estas últimas não se encontravam na escola. Irmã Lídia era a Madre Superiora e incumbia-se das questões administrativas do convento e da escola de ensino médio e fundamental anexa, mantida pela Ordem. Era auxiliada diretamente pela irmã Teodora. Irmã Sebastiana era a mais velha, contava noventa e três anos, no entanto ainda se ocupava com a rouparia, lutando diariamente contra os limites que a idade lhe impunha, principalmente na hora de enfiar a linha na agulha. Para tal colocava os óculos na ponta do nariz e tentava controlar as mãos trêmulas. E cada vez que a Madre lhe sugeria descansar um pouco, irmã Sebastiana respondia bem humorada: "terei a eternidade para descansar depois de morrer!". Irmã Celestina era a responsável pela cozinha, Irmã Diva pelo almoxarifado e Irmã Janete pela lavanderia. As demais lecionavam na Escola Cristo Rei.
No entardecer Madre Lídia se encontrava instalada confortavelmente no escritório do convento colocando sua documentação em dia quando o telefone tocou. Ao atender reconheceu a voz de sua sobrinha:
- Boa tarde, tia Lídia, como vai a senhora?
- Boa tarde querida! Que grata surpresa! E os teus pais como estão? E o meu cunhado sempre com mania de doença?
- Sim... E a sua irmã sempre tratando o marmanjo como um menininho... – riu-se a voz do outro lado da linha. – Mas tia, o motivo dessa ligação não é nenhuma questão familiar...
- Mas o que é então? – questionou a Madre, no exato momento em que ouviu uma suave batida na porta do escritório, e uma fresta entreabriu-se vagarosamente.
Irmã Lúcia espiou para dentro e viu que a Madre estava ao telefone. Antes que pudesse recuar a mulher mais velha acenou com um gesto indicando que entrasse no recinto. Irmã Lúcia estava munida com um balde, um rodo e um pano de chão. Viera para limpar o piso de madeira. Frente ao gesto da Madre passou a fazer a limpeza em silêncio, para não atrapalhar a superiora. Percebeu que a expressão da Madre assumiu um ar austero e pensativo no decorrer da conversa. A mesma apoiou o queixo em uma das mãos enquanto ouvia em silêncio o discurso do outro lado da linha. Eventualmente respondia com monossílabos e parecia ouvir atentamente cada detalhe da mensagem de seu interlocutor.
Como de costume Lúcia logo se distraiu com a limpeza do chão e com uma lagartixa no canto da parede, a qual tentava conduzir em segurança até o parapeito da janela, antes que a Madre a avistasse e incorresse num de seus costumeiros chiliques ante qualquer bichinho rastejante. Após certificar-se que a lagartixa encontrava-se em lugar seguro fora daquela sala, Lúcia ouviu fragmentos da conversa da Madre, sem que se ativesse a maiores detalhes ou que tivesse sua curiosidade despertada pelo teor da conversa.
- Não sei, minha filha... – dizia a Madre -...isso é meio complicado de administrar... seria a primeira vez... (...)... sim... não... não é isso. (...) Claro que sim. Me dê um tempo para pensar. (...) Como não pode? É uma decisão que afeta nossa rotina, nossas normas... (...) Eu sei, minha filha. (...) Bom, se tu estas dizendo, mais que isso, garantindo, vamos tentar então. (...) Ta bom, ta bom... mas quero deixar bem claro que é uma tentativa. Ao primeiro sinal de que a coisa não vai bem está desfeito o acordo. (...) Eu espero, minha filha... eu espero sinceramente não me arrepender... (...) Tudo bem. Então um abraço, e abraços pros teus pais. Tchau.
A Madre desligou o telefone e permaneceu calada, o olhar perdido na parede verde-água à sua frente. Estava tão absorta em seus pensamentos que nem sequer percebeu que Lúcia havia acabado seu serviço e dado um discreto até logo antes de sair da sala e fechar a porta com delicadeza. Madre Lídia suspirou profundamente e dirigiu-se para a capela. Precisava rezar um pouco, pedindo a Deus que iluminasse seus pensamentos e suas decisões. Pediu ainda que Ele orientasse os passos de quem estava prestes a receber naquele convento por um longo período.
Ao entrar em sua casa Ana deixou-se cair no sofá estirando-se em todo o comprimento e colocando as pernas sobre um dos descansos de braço. Sua estatura não lhe permitia caber naquele estofado de três lugares sem que parte de seu corpo ficasse para fora. Com os olhos fixos no teto suspirou profundamente. Estava realmente preocupada. Tinha consciência da confusão em que estava metida e do quanto sua vida estava em risco. Anoiteceu e ela permanecia deitada pensativa, não havia sequer aberto as janelas ou acendido as luzes do aposento. De repente ouviu um som que identificou como sendo de um carro estacionando. Num pulo esgueirou-se até a janela espiando pela fresta da veneziana que estava fechada. O cachorro do pátio vizinho começou a ladrar ameaçadoramente, parando logo em seguida preferindo recolher-se à sua casinha de madeira envernizada. Ana conseguiu avistar um luxuoso carro preto do qual desembarcaram três homens que observavam a sua casa de braços cruzados. Ana sentiu medo, dando graças a Deus por ter colocado sua Kombi para dentro da oficina e fechado a porta principal. Como estava no escuro e em silêncio os homens julgaram não haver ninguém em casa. Ainda fizeram a volta na casa, silenciosos, enquanto Ana encostada na parede prendia a respiração, temerosa pelo que podia acontecer. Sentia seu coração bater descompassadamente, porém tentava manter a calma. Com a agilidade de um felino esgueirou-se silenciosamente armando-se com um pé-de-cabra que estava no chão, num canto da sala. Novamente deu graças pela sua desorganização momentânea, afinal aquele instrumento deveria estar na oficina.
Manteve-se em absoluto silencio, em estado de alerta, até que ouviu os passos se afastando na direção do veículo. Os homens ainda pararam e deram uma nova olhada na direção da casa antes de trocarem algumas palavras, que Ana não conseguiu entender mas imaginou quais fossem, para logo em seguida embarcarem afastando-se dali. Ana ainda ficou estática por um bom tempo até ter certeza de que realmente haviam ido embora. Estrategicamente não pregou o olho durante aquela noite, permanecendo na segura escuridão do lar. Evitou sequer acionar a descarga do banheiro para não fazer barulho.
Quando a claridade da manhã invadiu as frestas da janela Ana respirou aliviada. Conhecia aquele tipo de gente e sabia que eles não "trabalhavam" à luz do dia. Tratou de arrumar seus pertences e coloca-los na Kombi, assim como todo seu equipamento de serviço. Tudo que tinha de seu cabia naquele veículo que além de ser seu meio de transporte e instrumento de trabalho algumas vezes lhe serviu de teto. E parecia que a situação se repetiria. Tomou um banho, vestiu-se, e antes de sair de casa ainda espiou pelas frestas das janelas, tentando ver se havia alguma movimentação estranha na rua. Não notou nada de diferente e abriu a porta da oficina. Novamente espiou para ambos os lados da rua e não havia qualquer sinal do carro escuro. Aliviada manobrou a Kombi para depois fechar a porta da frente da oficina.
Dirigiu-se para o centro de Canoas, dessa vez conseguindo estacionar bem perto do Fórum uma vez que a maioria dos prédios comerciais ainda estavam fechados. Naquele local sentiu-se segura. Olhou no relógio e constatou faltarem oito minutos para as sete da manhã. Se deu conta de que estava com fome. Não havia comido nada desde a tarde do dia anterior. Fechou o veículo e caminhou até uma padaria que já estava com suas portas abertas desde muito cedo. Tomou um café e comeu um misto-quente cujo queijo colonial se derretia na boca. Ficou sentada ali até depois das nove horas da manhã, aproveitando para ler o jornal que alguém havia esquecido sobre o balcão. Por volta das nove e meia foi até o Fórum e quando Denise chegou Ana já a aguardava há bastante tempo. De longe Denise avistou Ana sentada nos bancos do corredor em frente a sua sala, cabisbaixa e com a expressão sisuda de sempre. Aproximou-se e tocou-a no braço, fazendo com que se levantasse. Abraçou a amiga em silêncio e a conduziu para o interior de sua sala. Antes que Denise começasse a falar Ana disse:
- Eu recebi visitas essa noite...
- A mulher do traficante???...
- Não. Os capangas do dito cujo.
- Meu Deus, Ana! E tu estás bem? Eles te fizeram alguma coisa?
- Não. Pensaram que eu não estivesse em casa e foram embora. Mas eles vão voltar...
- Ana, senta aqui. Olha, eu acho que posso te ajudar sim.
Ana respirou aliviada, amenizando sua expressão preocupada. Denise continuou:
- É o seguinte: é um trabalho em Vale Verde.
- Nunca ouvi falar, onde é?
- Região das Missões, perto de São Nicolau e Santo Ângelo.
- Ótimo, quanto mais afastado melhor.
- Bom... tu farás a manutenção do lugar, serviços gerais, "pau pra toda obra" mesmo... e poderás ficar morando por lá. Já está tudo acertado, inclusive com um quartinho disponível te esperando. Pode ser?
- É óbvio que pode, Denise! E eu fico te devendo essa.
Denise sorriu afetuosamente:
- Não me deve nada, é o meu trabalho.
- Livrar a cara de quem se mete em confusão?
- Também. Principalmente quando se trata de uma pessoa muito estimada.
Dessa vez foi Ana quem sorriu para Denise, que a abraçou com carinho.
- Bom, eu já vou indo... aliás para onde eu vou? Preciso do endereço. Onde é que eu vou me instalar? – questionou Ana.
- É... bom... é uma escola.
- Tudo bem – respondeu Ana franzindo uma sobrancelha, desconfiada do gaguejar da amiga, mas sem intenções de criar polêmicas.
Denise escreveu o endereço num papel e o entregou a Ana.
- Ta aqui o endereço. Quando é que tu vais?
- Agora.
- Agora?
- É. Já estou com tudo que é meu na Kombi aí em frente. Não vou abusar da sorte voltando para casa, pelo menos por uns tempos, até que o corno esqueça do tamanho dos chifres...
Denise teve de rir.
- Ana, Ana... sempre espirituosa, mesmo frente às adversidades.
- Pois é... fazer o quê?
- Te cuida minha querida. Ah... e por favor, nada de confusões. Sou eu que estou te pedindo. Não foi fácil arrumar esse lugar, portanto comporte-se.
- Que é isso Denise? Parece minha mãe? Eu sei o que faço, sei me cuidar.
- Sabe mesmo?... – respondeu Denise com voz branda e amorosa.
Ana baixou os olhos.
- Tudo bem. Eu prometo "me comportar". Palavra.
- E eu acredito. Boa sorte.
- Obrigada. E... Denise, esse lugar... tem como alguém ficar sabendo onde é? – perguntou Ana preocupada.
- Não. Fica tranqüila. Esse lugar não é só um local para prestares serviço, é um "esconderijo".
- Que bom.
- Vai com Deus. – disse Denise dando um beijo na face da amiga. – Pode deixar que eu aviso que vais chegar tarde da noite. Haverá alguém à tua espera.
- Então, até um dia.
- Manteremos contato por telefone. Preciso fazer o teu acompanhamento sistemático. – disse Denise.
- Tudo bem. Você tem o meu celular?
- Tenho. Consta no processo. Ainda é o mesmo?
- É. Se mudar eu te aviso.
- Por favor.
- Tchau então.
- Tchau...
Ana pegou sua Kombi, tirou um mapa rodoviário do porta-luvas e traçou um trajeto mental até seu destino. Chegaria bem tarde. Pegou a estrada antes do meio dia, realizando somente poucas paradas para comer e ir ao banheiro.
Passavam das dez horas da noite quando finalmente chegou a Vale Verde. Era uma cidadezinha pequena, pelo pouco que pôde ver devido à escuridão da noite. Toda a cidade parecia dormir. O posto de gasolina estava fechado, assim como o comércio. O único estabelecimento que parecia estar funcionando era uma bodega onde alguns homens bebiam e jogavam bilhar. Algumas moças com vestidos curtos lhes faziam companhia e pareciam estar se divertindo, mesmo naquele fim de mundo...
Ana desembarcou e quando entrou no bar todos os olhos se viraram para ela. Com suas passadas firmes, quase masculinas, e a habitual seriedade dirigiu-se para o rapaz no balcão e estendeu-lhe o papel com o endereço.
- Amigo, sabe informar onde fica essa rua?
O rapaz olhou-a de cima a baixo e pegou o papel. Ao ler o que estava escrito dirigiu-lhe um olhar, no mínimo, intrigante.
- Seguindo por essa rua é a quarta esquina à direita. Segue pela rua de paralelepípedo. Quando terminar pega a estradinha de chão à esquerda que já é essa rua. Dá mais uns três quilômetros.
- Obrigada.
- A senhora vai ficar aqui?... – quis saber curioso o bodegueiro.
- Vou morar por uns tempos.
- Aaahhh...
- Boa noite. – disse Ana saindo do bar, ainda sob os olhares curiosos dos freqüentadores.
- Boa noite, dona.
Ana achou a estradinha com facilidade e rumou por ela até se deparar com um muro alto que ostentava o número 3580, o mesmo que procurava. Um grande portão de ferro encontrava-se fechado defronte a uma estradinha curta e ladrilhada que levava até o pórtico de um prédio grande, de dois andares, onde uma placa de bronze incrustada sobre a porta ostentava os seguintes dizeres: Convento das Irmãs da Ordem do Sagrado Coração de Cristo Rei. Ana estacionou a Kombi e desembarcou, ainda incrédula com o que via. De pé em frente ao portão colocou as mãos na cintura e balançou a cabeça de um lado para outro, falando para si mesma:
- Ah não... isso não, Denise. Sacanagem! Me mandar para um convento?! Puta que pariu!
Nisto a lâmpada externa do hall de entrada se acendeu e a porta entreabriu-se. Uma senhora de meia idade vestindo um hábito marrom e óculos de aros dourados caminhou até ela portando uma argola de metal de onde pendiam incontáveis chaves. Ana reparou que a freira tinha um caminhar decidido, porte pequeno, porém demonstrando altivez. Não podia ver a cor de seus cabelos por causa do véu que lhe encobria a cabeça. Antes de abrir o pesado portão olhou para Ana e perguntou:
- Tu és a Ana?
- Sou.
- Bem vinda, minha filha. – respondeu com voz que aparentava sinceridade.
Descerrou o pesado cadeado e antes que pudesse empurrar o portão Ana disse:
- Deixa pra mim que eu abro – disse enquanto deslocava o portão de ferro dando lugar para a passagem do carro.
Embarcou na Kombi e ao atravessar o portão parou novamente para fecha-lo. A Madre já havia empurrado um dos lados.
- Pode deixar que eu fecho, é pesado. – disse Ana.
A Madre sorriu:
- Minha filha, tu não imaginas a quantidade de vezes que eu abro e fecho este portão por mês... Mas, muito prazer, eu sou a Madre Lídia, responsável por este convento e pela escola anexa. Mas vamos entrar, eu gostaria de conversar contigo antes de nos recolhermos.
A freira conduziu Ana por um corredor comprido até uma sala ampla, com uma grande escrivaninha em madeira escura e torneada e cadeiras no mesmo estilo. Um sofá de dois lugares com um estofado de veludo azul turquesa conferia um ar solene ao aposento. À esquerda uma estante em mogno ocupava toda a extensão da parede, totalmente preenchida por livros dos mais variados estilos. Na parede atrás da escrivaninha um imenso quadro de Jesus pendia ao lado de um de Nossa Senhora da Conceição. Uma cortina, também azul, escondia um aparelho de ar condicionado. Um computador e um discreto freegobar colocados no canto direito da peça pareciam destoar do resto do ambiente, era a modernidade contrastando com os móveis antigos. Madre Lídia indicou o sofá para Ana e sentou-se numa cadeira em frente.
- Muito cansada da viagem?
- Só um pouco, estou acostumada a dirigir.
- Aceita uma água ou um suco?
- Uma água, por favor.
A madre dirigiu-se ao pequeno refrigerador e serviu dois copos. Estendeu um para Ana e sentou-se novamente.
- Bom, minha filha, como eu já disse sou a Madre Lídia e respondo por este convento e pela escola. E quero colocar claramente a minha posição em relação a tua vinda para cá.
Ana fitava a madre com seriedade. A mulher mais velha continuou:
- É a primeira vez que temos um caso como o teu aqui nesta casa, quero dizer, alguém prestando serviços por questões judiciárias. Mas como foi minha sobrinha Denise quem pediu resolvi abrir uma exceção.
"Cachorra", pensou Ana, "...me mandar para um convento!" A madre continuou:
- Ela me contou sobre a amizade de vocês e sobre como foi o reencontro depois de tantos anos. Me colocou também que o ocorrido foi uma fatalidade, um acidente. E que tu precisavas de um lugar para cumprir a sentença e não tinhas onde morar, por tua família estar toda no Rio de Janeiro, por isso ela pensou em nós, afinal alojamentos não nos faltam neste prédio.
"Sem lugar para morar... pois sim. A Denise não contou nem a metade da missa...", pensou Ana, "bom, mas meias-verdades não são mentiras, e é claro que ela pouparia a titia dos detalhes sórdidos..."
- Aqui tu vais trabalhar na escola e nas dependências do convento. Mas... eu devo te dizer que estranhei muito a tua profissão. Não é coisa de mulher, minha filha.
- Mas é o que eu sei fazer. Sempre trabalhei com o meu pai. Começamos numa borracharia, depois uma mecânica, depois serviços gerais. Enfim, sei fazer de tudo um pouco.
- Que bom então, teus préstimos serão muito úteis aqui. Mas... Ana... estamos numa cidade pequena, onde todos se conhecem, onde todos sabem de tudo... Nossa escola é uma escola privada, que atende os filhos dos latifundiários e criadores de gado, pessoas muito rígidas nos conceitos, e não sei como reagiriam se soubessem que existe uma cumpridora de sentença judicial convivendo perto de seus filhos...
Ana respirou fundo, sentindo-se invadir por um sentimento de mágoa, fruto da evidente discriminação que sofreria. Isto que nem foi cogitada sua homossexualidade.
- Por isto, minha filha, considero, digamos... prudente, que esta informação fique restrita somente a nós duas. Caso perguntem vou dizer que contratamos os teus serviços, indicados por minha sobrinha da cidade grande. Entendido?
- Entendido. – anuiu Ana cabisbaixa.
- Ana, compreenda... é para o bem de todos.
- Vou tentar compreender – respondeu Ana deixando transparecer um tom de amargura.
- Outra coisa. Quero deixar claro que faremos uma ten-ta-ti-va. Caso haja qualquer inadequação em sua conduta eu vou comunicar a Denise e pedir que te retires. Eu devo zelar pelo bom funcionamento e pela disciplina desse convento e da escola.
- Pode deixar Madre, eu entendi. E vim disposta a colaborar.
- Ótimo. Então acho que estamos conversadas. Qualquer contato telefônico que precisares ter com Denise poderá ser feito deste gabinete, com total privacidade.
- Obrigada.
- Outra coisa. Tu és uma moça nova, bonita, vais chamar a atenção. Quero te avisar que não é permitido trazer visitantes para dentro das dependências do convento. Eu me refiro a... rapazes, pretendentes... fui clara?
- Claríssima. Nada de envolvimentos. – respondeu Ana rindo por dentro, como se os problemas pudessem ser "rapazes"...
"Realmente Denise deixou a titia pouco informada a meu respeito", pensou Ana.
- Bom, agora vou conduzi-la para seu quarto. Fica nos fundos, separado do prédio principal, ao lado da sala de manutenção. É um bom alojamento, cama macia e banheiro com água quente para um banho reconfortante. Tem uma pequena peça ao lado que pode servir de quarto auxiliar. As refeições tu poderás fazer conosco no refeitório principal. O horário do teu expediente será enquanto houver trabalho: alguns dias quase nada a fazer, outros se trabalha noite adentro. Amanhã terás o dia de folga, onde te mostrarei o espaço físico e o que tem para ser feito. Depois de amanhã começas a trabalhar. Alguma pergunta?
- Nenhuma.
- Ótimo. Então vamos.
A Madre embarcou com Ana na Kombi indicando-lhe o caminho pelo lado do prédio principal. Rodou alguns metros e estacionou bem defronte ao lugar que ocuparia. O quarto estava arrumado e impecavelmente limpo. Havia roupas de cama e uma toalha na cabeceira da cama. Uma armação de madeira servia de suporte para um mosquiteiro de tule branco que pendia pelas laterais do leito. Uma jarra com água fresca repousava no criado mudo ao lado de um pacote de bolachas salgadas, um pãozinho doce e duas maças.
- Pedi que a Irmã Clara arrumasse o quarto e deixasse algo para comer. Imaginei que chegarias com fome.
- Obrigada.
- O café é servido das seis e meia até as sete e meia. O refeitório é no prédio principal – disse a madre apontando na direção do casarão – é só seguir reto, no térreo. Qualquer dúvida pergunte a alguma das Irmãs. É um horário que todas estão reunidas. Nos encontramos no refeitório amanhã pela manhã para posterior visita aos arredores.
- Tudo bem.
- Boa noite então. – disse a Madre virando-se e caminhando em direção ao convento.
- Boa noite.
Ana descarregou sua mala e pertences pessoais, mas não teve ânimo de arrumar nada. Percebeu que estava de fato cansada. Arrumou sua cama, comeu o pão e as maçãs e foi tomar um banho.
O banheiro era espaçoso, peculiaridade das construções antigas, pé direito com mais de três metros de altura e um delicioso chuveiro a gás. O jato de água era potente e parecia lavar a alma devido à pressão. Ana deixou-se permanecer por algum tempo sentindo a água morna, quase fria, em suas costas. A noite estava quente, porém mais agradável que a noite anterior que havia sido abafada, quase sufocante. Vestiu somente uma camiseta regata velha e surrada que lhe chegava até a metade das coxas e deitou-se. Ainda se recuperando da surpresa de ter sido enviada a um convento acabou se conscientizando de que havia sido uma boa alternativa. Ali estaria bem escondida. Ajeitou o mosquiteiro, tratando de prender as extremidades no vão entre o colchão e o lastro da cama, desta forma evitando que algum inseto viesse a perturba-la durante a noite. Bastante cansada pegou no sono quase que instantaneamente, com uma sensação de segurança e bem estar.
Ana dormiu um sono só e foi despertada pelo canto insistente de um galo, que devia estar bem próximo de sua janela. Abriu os olhos sobressaltada e se deu conta que eram somente seis horas da manhã. Espreguiçou-se na cama e esfregou os olhos. Sentiu o corpo recuperado da viagem exaustiva do dia anterior. O galo continuava cacarejando, mas parecia estar se deslocando pelo pátio, correndo desvairado de um lado para o outro. A morena apurou o ouvido e percebeu passos silenciosos no lado de fora de sua janela. Curiosa esgueirou-se e espiou através da janela envidraçada que esquecera de fechar, visto que a Madre havia lhe falado sobre a segurança de se estar num lugar onde ainda era possível dormir de portas destrancadas. Um dos lados do tampo de madeira da janela estava totalmente aberto. Camuflada pela escuridão do quarto Ana pôde observar a rua que já estava começando a ficar iluminada pela claridade da manhã, porém ainda havia resquícios das sombras da noite. O horário de verão atrasava em uma hora a alvorada. Apurando a vista distinguiu um vulto que perseguia o galo, tentando chamar-lhe a atenção com punhados de milho e ração. Tentativa sem sucesso, pois o animal emplumado corria mais a cada vez que um novo punhado de milho era jogado em sua direção.
- Vem aqui Abelardo... não seja teimoso... vamos voltar para o galinheiro... raio de galo fujão! Olha que a Irmã Celestina te bota na panela! – reclamava Lúcia em voz baixa para não chamar a atenção de quem, porventura, já estivesse acordada.
Ana teve de rir da cena hilária daquela freirinha de hábito cinzento e chinelos havaiana perseguindo um galo pelo quintal do convento. Por fim viu quando o desafortunado foi encurralado num canto do muro e, sem ter por onde escapar, rendeu-se e deixou-se suspender no colo, sendo conduzido de volta ao galinheiro sem manifestar maiores reclamações.
Ana foi até o banheiro, lavou o rosto e olhou sua imagem refletida no espelho durante um bom tempo. Suspirou e vestiu-se, preparando-se para o desjejum e o encontro com a Madre Lídia. Colocou uma calça jeans desbotada e uma camiseta azul marinho, colada ao corpo, de mangas curtas. Calçou um tênis e prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo frouxo.
Antes de sair do quarto estendeu sua cama e ajeitou um pouco sua mala, empurrando-a para baixo da cama. Abriu a porta do quarto e dirigiu-se para o refeitório. Àquela hora a claridade já tornava bem nítido o cenário à sua volta. Percebeu que a construção que a abrigava era no mesmo estilo das demais: um prédio antigo, paredes grossas, porte imponente. As telhas francesas, um tanto quanto tomadas pelo limo, formavam um mosaico interessante, intercalando tons de ocre, marrom escuro e ébano.
Ana caminhou em direção à construção maior, o convento, que somente perdia em tamanho para a escola anexa. Percebeu que no lado esquerdo do pórtico de entrada existia uma pequena capela, com as paredes pintadas de bege, da mesma cor do restante da propriedade, mas com uma única torre que apontava para a abóbada celeste com a mesma suntuosidade das torres das catedrais. Bem no alto, logo abaixo da cruz, pendia um sino de bronze, cujo som das badaladas Ana ouvira logo após ter sido despertada pelo galo.
Caminhou vagarosamente pelo estreito caminho ladrilhado que levava ao refeitório, observando atentamente a paisagem ao redor. Ao aproximar-se da construção maior ouviu um burburinho vindo de dentro e um agradável aroma de café recém passado e pão fresco. Parou em frente à porta, silenciosamente, observando o interior daquele amplo recinto, e sua presença nem foi notada pelas pessoas que circulavam no local, cada qual ocupada com seus próprios afazeres. Percebeu a intensa movimentação das freiras. Algumas organizavam a mesa do café enquanto outras, mais velhas, aguardavam sentadas o início do desjejum. Ana olhou seu relógio e viu que eram seis e vinte e cinco. Neste momento Madre Lídia entrou no refeitório por uma porta interna lateral e imediatamente percebeu a presença de Ana, caminhando em sua direção.
- Bom dia. Não acredito que nenhuma das Irmãs a tenha convidado a entrar! – disse a Madre em tom de crítica.
- Eu recém cheguei, nesse exato momento, para ser mais precisa. Elas realmente não me viram. – respondeu Ana educadamente.
- Mas então vamos entrando. – disse a Madre conduzindo Ana pelo braço e fazendo-a sentar-se a seu lado na mesa.
Ao passar pelo meio do refeitório sentiu todos os olhares voltados em sua direção e um silêncio se fez repentinamente. Chegou a ficar meio desconcertada. Porem a Madre logo tratou de apresenta-la:
- Irmãs, um minuto de atenção, por favor. Esta moça é a nossa nova contratada para cuidar da manutenção de nosso convento e da escola.
Um breve murmurinho e algumas risadinhas baixas se fizeram ouvir, como que estranhando o fato de uma mulher exercer aquele tipo de atividade. A Madre continuou com voz alta e firme:
- O nome de nossa funcionária é Ana e espero que ela possa contar com a colaboração de cada uma de nós no que for preciso para orienta-la neste início de suas atividades.
Novo burburinho e vários sorrisos e balançares de cabeça assentindo à determinação da Madre. Uma das freiras levantou a mão pedindo a palavra. A um gesto da Madre a freira proferiu:
- Em nome das Irmãs eu gostaria de dar as boas vindas à amiga, e me colocar à disposição no que for preciso para ajudar. – disse a Irmã ostentando um sorriso sincero.
- Obrigada. – respondeu Ana, percebendo tratar-se da mesma freirinha que perseguia Abelardo. Precisou esforçar-se para controlar o riso ao relembrar a cena da perseguição ao galo.
- Então vamos proceder nossa oração, tomar café e pôr mãos à obra em nossas atividades de hoje. – disse a Madre. – Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...
- Amém! – responderam as freiras em uníssono, colocando-se todas de pé.
Ana também se levantou para acompanhar a oração. Não que fosse dada a rezar, mas em respeito ao local onde se encontrava e às pessoas que a haviam acolhido de forma tão simpática. Após a oração fizeram o desjejum. Enquanto se alimentava Ana observava todos os movimentos a sua volta. Percebeu que ali havia dezenove freiras. Mais tarde soube tratar-se de quatorze freiras e cinco noviças. Algumas usavam um hábito mais pesado, de cor marrom, apesar do calor intenso daquela época do ano. O que ajudava era a temperatura fresca mantida pela construção antiga. Outras usavam um hábito cinza claro, este parecendo ser mais adequado ao clima. Outras, ainda, uma saia cinza com blusa branca ou bege. A maioria usava véu, que tapava completamente os cabelos e caía até o meio das costas. Ana percebeu umas mulheres bem idosas e outras muito jovens, talvez ainda menores de idade. Tinha bastante dificuldade em entender o que fazia uma pessoa deixar a própria casa, abdicar de uma vida livre e passar a viver num convento. "E sem sexo", pensava Ana consigo mesma. Realmente não conseguia entender. O que a intrigava naquele momento era o fato de que aquelas mulheres pareciam felizes, pelo menos a maioria delas. Conversavam e sorriam alegremente. Naquele ambiente parecia reinar uma energia diferente, e um sentimento de paz tomou conta do coração de Ana. A sisudez que imaginava ser a vida religiosa destoava daquele alegre burburinho no café da manhã. Por vezes sentia-se observada por olhares curiosos, como que tentando adivinhar o que viera fazer num lugar tão remoto.
Após o café a Madre Lídia convidou Ana para conhecer a propriedade. O conjunto todo era realmente bem maior do que Ana havia imaginado. Além da escola, do convento, da capela e da área destinada à manutenção havia ainda um extenso pedaço de terras que abrigavam a padaria, a lavanderia, a rouparia, o pomar, o roseiral, o galinheiro, o parreiral, a pastagem das ovelhas, o viveiro dos coelhos e uma grande parte de mata nativa. Ana não saberia precisar o tamanho real daquela propriedade. A Madre se deteve mais nos prédios e nos detalhes que precisavam dos serviços de Ana. Deu atenção especial à capela e à secretaria do convento. A rouparia também precisava de reparos quase que imediatos na parte elétrica. Na lavanderia ficava a caldeira que mantinha a água aquecida em toda a propriedade. A Irmã Janete era a responsável pela lavanderia e pela caldeira.
A morena percebeu que havia muita coisa por fazer. Tanto melhor, pois assim o tempo passaria mais rápido naquele lugar remoto.
- E então, minha filha? Assustada com a demanda de trabalho? – questionou a Madre.
- Trabalho nunca me assustou. – respondeu Ana com seriedade.
- Ótimo. Percebo que vamos nos dar bem.
A Madre conduziu Ana até a escola para que conhecesse o local. As salas de aula estavam desertas devido ao período de férias escolares e os passos ecoavam pelos corredores. Em época letiva os mesmos corredores mantinham-se silenciosos, no entanto se os ouvidos se aguçassem podia-se perceber a conversa e a movimentação dentro das salas de aula. Os ruídos eram abafados pela generosa espessura das paredes centenárias. Caminharam por um extenso corredor e pararam em frente a uma porta onde se lia "Direção". Madre Lídia abriu a porta e penetrou no recinto, seguida de Ana. Uma freira de hábito cinzento estava registrando alguns dados num caderno de capa escura, sendo que levantou os olhos ao ouvir o barulho da porta. Ao avistar a Madre os olhos da freira brilharam e esta exclamou quase eufórica:
- Bom dia, Madre! Pensei que a senhora nem viesse para cá nesta manhã!
- Bom dia Irmã. Eu estou mostrando o convento e os arredores para nossa nova funcionária. – respondeu a Madre apontando para Ana.
O semblante da freira fechou-se instantaneamente ao avistar Ana. Ela ajeitou os óculos de armação escura na ponta do nariz e Ana sentiu-se observada dos pés à cabeça.
- Ana, esta é a Irmã Teodora, minha assistente. – apresentou a Madre.
- Muito prazer. – disse Ana secamente.
- Igualmente – respondeu a freira em tom mais reservado ainda.
Ana constatou tratar-se de uma mulher de cerca de cinqüenta anos, alta, robusta e de pele clara. Os olhos castanhos eram um tanto quanto juntos e as lentes grossas pareciam deixa-los fora de foco. No entanto podia-se dizer que era uma mulher bonita. Parecia ter o cabelo claro, a julgar pela cor das sobrancelhas, uma vez que os mesmos estavam escondidos sob o véu. Ana sentiu que a Irmã Teodora a olhava com ressalvas, arriscaria até a dizer que com certa antipatia. No entanto esse semblante de poucos amigos se dissipou instantaneamente ao voltar novamente seu olhar para a Madre. Nesse momento voltou a estampar um sorriso nos lábios. Ana era uma mulher muito perspicaz e julgou ter notado algo de diferente naquele sorriso, talvez mais do que admiração pela figura de autoridade. "Bobagem", pensou Ana, "coisas da minha cabeça". De parte da Madre, Ana não percebeu sequer a menor reciprocidade naquela euforia. O fato é que Ana não gostou nem um pouco do olhar que a Irmã Teodora lhe dirigiu e seu sensor interno de perigo acendeu-se automaticamente. Ficaria o mais longe possível dela, para evitar qualquer tipo de confusão.
- Irmã, - continuou a Madre – eu vou terminar de mostrar a escola para Ana e mais tarde venho ajuda-la a colocar essa papelada em dia.
- Eu fico lhe aguardando, Madre. – respondeu a Irmã Teodora sorridente.
Madre Lídia abriu a porta e Ana virou-se para sair. Proferiu um "com licença" seco e quase inaudível, que ficou sem resposta por parte da Irmã Teodora.
Já passava das dez horas da manhã quando a Madre deu por encerrado o passeio de apresentação com Ana.
- Bom, agora acho que já conheces o suficiente para iniciar o trabalho. Hoje podes organizar as tuas coisas e descansar. Amanhã cedo começamos no batente. Pode ser?
- Por mim, tudo bem.
- Então, se me der licença, vou para a secretaria da escola. O almoço é servido do meio dia até a uma hora, no refeitório. As três e meia é a hora do lanche da tarde e a janta é servida das dezenove as vinte horas. Agora que tu já sabes o caminho é só chegar.
- Tudo bem.
- E Ana, tu podes ocupar o galpão da manutenção. Fique a vontade para organiza-lo como quiseres. Afinal, ao que tudo indica, aqui será a tua morada por um bom tempo.
- Pois é. – respondeu Ana sempre mantendo a mesma seriedade.
- Com licença, então. – disse a Madre retirando-se e deixando-a a sós com seus pensamentos.
Ainda era cedo e Ana dirigiu-se ao galpão, portando as chaves que a Madre havia lhe dado. Realmente precisava organizar suas coisas.
Com a claridade do dia pode perceber que seu alojamento era ligado ao galpão por uma porta lateral. Poderia circular sem maiores problemas entre sua "casa" e seu "escritório". Na noite anterior havia entrado em seu quarto pela porta da frente, e estava tão cansada que mal percebeu aquela porta interna de acesso. Abriu o enorme portão da sala de manutenção. Era um portão de ferro de quase dois metros de largura que corria lateralmente sobre um trilho arredondado, um pouco emperrado, evidenciando a necessidade de um pouco de lubrificante nas dobradiças e rolamentos. A referida sala era imensa, com prateleiras em todo o redor do cômodo que ostentavam as ferramentas mais diversas. Num canto uma mesa de madeira e duas cadeiras com assento e encosto de palha, além de uma banqueta de madeira cuja pintura azulada estava descascada e parecia ter um efeito de pátina. Ana constatou que sua Kombi caberia perfeitamente num canto, sobrando muito espaço ainda. Olhou ao redor, respirou fundo e iniciou sua árdua tarefa.
Inicialmente estacionou a Kombi no interior do salão e descarregou o restante de suas coisas. Resolveu começar pelo quarto. Arrumou suas roupas no armário defronte a cama e seus pertences pessoais no banheiro, no criado-mudo e nas gavetas de uma cômoda em cujo espelho refletia-se a vegetação que podia ser avistada do lado de fora da janela entreaberta.
Quando terminou de organizar o quarto percebeu que já faltavam vinte minutos para uma hora. Se deu conta de que estava com fome e correu para não perder o almoço. Ao entrar no refeitório não avistou a Madre, aliás, havia apenas duas freiras mais velhas que ainda terminavam de comer. Cumprimentou-as com um aceno de cabeça, serviu-se e foi sentar numa mesa num canto. Almoçou em silêncio e colocou seu prato, copo e talheres na mesinha auxiliar, onde todas já haviam colocado, para serem recolhidos pelas responsáveis pela cozinha. Foi a última a sair do refeitório. Retornou para sua arrumação. Não chegou a fazer o lanche da tarde, pois queria terminar de organizar o galpão. Um pouco antes das dezoito horas terminou sua tarefa. O dia havia sido quente e Ana precisava urgente de um banho. As dezenove horas já estava no refeitório. Jantou e se recolheu exausta. O dia seguinte prometia ser de muito trabalho.
Mal havia deitado na cama e escutou uma batida discreta na veneziana de madeira. Levantou-se e entreabriu a porta avistando uma figura pequena e sorridente. Era uma freira mais velha, de hábito cinza claro, medindo cerca de um metro e meio e com muitos quilos acima do peso ideal. Tinha o rosto redondo e as faces coradas, o sorriso evidenciava uma dentadura já desgastada pelo tempo. Por sob o véu podia-se ver alguns fios de cabelo grisalho e encaracolado, que grudavam nas têmporas suadas.
- Boa noite, minha filha, desculpe incomodar...
- Tudo bem... o que houve? – quis saber Ana.
- Nada, não houve nada... Meu nome é Celestina, Irmã Celestina. Eu passei aqui só para me apresentar. Sou a responsável pela cozinha e gostaria de dizer que és bem vinda aqui. Olha... – disse a freira estendendo para Ana um pratinho de louça tapado com um guardanapo de papel – eu trouxe pra ti. É um bolinho que eu fiz. Espero que goste. Caso sintas fome de noite.
- Muito obrigada... – disse Ana esboçando um sorriso – mas não precisava.
- Precisava sim. Saco vazio não pára em pé. E se eu bem conheço a Madre ela vai te colocar no batente amanhã. E tem muita coisa pra fazer, muita mesmo. E, minha filha, qualquer coisa que tu precisares pode me pedir, viu?
- Obrigada novamente...
- Minha filha... eu sei que nem sempre quem trabalha consegue comer na hora das refeições... sempre que perderes a hora é só procurar por mim que eu te arrumo uma coisinha pra comer, tá?
- Tudo bem...
- Tu já viste onde é a cozinha, não é mesmo? Eu estou quase sempre lá. Se não estiver é só me procurar. Mas... – disse a Irmã baixando o tom de voz e chegando perto de Ana, continuando em tom de sigilo -...isso é segredo nosso, certo?
- Certo. – concordou Ana.
- Então eu já vou indo, para que possas descansar. Boa noite. – disse virando-se sorridente e caminhando em direção ao convento.
- Boa noite. – respondeu Ana – E... Irmã...
- Sim?... – disse a freira virando-se para trás.
- Obrigada de novo. E caso a senhora precise de qualquer coisa eu também estou à disposição.
- Não vou esquecer! – respondeu sorridente – Um dos bicos do meu fogão vive entupindo, agora já sei a quem chamar! Tu entendes de fogão, não entendes?
- Entendo sim.
- Que bom! Dorme com Deus, minha filha.
- Igualmente. – respondeu Ana.
A morena ainda observou a figura diminuta se distanciando a passos rápidos e curtos e ficou feliz por haver sido alvo da demonstração de bondade daquela senhora. Destampou o pratinho e percebeu tratar-se de um bolo de chocolate com cobertura de côco ralado. Não resistiu e comeu todo o pedaço antes de dormir. Colocou seu relógio de pulso para despertar as seis horas da manhã seguinte.
Antes do despertar do relógio Ana abriu os olhos, mas desta vez não foi Abelardo quem lhe tirou dos braços de Morfeu. Espreguiçou-se languidamente virando-se na cama de um lado para o outro. Foi até o banheiro e tomou um banho rápido, deixando os cabelos soltos até que secassem naturalmente. Colocou um de seus macacões de trabalho e calçou um par de tênis surrados. Antes das seis e meia estava no refeitório. A Irmã Celestina acenou afetuosamente para a morena, que retribuiu o cumprimento. Quando a Madre Lídia chegou para o café da manhã sentou-se ao lado de Ana, saudando-a amigavelmente:
- Bom dia, mocinha. Dormiu bem?
- Muito bem.
- Ótimo. E conseguiste organizar tuas coisas ontem?
- Consegui.
- Então estás pronta para começar o trabalho?
- Estou.
- Que bom. Então vamos tomar nosso café.
Novamente a Madre levantou-se para proferir a oração. Irmã Celestina pediu a palavra:
- Madre, eu poderia fazer um agradecimento especial?
- Com certeza, Irmã. – respondeu a Madre.
- Eu gostaria de agradecer em nossa oração desta manhã a presença de nossa nova funcionária, e agradecer a Deus por tê-la mandado até nosso convento. Que seja bem vinda e que inicie o trabalho conosco com o pé direito! E com as bênçãos de Nossa Senhora do Rosário. Amém.
- Amém! – responderam as demais.
Ana ficou encabulada por ser o centro das atenções naquele momento. Não pôde deixar de perceber o olhar gélido e de viés que a Irmã Teodora lhe dirigiu, instalada numa mesa contígua. Não soube identificar bem o que percebeu naquele par de olhos que a observavam atrás das lentes espessas. Talvez um misto de despeito e... ciúmes? Ana não sabia ao certo. Novamente, porém, teve certeza de que precisaria tomar cuidado com ela.
Ao término do desjejum a Madre conduziu Ana até as dependências da escola. Havia alguns vidros e lâmpadas para serem trocados. Também havia uma sala de aula desativada em virtude de um vazamento que danificou o piso há algum tempo atrás. O vazamento havia sido saneado, mas o piso ainda precisava de reparos.
- Eu gostaria que começasses aqui pela escola. Alguns pais de alunos já andaram reclamando e eu gostaria de organizar tudo antes do reinício das aulas. O material que precisares, lâmpadas, vidros, lajotas, enfim, qualquer coisa, é só pegar no almoxarifado, com a Irmã Diva.
- Tudo bem.
- O que for preciso pegar na Ferragem também é só pedir para ela.
- Entendido.
- As ferramentas estão na sala de manutenção. Já deves ter visto.
- Eu vi sim, inclusive dei uma organizada nas prateleiras.
- Muito bom... – disse a Madre – pelo visto vamos nos dar bem. Gosto de pessoas com iniciativa.
- Posso começar?
- Claro.
- Então, com licença.
- Toda.
Ana afastou-se com passos firmes, sabendo perfeitamente o que havia para ser feito. Nos dias que se seguiram ficou praticamente o tempo todo nas dependências da escola. Seu único contato com as demais Irmãs era na hora das refeições. Desde que chegou não travou nenhum tipo de conversa com ninguém, além da Madre e da Irmã Celestina, que a paparicava sempre que podia. Trabalhou inclusive no sábado.
No domingo a Madre dispensou seus serviços, sugerindo que fosse até a cidade conhecer as redondezas. Como o dia havia amanhecido ensolarado e quente Ana vestiu uma bermuda jeans e uma camiseta regata verde musgo, disposta a dar uma boa caminhada. Havia acordado tarde, quase dez horas. A hora do café já havia passado, e quando se preparava para sair a Irmã Celestina lhe sorriu da soleira da porta do quarto.
- Bom dia, dorminhoca! Dormiu mais que a cama?
- É... de fato eu estava cansada, acabei perdendo a hora.
- Mas eu não esqueci de ti... olha aqui. – disse a velha senhora estendendo-lhe um cestinho de palha com alguns pães de queijo e uma garrafa térmica com café com leite.
- Irmã... não precisava se incomodar.
- Claro que precisava! Eu vejo como você trabalha, minha filha! Não é justo que passe fome.
- Irmã... se tem uma coisa que eu não tenho passado nos últimos dias é fome...
- Bom, mas mesmo assim, trata de comer esses pães!
- Sim senhora. – respondeu Ana frente ao tom amorosamente autoritário da freira.
A mesma virou-se serelepe e retornou para a cozinha cantarolando uma música religiosa.
Ana sentou-se na cama de frente para o criado-mudo e devorou seus pães. Sempre fora comilona, porém graças aos exercícios físicos decorrentes da vida pouco sedentária que levava estes não lhe permitiam engordar. Terminando de comer escovou os dentes e deu mais uma penteada nos cabelos, deixando-os soltos. Fechou a porta de seu quarto e dirigiu-se para o caminho ladrilhado que levava ao pórtico de entrada. Antes de chegar ao portão ouviu um alarido de vozes, em um animado discurso. Da estrada, entrando pelo portão principal, vinham duas freiras de bicicleta. Ao vê-la pararam para cumprimenta-la.
- Bom dia! – disseram quase que em uníssono.
- Bom dia. – respondeu Ana, sempre séria.
- Vai passear? – perguntou a mais velha delas que não aparentava ter mais do que 20 anos.
- Vou.
- Vai até o centro? – continuou bisbilhotando.
- Pretendo. – respondeu Ana já ficando irritada com o interrogatório.
Ana nunca havia gostado de dar explicações de sua vida para ninguém. Fez menção de passar pelo lado, mas a freirinha a interpelou novamente:
- Quer que a gente vá contigo? Podemos te mostrar a cidade.
Ana virou-se com o semblante fechado e já ia responder de forma rude quando olhou pela primeira vez, com mais atenção, para sua interlocutora. Era uma jovem de pele muito clara e belíssimos olhos verde-esmeralda. Alguns fios de cabelo loiro caíam sobre sua testa, como que fugitivos da prisão do véu, e eram embalados pela brisa da manhã. As faces estavam coradas pelo esforço físico de pedalar e pela incidência do sol que àquela altura da manhã já estava quase que a pino. A dentição perfeita ostentava um sorriso encantador e afetuoso que acabou por desarmar a impaciência de Ana. Seria impossível ser rude com aquela criatura, mesmo tendo sido responsável por seu primeiro despertar naquele convento, ao perseguir o galo Abelardo naquela madrugada de quarta-feira. A outra freirinha parecia mais jovem ainda, não devia ter mais do que dezesseis anos, quase uma criança. A pele também alva contrastava com uma cabeleira negra que se escondia sob o véu claro. Os olhos negros como duas jabuticabas maduras eram expressivos e alegres.
- Nós não nos apresentamos ainda, não é mesmo? Que distração a nossa! – continuou a loirinha – Eu sou a Irmã Lúcia. Essa é a Clarice, ela ainda é noviça.
- Muito prazer! – disse Clarice.
- Igualmente. – respondeu Ana com mais tolerância no tom de voz.
- E então? – disse Lúcia – Quer que a gente te mostre a cidade?
- Muito obrigada, mas eu prefiro ir sozinha. – respondeu Ana virando-se e passando por entre as duas bicicletas, seguindo em direção à rua.
- Se mudar de idéia é só chamar! – ainda gritou Lúcia.
Ana apurou o passo e dobrou à direita no portão principal, seguindo pela rua sem asfalto.
- Porque será que ela não quis a nossa companhia? – perguntou Clarice.
- Sei lá... – respondeu Lúcia - ...coisas de gente da cidade grande. Vai entender... Mas vamos logo que eu quero ir até o pomar pegar algumas frutas.
Após sair do campo de visão do convento Ana diminuiu o passo e caminhou vagarosamente até a cidade. Era um típico lugarejo de interior. O comércio todo fechado por ser domingo. Algumas pessoas passeando na praça, algumas crianças correndo pelas calçadas e uma meia dúzia de cachorros tomando banho de sol. Da rua principal saíam várias ruas secundárias, e pronto: terminou-se a cidade. Podia-se percorrer o centro de ponta a ponta em menos de meia hora. Havia pouco recurso naquele local e os moradores acabavam recorrendo a São Nicolau, que ficava a mais ou menos trinta quilômetros de distância. Vale Verde subsistia basicamente do gado de corte e da agricultura. Os rebanhos de ovelhas também eram em quantidades razoáveis. Observava-se grandes propriedades rurais contrastando com algumas pequenas propriedades, estas ultimas sem os recursos de maquinários e tecnologia das primeiras. A solução foi trabalhar em cooperativa. E parecia estar dando certo, pois em Vale Verde não se observava muita miséria, uma vez que o desemprego era quase nenhum, sempre havia a possibilidade de se conseguir trabalho nas fazendas. Obviamente existia o jugo dos donos de terras sobre os menos favorecidos, mas de modo geral Vale Verde parecia conviver bem com isso.
Ana caminhou até a bodega na qual havia pedido informações no dia que chegou à cidade. O bar estava com as portas abertas e algumas mesas de bilhar estavam empilhadas num canto. Um funcionário fazia a limpeza do local. Não havia um único cliente no estabelecimento. Ana entrou e dirigiu-se ao balcão. O funcionário largou o rodo e o balde d’água e veio em sua direção.
- Pois não, madame.
- Uma cerveja.
- Garrafa?
- Lata.
- Tem preferência?
- Me vê uma Brahma.
O rapaz estendeu a cerveja e Ana pagou com uma nota de dez. Colocou o troco no bolso da bermuda e limpou a parte de cima da lata com um guardanapo de papel. A latinha estava estupidamente gelada e Ana sorveu os primeiros goles com os olhos semicerrados, entregando-se ao prazer de sentir aquela bebida gélida descendo por sua garganta seca.
Neste momento o dono do bar, que havia conversado com ela na noite em que chegou à cidade, entrou por uma porta lateral e veio na direção de Ana, reconhecendo-a.
- Bom dia, moça.
- Bom dia.
- Achou o convento, então? – perguntou o homem olhando Ana de cima a baixo intrigado, pois sua vestimenta em nada se assemelhava aos trajes usados pelas freiras.
- Achei.
- E ta parando por lá?
- Tô.
O homem estava de fato curioso, porém o tom de voz de Ana o desencorajou a formular maiores questionamentos. Tratou de organizar o balcão. Quando Ana enfim pediu mais uma cerveja o homem não se conteve:
- A moça vai ficar por aqui muito tempo?
- É possível.
- Mas... faz o quê no convento?
- Além de rezar? – respondeu Ana ironicamente.
- É...
- Manutenção.
- Mas isso é serviço de homem...
- Mas é o que eu faço.
O dono do bar coçou o queixo enquanto continuava a observar a forasteira.
- A moça veio de onde?
- De longe. – respondeu Ana demonstrando pelo tom de voz que a conversa acabava por ali.
- Ah... Bom, seja bem vinda então. Quando precisar dos serviços do meu estabelecimento estamos à disposição.
- Se joga bilhar por aqui ou as mesas são só enfeite?
- Se joga sim senhora, quase todas as noites. A homarada vem em peso! – disse o bodegueiro empolgado – Mas se a moça quiser jogar também não tem problema... – continuou tentando retificar a gafe.
- Quem sabe um dia desses... – respondeu Ana virando-se e saindo do bar.
O homem ficou parado observando o caminhar de Ana enquanto se distanciava. "Que monumento...", pensou, "tem um jeitinho meio esquisito, meio abrutalhado, mas é um mulherão... ô se é".
Ana retornou ao convento por volta das duas horas da tarde. No seu criado-mudo encontrou uma vianda térmica com seu almoço e uma jarra de suco natural de laranja. Sorriu e sentou-se para comer. Por certo havia sido a Irmã Celestina que estivera ali. Após comer deitou-se por cerca de uma hora para descansar da caminhada. Por volta das três e meia resolveu explorar o restante da propriedade do convento. Saiu para caminhar em direção aos fundos, onde lhe falaram que havia o pomar, o galinheiro e as pastagens.
Seguiu por uma viela margeada de arbustos floridos. Depois de cerca de cinqüenta metros a vista se abria numa clareira onde uma construção rústica abrigava cerca de trinta galinhas. Ao lado o viveiro dos coelhos, todo cercado de uma tela miúda, tinha no seu centro uma casinha de madeira pintada de amarelo, com portas minúsculas que serviam de entra-e-sai para as bolinhas de pêlo que ocupavam aquele espaço. Ana contou cinco coelhos, quatro brancos e um negro como o ébano. Colheu um feixe de capim rasteiro e introduziu pequenas porções de vegetação pelos espaços da tela. Os pequenos animaizinhos, com seus narizes avermelhados, comeram avidamente a refeição oferecida. Ana divertiu-se com a cena. Ficou quase meia hora observando os pequenos roedores. Resolveu seguir seu passeio exploratório. Continuou caminhando na direção dos fundos da propriedade. Após um ligeiro declive o terreno se fechava numa mata nativa. Havia uma trilha estreita e Ana resolveu enveredar por ela. Caminhou vagarosamente observando o colorido das folhas e sentindo a umidade agradável da vegetação cerrada, contrastando com o calor do sol de verão. Andou mais de meia hora prestando atenção na trilha para não se perder na volta. De repente começou a ouvir um barulho de água corrente e um quase inaudível burburinho de vozes. Aguçou o ouvido e seguiu em frente silenciosamente. Não chegou a andar dez metros e avistou uma pequena queda d’água, de aproximadamente três metros de altura, que formava uma piscina natural e que dava vazão a um pequeno córrego que seguia encosta abaixo. Protegida pela vegetação abaixou-se e observou duas silhuetas que se banhavam na água gelada que escorria pelas rochas. Era Lúcia e Clarice que tagarelavam alegremente.
- Ai, que coisa boa essa água, ein? – disse Clarice.
- Ta uma delícia! Esse córrego é uma bênção dos céus num dia como hoje!
- Nem fale... Mas, Lúcia...
- O que é?
- E se a Madre souber que viemos aqui?
- O que é que tem?
- Ela vai nos xingar. – disse Clarice em tom de preocupação.
- Não vai nada. – respondeu Lúcia.
- Vai sim! Ela sempre disse que não era pra gente vir pra esses lados!
- Mas ela não precisa ficar sabendo...
- Mas e se ela perguntar? – insistiu Clarice.
- Mas ela não vai perguntar!!!
- Como é que tu sabe?
- E porque ela perguntaria? – quis saber Lúcia.
- Sei lá! Às vezes a Madre parece adivinhar os nossos pensamentos...
- Mas se tu não fizeres uma cara de quem fez pum na missa ela não vai saber! – disse Lúcia.
- Tu acha?
- Tenho certeza! É só a gente esperar o cabelo secar e pronto! – respondeu Lúcia jogando água no rosto de Clarice, numa brincadeira divertida.
Naquele momento era Ana quem estava se divertindo com a traquinagem das jovens freiras. Pensou em dar um susto nas duas, mas desistiu de seu intento imaginando o embaraço por que passariam as transgressoras. Nesse instante Lúcia nadou até a borda e saiu de dentro d’água. De seu posto de observação Ana pode ver a silhueta do corpo da jovem que trajava apenas uma calcinha e uma camiseta regata branca e transparente em decorrência de estar molhada. Prendeu a respiração e não conseguiu desviar a atenção dos bicos endurecidos dos seios que se projetavam da blusa molhada. A jovem tinha o corpo pequeno, mas muito bem definido. Os cabelos molhados e soltos pendiam até a metade dos ombros, num corte reto. Lúcia sentou-se numa pedra onde os raios do sol conseguiam penetrar pela vegetação, na intenção de se secar. Ana pode perceber o reflexo da água nos pêlos dourados dos braços e das pernas. Quando Lúcia fez menção de tirar a blusa para colocar o hábito que repousava num galho de árvore Ana virou-se abruptamente, desviando os olhos do que considerou ser um pecado. "Que é isso, Ana", pensou consigo mesma, "ela é uma freira! Quer arder no fogo do inferno?", "além do quê é quase uma criança". Recriminando-se pelos seus pensamentos afastou-se em silêncio e tratou de voltar para casa. De volta ao seu quarto olhou-se no espelho, estava transpirando muito. Foi até o galpão da manutenção e colocou sua luva de boxe, caminhando até o saco de areia que havia estrategicamente pendurado num canto. Praticava boxe desde muito jovem e naquele momento sentiu necessidade de canalizar sua energia para desanuviar sua mente. Treinou por mais de hora soqueando o adversário imaginário. Por fim, exausta, tomou um banho relaxante. Já estava na hora da janta. Foi até o refeitório e deparou-se com as duas arteiras sentadas lado a lado, com as caras mais deslavadas possíveis, como se nada tivessem feito de errado. Na verdade Ana não via nada de errado em nadar num dia quente como aquele. Talvez fosse arriscado por ser um lugar ermo, mas só por isso. Jantou cabisbaixa e recolheu-se aos seus aposentos para dormir. A segunda-feira prometia ser apenas o início de uma semana de bastante trabalho.
No dia seguinte Ana acordou cedo e se pôs a trabalhar novamente na escola. Calculava que teria ainda mais sete ou oito dias de serviço naquele local, até que tudo ficasse em ordem, como a Madre havia lhe pedido. Ana costumava trabalhar cabisbaixa e compenetrada, sem se dispersar nem tão pouco fazer "corpo mole". A Madre Lídia admirava essa qualidade que vinha observando em sua nova funcionária. Na manhã de quarta-feira, enquanto observava Ana em sua atividade, sem que esta última percebesse sua presença, constatou estar cada vez mais satisfeita em ter aceitado o desafio proposto por sua sobrinha Denise. No entanto se deu conta de que enquanto Ana estivesse trabalhando ali não teria de fato uma fonte de renda e não disporia de sequer alguns tostões caso quisesse comprar um par de meias. Com estes pensamentos a Madre chamou a atenção de Ana:
- Ana.
A morena levantou os olhos, secou o suor da testa com o verso da mão e respondeu:
- Sim?
- Poderíamos conversar um pouco? Na secretaria?
- Tudo bem. – respondeu Ana seguindo a Madre.
Ao entrarem na secretaria da Escola Ana sentiu novamente o olhar gélido da Irmã Teodora. Algumas vezes, enquanto trabalhava nas salas de aula, percebia a Irmã Teodora a observa-la de soslaio. Por vezes a freira tentava disfarçar e por outras fazia questão de que Ana notasse sua presença, como que tentando demonstrar uma hierarquia, uma subordinação ao seu olhar perscrutador. Ana conseguia se controlar e demonstrava uma total indiferença à sua presença. Por vezes precisava se esforçar para isso, mas fazia o possível para evitar atritos. Por certo essa atitude de Ana, de não revidar provocações, acabasse por mobilizar ainda mais os sentimentos negativos daquela mulher em relação a ela.
A Madre apontou para uma cadeira em frente à sua mesa, pedindo que Ana se instalasse ali. Logo após dirigiu-se à Irmã Teodora:
- Irmã, a senhora poderia nos dar licença por alguns momentos? – pediu a Madre.
A mulher assentiu com a cabeça, levantou-se e quando passou por Ana dirigiu-lhe um olhar de reprovação. Ana tratou de olhar para a Madre, demonstrando controle da situação. Por alguns instantes pôde-se ouvir o ecoar das passadas fortes da Irmã Teodora no corredor deserto, afastando-se dali.
- Desculpe os rompantes da Irmã Teodora – justificou-se a Madre, num tom conciliador – mas é que ela tem alguns posicionamentos muito... digamos, arraigados. E tem dificuldades de aceitar mudanças.
- Do tipo?...
- Contratar uma pessoa... diferente do que costumávamos contratar.
- Entendo. – respondeu Ana.
- Mas ela é uma boa pessoa. – defendeu a Madre – Só que tem uma necessidade de centralizar informações e gosta de participar das decisões referentes à dinâmica do convento. Mas na verdade eu sou a culpada por isso, que sempre a fiz participar de tudo. Ela é o meu braço direito aqui dentro. E quando eu decidi aceitar sua vinda para cá não comentei com ninguém, nem com ela. Isto provavelmente a tenha deixado ressentida.
Ana continuava ouvindo a Madre, calada e séria.
- Bom, mas eu não a chamei para falar sobre Teodora, e sim sobre ti. E então? O que tem achado desses dias por aqui? Estás assustada com a demanda de serviço?
- Como eu já lhe disse o trabalho nunca me assustou.
- Bom... e... e o resto?
- Que resto?
- Tu sabes bem do que eu estou falando Ana.
- Está tudo bem.
- Eu estive pensando... enquanto trabalhares como prestadora de serviços não terás uma fonte de renda, de fato.
- Não se preocupe, eu tenho umas economias com as quais vou me virando.
- Ana, eu tenho observado teu desempenho e estou muito satisfeita. Muito mesmo. Com o teu desempenho e com a tua postura. Por isso gostaria de acertar contigo um valor pelas horas que acabas trabalhando a mais do que um expediente normal de trabalho.
- Não é preciso.
- Eu acho que é. – respondeu a Madre num tom gentil e firme. – Por certo será um valor bem inferior ao que receberias normalmente, mas é o que podemos bancar com a verba da Ordem para os serviços de manutenção. Ao menos não dependerás das tuas economias ou da bondade alheia para custear um refrigerante na cidade.
"Ou para pagar uma mulher qualquer...", pensou Ana ironicamente.
- Tudo bem então, Madre, eu agradeço a sua compreensão. Seria só isso? Ainda tenho muito trabalho que gostaria de terminar hoje.
- Sim. É só isso.
- Então... com a sua licença. – disse Ana levantando-se para voltar aos seus afazeres.
- Toda.
A Madre ainda ficou na secretaria por mais um tempo tentando adivinhar o que Ana pensava a respeito das coisas. Ana era uma mulher enigmática, circunspeta e calada. Mas a Madre gostava dela. Na verdade confiava nela. E nem saberia dizer o porquê.
Na manhã do dia seguinte, quinta-feira, no refeitório, a Madre veio ter com Ana antes mesmo de tomar seu café.
- Bom dia Ana, hoje eu gostaria que tu me fizesses um favor especial.
- Se estiver ao meu alcance...
- É que conseguimos uma linha telefônica nova e quero destina-la especificamente para a internet. Poderias puxar uma extensão do poste até o escritório do convento?
- Posso sim.
- Que ótimo. Já pedi para a Irmã Diva comprar a fiação e as tomadas. Ela disse que sabe bem o que é preciso e já saiu para buscar.
- Tudo bem então. Assim que ela chegar eu coloco para a senhora.
- Muito obrigada, então. Se quiser aguardar no seu quarto eu peço pra ela te chamar assim que voltar da cidade.
- Tá.
Eram pouco mais de oito e meia e Ana escutou o ronco do motor do fusca bege do convento retornando com a Irmã Diva na direção. Ela era uma mulher muito alta e magra, com pés grandes dentro de botinas de couro pretas, cabelo escuro preso num coque no alto da cabeça, dispensava o véu que quase todas as demais usavam. Poderia ser comparada sem exageros com a "Olívia Palito". Usava óculos de aros redondos sempre na ponta do nariz afilado. Estava sempre correndo de um lado para outro. E era a motorista oficial do convento. "Sem nunca haver tido uma multa sequer!", gabava-se ela.
Tão logo desembarcou, Ana foi ao seu encontro e a freira lhe passou os materiais que precisava. De posse deles Ana foi até a secretaria. Viu com a Madre o local exato onde ela queria que fosse instalada a tomada e foi para o galpão do almoxarifado buscar a escada. Em menos de vinte minutos puxou a fiação do poste até a parede do convento. Devido a espessura da construção achou melhor fazer uma entrada pelo marco de madeira da janela. O barulho da furadeira elétrica fez a Madre sair por uns minutos da sala. Ana estava quase concluindo a sua tarefa quando se deu conta que faltariam alguns grampos para fixar o fio na parede. Foi até o almoxarifado para busca-los e ao retornar a porta da secretaria estava entreaberta. Ana pôde ouvir claramente o trecho final da conversa que se desenrolava lá dentro, entre a Irmã Teodora e a Madre que evidenciava irritação no tom de voz, aliás, uma entonação que Ana desconhecia até então naquela mulher ponderada e de muita classe.
- Mas eu não entendo, Madre! – dizia a Irmã Teodora.
- Não entende o quê, Irmã?
- A contratação dessa moça! Nós sempre contamos com o serviço do Seu Jorge e dos voluntários...
- Sim, e por conta do Seu Jorge e dos voluntários nossa escola estava caindo aos pedaços! E o nosso convento também não está lá essas coisas!
- Mas Madre...
- Nada de mas... Eu quero deixar bem claro que quem dirige este convento e esta escola sou eu, e EU tomo as decisões que julgar necessárias para o bom funcionamento desse local! E não preciso de conselhos! Quando porventura precisar eu peço, caso contrário, mantenha-se no seu lugar! Ou será que a senhora pretende assumir o meu lugar junto à Ordem?
- Não, Madre, por favor, não é nada disso... eu só quero ajudar...
- Já disse que se precisar de ajuda eu peço.
- Mas essa moça é diferente de nós... é esquisita... é da cidade grande...
- Assunto encerrado, Irmã. – disse a Madre enfaticamente. – Agora me dê licença.
- Mas eu tenho trabalhos por fazer aqui no escritório...
- A senhora está dispensada por hoje. Tire o dia de folga. Vá passear, distraia-se. E reze! Reze para que Jesus abra o seu coração e permita que consiga ver que todos somos iguais perante Ele. Ou por acaso esqueceu dos seus votos?
- Não senhora, não esqueci.
- Então tente repensar suas atitudes dos últimos dias.
A Irmã Teodora baixou os olhos, que se encheram de lágrimas, e retirou-se da secretaria, passando por Ana como um raio, quase que esbarrando em seu ombro. Na passagem dirigiu-lhe um olhar de ressentimento.
Ana respirou fundo e entrou no recinto como se não houvesse escutado nada. A Madre, por sua vez, também não falou sobre o assunto, desviando a conversa para as maravilhas do mundo virtual. Apesar de estar a bem pouco tempo naquele local Ana já conhecia a Madre o suficiente para perceber que ficara mobilizada e entristecida com o teor da conversa com a Irmã Teodora. Mas por certo saberia contornar aquela situação.
Ana ainda trabalhou na escola na sexta-feira e deu por encerrada sua tarefa naquele local antes do final da tarde. A Madre, satisfeitíssima com os resultados da reforma, disse para Ana descansar naquele sábado e domingo.
No sábado Ana acabou acordando cedo, porém após o café da manhã voltou para seu quarto e deitou mais um pouco, pegando no sono novamente e dormindo até quase o meio dia. Deu-se conta de que estava cansada, porém o sono fora de hora acabou sendo bastante reparador.
Depois do almoço aproveitou para lavar algumas roupas e dar uma geral em sua Kombi. Depois optou por ouvir um pouco de música estirada confortavelmente numa rede que havia prendido num dos cantos do galpão.
Por volta das dezessete horas, quando os raios do sol já não estavam tão escaldantes saiu para dar um passeio, queria conhecer melhor o pomar. As árvores frutíferas ocupavam uma vasta área e podia-se encontrar as mudas mais variadas. Ana teve sua atenção despertada para um canto do terreno, perto de uma encosta rochosa, onde a claridade direta do sol pouco batia conferindo uma umidade propícia para o desenvolvimento de quatro pés de figos. Estes germinaram lado a lado e suas copas acabaram se fundindo numa só. Estavam carregados de frutos, a grande maioria maduros. Ana sempre teve uma predileção por figos maduros, desde pequena, e aquelas frutas pareciam sorrir-lhe, convidando-a a um banquete digno dos deuses. As copas cerradas com galhos carregados de frutos faziam com que as hastes da ponta chegassem quase que até o chão, formando uma caverna de vegetação, na qual se podia facilmente entrar e saciar a fome. E Ana não se fez de rogada: penetrou na densa camada de ramos e sentiu-se num paraíso. Era a primeira vez que via uma figueira tão carregada de frutos. Tirou do bolso um canivete que sempre carregava consigo e passou a descascar alguns frutos, saboreando-os com avidez. Enquanto se deliciava começou a escutar um cantarolar baixinho vindo em sua direção e espiou através dos galhos da figueira. Era Lúcia que vinha saltitante, cantarolando uma música de aleluia. De seu posto Ana podia novamente observa-la sem ser vista. A freirinha parou a menos de dez metros de distância, à sombra de um gigantesco abacateiro que àquela altura do ano não possuía uma única fruta em seus ramos, somente folhas de um verde intenso. Olhou para cima, tirou suas sandálias e sungou seu hábito até a altura das coxas, introduzindo a barra da saia no elástico da calcinha. Ficou parecendo usar fraldas. Ana teve de rir da cena. Estava sem o véu e os cabelos loiros estavam presos num rabo-de-cavalo. Em seguida Lúcia tirou um pequeno binóculo de dentro de uma sacola plástica e o pendurou no pescoço. Num pulo ágil escalou o caule mais grosso da árvore com a agilidade de um primata. Em seguida empreendeu uma escalada na direção dos galhos mais altos. "Essa garota parece um moleque...", pensou Ana enquanto saia de seu esconderijo e caminhava em direção ao abacateiro. Lúcia estava tão distraída observando pássaros que nem sequer notou a aproximação da morena. Posicionada bem em baixo de onde Lúcia estava, Ana podia ver o contorno de suas pernas e o amarelo claro de sua calcinha de algodão por baixo do hábito cinzento. Ana observava a cena divertida e encantada com a agilidade daquela macaquinha loira. No entanto, por vezes, até os macacos caem das árvores. Ao tentar posicionar melhor seu pé esquerdo, o galho em que se apoiava acabou quebrando e Lúcia despencou como uma jaca madura. Desta vez foi Ana quem, num movimento preciso e de puro reflexo, aparou Lúcia em pleno ar, evitando que se estatelasse no chão. Seus braços fortes, acostumados ao trabalho pesado, não tiveram nenhuma dificuldade em amparar a pequena freira em queda livre. Com os olhos arregalados de susto, e sem entender bem o que se passava, Lúcia ainda no colo de Ana encarou sua salvadora e sorriu incrédula franzindo o nariz:
- Ooooi... Tu vem sempre aqui?
- Não, só quando resolvo colher freiras. – respondeu Ana colocando Lúcia no chão delicadamente. – Machucou?
- Não... e tu? Machucou alguma coisa? Eu sou meio pesadinha.
- Não mais que um pneu de trator.
- E tu por acaso já levantou um pneu de trator??? – disse Lúcia em tom de deboche.
- Alguns.
- Tá brincando...
- Não, não tô.
- Mas mesmo assim... é diferente.
- Com certeza. Pneus não correm o risco de se enforcar com o tirante de um binóculo.
- Ah... – Lúcia sorriu – não tem perigo nenhum! – disse ajeitando o binóculo que fora parar nas costas.
- Tem sim. Não escale mais nada com esse treco pendurado no pescoço, ou com qualquer outra coisa que possa servir de forca. Você não tem amor à vida?
- Claro que tenho! Mas eu não ia adivinhar que cairia! – respondeu Lúcia colocando as duas mãos na cintura, numa pose desafiadora olhando Ana de baixo para cima.
- Mas devia.
- Tu tá falando igualzinha a Madre!
- Aliás, a Madre sabe desse teu gosto por alpinismo?
Lúcia arregalou os olhos como uma criança travessa e pediu:
- Nãããão... e nem pode ficar sabendo... por favor, não vai contar.
- Vou pensar.
- E se eu prometer não subir mais.
- Pode subir, mas sem esse troço no pescoço.
- Combinado! – concordou Lúcia sorridente enquanto ajeitava a parte de baixo do hábito.
Ana virou-se e começou a se afastar do pomar.
- Eeeeiii, - gritou Lúcia, correndo atrás de Ana – Onde é que tu vai agora?
- Não te interessa.
- Não seja mal educada! Eu ia te convidar para um passeio.
- Já passeei o suficiente hoje. – respondeu Ana caminhando com passadas largas e rápidas.
Lúcia precisava quase que correr para poder acompanha-la.
- Tem uma trilha bem legal aqui perto. – insistiu Lúcia.
- Já falei que não tô a fim.
- Tu é sempre assim mal humorada?
- Só quando me torram a paciência.
Lúcia desacelerou o passo e respondeu:
- Pois então tá. Um bom dia pra ti também! Eu vou rezar para que Deus proteja o teu estômago de uma úlcera! Pois pelo teu humor é capaz de já teres umas duas ou três.
Ana chegou a parar para responder, mas ao olhar a figura diminuta parada com as mãos na cintura e os cabelos revoltos, bufou e continuou sua marcha para casa. Logo após a janta recolheu-se, dormindo cedo.
O domingo amanheceu bastante quente e o dia prometia passar dos quarenta graus de temperatura. Por ter se recolhido cedo Ana acabou acordando bem cedo também, antes mesmo do raiar do sol. Tomou uma ducha quase fria, pois havia transpirado muito durante a noite, apesar de haver deixado a janela totalmente escancarada, permitindo a entrada da aragem noturna. Colocou uma bermuda de lycra preta e uma camiseta regata branca por cima de um top vermelho que podia ser visto pelas laterais da cava da manga. Calçou um par de chinelos havaiana brancos e saiu para a rua, a fim de respirar o ar fresco da manhã, antes que a temperatura subisse e tornasse o dia insuportavelmente quente. Eram pouco mais de cinco horas da manhã e Ana observou movimentação na capela. Dirigiu-se até a porta alta de madeira escura e esculpida que se encontrava aberta, como num convite a alguns minutos de recolhimento e oração. Galgou os cerca de dez degraus que separavam a rua do pórtico da ermida e chegou até a soleira da porta. Espiou para dentro do local iluminado apenas por uma meia dúzia de velas tremulantes ardendo no altar e pela luz artificial vermelha e contínua do Sacrário. Os primeiros bancos estavam tomados pelas Irmãs do convento. Algumas ajoelhadas, outras, as mais velhas, sentadas e totalmente absortas nos livros de orações. O silêncio era tamanho que se podia quase que ouvir os compassos das respirações daquelas mulheres. Ana não ousou mover um único passo em direção ao interior da capela, temendo quebrar o silêncio absoluto e quase mágico que reinava no local. Por causa dos véus e da penumbra não conseguia distinguir quem era quem naquele ambiente.
O silêncio sepulcral da capela foi quebrado pelo som melodioso e suave da voz da Madre Lídia que iniciou a reza do terço. As demais Irmãs respondiam em uníssono a cada pausa da Madre, e o desenrolar mântrico do terço, ecoando na acústica da construção antiga, conferiria uma sonoridade característica e envolvente.
Ana havia percebido que esse ritual na capela acontecia todas as manhãs, sem exceção. Eventualmente, em horários diversos, não era raro de se ver uma movimentação silenciosa na ermida, fruto de peregrinações solitárias ou em pequenos grupos de freiras. Outra peculiaridade era o toque do sino sempre que o relógio marcava seis da manhã, meio dia, três da tarde e seis da tarde.
Sem fazer qualquer ruído Ana afastou-se do local, ainda escutando o ecoar longínquo das vozes em oração. Colocou uma cadeira de praia defronte a porta de seu quarto e estirou-se para trás, pensando acerca dos últimos acontecimentos de sua vida, principalmente desde que chegou naquele convento. De fato a experiência não vinha sendo de todo desagradável, como pensara que seria. Muito pelo contrário. Apesar da demanda de trabalho e das implicâncias da Irmã Teodora, estava se sentindo bem, principalmente devido à acolhida da Madre Lídia e aos paparicos da Irmã Celestina. Puxando pela memória se deu conta de que nem mesmo sua mãe havia lhe dispensado tantos cuidados quanto esta última. Não havia dia em que a Irmã Celestina não lhe desse uma coisinha diferente para experimentar. Inclusive costumava parar um pouco para conversar com ela, obrigando-a a fazer uma pausa no trabalho que estivesse realizando. E isto não a incomodava, pelo contrário, sentia-se bem, embora não fosse pessoa de muitas palavras e na maioria das vezes era a freira quem tagarelava e ela respondia com monossílabos. A Irmã Celestina lhe ficara agradecida por ter dado uma geral em seu fogão industrial, desentupido os bicos e regulado o forno. "Ficou uma maravilha!!!", dizia a freira radiante.
Perdida nesses devaneios foi trazida de volta à realidade pelo toque grave do sino da torre da ermida. Percebeu, depois de alguns minutos, que as Irmãs cruzavam o portal de madeira da capela e caminhavam na direção do refeitório. Resolveu dar um tempo e foi tomar seu café da manhã quando quase todas já haviam terminado. Ao sentar-se numa mesinha de canto Lúcia passou por ela e lançou-lhe um tímido bom dia, ao que Ana respondeu com um maneio de cabeça. Lúcia serviu-se de café e ajeitou duas fatias de pão num pratinho. Como não havia mais ninguém no refeitório foi até a mesa de Ana e perguntou-lhe docemente:
- Posso sentar aqui contigo?
- Pode. – respondeu Ana secamente.
- Com licença, então – disse instalando-se numa cadeira de frente para Ana, que permanecia com os olhos voltados para sua xícara de café.
Depois de alguns minutos Lúcia puxou conversa:
- Pretende passear hoje?
- Não sei.
- Pode ficar tranqüila que não vou me oferecer para te ciceronear.
- Que bom.
- Tu é sempre assim ranzinza? – provocou Lúcia.
Ana respirou fundo, cruzou os braços e olhou diretamente para Lúcia. Novamente os olhos verdes e espontâneos da freirinha não lhe permitiram uma explosão de raiva. Respondeu pausadamente:
- Não... as vezes eu consigo controlar minha tendência psicopata e não chego a estrangular quem tenta me tirar do sério.
Lúcia deu uma gargalhada e respondeu:
- Então eu sou uma sobrevivente!
- De certo modo, sim...
- Bom saber! – respondeu Lúcia dando uma bocada em seu pão com geléia de uva. Ao engolir continuou - ...tu não contou nada pra Madre sobre o pomar? Contou?...
- Não.
Lúcia sorriu franzindo o nariz:
- Obrigada... fico te devendo essa.
- Não me deve nada.
- Ótimo então, eu não gostaria de ficar em débito com uma psicopata.
Desta feita foi Ana quem teve de ceder e um breve sorriso se estampou em sua face.
- Eeeeiii... tu sabe rir! E que sorriso lindo!
Novamente Ana ficou séria e desconcertou-se com o elogio de Lúcia. Tomou o último gole do café de sua xícara, pediu licença e retirou-se, deixando Lúcia sozinha no refeitório.
Por volta das dez horas da manhã Ana resolveu dar mais uma caminhada pela extensa propriedade do convento. Desta vez andou em direção à pastagem das ovelhas. Eis que após uns quinhentos metros de onde estava começou a ouvir vozes em algazarra e eventualmente um apito agudo. Ao dobrar à esquerda numa pequena estradinha coberta de brita grossa deparou-se com uma rústica quadra de vôlei onde as freiras estavam reunidas disputando uma partida animada. Um pouco mais afastado havia um banco de madeira, a única arquibancada para as espectadoras que eram em número de seis, fora a Madre que apitava o jogo. As demais estavam dispostas em dois times de seis jogadoras cada. Ao avistar Ana de longe a Madre acenou para ela, fazendo um sinal para que se aproximasse. A Madre estava posicionada numa banqueta de madeira, na linha da rede e segurava o apito na mão direita, enquanto observava a trajetória da bola. Ana foi se aproximando e logo a irmã Celestina lhe abanou, convidando-a a sentar-se a seu lado. Ana acomodou-se entre as Irmãs Celestina e Sebastiana, que lhe sorriu com a amabilidade dos seus noventa e três anos. Tanto as jogadoras como a torcida eram muito animadas. Ana começou a observar o jogo e viu que Lúcia compunha um dos times que, aliás, perdia deslavadamente do outro time. As componentes do time de Lúcia eram as mais novas dali, além de uma freira mais velha e outra estrábica. O time adversário era liderado pela irmã Teodora e jogava relativamente bem. O placar chegava a ser uma piada. Os dois sets que Ana inicialmente assistiu foram perdidos de zero pelo time de Lúcia. Logo após iniciarem o terceiro uma componente do time de Lúcia, Geovana, pisou em falso e sentiu dor no tornozelo. Disse não ter mais condições de jogar. Ana pensou consigo mesma, "boa desculpa, garota...". Nesta ocasião originou-se a polêmica de quem iria substituí-la para que o jogo continuasse. As freiras mais velhas estavam fora de cogitação, as mais novas alegavam as desculpas mais variadas para não jogar no time perdedor. No meio do burburinho formado a Madre assoprou com veemência o apito, emitindo um som forte e agudo que fez com que todas calassem a boca instantaneamente. Madre Lídia virou-se para Ana e sugeriu:
- Ana, tu não gostarias de participar dessa nossa brincadeira?
Ana foi pega de surpresa e meio que gaguejou:
- Não... não...
- Mas parece que só tu tens condições de colaborar conosco... – insistiu a Madre.
Lúcia correu até ela e pediu, olhando-a fixamente:
- Por favor...
"Novamente esses olhos verdes... puta que pariu..", pensou Ana sem conseguir formular nova negativa. A Irmã Celestina deu-lhe um tapinha na perna e disse carinhosamente:
- Vai, vai...
Ana se levantou e todas comemoraram com pulinhos de felicidade e batidas de palmas. Menos Irmã Teodora que observava Ana com seriedade e disse à meia voz:
- Ainda acho que seria melhor tirar alguém do nosso time, assim ficaria parelho.
A Madre dirigiu-lhe um olhar de reprovação, uma vez que percebeu que Ana havia escutado o comentário maldoso. "Agora é uma questão de honra", pensou Ana com seus botões. A morena dirigiu-se para a quadra enquanto as demais jogadoras a cercavam. As freiras estavam vestindo abrigos cinzentos e camisetas brancas, como se estivessem uniformizadas para a partida. Antes de reiniciar o jogo Ana pediu à Madre:
- Madre, eu preciso conversar com o meu time um pouco, pode ser?
- Claro...
Ana conduziu seu time para uma distância em que pudesse falar sem ser ouvida pelas demais. Abaixou-se um pouco e começou a falar baixo e claro.
- Muito bem meninas... O placar não está a nosso favor, mas vamos confiar que temos condições de jogar bem, ok?
- Ok! – responderam as demais.
- E vamos confiar em Jesus! – disse a Irmã Margarida, que era a mais velha do time, com sessenta e cinco anos.
- Vamos... – concordou Ana - ...se bem que não sei se Jesus manja esse lance de vôlei...
Lúcia cutucou Ana no cotovelo. A morena continuou.
- A senhora é a Irmã?...
- Margarida! – respondeu a mulher mais velha.
- Muito bem... Irmã Margarida! A senhora é uma mulher alta, tem braços longos.
- Tenho quase um metro e oitenta!
- Pois então... Eu quero que a senhora se posicione na rede. E erga os braços. O mais alto que puder. Pode ser?
- Pode...
- Então me mostre como. – disse Ana.
A freira levantou os braços somente até a altura das orelhas.
- Irmã... eu acho que a senhora não entendeu... Tem que levantar mais alto, assim ó... – e Ana fez o gesto – imagine que a senhora se deparasse com... sei lá... com o Papa, por exemplo, e precisasse saudá-lo! A senhora ficaria assim de braços abaixados como se estivesse com o desodorante vencido?
O time inteiro gargalhou e Irmã Margarida respondeu efusiva:
- NÃO... Eu acenaria assim! – e levantou os braços o mais que pode, pulando inclusive.
- Isso! Muito bom! Agora é só fazer isso quando estiver na rede. Combinado?
- Combinado! – respondeu a freira sorridente.
- E a senhora é?...
- Irmã Irene!
- Bom Irmã Irene... – disse Ana dando três passos largos para trás e afastando-se dela – Daí de onde a senhora está eu gostaria que apontasse para a minha mão erguida.
A freira imediatamente apontou para o braço erguido de Ana, porém com um desvio de mais ou menos trinta graus, por conta do estrabismo. Ana se aproximou novamente e disse:
- Irmã, onde estão os seus óculos?
- No meu quarto!
- E porque a senhora não joga com eles?
- Bom... porque não posso correr o risco de quebrá-los. É muito caro fazer novos!
Ana coçou a cabeça pensativa:
- Bom... então vamos fazer assim: quando a senhora estiver no saque, e eu vi que a senhora tem um saque potente, ao invés de mirar no alvo a senhora vai direcioná-lo cerca de trinta graus para a direita, e pode baixar o braço com vontade! Combinado?
- Combinado!
- Bom, você Irmã Lúcia, pare de pular como uma pipoca na fogueira. Fique na sua posição sem atrapalhar as outras. E pule o mais alto que puder para cortar essa porra de bola!
Fez-se um silêncio e Ana ficou encabulada pelo palavrão:
- Perdão! Eu me exaltei. Mas vamos continuar. Você... – disse Ana apontando para a mais nova delas.
- Clarice!
- Clarice... Não tenha medo da bola. Ela não morde.
- Mas machuca.
- Não machuca se você souber jogar. Tente defender os saques assim – demonstrou Ana colocando ambos os braços junto ao corpo juntando os pulsos – Se tentar defender novamente um saque da Irmã Teodora como se fosse dar uma cortada vamos ter que reimplantar seus dedos.
Nova gargalhada no grupo.
- E você, mocinha...
- Clara.
- Continue jogando como está que tá bom. Vamos lá?
- VAMOS! – gritaram as demais dando-se as mãos.
A Madre sorriu quando o time se apresentou em quadra. Irmã Teodora também sorriu ironicamente, numa atitude de provocação à Ana que se manteve impassível. O time adversário iniciou sacando, saque defendido por Clarice que sorriu orgulhosa de si mesma. A bola passou para o outro lado e Irmã Teodora posicionou-se para cortar. No entanto, colada na rede a Irmã Margarida se lembrou do Papa e pulou o mais alto que pode, com os braços erguidos, fazendo com que a bola tocasse no chão da quadra do adversário. Estava feita a algazarra. Foi um pula-e-comemora só aquele primeiro ponto. Ana percebeu um ar de satisfação no rosto da Madre e piscou para ela, num sinal de cumplicidade. Das cerca de vinte sacadas da Irmã Irene doze foram direto para o chão da quadra, indefensáveis. As outras deixavam o time adversário em maus lençóis. Era só mesmo uma questão de regular a pontaria. Ana conseguia estar em todos os lugares da quadra quase que ao mesmo tempo, e cada vez que o ataque era encabeçado pela Irmã Teodora fazia questão de defender de qualquer maneira. Quando faltavam quinze para o meio dia a Madre deu por encerrado o jogo e o placar estava disparado para o time de Lúcia e Ana. As adversárias vieram abraçar as novas vencedoras, menos Irmã Teodora que rumou para o convento taciturna, demonstrando contrariedade. A Irmã Celestina abraçou Ana pela cintura comemorando:
- Viu só o que faz a boa alimentação??? Isso que é desempenho!!!
Ana retribuiu o abraço e sorriu, sentando um pouco para descansar. O grupo de freiras foi se dirigindo para o convento, sendo que Lúcia ficou para trás. Estava bebendo água de uma garrafa plástica quando sentou ao lado de Ana.
- Quer um pouco? – perguntou alcançando a garrafa para Ana.
A morena estava realmente com sede. Pegou a garrafa e sorveu alguns goles com avidez. Depois estendeu a garrafa de volta.
- Obrigada.
- Eu é que tenho que agradecer. Aliás, o nosso time tem que lhe agradecer.
- Não tem nada.
- Até que pra uma psicopata tu joga bem pra caramba! – brincou Lúcia.
- Eu disse que sou psicopata, não perna de pau.
Lúcia gargalhou. Ana a observou com o canto dos olhos, indiretamente. Por mais que tentasse manter-se distante e indiferente, aquela jovem mulher mobilizava um tipo de sentimento em Ana que ela não sabia definir ao certo. Por mais que a loirinha lhe irritasse em certas ocasiões, com seu jeito serelepe e curioso, não conseguia ficar de fato brava com ela. Na verdade encantava-se com a simplicidade e a pureza daquela figura angelical.
- No domingo que vem nós vamos ganhar de novo! – disse Lúcia sorridente.
- Como é que é?
- Eu disse que no domingo que vem nós vamos ganhar de novo!
- Mas quem falou que eu vou jogar novamente? – retrucou Ana.
- Convencida!!! Acha que a gente ganhou só por tua causa? – provocou Lúcia.
- E não foi?
- Claro que foi, sua boba! – riu-se Lúcia – E é por isso que a senhorita está escalada para participar efetivamente do nosso time!
- E agora você é a Técnica para ficar escalando jogadoras?
- Digamos que eu sou da consultoria do time. E se eu consultar a todas as jogadoras elas vão te querer jogando conosco! – respondeu Lúcia arrebitando o nariz – Joga com a gente???... Por favor...
- Tô bem arrumada...
- Isso é um sim?
- Um talvez.
- Já é alguma coisa! Para um sim é um pulinho.
- Você é insistente, ein garota? – reclamou Ana.
- Só quando é estritamente necessário!
- Tá bom. Eu jogo nessa bosta desse time.
Lúcia olhou para Ana fazendo uma careta de reprovação pelo palavrão.
- Você queria o quê? Eu me controlei o jogo todo! Acho que disse ‘merda’ uma vez só! E baixinho pra ninguém ouvir! Eu não sou de ferro.
- Tudo bem... jogando esse bolão todo tu pode dizer um palavrãozinho de vez em quando... acho que nem a Madre iria se importar. – disse Lúcia.
- Ótimo saber... chego a ficar emocionada com a... condescendência.
Novamente Lúcia gargalhou.
- Ana, vamos almoçar?
- Vai indo, eu vou tomar uma ducha antes.
- Até daqui a pouco então. – respondeu Lúcia enquanto corria de volta ao convento.
Ana ainda ficou parada por alguns momentos, enquanto observava Lúcia se afastando dali. Ela realmente parecia um ser etéreo, uma mistura de fada pela candura e de duende pelas traquinagens. De fato era uma pessoa que emanava uma energia positiva, de felicidade e paz interior.
Depois do almoço Ana tirou a tarde para descansar. Colocou sua rede debaixo do braço e caminhou até a parte de vegetação nativa, amarrando-a entre duas árvores de copa cerrada e cuja sombra convidava ao repouso. À noite, após a janta, Ana estava sentada em frente ao galpão de manutenção, lendo um pouco, quando a Irmã Celestina aproximou-se. Estava com uma espécie de bolsinha térmica pendurada no ombro e disse:
- Boa noite, minha querida! Que noite quente, não é mesmo?
- Ô, nem fale...
- Minha filha... – disse a freira olhando para os lados e falando quase num cochicho - ...vamos até a rouparia dar boa noite para a Irmã Sebastiana?
- Como?...
- Vem comigo, vem... – disse a velha senhora puxando Ana pela mão.
Entraram na rouparia e a anciã sorriu para as visitantes.
- Irmã Sebastiana, eu trouxe mais uma visita para a senhora!
- Bem vindas! – disse a velhinha.
- E olha aqui o que eu trouxe... – disse a Irmã Celestina com cara sapeca.
Os olhos da anciã se iluminaram e Ana não entendia o que estava acontecendo. A Irmã Celestina abriu a bolsa térmica e tirou duas garrafas de cerveja estupidamente geladas. Ana balançou a cabeça e sorriu. A Irmã Sebastiana levantou-se ágil e pegou três copos que estavam num armário no canto da peça. Irmã Celestina serviu a bebida com um olhar de expectativa.
- Agora vamos brindar! – disse a Irmã Celestina alcançando os copos para as outras duas – À nossa saúde, ao calor, à nossa querida Ana, ao Sagrado Coração de Jesus e de Maria, e à vida!
- Saúde! – responderam as outras duas.
Ana observou que a Irmã Sebastiana sorveu mais da metade do copo de bebida numa virada só. Estava se divertindo com a cena, com a expressão de felicidade e de cumplicidade das freiras. Estava tomando conhecimento de um lado nada austero daquele convento. Com o copo pela metade Irmã Sebastiana proferiu:
- Isso é que é bom para matar a sede! E combate a insônia! Na minha idade já se tem certa dificuldade de conciliar o sono. - e riu do próprio comentário.
- Mas que a Irmã Teodora não nos ouça! – emendou Irmã Celestina divertidamente – Ela não sabe o que é bom!
- Não deve saber mesmo... – respondeu Ana – Ela parece estar sempre de mal com a vida.
- Coitada... – justificou a Irmã Celestina – Ela é boa pessoa... Mas muito rígida em algumas situações. E Deus nem gosta de muita rigidez, senão não teria criado o ser humano imperfeito!
- Pensando por este aspecto... – disse Ana.
- Mas é verdade! – disse Irmã Sebastiana – Eu que tenho quase a idade de Matusalém posso dizer com certeza que Deus gosta do que é belo, gosta de música, de risos, de crianças, de flores, de trabalho, de orações, de manhãs de sol, de borboletas, de passarinhos e de cerveja!
As três tiveram de rir. E brindaram novamente.
- Na minha idade – continuou Irmã Sebastiana – eu não posso mais me privar de algumas coisas que eu gosto. E a Madre insiste em dizer que eu só posso tomar leite... "por causa dos remédios" – continuou imitando o discurso da Madre, com a mão na cintura – mas eu preciso é de cerveja de vez em quando! Ainda bem que a Irmã Celestina me entende!
- E eu concordo plenamente, Irmã! – disse Ana em tom solene, tomando mais um gole de cerveja – A vida é feita de momentos!
- Isso mesmo, minha filha! – disse a Irmã Sebastiana sorridente.
- Mas... Irmã... – continuou Ana - ...a senhora não vá errar o caminho para casa ou trocar os pés, ein? Senão não tem como a gente ocultar essa nossa... digamos... pequena contravenção.
- Mas eu sou lá sou mulher de entortar com dois ou três copinhos de cerveja? – brincou a freira mais velha.
- Não leva jeito mesmo! – concordou Ana sorridente.
Era incrível como aquelas duas anciãs conseguiam lhe fazer sorrir com facilidade. Aliás, sentia-se bem naquele lugar. E por incrível que parecesse estava gostando de estar ali. Percebia algumas pessoas muito simples, com valores simples e verdadeiros. Com realidades bem diferentes da dela, mas sem que isso a perturbasse. Havia a implicância gratuita de Irmã Teodora, mas o afeto incondicional da Irmã Celestina, e agora da Irmã Sebastiana, que acabava compensando o resto. A Madre também sempre lhe tratou com consideração. Era muito mais reservada, provavelmente pelo papel que desempenhava naquela organização, mas demonstrava boa vontade para com Ana. E Ana lhe era grata por isso.
As três cúmplices terminaram de tomar as cervejas e ainda conversaram por mais um tempo. Irmã Sebastiana aproveitou para pedir à Ana que desse uma olhadinha em sua velha máquina de costura, que precisava de um pouco de óleo no rolamento do pedal.
Já eram onze horas quando Ana finalmente retornou ao seu quarto, não sem antes certificar-se de que as duas freiras haviam chegado até o convento. Observou as duas caminhando lado a lado, de braços entrelaçados, conversando animadamente, mas em tom muito baixo pelo adiantado da hora.
Tomou uma ducha rápida e jogou uma camiseta velha por cima. Ajeitou o mosquiteiro e adormeceu quase que instantaneamente ao deitar.
Nos dois dias que se seguiram Ana deteve-se em pequenos consertos no próprio convento. Na quarta-feira pela manhã a Madre lhe pediu que desse uma olhada nas telas do galinheiro, pois mais de cinco galinhas haviam fugido na noite anterior. "Sem contar com o galo fugitivo há séculos!", pensou Ana divertida. A Madre aproveitou para conversar um pouco com ela.
- Ana, eu vou precisar me ausentar por uns dias, talvez cinco dias, para tratar de assuntos referentes à Ordem. A Irmã Teodora ficará em meu lugar respondendo pelo convento, por ser a pessoa com mais qualificação para fazê-lo. – disse a Madre.
Ana ficou impassível frente ao comunicado, porém em seu íntimo foi tomada por um sentimento de apreensão. Como que adivinhando os pensamentos da morena a Madre continuou:
- Eu sei que ela tem certa dificuldade em aceitar a tua presença aqui, mas eu já deixei bem claro que as tuas atribuições ficarão previamente definidas por mim. E eu considero mais adequado que trabalhes estes dias na parte rural. Tanto o galinheiro quanto a estrebaria e a parte das ovelhas precisam de um olhar mais atento. Tem bastante coisa por fazer por lá. Tábuas precisam ser trocadas, algumas repostas, cercas e telas consertadas. No sábado e no domingo podes folgar. Creio que na segunda-feira eu já esteja de volta. Até lá eu te peço um pouco de paciência. Entendido?
- Entendido. De minha parte tudo bem. O problema não sou eu e a senhora bem sabe...
- Eu sei. Mas com a outra parte eu já tratei. Agora preciso arrumar minhas coisas. – disse a Madre gentilmente.
- Com licença então. E, Madre, boa viagem.
- Obrigada.
Ana retirou-se, pegou suas ferramentas e pedaços de arame e foi até o galinheiro. Prudente, calçou um par de botas de borracha para evitar qualquer possibilidade de ter esterco grudado nos pés e na bainha do macacão. Na noite anterior havia chovido e o terreno do galinheiro estava umedecido e escorregadio. Fez uma exploração minuciosa em toda a extensão da tela e identificou o buraco pelo qual as fugitivas empreendiam as evasões noturnas. Fez alguns reparos, parando somente na hora do almoço. Trocou de roupa devido ao cheiro de galinheiro que havia entranhado em seu macacão. No refeitório percebeu que a Madre já havia saído. Sentou-se numa mesa de canto e mal levantou os olhos do prato. Pôde observar a Irmã Teodora instalada numa das mesas do centro, ostentando um sorriso de satisfação no rosto. Pareceu-lhe que por mais de duas ocasiões a freira havia lhe dirigido um olhar de viés, porém tratou de desconsiderar qualquer tipo de provocação, conforme havia sido recomendado pela Madre. Após terminar sua refeição saiu do refeitório e novamente recolocou sua roupa de trabalho, retornando ao galinheiro. Pretendia terminar o serviço ainda naquele dia. Deteve-se no remendo de um dos lados da tela e estava tão absorta em sua atividade que nem reparou num pequeno vulto que adentrara no galinheiro. Após certo tempo Ana foi surpreendida por uma movimentação dentro da construção destinada ao pouso das galinhas. Parou o que estava fazendo e aproximou-se da portinhola de madeira. Eis que Lúcia sai de dentro da casinha de costaneiras com um balaio de ovos e uma galinha de plumagem marrom aninhada em seu colo, como se fosse uma criança.
- O que é que você tá fazendo aqui? – perguntou Ana.
Lúcia também fora surpreendida pela presença de Ana e devolveu a pergunta:
- Eu que pergunto: o que é que tu estás fazendo aqui?
- Eu tô brincando de dentista, tentando extrair os dentes das galinhas! – respondeu Ana desaforada erguendo o alicate.
- Pois eu estava sentada nos ninhos, mostrando para essas preguiçosas como se coloca um ovo! – respondeu Lúcia no mesmo tom de voz.
- E elas aprenderam? – debochou Ana.
- Parece que sim... – disse Lúcia apontando para o balaio cheio de ovos.
Ana observou Lúcia mais atentamente. Ela estava com algumas penas presas no cabelo e na roupa, e segurava a galinha marrom que parecia alheia ao bate-boca das duas. A figura estava hilária. Da mesma forma Lúcia observou o macacão e as botas tomadas de esterco e precisou controlar o riso imaginando a dificuldade que Ana teria de se livrar daquele odor característico.
- Vamos, Peninha, antes que tentem arrancar os teus dentinhos... – disse Lúcia caminhando na direção do portão do galinheiro.
Ana bufou, mas não disse mais nada. Observou quando Lúcia colocou carinhosamente a galinha no chão após lhe fazer mais um cafunezinho nas penas. A ave tinha uma perna mais curta que a outra, era muito gorda e manca. Acompanhou Lúcia pelo costado da cerca até que esta seguiu na direção da estrebaria.
Ana agachou-se novamente rente à cerca, porém ficou lembrando do ar de deboche de Lúcia. E Ana não suportava que debochassem dela e resolveu ir atrás da freirinha para lhe dizer uma meia dúzia de verdades. Seguiu pelo mesmo rumo que Lúcia havia tomado.
Bem perto dali Lúcia caminhava alegremente com o enorme cesto repleto de ovos quando avistou Peninha novamente fora do galinheiro, com seu caminhar peculiar e cacarejando provocativa. "Galinha safada, volta aqui! Fugiu pela cerca de novo!", disse empreendendo uma corrida atrás da fugitiva. Eis que o galinha deu meia volta e passou correndo entre as pernas de Lúcia. Esta desequilibrou-se e resvalou na relva ainda umedecida pela chuva da noite anterior. O que se viu foi um festival de ovos espalhados por todos os lados e uma voz furiosa a repreender a jovem freira.
- MAS O QUE É ISSO? – esbravejou a Irmã Teodora, após receber um arremesso de ovo no hábito impecavelmente limpo.
Lúcia levantou-se num pulo, totalmente sem saber o que dizer:
- Irmã... desculpe... eu... foi sem querer... eu não vi a senhora... eu queria pegar a Peninha que fugiu do galinheiro...
- CALE-SE!
- Mas, Irmã...
- Eu já falei para calar a boca! Isso é o que dá a Madre dar muitas regalias para certas pessoas! Olha o estrago que fizeste! Olha o prejuízo que teremos com a quebra desses ovos!
- Mas eu já disse que foi sem querer! – respondeu Lúcia encarando a Irmã Teodora e colocando as duas mãos na cintura.
Esta ultima, furiosa pela afronta, levantou a mão na intenção de dar um sonoro tapa no rosto de Lúcia. Porém seu movimento foi abruptamente interceptado por um pulso forte que lhe segurou firmemente o braço em riste. Irmã Teodora virou-se com a fisionomia transtornada pela raiva e deparou-se com Ana encarando-a de frente. Ana trouxe o braço de Irmã Teodora até bem perto de seu rosto e disse em tom firme e sério:
- Se for bater em alguém, bata em mim. Além de ser do seu tamanho fui eu quem deixou a galinha escapar.
A freira mais velha deu um safanão e livrou-se da pegada de Ana, fuzilando-a com o olhar. Lembrou-se da recomendação da Madre e sabia que nada poderia fazer em relação a ela. A raiva estava estampada em seu olhar, em contrapartida ao olhar penetrante e controlado de Ana. Virou-se para Lúcia e disse em tom ameaçador:
- Volte para o convento agora! Nós vamos conversar no meu gabinete! – disse a Irmã Teodora referindo-se ao escritório da Madre Lídia.
Lúcia, com os olhos marejados de lágrimas, correu em direção ao convento. A Irmã Teodora ainda lançou mais um olhar de raiva para Ana e virou-se num movimento brusco caminhando a passos largos para o convento. No trajeto um sentimento de cólera a corroia por dentro. Pensava no que poderia fazer para que aquela situação de humilhação que sofrera fosse retratada. Tinha consciência de que nada poderia fazer contra Ana. Mas por certo daria um jeito em Lúcia. Adentrou no escritório e Lúcia já a aguardava, acuada de pé num canto do aposento. A Irmã Teodora se aproximou dela e a freira mais jovem encolheu-se mais ainda. A superiora começou a falar num tom de voz baixo e ameaçador:
- Muito bem, mocinha... agora somos só nós duas.
Lúcia engoliu em seco. A Irmã Teodora continuou:
- Então a senhorita gosta de desafiar os mais velhos...
- Mas Irmã... – tentou argumentar Lúcia.
- Cale-se!
Lúcia retraiu-se novamente.
- A Madre é uma pessoa muito benevolente. Por isso algumas pessoas ficam mal acostumadas. A senhorita, por exemplo, neste período de férias faz o quê?
- Colho os ovos no galinheiro – respondeu Lúcia em voz baixa – e as vezes ajudo na cozinha...
- As vezes?... As vezes é muito pouco! A meu ver o que lhe falta é ocupação! Trabalho! E já que a senhorita tem uma ferrenha defensora nada mais justo que a auxilie nas suas atividades. A partir de agora a senhorita vai trabalhar com essa... essa Ana! Do início da manhã até o final do dia! SEM DESCANSAR, entendeu?
Lúcia balançou a cabeça num sinal afirmativo.
- E não quero vê-la por aí no final de semana. A senhorita vai passar o sábado e o domingo rezando na capela. Para ver se Deus consegue colocar um pouco de juízo nessa cabeça oca! Agora vá! Suma da minha vista!
Lúcia saiu correndo da sala e foi até seu quarto. Lágrimas escorriam por sua face rosada. Sabia que Ana teria dificuldade em aceitar que trabalhasse com ela, mas havia sido ordem da Irmã Teodora. Não poderia desobedecer. Lavou o rosto, respirou fundo, colocou um abrigo e pegou um par de botas no almoxarifado. Paramentada dirigiu-se para o galinheiro, com o coração nas mãos.
Por volta das dez horas da manhã Ana resolveu dar mais uma caminhada pela extensa propriedade do convento. Desta vez andou em direção à pastagem das ovelhas. Eis que após uns quinhentos metros de onde estava começou a ouvir vozes em algazarra e eventualmente um apito agudo. Ao dobrar à esquerda numa pequena estradinha coberta de brita grossa deparou-se com uma rústica quadra de vôlei onde as freiras estavam reunidas disputando uma partida animada. Um pouco mais afastado havia um banco de madeira, a única arquibancada para as espectadoras que eram em número de seis, fora a Madre que apitava o jogo. As demais estavam dispostas em dois times de seis jogadoras cada. Ao avistar Ana de longe a Madre acenou para ela, fazendo um sinal para que se aproximasse. A Madre estava posicionada numa banqueta de madeira, na linha da rede e segurava o apito na mão direita, enquanto observava a trajetória da bola. Ana foi se aproximando e logo a irmã Celestina lhe abanou, convidando-a a sentar-se a seu lado. Ana acomodou-se entre as Irmãs Celestina e Sebastiana, que lhe sorriu com a amabilidade dos seus noventa e três anos. Tanto as jogadoras como a torcida eram muito animadas. Ana começou a observar o jogo e viu que Lúcia compunha um dos times que, aliás, perdia deslavadamente do outro time. As componentes do time de Lúcia eram as mais novas dali, além de uma freira mais velha e outra estrábica. O time adversário era liderado pela irmã Teodora e jogava relativamente bem. O placar chegava a ser uma piada. Os dois sets que Ana inicialmente assistiu foram perdidos de zero pelo time de Lúcia. Logo após iniciarem o terceiro uma componente do time de Lúcia, Geovana, pisou em falso e sentiu dor no tornozelo. Disse não ter mais condições de jogar. Ana pensou consigo mesma, "boa desculpa, garota...". Nesta ocasião originou-se a polêmica de quem iria substituí-la para que o jogo continuasse. As freiras mais velhas estavam fora de cogitação, as mais novas alegavam as desculpas mais variadas para não jogar no time perdedor. No meio do burburinho formado a Madre assoprou com veemência o apito, emitindo um som forte e agudo que fez com que todas calassem a boca instantaneamente. Madre Lídia virou-se para Ana e sugeriu:
- Ana, tu não gostarias de participar dessa nossa brincadeira?
Ana foi pega de surpresa e meio que gaguejou:
- Não... não...
- Mas parece que só tu tens condições de colaborar conosco... – insistiu a Madre.
Lúcia correu até ela e pediu, olhando-a fixamente:
- Por favor...
"Novamente esses olhos verdes... puta que pariu..", pensou Ana sem conseguir formular nova negativa. A Irmã Celestina deu-lhe um tapinha na perna e disse carinhosamente:
- Vai, vai...
Ana se levantou e todas comemoraram com pulinhos de felicidade e batidas de palmas. Menos Irmã Teodora que observava Ana com seriedade e disse à meia voz:
- Ainda acho que seria melhor tirar alguém do nosso time, assim ficaria parelho.
A Madre dirigiu-lhe um olhar de reprovação, uma vez que percebeu que Ana havia escutado o comentário maldoso. "Agora é uma questão de honra", pensou Ana com seus botões. A morena dirigiu-se para a quadra enquanto as demais jogadoras a cercavam. As freiras estavam vestindo abrigos cinzentos e camisetas brancas, como se estivessem uniformizadas para a partida. Antes de reiniciar o jogo Ana pediu à Madre:
- Madre, eu preciso conversar com o meu time um pouco, pode ser?
- Claro...
Ana conduziu seu time para uma distância em que pudesse falar sem ser ouvida pelas demais. Abaixou-se um pouco e começou a falar baixo e claro.
- Muito bem meninas... O placar não está a nosso favor, mas vamos confiar que temos condições de jogar bem, ok?
- Ok! – responderam as demais.
- E vamos confiar em Jesus! – disse a Irmã Margarida, que era a mais velha do time, com sessenta e cinco anos.
- Vamos... – concordou Ana - ...se bem que não sei se Jesus manja esse lance de vôlei...
Lúcia cutucou Ana no cotovelo. A morena continuou.
- A senhora é a Irmã?...
- Margarida! – respondeu a mulher mais velha.
- Muito bem... Irmã Margarida! A senhora é uma mulher alta, tem braços longos.
- Tenho quase um metro e oitenta!
- Pois então... Eu quero que a senhora se posicione na rede. E erga os braços. O mais alto que puder. Pode ser?
- Pode...
- Então me mostre como. – disse Ana.
A freira levantou os braços somente até a altura das orelhas.
- Irmã... eu acho que a senhora não entendeu... Tem que levantar mais alto, assim ó... – e Ana fez o gesto – imagine que a senhora se deparasse com... sei lá... com o Papa, por exemplo, e precisasse saudá-lo! A senhora ficaria assim de braços abaixados como se estivesse com o desodorante vencido?
O time inteiro gargalhou e Irmã Margarida respondeu efusiva:
- NÃO... Eu acenaria assim! – e levantou os braços o mais que pode, pulando inclusive.
- Isso! Muito bom! Agora é só fazer isso quando estiver na rede. Combinado?
- Combinado! – respondeu a freira sorridente.
- E a senhora é?...
- Irmã Irene!
- Bom Irmã Irene... – disse Ana dando três passos largos para trás e afastando-se dela – Daí de onde a senhora está eu gostaria que apontasse para a minha mão erguida.
A freira imediatamente apontou para o braço erguido de Ana, porém com um desvio de mais ou menos trinta graus, por conta do estrabismo. Ana se aproximou novamente e disse:
- Irmã, onde estão os seus óculos?
- No meu quarto!
- E porque a senhora não joga com eles?
- Bom... porque não posso correr o risco de quebrá-los. É muito caro fazer novos!
Ana coçou a cabeça pensativa:
- Bom... então vamos fazer assim: quando a senhora estiver no saque, e eu vi que a senhora tem um saque potente, ao invés de mirar no alvo a senhora vai direcioná-lo cerca de trinta graus para a direita, e pode baixar o braço com vontade! Combinado?
- Combinado!
- Bom, você Irmã Lúcia, pare de pular como uma pipoca na fogueira. Fique na sua posição sem atrapalhar as outras. E pule o mais alto que puder para cortar essa porra de bola!
Fez-se um silêncio e Ana ficou encabulada pelo palavrão:
- Perdão! Eu me exaltei. Mas vamos continuar. Você... – disse Ana apontando para a mais nova delas.
- Clarice!
- Clarice... Não tenha medo da bola. Ela não morde.
- Mas machuca.
- Não machuca se você souber jogar. Tente defender os saques assim – demonstrou Ana colocando ambos os braços junto ao corpo juntando os pulsos – Se tentar defender novamente um saque da Irmã Teodora como se fosse dar uma cortada vamos ter que reimplantar seus dedos.
Nova gargalhada no grupo.
- E você, mocinha...
- Clara.
- Continue jogando como está que tá bom. Vamos lá?
- VAMOS! – gritaram as demais dando-se as mãos.
A Madre sorriu quando o time se apresentou em quadra. Irmã Teodora também sorriu ironicamente, numa atitude de provocação à Ana que se manteve impassível. O time adversário iniciou sacando, saque defendido por Clarice que sorriu orgulhosa de si mesma. A bola passou para o outro lado e Irmã Teodora posicionou-se para cortar. No entanto, colada na rede a Irmã Margarida se lembrou do Papa e pulou o mais alto que pode, com os braços erguidos, fazendo com que a bola tocasse no chão da quadra do adversário. Estava feita a algazarra. Foi um pula-e-comemora só aquele primeiro ponto. Ana percebeu um ar de satisfação no rosto da Madre e piscou para ela, num sinal de cumplicidade. Das cerca de vinte sacadas da Irmã Irene doze foram direto para o chão da quadra, indefensáveis. As outras deixavam o time adversário em maus lençóis. Era só mesmo uma questão de regular a pontaria. Ana conseguia estar em todos os lugares da quadra quase que ao mesmo tempo, e cada vez que o ataque era encabeçado pela Irmã Teodora fazia questão de defender de qualquer maneira. Quando faltavam quinze para o meio dia a Madre deu por encerrado o jogo e o placar estava disparado para o time de Lúcia e Ana. As adversárias vieram abraçar as novas vencedoras, menos Irmã Teodora que rumou para o convento taciturna, demonstrando contrariedade. A Irmã Celestina abraçou Ana pela cintura comemorando:
- Viu só o que faz a boa alimentação??? Isso que é desempenho!!!
Ana retribuiu o abraço e sorriu, sentando um pouco para descansar. O grupo de freiras foi se dirigindo para o convento, sendo que Lúcia ficou para trás. Estava bebendo água de uma garrafa plástica quando sentou ao lado de Ana.
- Quer um pouco? – perguntou alcançando a garrafa para Ana.
A morena estava realmente com sede. Pegou a garrafa e sorveu alguns goles com avidez. Depois estendeu a garrafa de volta.
- Obrigada.
- Eu é que tenho que agradecer. Aliás, o nosso time tem que lhe agradecer.
- Não tem nada.
- Até que pra uma psicopata tu joga bem pra caramba! – brincou Lúcia.
- Eu disse que sou psicopata, não perna de pau.
Lúcia gargalhou. Ana a observou com o canto dos olhos, indiretamente. Por mais que tentasse manter-se distante e indiferente, aquela jovem mulher mobilizava um tipo de sentimento em Ana que ela não sabia definir ao certo. Por mais que a loirinha lhe irritasse em certas ocasiões, com seu jeito serelepe e curioso, não conseguia ficar de fato brava com ela. Na verdade encantava-se com a simplicidade e a pureza daquela figura angelical.
- No domingo que vem nós vamos ganhar de novo! – disse Lúcia sorridente.
- Como é que é?
- Eu disse que no domingo que vem nós vamos ganhar de novo!
- Mas quem falou que eu vou jogar novamente? – retrucou Ana.
- Convencida!!! Acha que a gente ganhou só por tua causa? – provocou Lúcia.
- E não foi?
- Claro que foi, sua boba! – riu-se Lúcia – E é por isso que a senhorita está escalada para participar efetivamente do nosso time!
- E agora você é a Técnica para ficar escalando jogadoras?
- Digamos que eu sou da consultoria do time. E se eu consultar a todas as jogadoras elas vão te querer jogando conosco! – respondeu Lúcia arrebitando o nariz – Joga com a gente???... Por favor...
- Tô bem arrumada...
- Isso é um sim?
- Um talvez.
- Já é alguma coisa! Para um sim é um pulinho.
- Você é insistente, ein garota? – reclamou Ana.
- Só quando é estritamente necessário!
- Tá bom. Eu jogo nessa bosta desse time.
Lúcia olhou para Ana fazendo uma careta de reprovação pelo palavrão.
- Você queria o quê? Eu me controlei o jogo todo! Acho que disse ‘merda’ uma vez só! E baixinho pra ninguém ouvir! Eu não sou de ferro.
- Tudo bem... jogando esse bolão todo tu pode dizer um palavrãozinho de vez em quando... acho que nem a Madre iria se importar. – disse Lúcia.
- Ótimo saber... chego a ficar emocionada com a... condescendência.
Novamente Lúcia gargalhou.
- Ana, vamos almoçar?
- Vai indo, eu vou tomar uma ducha antes.
- Até daqui a pouco então. – respondeu Lúcia enquanto corria de volta ao convento.
Ana ainda ficou parada por alguns momentos, enquanto observava Lúcia se afastando dali. Ela realmente parecia um ser etéreo, uma mistura de fada pela candura e de duende pelas traquinagens. De fato era uma pessoa que emanava uma energia positiva, de felicidade e paz interior.
Depois do almoço Ana tirou a tarde para descansar. Colocou sua rede debaixo do braço e caminhou até a parte de vegetação nativa, amarrando-a entre duas árvores de copa cerrada e cuja sombra convidava ao repouso. À noite, após a janta, Ana estava sentada em frente ao galpão de manutenção, lendo um pouco, quando a Irmã Celestina aproximou-se. Estava com uma espécie de bolsinha térmica pendurada no ombro e disse:
- Boa noite, minha querida! Que noite quente, não é mesmo?
- Ô, nem fale...
- Minha filha... – disse a freira olhando para os lados e falando quase num cochicho - ...vamos até a rouparia dar boa noite para a Irmã Sebastiana?
- Como?...
- Vem comigo, vem... – disse a velha senhora puxando Ana pela mão.
Entraram na rouparia e a anciã sorriu para as visitantes.
- Irmã Sebastiana, eu trouxe mais uma visita para a senhora!
- Bem vindas! – disse a velhinha.
- E olha aqui o que eu trouxe... – disse a Irmã Celestina com cara sapeca.
Os olhos da anciã se iluminaram e Ana não entendia o que estava acontecendo. A Irmã Celestina abriu a bolsa térmica e tirou duas garrafas de cerveja estupidamente geladas. Ana balançou a cabeça e sorriu. A Irmã Sebastiana levantou-se ágil e pegou três copos que estavam num armário no canto da peça. Irmã Celestina serviu a bebida com um olhar de expectativa.
- Agora vamos brindar! – disse a Irmã Celestina alcançando os copos para as outras duas – À nossa saúde, ao calor, à nossa querida Ana, ao Sagrado Coração de Jesus e de Maria, e à vida!
- Saúde! – responderam as outras duas.
Ana observou que a Irmã Sebastiana sorveu mais da metade do copo de bebida numa virada só. Estava se divertindo com a cena, com a expressão de felicidade e de cumplicidade das freiras. Estava tomando conhecimento de um lado nada austero daquele convento. Com o copo pela metade Irmã Sebastiana proferiu:
- Isso é que é bom para matar a sede! E combate a insônia! Na minha idade já se tem certa dificuldade de conciliar o sono. - e riu do próprio comentário.
- Mas que a Irmã Teodora não nos ouça! – emendou Irmã Celestina divertidamente – Ela não sabe o que é bom!
- Não deve saber mesmo... – respondeu Ana – Ela parece estar sempre de mal com a vida.
- Coitada... – justificou a Irmã Celestina – Ela é boa pessoa... Mas muito rígida em algumas situações. E Deus nem gosta de muita rigidez, senão não teria criado o ser humano imperfeito!
- Pensando por este aspecto... – disse Ana.
- Mas é verdade! – disse Irmã Sebastiana – Eu que tenho quase a idade de Matusalém posso dizer com certeza que Deus gosta do que é belo, gosta de música, de risos, de crianças, de flores, de trabalho, de orações, de manhãs de sol, de borboletas, de passarinhos e de cerveja!
As três tiveram de rir. E brindaram novamente.
- Na minha idade – continuou Irmã Sebastiana – eu não posso mais me privar de algumas coisas que eu gosto. E a Madre insiste em dizer que eu só posso tomar leite... "por causa dos remédios" – continuou imitando o discurso da Madre, com a mão na cintura – mas eu preciso é de cerveja de vez em quando! Ainda bem que a Irmã Celestina me entende!
- E eu concordo plenamente, Irmã! – disse Ana em tom solene, tomando mais um gole de cerveja – A vida é feita de momentos!
- Isso mesmo, minha filha! – disse a Irmã Sebastiana sorridente.
- Mas... Irmã... – continuou Ana - ...a senhora não vá errar o caminho para casa ou trocar os pés, ein? Senão não tem como a gente ocultar essa nossa... digamos... pequena contravenção.
- Mas eu sou lá sou mulher de entortar com dois ou três copinhos de cerveja? – brincou a freira mais velha.
- Não leva jeito mesmo! – concordou Ana sorridente.
Era incrível como aquelas duas anciãs conseguiam lhe fazer sorrir com facilidade. Aliás, sentia-se bem naquele lugar. E por incrível que parecesse estava gostando de estar ali. Percebia algumas pessoas muito simples, com valores simples e verdadeiros. Com realidades bem diferentes da dela, mas sem que isso a perturbasse. Havia a implicância gratuita de Irmã Teodora, mas o afeto incondicional da Irmã Celestina, e agora da Irmã Sebastiana, que acabava compensando o resto. A Madre também sempre lhe tratou com consideração. Era muito mais reservada, provavelmente pelo papel que desempenhava naquela organização, mas demonstrava boa vontade para com Ana. E Ana lhe era grata por isso.
As três cúmplices terminaram de tomar as cervejas e ainda conversaram por mais um tempo. Irmã Sebastiana aproveitou para pedir à Ana que desse uma olhadinha em sua velha máquina de costura, que precisava de um pouco de óleo no rolamento do pedal.
Já eram onze horas quando Ana finalmente retornou ao seu quarto, não sem antes certificar-se de que as duas freiras haviam chegado até o convento. Observou as duas caminhando lado a lado, de braços entrelaçados, conversando animadamente, mas em tom muito baixo pelo adiantado da hora.
Tomou uma ducha rápida e jogou uma camiseta velha por cima. Ajeitou o mosquiteiro e adormeceu quase que instantaneamente ao deitar.
Nos dois dias que se seguiram Ana deteve-se em pequenos consertos no próprio convento. Na quarta-feira pela manhã a Madre lhe pediu que desse uma olhada nas telas do galinheiro, pois mais de cinco galinhas haviam fugido na noite anterior. "Sem contar com o galo fugitivo há séculos!", pensou Ana divertida. A Madre aproveitou para conversar um pouco com ela.
- Ana, eu vou precisar me ausentar por uns dias, talvez cinco dias, para tratar de assuntos referentes à Ordem. A Irmã Teodora ficará em meu lugar respondendo pelo convento, por ser a pessoa com mais qualificação para fazê-lo. – disse a Madre.
Ana ficou impassível frente ao comunicado, porém em seu íntimo foi tomada por um sentimento de apreensão. Como que adivinhando os pensamentos da morena a Madre continuou:
- Eu sei que ela tem certa dificuldade em aceitar a tua presença aqui, mas eu já deixei bem claro que as tuas atribuições ficarão previamente definidas por mim. E eu considero mais adequado que trabalhes estes dias na parte rural. Tanto o galinheiro quanto a estrebaria e a parte das ovelhas precisam de um olhar mais atento. Tem bastante coisa por fazer por lá. Tábuas precisam ser trocadas, algumas repostas, cercas e telas consertadas. No sábado e no domingo podes folgar. Creio que na segunda-feira eu já esteja de volta. Até lá eu te peço um pouco de paciência. Entendido?
- Entendido. De minha parte tudo bem. O problema não sou eu e a senhora bem sabe...
- Eu sei. Mas com a outra parte eu já tratei. Agora preciso arrumar minhas coisas. – disse a Madre gentilmente.
- Com licença então. E, Madre, boa viagem.
- Obrigada.
Ana retirou-se, pegou suas ferramentas e pedaços de arame e foi até o galinheiro. Prudente, calçou um par de botas de borracha para evitar qualquer possibilidade de ter esterco grudado nos pés e na bainha do macacão. Na noite anterior havia chovido e o terreno do galinheiro estava umedecido e escorregadio. Fez uma exploração minuciosa em toda a extensão da tela e identificou o buraco pelo qual as fugitivas empreendiam as evasões noturnas. Fez alguns reparos, parando somente na hora do almoço. Trocou de roupa devido ao cheiro de galinheiro que havia entranhado em seu macacão. No refeitório percebeu que a Madre já havia saído. Sentou-se numa mesa de canto e mal levantou os olhos do prato. Pôde observar a Irmã Teodora instalada numa das mesas do centro, ostentando um sorriso de satisfação no rosto. Pareceu-lhe que por mais de duas ocasiões a freira havia lhe dirigido um olhar de viés, porém tratou de desconsiderar qualquer tipo de provocação, conforme havia sido recomendado pela Madre. Após terminar sua refeição saiu do refeitório e novamente recolocou sua roupa de trabalho, retornando ao galinheiro. Pretendia terminar o serviço ainda naquele dia. Deteve-se no remendo de um dos lados da tela e estava tão absorta em sua atividade que nem reparou num pequeno vulto que adentrara no galinheiro. Após certo tempo Ana foi surpreendida por uma movimentação dentro da construção destinada ao pouso das galinhas. Parou o que estava fazendo e aproximou-se da portinhola de madeira. Eis que Lúcia sai de dentro da casinha de costaneiras com um balaio de ovos e uma galinha de plumagem marrom aninhada em seu colo, como se fosse uma criança.
- O que é que você tá fazendo aqui? – perguntou Ana.
Lúcia também fora surpreendida pela presença de Ana e devolveu a pergunta:
- Eu que pergunto: o que é que tu estás fazendo aqui?
- Eu tô brincando de dentista, tentando extrair os dentes das galinhas! – respondeu Ana desaforada erguendo o alicate.
- Pois eu estava sentada nos ninhos, mostrando para essas preguiçosas como se coloca um ovo! – respondeu Lúcia no mesmo tom de voz.
- E elas aprenderam? – debochou Ana.
- Parece que sim... – disse Lúcia apontando para o balaio cheio de ovos.
Ana observou Lúcia mais atentamente. Ela estava com algumas penas presas no cabelo e na roupa, e segurava a galinha marrom que parecia alheia ao bate-boca das duas. A figura estava hilária. Da mesma forma Lúcia observou o macacão e as botas tomadas de esterco e precisou controlar o riso imaginando a dificuldade que Ana teria de se livrar daquele odor característico.
- Vamos, Peninha, antes que tentem arrancar os teus dentinhos... – disse Lúcia caminhando na direção do portão do galinheiro.
Ana bufou, mas não disse mais nada. Observou quando Lúcia colocou carinhosamente a galinha no chão após lhe fazer mais um cafunezinho nas penas. A ave tinha uma perna mais curta que a outra, era muito gorda e manca. Acompanhou Lúcia pelo costado da cerca até que esta seguiu na direção da estrebaria.
Ana agachou-se novamente rente à cerca, porém ficou lembrando do ar de deboche de Lúcia. E Ana não suportava que debochassem dela e resolveu ir atrás da freirinha para lhe dizer uma meia dúzia de verdades. Seguiu pelo mesmo rumo que Lúcia havia tomado.
Bem perto dali Lúcia caminhava alegremente com o enorme cesto repleto de ovos quando avistou Peninha novamente fora do galinheiro, com seu caminhar peculiar e cacarejando provocativa. "Galinha safada, volta aqui! Fugiu pela cerca de novo!", disse empreendendo uma corrida atrás da fugitiva. Eis que o galinha deu meia volta e passou correndo entre as pernas de Lúcia. Esta desequilibrou-se e resvalou na relva ainda umedecida pela chuva da noite anterior. O que se viu foi um festival de ovos espalhados por todos os lados e uma voz furiosa a repreender a jovem freira.
- MAS O QUE É ISSO? – esbravejou a Irmã Teodora, após receber um arremesso de ovo no hábito impecavelmente limpo.
Lúcia levantou-se num pulo, totalmente sem saber o que dizer:
- Irmã... desculpe... eu... foi sem querer... eu não vi a senhora... eu queria pegar a Peninha que fugiu do galinheiro...
- CALE-SE!
- Mas, Irmã...
- Eu já falei para calar a boca! Isso é o que dá a Madre dar muitas regalias para certas pessoas! Olha o estrago que fizeste! Olha o prejuízo que teremos com a quebra desses ovos!
- Mas eu já disse que foi sem querer! – respondeu Lúcia encarando a Irmã Teodora e colocando as duas mãos na cintura.
Esta ultima, furiosa pela afronta, levantou a mão na intenção de dar um sonoro tapa no rosto de Lúcia. Porém seu movimento foi abruptamente interceptado por um pulso forte que lhe segurou firmemente o braço em riste. Irmã Teodora virou-se com a fisionomia transtornada pela raiva e deparou-se com Ana encarando-a de frente. Ana trouxe o braço de Irmã Teodora até bem perto de seu rosto e disse em tom firme e sério:
- Se for bater em alguém, bata em mim. Além de ser do seu tamanho fui eu quem deixou a galinha escapar.
A freira mais velha deu um safanão e livrou-se da pegada de Ana, fuzilando-a com o olhar. Lembrou-se da recomendação da Madre e sabia que nada poderia fazer em relação a ela. A raiva estava estampada em seu olhar, em contrapartida ao olhar penetrante e controlado de Ana. Virou-se para Lúcia e disse em tom ameaçador:
- Volte para o convento agora! Nós vamos conversar no meu gabinete! – disse a Irmã Teodora referindo-se ao escritório da Madre Lídia.
Lúcia, com os olhos marejados de lágrimas, correu em direção ao convento. A Irmã Teodora ainda lançou mais um olhar de raiva para Ana e virou-se num movimento brusco caminhando a passos largos para o convento. No trajeto um sentimento de cólera a corroia por dentro. Pensava no que poderia fazer para que aquela situação de humilhação que sofrera fosse retratada. Tinha consciência de que nada poderia fazer contra Ana. Mas por certo daria um jeito em Lúcia. Adentrou no escritório e Lúcia já a aguardava, acuada de pé num canto do aposento. A Irmã Teodora se aproximou dela e a freira mais jovem encolheu-se mais ainda. A superiora começou a falar num tom de voz baixo e ameaçador:
- Muito bem, mocinha... agora somos só nós duas.
Lúcia engoliu em seco. A Irmã Teodora continuou:
- Então a senhorita gosta de desafiar os mais velhos...
- Mas Irmã... – tentou argumentar Lúcia.
- Cale-se!
Lúcia retraiu-se novamente.
- A Madre é uma pessoa muito benevolente. Por isso algumas pessoas ficam mal acostumadas. A senhorita, por exemplo, neste período de férias faz o quê?
- Colho os ovos no galinheiro – respondeu Lúcia em voz baixa – e as vezes ajudo na cozinha...
- As vezes?... As vezes é muito pouco! A meu ver o que lhe falta é ocupação! Trabalho! E já que a senhorita tem uma ferrenha defensora nada mais justo que a auxilie nas suas atividades. A partir de agora a senhorita vai trabalhar com essa... essa Ana! Do início da manhã até o final do dia! SEM DESCANSAR, entendeu?
Lúcia balançou a cabeça num sinal afirmativo.
- E não quero vê-la por aí no final de semana. A senhorita vai passar o sábado e o domingo rezando na capela. Para ver se Deus consegue colocar um pouco de juízo nessa cabeça oca! Agora vá! Suma da minha vista!
Lúcia saiu correndo da sala e foi até seu quarto. Lágrimas escorriam por sua face rosada. Sabia que Ana teria dificuldade em aceitar que trabalhasse com ela, mas havia sido ordem da Irmã Teodora. Não poderia desobedecer. Lavou o rosto, respirou fundo, colocou um abrigo e pegou um par de botas no almoxarifado. Paramentada dirigiu-se para o galinheiro, com o coração nas mãos.
O sábado se descortinou límpido e sem nuvens. Pela manhã Ana não viu nem a sombra de Lúcia. Durante o almoço perguntou-lhe discretamente onde havia estado.
- Na capela, rezando. – respondeu a loirinha.
- Toda a manhã?
- Sim.
- Mas, garota, o dia tá lindo! Vai dar uma volta de bicicleta, sem atropelar nenhuma galinha, é claro.
Lúcia nem sorriu do comentário espirituoso e respondeu baixinho:
- É que a Irmã Teodora mandou...
- E ela lá tem esse poder? Mais que isso, ela não tem o direito de privar alguém de um dia lindo como esse.
- Ela pode sim. Eu prometi obediência.
- Raio de promessa! – esbravejou Ana.
- Olha a blasfêmia! – interveio Lúcia.
- Mas rezar deve ser um ato voluntário, não imposto!
- Mas eu gosto de rezar.
- Enclausurada num dia como hoje?...
Lúcia baixou os olhos e se calou. Tratou de almoçar em silêncio, atitude respeitada por Ana que se levantou da mesa antes dela e foi para o galpão da manutenção. Ao passar pela Irmã Teodora, na porta do refeitório, não pode deixar de notar um sorrisinho sarcástico. Fechou a cara e apressou o passo.
Ana descansou um pouco depois do almoço. Por volta das duas e meia resolveu dar uma volta a pé. Vestiu uma calça jeans e uma camiseta preta de mangas curtas e uma estampa de um golfinho. O sol ardia a todo vapor, quase a pino devido ao horário de verão. Sem perceber, seus passos a levaram até a porta da capela que, como de costume, encontrava-se aberta. Galgou os degraus do pórtico e parou na soleira, observando o interior daquele reduto de orações, sentindo a temperatura agradavelmente mais fresca que na rua, decorrência das espessas paredes, do teto muito alto e da penumbra que reinava no local. Os raios do sol somente conseguiam penetrar, filtrados, através dos vitrais coloridos das janelas laterais. Assim que seus olhos se acostumaram com a pouca claridade pôde observar Lúcia ajoelhada no primeiro banco, com a cabeça baixa e as mãos postas em oração. A garota serelepe havia cedido lugar à freirinha quase austera, de hábito cinzento e véu branco a esconder-lhe as madeixas loiras.
Ana deteve-se num exame minucioso do local. Era um templo pequeno, porém com vitrais coloridos que retratavam paisagens sacras como o Batismo de Jesus, a Assunção de Maria, a agonia de Cristo no Horto das Oliveiras, São Francisco de Assis rodeado de pequenos animaizinhos, Santo Antônio com o Menino Jesus no colo, Santa Teresinha, São Miguel Arcanjo e a Ressurreição de Cristo. Atrás do altar havia duas imagens em tamanho quase natural. Uma era Maria Rainha do Céu e da Terra com sua coroa cravejada de cristais translúcidos imitando diamantes e a outra era de Cristo Rei com sua coroa ornada com gemas de cor escarlate. Bem acima do altar se abria a abóbada central da ermida, com sua cúpula aberta para o céu. O Sacrário, com sua luz púrpura sempre acesa, conferia um ar solene e místico ao local. O corredor central possuía um mosaico em toda sua extensão formando figuras circulares que se entrelaçavam e seguiam rumo ao altar. Os bancos de madeira escura tinham um odor característico de óleo de peroba.
Ana foi penetrando vagarosamente pelo corredor central, procurando não fazer qualquer ruído que pudesse quebrar o silêncio que reinava absoluto. Bem ao longe podia-se ouvir a vibração metálica e estrilada do canto das cigarras que pareciam radiantes de felicidade com o calor escaldante daquela tarde de verão.
A morena caminhou até a beirada do banco onde Lúcia estava e sentou-se a seu lado. Ao perceber sua presença Lúcia dirigiu-lhe um sorriso tímido.
- Já terminou de rezar? – perguntou Ana num sussurro.
- Quase. – respondeu Lúcia no mesmo tom.
- Eu estava passando e resolvi entrar para conhecer a capela. – justificou Ana.
- E o que achou?
- Bonita. E fresquinha.
Lúcia sorriu. Era a primeira vez que ouvia alguém se referir à pequena igreja como "fresquinha".
- Vem aqui, eu vou te mostrar a torre do sino. – disse Lúcia levantando-se do genuflexório e seguindo para os fundos da ermida.
Uma escada circular conduzia a um pequeno espaço onde Lúcia informou que ficava o coro da igreja. Subiram por ela até um patamar elevado feito de madeira trabalhada. Havia uma pequena mureta de fora a fora que delimitava a extensão daquele segundo piso. Num canto havia uma corda grossa e com aparência de já haver sido muito manuseada, que adentrava no forro da torre. Na parte que se distanciava cerca de um metro e meio do chão estava totalmente encardida pelo suor das mãos que faziam retumbar o badalo de metal na parede ovalada de bronze.
- É a corda do sino. –disse Lúcia.
- Imaginei. Eu não pensaria que poderia ser uma forca.
- Boba. – riu-se Lúcia – Ainda bem que não é forca senão a Irmã Teodora já teria me pendurado pelo pescoço.
- Não só você... – assentiu Ana num tom divertido.
- Daqui a menos de dez minutos vai estar na hora de toca-lo! Eu adoro tocar o sino, sempre gostei.
Naquele discurso Ana conseguia identificar sua pequena ajudante, que em nada se parecia com a imagem austera daquela freira cabisbaixa que havia vislumbrado pouco antes. Lúcia explicou a Ana algumas passagens dos quadros da Via Sacra que podiam ser vistos do alto, de onde se encontravam. Também conversaram acerca dos vitrais que haviam chamado a atenção de Ana pela perfeição dos detalhes. As três horas em ponto Lúcia falou sorridente:
- Tá na hora! – e pendurou-se com agilidade na corda do sino.
A princípio parecia que a espessa tira de sisal não se moveria, porém aos poucos o movimento oscilatório do sino começou a erguer a pequena freira muito longe do chão. Como num pêndulo, o vai-e-vem da grande estrutura metálica trazia Lúcia do ar ao chão em segundos. E ela parecia se divertir muito com isso. Ana pode ver as marcas, nos joelhos muito alvos, das longas horas de permanência na mesma posição. Sentiu raiva da responsável por aquilo. Sua atenção logo foi desviada para as pernas de Lúcia que ficavam expostas cada vez que empreendia uma descida e sua saia se erguia como se pretendesse alçar vôo. Novamente uma sensação de secura na boca tomou conta dela e quando se deu por conta estava a olhar para baixo, para o altar, pedindo desculpas a Deus por seus pensamentos. Definitivamente não conseguia reconhecer-se nos últimos dias.
Em dado momento, ao tocar o chão com os pés, Lúcia soltou a corda e desequilibrou-se, sendo firmemente amparada por Ana. O contato físico deixou as duas muito próximas, olhos nos olhos. Meio sem jeito Ana soltou a freirinha e esta última sorriu-lhe espontaneamente:
- Tua vez!
- Minha vez de que? – quis saber Ana.
- De tocar o sino, ora!
- Eu não vou me pendurar nesse treco, não.
- Vai logo, não pode deixar perder o embalo – disse Lúcia empurrando Ana na direção da corda que continuava seu sobe-e-desce mesmo sem ninguém a puxa-la. – Pega bem em cima e te firma!
Ana olhou para ela e viu aquele par de pequenas e expressivas esmeraldas a lhe sorrir em expectativa. Não podia contrariá-la. Olhou para a corda e na próxima descida agarrou-se com firmeza dando um puxão para baixo a fim de manter o ritmo das badaladas. Em movimento contrário foi erguida a uma altura que quase lhe fez perder o fôlego. Olhando de baixo não parecia tão alto assim. Segurou-se com firmeza e nas subidas que se sucederam tomou gosto pela coisa. A sensação era quase que como voar. Depois de quase três minutos, que para Ana pareceram horas, Lúcia fez sinal para parar. A morena afrouxou a corda deixando seu corpo pender ainda um pouco mais ao sabor de sua nova experiência. Quando o movimento tornou-se mais lento e quase já não se ouvia mais o sino Ana largou a corda de sisal. Nesta feita se deu conta que suas mãos ardiam um pouco, vermelhas pelo atrito com a corda.
- Não liga que logo, logo passa. – disse Lúcia percebendo o olhar de Ana para as próprias mãos. – E então? O que achou?
- Demais, garota! Muito legal!
- Eu não disse?
- Quando é a tua escala de novo nessa tarefa? – quis saber Ana.
- Por que? Arrumei uma ajudante?
- Quem sabe.
Ambas riram.
- Lúcia, vamos dar uma volta.
- Eu não posso.
- Mas ninguém precisa ficar sabendo.
- Mas eu sei...
- Drama de consciência agora? Cadê a macaca escaladora de árvores e a fugitiva para banhos de córrego? E além do mais não tem viva alma neste convento, acho que saíram todas!
- Muito bonito, ein? Querendo me fazer cair em tentação!
- E surtiu efeito?
Lúcia olhou para baixo, colocou as mãos na cintura e fez um trejeito facial que deixou Ana na expectativa.
- Tá bom. Mas só uma voltinha. Depois eu volto para a capela.
- É isso aí, garota! – disse Ana sorrindo de satisfação.
- Ana, tu tem um sorriso tão bonito... deverias sorrir com mais freqüência.
- Só sorrio quando tenho bons motivos.
- Ora, tá me chamando de palhaça, é?
- Interprete como quiser. – respondeu a morena descendo pela escadaria circular.
Ao chegarem na porta da capela Ana saiu primeiro e olhou em ambas as direções. Tudo na mais perfeita paz e sossego.
- Tá limpo. Pode sair. – disse Ana pegando Lúcia pela mão e saindo numa corrida em direção ao pomar.
- Vai mais devagar... eu tenho as pernas mais curtas...
- Te mexe, garota! Deixa de ser molenga! – respondeu Ana continuando a correr.
- Tô mexendo... o mais que posso... – respondeu Lúcia já ofegante.
Ao dobrarem na curva do caminho Ana parou de correr.
- Quer... me... matar...? – esbravejou Lúcia.
- Por causa de uma corridinha à toa? Tá brincando.
- Mas olha o tamanho das tuas pernas e olha o das minhas!
Ana coçou o queixo com uma expressão debochada:
- É... quase pernas de anão.
Lúcia fez uma cara de brava e Ana saiu correndo, sendo perseguida de perto por Lúcia que bufava. Ana parou à sombra do abacateiro onde Lúcia gostava de subir e sentou-se em uma de suas raízes. Lúcia sentou-se a seu lado, já demovida da idéia da perseguição.
- Ufa! Cansei. – disse Ana – Foi-se o tempo em que eu corria dez quilômetros com um pé amarrado nas costas!
- Ana...
- O que?
- Qual a tua idade? – perguntou Lúcia curiosa.
- Trinta e três. Por que?
- Nada. Só curiosidade. É que não parece.
- Eu ter a idade que tenho?
- É.
- Você é que não parece ter vinte e quatro! Tem cara de quem recém saiu das fraldas.
Lúcia riu, tomando a colocação como um elogio e completando em tom de brincadeira:
- É que as mulheres da minha família não demonstram a idade...
- Aah, tá.
Ana reparou que as marcas nos joelhos de Lúcia já estavam sumindo. A loirinha sentou-se de costas para Ana e encolheu as pernas, abraçando-as com ambas as mãos. Sem cerimônia encostou as costas em Ana, apoiando-se nela como se fosse um encosto de cadeira.
- Ana...
- O que é?
- Tu reparou que as nuvens tem umas formas bem legais? – disse Lúcia olhando para o céu e apontando na direção do azul infinito – Olha aquela ali, parece uma galinha.
Ana sorriu da brincadeira inocente.
- Ô garota, tá a fim de comer figos maduros?
- Com certeza! – respondeu Lúcia levantando-se num pulo e estendendo a mão para Ana.
Novamente o toque macio da mão de Lúcia fez Ana ficar desconcertada. Tratou de levantar logo e soltar a mão quente que a havia içado de seu confortável banco de raiz de árvore. A morena colocou a mão no bolso de sua calça e tirou seu canivete para descascar os frutos maduros e suculentos. Ana descascava os frutos de casca enegrecida pela maturação e alcançava para Lúcia a polpa adocicada, que a loirinha devorava com prazer.
- Vê se não vai lambuzar a roupa! – disse Ana – Quer ficar com a prova do crime estampada na saia?
- Tem razão! – disse a freirinha inclinando o corpo bem para frente a cada bocada nas frutas suculentas.
Ana observava Lúcia atentamente. De fato seus trejeitos a encantavam, desde a maneira como sorria franzindo o nariz até seu modo de saborear o doce daquelas frutas, verdadeiro néctar dos deuses. Sentindo-se observada Lúcia questionou:
- Tá olhando o quê?
- Nada. – respondeu Ana desviando o olhar.
Lúcia continuou entretida na degustação dos figos e na conversa sobre assuntos dos mais variados com Ana. Quando percebeu já era mais de cinco horas da tarde.
- Preciso voltar para a capela! – disse atônita.
- Calma. Vamos lá.
Novamente com a cobertura de Ana a fugitiva retornou para a sua incumbência daquele final de semana. Às seis horas foi Ana quem tocou o sino da capela sob o olhar divertido de Lúcia, para logo em seguida dirigir-se ao galpão da manutenção, antes que as demais Irmãs viessem fazer as orações da noite.
Na hora da janta Lúcia sentou-se com Ana e cochichou:
- Tô empanturrada de figos... acho que não vou conseguir comer nada.
- Faz uma média e serve bem pouquinho.
Lúcia sorriu e voltou com seu prato ostentando duas folhas de alface e um ovinho de codorna cozido.
- Quanta discrição... – debochou Ana.
- Não enche. – respondeu Lúcia fazendo uma careta de brincadeira.
Depois da janta as duas se recolheram aos respectivos aposentos. Lúcia foi dormir cedo, porém Ana virou-se na cama de um lado para outro sem conseguir conciliar o sono. Alguma coisa a estava perturbando e roubando-lhe o sossego. E a morena temia bem saber o que era...
O domingo descortinou-se outro dia de sol forte. Ana havia custado a conciliar o sono, desta forma acabou acordando quase após a hora do término do café. Lavou o rosto, vestiu-se e entrou no refeitório em tempo de servir uma xícara de café com leite e pegar uma fatia de pão com queijo colonial, antes das Irmãs responsáveis pela copa recolherem a mesa. Não havia mais ninguém ali. Depois de degustar seu desjejum caminhou até a capela e espiou para dentro. O local também estava vazio. Estranhou o fato de Lúcia não estar ali, porém lembrou-se do jogo de vôlei das manhãs de domingo. Caminhou vagarosamente até a pequena quadra, provavelmente mais para tentar ver onde Lúcia estava do que para participar do jogo, uma vez que na ausência da Madre preferia evitar o contato com a Irmã Teodora. De longe começou a ouvir burburinho de vozes e reconhecendo uma delas apressou o passo.
- Mas, Irmã... – tentava argumentar Lúcia.
- Eu já lhe disse o que deve fazer. E agora. – dizia a Irmã Teodora com o dedo em riste para a freirinha.
As demais Irmãs assistiam a cena de olhos arregalados. Percebia-se que as mais novas chegavam a prender a respiração, enquanto que as mais velhas limitavam-se a manifestar descontentamento com a atitude da substituta da Madre com os olhos, sem se atrever a ir contra suas ordens. A Irmã Celestina chegou a tentar conciliar:
- Mas Irmã Teodora, é domingo... deixa a menina participar do jogo, depois ela vai para a capela...
- Eu sei o que estou fazendo Irmã! E se eu disse que não, é não. – respondeu Irmã Teodora em tom austero.
A freira mais velha calou-se. Neste momento as freiras perceberam a aproximação de Ana e começaram a cochichar entre si, evidenciando contentamento com a chegada da morena. Irmã Teodora retesou-se e antes que qualquer uma pudesse falar disparou:
- Tu não precisas jogar hoje conosco, o time está completo.
- Como completo se a senhora está me mandando embora? – disse Lúcia com ambas as mãos na cintura.
A substituta da Madre parecia que ia pular no pescoço de Lúcia e simplesmente disse:
- Já para a capela. Agora.
A loirinha saiu dali contrariada e lançou um olhar entristecido para Ana ao passar por ela. Ana falou secamente para a Irmã Teodora:
- Eu não vim jogar, só estou caminhando. Ou a senhora vai me proibir? – respondeu virando-se e caminhando na direção do convento, sem dar tempo para Irmã Teodora formular qualquer tipo de resposta. Ana chegou a sentir a fuzilada na nuca do olhar da freira.
- Mas sem essas duas não há possibilidade de jogo! – retrucou a irmã Margarida, que do alto de seus 65 anos sabia que as coisas não podem ser levadas tão a sério assim.
- Mas vai haver! – respondeu a Irmã Teodora.
- Mas sem a minha presença. Estou com dor na minha artrite hoje. Vou para a capela rezar um pouco. – disse Irmã Margarida caminhando para longe dali, sem dar maior atenção à cara feia da Irmã Teodora.
- Bom, eu também acho melhor rezar um pouco hoje. – disse a Irmã Celestina, sendo acompanhada pela Irmã Sebastiana que enfiou o braço nela para amparar sua caminhada de volta ao convento.
O que se seguiu foi um desertar de freiras. A platéia retirou-se em noventa por cento e do time de Lúcia só ficaram as mais novas temendo represálias da Irmã Teodora. Até mesmo as Irmãs Eunice e Diva acabaram desistindo da partida. Irmã Teodora bufava de raiva. Com meia dúzia de freiras e juvenistas acabou considerando inviável a realização da recreação daquela manhã de domingo.
Irmã Teodora caminhou até a capela e encontrou seu "rebanho" reunido a rezar. Espantou-se ao ver que no último banco Ana também estava sentada quieta. Passou por ela e perguntou baixinho, entre dentes:
- O que é que tu estás fazendo aqui?
- Rezando. É proibido? – respondeu Ana fingindo um tom inocente.
Irmã Teodora nada respondeu. Respirou fundo e foi até a frente do altar. Olhou para todas e começou a falar baixo e pausadamente, tentando respeitar o ambiente da igrejinha.
- Muito bem... muito me alegra ver nossas Irmãs com tamanha devoção. Certamente Deus ouvirá as preces de cada uma. Fico tão comovida com essa manifestação de religiosidade, onde as Irmãs preferem recolher-se em oração a desenvolver uma atividade recreativa, que pretendo me engajar nessa aura de fé. Decidi que hoje, além das orações, faremos jejum. Pão e água. E hoje à noite nossa alimentação será somente uma canjinha rala, que aliás eu mesma prepararei, desde a escolha da galinha em nosso galinheiro. – e lançou um olhar desafiador para Lúcia, sabendo de seu carinho por Peninha.
"Peninha", pensou Lúcia em desespero. Chegou a se mover no banco de madeira, mas foi segura pelo braço, com discrição, pela Irmã Celestina que estava a seu lado. Irmã Teodora continuou:
- Ninguém sai da capela até a noite.
"Ninguém o cacete!", pensou Ana, "se essa louca me trancar aqui eu pedalo a porta". Mas para alívio de Ana a porta da ermida permaneceu aberta. Irmã Teodora confiava em sua autoridade e tinha certeza que ninguém a desobedeceria. Depois de alguns minutos da saída da superiora Ana discretamente se retirou da capela.
Perto do meio dia a Irmã Teodora trouxe um cesto com uma fatia de pão puro para cada Irmã e uma jarra d’água que pode ser consumida a vontade. Lúcia estava muito ansiosa, preocupada com Peninha. A Irmã Teodora percebeu que Ana não estava mais lá, porém não deu maior importância, uma vez que o refeitório estaria fechado e não seria servida nenhuma refeição além de pão, na capela. A superiora percebeu, com certo ar de satisfação, a angústia no olhar de Lúcia. "Essa juventude precisa de limites", pensava Irmã Teodora, "ninguém mais sabe obedecer... por isso o mundo está perdido desse jeito".
Às dezenove horas a substituta da Madre dirigiu-se à capela e disse em tom baixo:
- Podemos nos dirigir ao refeitório para a ceia.
As Irmãs seguiram em silêncio. Lúcia sentia o coração bater na boca. Quando lhe estenderam um prato com uma canja de galinha muito rala, mais água e sal do que qualquer outra coisa, ela sentiu um nó na garganta e seus olhos se encheram de lágrimas. Depositou o prato à sua frente e as lágrimas caíram dentro dele, misturando-se com a parca porção de galinha desfiada. Lúcia levantou-se e saiu correndo do refeitório sob o olhar surpreso das demais. Irmã Teodora não tentou detê-la.
Lúcia correu até o galinheiro e sob a luz alaranjada do por de sol chamou por Peninha.
- Pi, pi, pi, pi... Peninha! Pi, pi, pi... Peninha...
E nem sinal de sua galinha de estimação. Lágrimas espessas rolaram por seu rosto e molharam a parte da frente do hábito cinzento. Instintivamente Lúcia correu até o galpão da manutenção e encontrou Ana deitada sob a Kombi, fazendo alguns ajustes necessários.
- Ana! Ana! – chamou Lúcia aos prantos.
Ao ouvir aquela voz conhecida Ana saiu de baixo do veículo e levantou-se de imediato. Seu macacão estava sujo de óleo, assim como suas mãos. Segurava um alicate e seus cabelos estavam presos por uma tira de elástico preto, porém alguns fios desgrenhados estavam colados em sua nuca suada. Ao vê-la Lúcia correu em sua direção e abraçou-se a ela soluçando. Ana ficou estática, sem esboçar reação. O toque daquele corpo pequeno soluçando de encontro ao seu deixou-a sem saber o que fazer. Com os braços entreabertos Ana ficou pensando em como proceder. Foi invadida por um sentimento de afeto incondicional por aquela criaturinha aparentemente indefesa, chorando em seus braços. Deixou cair o alicate e a envolveu num abraço apertado.
- Tudo bem... tudo bem... fica calma.
Em princípio Lúcia não conseguia falar tamanha a enxurrada de lágrimas. Carinhosamente Ana levantou o rosto de Lúcia e limpou seus olhos com um lençinho de papel que tinha no bolso do macacão. Admirou aqueles olhos esverdeados, a pouco mais de um palmo de sua boca, e sentiu um ímpeto de beijar cada um deles. Ana sentiu o peito apertado ao ver o choro sentido de Lúcia.
- Calma... o que foi que houve? – perguntou calmamente.
- A Pe...Pe...Peninha...
- O que é que tem a Peninha?
- A Ir... a Irmã... a canja... – e novamente irrompeu em choro.
- Calma... me fala com calma o que houve. – pediu Ana carinhosamente.
Lúcia respirou fundo tentando controlar o choro.
- A irmã Teodora... fez... fez uma canja com... com... a Peninha...
- Não fez não. – respondeu Ana afetuosamente.
- Fez sim... eu vi...
- Viu o que?
- A canja...
- E reconheceu o que? A cor das penas?
Lúcia afastou-se de Ana e fitou-a com tristeza:
- Vai debochar?
- Eu não tô debochando. Eu só tô tentando te dizer que não foi com a Peninha que ela fez a canja.
- Como é que tu sabe? Ela sumiu, não tá no galinheiro.
Ana deu uma risadinha com o canto da boca e pegou Lúcia pela mão, levando-a até seu quarto. A galinha gorda e de penas cor de telha estava confortavelmente instalada na guarda da cama, como se fosse um poleiro. E dormia a sono solto.
- Peninha! – exclamou Lúcia despertando a galinha de seus sonhos com uma terra lavrada e repleta de suculentas minhocas.
Ana riu da cena. Com o susto a galinha fez cocô na roupa de Lúcia quando esta a suspendeu no colo.
- Olha aqui, se essa galinha cagar na minha cama é você que vai limpar! – disse Ana com ambas as mãos na cintura.
Lúcia largou a galinha de volta na guarda da cama e correu até Ana, literalmente pulando em seu pescoço e lhe sapecando um sonoro beijo na face. À Ana não restou outra alternativa a não ser pegar a freirinha no ar para que ela não se estatelasse no chão do quarto.
- Obrigada, obrigada, obrigada! – disse Lúcia já de pé, em frente à Ana.
- Obrigada por que?
- Por salvar a Peninha, ora bolas!
- O mérito é dela. Até que essa galinha é simpática.
Lúcia gargalhou.
- Porque é que tu pensou em traze-la pra cá? – quis saber Lúcia.
- Por que eu conheço gente mal intencionada pelo olho. – respondeu Ana – E aquele tribufu de hábito queria te atingir de alguma maneira.
- Mas por que? Eu não fiz nada pra ela. – respondeu Lúcia.
- Você existe. E certas pessoas tem inveja das outras pelo simples fato de serem como são.
- Eu não entendo isso... Não é possível. A Irmã Teodora é uma freira como eu...
- Olha aqui, Lúcia, tem gente boa e gente ordinária em tudo quanto é lugar. E um convento não é exceção. Abre os olhos, garota!
- Mas não devia ser assim...
- Mas é. – respondeu Ana secamente.
Lúcia ficou pensativa e continuou:
- Sabe, pensando bem desde que eu cheguei aqui ela pega no meu pé mesmo. Eu só não sei porque. Eu sempre procurei fazer as minhas obrigações... e ser simpática.
- E onde é que você cumpria as suas... obrigações.
- A Madre me colocou para trabalhar com ela na secretaria, pois disse que a minha letra era muito bonita para fazer os registros nos livros do convento e da escola.
- Bingo! – disse Ana.
- O que? Eu não entendi.
- Quem fazia isso antes?
- A Irmã... Teodora. – respondeu Lúcia pensativa.
- E com a sua chegada, mesmo sem intenção, você a afastou da Madre.
- Mas o que é que isso tem a ver?... – questionou Lúcia inocentemente.
Ana respirou fundo e coçou a cabeça:
- Nada não... coisas da vida.
Ana bem sabia qual a relação que fora abalada. Por ser uma pessoa introspectiva sempre conseguiu observar as pessoas e as situações à sua volta. Observar mais do que falar, esse sempre fora seu lema. E isso a habilitara a captar certos gestos e olhares imperceptíveis aos demais. E parecia que, realmente, não se enganara a respeito da Irmã Teodora.
Afastando tais pensamentos de sua cabeça perguntou a Lúcia:
- Tá com fome?
- Tô roxa de fome!
- Então vem aqui.
Ana havia disposto uma toalha xadrez sobre uma mesinha de madeira no galpão. Sobre ela havia um saquinho com salgadinhos e uma embalagem de papel contendo oito enormes pastéis de carne e azeitonas pretas. Havia refrigerante gelado numa sacola térmica e algumas cervejas. Ana também havia providenciado uma cuca de uva e duas barras de chocolate ao leite.
Os olhos de Lúcia se acenderam.
- Tcharãããnnnn.... – disse Ana – Após um dia de oração nada melhor do que cair no pecado da gula!
- Aaaaii, bate na boca! – respondeu Lúcia – Mas tem muita coisa aqui!
- E quem disse que é só pra gente? Vai lá dentro e discretamente avisa a Irmã Celestina e a Irmã Sebastiana.
- Tá bom – disse Lúcia – colocando um salgadinho de frango na boca.
- E seja esperta, garota! Vê se vai dar bandeira. Olha que o tribufu tá de olho.
- Deixa comigo.
- Ô Lúcia...
- O que é?
- Disfarça o ar de satisfação. Tenha a decência de aparentar pelo menos, fome.
- Tá bom... – riu-se a loirinha.
Lúcia saiu e não levou mais do que meia hora para retornar.
- Tudo certo! Elas já vem vindo. – disse a freirinha alegremente.
Nesta feita a escuridão da noite já permitia que se vislumbrasse o brilho das primeiras estrelas. Primeiro veio a Irmã Celestina. Depois de cerca de dez minutos veio a Irmã Sebastiana. As quatro sentaram-se em torno da mesa e saborearam avidamente a refeição improvisada. Somente Lúcia bebeu refrigerante, as demais tomaram cerveja.
- A gente teve que disfarçar... – disse a Irmã Sebastiana com ar de sapeca. – Não sei nem se isso não é pecado – e riu-se.
- Mas Deus entende, Irmã... Deus entende... – justificou Ana.
Conversaram até quase dez horas e depois recolheram-se aos respectivos aposentos. Antes de sair Lúcia ainda disse à Ana:
- Obrigada do fundo do meu coração...
- Não precisa agradecer, já disse.
- Mas eu quero agradecer assim mesmo. E o que a gente vai fazer com a Peninha? – quis saber Lúcia.
- Olha, ela vai ficando por aqui mesmo. Acho que é um bom esconderijo.
- Também acho! – concordou Lúcia sorridente – Para ela e para nós!
Dessa vez foi Ana quem teve de sorrir concordando.
- Boa noite, então. – disse Lúcia afastando-se.
- Boa noite.
Ana tomou um banho quase frio. Deitou-se e ficou pensando em Lúcia. Tentava racionalizar o que havia sentido quando a pequena loira a abraçara soluçando. Tentava se convencer de que fora somente solidariedade. Porém seus sensores internos teimavam em sinalizar outra coisa.
Lúcia e Ana se encontraram no refeitório na manhã seguinte, uma segunda-feira que havia amanhecido com um céu nublado e propenso a chuvas. Lúcia já estava devidamente paramentada com um abrigo velho para ajudar Ana. Combinaram de atender o pedido da Irmã Sebastiana que havia se queixado de alguns vidros quebrados na rouparia e da dobradiça da porta que fazia um barulho ensurdecedor cada vez que era empurrada para trás. Durante a manhã ficaram entretidas na troca dos vidros e no conserto da porta, que além das dobradiças emperradas estava fora de nível, o que dificultava o abrir e fechar.
Na hora do almoço Lúcia e Ana estavam conversando distraidamente, instaladas numa mesa próxima à porta, quando perceberam a aproximação de passos conhecidos ecoando no corredor de acesso ao refeitório. Era a Madre que havia voltado de sua viagem. "Graças a Deus", pensou Ana. Logo atrás da Madre Lídia, como uma sombra, vinha caminhando a Irmã Teodora, com uma expressão de contentamento pela volta da Superiora. Ao avista-las quase na entrada do refeitório a Madre dirigiu-se a ambas sorridente:
- Bom dia! – disse afetuosamente.
- Bom dia! – responderam ambas quase em uníssono.
A Madre neste momento percebeu os trajes de Lúcia e questionou:
- Que roupas são essas, Irmã?
Lúcia sorriu sem graça e a Irmã Teodora interveio:
- Melhor deixar a conversa para mais tarde. A senhora deve estar com fome, Madre.
Antes que a Madre se virasse Ana respondeu:
- Pois é, me arrumaram uma ajudante...
A Irmã Teodora fuzilou Ana com o olhar.
- Como assim? – quis saber a Madre.
- Ora, a senhora não contou à Madre, Irmã? – perguntou Ana dirigindo-se à Irmã Teodora.
- Eu pretendia deixar a Madre almoçar antes de incomodá-la com os assuntos de rotina do convento – respondeu a Irmã Teodora secamente.
- Depois do almoço quero as duas no meu gabinete. – disse a Madre.
- Sim senhora. – respondeu Lúcia.
- Tudo bem. – concordou Ana.
- Estaremos aguardando – retrucou a Irmã Teodora em tom austero.
A Madre dirigiu-lhe um olhar sério e calou-se. Para não deixar a assessora em uma situação constrangedora preferiu não falar o que lhe veio à mente. Ao afastar-se disse baixinho no ouvido da outra:
- Minha conversa com elas é particular. Depois conversamos nós.
De longe Lúcia e Ana observaram a mudança da fisionomia da Irmã Teodora que ficou rubra e desconcertada, embora tenha se controlado para não demonstrar seu sentimento.
Quando a Madre se retirou Lúcia e Ana a seguiram. Elas já haviam terminado o almoço e apenas aguardavam a Madre. Adentraram na saleta da Superiora e se instalaram no sofá indicado pela mulher mais velha.
- Muito bem, creio que podemos começar nossa conversa. – disse a Madre.
Ana ficou calada e Lúcia começou seu relato, apresentando sua versão dos fatos. Ana percebera que durante o almoço, mesmo a contragosto, a Madre ouviu de Irmã Teodora o que havia ocorrido em sua ausência. Quando Lúcia por fim proferiu: "e isso é tudo", ocultando obviamente o fato de Peninha estar viva e escondida no quarto de Ana, a Madre calou-se e observou as duas figuras à sua frente. Por instantes ficou a analisa-las como se tentasse penetrar nos pensamentos delas. Neste momento Ana ficou um pouco incomodada e mexeu-se na cadeira. Lúcia mantinha os olhos no chão. A Madre respirou fundo e falou pausadamente:
- Parece que vocês duas estão se dando bem...
- Estamos mesmo, né Ana? – concordou Lúcia.
- É. – disse Ana.
- Mas Irmã... – continuou a Madre - ...a senhora tem outras atribuições neste lugar. A partir de agora pode voltar a fazer o que vinha fazendo, afinal o trabalho de Ana é bastante pesado...
- Mas eu tô gostando, Madre! – interferiu Lúcia – E gostaria de continuar a ajuda-la, afinal minhas aulas só começam em março!
Ana continuava calada.
- Mas parece que Ana não está muito interessada em tê-la como ajudante, não é mesmo Ana?
- Tanto faz. – respondeu Ana tentando não deixar transparecer seu interesse, mesmo que em parte inconsciente, de que a loirinha continuasse a passar os dias com ela.
- Como tanto faz? – disse Lúcia olhando com cara enfezada para Ana – Eu tenho te ajudado direitinho!
- É... tem mesmo – respondeu Ana fingindo um tom de indiferença.
- Então! Sua mal agradecida! Madre, eu vou continuar trabalhando com essa cabeça dura sim!
Ana deu de ombros. A Madre questionou:
- E então Ana? O que me diz?
- Tá. Pode ser. Ela realmente manda ver no batente.
Lúcia a fitou com o rabo do olho, irritada.
- Bom... nesse caso... Irmã, tem certeza do que está dizendo? – perguntou a Madre.
- Tenho!
- Então está bem. É só isso. Podem se retirar.
- Com licença. – disse Ana levantando-se para sair.
- Até logo Madre – disse Lúcia.
Ao atingirem o corredor Lúcia esbravejou colocando as mãos na cintura:
- O que é isso, ein? Além de me deixar contar toda a história sozinha ainda fica me esnobando, é?
Ana sorriu com o canto da boca e respondeu simplesmente:
- V’ambora, garota!
Lúcia continuou sua tagarelice caminhando atrás de Ana que acelerou o passo e fez a loirinha quase correr para acompanha-la. Passaram o resto do dia entre a rouparia e a lavanderia.
Ao saber que Lúcia continuaria trabalhando com Ana a Irmã Teodora sorriu de contentamento, pensando que a Madre tivesse mantido sua determinação de impor um trabalho mais forçado à Lúcia, por seu desacato. Mal sabia ela do desejo de Lúcia. E a Madre resolveu que o melhor seria de fato deixar as coisas como estavam. E assim, sabiamente o fez.
O mês de janeiro findou e o de fevereiro passou muito rápido. Lúcia e Ana passavam a maior parte do tempo juntas. Quando não estavam trabalhando, estavam realizando alguma atividade recreativa aos finais de semana. Ana gostava da companhia de Lúcia e esta se sentia bem com Ana. Sentia-se protegida e amparada. O eventual bom humor de Ana, quase sempre camuflado por seu temperamento sério e contido, deixava-se extravasar na presença de Lúcia, que com sua simplicidade conseguia roubar sorrisos daqueles lábios que pareciam ter dificuldades para estampa-los, mas que quando o faziam seriam capazes de iluminar a noite.
Nas ocasiões dos contatos telefônicos da Madre com Denise, para dar um retorno do trabalho de Ana, a freira somente tecia elogios merecidos ao desempenho e a postura da morena. Este fato alegrou Denise, pois sentia um afeto genuíno pela amiga.
Quando março começou e Lúcia voltou para seus afazeres na escola, onde lecionava para as séries iniciais no turno da manhã, à tarde fazia sua faculdade de História e a noite auxiliava na secretaria da escola, o contato das duas ficou limitado aos finais de semana e a rápidas conversas nas horas das refeições.
Para qualquer pessoa mais atenta seria fácil perceber a mudança de humor que se procedeu em Ana. Esta passou a ficar mais taciturna e reservada.
E com Lúcia não foi diferente. A pequena freira em algumas ocasiões ficava com o olhar vago, como se sentisse falta de algo. Sentia-se saudosa da presença de Ana.
O outono chegou trazendo temperaturas mais amenas e um colorido ocre amarelado à vegetação. Tal paisagem cedeu lugar ao inverno, com suas cores cinzentas e introspectivas. Era assim que Ana vinha se sentindo.
No primeiro dia das férias de inverno Lúcia colocou seu abrigo de serviço e apresentou-se no refeitório com as vestimentas de "ajudante de Ana". A morena ao entrar no amplo salão não conseguiu conter um sorriso de orelha a orelha ao ver aquela figura a lhe sorrir de mãos na cintura:
- Isso são horas? Já faz vinte minutos que eu estava te esperando! Tu não trabalha mais como antes, não? Tá ficando preguiçosa?
Ana a fitou de cima a baixo e questionou:
- O que é isso?
- Minha roupa de trabalho, ora! Esqueceu que escravo quando descansa rola pedras? Tô de férias na escola e na faculdade e resolvi te dar uma mãozinha!
O coração de Ana pulou de felicidade. A morena chegou a se assustar com a sua reação. Mas resolveu que não pensaria muito naquele assunto. Trataria de aproveitar aquela companhia que lhe era tão querida.
Os dias que se seguiram tiveram um caráter mais de brincadeira e diversão do que de trabalho propriamente dito. Não que as atividades realizadas fossem diferentes das habituais, mas sim pela alegria de estarem partilhando momentos juntas.
No segundo dia em que trabalhavam juntas, logo pela manhã, Lúcia encarou Ana com uma carinha sapeca e disse:
- Tu sabe que dia é hoje?
- Dezesseis. Dezesseis de julho, por quê? – disse Ana.
- Eu tô de aniversário hoje!
- O quê??? – disse Ana.
- Tô de aniversário! – repetiu Lúcia.
- E posso saber porque a senhorita não me disse ontem?
- Pra que?
- Ora, pra que? Pra dar tempo de fazer a Peninha encher uma dúzia de balões pra festa! – respondeu Ana debochando – É óbvio que é para dar tempo de escolher um presente pra ti!
- Mas não precisa nada não... Eu não ligo pra essas coisas.
- Mas eu ligo. Eu gosto de ao menos dar uma lembrançinha pros meus amigos do peito.
- Me dá um abraço apertado, então! – disse Lúcia abrindo os braços efusivamente.
Meio sem jeito Ana abraçou-a pela cintura e deu dois beijos em suas faces.
- Feliz Aniversário! – disse sorridente – Te desejo tudo de bom... Você realmente merece!
- Ai, não me faz ficar sem jeito...
- Mas merece mesmo, garota! Agora vamos trabalhar.
Logo após o almoço Ana foi para seu quarto, com a desculpa esfarrapada de querer descansar um pouco. Sorrateiramente escapuliu até o centro da cidadezinha e entrou numa loja de variedades. Queria escolher um presente para Lúcia. Olhou, olhou e não sabia o que comprar. De repente sua atenção voltou-se para uma prateleira que ostentava uma grande quantidade de bichinhos de pelúcia. Encantou-se com um urso branco, de nariz vermelho e cara meiga. O urso era grande, devia medir quase cinqüenta centímetros de altura, gordo, sorridente e macio. Trajava um colete vermelho com uma gola dourada, combinando com a gravata borboleta no mesmo tom. Tinha os olhos escuros e quando se apertava sua pata ele dizia: "I love you, baby". Ana sorriu e pegou o urso da prateleira, pedindo à balconista que o embrulhasse para presente. Voltou logo para o convento, tratando de entrar escondida de Lúcia. Mal havia tido tempo de colocar o pacote sob a cama em seu quarto e ouviu uma batida na porta.
- Quem é? – perguntou Ana.
- Sou eu, a Irmã Celestina. – respondeu a freira baixinho, como se quisesse fazer segredo.
Ana abriu a porta e a freira entrou.
- Ana, hoje a Irmã Lúcia está de aniversário e nós vamos fazer uma surpresa pra ela!
- Pois eu soube do aniversário por ela, somente hoje pela manhã! – respondeu Ana.
- Na hora da janta vamos cantar "Parabéns a Você" com um bolo lindo que eu vou fazer agora de tarde! E vamos enfeitar o refeitório! Mas pra isso a gente precisa que a distraias até as sete e meia. Pode ser?
- Claro. Eu arrumo algo pra gente fazer sim. Pode deixar comigo.
- Então está combinado.
Naquela tarde Ana inventou de arrumar a sala da manutenção. Resolveu organizar todas as prateleiras, incluindo vidros de parafusos, porcas, pregos, grampos e tudo o mais. Com certeza Lucia e ela ficariam ocupadas por um bom tempo. Antes de começar sugeriu que Lucia trouxesse sua roupa limpa para tomar um banho no banheiro do setor de manutenção mesmo, para não chegarem atrasadas para a janta. E Lucia, sem desconfiar de nada, concordou. Por volta das sete e vinte ambas estavam prontas e Ana ainda enrolou por mais dez minutos até que finalmente foram para o refeitório. Lucia estranhou que o refeitório estava escuro. Porém quando cruzou o marco da porta as luzes se acenderam e um enorme bolo estava colocado no centro da mesa principal, com uma vela com o número 25 faiscando serelepe. Todas cantaram "Parabéns a Você" e Lúcia ficou radiante. Foi cumprimentada por todas após apagar as velinhas. Ana foi a última a abraça-la e ao faze-lo Lúcia lhe perguntou sorridente:
- Tu sabia de tudo isso, não sabia?
- Huuummm... Sabia!
- E não me contou!
- Estragaria a surpresa!
- É verdade... – concordou Lúcia – Muito obrigada.
Depois da janta Lúcia partiu o bolo e o distribuiu para todas. Quando as demais foram se recolher somente Ana ficou com Lúcia no refeitório.
- Vamos até o meu quarto? Eu tenho uma coisa pra te dar... – disse Ana.
- Outra surpresa?
- Pode ser...
- Aaaiii... Assim fico mal acostumada! Vou querer fazer aniversário todos os dias!
Ana riu-se. Elas foram caminhando vagarosamente até o quarto de Ana. Esta ajoelhou-se e tirou o embrulho de baixo da cama. Os olhos de Lúcia se arregalaram ao ver o pacote colorido.
- Pra mim???
- Não. Pra Irmã Diva! Que faz aniversário sei eu quando!
Lúcia deu um tapinha no braço de Ana e pegou o presente. Com a expectativa de uma criança abriu o pacote e seus olhos brilharam ao ver o urso branco. Olhou para o presente incrédula e encantada.
- É lindo!!! – disse efusiva abraçando o urso macio contra o peito – Eu adorei!!!
- Que bom. Fico feliz.
- Ana... eu acho que nunca ganhei um presente tão lindo...
- Para com isso, garota! Não exagera.
Lúcia abraçou Ana pelo pescoço sapecando-lhe um beijo estalado na face.
- Muito obrigada! É realmente o presente mais lindo que eu já ganhei!
Ana limitou-se a sorrir e retribuiu o abraço e o beijo. Lúcia ainda abraçada a seu presente disse:
- Agora eu vou pro meu quarto. Amanhã a gente tem serviço pela frente, não é mesmo?
- É. – respondeu Ana.
- Boa noite então...
- Boa noite. E feliz aniversário de novo.
- Obrigada. – respondeu Lúcia sorrindo de orelha a orelha e correndo na direção do convento.
Ana acompanhou a freirinha com o olhar até que esta desaparecesse de seu campo de visão. Sorriu para si mesma lembrando da expressão de felicidade de Lúcia. De fato acertara na escolha do presente.
Em seu quarto Lúcia admirava seu novo amigo. Colocou-o sentado no centro de sua cama e atraída pelo adesivo na patinha descobriu que seu mascote falava. Ao escutar o "I love you, baby" sorriu para si mesma emocionando-se com o gesto carinhoso de Ana. Adormeceu abraçada ao seu novo amigo.
Naquela quarta-feira pela manhã a Madre havia pedido para Ana recolher lenha para a caldeira, uma vez que o fornecedor havia atrasado a entrega e se fazia necessário mante-la funcionando. As baixas temperaturas daquele mês de julho obrigavam a utilização de água quente para quase tudo, sob pena de se ter as extremidades enregeladas pelo frio intenso.
Lúcia animou-se com a atividade atípica. Auxiliou a encilhar a pequena mula, que vivia ali há bastante tempo, na carrocinha de madeira enquanto Ana afiava a lâmina do machado e pegava a motosserra. A bordo do pequeno veículo de tração animal as duas partiram em direção ao capão de mata nativa com o objetivo de arrumar uma porção significativa de lenha seca.
Ao penetrarem na parte mais cerrada da vegetação começaram a catar troncos de arvores, pedaços de toras e arbustos. Alguns eram muito grandes e exigiam o corte pela motosserra ou pelo machado. O tempo estava seco havia alguns dias e, embora a umidade natural do inverno prevalecesse naquela região, os pedaços de madeira estavam adequados para a queima.
As trabalhadoras planejaram almoçar naquele local e retornar ao convento somente no final da tarde com a carroça repleta e lenha suficiente empilhada no mato para somente ser recolhida no dia seguinte.
Perto do meio dia as duas estavam famintas e trataram de estender uma toalha xadrez esverdeada embaixo de uma árvore frondosa cuja sombra convidava ao descanso. A Irmã Celestina, sabedora do intuito de Lúcia e Ana de só retornar no final da tarde, havia preparado uma cesta de vime com uma farta refeição para as duas. Havia arrumado cuidadosamente dois pratos no fundo da cesta, dois copos descartáveis, talheres e guardanapos de papel. Num pote plástico havia preparado um frango frito com farofa. Outro pote com arroz e um terceiro com folhas de alface e pequenos tomatinhos de jardim. Ainda havia um pote com pastéis de carne e ovos cozidos e alguns pedaços de pizza de atum. De sobremesa havia um bolo de laranja com cobertura de côco ralado e um pote contendo pedaços de um saboroso pudim de leite. Uma garrafa com suco de laranja e uma garrafa térmica para o café da tarde completavam o farnel. Lúcia abriu a cesta e seus olhos brilharam. Ana se divertiu com a expressão de contentamento da loirinha.
- Tem comida aqui para um batalhão! – disse Lúcia divertida.
- Acho que a Irmã Celestina conhece o eleitorado dela! No teu caso, é claro! – provocou Ana.
- Siiiimmm... Obviamente a "senhora come pouco" vai ficar só olhando, não é mesmo? – respondeu Lúcia fazendo uma careta e puxando o cesto para o seu lado.
- Nada disso! – respondeu Ana puxando o cesto de volta – Eu vou te dar apoio moral!
Ambas tiveram de sorrir. Almoçaram e recostaram-se um pouco no tronco da árvore, dando vazão à preguiça que era natural após uma refeição daquelas.
- Ana...
- O que é?
- Tu vai ficar até quando aqui?
- Por que a pergunta? – quis saber Ana curiosa.
- Por nada... só pra saber... curiosidade, sei lá.
Fez-se um silêncio e Lúcia continuou:
- Na verdade eu queria saber se tu tá gostando daqui.
- Estou.
- Vai ficar bastante tempo então...
- Pode ser...
- Pode ser?
- É. Pode ser.
- Mas tu não tem certeza? – insistiu Lúcia.
- A única certeza que se tem é que se vai morrer um dia.
- Credo! Vira a boca pras costas! – disse Lúcia.
- Mas é verdade.
- Eu sei que é, mas não precisa falar!
- Onde está a tua fé na vida eterna, Irmã Lúcia? – provocou Ana.
- Eu tenho fé na vida eterna... mas é que eu não gosto de pensar na morte...
- Ninguém gosta.
- Pois é... mas eu fico angustiada quando penso que posso nunca mais ver uma pessoa que eu amo... – conjeturou Lúcia pensativa.
- Mas a vida é assim.
- Eu não me imagino sem os meus pais, os meus irmãos... – continuou Lúcia.
- Mas você está longe deles.
- Mas se eu decidir posso ir para casa, e vê-los.
- Está pensando em ir? – questionou Ana.
- Não...
- Então qual o motivo da angustia?
- Ana... Tu me confundiu! A gente tava falando de outra coisa!
- É?
- É! Eu perguntei se tu ias ficar aqui por bastante tempo.
- E isso te interessa? – perguntou Ana encarando Lúcia.
- Interessa.
- E porque?
- Ora! Porque eu gosto de ti!
A resposta espontânea pronunciada por aqueles lábios sorridentes e isentas de segundas intenções, pelo menos conscientes, fizeram Ana ficar desconcertada e desviar o olhar. Nos últimos meses Ana vinha se sentindo estranha em relação à Lúcia. Sentia-se atraída pela freirinha, mas sempre que tais sensações afloravam em seu consciente tratava de expulsa-las como se faz com um intruso indesejável. Seu senso de ética não lhe permitia dar forma aos pensamentos que, muitas vezes em sonho, lhe afloravam incontroláveis. E isso a deixava deveras perturbada em certas ocasiões. E sentia um aperto no peito que não sabia definir ao certo o motivo, ou não se permitia definir...
- Ana... ANA!
- Ãããhhh? O que?
- Tá com a cabeça aonde? Eu tô falando contigo! – disse Lúcia.
- Desculpa. Me distrai. O que foi que você disse?
- Que eu gosto de estar contigo.
- Ah, que bom... eu também. – disse Ana.
Lúcia sorriu encantadoramente. Ana não conseguiu desviar os olhos daquelas gemas cristalinas e esverdeadas como duas esmeraldas. Novamente foi tomada por um sentimento de aperto no peito. Também se sentia mal em não contar para Lúcia a verdade sobre sua estada naquele lugar. Era como se não confiasse naquela criatura encantadora, pior ainda, como se traísse sua confiança ao ocultar uma parte tão dolorida de sua vida. Ana encarou Lúcia e tomou uma decisão: era hora de Lúcia saber o motivo verdadeiro de ela estar ali. Respirou fundo, baixou os olhos e ensaiou mentalmente o que dizer:
- Lúcia...
- O que? – respondeu a freirinha sorridente.
- Eu preciso te contar uma coisa...
Pelo tom de voz de Ana, Lúcia ergue-se um pouco e encarou a morena.
- Coisa séria?
- É. – respondeu Ana – Eu preciso te contar o porque estou aqui. Mas é preciso que você guarde em segredo.
- Eu juro, ó! – disse a loirinha cruzando os dedos sobre a boca e dando dois beijinhos, como que selando seu juramento.
- Bom... – suspirou Ana, continuando - ...eu estou aqui porque fui mandada para cá.
- Mandada?
- É.
- Mas por quem.
- Pela Justiça.
- Como assim? – perguntou Lúcia.
- Eu cumpro pena aqui. Trabalho comunitário.
- Pena? Mas o que foi que tu fizeste?
- Homicídio culposo.
- O que? Tu matou alguém?
Ana baixou os olhos antes de responder apenas com um sinal afirmativo de balançar de cabeça.
- Eu não acredito. – disse Lúcia – Tu não faria isso! Eu te conheço! Tu salvou a Peninha! Não serias capaz de matar ninguém.
- Mas matei. Indiretamente, mas matei. – disse Ana com um tom amargurado na voz.
- Por favor, me conta essa história desde o começo. – pediu Lúcia.
- Já faz algum tempo... eu estava com alguns amigos num bar. A gente tava bebendo, jogando conversa fora... enfim, fazendo nada num fim de noite de sexta-feira. Na saída fui eu que dirigi o carro para uma amiga e a gente sofreu um acidente. Um caminhão me deu uma fechada e eu saí da pista. O carro capotou e eu só acordei no outro dia com alguns hematomas, um corte no braço esquerdo, um galo na testa e só. Eu tava de cinto, mas... a minha amiga não tava... e morreu na hora.
- Mas foi um acidente! Tu não teve culpa.
- No hospital fizeram exames... eu tinha bebido. A condenação foi inevitável.
- Tu tava bêbada?
- Não... mais ou menos... na verdade eu havia bebido sim. Mas eu era a mais sóbria do grupo! Porra mesmo! Maldita hora que eu peguei aquele carro! – disse Ana escondendo o rosto com as mãos enquanto as lágrimas escorriam por suas faces.
Lúcia passou o braço sobre o ombro de Ana, aconchegando-a junto a seu peito e abraçando-a. A morena retribuiu o abraço e chorou compulsivamente.
- Calma... tá tudo bem agora... já passou... – disse Lúcia tentando consola-la.
- Não passou, não. Não tem um único dia em minha vida que eu não me lembre daquele maldito caminhão na minha frente. E o pior é que ninguém acreditou... Ninguém costuma acreditar nos "bêbados" mesmo. E quem poderia confirmar a história morreu.
- Ana, não adianta remoer o passado. Ele não volta. É preciso ter fé em Deus e confiar a Ele o futuro.
Ana sorriu melancolicamente. Quem dera tivesse um décimo da fé de Lúcia. No entanto Ana sentiu-se protegida e amparada na aparente fragilidade daquele abraço. Quisera que o mundo se acabasse naquele momento e pudesse morrer fitando aquelas pérolas esverdeadas tão de perto. Lúcia secou com seu dedo indicador uma lágrima da face de Ana. Afastou-se suavemente, encarou a morena de frente e disse com voz doce:
- Ana, para mim tu continuas sendo a pessoa boa que eu conheço... o ser humano capaz de se comover com o sofrimento alheio. Pára de te torturar com uma culpa do passado que em nada vai mudar o teu presente.
Ana assentiu com a cabeça e esboçou um sorriso, mesmo que triste. Havia conseguido contar uma parte da verdade de sua vida para aquela criaturinha que gostava tanto. A outra parte não se achou com coragem de falar. E muito mais que isso, havia conseguido chorar. Raramente chorava, ainda mais perto de outra pessoa. Sentiu-se aliviada.
Seguiu-se um breve período de silêncio até que Lúcia levantou-se num pulo e disse animadamente:
- Vamos lá, dona preguiçosa! Tem muita lenha pra juntar ainda!
Ana se levantou de onde estava e trataram de colocar mãos à obra. Naquela época do ano o dia era curto e o sol se punha antes das dezoito horas, sendo que depois das quatro horas da tarde já fazia um frio considerável, muito embora as duas estivessem bem aquecidas pelo trabalho braçal.
Com a carrocinha entupida de lenha retornaram para o convento e combinaram de pegar o restante no dia seguinte, em três ou quatro viagens.
Descarregaram a lenha no depósito ao lado da caldeira e passaram no galpão da manutenção, após soltarem a mula no pasto, para guardar a carroça em seu devido lugar. Ainda faltava cerca de uma hora para a janta e resolveram matar um pouco de tempo enquanto Lúcia convencia Ana a lhe ensinar a jogar xadrez, depois de haver descoberto por acaso que a morena possuía um tabuleiro com peças de madeira esculpidas por ela mesma.
- Senta aí. – disse Ana para Lúcia indicando a beirada de sua cama enquanto se posicionava numa cadeira e colocava o tabuleiro entre elas, sobre uma mesinha dobrável.
Ao se sentar Ana deixou escapar um gemido ao mover o ombro direito para frente.
- O que foi? Tá com dor? – perguntou Lúcia.
- Não é nada não. É só um mau jeito que eu dei.
- Mas tá doendo desde quando?
- Desde agora a tarde. Mas logo passa. – respondeu Ana.
Lúcia levantou-se e se posicionou atrás de Ana, dizendo:
- Tira a jaqueta e baixa o macacão.
Ana olhou para ela franzindo uma sobrancelha:
- Pra que?
- Faz o que eu tô mandando. Me deixa ver o teu ombro.
- Você não é médica, garota!
- Mas faço uma massagem maravilhosa...
- Não precisa.
- Não tô perguntando se precisa. Tô mandando tirar a jaqueta.
- E você lá manda em mim? – respondeu Ana desaforada.
- Agora estou mandando! – disse Lúcia com ambas as mãos na cintura e uma cara enfezada.
"Petulante"... pensou Ana, mas resolveu fazer o que sua interlocutora ordenava com tamanha firmeza. Tirou a jaqueta sentindo uma fisgada nas costas. Em seguida desabotoou o macacão de brim e baixou a parte de cima. Aproveitou e tirou a blusa de lã ficando apenas com uma camiseta de algodão bem justa. Lúcia ficou de pé atrás dela. Esfregou as mãos uma na outra e em seguida pousou-as com firmeza, mas delicadamente nas costas doloridas de Ana. Iniciou movimentos circulares na musculatura tensa. Ana sentiu o contato daquela mão pequena e quente e não pode evitar um arrepio que lhe desceu da raiz dos cabelos até o dedão do pé. Chegou a ficar constrangida quando os pêlos de seus braços arrepiaram-se, como que delatando aquela estranha sensação de prazer. O toque firme fazia com que gemesse baixinho, enquanto sentia a musculatura dolorida sendo gradativamente aliviada pela pressão forte daqueles dedos pequenos que sabiam o que estavam fazendo. Ana, de olhos fechados, deixou-se levar pela enxurrada de sensações que aqueles toques lhe despertavam. Em dado momento Lúcia fez com que Ana encostasse a parte de trás da cabeça em seu peito e passou a massagear sua face circulando os olhos, o nariz e a boca, e fazendo pressão em alguns pontos específicos. Ana estava completamente absorta e entregue àquelas mãos. Na verdade estava entregue àquela pequenina mulher. Naquele momento, provavelmente pelo efeito relaxante da massagem e da proximidade física, permitiu-se admitir o que vinha sentindo há algum tempo. Deu-se conta que, mais do que amizade e admiração por Lúcia, sentia amor. E desejo.
Por sua vez Lúcia também percebia algumas mudanças em seus sentimentos. Antes ansiava por concluir seus estudos o quanto antes e preparar-se para assumir maiores responsabilidades na Ordem e na vida religiosa. Porém, de uns tempos para cá, pensava mais nos finais de semana onde poderia passar algum tempo a mais com Ana. Gostava de estar perto dela, de olhar sua figura imponente, de provocar o seu sorriso e as suas caretas de reprovação. Ansiava por ouvir sua voz dizendo: "olha o que tá fazendo, garota!". Enfim, seus dias vinham se resumindo na espera de rever Ana. E inocentemente não sabia conceituar aquele sentimento, nem tão pouco imaginar o que se passava no coração e na consciência de Ana. Naquele momento, massageando aquelas costas bem definidas e passeando pela superfície daquela pele morena como quem se perde num mar de aconchego, Lúcia não conseguia pensar em mais nada além da sensação da textura da pele sob suas mãos. Sentia o cheiro dos cabelos de Ana e passou a mão suavemente por entre as madeixas escuras, aproveitando para massagear o couro cabeludo.
O toque nos cabelos fez a pobre Ana novamente arrepiar-se por completo, mais que isso, sentiu um ímpeto de tomar Lúcia nos braços e perder-se naqueles olhos esverdeados. No entanto foi despertada daquele estado de quase inconsciência por um beijo estalado em sua face, que a fez sobressaltar-se.
- Prontinho! Tu vai ver como a minha massagem é milagrosa! Daqui a pouco não terás mais dor nenhuma. – disse Lúcia alegremente.
Ana não conseguia pronunciar palavras, apenas fez um sinal afirmativo com a cabeça. Lúcia continuou:
- Eu vou lá tomar um banhozinho antes da janta. Tô precisada! – disse dando mais um beijinho na face de Ana, que permanecia estática. – Tô indo. Até daqui a pouco!
E saiu serelepe quarto afora deixando Ana sentada pensativa, ainda com a sensação daquelas mãos mágicas passeando por sua pele. A tomada de consciência dos próprios sentimentos deixou Ana com o peito apertado por um nó. Sabia que não tinha a mínima chance de ter a pequena loira em seus braços, e que jamais seria sua mulher, somente amiga. Tal certeza fez uma lágrima escorrer por seu rosto até o canto esquerdo de sua boca, fazendo-a sentir o gosto de sal daquela gota, verdadeira pérola de amargura. Enxugou a lágrima com a mão e foi tomar um banho, na esperança de que a água levasse embora aquela sensação de desconforto e de angustia. Tivera muitas emoções no mesmo dia. Falar sobre seu passado e perceber-se totalmente apaixonada por um amor impossível eram sentimentos que a estavam deixando quase sem ar. Vestiu-se e foi para o refeitório jantar. Durante a refeição falou pouco e quando questionada por Lúcia respondeu simplesmente que era cansaço.
Nos dias seguintes Ana esquivou-se como pôde de Lúcia, deixando a pequena freira sem entender o que se passava. No final de semana Ana tratou de sair do convento indo até as cidades vizinhas para conhece-las e só retornando à noitinha, quando todas já haviam se recolhido, inclusive Lúcia.
No domingo à noite, já aquecida em seus cobertores, Lúcia ouviu o ronco do motor da Kombi de Ana cruzando o portão de entrada do convento. Sua vontade era de levantar-se e ir conversar com Ana. No entanto preferiu tentar conciliar o sono, já que Ana havia saído sem mesmo dizer-lhe para onde iria, deixando-a à sua espera por todo o final de semana. "O que será que eu fiz?", questionava-se a freirinha enquanto lágrimas também escorriam de suas faces rosadas. Não entendia o repentino afastamento de Ana. A morena não a destratava, porém esquivava-se como que por encanto. Lúcia chegou a pensar que poderia haver um dedo da Irmã Teodora nessa história, porém descartou tal possibilidade uma vez que a mesma havia viajado a pedido da Madre e estava fora há mais de uma semana. Definitivamente não tinha idéia do que poderia estar acontecendo, apenas sentia-se mal, muito mal e entristecida.
Na segunda-feira reiniciaram as aulas e Lúcia retomou sua rotina normal. Ana passou a fazer suas refeições nas horas que sabia que Lúcia não estaria no refeitório. E só Deus sabe o quanto lhe custou aquela decisão. Chegou a pensar em sair do convento, mas ainda tinha mais um tempo de trabalho comunitário a cumprir e não sabia se estaria a salvo caso retornasse para sua cidade.
A semana se arrastou tanto para Lúcia quanto para Ana. Na sexta-feira pela manhã Lúcia decidiu que iria conversar com Ana para esclarecer o que se passava. Aproveitaria o final de tarde para isso uma vez que só teria duas cadeiras nas primeiras horas da tarde. Estava decidida a entender o que se passava.
Retornou para o convento por volta das dezesseis horas e foi informada pela Madre que Ana estava trabalhando no galpão da manutenção, lixando e pintando umas prateleiras de madeira. Dirigiu-se para lá com passos decididos. Entrou no galpão e avistou Ana manuseando a lixadeira elétrica e com uma máscara no rosto para evitar a inalação da poeira da madeira. Aproximou-se e parou a seu lado. Quando a morena percebeu sua presença parou imediatamente o que estava fazendo e tirou a máscara do rosto. Antes que pudesse dizer qualquer coisa Lúcia disparou:
- Ana, escuta aqui, o que é que tá acontecendo? Pelo amor de Deus, o que foi que eu fiz?
- Na... nada. Não fez nada. – gaguejou Ana.
- Então por que é que tu estas me evitando?
- Eu não tô te evitando. Só tô com muita coisa pra fazer. – tentou argumentar Ana.
- Tá... agora conta outra!
- Que outra, garota? É isso aí e pronto! – disse Ana asperamente.
- Eu não entendo... – respondeu Lúcia sentindo seus olhos se encherem de água.
Ana permaneceu calada e retomou o que estava fazendo.
- Ana... – pediu Lúcia com a voz entrecortada pelas lágrimas – Por favor... me fala o que está acontecendo... por favor...
Novamente Ana largou a máscara e respondeu em tom mais brando, porém seco:
- Nada, garota. Não esquenta. É encucação minha.
- Mas me fala o que é... talvez eu possa te ajudar.
- Já falei que é coisa minha.
Lúcia olhou para Ana e não conseguiu controlar a enxurrada de lágrimas que teimava em brotar de seus olhos verdes. Ana sentiu novamente aquela mão pesada a lhe apertar o peito. Não suportava ver o sofrimento daquele pequeno ser que amava. No entanto não poderia contar o que se passava. Esmurrou a mesa de madeira e esbravejou:
- Porra mesmo! Droga de vida! – E saiu porta à fora para que Lúcia não a visse chorar novamente.
Pegou sua carteira e saiu do pátio caminhando rápido em direção à cidade. Lúcia sentou-se num banco de madeira e ficou durante muito tempo pensativa, enquanto as lágrimas lhe queimavam as faces. Anoiteceu e Lúcia não conseguiu jantar. Percebeu que Ana não havia retornado. Por volta de onze horas da noite respirou fundo e tomou uma decisão: iria atrás de Ana. Não passaria mais nenhum dia sem saber o que se passava, nem que precisasse espremer a morena para lhe extrair a verdade. Colocou um casaco grosso sobre o hábito e desceu a escadaria do convento silenciosamente, para que ninguém notasse sua escapadela, tomando o rumo do centro da cidadezinha.
Não foi difícil para Lúcia localizar as pegadas da morena, afinal naquele lugarejo remoto pouca coisa havia para se fazer num final de semana à noite. E poucos lugares permaneciam abertos naquele adiantado da hora. Lúcia percorreu a praça principal na esperança de encontrar Ana sentada em algum dos bancos envernizados em volta do monumento central. A praça estava vazia e não havia viva alma nas ruas além de alguns poucos cães que viviam perambulando pela cidade e eram alimentados pelos comerciantes locais e por alguns moradores mais benevolentes. A igreja matriz estava com as portas fechadas desde as vinte horas, após a missa. Lúcia continuou caminhando. Percorreu algumas vielas até que avistou a luz do bar que costumava reunir os notívagos, os jogadores de bilhar, os pinguços, as moças de vida fácil e os arruaceiros de plantão. De dentro do bar vinha uma música animada e o burburinho de vozes era entrecortado pelo som seco das tacadas de bilhar e pelos olés ou vaias conforme a precisão das jogadas. Lúcia aproximou-se cautelosa. Não acreditava que Ana pudesse estar ali, porém por via das dúvidas, resolvera checar o local. Para sua surpresa, ao parar em frente à porta de acesso, viu Ana com um bastão de bilhar na mão preparando-se para encaçapar a bola sete. Deu a tacada e acertou em cheio. Os que estavam em volta vibraram e Ana pegou um copo que estava na borda da mesa, entornando o líquido amarelado de uma vez só. Lúcia não gostou do que viu. Sentiu vontade de tirar Ana dali a tapas. Ficou muito indignada com a cena, principalmente quando uma moça de vestido preto e minúsculo se aproximou por trás de Ana abraçando-a pela cintura e colocando-lhe nos lábios um cigarro aceso, no qual Ana deu uma longa tragada enquanto olhava a fumaça se desvanecendo enquanto subia em direção ao teto.
Sem titubear Lúcia irrompeu no recinto. Frente a entrada de uma freira no local os freqüentadores fizeram um silêncio sepulcral, olhando para ela sem entender o que se passava. Afinal, o que estaria fazendo uma freira naquele lugar? A música, cujo som era um misto de saracoteio e chiado, era o único som que se ouvia naquele momento. As vozes se calaram por completo e Ana não acreditava no que via. Não era possível que Lúcia houvesse tido a ousadia de vir atrás dela, pensava.
- Deseja alguma coisa, Irmã? – perguntou com cordialidade o bodegueiro.
- Desejo sim! – respondeu Lúcia colocando as mãos na cintura.
E antes que ela continuasse a falar Ana caminhou rapidamente em sua direção tomando-a pelo braço e a conduzindo para a rua. Instantaneamente o burburinho de vozes reiniciou-se no interior do bar, contrastando com a música e o som dos copos no balcão.
- O que é que você pensa que tá fazendo, garota???!!! – esbravejou Ana entre dentes, ainda com Lúcia segura pelo cotovelo.
- Eu vim te buscar! A gente precisa conversar!
- Conversar um cacete!!! Desde quando eu te dei a liberdade de vigiar os meus passos? O que é que você tá pensando???
- Tu tá machucando o meu braço. – disse Lúcia.
Ana caiu em si e soltou o braço de Lúcia.
- Desculpa. Eu não quis te machucar. – disse mais brandamente.
- Vamos para casa. – pediu Lúcia.
- Eu vou pra onde eu quiser, você não manda em mim.
- Ana... tu bebeu...
- Bebi! E daí? Fumei também, porra! Só não trepei ainda! Não posso? Vai proibir, "Irmã Lúcia"?
Lúcia ouvia o discurso de Ana dando o desconto das doses a mais de bebida que ingerira.
- Ana... vem pra casa comigo. Por favor... – pediu Lúcia com suavidade.
O tom de voz de Lúcia fazia com que Ana se sentisse cada vez pior. Preferiria que ela a insultasse ou lhe batesse na cara. Mas não. Lúcia era doce como uma fada, incapaz de ofender a quem quer que fosse. Ana se virou e começou a andar em direção ao convento sendo seguida por Lúcia que continuava tentando conversar:
- Ana... o que é que está havendo? Me fala, por favor... Eu sou tua amiga. Confia em mim. Não me deixa com esse sentimento de ter feito algo de errado.
Ana continuava caminhando a passos largos, calada. Lúcia exaltou-se com a indiferença da morena:
- AFINAL O QUE É QUE ESTÁ HAVENDO??? – gritou Lúcia – O QUE É QUE TU ESTAVA PROCURANDO NAQUELE LUGAR? BEBER ATÉ CAIR??? ESQUECER O PASSADO??? DIVERSÃO??? SEXO??? O QUE É QUE TU QUERES AFINAL??? O QUE É QUE TU PROCURAS???
Frente à explosão de Lúcia, Ana estancou e virou-se para ela respondendo em tom sofrido, baixo e grave:
- Eu não tô procurando nada... Eu tô fugindo!
- Fugindo? Do quê? – quis saber Lúcia.
Ana calou-se e aproximou-se dela ficando com o corpo quase colado ao da loirinha. O efeito do álcool acabou liberando o que Ana tentava a muito custo conter em seu íntimo. E como as águas de uma represa que se rompe Ana envolveu Lúcia pela cintura puxando-a fortemente de encontro a seu corpo. Com a outra mão segurou a nuca da pequena indefesa e olhou-a nos olhos respondendo a sua pergunta:
- Eu fujo disso. – disse Ana enquanto capturava a boca de Lúcia num beijo sôfrego e ardente.
Lúcia ficou totalmente sem ação. Limitou-se a sentir a boca de Ana de encontro à sua. O calor dos lábios da morena e o movimento de sua língua invadindo aquela boca que nunca havia sido beijado antes fazia com que Lúcia permanecesse imóvel. Ana, por sua vez, sentia como se estivesse sendo levada a um universo paralelo onde só existissem as duas, nada mais. A princípio a boca de Lúcia permaneceu estática, no entanto, aos poucos, foi correspondendo àquele beijo, de uma forma tímida, mas amorosa. Ana foi percebendo que gradativamente a língua de Lúcia procurava a dela. A boca ansiava em ser capturada e os lábios exigiam ficar unidos aos dela. Nenhuma das duas saberia precisar o tempo de duração daquele ósculo tão desejado por Ana. Nem tão pouco Ana havia suposto que pudesse ser correspondida, como o foi. Ambas sentiram o coração bater na boca e as pernas bambas. Ambas também sentiram a umidade que brotava das próprias entranhas, com a diferença de que Ana sabia perfeitamente do que se tratava e para Lúcia era uma sensação até então desconhecida. Ana sentiu o calor do corpo de Lúcia espremido junto ao seu e cada curva se moldava como se houvessem sido feitas uma para a outra. A noite estava fria, como o eram as noites de agosto, porém Lúcia sentia seu corpo pegando fogo. Não pensava em nada, nem em seus votos, nem em suas crenças, nem em pecado. Somente sentia um calor prazeroso vindo daquela boca que a possuía e daquele corpo que a aprisionava junto a si. Desejou ficar ali para sempre.
Quando finalmente as bocas se separaram elas se fitaram nos olhos, caladas. Ana, num lampejo de lucidez, afastou-se de Lúcia dando um passo para trás. Levou ambas as mãos à cabeça, pousando-as nos cabelos negros e olhando para o céu. Fechou os olhos e suspirou. Lúcia permanecia olhando fixamente para Ana, incapaz de esboçar qualquer movimento, ainda com a sensação do prazer causada pelo beijo e pelo contato do corpo de Ana. Sentia-se flutuar.
Ana virou-se vagarosamente e seguiu para o convento, sem conseguir pronunciar uma palavra sequer. Não sabia o que dizer. Realmente havia bebido um pouco, porém sabia perfeitamente o que havia feito, e mais, o que havia sentido. Lúcia caminhava um pouco atrás dela, também em silêncio total, tentando ordenar os pensamentos e entender o que havia ocorrido. Cada qual se recolheu ao seu respectivo quarto no mais absoluto silêncio.
Ana, com os olhos fixos no teto, pensava: "meu Deus...o que foi que eu fiz? E agora?", e não encontrava respostas. De fato não sabia o que fazer de sua vida agora que havia provado o gosto daqueles lábios e sentido o toque daquele corpo. Não conseguia imaginar o que lhe aguardava o dia de amanhã. Sentia-se totalmente perdida.
Lúcia, por sua vez, também fitava as tábuas do teto e pensava nas sensações de momentos atrás. O que mais a assustava era que não havia sentido repulsa por haver sido beijada por uma mulher. Muito pelo contrário: havia gostado. Aliás, nunca havia sido beijada antes e jamais imaginara que pudesse ser tão... quente. Não sabia nem se deveria pedir perdão a Deus, ou se confessar, ou fazer penitência, ou quem sabe sucumbir novamente ao prazer de um beijo... Também sentia-se totalmente perdida.
No dia seguinte Lúcia e Ana encontraram-se de passagem no refeitório. Ana estava muito desconcertada e não conseguiu encarar Lúcia nos olhos. De fato não sabia o que fazer, nem o que falar. Ao passar por ela murmurou um "bom dia" quase que inaudível, com os olhos fixos no chão, obtendo uma resposta no mesmo tom.
Naquele dia Ana trabalhou no prédio da escola, no entanto não cruzou com Lúcia pelos corredores no turno em que a mesma lecionava. A freirinha estrategicamente se esquivou o quanto pode do setor onde Ana estava. À tarde Lúcia foi para a faculdade e a noite trabalhou na secretaria da escola até bem tarde. Não chegou nem mesmo a jantar naquele dia. Não queria encontrar Ana. Precisava pensar.
Ana também tratara de afastar-se de Lúcia. Também necessitava de um tempo para pensar.
A semana transcorreu sem que elas tivessem oportunidade de trocar mais do que dois ou três olhares e tímidos "ois". No sábado Ana havia combinado com a Madre que trabalharia o dia todo na manutenção de alguns problemas surgidos no forro do prédio da escola.
Lúcia, por sua vez, passou a manhã recolhida à capela, em oração. Estava de fato confusa. Sua cabeça parecia um turbilhão tamanha quantidade de sensações novas que vinha experimentando na última semana. Desde aquele fatídico beijo não conseguia mais pensar em outra coisa. Conjeturou acerca de todas as suas crenças até então. E o que mais a angustiava era a indefinível sensação de prazer que o contato com a boca de Ana lhe causara. Ao invés de repulsa havia sentido prazer. E era exatamente esse sentimento que a deixava angustiada e confusa. Pensava em toda a sua trajetória até aquele dia. Lembrou-se dos seus votos e do propósito que tinha desde a adolescência de entregar sua vida à vocação religiosa e a servir ao próximo. E de repente tudo isso vinha sendo questionado por causa de um único beijo. E dado por uma mulher! Quanto mais rezava e pedia que Deus a iluminasse, mais se sentia confusa. Por que Ana havia feito aquilo? Ela era mulher. Porque raios então a havia beijado? Será que Ana já havia beijado alguma outra mulher antes? Por que ela? Tais perguntas ecoavam em sua mente e não a deixavam um segundo sequer em paz. Vinha se esquivando de Ana o quanto podia, mas não podia fazê-lo para sempre. Precisava conversar com ela para esclarecer algumas coisas e tentar entender o que se passava. Resolveu que não a procuraria, no entanto pararia de se esquivar. E quando a oportunidade surgisse conversaria com ela.
Ana, por sua vez, também se encontrava numa situação de angustia e de conflitos internos. Recriminou-se mais de mil vezes por ter feito o que fizera. "Eu não tinha o direito...", pensava. No entanto estava feito. Não podia voltar o tempo. Angustiava-a pensar no que estaria se passando na cabeça e no coração de Lúcia. Estaria ela a odiá-la? Estaria sentindo repulsa pelo que fizera? Não, repulsa não. Ana sentira que Lúcia havia correspondido ao seu beijo. Ela era uma mulher vivida e sabia perfeitamente quando uma pessoa se entregava ao prazer. E Lúcia havia se entregado à sensação daquele beijo sim. Disso Ana tinha certeza. Mas daí por diante tudo eram dúvidas. A única certeza que Ana tinha naquele momento era de que nunca, jamais, havia sentido nada igual em sua vida. Nunca uma boca lhe fora tão desejada. Nunca um contato, mesmo que tão efêmero, despertara uma reação tão forte nela quanto aquele. Se deu conta que, pela primeira vez em toda a sua vida, estava de fato amando. Já tiveras inúmeras mulheres em seus braços, porém nenhuma delas foi capaz de fazer com ela sentisse aquela explosão interna de sentimentos, como o fizera a pequena Lúcia. Nunca seu corpo e sua alma haviam desejado tanto uma pessoa. Nunca ansiara tanto estar perto de alguém, mesmo que fosse somente para observar o encanto dos sorrisos e dos pequenos gestos do cotidiano. Sentia muito mais do que paixão, sentia de fato amor. Na verdade jamais se imaginou numa situação como aquela: estar à mercê de duas pequenas pérolas esverdeadas que conseguiam dela o que bem entendiam. Era impossível não ceder aos encantos e aos pedidos daquela criaturinha encantadora. E toda a angustia de Ana se resumia no fato de que poderia tê-la magoado com sua atitude e que jamais a teria como desejava: como sua mulher. Sentia seu peito doer e uma sensação enorme de impotência a invadia. Ana era uma mulher bela, cujo porte sedutor sempre colocara a seus pés as mulheres que havia desejado, bastava manifestar interesse e seus belos olhos azuis e sorriso enigmático sabiam como arrastar qualquer uma para a cama. Mas com Lúcia era diferente. Ana a queria sim, mas para partilhar mais do que a cama, desejava partilhar a vida com ela. E se dava conta de que isso jamais seria possível. Restava-lhe ao menos a certeza de que devia se desculpar com Lúcia. Ana precisava ao menos sentir recuperado o respeito que tinha por aquela pessoa tão especial. Não suportaria saber que ela a considerava indigna de confiança. Como desalento lhe bastaria a certeza de um imenso amor que nunca seria correspondido. Decidiu que procuraria Lúcia para uma conversa definitiva.
Na hora do almoço, no refeitório, quando Ana serviu seu prato, percebeu que Lúcia já estava sentada numa mesa num canto, sozinha e cabisbaixa. Com seu prato nas mãos foi até ela e pediu em voz baixa:
- Posso sentar aqui?
- Pode. – concordou Lúcia sem olhar para ela, mantendo seu olhar no prato de sopa que estava à sua frente.
Ana sentou-se, porém não conseguia tocar na comida. Tentava evitar deixar transparecer seu embaraço, pois sabia que a Madre era uma pessoa perspicaz e poderia notar algo diferente entre elas. Isto sem falar na Irmã Teodora. Disfarçando, Ana esboçou um sorriso e disse:
- O dia tá bonito hoje...
- Ah-rã... – respondeu Lúcia ainda sem encarar sua interlocutora.
Fez-se um silêncio até que Ana falou novamente:
- Lúcia... eu preciso... a gente precisa conversar.
Lúcia permaneceu em silêncio, um silêncio perturbador. Ana insistiu:
- Por favor... eu só quero conversar. – E baixando o tom de voz - Eu quero me desculpar... eu quero esclarecer algumas coisas... Prometo que depois eu saio da tua vida.
Ao pronunciar esta última frase os olhos de Ana se encheram de lágrimas e ela disfarçou fingindo assoar o nariz:
- Desculpa... eu tô meio gripada.
Neste momento Lúcia olhou para ela e respondeu com o mesmo tom meigo de sempre:
- Eu também preciso conversar... eu preciso entender...
Ana assentiu com a cabeça. Lúcia continuou:
- Só não pode ser aqui. Não quero correr o risco que escutem nossa conversa. Podemos nos encontrar na queda d’água, as duas horas, pode ser?
- Pode.
As duas baixaram os olhos e tentaram comer a sopa de aletria que esfriava nos pratos. Ana não conseguiu sequer tomar duas colheradas. Deixou seu prato sobre a mesa e pediu licença, retirando-se. Não queria atrapalhar o almoço de Lúcia.
Antes das duas horas Ana já estava sentava numa raiz de árvore, na margem direita do pequeno córrego, mirando a alegre movimentação das águas correndo apressadas sobre as pedras tomadas pelo limo. As folhas, flores e ramos que porventura caíam na superfície cristalina da água, eram arrastadas com o mesmo frisson das ondulações que se formavam pela forte correnteza. No inverno a sensação de umidade era ainda maior e a água chegava a brotar das pedras da encosta, juntando-se ao pequeno córrego que borbulhava alegremente, totalmente alheio à expectativa e à tristeza de Ana.
Em seu quarto Lúcia caminhava de um lado para outro. Uma frase de Ana não saía de sua cabeça: "depois eu saio da tua vida". Lúcia não sabia se queria ou não que Ana saísse de sua vida. A idéia de nunca mais ver a figura morena e imponente a consumia por dentro. "Mas por que?", questionava-se a loirinha ingenuamente. Resolvera passar na capela antes de conversar com Ana.
No ambiente solene e de penumbra da pequena ermida Lúcia ajoelhou-se em frente ao altar e contemplou a imagem de Cristo de braços abertos, como que abençoando a quem se aproximasse. A imagem de Maria também parecia olhar diretamente para ela e Lúcia tentava descobrir se a expressão da santa era de compreensão ou de reprovação pelo que vinha sentindo. Não conseguiu definir. Na verdade ela própria não sabia definir os seus sentimentos, ou tinha medo de fazê-lo. Temia tomar consciência de seus desejos mais íntimos, os quais não admitia nem para si mesma. Baixou os olhos e tapou o rosto com as mãos. Algumas lágrimas teimaram em escorrer de suas faces. Nesta hora percebeu que não estava sozinha. Olhou de viés e viu uma figura alta a lhe observar atentamente. Era a Irmã Teodora que resolvera dedicar alguns instantes para a oração. A freira aproximou-se e perguntou a Lúcia:
- Tudo bem, Irmã?
A pergunta foi formulada num tom brando que causou estranheza à Lúcia, acostumada a ser tratada com certo rechaço por ela. Possivelmente tenha notado as lágrimas abundantes e se comovido com a dor alheia, afinal ninguém é de todo mau.
- Tudo bem, obrigada, Irmã Teodora. Com licença. – respondeu Lúcia retirando-se.
A Irmã Teodora acompanhou Lúcia com o olhar até que esta desapareceu de sua vista. Tratou de acomodar-se num dos bancos frontais e abriu seu livro de rezas.
Lúcia havia perdido um pouco a noção de tempo e quando se deu conta já eram duas horas. Apurou o passo e dirigiu-se para o local combinado.
Sentada na raiz de árvore Ana olhava impaciente o seu relógio de pulso. "Duas e quinze, ela não vem...", pensava enquanto uma fisgada dolorida lhe atingia o peito. Arremessou alguns cascalhos na direção da água vendo-os afundarem enquanto algumas gotículas respingavam formando uma miniatura de um efêmero chafariz.
Ao chegar bem perto da cachoeira Lúcia diminuiu o passo e aproximou-se em silêncio. De longe observou a figura sentada num tronco e jogando pedras na água distraidamente. Foi invadida por um sentimento de carinho ao perceber a tristeza estampada naqueles olhos azuis que refletiam a cor das águas revoltas. Aproximou-se vagarosamente até que Ana a avistou e levantou-se num salto. Os olhos azuis se acenderam como fagulhas. Sem saber direito que atitude tomar, nem onde colocar as mãos, gesticulou mecanicamente apontando um pedaço de tora de madeira em formato de banco. Lúcia se sentou. Novamente Ana acomodou-se no tronco de árvore que ficava a uma distância segura de onde Lúcia estava, cerca de um metro e meio.
- Pensei que você não viesse... – disse Ana.
- Eu falei que vinha.
Fez-se um período de silêncio onde nenhuma das duas tomava a iniciativa. Foi Ana quem quebrou o silêncio constrangedor:
- Lúcia... eu sei que te devo um pedido de desculpas...
- Não precisa se desculpar de nada, tu tinhas bebido.
- Olha, eu preciso que você me escute. Por favor. Eu preciso te falar algumas coisas...
- Eu vim aqui justamente para ouvir. – respondeu Lúcia.
- Bom, então por favor não me interrompe. Deixa eu falar tudo o que está aqui entalado. Depois você pode me bater na cara se quiser, mas me escuta calada.
Lúcia assentiu com a cabeça. Ana respirou fundo e continuou:
- Lúcia... eu não sou uma bêbada. De fato no dia em que eu te... bom... na semana passada, eu tinha me excedido um pouco sim. Mas eu estava consciente do que fiz. Há anos atrás eu tomei muitos porres, e fumei muito também, e transei muito também. Só que depois do acidente que eu te contei a minha vida mudou radicalmente. Daquele momento em diante eu passei a maneirar na bebida. Eventualmente eu tomo uma cervejinha, principalmente com as parceiras que eu arrumei lá no convento. Mas é só.
Lúcia foi obrigada a sorrir lembrando-se das Irmãs Celestina e Sebastiana.
- A verdade é que eu nunca fui alcoólatra. E o que aconteceu naquele dia... entre a gente... bem... não posso atribuir ao álcool. Eu sabia o que estava fazendo. – Ana respirou fundo e continuou – Aliás, nos últimos tempos eu ando politicamente correta. Eu não fumo faz anos, parei com o cigarro antes que ele acabasse comigo... nem sexo eu tenho feito, pode?... Bom, tem uma outra parte da minha vida que eu preciso te falar. Eu vim para cá, como eu já te disse, para cumprir pena, mas precisei vir para um lugar tão distante para me esconder por uns tempos.
Lúcia a olhou curiosa, mas não a interrompeu. Ana continuou:
- Tem um cara barra pesada atrás de mim. Um cara metido com tráfico de drogas. Mas calma, eu não tô metida nesse negócio de drogas não. Eu me meti foi com a mulher do cara. Transei com a dona, e agora o sujeito quer a minha cabeça.
- Então tu é mesmo... é...
- Lésbica.
- E posso saber por que tu nunca me contou? – questionou Lúcia.
- Por que você nunca me perguntou.
- Se eu perguntasse teria contado?
- Teria. – assentiu Ana e Lúcia percebeu o tom verdadeiro de sua voz.
- A Madre sabe? – perguntou Lúcia.
- Não. Quero dizer, acho que não.
- Mas como é que viestes parar aqui no convento?
- Por ironia do destino a Assistente Social que é responsável pelo acompanhamento da minha prestação de trabalho comunitário é uma amiga minha de infância, que eu reencontrei depois de anos, e é sobrinha da Madre Lídia.
- Não acredito...
- Mas é verdade. Agora deixa eu continuar. – disse Ana tomando fôlego para dar continuidade a seu discurso – Lúcia, eu sou lésbica sim. Na verdade eu me descobri homossexual muito cedo, entre doze e treze anos.
- Só isso??? Mas tu era uma criança!
- Grande coisa, você não entrou para o convento com a mesma idade? – retrucou Ana.
- Mas é diferente!
- Diferente por que? São situações que vão definir a tua vida toda.
- Eu posso não ser freira a vida toda. – respondeu Lúcia, desconhecendo-se naquelas palavras.
- Mas eu sou homossexual muito provavelmente para a vida toda... – respondeu Ana. – Mas dá pra fechar essa matraca e me ouvir?
- Tá, desculpa.
- Bom, continuando... Na minha vida eu tive muitas mulheres. Eu reconheço que sou uma galinha mesmo! Não querendo ofender a Peninha.
Lúcia teve de sorrir novamente e Ana continuou:
- Mas em todos os meus relacionamentos eu de fato nunca me entreguei por completo. Tive ótimas transas, mas pouquíssimos envolvimentos. Acho que sempre tive medo desse lance de entrega, de sofrer, sabe? O exemplo que eu tenho em casa, de relacionamento duradouro, não é lá grande coisa... Meus pais estão juntos ainda, mais de trinta anos de casados. O velho é uma pessoa muito difícil. Sempre quis ter um filho homem. Ironicamente teve três filhas mulheres! Eu sou a mais velha. A minha vida toda ouvi meu pai meio que jogando isso na cara da minha mãe, não de uma forma muito explícita, mas nas entrelinhas, e eu não sei o que é pior, o que machuca mais. A coitada é uma "Amélia", diz sim e amém pra tudo o que ele diz. E o velho tem umas idéias muito retrógradas. Eu decidi sair de casa quando ele expulsou a minha irmã mais nova, na época adolescente e grávida. Decidi que não esperaria para ser expulsa quando ele se desse conta da minha homossexualidade e caí fora por minha conta. Levei a minha irmã junto, a gente alugou um kitnet e depois ela se ajeitou com o pai da criança. Eu segui a minha vidinha sozinha mesmo. Nunca quis ninguém me dando ordens ou regulando a minha vida. – Ana suspirou – Bom... no meu último caso amoroso deu aquele bafafá todo com aquela dona, a mulher do traficante, e eu novamente me dei conta de que não é isso que eu quero pra minha vida. Não nasci pra viver perigosamente. Eu gosto de calma e sossego, de fazer o meu trabalho e voltar pra casa tranqüilamente. Aí vim cair nesse pedaço de mundo e conheci uma realidade totalmente diferente da que estava acostumada. E pra mim foi uma barra, pois se bobear eu não sei nem fazer o sinal da cruz direito. No princípio eu até pensei em cair fora, mas fui gostando daqui, do lugar... das pessoas. E eu conheci você. Você que em princípio quase me enlouqueceu com a sua tagarelice, mas que aos poucos foi me conquistando e me mostrando um outro lado da vida. E a cada dia que passava eu me acostumava mais à tua presença. Lúcia, você passou a ser muito importante na minha vida. Você me mostrou a beleza e o encanto das pequenas coisas, me ensinou verdades até então desconhecidas para mim. Você me transformou num ser humano diferente. Eu passei a contar os minutos que faltavam pra te ver diariamente. Só que... o que eu não consegui evitar foi o fato de me apaixonar por você... mais que isso, eu te transformei no meu norte, no meu caleidoscópio para ver o colorido do mundo. Eu me dei conta que o meu desejo não é só dividir um beijo contigo, ou a cama... meu desejo é dividir a minha vida contigo. Pobre de mim. E eu te peço perdão por isso. Eu preciso que você me perdoe aquele beijo... Eu não consegui me controlar... Mas eu juro por tudo quanto é mais sagrado que eu não quis te desrespeitar, nem te magoar, nem te ofender. Eu preciso que você acredite nisso, pois é a mais pura verdade. Eu sei que você é uma freira, que tem o seu destino definido, que é uma pessoa destinada a servir a Deus e só. Mas infelizmente a gente não consegue controlar os sentimentos. Eu que sempre tive as mulheres que desejei na minha cama, ironicamente jamais terei a mulher que eu de fato amo, e com a qual eu gostaria de passar todos os dias da minha vida. Ironias do destino... Mas, Lúcia, eu te falei tudo isso porque eu não vou mais mentir pra você, nunca mais, nem te esconder nada. E pode ficar tranqüila que eu jamais vou comentar isso com ninguém. Nem tão pouco vou me aproximar de você. E quando eu terminar o meu tempo aqui eu vou embora e nunca mais te procuro. Prometo. Eu só preciso que você me perdoe. Por favor.
Ana calou-se e Lúcia não conseguia proferir palavras. Apenas balbuciou:
- Eu te perdôo, sim. Embora acho que não tenha motivo para faze-lo... E, Ana... eu não sei se eu quero que vás embora...
Ana olhou para Lúcia sem entender sua colocação. Não queria se iludir e fantasiar uma segunda intenção que provavelmente existia somente em sua cabeça. Lúcia levantou-se e disse em voz baixa:
- Eu preciso ir... eu tenho que pensar...
Ana ficou calada, somente assentiu com a cabeça enquanto duas lágrimas rolavam por suas faces morenas. Lúcia tomou o caminho de volta, totalmente alheia à paisagem da tarde ensolarada que se descortinava ao seu redor. As palavras de Ana não lhe saíam da cabeça. A revelação de Ana de estar apaixonada por ela havia abalado todas as certezas que Lúcia tinha até então em sua vida. Sua cabeça parecia oca por dentro e seus sentidos anestesiados pelo choque das palavras que ouvira. Tentava racionalizar e conceituar seu sentimento, mas não conseguia. Precisava, de fato, de tempo para pensar. O tempo... Senhor de todas as curas.
Depois de quase duas horas foi a vez de Ana retornar para seu trabalho na escola. Precisou também de um tempo para se recuperar e conseguir concatenar suas idéias e ter forças para retornar à sua rotina. E foi o que fez.
No domingo pela manhã Ana foi despertada por uma leve batida na porta de seu quarto. Era a Irmã Margarida que lhe sorria paramentada com seu abrigo azul marinho:
- Bom dia, senhora dorminhoca!
- Bom dia, Irmã... Houve alguma coisa? A Madre mandou me chamar?
- Sim... não... quero dizer, a Madre pediu que eu a chamasse, mas não houve nada de mais. É que nosso time de vôlei precisa de sua técnica e melhor jogadora! – disse a freira animadamente.
- Ah, Irmã, me desculpe, hoje não vai dar não. Eu não tô me sentindo muito bem. – disse Ana tentando arrumar uma desculpa para não ver Lúcia.
- O que é que tu tens, minha filha? Queres um chazinho? Eu posso fazer.
- Não, Irmã, muito obrigada. É só uma indisposição passageira mesmo. Acho que é cansaço.
- Minha filha, esse teu serviço não é coisa para uma moça. Tu fazes muito esforço, levantas peso, enfim, coisa pra homem.
- Mas eu tô acostumada, Irmã. Daqui a pouco já tô melhor.
- Olha, mais tarde eu passo aqui pra te ver, certo?
- Não precisa, não se preocupe.
- Eu faço questão. – insistiu a freira.
- Tudo bem então.
A Irmã Margarida caminhou na direção do campo e quando referiu que Ana não se sentia bem uma ruga de preocupação formou-se no semblante de Lúcia, que questionou:
- Mas afinal, o que ela tem, Irmã? Será que precisa de alguma coisa? Ir ao médico, quem sabe.
- Acho que não, minha filha. Acredito que realmente seja um mal estar passageiro.
Lúcia, frente as colocações da Irmã Margarida, compreendeu o que se passava e quais seriam os reais motivos de Ana não querer participar daquele momento de recreação. Entristeceu-se pelo fato de ser ela, mesmo que involuntariamente, a causadora de toda aquela situação. Lúcia jogou somente um set e alegou sentir dor no pulso, retirando-se para o convento. Ao passar pela manutenção viu que Ana estava sentada à sombra de uma enorme figueira que cobria parte do galpão. Estava recostada numa cadeira de praia e seu olhar estava perdido no nada. Ao passar por ela Lúcia pronunciou um tímido "oi". Ana respondeu com um meio sorriso e um olhar que deixou Lúcia arrasada. Lúcia dirigiu-se ao seu quarto, estirou-se na cama e começou a chorar copiosamente. O fato de Ana estar triste a deixava com um sentimento de culpa. Além disto, sentia vontade de ficar perto de Ana, de vê-la sorrir, de ouvir sua voz. Pela primeira vez ficara claro para ela o quanto se importava com Ana, ao vê-la abatida e triste. Mais que isso, se deu conta que também desejava ficar ao lado dela. Lúcia admitiu para si mesma que tinha vontade de que Ana a beijasse outra vez. Tal pensamento fez o mundinho de Lúcia virar de cabeça para baixo. Por tudo que aprendera e vivenciara até aquele momento tal pensamento lhe soava inconcebível e por que não dizer pecaminoso. No entanto lhe causava muito mais angustia pensar em nunca mais ver a figura morena que lhe havia sido tão franca no dia anterior e em cujos braços, e lábios, experimentara uma sensação nunca antes imaginada. Decidiu que o melhor naquele momento seria rezar. Rezar muito.
Ana, perdida em seus próprios devaneios, tentava definir objetivos em sua vida. Decidira que ficaria o tempo necessário no convento até que se extinguisse sua pena. Depois iria embora e possivelmente iria voltar para o Rio de Janeiro, ou para outro lugar qualquer que a ajudasse a tirar Lúcia de seus pensamentos. Até lá lhe restaria contemplar a figura angelical de Lúcia de longe, como uma imagem sacra disposta num altar, como uma tela famosa exposta num museu. Verdadeira preciosidade, fonte de vida, manancial de encantos, bela, mas inatingível e intocável. "Triste sina a minha", pensava Ana.
Bem distante dali, numa segunda-feira pela manhã, na primeira semana de setembro, quando Denise chegou ao Fórum para iniciar sua semana de trabalho e colocou a chave na fechadura de sua sala, estranhou o fato de ter descerrado a porta com uma única volta na fechadura. Denise era extremamente metódica e sempre fechava sua sala dando duas voltas na chave. "Bobagem", pensou, "devo ter me esquecido na sexta-feira, afinal eu estava muito cansada". Entrou na sala e tudo permanecia aparentemente nos seus devidos lugares, excetuando-se sua cadeira que estava levemente desencostada da mesa. "Vai ver eu deixei assim, eu saí com pressa mesmo", pensava Denise. No entanto passou a examinar mais detalhadamente o seu material de trabalho. Tudo ali, os processos, os livros de registros, os arquivos com informações sigilosas de apenados, estudos sociais em andamento, enfim, tudo parecia em ordem. "É, vai ver foi distração minha, mesmo", conjeturou Denise, mas ainda assim com a pulga atrás da orelha, "acho que preciso de férias!".
Não muito longe dali uma sonora risada ecoou numa sala luxuosa de um apartamento de cobertura. Três homens de ternos escuros e porte avantajado observavam a explosão efusiva daquele homem de meia idade, estatura mediana, cabelos ralos ajeitados com gel, terno Armani, sapatos cuidadosamente engraxados, camisa de seda púrpura e um enorme anel de ouro com uma pedra vermelha no dedo mínimo da mão direita que ostentava uma unha comprida e lustrosa devido ao esmalte incolor. Na lapela um cravo branco destoava completamente do conjunto que, aliás, pecava muito no quesito bom gosto. Além do anel o homem usava uma grossa corrente de ouro com um medalhão circular em cujo centro uma serpente parecia querer saltar do baixo relevo. Um relógio de ouro e duas pulseiras do mesmo metal adornavam o pulso esquerdo.
- Muito bom, muito bom... – dizia o homem enquanto sua gargalhada continuava a ecoar pela peça luxuosamente mobiliada – Então a nossa brincadeira de esconde-esconde terminou? Nada como ter pessoas certas nos lugares certos. Pelo menos o dinheiro que eu pago pra ter gente de confiança dentro daquele prédio de cagar leis valeu de alguma coisa!
Os três capangas se entreolharam. O homem mais velho continuou:
- Bom, enfim aqui está o paradeiro daquela vagabunda. Vocês já sabem o que fazer. E eu não preciso pedir discrição, preciso?
- Não senhor. A gente sabe como fazer o serviço. E... chefe, é serviço completo?
Novamente o homem gargalhou.
- Não, não é preciso. Basta um bom corretivo. Até porque a outra vagabunda, aquela lá de casa, não vale tudo isso. E como já não foi a primeira vez... Mas ela agora já aprendeu a lição. Agora com essa uma aí basta fazer um bom estrago que já vai estar de bom tamanho. Afinal eu sou um homem bom, tenho bom coração. Só não gosto que me façam de bobo... MUITO MENOS DE CORNO!!! – esbravejou batendo na mesa e ficando com a parte calva vermelha como um tomate maduro.
Logo, porém, recompôs-se, retomou sua postura aparentemente tranqüila e continuou:
- Então como eu ia dizendo... basta uma boa sova. Daquelas de lembrar a vida toda e mais umas duas ou três reencarnações! – e novamente gargalhou – A vagabunda foi macho o suficiente pra comer a mulher dos outros, agora quero ver se é macho na hora do corretivo! Agora vão, vão...
Os três homens pediram licença e se retiraram. Embarcaram no veículo preto estacionado em frente ao prédio e rumaram para o endereço fornecido pelo homem do anel.
O mês de setembro chegara trazendo temperaturas mais elevadas e prenunciando um verão que chegaria mais cedo. Era terça-feira e Lúcia estava na sala dos professores da escola, pois sua turma havia sido dispensada em virtude do conselho de classe. Era pouco mais de dez horas da manhã e a reunião já havia acabado. Os demais se retiraram e ela permaneceu na sala. Ao olhar pela janela deparou-se com a figura de Ana entretida com a pintura do portão de ferro da escola. Pacienciosamente manuseava um rolo com tinta marrom, equilibrada numa escada de cinco degraus que se encontrava aberta e rente à estrutura metálica. O pote de tinta numa mão e o rolo na outra exigia que se equilibrasse na escada. Lúcia não conseguiu deixar de reparar na musculatura das pernas que aparecia por debaixo do abrigo de lycra azul marinho. Aliás, não conseguia deixar de reparar em Ana nas últimas semanas, aonde quer que ela estivesse. Por mais que rezasse e pedisse a Deus para afastar certos pensamentos de sua cabeça, parecia que mais ainda estes lhe afloravam a cada vez que avistava a figura morena que insistia em desviar o olhar do seu. Recordou-se de seu embaraço há dois dias atrás, no domingo, quando após muita insistência da Madre, Ana havia concordado em jogar uma partida de vôlei com elas. Como de costume Ana fazia parte do time de Lúcia. E cada vez que a morena ficava na rede e Lúcia às suas costas a loirinha acabava com os olhos nas curvas dos braços, pernas, ombros e nádegas de Ana. Chegou a perder algumas bolas por conta de sua distração. E cada vez que Ana pulava junto à rede Lúcia ficava observando o movimento de seus cabelos. Mal sabia Lúcia que Ana também passava por maus pedaços quando era obrigada a dar cobertura para a loirinha na rede. Tentava disfarçar a todo custo para não chamar a atenção das demais. Durante todo o jogo não trocaram mais do que três ou quatro palavras, relativas a passes e defesas. Em dado momento quando descansavam sentadas, entre um set e outro, Lúcia sentiu vontade de enxugar as gotículas de suor da testa de Ana, num gesto que já fizera algumas vezes enquanto ainda era simplesmente a ajudante da morena. Mas conteve-se por conta da reação de Ana. A bem da verdade conteve-se por conta de sua própria reação. Não sabia exatamente como os seus sentidos reagiriam ao toque naquela pele quente e macia.
Lúcia foi trazida de volta à realidade pela voz da Irmã Janete que colocou a cabeça para dentro da sala e lhe disse:
- Irmã Lúcia, a Madre precisa falar contigo na secretaria.
- Obrigada, Irmã, já vou lá.
A freirinha dirigiu-se até onde a Madre Lídia estava e entrou após uma suave batida na porta:
- Com licença, Madre? Mandou me chamar?
- Sim. Eu preciso que alguém aqui da escola vá até Santo Ângelo para comprar alguns materiais didáticos e pedagógicos que não encontrei aqui na cidade. – disse a Madre estendendo uma ampla lista para Lúcia – Tu poderias ir, Irmã? Eu sei que tens aula hoje à tarde, mas a Irmã Teodora tem outra atividade e preciso desse material com urgência.
- Tudo bem, Madre, eu vou. Como nunca falto eu posso recuperar depois.
- Muito obrigada, Irmã. – disse a Madre agradecida.
Nesse momento ouviu-se uma batida discreta na porta.
- Pode entrar! Está aberta! – disse a Madre.
A porta entreabriu-se e Ana entrou. Tentou não demonstrar surpresa ao ver Lúcia e limitou-se a cumprimenta-las formalmente:
- Bom dia.
- Bom dia – responderam ambas, Lúcia quase que a meia voz.
- Madre, eu vou precisar de mais tinta marrom. Mais uma lata de um litro basta. Não tem mais no almoxarifado. – pediu Ana – e solvente também.
Neste momento a Irmã Diva irrompeu na sala:
- Madre, Madre! Temos um problema com o nosso carro! O pneu está furado! - disse esbaforida.
- Mas coloque o estepe, Irmã! – retrucou a Madre.
- Mas aí é que está o problema, Madre!!! O estepe também está furado! – disse a Irmã Diva.
- Mas como assim? – quis saber a Madre.
A Irmã Diva gaguejando respondeu:
- É que... bem... eu esqueci de mandar consertar na outra vez que troquei o pneu...
- Ai, Irmã... como é que a senhora me faz uma dessas?
- Desculpe, Madre, eu não sei onde estava com a cabeça...
- Tudo bem, tudo bem. Dá-se um jeito. – disse a Madre pensativa – Pode ir Irmã Diva.
A freira saiu esbaforida como sempre. A Madre olhou para Ana e perguntou:
- Minha filha, não querendo abusar da tua boa vontade, mas se eu te pagasse a gasolina poderias ir até Santo Ângelo buscar um material para a escola? Pois até providenciarmos o conserto dos pneus na cidade já vai ser tarde.
- Posso sim, Madre.
- Que bom, aí podes pegar a tinta também. Eu te dou o dinheiro.
- Eu só preciso de dois minutinhos para mudar de roupa. – disse Ana.
- Lúcia vai contigo – continuou a Madre – Ela está com a lista do material e sabe bem o que eu preciso. A tinta eu deixo por tua conta.
Ana ficou um pouco desconcertada, assim como Lúcia. Porém nenhuma delas quis criar polêmicas ou inventar desculpas. Lúcia baixou os olhos e Ana se limitou a responder:
- Tudo bem.
Em menos de vinte minutos as duas já estavam a caminho de Santo Ângelo. O clima no interior da Kombi era de constrangimento. O pouco mais de uma hora que as separava da cidade de destino foi vencido quase que em silêncio absoluto. Ana se limitou a responder com monossílabos algumas poucas perguntas genéricas que Lúcia formulou para tentar quebrar o clima tenso que havia. Ao chegarem Ana deixou Lúcia no atacado solicitado e tratou de procurar uma ferragem para comprar a tinta que precisava.
- Eu te pego aqui daqui há pouco. – disse Ana assim que Lúcia desembarcou.
- Tá. – respondeu a freirinha ajeitando o hábito que teimava em revoar com um parco ventinho de final de inverno.
Ao cabo de meia hora Ana estacionou de volta em frente ao local onde havia deixado Lúcia. Não esperou nem quinze minutos e a loirinha apareceu na porta da loja empurrando um carrinho lotado de livros, cadernos, cartolinas, folhas de ofício, papéis laminados, tubos de cola, tintas têmperas, enfim, uma montoeira de material encomendado pela Madre. Ana desembarcou e ajudou Lúcia a ajeitar o material no banco de trás da Kombi. Ao terminar Ana se virou para Lúcia e perguntou:
- Já é mais de meio dia, tá com fome?
- Tô. – respondeu Lúcia.
- Vamos comer alguma coisa por aqui, então.
- Tudo bem. Vamos sim.
Lúcia instalou-se no banco do carona e Ana dirigiu-se ao centro da cidade, estacionando perto de um restaurante movimentado.
- A comida aqui deve ser boa, pelo entra-e-sai. – disse Ana.
- É, tá com jeito...
- Podemos comer aqui?
- Claro! – concordou Lúcia.
Ambas desembarcaram e entraram no estabelecimento cujo bufê de sobremesas fazia qualquer um arregalar os olhos de contentamento. E Lúcia não foi exceção. Ana a observou e um rompante de carinho a fez pronunciar:
- Esse olho brilhando é só por causa das sobremesas?
Lúcia sorriu timidamente, baixou os olhos e respondeu baixinho:
- Também pela companhia.
Desta vez foi Ana quem se obrigou a sorrir satisfeita com a resposta. Sentaram numa mesa de canto e após se servirem começaram a conversar, um pouco mais descontraídas. Lúcia pediu um guaraná e Ana uma água com gás. Com os copos cheios Ana levantou o seu e propôs um brinde:
- À saúde.
Lúcia também levantou timidamente seu copo e respondeu:
- À nossa saúde.
- E a tua felicidade – completou Ana.
- À nossa felicidade – respondeu Lúcia.
- A minha felicidade é te ver feliz – disse Ana antes de levar seu copo aos lábios.
Lúcia simplesmente sorriu. Depois de uns momentos perguntou:
- Ana... como é que tu estás?
- Ããh... em que sentido?
- Tu sabe.
- Como é que você acha que eu estou?
Lúcia não respondeu. Ana continuou:
- Eu vou sobrevivendo.
Novo silêncio se fez, desta vez quebrado por Ana:
- E você? Como está?
- Indo... Me preparando pra formatura no final do ano... e pros meus votos definitivos no ano que vem... – respondeu titubeando nas últimas palavras.
Ana não conseguiu disfarçar o sentimento de nó no peito ao ouvir a colocação de Lúcia. Soltou o garfo e bebeu mais um gole de água, cabisbaixa. Não trocaram mais nenhuma palavra até o final do almoço. Ao se dirigirem para o caixa Ana disse:
- Eu pago, eu que convidei.
- Não senhora! Não tem graça nenhuma ficar pagando a conta dos outros. – argumentou Lúcia.
Ana segurou a mão de Lúcia que já procurava uma nota de dez reais em sua carteira e disse em tom grave e baixo olhando a loirinha nos olhos:
- Você não é "outros"... você é a mulher que eu amo. Deixa ao menos eu te pagar um almoço...
Lúcia engoliu em seco e baixou os olhos. Aquelas palavras haviam lhe causado uma sensação de frio no estômago. Não poderia dizer que se sentiu mal ao ouvi-las. Na verdade sentiu um nó no peito indefinível.
Embarcaram na Kombi em silêncio e durante o trajeto de volta só se ouvia o barulho do motor contrastando com a sonoridade de uma fita K7 de música instrumental que Ana havia colocado no aparelho de som do veículo.
Quando faltavam cerca de vinte minutos para completar a viagem de volta, e elas passavam por uma parte mais deserta da estrada, a atenção de Ana voltou-se para um veículo preto luxuoso que se aproximava por trás delas levantando poeira da parte sem asfalto do trajeto. Ana sobressaltou-se e tratou de pisar no acelerador da Kombi, aumentando consideravelmente a velocidade. As mãos de Ana apertavam nervosamente a direção da Kombi enquanto os olhos se revezavam entre a atenção na estrada e o retrovisor, controlando o veículo que as seguia. Lúcia percebeu que algo estava ocorrendo e questionou:
- O que foi? O que está acontecendo?
- Olha só... fica calma, mas eu acho que a gente tem visita.
Lúcia olhou para trás e viu que um veículo preto se aproximava cada vez mais.
- Tu sabe quem é o pessoal desse carro? – quis saber Lúcia.
- Desconfio...
- Pelo amor de Deus, me diz o que tá havendo? Não vai me dizer que é o que eu estou pensando...
- Pior que eu acho que é. – disse Ana pisando mais no acelerador – Olha só, Lúcia, me ouve e não me contraria: haja o que houver fica na Kombi, não te mete que a bronca é comigo.
- Mas eles vão te machucar!
- Na melhor das hipóteses...
- E tu acha que eu vou ficar parada olhando???
- Por favor, pelo menos uma vez na vida não me contraria! Fica na Kombi, não reage, não faz nada, deixa que eu me viro!
- Mas...
- Lúcia, cala a boca! Eu não quero que nada te aconteça! Por favor...
Nesse instante o carro preto acelerou e ultrapassou a Kombi desacelerando logo em seguida e obrigando Ana a sair para o acostamento e estacionar. Ana sentia o coração bater na garganta, suas mãos suavam. Ela temia pela segurança de Lúcia. Na verdade pouco se preocupava com ela própria naquele momento. Não suportava a idéia de que pudessem tocar em sua pequena amada.
Do carro negro desembarcaram três homens cuja circunferência e altura fariam inveja a qualquer halterofilista. Lúcia arregalou os olhos. Ana segurou sua mão e disse antes de desembarcar:
- Fica aqui!
Ana deu cinco passos em direção aos homens e parou colocando as mãos na cintura. Ao se aproximarem um deles disse aos demais:
- É essa aí, sim. Pela placa do carro e pela foto é ela.
- E pelo jeito machão também! – disse o terceiro e todos gargalharam.
Ana manteve-se impassível. Na Kombi Lúcia acompanhava a aproximação dos homens, estática.
- Os rapazes estão querendo alguma coisa? – perguntou Ana com seriedade.
- Digamos... acertar umas contas pro nosso patrão! – respondeu um deles.
- Eu não sei do que vocês estão falando – blefou Ana.
- Ah, dona, que memória fraca...
E os três foram cercando Ana. Nesse momento Lúcia não se conteve e saltou do veículo, pulando em defesa de Ana:
- ESCUTA AQUI, EIN? O QUE É QUE VOCES ESTÃO PENSANDO???
Ana virou-se para ela, fuzilando-a com o olhar:
- Puta que pariu! Volta pra Kombi! – esbravejou Ana entre dentes.
- Ora, ora... a mulher-macho tem uma freira defensora! – debochou um dos homens fazendo um sinal para o motorista do carro preto que desceu e caminhou rápido na direção de Lúcia.
Percebendo a intenção do motorista de segurar Lúcia, Ana voou em cima dele impedindo-o de tocar nela. Os outros homens a seguraram com força. O motorista que também era um homem enorme pegou Lúcia pela cintura suspendendo-a no ar. Ela se debatia e gritava:
- SOLTA ELA, SEUS DESGRAÇADOS!!!
Os três homens começaram a bater em Ana de uma forma covarde. Enquanto dois a seguravam um deles a esmurrava. Lúcia desesperada parecia um tigre furioso se debatendo numa jaula. Como um felino conseguiu dar uma mordida no braço de seu algoz, que o fez deixa-la cair. Ela correu e jogou-se no pescoço do homem que batia em Ana, fazendo com que se visse atrapalhado com os tapas e as mordidas que passou a levar nas costas e nas orelhas.
- TIRA ESSA DESGRAÇADA DESSA FREIRA DAQUI!!! – gritava o homem.
- MAS ESSA INFELIZ ME MORDEU!!! – dizia o motorista tentando puxar Lúcia de cima do homem que batia em Ana.
- DÁ UMA PORRADA NELA ENTÃO E PÕE PRA DORMIR!
- EU NÃO! NÃO VOU DAR PORRADA NUMA FREIRA!!! VAI QUE DÊ AZAR!
- AZAR TU VAI VER SE NÃO TIRAR ESSA VACA DE CIMA DE MIM!!!
O motorista pegou Lúcia novamente pela cintura e puxou-a de cima do homem, imobilizando-a enquanto ela gritava:
- DESGRAÇADO!!! EU VOU TE ROGAR UMA PRAGA PIOR QUE AS SETE PRAGAS DO EGITO, TU VAI VER SÓ!
- Vira a boca pras costas, Irmã! – disse o motorista segurando-a firmemente.
O homem que batia em Ana desferiu-lhe um violento tapa no rosto:
- Esse é pela dentada que eu levei da freira! E esse é pelo estrago que ela fez no meu terno!
Quando finalmente o homem parou de bater em Ana os outros dois a soltaram. Ela caiu de joelhos, encolhida sobre o ventre, quase inconsciente. O rosto sangrava muito, mas num lampejo de lucidez conseguiu ver o momento em que soltaram Lúcia e esta correu até ela, ajoelhando-se a seu lado e amparando-a.
- Bom, agora o recado do chefe: se tu sumir das vistas dele as contas estão acertadas. Mas se aparecer de novo no terreiro dele a nossa conversa não vai ser tão amigável! – disse um dos homens.
Ana mal conseguia respirar, tamanha a dor que sentia. Mas, mais forte que a dor era a sensação de alívio ao ver que nada havia acontecido com Lúcia. Os quatro homens embarcaram no veículo que se afastou levantando poeira do chão. Lúcia, com Ana em seus braços, estava desesperada:
- ANA, ANA, FALA COMIGO!
Ana abriu os olhos e balbuciou:
- Tá... tá tudo... tudo...bem...
- Mas tu tá sangrando muito!
- Eu... tô... bem...
- RAIO DE ESTRADA QUE NÃO PASSA NINGUÉM!!! – esbravejou Lúcia.
O rosto de Ana sangrava muito e seu olho esquerdo estava semicerrado pelo edema que já havia se formado.
- Lu... Lúcia... – sussurrou Ana.
- O que, meu amor, fala!
Ao ouvir Lúcia dizer "meu amor" Ana sentiu como se uma mão quente houvesse pousado em seu coração. Sabia que provavelmente fora um simples modo de falar, devido ao momento de desespero, mas havia gostado imensamente de ter escutado aquelas palavras de seus lábios. Ana poderia morrer ali, naquele momento, que morreria feliz. Esboçou um sorriso e pediu:
- Fa... fala... que foi... tenta...tiva de... assalto. Senão eu... eu tô... encrencada...
- Tá, tá, mas agora fica quietinha até eu conseguir ajuda!
Nesse momento Lúcia ouviu um barulho de motor. Era um trator que se aproximava. Lúcia gritou:
- POR FAVOR, ALGUÉM ME AJUDE!
Imediatamente os dois homens que estavam no trator saltaram e correram na direção das duas mulheres.
- Por favor, algum de vocês poderia dirigir a Kombi até o hospital?
- Claro! – disse um deles – Mas, o que foi que houve?
- Assalto! – respondeu Lúcia – Tentaram levar a Kombi e ela reagiu, aí os bandidos bateram nela e fugiram.
- Credo, Irmã, que estrago que fizeram na moça! – disse um dos homens – Baita covardia!
Os homens aproximaram-se de Ana para ajuda-la a se levantar. Nesse momento ela desmaiou. Lúcia se desesperou:
- ANAAA!!! NÃÃÃÃO!!!
- Calma, Irmã, vamos pro hospital! – disse um dos homens tomando Ana nos braços cuidadosamente e colocando-a no banco intermediário da Kombi. O outro assumiu o volante do trator e seguiu no rumo de Vale Verde, enquanto a Kombi rumava para o hospital a toda velocidade.
Sentada no banco do veículo tendo a cabeça de Ana apoiada em seu colo Lúcia sentia as lágrimas quentes escorrendo por suas faces. O sangue de Ana havia tingido de rubro o hábito cinzento. Lúcia afagava o rosto de Ana e pedia baixinho em seu ouvido:
- Por favor... reage... não desiste... por favor... não vai embora...
Lúcia estava desesperada frente ao lastimável estado de Ana. A morena estava com o rosto desfigurado e haviam batido muito em seu ventre. Lúcia temia o pior. Enquanto a Kombi se deslocava rapidamente Lúcia rezava pedindo a Deus e à Virgem Maria que deixassem Ana viver.
Quando a Kombi estacionou na ala restrita da emergência do pequeno hospital de Vale Verde logo dois enfermeiros acudiram empurrando uma maca para depositar a paciente. Entraram com Ana por uma porta de vai-e-vem, na qual Lúcia foi impedida de entrar.
- Aqui a senhora não pode entrar, Irmã. Por favor, espere nesses bancos. Aguarde que o doutor vem falar com a senhora depois. – disse um enfermeiro entrando logo em seguida.
Passaram-se cerca de três horas, que para Lúcia pareceram séculos, até que o Dr. Medina, conhecido de Lúcia, veio falar com ela. Ao vê-lo a freira levantou-se de sobressalto.
- Dr. Medina! É o senhor que está de plantão! E então? Como está a Ana?
- Boa tarde Irmã Lúcia. – disse cordialmente o médico – Vamos passar aqui no gabinete da emergência.
O coração de Lúcia disparou de ansiedade. O que teria acontecido com Ana? Lúcia estava com as mãos geladas e tremia por dentro.
- Sente-se Irmã. – disse o médico.
- Pelo amor de Deus, doutor! Como ela está?
- Fora de perigo.
- Graças a Deus!!! – exclamou Lúcia aliviada.
- Mas vai passar a noite aqui conosco. Irmã, afinal o que aconteceu de fato com a moça?
- Eu já falei na portaria: tentativa de assalto. Como os homens não puderam levar a Kombi porque Ana reagiu, eles bateram nela. Depois fugiram.
O médico coçou o queixo.
- Bom, Irmã... eu vou avisar ao Posto Policial para que seja registrada ocorrência de agressão.
- Mas... é preciso? Afinal os ordinários fugiram mesmo...
- É preciso sim.
Lúcia não quis polemizar a situação e mudou de assunto:
- Eu posso vê-la?
- Pode. Ela está sob efeito de sedativos, mas a senhora pode entrar. Pela quantidade de hematomas, eu não sei como não houve danos aos órgãos internos. Fizemos todos os exames e só constatamos fraturas em duas costelas, além de cortes no supercílio e boca. Acredito que em duas ou três semanas ela esteja bem. O resultado da tomografia também foi bom, nada de lesões na cabeça. Sua amiga teve muita sorte.
- É que ela é muito forte. E Deus ajuda as pessoas boas!
- Sem dúvida, Irmã, sem dúvida. – respondeu o médico.
Uma das enfermeiras do setor acompanhou Lúcia até o Box onde se encontrava Ana. A morena dormia profundamente e havia curativos em seu rosto. O lado esquerdo da face estava edemaciado e podia-se ver a extremidade do fio de sutura dos pontos que levara na boca. Os braços apresentavam hematomas arroxeados. Lúcia aproximou-se e não conseguiu conter um soluço ao ver a morena com as marcas de tamanha crueldade. Debruçou-se sobre ela e lhe deu um suave beijo na testa, cochichando baixinho em seu ouvido:
- Obrigada por não ter ido embora...
Em seu estado de inconsciência, anestesiada da dor, Ana sentiu o calor da vida pulsando em suas veias. Pareceu também ouvir a voz de um anjo a conforta-la.
"Meu Deus! A Madre! Esqueci de ligar pra Madre!", pensou Lúcia num sobressalto. Afagou novamente a mão de Ana que estava sobre a coberta de linho e saiu para procurar um telefone.
- Alô! Madre? Aqui é a Irmã Lúcia... (...) Eu sei, eu sei, Madre. Eu sei que já é tarde... Mas aconteceu uma coisa horrorosa! – e Lúcia contou o ocorrido para a Madre que tratou de dirigir-se ao hospital o mais rápido que pôde.
Ao desligar o telefone a recepcionista pediu que Lúcia a acompanhasse até o Posto Policial, no prédio anexo ao hospital. O escrivão já a aguardava para tomar seu depoimento.
- Muito bem, Irmã, a senhora poderia me descrever o ocorrido?
- Claro, claro. Como eu já disse na portaria nós fomos abordadas por homens que queriam roubar a Kombi, acho. Como a Ana reagiu eles bateram nela e depois fugiram.
- E quantos homens eram?
- Quatro. – respondeu Lúcia.
- E eles estavam encapuzados? Se não, a senhora reconheceu algum deles? É gente daqui?
Lúcia parou para pensar no que responderia. Precisaria manter a mesma versão posteriormente.
- Bom, eu fiquei muito nervosa e não lembro de quase nada. Fiquei em estado de choque. Mas eles não usavam máscaras não. E não reconheci nenhum deles, não são conhecidos.
- E como eram esses homens?
- Enormes!
- Sim, mas tente descreve-los.
- Ora, eram homens grandes, tipos normais...
- Eram brancos? Negros?
- Eram três brancos e um negro. Acho... já disse que não vi direito.
- E eles estavam armados?
- Acho que sim.
- Acha?
- É, não cheguei a reparar bem.
- Bom... e eles as abordaram como?
- De carro. Passaram por nós e obrigaram Ana a estacionar.
- E como era esse carro?
- Escuro. – respondeu Lúcia.
- Que cor?
- Azul eu acho...
- E a senhora teria por acaso visto e memorizado a placa?
- Não.
O escrivão coçou a cabeça e mexeu-se na cadeira enquanto digitava o depoimento de Lúcia. "Essa freira não tá ajudando muito", pensava o homem.
- E depois, Irmã, o que ocorreu?
- Bom, eles puxaram a Ana de dentro do carro... e a mim também. Aí a Ana reagiu, deu um pontapé num deles e eles começaram a bater nela. Aí eu comecei a gritar para que parassem. Aí a gente escutou um barulho de motor ao longe. Acho que os bandidos se assustaram e voltaram para o carro deles, e fugiram. Era o barulho do trator do rapaz que dirigiu a Kombi até aqui. E acho que é só.
- Irmã, a senhora não lembra de mais nenhum fato que possa auxiliar a identificar os agressores? É importante.
- Acho que não. Mas se eu lembrar eu volto aqui para contar, pode ser?
- Pode. – respondeu o escrivão com desânimo. – "Outro caso sem solução", pensou.
Neste meio tempo a madre chegou ao hospital e encontrou Lúcia quando esta retornava para onde Ana estava.
- Madre! – exclamou Lúcia abraçando-se à freira mais velha – Eu tive tanto medo!
- Está tudo bem agora, Irmã. O Dr. Medina me colocou rapidamente que ela está fora de perigo. Mas afinal o que foi que houve? – perguntou a Madre.
Lúcia respirou fundo e repetiu a história que havia contado ao escrivão. Ao terminar a Madre somente exclamou:
- Que barbaridade!
- Eu vou passar a noite aqui com ela, Madre. – disse Lúcia.
- Mas não vai adiantar ficar aqui. Vais ficar sentada no corredor? Vamos para o convento, tu precisas descansar. Aqui ela está bem cuidada.
- Eu vou, tomo um banho, mudo de roupa e volto, Madre. Quando ela acordar alguém tem que estar aqui!
Frente ao tom decidido da voz de Lúcia a Madre achou melhor deixa-la passar a noite ali. De fato seria bom ter alguém conhecido por perto quando Ana recobrasse a consciência.
Lúcia retornou com a Madre Lídia ao convento e como haviam combinado tomou um banho e estirou-se em sua cama por quinze minutos, colocando os pés para cima a fim de relaxar. O hábito sujo de sangue foi deixado no cesto de roupas para lavar. Lúcia mal podia olhar para aquelas marcas. Fechou os olhos e as cenas da agressão sofrida por Ana não lhe saíam da cabeça. Sentiu raiva daqueles homens, muita raiva. Poderia esfola-los vivos se tivesse oportunidade. A intensidade daquele sentimento de revolta chegou a assusta-la. Imediatamente voltou seu pensamento ao Altíssimo e agradeceu do fundo de seu coração o fato de Ana estar viva. Este era outro sentimento que vinha lhe causando assombro: o fato de sentir uma necessidade quase que vital de estar próxima daquela mulher que se dizia apaixonada por ela. Sentia imensa vontade de vê-la, ouvi-la, admirar seus trejeitos e rir de suas implicâncias. E agora ela estava lá naquele leito de hospital, vítima de uma agressão por conta de seu passado, mas ao menos sem apresentar risco de vida.
Com esses pensamentos Lúcia dirigiu-se à cozinha, para ver se comia alguma coisa. Não queria passar pelo refeitório para evitar ter de dar maiores explicações às demais freiras que certamente já estavam sabendo do ocorrido. Encontrou a Irmã Celestina com os olhos avermelhados, evidenciando ter chorado recentemente. Ao vê-la correu e perguntou ansiosamente:
- Irmã Lúcia, como está a Ana? Não me esconda nada!
- Agora está bem, Irmã... mas devo confessar que fiquei muito apreensiva antes de falar com o Dr. Medina. Ela está fora de perigo, graças a Deus!
- Graças a Deus mesmo!!!
- Eu vou passar a noite lá. – disse Lúcia.
- Quando ela acordar diga que estou rezando para que ela venha logo pra casa... – disse a freira mais velha caindo num choro sentido.
Lúcia a abraçou e disse:
- Calma, Irmã Celestina... A Ana vai voltar logo,logo. Tenha fé.
Irmã Celestina limpou as lágrimas em seu avental amarelo e tratou de dar andamento na janta. Chegou a sugerir que Lúcia levasse uns biscoitinhos caseiros para Ana, ao que esta argumentou ser melhor deixar para o dia seguinte, afinal Ana deveria seguir a dieta prescrita pela equipe médica.
Após comer alguma coisa Lúcia dirigiu-se novamente ao hospital, desta vez sendo levada pelo fusca do convento com a Irmã Diva na direção.
- Irmã Lúcia... eu estive pensando... – disse a Irmã Diva com a voz entrecortada - ...se eu não tivesse esquecido de consertar o pneu... eu é que teria te levado para a cidade... e aí aqueles bandidos não teriam tentado roubar a Kombi... e a Ana estaria bem...
- Irmã... – disse Lúcia brandamente – pare de se culpar, afinal nem a senhora e nem ninguém tem bola de cristal! Ninguém tem culpa do que ocorreu, além daqueles bandidos, é claro.
- Tu achas mesmo, Lúcia?
- Claro que eu acho. Foi uma fatalidade.
- Mas eu não consigo deixar de pensar... – disse a Irmã Diva.
- Mas deveria. Ao invés de se culpar, reze. Peça a Deus pelo pronto restabelecimento de nossa amiga.
- É isso mesmo que vou fazer. Hoje mesmo vou começar uma novena para o Sagrado Coração de Maria.
- Isso mesmo, Irmã, isso mesmo.
Lúcia chegou de volta ao hospital antes das dez horas da noite. Ana ainda dormia profundamente. Por ser amiga do Dr. Medina, e por haver poucas baixas naquele setor, lhe foi permitido ficar ao lado de Ana, sendo que colocaram uma cadeira para que pudesse se instalar. Os leitos daquele setor eram separados por biombos de napa azulada, que isolavam cada Box como se fosse um mini-quarto. Naquele espaço de aproximadamente 2 x 2,5m havia, além do leito, uma gama de aparelhagem necessária a um atendimento de emergência.
Lúcia não conseguiu pregar o olho. Ficou o tempo todo olhando para Ana, observando sua respiração e seus movimentos. Em dado momento aproximou-se dela e afagou de leve seus cabelos. Já passava das três horas da madrugada e não se ouvia nenhum ruído além do som do bip baixo e contínuo da aparelhagem de monitoramento dos pacientes. Lúcia estava praticamente debruçada sobre Ana, tomando o cuidado de não tocar nela para não acorda-la. Num impulso aproximou seu rosto do de Ana e sussurrou em seu ouvido:
- Tu não tá sozinha... eu tô aqui contigo.
Ana permaneceu imóvel e Lúcia, que estava a menos de meio palmo de seu rosto, aproximou seus lábios dos de Ana e suavemente beijou-lhe a boca. Um ósculo delicado e fugaz, porém que fez o coração de Lúcia disparar em seu peito. Lúcia afastou-se um pouco enquanto Ana permanecia adormecida. No entanto um quase que inaudível suspiro deu à Lúcia a certeza de que Ana sentira sua proximidade, mesmo que inconsciente.
Perturbada pelo que acabara de fazer Lúcia sentou-se em sua cadeira enquanto seus batimentos cardíacos voltavam gradualmente ao ritmo normal. "Meu Deus, o que é que tá havendo comigo?", pensava Lúcia.
Passou-se mais uma hora e Lúcia percebeu uma leve movimentação de Ana. Levantou-se e segurou sua mão com suavidade. A luz fraca e esbranquiçada da lâmpada fluorescente que se encontrava acesa no painel sobre o leito permitia a Lúcia visualizar o rosto de Ana. Muito lentamente a morena abriu os olhos, parecendo fazer um reconhecimento de onde estava. Lúcia exalou um suspiro de alívio ao vê-la acordar. Quando os olhos de Ana encontraram os dela Lúcia abriu um sorriso encantador e disse baixinho:
- Oi...
Ana não respondeu. Limitou-se a esboçar um sorriso, porém sentiu a boca doer e contraiu-se numa careta.
- Calma... – disse Lúcia afagando a testa de Ana carinhosamente – Não fala nada. Fica quietinha. Tá tudo bem agora. A gente tá no hospital e eu vou ficar aqui contigo... Tenta dormir de novo.
Ana fechou os olhos novamente e foi invadida por uma sensação de bem estar. Mesmo com a vaga lembrança do ocorrido no dia anterior sentia-se confortada por uma mão quente e carinhosa que lhe afagava a testa e os cabelos. Também tinha uma vaga recordação de haver sentido um gosto latejante de amor em seus lábios...
Já havia amanhecido quando Ana finalmente despertou de seu sono induzido. Abriu os olhos e deparou-se com um par de olhos esverdeados a observa-la atentamente.
Ao vislumbrar o azul profundo que parecia querer mergulhar naquele mar esverdeado, Lúcia abriu-se num sorriso e disse alegremente:
- Bom dia!
Desta vez Ana conseguiu sorrir timidamente e respondeu:
- Bom mesmo...
- Mas poderia estar melhor. – completou Lúcia – Se estivéssemos em casa.
- Mas em casa eu não estaria sendo cuidada por um anjo...
- Tá... já tá apelando – riu-se Lúcia.
- Mas é verdade... – sorriu Ana.
O falar fez com que Ana tentasse tossir, contraindo-se de dor.
- Fica quietinha... eu vou chamar a enfermeira.
- Não... não precisa... Fica aqui comigo... – disse Ana segurando a mão de Lúcia.
A freirinha passou a mão pelos cabelos negros e perguntou:
- Tu lembra o que aconteceu ontem?
- Lembro. – respondeu Ana com a voz baixa.
- Olha só, eu tive que depor no posto policial – disse Lúcia à meia voz – depois eu te conto o que eu falei. Se te perguntarem não responde nada antes de falar comigo, tá?
- Tá.
- Agora fica quieta.
- Então para de fazer perguntas...
- Já tá boa mesmo! – Lúcia riu-se.
Ao cabo de aproximadamente duas horas o Dr. Medina veio ver sua paciente. E gostou do que viu. Ana estava lúcida e orientada.
- Muito bem, - disse o médico – pelo que vejo a senhorita nasceu de novo.
- Parece... – respondeu Ana.
- Eu só não entendo como o estrago não foi maior – brincou o médico.
- Bom, - respondeu Ana – parece que meu empenho no boxe desde a adolescência valeu para alguma coisa. Pelo menos eu aprendi a apanhar!
- Aaah... Esta pode ser uma explicação plausível! – concordou o médico.
- Doutor... até quando eu vou ficar aqui? – perguntou Ana.
- Se tudo correr bem, até amanhã.
- Ainda? – reclamou Ana.
- Somente! – respondeu o médico – Afinal a senhorita está com duas costelas fraturadas. E somente terá alta porque a Madre me garantiu que no convento terá os cuidados necessários para seu restabelecimento.
- E eu lá preciso de babá? – retrucou Ana.
- Viu como é desaforada, doutor? – disse Lúcia em tom de brincadeira.
O médico assentiu sorridente e continuou:
- Vou querer vê-la daqui a uma semana, para tirarmos esses pontos do rosto. Pode passar no meu consultório, a Madre já deixou hora marcada.
- Tudo bem, não tenho escolha mesmo...
Dr. Medina despediu-se de ambas:
- Estou saindo do plantão agora. Só volto daqui ha três dias. Meu colega assumirá o caso já ciente de tudo o que foi feito e da previsão de alta para amanhã. Se precisarem de mim a Madre tem meu telefone.
- Obrigada, doutor. – disse Lúcia.
- Obrigada. – disse Ana.
- Um bom dia para as duas. – respondeu o médico antes de sair.
Após a saída do Dr. Medina Lúcia retrucou:
- Sempre ranzinza! Custava não reclamar ao menos por um dia?
- Força do hábito... – respondeu Ana.
Lúcia teve de sorrir e disse:
- Eu vou ficar aqui contigo até amanhã.
- Não precisa... você deve estar cansada. Volta pro convento e descansa, eu tô legal.
- Não senhora, eu fico.
- Então tá. – concordou Ana.
- Milagre! – exclamou Lúcia – Concordou sem maiores argumentações.
Ana esboçou uma careta. Sentindo a face repuxar pediu:
- Lúcia... me consegue um espelho.
- Pra que?
- Quero ver o tamanho do estrago.
- Melhor não... – disse Lúcia.
- Mas eu quero ver.
- Ta bom. Vou ver o que posso fazer.
Lúcia saiu de perto do leito e retornou logo com um pequeno espelho retangular.
- O que tu me faz fazer! Tive que pedir pra meio mundo até conseguir emprestado esse aqui no posto de enfermagem! Usa duma vez que eu tenho que devolver. – disse Lúcia estendendo o espelho para Ana, tentando disfarçar sua contrariedade.
Ana olhou-se e disse:
- Puta que pariu! É melhor você nem olhar muito pra mim.
- Por quê?
- Tô parecendo a prima irmã do Frankstein.
Lúcia riu e disse em tom de brincadeira:
- Exagero teu. Tu até que tá bonitinha com essa tonalidade roxo beliscão. Parece maquiagem de baile de carnaval...
- Ôôô... animador!
- Ana, - disse Lúcia em tom sério – eu tive tanto medo...
- Eu também.
- Tu sentiu medo de morrer? – perguntou Lúcia.
- Não. – respondeu Ana – Eu senti medo que te machucassem. Se tivessem encostado num fio dos teus cabelos eu jamais me perdoaria.
- Eu senti medo de te perder... – disse Lúcia.
- Me perder?...
- É... jeito de falar... senti medo que te matassem... que eu nunca mais te visse...
- E isso importa pra você? – perguntou Ana encarando Lúcia.
A freira baixou os olhos e respondeu baixinho:
- Claro que importa.
Ana limitou-se a sorrir, satisfeita com a resposta.
Conforme o previsto Ana teve alta no dia seguinte. No convento a Madre havia preparado para ela um quarto na clausura, perto do seu. Nos primeiros dias formou-se uma verdadeira equipe para acompanhamento da doentinha. Até mesmo a Irmã Teodora se ofereceu para auxiliar no cuidado de Ana, causando admiração em todas. As irmãs se revezavam durante o período do dia e à noite era Lúcia quem assumia o posto, dormindo num colchão ao lado de sua cama.
Um dia antes da revisão com o Dr. Medina, Lúcia se preparava para dormir enquanto Ana tomava um copo de leite morno.
- Eu fiquei mal acostumada com esse paparico todo. – disse Ana.
- Mas é bom desacostumar porque daqui ha poucos dias a senhorita retoma a sua rotina! – respondeu Lúcia.
- Mas eu bem que gostaria de ter essa companhia sempre no meu quarto... – provocou Ana.
- Essa comitiva toda?
- Não, só a companhia na hora de dormir bastaria... – disse Ana encarando Lúcia nos olhos.
A freirinha enrubesceu e tratou de puxar a coberta sobre o rosto dizendo:
- Boa noite!
- Boa noite... – respondeu Ana sorrindo para si mesma.
Era dia dez de setembro e o dia havia amanhecido nublado. A Irmã Diva auxiliou Ana a entrar no fusca do convento que a conduziria até o consultório do Dr. Medina. O médico retirou os pontos do rosto de Ana que já estava quase com a cor normal. Havia apenas alguns pequenos resquícios dos hematomas no lado esquerdo do rosto. As fraturas necessitariam de mais algum tempo até consolidarem-se. Até lá Ana estava proibida de fazer maiores esforços físicos. A retirada dos pontos revelou um trabalho de mestre realizado pela equipe do Dr. Medina. A cicatrização estava perfeita. Provavelmente as marcas ficariam quase que imperceptíveis.
Ana ainda permaneceu no quarto da clausura por mais três semanas e somente após esse período retornou para seu quarto anexo ao setor da manutenção. A Madre só permitiu seu deslocamento após o Dr. Medina garantir que Ana estava bem, pronta para reiniciar suas atividades normalmente. A única coisa que Ana sentiu falta ao retornar para seu antigo quarto era a presença de Lúcia no colchão ao lado de sua cama. Na verdade desejava Lúcia deitada a seu lado, dividindo sua cama e sua vida. Lembrava das inúmeras vezes que adormecera vislumbrando o rosto sereno e já adormecido de Lúcia. Os cabelos loiros emoldurando o rosto delicado. O nariz levemente arrebitado franzindo-se num sorriso ao acordar a cada manhã. Sentia vontade de tê-la junto a si para sempre. Não lhe saía da cabeça a voz de Lúcia a lhe dizer: "eu senti medo de te perder...", por certo foram as palavras que Ana mais desejara ter ouvido daqueles lábios. Lamentava, porém, terem sido somente palavras... palavras ditas ao vento...
Lúcia, por sua vez, deitada em sua cama após tantas noites passadas ao lado de Ana, olhava para o teto pensativa. Faltava-lhe algo. Queria olhar para o lado e dizer: "boa noite", como fizera por tantos dias. Queria acordar com aquele par de olhos azuis a fitá-la. Queria ouvir a voz grave a contar-lhe histórias de sua infância e a descrever-lhe as belezas da cidade maravilhosa antes de pegar no sono. Queria poder novamente puxar a ponta do cobertor e tapar os ombros morenos para que a aragem da madrugada não resfriasse a convalescente. Queria novamente sentir o gosto daquela boca...
O gosto da boca... Sim. E a suavidade da pele. Lúcia conseguiu finalmente entender o quanto desejava estar perto de Ana, e o que aquilo significava de fato. Estava apaixonada. E essa tomada de consciência fez com que a jovem freira sentasse na cama de sobressalto. O coração disparado.
Enquanto a razão a induzia a buscar refúgio nas orações e na penitência por tais pensamentos, o coração lhe incitava a bater no quarto de Ana e pedir para passar a noite com ela. Instantaneamente uma onda de ansiedade a invadiu e Lúcia não sabia o que fazer. Fez uma retrospectiva de toda sua vida até então, de seus sonhos, objetivos, projetos de vida. Reviu seus conceitos e se deu conta de que nunca havia sido tão feliz ao lado de alguém quanto de Ana. Como que num passe de mágica suas dúvidas se transformaram em certezas.
Olhou para o lado e viu o ursinho que Ana havia lhe dado de aniversário, com a declaração de amor explícita na fala do bichinho que permanecia sentado nos pés de sua cama a contempla-la amorosamente. Se deu conta de que Ana a amava havia muito tempo...
Respirou fundo, levantou-se, colocou um casaco por cima da camisola de pelúcia, calçou um par de chinelos e saiu pelo corredor a passos lentos, sem fazer ruídos. Sabia perfeitamente o que iria fazer.
Sem conseguir conciliar o sono Ana teve sua atenção despertada por uma batida quase que inaudível na porta de seu quarto. Aguçou o ouvido e novamente ouviu a batida tímida. Levantou-se e ao abrir a porta deparou-se com a figura de Lúcia a contempla-la com seriedade.
- Lúcia... aconteceu alguma coisa?
- Não... sim... quero dizer... posso entrar?
- Claro, claro. – disse Ana colocando-se de lado para que Lúcia pudesse penetrar no aposento. Após a entrada da loirinha Ana fechou a porta do quarto.
Entreolharam-se em silêncio por instantes. Lúcia balbuciou:
- Ana... eu posso... eu posso passar a noite aqui contigo?
- Ãããnn... como assim?...
- Posso... dormir aqui? – disse Lúcia aproximando-se de Ana.
A morena deu um passo para trás e passou a mão pelos cabelos negros:
- Lúcia... olha só... eu não sei se é uma boa idéia... é que... bem...
- Ana... eu quero ficar aqui contigo.
Ana passou as duas mãos no cabelo a partir da testa puxando-os para trás num gesto característico, levantou os olhos para o teto e deu um suspiro forte.
- Lúcia, por favor... não faz isso comigo.
- Isso o quê?
- Você sabe... Lúcia, eu já te falei o que eu sinto por você... Eu não sou de ferro. Por favor... volta pro teu quarto.
- Ana, tu não tá entendendo. Eu quero ficar contigo.
Ana colocou as mãos na cintura e sorriu sem jeito, incrédula frente ao que ouvia:
- Lúcia, eu tô ouvindo bem?
- Tá.
- Aliás, eu tô "entendendo" bem???
- Está.
- Não pode ser. Eu tô sonhando. Com certeza é sonho. Me belisca.
Lúcia sorriu e continuou aproximando-se mais de Ana, ficando frente a frente com ela.
- Não é sonho, é realidade. Ana, eu não consegui pegar no sono... sabe por que?
- Por quê?
- Porque eu senti a tua falta. E eu me dei conta que nunca na minha vida eu fui tão feliz perto de uma pessoa quanto eu sou de ti. E eu acho que eu também sinto uma coisa muito forte aqui dentro... – continuou Lúcia levando as mãos ao peito - ...e eu acho que é amor.
- Acha?...
- Não. Tenho certeza.
- Mas... e os teus objetivos de vida... você não quer ser Madre?
Lúcia riu-se timidamente. Logo em seguida encarou Ana nos olhos e respondeu com seriedade:
- Eu queria ser Madre, antes... Hoje eu me dei conta que eu quero ser outra coisa...
- O que? – perguntou Ana.
- Mulher. A tua mulher. – respondeu Lúcia com a voz rouca pela emoção – Eu preciso sentir o gosto do teu beijo de novo...
Lúcia encostou seu corpo ao de Ana que sentia o coração a lhe bater nas têmporas, chegando a lhe causar uma espécie de vertigem. A morena não saberia conceituar em palavras os seus sentimentos naquele momento. Deixando-se levar pela paixão enlaçou Lúcia suavemente pela cintura, puxando-a de encontro a si. Como quem toma nas mãos um tesouro, uma preciosidade, Ana abraçou-a firme e carinhosa. Fitou-a nos olhos e beijou-lhe carinhosamente a testa. Lúcia abraçou o corpo de Ana enquanto esta beijava o contorno de seu rosto, descendo pelas faces na direção de seus lábios. Muito vagarosamente Ana contornou a boca de Lúcia com a sua. Por fim, com os lábios de Lúcia exigindo mais, capturou sua boca possessivamente. O beijo ardente, misto de desejo, fogo e medo, acendia os corpos que se enlaçavam amorosamente. As pulsações aceleradas, as respirações entrecortadas e as mãos trêmulas e ávidas acariciavam-se mutuamente.
Ana tinha a sensação de estar nas nuvens. Tudo o que queria na vida era ter aquela pequena mulher em seus braços. E agora o que antes não passava de uma doce e terna ilusão era a mais palpável e feliz realidade.
Lúcia perdeu-se nos braços de Ana, por inteira naquele sentimento de entrega e desejo. Sentia as mãos de Ana percorrendo suas costas, sua nuca, sua cintura. A boca ávida de Ana como que tentando sugar a sua essência pelos lábios. O movimento da língua a invadi-la, buscando dar-lhe prazer e fazendo-a sentir um fogo interno a consumi-la, sensação nunca antes experimentada.
Em dado momento, com o peito ainda arfante, Ana conseguiu descolar os lábios dos de Lúcia, fitando-a nos olhos e dizendo:
- Eu te amo...
- Eu também te amo... – respondeu Lúcia.
Ana afastou-se um pouco de Lúcia, contemplando-a de cima a baixo.
- O que foi?... – perguntou Lúcia.
- Nada... só tô olhando...
Lúcia sorriu timidamente:
- Olhando o que?
- Você... (...) Lúcia... você tem certeza de que quer realmente fazer o que estamos prestes a fazer?
- Absoluta. Eu quero ser tua.
Ana sorriu e novamente aproximou-se dela, tomando as mãos de Lúcia entre as suas. Percebeu que Lúcia estava com as mãos suadas, um pouco frias e trêmulas. Levou as mãos alvas até sua boca e beijou-as carinhosamente, dizendo:
- Você está com as mãos frias...
- É que... que... eu tô um pouco nervosa... sei lá. Acho que eu tô com um pouco de medo...
- Medo de mim?... – disse Lúcia amorosamente.
- Não... medo de não saber fazer direito...
- Fazer o que?... – provocou Ana.
- Aaaaii, Ana, tu sabe o quê...
Ana sorriu do desconcerto de sua amada e disse ao seu ouvido:
- Você não precisa ter medo de nada... Tem coisas que a gente nasce sabendo fazer... – e riu-se.
- Pra ti é fácil falar...
- Por que pra mim?
- Porque tu tem experiência... eu não.
- Posso te confessar uma coisa? – perguntou Ana ainda ao pé do ouvido de Lúcia, fazendo-a arrepiar-se.
- Pode.
- Eu também tô com um pouco de medo...
- Medo??? Tu???
- É. – concordou Ana.
- Medo de que? – quis saber Lúcia curiosa.
- Medo de acordar a qualquer momento e perceber que tudo isto não passa de um sonho...
Desta vez foi Lúcia quem envolveu Ana pelo pescoço e aproximou-se de sua boca:
- Não precisa ter medo. Eu sou real... sonhos não fazem isso... – e colou seus lábios novamente aos de Ana, beijando-a com sofreguidão.
A morena abraçou-a com firmeza e o beijo ardente fazia com que ambas se acariciassem freneticamente. Não conseguindo mais se conter Ana afastou-se um pouco dela. Com os olhos escuros pela excitação tirou o casaco de Lúcia, deixando-o cair displicentemente no chão do quarto. Após desabotoou os três botões da camisola de Lúcia, num clima quase que de ritual, para em seguida puxar a vestimenta tirando-a por cima da cabeça de Lúcia. O que se mostrou foi um peito alvo, com seios pequenos e firmes, de mamilos rosados e rijos de excitação. Ana contemplou sua amada sorrindo-lhe amorosamente. Desta feita tirou a própria camiseta expondo seu torso moreno e nu, para o deleite de Lúcia. Logo em seguida baixou sua calcinha desnudando-se por inteira para a mulher trêmula à sua frente. Desta vez foi a loirinha que a observou extasiada de cima a baixo, admirando aquele corpo que a deixava praticamente sem ar. Novamente Ana aproximou-se de Lúcia e num movimento delicado abaixou-se, como que num cumprimento a uma rainha, e tomou a calcinha de Lúcia nas mãos, levando-a até o chão. A loirinha tirou seus pés de dentro dos chinelos e da calcinha, ficando também completamente nua.
Ana levantou-se vagarosamente envolvendo-a nos braços, fazendo com que os corpos se tocassem suavemente, sem absolutamente nada a separa-los. Os corações batiam praticamente um dentro do outro. As bocas secas e as respirações entrecortadas demonstravam a urgência que tinham uma da outra. A morena foi conduzindo Lúcia até a beirada da cama, tomando-a nos braços e deitando-a delicadamente. Em seguida esgueirou-se sobre ela, tomando o cuidado de não colocar todo o peso de seu corpo com receio de machuca-la. Lúcia abriu suas pernas, receptiva ao corpo que se deitava sobre o seu. Gemeu baixinho ao sentir o contato do sexo encharcado de Ana de encontro ao seu. Sentiu que uma umidade quente começava a jorrar de dentro de si, a cada toque de Ana em seu corpo.
A morena passou a beijar o pescoço de Lúcia, descendo até os seios que arfavam de encontro a ela. Abocanhou um por vez, passando sua língua ao redor dos mamilos sugando-os e arrancando gemidos baixos de Lúcia. As mãos exploravam o pequeno corpo que retribuía cada toque com igual intensidade. Ana continuou a beija-la até a cintura e percorreu o caminho do triangulo de pelos dourados. Lúcia abriu-se para a boca de Ana que passou a língua delicadamente no ponto de prazer da loirinha que se contorcia em êxtase. Lúcia jamais ousara sonhar que pudesse existir tamanha sensação de prazer. Ana deu suaves abocanhadas no sexo de sua amada, adorando sentir o seu gosto. Ao perceber que ela estava prestes a atingir o clímax aliviou a pressão dos lábios e subiu novamente em direção à boca de Lúcia. Deitou-se sobre ela e beijou seus lábios avidamente. Pela primeira vez Lúcia sentiu seu próprio gosto na boca de Ana. A morena colocou sua mão entre as pernas de Lúcia e passou a acariciar o sexo de sua parceira em movimentos circulares e sincronizados. Muito suavemente deslizou um de seus dedos pela cavidade molhada penetrando-a vagarosamente, na clara intenção de não machuca-la. Lúcia gemeu e apertou seu sexo contra a mão de Ana, convidando-a explicitamente a continuar sua exploração. Aos poucos Ana foi intensificando os movimentos de vai-e-vem e espalhando a umidade que jorrava de dentro da loirinha. Estrategicamente Ana se posicionou de modo que Lúcia também pudesse toca-la. A pequena mulher sentiu em seus dedos encharcados o quanto Ana estava excitada, e nem bem havia tocado em seu sexo, e a morena já movimentava os quadris na direção de sua amante. Lúcia também explorou a cavidade úmida de Ana, penetrando-a enquanto esta gemia de prazer. Assim como Ana, Lúcia logo localizou o ponto do prazer de sua amada e passou a toca-lo com movimentos intensos e sincronizados. Sentia o volume na ponta de seus dedos aumentando de tamanho conforme a excitação aumentava. Nenhuma das duas conseguia mais segurar a explosão iminente do orgasmo, e com os movimentos dos dedos, acelerados e frenéticos, ambas contraíram-se com gemidos sufocados e com espasmos de prazer lhes percorrendo os corpos suados.
Lúcia sentia como se a pulsação de seu corpo estivesse concentrada em seu sexo que latejava compassadamente após ter gozado de encontro ao corpo da mulher que amava. Ana deixou-se cair ao lado de Lúcia, abraçando-a e ajeitando-a sobre si na estreita cama de solteiro. Os corpos em êxtase pareciam fundidos num só. Após alguns momentos Ana afagou os cabelos suados de Lúcia e lhe disse baixinho no ouvido:
- Eu te amo... Tanto... Tanto...
- Eu também... Eu também te amo muito...
Ana beijou a testa de Lúcia e perguntou carinhosamente após alguns minutos:
- E então?... Passou o medo?
- Passou... – Lúcia respondeu rindo-se e achando-se uma boba.
- Que bom... O meu também passou. Realmente sonhos não poderiam me fazer sentir o que eu senti há pouco. Lúcia, eu nunca senti isso em toda a minha...
- Isso o quê?
- Amor... Paixão... Tesão... tudo.
- Aposto que tu diz isso pra todas!
- Lúcia... – respondeu Ana puxando o queixo da loirinha com suavidade fazendo com que a fitasse nos olhos - ...eu nunca disse isso pra ninguém. E eu também nunca senti isso antes. Hoje foi a primeira vez na minha vida que eu fiz amor... E eu preciso que você acredite nisso...
Lúcia se comoveu com a sinceridade daquelas palavras e respondeu:
- Eu acredito. – E beijou Ana nos lábios.
Ana continuou acariciando as costas de Lúcia, sentindo a maciez daquela pele alva e intocada até então. Lúcia quebrou o silêncio:
- Ana...
- O que?
- Sinceramente... como eu me saí?
- Como assim? – disse Ana fingindo-se de desentendida, divertindo-se com aquela pergunta.
- Aaah, tu sabe... eu... fiz direitinho?...
- Huuuummm... – murmurou Ana com um tom de suspense na voz. Pegou a mão de Lúcia e a colocou entre suas pernas onde os vestígios do orgasmo recente ainda umedeciam a pele morena. – O que é que você acha???
Lúcia sorriu maliciosamente para ela enquanto reiniciava os movimentos de encontro ao sexo de sua amada, reacendendo a chama da paixão e dando início a nova seqüência de afagos, carícias e volúpias, enquanto a lua crescente desenhava sua trajetória naquele céu de outubro. Amaram-se até o esgotamento físico e adormeceram uma nos braços da outra.
Naquele pequeno quarto dormiam duas mulheres completamente felizes e entorpecidas de amor.
A madrugada já ia alta quando Lúcia despertou aninhada nos braços de Ana. O movimento dela fez com que Ana também despertasse e a apertasse de encontro ao próprio corpo, como que querendo prende-la para sempre perto de si. O contato com a pele nua e quente de Ana dava a Lúcia uma sensação de bem-estar e aconchego nunca antes experimentada. Ela se sentia uma pessoa totalmente diferente do que a Lúcia de algumas horas atrás. Mais que nunca se sentia mulher. Encarou Ana que lhe afagava carinhosamente os cabelos tendo os olhos fechados e uma expressão de serenidade no rosto.
- Ana... – chamou baixinho.
- O quê?...
- Eu não sei que horas são...
- Nem eu. E importa?
- Eu não posso amanhecer aqui contigo... – disse Lúcia em tom queixoso.
Ana abriu os olhos, fitando-a enquanto afagava o contorno de seu rosto.
- E se eu não te deixar ir?...
- Mas, meu amor... eu preciso...
Ana sorriu e respondeu:
- Eu sei. Peraí que eu vou ver as horas. – disse Ana enquanto esticava a mão para pegar seu relógio de pulso que estava no criado-mudo. – São quase quatro horas.
- Eu preciso voltar pro meu quarto.
- Lúcia... o que vai acontecer agora? – perguntou Ana deixando transparecer uma certa preocupação em sua voz.
- Eu não sei... na verdade eu sei pouca coisa. Mas eu tenho uma certeza...
- Qual?
- Que eu sou tua. E eu quero continuar sendo.
Ana sorriu e a apertou forte contra o peito.
- Eu também... – respondeu Ana - ...eu também sou incondicionalmente tua. A gente agora precisa pensar com calma no que vai fazer, certo?
- Certo. – concordou Lúcia – Agora eu preciso ir.
Lúcia beijou os lábios de Ana e esta a aprisionou de forma a impossibilitar que se levantasse. Lúcia sorriu e disse:
- É assim que a senhora pensa em me deixar pensar com calma sobre o nosso futuro?
Ana teve de sorrir.
- É mais forte do que eu. Eu não consigo te soltar. – disse a morena.
- Mas é preciso...
Vagarosamente Ana deixou Lúcia se desvencilhar, mesmo que a contragosto, de seu abraço. A loirinha levantou-se e pegou suas roupas no chão do quarto, enquanto Ana observava a silhueta nua a movimentar-se com a graça e o encanto que lhe era peculiar. Ana mal cabia em si de felicidade e por vezes custava a crer que os momentos de amor que passara há pouco fossem de fato reais. Parecia que acordaria de seu sonho a qualquer momento. No entanto ao sentir o calor da boca de Lúcia de encontro a sua e aquele encantador semblante a lhe sorrir e dizer: "eu te amo", teve a certeza de que aquela era a mais pura e doce realidade.
- A gente se fala durante o dia... – disse Lúcia já vestida e roubando-lhe mais um beijo antes de sair.
- Tá... – respondeu Ana colocando sua camiseta por sobre o corpo e abrindo uma fresta da porta para espiar para fora.
A noite estava estrelada e clara. Tudo e todos dormiam profundamente.
- Tá limpo. – disse Ana envolvendo Lúcia pela cintura e capturando-lhe novamente os lábios com avidez. Ao terminar o beijo continuou – Agora pode ir.
- Eu te amo... – disse Lúcia.
- Eu te amo... – respondeu Ana.
Lúcia olhou para ambos os lados no pátio e correu na direção do convento, sendo observada por Ana da porta de seu quarto. Pé ante pé, sem fazer o menor ruído, retornou para seu pequeno quarto na clausura do convento. Ao se deitar em sua cama sorriu e suspirou profundamente. Ainda com a sensação do toque da pele e do gosto de Ana em seu corpo, adormeceu profundamente. Havia decidido que pensaria em sua vida somente após o amanhecer.
Ana deitou-se novamente assim que Lúcia desapareceu na curva da viela ladrilhada que levava ao convento. Ainda sentia o cheiro de Lúcia em seu corpo e na roupa de cama. Sentia-se flutuar. De fato considerava-se a mulher mais feliz do mundo. A aragem da noite fez com que puxasse sua coberta sobre os ombros e se aconchegasse no leito que havia servido de ninho de amor. Em seus pensamentos só havia lugar para uma pessoa: Lúcia, a sua Lúcia, a pequena jovem que ela havia feito mulher naquela noite.
Naquele momento nada poderia tirar dela a sensação de completude e êxtase que vivenciava. Nem mesmo a complexidade da situação poderia roubar-lhe o sentimento de confiança nas palavras de Lúcia: "eu sei que eu sou tua... e quero continuar sendo". Essa certeza lhe bastava.
A claridade da manhã fez com que Lúcia despertasse num sobressalto. Já eram sete horas, ela estava atrasadíssima. Não participara das orações na capela e precisaria correr para ter tempo de tomar um café antes de iniciar suas aulas no período matinal. Foi até o banheiro e despiu-se para tomar uma ducha rápida. Num canto do banheiro havia um espelho grande e ovalado. Lúcia parou e contemplou-se nua. Olhando-se de cima a baixo parecia enxergar outra pessoa. Em todos os anos que passara ali nunca chegara a observar-se daquela maneira, provavelmente por conta de seu freio inibitório que lhe incutia a idéia de pecado na contemplação do nu. Sorriu para si mesma e dirigiu-se para a ducha quente. A água escorria em suas costas e Lúcia sentia a energia fluindo com as gotículas que ricocheteavam em seu corpo.
Quando Lúcia entrou no refeitório, esbaforida, Ana já estava instalada na mesma mesa de canto que costumavam ocupar. Ao ver sua preciosidade irromper no recinto, com os cabelos semi-revoltos, sorriu para ela, tentando disfarçar sua expressão apaixonada, para não levantar suspeitas. Lúcia fez a mesma coisa. Serviu seu café e foi sentar-se à mesa com Ana. A morena percebeu que Lúcia estava sem véu, aliás, sem o hábito. Vestia uma saia cinza que lhe caia até abaixo do joelho e uma blusa branca e discreta de mangas compridas ajeitada para dentro da saia.
- Bom dia! – disse Ana com a voz baixa e um sorriso carregado de segundas intenções.
- Muito bom... – respondeu Lúcia ruborizando-se.
Ana baixou os olhos para sua xícara de café e riu-se da situação.
- Tá rindo de que? – perguntou Lúcia à meia voz.
- Da tua cara...
- Quer fazer o favor?... – pediu Lúcia fingindo um tom de censura.
Ana somente sorriu e abocanhou seu pedaço de pão caseiro com uma espessa camada de geléia de morangos. Tomaram o café em silêncio, evitando inclusive de trocarem olhares, com receio de que os olhos delatassem os sentimentos escondidos nos corações. Em virtude do seu atraso Lúcia praticamente engoliu seu café e despediu-se de Ana com um aceno, indo para a escola. Ao cruzar com a Madre na porta do refeitório percebeu o olhar inquiridor de sua superiora estranhando a ausência do hábito. Nem deu tempo à Madre de formular qualquer questionamento. Em menos de quinze minutos estava pegando seu material didático no armário da sala dos professores.
Na hora do almoço Lúcia e Ana também mantiveram certa distância e evitaram a troca de olhares e de diálogos muito longos. À tarde Lúcia foi para a faculdade e à noite fez sua atividade na secretaria muito rapidamente, pedindo licença para a Madre para retirar-se em virtude de estar muito cansada.
- Tu estás bem, Irmã Lúcia? – perguntou a Madre, sem questionar o porquê da ausência do hábito.
- Estou, Madre. Só estou cansada mesmo. Posso me retirar?
- Pode... – respondeu a Madre fitando-a pensativa.
A superiora percebeu que algo estava acontecendo com Lúcia, porém considerou adequado dar tempo ao tempo e deixar que a própria jovem resolvesse se abrir com ela.
Lúcia entrou em seu quarto e fechou a porta. Eram pouco mais de nove horas da noite. Pegou uma roupa limpa e foi tomar um banho. Na volta sentou-se na pequena cadeira estofada ao lado de sua cama e colocou os pés sobre duas almofadas estampadas. Nas últimas horas só o que fizera foi pensar em sua vida e em como proceder dali para frente. Havia tomado algumas decisões e queria conversar com Ana, mais que isso, precisava conversar com Ana. Para tal esperou que reinasse absoluto silêncio nos corredores da clausura, após todas as Irmãs haverem se recolhido aos seus respectivos aposentos. Novamente esgueirou-se pelas sombras da noite e foi bater na porta do quarto de Ana.
Nem bem havia dado a primeira batidinha e a porta entreabriu-se rapidamente. Um braço forte a puxou para dentro e mãos ávidas a suspenderam num abraço apertado.
- Nooossa, que recepção! – disse Lúcia após separar seus lábios dos de Ana, que havia lhe roubado um beijo sôfrego.
- Eu quase morri de saudades hoje... – disse Ana apaixonadamente.
- Eu também... – respondeu Lúcia enquanto Ana a colocava no chão. – Ana... sabe, eu pensei muito hoje e nós precisamos conversar...
- Tem razão. – respondeu Ana sentando-se na beirada da cama para ouvi-la.
Ana percebeu a necessidade de deixar Lúcia desabafar e estava disposta a ouvi-la sem interrompe-la. Lúcia sentou-se numa cadeira de frente para Ana e desatou a falar:
- Não é de hoje que eu penso em nós... quero dizer, em mim... no que eu sinto por ti... e somente ontem tive a coragem de assumir. Bom, eu não tenho como negar que já me passou tudo pela cabeça, inclusive a idéia de que eu vou penar no quinto dos infernos por conta desse sentimento – e riu-se timidamente.
Ana também sorriu e Lúcia continuou:
- Mas depois, pensando em tudo o que eu já vivi até aqui, pensando no conceito e na idéia que eu tenho de Deus eu cheguei a conclusão que eu de fato não sou a pior das criaturas. E que Deus também não deve ser tão rígido e intransigente com um sentimento como o nosso, que é amor. Até por que se Deus for condenar os que amam, o que restará para os que odeiam? E eu me dei conta que não acredito num Deus que castiga, um Deus preconceituoso, e sim num Deus benevolente com aqueles que não prejudicam os seus semelhantes e a natureza. E a gente não está prejudicando ninguém... a gente simplesmente se ama. E se isto for errado eu realmente não consigo entender nada da vida. Bom, até aí tudo bem... Mas depois eu pensei na situação que a gente se encontra. Tu precisas terminar a tua prestação de serviços. Eu tenho uma faculdade por concluir neste semestre. Mais que isso: eu fiz votos. Tudo bem que são votos temporários, mas são votos. E eu quebrei um deles. Mas eu não posso voltar no tempo para consertar isso. Me resta proceder de forma correta daqui para frente.
Ana mexeu-se na cama impaciente. Será que Lúcia estava cogitando a possibilidade de não deixar que a tocasse até saírem dali? Seria dificílimo para ela, mas se essa fosse a condição de Lúcia ela aceitaria, afinal amava aquela mulher mais que tudo na vida e jamais faria qualquer coisa que a deixasse magoada ou incomodada. Lúcia respirou fundo e continuou seu monólogo:
- Tu reparou que eu não usei meu hábito hoje?
- Reparei. – respondeu Ana.
- E eu não vou mais usa-lo. Amanhã eu vou conversar com a Madre e contar-lhe a minha decisão de sair da Ordem.
- E você vai falar da gente pra ela? – perguntou Ana incrédula.
- Não. Eu não posso. Pelo menos por enquanto. Por ti. Por ela. E por mim também. Eu sei que ela vai querer saber o que está havendo. E eu vou explicar de forma a não aprofundar muito o assunto. Eu sei também que ela vai querer me dar um tempo, que vai argumentar que eu pense melhor. Eu vou propor continuar com minhas aulas na escola e com meu trabalho na secretaria. Mas vou precisar receber por isso, afinal vou ter que alugar uma peça para morar.
Ana estava de fato espantada com a coragem de Lúcia. Por trás de sua aparente fragilidade se descortinava uma mulher decidida e valente.
- Lúcia, eu posso te ajudar também. Eu tenho alguma grana e se você precisar a gente aluga um lugarzinho aqui perto pra gente. – disse Ana.
- Ana, tu não vai poder morar comigo...
- E por que não?
- Por que vão botar um letreiro luminoso na fachada da nossa casa: "lésbicas"! – respondeu Lúcia colocando as duas mãos na cintura. – Aí a Madre te manda embora daqui e me afasta de vez da escola. Aí estamos com uma mão na frente e outra atrás! Olha, eu não quero ser desonesta, mas também não podemos abrir mão de coisas importantes pro nosso futuro. Uma vez formada eu posso dar aula em qualquer lugar. E uma vez livre desse processo tu podes ir para qualquer lugar também. Aí a gente pode construir a nossa vida, Ana.
Ana sorriu frente à praticidade daquela garota, ou melhor, daquela mulher. Ela de fato tinha razão. Não era hora de ser passional e sim de fazer as coisas certas. Lúcia continuou:
- Hoje o que eu mais quero é tu. Mas eu não posso ir contra o que eu considero ético. Me desculpa...
- Eu não tenho o que desculpar. Muito pelo contrário, eu só tenho a me orgulhar de você. E cada vez mais eu me dou conta do porquê de eu te amar tanto. Eu nunca conheci uma pessoa como você.
- Tão boba?
- Não. Tão maravilhosa.
Lúcia sorriu encabulada. Ana perguntou:
- Você vai falar com a Madre amanhã?
- Vou. Sem falta. – respondeu Lúcia.
- Lúcia, eu não vejo a hora da gente ter o nosso cantinho. – disse Ana sorrindo – Sabe, eu não cheguei a comentar, mas eu tenho um terreninho num loteamento na zona sul de Porto Alegre. Comprei há algum tempo atrás como investimento. Na época paguei barato, em prestações a perder de vista, mas está escriturado, tudo direitinho. O lugar era ermo, porém agora parece que já está bem habitado e urbanizado. Não é lá grande coisa, mas a gente pode construir alguma coisa pra nós. O que você acha?
- Eu acho que qualquer lugar, estando contigo, vai ser o meu lugar.
Ana aproximou-se de Lúcia, ajoelhou-se à sua frente, tomou-lhe as mãos beijando-as e disse:
- Eu te prometo que a gente vai ser feliz, minha garota.
- Garota?
- Não... – riu-se Ana - ...Mulher, minha mulher. – e abraçou-a beijando-lhe a boca.
Ambas sentiram o fogo da paixão acendendo-se e antes que não conseguisse mais se controlar Lúcia afastou-se e pediu:
- Amor, me deixa fazer o que deve ser feito antes...
Ana respirou fundo e afastou-se, com os batimentos cardíacos acelerados e uma sensação de umidade entre suas pernas.
- Tudo bem. Se você quer assim, assim será. Eu faço todas as vontades da minha garota, quero dizer, da minha mulher.
Lúcia sorriu encantadoramente levantando-se e ensaiando uma saída estratégica.
- Agora eu vou pro meu quarto. – disse Lúcia suspirando.
- E eu vou ficar aqui me consumindo de tesão...
- E tu acha que eu não???...
- Então porque não fica??? – pediu Ana sedutoramente.
- Aaaaiii, não me tenta, mulher! Eu já te falei dos meus motivos.
- Tudo bem, tudo bem, desculpa. Vai lá então. Você tem um minuto pra sair correndo, depois eu te prendo e não te solto mais... – disse Ana em tom de brincadeira.
- Então tchau! – disse Lúcia dando um selinho na boca de Ana antes de sair correndo porta afora, deixando a morena ainda perplexa com suas convicções.
- Puta que pariu! Raio de ética! – riu-se Ana enquanto preparava um banho frio antes de tentar conciliar o sono.
No outro dia bem cedo, uma quinta-feira, Lúcia entrou na sala da Direção da escola antes de iniciar sua aula. A Madre estava sentada em sua cadeira de espaldar alto e fazia um registro num livro de atas. Estava com os óculos na ponta do nariz e ao perceber a entrada de Lúcia sorriu-lhe afetuosamente:
- Bom dia, minha filha.
- Bom dia, Madre... Ããnnn... a senhora vai estar muito ocupada hoje no primeiro horário da tarde? – perguntou Lúcia deixando transparecer um certo grau de ansiedade.
- Bom... depende. Aconteceu alguma coisa?
- Não, Madre... é que eu preciso falar com a senhora. E tem que ser hoje.
- Mas então aconteceu algo?
- É. Aconteceu. Mas não se preocupe, não é nada grave. Mas é algo que eu preciso lhe falar.
A Madre encarou-a com uma expressão preocupada.
- Tem certeza que não é nada grave? – insistiu a Madre.
- Tenho. São coisas minhas, que eu preciso lhe contar. Podemos conversar a sós aqui? Lá pelas duas horas?
- Tu não vais para a faculdade?
- Não. Hoje não.
- Então conversamos às duas horas. – assentiu a Madre.
- Obrigada. E com licença. – disse Lúcia retirando-se para assumir sua turma que logo estaria em fila no pátio interno da escola.
A Madre ficou pensativa. "O que estará acontecendo com essa menina?", pensava a freira. Uma ruga de preocupação formou-se em sua testa. Não adiantava conjeturar, era necessário esperar para ouvi-la.
No almoço Lúcia serviu seu prato e foi sentar-se na mesa com Ana. Cabisbaixa falou a meia voz:
- Eu vou conversar com a Madre agora às duas horas.
Ana assentiu com a cabeça e respondeu:
- Boa sorte. E... Lúcia, você sabe que pode contar comigo para qualquer coisa. Até para cair fora daqui hoje mesmo se for preciso.
Lúcia sorriu-lhe:
- Eu sei. Mas acho que não chegará a tanto o "depois" de nossa conversa.
- Tudo bem, mas é só pra você ficar tranqüila.
- Eu estou tranqüila. Ana, eu tenho certeza do que eu quero. E é exatamente essa certeza que me deixa tranqüila.
- E você tem certeza do que? – provocou Ana baixinho.
Lúcia olhou-a nos olhos desconcertando-a, coisa rara de acontecer, e respondeu num tom que só a morena ouviu:
- Do teu amor... do nosso amor.
Ana sorriu e baixou os olhos para seu prato. Depois que terminaram de almoçar Ana voltou para seus afazeres na manutenção da lavanderia e Lúcia aproveitou o tempo para ir até a capela rezar um pouco e pensar na vida. A penumbra da pequena ermida tinha um efeito calmante para Lúcia. Sempre gostara daquele ambiente, principalmente nos dias claros, quando os raios do sol penetravam timidamente no recinto filtrados pelo colorido dos vitrais. Por vezes, conforme o ângulo de projeção do sol, as cores refletiam-se no chão ladrilhado ou nas paredes levemente azuladas. Perto do tempo do solstício de verão os raios do sol a pino penetravam pela abóbada central e caíam diretamente sobre o Ostensório que ocupava o centro do altar. O brilho do metal dourado espargia os raios solares como se aquela luminosidade brotasse do âmago do próprio Altíssimo. Já nos períodos dos equinócios a luz emanada dos pores-de-sol penetrava diretamente através do vitral que retratava a Assunção de Maria aos céus, sendo conduzida por anjos e flutuando entre as nuvens. O prisma de luz irradiava direto na auréola da Santa dando um efeito quase que mágico àquele vitral. Inúmeras vezes Lúcia havia se questionado se havia sido proposital a disposição daquelas placas de vidro e de metal. Assim como acreditava ser premeditada a abertura para a irradiação da luz sobre o altar nos solstícios de verão. De fato, além de arquiteto, o projetista daquele lugar deveria ter sido um estudioso da natureza.
Lúcia contemplou silenciosamente as imagens sacras e os vitrais coloridos e seu coração aquietou-se. Fez uma oração pedindo luz para seu caminho: