DESDE SEMPRE

Paula Marinho

Cap�tulo III

 

Cinco horas da tarde.

Anita �vila separou-se de seu s�q�ito de amigas e seguia andando com a costumeira soberba pela avenida principal da cidade, onde se situava o col�gio. A avenida terminava na pra�a da igreja na qual se localizava a resid�ncia da fam�lia �vila. Tratava-se de uma imponente constru��o que misturava sem muito crit�rio, arquitetura colonial e cl�ssica, como se a escolha dos estilos devesse-se muito mais ao fausto que as pudesse distinguir do que � harmonia das formas do edif�cio. Ao passar pelas escadarias do antigo cinema S�o Jos�, Anita foi interpelada por uma m�o pequena que a puxou pelo bra�o.

- Ai! Nossa, Liz, voc� quase me mata de susto! O que voc� quer?

- O que eu quero � muito simples e vai te custar menos que este susto: larga do p� da Fabiana.

O rosto de Anita tomou uma express�o de esc�rnio.

- Ora, ora. Parece que aquela porta de igreja precisa mesmo de um micro paladino para proteg�-la como a um beb� chor�o super desenvolvido.

- � o que os amigos fazem.

- Quanto a isso, n�o creio que voc� possa fazer nada. Eu apenas desempenhei meu papel de boa mo�a crist� ao contar pra Dona Madalena que sua filhinha anda mentindo descaradamente em casa.

- Por falar nisso � Liz n�o conseguiu evitar um sorrisinho ferino. � Eu tamb�m n�o poderei me furtar a cumprir o meu dever e informar n�o s� � sua fam�lia como tamb�m � diretoria do Col�gio o que voc�, este exemplo de boa mo�a crist�, anda fazendo no dep�sito atr�s do gin�sio.

Anita empalideceu.

- E-eu n�o sei do que voc� est� falando.

- Eu estou falando dos amassos babil�nicos que voc� d� no Rodrigo, isso se ele for o �nico, no dep�sito dos fundos do col�gio. Nada crist�o, n�o � mesmo...mo�a?

- Isso � um absurdo! De-depois, ningu�m vai acreditar em voc�.

- �... Pode ser, pode n�o ser. Dif�cil mesmo ser� explicar como o Rodrigo conseguiu a posse de um soutien bordado com umas iniciais mais do que conhecidas na cidade e que foi descuidadamente deixado �s pressas no dep�sito do col�gio em um dia de particular azar em que a irm� Luzia achou por bem dar uma geral no lugar.

Desta vez, Anita ficou branca como cera.

- Rodrigo n�o faria isso.

- Apesar de se divertir com voc� � Liz falou com desd�m. � Voc� sabe por quem ele � capaz de fazer qualquer coisa.

- O que voc� prometeu a ele, sua depravada?

Liz soltou uma risada alta e mordaz.

- Olha s� quem fala. Escute aqui, garota � Liz mudou o tom para algo mais que amea�ador. � Deixe a Fabi em paz e sua reputa��o permanecer� intacta. Deixe-me saber que a sua l�ngua de v�bora a perturbou outra vez e a cidade inteira saber� com riqueza de detalhes das suas incurs�es impudicas pelos cantos escuros do col�gio. Entendeu?

Anita abriu a boca para falar alguma coisa, mas n�o chegou a pronunciar palavra. O seu rosto era uma m�scara vermelha e os olhos pareciam soltar fa�scas de pura f�ria. Olhou com �dio para Liz e seguiu caminho tentando andar com toda a dignidade que seu corpo tr�mulo conseguia.

- Vou entender o seu sil�ncio como um acordo, Anita. Tenha uma boa tarde � Liz quase gritou e seguiu sorrindo para o outro lado. N�o havia nada mais importante para pessoas como Anita do que a sua imagem. Fabiana n�o seria mais importunada.

 

 

De fato, fora um ou outro coment�rio desagrad�vel, Anita n�o azucrinou a vida de Fabiana durante o restante do ano.

E que ano!

A equipe do Col�gio foi a campe� dos Jogos Regionais. Liz e Fabiana tornaram-se figuras populares e cada vez mais unidas. Muito mais segura e realizada, Fabi libertava os talentos desconhecidos at� por ela mesma: al�m de uma atleta invulgar, ainda possu�a natural lideran�a que a fazia comandar sem maiores contesta��es as equipes das quais participava. Em quadra ou no campo de atletismo, Fabiana era uma figura respeitada, firme e inspiradora, ainda que nas rela��es pessoais ela continuasse t�mida e sua �nica amiga pr�xima fosse Liz. Al�m disso, os meses descortinaram o florescimento do corpo feminino em Fabiana. �s pernas e tronco longil�neos sobrevieram as curvas harmoniosas e provocantes da cintura e do quadril. Seios firmes emolduraram o tronco e a postura de menina foi gradualmente cedendo espa�o � de mulher. Liz observava essas mudan�as com interesse tanto quanto os meninos que agora olhavam para Fabiana com outros olhos. Alheia a estas mudan�as, Fabiana nem notava que os colegas lhe dirigiam a palavra ami�de e que n�o desgrudavam os olhos do seu peito enquanto conversavam.

- Fabi, voc� n�o est� notando que os meninos n�o tiram os olhos dos seus seios? Aquele bando de tarados desavergonhados.

Fabiana olhou para Liz com seus grandes olhos m�opes repletos de surpresa.

- N�o tiram os olhos de...Ah! Liz. Os meninos nunca olharam para mim.

- Voc� disse bem. Nunca olharam, mas agora olham. Voc� n�o notou que a sua bunda triplicou de tamanho no �ltimo ano?

- Liz!

- T� bom, t� bom. Eu exagerei, mas voc� mudou e muito, Fabi. Est� na hora de voc� come�ar a aprender a lidar com os garotos.

- Ai, Liz. Eu n�o sei como fazer isso. Al�m disso, eu n�o me acho atraente...

- Com uns peitos desses, nem precisava ser.

- Liz!

- O que n�o � o caso. Voc� � muito bonita, querida � Liz falou com carinho.

- Voc� diz isso porque � minha amiga.

- Um dia voc� vai descobrir que eu n�o falo isso s� porque sou sua amiga. Por enquanto, quando um desses tarados vierem conversar com voc�, exija que eles te olhem nos olhos, ok?

- Ok.

" E antes que eu arranque os olhos de todos", Liz pensou n�o sem uma boa dose de raiva.

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- Nem vem! Eu vou ficar rid�cula com um modelito desses!

- Ai, Liz. Eu sei que o vestido n�o � l� muito moderno, mas...

- Moderno?!!! Esse embrulho de ovo de p�scoa cor-de-rosa? Isso � uma aberra��o da moda dentro de um baile ultrapassado e s�mbolo do dom�nio patriarcal. Essa coisa de apresentar a jovem de boa fam�lia, e naturalmente casadoira (eca!), � sociedade como se fosse carne de a�ougue � lament�vel - Liz emendou o seu discurso com o rostto claro afogueado.

Calou-se ao perceber a express�o desolada da melhor amiga.

- Ah, Fabi, desculpa. Olha s�...tudo bem se voc� quer essa coisa de festa de quinze anos, mas n�o conte comigo para ser uma das meninas que v�o te acompanhar. S� pra te lembrar, voc� j� me viu alguma vez de vestido?

- N�o.

- Ent�o.

- Mas, eu n�o entendo o porqu�. Voc� tem um corpo t�o lindo!

- N�o faz o meu estilo, entende?

- N�o. Tenho certeza de que voc� ficaria maravilhosa com um vestido ou uma saia. Tem a cintura incrivelmente fina e as pernas bem formadas. N�o existe motivo para esta resist�ncia.

- N�o tenho costume. Na fazenda, voc� sabe...

- Voc� n�o mora mais na fazenda.

- �, mas e o costume?

- Muda-se.

- Eu realmente n�o gosto, Fabi...

- Abra uma exce��o. Por mim.

Liz titubeou, mas retornou com uma firmeza que n�o sentia:

- N�o!

- Caramba, Liz. Que intransig�ncia! Nem por sua melhor amiga voc� abre m�o de uma besteira dessa. Eu sei que voc� acha esta festa uma bobagem. Eu tamb�m acho e n�o me importaria se meus quinze anos passassem em brancas nuvens, mas � algo importante para a minha m�e e, sinceramente, h� muitos anos eu n�o a vejo t�o animada e nem t�o delicada comigo. Tenho esperan�as de que a gente se entenda melhor depois disso e... � Fabiana suspirou. - A� eu venho pedir apoio para a minha melhor amiga e...ela me fala que n�o pode me ajudar porque n�o gosta de usar vestido.

Fabiana terminou de falar em um tom quase inaud�vel, mas notoriamente magoado.

- N�o � isso, Fabi.

- O que �, ent�o?

- Voc� n�o entende...

- O que eu n�o entendo, Liz?

- E-eu n�o posso.

- Por que, meu Deus?!

Liz fitou muda e tristemente a sua amiga por alguns segundos como se sopesasse alguma decis�o. Fabiana n�o a interrompeu. De repente, Liz desabotoou a cal�a jeans e baixou o z�per. Baixou a cal�a devagar, com os olhos voltados para o ch�o. Girou o corpo, ficando de costas para Fabiana e subiu um pouco a camiseta que usava. Fabiana puxou o ar com for�a e susto.

- Meu...Deus...

As coxas de Liz at� onde a calcinha deixava ver as n�degas e boa parte das costas eram rasgadas por cicatrizes como cortes rubros na carne alva.

- Liz...Meu Deus...O que � isso?

A pequena loira baixou a camiseta, subiu as cal�as, virou-se novamente para a morena e respondeu:

- Lembran�as do modo de disciplinar crian�as que o meu pai usava.

- Mas, isso �...

- Chicote. Na verdade, um l�tego de couro curtido que servia tanto para os cavalos quanto para os filhos.

- Como? Que absurdo � esse! Liz...por que voc� nunca me contou.

- N�o � algo de que a gente se orgulhe � a loirinha disse com um meio sorriso triste.

- Esse homem tem que ser preso. Encarcerado. N�o se faz isso nem com um animal.

Fabiana estava transtornada. Por baixo de seus �culos fundos, l�grimas escorriam enquanto ela falava entre solu�os.

- Tudo bem, Fabi � Liz tentou minimizar.

Fabiana continuava a chorar. Liz se aproximou e a abra�ou delicadamente.

- Eu estou bem, Fabi.

A jovem loira n�o chorou. Seu estoque de l�grimas j� havia se escoado h� muito tempo, e, no entanto, ali abra�ada a Fabiana que t�o sinceramente lamentava o seu sofrimento de inf�ncia, ela sentia um repentino conforto. Como se o abra�o de Fabiana lhe concedesse um aconchego t�o intenso, um lenitivo t�o potente que a mantivesse, de alguma forma e pela primeira vez, longe daquelas lembran�as amargas. Fechou os olhos e deixou-se desfrutar do al�vio inesperado e da alegria de ter Fabiana em seus bra�os.

 

 

 

1970 - A hist�ria de Beverly Hills Mello

 

Geraldo, pe�o de fazenda, ignorante e analfabeto, viu pela primeira vez a foto dos coqueiros de Los Angeles em um calend�rio na mercearia do pequeno povoado perto da fazenda onde moravam. Encantado com a beleza da paisagem, perguntou ao dono da mercearia onde ficava aquele lugar.

- Num sei, n�o, Gerardo. Isso a� veio com o "�rtimo" carregamento de "parmito".

Geraldo olhou novamente para a foto. Isso sim era um lugar para se viver. Bonito igual aos fogos de artif�cio que vira uma �nica vez num fim de ano em que fora para capital, ainda crian�a junto com o pai, para visitar a tia mais nova que morava na periferia de Goi�nia.

Pediu ao dono da mercearia para ler o nome do lugar. Seu Joaquim p�s os �culos e leu as letrinhas no canto inferior da gravura.

- Ber...Berv...Bervel��� - leu em voz alta. � Ah, Gerardo, � um desses nome das "estranja".

- Fala-se b�rveli r�us, ignorante � corrigiu o filho do maior fazendeiro da regi�o recostado no balc�o gastando o resto da fortuna do pai na d�cima dose de pinga. � Fica nos Estados Unidos - completou.

Geraldo achou o nome t�o bonito quanto o lugar, pediu para que o Seu Joaquim o escrevesse num papel e decidiu que seu pr�ximo filho teria o mesmo nome daquelas banda l� das estranja.

Deu esse nome � menina que nasceu quase um ano depois, mas nunca conseguiu pronunci�-lo certo, nem a m�e, nem um dos nove irm�os. Quando a m�e passou a chamar a menina loira e franzina de Liz, todo mundo a acompanhou. Ainda que isso n�o fizesse muita diferen�a ao pai que nunca se dirigia a ela a n�o ser para ordenar alguma tarefa sempre inadi�vel ou para corrigi-la com surras impiedosas se ela n�o a executasse do jeito que ele gostaria.

Aos seis anos, Liz j� se acostumara a descobrir pelos passos do pai se ele estava contrariado com alguma coisa e a se esconder dos seus olhos e do seu chicote at� que ele se acalmasse.

Aos nove anos aconteceu algo que mudaria a vida da pequena Liz para sempre. Numa decis�o in�dita, o pai resolveu que os pequenos iriam para a escola para n�o ficarem t�o jumentos quanto os mais velhos que eram analfabetos. Foi como se o mundo se descortinasse para a menina. As letras e os n�meros viraram seus maiores amigos e em pouco tempo a loirinha apresentou uma imensa capacidade de aprender rapidamente. Encantada, a professora se ofereceu para lhe dar aulas particulares porque os colegas n�o a acompanhavam e ela estava sendo prejudicada por sua pr�pria avidez.

- Carece, n�o, fessora. Basta ensinar essa menina a ler as coisa e fazer umas conta direito que j� � o bastante. Essa chucra nunca vai sair daqui mesmo e por aqui num precisa mais que isso � o pai falou para a professora que ainda tentou delicadamente insistir. Em v�o. Naquela tarde, Liz levaria a maior surra da sua vida por fazer o pai passar vexame com a professora.

Aquela surra, ironicamente, seria a liberta��o da pequena Liz.

A brutalidade do chicote do pai a deixou de cama, e como ela nunca faltasse � escola, ao cabo de uma semana, a professora retornou ao casebre dos Mello sem se anunciar. A primeira pessoa que a mestra viu foi Liz alimentando as galinhas no terreiro. Nos bra�os a menina ainda levava grossos arroxeados e nas pernas magras sobressa�am-se verg�es sangrentos em recupera��o. O choque fez a professora ruborizar-se de forma intensa e sua indigna��o transformou-se imediatamente em ira incontida.

Depois disso, tudo foi muito r�pido. A mestra amea�ou denunciar os pais por maus-tratos ao que ela ouviu que se podia disciplinar aquela menina de forma melhor, ela que a criasse.

Aos dez anos, Liz deixou a casa dos pais e nunca mais voltou.

 

 

1993

 

 

Fabiana e Liz foram para a festa a p�. A noite estava agrad�vel e a sede do DCE n�o era t�o longe de onde moravam.

O local estava lotado de estudantes. A m�sica alta e o chope farto. Liz e Fabi ficaram do lado de fora, na �rea gramada em frente da sede, observando o alvoro�o das mais diversas tribos da Universidade ocupando o mesmo lugar ao mesmo tempo. T�o destacadas, t�o destoantes e t�o ambientadas naquele mesmo �nico lugar. Ali estavam as patricinhas rindo coquetes de brincadeiras pouco inspiradas de rapazes bonitos; os intelectuais engajados em furiosas discuss�es contra o sistema ou contra a m�sica alienante; neo-hippies aparentemente imperturb�veis de batas indianas e bolsas de couro; os atletas desfilando seus m�sculos e sua misteriosa capacidade em beber litros de cerveja; os que s� vieram por causa do chope gr�tis; os completamente deslocados fingindo dan�ar e beber como se estivessem � vontade...Enfim, uma miscel�nea humana no m�nimo interessante. Liz, cuja curiosidade por gente e suas peculiaridades era inesgot�vel, teve que admitir que n�o havia sido uma m� id�ia. Fabi, cuja experi�ncia com festas sempre fora diminuta, apesar de algumas escapadelas da vigil�ncia materna (quase sempre por causa da engenhosidade de Liz em encontrar uma infinidade de desculpas esfarrapadas plaus�veis), olhava curiosa para as pessoas sorridentes.

- Vou pegar um chope. Voc� quer, Fabi?

- Se tiver refrigerante, eu quero sim, Liz. Se n�o tiver, eu prefiro n�o beber nada. Eu n�o me dou bem com cerveja.

- Cerveja � uma bebida pleb�ia demais para a milady?

- Ah, Liz, vai te catar!

- Ui! Que vulgar!

Fabiana deu um empurr�o na amiga que saiu rindo, bem humorada. No caminho, Liz encontrou alguns colegas e ficou um tempo conversando, mas logo em seguida, despediu-se preocupada com o fato de Fabiana ficar muito tempo sozinha principalmente por causa de sua proverbial timidez.

O fato � que durante esses quase 10 anos de amizade e apesar das substanciais modifica��es em sua figura, Fabi pouco mudara em rela��o a sua timidez. Se era certo que os meninos agora disputavam a aten��o dos seus olhos azuis e cobi�avam sem disfarces o seu corpo escultural, para Fabiana isto n�o redundara em extrovers�o. Sequer lhe acrescentara um pingo de vaidade presun�osa. Ela continuava simples e reservada e ainda n�o se separava de Liz para quase nada. Liz sorriu, n�o sem uma dose de contentamento orgulhoso, � lembran�a de que esta const�ncia dera causa ao primeiro enfretamento entre Fabiana e a m�e, alguns meses ap�s o baile de quinze anos de Fabi.

 

1987

 

- Voc� n�o desgruda dessa mo�a, Fabiana. Isso n�o pode ser natural! � exclamou, Dona Eul�lia.

- Ela � a minha melhor amiga � responde Fabiana.

- Sem entrar no m�rito dessa amizade inconveniente com uma menina aqu�m do seu n�vel social, esse...esse...grude n�o � saud�vel. Voc� n�o faz amizade com as meninas do clube, nem ao menos responde aos telefonemas do jovem Ant�nio Paes Neto, um rapaz de excelente fam�lia e que parece t�o interessado em voc�.

Fabiana reprimiu uma express�o de t�dio � lembran�a do rapaz tolo e esnobe.

- M�e, aquelas meninas do clube s� sabem falar de vestidos e o Neto � um chato...

- Olha o palavreado, Fabiana.

Fabi se calou.

- J� vi que eu mesma terei que resolver isso. Voc� est� proibida de andar com essa...Liz.

- N�o � a negativa foi baixa, mas aud�vel.

- O que? � a pergunta de Dona Eul�lia soou com uma dose muito maior de surpresa que de indigna��o. Fabiana jamais lhe contradizia.

- N�o � Fabi repetiu com um pouco mais de firmeza.

- Voc� n�o ousaria me desobedecer! Voc� n�o vai mais ver esta menina e ponto final.

Algo em Fabiana emergiu � lembran�a de sua pequena amiga. Liz defendendo-a de Anita. Liz encorajando-a nos esportes. Liz apoiando suas inseguran�as, Liz sorrindo para ela com o longo cabelo loiro cobrindo metade do rosto. Liz...

- N�o � Fabiana falou com uma firmeza. � A senhora pode mandar nas minhas roupas, na minha comida e at� nos meus h�bitos, mas n�o pode mandar nos meus sentimentos. N�o pode dizer de quem vou gostar. Liz � a minha melhor amiga e eu nunca, nunca vou deix�-la.

Fabi terminou o pequeno discurso de p� olhando com uma seguran�a in�dita para a m�e perplexa e pela primeira vez intimidada por uma mulher alta, de olhos faiscantes em quem ela n�o reconhecia a pr�pria filha.

Fabiana saiu sem esperar resposta da m�e e caminhou at� o seu quarto. Teve que se recostar na porta que acabara de fechar para encontrar apoio �s pernas tr�mulas.

Surpreendentemente, Dona Eul�lia n�o tocou mais no assunto por um longo tempo.

 

 

1986 - O Baile de Fabiana Martins Couto

 

 

O baile corria solto.

Comida e bebida fartas, uma banda tocando m�sicas um tanto fora de moda e os ilustres membros da melhor sociedade presentes na festa. Em destaque, uma mesa cheia de bombons personalizados com um enorme bolo cor-de-rosa de tr�s andares ao centro esbanjando um rebuscamento excessivo e meio decadente.

Desnecess�rio dizer o susto dos colegas ao se depararem com uma Fabiana engalanada em um vestido de festa, penteada e separada dos �culos medonhos, exibindo um rosto de dar inveja a muita atriz de cinema por a�. Liz, vestida com uma cal�a de corte cl�ssico e camisa feminina de mangas com gola larga, sapatos altos de salto fino (os quais reprimia a custo a vontade de jog�-los pela janela � cada pontada no seu dedo mindinho), observava os olhares admirados e os coment�rios furtivos com orgulho de pioneira. Eles apenas constatavam o que ela j� sabia h� muito tempo: que sua amiga era uma beleza mesmo.

"Tolinhos" � riu em seu entretenimento solit�rio.

Fabiana j� dan�ara a valsa com o tio e o padrinho e agora suportava bravamente uma dan�a com o jovem Jo�o Paes Neto, herdeiro de uma das tradicionais e abonadas fam�lias da cidade e motivo do sorriso brilhante que a m�e exibia no rosto ante ao que ela julgava um arranjo � altura de sua filha. Fabiana tolerava a tudo com um sorriso plastificado no rosto. Ao lado, uma meia d�zia de rapazes, os mesmos que passaram anos zombando de sua figura desengon�ado, esperavam impacientemente a oportunidade de dan�ar e observar bem de perto aquela apari��o - uma verdadeira Cinderela surgida detr�s da m�scara negra e disforme que a menina usara durante tantos anos.

Duas horas depois, findos os rituais mundanos de praxe: valsa, parab�ns, bolo e similares, Fabi sentou-se extenuada, vitimada por seus p�s latejantes. Girou a cabe�a procurando algu�m e se deparou com olhos verdes ternos olhando para ela. Sorriu de volta com afeto. Liz encontrava-se sentada e sozinha depois de afugentar Rodrigo com a amea�a de jog�-lo no pote de ponche se ele se atrevesse a cham�-la de gatinha manhosa mais uma vez. Fabi piscou para ela e fez um sinal secreto de "siga-me" ao que Liz respondeu com um sinal quase impercept�vel de assentimento. Passados cinco minutos, a morena levantou-se pretextando alguma coisa e saiu do sal�o por uma porta lateral. Liz foi atr�s. A porta dava para um corredor um pouco escuro em compara��o � luminosidade do sal�o. Em breve, contudo, a loirinha deparou-se com um pequeno jardim interno, escondido e mal cuidado. Fabiana estava sentada num banco de concreto que j� tivera dias melhores, c�mica e inutilmente soprando os p�s. Liz soltou uma pequena gargalhada.

- Que lugar � esse que voc� me trouxe, Srta Fabiana?

- Voc� se esqueceu que eu praticamente cresci neste clube?

- J� sei, j� sei. Seu av� foi o fundador e bl�, bl�, bl�.

- Isso - Fabiana concordou com um sorriso. � Eu trouxe voc� aqui porque...porque hoje � meu anivers�rio, porque voc� � a minha melhor amiga e...bem...ah!, porque eu queria comemorar junto com voc� sem nenhum daqueles chatos convidados da minha m�e. E porque, de todos, voc� � a �nica pessoa que eu faria quest�o que estivesse comigo hoje.

Liz n�o disse nada porque estava engasgada, como se uma felicidade abundante se misturasse a uma intensa vontade de chorar e se concentrasse exatamente na garganta enclausurando-lhe a capacidade de falar. E certamente ela teria ficado mais tempo nessa situa��o se Fabi n�o a surpreendesse ainda mais ao tirar uma grande e reluzente garrafa de champanhe detr�s do banco.

Desta vez, Liz ficou boquiaberta.

- O que � isso, Fabi?

- Nossa comemora��o.

- C�us, voc� j� bebeu alguma vez na sua vida?

- N�o...Quero dizer, s� um pouco de licor de jabuticaba da minha tia.

- Isso cheira a encrenca...

- Caramba, Liz. N�o dizem que o champanhe � a bebida das grandes comemora��es? Poxa!

- Hum...tem certeza?

A menina mais alta balan�ou a cabe�a firmemente.

- Tenho. Eu gostaria muito de que a gente dividisse algo especial hoje.

Liz abriu o sorriso mais quente do mundo.

- Pois que seja. Que venha o champanhe.

Fabiana abriu a garrafa sem muito esfor�o e entornou um primeiro e generoso gole no bico. Liz pensou que por um bom tempo n�o precisaria mais de surpresa alguma.

- Que sede, menina! � brincou. � Deixe um pouco para mim tamb�m.

Os goles borbulhantes se alternaram em meio aos risos e uma alegria transbordante. Alegria que talvez se traduzisse pela transgress�o de estarem bebendo longe de tudo e de todos, mas principalmente, alegria pela proximidade em que se encontravam ao dividirem uma ocasi�o em que eram mais que amigas, eram c�mplices.

Meia hora depois davam gargalhadas de um pobre bichinho de jardim com nada mais interessante do que aparecer na frente de duas adolescentes incrivelmente felizes...e b�badas.

Abra�aram-se como dois camaradas de longas noites bo�mias. Liz se afastou e olhou para Fabi com os olhos enevoados pelo �lcool e mais uma vez sentiu aquela vertigem de quando a vira sem �culos pela primeira vez. Temerosa de trair os sentimentos que a faziam corar de vergonha, mas que a perseguiam diuturnamente com cruel const�ncia, a loirinha baixou a cabe�a embara�ada. Fabiana levantou-lhe o rosto elevando-o pelo queixo.

- O que foi? � perguntou com voz arrastada.

- Eu... � Liz tentou emendar um "Nada, acho que estou um pouco b�bada, cansada e tal...", mas n�o conseguiu. De novo aquela catatonia em que os olhos de Fabi a colocavam sem cerim�nia ou piedade. � Eu...

Desistiu de tentar falar. Ao inv�s, ergueu as m�os e tocou o rosto de sua melhor amiga com a ponta dos dedos. Fabiana fechou os olhos. Liz ent�o passeou os dedos pela mand�bula harmoniosa. Fabiana suspirou. Com a cautela derrotada pelo champanhe, Liz tocou os l�bios da morena com o cora��o aos saltos. Fabiana os entreabriu instintivamente e, em seguida, levou a m�o � m�o de Liz sobre a sua boca e a beijou na palma sem abrir os olhos. Liz aproximou-se do rosto de sua amiga e beijou-lhe a face com delicadeza. A outra m�o de Fabiana elevou-se e segurou a cabe�a de Liz grudada ao seu rosto. Liz tamb�m fechou os olhos e se deixou ficar ali absorvendo o cheiro e o calor gostoso que vinha de Fabiana. Poderia esperar o ju�zo final naquela posi��o. Mas...Ah, os nossos desejos inelut�veis!, Liz tornou a beijar o rosto de Fabi com adora��o. As bochechas, as sobrancelhas. Ro�ou os c�lios negros e longos. Pontilhou o nariz reto e parou de frente � boca vermelha.

Estancou.

Abriu os olhos e deu com os de Fabiana olhando para ela a m�seros cent�metros de dist�ncia. Fitaram-se silenciosamente, sentindo aquela for�a magn�tica, t�o t�nue quanto poderosa, que circunda as nossas vontades mais ocultas. Para culminar a noite das mais loucas surpresas, foi Fabiana que avan�ou a boca e tocou a boca de Liz.

Talvez a investida da parte mais t�mida da dupla n�o fosse t�o surpreendente assim. Talvez, n�o fosse a atitude de Fabiana, Liz jamais tomasse a iniciativa, como � comum �s pessoas que j� perderam tanto na vida que pensam milhares de vezes antes de se aventurar a perder, por um ato que n�o t�m certeza de que ser� bem vindo, aquilo que mais amam no mundo.

Portanto...

Liz n�o ousou se mexer sequer um mil�metro. Deixou a sua boca � disposi��o dos beijos cont�nuos e ing�nuos da sua Fabiana que os repetia como a experimentar uma textura, uma maciez, um sabor at� ent�o desconhecidos. De repente, Fabiana passou as m�os pelo pesco�o da menina mais baixa e a beijou com for�a e sem per�cia, sem saber o que fazer com aquela �nsia crescente por mais e mais sensa��es que lhe roia o est�mago. Foi a vez de Liz finalmente reagir. A loirinha passou os dedos pelos cabelos negros e sedosos em torno da nuca de Fabiana e passou a mostrar-lhe com imensa do�ura o bailado delicioso das l�nguas e dos l�bios.

Respira��es ofegantes e descobertas fascinantes tomaram conta do pequeno jardim, at� que uma voz estridente e raivosa fez-se ouvir bem pr�xima a elas. Separaram-se abruptamente. A m�e de Fabiana apareceu com o rosto cerrado de contrariedade.

- Fabiana, que falta de educa��o � essa em deixar os seus convidados sozinhos?

Fabiana n�o emitiu palavra.

- Voc� est� me ouvindo, mocinha? Levante-se e venha para o sal�o agora.

Nem se quisesse, Fabi conseguiria se levantar do banco. Suas pernas n�o respondiam ao comando do c�rebro.

- Fabiana, o que �... � Dona Eul�lia parou no meio da frase ao reparar a garrafa de champanhe vazia. � Mas, que diab...Fabiana, voc� est� b�bada. � A mulher olhou para Liz. � Isso decerto foi id�ia sua, n�o foi, menina?

Liz n�o respondeu.

Dona Eul�lia avan�ou em dire��o � filha e a puxou pelo bra�o.

- Levante-se, sua irrespons�vel. N�s vamos direto para casa. Eu invento qualquer desculpa aos convidados. Imagine se a fam�lia Paes ou os Lucena a virem neste estado. N�o quero nem pensar.

Fabiana levantou-se tr�pega. Liz refreou o desejo de ampar�-la ante o olhar amea�ador que D. Eul�lia lan�ou-lhe. As duas sumiram por uma sa�da secund�ria sem retornarem ao sal�o principal.

Liz estaria profundamente chateada se n�o tivesse possu�da por uma alegria esfuziante. N�o! Mais. Radiante. Isso, radiante. Olhou para o c�u e sorriu como se visse as estrelas pela primeira vez na vida.

Sentia vontade de gritar.

Continua...

 

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