DESDE SEMPRE
Paula Marinho
Preliminares: Bom...eis minha segunda fic. Optei por contar uma est�ria que se inicia com uma profunda e sincera amizade. Al�m de inspiradas nas queridas Xena e Gabrielle, peguei emprestadas �s minhas personagens algumas caracter�sticas de duas personagens da minha hist�ria em quadrinhos preferida. Descubram se puderem e me escrevam (risada maquiav�lica).
Eu n�o sou Manoel Carlos para sempre ter uma Helena nas minhas est�rias, mas meus relatos quase sempre ter�o men��o a esportes, principalmente, ao meu preferido: o basquete.
Espero que voc�s se divirtam.
Para Amanda.
PR�LOGO
- Olha por onde anda, Fabi. Voc� quase pisou nos meus cd�s.
- E o que eles est�o fazendo no ch�o?
- Se voc� n�o notou, oh! g�nio da percep��o, n�s ainda n�o temos m�veis. Mas eu vou colocar esta caixa em cima da pia da cozinha. �s vezes, eu me esque�o de que voc� n�o enxerga um palmo � frente do nariz.
- Eu enxergo muit�ssimo bem. Voc� sabe que eu fiz a cirurgia h� dois anos.
- Ah! � mesmo. Ent�o voc� continua estabanada mesmo.
A pequena loira com os longos e revoltos cabelos presos num rabo de cavalo levou um tapa brincalh�o na cabe�a.
- Ei! � exclamou a loirinha com uma express�o pretensamente ofendida. � S� porque voc� � praticamente um gigante, n�o quer dizer que pode sair por a� agredindo os seres humanos normais!
- Eu n�o sou gigante. Tenho apenas 1,82 m. Voc� � que � uma tampinha e mal consegue conviver com esse complexo de oitavo an�o da Branca de Neve.
- Poste de alta freq��ncia!
- Pintora de roda-p�!
- Vara pau desengon�ado!
- Salva-vidas de aqu�rio!
Ficaram se olhando como se elas fossem se digladiar a qualquer momento...e ca�ram na gargalhada. Fabiana falou primeiro:
- Pizza?
- Hum...Agora sim, m�sica para os meus ouvidos.
- Napolitana?
- Portuguesa.
- Meio a meio?
- Fechado.
Pegaram as mochilas e sa�ram rindo e conversando como se n�o tivessem feito isso o dia todo. Ali�s, como se n�o tivessem feito isso praticamente todos os dias dos �ltimos dez anos.
Cap�tulo I
1985
Primeiro dia de aula na s�tima s�rie do Col�gio Sagrado Cora��o de Maria. Algazarra geral na sala de aula. A freira, professora de portugu�s, p�s fim � barulheira com um gesto autorit�rio. Todos se sentaram.
No canto oposto, ao fundo, uma jovem e franzina mocinha de cabelos loiros presos num coque austero, vestida com o uniforme tradicional do estabelecimento � camisa branca, saia plissada, sapatos pretos e meias brancas � limpo e bem passado permanecia ereta e silenciosa. Um olhar mais atento perceberia que a roupa, embora irrepreensivelmente arrumada, tinha-lhe sido ajustada ao corpo magro e, por sua colora��o, j� fora bastante usada.
De repente, o som inconfund�vel de objetos caindo chamou-lhe a aten��o. Ergueu os olhos para ver uma adolescente extraordinariamente alta e magra e com medonhos �culos "fundo de garrafa" recuperar-se milagrosamente de uma queda humilhante ap�s trope�ar no pedestal onde ficava a professora enquanto seus materiais ca�am ruidosamente no ch�o sob as risadas estridentes dos colegas.
- Fabiana! - exclamou a professora.
A jovem tornou os olhos m�opes para a mestra.
- Como sempre, atrasada. Pegue as suas coisas e sente-se imediatamente.
- Sim, senhora.
Liz viu a jovem de cabelos escuros apanhar cada um de seus pertences sem um ru�do. Sentiu uma vontade tremenda de correr e ajud�-la na tarefa, mas como ningu�m assinalou qualquer men��o de faz�-lo, ficou sentada em seu lugar.
A professora iniciou a chamada. Era o momento que Liz mais temia. Alunos com a letra "A"...e inevitavelmente, ai!, os alunos com a letra "B".
- Bento Marques Gon�alves.
- Presente.
- Bervely Hills Melo.
Risadas gerais. A loirinha respondeu quase num sussurro:
- Presente.
- Bervely...
- Presente! � Liz quase gritou, antes que a professora repetisse o nome.
Novas risadas.
- Sil�ncio! � ordenou a freira. - Ah, sim. Voc� � a nova aluna que veio do Estadual. Bervely, levante-se e se apresente � classe, por favor.
A pequena loira se levantou penosamente, mas, corajosa, falou em alto e bom tom:
- Eu prefiro que me chamem de Liz.
Sentou-se.
A professora olhou um instante para ela e pareceu desistir de qualquer coment�rio. Continuou a chamada.
Os dias transcorreram sem maiores acontecimentos e Liz acostumou-se � disciplina r�gida, �s exig�ncias do estudo rigoroso e ao desprezo mal disfar�ado dos colegas por sua vis�vel pobreza e conhecida condi��o de bolsista. Particularidades relevadas nos dias de apresenta��o de trabalhos escolares em que a loirinha era procurada pelos colegas, com artificiosa simpatia, por sua intelig�ncia e rara flu�ncia verbal que h� muito j� se revelara admir�vel. Al�m disso, seu rosto bonito, pele de rara limpidez e corpo bem formado tornavam-na bastante popular junto aos rapazes, os quais afugentava � ainda que momentaneamente - com olhares ferozes e coment�rios mordazes.
No intervalo, Liz costumava ficar sozinha lendo ou observando curiosa o comportamento dos demais estudantes. Tamb�m percebia que a mo�a grande e desengon�ada ficava igualmente sozinha a maior parte do tempo. Embora sentisse vontade, ainda n�o se aproximara dela.
A oportunidade n�o demoraria a surgir.
Liz caminhava pelo corredor em dire��o � biblioteca quando ouviu Anita e sua trupe de amigas babonas falando alto com sua voz irritante e aguda.
- Voc� deve estar brincando, Godzilla subnutrido. � claro que eu n�o vou colocar voc� no meu grupo do trabalho de literatura. A sua presen�a na apresenta��o pode assustar os ouvintes. Ainda se fosse um trabalho de astronomia, talvez n�s pud�ssemos usar seus �culos como telesc�pios.
As meninas riram do coment�rio cruel dirigido a Fabiana.
Liz sentiu uma raiva intensa tomar-lhe o rosto junto com a vermelhid�o caracter�stica de quando ela se enfurecia. Dirigiu-se ao grupo. Fabiana estava cabisbaixa, aparentemente sem for�as para se mover. Anita percebeu-lhe a aproxima��o e come�ou a falar:
-Ah, oi, Liz. Eu queria mesmo te chamar para o meu grup...
- Voc� est� aqui, Fabiana. Caramba, eu estou atr�s de voc�.
- Que? � Fabiana olhou perplexa para ela.
- Puxa! Sensacional aquela poesia que voc� sugeriu. Olha s�, voc� tem que fazer parte do meu grupo. Venha, vamos tratar dos detalhes.
A loirinha saiu puxando a menina alta pela m�o atrav�s do corredor tagarelando em parar. � falta de qualquer entendimento da situa��o, Fabiana se deixou levar sem rea��o. O seu �nico pensamento recorrente era o de que aquela baixinha tagarela s� podia ser uma completa lun�tica.
J� no p�tio do col�gio, Fabi parou de chofre e olhou pra Liz com uma imensa interroga��o plantada no rosto. Liz colocou as m�os nos quadris e ergueu seus olhos verdes para a sua interlocutora.
- Voc� n�o odeia aquela idiota da Anita e sua turma de admiradoras muito mais idiotas do que ela? � falou com um sorriso nos l�bios.
- Voc� � maluca? � Fabiana conseguiu pronunciar.
- Sou! Sou maluca pra jogar aquele bando de antip�ticas numa po�a de lama e merda cuidadosamente misturadas. Voc� j� imaginou a Anita com o seu cabelo antigravitacional todo coberto de lama e coc�?
Um sorriso t�mido desenhou-se no rosto da garota alta. E como se a imagem fosse ficando cada vez mais n�tida, um in�cio de gargalhada pronunciou-se em sua garganta. Pouco depois, ambas gargalhavam �s l�grimas no p�tio do col�gio.
Ainda enxugando as l�grimas, Liz comentou:
- Voc� � louca de pedir para entrar no grupo da Anita? � pedir para ser humilhada.
Fabiana ficou s�ria imediatamente.
- Ah...Desculpe, eu fui indiscreta - Liz emendou.
- N�o, tudo bem. � que as nossas m�es freq�entam o mesmo clube de senhoras do qual a minha � presidente e, de vez em quando, ela e a m�e v�o nos visitar. Na minha casa ela chega a ser quase gentil comigo e, bom, eu pensei que...
- T�, eu entendi. Mas voc� entenda uma coisa, Fabiana, pessoas como a Anita s�o corteses apenas quando lhes conv�m.
- �...
Liz colocou a m�o no ombro de Fabiana.
- Ei, esque�a. Vamos tomar um refrigerante na cantina do Seu Aldo?
- N�o sei, eu...
- Nossa, pelo amor de Deus, Fabi. Voc� tem que relaxar.
- Fabi? � Fabiana repetiu estranhando o apelido pelo qual nunca algu�m a havia chamado antes. Gostou.
- Se soltar, entende? Vamos beber uma coca, anda.
- Suco.
- Suco?
- � mais saud�vel.
- E eu l� estou ligando para o que � saud�vel? Esse tamanho todo � por causa do tanto de suco que voc� foi obrigada a tomar na sua vida?
- Claro que n�o, �...Ei, voc� fala desse tanto o tempo todo?
- Menos na aula da Irm� Maria.
- Jesus, voc� fala mais que a minha m�e quando come�a com os seus serm�es.
- Deixa pra l�. Venha, Fabi. Eu vou te introduzir no maravilhoso mundo das bebidas n�o saud�veis, totalmente sup�rfluas e, por isso mesmo, deliciosas. E, quem sabe, talvez tamb�m �s insalubres, terr�veis e maquiav�licas batatas fritas.
Fabiana se deixou mais uma vez se levar como, ali�s, ainda faria muitas vezes em sua vida. Este foi o in�cio de uma amizade leg�tima e intensa que atravessaria os anos e os inevit�veis percal�os do tempo.
1992
- Voc� tem certeza de que consegue sentir o gosto da pizza com esse tanto de catchup em cima?
- � do jeito que eu gosto.
- Desse jeito pode vir pizza de jil� com jurubeba que n�o vai fazer a menor diferen�a para o seu paladar.
- Fabiana, coma a sua pizza e deixe a minha em paz!
- Mas � que assim, Liz, voc� n�o sente o...
- Fabi! � Liz amea�ou a melhor amiga com um sach� de catchup aberto e apontado para ela.
- Ok, ok. Fim da minha cruzada infrut�fera contra o mau gosto � Fabiana desistiu da conversa elevando os ombros.
Dois rapazes se aproximaram com sorrisos enormes no rosto. Um deles, colega de col�gio de ambas desde o gin�sio.
- Oi, Fabiana. Oi, Liz. Voc�s v�o � festa de boas vindas aos calouros mais � noite?
Fabiana olhou para Liz.
- N�o sei...N�s vamos, Liz?
O rapaz que fez a pergunta olhou para Liz que n�o esbo�ou resposta. Ele insistiu:
- Ora, vamos, Liz. Vai ser legal, al�m disso, o Rodrigo vai estar l�. Voc� sabe que ele � amarrad�o em voc� desde a s�tima s�rie. Existem muitas garotas aqui no campus que se atracariam para ficar com ele. O que voc� acha de dar uma chance ao rapaz?
- Eu acho que as garotas deveriam se atracar por ele. Quem sabe a vencedora n�o consiga tir�-lo do meu p�?
Visivelmente irritado o rapaz retornou a aten��o para a morena alta.
- Voc� por acaso � grudada na Liz, Fabiana?
- Eu...�...
- Poxa, eu posso te pegar no seu pr�dio hoje para irmos � festa. Tudo no maior respeito, eu prometo. Que tal?
- N�o sei...eu... � Fabiana procurou os olhos verdes de Liz com os seus. A loirinha permanecia inabal�vel. � N�o sei, Saulo.
O rapaz suspirou com impaci�ncia.
- Tudo bem. Quem sabe um dia a Liz deixa voc� ter uma vida, afinal � disse e olhou para a jovem loira.
Olhos verdes hirtos e inflex�veis.
Saulo saiu com o amigo.
- Voc� bem que podia ser um pouco mais simp�tica, Liz.
- Ele � um idiota!
- Ele foi gentil...
- Ele � um idiota.
- Liz!
- Ah! Est� bem. Porque voc� n�o aceitou o convite dele para ir � festa?
- Eu...
- Mais da metade desses garotos d�o ou v�o dar em cima de voc�, Fabiana. Bom...os que podem passar da altura de suas orelhas, � claro. � Liz completou com um sorriso. - E voc� realmente n�o nasceu grudada em mim. Eu nunca gostei dessas festinhas tolas, voc� sabe, mas se voc� quer ir, poxa!, liga pro Saulo agora que ele vem mais feliz que filhote de cachorro atr�s de voc�.
- Mas voc� n�o vai.
- E o que � que tem?
- Eu n�o sei lidar muito bem com esses garotos.
- Pelo amor de Deus, Fabi. Voc� j� tem 20 anos! � linda de morrer. Est� na universidade e pela primeira vez morando sozinha. V� se divertir, mulher!
- N�o vou me divertir se voc� n�o for. E...voc� acha que...eu sou linda de morrer?
- Aff � Liz bufou. � N�o! Esses caras ficam volitando a sua volta como abelhas no mel porque voc� � uma baranga!
Fabiana voltou os bel�ssimos olhos azuis para a sua amiga. Os c�lios mais longos do que se poderia supor davam-lhe um ar ao mesmo tempo feminino e inocente. O ex�tico � que Fabiana tinha o rosto de linhas marcantes. Forte, mas harm�nico e a boca larga e bem feita parecia feita para uma infinidade de beijos longos e apaixonados. Sim...ela era linda!
- Eu ainda n�o me acostumei com isso, Liz.
- Voc� n�o vai me ter do seu lado para o resto da vida.
Fabiana baixou os olhos e falou baixinho:
- N�o se eu puder evitar que voc� se v�.
Liz ouviu perfeitamente, mas fingiu que n�o entendeu. Encheu a boca de pizza fria com quilos de catchup. Ela n�o queria que Fabiana fosse � festa com aquele rapaz. Ela n�o queria sair do lado de Fabiana nunca em sua exist�ncia. Ela n�o queria que Fabi soubesse que os seus sentimentos eram muito mais do que o amor fraternal entre amigas. Ela n�o queria...Mas o que fazer com aquele fogo que amea�ava consumi-la cada vez que Fabiana passava s� de calcinha na sua frente? Ou quando ela lhe pedia que penteasse seus longos cabelos negros? Um prazer que Liz prolongava ao m�ximo, acariciando disfar�adamente as mechas escuras, e que a deixava t�o alterada que a fazia correr para o banheiro na v� tentativa de afogar sua perturba��o no chuveiro com �gua fria? E se Fabiana descobrisse e a odiasse? Ela n�o suportaria. Entretanto, por quanto tempo ela ag�entaria as coisas como estavam?
A pizza perdeu o gosto.
1985
Daquele dia em diante, Liz e Fabiana tornaram-se nomes insepar�veis. Onde estava uma estava a outra. E que ins�lita dupla elas formavam.
Liz, pequena e de fei��es delicadas, j� era mulher feita. Seios perfeitos, cintura marcada, quadris arredondados - coisa que nenhuma menina da classe ainda tinha com aquela exuber�ncia e que as faziam olhar para Liz com inveja e aos meninos cortej�-la sempre que podiam, ainda que sob o constante perigo de esbarrar em seu g�nio terr�vel e em sua l�ngua ferina.
Fabiana, aos 13 anos, passava um palmo da cabe�a das meninas de sua idade, ainda n�o tinha sequer uma sombra de seios, conservava o corpo reto e magro da inf�ncia, era extremamente desastrada e usava uma par de �culos de grau que deformava o seu rosto como uma m�scara de arma��o negra.
Umas figuras! Mas que, aparentemente, se bastavam.
Por fim, os colegas se acostumaram � pequena atrevida de roupas de segunda m�o e � adolescente grande e lisa como uma porta andando sempre juntas.
O ano passou c�lere. No �ltimo dia de aula, com os resultados finais na m�o, Liz e Fabi conversavam na cantina do Seu Aldo.
- Puxa, Liz, voc� foi a primeira da classe. N�o! Voc� foi a primeira de todas as s�ries. Voc� � t�o inteligente. Queria ser assim tamb�m...
- Eu sou bolsista, Fabi. � minha obriga��o ser a primeira. Eu tenho que fazer jus � caridade das irm�s. Ou voc� acha que uma "p� rapado" como eu poderia estudar num col�gio como este de outra forma. E voc� � muito inteligente. S� n�o tem confian�a em si mesma. Voc� tem um enorme potencial a� escondido em algum lugar e quando ele desabrochar, eu quero estar presente para ver e aplaudir.
- Ah, Liz...Eu queria ter essa certeza.
- N�o duvide. Eu n�o sei quem colocou na sua cabe�a que voc� � fraca e dependente, mas eu olho pra voc� e vejo uma pessoa extremamente forte e corajosa, louca para se libertar. � uma quest�o de tempo, Fabi, eu sei.
Fabiana olhou para a sua melhor amiga com imensa ternura e falou:
- E eu, Liz, vejo em voc� uma pessoa extremamente forte e corajosa que esconde em algum lugar uma ferida profunda e que um dia vai ter confian�a em mim o suficiente para me contar.
Liz olhou com surpresa para Fabiana e depois baixou o rosto, extraordinariamente muda. Fabiana p�s a m�o em cima da m�o da amiga.
- Liz...voc� nunca quis me levar em sua casa e nunca aceitou um �nico convite para visitar a minha. Por que?
Liz abriu a boca para emitir mais uma desculpa esfarrapada, mas se calou. Respirou fundo e disse:
- Primeiro, eu n�o tenho casa, tenho um quarto min�sculo e desconfort�vel e segundo, quanto a sua casa, talvez um dia, Fabi � sorriu tristemente e depois exclamou mais alto do que o normal. � Ei, hoje � �ltimo dia de aula. Suponho que tenhamos que festejar. Ei, Seu Aldo, uma rodada de coca-cola e uma por��o gigante de batatas fritas.
A conversa parou por a�. Fabiana foi para casa e depois para as f�rias de ver�o na casa de praia. Liz ficou em seu quartinho perto do col�gio e todos os dias passeava pelo parque da cidade caminhando e pensando em quantos dias faltavam para as aulas recome�arem.
Cap�tulo II
O primeiro dia de aula ap�s as f�rias de ver�o foi como o esperado: vozes animadas por todos os lados jorrando novidades, bronzeados, cortes de cabelo, namoros s�rios ou inventados, mas tendo sempre, sempre presente, a felicidade do encontro com os amigos depois de meses de separa��o.
Liz chegou muito cedo ao col�gio, quase n�o dormira durante a noite de tanta ansiedade. Notou a entrada de Fabiana no exato momento em que ela adentrou o lugar. Levantou-se de onde estava sentada com o cora��o aos pulos. Viu Fabi percorrer o lugar com seus olhos guarnecidos por lentes grossas e teve o prazer de ver a boca de sua amiga abrir-se num sorriso quilom�trico quando notou sua figura franzina no canto do p�tio. Um aceno e um sorriso e tudo estava como sempre.
N�o pararam de conversar o dia inteiro. Parecia que o dicion�rio n�o continha palavras suficientes para tudo o que tinham que contar e dividir. Trocaram bilhetinhos durante as aulas. Tagarelaram nos intervalos, no recreio, na missa de boas vindas. Riram por qualquer motivo. Despediram-se, ao final do dia, contrariadas como se ainda tivessem meio mundo de assuntos sobre os quais tratar, mas felizes, muito felizes.
No dia seguinte.
- ���, Fabi. Tem quase meia hora que voc� est� dentro desse banheiro. Eu acho que a gente j� perdeu o recreio. Ai, e eu t� com tanta fome. Agora � rezar pra chegar logo a hora do almo�o. Fabi! Fabiana! Voc� est� me ouvindo?
Uma voz fraca, quase inaud�vel veio do banheiro.
- T�.
- Ent�o sai da�, menina.
- N�o posso.
- Por que? Ah, n�o! � Liz perguntou baixinho junto � porta. � Voc� est� com piriri, amiga?
- N�o...
- Molhou o uniforme ou coisa parecida?
- N�o.
- Ent�o, o que �, Fabiana!
- Eu t� com vergonha de falar.
- Mas do que voc� sentiria verg...Pera�! Fabi?
- Hum.
- Voc� menstruou?
- Ai, meu Deus! Que vergonha!
- Fabi...
- Ai, meu Deus! O que eu fa�o agora, Liz?
- Calma. Primeiro, voc� se sujou?
- N�o, quero dizer, espera um pouco...Acho que n�o. Eu notei na hora em que fiz xixi.
- Menos mal. Vamos ter que achar um absorvente para voc�.
- N�o conte pra ningu�m, pelo amor de Deus!
- Mas eu tenho que contar pra as irm�s, Fabi. Como eu vou conseguir um absorvente?
- Liz! � a voz foi categ�rica. � Se voc� contar pra algu�m, eu nunca mais saio deste banheiro, entendeu? N�o com vida.
- Vira essa boca pra l�! Hum...Deixe-me pensar. Epa! Acho que estamos salvas. N�o saia da�.
Fabiana s� bufou. "Como se eu pudesse ir pra algum lugar".
Liz correu para a sala vazia, evitando habilmente as freiras que vigiavam os corredores durante o recreio. Foi at� a sua mochila e de l� tirou uma bolsinha pequena e amarela. Voltou mais r�pido ainda.
- Fabi...- chamou sussurrando como uma espi� da resist�ncia francesa.
- T� aqui.
- Toma.
Fabiana abriu uma fresta pela porta e pegou a bolsinha de Liz.
- A� tem um absorvente que eu n�o usei da �ltima vez. Voc� sabe como usar?
- Acho que sim.
- � s� desembrulhar e colocar na...
- Eu sei onde colocar, Liz!
- T� bom, t� bom.
Poucos minutos depois, Fabiana saiu do banheiro. Bem a tempo de o sinal tocar a volta �s salas. Os corredores se encheram de alunos instantaneamente. Fabiana passou as m�os pela saia plissada e deu uma volta.
- Eu estou bem?
- Como se nada tivesse acontecido.
- Ufa!
Foram andando para a sala.
- Fabi?
- Hum.
- Voc� vai contar para a sua m�e?
- Nunca!
- Mas ela vai descobrir de qualquer jeito.
- Ela que descubra, mas n�o por minha boca.
Continuaram andando pelo corredor.
- Fabi?
- Que?
- Voc� agora � uma mocinha.
- Ora, Liz, cala a boca! � Fabiana exclamou alto com o rosto em fogo. Os colegas ao lado viraram o rosto para ela, atra�dos pelo tom alterado de sua voz. Fabiana abaixou a cabe�a mais envergonhada ainda. A loirinha mal continha o riso. A garota mais alta curvou-se um pouco e falou baixinho.
- Voc� me paga, Bervelly Hills.
- Olha o golpe baixo!
- Ouse abrir a boca novamente.
- Sem coment�rios.
- Promete?
- Prometo.
A pequena loira come�ou com um sorrisinho contido, depois segurou o riso com as m�os. Segundos depois, ambas eram repreendidas pela freira respons�vel pela disciplina por causa das gargalhadas no meio do corredor.
Mais tarde e durante muitos anos elas dariam muitas risadas desse epis�dio.
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- Anda logo, Fabi, sen�o vamos chegar atrasadas e da� ser� outra bronca de meia hora na minha orelha.
- Ai, Liz. Eu odeio as aulas de Educa��o F�sica.
- N�o sei porque! � a melhor aula. A professora � bacana. A gente pode gritar, correr, pular e brincar sem medo de ser feliz.
- F�cil falar quando se � �gil e boa nos esportes como voc�.
- Tenha a santa paci�ncia, Fabiana! Voc� � sonho de qualquer t�cnico de basquete ou voleibol. � jovem, alta, magra, mas naturalmente musculosa.
- Voc� esqueceu de desengon�ada, desastrada e lenta.
- Conversa! A verdade � que voc� n�o tenta. Faz corpo mole. Deixa uma pirralha qualquer vinte cent�metros mais baixa do que voc� te derrubar e desconfio que deixa escapar a bola toda hora e desperdi�a boas jogadas de prop�sito s� pra sair mais r�pido do jogo. Estou enganada?
A morena virou o rosto e n�o respondeu.
Fabiana continuava muito magra e ainda mais alta que no ano anterior � o que a tornava mais destoante do que nunca perto das colegas. No entanto, curvas e formas femininas j� come�avam a se instalar devagar em seu corpo adolescente, prenunciando os contornos precisos que seu corpo teria no futuro.
Liz, que parecia j� ter alcan�ado o m�ximo do seu crescimento, h� muito que possu�a de sobra toda a exuberante feminilidade de uma mulher feita. Mas, apesar do n�mero consider�vel de meninos atr�s dela, Liz pouco se afastava de Fabiana para o que quer que fosse.
- Ok, Fabi. Voc� sabe que hoje n�s iremos jogar basquete. Vamos fazer o seguinte: eu vou dar um jeito de voc� ficar no meu time e voc�, dondoca, n�o vai deixar nenhuma moleca te derrubar com um empurr�o que n�o derrubaria um velho perneta sem muletas.
- Ei!
- Escuta! Continuando...Bom, quando eu pegar na bola voc� vai correndo para debaixo da cesta advers�ria. Eu vou te passar a bola, eeeeeee...sem que voc� trate "la pelota" como uma batata quente embebida em manteiga, voc� vai girar este pequenino corpo que o senhor lhe deu e colocar a humilde bolinha laranja dentro da cesta. Combinado?
Fabiana pensou um instante.
- Depois disso, voc� vai parar de pegar no meu p�?
- Palavra de escoteiro.
- Fechado.
A aula foi uma arraso. Para a surpresa geral, Fabiana n�o desmoronou no ch�o uma �nica vez, correu com uma velocidade surpreendente e n�o deixou a bola cair. Melhor do que isso, foi a cestinha do jogo. Apesar da falta de t�cnica, ela tinha for�a e altura de sobra. A professora ficou encantada e, pela primeira vez em sua hist�ria estudantil, Fabiana foi cumprimentada com alguma camaradagem pelas colegas.
Fabi sorriu para Liz com uma alegria contagiante estampada no rosto. A loirinha apenas ergueu os ombros como quem diz: "Eu n�o disse?".
Ap�s este evento, foi como se abrissem as compotas de um rio represado. Fabiana evoluiu em progress�o geom�trica nos esportes. Subitamente ciente de suas potencialidades atl�ticas, demonstrou uma extraordin�ria capacidade de saltar, correr, arremessar e lan�ar. Antes do fim do semestre j� era uma das melhores atletas do col�gio, e melhor do que isso, a sua nova condi��o de promessa mais do que satisfat�ria para o Jogos Estudantis, al�ou-a a categoria de pequena celebridade na escola.
Fabiana j� era cumprimentada no recreio, chamada para lanchar com alguns colegas, era disputada no par ou �mpar para partidas de basquete e voleibol dentro ou fora das aulas de Educa��o F�sica. Queriam-na para o salto em altura, arremesso de peso, lan�amento de dardo. A morena alta que jamais fora alvo de tanta aten��o e apesar de sua timidez, estava adorando descobrir-se capaz de ser boa em alguma coisa bem como de ser aceita e at� mesmo paparicada por quase toda escola.
Quase.
Fabiana saiu do laborat�rio de qu�mica fazendo ainda algumas anota��es em sua prancheta. N�o percebeu Anita e sua turma logo � frente.
- Ora, ora, se n�o � o godzilla magricela quatro olhos. Voc�s acreditam, meninas, que ela agora � uma atleta? Mas que divertido. Qual ser� a modalidade? Existe competi��o de surf nos jogos? � claro que voc� seria o pranch�o, n�o �, querida?
Risadas da turma de amigas de Anita. Fabiana, calada.
- Ou ser� que existe... � Anita ia continuar com a zombaria.
- Pisada em cabe�a de cobra! A pontua��o � m�xima se numa pisada certeira, a pe�onhenta ainda morder a l�ngua e provar do seu pr�prio veneno � Liz falou encostada na porta do laborat�rio.
Risadas maiores ainda, desta vez da turma inteira.
Liz passou a m�o pelo bra�o de Fabiana e a puxou.
- Vamos � disse.
Quando j� haviam passado por Anita, ignorando-a completamente, ela perguntou alto:
- Sua m�e j� sabe desse seu atual pendor atl�tico, Fabiana?
Fabi enrijeceu-se imediatamente e parou no meio do corredor como que petrificada. Liz olhou para ela e viu o rosto da melhor amiga ficar p�lido como cera.
- O que foi, Fabi?
A garota alta nem olhou para ela balan�ou a cabe�a em nega��o e seguiu em frente sem um palavra. Por mais que Liz tentasse, n�o conseguiu arrancar dela nem uma simples refer�ncia ao coment�rio de Anita.
1992
- Vai pra merda dessa festa, Fabiana!
- Eu n�o vou sem voc�.
- Eu n�o curto esse tipo de programa
- Isso n�o vai te matar...
- Ah, vai, sim!
- ...e vai me fazer feliz.
- Isso vai realmente te fazer feliz?
- Vai.
- Ent�o, eu vou � A loirinha viu sua amiga abrir um sorriso maravilhoso. � Mas, se eu me cansar daquela barulheira, eu me arranco de l�.
- Combinado.
- E se algum idiota pegar no meu p�, eu vou te fazer sofrer por pelo menos uma semana.
- Muito justo.
- E se...
- Eu aceito!
- Ai, meu Deus...T� bom, t� bom. Mas, eu tomo banho primeiro.
Fabiana deu um pulo para o colch�o onde estava a melhor amiga, deitou-se sobre ela e encheu-lhe o rosto de beijos.
- Ai, Liz. Eu te amo. Eu te amo, Eu te amo.
- Fabianaaaaaaa! Voc� vai me matar esmagada.
Liz empurrou a morena para o ch�o.
- Eu vou tomar banho.
A loirinha saiu apressada. Praticamente, correu para o banheiro e fechou a porta atr�s de si com estrondo. O seu cora��o estava descompassado, o rosto vermelho e o corpo latejando em lugares inconfess�veis. "Isso n�o pode continuar assim, meu Deus".
1986
Fabiana n�o compareceu ao col�gio naquela segunda-feira. Liz passou todo o hor�rio letivo ansiosa e preocupada. Ao final das aulas, dirigiu-se � sala da coordenadora e perguntou sobre a colega.
- Bom dia, Liz. A m�e da Fabiana ligou e disse que ela est� acamada. Provavelmente, uma gripe forte. Ela voltar� �s aulas assim que melhorar.
Liz agradeceu e saiu cabisbaixa. Fabiana apareceria somente na quarta-feira.
Ela chegou atrasada, mas a professora n�o fez qualquer coment�rio. Liz percebeu que a amiga estava ainda mais magra e muito abatida. Fabiana sentou-se calada e ap�tica. Sem jeito, Liz n�o lhe dirigiu a palavra at� o recreio. Ao sinal do intervalo, Fabiana saiu na frente sem dar aten��o � melhor amiga. Liz foi encontr�-la sentada em um dos bancos de madeira que ficava debaixo das �rvores em um pequeno pomar no fundo do p�tio. Liz sentou-se ao seu lado.
- Voc� est� bem?
Fabiana s� balan�ou a cabe�a em anu�ncia.
- Voc� ficou doente...Foi mesmo gripe? Voc� est� muito magra e p�lida. Est� se sentindo mesmo bem?
- Eu estou bem.
- Olha, eu conhe�o um tanto de ch�s �timos para isso.
- Eu estou bem...
- Voc� pode...
- Voc� quer me deixar em paz?!! � Fabiana gritou, furiosa.
A viol�ncia, talvez n�o das palavras, mas da forma como foram ditas desconcertou Liz a ponto de deix�-la boquiaberta. Seu rosto ficou t�o l�vido que Fabiana, que j� se arrependera da forma como gritou com sua melhor amiga, ficou assustada.
- Liz, me desculpe. Eu...
Fazia muito tempo que ela n�o se sentia assim: at�nita pela afronta de uma palavra dita para agredir. N�o, ela n�o era t�o suscet�vel assim, mas j� vivera a sua dose de ferocidade na vida e isso sempre a deixaria alterada e mais ainda quando vinda de algu�m contra quem ela n�o tinha defesa.
- Liz, por favor, eu n�o queria ter falado assim...Voc� n�o merece. Liz! Fala comigo. Me perdoa, Liz...
A loirinha olhou para a melhor amiga e falou devagar, mas com firmeza.
- O que aconteceu?
Fabiana esteve a ponto de negar o esclarecimento, mas respirou fundo e relatou:
- Eu n�o posso mais jogar em nenhum time do col�gio e nem ao menos participar de qualquer competi��o de qualquer tipo. Estou proibida. E ainda tive que lutar muito para n�o ser dispensada das aulas pr�ticas de Educa��o F�sica das quais participarei, mas sem entrar em nenhuma partida.
- Voc� n�o pode ser dispensada das aulas de Educa��o F�sica. A mat�ria faz parte da grade curricular.
- Eu sei, mas eu posso, como algumas colegas que voc� conhece, assistir �s aulas te�ricas e fazer apenas relat�rios das aulas pr�ticas em raz�o de incapacita��o para a pr�tica de exerc�cios f�sicos.
- Incapacita��o? Mas voc� � forte como um touro!
Minha m�e tratou de conseguir um atestado da minha fragilidade f�sica � Fabiana disse e tirou da bolsa um papel que entregou � Liz. A loirinha passou os olhos pelo atestado.
- Mas isso n�o � verdade. Sua m�e n�o pode fazer isso!
- Voc� n�o conhece a minha m�e...- Fabi baixou a cabe�a desconsolada.
Liz p�s a m�o no ombro da amiga.
- N�s vamos dar um jeito, Fabi.
- Que jeito, Liz? Cada vez que eu gosto realmente de alguma coisa parece que a minha m�e consegue me arrancar aquele prazer da m�o: "Isso n�o � coisa de mo�a de fam�lia" ou "Uma mo�a decente � recatada e discreta" ou ... Ah! N�o sei, Liz, �s vezes eu acho que ela quer que eu seja infeliz.
A jovem loira sentou-se ao lado da morena e passou o bra�o por seus ombros como que para dar-lhe a certeza de que ela estava ali para ouvi-la e compreend�-la. Fabiana deu um suspiro.
- E eu gosto tanto de jogar. Acho que poucas vezes me senti mais feliz do que numa quadra jogando, vibrando, dando e recebendo apoio e energia. At� isso, uma coisa t�o boa e saud�vel, eu n�o posso mais ter! � Fabiana terminou a frase com um solu�o e l�grimas grossas come�aram a cair de seu rosto abaixado. � Ah, Liz...
A loirinha somente abra�ou a amiga e a deixou chorar mansamente. Quando Fabiana come�ou a se acalmar, Liz falou:
- Sabe, Fabi. Eu vou te contar uma coisa que voc� pode at� julgar amoral, mas que infelizmente � a mais pura verdade: existem coisas que as pessoas das quais n�s ainda dependemos n�o precisam saber. Calma. N�o me entenda mal. Eu n�o estou dizendo pra voc� mentir para a sua m�e por mais que voc� considere os preceitos dela estapaf�rdios e improcedentes. Eu estou lhe dizendo que, na maioria das vezes, a essas pessoas basta que elas tenham a impress�o de que voc� n�o as contradiz. As pessoas vivem de apar�ncias, Fabi, e se voc� quer sobreviver nesse mundo de hipocrisias, aprenda a transitar por ele. Sou capaz de apostar que se voc� nunca mais tocar no assunto com a sua m�e, simplesmente continuar jogando, mas tomando o cuidado para que ela n�o perceba que voc� n�o est� agindo segundo o que ela considera uma donzela perfeita, ela n�o vai te perguntar nada. Simplesmente, minha querida, porque ela n�o quer se aborrecer com voc�. Ouviu? Ela n�o quer saber!
Fabiana enxugou as bochechas molhadas com a palma da m�o.
- N�o sei se eu consigo mentir.
- N�o minta. S� n�o toque no assunto. Eu te garanto que ela n�o vai perguntar.
- N�o sei...
- O que pode acontecer? Ela vai te dar mais uma bronca ou um serm�o de duas horas? Vai te proibir de fazer Educa��o F�sica? Ora, com os primeiros voc� j� deve estar acostumada e quanto �s aulas, bom, do jeito que voc� vai ser obrigada a participar, elas n�o v�o te interessar mesmo!
Fabiana pareceu pensar um instante e retrucou:
- A Anita pode me dedurar de novo para a minha m�e.
- Deixa a Anita comigo.
- O que voc� vai fazer?
- Somente deixe a Anita comigo! � Liz falou com veem�ncia e dobrou o atestado guardando-o no bolso � Voc� n�o vai mais precisar disso, por enquanto.
Fabiana respirou fundo, acenou a cabe�a em concord�ncia e tirou os �culos para limpar as l�grimas dos olhos.
- Est� bem, Liz.
Fabiana ergueu os olhos sem as grossas arma��es para a melhor amiga.
- Voc� � uma amigona mesmo, eu...
Liz n�o ouviu mais nada. Estava hipnotizada. Fabiana continuou a falar qualquer coisa que Liz nem se preocupou em decifrar. Uma onda azul havia lhe atingido o rosto com a for�a de um vagalh�o de ressaca. A sensa��o era de afogamento. Ela n�o conseguia respirar. Fabiana continuava como um filme mudo sem legendas. Depois, a sensa��o de sufocamento foi substitu�da pela impress�o de uma queda livre na imensid�o celeste � uma mistura indescrit�vel de p�nico e fasc�nio. Foi nesse momento que Liz se deu conta de que via os olhos de Fabiana pela primeira vez. Foi a� que se deu conta, tamb�m pela primeira vez, de que estava perdida. Completamente perdida.
Fim da primeira parte.