DESDE SEMPRE
Paula Marinho
Cap�tulo IV
1992 � A infausta festa no DCE
Quando retornou ao local onde deixara Fabiana, Liz a viu conversando com um rapaz. Para a surpresa da loirinha, Fabiana soltou uma daquelas suas raras e deliciosas gargalhadas. Liz achegou-se intrigada. � que apesar de linda e obviamente muito assediada, Fabiana dificilmente conversava com rapazes sem lan�ar um olhar de s�plica e embara�o para a melhor amiga. � claro que ambas j� haviam ficado com rapazes, namorado alguns, mas nunca nada muito s�rio, prolongado ou demasiado �ntimo. Mesmo agora, ap�s dois anos de universidade, as coisas n�o haviam mudado muito. Dois anos...Liz sorriu ao lembrar de que finalmente moravam juntas n�o obstante as tentativas reiteradas de D. Eul�lia para que isso jamais acontecesse.
Liz se aproximou.
- Desculpe a demora � Liz falou entregando um copo de refrigerante para Fabiana.
- Ah, oi, Liz. Voc� n�o demorou, n�o. Este � o Caio. Ele faz medicina.
Liz o cumprimentou com a cabe�a, mas o jovem estudante adiantou-se e a abra�ou amigavelmente.
- Muito prazer, Liz. A Fabiana estava me contando que voc�s s�o as melhores amigas.
Liz apenas sorriu. Ficaram conversando sobre atualidades durante alguns minutos e a loirinha teve que admitir que o rapaz era simp�tico e n�o perdia tempo com coment�rios repletos de testosterona. Era inteligente e agrad�vel. E pelo jeito n�o era s� ela que estava percebendo isso. Fabiana parecia encantada. Um ci�me sorrateiro come�ou a se instalar no peito de Liz. Ela balan�ou a cabe�a e resolver ir pegar mais cerveja. Alguns minutos fora e Fabiana come�aria a procur�-la com os olhos, nervosa com a sua demora.
Enganou-se.
Meia hora depois a morena continuava conversando animada com seu novo amigo. Liz sentiu o est�mago embrulhar. Aproximou-se.
- Olha, Fabi. Esta festa est� um saco. Vou me mandar.
- Mas, Liz, n�s n�o demoramos nada...
- Se voc� quiser pode ficar. Eu estou indo para casa dormir.
- Eu te levo mais tarde, Fabiana � Caio ofereceu-se.
Para a surpresa de Liz, Fabiana aceitou.
- Ent�o eu vou ficar.
Liz se despediu com um aceno leve e saiu confusa e decepcionada. Olhou para tr�s uma �nica vez para ver Fabiana rindo e se recostando no bra�o do jovem estudante de medicina. Sentiu o cora��o se apertando como se vislumbrasse uma s�ria mudan�a nas coisas dali para frente.
1987
Fabiana e Liz voltaram a se encontrar somente na segunda-feira ap�s a festa de quinze anos de Fabiana. A loirinha estava apreensiva em vista do momento de encontrar Fabiana depois do que havia acontecido entre elas. Chegou cedo e ficou esperando. Fabi apareceu uns quinze minutos mais tarde e Liz, ao contr�rio do que fazia todos os dias de aula, n�o se aproximou da amiga contando qualquer coisa com a costumeira verborragia. A jovem loira ficou quieta e muda, ciente do estranho embara�o que lhe entorpecia o �nimo. Fabiana a viu e acenou. Seus cabelos negros estavam presos num rabo de cavalo e o rosto livre dos �culos aparecia com todo o seu esplendor. A morena ainda usava o uniforme austero de sempre, mas para maioria dos alunos no p�tio do col�gio, muitos dos quais a conheciam a vida inteira, ela se assemelhava a uma apari��o. Um milagre que surgiu do dia para a noite plasmado em um rosto sem retoques. "Deus, como ela � linda", Liz pensou.
- Fabiana, � voc�? � uma colega de outra classe perguntou com sincero assombro.
Fabi n�o respondeu, apenas sorriu de leve e olhou para Liz. Em tr�s segundos outras meninas se juntaram � avalia��o pasma e indiscreta da primeira colega.
- Menina, o que voc� fez?
- Como voc� escondia esses olhos?
- Nossa, que pele!
- Foi pl�stica?
Outros colegas foram se amontoando ante o ineg�vel frisson em torno da mo�a alta e at� a semana anterior mascarada como um Zorro com lentes disformes. Fabiana olhou de novo para Liz desta vez com olhos s�plices e envergonhados. A loirinha atendeu incontinenti ao pedido mudo da melhor amiga. Caminhou at� ela para fazer o que parecia ser a sua miss�o na terra: salvar Fabiana.
- Fabi, anda logo! Esqueceu da prova de portugu�s? Temos que repassar a mat�ria e a Irm� Maria n�o tolera atrasos, especialmente em dia de exame � Liz falou com convic��o puxando a m�o da garota mais alta sem ligar para as reclama��es de duas estudantes em quem ela esbarrara sem remorsos em sua miss�o de socorro.
Foram para o fim do p�tio.
- Nossa, amiga, voc� causou furor � Liz comentou rindo do rosto ainda vermelho de Fabiana.
- Ai, Liz. Pare de me gozar. Que coisa mais estranha, aquelas pessoas que mal conhe�o me fazendo perguntas...
- Compreens�vel, n�, amiga? No decorrer de um simples fim de semana eles pararam de ver dois fundos de garrafa pairando acima deles para se depararem com uma gata.
- Gata, eu? Ai, Liz, voc� tem cada uma.
Sentaram se em um banco de madeira longe dos curiosos, repentinamente caladas. Fabiana olhou sem muito interesse para o livro de qu�mica e Liz passou os dedos pelos cabelos longos fingindo prestar aten��o em um bando de garotos jogando futebol com um baga�o de laranja.
- Fabi...
- Sim? � Fabiana perguntou de forma abrupta.
- Eu...
- O que �?
- Sobre o baile...
- O que tem?
- Bom...�...sobre o que aconteceu entre a gen...
- Aaah! � Fabiana falou mais alto que o normal. � Eu fiquei completamente b�bada com aquele champanhe, amiga. Sabia que eu n�o me lembro de nada depois de rirmos como duas bobas daquele bichinho de jardim? Eu n�o tenho o costume, voc� sabe. Minha m�e quase me matou no outro dia. Poxa, que ressaca...
Liz ficou ouvindo a amiga desfiar as agruras de um dia p�s-bebedeira sem deixar de reparar no quanto Fabiana estava falando para uma pessoa t�o avessa a palavras excessivas e, principalmente, sem parar de pensar que a lembran�a daquilo que de mais lindo j� havia acontecido em toda a sua vida e com a pessoa mais importante da sua exist�ncia parecia ser uma lembran�a unicamente dela. Fabiana n�o se lembrava...ou n�o queria se lembrar. N�o importava.
O sinal para a primeira aula tocou. Ambas se levantaram e seguiram para a sala com Fabiana estranhamente dominando a conversa. Liz olhava para ela fingindo prestar aten��o no assunto enquanto seu est�mago parecia tomado por um misterioso bolo de decep��o. Mas ent�o ela reparou em Fabiana carregando os livros apertados junto ao colo, caminhando com os cabelos presos balan�ado ao ritmo das pernas longas, corada e alegre. Liz sorriu com carinho. "Quer saber? Dane-se!". Sem avisar, Liz deu um empurr�o na melhor amiga.
- Que � isso, Liz?
- Nossa, Fabi, eu n�o ag�ento mais a sua voz. Voc� est� parecendo uma matraca. Para de falar um pouquinho, por favor.
- Olha s� quem fala! Voc�, �s vezes, parece que tomou uma overdose daquela p�lula falante da Em�lia do S�tio do Pica-pau Amarelo. D� vontade de virar avestruz e enterrar a cabe�a na terra.
- Cuidado, alto-falante, lembre-se de que os seus joelhos est�o perfeitamente ao meu alcance.
- R�, r�, tampinha, lembre-se de que posso te diminuir alguns preciosos cent�metros s� com os meus punhos e a for�a da gravidade.
- Eu mordo o seu calcanhar!
- Eu te penduro no lugar do retrato da madre fundadora da escola.
- Meu Deus, eis que a sacr�lega finalmente se revela.
Fabiana n�o resistiu � gargalhada. Liz levou um empurr�o.
- Vamos pra aula sua gralha diminuta.
- Deusa da ret�rica � mais apropriado.
Foram andando rindo e se provocando. Eram meninas. Eram amigas. Eram felizes.
Liz, muitas vezes e por muito tempo, pensou em conversar com Fabiana sobre o que acontecera naquela noite, mas Fabi jamais tocara no assunto. Sempre que a menina mais baixa antevia um ensejo de falar sobre o epis�dio, algo a impedia: um medinho fundo e inc�modo, uma premoni��o como um alarme mi�do no peito. E ela se calava e se contentava em ter Fabiana sempre ao alcance, em partilhar o seu riso, ver os seus olhos, e em receber de vez em quando um abra�o t�mido, um toque de m�o imprevisto. E Liz seguia vivendo daquele banquete de migalhas que era sua vida com a garota dos seus sonhos. Somente dos sonhos...
1992
Fabiana s� foi chegar �s 03:27. Liz sabia o hor�rio exato porque h� horas seu rel�gio de pulso virara um pisca-pisca de tanto ter o bot�o da luz pressionado.
A mo�a alta ficou parada um tempo como se quisesse se certificar de que a amiga estava mesmo dormindo. Liz manteve-se im�vel. Fabiana caminhou at� o banheiro, tomou um banho r�pido e se deitou. Liz ouviu tudo sem entender direito porque n�o demonstrava � amiga que estava plenamente desperta.
De manh� teve um vislumbre do porqu�.
- Ai, Liz ele � o m�ximo � Fabiana repetiu pela vig�sima nona vez.
- Humf � foi a resposta da loirinha.
- Faz o �ltimo ano de medicina, d� plant�o tr�s vezes por semana e ainda participa de uma ONG ligada � luta pela preserva��o das esp�cies amea�adas. Sabe, ele � vegetariano...
- Noooooossa! E o que esta mistura sobrenatural de Madre Tereza de Calcut� com Jacques Cousteau faz para se divertir?
- Ah, ele joga p�lo, quando pode, com os amigos � respondeu Fabiana, ignorando a ironia.
- P�lo? Uau! N�o me diga que esta perfei��o ainda por cima � um milion�rio.
- N�o sei. Ele n�o falou nada sobre isso, mas me trouxe para casa num Mercedes.
Liz olhou para Fabiana verdadeiramente surpresa. Um cara bom de papo, quase m�dico, rico, esportista e vegetariano! O que � isso? A vers�o moderna para o pr�ncipe encantado? S� que a princesa em que ele estava de olho era a sua princesa. Liz absteve-se de outros coment�rios.
Para o mart�rio de uma pobre Liz e independente do seu auto-imposto sil�ncio, o restante da manh� de domingo passou como um sonho ruim daqueles que se repetem quando voc� fecha os olhos e tenta esquec�-los. Era Caio para c�, Caio para l�. A menina tentava mudar de assunto. Brincar as velhas brincadeiras e...de repente: o Caio disse, o Caio comentou. Liz estava um po�o de nervosismo. "Ai, meu Deus. Por que eu n�o posso ser uma amiga comum daquelas que se sente feliz pelo sucesso amoroso da melhor amiga e passa horas excitantes comentando sobre o peito atl�tico do rapaz?", pensou Liz olhando para uma entusiasmada Fabiana. Mas ela n�o era.
No meio da tarde, o estopim para l� de curto da loirinha estourou.
- Quer saber, Fabi? Esse tal de Caio � um idiota!
- Voc� n�o pode falar do Caio como fala dos outros, Liz � Fabiana retrucou ainda com calma. - Ele � diferente.
- Diferente uma ova! � um bo�al est�pido que s� pensa com a cabe�a debaixo como todos eles.
Os olhos azuis de Fabiana arregalaram-se de indigna��o.
- O Caio � um gentleman.
- Gentleman? Que � isso? Baixou a D. Eul�lia?
- Voc� est� sendo desagrad�vel, Liz.
Mas, a loirinha j� havia esvaziado a sua quota "Dalai Lama" do dia. Irrita��o, impot�ncia, ci�me. Era coisa demais para um corpo compacto.
- Pois eu digo e repito: esse Caio � um est�pido idiota.
- N�o �, n�o! N�o fale assim do Caio. Voc� nem ao menos o conhece.
- Opaaaa! E nem voc�. Voc� s� passou algumas horas com ele.
- E voc� nem isso. N�o o conhece nem um pouquinho.
- N�o preciso. Eu vi.
- Voc� n�o viu nada.
- Agora eu sou cega.
- Voc� enxerga como uma �guia, Liz.
- Est� vendo? Voc� acabou de concordar comigo.
- Aaaaaaargh! � Fabiana gritou, entre frustrada e furiosa. � Odeio quando voc� faz isso!
- Isso o que?
- Me faz de idiota porque eu n�o consigo ganhar uma discuss�o com voc�.
- N�o � bem assim...
- Odeio, odeio!
- Fabi...
- N�o! Eu vou tomar um banho. Preciso...preciso...Deixa pra l�.
Fabiana saiu para o banheiro pisando duro e com o rosto transtornado. Liz ficou pensando no porqu� de t�-la provocado tanto. Tudo bem! Ela estava cheia do tal Caio. De fato, uma queda no primeiro precip�cio daqui para a Tasm�nia com Mercedes e tudo, cairia muito bem (sem trocadilho). Mas, ela a amava. Ela a amava acima de qualquer coisa no mundo. N�o queria deix�-la t�o alterada, talvez magoada. A verdade mesmo � que, pela primeira vez, parecia que a sua Fabi estava se esvaindo por entre os seus dedos e isso era muito mais do que ela podia suportar.
Fabiana saiu do banheiro alguns minutos depois ainda amuada. Liz falou com cuidado:
- Olha, Fabi, eu n�o quis te aborrecer. S� quis lembr�-la de que os rapazes podem se transformar em uns tremendos babacas quando menos se espera. Lembra do Alvin?
- Voc� sempre tem que me lembrar desse epis�dio. Eu era uma garota inocente que n�o sabia nada da vida, Liz.
- Voc� ainda � uma garota inocente, Fabi.
- N�o sou, n�o, Liz. J� estou bem crescidinha. Voc� � que n�o me deixa crescer.
- Eu? Mas... � Liz sentiu um punhal entrando no peito. � � claro que eu deixo voc� crescer. Eu quero que voc� cres�a.
- N�o, n�o quer. Voc� quer que eu viva sempre dependente da sua for�a, da sua energia. Eu tenho a minha pr�pria for�a, Liz.
- Eu sei, minha querida, eu sempre soube � Liz falou com carinho, mas depois completou com mal disfar�ada tristeza. � Eu nunca quis que voc� se tornasse dependente de mim. Eu sempre pensei que estivesse ajudando...
- Mas voc� ajudou. Ajuda. Eu... � Fabiana tentou consertar, consciente de que exagerara um pouco.
- Creio que tenho andado me excedendo na minha �nsia em proteger a minha melhor amiga.
- N�o, tudo bem, Liz. N�o foi isso que eu quis dizer. Eu s� queria que...
Liz a interrompeu com um gesto.
- N�o. Voc� est� certa, Fabiana. Eu interfiro demais. Isso n�o voltar� a acontecer.
Liz caminhou calada , por sua vez, para o banheiro. Era o �nico lugar com alguma privacidade dentro do min�sculo apartamento.
- Fabiana? � Fabi repetiu baixinho, desacostumada de ouvir o seu pr�prio nome e n�o o apelido vindo da boca da amiga.
Debaixo do chuveiro, uma loirinha mais magoada do que poderia admitir chorava abafando os solu�os com a m�o.
A hist�ria do Alvin
1987
- Pois �, Fabiana. A festa � neste s�bado. V� se n�o falta, h�im?
- T�...- Fabi respondeu sem acreditar que um dos caras mais populares do col�gio a convidara para uma festa. Seguiu para a sala de aula segurando o papel com o endere�o sem entender muito bem o motivo de tudo aquilo.
- Voc� � a nova celebridade da escola, sua tonta.
- Mas, por que, Liz? Eu n�o mudei nada.
- � , nadinha mesmo. Voc� apenas se transformou de patinho feio em Cinderela. Nada demais.
- Eu?
- Ai, minha Santa "Xerupita". N�o, a Irm� Maria.
- Mas, eu sou a mesma pessoa, Liz.
- Eu sei, meu bem, eu sei. S� que agora as pessoas se deram conta de que voc� � muito bonita e isso costuma ser um achado, amiga. Al�m do mais, n�s vamos juntas para a festa.
- N�o sei se a minha m�e vai deixar.
- Deixa a sua m�e comigo.
- Como?
- S� deixa � Liz deu aquela risada baixa e maquiav�lica que �s vezes amedrontava Fabiana.
De alguma forma, Liz deu um jeito para que Coriolano, o garoto presidente do clube b�blico, ligasse para D. Eul�lia convocando Fabiana para uma reuni�o da Comunidade B�blica Jovem. Algo sobre ela ajudar a definir os par�metros para o pr�ximo encontro de jovens. O certo � que Fabi conseguiu a noite de s�bado livre. Pelo menos at� �s onze horas.
- Como voc� conseguiu que o Coriolano ligasse para minha m�e?
- Segredo de profiss�o.
- Que profiss�o? O que voc� fez?
- Prometi algo.
- O que?
- Um beijo.
Fabi sentiu a pulsa��o acelerar.
- Um beijo...onde? Como? Que absurdo!
- Calma, Fabi � Liz falou rindo. � Eu n�o disse que vou d�-lo. Depois, aquele carola deve se contentar com uma piscadela e a promessa de um convite para o piquenique anual. � um bolha!
- Liz!
- Relaxe. Vamos.
Chegaram animadas � festa, dan�aram e riram muito juntas. L� pelas dez da noite, Roberto Alvin chamou Fabiana pra conversar. Liz olhou de longe a amiga sair para o jardim com o gostos�o da escola. Tentou n�o ir correndo atr�s.
O lado de fora estava um pouco frio e Fabiana estremeceu ante a mudan�a brusca de temperatura. Roberto se aproximou.
- Est� com frio, Fabiana? Voc� quer que eu te aque�a? � Roberto falou se aproximando da menina.
- O que foi, Alvin? � Fabi perguntou um pouco nervosa. - O que voc� queria me dizer?
O garoto ficou um tempo calado olhando para ela e depois segurou o ombro de Fabiana que tentou se afastar um pouco, mas foi contida pela firmeza das m�os do rapaz.
- Eu queria dizer que demorei a perceber o quanto voc� � linda e queria reparar o erro agora mesmo.
Fabiana n�o teve tempo de responder. Roberto a beijou na boca de s�bito. De in�cio, Fabi se assustou e quis afast�-lo, mas ao se deparar com o primeiro beijo com um garoto na sua vida e justamente com o cara mais bonito do col�gio, pensou que isso deveria ser o sonho de qualquer garota na cidade e tentou corresponder da melhor forma que conseguiu. O menino se empolgou com a falta de resist�ncia da menina e passou os bra�os por sua cintura espalhando as m�os por suas costas com mais for�a e ousadia. Isso era agrad�vel, apesar do beijo entusiasmado demais, molhado demais. Roberto come�ou a passear as m�os pela cintura da morena se aproximando da altura das n�degas e ro�ando de lado a ponta do quadril. Fabiana se enrijeceu, mas � falta de saber se as coisas eram mesmo desse jeito com os rapazes, n�o se afastou. Encorajado, Roberto retirou uma das m�os das costas de Fabiana e avan�ando rapidamente por baixo da saia meteu-a por entre as pernas da menina. Fabiana retrocedeu imediatamente.
- N�o! � gritou, surpresa.
- Deixa, vai... Voc� tamb�m quer, n�o �?- suplicou o garoto, empurrando Fabiana contra a pilastra da varanda, agarrando-a com mais �nimo e circulando os dedos com mais for�a contra a calcinha enquanto a menina tentava se desvencilhar.
- N�o, n�o � a morena pediu meneando a cabe�a, tentando se livrar da boca �vida do rapaz.
- Deixa de manha, gata. Voc� vai gostar. Eu prometo.
- Tire as m�os dela, Alvin! � Fabi escutou a voz conhecida com enorme al�vio. � Ou eu arranco agora mesmo as suas bolas e as enfio no seu nariz.
- V� embora, Beverly Hills. Ningu�m te chamou aqui � Roberto Alvin falou voltando o rosto afogueado para a pequena loira.
- Vou te mostrar quem foi chamada aqui.
Avan�ando veloz e determinada, Liz acertou um direto na boca do rapaz com tal f�ria que o l�bio se abriu imediatamente e ele se ajoelhou com a m�o tampando a boca, totalmente espantado. N�o contente, Liz puxou Alvin para tr�s pelos cabelos, enfiou dois dedos em suas narinas e o empurrou rapidamente de bru�os sobre o ch�o postando-se sentada nas costas do rapaz enquanto tracionava-lhe a cabe�a pelo nariz para tr�s e para cima parecendo querer arrancar-lhe a pele da face deste modo pouco piedoso �. Roberto amoleceu com um gemido sem esbo�ar a menor resist�ncia. Fabiana teve que gritar para que ela soltasse o rapaz que chorava como uma crian�a.
- Liz! Liz! Pelo amor de Deus, larga o Alvin � pediu puxando a loirinha cega de raiva pelo bra�o.
Liz deixou o garoto no ch�o com dificuldade e olhou para Fabiana.
- Voc� est� bem?
- Estou bem, sim. Vamos embora � Fabiana rogou com veem�ncia.
Depois, quando j� estavam na rua � caminho de casa, Fabi perguntou intrigada:
- Onde voc� aprendeu a fazer aquilo? Voc� deixou um cara com o dobro do seu tamanho no ch�o.
- Simples. Viva com seis irm�os mais velhos cru�is e violentos que voc� aprende a se virar para n�o apanhar mais do que normalmente apanha do seu pai.
Fabiana abra�ou a melhor amiga com carinho e seguiram caminhando sem palavra.
Ningu�m jamais soube do que aconteceu. A m�sica alta tampou todo o incidente e Alvin, que nunca contaria aos amigos que fora humilhado por uma garota de 1,60m, disse que ca�ra de b�bado com a boca na escada. Liz ainda passou algumas semanas preocupada com algum tipo de retalia��o, especialmente com Fabiana, mas isso nunca ocorreu. Roberto Alvin nunca mais falou com Fabiana ou Liz.
� Cena do golpe cl�ssico de Katina Choovanski, a Katchoo, personagem da est�ria em quadrinhos imperd�vel e maravilhosa de Terry Miller, "Estranhos no Para�so".
Cap�tulo V
1992
Fabiana come�ou a sair com Caio todos os fins de semana. Como o prometido, Liz n�o falou mais absolutamente nada a respeito. Quando Caio chegava, ela o tratava com polidez e contida frieza.
- Sua amiga n�o gosta de mim � Caio comentou num fim de semana.
- N�o � isso, Caio. � que ela demora a se acostumar com pessoas estranhas. S� isso.
- N�o sei, n�o.
- Quando ela te conhecer melhor, isso vai mudar. Voc� vai ver.
- Est� bem, Fabiana, eu vou esperar � Caio disse dando um beijo r�pido na boca da namorada. - Bom, a minha irm� nos chamou para irmos ao cinema amanh�. Um programa do tipo filme e pipoca. A sua amiga podia vir junto. Talvez, de repente, conhecendo a mim e � minha irm� num clima descontra�do, sei l�!, a gente possa quebrar esse gelo.
- Eu acho a id�ia �tima. Deixa comigo que eu vou convencer a Liz.
Caio deixou Fabiana na porta do apartamento e a beijou na boca ternamente. Fabi sorriu para ele com carinho. Ele n�o a assustava, n�o a deixava nervosa. Caio era um cavalheiro. Fabiana passou a m�o pelo rosto do rapaz com afeto e lhe deu um beijo mais longo nos l�bios.
- At� amanh�, gato.
Na frente do pr�dio, segurando os livros como a uma t�bua de salva��o, Liz tentava n�o ter pensamentos homicidas. Subiu as escadas fingindo n�o t�-los percebido.
Fabiana levou horas para conseguir convencer Liz a ir ao cinema. Somente quando amea�ou encher os grandes olhos azuis de l�grimas foi que Liz concordou com o programa.
Qu�o ir�nica � a vida. Nesse dia, Liz conheceu Ta�s.
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Ta�s n�o era particularmente bonita, n�o assim como Fabiana. � fant�stico como isso realmente n�o importa. Ta�s era charmosa, gentil e tinha um sorriso franco e contagiante. N�o! Lindo mesmo! Desses sorrisos de parar o tr�nsito. Talvez porque Caio tenha lhe dito que tinha problemas com a melhor amiga de Fabiana ou talvez porque a jovem de longos cabelos loiros e reticentes olhos verdes a tivesse interessado imediatamente, Ta�s foi especialmente agrad�vel no dia do cinema. A verdade � que a identifica��o entre as duas foi r�pida e m�tua.
- Qual filme? � Ta�s perguntou a todos, mas olhando para Liz.
Eram uns dez t�tulos. Caio arriscou uma fita sobre corrida de carros. Tr�s pares de olhos acusadores o fizeram erguer os ombros em derrota. Antes que Fabiana sugerisse um drama, Liz comentou que havia lido coment�rios elogiosos sobre um filme iraniano que estava em cartaz. Ta�s aceitou na hora. Caio assentiu atr�s mesmo que tivesse que passar duas horas fingindo que n�o queria dormir. Afinal, ele mal acreditava na sorte da vinda de Ta�s ter sido t�o auspiciosa: Liz estava extremamente af�vel. Fabiana n�o sabia se gostava ou n�o de Liz nem ter lhe perguntado sobre o filme que ela gostaria de ver.
A pel�cula era realmente muito boa. Mas boas mesmo eram as m�os macias de Ta�s no bra�o de Liz a cada coment�rio sobre alguma cena. Fazia muito tempo que Liz n�o sentia aquela agita��o no �ntimo. Fazia muito tempo que ela n�o ficava t�o excitada na presen�a de outra mulher que n�o fosse Fabiana.
Depois do filme foram comer uma pizza. Liz estava incrivelmente bem humorada. Desfilou o seu rol de chistes e piadas sem pudores e os irm�os riram muito ao mesmo tempo em que Fabiana ficava cada vez mais amuada. "T�o contr�rio a si � mesmo o amor"�. Quanto mais Fabiana se mostrava aborrecida, mais Liz parecia exultante e mais Ta�s se debru�ava coquete sobre a loirinha derramando o perfume dos cabelos castanho-avermelhados.
O resultado da noite foi f�cil de adivinhar. Dois dias depois, Liz saiu sozinha com Tais para outro filme. Depois um barzinho, cerveja, confiss�es e outro barzinho para p�blico mais restrito. Um beijo e estavam namorando. Pela primeira vez em muitos anos, Liz sonhou com outra mulher que n�o fosse Fabiana.
Fabi percebia a tudo com um misto de al�vio por Liz n�o pegar mais no p� de Caio e um inconfess�vel inc�modo por ela n�o fazer mais isso.
Semanas depois, o inc�modo virou reclama��o. Liz n�o dormia mais em casa. Ta�s aparecia no campus com freq��ncia e sem avisar e pegava Liz para almo�ar. A loirinha passava horas ao telefone e recebia e enviava mensagens pelo celular a cada cinco minutos.
- Nossa, voc� se deu bem mesmo com a Ta�s, n�?
Liz tirou os olhos do livro que estava lendo e os voltou curiosa para a amiga.
- Ela � �tima, sim.
- N�o s� isso! Ela deve ser maravilhosa porque voc�s n�o se largam.
- Maravilhosa tanto quanto o irm�o que voc� tamb�m n�o larga.
- � diferente.
- Diferente no que?
- Ele � meu namorado.
Liz sentiu uma vontade s�bita de dizer que Ta�s tamb�m era sua namorada, mas conteve-se.
- N�o tem diferen�a nenhuma. Eu gosto dela e ela gosta de mim. A gente se d� bem e voc� � que n�o fica nada bem com ci�me.
- Eu n�o estou com ci�me.
- Sei...
- Para com isso, Liz! � Fabi quase gritou com o rosto j� vermelho.
- Sabe com o que esse papo est� parecendo? Est� igualzinho ao da �poca da Mirna.
- Mirna...? Ah, Liz, voc� desenterra cada uma. Eu nem me lembrava mais daquela...daquela...Deixa pra l�! Eu nem sei porque eu estou tendo essa conversa com voc�. Eu n�o tenho nada a ver com isso e, depois, preciso ir � biblioteca.
Fabiana saiu rapidamente fechando a porta com estrondo atr�s de si e deixando Liz dividida entre prazer de presenciar uma n�tida cena de ci�mes de Fabiana e o receio de que aquele amor improv�vel pairasse sempre como uma maldi��o em torno dos seus relacionamentos.
� Verso de Luiz Vaz de Cam�es do soneto "Amor � fogo que arde sem se ver".
1987
A Hist�ria da Mirna
Liz dava aulas de portugu�s e reda��o para ganhar alguns trocados al�m da caridade das irm�s. A professora que a tirara de casa e cuidara dela por cinco anos morrera de c�ncer de mama pouco antes de conseguir para Liz um lugar no melhor col�gio da cidade. Liz sempre se lembraria dela como a pessoa mais generosa que j� tivera a honra de conhecer. A honra e a sorte, pensava sempre consigo. A sua professora do prim�rio lhe dera muito mais do que a simples oportunidade de viver uma vida diferente da sina de seus irm�os, ela lhe dera a chance, que a todos deveria ser indispon�vel, de ter uma escolha. Enfim, por ser t�o boa com as letras, Liz dava aulas particulares para alguns colegas at� de s�ries � frente da sua. Foi quando ela conheceu Mirna, terceiranista, com dificuldades em reda��o para o vestibular.
- O grande lance da reda��o � colocar sistematiza��o naquilo que voc� imagina. � claro que uma boa dose de leitura � desej�vel... � Liz come�ou recebendo Mirna na sala pequena, mas clara do quarto e sala em que agora morava, distante poucos metros do col�gio.
-Aham. � Mirna fingia prestar aten��o. - E onde a gente pode...estudar.
- O qu�? Ah! Aqui na mesa - Liz falou apontando uma mesa de madeiira que j� tivera melhores anos. - N�o � grande coisa, mas � espa�osa o suficiente. Quero dizer, se estiver bom para voc�.
- Est� perfeito. Voc� vai estar aqui, n�o vai? � a menina mais velha perguntou de um jeito que deixou Liz imediatamente inquieta.
- Claro! � a loirinha respondeu meio sem jeito. - Bom, �...
- Qual o material que eu tenho que trazer, Liz? � Mirna perguntou debru�ando o busto exuberante escapando da blusa decotada ao sentar-se � mesa.
- Material? N�o, quero dizer...papel e caneta...�-� apenas do que precisamos.
- S� isso?
- S�, digo, para que mais? Bom, vamos come�ar trabalhando o par�grafo de introdu��o. Voc� ver� que n�o � nenhum bicho de sete cabe�as e � essencial para a condu��o do desenvolvimento.
- Claro, claro � concordou a garota mais velha com um sorriso largo e malicioso.
Come�aram a aula. Liz explicou algumas t�cnicas de se iniciar uma disserta��o. Mirna prestava aten��o intensa e diretamente nos l�bios da loirinha. Liz baixou os olhos, ruborizada, mas intimamente instigada.
O decorrer da aula foi uma sucess�o de esbarr�es acidentais, atos consecutivos de tirar uma mecha de cabelo loiro ca�do sobre o papel e perguntas �bvias ditas ao p� do ouvido. Liz nunca havia sentido aquelas sensa��es, aquela excita��o gostosa e a vontade de que aquele momento se prolongasse por uma tarde inteira. Dias depois, Mirna j� comentava qualquer coisa quase encostando a boca na penugem macia logo abaixo da orelha de Liz. Mais algumas aulas, e a menina mais velha j� falava ro�ando os l�bios na cartilagem sens�vel da orelha da professorinha. Outra aula e Mirna j� lhe passava os bra�os amigavelmente sobre os ombros e deixava os dedos tocarem por acaso os seios de Liz. Era algo in�dito na vida da menina mais nova: ao m�nimo toque de Mirna e ela j� ficava molhada. Irremediavelmente, irrevogavelmente, definitivamente molhada. Depois de um par de semanas, Liz esperava aquelas aulas com avidez. N�o falou nada com Fabi. N�o saberia como contar o que estava acontecendo.
Na verdade, depois de cerca de um m�s de aulas, Liz n�o saberia dizer nem para si mesma o dia ou a forma exata com que Mirna a beijou. Somente se lembraria n�o sem um pouco de vergonha de que, na ocasi�o, n�o registrara o menor pudor. H� muito j� estava entregue �quelas sensa��es deliciosas e incomuns. Mirna n�o teve dificuldades em roubar-lhe um beijo e, mais do que isso, n�o teve dificuldades em entrar com as m�os por baixo da blusa de Liz e tatear longamente a barriga jovem e depois alcan�ar os seios e apert�-los sem reservas arrancando um suspiro da loirinha.
Foi a primeira mulher com quem Liz fez amor na vida.
Naquele dia e em outros, Mirna lhe ensinou os meandros de um desejo ainda latente. Despiu-a como ningu�m jamais o fizera. Provou-lhe a carne com os l�bios e a l�ngua em lugares inimagin�veis. Arremeteu os dedos no interior da vulva ainda intacta e obteve de in�cio um primeiro gemido de desconforto, mas depois o arremesso instintivo do quadril da menina de encontro ao invasor e Liz p�de, pela primeira vez na vida, gritar de tes�o dentro da boca de uma outra mulher.
Era uma nova vida. Depois de tanto tempo, a pequena Liz que escapara de um destino tosco e sem perspectivas, descobria um novo mist�rio em sua curta exist�ncia.
No col�gio ap�s esse dia, Liz parecia uma abelha encantada por uma flor. N�o perdia oportunidade de estar nas proximidades de Mirna e encontrava as mais variadas desculpas para tal. Fabiana viu a melhor amiga negar-lhe uma ida ao Seu Aldo para comer uma batata-frita. Ouviu uma desculpa esfarrapada qualquer para n�o ir tomar sol no clube e de quebra recebeu um coment�rio a�reo quando contou que havia torcido ligeiramente o tornozelo no �ltimo jogo de basquete quando normalmente receberia uma enxurrada de perguntas sobre o seu bem-estar. Fabiana n�o sabia exatamente o que estava acontecendo, mas sabia que tinha algo a ver com a garota de cabelos curtos e cacheados do terceiro ano de quem Liz parecia n�o tirar os olhos. Fabi sentiu uma in�dita vontade de bater em outro ser humano.
- Como v�o indo as aulas particulares?
- Como? � Liz perguntou, distra�da.
- As aulas particulares... Quantos alunos voc� tem mesmo?
- Ah! Uns seis, eu acho.
- Pois est� parecendo que voc� s� tem uma.
- Uma? O que voc� quer dizer com isso?
- Que voc� agora parece encantada com essa tal Mirna.
- A Mirna? �...ela � bem legal.
- Legal? Ela deve ser o m�ximo porque voc� n�o liga mais para outra coisa. Ali�s, n�o liga mais para ningu�m.
- O que � isso, Fabi?
- � verdade. Voc� nem liga mais para a sua melhor amiga que nem deve ser mais a sua melhor amiga porque voc� parece ansiosa em substitu�-la.
- Pare com isso, Fabi. Eu jamais faria isso.
- Pois � o que voc� est� fazendo.
Nesse momento os olhos azuis de Fabiana se encheram de l�grimas e ela baixou a cabe�a tristemente. Liz se exasperou. Como conversar com Fabiana sobre o que estava experimentando? Como falar sobre tantas e t�o fascinantes sensa��es que a intrigavam e seduziam e que ela sentia que a amiga n�o entenderia? Se ela mesma mal sabia explicar para si como continuava amando Fabiana, mas n�o conseguia parar de pensar na pr�xima vez em que encontraria Mirna a s�s?
Fabiana levantou o rosto e a fitou de frente e Liz p�de perceber tristeza e medo misturado com uma s�plica calada e dolorida. Liz sentiu-se sem ar e soube que para sempre seria capaz de arrancar um bra�o para n�o ver mais aquela ang�stia nos olhos de Fabiana.
E Mirna passou devagar e inexoravelmente.
Mas, secretamente, sempre que via pelas ruas alguma mulher esbelta de cabelos curtos, escuros e cacheados, Liz sentia o peito encher-se de um estranho carinho.
1992
Fim de ano. Caio e Ta�s convidaram as meninas para o reveillon na casa de praia dos pais.
Ambas concordaram.
Na manh� do dia trinta e um partiram os quatro no carro de Caio para o litoral com o casal sentado � frente e as duas meninas no banco traseiro enla�ando os dedos e encontrando meios de se tocarem o tempo todo.
Fabiana percebia sem ver aquela intimidade inquietante. A morena olhou para a paisagem procurando compreender a sua irrita��o repentina. Ela j� era adulta, caramba! Por que se amofinar com o fato de sua melhor amiga ter outra amiga? Que rid�culo! � claro que fazia meses que Liz n�o era mais a mesma e parecia s� querer viver para sair com Ta�s, mas ela tamb�m tinha os seus compromissos com o namorado e...E o que? Gastar o tempo dispon�vel com o namorado � natural. Liz � que havia mudado muito. Nem ligava mais para o apartamento de ambas, aquele mesmo pelo qual lutaram tanto a fim de morarem juntas. Fabiana olhou de soslaio para ver Liz cair sobre o colo de Ta�s numa risada sonora e levar um beijo leve no topo da cabe�a loira. O humor de Fabi, a despeito de suas elucubra��es comedidas de segundos atr�s, tomou rumo diametralmente oposto ao das garotas risonhas e em poucos minutos ela detinha algo parecido com a verve humor�stica de um ogro do p�ntano. Por fim, todos no carro chegaram � bela casa de praia perguntando � Fabiana se ela estava sentindo alguma coisa.
- N�o, eu estou �tima � Fabiana respondeu com mais contund�ncia que o necess�rio a um confuso namorado.
Liz e Ta�s foram logo para a praia aproveitar o restinho de sol entre risos frouxos e brincadeiras que uma vez foram prerrogativas somente de Fabiana que preferiu se enfurnar em casa com Caio tentando inutilmente descobrir o motivo de todo aquele amuo. De noite, os pais de Caio e Ta�s ofereceriam uma festa de fim de ano para os filhos e os amigos.
Fabiana e Liz arrumaram-se separadas, pois Liz ficou estrategicamente alojada junto com Ta�s. Mas, por uma dessas conflu�ncias dos astros ou por uma traquinagem dos Deuses, Liz e Fabiana sa�ram juntas dos respectivos quartos prontas para a festa, uma de frente para a outra.
Foi um choque para ambas.
Fabiana vestia uma saia tipo sarongue justa caindo at� pouco abaixo dos joelhos perfazendo o contorno perfeito de suas curvas exatas e uma blusa de al�as finas, frente �nica, leve e reveladora. Os cabelos longos e soltos ca�am sobre os ombros como cascatas de seda negra e os olhos claros evidenciados por uma leve camada de r�mel, piscavam et�reos e luminosos.
Liz n�o ficou atr�s.
A pequena tinha um corpo escultural e sabia se aproveitar disso. Vestia uma mini-saia branca e uma blusinha curta e justa real�ando a cintura fina. As sand�lias elegantes de tiras finas privilegiavam-lhe as pernas perfeitas e os cabelos loiros e fartos quedavam presos por uma presilha displicente deixando os cachos ca�rem numa caprichosa desordem ao lado do rosto delicado. Um batom vermelho com toques dourados deixava-lhe os l�bios feitos para um beijo apaixonado.
As garotas se olharam sem palavra e longamente. Algo assim como o velho clich� de parecer que o tempo parou...algo assim como o chav�o ultra batido de parecer estar se vendo pela primeira vez...algo assim como o lugar comum de se sentir imobilizada pela vis�o de algu�m que se conhece desde...desde... At� os namorados chegarem.
Caio e Ta�s as interpelaram, um ap�s o outro, extasiados.
Os irm�os sa�ram com as namoradas para a festa na �rea da piscina conduzindo-as com orgulho. Liz e Fabi ainda permaneceram um tempo a�reas e perturbadas.
A festa seguiu animada. Boa m�sica, gente agrad�vel, bebida e comida de primeira. Num canto do gramado, Liz e Ta�s conversavam entre sorrisos com um grupo de rapazes vizinhos. A todo momento, Ta�s segurava a m�o de Liz possessivamente ou ajeitava o cabelo claro com lentid�o e inequ�voca intimidade. Fabiana se engasgou com o vinho. Caio veio socorr�-la com um guardanapo na m�o perguntando se ela estava bem. Fabi apenas sacudiu a cabe�a anuindo e pediu mais uma ta�a de vinho contrariando sua contumaz parcim�nia. Ao cabo de um par de horas, a morena j� estava um pouquinho b�bada.
Liz tamb�m abusara do vinho e com um toque no bra�o de Ta�s que conversava com um amigo de inf�ncia disse que voltava logo e caminhou para a praia.
Um par de olhos azuis a acompanharam.
A brisa do mar enchia os pulm�es de Liz de frescor e maresia. Liz caminhou um pouco e sentou na areia fofa abra�ando os joelhos, absorta na negritude do mar na noite pouco iluminada. Suspirou fundo.
- Pensando em quem?
Liz levou um susto e olhou r�pido para Fabiana.
- Nossa! Voc� me assustou, Fabi.
- Notei � Fabiana sorriu de leve - Desculpe.
- Tudo bem.
- Posso me sentar? Acho que exagerei um pouquinho no vinho.
- Puxa um banco e senta a� � Liz brincou. � E voc� n�o precisa ser formal comigo. Voc� � a minha melhor amiga.
- Sou?
- Esse papo de novo, Fabi?
- Eu sei que eu disse que n�o tocaria mais nesse assunto mas... eu sinto a sua falta, Liz. A gente n�o conversa mais. Mal nos vemos e olha que moramos na mesma casa. Eu sinto saudade dos nossos papos...Eu sinto saudade da sua risada. Eu sinto saudade de... "Voc� viver s� para mim" � Fabiana quase completou, surpresa com o pensamento.
- Eu tamb�m, Fabi - a loirinha admitiu, tocando o bra�o moreno de leve e a olhando enternecida. � Que tal se n�s fiz�ssemos um esfor�o m�tuo? � Liz opinou em seguida.
- Estou dentro! � Fabi concordou com aquele sorriso que sempre faria o cora��o de Liz se incendiar. � Que tal se voc� come�ar a dormir mais em casa, para come�ar? - completou.
- Que tal se voc� reservasse alguns fins de semana para os nossos velhos programas juntas?
- Ah, Liz, voc� sabe que nos fins de semana eu preciso ficar com o Caio. � quando podemos nos ver sem correria.
- Pois no meio de semana eu � que estou na correria.
- Eu sei, mas voc� poderia ficar mais em casa depois das aulas noturnas. N�s poder�amos assistir a alguns filmes regados a toneladas de pipoca e baldes de refrigerante como nos velhos tempos.
"Esse � o tempo que eu tenho para a minha namorada", Liz pensou antes de responder:
- Eu vou tentar, Fabi.
- Tentar? Poxa, Liz! Voc�...Tudo bem. Eu sei o porqu�. � por causa da Ta�s, n�o �?
Sem querer, Liz gelou e n�o respondeu. Fabiana prosseguiu:
- Eu sei que eu n�o tenho nada a ver com isso, mas voc� virou um grude dif�cil de entender com a Ta�s. At� parece outra coisa...
Algo tocou os brios de Liz, al�m de um cansa�o, um fastio de ter que inventar desculpas exatamente para quem deveria confiar mais que em qualquer pessoa no mundo.
- Que outra coisa? � Liz perguntou com mais irrita��o do que gostaria que transparecesse.
- Ah! Coisas que as pessoas podem pensar, tipo que voc�s podem ser mais que amigas. Essas coisas, voc� sabe.
- N�o, eu n�o sei, mas...no que � que isso vem ao caso?
Fabiana se retraiu ante a evidente irrita��o da loirinha.
- O que as pessoas podem pensar? � Liz continuou antes da resposta. - Que eu e a Ta�s somos namoradas, � isso?
Fabiana conhecia bem aquele tom. Sinal de que o temperamento belicoso da loirinha estava se pronunciando. Falou com cuidado:
- � o que parece, mas eu n�o estou dizendo isso...
- Pois � verdade!
- Que?
- � verdade. Eu e Ta�s somos namoradas, sim.
- Voc� est� brincando.
A garota mais baixa apenas olhou firme e seriamente para a melhor amiga. Fabiana ficou sem palavras por alguns segundos.
- Voc�...voc�...Voc� nunca me disse nada.
- Eu sei. Me desculpe. Mas eu estou te dizendo agora. Eu sou l�sbica.
- Mas...co-como? Eu...
- Eu sei, Fabi. Eu devia ter te contado antes, mas...
- Eu durmo com voc�! Eu troco de roupa na sua frente!
- Eu sei, mas o que � que isso...? Espera a�! O que voc� quer dizer com isso?
Fabiana mal ouviu. Parecia completamente transtornada.
- Meu Deus! Eu tomo banho com voc�! Que absurdo!
- Que absurdo digo eu, Fabiana!
Contudo, Fabiana parecia ter se descontrolado de vez e falou aos berros:
- Voc� deveria ter me contado antes. Devia!
- Eu sei, Fabi... � Liz segurou a garota mais alta pelo bra�o.
- Me solta, me solta sua...
- Sua, o que? � foi a vez de Liz se alterar. � Sua pervertida? Sua anomalia? Humf! Quer saber, Fabiana? Voc� est� agindo como uma idiota!
Ao inv�s de soltar a morena, Liz apertou ainda mais forte o bra�o da amiga.
- Voc� � que n�o tinha o direito de fazer isso comigo � Fabi gritou tentando se desvencilhar da m�o de Liz.
- Fazer o que, meu Deus? O que eu fiz com voc�, Fabiana?
- Voc�...voc�... � F�bia n�o conseguiu dizer nada e fitou Liz com os olhos azuis assombrados.
Num repente impensado que depois Liz creditou �s intensas emo��es do momento, a pequena loira atirou-se sobre a morena deitando-a sobre a areia e capturando os seus l�bios com toda a for�a de anos de um amor silencioso. Admirada, Fabi esbo�ou pouca ou nenhuma rea��o. De fato, surpreendentemente, passou as m�os pelo pesco�o da sua pequena amiga entremeando os dedos no cabelo loiro e aprofundou o beijo.
Deitada sobre a encarna��o do seu maior desejo, Liz s� queria que o tempo parasse. O cheiro de Fabiana, o gosto da boca amada, a sensa��o maravilhosa de sentir a sua Fabi a abra�ando, correspondendo com ardor ao beijo por tanto tempo ansiado...era a gl�ria.
Fabiana n�o pensava em nada. Recusava-se a pensar. Havia algo de surreal, inimagin�vel em ter a melhor amiga nos bra�os, al�m de, dif�cil de admitir, algo de delicioso e �nico nesse momento...era como se ela estivesse se derramando. Inexplic�vel.
De repente, Fabiana pareceu acordar de um sonho bizarro e empurrou Liz para o lado.
- Voc� ficou louca?
- Talvez, mas s� se voc� ficou louca junto.
- E-eu bebi demais, � isso. E voc�...voc� nunca mais encoste em mim, entendeu?
- R�! � Liz soltou um arremedo de risada, sarc�stico e dolorido. � Por minha experi�ncia com voc�, isso � o que eu chamo de um aviso in�cuo.
- O que voc� quer dizer com isso?
- Que amanh� eu serei a �nica pessoa a se lembrar disso mesmo.
- Eu n�o sei do que voc� est� falando.
- Voc� sabe, voc� sabe, sim.
- E-eu n�o te reconhe�o mais. Voc� n�o � mais a amiga que eu conheci.
- N�o, Fabi. Eu sou mais. Muito mais. Eu sou a mulher que te ama desde a primeira vez que te viu. Ouviu bem? Eu sou a mulher que te ama desde...Droga! Que te ama desde sempre. � partir deste instante, voc� n�o pode mais dizer que eu n�o te contei qualquer coisa porque isso � o que existe de mais profundo e importante na minha vida. Ou�a bem: EU TE AMO, FABIANA MARTINS COUTO! EU TE AMO, PORRA! Pronto. Agora voc� pode conviver com toda a verdade. Toda ela. E agora, Fabi...Agora, eu te desafio a se lembrar disso amanh�!
Liz se virou e come�ou a caminhar de volta para a festa com muito mais firmeza do que poderia supor o seu cora��o dando saltos m�ltiplos e a sua vista emba�ada pelas l�grimas grossas mirando as luzes cada vez mais pr�ximas da casa enquanto sua vontade era voltar para Fabiana como um raio.
Fabiana ficou na praia fitando coisa alguma no firmamento enegrecido. N�o sentia nada, somente uma enorme confus�o e a sensa��o de que l� no fundo do peito uma voz quase impercept�vel sussurrava triste e insistentemente:
- Liz...Liz...Liz...
Continua.
Ops! Eu me esqueci de colocar nas primeiras partes de "Desde Sempre" um e-mail para contato. Sou terrivelmente distra�da."Sou assim por v�cio inato", j� bem diria meu amado Manoel Bandeira. Felizmente, algumas garotas tiveram a gentileza de relevarem a minha contumaz inadvert�ncia e observarem na minha fic anterior o meu e-mail para me mandarem seus mais que bem vindos coment�rios.
Valeu!
Para minhas novas e antigas leitoras, por favor, enviem seus coment�rios para [email protected].
Um beij�o!