Disclaimer: Essa é a história de duas mulheres que se conhecem numa situação totalmente inusitada. Uma, professora de uma Universidade; a outra, segurança de uma boate badalada. Ambas vão viver um romance cheio de confusões, tentando encontrar a verdade existente dentro delas mesmas.Se você for menor de idade ou onde você mora não é permitido esse tipo de leitura, sugiro que pare por aqui; a autora, nem a dona do site assumem nenhum tipo de responsabilidade pelo não cumprimento desse alerta.
 Se você gostou me fala, me escreve e se não gostou também. Pode soltar o verbo, é assim que a gente melhora! Meu e-mala é [email protected]
No mais, divirtam-se com mais esse pequeno romance.
Deya
 

 Depois Daquela Noite

 Deya 

[email protected] 

       Sophie acordou cedo. Não gostava muito de acordar àquela hora, mas eram ossos do ofício. Se queria manter respeito com seus alunos teria que ser a primeira a chegar e última a sair. Tomou um banho rápido, vestiu uma roupa confortável para agüentar um dia inteiro de aulas e foi para a faculdade. 

 
Sophie era admirada por seus colegas por ser jovem, extremamente competente e além de tudo, linda e educada. Seus olhos verdes chamavam muita atenção e seus cabelos loiros e compridos lhe davam um charme a mais. Era perfeita. Perfeita demais para qualquer um. Talvez por isso estivesse sozinha aos 28 anos. 
 
Ela chegou na faculdade um pouco atrasada. Não era costume de acontecer, mas seu carro havia demorado a pegar e ela não pode fazer nada, a não ser esperar que ele esquentasse. O frio fora de época junto com um vento gélido a deixava um pouco irritada, principalmente por não ter um cobertor de orelha lhe esperando após as aulas.
 
 
O dia transcorreu como de costume, a não ser por um aluno, ou outro comparecendo a sua sala com a desculpa de duvida em algum assunto apenas para vê-la. Mas era sexta feira e estava planejando um final de semana calmo, descansar um pouco. A não ser por aquele convite...
 
 
- Sophie, qual é? Vai ficar em casa justo na sexta a noite? Vamos agitar!
 
- Pamela... Essa palavra só me lembra milkshake de flocos com calda de chocolate.
 
- Olha, acho que você deveria ir nessa festa, vai ter muita gente legal, bonita... Quem sabe você conhece alguém...
 
- Hah, essa é boa... Alunos não se envolvem com professoras, Pam. Só você mesmo para ficar de papo comigo.
 
- Porque eu gosto de você, sua chata! Você me deve essa, vai.. Por favor...?
 
 
Pamela era uma das melhores alunas do curso de Sophie. Não tinha como dizer não para alguém tão aplicado.
 
- Ok, Pam, você venceu, não vou mais rejeitar seus convites. Onde é a tal festa?
 
- No "After Night". Vai rolar um som muito maneiro a noite toda. Você vai se divertir. Te pego em casa as dez, ok?
 
 
Sophie apenas acenou com a cabeça e voltou a corrigir suas provas. Que dia... E que idéia foi aquela de aceitar ir a tal festa? As vezes ela fazia as coisas meio de supetão para depois se arrepender profundamente.
 
 
Ficou na faculdade até as nove e meia e não se deu conta da hora.
 
- Droga, não vou estar pronta as dez...
 
 
Resolveu ligar para Pam e avisar que era melhor deixarem para outro dia. A amiga ficou chateada, mas aceitou.
 
 
Quando finalmente conseguiu acabar de corrigir as provas, juntou suas coisas e foi para casa. Estava cansada, mas algo a incomodava. Tomou um banho demorado e se esticou na cama. Seu pescoço doía e seus dedos também.
 
 
Olhou no relógio, quinze para meia noite. Não conseguia dormir e não entendia porque. Estava cansada, havia trabalhado o dia todo, ficado em pé...
 
- Droga,...
 
 
A verdade é que ela sentia falta de se sentir viva, de ficar perto de outras pessoas. Foi um tempo bom aquele quando ela estudou naquela mesma faculdade.
 
- Merda. Não acredito que vou fazer isso.
 
 
 
 
Meia hora depois Sophie estava na porta do After Night. O lugar estava lotado e, como Pam havia falado, havia muita gente bonita esperando para entrar. Ela entrou na fila e ficou esperando a vez de entrar. Mas a fila não andava e já passava da uma da manhã. "Que idéia mais idiota...", pensou.
 
 
Quando já ia desistindo alguém veio em sua direção e parou à sua frente. Parecia ser um dos seguranças e ela o olhou com certa desconfiança. Ele, por sua vez, olhou-a de cima em baixo e sorriu.
 
- Boa noite. Queira me acompanhar, sim?
 
 
Não sabia porque, mas seguiu aquele homem que mais parecia um armário. Ele a conduziu para o início da fila e retirou a corrente da porta para que ela pudesse entrar.
 
- Não entendi, por que eu vou passar na frente de todo mundo?
 
- A senhorita é nova aqui, certo? Aproveite a noite.
 
 
Não entendeu, mas ficar ali fora naquele frio, em pé e sozinha é que ela não queria. Sorriu para ele e foi envolvida pelas luzes da boate.
 
 
Há muito tempo não ia ali, há muitos anos, aliás. Na época de faculdade ela costumava freqüentar aquele lugar que naquela época tinha um nome diferente. Foi um tempo meio louco, de curtição total, de loucuras de adolescentes. Mas foi um tempo bom.
 
 
Lá dentro a musica batia alta, as luzes deixavam as pessoas com aparências estranhas e dava a impressão de que aquele mundo ali era uma realidade alternativa, que as pessoas ali não eram reais e que nada que acontecia ali poderia influenciar o mundo lá fora... Quase nada.
 
 
De repente um grito.
 
- Sophie!!!! Você veio!!
 
 
Pamela voou no pescoço de sua amiga e lhe deu um forte abraço, como se não a visse há anos.
 
- Não acredito que você veio! Que bom! Deixa eu te apresentar uns amigos.
 
 
Pamela puxou Sophie pelo braço e a levou até um grupinho que era, no mínimo, muito estranho. Dois rapazes altos vestindo sobretudos e com os cabelos arrumados com gel, bem estilo Matrix e uma mulher alta, de cabelos loiros e compridos vestindo uma roupa de couro que mostrava todas as suas curvas. Bem sinistra.
 
- Olha quem veio, turma. Essa é minha amiga Sophie. – eles sorriram para ela – Sophie, esses são meus amigos, Giuseppe e Enzo, os gêmeos italianos, e essa moça aqui é a Lorena, minha melhor amiga.
 
- Prazer em conhece-los.
 
 
Os gêmeos sorriram novamente, enquanto Lorena examinava Sophie da cabeça aos pés. Ela era uma moça bonita e com um corpo que só despertava inveja em Sophie porque o dela não deixava a desejar.
 
 
Eles se divertiram a noite toda e Sophie não acreditou quando olhou no relógio e viu que já era quase seis horas da manhã. Sua cabeça já estava rodando a algum tempo e agora começava a doer. Como a boate já estava menos cheia ela foi até o banheiro para jogar uma água no rosto. Definitivamente, ela não estava bem.
 
 
Entrou no banheiro e sentiu que se estivesse ocupado ela iria fazer uma lambança no chão mesmo. Empurrou com o pé a primeira porta que viu entreaberta e foi a conta de abaixar no vaso e deixar lá todas as tequilas que havia virado junto com Pam e seus amigos. Agora sua cabeça doía com vontade e não conseguia enxergar mais nada por causa das lágrimas que se juntavam.
 
 
Ficou ali encostada no vaso e rezando para que o chão se abrisse e a levasse para qualquer lugar que não fosse ali. Mas não foi o que aconteceu.
 
 
Naquele instante alguém tocou seu ombro. Não conseguiu identificar quem era, mas naquele momento jurou que era um anjo que estava ali ao seu lado. Aqueles olhos azuis, aquele corpo, aquela voz... Sorriu e tentou ficar de pé, em vão.
 
- Você não está bem, está? – perguntou aquela figura maravilhosa a sua frente.
 
- Estou simm... Eu acho... – e mais uma golfada de vômito foi de encontro a água do vaso – Desculpe... Acho que passei da conta...
 
- Acha, né.. Vem, deixa eu te ajudar. Com quem você está?
 
- Com quem... Não sei.. Ah, com um pessoal esquisito.. Com a Pam!
 
- Humm... Sei quem é a Pam, mas acho que ela já foi embora. Vou chamar um táxi para você ir para casa.
 
- Não, eu vim de carro... Pode deixar – um tropeço e Sophie foi parar no colo do ‘anjo’ -... Desculpe...
 
- Humm... Vou te deixar em casa.
 
 
Mais alguns instantes de discussão serviram para ‘o anjo’ perceber que Sophie estava pior do que parecia. Alguém tinha dado algo para ela beber que não havia batido muito bem e que provavelmente iria proporcionar um final semana de dores de cabeça inesquecível.
 
 
Com muito custo ‘o anjo’ descobriu qual o carro e o endereço de Sophie. Não tinha o costume de levar estranhos em casa, mas a garota estava mal e não poderia deixa-la ali daquele jeito.
 
 
 
 
Às duas horas da tarde o telefone tocou. Sophie acordou achando que a campainha estava dentro de sua cabeça. Atendeu sem abrir os olhos.
 
- Alooo...
 
- Nooooossa, que voz é essa?
 
 
Ok. Era Pam. Talvez ela pudesse esclarecer o que havia acontecido. As imagens passavam em sua cabeça em flashes e ela não conseguia ligar uma cena à outra. O que havia acontecido?
 
- Oi, Pam...
 
- Acho que você exagerou ontem, héin? Não era bem isso que eu tinha em mente. Agora você vai ter que maneirar, garota!
 
- Pam... O que aconteceu ontem? – enquanto falava ela levantou e viu que estava com sua camisola de flanela da Minnie. Não se lembrava de ter trocado de roupa – Não lembro de nada que aconteceu ontem depois das duas da manhã.
 
- É... Você tomou todas, dançou com os gêmeos, comigo e até com a Lorena... Ela ficou amarradona em você.
 
- Fala pra ela que sem chance, ok? – nesse instante Sophie parou e quase deixou o telefone cair no chão, perdeu a voz e deixou Pam falando sozinha no telefone.
 
- Sophie? Sophie, o que houve?
 
 
Sophie foi passou pela sala sem fazer barulho e foi até a cozinha, encostando a porta em seguida.
 
- Pam, tem alguém deitado no meu sofá!!
 
- Como assim ‘alguém’? Quem?
 
- Sei lá! – Sophie espiou pela porta e viu que a pessoa estava acordando – Ai, deuses, é uma mulher e está acordando. Será que vou ser assaltada?
 
- Deve ser a pessoa que foi te levar em casa... Mas não sabia que tinha dormido aí...
 
- Hei, pode parar! Ela tá no sofá, eu não tenho nada com isso... Depois te ligo, quero saber o que aconteceu.
 
- Ok, se cuida.
 
 
Sophie desligou o telefone e pegou um remédio para dor de cabeça no armário da cozinha. E como doía a porcaria da cabeça...
 
 
Depois de tomar o comprimido, respirou fundo e foi até a sala. Não se lembrava de como havia chegado ali e tudo mais, mas não esqueceu aqueles olhos azuis.
 
- Oi...
 
 
A mulher olhou para ela e esfregou os olhos.
 
- Olha só, você consegue ficar de pé agora...
 
- Sem sarcasmo, por favor... Humm... Obrigada por ter me trazido em casa... Apesar de eu não me lembrar de muita coisa...
 
- É.. Acho que seus amigos te deram algo bem legal para beber...
 
- Não rolou nada... Eu é que não estou acostumada a beber, passei do meu limite.
 
- Humm, ok. Fiquei por aqui porque você pediu. E eu estava muito cansada para voltar a pé para a boate. Meu carro ficou lá.
 
- Me desculpe pelo transtorno... Deuses, como estou envergonhada...
 
- Pára com isso. Todo mundo tem seu dia de porre. Só devia tomar cuidado com quem anda. Aquela Lorena não é flor que se cheire... – ela arrumou os cabelos com as mãos e se levantou do sofá; como era alta! – Agora também estou melhor, vou embora. A gente se esbarra, só espero que em condições melhores que a de ontem.
 
 
Sophie sorriu encabulada e foi até a porta.
 
- Não quer ficar e comer alguma coisa?
 
- Não, meu estomago não está muito bem... Vou para casa dormir mais um pouco. Se cuida.
 
 
A mulher apertou a mão de Sophie e saiu pela porta.
 
 
Sophie ficou observando aquela mulher andando pela rua até que não pode distinguir mais que um pequeno vulto. Mas aqueles olhos nunca mais sairiam de sua cabeça. E nem mesmo soube o nome dela.
 
 
 
 
Angel era uma mulher de personalidade forte e seus olhos azuis de safira eram extremamente penetrantes e impunham respeito. Seu corpo era esculpido pelos anos de kung fu e tai chi que ela praticava todos os dias sem exceção. A não ser por aquele sábado, aquele sábado louco.
 
 
Chegou na boate uma hora depois de sair da casa de Sophie. Resolveu ir à pé para ver se acordava e melhorava um pouco da ressaca da noite anterior. Queria colocar algumas idéias no lugar também. Não era todo dia que uma loira maravilhosa como aquela caia em seus braços.
 
 
Chegando lá encontrou Ronald, o dono do After Night.
 
- Hei, para onde a senhorita foi ontem?
 
- Não acreditaria se eu te contasse...
 
- Pois experimente.
 
- Ok... Do começo... Ontem estava curtindo a festa numa boa e de manhã, quando fui ao banheiro, tinha uma garota passando mau. Fui ajudá-la e ela caiu em cima de mim. Achei que era zuação, mas ela estava ruim mesmo...
 
- Ai... Não quero nem saber como acabou...
 
- Cala a boca! Aí, acabei levando ela para casa, não podia deixar ela voltar dirigindo e os amigos dela já tinham ido embora. Mas quando nós chegamos lá é que aconteceu um lance engraçado. Ajudei ela a escovar os dentes e a trocar de roupa. Juro, na melhor das boas intenções! Coloquei ela na cama, mas nos desequilibramos e eu caí em cima dela. Não sei por que ela fez aquilo, mas ela me beijou! Ela me beijou! Tem noção do que é isso?
 
- Ai, deuses... Lá vem...
 
- To falando sério, Rony, não fiz nada, não tive intenção de nada! Não quero me envolver de novo, não quero conhecer ninguém mais do que uma noite de sexo bem feito e nada mais, mas...
 
- Mas...?
 
- Não sei, aquele beijo mexeu comigo... – ela encarou o homem e voou na gola da blusa dele – Se você contar isso para alguém eu te mato!
 
- Hei, hei, calma aí garota! Acho que sou o único que é seu amigo aqui, relaxa. Só que você vai acabar entrando numa fria de novo... O que mais aconteceu?
 
- Nada! Ela adormeceu e quando tentei sair ela me abraçou. Dormi ali com ela até por volta do meio dia, quando ela finalmente se mexeu e virou para o outro lado. Saí de fininho e me deitei na sala, tava um caco, cara, cansada. Quase não dormi direito... Ela é tão linda, tão frágil... Quem é ela, você sabe?
 
- Humm... Ela estava com quem?
 
- Com uma amiga da Lorena.
 
- Iiih, péssimo. Essa menina não é boa bisca. Mas eu sei quem é, sim. A Lorena tava toda doida para o lado dela, até colocou um doce no copo da moça para ver se ela endoidava de vez e ficava mais fácil de agarrar. Ela dá aula de Filosofia na faculdade, se chama Sophie.
 
- Sophie... – falou Angie num suspiro - Queria só saber como você sabe disso tudo.
 
- Ossos do ofício, minha cara. Eu sou o dono desse lugar, ou não? Mandei colocar ela para dentro quando a coitadinha tava lá fora morrendo de frio no fim da fila. Gosto de ter gente bonita aqui dentro, você sabe disso.
 
- Sei...
 
- Ai, que olhar é esse? Nem inventa! Deixa para lá, ela é hetero até a morte!
 
- Hetero? Mas ela que me beijou! Eu não fiz nada!
 
- Ela tava chapada, Angie... Não vai se apaixonara agora, você lembra a última vez...
 
- Fala sério, Rony!
 
 
Angel procurou a chave do carro e foi para casa. No caminho ficou lembrando da boca macia, dos olhos verdes, da pele cheirosa. Já sabia o nome, já sabia o endereço, já sabia até onde ela trabalhava. Mas será que valia a pena se envolver com alguém novamente?
 
 
Chegou no seu apartamento e foi direto para a cozinha. Estava faminta. Fez um sanduíche e abriu uma cerveja. Difícil tirar aqueles olhos da mente. Deu uma  golada e sorriu de lado.
 
- Sophie...
 
 
Acabou de comer e foi deitar. Tinha que tirar aqueles olhos da cabeça... Mas como?
 
 
 
 
A semana foi uma correria só. Sophie se desdobrou para atender todos os seus alunos em horários extras de plantões. As provas finais estavam deixando todos na faculdade de pernas para o ar, mas a sala que ficava mais cheia era a dela.
 
 
Depois de duas semanas de provas, aulas extras e loucura total Sophie finalmente podia ir para casa consciente de que só voltaria dali a dois meses. Juntou suas coisas e foi para o carro. Estava tarde e muito frio. Quando chegou no carro notou que um dos pneus estava furado.
 
- Não acredito... Justo hoje?!
 
 
Ela guardou as coisas dentro do carro e abriu o porta-malas. Teria que resolver aquilo rápido, não era muito seguro ficar ali no estacionamento àquela hora sozinha.
 
 
Tirou o estepe, as ferramentas e começou a trocar o pneu. Parou quando ouviu passos de alguém se aproximando. Olhou de lado e percebeu três vultos. Não se mexeu.
 
- Professora... Aqui? Numa hora dessas?
 
 
Um suspiro de alívio saiu da boca de Sophie. Ela se virou e viu três rapazes bem vestidos, provavelmente alunos do curso de Direito.
 
- Que susto vocês me deram, rapazes... Meu pneu furou. Mas já estou quase acabando.
 
- Humm... Isso é bom. Podemos levar a senhorita em casa, é mais seguro.
 
- Não precisa. Já acabei. Agora já posso ir, obrigada.
 
 
Sophie guardou as ferramentas no porta-malas e foi em direção à porta. Um dos rapazes barrou seu caminho.
 
- Com licença. Está frio aqui e eu quero ir para casa.
 
- Podemos resolver seu problema com o frio...
 
 
Os outros dois se aproximaram dela e começaram a tocar seu corpo.
 
- Hei, parem com isso!
 
- Calma, professora, somos bonzinhos. Vem cá que eu vou te mostrar!
 
 
O mais forte dos três avançou para cima dela e jogou-a de encontro ao carro. Ele começou a beijá-la enquanto os outros dois riam e bebiam alguma coisa. Ela pedia para que ele parasse, mas o rapaz parecia enlouquecido naquele momento. Ela tentou reagir e acertou um tapa no rosto do dele. Ele respondeu com um soco que a jogou no chão e a deixou atordoada. Os outros dois rapazes se assustaram.
 
- Já chega cara! Não é para machucá-la...
 
- Cala a boca, seu estúpido. Se vocês quiserem podem ir embora, suas bichinhas!
 
 
Os dois se olharam e foram embora, largando Sophie caída no chão.
 
- Deixa eu te mostrar uma coisinha, gracinha...
 
 
Ele não teve tempo de ver de onde veio, ou o que o acertou, mas caiu imediatamente ao lado de Sophie inconsciente. Ela ainda estava atordoada e tentou apoiar no carro para se levantar. Foi quando sentiu uma mão quente e forte segurando a sua. Não sentiu medo e sim um conforto, uma segurança, algo que ela não sabia como explicar.
 
 
Levantou ainda com certa dificuldade e tentou abrir os olhos. Sentiu que um deles estava inchando e não podia abri-lo totalmente, mas com o outro pode ver aqueles olhos azuis preocupados olhando para ela.
 
- Você está bem?
 
- Acho que agora... Sim... Minha cabeça dói um pouco...
 
- Vou te levar para o hospital.
 
- Não, não gosto de hospitais. Estou bem... Quero ir para casa...
 
 
Sophie não estava lá grandes coisas e talvez não conseguisse manter-se acordada por muito tempo, mas fez um esforço muito grande para lembrar de onde conhecia aqueles olhos maravilhosos. Pensou já ter encontrado aquele anjo em algum lugar, em seus sonhos, talvez.
 
- Qual o seu nome?
 
- Angel, mas pode me chamar de Angie.
 
 
Angel sorriu para ela e passou seu braço pela cintura da jovem professora, dando-lhe firmeza para chegar até a porta do carro.
 
- Eu te conheço...?
 
- Mais ou menos... Relaxa, vou te levar para casa.
 
 
Sophie não quis saber de mais nada, confiava naquela mulher. Não sabia por que, mas confiava. Fechou os olhos e desmaiou. Um pouco de sangue escorria do nariz e o olho estava bastante inchado, lágrimas desciam involuntariamente.
 
 
Angel olhou aquela criatura frágil ali ao seu lado e teve vontade de voltar e acabar com o cara que havia feito aquilo com uma pessoa tão doce como aquela. Ele ainda iria pagar...
 
 
 
 
Angel retirou a chaleira do fogo. Estava esquentando água para fazer um chá para Sophie. Levou-a para casa após o ocorrido e chamou um amigo da polícia. Eles estavam acabando de pegar o depoimento da jovem quando ela chegou com o chá.
 
- É isso, senhorita Sophie. Agora vamos procurar esse safado e colocar ele atrás das grades. Tenho certeza que não será difícil identificar alguém sem os dentes da frente!
 
 
O policial riu e olhou para Angel.
 
- Hei, não me olhe assim, ele estava batendo nela! Tive que tomar uma atitude!
 
- Eu sei, Angie, mas numa dessas você pode se dar mal. Você havia prometido para mim não fazer mais isso!
 
- Desculpa, Ralf... Essas confusões parecem que me perseguem...
 
- Tudo bem... Vou fazer uma busca agora mesmo e depois aviso se o pegarmos. Talvez a senhorita tenha que ir à delegacia para identificar o rapaz, mas ele não poderá vê-la.
 
- Humm.. Eu estava lá também, Ralf. Posso fazer isso se precisar, ok?
 
- Desculpe, Angie, mas ela tem que ir... Bom, já vou... Se cuidem, meninas.
 
 
O policial saiu e Angel entregou o chá para Sophie.
 
- Bom, acho que agora você já está bem... Vou embora e...
 
- Não! Quer dizer... – Sophie estava envergonhada do que ia dizer e sinceramente, não sabia por que estava fazendo aquilo -...Você poderia ficar mais um pouco? É que... Estou com medo de ficar sozinha.
 
 
Angel viu o medo nos olhos daquela jovem à sua frente e teve vontade de abraça-la. Chegou a sentar-se perto, mas colocou as idéias no lugar.
 
- Claro, não tem problema. Mas preciso dar um telefonema.
 
- Fique à vontade. Como posso negar um simples telefonema ao meu anjo da guarda...
 
- Como?
 
- Me lembrei de onde conheço você...
 
 
Angel engoliu seco. Ela estava lembrando o que havia acontecido naquele dia depois da boate. Seria, no mínimo, constrangedor.
 
- Daquele dia depois da boate... Infelizmente é só o que lembro...
 
- (Ufa!) Não tem problema, não tem muita coisa além disso. Depois que você descansar eu te conto. Agora beba um pouco desse chá e descanse, ok?
 
 
Sophie concordou enquanto provava o delicioso chá de ervas que Angie havia preparado.
 
- Não sabia que tinha essas coisas aqui em casa...
 
- Eu comprei no caminho para cá.
 
 
Sophie ficou olhando aquela mulher indo para sua cozinha. Mesmo de calça jeans, jaqueta de couro, camiseta branca e botas, ficava extremamente atraente.
 
 
Chegando na cozinha Angel procurou o telefone; precisava ligar para Rony para explicar porque não estava indo trabalhar naquela noite.
 
- Não vou poder ir hoje, Rony, coloca alguém no meu lugar, ok?
 
- Cuidado, Angie...
 
- Está tudo bem, Rony, não se preocupe...
 
- Estou sentindo cheiro de paixão no ar...
 
- Se falar isso de novo eu quebro a sua cara! Ligo amanhã.
 
 
Mas ele sabia que ela estava se apaixonando, ele a conhecia desde criança, a havia ensinado como sobreviver naquele mundo ordinário. Ela não podia esconder nada dele por muito tempo. Os olhos azuis de safira intimidavam qualquer um, menos Ronald. Angel trabalhava para ele na boate há quase cinco anos e nunca nesse tempo ninguém tentou arrumar briga com ela. Ela era a chefe da segurança do After Night. Não tinha muitos amigos, mas sabia que podia contar sempre com o sargento Ralf Muller e com Ronald. Já era um começo.
 
 
Conhecer Sophie foi uma das coisas mais interessantes que aconteceu na sua vida. O fato de ser gay a afastou de todos, não queria ninguém olhando estranho, ou perguntando coisas, ou simplesmente tentando se envolver. Estava farta de relacionamentos que não davam certo. O último quase a destruiu e a tornou uma pessoa muito fechada e alheia a tudo. Vivia sua vida, seu trabalho e só. Não esperava que existisse uma pessoa como Sophie, ou pelo menos que duas pessoas tão diferentes como elas pudessem se encontrar em alguma encarnação. Aquele sentimento que crescia dentro dela não era normal e chegava a incomodar o fato de poder estar gostando de alguém que mal conhecia. Mas aqueles olhos...
 
 
Ouviu Sophie chamando por ela. A jovem chorava com a cabeça entre as mãos e não conseguia conter as lágrimas. Angel quase desfaleceu ao ver aquela cena.
 
- O que houve?
 
- Dor... Minha cabeça vai explodir...
 
- Não acha melhor irmos ao médico... Você pode ter machucado mais do que aparenta...
 
- Não... Preciso de uns comprimidos para dor... Ali, naquela gaveta... Pode pegar para mim?
 
 
Angel acenou com a cabeça e foi em direção à estante. Achou alguns analgésicos e sem querer viu algumas fotos onde Sophie aparecia abraçada com outra mulher e dois homens. Não era muito antiga a julgar pelas aparências.
 
 
Despertou-se do encanto proporcionado pelo sorriso de Sophie na fotografia e foi levar os comprimidos.
 
- Seus amigos? Nas fotos da gaveta...
 
 
Sophie levantou os olhos para Angel e sorriu.
 
- É, pode-se dizer que sim. Mas não os vejo há anos. Nem devem se lembrar mais de mim...
 
- Como alguém esqueceria você? (Ops! Que merda foi essa que eu disse?)
 
 
Sophie sorriu e segurou a mão de Angel. Esta sentiu o sangue ferver na hora e teve de se controlar para não fazer alguma besteira. A pele da jovem tocando a sua tão suavemente... Aquilo poderia fazer até uma mulher controlada como ela perder a razão.
 
- Obrigada... Por ter me salvo na boate, no campus ontem à noite, por ficar aqui comigo.. Nunca pensei que arrumaria uma amiga nessas circunstâncias.
 
 
Aquela frase bateu como um balde de água fria. ‘Amigas’. Então seria só isso, amizade.
 
- Certo... – Angie suspirou desanimada - Anda, está tarde, é melhor você se deitar e descansar um pouco. O chá de cidreira vai deixar você mais relaxada e vai te fazer dormir mais tranqüila.
 
 
Angel acompanhou Sophie até o quarto e esperou que ela se deitasse para sair.
 
- Espere... – Angel parou na porta e virou-se para a jovem deitada na cama que sorria como criança – Você vai ficar aqui... Não vai?
 
 
Angel sorriu novamente.
 
- Estarei na sala se precisar. Durma.
 
 
Saiu e suspirou decepcionada. Ela queria era estar ali dentro ao lado de Sophie.
 
 
 
 
Sophie acordou sentindo um cheiro bom de café fresco. Levantou-se e sentiu uma dor latejante por todo o corpo. O rosto doía mais que tudo e mal podia abri-lo. Olhou-se no espelho e assustou com o estrago feito na noite anterior.
 
- Deuses... Que bom que não tenho que dar aula hoje...
 
 
Lavou o rosto cuidadosamente, escovou os dentes com certa dificuldade e foi ver de onde vinha aquele cheiro tão bom.
 
 
Ao chegar na sala encontrou a mesa do café posta e Angel entrava com uma garrafa de café.
 
- Bom dia! Como se sente?
 
- Com uma recepção dessas não poderia me sentir melhor! Dormiu bem?
 
- Dormi...
 
 
Sophie notou algo de estranho em Angel, ela estava distante, até mesmo um pouco triste.
 
- O que foi Angie? Algum problema?
 
- Humm... Não é nada sério...
 
- Talvez eu possa ajudar...
 
- Acho que você é a única que não pode ajudar...
 
- Como assim?
 
 
Angel colocou a garrafa sobre a mesa e foi em direção a Sophie. Parou timidamente à sua frente e olhou para ela.
 
- Já sentiu algo que não pode explicar, algo que foge ao seu controle, que te deixa vulnerável...?
 
- Acho que todo mundo já passou por isso... Isso se chama paixão, eu creio...
 
 
As duas se olhavam. Algo diferente estava surgindo entre elas e ambas não sabiam com certeza o que era, ou não queria admitir.
 
- O que você faria se se apaixonasse pela pessoa errada?
 
- Pessoa errada? Como assim, como você sabe que é a pessoa errada?
 
- Ora Sophie... Eu nunca conseguiria ficar com você e...
 
 
Angel olhou nos olhos de Sophie. Tudo bem, agora não precisa inventar mais histórias para dizer que estava apaixonada pela professora. Mas não era para ter sido daquele jeito...
 
- Você está apaixonada p... Por mim?
 
- Na-não... Não foi isso o que eu quis dizer... Eu... – Angel não sabia onde se esconder, tinha que sair dali urgente – Melhor eu ir agora. Você já está bem e..
 
 
Ela caminhou em direção a porta e quando ia saindo Sophie a segurou pelo braço.
 
- Aonde vai? Por que está saindo assim?
 
- Eu... Eu... Preciso ir.
 
- E se eu não quiser que você vá?
 
 
Angel encarou Sophie. Mesmo com o hematoma ela ainda continuava linda. Tão linda e tão frágil que Angel não resistiu e beijou-a. Um beijo suave, quente, trêmulo. Um beijo que temia a rejeição e sonhava que aquele momento nunca chegasse ao fim.
 
 
Os lábios se separaram e as duas se olharam abraçadas. Sophie não sorriu, mas analisava cada centímetro daquele rosto, daqueles olhos. Ela passou a mão suavemente nos rosto de Angel e esse foi o sinal de que a outra esperava, o sinal que ela precisava para saber até onde ir.
 
- Não respondeu minha pergunta, senhorita Angel...
 
- Ficarei o tempo que você quiser.
 
 
Agora as duas se envolviam num abraço carnal, quente e os beijos eram mais exploradores. As mãos começaram a percorrer os corpos e ambas sentiram a umidade tomar conta delas. Angel achou que precisavam de mais conforto e sugeriu o sofá. Sophie pulou em sua cintura envolvendo-a com as pernas e passando os braços atrás do pescoço, sussurrando baixinho em seguida.
 
- Vamos para o meu quarto...
 
 
Angel beijou-a com mais vontade e levou-a para o quarto, colocando-a na cama com delicadeza. Retirou com sutileza o roupão da jovem professora e deparou-se com o corpo perfeito, o abdômen torneado. Os olhos de Sophie estavam acesos de desejo e isso deixava Angel ainda mais excitada. Há muito tempo não estava com uma pessoa que também queria estar com ela. Sentiu o calor do corpo da jovem sob o seu e as mãos pequenas, porém hábeis, retirando sua blusa. Beijou e acariciou os seios, sentiu os mamilos enrijecidos, a pele arrepiada, a umidade crescendo cada vez mais.
 
 
As duas se beijavam incessantemente.
 
No fervor daquele encontro, Sophie ouviu alguém lhe chamando. Olhou para os lados, mas não viu ninguém. Podia ouvir alguém que chamava seu nome e aquela voz não lhe era estranha...
 
- Sophie, é a Pamela... No telefone.
 
 
Sophie acordou e olhou para os lados. Estava sozinha em seu quarto, deitada em sua cama... Sozinha... Banhada em suor.
 
- Um sonho... Não acredito!
 
- Oi, falou comigo? – Angel colocou a cabeça dentro do quarto.
 
- Hum? Na-não, estava falando sozinha... Pode dizer para Pam que ligo mais tarde?
 
- Sem problema.
 
 
Angel foi até o telefone.
 
- Pam, ela falou que liga mais tarde. É que ela teve uma noite meio agitada ontem e está cansada, sabe?
 
- Huumm... (Agitada? Como assim?) Sei, sei. Beleza. Peça a ela que me ligue mais tarde sem falta, ok. Preciso muito conversar com essa menina! Heheh. Tchau.
 
 
Quando Sophie entrou na sala, Angel estava sentada lendo uma revista. Na mesa uma xícara de chá aguardava por ela, mais nada. Nenhum café, nenhuma morena estonteante avançando sobre ela...
 
- Oi...
 
- Bom dia, Sophie. Como está se sentindo?
 
- Bem... E você... Você está bem também, não está?
 
- Ótima. Fiz outro chá para você. Não sabia o que fazer para o café... Achei melhor esperar.
 
- Humm... Não esquenta. Vou arrumar alguma coisa para a gente comer. Você dormiu bem mesmo?
 
- Claro... Algum problema, Sophie? Você está suada. Será que teve febre de noite?
 
 
Sophie sorriu enquanto enxugava a testa banhada em suor
 
- É provável...
 
- Bom... Se estiver se sentindo melhor eu vou embora. Tem algumas coisas que tenho que resolver lá na boate. Rony já me ligou duas vezes querendo saber se arrumei outro emprego!
 
- Nossa, desculpa... Não queria te causar problemas.
 
- Fica tranqüila. Depois eu ligo para saber se você precisa de alguma coisa... Se você quiser...
 
- Cl... Claro, liga sim. E Angie... – ela se aproximou daquela mulher maravilhosa e de olhar preocupado, segurando suas mãos em seguida – Obrigada mais uma vez. Te devo muito e não saberia nunca como pagar.    
 
Angel apertou devagar aquelas mãos frágeis e acariciou o rosto dela.
 
- Poderia me pagar ficando longe de encrenca nos próximos dias...! Preciso voltar ao meu emprego e não tenho vocação para super-herói!
 
 
As duas riram. Angie pegou sua jaqueta e foi embora.
 
 
Sophie ficou na porta até que não pode mais ver a mulher que acabara de sair de sua casa.
 
- Pelo menos agora eu já sei seu nome... Angel!
 
 
 
 
Duas semanas depois do incidente na faculdade Sophie já se sentia melhor. O rosto havia desinchado e seu pescoço não doía tanto, mas ela ficou com receio de sair de casa depois de determinada hora e por isso aquelas férias não estavam sendo nada do que ela havia planejado. Não se encontrou mais com Angel, mas ouviu muito falar dela, já que ela estava sempre na boate. Engraçado que nunca ouviu comentários dela ficando com alguém... A primeira vista isso não fez diferença, mas era tão estranho alguém tão linda e prestativa como ela não ter ninguém... Estranho.
 
 
Naquela sexta feira fria e nublada ela alugou alguns filmes e sentou diante da tv as duas da tarde. Assistia pela décima vez ao filme "Coração Valente", chorando como se fosse a primeira, quando o telefone tocou.
 
- Alo...
 
- Nossa, que voz é essa? Deixa eu adivinhar... Tá assistindo "Coração Valente" de novo, né?
 
- É...
 
- Que depressão, Sophie! Você não vai mais sair de casa?
 
- Não estou muito animada...
 
- Isso não é novidade... Olha, sabe quem perguntou por você ontem lá no ‘After’? A Angel! Você por acaso ta me escondendo algo?
 
- Claro que não, Pam? Acho ela uma mulher maravilhosa, mas não tem na a ver. Você sabe que eu não sou gay...
 
- Humm, eu sei, eu sei... Mas é que ela anda meio pra baixo há alguns dias, não ta ficando com ninguém e deu um baita fora na Lorena! Hahahaa! Acho que ta rolando uma paixão...
 
- Sério? Por quem?
 
- Deixa de ser ingênua, Sophie! Por você, ora ‘por quem’...
 
- Por mim?
 
 
Sophie recostou-se no sofá e lembrou-se do sonho. Estranho...
 
- Nossa, Pam... Isso que você está me falando é muito sério! Acho que não tem nada a ver, ela só me ajudou quando precisei. E vou te ser sincera, gosto muito dela, mas não passa de amizade.
 
- Certo. Ruim pra ela... Mas acho que ela sabe disso, por isso anda tão arrasada. Mas ela melhora, não esquenta. – a jovem fez uma pausa e continuou – Vamos lá no ‘After’ comigo hoje? Na pior das hipóteses, se você cansar é só ficar conversando com sua amiguinha.
 
- Gracinha, você... Não, não tô a fim, não... Aluguei uns filmes e vou ficar por aqui...
 
- Credo! Bom, se você resolver aparecer seu nome vai estar a porta. Tchau...
 
 
Pam desligou e Sophie ficou segurando o telefone por uns instantes. Não, definitivamente ir a boate era uma péssima idéia. Péssima...
 
 
 
 
Lá pelas onze da noite e duas caixas de lenço a menos Sophie jogou todas as almofadas do sofá para o alto e sentou no chão. Que tédio...
 
 
Lembrou-se do número de uma amiga que não via há algum tempo e ligou p ver se ela queria ir até lá para conversarem um pouco. Descobriu para sua infelicidade que ela não só não lembrava dela como já tinha outros planos para aquela sexta feira. Sentiu-se péssima ao desligar o telefone e fez algo que nunca tinha feito antes. Olhou número por número na agenda do celular para ver se tinha alguém que lhe interessava. Bom, se todos os dez nomes que tinham ali a tratassem como a última ela preferia nem ligar. Mas um número chamou a atenção.
 
- Angel... Será? Não. A mulher ta trabalhando...
 
 
Sophie olhava o número e sentiu uma vontade louca de ligar para aquela mulher, não sabia porque. Não resistiu.
 
- Hum.. Oi, Angel... É a caçadora de encrenca...
 
- Sophie? Que milagre é esse?
 
- Hum... Pois é... Pensei em te chamar para fazer qualquer coisa, mas esqueci que você trabalha a noite... Fica para outro dia...
 
- É, hoje o bicho ta pegando aqui na casa. Estamos com um DJ novo e essa moçada está quebrando todas. Ta muito bom, por que não vem para cá?
 
- Hum... Melhor não. Acho que você se lembra da ultima vez...
 
- Hehehe! Eu fico de olho para você não se meter em confusão!
 
- Não, eu agradeço o convite... Vou tomar um vinho e comer alguma coisa por aqui.
 
 
Mesmo sem querer Sophie soltou um suspiro de desapontamento e dava para imaginar o sorriso triste dela do outro lado do telefone só pela voz. Angel ficou chateada de não poder ajudar... Mas a noite estava apenas começando.
 
- Vamos fazer o seguinte: assim que liberar aqui eu passo por aí e tomo um vinho com você, que tal?
 
- Não quero te atrapalhar, Angie...
 
- (Meu Deus, como é bonitinho ela me chamando assim! Meu Deus, não acredito que estou pensando assim!) Não vai atrapalhar em nada, não. E eu disse 'se' der, ok?
 
- Ok. Tchau...
 
 
Angel desligou o telefone e correu para a sala de Rony.
 
- Preciso sair.
 
- Como assim ‘precisa sair’? A casa está lotada, Angie!
 
- Eu sei... Eu nunca te pedi nada aqui dentro, faz isso por mim...
 
- Faço. Faço porque você é minha melhor funcionária e te considero como uma filha, mas esse brilho nos seus olhos é que me preocupa.
 
- Não precisa se preocupar, Rony. Sei me cuidar.
 
- Será...? Bom... Vai resolver o que você tem que resolver e depois me conta se ‘ela’ é tão especial assim...
 
 
Angel sorriu, nunca conseguiria esconder nada de Ronald. Apertou a mão do amigo e saiu.
 
 
 
 
Sophie estava sentada no sofá tomando seu vinho quando a campainha tocou. Sentiu medo a princípio. Quem poderia estar ali àquela hora da madrugada? Mas depois se lembrou de alguém que prometeu tentar passar por lá. Sorriu involuntariamente e correu para a porta. Olhou pelo olho mágico e lá estava ela, linda. Abriu a porta.
 
- Oi.
 
 
O sorriso de Sophie era de derreter até o maior dos icebergs. Angel só pode rir em troca.
 
- Não disse que eu vinha...!
 
 
As duas entraram, estava ventando frio lá fora.
 
 
 
 
Sophie preparou um fondue e serviu juntamente com uma garrafa de vinho chileno.
 
- Me fale um pouco de você, Sophie. Não tivemos oportunidades reais de conversar, somos praticamente estranhas uma para a outra. Gosto de saber da vida das pessoas que eu salvo! Assim fica mais fácil saber em que tipo de encrencas elas se metem e, conseqüentemente, mais fácil de salva-las!
 
 
Sophie riu.
 
- Bom, o que posso dizer... Meus pais moram na Irlanda e tenho uma irmã mais nova que mora com eles. Vim para cá estudar e acabei ficando. Morei alguns anos na Califórnia, mas depois que me formei fui convidada por um antigo professor a dar aula aqui em Nova York. – ela fez uma cara de ‘o que eu posso fazer’.
 
- Nossa, mas com essa cara suponho que essa não era sua intenção, certo?
 
- Certo... Não gosto muito daqui. Muito movimento, muito agito, chove e faz frio demais para o meu gosto. Adorava o sol da Califórnia... Vou voltar para lá um dia.
 
- Eu também adoro. Sou de lá. Tem anos que não vou para lá...
 
 
Sophie notou um certo desapontamento na voz de Angel.
 
- Problemas...?
 
- É... Mas é passado, não gosto de mexer no passado... Quer dizer que você dá aulas na faculdade? Legal. Você é formada em que?
 
- Filosofia e História.
 
- Wow! Tenho que tomar cuidado se for discutir com você! Hahhaha!
 
- Não precisa se preocupar... Sou bem tranqüila. – ela fez uma pausa – Mas e você? Já sei que trabalha na boate à noite e que nas horas vagas combate o crime e ajuda professoras indefesas... O que mais você faz?
 
- Hahaha! Eu tenho várias habilidades. – ela sorriu – Mas se te contar talvez você não acredite...
 
- Experimente!
 
- Bom... Sou formada em Educação Física e Fisioterapia pela Universidade da Califórnia e até alguns anos atrás dava aula por lá...
 
- Sério? Puxa... Quer dizer que estivemos pertinho uma da outra e só nos conhecemos agora? Que coincidência.
 
- Pois é...
 
- Mas por que parou de dar aula?
 
- Tive alguns problemas com um aluno e preferi sair fora. Depois que meu pai morreu fiquei meio abalada e, como Ronald sempre foi amigo dos meus pais e me considerava da família, ele me chamou para trabalhar na boate. Desde então estou aqui.
 
- Nossa, que história...
 
 
E a madrugada ficou pequena para as duas. A conversa tomou outros rumos porque ficou claro para Sophie que Angel não se aprofundaria em sua vida pessoal. Tomaram mais uma garrafa de vinho.
 
- Não sabia que existia vinhos chilenos bons.
 
- Ah, esse aqui é muito bom... Mas, me conta... Você fugiu da boate? Acho que o seu chefe vai ficar meio bravo, hein...
 
- Rony? Naah... Ele não fica bravo comigo e deixei tudo mais ou menos arranjado quando saí. Tava meio cansada daquela barulhada...
 
- Quando você vai tirar férias?
 
- Férias? Hahaha! Não sei o que é isso há anos!
 
- Nossa, mas você não tem direito a férias? Que absurdo!
 
- Não é isso... Eu é que nunca quis tirar, não tenho para onde ir, quem encontrar... Melhor ficar por aqui mesmo.
 
- Hum... Está parecendo comigo... – Sophie tomou um gole do vinho e sorriu – Tem pelo menos uns dois anos que não saio da cidade... Queria até sair, tinha planejado uma viagem, dessas de mochila nas costas e um mapa no bolso, mas com esses acontecimentos eu estou meio receosa.
 
- Não acredito? Você ficou tão abalada assim? Nossa, Sophie...
 
- Não esquenta... Eu estou bem, agora... Eu acho...
 
- Humm... Não sei, acho que você deveria sair um pouco, se divertir, conhecer outras pessoas, outros lugares...
 
 
Sophie prestava atenção no que Angel falava e várias coisas passavam por sua cabeça naquele momento. Coisas do tipo "como ela tem uma boca linda", ou "que olhos maravilhosos". Sorriu sem querer e isso chamou atenção de Angel.
 
- O que foi, estou falando bobagens?
 
- Não, me desculpe... Eu é que estava pensando algumas besteiras aqui...
 
- Tipo...?
 
 
Sophie ficou séria de repente e tentou pensar numa boa desculpa para sair daquela situação.
 
- Tipo... Se você não estaria animada em viajar comigo por aí... Uns dias...
 
 
Angel olhou para a jovem professora à sua frente e pensou que, talvez, se ela soubesse dos sentimentos dela, não a teria convidado para uma viagem dessas. Sacudiu a cabeça e sorriu.
 
- Viajaria comigo?
 
- Por que não? Você salvou minha vida duas vezes, acho que posso confiar em você. Você é minha amiga, Angel... Pelo menos eu a considero assim.
 
- Bom... – (que balde de água fria...!) – Se você quer se arriscar a ficar alguns dias comigo é por sua conta e risco. Eu topo!
 
- E o Ronald?
 
- Acho que não vou ter problemas com ele... – Angel olhou as horas, quatro da manhã – Nossa, como está tarde! E eu aqui empatando sua vida. Você deve estar morta de sono.
 
- Não estou, não. E se estivesse empatando alguma coisa nosso papo não teria rendido até essa hora.
 
 
Nesse instante as duas ouviram um trovão.
 
- Hum... Melhor eu ir antes que essa chuva caia. Vou voltar a pé.
 
- Será que o papo está tão ruim assim que você já quer ir embora?
 
- Não é isso, Sophie... É que não quero incomodar.
 
- Você não está incomodando. Senta aí e relaxa. Agora você tem que esperar de qualquer jeito – falou apontando a chuva que caía.
 
 
Angel suspirou. Estava realmente cansada e o vinho começava a embaralhar suas idéias. Notou que Sophie também estava assim e ficou preocupada com o que poderia acontecer dali em diante.
 
- Ok, senhorita Sophie... Você venceu. Eu fico. – ela deixou seu corpo cair pesadamente no sofá e pegou novamente sua taça de vinho – Mas vou logo avisando, já estou ficando meio tonta... Depois vou acabar dormindo aqui de novo.
 
- Não tem problema. "Mi casa, su casa!"
 
 
As duas continuaram a beber e conversar. A noite não havia acabado ainda.
 
 
 
 
O que podia se esperar de duas mulheres solteiras, livres e desimpedidas e, além de tudo, embriagadas?
 
 
Sophie acordou às onze horas da manhã. Seu corpo doía um pouco, mas nada que uns analgésicos não resolvessem. O que mais chamou sua atenção foi o fato de estar deitada no sofá ao lado de Angel... Abraçada com ela! Não se lembrava do que havia acontecido na noite anterior, apenas que haviam bebido um bocado, conversaram muito e daí para frente nem sonhos passaram por sua cabeça.
 
 
Levantou-se devagar para não acordar a mulher ao seu lado e foi para seu quarto tomar um banho. A cabeça agora mostrava sinal de que o dia não seria nada bom.
 
 
Resolveu ligar para Pam.
 
- Pam?
 
- Ah, é a sumida! O que aconteceu com você? Não atende ao telefone mais, outras pessoas atendem para você... Vai me contar o que está acontecendo, ou não?
 
- Se eu soubesse...
 
- Como assim?
 
- Não sei o que está havendo comigo, Pam.
 
- Não fala assim que você me assusta. Você está bem?
 
- Estou ótima, tirando uma dor de cabeça terrível... – ela fez uma pausa – Angel dormiu aqui de novo.
 
- O que?? Como assim?
 
- Bom... Ontem tava meio entediada aqui e liguei para ela...
 
- Ahh, por isso ela sumiu da boate...
 
- É... Ela veio e ficamos de papo, tomamos um vinho, comemos um fondi. Foi super agradável, ela é uma pessoa muito legal, sabe...
 
- Então, o que aconteceu que você ta assim, mulher??
 
- Acordei abraçada com ela no sofá...
 
 
Silêncio.
 
- Pam?
 
- Calma que estou me recuperando do choque. Como assim??
 
- Não sei, Pam. Apenas acordei e estávamos deitadas no sofá, ela me abraçando. Não me lembro o que aconteceu de noite, bebi demais...
 
- Você ta se sentindo bem, ou ta sentindo alguma dor, sei lá...
 
- Não, eu to bem mesmo, sério. Só to com dor de cabeça, mas é por causa das três garrafas de vinho que tomamos.
 
- Espera ela acordar e pergunta para ela, ué!
 
- Ficou louca? Não, deixa quieto, não vou perguntar nada, não quero saber de nada. Não aconteceu nada, ponto.
 
- Então pra que você me ligou?
 
- Pra... Humm... Sei lá, conversar.
 
- Olha, Sophie... Acho que você deveria pensar se você sente alguma coisa e esquecer esse lado conservador seu. Nós estamos no século XXI, pelo amor de Deus. E pára de ficar conversando comigo como se eu fosse criança. Eu sou sua amiga, Sophie e gosto de você pra cacete! Se você ta passando por alguma coisa nova e quiser conversar comigo, beleza, estou aqui, mas se estiver a fim de tapar o sol com a peneira e espera que eu concorde com você não precisa nem me ligar. Você não vai gostar do que vai ouvir.
 
 
Silêncio.
 
- Sophie? Alow?
 
- Hum... To aqui.
 
- E não fica brava comigo porque eu só quero o seu bem!
 
- Não estou brava com você... Estou pensando...
 
- Em...?
 
- Sugeri para ela ontem que saíssemos para viajar, de mochilas, como eu queria fazer, mas estava sem companhia. Ela topou.
 
- Ué, vai, então! Não disse que ela é uma ótima companhia? Vai ser legal para você sair daqui um pouco. Aquele lance que aconteceu na faculdade te deixou meio estressada. Se você ficar se prendendo aqui vai pirar. Aproveita para ver o que você sente por ela. Pode não ser nada, só amizade, mas se tiver alguma coisa será que você não gostaria de saber? Ela é um mulherão, hein!
 
- PAM!! Você não tem jeito, mesmo... Mas vou fazer isso que você falou. Depois te ligo.
 
- Fica fria, amiga. Relaxa, você se estressa a toa!
 
 
Sophie desligou e ouviu um barulho na sala. Espiou pela porta e viu Angel se virando no sofá. Não havia acordado ainda, que bom.
 
 
Correu para o chuveiro, tomou um banho rápido e foi preparar alguma coisa para comer. Uma macarronada seria rápida e eficiente naquele momento. Preparou tudo em alguns minutos e foi para a varanda nos fundos da casa. Sentou-se num banquinho e fez algo que não fazia há muito tempo. Procurou o velho maço de Malboro que guardava debaixo do banco e acendeu um cigarro. Na primeira tragada sentiu o gosto forte do tabaco e da nicotina, quase tossiu, depois se familiarizou com o companheiro dos tempos de faculdade. Havia parado de fumar a três anos, mas em situações de estresse ainda recorria àquele velho amigo. Fechou os olhos e esperou o tempo passar.
 
 
Angel acordou e olhou à sua volta. Ela sabia o que havia acontecido naquela madrugada, ou o que quase havia acontecido. As coisas estavam piores do que ela imaginava. Sophie não podia beber que mostrava um lado que ela teimava em esconder, pelo menos era essa a única explicação para aqueles beijos cheios de prazer que ela deu em Angel. E dormir abraçada com ela foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Mas aquela não era Sophie, era alguém em quem Sophie se transformava e isso a deixava muito triste.
 
 
Levantou-se e foi até o banheiro lavar o rosto. Não viu Sophie em parte alguma da casa. Será que dessa vez ela se lembrava? Se sim, então estava tudo acabado, elas se afastariam e talvez não se vissem nunca mais.
 
- Droga! – falou batendo a mão na parede.
 
 
Quando saiu do banheiro sentiu cheiro de cigarro e imaginou se seria Sophie. "Ela fuma? Ela não parece o tipo de pessoa que fuma!", pensou.
 
 
Andou alguns passos e encontrou a porta que levava para o pequeno quintal recostada. Uma pessoa morar em Nova York e ter uma casa daquela era considerada privilegiada. A casa era pequena, porém, aconchegante. Tinha dois quartos, uma suíte e um que fora transformado em escritório, duas salas, uma de jantar pequena e uma de visitas um pouco maior, mais um banheiro, a cozinha, uma área de serviços e o pequeno quintal, que tinha uma espécie de varanda na porta da área. Era bem aconchegante e bem diferente para aquela cidade cinza e agitada. Angel se sentiria numa cidade do interior naquele ambiente, se não fosse pela vista dos enormes arranha-céus poucos metros dali.
 
Passou a porta da cozinha e sentou-se ao lado de Sophie.
 
- Ressaca...?
 
- Dor de cabeça... Terrível...
 
- Acontece...
 
- Fiz uma macarronada.
 
- Humm... Não quero abusar mais da sua boa vontade...
 
- Pára com isso, Angie. Vamos comer, estou faminta. 
 
Sophie apagou o cigarro.
 
- Não sabia que você fumava...
 
- Só quando estou estressada...
 
- E você está... Estressada?
 
 
Sophie olhou para ela. Devia estar com uma cara de sono e ressaca horríveis, mas aquela mulher a sua frente parecia nova em folha. E linda!
 
- Um pouco... Preciso sair, viajar, respirar...
 
- Pois faça isso. 
 
A jovem professora parou e olhou para Angel com um sorriso malicioso no rosto.
 
- Está tirando o corpo fora da nossa viagem? 
 
Angel sorriu.
 
- Não. Vamos combinar.
 
Elas entraram e foram almoçar. 
 
As malas já estavam prontas. Na verdade, apenas uma mochila, dessas de acampamento. A barraca para duas pessoas ficava presa num fundo da mochila por fora. Haviam combinado que cada uma levaria a sua barraca, assim ficariam mais à vontade. 
 
Sophie levantou cedo para arrumar suas coisas. Estava empolgada em fazer aquela viagem. Há tantos anos não fazia um programa daqueles, estava se sentindo uma adolescente e tanta empolgação a fez esquecer da possível paixão de Angel por ela. Talvez fosse apenas viagem da cabeça de Pam. Talvez.
 
Ela andava de um lado para o outro na sala e não parava de olhar o relógio. Os minutos pareciam se transformar em horas intermináveis e aquela espera a estava deixando impaciente. Seria por causa da viagem... Ou da companhia?
 
 
Naquele instante Sophie ouviu o barulho de um carro parando na porta de sua casa e olhou pela janela. A caminhonete preta combinava com o visual agressivo de Angel e de certa forma a deixava extremamente sexy.
 
 
Sophie se conteve para não sair correndo para abrir a porta. Esperou que Angel tocasse a campainha. Abriu a porta, então.
 
- Pontual!
 
- Uma de minhas qualidades.
 
- Hum... Espero conhecer as outras depois... (hein!?)
 
- Heheh! Você vai. – Angel sorriu de lado e colocou sua mochila no chão – Tudo pronto?
 
- Tudo. Mas... Qual o plano de viagem?
 
- Bom... Estava pensando se você não gostaria de ir até a Califórnia...
 
- Nossa, mas vão ser uns cinco dias de viagem ou mais!
 
- Seria legal... 
 
Sophie passou a mão no queixo se perguntando porque atravessaria o país com uma estranha, numa caminhonete e ficando em barracas e motéis baratos. Ninguém faria uma loucura dessas, muito menos ela, uma mulher centrada, uma professora de responsabilidade e respeito...
 
- Por que não? 
 
Angel sorriu e pegou a mochila de Sophie no sofá levando-a para o carro. Sophie deu uma última olhada na casa e conferiu se estava tudo trancado e desligado. Suspirou fundo. Como havia muito tempo que não saía de casa, parecia estar deixando um pedacinho seu para trás.
 
- Ela vai estar aí quando você voltar, fica tranqüila. 
 
Sophie sorriu e trancou a porta da frente ligando o alarme em seguida. Os vizinhos já tinham sido avisados, pelo menos os mais conhecidos. Mas quem em Nova York se importava com seu vizinho?
 
 
Elas entraram no carro e seguiram caminho. O dia estava um pouco nublado. No relógio marcava 8 da manhã, uma manhã fria, mas agradável para os padrões nova-iorquinos.
 
Quatro horas mais tarde Sophie achou melhor pegar a direção porque Angel mostrava sinais evidentes de cansaço. Ela havia ficado acordada a noite toda ajudando a equipe da boate a manter a ordem num grande evento realizado naquela noite. Foi uma grande festa e Angel não dormira a noite toda. 
 
Mal sentou no banco do passageiro pegou no sono. O balanço suave da caminhonete ajudou a embalar o sono daquela mulher magnífica. Sophie pode, então, aproveitar a calma da estrada e o descanso da guerreira para apreciar aquela beleza selvagem e pensar um pouco mais em como se sentia.  
 
Era estranho como se sentia bem ao lado dela, como ela passava um conforto mesmo enquanto dormia.  
 
O vento forte que entrava pela janela atrapalhou os cabelos de Angel, fazendo com que sua franja caísse em seus olhos. Sophie, gentilmente (e involuntariamente), fechou um pouco a janela e arrumou o cabelo de Angel. A mulher sentiu o toque suave da jovem professora, mas não se mexeu, fingiu ainda estar dormindo. Seria melhor assim, afinal, ela poderia apenas estar sendo gentil. 
 
Seguiram assim até que Sophie resolveu parar num pequeno motel de estrada para descansar um pouco. Ela dirigiu por mais de oito horas sem parar enquanto Angel descansava. 
 
A mulher acordou assim que o carro parou. Notou que estava escuro e que havia passado muito tempo que dormira.
 
- Que horas são?
 
- Nove e meia, eu acho... – falou Sophie com os olhos quase se fechando de sono e cansaço.
 
- Meu Deus, Sophie!!! Por que não me chamou para que eu dirigisse? Deve estar morta de cansaço!
 
- Você parecia cansada, não quis incomodar...
 
- Posso dirigir agora.
 
- Prefiro parar um pouco, esticar as pernas, comer alguma coisa e dormir numa cama macia. O que acha?
 
- Por mim tudo bem, mas é uma noite perdida...
 
- Que pressa é essa? Achei que não tínhamos hora para chegar...
 
- E não temos. – Angel olhou em volta e esticou os braços no ar - Vem, vamos pegar um quarto.
 
As duas pegaram suas mochilas e desceram. O motel não era grandes coisas, mas quebraria o galho por uma noite. 
 
Na portaria elas encontraram uma figura estranhíssima, o dono, provavelmente.
 
- Hum... Queremos um quarto. 
 
A aspereza de Angel mostrou que ela já sabia como lhe dar com aquele tipo de gente. O homem pegou uma chave numa caixa e estendeu para Angel, mas antes que ela pegasse o chaveiro, ele puxou de volta.
 
-... Adiantado pela noite. – e ele esticou a outra mão esperando o dinheiro.
 
 
Angel rangeu os dentes, mas Sophie tocou seu braço pedindo que se acalmasse e estendeu o dinheiro para o homem. O toque de Sophie fez com que Angel perdesse as forças. Ela teve que disfarçar o arrepio que sentiu.
 
- Está com frio, Angie?
 
- (Ingênua!) Um pouco. Vamos para o quarto descansar. 
 
As duas saíram da recepção e procuraram a porta com o mesmo número da chave, 13.
 
- Espero que esse número não nos traga azar...
 
- Acredita nessas coisas, Sophie?
 
- Não... Mais ou menos... Sei lá... – o estômago de Sophie revoltou-se num estrondo – Hum... Desculpe! Acho que preciso comer algo.
 
- Ok. Arrume as coisas nas camas e eu vou comprar algo na lanchonete ali do lado.
 
- Certo... – ela colocou a chave na fechadura, mas antes de entrar no quarto voltou-se para Angel e gritou – Não esqueça as fritas! 
 
Angel sorriu e acenou falando que ela não se esqueceria. 
 
Sophie entrou no pequeno quarto e parou em choque. Será que elas esqueceram de falar alguma coisa para o sujeito da recepção? Só havia uma cama grande de casal e um pequeno sofá. Sophie se desesperou, não iria dormir na mesma cama que Angel. Não depois do que aconteceu naquela noite de bebedeira. 
 
Colocou a mala de Angel na cama e a sua no sofá. Decidiu dormir ali porque Angel era muito grande e ficaria mais confortável na cama. Antes de deitar no pequeno sofá, porém, Sophie pulou na grande cama e esparramou-se toda. Queria esticar as pernas, a coluna, os braços. Como era macia aquela cama...
 
Meia hora depois Angel bateu na porta do quarto e ninguém respondeu, mas estava destrancada.
 
- Sophie, não pode deixar a porta aberta senão qualquer um pode... 
 
Angel se deparou com Sophie completamente adormecida em cima da cama. Olhou à sua volta e notou que não havia outra cama além daquela. Avistou o pequeno sofá e deitou-se nele. Não tinha jeito, não cabia! Nem espremendo. Teria que dormir na cama também. Mas e se Sophie achasse estranho?
 
- Ah, problema dela... Eu é que não vou me espremer ali! 
 
Angel tirou a velha jaqueta e deitou-se ao lado de Sophie. Entre elas colocou sua mochila para que não acontecesse nenhum imprevisto durante a noite. Ficou pensando porque fugia disso. Será que Sophie também fugia de algum sentimento que a tinha pegado de surpresa? Gostava dela, aliás, estava apaixonada pela ingenuidade daquela jovem, a sinceridade, a delicadeza, o toque suave. E aquele corpo perfeito fazia com que Angel imaginasse coisas que não se atrevia a falar. Aquilo tudo estava deixando-a nervosa, não ter o controle da situação a irritava. 
 
Fechou os olhos e tentou dormir de novo, mas era difícil depois de ter descasado a tarde toda. Seus músculos e costas doíam muito, provavelmente por causa da posição que ficara deitada no carro. Virou-se de lado e deparou-se com o rosto de Sophie. Ela dormia como um anjo. Sua respiração era leve, tranqüila. Ela estava deitada de bruços e uma das mãos descansava ao lado do rosto. Angel estendeu a sua mão em direção à dela na intenção de tocá-la, mas foi surpreendida pela reação involuntária da jovem. Mal encostou-se a Sophie e a jovem pegou-lhe a mão e segurou-a forte, ainda dormindo. Angel teve receio de se mexer e acordá-la. Ficou ali olhando para ela com uma vontade louca de tirar aquela mochila do caminho e abraçá-la, mas aí seria demais.
 
Ficou muito tempo ali olhando a jovem até que adormeceu; as mãos ainda entrelaçadas.
 
Fim.
 

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