Dando Asas aos Sonhos

ROSE ANGEL

[email protected]

2004

 

Disclamers: 

A� pessoal...

 

Olha eu aqui de novo... S� que dessa vez escrevendo no estilo ALT/UBER. Quero ressaltar que tomei gosto por esse estilo depois de ler as bel�ssimas hist�rias da grande escritora, e amiga, A.L.Benner. Sugiro que leiam seus contos, pois s�o realmente muito bons.

 

Vale o velho lembrete de que esta hist�ria cont�m temas adultos expondo rela��es sexuais expl�citas entre duas mulheres adultas. Se voc� for menor de 18 anos, onde voc� mora � proibido ler esse tipo de material ou for homof�bico, n�o continue a leitura. A escritora e a pessoa que mant�m o website onde esse trabalho aparece n�o aceita responsabilidade legal pelo n�o cumprimento desse alerta.

Essa hist�ria tem as protagonistas inspiradas nas personagens de Xena e Gabrielle que s�o marca registrada da MCA/Universal e Renaissance. Elas s�o usadas aqui sem inten��o de lucro ou de infringir as leis de copyright.

 

Aviso aos navegantes: Essa hist�ria � ambientada na regi�o serrana do Rio Grande do Sul, por�m n�o adianta procurar no mapa a cidade de Arroio Bonito e o Distrito de Itamoema porque eles s� existem, de fato, na nossa imagina��o. No entanto as refer�ncias �s paisagens e demais descri��es de lugares fazem jus �s belezas que realmente existem no sul do pa�s.

 

Espero que gostem e desejo a todos uma boa Leitura!

Se quiserem  enviar coment�rios acerca da hist�ria, cr�ticas ou sugest�es, ou trocar id�ias sobre a s�rie XWP meu e-mail � [email protected]

 

 

 

Dando Asas aos Sonhos... 

 

Era final de uma tarde chuvosa na cidade de S�o Paulo. Mabel dirigia seu carro pelas ruas movimentadas do centro da cidade. Enquanto enfrentava a loucura do tr�nsito seus pensamentos vagavam ao longe, alheios ao deslocamento lento e truncado, pr�prio daquele hor�rio em que praticamente toda a popula��o de trabalhadores se deslocava de volta para suas casas. Mabel tamb�m estava retornando para casa, para a casa onde morava com seus pais. No banco traseiro do carro uma pequena mala com algumas roupas e alguns poucos pertences que ainda haviam ficado na casa de M�rcia, ap�s terminarem um namoro de quase tr�s anos. Mabel tinha o cora��o apertado e, enquanto se deslocava muito lentamente, fazia uma retrospectiva mental de toda sua vida at� aquele momento. Havia nascido em Santa Rosa da Serra, uma cidade no interior de Minas Gerais, onde havia passado sua inf�ncia e parte da adolesc�ncia. Filha de um bem sucedido funcion�rio do Judici�rio Federal mudou-se aos 14 anos para S�o Paulo, em virtude do trabalho do pai. A �nica filha mulher entre cinco irm�os, tr�s mais velhos e um mais novo, debutou num dos clubes mais sofisticados da metr�pole. Teve uma educa��o r�gida e freq�entou sempre as melhores escolas. �tima aluna, sempre com notas acima da m�dia, ingressou na faculdade de Direito com dezessete anos, influenciada pelo pai, e aos vinte e dois anos graduou-se Bacharel em Direito. Nesta �poca era noiva de Roger, renomado ginecologista e obstetra, vinte anos mais velho que ela. Havia conhecido o noivo numa festa que reunia a elite da sociedade local. O pai de Mabel tamb�m havia exercido cargo pol�tico e a fam�lia havia se tornado quase que uma celebridade por conta do mesmo. Quando conheceu Roger deslumbrou-se por ele, encantou-se por sua conversa e beleza. Roger, por sua vez, reconheceu os encantos f�sicos de Mabel, por�m o que mais lhe chamou a aten��o certamente foi o quanto a influ�ncia do futuro sogro poderia lhe ser �til em sua carreira. Namoraram por um ano e somente ap�s o noivado Mabel concordou em entregar-se ao homem com o qual sonhava casar e constituir uma fam�lia, bem nos moldes que a sociedade e sua educa��o lhe impunham. Roger foi o primeiro homem de Mabel, e o �ltimo tamb�m. Logo ap�s sua formatura, e j� com o casamento marcado, o sonho de Mabel desmoronou numa manh� de segunda-feira. Percebendo que Roger havia esquecido seu telefone celular na casa que estavam montando para eles, e na qual haviam passado a noite, resolveu ir at� o consult�rio do noivo para entrega-lo, antes que o primeiro paciente do dia chegasse para consultar. Pensava em fazer uma surpresa para o noivo e levou alguns p�es de queijo, pois percebeu que Roger havia sa�do apressado, sem tomar seu caf� da manh�. Como Roger costumava deixar um chaveiro reserva em casa n�o precisou tocar a campainha do consult�rio para entrar. Girou a chave e entrou na ante-sala que estava vazia. Parou por um momento, pois escutou vozes na sala de atendimentos. Ouvindo mais atentamente constatou tratarem-se de gemidos. Silenciosamente caminhou at� a porta entreaberta e a cena que viu a deixou perplexa. A secret�ria de Roger estava nua, posicionada na mesa ginecol�gica do noivo, o qual fazia sexo furiosamente com ela. A mulher gemia e urrava em �xtase enquanto Roger pronunciava palavras que Mabel jamais teria coragem de repetir. Antes de consumar o ato Roger puxou a secret�ria, virando-a de costas e fazendo sexo anal com a mesma, com uma f�ria que Mabel jamais imaginara ver no homem que pensava amar. L�grimas escorriam de seu rosto enquanto continuava parada e vendo Roger terminar aquela orgia agarrando-se aos cabelos da secret�ria enquanto a mesma lhe fazia sexo oral. Roger estava se recompondo quando se voltou para a porta e viu Mabel parada, quase que em estado de choque, olhando incr�dula para ele. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Mabel virou-se e saiu correndo porta afora, sentindo o seu mundo desabar sobre sua cabe�a. Roger ainda tentou alcan�a-la, mas foi em v�o. Nunca mais conseguiu olhar para aquele homem no qual havia depositado todos os seus sonhos. N�o conseguia aceitar a trai��o. Naquela ocasi�o chegou a pensar em p�r fim � pr�pria vida, por�m sua fam�lia conseguiu dar-lhe o suporte que necessitava. Foi naquela �poca tamb�m que sua amiga de faculdade, Alice, aproximou-se dela. Foi com Alice que Mabel trocou o primeiro beijo com uma mulher. E gostou. Gostou muito. Alice foi uma mola impulsora no destino de Mabel. Alice era independente e alto astral, muito bem resolvida com sua sexualidade e em muito auxiliou a ent�o namorada, Mabel, a ir de encontro aos seus anseios e desejos mais �ntimos. Nesta �poca se deu conta que n�o desejava seguir a carreira jur�dica. Optou pelas Artes Pl�sticas. Reingressou na faculdade e mesmo antes de formada j� se ouvia falar de suas obras como �artista revela��o�. Sua especialidade eram as aquarelas e �leos. Passou a ser reconhecida como Mabel Lopes, por seu pr�prio trabalho, e n�o mais somente por ser filha de Jos� Isidoro Lopes Santini. O namoro com Alice durou quatro anos e terminou quando Alice resolveu viajar a servi�o, era fot�grafa, com uma ex-namorada para a �frica do Sul. Mabel n�o quis correr o risco de ser tra�da novamente, embora Alice jurasse que a rela��o com sua ex era estritamente profissional. Depois de Alice teve mais dois ou tr�s casos passageiros, at� iniciar o namoro com M�rcia. O relacionamento com esta �ltima foi se dissipando aos poucos e chegou ao t�rmino sem Mabel conseguir precisar o motivo exato. Simplesmente foi esfriando e acabou. E enquanto restavam ainda a amizade e o respeito optou por juntar seus pertences e afastar-se de quem lhe havia sido t�o importante h� um tempo atr�s.

Perdida nesses devaneios foi trazida de volta � realidade pelo barulho de uma freada brusca do carro que ia � sua frente. Conseguiu parar seu carro a tempo de evitar uma batida, por�m n�o conseguiu evitar que o t�xi que vinha atr�s encostasse em seu p�ra-choque traseiro. A chuva fina continuava a cair e pelo retrovisor de seu carro viu a imagem do motorista descendo do t�xi e gesticulando nervosamente. Tudo o que Mabel queria naquele momento era evitar discuss�es, n�o estava emocionalmente bem para qualquer que fosse o confronto. Lentamente desceu do carro e mal ouviu as explica��es do motorista que tentava convence-la de que ele n�o havia tido culpa pela batida. Mabel olhou seu p�ra-choque e n�o havia realmente sinais de avaria. Virou-se para o motorista, um senhor de meia idade, obeso, claro, com as faces rosadas de nervosismo, e disse:

- Tudo bem... est� tudo bem... n�o foi nada. � retornou para o seu carro, deu a partida e olhou pelo retrovisor ainda conseguindo ver o taxista aliviado entrando em seu ve�culo e a longa fila de carros que havia se formado atr�s dele.

Seus cabelos loiros ficaram umedecidos pela garoa e de seus olhos verdes escorreram duas l�grimas que se alojaram nos cantos da boca afilada e suave de Mabel. Sentia-se como se o mundo estivesse lhe pesando sobre os ombros. Tinha trinta e quatro anos, por�m era como se j� houvesse vivido o suficiente para saber que seu destino era viver s�.

Com esse estado de �nimo estacionou o carro em sua garagem e foi direto para seu quarto. N�o queria que seus pais a vissem naquele estado de tristeza. Tirou os sapatos e atirou-se na cama, olhando para o teto por longo tempo, tentando esvaziar a mente... Precisava fazer alguma coisa, ou enlouqueceria. Tinha tudo o que qualquer mortal almejaria: uma carreira, fam�lia, �tima situa��o financeira, carro do ano, aparecia com freq��ncia nas colunas sociais e nas revistas de celebridades, era bonita, enfim... tinha tudo. Ou quase tudo, n�o havia sido ainda feliz no amor. E achava que nunca o seria.

Levantou-se vagarosamente da cama e foi at� o seu computador. Faria uma pesquisa na internet. Precisava sair de circula��o por um tempo e decidira viajar, sozinha, para onde n�o fosse reconhecida. Navegou por sites de busca, de turismo, at� deparar-se com uma discreta propaganda:

 

�Pousada dos Sonhos�

�Se voc� necessita fugir da opress�o das grandes cidades,

se o seu desejo � ter contato com a natureza, longe de tudo que cause estresse, venha para a Pousada dos Sonhos, afinal o que seria da vida se n�o fossem os sonhos?

Torne o seu realidade!

Ar puro, comida caseira, passeios a cavalo, trilhas, banhos de cachoeira...

As maravilhas da natureza na serra ga�cha.

Esperamos voc�!

 

 

Juntamente com o an�ncio havia uma foto de uma r�stica constru��o com uma mata nativa ao fundo. Bel�ssima paisagem. Mabel anotou o telefone e o endere�o de e-mail e resolveu fazer uma reserva. Iria passar uma temporada na Pousada dos Sonhos, para tentar dissipar a nuvem de pesadelos que teimava em pairar sobre seu dia a dia.

 

 

***********************

 

 

O m�s de agosto chegava quase ao fim, mas ainda fazia bastante frio na cidadezinha de Arroio Bonito. As paisagens da regi�o serrana do Rio Grande do Sul come�avam a mudar de cor e os pren�ncios da primavera j� se faziam notar nos matizes da vegeta��o local. Nadine havia ido at� a cidade em busca de uma pe�a para o trator de sua granja, alguns suprimentos para a cozinha de Olga, sementes de hortali�as e tinta para cer�mica. Ap�s comprar o que precisava embarcou em sua caminhonete F-1000 diesel, ano 84, vermelha, tra��o nas quatro rodas, o xod� de sua dona, a quem Nadine chamava carinhosamente de �Pimentinha�. Segundo Nadine Pimentinha era temperamental e as vezes fazia manha somente para passar um dia todo na oficina do amigo Z� Paulo.

Nadine dirigia de volta para casa admirando a paisagem. Embora houvesse nascido ali n�o cansava de admirar as belezas do lugar, principalmente naquela �poca do ano.

Ao cruzar a porteira de entrada da propriedade avistou ao longe a figura de Olga que lhe abanava da soleira da porta. Olga era uma mulher alta, robusta, de descend�ncia germ�nica, com cabelos grisalhos, pele muito alva e faces rosadas. Do alto de seus 74 anos de idade esbanjava vitalidade e disposi��o. Cat�lica fervorosa comparecia � missa todos os domingos de manh� e mantinha-se solteira por convic��o, apesar das investidas de Feliciano, servi�al da fazenda a mais de quarenta anos. Feliciano j� havia se tornado mais que empregado, era considerado um grande amigo do pai de Nadine, Gi�como DiLaitano. Na verdade havia nascido na fazenda e o pai de Feliciano era empregado do pai de Gi�como. Desde a inf�ncia desenvolveram uma amizade profunda. No presente Feliciano j� fazia parte do patrim�nio da est�ncia. Olga tamb�m, por�m ela havia chegado � fazenda mais tarde, logo ap�s o casamento de Gi�como. Este se encantou com uma bela jovem de descend�ncia ind�gena, cabelos negros, longos e lisos, sorriso franco, olhos escuros como a noite e pele morena como as cuias de erva mate. A m�e de Nadine, Maria Tereza, tinha 17 anos quando se casou com Gi�como, ent�o com 25 anos. Formavam um casal encantador, eternos apaixonados. Olga foi contratada para ser a governanta da casa e para servir de companhia para Maria Tereza, pois Gi�como passava grande parte do seu tempo no campo, cuidando da cria��o de gado. Quando Maria Tereza tinha 21 anos deu � luz Nadine, que chegou para alegrar a vida de todos. Por�m, quando Nadine ainda era beb� sua m�e saiu com ela para um passeio de carro�a. Em determinado momento o cavalo que tra�ionava o ve�culo assustou-se e disparou, fazendo a carro�a despencar em uma encosta da estrada. Maria Tereza morreu na queda e Nadine, milagrosamente, n�o sofreu um arranh�o sequer. Maria Tereza foi encontrada com a filha nos bra�os, muito provavelmente defendeu a filha com o pr�prio corpo. A tristeza abateu-se sobre o Rancho da Figueira, Gi�como foi perdendo o gosto pelas coisas. Vendeu gradualmente suas cabe�as de gado, come�ou a beber e pouco parava em casa. Foi nessa �poca que Olga assumiu Nadine como filha, passou a cuidar da menina e dispensou-lhe todo o cuidado e aten��o que a mesma necessitava. Foi Olga tamb�m quem, num rompante de ousadia, despertou Gi�como do estado let�rgico em que se encontrava, questionando se havia deixado de amar a filha, se n�o era capaz de perceber que n�o se podia voltar no tempo e nem mudar o destino. E mais, que Nadine precisava dele e que era necess�rio que ele vivesse para criar a filha. Tais palavras proferidas por Olga com o dedo em riste, um palmo a frente de seu nariz, fizeram com que Gi�como chorasse igual a uma crian�a e se desse conta de que precisava reagir. Aos poucos foi se restabelecendo e conseguiu dar � filha o suporte emocional que precisava. Vinculou-se � Nadine de tal forma que levava a menina aonde quer que fosse, inclusive em algumas lidas de campo, sob os protestos de Olga que dizia: �isso n�o � coisa de menina, Seu Gi�como...� Gradualmente a vida foi voltando ao normal no Rancho da Figueira, embora Gi�como nunca mais houvesse pensado em se casar.

 

 

Olga acenava para Nadine enquanto esperava que a mesma manobrasse a caminhonete na frente da casa. Secando as m�os no avental de tecido xadrez cor de laranja, correu na dire��o de Nadine para abra�a-la:

- Meu amorzinho... como voc� demorou! E os meus temperos?

Nadine abra�ou Olga e respondeu:

- Est�o todos aqui!!!

- Conseguiu inclusive o cardamomo?

- Querida, meu nome � efici�ncia... claro que consegui � respondeu Nadine beijando as faces coradas de Olga.

- � que eu quero fazer aqueles biscoitinhos que tu gostas...

- Ai, Olga... desse jeito eu vou ficar obesa!!!

- Ah, sim, voc�s jovens tem mania de achar que magreza � sa�de! Voc� precisa de sust�ncia para ag�entar o tranco do dia a dia!

Nadine riu e entrou em casa carregando a sacola de comprar e as encomendas de Olga.

- Vou tomar um banho e descansar um pouco, Olga, estou pregada, a estrada est� cada vez pior...

- Vou reclamar para o Prefeito!!! Isso � p�ssimo para os neg�cios. Precisamos de um bom acesso para os h�spedes!

- T� certo, Olga, reclama mesmo... � sorriu Nadine.

 

Nadine tomou seu banho na casa grande e subiu para o escrit�rio. Antes de se recostar um pouco, num sof� confort�vel no canto do aposento, sentou-se em frente ao computador, verificou sua correspond�ncia e navegou pela p�gina da Pousada dos Sonhos. Nadine sempre fora resistente � id�ia de informatizar a Pousada. Achava esse neg�cio de computador uma coisa muito sofisticada para a realidade da Fazenda da Figueira. A Fazenda j� havia sido uma refer�ncia na cria��o de gado leiteiro e para abate. Hoje o pai de Nadine havia vendido grande parte da extens�o dos campos para adquirir pastagens no estado do Mato Grosso, lugar onde passava a maior parte do ano. A Fazenda da Figueira havia se transformado em propriedade de porte m�dio, onde Nadine se dedicava ao plantio e administra��o da Pousada. A id�ia de transformar a casa grande em pousada havia sido de Olga, uma vision�ria nata. Ciente das belezas da regi�o serrana, em especial dos encantos da Fazenda da Figueira, idealizou a Pousada e cuidou de cada detalhe da decora��o e da organiza��o das atividades do novo neg�cio, principalmente da culin�ria do lugar. Nadine se dedicava a administrar o lado burocr�tico da Pousada, bem como cuidava dos cavalos e do planejamento e acompanhamento das trilhas. Os neg�cios estavam indo bem, no entanto por id�ia e insist�ncia do amigo Fredi, havia aceitado informatizar a Pousada e criar uma p�gina na internet para a mesma, para ajudar na divulga��o do lugar. E precisava dar a m�o � palmat�ria: o movimento havia aumentado. N�o havia sequer um final de semana em que n�o houvesse pelo menos um h�spede na Pousada, inverno ou ver�o. No inverno investiam no marketing do frio, possibilidade de neve, caf� colonial, lareira, boa comida. No ver�o divulgavam as cachoeiras, trilhas e passeios ao ar livre. E estava dando para sobreviver bem.

Fredi e seu namorado Marcos eram praticamente os �nicos amigos de Nadine, pelo menos os mais chegados. Nadine era pessoa que se relacionava bem com todos, por�m tinha certa dificuldade de estreitar os la�os de amizade, quer por sua natureza reservada, quer pelo fato de que numa cidade pequena era imposs�vel esconder sua homossexualidade. Era engra�ado, pois em seu c�rculo de amizades estavam os tipos mais opostos, por exemplo, o padre Lino. Nadine havia sido batizada por ele, assim como havia feito a Primeira Comunh�o e Crisma. Quando se descobriu gay n�o fez nenhum segredo para seu amigo e apesar dos conselhos do padre nunca deixou de ser respeitada por ele em virtude de sua orienta��o sexual. Olga tamb�m sempre soube das prefer�ncias de Nadine, embora colocasse defeitos nas poucas namoradas que teve, sempre achando que n�o estavam � altura de sua princesinha. No fundo Nadine se divertia com as implic�ncias de Olga. Quando conheceu Fredi, que veio da capital para trabalhar no Banco local, foi amor � primeira vista. Um se encantou com o outro e Fredi passou a ser o irm�o que Nadine nunca teve, al�m de ser seu confidente e ouvinte. Fredi segurou a barra de Nadine quando esta terminou o relacionamento com a �ltima namorada, Sila, a quem Fredi chamava �amigavelmente� de �encosto�. Ele sempre havia implicado com ela, e alertava Nadine sobre a incomoda��o na qual estava se metendo. E de fato foi uma experi�ncia bem traum�tica. Sila era possessiva e manipuladora, Nadine chegou ao extremo de quase agredi-la numa das freq�entes discuss�es que travavam, quase sempre por motivos banais. At� que Nadine resolveu terminar o romance t�o conturbado, para alegria de Fredi, Marcos, Olga e at� do padre Lino. Desde ent�o estava sozinha, e queria ficar assim por um bom tempo, longe de confus�o e discuss�es.

Nadine verificou sua correspond�ncia e viu que havia um pedido de reserva para a pr�xima semana, no nome de Maria Isabela Hoffman Lopes Santini, por tempo indeterminado. Reserva para uma s� pessoa, com chegada prevista para a metade da semana, entre quarta e sexta-feira. Estranhou, pois geralmente as reservas eram para mais pessoas, geralmente fam�lias ou grupos de amigos em finais de semana. Mas n�o quis se deter em detalhes que n�o lhe diziam respeito e retornou o e-mail confirmando a reserva e fornecendo as refer�ncias de trajeto solicitadas pela h�spede, que se deslocaria de carro at� a pousada. �Deve ser alguma senhora aposentada, ou vi�va, quem sabe, disposta a descansar longe do burburinho da cidade grande�, pensou Nadine. Sem mais o que fazer recostou-se no sof� colocando os p�s para cima, na guarda, e pegando no sono vencida pelo cansa�o.

 

***********************

 

 

Mabel fazia sua mala enquanto sua m�e tentava, inutilmente, dissuadi-la da id�ia de fazer uma viagem t�o longa sozinha.

- Minha filha, essas estradas est�o um perigo... porque voc� n�o pega um avi�o at� Porto Alegre? Depois aluga um carro...

- M�e, eu j� disse: vou com o meu carro. Gosto de dirigir na estrada. E sei me cuidar...

- Mas filha, porque ent�o n�o vai para um lugar mais perto? Tem tanto lugar bonito por aqui...

- Eu sei que tem, m�e, mas eu quero ir para l�. J� decidi.

- Voc� � teimosa igual ao seu pai. � minha sina mesmo ag�entar gente teimosa...

- M�nhe... n�o vamos come�ar de novo, vamos?...

- Mas, Mabel, voc� � a minha menininha...

- Eu tenho 34 anos, Dona Ivone!

- Eu sei, mas para uma m�e as filhas s�o sempre menininhas... eu queria tanto te ver casada... ver meus netos...

Mabel senta-se na cama, pega as m�os de sua m�e, olha nos seus olhos e diz carinhosamente:

- Sobre isso a gente tamb�m j� conversou, m�e... a senhora j� tem netos... eu cresci e fiz op��es na minha vida...

- Eu n�o quero falar sobre isso...

- Mas, m�e, o papai nunca me deixou falar sobre mim... a senhora vai fazer o mesmo?...

- Eu n�o quero te ver sofrendo, minha filha. Essas suas... suas... conquistas sempre acabam te fazendo mal... olha pra voc�, Mabel... est� desfigurada, p�lida, olhar triste... eu n�o ag�ento te ver assim... � diz a m�e com os olhos cheios de l�grimas.

- M�e, eu t� bem. S� preciso de um tempo, ok? Eu preciso ficar sozinha, preciso pensar, preciso definir coisas, eu preciso de uma perspectiva para minha vida... e eu quero me afastar daqui para poder espairecer e pensar.

- Mas...

- N�o tem mas, mam�e. Olha, lembra da hist�ria do alpinista? Ele s� consegue ver a totalidade da montanha se tomar dist�ncia dela. E eu estou precisando fazer isso com a minha vida, com a minha rotina...

- Tudo bem, filha... eu s� quero o teu bem... mas liga pra mim durante a viagem? Pra eu saber se tudo corre bem...

- Ligo, m�e, eu ligo sim. Prometo.

Mabel abra�ou afetuosamente sua m�e, dando-lhe um beijo na testa. Esta retribuiu e afagou os cabelos e o rosto da filha.

 

Mabel terminou de arrumar seus pertences, colocou a bagagem no porta malas de seu Ford Focus branco, quatro portas, cuidadosamente encerado pelo motorista da fam�lia, pegou sua bolsa, beijou a m�e e pegou a estrada rumo � Pousada dos Sonhos, situada no Distrito de Itamoema, cidade de Arroio Bonito, Rio Grande do Sul. Estava saindo cedo e planejava pernoitar em Joinvile ou Florian�polis, seguindo viagem no dia seguinte, afinal n�o tinha pressa nenhuma em chegar... Na verdade o que Mabel mais tinha naquele momento era tempo...

 

 

**********************

 

 

Olga preparava uma fornada de biscoitos caseiros quando escutou Nadine esbravejar no p�tio ao lado da cozinha:

- Que porcaria mesmo!!! Como � que n�o funciona?

- N�o funcionando, Nadine!!! � respondeu Feliciano.

- Mas essa pe�a � nova!

- Eu sei, filha, mas veio com defeito... e sem ela o trator n�o funciona.

- Ent�o vou ter que ir at� a cidade trocar. Precisamos do trator o quanto antes. Temos muito ch�o para lavrar, semana que vem � mudan�a de lua e vamos ter que deixar o terreno pronto para semear de qualquer jeito.

- Queres que eu v�? � questionou Feliciano.

- N�o. Pode deixar, vou eu.

- Olha, n�o cria caso na Ferragem, pois � defeito de f�brica, n�o � arma��o do Alcides... � advertiu Feliciano.

- At� parece que tu n�o me conhece! E eu sou l� de criar caso???...

- Eu que sei... � respondeu o velho rindo da falta de cr�tica de Nadine.

- Feliciano... o senhor n�o acha que est� muito abusado? � questionou Nadine, mais em tom de brincadeira do que de repres�lia.

- Pode ser... mas s�o os anos que eu tenho a mais que me d�o esse direito... � disse abra�ando Nadine e a acompanhando at� sua caminhonete.

Nadine deu um tabefe no ombro de Feliciano e logo em seguida retribuiu o abra�o, sorrindo para ele enquanto caminhava na dire��o do carro.

- Vou num p� e volto no outro.

- Vai com Deus, filha... � acenou Feliciano enquanto fechava a porteira ap�s a passagem da caminhonete que seguiu rumo � cidade de Arroio Bonito.

 

 

******************

 

 

O Distrito de Itamoema ficava distante cerca de trinta quil�metros de Arroio Bonito e parte da estrada era de ch�o batido. Quando chovia a parte da estrada sem asfalto ficava quase que intrafeg�vel. Olga bem tinha raz�o em reclamar para o Prefeito, como se adiantasse...

Mal havia vencido os dois primeiros quil�metros e iniciou-se uma chuva fina, que logo se transformou numa cascata de �gua despencando de um c�u cinzento e ventoso, t�pico do inverno do sul do pa�s. �S� me faltava essa!!!� esbravejou Nadine para si mesma. Por sorte Olga havia colocado uma jaqueta imperme�vel no banco do carona, para qualquer eventualidade. Olga parecia pensar em tudo. Poucos quil�metros antes de chegar � cidade Nadine come�ou a sentir a caminhonete puxando para um lado e estacionou para verificar os pneus. Colocou sua jaqueta e saiu do carro, enfrentado a chuva que naquele momento estava mais branda. Um dos pneus traseiros estava furado. Por sorte j� se encontrava na parte asfaltada da estrada, por�m n�o avistou viva alma na rua. At� os cachorros deveriam estar se escondendo da chuva... e ela ali. Nadine j� estava irritada e naquele momento percebeu-se furiosa. Resolveu trocar o pneu sozinha. Precisava fazer for�a para descarregar a raiva! Era uma mulher bastante forte, estava acostumada a fazer �coisas de homem� como dizia Olga em tom de cr�tica. Mas naquelas circunst�ncias as �coisas de homem� lhe tirariam do aperto em que se encontrava. Pegou o estepe com certa dificuldade por causa do peso e da chuva. Posicionou o macaco hidr�ulico e afrouxou os parafusos da roda. Ergueu o carro e retirou o pneu furado. Colocou o estepe e os parafusos. Baixou o carro e pisou na chave de roda, ficando em p� e usando o peso de seu corpo para dar o aperto final nos parafusos. �quela altura dos acontecimentos estava com os cabelos e rosto totalmente molhados pela chuva e de suor, pelo esfor�o realizado. Suas roupas estavam secas gra�as � jaqueta imperme�vel, lembran�a da bendita Olga. Nadine, por�m continuava furiosa. Chegando na cidade pegou o �nico sem�foro existente, mais para enfeite do que por necessidade, fechado. Respirou fundo para diminuir a irrita��o, pois a �ltima vez que havia passado no sinal vermelho o guarda Martins havia lhe parado e quase lhe aplicado uma multa! E l� estava ele, estrategicamente posicionado sob uma �rvore de copa bastante cerrada que impedia a chuva de passar. �O cretino est� me olhando, que raiva!!!� pensou Nadine enquanto aguardava o sinal verde.

 

 

********************

 

 

Mabel havia pernoitado em Florian�polis e pela manh� seguiu viagem rumo ao Rio Grande do Sul. Passava pouco das onze horas da manh� quando passou pela divisa de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Como havia levado petiscos para beliscar no caminho estava sem fome e n�o parou para almo�ar.

Consultou o mapa e as indica��es que havia recebido da Pousada dos Sonhos e chegou com facilidade at� a cidade de Arroio Bonito. Chovia naquela tarde de inverno, uma chuva branda e que prometia ir longe. Pelas po�as formadas nas ruas Mabel percebeu que a chuva havia sido forte antes de chegar. Precisava procurar o Posto de Gasolina para abastecer o carro e achar a estrada que levava a Itamoema. Como a cidade possu�a somente uma rua principal asfaltada resolveu seguir por ela, pois certamente acharia o que procurava. Ao longe avistou uma placa BR indicando um posto de combust�vel, por�m antes parou no sem�foro da cidade, atr�s de uma caminhonete vermelha, ali�s o �nico ve�culo que avistou na rua. Olhou na dire��o da caminhonete e viu atrav�s do vidro traseiro um par de olhos azuis refletidos no retrovisor interno do ve�culo. Aqueles olhos eram lindos, pensou Mabel, mas estavam distra�dos por alguma coisa, pois n�o perceberam o sinal esverdear.

 

 

******************

 

 

 

Nadine olhava para o guarda Martins e novamente a raiva tomou conta dela, lembrando de como aquela arrogante autoridade de tr�nsito havia se dirigido a ela pelo simples fato de ter passado o sinal vermelho, num domingo ao meio dia, onde n�o havia ningu�m na rua num raio de, no m�nimo, um quilometro! E o maldito s� n�o havia lhe aplicado uma multa gra�as ao padre Lino que viu o ocorrido e intercedeu em seu favor, dizendo que n�o deveria ser t�o r�gido assim, afinal deveria seguir o exemplo de Jesus Cristo que era paciente e perdoava as faltas dos irm�os. Como o guarda n�o quis discutir com o padre, ficou o dito pelo n�o dito. E l� estava ela, disposta a descer do carro na chuva e descontar sua raiva no guarda Martins. Nadine foi trazida de volta � realidade por uma buzina insistente atr�s dela, avisando que o sinal estava verde. Novamente foi tomada por um acesso de raiva, afinal quem estaria com tanta pressa naquele fim de mundo?... E como Nadine estava disposta a brigar com algu�m mesmo, n�o teve d�vidas: puxou o freio de m�o, desceu da caminhonete e caminhou em dire��o ao carro branco que havia buzinado atr�s dela:

- Escuta aqui... qual � a tua!!! T� com pressa??? � disse aos brados dirigindo-se ao motorista, sem ver quem era.

Mabel baixou o vidro fum� e respondeu:

- Desculpe... eu n�o fiz por mal... que voc� devia estar distra�da, o sinal abriu j� faz um tempo...

Nadine, ao ver Mabel, ficou desconcertada. De fato estava sendo muito agressiva com quem n�o tinha culpa de sua irrita��o. Respirou fundo, baixou os olhos e respondeu:

- Por favor, quem deve se desculpar sou eu. Realmente estava distra�da. Desculpe...

Dizendo isto deu as costas � Mabel, entrando novamente na caminhonete e seguindo para a loja de ferragens. Mabel observou a figura de Nadine se afastando, seus ombros largos sob a jaqueta imperme�vel, corpo bem definido, lindos olhos azuis. Os cabelos longos, escuros e molhados emolduravam o rosto moreno. Devia medir cerca de 1.80m, cal�ava botas de couro e cal�a jeans. �Que mulher linda...� pensou Mabel, afastando rapidamente tal pensamento de sua mente, afinal havia vindo para dar um rumo � sua vida, e ficar sozinha, longe de tudo e de confus�es, principalmente as de natureza amorosa. Abasteceu o carro e seguiu rumo � Itamoema, para a Pousada dos Sonhos. O frentista do posto de combust�vel havia lhe dado as indica��es que precisava para se localizar. Ap�s rodar cerca de dezoito quil�metros entrou na estrada de ch�o batido, conforme lhe haviam informado. A estrada se encontrava em p�ssimas condi��es devido � chuva, muitos buracos e lama. Em certos trechos a estrada estava bastante escorregadia, mas Mabel estava tranq�ila, afinal estava quase chegando a seu destino.

 

 

********************

 

 

Nadine havia entrado na sua caminhonete e seguido em dire��o � ferragem com a imagem do rosto da mulher do carro branco na mente. Estava envergonhada por sua atitude impulsiva. Havia sido grosseira com uma pessoa desconhecida, e sem necessidade. Precisava controlar o seu g�nio, pensava enquanto manobrava a caminhonete no estacionamento. Lembrava do rosto delicado, da pele clara e dos olhos verdes, como duas esmeraldas. A boca afilada e a voz tranq�ila e melodiosa. �Eu sou mesmo uma cavalgadura!!!� pensava Nadine. �Mas j� passou, n�o adianta chorar pelo leite derramado... j� pedi desculpas e pronto! E a gente n�o vai se ver mais mesmo...� continuava Nadine em seu mon�logo mental. �Mas ela n�o � daqui... eu nunca vi. Deve estar de passagem. Mas tamb�m, precisava buzinar??? Eu tenho verdadeiro pavor de gente me atucanando... Porcaria de vida!!!�

Afastando esses pensamentos Nadine realizou a troca da pe�a do trator sem maiores problemas. Aproveitou para comprar um novo pelego para sua �gua e embarcou na Pimentinha para retornar � Pousada.

Dirigia devagar pela estrada de ch�o batido, pois a mesma estava enlameada e escorregadia. Quando faltavam menos de tr�s quil�metros para chegar na pousada, logo ap�s uma curva mais fechada, Nadine freou a caminhonete, pois � sua frente se encontrava um carro parado e atravessado na pista, totalmente atolado na lama. Nadine reconheceu o carro e desceu da caminhonete, indo ao encontro do Ford Focus branco.

A motorista j� se encontrava com o vidro semi-aberto e sorriu sem gra�a para Nadine:

- Voc� vai me xingar de novo, n�?

Nadine sorriu, tamb�m sem gra�a e respondeu:

- N�o... claro que n�o...

- Voc� poderia me ajudar?

Fazendo um sinal de positivo com a cabe�a Nadine voltou para a caminhonete e pegou o cabo de a�o para desatolar o carro de Mabel. Esta desceu do carro e atolou os p�s na lama.

- Eu ajudo voc�...

- N�o precisa, n�o... volta para o carro. Liga a chave, s� a el�trica, e deixa em ponto morto.

Nadine colocou o cabo de a�o no dispositivo do Focus, pr�prio para guincho, e retornou para a caminhonete. Vagarosamente foi dando r� at� que o carro branco desatolou, ficando novamente no sentido do fluxo da estrada. Como o trecho estava intransit�vel para qualquer carro que n�o fosse caminhonete com tra��o nas quatro rodas, foi necess�rio que Nadine rebocasse o carro de Mabel por cerca de duzentos metros. Quando chegaram numa parte firme da estrada ambas desceram. Nadine desprendeu o cabo de a�o e Mabel agradeceu pela ajuda.

- Quanto eu te devo? � questionou Mabel.

- Nada.

- Ent�o muito obrigada.

Nadine esbo�ou um sorriso t�mido e ficou calada.

- Como � o seu nome? � perguntou Mabel.

- Nadine. E o seu?

- Isabela. Prazer.

- Igualmente.

Seguiu-se novo sil�ncio quebrado por Mabel:

- Voc� sabe onde fica a Pousada dos Sonhos?

- Sei... � respondeu Nadine � � s� me seguir... eu estou indo para l�.

- �timo! Fiz reserva para passar alguns dias l�. � respondeu Mabel entrando em seu carro.

 

 

Nadine dirigia devagar, olhando pelo retrovisor para ver se a sua acompanhante n�o iria se atolar de novo. �Isabela... Maria Isabela Hoffman Lopes Santini... era ela sim�, pensava Nadine rindo de si mesma ao lembrar que havia imaginado uma senhora aposentada, ou vi�va... que piada. E que bela mulher era aquela. Pequena e delicada, olhos espetacularmente verdes... �Mas o que � isso, Nadine! Nada de pensar bobagens, ainda mais quando se trata de h�spede... chega de confus�o nessa tua vida!!!�

 

***************

 

Com esses devaneios permeando os pensamentos de Nadine os carros penetraram na porteira da Pousada dos Sonhos. �quela altura da tarde a chuva havia estiado e o c�u estava azulado perto da linha do horizonte, embora ainda ao sul houvessem nuvens espessas e cinzentas. Mabel seguiu Nadine e estacionou o carro nos fundos da Pousada. Desembarcaram e Nadine conduziu Mabel para o hall de entrada. Olga havia escutado a movimenta��o dos ve�culos e j� se encontrava � espera na frente da pousada. Nadine entrou na frente e antes que tivesse tempo de apresentar Mabel, Olga olhou-a de cima abaixo e come�ou seu discurso:

- �ch... minha querida... olha o estado que est�s... o cabelo todo molhado, e as botas enlameadas, deve estar com as meias �midas e os p�s gelados, vais pegar um resfriado, depois tosse a noite toda! E tudo por causa da teimosia!!! Precisava trocar essa maldita pe�a do trator hoje? E aquele velho desocupado do Feliciano poderia ter ido! Vai j� tomar um banho quente, princesinha!...

Nadine escutava o discurso impass�vel, pois sabia que de nada adiantaria tentar conter a enxurrada de recomenda��es e reclama��es de Olga. Mas quando esta a chamou de �princesinha� perto de uma pessoa desconhecida, sentiu o sangue ferver-lhe nas veias!

�Princesinha...� pensou Mabel rindo consigo mesma. Se existia algum codinome que n�o combinava com a dona era aquele, pelo menos o �inha�.

- Olga... � grunhiu Nadine entre dentes � essa � a h�spede que esper�vamos, Isabela.

- Muito prazer! Seja bem vinda! � disse Olga efusivamente, dirigindo-se � Mabel, completamente alheia ao olhar de reprova��o e irrita��o de Nadine � Como foi a viagem???

Olhando para Mabel mais detalhadamente percebeu que tamb�m estava tomada de lama e questionou:

- Mas, afinal o que aconteceu? Voc�s duas est�o imundas!!!

- Olga... � repreendeu Nadine.

- Ora, imundas no bom sentido... essa Nadine � muito implicante � disse Olga sorrindo e dirigindo o olhar para Mabel.

- Meu carro atolou na estrada e Nadine fez a gentileza de me socorrer � respondeu Mabel, em tom de agradecimento.

� Mas venha, venha, vou lev�-la at� seu quarto. Nadine, pe�a pro Feliciano buscar a bagagem da mo�a!

Nadine deu meia volta sem responder e Olga a observou por cima do ombro. �Furiosa... minha menina est� furiosa... o que ter� acontecido?...� seguiu pensativa conduzindo Mabel para seu quarto. Por vezes Olga n�o se dava conta que tratava Nadine como se esta ainda tivesse cinco anos de idade. Por ter perdido a m�e t�o cedo acabou superprotegendo a menina. Por sorte Gi�como fazia o contraponto e dava � filha a autonomia que precisava para aprender a encarar os conflitos do cotidiano. No fundo Nadine compreendia as preocupa��es de Olga e nutria por ela um amor incondicional, mas n�o conseguia deixar de se irritar com o excesso de zelo da m�e adotiva.

Nadine n�o chegou a procurar Feliciano, descarregando ela mesma a bagagem de Mabel. Eram quatro malas e uma valise de m�o. �Quanta tralheira...� pensou Nadine, enquanto depositava as malas, uma a uma, no sagu�o de entrada. Nisto Feliciano entrou pela porta dos fundos e, sol�cito, carregou tr�s malas de uma s� vez para cima, depositando-as no interior do quarto de Mabel.

- Isabela, este � Feliciano! � disse Olga.

- Muito prazer, senhorita... Feliciano, um seu criado... - disse o velho tirando seu chap�u e estendendo a m�o para Mabel.

- O prazer � todo meu � respondeu Mabel retribuindo o aperto de m�o e sorrindo frente � simpatia do anci�o.

- Qualquer coisa que precisar � s� tocar a campainha. � informou Olga, indicando um interruptor num canto do aposento. � As toalhas j� est�o no banheiro e daqui a duas horas a janta estar� servida.

- Obrigada, Olga. Vou tomar um banho e depois eu des�o.

Olga se virou deixando Mabel no quarto e cruzando com Nadine que vinha subindo a escada com a ultima mala de Mabel e sua valise de m�o. Ao passar por Nadine sapecou-lhe um beijo na face e reafirmou:

- J� pro banho!!!

Nadine fez cara de brava, mas n�o conseguiu mant�-la frente ao gesto afetivo de Olga. Retribuiu o beijo e respondeu:

- Tudo bem... j� estou indo... antes vou entregar essa mala, que ali�s deve ter chumbo dentro!

Olga sorriu e desceu a escadaria. Nadine chegou ao quarto de Mabel e encontrou a porta entreaberta. Espiou discretamente para dentro e viu que a nova h�spede estava na janela, admirando a paisagem do vale que se descortinava encosta abaixo. Bateu levemente na porta atraindo a aten��o de Mabel.

- Com licen�a. Sua mala. Onde devo colocar? � questionou Nadine entrando no aposento.

- Pode deixar que eu mesma pego, est� pesada.

- �, eu sei! Quero dizer, nem tanto...

Mabel fez men��o de pegar a mala e elas acabaram quase que se esbarrando no meio do quarto. Mabel olhou Nadine nos olhos e sorriu da cena:

- Desculpe, n�o quis atropela-la...

- Tudo bem, a culpa � minha. Sou meio desajeitada mesmo... � emendou Nadine, largando a mala perto da cama e baixando os olhos, evitando encarar Mabel. � Se precisar de algo � s� chamar.

- Voc� trabalha aqui? � perguntou Mabel.

- Sim. � respondeu Nadine enquanto se virava para sair. � Boa noite.

- Boa noite � respondeu Mabel � e muito obrigada... princesinha.

Nadine mal acreditou no que ouviu. Olhou Mabel nos olhos e novamente o sangue lhe subiu �s faces. A raiva que estava pouco a pouco sendo abrandada aflorou novamente. Nadine, por�m engoliu em seco, fechou a cara, virou-se e saiu caminhando a passos largos e r�pidos, escada abaixo. Passou por Olga como um furac�o e sentiu vontade de dizer-lhe umas verdades, mas achou melhor ir para casa.

No quarto Mabel divertiu-se com a situa��o. Enquanto tomava banho pensava na figura de Nadine. �Mulher enigm�tica... parece muito senhora de si. Meio arrogante, at�. Mas com olhos lindos...� �E deve ser gay, ou n�o? Deve ser sim, tem todo o jeito. Mas tamb�m n�o me interessa! N�o vim aqui para arrumar sarna pra me co�ar...� �Se bem que eu podia ter lhe poupado do �princesinha�, ela ficou furiosa... mas eu n�o tinha como adivinhar que ela se irritaria tanto! Problema dela! Que se desestresse, eu estava s� brincando.

 

 

********************

 

 

Na trilha que levava para a casa de Nadine, esta caminhava chutando as pedras do caminho. Pensava: �mas o que essa mulherzinha pensa que �???... n�o lhe dei esse tipo de liberdade! Mas a culpa � da Olga, que n�o tem travas na l�ngua! Agora vou ter que ag�entar a goza��o dessa uma at� sabe-se l� quando... mas isso n�o vai ficar assim! Se bem que, pela minha cara, ela deve ter percebido o quanto foi infeliz na coloca��o! Tudo bem, foi brincadeira, eu sei... mas n�o gosto de ousadias de pessoas estranhas.

Nadine entrou em sua casa, tirou as botas e a jaqueta e foi direto para o banho. Precisava de �gua quente. Encheu a banheira do seu quarto e mergulhou naquela �gua maravilhosamente acolhedora. Come�ou a relaxar sentindo o calor invadir-lhe por completo. Realmente estava com os p�s congelados, Olga tinha raz�o. Lavou os longos cabelos negros e colocou creme rinse, enrolando-os numa toalha enquanto permanecia por mais um tempo sentindo o borbulhar da hidromassagem nas costas e na planta dos p�s. Depois de quase meia hora enxaguou os cabelos, enrolou-se numa toalha verde oliva felpuda e foi para o quarto vestir uma roupa mais quente. Secou os cabelos e colocou um pijama confort�vel. Resolveu que n�o sairia mais de casa naquele dia. A noite j� havia ca�do e Nadine preparou um lanche. Esquentou leite e preparou chocolate quente. Enquanto sorvia a bebida em pequenos goles pensava em Mabel. Era uma mulher bela, interessante, meio metida, mas linda. Mas n�o tinha jeito de gostar de mulheres, n�o. Pelo menos n�o parecia. �Deve ter marido e filhos� pensava Nadine. �Se bem que, se tivesse filhos n�o viria para passar uma temporada por tempo indefinido...� �O que ser� que ela faz da vida? Al�m de fazer piadinhas sem gra�a...� �Nadine, Nadine, vamos mudar o rumo dessa prosa...

 

Nadine saboreava uma torrada com queijo colonial e continuava a pensar na vida. J� estava sozinha h� quase dois anos, mas estava bem. Pelo menos sem cobran�as, discuss�es e cenas de ci�mes. No entanto admitia para si mesma sentir falta de uma companhia, n�o s� amigos, pois tinha a amizade sincera de Fredi e Marcos. N�o era s� isso. Sentia falta de uma mulher para amar. Ansiava pelo toque quente e pelas m�os carinhosas, desejava ter uma companheira para dividir seu dia a dia, para conversar horas a fio sobre as coisas da vida, para cavalgar, para ficar junto sem fazer absolutamente nada, contar estrelas, esquentar os p�s no inverno e tomar banho de cascata no ver�o. Em seu �ntimo desejava mais do que uma transa eventual, almejava n�o s� uma paix�o, mas um amor verdadeiro. Por�m quando pensava nessas quest�es tratava de afasta-las do pensamento: �bobagens...� dizia para si mesma, �...isso s� existe nos contos de fadas, Nadine! Cai na real.�

 

Nadine estava cansada e se deitou cedo. Logo pegou no sono, por�m este foi povoado de sonhos indefinidos, onde uma figura pequena e de olhos verdes teimava em aparecer com um sorriso de deboche, dizendo: �princesinha...� Ao acordar come�ou a se dar conta da qu�mica que se processava dentro dela ao deparar-se com Mabel. E, pensando em se preservar e n�o sofrer mais, nunca mais, decidiu que ficaria o mais afastada poss�vel dela.

 

 

******************

 

 

Na sala de jantar da pousada Mabel saboreava a comida preparada com esmero por Olga. Estava deliciosa, sem falar das sobremesas. Precisava tomar cuidado ou sua estadia na Pousada dos Sonhos lhe renderia o pesadelo de muitos quilos a mais na balan�a... Era a �nica h�spede naquele dia, por ser uma quinta-feira. A maioria das pessoas chegavam entre sexta e s�bado.

Mabel estava curiosa para descobrir o que Nadine fazia na Pousada. Ela n�o aparecera para jantar, portanto deveria ser servi�al, fazer suas refei��es na cozinha, ou quem sabe n�o morava l� e tinha ido para casa. Ser� que morava com algu�m? Chegou a quase questionar com Olga, mas considerou mais �tico n�o bisbilhotar a vida alheia, pelo menos assim descaradamente. Teria tempo suficiente para descobrir. Olga conversou um pouco com ela:

- De onde voc� �, filha?

- De S�o Paulo. � respondeu Mabel.

- E como descobriu nossa pousada?

- Pela p�gina da internet.

- �ch... essas coisas eu n�o entendo... � disse Olga sorrindo � como � que tem tanta coisa dentro daquela maquininha pequena, a gente consegue saber coisas de todo o mundo!

Mabel sorriu frente � ingenuidade e franqueza de Olga.

- Nadine j� tentou me ensinar, mas eu n�o entendo. E voc� faz o que? � bisbilhotou Olga.

- Eu sou Artista Pl�stica.

- Artista... que lindo!!! � disse Olga encantada. � Mas faz aqueles quadros sem p� nem cabe�a, que ningu�m entende?...

- Tamb�m, Olga, tamb�m... gosto do abstrato, mas tamb�m trabalho o convencional, o �que todo mundo sabe o que �... � respondeu sorrindo.

- Que lindo!!! Mas me d� licen�a, fique � vontade que eu preciso cuidar das minhas obriga��es.

Dizendo isso Olga se afastou de Mabel. Esta ficou rindo da espontaneidade e simpatia da velha senhora. Bom, j� havia descoberto que Nadine entendia de computa��o, logo n�o poderia ser t�o chucra como parecia. De fato, Nadine parecia ser uma mulher culta, �pavio curto, mas estudada...� pensou Mabel.

Ap�s o jantar telefonou para sua m�e e recolheu-se para seu quarto. Dormiu cedo, pois estava exausta da viagem.

 

 

******************

 

 

O dia seguinte amanheceu chuvoso, uma garoa fina ca�a incessante por sobre a Pousada dos Sonhos. Devido a previs�o de tempo chuvoso para todo o final de semana houveram desist�ncias de reservas e somente um pequeno grupo de cinco amigos confirmaram a chegada para s�bado pela manh�.

 

Naquela sexta-feira Nadine tratou de trabalhar no galp�o, juntamente com Z� Paulo, para deixar o trator pronto para o preparo da terra. O tempo passou r�pido e nem chegou a ir at� a Pousada. Olga foi levar o almo�o para os dois no galp�o e comentou:

- A nova h�spede � uma simpatia, n�o � mesmo, Nadine?

- Nem reparei. � respondeu secamente Nadine, enquanto limpava as m�os engraxadas numa estopa embebida em solvente.

- Ela veio de S�o Paulo. � artista! � comentou Olga.

- S� podia! � respondeu Nadine.

- Como assim, Nadine? N�o vai me implicar com a mo�a, ein?

- E eu sou de implicar com os outros???...

Olga e Z� Pedro se entreolharam e sorriram.

- Tudo bem, Olga, n�o vou implicar. Palavra de escoteiro! � disse Nadine com um gesto teatral, como se proferisse um juramento.

Olga deu uma palmada no traseiro de Nadine e esta pulou para a pequena mesa posta com seu prato de comida.

- Deixa eu ver essas m�os, - disse Olga � quero ver se est�o bem limpas para comer.

Pacientemente Nadine mostrou as palmas que havia lavado cuidadosamente com sab�o de mec�nico. Olga pegou as m�os de Nadine entre as suas e as beijou:

- Minha menininha... essas m�ozinhas n�o deviam fazer esse tipo de servi�o, isso...

- �...� coisa de homem...� � emendaram Nadine e Z� Pedro ao mesmo tempo, rindo da coloca��o de Olga, que sempre dizia a mesma coisa.

- Isso, debocha dessa velha que se preocupa contigo � respondeu Olga com as m�os na cintura e batendo o p� direito no ch�o em sinal de contrariedade.

Nadine levantou num pulo e abra�ou Olga pela cintura fazendo-a girar num bailado, como se dan�assem ao som de uma valsa imagin�ria.

- P�ra com isso, menina... Eu t� ficando tonta... � disse Olga rindo do rompante de Nadine. � N�o adianta Z� Pedro, essa menina n�o me leva a s�rio mesmo!

- Mas eu te amo, sua boba... eu te amo muito � dizia Nadine enquanto bailava e beijava as faces de Olga.

- Eu j� estou toda babada...

- B�, b�, b�... � debochou Nadine � vai lavar bem essa cara... � disse imitando a pose e os trejeitos de Olga.

 

Nadine e Z� Pedro terminaram o almo�o e continuaram na lida da arruma��o do trator. Conseguiram acabar o servi�o quase no in�cio da noite. A chuva havia estiado por completo e se vislumbrava um c�u azul no horizonte.

 

 

******************

 

 

Da janela de seu quarto Mabel tamb�m contemplava aquele c�u azulado, cujo contorno avermelhado por cima das montanha onde o sol se punha, indicava a imin�ncia de um dia de sol no s�bado, totalmente oposto ao que havia sido divulgado pela previs�o meteorol�gica.

Como o dia todo havia sido chuvoso, Mabel aproveitou para dormir bastante e colocar a leitura em dia. Faziam meses que n�o dedicava tempo � leitura. Em sua mala havia colocado v�rios livros sobre assuntos esot�ricos, revistas e material sobre arte. Teria muitas op��es para se divertir.

Enquanto observava o ocaso percebeu-se pensando na figura esguia de Nadine. N�o a tinha visto durante todo o dia, se bem que havia sa�do do quarto somente para as refei��es. Instantaneamente tratou de afastar tais pensamentos da cabe�a.

No dia seguinte, caso houvesse sol, planejava conhecer a Fazenda, ou poderia at� fazer uma trilha. Esperaria para ver.

 

 

******************

 

 

Conforme o pren�ncio alaranjado do ocaso, o s�bado amanheceu ostentando um c�u l�mpido e sem nuvens. Era bem cedo quando chegaram os demais h�spedes esperados. A claridade matinal rec�m despontava no horizonte delineando as montanhas e dando formas � natureza, que at� ent�o se encontrava encoberta pelo manto escuro da noite. Eram cinco jovens com idades entre 20 e 25 anos. Duas mo�as e tr�s rapazes. Alojaram-se em dois quartos. Ap�s o caf� da manh� j� estavam prontos para explorar a Fazenda, combinaram iniciar o dia com uma cavalgada.

Mabel tamb�m havia acordado cedo e ouvira a chegada efusiva do grupo. Lavou o rosto, vestiu-se e, ao abrir a janela, avistou ao longe a figura imponente de Nadine encilhando um cavalo ru�o, todo branco e com as crinas amareladas. Perto dela Feliciano puxava mais dois pelas r�deas. Pela movimenta��o percebeu que haveria uma cavalgada matinal. Abriu uma de suas malas e trocou o t�nis que j� havia cal�ado por um par de botas de cano curto, assim como a cal�a jeans por uma de lycra, para facilitar a montaria. Estava excitada, pois montara num cavalo somente uma vez na vida, quando ainda era crian�a, mas estava adorando a id�ia de repetir a experi�ncia. Desceu a escadaria da Pousada e entrou na sala de refei��es onde o caf� j� a aguardava, acompanhado dos mais variados petiscos preparados por Olga. Esta veio receb�-la de bra�os abertos:

- Venha, querida... o caf� est� na mesa!

Olga apresentou Mabel ao jovem grupo que acabava de fazer sua refei��o matinal e rumava para o p�tio lateral, ao encontro de onde estava Nadine. Mabel mal engoliu um peda�o de bolo e uma x�cara de caf� com leite e correu para juntar-se ao grupo, com medo de ficar para tr�s.

 

Nadine distribu�a as montarias para os h�spedes quando Mabel juntou-se a eles cumprimentando-a sorridente:

- Bom dia, Nadine.

- Bom dia. � respondeu com um monoss�labo.

- Bom dia Feliciano. � disse Mabel.

- Bom dia, dona Isabela. Como passou a noite?

- Dormi como um anjo! E voc� Nadine, dormiu bem? Ou com os p�s destapados? � brincou provocante Mabel.

Nadine respirou fundo e respondeu educadamente, por�m sem esbo�ar qualquer men��o de sorrir:

- Dormi bem...

Feliciano olhou Nadine pelo canto dos olhos e pensou: �esta cavalgada vai ser longa...

Mabel olhou para um cavalo baio, amarelo torrado, p�lo cuidadosamente escovado e brilhante e disse:

- Eu quero ir naquele cavalo.

- Naquele n�o. � respondeu Nadine.

- Mas porque n�o?

- Primeiro: porque �ele� n�o � cavalo, � uma �gua. E � minha. Segundo: porque ela � temperamental, n�o gosta de estranhos.

- Parece que n�o � s� ela... � continuou provocando Mabel.

Estrategicamente Feliciano interveio e ofereceu uma �gua extremamente d�cil para Mabel, toda preta, com olhar meigo, passo lento e cadenciado.

- A senhorita j� montou alguma vez?

- Uma vez s�, quando eu era pequena... � respondeu Mabel. E dirigindo o olhar para Nadine continuou - ...mas � como se eu houvesse nascido sobre um cavalo!

- Sei... � grunhiu Nadine.

- Eu a ajudo a montar, senhorita. � disse Feliciano entrela�ando as m�os para que Mabel pudesse apoiar seu joelho.

Para surpresa de Nadine at� que Mabel conseguiu manter-se relativamente bem sobre Jabu, diminutivo de Jabuticaba, nome escolhido em virtude da cor da �gua, que era preta e lustrosa como o �bano. Feliciano segurava as r�deas de Jabu enquanto Nadine cavalgava mais a frente com o restante do grupo.

- Feliciano, Nadine trabalha aqui h� muito tempo? � futricou Mabel curiosamente.

Feliciano sorriu e respondeu:

- Sim... muito tempo... ela nasceu aqui. Ali�s, eu tamb�m. Sou amigo e me criei com o pai dela.

- Ah, o pai dela tamb�m trabalha aqui?

- Bom, aqui n�o. No momento ele est� em sua fazenda de gado no Mato Grosso. Por aqui ficou s� a Nadine, tocando os neg�cios da fam�lia.

Mabel co�ou a nuca e continuou o di�logo:

- Ent�o ela � a dona da Pousada?

- �.

- Por isso a arrog�ncia...

- Como, senhorita?

- Nada, nada, pensei alto.

�Mas � �bvio que s� poderia ser a dona, pois patr�o nenhum admitiria uma servi�al t�o... t�o, digamos, temperamental� pensava Mabel.

- Feliciano, a Nadine mora na Pousada?

- Mora numa casa na Fazenda, por�m afastada da Pousada, perto da cascatinha.

- Mora sozinha?

- Sim... mas porque a pergunta?

- Nada, nada n�o, s� curiosidade. Pensei que pudesse ser casada e viver na cidade...

- N�o, ela vive sozinha mesmo, nunca casou. - Feliciano deu uma tossidinha discreta e mudou o rumo da conversa � O que a senhorita est� achando da Pousada?

- Estou adorando esse verde todo ao redor. Estava precisando disso.

- Que bom. Vai ficar at� quando?

- N�o sei ainda, trinta dias, talvez... tudo depende...

- Depende do que?

- Do meu estado de �nimo... � respondeu Mabel com um suspiro.

 

Feliciano se calou e continuaram o passeio at� a beira de um riacho onde a �gua l�mpida e gelada escorria brejeiramente por sobre as pedras tomadas de limo. Um pouco mais � esquerda do cen�rio uma pequena cascata de uns cinco metros de altura caia formando uma bacia em frente a uma caverna escavada nas rochas pela natureza. Podia-se chegar nessa caverna natural coberta de musgo somente a nado. Nadine costumava brincar ali quando crian�a, para desespero de Olga, que via a garota serelepe projetar-se no vazio de bra�os abertos, como se al�asse v�o das pedras, indo cair bem no meio da piscina natural formada pela cascata. Ainda hoje Nadine costumava nadar naquele local.

Desmontaram e iniciaram um passeio pelos arredores. Nadine tentava se esquivar de Mabel, por�m em determinada parte da caminhada esta �ltima emparelhou o passo com a primeira, aproximando-se por tr�s. Olhando para Nadine, Mabel referiu:

- Olha s�... eu queria me desculpar pela brincadeira da �princesinha�... eu n�o queria que tivesse ficado chateada...

- Tudo bem... � respondeu Nadine mais tranq�ila - ...� que eu tenho um pouco de bronca com essas coloca��es da Olga... ela me trata como se eu ainda fosse crian�a.

- Por certo � porque ela gosta muito de voc�.

- Eu sei, na verdade Olga � como se fosse minha m�e...

- E a sua m�e?

- Morreu quando eu ainda era beb�, n�o tenho nenhuma lembran�a dela, s� conheci por fotos.

- Sinto muito.

- Tudo bem, Olga conseguiu suprir a minha car�ncia de m�e. � disse Nadine em tom de brincadeira.

- Deu pra perceber... � sorriu Mabel. Depois de um sil�ncio n�o resistiu e alfinetou novamente � Mas voc� poderia ter me emprestado a sua �gua...

Nadine parou abruptamente, virou-se para Mabel e quando esta �ltima esperava uma enxurrada de desaforos, percebeu um par de olhos azuis diretamente fitando os seus, e uma voz branda lhe dizendo:

- Eu n�o quero que ela te machuque... eu j� falei, ela n�o permite que mais ningu�m a monte, al�m de mim, e de Feliciano.

- Mas garanto que ela iria gostar de mim...

 

Nadine balan�ou a cabe�a e continuou a caminhada pensativa, �que mulher teimosa, uma jumenta empacada...�. Enquanto isso Mabel tamb�m seguia com seus pr�prios pensamentos: �arrogante, sempre arrogante, acha que s� ela sabe fazer as coisas e tomar p� das situa��es...�.

Mabel observava Nadine que havia acelerado o passo e alcan�ado o grupo que ia mais � frente. Vestia uma cal�a justa marrom escura, pr�pria para equita��o, que marcava cada curva de suas pernas e n�degas. As botas pretas, de cano alto, pareciam encompridar ainda mais aquele par de pernas que pareciam duas colunas de templos gregos. Trajava uma jaqueta vermelha, curta, de mangas longas, deixando a mostra a gola rol� da blusa de l� salm�o que vestia por baixo. Apesar da aparente frieza Mabel se sentia atra�da por ela. Aquela figura lhe era enigm�tica. O que esconderia por tr�s daquela pose arrogante? Mabel caminhava pensativa: �...o mais engra�ado � que ela parece ficar desconcertada cada vez que eu chego perto...�, �ah, se eu n�o estivesse disposta a dar um tempo... bem que poderia investir meu charme naquele belo par de olhos azuis... e de pernas...�

 

Continuaram costeando o arroio e a paisagem que se descortinava era exuberante. Pararam numa clareira na mata, onde o cen�rio conjugava em perfeita sintonia as montanhas e o vale, a excita��o da cachoeira e a calmaria da copa das �rvores naquele dia sem vento, o azul do c�u e o verde dos campos, o barulho violento da queda d��gua e a cantiga suave dos p�ssaros nos ninhos. Mabel estava embevecida. Fechou os olhos e embriagou-se com o perfume da mata. Recostou-se num tronco de �rvore e ficou observando por algum tempo a in�rcia da natureza e o movimento lento das sombras das �rvores, conforme o sol se deslocava no c�u de brigadeiro. Volta e meia seus olhos procuravam por Nadine e em determinada hora sorriu feliz por estar vivendo aqueles momentos de comunh�o com a natureza... e consigo mesma. Experimentou uma sensa��o de paz que h� muito tempo havia esquecido, em algum lugar do passado...

 

Perto do meio dia retornaram para a Pousada, onde Olga j� aguardava o grupo com o almo�o pronto. Durante a manh� a temperatura come�ou a aumentar e j� deveria estar perto dos 20� quando cruzaram o p�rtico de entrada da casa grande. Nadine havia tirado a jaqueta e caminhava com a pe�a vermelha jogada descuidadamente sobre os ombros. �Como � charmosa...� pensou Mabel. Seus olhos verdes se iluminaram quando Nadine pegou um prato e serviu-se, sinal de que almo�aria com eles. Mabel sentou quase que � sua frente e a observava discretamente. Nadine tinha classe. Observando bem, n�o tinha nada de chucra, nem de mal educada, como pensou a primeira vista.

Almo�aram em sil�ncio e combinaram fazer uma trilha �s treze horas. Teriam cerca de quarenta minutos para descansar. Mabel foi at� seu quarto e tomou um banho r�pido. Colocou seu perfume preferido e um conjunto em tom verde musgo, que real�ava a cor de seus olhos.

Antes das treze horas j� esperava pronta no hall de entrada.

 

 

******************

 

 

Quando Nadine pisou na soleira da porta de entrada da Pousada viu a silhueta do perfil de Mabel. Esta encontrava-se sentada numa cadeira de encosto alto, bastante antiga, que ficava ao lado da mesinha do telefone. Parou por um momento para observa-la. Estava com as m�os sobre os joelhos e parecia aguardar ansiosamente por algo. Nadine esbo�ou um sorriso, pois encantou-se com a aura de expectativa da artista, tal qual uma crian�a que espera seu presente de anivers�rio. �Que gracinha...� pensou Nadine. Observou o perfil de Mabel e o quanto seu narizinho era charmoso. Nesse momento Mabel pressentiu que a observavam e virou seu rosto em dire��o � Nadine. Esta ainda tentou disfar�ar, mas ficou evidente que olhava para ela. Mabel sorriu e franziu o pequeno nariz no sorriso, deixando Nadine encantada com sua express�o de contentamento ante ao passeio que estavam por realizar. �Ou ser� que ficou feliz ao me ver?...� pensou Nadine, �Bobagem... deve estar contente com as oportunidades que ter� de me tirar do s�rio durante a tarde!... isso sim...�

- Eu j� estou pronta!!! � disse Mabel colocando-se em p� num pulo.

Para n�o perder a pose, Nadine fechou a cara, passou por ela e disse s�ria:

- Que bom. � e olhando para seus p�s retrucou � Troque as botas por um par de t�nis, vamos caminhar bastante.

- Mas...

Antes que Mabel pudesse argumentar Nadine j� havia cruzado pelo hall de entrada e sa�do pela porta da cozinha.

�Que grossa... custava dizer isso de forma mais... mais amig�vel?... mas acho melhor colocar os meus t�nis mesmo...�, remoeu Mabel consigo mesma enquanto subia as escadas em dire��o a seu quarto. N�o levou mais do que cinco minutos para retornar e ao chegar no p�tio o grupo j� a aguardava.

- Muito bem, - disse Nadine � agora que os retardat�rios j� chegaram vamos seguir para a trilha.

Mabel sentiu o sangue subir-lhe pelas faces, mas n�o teve tempo de responder, pois Nadine j� caminhava com passos largos � frente do grupo. �Que injusti�a!!! Eu fui a primeira a descer. Ela que me mandou colocar esses malditos t�nis!!! Que raiva!!! Como pode ser t�o est�pida! E eu t�o idiota de me alegrar quando a vejo! Raios!� pensava Mabel enquanto seguia por �ltimo na fila que j� havia se formado.

�Eu podia ter pegado mais leve�, pensava Nadine, �mas fica pelo �princesinha� do outro dia�.

Feliciano seguia com eles e observava atentamente Nadine e Mabel. Ele era um velho perspicaz e havia se dado conta do clima entre as duas: �N�o sei n�o... elas parecem que d�o choque s� de se olhar... ou muito me engano ou essa hist�ria ainda vai dar pano para manga... eu s� n�o quero que a minha menininha sofra.

 

Caminharam por cerca de duas horas por uma trilha bem conservada e de f�cil acesso. Grande parte do trecho era em subida e as pernas de Mabel pareciam estar pesando mais que o resto do corpo. N�o estava habituada a maiores esfor�os f�sicos. Costumava malhar na academia, n�o muito, mas aquele tipo de esfor�o era diferente. Percebeu que todos levavam mochilas �s costas. Ela n�o levou nada, ali�s n�o saberia o que levar para o meio do mato. Pela metade do caminho de ida come�ou a sentir sede. Todos haviam levado garrafinhas d��gua, menos ela, e n�o daria o bra�o a torcer pedindo �gua para quem quer que fosse.

Nadine ia dando explica��es sobre as plantas, o solo, as �rvores e a geografia local. Mabel prestava aten��o e percebeu o quanto aquela mulher dominava o assunto. �Qual ser� sua forma��o?� pensava. Quando chegaram a uma clareira no alto de uma montanha pararam para descansar. Mabel sentou-se exausta, suando em bicas. Feliciano estava sentado ao lado de Nadine e fez men��o de se levantar para oferecer �gua � Mabel, quando Nadine discretamente segurou-o pelo bra�o, fazendo-o sentar-se novamente. Pegou seu cantil, levantou-se e caminhou em dire��o � artista. Havia percebido que Mabel n�o trouxera nem sequer �gua e ficou com pena dela. No fundo queria que sentisse um pouco as dificuldades da vida no campo, mas mata-la de sede j� era demais!

Ao perceber a aproxima��o de Nadine, Mabel preparou-se para se defender do que viesse pela frente. Para sua surpresa Nadine sentou-se a seu lado, sorveu um longo gole de �gua de seu cantil e depois o ofereceu � Mabel. Esta chegou a pensar em recusar, mas se deu conta que desfaleceria. Pegou o cantil e bebeu aquele l�quido precioso com avidez, at� o �ltimo gole. Ao perceber que havia tomado toda a �gua desconcertou-se:

- Nossa... desculpe... eu n�o percebi que s� tinha um pouco... e te deixei sem...

- N�o tinha pouco... mas tudo bem, estamos perto de uma fonte natural.

�Estamos perto de uma fonte natural... porque ela n�o me disse isso antes... a� eu n�o teria tomado essa �gua babada!� remoeu Mabel.

- Est� cansada? � perguntou Nadine.

- N�o, nem um pouco!

- Pois parece...

- Mas n�o estou!

- Tudo bem, tudo bem... que esta trilha � uma subida e tanto. At� eu canso.

�At� eu canso... b�, b�, b�... at� a mulher maravilha cansa� debochou Mabel em pensamento. Olhando para Nadine n�o deixou por menos:

- Olha aqui, voc� foi injusta comigo agora a pouco! Eu fui a primeira a me aprontar para a caminhada! Antes da hora combinada eu j� estava no sagu�o! E foi voc� quem me mandou botar os t�nis!

- Sugeri.

- Tudo bem, sugeriu. E eu achei boa a sugest�o, tanto que troquei as botas por eles!

- Ainda bem, sen�o al�m de sedenta estaria com os p�s arrebentados.

- E posso saber porque vossa senhoria n�o me sugeriu trazer um cantil?

- Porque eu pensei que vossa onipot�ncia iria imaginar que sentiria sede!

- Mas eu n�o sabia que era t�o longe! Olha, o que � que voc� tem contra mim? J� percebeu que vive me retrucando?

Nadine se desarmou um pouco e respondeu mais brandamente:

- � que voc� � meio teimosa...

- Mas precisa implicar tanto?...

Nadine ficou em sil�ncio e baixou os olhos, Mabel continuou:

- Olha s�... vamos combinar assim: eu teimo menos e voc� implica menos tamb�m, ok? � disse estendendo a m�o para Nadine.

Esta olhou para a pequena m�o estendida no intuito de firmar um pacto. Olhou Mabel nos olhos, sorriu e retribuiu o aperto de m�o:

- Combinado.

Quando as m�os se tocaram Nadine sentiu um calor subindo-lhe pelas faces. Os olhos de Mabel encontraram os dela e as m�os ficaram unidas por um tempo maior do que o necess�rio para firmar um acordo de paz. O toque da m�o de Mabel era suave, mas firme. Sua pequena e delicada m�o era quente e acolhedora. Mabel sentia a m�o forte de Nadine envolver toda a sua e era como se estivesse sendo protegida de todos os perigos do mundo por aquele toque. Foram trazidas de volta � realidade por Feliciano, que deu uma tossidinha discreta ao chegar perto delas. Soltaram as m�os rapidamente enquanto Feliciano questionava sobre os rumos que tomariam daquele ponto em diante.

Estavam numa clareira que dava acesso a outras sete trilhas secund�rias e sinalizadas. Nadine levantou-se e pediu a aten��o do grupo:

- Pessoal !!! Por favor... Cheguem mais perto, por favor. � o seguinte: desse ponto em diante cada um dos presentes pode seguir pela trilha que escolher. Todas as placas indicam aonde as trilhas levam. Mas prestem aten��o: n�o andem sozinhos. Andem pelo menos de dois em dois. E muito importante: mantenham-se nas trilhas principais, as que s�o sinalizadas. Em hip�tese nenhuma penetrem nas trilhas naturais abertas na mata pelos animais ou pelo pessoal da manuten��o, pois estas n�o possuem sinaliza��o e s�o perigosas para quem n�o as conhece. Repetindo: SOMENTE nas trilhas sinalizadas, ok?

- OK!!! � responderam os jovens.

Nadine continuou:

- S�o quase 15:00 horas. Vamos nos reencontrar aqui as 16:30 horas para retornarmos � Pousada ainda com a luz do dia, certo?

- CERTO !!! � gritaram todos, espalhando-se pela clareira em grupos de dois, pois Feliciano foi com eles.

 

Mabel n�o fez men��o de se levantar e Nadine foi para junto dela:

- N�o quer dar uma volta?

- Acho que n�o... apesar de n�o estar cansada, vou ficar por aqui mesmo, apreciando a paisagem.

- Sei...

- Mas se voc� quiser ir com eles, eu fico aqui meditando.

- E quem iria protege-la das on�as?

- ON�AS ?... � disse Mabel, sobressaltada � Tem on�as por aqui???

- Brincadeirinha... � respondeu Nadine sorrindo.

Mabel n�o perdeu a pose:

- Olha, n�o � que eu tenha medo de on�as, mas � que eu n�o levo muito jeito com felinos... tenho asma!

- Ah...

- S�rio! Nunca pude ter gatos. Se bem que eu sempre quis ter um gatinho, mas enquanto era pequena minha m�e nunca deixou. Por causa da asma! E depois que cresci n�o tive tempo para me dedicar a algum animalzinho de estima��o.

- Eu tenho uma gata.

- Verdade? E como ela se chama?

- Esmeralda.

- Ai que amor! Porque esmeralda?

- Por causa dos olhos... � respondeu Nadine encarando Mabel � olhos verdes e lindos, da cor dos teus.

Dessa vez � Mabel que ficou sem jeito e baixou os olhos, desconversando:

- E qual o nome da sua �gua?

- Atena.

- Nome de deusa...

- Pois �, acho que combina com ela.

- �... combina.

- T� com fome? � questionou Nadine.

- Um pouco, essa subida desgastou um pouco da minha reserva de energias.

- Ent�o vamos at� a trilha 2. Ela leva a um pomar. � bem perto.

- Nadine, na subida eu vi uma dessas estradinhas estreitas... - disse Mabel.

- Que N�O devem ser tomadas por pessoas de fora e desacompanhadas... � disse Nadine interrompendo a frase pela metade.

- Eu j� entendi... mas como eu ia dizendo, um atalho que levava at� uns pl�tanos maravilhosos! Eu adoraria fotograf�-los! � que depois eu transformo as fotos em telas.

- Existem outros milhares de pl�tanos por aqui. � disse Nadine.

- Mas eu quero aqueles! � respondeu Mabel com a m�o na cintura � � por causa da luminosidade da mata cerrada!

- J� falei que l� n�o d�.

- T� bom ent�o... arrumo outros.

- Isso mesmo.

 

Elas seguiram lado a lado por cerca de setenta metros dentro da mata at� nova clareira que descortinava um pequeno pomar, onde se encontravam laranjeiras, macieiras, bergamoteiras, jabuticabeiras, goiabeiras e um abacateiro enorme.

Com destreza Nadine subiu na laranjeira mais pr�xima e apanhou algumas laranjas de umbigo, as quais ia jogando uma a uma para Mabel que as aparava com a jaqueta que havia tirado. Ao descer pegou seu canivete que trazia na mochila e descascou as laranjas passando-as para Mabel, que se deliciava com as frutas maduras, doces e suculentas.

- Esse lugar � lindo!!! � exclamou Mabel. � �timo para servir de inspira��o para novos trabalhos. Acho que virei aqui mais seguido.

- Lembrando das recomenda��es que eu passei para a gurizada, tudo bem!

- Acha que eu n�o sei me cuidar, �?...

�Recome�ou a teimosia!�, pensou Nadine. �Recome�ou a mania de querer mandar!�, pensou Mabel.

- N�o � isso... s� estou dizendo que � perigoso...

- As vezes voc� fala igualzinha a minha m�e. At� parece que se conhecem... � retrucou Mabel.

- Que bom saber que sua m�e � uma pessoa ponderada!

- E exagerada tamb�m!

�N�o adianta, Nadine, essa a� � cabe�a dura! Mais f�cil ensinar uma vaca a voar do que essa criatura a ter um pingo de no��o de �algu�m sabe um pouco mais do que eu� !!!�, ruminava Nadine em seu �ntimo, novamente com aquela sensa��o de irrita��o lhe subindo pela fronte.

- Mas tudo bem... eu vou seguir as tuas orienta��es direitinho, certo? Pode ficar tranq�ila! � remendou Mabel, pressentindo a irrita��o de Nadine.

- Assim espero! Vamos retornar, pois j� est� quase na hora de iniciarmos a descida para casa.

- Vamos l� ent�o.

 

Elas encontraram o grupo e retornaram para a Pousada dos Sonhos. Nadine se despediu deles no hall de entrada e foi at� a cozinha. Mabel a observava por detr�s do v�o da porta. Nadine abra�ou Olga e esta lhe fez o sinal da cruz na testa, aben�oando-a e dizendo:

- Dorme com Deus e sonha com os anjos, minha filha.

Nadine deu um beijo em Olga e se preparava para sair quando Mabel a chamou:

- Nadine!

Nadine se voltou em sua dire��o:

- O que?

- O que vamos fazer amanh�?

- Atividade livre.

- Mas o que voc� sugere?

- Olha... voc� pode fazer o que quiser...

- Eu queria ter emo��es fortes!!! Estou adorando essa coisa de poder encontrar uma on�a... � brincou Mabel.

- Ent�o volte para o lugar onde estivemos hoje, pois l� perto � a �toca das on�as�... � respondeu Nadine entrando na brincadeira da artista.

- O que voc� sugere, afinal?

- Nem sei, tem tantos lugares bonitos...

- O que � que VOC� vai fazer?

Nadine pensou um pouco: �emo��es fortes, ein? Se � isso que a mocinha quer, � isso que a mocinha ter�!� e respondeu:

- Eu vou at� a Pedra Grande.

- Eu posso ir junto???

- Pode. Te pego as nove horas, pode ser?

- Pode ser!

- Ent�o at� amanh�.

- At�!

 

Nadine se virou e deixou a Pousada, levando uma vianda que Olga havia preparado para ela, enquanto Mabel subiu saltitante para seu quarto. Antes de chegar no sop� da escada Olga lhe gritou:

- Quando sentir fome pode descer que o jantar j� est� pronto, minha filha!

- Obrigada Olga!!! S� vou tomar um banho r�pido. � respondeu Mabel j� no topo da escadaria.

Olga secou suas m�os rechonchudas no pano de prato e observou o passo de Nadine, rumo � sua cabana. Em seguida voltou seu olhar para a escadaria e ficou pensativa. Havia percebido um brilho diferente no olhar de sua princesinha?... Ou havia se enganado?... N�o, n�o havia. Conhecia Nadine muito bem e sabia que ela estava mexida com a encantadora mulher que se preparava para o jantar. Na verdade, nunca entendeu muito bem essa coisa de Nadine s� se interessar por mulheres, afinal haviam tantos mo�os bonitos, dispostos a casar e constituir fam�lia... �Tem o Rudi, do Seu Firmino ferreiro, e o Luiz Henrique, da Farm�cia... tamb�m tem o Arnaldo, rapaz estudado, advogado, filho do dono do Frigor�fico... isso sem falar no Hermann, o gerente do banco! At� o gerente do banco queria namorar Nadine!!!� pensava Olga, �mas n�o! Se enrabicha sempre por um rabo de saia... fazer o que? Deixar de amar a minha princesinha? Deixar de ap�ia-la, mesmo que seja em suas esquisitices? Isso n�o. Se tem algu�m com quem pode contar esse algu�m sou eu!�. Olga continuava com suas divaga��es: �s� espero que essa mo�a da cidade grande n�o fa�a minha menina infeliz...

 

 

*******************

 

 

Entrando em sua casa Nadine sorriu frente ao divertimento que estava arquitetando para o dia seguinte. Preparou seu equipamento e o amarrou cuidadosamente por sobre a caminhonete vermelha. �Emo��es fortes...� sorria consigo mesma...

Botou a mesa e saboreou a janta preparada por Olga, tomou um banho e recolheu-se, pois estava cansada. Exausta, mas excitada pelo dia de domingo... dia que prometia fortes emo��es.

 

*******************

 

 

Mabel havia colocado seu rel�gio para despertar bem cedo. No primeiro toque espregui�ou-se como um felino quando acorda e saltou da cama, direto para o chuveiro. Tomou um banho r�pido e vestiu a roupa que j� havia escolhido no dia anterior e deixado cuidadosamente arrumada sobre a cadeira em frente � janela. Havia escolhido um conjunto de abrigo de malha, cal�a alaranjada cor de telha com dois frisos brancos e casaco em cor inversa, branco com listas alaranjadas. Por baixo colocou uma camiseta de mangas curtas, branca, e um blus�o de l� amarelo por cima da camiseta. Cal�ou seu par de t�nis brancos e colocou uma tira de malha laranja para prender os cabelos. Colocou dois jatos de seu perfume preferido, Paris, de Saint Laurent, um no peito e outro na nuca. Passou um creme protetor com filtro solar no rosto e nas m�os. Olhou-se no espelho e gostou do resultado. Estava com uma cara boa, descansada, e mesmo sem a maquiagem que costumava usar na rotina de seus compromissos sociais estava se sentindo bonita. Remexeu na sua mala e pegou um len�o de seda amarelo bem claro, o qual enrolou no pesco�o. Agora sim... seu figurino estava completo.

Abriu a janela de seu quarto e vislumbrou uma paisagem quase que totalmente oculta por uma neblina densa. No leste podia-se perceber no entanto que a claridade matinal penetrava a n�voa, tornando-a amarelada e quase transl�cida. Os primeiros raios solares refletiam-se na vegeta��o mais pr�xima de sua janela e formavam prismas multicoloridos nas got�culas de orvalho que ainda pendiam nas extremidades das folhas. Mabel sentiu um cheirinho de caf� passado que vinha do refeit�rio da Pousada dos Sonhos. Animada pelo odor convidativo pegou uma mochila e desceu at� a cozinha, onde Olga j� havia preparado um lanche para a viagem, conforme haviam combinado na noite anterior. Tamb�m pegou uma garrafa de �gua mineral, �s� pra garantir�, riu consigo mesma.

- Olha, vejam l� o que voc�s v�o me aprontar... � advertiu Olga para Mabel � n�o me fiquem muito tempo no sol, nem fa�am esfor�o depois de comer.

- Tudo bem, Olginha... � disse Mabel � quando Nadine chegar voc� diga isso a ela, que � cabe�a dura!

- Eu sempre digo, mas pouco me ouve, por isto estou dizendo para voc� tamb�m.

Mabel riu dos cuidados extremados de Olga e prometeu:

- Pode deixar que eu vou vigiar Nadine... e qualquer coisa que ela fa�a de errado eu te conto!

Neste momento Nadine entrou na cozinha e escutou a �ltima parte da conversa:

- Ahr�... al�m de teimosa ainda � dedo duro?... � retrucou brincando.

- S� vou fazer um favorzinho para minha amiga Olga...

- T� certo...

- Vamos ent�o? Eu j� estou pronta!

- T� vendo � respondeu Nadine olhando Mabel de alto a baixo.

 

Mabel deu um abra�o e um beijo em Olga e cochichou ao seu ouvido:

- Pode deixar que eu supervisiono essa rebelde!

Olga riu e tamb�m deu um abra�o em Mabel, que logo em seguida saiu pela porta dos fundos da Pousada em dire��o � rua. Nadine passou por Olga sapecando-lhe um sonoro beijo nas bochechas rosadas.

- Aonde fica a tal Pedra Grande, Nadine?

- Fica a mais ou menos uns doze quil�metros daqui.

- E a gente vai a p�???

Nadine sorriu e respondeu:

- N�o... vamos no meu carro. Est� estacionado ali perto do p�rtico de entrada.

- Gra�as a Deus!!! � suspirou Mabel aliviada, caminhando em frente � Nadine.

O balan�o dos quadris de Mabel, enquanto caminhava na dire��o do ve�culo, atraiu o olhar de Nadine, que n�o p�de deixar de observar a perfei��o daquelas curvas por debaixo da cal�a de abrigo. O brilho dos cabelos dourados refletia os raios de sol daquela manh� de domingo. O corpo de Mabel deixava um rastro de perfume enquanto se deslocava para frente. Nadine percebeu-se mais interessada em Mabel do que seu bom senso poderia lhe aconselhar. Lembrou-se de um seriado que costumava assistir na inf�ncia chamado Perdidos no Espa�o, quando o rob� come�ava a gritar ao menor sinal de que algo estava fugindo do controle: �Perigo, perigo, perigo!!!...�. �Que se dane o bom senso� pensou, �quero mais � viver e ser feliz�.

Quando chegaram perto da caminhonete Mabel olhou para o equipamento alongado, amarrado sobre o ve�culo e questionou:

- O que � isso???

- Surpresa... vai saber quando chegarmos l�.

- Ah, isso n�o vale! Eu morro de curiosidade.

- Problema teu! S� conto l�.

- Malvada...

 

Nadine sorriu abrindo a porta para Mabel embarcar. Esta �ltima se encantou com o gesto: �hoje em dia poucos homens fazem isso... quem diria uma mulher... ela est�, pelo menos, se esfor�ando para ser gentil...� sorriu Mabel pensativa.

Nadine dirigia lentamente por uma estrada de ch�o e gradativamente a pouca neblina que ainda pairava por sobre a paisagem foi se dissipando, dando lugar a um belo dia ensolarado. As encostas das montanhas ostentavam as mais variadas tonalidades de verde que a �ris humana era capaz de captar. Em contraste com o c�u azul algumas nuvens esbranqui�adas pareciam algod�es doces pairando por sobre as montanhas. Em determinadas partes da estrada se avistavam despenhadeiros �ngremes, alguns com belvederes para o deleite dos turistas. De outras partes se avistava o arroio que dava nome � cidade, o Arroio Bonito, com suas �guas encrespadas e inquietas, correndo incans�veis em dire��o contr�ria � nascente, na �nsia de encontrar, talvez, um oceano...

Mabel viajava quieta, encantada com as belezas do lugar. Percebia que estavam subindo a serra cada vez mais, pois sentia os ouvidos estourarem de quando em vez. Nadine a observava com o rabo do olho, enquanto sorvia o agrad�vel olor de seu perfume que havia se espargido pela cabine da caminhonete.

Finalmente Nadine quebrou o sil�ncio:

- Depois da pr�xima curva chegamos a nosso destino.

- Que bom, pois eu pensei que chegar�amos at� as nuvens...

- Mas estamos quase l�!

 

Ao dobrar a �ltima curva Mabel ficou encantada com o que viu. O morro no qual subiam terminava abruptamente numa pequena clareira, onde situava-se uma enorme pedra redonda, em cuja superf�cie podia-se subir pela encosta do morro. Parecia que o mundo terminava naquele ponto, pois o vale que se estendia abaixo ficava pequenininho, as poucas casas pareciam de brinquedo e os campos de planta��es pareciam aqueles tapetes felpudos das soleiras das portas.

Mabel desembarcou do carro e caminhou at� o que parecia ser o limite entre o c�u e a terra. Abriu os bra�os, como se pudesse abra�ar toda aquela amplid�o. Nadine estava bem atr�s dela e sentiu o toque dos cabelos de Mabel no pr�prio rosto, cujo vento tratava de esvoa�ar desgrenhadamente. Por muito pouco n�o enla�ou Mabel pela cintura. Deu dois passos para tr�s, fugindo do suave contato f�sico que o vento lhe impunha. Pressentindo sua proximidade Mabel se voltou para tr�s e disse:

- Nadine, este � o lugar mais lindo do planeta!!!

- Eu sei, por isso te trouxe aqui...

- Muito obrigada...

- Mas as emo��es fortes ainda est�o por vir...

- O que � que voc� est� armando???

- Nada de mais... � respondeu Nadine andando em dire��o � caminhonete, come�ando a desamarrar seu equipamento de v�o livre.

 

Mabel chegou perto de Nadine e percebeu tratar-se de uma asa delta ainda desmontada.  Chegou a perder o f�lego quando avistou dois capacetes: �Se ela pensa que eu vou voar nessa engenh�ca, est� muito enganada...voar � para os p�ssaros, eu nasci com pernas e n�o asas, logo caminho ao inv�s de voar!� Nadine percebeu a agita��o de Mabel e questionou:

- Tens medo de altura?

- Eu??? Imagina... claro que n�o...

- Que bom!!! Pois eu trouxe equipamento para v�o duplo.

Mabel engoliu em seco, mas n�o quis dar o bra�o a torcer:

- Ah �??? Que bom...

- J� voou alguma vez?

- Nunca... s� de avi�o. Mas deve ser a mesma coisa, n�?

- ���... igualzinho...

 

Mabel foi at� a caminhonete, pegou sua mochila e tomou um gole de sua �gua. Estava precisando! Na verdade, naquele momento, desejou beber algo bem mais forte, que pelo menos lhe desse mais coragem. Nadine viu a garrafa e comentou sorridente:

- Ficou com medo de passar sede de novo?

- Pois �... gato escaldado... � respondeu meio sem cor, tirando a manta do pesco�o. Subitamente come�ou a suar...

 

Nadine montava a asa delta vagarosa e minuciosamente, enquanto Mabel continuava a suar frio, tentando aparentar tranq�ilidade. Nadine, percebendo a saia justa na qual se encontrava a artista, se divertia com a situa��o:

- J� t� quase pronta.

- N�o tenha pressa...

- Fica tranq�ila, eu fa�o isso h� anos.

- Gra�as a Deus! � desabafou Mabel.

- O que?

- Nada, nada... falei que o vento t� forte, n�?

- Nem tanto.

- N�o seria melhor voarmos outro dia? Com menos vento?

- As condi��es clim�ticas est�o �timas. Mas se estiveres com medo...

- N�o... o que � isso???... eu l� sou mulher de temer uma alturinha dessas??? � respondeu Mabel sentando-se devido � tontura, s� de pensar naquele desfiladeiro no qual estava prestes a se projetar com aquela mulher que teimava em testar seus limites desde a primeira vez que a viu.

�Louca! � uma doida varrida! E eu uma est�pida sem coragem de dizer que estou me borrando!� pensava Mabel, �tomara que meus pais n�o sofram muito, afinal vou ter uma morte r�pida, indolor, um s� �p�f� e nada mais...�, �mas, talvez eu sobreviva, afinal se n�o fosse seguro essa desvairada n�o iria saltar... � Mabel, deve ser seguro... coragem...

 

Quando Nadine finalmente terminou sua tarefa, virou-se sorridente para Mabel, que permanecia sentada, estampando um sorriso amarelo:

- Tudo pronto! Podemos saltar!

- Ai que bom... � disse Mabel a meia voz.

- N�o sei... n�o estou sentindo empolga��o na tua voz � provocou Nadine.

- Impress�o tua... estou empolgad�ssima... � respondeu com a voz em escala decrescente.

- Ent�o porque n�o levanta da�?

- J� vou, j� vou... � respondeu Mabel, enviando uma mensagem de seu c�rebro para as suas pernas, ordenando levantarem, por�m estas teimavam em permanecer enraizadas no ch�o como se fossem um tronco de �rvore.

Nadine se aproximou e estendeu a m�o para Mabel, i�ando-a de sua confort�vel e segura posi��o de sentada. Sentiu as m�os de Mabel encharcadas de suor e riu consigo mesma. �Depois do salto aposto que ela vai me agradecer...�, pensou Nadine. Colocou o equipamento do carona em Mabel e lhe forneceu as explica��es necess�rias para saltar com seguran�a e realizar um pouso tranq�ilo. Mabel prestou aten��o em cada detalhe, por�m o nervosismo a impedia de assimilar as orienta��es na primeira explica��o e acabava pedindo para Nadine explicar de novo. Mal acreditava na paci�ncia que Nadine estava tendo com ela. Tudo pronto e explicado prepararam-se para o salto. Tentando aparentar naturalidade Mabel ainda perguntou:

- Ser� que eu posso levar minha m�quina fotogr�fica?

- Com certeza. Ser�o as mais belas fotos que j� tiraste.

- Assim espero...

 

Munida de sua m�quina fotogr�fica e sentindo o cora��o bater-lhe quase que no pesco�o, Mabel caminhou em dire��o � Pedra Grande como se estivesse subindo no cadafalso. Suas pernas estavam bambas e precisou da ajuda de Nadine para se aprumar. Aprontaram-se e Nadine questionou:

- Pronta?

- Pronta. � respondeu � �e que Deus me ajude!!!� � pensou.

 

Num impulso iniciaram a corrida em dire��o � beirada do penhasco e como num passe de m�gica os corpos muito pr�ximos, como se fossem um �nico ser, saltaram no nada, e come�aram a planar... Quando Mabel finalmente conseguiu abrir os olhos teve a sensa��o de estar dentro de um sonho, aqueles sonhos bons, onde voamos alto, muito alto, bem perto do c�u... Podia tocar as nuvens. Voava mais alto que os p�ssaros, sentia-se um �caro do s�culo XXI. Quando conseguiu tomar consci�ncia da realidade � sua volta deparou-se com Nadine olhando para sua express�o de �xtase e gritou:

- Isso � maravilhoso!!!

 

Nadine sorriu e assentiu com a cabe�a. Mabel tirou v�rias fotos, um filme de 36 poses todo. N�o havia aderido ao modismo das m�quinas digitais. Possu�a uma m�quina autom�tica, pequena, com um �timo zoom, gostava dessa coisa de revela��o e de guardar os negativos. Voaram por cerca de uma hora e prepararam-se para pousar. Nadine posicionou a asa delta sobre uma planta��o de girass�is e foi como se houvessem adentrado num dos quadros de Van Gogh. O pouso foi tranq�ilo e Nadine teve de admitir que, apesar do nervosismo, Mabel era �tima aluna. Livraram-se do equipamento e caminharam at� uma extens�o de gramado, cuja relva verde convidava ao repouso. Mabel deixou-se desfalecer, deitando-se de costas, bra�os abertos, olhos fechados, sorrindo e respirando o sol da manh�. Nadine deitou-se a seu lado, feliz.

- Essa foi a melhor coisa que eu fiz na vida!!! � exclamou Mabel.

- � muito bom, n�o � mesmo?

- Se �. � como se a gente comungasse com o infinito...

- Bonita descri��o.

- Mod�stia � parte, eu sou boa com as palavras.

- Mod�stia bem � parte, a perder de vista... � sorriu Nadine.

- Boba...

Nadine se virou de lado, apoiando o t�rax sobre o cotovelo e segurando a cabe�a com a m�o. Ficou bem pr�xima de Mabel e disse:

- � bom estar contigo aqui...

- Eu sou mesmo �tima companhia... � sorriu Mabel debochando.

- Mas tava borrada de medo, n�o tava?

Mabel espiou Nadine abrindo um s� olho e defendendo o rosto do sol:

- Estava! � admitiu. � Estava apavorada, sua louca, desvairada, quase me matou de susto!!!

As duas ca�ram na gargalhada e se rolaram na relva verde sentindo, na car�cia da vegeta��o, o abra�o aconchegante da M�e Terra.

 

- Nadine, como � linda a Pedra Grande vista aqui de baixo, parece suspensa no ar, parece que vai cair do morro.

- � linda mesmo... e foi a sua lenda que deu o nome ao distrito.

- Itamoema?

- �.

- O que significa?

- Em guarani Ita significa pedra e Moema era a filha de um Paj� que viveu h� muito, muito tempo atr�s... Ela estava noiva de um jovem guerreiro, por�m numa noite de plenil�nio descobriu-se apaixonada por Jaci, a lua.

- Mas Jaci � mulher...

- Pois �... por isso o Paj� proibiu que ela contasse sobre seus sentimentos a quem quer que fosse e obrigou-a a se casar com o guerreiro. Moema engravidou dele, por�m em todas as noites de plenil�nio subia na Pedra Grande e admirava sua amada. Um dia, completou-se o tempo de gesta��o e numa das visitas noturnas � Jaci, Moema pariu sobre a Pedra Grande. Era uma menina e Moema a ofereceu para sua amada. Esta estendeu seus raios prateados e abra�ou a crian�a transformando-a em estrela, na estrela Dalva, na verdade o planeta V�nus.

- Que coisa linda...

- Mas a lenda n�o termina a�. Retornando para a aldeia sem a filha, o Paj� e o marido de Moema a expulsaram da tribo, banindo-a do seio de sua fam�lia. Sem sua tribo, sem sua filha e sem sua amada, Moema sobe na Pedra Grande novamente, e chora. � uma noite de lua nova. Jaci, diminuta, se compadece com o sofrimento de sua amada e lhe estende um t�mido raio de luar, que ao toca-la a transforma tamb�m em estrela, levando-a para bem perto de si. Desde ent�o quando vemos o c�u nas noites de lua nova encontramos uma pequena estrela bem perto da lua. � Moema, vivendo feliz ao lado de sua Jaci.

 

Nadine termina o relato e ao olhar para o lado Mabel tinha os olhos marejados de l�grimas.

- N�o consigo ouvir hist�rias de amor sem chorar... � diz secando as l�grimas.

- Se eu soubesse n�o teria contado.

- Mas gostei de ouvir... gostei mesmo...

 

As duas se calaram e permaneceram deitadas ao sol, lagarteando por um bom tempo, at� que Mabel rompeu o sil�ncio:

- Nadine...

- O que?

- Como � que a gente vai voar de volta at� o carro?...

Nadine riu muito e respondeu:

- N�s vamos de carona!

- Carona? De quem?

Mal acabara de falar e ouviu uma voz grave e amig�vel vindo na dire��o delas:

- Querida!

- Oi, Padre Lino... � disse Nadine levantando-se e caminhando em dire��o ao amigo, sendo envolvida pelo abra�o do P�roco local.

- Voc� �nom� cansa de voar como p�ssaro?

- N�o... e hoje arrumei companhia para a minha loucura! Padre, essa � Isabela, h�spede da Pousada.

- Muito prazer, Isabela.

- O prazer � todo meu, Padre. � respondeu pensativa - �Isabela�...�engra�ado ser chamada de Isabela... � como se Mabel Lopes houvesse ficado num passado distante�...

- Vamos, eu levo voc�s de volta para a Pedra Grande...

- E almo�a conosco na Pousada? � convidou Nadine.

- Com certeza! � respondeu o padre � �Nom� posso recusar a comidinha da Olga. Hoje cedo, na missa, ela me disse que farias um desses v�os doidivanas...

- Olga sabia do v�o livre? � questionou Mabel.

- Sabia. � respondeu Nadine � eu v�o quase todos os domingos...

- E n�o me contou nada...

- Estragaria a surpresa... ou te botaria para correr!

- Engra�adinha...

- Mas vamos, vamos... � interveio o Padre.

 

Eles subiram at� a Pedra Grande no jipe verde musgo do padre Lino. Quando dirigia o padre sungava a batina, deixando descobertas as canelas brancas e roli�as, e as botinas surradas que usava com meias vermelhas, do Internacional, seu time de futebol do cora��o. Mabel encantou-se com a simpatia do padre e conversaram animadamente durante todo o trajeto.

 

 

*******************

 

 

Ao chegarem na Pousada dos Sonhos, pouco depois do meio dia, Olga j� os aguardava com a mesa posta. Os outros h�spedes j� haviam almo�ado e estavam passeando novamente nos fundos da propriedade, provavelmente foram repousar nas redes embaixo do cap�o de mato ao lado do milharal. Feliciano aguardava para almo�ar com eles.

A refei��o transcorreu num clima de muita anima��o. Padre Lino era um sacerdote de origem alem�, com um sotaque bastante carregado, omitindo quase que todos os erres duplos das palavras.

- A minha �car��a� est� desativada! � contou o Padre - Mandei a roda de �f�ro� pro Firmino h� mais de duas semanas e o ordin�rio ainda �nom� me aprontou.

- N�o reclama padre Lino, o senhor tem esse jipe que o leva para onde quiser... � disse Nadine.

- Mas eu �nom� posso botar pasto no tanque de gasolina! E na minha �car��a� o combust�vel � pasto... pra Margarida, minha �burinha�.

Mabel caiu na risada. Padre Lino sabia como animar qualquer conversa��o. Percebeu uma afei��o toda especial que Nadine nutria por ele, e era rec�proco. Olga tamb�m estava animada e comentou:

- Isabela, eu fiquei t�o ansiosa esta manh�, pois eu sabia que essa menina � apontou para Nadine � ia te levar para voar naquela tal de �asa aberta�!

- Asa delta, Olga, d-e-l-t-a ! � soletrou Nadine.

- Pois ent�o, foi o que eu disse: essa �asa aberta� que n�o pode ser coisa de Deus, n�o � padre Lino?

- �Nom� � pra tanto, Olga... � respondeu o padre � a Nadine sabe muito bem o que faz! E se Deus fez os p�ssaros, tamb�m fez o ser humano...

- Com pernas, padre Lino, n�o asas � retrucou Olga.

- Mas tamb�m sem ra�zes, Olga... as pessoas s�o livres... � continuou o padre.

- Ent�o porque n�o me avisou do �perigo iminente�, Olga? � questionou Mabel em tom de brincadeira.

- Eu n�o! A Nadine pediu pra n�o contar...

- Mas eu podia ter morrido de susto... � emendou Mabel.

- Mas n�o morreu! � interrompeu Nadine.

Vendo que aquele trelel� iria longe o padre Lino desviou o rumo da conversa:

- Escuta, o teu trator j� est� bom de novo, Nadine? � perguntou o Padre.

- Nem me fale!!! Conseguimos colocar aquela encrenca para funcionar. Pode deixar que eu n�o esqueci do seu eito de milho... � respondeu Nadine.

- Que bom, �sen�n� passa a lua boa para o plantio...

- Nadine est� sempre correndo de um lado para outro padre � emendou Olga � mas para o senhor eu garanto que ela tira um tempinho.

- Queridinha... � disse o padre � ali�s, falando em tempinho, quando � que a senhora vai tocar viol�n na missa de novo, ein dona Nadine? � quis saber o padre Lino.

Nadine olhou de relance para Mabel e percebeu que esta iria rir e debochar de sua atividade bastante ortodoxa. Lan�ou um olhar de pr�via reprova��o para ela e retrucou:

- Quando der, padre... quando der...

�Com certeza ela n�o vai me poupar do deboche�, pensava Nadine, olhando Mabel de esguelha, enquanto esta lhe fitava com um olhar maroto.

Almo�aram e conversaram a tarde toda. As 16:00 horas Olga preparou um caf� para eles, com as mais variadas qualidades de p�es, doces e salgados. Os olhos de padre Lino brilharam de contentamento. Os de Nadine tamb�m, ao ver o sorriso de satisfa��o estampado no rosto de Mabel, enquanto devorava com vontade os quitutes preparados com carinho por sua querida Olga.

- Huuummm, Olga... isso � delicioso... � n�o cansava de repetir Mabel a cada manjar diferente que experimentava.

Olga ria sozinha de puro contentamento. Para v�-la realizada e feliz bastava elogiar suas habilidades culin�rias, e Mabel estava pouco a pouco conquistando a afei��o sincera de Olga. E Nadine estava gostando disso. Ali�s, estava gostando mais de Mabel do que havia planejado...

 

 

Quando o sol se p�s no ocidente e o c�u assumiu uma tonalidade rosa-alaranjada no horizonte, padre Lino levantou-se, despediu-se do grupo e embarcou em seu jipe, retornando para a casa paroquial.

Nadine tamb�m se despediu de Olga e Feliciano. Mabel a acompanhou at� a porta dos fundos, que levava � estradinha de acesso at� sua cabana junto ao arroio.

- Nadine... hoje voc� me fez passar pela experi�ncia mais inenarr�vel de toda a minha vida... nunca senti tanto medo, meu cora��o nunca bateu t�o forte e descompassado, nunca estive t�o perto de enfartar, fazer xixi nas cal�as ou morrer numa queda em um desfiladeiro entre as montanhas... � disse Mabel bastante s�ria fitando Nadine nos olhos e continuando ap�s breves momentos de um sil�ncio que pareceram horas - ...Muito obrigada! � emendou sorrindo, com certeza o mais belo sorriso que Nadine j� havia visto at� ent�o.

- Eu sabia que gostaria.

- Obrigada, mesmo.

- De nada.

As duas ainda se entreolharam por instantes e Nadine disse:

- Boa noite.

- Boa noite... � respondeu Mabel.

Nadine se virou e rumou para a estradinha de ch�o. Nem bem tinha percorrido algumas passadas e Mabel lhe gritou:

- Nos vemos amanh�?...

- Pode ser... � respondeu sem se virar para tr�s.

 

 

******************

 

 

Ao entrar em sua cabana Nadine n�o conseguia tirar Mabel dos pensamentos. Abriu uma lata de cerveja e sentou-se na sacada que dava para o lado do poente. Ficou admirando a colora��o do c�u, os matizes que iam do amarelo at� o violeta, intercalando-se e mudando de tonalidade conforme o sol ia se afastando por tr�s da linha do horizonte, dando lugar ao manto acinzentado da noite que deixava transparecer o brilho t�mido das primeiras estrelas que surgiam.

Nadine tinha consci�ncia do que estava se processando em seu �ntimo, por�m ficava pensando em qu�o poucas chances teria de conquistar aquela criaturinha teimosa e encantadora. �Ela n�o � daqui... Vive numa cidade grande, conhece muitas pessoas, daqui a pouco vai embora para sempre, deve ter namorado at�... ou ser� que n�o?... mas que ela me olha de um jeito diferente, me olha! Ou ser� que estou vendo chifres em cabe�a de cavalo?�, pensava Nadine inquieta. Resolveu esvaziar sua mente daquele turbilh�o de pensamentos e dormir, pois o dia seguinte seria bastante atarefado para ela. E assim o fez.

 

 

Por sua vez Mabel tamb�m encontrava-se imersa em questionamentos: �nunca conheci pessoa t�o enigm�tica... capaz de gestos extremamente delicados e logo em seguida bruscos, quase agressivos... gosto de ficar perto dela, me sinto bem... mas ela � fechada como uma ostra, quase n�o fala dela... aposto que tem namorado... ou n�o?... ela tem todo o jeito de ser gay... e tem aquela hist�ria da lenda de Itamoema... muito significativa... ser� que ela t� me dando uma letra?... com certeza! E tem aquele lance dos olhares, eu n�o me engano... minha intui��o me diz que ela gosta de mulheres, sim...mas entre ser gay e dar bola para mim tem uma grande diferen�a... ela me acha uma dond�ca da cidade... posso at� ser, mas n�o sou esse descompasso que ela acha que sou!!! Eu tenho as minhas habilidades... s�o urbanas, tudo bem, mas tenho o meu valor! Ela � petulante... mas eu estou gostando disso... acho que vou ficar um bom tempo aqui por Arroio Bonito, vou querer voar novamente da Pedra Grande, quem sabe ouvir mais sobre a lenda de Itamoema... pois �, quem sabe...�. Dizendo isto para si mesma adormeceu profundamente e sonhou com um v�o no c�u azul, um mergulho em um par de lindos olhos azuis...

 

 

***********************

 

 

A segunda-feira amanheceu com pouca nebulosidade e com a temperatura em eleva��o, prometendo uma tarde quente, pr�pria de pren�ncio de primavera. Era dia 1� de setembro e Nadine acordou bem cedo. Ela e Feliciano trataram de trabalhar no preparo da terra para o plantio. O arado n�o descansou o dia todo. Fizeram uma pequena pausa para o almo�o e retomaram o trabalho no campo at� o final da tarde.

 

Na Pousada Mabel havia esperado Nadine o dia todo e encontrava-se ansiosa, caminhando de um lado para outro, observada de longe por Olga. Durante o almo�o passou o tempo inteiro olhando para a porta da cozinha, na expectativa de que Nadine adentrasse para almo�ar na Pousada. Atentava a qualquer movimenta��o e Olga chegou a ficar com pena dela quando o sol come�ou a desenhar sua descida rumo ao poente. Apesar de disfar�ar, escondendo-se atr�s de uma revista que mantinha aberta na mesma p�gina h� horas, n�o conseguia enganar a vista perspicaz de Olga. A velha senhora estava entendendo perfeitamente bem o que se passava, e estava preocupada. Depois de servir o caf� da tarde para Mabel, que novamente era a �nica h�spede da Pousada, Olga colocou:

- Porque voc� n�o vai dar uma voltinha pela propriedade?

- N�o estou com vontade, n�o, Olga. Acho que � cansa�o de ontem.

- Mas uma caminhadinha vai lhe fazer bem... � insistiu Olga.

- T� bom, eu vou... Olga, o que ser� que a Nadine est� fazendo?

- Com certeza lida de campo. Est�o arando a terra.

- � por isso que n�o veio aqui hoje?...

- Certamente.

- Fora hoje, ela costuma passar aqui todos os dias?

- Sim, todos os dias.

- Ent�o amanh� ela vem?

- Acho que sim.

- A casa dela � longe?

- N�o muito... porque?

- Por nada, s� curiosidade. Vou dar uma volta. At� daqui a pouco.

- At�. Vai com Deus, filha.

 

Olga observou Mabel se afastando vagarosamente, em dire��o ao riacho. Ao afastar-se da casa grande come�ou a admirar a paisagem e distraiu-se bastante, sempre caminhando devagar. Em dado momento come�ou a escutar vozes conhecidas. Agu�ou o ouvido e distinguiu a voz de Nadine que gritava para se fazer ouvir acima do ru�do do trator:

- Vamos deixar aquele canto perto das cocheiras para amanh�!

- Certo! J� estou quase cansado! � gritou Feliciano.

 

Mabel observava Nadine ao longe, dirigindo o velho trator que soltava uma fuma�a acinzentada de �leo queimado pelo escapamento. Dirigia o trator com habilidade. Os bra�os fortes manuseavam a dire��o sem maiores esfor�os e o maquin�rio ia deixando um rastro de terra revolvida atr�s de si. Nadine vestia uma cal�a jeans de aspecto surrado e botas de couro de cano alto. Trajava uma blusa preta, justa, de mangas curtas e um chap�u de palha lhe protegia o rosto do sol do final de tarde. De tempos em tempos secava o suor da testa com a palma da m�o. Era uma mulher grande, musculatura definida, pernas bem torneadas, ombros largos, e embora apresentasse um porte vigoroso era muito feminina. Seus movimentos possu�am um gingado e uma sensualidade natas. Quanto mais Mabel observava aquela figura, mais se encantava com seus atributos f�sicos. �Mabel, Mabel... isso est� ficando mais s�rio do que imaginavas�, pensava consigo mesma. A vis�o, mesmo que ao longe, da figura de Nadine, havia feito valer a segunda-feira, agora estava feliz. Poderia retornar para a Pousada e dormir tranq�ila. Pensou em se aproximar para conversar com Nadine, mas achou melhor n�o atrapalhar o servi�o e esperar pacienciosamente pelo dia seguinte. Voltou para a Pousada mais animadinha, fato percebido por Olga:

- Encontrou Nadine?

- Vi de longe � respondeu Mabel meio desconcertada pela perspic�cia de Olga. � �ser� que est� estampado na minha testa?...� pensou.

- Falou com ela?

- N�o... ela nem me viu. Estava trabalhando muito.

- Eu te disse. Aquela menina est� trabalhando muito. Eu j� falei para ela fazer uma empreitada com algum homem, mas ela � teimosa e quer fazer tudo sozinha.

- E depois ela diz que EU sou teimosa... � falou Mabel mais para si mesma do que para Olga � Eu vou tomar um banho, des�o mais tarde.

 

 

Naquela noite Nadine deitou-se exausta ap�s o banho e depois de comer alguma coisa. Estava com o corpo dolorido e cansado. Adormeceu pensando no v�o de asa delta da manh� do dia anterior.

Mabel custou mais a dormir. Leu at� tarde e foi vencida pelo sono somente perto da uma da manh�.

 

 

********************

 

Na ter�a-feira a temperatura continuava a subir e ao meio dia fazia quase trinta graus. Nadine ainda n�o havia tido tempo de ir at� a Pousada e Mabel resolveu que iria atr�s dela: �...se Maom� n�o vai � montanha, a montanha vai a Maom�!� Vestiu uma roupa leve, t�nis, cal�a cors�rio preta e camiseta branca com uma estampa floral no peito. Caminhou em dire��o ao campo de plantio, mas quando cruzava perto da estrada que sabia levar � casa de Nadine n�o conseguiu conter sua curiosidade. Mudou de rumo e andou em dire��o � t�o famosa cabana que estava disposta a conhecer. No final a estradinha fazia uma curva fechada para a direita e l� estava ela. Era uma casa aparentemente simples, constru�da parte com tijolos � vista e parte com madeira, que davam um charme todo especial � constru��o r�stica na beira do arroio. Tinha dois pavimentos e olhando de fora parecia ter o t�rreo amplo. Na parte de cima havia uma sacada que circundava toda a edifica��o e haviam redes pendentes nos quatro cantos da casa. As janelas estavam todas abertas, mas a casa parecia estar vazia. Nadine deveria estar na lida do campo. Mabel aproximou-se da cabana, olhou para os lados e n�o viu ningu�m, reinava absoluto sil�ncio nos arredores. Esticou-se para espiar pela janela lateral, subindo inclusive numa pedra de alicerce que estava solta rente a parede. Quando estava prestes a bisbilhotar o interior da casa uma voz �s suas costas fez com que quase despencasse no ch�o:

- Procura alguma coisa?

- Aaaai... que susto, Nadine!!! Desse jeito n�o sobrevivo ao final da temporada.

Nadine riu da situa��o.

- E ent�o... est� procurando alguma coisa?

- Estou! Ou melhor, estava! Eu j� achei! Vim te fazer uma visita. � respondeu Mabel com as m�os na cintura � Tem caf� nessa cabana?

Sem saber bem como proceder, por�m feliz ao ver Mabel, Nadine gaguejou:

- Tem... claro que tem...

Neste momento, antes que tivessem tempo de entrar em casa, Feliciano apareceu cavalgando Vendaval:

- Nadine, Jabu est� mancando muito, perdeu uma das ferraduras e n�o temos para repor. Alguns outros cavalos tamb�m est�o precisando de ferraduras novas, e eu n�o posso ir at� o ferreiro agora. Voc� poderia ir?

- Posso sim � respondeu Nadine, para desconsolo de Mabel. � Eu tinha mesmo que passar o arado no terreno ao lado da igreja, conforme prometi para o padre Lino. � e virando-se para Mabel continuou � o caf� fica para outro dia... mas tu n�o gostaria de ir comigo at� a vila?

- Claro que sim! � respondeu Mabel efusiva.

- Mas n�s vamos de trator...

- Olha, depois da �asa aberta� eu ando em qualquer coisa...

- Ent�o vamos � disse Nadine sorridente.

 

 

Nadine ajudou Mabel a se posicionar da melhor maneira poss�vel no paralamas do trator, a sua direita. Percorreriam cerca de cinco quil�metros, n�o era muito longe, mas Nadine sabia que sua caroneira viajaria desconfortavelmente. Mabel, no entanto, estava radiante... A proximidade de Nadine a deixava com uma sensa��o de prote��o e bem estar. Durante o trajeto trocaram somente poucas palavras, aos gritos, devido ao ru�do do motor. Chegando no centro da Vila de Itamoema Nadine estacionou o trator defronte a uma pequena casa onde se lia uma placa que apontava para um galp�o nos fundos: �Ferraria Schneider�. Nadine ajudou Mabel a descer do trator, quase que pegando-a no colo. Elas ficaram muito pr�ximas e Mabel sentiu o calor do corpo de Nadine encostando no seu. Sentiu o cora��o bater mais forte e as m�os ficarem �midas de suor. Nadine, por sua vez ficou com a boca seca e a respira��o ofegante. Colocou Mabel delicadamente no ch�o e voltou seu olhar para o arado, na parte de tr�s do trator. Subitamente Nadine deu um grito que ecoou como uma trovoada pela rua deserta devido a hora de meio dia:

- Desce j� da�, pi� de merda!!!

Mabel olhou na dire��o do trator, perplexa, a tempo de ver um garoto magrinho, claro, talvez com seis ou sete anos, subindo com a agilidade de um gato pelo arado e alcan�ando o paralamas onde ela vinha sentada. Quando pensou que o garoto fosse disparar em sentido contr�rio ao de Nadine, para surpresa de Mabel, o pequeno arteiro abriu seus bra�os e se jogou no ar em dire��o ao colo de Nadine. Esta o aparou como um saco de batatas e ele a envolveu pelo pesco�o beijando-lhe as faces. Nadine rodou com ele, abra�ando-o afetuosamente.

- J� n�o te falei que trator n�o � lugar de crian�a???

- Mas, dinda... o meu pai deixa...

- Teu pai � teu pai e eu sou eu! � falou com seriedade.

- T� bom... n�o subo mais...

- E por falar em teu pai, cad� aquele desocupado? � brincou Nadine.

- T� na ro�a.

- E a tua m�e?

- Foi na venda.

- Tu t� sozinho?

- N�o. T� cuidando do v�.

- Ah... e o teu av� l� precisa de cuidados, moleque abusado?

- Minha m�e disse que precisa.

- T� bom... � sorriu Nadine.

- O v� t� l� no galp�o. Eu te levo l�.

Nadine colocou o menino no ch�o e ele olhou para Mabel. Correu at� ela e lhe deu um abra�o:

- Oi. Tu � amiga da minha dinda?

- Sou.

- E qual � o teu nome?

- Isabela.

- � bonito. Tu tamb�m � bonita. Mas a minha dinda � mais.

- Eduardo!!! � repreendeu Nadine enquanto Mabel ria face � espontaneidade do garoto.

- Sabe... � cochichou Mabel no ouvido dele - ...eu tamb�m acho.

 

 

Nadine ficou desconcertada, por�m disfar�ou e continuou o di�logo:

- Vamos logo, pi�... vamos ver o v� Firmino...

 

Eduardo puxou Nadine e Mabel pelas m�os, conduzindo-as pela lateral da casa at� o galp�o dos fundos.

- Nadine! Que surpresa! � disse Firmino. � Bom dia, mo�a! � disse dirigindo-se � Mabel.

- Bom dia.

- Firmino, essa � Isabela, uma de nossas h�spedes... e minha amiga. � emendou Nadine.

- V�o sentando. Querem um mate?

- Eu quero. � respondeu Nadine.

- Eu tamb�m. � disse Mabel.

- Firmino, eu preciso de umas ferraduras, umas vinte. � disse Nadine saboreando o amargo do chimarr�o vagarosamente.

- � pra j�.

 

Enquanto Firmino juntava as ferraduras num canto do galp�o Nadine passou a cuia para Mabel dizendo-lhe baixinho:

- Toma devagar, t� muito quente.

- Eu t� acostumada...

- N�o quero essa boca queimada... � sussurrou Nadine � meia voz.

�O que ser� que ela quis dizer com isso???...� pensou Mabel, �acho que eu sei... eu bem sei...�. Sorriu maliciosamente para Nadine aproveitando que Firmino estava de costas e Eduardo corria no p�tio.

Firmino retornou com o pacote de Nadine, enquanto Eduardo irrompeu voando galp�o adentro, sendo repreendido pelo av�:

- Devagar, piazito. Esse menino n�o sabe andar, s� corre...

- � pura energia da idade, Firmino, deixa o garoto... � defendeu Nadine.

- Mas ele � muito arteiro. Inda ontem se pendurou na corda do sino da igreja e quase mata o padre Lino de susto.

Nadine e Mabel riram. Eduardo se jogou no colo de Nadine e a abra�ou.

- E depois vem com essa cara de sorro manso... � disse o av�.

- Dinda... quando � que eu vou poder voar contigo?

- Eu j� te disse. Quando estiveres da altura do meu ombro.

- Mas vai demorar...

- N�o demora n�o... rapidinho.

- Eu j� sou bem grande!

- T� vendo... � disse Nadine jogando Eduardo para cima, fazendo o menino chegar quase at� o teto do galp�o � Pronto... te fiz voar!

- Mas eu quero voar na Pedra Grande.

- Um dia, meu amor... um dia.

 

Mabel observava a afetividade de Nadine com o menino. Ela era d�cil, mas firme. N�o cedia aos seus caprichos de crian�a, mas n�o deixava de alimentar os sonhos do menino. Era mais um lado de Nadine que a deixou encantada.

Eduardo, ainda no colo de Nadine, olhou para Mabel e disse:

- Sabe, eu j� te vi...

- Me viu?...

- ��hr��... � assentiu Eduardo com a cabe�a.

- Claro que j�... � referiu Nadine � quando chegamos agora h� pouco!

- N�o mesmo... eu j� vi antes...

- Aonde? � questionou Mabel incr�dula.

- Na revista! L� na minha escola!

- N�o inventa, menino! � repreendeu Nadine.

- Mas � verdade, dinda...

- N�o liga Isabela, esse menino tem imagina��o f�rtil. � disse Nadine encerrando o assunto pelo tom de voz e colocando Eduardo no ch�o. � Escuta pi�, aonde est�o os modos que a tua m�e te deu? � continuou Nadine � N�o vai oferecer nem um copo d��gua pras visitas?

- � mesmo!!! � disse o menino, dirigindo-se para Mabel.

- Isabela, tu queres um copo d��gua, tamb�m tem suco de maracuj� que a m�e fez...

- Eu aceito!

- E tu quer conhecer o meu quarto? � perguntou Eduardo.

- Quero sim.

- Eu te levo ent�o. � disse o menino pegando-a pela m�o.

- Eu vou indo at� a igreja, para adiantar o servi�o. � referiu Nadine � Depois o Eduardo te leva l�.

- Tudo bem.

- Cuida bem dela, certo? � disse Nadine dirigindo-se ao menino.

- Pode deixar, dinda. Eu t� acostumado a cuidar de gente grande. � disse apontando debochadamente para o av�.

- � rapazinho abusado! � disse Firmino.

Mabel entrou na modesta casa sendo conduzida pela m�o de Eduardo. Ela pensou que o menino poderia ter raz�o, sim. Poderia t�-la visto numa das in�meras vezes que apareceu em revistas e colunas sociais. Mas decidiu n�o levar aquele assunto adiante, afinal ali estava Isabela: Mabel Lopes havia ficado no burburinho da cidade de S�o Paulo.

 

Enquanto Nadine foi at� a Casa Paroquial Eduardo se encarregou de distrair Mabel. Mostrou seu quarto e seus brinquedos. Depois a levou para ver seu p�nei, no potreiro.

- Olha l�... o meu cavalinho. � apontou para um p�nei embaixo de uma �rvore, enquanto sentava com Mabel num banco de madeira, na sombra de uma enorme figueira.

- � lindo. Qual o nome dele?

- Carrapicho.

- Bonito nome.

- N�o � t�o bonito... que ele vive cheio de carrapichos no p�lo e sou eu que tenho que tirar. Eu que cuido dele. Dou comida e �gua.

- Quantos anos voc� tem?

- Seis, e eu j� vou pra escola! Sei escrever meu nome. E o da minha dinda tamb�m. � com �N�, depois vem o �A�, e a� vai... O meu � com �E�.

- Muito bem... sabe mesmo.

Eduardo olhou na dire��o da pastagem e apontou para um rapaz alto, loiro, de pele queimada do sol, que cortava pasto para os animais.

- Aquele l� � o meu tio Rudi. Ele quer namorar a minha dinda. Mas ela n�o quer.

- Verdade?

- Verdade. E eu acho que sei porque ela n�o quer ele.

- E por que �???... � bisbilhotou Mabel.

- � que ele tem chul�. A minha m�e faz ele tirar as botas na rua e lavar os p�s no tanque, antes de entrar.

Mabel gargalhou da espontaneidade do menino e aproveitou para bisbilhotar mais um pouco:

- Eduardo, a tua dinda tem namorado?

- N�o.

- Mas j� teve?

- N�o me lembro... Tem o Hermann, do banco, que quer casar com ela tamb�m. Mas ela tamb�m n�o quer. Eu acho que o Hermann n�o tem chul�... mas ele � narigudo... muito feio. Eu tamb�m n�o tenho chul�, �... � disse levantando o pequeno p� na dire��o de Mabel.

- Mas eu estou vendo um casc�ozinho nesse p�... � brincou Mabel.

- � que eu t� de chinelo de dedo... e t� brincando na rua... mas lavando sai. Mas chul� eu n�o tenho!

- Acredito em voc�!!!

- A minha dinda tamb�m n�o tem. Ela � t�o cheirosa.

�� mesmo...� pensou Mabel.

- Ela � a mulher mais linda da cidade, ela e a minha m�e. O meu pai � feio. O tio Rudi � mais ou menos...

- E voc� tamb�m � lindo! � disse Mabel abra�ando o garoto.

- Tu vai morar aqui na cidade?

- N�o sei... eu estou s� passeando.

- Porque tu n�o mora na casa da minha dinda?

- Algu�m j� morou na casa dela?

- J�. A Sila. Mas eu n�o gostava dela. Ela brigava comigo o tempo todo quando eu ia na casa da dinda. E n�o me deixava brincar nos joguinhos do computador. Eu era beeeem pequeno, assim �... � disse o menino fazendo um gesto com a m�ozinha - ... mas me lembro de tudo! Sila era chata. Eu gostei quando ela foi embora. Acho que a minha dinda gostou tamb�m. Um dia ela brigou com a Sila e at� chorou. Eu tava l� e vi. Outro dia a Sila gritou com a minha dinda e eu xinguei ela, e mandei ela embora. A� ela me deu um empurr�o e eu cai. Minha dinda ficou furiosa! Mandou ela embora. E ela nunca mais voltou. E agora eu vou l� seguido. Minha m�e deixa. Eu gosto de ficar na casa dela. Tamb�m gosto da Olga e do Feliciano.

- E se eu resolvesse ficar por aqui?...

- Eu ia gostar. Tu � legal.

- Voc� � que � um encanto.

- Olha... a minha m�e vem vindo! M�e, m�e, tem visita!!!

 

Mabel avistou uma mulher de estatura pequena, bem magra, cabelos claros longos e tran�ados, olhos azul esverdeados e sorriso franco:

- Bom dia!!!

- Bom dia. � respondeu Mabel.

- Ela � a Isabela, amiga da minha dinda, que foi na casa do padre Lino, arar a terra onde o padre quer plantar milho. A dinda tamb�m pegou vinte ferraduras com o v� Firmino e quer que eu leve a Isabela at� a igreja depois que ela tomar caf� da tarde.

- Eduardo... o caf� da tarde ficou por tua conta... � brincou Mabel.

- Mas � claro que a amiga de Nadine n�o vai sair assim, sem tomar um cafezinho. Vamos entrar. Muito prazer, meu nome � L�cia, eu sou a m�e desse cabrito falante � disse apontando para Eduardo.

 

Enquanto L�cia passava um caf� e esquentava o leite Eduardo jogava bola na frente de casa. Ela e Mabel conversavam:

- Eu n�o sei de onde esse menino tira tanta energia. � disse L�cia.

- Ele � um encanto...

- Pois �... esse encanto est� vivo gra�as � madrinha dele.

- Como assim?

- Ele custou muito a nascer. Aqui na cidade n�o tem recurso, nem condu��o de noite. Meu marido fez um trabalho na Pousada e comentou que j� passava do tempo do menino nascer. Na noite que eu passei mal, Nadine apareceu aqui em casa, sem mais nem menos, acho que foi Deus que mandou. Ela me levou at� um hospital em Porto Alegre e ficou l� comigo. Eduardo ficou baixado durante duas semanas at� ficar fortezinho. Hoje � isso a� que a senhora est� vendo...

- N�o me chame de senhora, por favor, me chame pelo nome.

- Vou tentar. Mas vamos tomar nosso caf�?

 

Depois que Mabel saboreou aquele delicioso caf� com p�o caseiro, Eduardo a levou at� a casa paroquial. L� avistou Nadine terminando de passar o arado num terreno ao lado da igreja, o futuro milharal do padre Lino! Acenou para ela que retribuiu o cumprimento. Padre Lino veio abra�a-la tamb�m.

Eram mais ou menos quatro e meia quando o servi�o foi conclu�do e Nadine e Mabel se despediram do padre Lino e de Eduardo.

- V�o com Deus, minhas filhas � aben�oou o padre.

- Fique com Deus, padre � respondeu Mabel.

- Dinda... quando � que eu posso ir na tua casa?

- Depois do plantio eu venho te buscar. Mais umas tr�s semanas, certo?

- Certo! Isabela, voc� ainda vai estar aqui daqui a tr�s semanas, n�o vai???... � questionou Eduardo.

- � poss�vel...

- A� a gente conversa mais, t�?

- Combinado. � respondeu Mabel piscando o olho com cumplicidade para Eduardo. Este a abra�ou apertado.

- N�o vai atr�s desse conversador fiado, ein? � disse Nadine para Mabel.

- A gente se entende, n� Eduardo?

- Ahr��...

- T� bem arrumada... � disse Nadine pegando o afilhado no colo e colocando-o na garupa, disparando com ele at� o trator.

Nadine colocou o menino no ch�o e o beijou, despedindo-se dele. Ajudou novamente Mabel a tomar seu lugar de honra no paralamas do trator e dirigiu de volta para a Pousada dos Sonhos.

 

 

L� chegando Nadine acompanhou Mabel at� a porta e falou:

- Eu venho jantar com voc�s. S� vou tomar um banho.

- Que bom t�-la como companhia por mais algumas horas...

- Eu j� volto.

 

 

Mabel tamb�m tomou um banho r�pido e caprichou no visual. Colocou um vestido em estilo indiano, cuja cor marrom alaranjada real�ava sua pele clara. Perfumou-se, passou um batonzinho discreto e desceu. Nadine j� estava no sagu�o e ao v�-la descer a escadaria n�o conseguiu desviar os olhos dela. �Como � linda�, pensou, �muita areia para o meu caminh�ozinho...

Mabel reparou no esmero dos trajes de Nadine. Vestia um agasalho branco, bem justo, e podia-se ver o contorno de sua calcinha rendada. �Filha da m�e... ela sabe como provocar�. Os cabelos negros foram lavados e escovados e pendiam soltos por sobre os ombros. �E que perfume maravilhoso... Eduardo tem raz�o: como � cheirosa...

 

O jantar transcorreu tranq�ilo e perto da meia noite Nadine disse que se recolheria:

- Se n�o minha carruagem vira ab�bora! � brincou.

- De novo quero agradecer pelo �timo dia. � disse Mabel.

- Ah, sim, principalmente pelo conforto do ve�culo oficial...

Ambas sorriram e Mabel continuou, olhando Nadine nos olhos:

- O dia foi maravilhoso.

- Que bom que gostaste.

- Adorei.

- Boa noite, ent�o.

- Boa noite... e at� amanh�.

- At�.

 

Nadine deixou a Pousada acompanhada pelo olhar de Mabel. Da cozinha Olga observou a cena e suspirou: �...que seja o que Deus quiser... ao menos essa mo�a � de fino trato, educada, gentil, n�o � como aquela hist�rica de antes... � vinho de outra pipa... vamos ver no que d�...�

 

 

*******************

 

 

No outro dia bem cedo, na cozinha da Pousada, Olga e Feliciano tomavam o caf� da manh� e conversavam:

- Estou um pouco preocupada com a Nadine...

- Eu tamb�m Olga, eu tamb�m...

- Ent�o voc� sabe do que eu estou falando?

- Acho que sim... sobre essa mo�a da cidade?

- �.

- Pois n�o � preciso ser muito observador para ver os olhares que elas trocam. Mas Nadine � uma mulher, Olga, n�o � uma crian�a. Ela sabe o que faz.

- N�o sei, Feliciano... n�o sei se ela sabe o que faz. J� te esqueceste da Sila? Lembra do estado que Nadine ficou?

- Mas essa mo�a parece ser diferente...

- Pois �, parece, mas quem garante que �? Ela � da cidade grande, Feliciano, n�o vai querer se entocar nesse fim de mundo. E tu acha que a Nadine sai daqui? Isso vai ser coisa pra causar sofrimento.

- Olga, Olga... deixa que a Nadine sabe o que � melhor pra ela...

- Mas eu n�o me conformo... n�o sei porque ela n�o casa com o Hermann, ou com o Rudi... levaria uma vida tranq�ila...

- E quem salta de uma montanha com uma asa de pano l� quer uma vida tranq�ila, Olga??? Deixa a Nadine, n�o te mete, que ela vai ficar chateada. E se tu quer arrumar casamento porque n�o arranja um pra ti? � disse Feliciano colocando sua m�o sobre a de Olga.

- L� vem voc� com essas conversas que eu n�o gosto � respondeu Olga puxando sua m�o.

- Voc� n�o acredita nos meus sentimentos, n�o �?...

- Acredito! Assim como acredito no coelho da P�scoa! Velho abusado!

- Velha rabugenta!!!

- J� terminou o caf�? Ent�o vai dar jeito na vida!

- Vou mesmo!!! Mais uma coisa: n�o te mete na vida da Nadine.

- Eu n�o vou me meter, estou s� comentando contigo. V� se vai dar com a l�ngua nos dentes!

- Eu n�o sou linguarudo, viu? � retrucou Feliciano, deixando Olga resmungando sozinha.

 

 

 

Mal Feliciano havia sa�do da cozinha chegou Nadine, beijou Olga e disse animada:

- Olginha, o que tem de bom para o caf�? T� com uma fome...

- Acordou bem disposta... que bom.

- Pois �... tive bons sonhos...

- Sei...

- Olha, eu vou ter que ir na cidade agora de manh�. Pretendo voltar cedo da tarde. Se a Isabela perguntar por mim diga que passo aqui mais tarde, certo? � disse Nadine colocando um peda�o de bolo na boca e levantando-se para sair.

- Mas senta para tomar caf�, menina...

- N�o d� tempo. Quero ir cedo para voltar cedo.

- O que � que vais fazer l�?

- Preciso mandar alguns documentos para o papai e meu scanner n�o est� muito cat�lico... vou l� no Fredi. Depois vou no banco.

- D� recomenda��es minhas ao Hermann!!! � disse Olga entusiasmada, com uma pitada de mal�cia na voz.

- Olga... eu j� te falei que o Hermann � meu amigo. S� isso.

- Eu sei... s� estou mandando um abra�o, custa transmitir?...

- Eu te conhe�o Olga... mas pode deixar que eu transmito o TEU abra�o, sim. � respondeu Nadine rindo das investidas de Olga de cas�-la com o gerente do Banco.

 

 

Pouco depois das nove horas Mabel acordou, espregui�ou-se na cama, rolou de um lado para outro at� que todo seu corpo se sentisse despertado. Lavou o rosto, vestiu-se e desceu para o refeit�rio.

- Bom dia, Olga!!! Estou morrendo de fome!!!

- Que bom, outra que acordou bem disposta!

- Outra?

- �. Porque a Nadine tamb�m acordou faceira... Foi para a cidade, resolver umas coisas de neg�cios para o pai. Pediu para te avisar que volta de tarde.

- Obrigada pelo recado. � respondeu Mabel sorridente.

 

 

Depois do caf� resolveu levar seu material de pintura at� a margem do arroio. Tinha visto bel�ssimas paisagens e sentiu vontade de pintar um pouco. Muniu-se de cavalete, tela e tintas e instalou-se de frente para o c�rrego de �guas cristalinas, tendo uma montanha esverdeada ao fundo e um Ip� florido em primeiro plano, que mais parecia um buqu� gigante colocado perto da margem do rio. Nem reparou o tempo passar at� que Feliciano foi cham�-la, a pedido de Olga, pois j� havia passado muito da hora do almo�o. Retornou para a Pousada e colocou sua tela inacabada para secar num canto de seu quarto. Na verdade seu desejo naquele momento n�o era pintar uma paisagem e sim uma figura humana, de prefer�ncia uma mulher morena, alta, de cabelos longos e olhos azuis... que tirasse a roupa e pousasse nua para ela, como uma V�nus, totalmente livre e plena de suavidade... quem sabe n�o teria oportunidade de realizar sua obra prima mais breve do que pensava?... �Pode ser, Mabel... pode ser...�

 

 

**********************

 

 

Na cidade Nadine tratou de realizar suas tarefas o mais r�pido poss�vel. Nem se lembrou de dar as recomenda��es de Olga para Hermann. Na verdade mal conversou com ele, apesar das tentativas do gerente do banco de atrair a aten��o de Nadine. Depois ela foi at� a casa de Fredi e Marcos. Ambos estavam em casa, de folga. Fredi trabalhava no banco tamb�m, por�m tinha algumas horas em haver e havia decidido descansar naquela quarta-feira. Marcos era representante de vendas e tamb�m decidiu folgar naquele dia, afinal j� havia mesmo ultrapassado sua cota de vendas para aquele per�odo. Ficaram felizes ao ver Nadine, principalmente pelo fato dela estar bastante animadinha. E n�o sossegaram at� que ela lhes contasse sobre os �ltimos acontecimentos da Pousada dos Sonhos.

- Amiga... isso t� me cheirando a desencalhe... � disse Fredi brincando.

- N�o fantasia, Fredi � respondeu Nadine.

- Ai querida... t� subestimando minha capacidade intelectual, �?...

- Claro que n�o... mas tu viaja...

- Pois eu quero ser mico de circo se essa uma a� n�o t� dando em cima de ti...

- N�o sei... as vezes acho que sim, outras, sei l�. Nossas realidades s�o muito diferentes...

- Nadine, vem aqui � disse Fredi puxando-a at� em frente a um espelho � o que � que tu t� vendo???...

- N�o seja bobo, Fredi...

- O que � que tu t� vendo?...

- Eu.

- E?...

- E o que?

- E o que mais, ora bolas?

- Sei l�!

- Pois ent�o EU vou te dizer: eis uma mulher linda!!! Vitaminada, gostosa, inteligente, bom papo, bom car�ter, princ�pios, quer mais???

- Tu t� me deixando sem jeito...

- Nadine, qualquer mulher que seja do babado, mesmo que tenha somente dois neur�nios, e ainda um deles for manco, daria qualquer coisa para ficar contigo...

- Tua opini�o de amigo n�o vale, � tendenciosa. E quem diz que ela �� do babado�???...

- Sou teu amigo, mas n�o sou cego... nem c�nico. E, Nadine, te liga! Essa uma n�o te deu uma letra, ela te deu um alfabeto!!!

- Ele tem raz�o, Nadine. � interveio Marcos.

Nadine � obrigada a rir das coloca��es de Fredi, sempre t�o veemente e escandaloso. Mas ele tinha raz�o, sim. Ela estava era ressabiada e tinha medo de se entregar novamente numa rela��o e ver tudo ir por �gua abaixo.

- Eu sou muito passional quando me apaixono...

- � s� maneirar um pouco... n�o ir com tanta sede ao pote, meiga...

- E eu consigo???... Voc�s me conhecem...

- Mas tente! � incentivou Fredi.

- N�o sei...

- Nadine, - disse Marcos, mais ponderado � d� a si mesma uma chance de ser feliz... pelo menos, tente.

- Vou pensar...

- QUE BOM... A princesinha vai pensar...

- Fredi... n�o come�a... � resmungou Nadine.

- Bom, - continuou Fredi � agora que j� acabamos nossa obriga��o vamos ao lazer...

- Como assim? � questionou Nadine.

- Meiga, eu estou prontinha pra ir at� a Pousada... quero ver de perto essa tal loirinha...

- O que???...

- Isso mesmo!!! N�s vamos contigo, n�o � Marcos?

Marcos ficou perplexo com a cara de pau do namorado:

- Fredi... voc� quer me matar de vergonha? O que a nossa amiga vai pensar???

- Que somos duas bichas curiosas, ora...

Nadine caiu na risada e se deu por vencida:

- Ok, vamos l�... mas olha l�, ein? Nada de piadinhas de mau gosto, entendeu Fredi?

- Querida, eu sou uma lady... esqueceu? � respondeu abra�ando Nadine.

 

 

O trio se dirigiu � Pousada dos Sonhos na caminhonete de Nadine. De seu quarto da Pousada, Mabel escutou o barulho inconfund�vel do motor de �Pimentinha� e desceu correndo as escadas. Estava ansiosa para ver Nadine. Seu cora��o batia mais forte e se deu conta que precisava ao menos ver Nadine de longe, como quem necessita de alimento, �gua e ar. Havia esperado por ela toda a manh�. Na verdade havia contado os minutos at� a hora do meio dia e preparava-se para esperar por mais algum tempo at� que o barulho do motor e da lataria vermelho-rubi havia anunciado o retorno antecipado de sua dona. No hall de entrada tentou se recompor, respirando fundo para desacelerar seus batimentos card�acos. Saiu pela porta da frente a tempo de ver Nadine desembarcar com seus amigos. Esta, ao bater a porta da caminhonete avistou Mabel na frente da casa grande e acenou para ela.

- Ai que amor... abanando para o docinho... � debochou Fredi.

Marcos o cutucou de leve e disse:

- N�o come�a!

- Ai, s� t� brincando... pra ver se desestresso a Nadine...

- Eu n�o estou estressada, Fredi.

- Tudo bem, tudo bem... n�o t� mais aqui quem falou.

 

Mabel caminhou em dire��o a eles e Nadine fez as apresenta��es:

- Isabela, esses s�o Fredi e Marcos.

- Encantada... DO... � respondeu Fredi, estendendo a m�o para Mabel.

- Muito prazer. � falou Marcos, tamb�m estendendo a m�o para cumprimenta-la.

- Igualmente! � disse ela � Pensei que voc� s� retornaria mais tarde... � falou dirigindo-se � Nadine.

- Pois �... consegui resolver tudo rapidamente.

- Por que ser�??? � perguntou Fredi debochado, recebendo uma pisoteada no p�, de Nadine.

- Aaaaaiii !!!

- O que foi? � perguntou Mabel.

- Meu joanete!!! � respondeu Fredi � tem me matado...

- Coitado... deve doer um bocado � disse Mabel, solid�ria.

- E como!!!

- As vezes piora, n�o � mesmo, Fredi??? � disse Nadine olhando para ele de cara feia.

- �. Consegue piorar.

- Mas vamos entrando... � disse Nadine, apontado para a porta � vamos at� o escrit�rio, ver aquele probleminha no computador...

- Que probleminha??? � disse Fredi ingenuamente, ao que Nadine lhe fuzilou com o olhar.

- Aaahhh... lembrei... ando t�o esquecido... acho que preciso tomar guaran�...

- Venha conosco, Isabela... � convidou Nadine.

- Com certeza � respondeu ela encarando Nadine nos olhos.

Fredi percebeu a encarada e cutucou Marcos, que o censurou com o olhar.

 

 

 

O quarteto adentrou no pequeno escrit�rio da Pousada dos Sonhos, onde havia uma escrivaninha num canto, com uma confort�vel cadeira de encosto alto e estofamento de veludo azul marinho. Na outra extremidade da pe�a havia um m�vel com o computador, ao lado de uma estante de livros que ia at� o teto, tomada por publica��es dos mais variados estilos. Na parede do lado esquerdo da porta havia um sof� de dois lugares e em frente � escrivaninha duas banquetas de madeira, tamb�m estofadas com o mesmo veludo azul marinho. Na parede por sobre o sof� havia um enorme quadro de um campo de girass�is. Atr�s da escrivaninha uma pintura a �leo da Pedra Grande, cuja assinatura era nada mais, nada menos do que Lino, o padre Lino. Mabel admirou as pinturas e sentou-se no pequeno sof�. Marcos, sempre discreto e ponderado, falou:

- Pode deixar, Nadine, que eu verifico o teu computador, eu sei o que fazer.

- Eu posso ajudar, entendo um pouco de inform�tica. � referiu Mabel.

- N�o precisa!!! � exclamou Fredi � o Marcos � entendido... em computa��o. Vem c�... senta aqui comigo que eu quero te conhecer...

Nadine come�ou a suar frio e ficou pensando se n�o havia sido uma id�ia de jerico ter trazido Fredi junto. Este come�ou um verdadeiro interrogat�rio:

- Ent�o... de onde voc� veio?

- S�o Paulo.

- Nossa!!! Cidade grande!

- �... bem grandinha...

- E o que � que tu fazes da vida? Est�s de f�rias?

- Mais ou menos... que eu trabalho por conta... sou artista pl�stica.

- Ai, que loucura... � disse Fredi. � e o que � que est�s achando aqui dessa titiquinha, que � Itamoema???

- Estou adorando... � respondeu Mabel, novamente encarando Nadine, que sente o rubor lhe subindo pelas faces.

- Escuta, tens namorado?...

- Fredi !!!... � repreende Nadine.

- O que �???... Deixa que se a Isabela n�o quiser, n�o responde, n�o � querida?

- Com certeza... � concordou Mabel � Mas n�o tenho n�o.

- Ent�o est�s de cora��o aberto??? Dispon�vel para novas paix�es?...

- Estou.

- Aaaiii que bom!!!

Nadine levantou num pulo, dizendo:

- Vou at� a cozinha pegar um cafezinho.

Saiu do escrit�rio com a vontade de esbofetear Fredi, mas internamente radiante pela resposta convicta de Mabel. Ao retornar com a bandeja respirou fundo, com receio do rumo que a conversa pudesse ter tomado. Para sua surpresa os tr�s estavam em frente � tela do computador, trabalhando na p�gina da Pousada dos Sonhos. Mabel dava sugest�es de novas fotos e de textos mais arrojados, que dessem informa��es mais espec�ficas sobre as belezas do lugar. Nadine respirou aliviada e disse:

- Olha o cafezinho, pessoal.

 

 

Ap�s o jantar, que foi divertid�ssimo com as hist�rias mirabolantes de Fredi, Nadine foi levar os amigos de volta para a cidade e perguntou � Mabel:

- Vamos junto?

- Claro que sim!

Embarcaram na Pimentinha, apertando-se na cabine da caminhonete. Estrategicamente Fredi fez Mabel sentar ao lado de Nadine. Os corpos se tocaram e novamente Nadine sentiu o calor do corpo de Mabel em contato com a lateral do seu. As coxas ficaram bem pr�ximas e cada vez que Nadine precisava fazer uma mudan�a no c�mbio do ve�culo era obrigada a esfregar seu bra�o em Mabel e encostar no interir de suas pernas, que ficaram com a alavanca das marchas entre elas. Pobre Nadine... estava suando frio. E Mabel divertia-se com a situa��o percebendo o embara�o da outra. �A vingan�a � um prato que se come frio...� pensava Mabel, �ela bem que j� me deixou em situa��ezinhas constrangedoras.� Ria consigo mesma, �mas que toque maravilhoso, que corpo quente, macio... acho que estou me apaixonando por essa mulher...

 

 

Depois de deixarem os rapazes em casa retornaram para a Pousada e conversaram durante todo o caminho de volta, por�m sobre assuntos gerais, desde o tempo at� times de futebol. Quando chegaram na Pousada Nadine deixou Mabel na porta de entrada e disse:

- Amanh� eu n�o venho aqui.

- Aahh... por que? � perguntou Mabel sedutoramente.

- Porque preciso terminar de preparar a terra. Calculo que s� vamos terminar � noitinha. Mas, se der tempo eu venho jantar com voc�s. Se n�o, sexta-feira bem cedo vamos at� a cascata dar um mergulho? J� est� fazendo calor, e eu adoro banho de cachoeira.

- Eu topo. Mas se a �gua estiver muito fria posso molhar s� os p�s???

- Pode... � riu Nadine. � ent�o tchau...

- Tchauzinho... � respondeu Mabel ficando na ponta dos p�s e aplicando uma r�pida e sonora beijoca na face de Nadine, que ficou est�tica.

Mabel se virou e correu escadaria acima para seu quarto, deixando Nadine parada na porta da rua, com uma sensa��o de calor invadindo-lhe as entranhas. �Danou-se, Nadine� pensou consigo mesma, �estou apaixonada!

 

 

********************

 

 

A manh� de quinta-feira descortinou-se clara e ensolarada. Depois da chuva de uma semana atr�s o tempo tinha se estabilizado e a previs�o era de mais sol e temperaturas em eleva��o. A primavera vinha chegando com a exuber�ncia pr�pria da esta��o das flores, do renascimento, da renova��o. Nadine e Feliciano pegaram no batente bem cedo. Nadine queria terminar o servi�o cedo, tomar um banho revigorante e aprontar-se a tempo de jantar na Pousada. N�o queria perder a oportunidade de estar perto de Mabel. Feliciano a observava e algumas vezes flagrou-a assoviando e sorrindo consigo mesma. �Ela est� feliz... sem d�vida, est� feliz. E isso � bom...� pensava Feliciano. Algumas vezes durante a lida Nadine virou seu rosto na dire��o da estrada que levava � casa grande na esperan�a de ver Mabel passeando, no entanto o dia transcorreu sem que visse a raz�o de sua repentina anima��o.

 

 

Naquela mesma manh� Mabel havia acordado tarde. Sabendo que Nadine s� viria � noite, ou quem sabe no dia seguinte, resolveu tirar algumas fotos as quais transformaria em telas.  Instantaneamente lhe vieram � mente as imagens dos pl�tanos que avistara s�bado, e tamb�m a advert�ncia de Nadine: �mantenham-se nas trilhas principais, as que s�o sinalizadas. Em hip�tese nenhuma penetrem nas trilhas naturais abertas na mata pelos animais ou pelo pessoal da manuten��o, pois estas n�o possuem sinaliza��o e s�o perigosas para quem n�o as conhece.

�N�o devem ser t�o perigosas assim...� conjeturou Mabel, �Nadine � exagerada! Vou at� l� dar uma bisbilhotada...�. Pegou sua m�quina fotogr�fica e desceu as escadarias da Pousada. Cruzou com Olga no corredor que levava � cozinha e lhe disse:

- Olga, vou dar uma volta...

- Vai tirar fotografias? � questionou Olga vendo a m�quina pendurada em seu pesco�o.

- Vou. Vou ver se fotografo uns pl�tanos por a�...

Dizendo isso saiu em dire��o aos fundos da propriedade.

 

 

*********************

 

 

Mabel caminhou por cerca de uma hora na trilha principal e eram quase onze e meia quando chegou na trilha secund�ria que levava aos t�o almejados pl�tanos. A luminosidade era ainda mais incr�vel naquela hora do dia e podia avista-los ao longe, na plan�cie abaixo da encosta do morro, bem al�m de onde se encontrava no momento. Algumas folhas de colora��o marrom, em forma de estrelas espiraladas, deixavam transparecer a luz solar, assumindo uma tonalidade amarela e transparente, enquanto que outras, mais sobrepostas, impediam a passagem dos fachos de luz dando um aspecto de penumbra rende aos troncos. Mabel olhou para os lados e n�o havia mais ningu�m na mata al�m dela e das criaturas que habitavam a vegeta��o local e os troncos das �rvores. Mesmo com as palavras de Nadine ecoando em seus ouvidos embrenhou-se trilha adentro, numa descida �ngreme, agarrando-se a cip�s, pedras e troncos, tentando firmar os p�s e locomover-se com seguran�a. Desceu por cerca de quarenta metros quando se viu obrigada a costear uma pedra enorme e coberta de limo. A terra em volta estava inst�vel devido � umidade natural do local e desbarrancou com o peso do corpo de Mabel. Esta ainda tentou segurar-se, por�m as ervas nas quais tentou inutilmente se firmar desgrudaram-se do solo argiloso e Mabel caiu por um longo trecho de ribanceira. Parou subitamente ao bater de encontro a uma enorme tora de madeira, provavelmente ca�da da grande �rvore nativa que, imponente, parecia abra�ar o terreno no qual Mabel se encontrava quase que desfalecida. Ficou deitada por um tempo que n�o saberia precisar, enquanto se recuperava do susto. Sentia muita dor no bra�o esquerdo e as costas ardiam devido ao esfolamento na queda. Tentou se levantar vagarosamente e conseguiu manter-se em p�. Lentamente fez um auto-exame e percebeu n�o ter fraturas, nem maiores escoria��es al�m das costas raladas. Seu bra�o esquerdo deveria estar com um entorse, pois conseguia move-lo consideravelmente, embora sentisse uma dor aguda perto da articula��o do cotovelo. Olhou para cima e se deu conta que ca�ra cerca de vinte metros, numa ribanceira �ngreme e �mida. Reparou que estava numa esp�cie de buraco, cuja �nica sa�da era para cima. Tentou escalar o solo, por�m devido a umidade encontrava-se escorregadio. A dor no bra�o a impedia de firmar o corpo numa tentativa de escalar o terreno. Estava, de fato, bastante encrencada. �E agora???...� pensou. �Vou ter que esperar algu�m vir me tirar daqui... a Nadine vai querer me matar!... Se bem que ningu�m sabe que eu vim para c�... e esse s�tio � enorme... Deus do c�u, n�o v�o me achar nunca... malditos pl�tanos!�. Num rompante de desespero ainda gritou:

- SOCORRO... SOCORRO... TEM ALGU�M A� EM CIMA???...

Como j� esperava ningu�m respondeu. Ouvia somente os barulhos da mata, e o eco de seu grito se perdeu por entre o vale e a montanha. Mabel recostou-se no tronco ca�do e ajeitou o bra�o esquerdo rente ao corpo. Restava-lhe somente esperar... e rezar.

 

 

*******************

 

 

T�o logo terminou seus afazeres Nadine largou o trator no galp�o do s�tio e tratou de ir para casa, tomar um banho, caprichar no visual e ir para a casa grande jantar com a mo�a da cidade cujos encantos haviam conquistado o seu cora��o. Ao entrar pela porta da cozinha abra�ou Olga, que estava mexendo uma panela no fog�o.

- Oi minha coisa fofa... � brincou Nadine.

- Como est� a minha queridinha?... Muito cansada?

- N�o, n�o muito...

Olga olhou na dire��o da porta, esperando ver a entrada de Mabel logo atr�s de Nadine. Como esta n�o veio perguntou:

- Nadine, onde est� a Isabela?

- Como assim?

- A Isabela... ela est� contigo, n�o est�?

- N�o. Eu passei o dia no campo, fui em casa e vim direto para c�. N�o vi a Isabela hoje. Pensei que ela estaria aqui me esperando.

- Essa menina saiu cedo... � disse Olga preocupada.

- Que horas??? � questionou Nadine sentindo um aperto de ang�stia no peito.

- Eram umas dez e meia, mais ou menos...

- E ela n�o veio almo�ar, Olga?

- N�o.

- E porque tu n�o mandou me avisar???

- Mas, Nadine, eu pensei que ela estivesse contigo, afinal voc�s est�o se dando t�o bem... � respondeu Olga deixando transparecer segundas inten��es na voz.

- Pois �, mas ela n�o me procurou.

- Meu Deus, ser� que ouve alguma coisa?

- N�o sei, Olga, n�o sei... � respondeu Nadine andando de um lado para outro.

Neste momento Feliciano entrou no recinto e tomou par do sumi�o de Mabel.

- Ela deve estar por perto, se perdeu na hora... � disse Feliciano tentando aparentar calma e tranq�ilizar Nadine e Olga que estavam bastante receosas.

- Mas ela nem veio para o almo�o... � respondeu Olga.

- Olga, pensa bem... ela te disse aonde ia? � questionou Nadine.

- N�o... n�o me lembro...

- Pensa bem, � importante, Olga... por favor... � suplicou Nadine.

- Ela s� falou que ia tirar umas fotos... fotos de uns pl�tanos...

Num estalo Nadine se lembrou do coment�rio de Mabel e exclamou:

- Feliciano, prepare Atena, eu sei onde ela est�. Vou pegar lanterna e cordas. Vai r�pido!!!

 

Em minutos Feliciano encilhou Atena e Vendaval e ambos partiram pela trilha que haviam percorrido no s�bado. Durante � tarde haviam se formado algumas nuvens de chuva e uma garoa fina come�ou a cair sobre Itamoema. Nadine galopava o mais r�pido que podia e Feliciano a seguia de perto. A noite j� havia ca�do quando chegaram na trilha secund�ria que levava aos pl�tanos que haviam atra�do a aten��o de Mabel. Nadine desmontou e, munida de uma potente lanterna, adentrou pela trilha gritando o nome de Mabel:

- ISABELA... ISABELA... VOC� EST� A�???...

 

 

 

Mabel estava encolhida devido ao frio e a chuva que ca�a mansamente sobre sua cabe�a. Tentou se proteger sentando bem rente ao tronco de �rvore, por�m a �gua escorria pela encosta do morro e acabava por molh�-la por inteiro. Seu bra�o do�a menos, mas estava sentindo muito frio. Embora os dias fossem quentes naquela �poca do ano, a temperatura � noite costumava cair bastante e a pr�pria umidade da mata contribu�a para tornar a sensa��o t�rmica ainda mais baixa. Mabel tremia e pensava; �acho que n�o sobrevivo at� amanh�... que falta de sorte morrer justo agora, que encontrei uma mulher maravilhosa... porque n�o dei ouvidos aos seus conselhos??? Mas n�o... eu sou teimosa como uma mula...tinha que vir sozinha... e vou morrer sem dizer pra Nadine o quanto ela � especial... droga de vida!...�. O cair da noite havia lhe tirado as �ltimas esperan�as de ser resgatada daquela encosta quase que inacess�vel. Quando Mabel j� estava desistindo de lutar e ciente de que ningu�m a encontraria ouviu uma voz bem conhecida chamando por seu nome.

- ISABELA!!!...

 

 

- EU T� AQUI... � gritou com as poucas for�as que lhe sobravam devido ao frio e ao medo. � AQUI EMBAIXO... NADINE... Tira-me daqui...

 

- Ela est� aqui, Feliciano, ela est� aqui!!! � disse Nadine ao ouvir o apelo de Mabel. - EST� TUDO BEM... EU J� CHEGO A�...

Nadine posicionou o foco de luz, iluminando a beirada da pedra na qual Mabel havia ca�do.

- Feliciano, amarre a ponta da corda numa �rvore � disse Nadine, tran�ando a outra extremidade em sua cintura � Eu vou descer.

- Vai com cuidado, menina � respondeu Feliciano sabendo que n�o adiantaria contrariar Nadine.

O facho de luz, apesar de potente, n�o conseguia chegar at� onde Mabel estava e Nadine se guiava pela voz da mulher que estava disposta a resgatar de qualquer forma, mesmo que lhe custasse a vida.

- AGUENTA FIRME QUE EU J� T� CHEGANDO A�...

- Eu t� bem...

 

Pouco a pouco Nadine foi vencendo a descida, conforme a corda ia sendo solta gradativamente por Feliciano. Em determinado momento Nadine conseguiu vislumbrar o reflexo do cabelo loiro de Mabel e direcionou o foco de luz iluminando um rosto que sorriu aliviado ao v�-la. Nadine conseguiu chegar at� Mabel e esta abra�ou-se a ela como quem se agarra a uma t�bua de salva��o.

- Voc� est� bem??? � perguntou Nadine afastando-se um pouco e direcionando o facho de luz de cima a baixo no corpo de Mabel.

- Eu t� legal, nada quebrado...

- Por enquanto... � respondeu Nadine � eu devia te quebrar os dentes, sua teimosa...

Mabel sorriu e abra�ou Nadine. Instantaneamente o sorriso se transformou em l�grimas. Nadine sentiu o solu�ar de Mabel de encontro ao seu corpo e as l�grimas umedecendo seu peito. Nadine a envolveu afetuosamente, aconchegando-a bem junto a si. Sentiu um al�vio profundo e agradeceu a Deus por ela estar a salvo e em seus bra�os.

- Tudo bem... tudo bem... j� passou... � disse Nadine abra�ando-a com for�a e confortando-a em seus bra�os. � eu vou poupar os teus dentes... � emendou brincando.

Mabel se acalmou e parou de chorar.

- Vamos subir, mocinha?... � perguntou Nadine.

- Vamos...

Nadine tentou pegar Mabel nos bra�os, por�m esta gemeu de dor, segurando o bra�o esquerdo. Vendo que estava com uma poss�vel entorse, Nadine fez com que Mabel se segurasse em seu pesco�o com o bra�o direito, mantendo o esquerdo abaixado e encaixado entre elas, numa posi��o que doesse o menos poss�vel.

- Te segura em mim e relaxa, deixa a subida por minha conta, ok?

- Tudo bem... � respondeu Mabel encostando seu rosto no pesco�o de Nadine.

Nadine j� havia praticado alpinismo e era muito �gil em escaladas. O peso do corpo de Mabel dificultava um pouco a subida, exigindo de Nadine um esfor�o f�sico bem maior. Empreendeu a subida lentamente para n�o correr o risco de nova queda e de machucar a preciosidade que carregava junta a si. Feliciano a auxiliava puxando gradualmente a corda que havia amarrado em Vendaval. Em pouco mais de trinta minutos conseguiram vencer a encosta e chegar a seguridade da trilha principal. Nadine montou em Atena e Feliciano ajudou a colocar Mabel montada na frente de Nadine. Esta �ltima segurou as r�deas da �gua passando seus bra�os ao redor do corpo de Mabel, que continuava segurando seu bra�o esquerdo bastante dolorido.

Nadine conduziu Atena numa marcha lenta at� a Pousada. Mabel recostou-se no corpo de Nadine, que havia tirado a pr�pria jaqueta e colocado sobre seus ombros. Sentia-se segura e o balan�o suave do passo de Atena embalava Mabel e fazia com que se aconchegasse cada vez mais de encontro a Nadine. �Eu poderia morrer agora que morreria feliz...� pensou Mabel.

�Gra�as a Deus voc� est� bem...� - pensava Nadine enquanto retornavam � �mas precisava ser t�o teimosa?... acho que dessa vez aprendeu a li��o. Querida... parece um bichinho encolhido... e esse perfume... eu adoro esse perfume...

 

 

 

Ao chegarem na Pousada Olga correu at� eles, com os bra�os abertos e aliviada ao avistar Mabel.

- Gra�as a Deus... gra�as a Deus... � repetia Olga.

Nadine desmontou e tomou Mabel nos bra�os, fazendo-a desmontar delicadamente.

- Eu n�o disse que montaria nessa �gua?... � brincou Mabel com voz fraca.

Nadine sorriu frente a capacidade de Mabel de manter o bom humor mesmo numa situa��o t�o s�ria.

- E eu n�o pensei que essa quadr�pede se venderia t�o r�pido � respondeu Nadine fingindo indigna��o.

Nadine percebeu que Mabel estava muito quente e encostou sua boca na testa dela, testando sua temperatura e percebendo que estava febril.

- Feliciano, pega a caminhonete e vai buscar o Dr. Rui. � disse Nadine.

- N�o precisa... eu t� bem � respondeu Mabel, tendo um acesso de tosse.

- Vai Feliciano. � reafirmou Nadine.

 

Olga e Nadine levaram Mabel at� o quarto. Olga ajudou Mabel a tomar um banho enquanto Nadine foi soltar os cavalos. Em menos de uma hora Feliciano voltou com o m�dico do vilarejo. Era um senhor de meia idade, alto, descend�ncia germ�nica, olhos verdes e �culos de aro redondo que pendiam na ponta de um nariz longo e afilado. Examinou Mabel, auscultou-a, e constatou um entorse no cotovelo e um resfriado devido � exposi��o prolongada ao frio e � umidade.

- Essa menina est� fazendo uma crise asm�tica... � proferiu o m�dico � pelo resfriado e tamb�m de fundo emocional. Vai precisar de cuidados por uns dias. Nada de excessos, repouso e medica��o na hora certa. Vamos dar uma imobilizada no bra�o para aliviar a dor.

O Dr. Rui prescreveu a medica��o para Mabel, fornecendo os rem�dios prescritos, que costumava carregar em sua maleta em virtude das dificuldades de acesso � farm�cia e ao adiantado das horas em que costumava atender as chamadas de emerg�ncia. Nadine acompanhou Dr.Rui at� a porta e questionou:

- Ela est� bem mesmo, doutor?...

- Est� sim... mas precisa de certos cuidados. Em quatro ou cinco dias vai estar nova outra vez... e pronta para outra!

- Pelo amor de Deus, doutor, nem brinque...

Ambos riram. Nadine pagou a conta do m�dico e subiu at� o quarto de Mabel. Pegou Olga de canto e falou:

- Olga, amanh� � sexta-feira e os h�spedes do final de semana come�ar�o a chegar. E vir�o muitas pessoas, acho que mais de quinze. Isabela n�o vai conseguir descansar aqui e voc� n�o poder� cuidar dela com o movimento e as exig�ncias da Pousada. Feliciano vai se encarregar das atividades externas e eu vou ficar tomando conta dela. Ela vai para a minha casa. Vai comigo agora.

- Voc� que sabe, Nadine � disse Olga, sem disposi��o para discutir com sua princesinha e ciente de que n�o adiantaria mesmo.

 

Nadine foi at� a cama de Mabel e lhe disse:

- N�s vamos para a minha casa, agora.

- Olha... eu n�o quero incomodar.

- N�o discuta. Voc� j� teimou que chega hoje. � respondeu Nadine passando o bra�o ao redor de Mabel, ajudando-a a se levantar.

 

Na verdade o que Mabel mais queria era ficar perto de Nadine e achou melhor calar a boca mesmo e deixar-se levar para onde quer que Nadine a quisesse levar. Olga arrumou alguns pertences de Mabel colocando-os numa sacola, no banco da caminhonete, ap�s o retorno de Feliciano, que fora levar o Dr. Rui de volta para casa. Nadine conduziu Mabel at� o ve�culo e rumaram para sua cabana. O pequeno trajeto foi vencido em breves minutos e Nadine conduziu Mabel pela escada de sua cabana, para o segundo piso, instalando-a em seu quarto, em sua pr�pria cama. Mabel estava sem for�as para discutir ou argumentar. Nem sequer havia prestado aten��o no interior da casa que havia estado t�o curiosa para conhecer. O estado febril a impedia de raciocinar direito e tratou de enterrar a cabe�a no travesseiro macio, que possu�a o cheiro dos cabelos de Nadine, e adormecer profundamente, sentindo o calor e o aconchego das cobertas quentinhas. Nadine colocou um colch�o ao lado de sua cama e deixou uma lumin�ria acesa, com o foco de luz bem suave, para que pudesse observar o sono de Mabel de quando em vez. Deitou-se e tamb�m adormeceu, vencida pela exaust�o, n�o sem antes colocar o rel�gio para despertar no hor�rio da pr�xima medica��o de sua doentinha.

 

 

*******************

 

 

Antes que o rel�gio despertasse Nadine j� estava de p�. Tratou de preparar uma bandeja com caf� da manh�, arrumando cuidadosamente uma fatia de mam�o, duas fatias de p�o de centeio, manteiga, iogurte natural, granola, um potinho de mel e uma x�cara na qual colocaria o caf� t�o logo Mabel despertasse. Tentou fazer o m�nimo de barulho poss�vel, para que Mabel pudesse dormir mais um pouco, no entanto seus ru�dos despertaram a artista de seu sono reparador. Ela abriu os olhos vagarosamente e olhou em volta, lentamente tomando consci�ncia de onde se encontrava. Estava no segundo piso da cabana de Nadine. Era uma pe�a �nica, ampla, com uma amurada separando o local onde se encontrava a cama do que seria a sala/cozinha. Sobre este murinho de tijolos � vista se encontravam enfileirados vasinhos de violetas das mais variadas cores. Do forro de cedrinho do teto, bem ao centro, pendia uma lumin�ria circular com cinco bojos no formato de flores de lis.  A �rea do segundo piso deveria medir aproximadamente sessenta metros quadrados, fora a sacada ao redor de toda a extens�o da constru��o. Mabel se viu deitada numa cama tamb�m ampla, com uma coberta macia e roupas de cama perfumadas. Sentia-se bem, o bra�o imobilizado havia parado de doer. Percebeu ainda, no parapeito interno da janela ao lado da escada, no outro extremo do aposento, uma figura peluda sentada, cinza, peito branco e olhos enormes e verdes a fit�-la atentamente, pressentindo que havia despertado. Por certo era Esmeralda. Num outro canto do c�modo avistou Nadine de p�, de costas para ela e de frente para o fog�o, parecia cuidar de algo no fogo. Sentiu um aroma agradabil�ssimo de caf� rec�m passado. Observou o porte daquela mulher e o quanto era imponente e bela. Estava usando uma blusa cor de ab�bora, bem justa, mangas tr�s quartos e uma cal�a jeans desbotada. Cal�ava um par de pantufas do Garfield e Mabel n�o p�de deixar de rir daquele detalhe que destoava totalmente da Nadine que conhecia, ou que pensava conhecer.

Nadine pressentiu que estava sendo observada e virou-se, deparando-se com o sorriso de Mabel, um sorriso meigo e encantador...

- Bom dia, mocinha... � disse Nadine carinhosamente, aproximando-se dela e sentando na beirada da cama.

- Bom dia... � respondeu Mabel baixando os olhos, envergonhada por sua atitude infantil que a p�s em risco e estava causando tantos transtornos na rotina de Nadine.

- Que cara � essa?...

- Nadine... eu queria pedir desculpas... mas se n�o quiser desculpar, n�o precisa... olha, eu acho que vou embora...

- Psssiu... � fez Nadine tapando os l�bios de Mabel suavemente com dois de seus dedos � est� tudo bem agora, j� passou.

- Mas voc� tem raz�o, eu sou mesmo muito... muito...

- Encanzinada !

- Encanzinada?... O que � isso?...

- Obstinada... e teimosa!!!

Mabel sorriu e assentiu com a cabe�a:

- Pois �...

- Mas o importante � que est�s bem.

- Voc� poderia ter se machucado tamb�m...

- E voc� poderia ter morrido! Por favor... nunca mais fa�a isso... eu...

Nadine ficou em silencio, interrompendo a frase.

- Voc� o que?...

- Fiquei com medo... � disse brandamente � se quiser fotografar pl�tanos de novo eu te levo, combinado?...

- Combinado... � sorriu Mabel.

- O caf� est� pronto, madame. � disse Nadine levantando-se e caminhando em dire��o � pequena mesa ao lado do fog�o.

Mabel fez men��o de levantar e Nadine disse:

- N�o senhora... caf� na cama!!!

- Tudo bem... posso fazer xixi?...

- Xixi pode! � nesta porta da esquerda, ali�s, a �nica deste aposento...

 

 

Mabel se levantou e andou vagarosamente na dire��o do banheiro. Observou que a decora��o do mesmo era toda em tons de verde, desde a lou�a sanit�ria at� os detalhes do piso-parede. Na frente da janela basculante semi-aberta encontrava-se pendurado um pequeno xaxim com uma planta trepadeira que subia pelo suporte que a prendia ao teto. Haviam outros galhos que pendiam descompromissadamente e balan�avam-se como malabaristas de circo, conforme a brisa da manh� penetrava pela abertura e movimentava suavemente o vaso. Em um canto do banheiro existia uma banheira de hidromassagem, toda de madeira, como se fosse um ofur�, por�m bem maior, comportando confortavelmente duas pessoas. �Eu me perderia nessas �guas com essa mulher...� pensou Mabel maliciosamente. Aproveitou e lavou o rosto na torneira de �gua quente. Percebeu que seus pertences de higiene pessoal haviam sido cuidadosamente alinhados num canto do balc�o da pia. Olhou-se no espelho e viu que estava desfigurada, com olheiras. Tratou de escovar os dentes e pentear os cabelos, que estavam emaranhados apesar de serem lisos, na tentativa de melhorar um pouco sua apar�ncia. Retornou para a cama e sentou-se recostando-se nos travesseiros, enquanto aguardava Nadine que estava lhe servindo o caf�. Esmeralda continuava a contempla-la, de longe, parecendo querer perguntar o que fazia deitada na cama de Nadine.

- Nadine, essa � a Esmeralda? � perguntou Mabel, apontando para a gata.

- �. Diga bom dia para a Isabela, Esmeralda.

A gata pareceu entender e ronronou um miadinho fino.

- Que amor!!! � encantou-se Mabel.

- Essa mocinha � muito esperta...

- E aposto que n�o entende o que eu estou fazendo na cama da dona dela.

- Bom, na verdade Esmeralda acha que ELA � minha dona, n�o o contr�rio, mas deve estar estranhando mesmo, pois faz muito tempo que ficamos sempre s� n�s duas.

- Ela � muito bonita. � disse Mabel.

- Mas � temperamental. � respondeu Nadine.

- Quem puxa aos seus... � falou Mabel, remendando logo em seguida - ...brincadeirinha...

 

 

A bandeja com aquele l�quido fumegante, trazida por Nadine, fez os olhos de Mabel brilharem. Se deu conta de que estava faminta, afinal no dia anterior fizera um jejum for�ado. N�o pode deixar de voltar os olhos para as pantufas de Nadine, eram chamativas demais! Tentou conter o riso mordendo o canto dos l�bios, por�m Nadine lhe fez uma cara de brava e disse em tom de brincadeira:

- Pode rir...

- Desculpe... � disse Mabel explodindo numa risada divertid�ssima.

- Isso � coisa do Fredi!!!

- S� podia... � disse Mabel ainda rindo. � mas s�o um encanto... s� que...

- S� que, o qu�???...

- S�o enormes!!!

- Mas queria o que??? Que eu amputasse os dedos do meu p� ou metade da cara desse gato???...

- Mas s�o lindas...

- Se quiser eu te empresto! Fa�a bom proveito!

- Em casa eu tenho umas do coiote!!!

- Jura??? � perguntou Nadine.

- Juro.

- Que bom... vejo que n�o sou doida sozinha...

As duas ca�ram numa gargalhada e Nadine colocou a bandeja no colo de Mabel:

- Vamos l�, mocinha, comendo... que � para tomar o rem�dio depois!

- Sim senhora!

 

Mabel tomou seu caf� da manh�, sua medica��o para a dor, antiinflamat�rio e para o controle de asma e depois dormiu novamente. Sua cabe�a pesava um pouco e tossia bastante. O bra�o n�o estava incomodando, em compensa��o a sensa��o do resfriado a deixava caidinha. A febre havia cedido e acordou com o ru�do da movimenta��o de Nadine terminando o almo�o. Novamente foi servida na cama. Nadine serviu um prato para si e sentou-se aos p�s da cama, almo�ando com Mabel. Quando terminaram a refei��o Mabel pediu:

- Eu queria levantar um pouco...

- Tudo bem, venha sentar aqui perto da janela que d� para o arroio.

 

Nadine ajeitou uma cadeira para ela bem defronte a uma enorme janela envidra�ada, cujo �ngulo de vis�o cobria quase que toda a extens�o vis�vel do Arroio Bonito. Ao fundo se vislumbrava uma encosta de mata nativa, onde a vegeta��o exuberante exibia v�rias tonalidades de verdes e marrons e, por ironia, incont�veis pl�tanos balan�avam suas folhas ao vento.

- Pl�tanos... � disse Mabel.

- Pois �... Pl�tanos.

- Porque voc� n�o me disse que se viam pl�tanos da tua janela???...

- Tu n�o me perguntou...

- Pois �... n�o perguntei...

Fez-se um per�odo de sil�ncio at� que Mabel perguntou:

- Nadine, voc� sempre morou aqui?

- Sim... N�o... Quer dizer, sim e n�o.

- Como assim??? Sim e n�o?

- � que aqui sempre foi o meu lar, o lugar para onde eu retornava, o porto seguro. Mas passei um tempo fora, estudando.

- Estudando o que? E aonde?

- Agronomia. Em Porto Alegre.

- Quer dizer que a senhorita � uma engenheira agr�noma?

- �. Parece. � respondeu modestamente Nadine.

- E depois?

- Depois fiz mestrado no Rio de Janeiro.

- Quanto tempo ficou l�?

- S� o tempo de terminar a tese. J� te falei que sempre volto correndo para c�.

- E volta por causa de algu�m?

- Sim.

- De quem???

- De mim mesmo... eu amo esse lugar.

- Ahaaa... E voc� sempre morou aqui sozinha?... � cutucou Mabel.

Nadine fez um breve sil�ncio, baixou os olhos e respondeu secamente:

- N�o.

 

 

Pelo tom de voz de Nadine, Mabel achou melhor mudar o rumo da conversa e come�ou a questionar sobre seu curso e sobre seus projetos para a Pousada e o s�tio. A tarde transcorreu tranq�ila e o sol voltou a brilhar nos c�us de Itamoema. Durante a janta Mabel referiu:

- Eu estou atrapalhando toda a tua rotina, n�o � mesmo?

- N�o, n�o est�. Se estivesse eu diria.

- Mas amanh� � s�bado e a Pousada est� repleta de h�spedes. Ouvi voc� comentar ontem...

�O que n�o precisa ela ouve... o que deveria ouvir e assimilar entra por um ouvido e sai pelo outro�, pensou Nadine.

- Isabela, o Feliciano d� conta de tudo sozinho, n�o se preocupe. Se for preciso mesmo ele me avisa e vou ajudar, ok? Isso se tu prometeres ficar comportada...

- Prometo!

 

 

Ap�s a janta Mabel pediu para tomar um banho. Colocou um pijama limpo e se deitou, sonolenta em virtude da medica��o. Novamente Nadine arrumou seu colch�o no ch�o, ao lado da cama. Antes de se deitar apagou as luzes, deixando acesa apenas uma pequena lumin�ria com foco direcion�vel. Sentou-se numa poltrona e pegou um livro para ler, por�m n�o conseguiu avan�ar mais do que dois par�grafos numa mesma p�gina. Com o livro repousando aberto sobre seu colo ficou admirando o rosto de Mabel por longo tempo. Seus tra�os eram suaves, sua boca tinha um contorno doce e sedutor. Respirava vagarosamente, ferrada no sono, ressonando baixinho. Seus c�lios eram longos e curvados para cima, e o cabelo loiro com reflexos dourados emoldurava-lhe o rosto conferindo-lhe um ar angelical enquanto dormia. Nadine sentiu vontade de abra�a-la, aconchegando-a nos bra�os e velando seus sonhos. Aproximou-se dela, ajeitou o cobertor cobrindo bem as suas costas e deitou-se em seu colch�o, fitando-a ainda mais uma vez antes de apagar a luz. Esmeralda aninhou-se nos p�s da cama de Nadine, ronronou um pouco e tamb�m adormeceu.

 

***********************

 

O s�bado descortinou-se l�mpido e brilhante. O sol espargia seus raios pela Serra Ga�cha fazendo evaporar as gotas de orvalho deixadas pelo sereno da noite. Por volta de dez horas da manh� o Dr. Rui foi examinar sua paciente e constatou que ela estava muito melhor, praticamente boa. Retirou as faixas do seu bra�o e Mabel referiu n�o sentir mais nada:

- Antiinflamat�rio porreta, esse ein, doutor? � disse Mabel brincando.

- Se �! Levanta at� um cavalo! � respondeu o m�dico tamb�m em tom de brincadeira.

- Nesse caso, mula... empacada. � emendou Nadine, desviando o olhar de Mabel que se virou e lhe fez uma careta.

 

Ap�s a sa�da do Dr. Rui, para surpresa de Mabel, Olga apareceu para almo�ar com elas. Trouxe uma sopa de capeleti, queijo parmes�o ralado e um p�ozinho crocante para acompanhar. Isso sem falar nos bifes acebolados, no arroz de formo e nas saladas variadas.

- Eu trouxe tomatinhos de jardim, Isabela, pois eu sei que gostas...- disse Olga, paparicando-a.

- Obrigada, Olga... � respondeu contente.

 

Depois do almo�o Nadine levou Mabel at� a sacada, pois o dia estava ensolarado e quase sem vento. Esmeralda havia sa�do para passear e aproveitar o dia ensolarado. Provavelmente retornaria para dentro de casa somente no final da tarde. Gostava de ca�ar borboletas e lagartixas, embora quase nunca conseguisse transforma-las em presas. Valia o divertimento.

Mabel instalou-se numa rede e Nadine noutra, ao lado. Conversavam quando a aten��o de ambas foi desviada para um fusca amarelo �ndio que se aproximava da cabana. Ao avista-las de longe Fredi colocou a cabe�a para fora da fusqueta e abanou efusivamente para as duas. Ao seu lado Marcos continuou dirigindo calmamente. No banco de tr�s estavam Eduardo e L�cia. O menino tamb�m abanava para elas:

- �i���...

- Parece que temos visitas... � disse Nadine sorridente � e daquelas que deixam a casa cheia!!!

Mabel sorriu. Nadine desceu as escadas indo de encontro ao grupo que desembarcava do �Kinder Ovo...� como Fredi chamava o carro deles �...com uma surpresa agrad�vel!!!�, a cada vez que sa�a de dentro do min�sculo ve�culo. Eduardo correu na dire��o dela com os bra�os estendidos, enquanto L�cia e os rapazes tiravam algumas sacolas de dentro do carro.

- Dinda...dinda!!! � gritou Eduardo alegremente enquanto se jogava no colo de Nadine. � Eu que pedi pra vir aqui, ver a Isabela... o v� contou pra m�e que o Feliciano disse pra ele que a nossa amiga t� doente!

- Nossa amiga?...

- �. A Isabela � minha amiga... e tua tamb�m...

- T� bom, garoto abusado... � disse Nadine colocando-o no ch�o.

- Dinda... � falou Eduardo colocando a m�o no bolso e retirando uma folha de papel cuidadosamente dobrada e a estendendo para a madrinha � Olha aqui... eu falei que j� tinha visto a Isabela... olha... ela � a mo�a da revista...

Nadine desdobrou a p�gina recortada de uma revista de moda e reconheceu Mabel ao lado de uma mulher muito bela, com o seguinte t�tulo de reportagem: �Mabel Lopes inaugura exposi��o no MAC�. Ao lado da foto das mulheres que apareciam lado a lado o seguinte texto: �A renomada artista exp�e seus trabalhos numa exposi��o no Museu de Arte Contempor�nea e aparece na noite de inaugura��o em companhia da modelo M�rcia Mendes, com quem tem sido flagrada seguidamente em eventos e lugares p�blicos. Parece que a amizade das celebridades vai al�m dos compromissos de trabalho, afinal as duas tem sido vistas juntas, divertindo-se na noite paulista e carioca.

Nadine leu o pequeno texto e viu o quanto o chamado continha segundas inten��es. Viu tamb�m que se tratava de uma revista de um ano atr�s. Eduardo, sem querer, havia lhe fornecido certezas que at� ent�o n�o possu�a. Se deu conta que Mabel realmente havia �lhe dado um alfabeto�, como disse Fredi e guardou o recorte no bolso de sua cal�a, fingindo indiferen�a, n�o querendo deixar transparecer o quanto aquele pequeno peda�o de papel recortado havia lhe deixado internamente mexida. Disse em tom casual:

- Realmente � ela, Eduardo... Parece que nossa amiga � famosa... mas n�o vamos comentar nada para n�o deixa-la constrangida, certo?

- Certo, dinda. Mas eu tinha raz�o, viu?

- Vi, querido. Desculpe ter duvidado.

- Tudo bem, dinda... como a minha m�e diz: �esse rapazinho aumenta, mas n�o inventa!� � referiu Eduardo com as m�os na cintura imitando a m�e.

Nadine n�o p�de deixar de rir do deboche do menino. Neste momento Fredi, marcos e L�cia juntaram-se a eles.

- Desculpe Nadine se viemos sem avisar, mas esse pi� encasquetou que queria ver a Isabela, depois que soube que ela caiu na mata. � disse L�cia � fez at� um presente para ela. E foi comentar com esses dois � disse apontando para Fredi e Marcos - que alimentaram a teimosia dele!

- T� aqui, � dinda... o presente da Isabela...� disse Eduardo mostrando um pequeno embrulho. � � uma escultura de argila!!! Uma coruja!!! Tem os olhos BEM grandes. Eu que fiz. E pintei de vermelho! Dinda, existe coruja vermelha?

- De repente... se ela estiver enraivecida... � brincou Nadine.

- Minha coruja n�o � raivosa!!! J� sei! Ela � colorada, como o padre Lino! Eu tor�o pro Caxias, que nem o meu pai.

- T� certo... � sorriu Nadine.

Fredi referiu:

- Querida, trouxemos umas maravilhas da padaria da cidade para a nossa doentinha... uma rosca de polvilho daqui, �! � disse puxando a ponta da pr�pria orelha.

- Eu falei que a gente deveria ter ligado antes... � ponderou Marcos.

- Mas EU � que sei! Nadine � minha AMIGA... entendeu? E eu n�o preciso de convites pra visitar uma amiga... � respondeu Fredi.

- Nem eu pra visitar a minha dinda! � retrucou Eduardo.

- Cala a boca, pi�!!! � repreendeu L�cia dando um safan�o na orelha do filho.

- Realmente, meus amigos n�o precisam de convite... as pessoas que eu amo s�o sempre bem vindas, a qualquer hora... � respondeu Nadine.

Eduardo abra�ou a madrinha pela cintura, empinou o nariz e disse olhando debochado para a m�e:

- N�o falei?...

- Respeita a tua m�e, moleque! � disse Nadine repreendendo-o.

- T�... desculpa m�e... � respondeu virando-se e correndo em dire��o a porta de entrada � Vou l� ver a Isabela.

Enquanto Nadine, L�cia, Fredi e Marcos depositavam as sacolas na cozinha Eduardo subiu correndo a escada de madeira que levava ao segundo pavimento.

- Isabela... olha eu aqui!!! � disse sorridente enquanto corria na dire��o dela e a abra�ava afetuosamente.

- Querido... como � bom rev�-lo. E como voc� est� bonito!!!

- Gostou? � disse Eduardo ajeitando o cabelo lambido de gel e cuidadosamente penteado para o lado � � a minha roupa de ir na missa!!!

- Voc� est� lindo... um gato!!!

Eduardo, que era s� sorrisos com os elogios, entregou o presente de Isabela:

- Presente pra ti!!!

- Pra mim???...

- , eu que fiz!!!

- Nossa, quanta honra!!! � respondeu Mabel desembrulhando o presente com cuidado. � Que linda... uma coruja!

- Colorada, que nem o padre Lino! Por isso � vermelha!... Posso te contar um segredo?... � perguntou chegando bem pertinho do ouvido de Mabel.

- Pode.

- � que eu s� tinha tinta vermelha... mas n�o conta pra dinda, sen�o ela ri de mim...

- Segredo nosso! � respondeu Mabel abra�ando e beijando afetuosamente o pequeno amigo � Eu adorei o presente, muito obrigada!

- Eu gosto de ti.

- Eu tamb�m, querido, eu tamb�m.

 

 

O restante do grupo chegou at� Isabela e Eduardo, e sentaram para conversar. Mabel sentia-se bem e ficou contente com a hospitalidade daquelas pessoas que conhecia h� t�o pouco tempo e j� demonstravam preocupar-se com ela. Nem reparava o tempo passar, t�o diferente de sua louca rotina em S�o Paulo. Estava adorando aqueles dias, isto sem falar no que lhe despertava o real desejo de permanecer por muito tempo em Itamoema: Nadine.

- Gente!!! Voc�s sabem do que eu me lembrei?... � perguntou Fredi.

- Do que!!! � perguntaram todos curiosos.

- Lembram de quem est� de anivers�rio daqui a onze dias?...

- Fredi... � disse Nadine com ar de reprova��o.

- Mas querida, voc� n�o vai escapar da festa!!! � disse Fredi dirigindo-se aos demais � Voc�s n�o acham que ela merece???

- MERECE!!! � responderam todos em un�ssono.

- Tudo bem... � concordou Nadine, dando-se por vencida. Sabia que n�o adiantava teimar com Fredi.

- Olha, a gente pode fazer uma festan�a no domingo seguinte!

- Nada de festan�a. Um almo�o no dia mesmo. � respondeu Nadine.

- Combinado, querida. Melhor que nada! � disse Fredi.

- Qual � o dia, afinal? � Questionou Mabel.

- Dezoito. � respondeu Nadine.

- Virginiana... � disse Mabel � mas deve ter ascendente em Le�o... muito mandona...

- E lua em capric�rnio!!! Quando diz que pau � pedra... � disse Fredi.

- N�o come�a, Fredi! - respondeu Nadine fazendo uma cara brava - Nem voc�, s� por que est� doente... � continuou dirigindo-se para Mabel.

Todos ca�ram na risada, inclusive Nadine.

- Quantos aninhos mesmo voc� estar� completando? � questionou Fredi.

- Trinta e seis.

- Nossa!!! T� ficando velhinha... � debochou Fredi.

- Velha � a tua v�!!! � pulou Eduardo em defesa da madrinha � Minha dinda � nova, e linda, e cheirosa. E tu � fedido...

- � menino, cad� o diabo do respeito??? � repreendeu Fredi.

- Tu que come�ou...

- Eduardo, o Fredi est� brincando � disse L�cia com voz firme � Pe�a desculpas.

- S� se ele disser que a minha dinda n�o � velha...

- Eduardo... � disse Nadine � ...tua m�e tem raz�o. Ele est� brincando... pede desculpas.

- T� bom... desculpa. Mas ela n�o � velha...

- Claro que n�o �, pivete... � respondeu Fredi � ela � poderosa!!!

- Menos, Fredi, menos... � disse Nadine divertidamente.

- Bom... ent�o qual vai ser o card�pio do almo�o de anivers�rio? � continuou Fredi.

- Eu gosto de churrasco!!! � disse Eduardo.

- E eu de lasanha... � respondeu Fredi.

- Por mim qualquer coisa est� bom. � disse Marcos.

- Por mim tamb�m. � concordou Mabel.

� Sugest�o: vamos deixar que a Olga escolhe, ela � a mestre-cuca mesmo... � respondeu Nadine.

- T� certo... mas a decora��o da mesa fa�o eu!!! � disse Fredi.

 

 

Os visitantes acabaram jantando com elas e j� eram mais de dez horas da noite quando foram embora. Enquanto o fusca amarelo se distanciava podia-se ver a m�ozinha de Eduardo abanando pelo vidro traseiro.

Nadine percebeu que Mabel estava bastante alegre, mas cansada, afinal ainda estava se recuperando. Mabel tomou um banho r�pido e se deitou, dormindo quase que instantaneamente. Nadine tamb�m tomou seu banho, leu um pouco e adormeceu pensando no recorte que Eduardo havia lhe mostrado.

 

 

********************

 

 

No domingo o sol continuou a brilhar sobre Itamoema. Novamente a temperatura se encontrava em eleva��o. Mabel acordou animada e bem disposta. As duas estavam j� arrumadas e tinham tomado o caf� da manh�. Eram quase onze horas e continuavam sentadas � mesa conversando.

 

- Muito bem, senhorita � disse Nadine alegremente � hoje poderemos ir al�m dos limites dessa sacada...

- Que bom, afinal estou quase me sentindo como a Rapunzel... presa numa torre!

- Mas em �tima companhia � completou Nadine brincando.

- Em companhia maravilhosa... � respondeu Mabel colocando sua m�o por cima da de Nadine e fitando-a nos olhos.

Nadine sentiu sua face assumir uma colora��o vermelho pitanga, desencostou sua m�o suavemente da de Mabel e baixou os olhos.

- Nadine, eu queria agradecer novamente o que voc� tem feito por mim...

- Ora, n�o tem nada que agradecer...

- Tenho sim. Voc� tem sido incans�vel e atenciosa.

- Pra compensar a rabugice...

- Voc� n�o � rabugenta... digamos que �... temperamental.

Nadine riu.

- E al�m do mais � continuou Mabel - eu sei que tamb�m sou meio dif�cil de conviver...

- Mas eu estou gostando... que esteja aqui.

- Est�?

- Estou.

- Mas voc� j� n�o est� mais habituada a dividir sua casa, n�o � mesmo?

- Bem...

- Desde que Sila foi embora, n�o �?

Nadine a fitou seriamente, pensando ter ouvido mal. Por�m, pelo olhar de Mabel, percebeu que havia escutado perfeitamente bem e logo entendeu qual havia sido o informante:

- Eduardo... � disse Nadine - ...aquele l�ngua de trapo!

- Ele n�o falou por mal, voc� sabe como s�o as crian�as... ele tamb�m me contou sobre o chul� do Rudi.

Nadine foi obrigada a rir:

- Aquele menino � uma figura... � disse Nadine - ...e Sila implicava muito com ele. Nunca teve paci�ncia com crian�as.

- E foi por isso que terminaram?

- Tamb�m por isso... ela era uma pessoa dif�cil... pior que eu! � sorriu Nadine.

- Faz tempo que terminaram?

- Quase dois anos.

- E desde ent�o?... � bisbilhotou Mabel.

- Desde ent�o o que?

- N�o tem ningu�m?

- N�o.

- Que �timo!... � disse Mabel, emendando logo em seguida - ...�timo que esteja t�o bem! Afinal t�rminos de relacionamentos s�o sofridos e acabam deixando marcas.

- Que o tempo leva. � completou Nadine.

- Pois �... e as vezes leva mais r�pido do que se pensa... � disse Mabel num tom de voz que deixou Nadine novamente desconcertada.

Nadine era uma mulher madura e vivida, por�m t�mida em algumas situa��es. No entanto, naquele momento n�o poderia deixar passar a oportunidade de saber um pouco mais sobre Mabel:

- E voc�, Mabel Lopes?... Continua sendo amiga de M�rcia Mendes?

Desta vez foi Mabel que ficara de queixo ca�do, olhando para Nadine com uma express�o perplexa. Era estranho ser chamada de �Mabel� por Nadine, pois j� havia se acostumado com a sonoridade de �Isabela�.

- Eu tamb�m tenho os meus informantes... � sorriu Nadine frente a perplexidade de Mabel.

- S� por curiosidade, como � que voc� ficou sabendo disso?...

Nadine colocou a m�o no bolso das cal�as, retirou o peda�o de papel dobrado que Eduardo havia lhe dado e o alcan�ou para Mabel. Esta olhou o recorte com curiosidade e perguntou:

- Quem lhe deu?

- Nosso informante em comum...

- Eduardo!

Ambas sorriram e Mabel continuou:

- Continuamos amigas, sim. Somente amigas. Resolvemos terminar antes que se acabasse tamb�m a amizade.

- Entendo... e faz tempo?

- Duas semanas!

- �... temp�o... � brincou Nadine.

- Realmente � como se fizesse bem mais tempo... o tempo � relativo, principalmente quando se conhecem pessoas que passam a ter uma import�ncia especial nas nossas vidas... � respondeu Mabel novamente colocando sua m�o sobre a de Nadine, fitando-a nos olhos e aproximando seus l�bios dos dela.

 

 

- BOM DIA, MENINAS!!! � disse Olga irrompendo escadaria acima.

Elas se afastaram uma da outra num sobressalto.

- Como vai nossa doentinha?... � perguntou Olga.

- Totalmente recuperada! Inclusive a Dra. Nadine me liberou para sair da quarentena domiciliar! � respondeu Mabel.

- Que �timo, pois eu vim busca-las! N�s vamos almo�ar na Pousada! Eu fiz �apfelstr�del� de sobremesa.

- O que � isso Olga?

- Uma esp�cie de rocambole, de ma��, prato t�pico alem�o!

- Acho que vou adorar isso! � respondeu Mabel.

Nadine continuava quieta, esperando que seus batimentos card�acos voltassem ao normal e a pulsa��o ficasse mais lenta.

- Que cara � essa Nadine? � perguntou Olga.

- Cara? Que cara, Olga? A minha cara de sempre!

- N�o seja mal educada menina... � retrucou Olga. � eu te conhe�o muito bem, viu? Mas n�o quero discutir! Vamos l�? Porque n�o passeiam um pouco, aqui por perto, o dia est� lindo!!!

- N�s vamos sim, n�o �, Nadine? � disse Mabel.

- �. Vamos.

- �timo! � respondeu Olga � Venha querida... vamos descendo devagarzinho, eu te dou a m�o.

 

 

Mabel desceu as escadas devagar, observando o pavimento t�rreo da casa de Nadine. Assim como o segundo piso, tamb�m era uma pe�a inteira, com uma �nica divis�ria que era o banheiro. Toda a �rea das paredes era coberta por prateleiras, sendo na verdade um atelier. Viu pe�as de cer�mica e esculturas em madeira. Olhou para Nadine que vinha mais atr�s e perguntou:

- S�o seus esses trabalhos?

- S�o. Meu passatempo.

- S�o pe�as lindas!!!

- Depois, com calma, eu te mostro.

- Vou querer ver tudo!

 

 

Elas caminharam devagar e venceram a dist�ncia entre a casa de Nadine e a casa grande em mais ou menos meia hora. Almo�aram e sentaram-se na sacada lateral da Pousada, onde �quela hora o sol batia indiretamente, e cuja vista dava para o roseiral de Olga. Feliciano estava ocupado com as atividades externas de lazer dos h�spedes. Olga estava mais descansada, pois havia conseguido duas auxiliares de cozinha para aquele final de semana, devido ao movimento. Sempre que a Pousada ficava mais movimentada eram contratados funcion�rios por dia de servi�o. Assim Olga p�de sentar com elas e conversar despreocupadamente. Em dado momento, uma das servi�ais trouxe o telefone sem fio e disse:

- Telefone pra senhora, dona Nadine, � o seu pai.

Nadine atendeu ali mesmo e conforme o pai ia falando seu semblante ia assumindo uma express�o fechada.

- Mas, pai... precisa ser hoje?... N�o, pai, n�o estou �me custando�, mas � que assim, de ultima hora... Eu sei, eu sei da necessidade... Tudo bem. Eu vou... Mas s� o m�nimo tempo necess�rio. Tudo bem... eu tamb�m te amo... T�... Tchau.

Nadine desligou e Olga questionou logo:

- O que foi, minha filha? Algo aconteceu com teu pai?

- N�o, Olga, tudo bem... a mania do papai de deixar tudo para a �ltima hora. Precisa de uma avalia��o de solo, de uma �rea nova que quer comprar... e pretende fechar neg�cio logo, pra ontem. Precisa de mim l� ainda hoje. Reservou passagem no v�o das 23:40, no Salgado Filho.

- Hoje? � perguntou Mabel, tentando disfar�ar a frustra��o.

- Hoje. � respondeu Nadine cabisbaixa. � Calculo que seja servi�o para mais ou menos uma semana no Mato Grosso. Droga!

- Mas Nadine, - disse Olga tentando anima-la � n�o � a primeira vez que vais ajudar o teu pai. Ele precisa de ti.

- Eu sei, Olga... mas eu gosto de planejar as coisas... tu sabe que � o meu jeito. N�o gosto dessas coisas a toque de caixa.

- Paci�ncia Nadine, uma semana passa depressa... � disse Mabel.

Nadine olhou para ela e continuou:

- Eu vou para a cabana arrumar as minhas coisas. Se tu quiseres pode ficar l�... como se fosse a tua casa, de verdade.

Nadine encarou Mabel nos olhos e esta respondeu sorrindo:

- Eu quero ficar... quando voc� voltar a gente termina a nossa conversa...

- Que conversa? � quis saber Olga.

- N�o seja enxerida, Olga! � respondeu Nadine virando-se e caminhando com passos largos em dire��o � sua casa.

 �Elas pensam que eu sou boba� matutava Olga, �est�o com uma express�o de quem comeu melado e se lambuzou... ou vai comer...�, �...mas tamb�m, � como diz o Feliciano, o que � que eu tenho com isso, Nadine � adulta, ela � que sabe da pr�pria vida.�

 

 

 

Em seu quarto Nadine arrumou algumas roupas e pertences pessoais numa pequena mala. Precisava se apressar. Quando descia as escadas e se preparava para carregar sua mala para dentro da caminhonete Mabel entrou pela porta da frente, indo ao seu encontro. Nadine olhou para ela, que sorria-lhe amorosamente:

- Olha, eu vou ficar aqui, te esperando. Eu quero realmente terminar aquela nossa conversa...

Nadine sorriu e respondeu:

- Eu tamb�m... eu tamb�m.

- Voc� volta at� o dia do seu anivers�rio?

- Vou tentar... prometo.

- Independente do tempo que leve, eu vou te esperar. � disse Mabel aproximando-se de Nadine e acariciando suavemente seu rosto com a m�o.

Nadine deixou cair sua mala e enla�ou Mabel pela cintura, capturando seus l�bios num beijo a princ�pio lento, por�m que avolumou-se em intensidade conforme Mabel colava seu corpo ao de Nadine e seus bra�os a envolviam pelo pesco�o. As l�nguas se tocavam e exploravam cada canto das cavidades �midas e sedentas de paix�o. Nadine percebeu que nunca na vida havia beijado boca t�o macia e quente. Mabel n�o poderia ser comparada com mais ningu�m. Era diferente, seu toque era sedutor e despertava em Nadine sensa��es que nunca imaginara ser capaz de sentir. Mabel por sua vez sentiu como se todos os seus poros estivessem sendo invadidos por uma onda de calor e excita��o. Sentia os bra�os fortes de Nadine envolvendo-a e quase que levantando-a do ch�o, e o contraste da delicadeza e do�ura de seu beijo. Poderia morrer ali, que morreria feliz, pensou.

Nenhuma delas seria capaz de precisar o tempo de dura��o daquele beijo maravilhoso. Quando, finalmente, conseguiram separar as bocas, os olhos se encontraram e deixaram transparecer o sentimento que brotava nos cora��es.

- Voc� vai perder o avi�o... � disse Mabel ainda abra�ada � Nadine.

- Pois �... � suspirou Nadine.

- Eu posso ir com voc�s at� o aeroporto?

- Melhor n�o... uma puxada e tanto at� a capital... voc� ainda est� se recuperando. O v�o pode atrasar, e n�o quero que pegues o sereno da noite...

- Excesso de zelo!

- N�o... cuidado com quem se ama...

Os olhos de Mabel brilharam, pois j� fazia algum tempo que uma mulher n�o dizia que a amava. Na verdade nunca havia escutado aquelas mesmas palavras ditas de forma t�o verdadeira. Nadine era uma mulher que dispensava palavras, falava com os olhos, e apesar de conhece-la h� bem pouco tempo, p�de perceber o quanto era aut�ntica e sincera em suas coloca��es, quaisquer que fossem. Mabel beijou suavemente os l�bios de Nadine e respondeu:

- Voc� tem raz�o... eu te espero aqui, meu amor.

Novamente Nadine a enla�ou num beijo apaixonado. Era dif�cil desencostarem os corpos ardentes de desejo. Ambas sentiram-se completamente �midas e somente conseguiram se afastar ao escutarem os passos pesados de um par de botas se aproximando. Era Feliciano que viera apurar Nadine:

- Nadine, minha filha, vamos logo! Tem muito ch�o pela frente! E o tal do p�ssaro de ferro n�o espera ningu�m!

- E agora? Como � que eu vou ficar? � disse Mabel, com as pernas bambas.

- Se voc� n�o estivesse doente eu te diria em duas palavras...

- Quais?

- Banho frio!

- Mas EU ESTOU em processo de restabelecimento...

- Ent�o te digo em uma... paci�ncia.

 

Mabel sorriu e ainda sapecou um beijo r�pido na boca de Nadine, que juntou sua mala e lhe disse maliciosamente � meia voz:

- Nossa conversa ainda n�o acabou...

- E eu vou esperar ansiosa por esse... di�logo... � respondeu Mabel sorridente, tirando o len�o de seda lil�s que envolvia seu pesco�o e entregando-o � Nadine. � Toma, leva meu cheiro contigo.

Nadine encostou o len�o em seu nariz, sentindo a suavidade da seda, igual a pele de Mabel, e sorvendo a fragr�ncia do seu perfume preferido.

� Vai com Deus, meu amor. � sussurrou Mabel.

- Fica com Ele. E nada de fotografar pl�tanos... � disse Nadine em tom de brincadeira, saindo da cabana e entrando na caminhonete vermelha onde Feliciano j� havia se instalado no banco do carona.

Nadine ainda se virou, colocando a cabe�a para fora do ve�culo em movimento e gritou:

- Deixei meu e-mail anotado embaixo do primeiro vaso de violetas... manda not�cias!

 

Mabel sorriu contente e acenou para ela, fazendo um sim com a cabe�a. Acompanhou a trajet�ria de Pimentinha e viu quando ela desapareceu na curva da estrada. Estava s�, por�m a sensa��o de totalidade que sentia naquele momento n�o poderia ser comparada a nenhuma outra sensa��o que j� tivera na vida. Nadine retornaria em breve e ela estaria l� para espera-la. Resolveu que dedicaria seu tempo � arte. Queria pintar uma tela para Nadine, que n�o fossem pl�tanos.

Esmeralda ronronou e veio enrosquilhar-se nas pernas de Mabel enquanto esta se ajeitava numa das redes da sacada, admirando o ocaso e a silenciosa movimenta��o das criaturinhas da Fazenda que se recolhiam frente a aproxima��o gradual das sombras do entardecer. A gata pulou no colo de Mabel e ajeitou-se pregui�osa em seu colo, olhando-a nos olhos. Por muito tempo Esmeralda vivera s� com Nadine, que considerava ser sua. Por�m, naquele momento, com certeza, a felina enxergava o amor que Mabel sentia por Nadine e parecia querer demonstrar, atrav�s de chamegos e de carinho, que Mabel era bem vinda naquela casa e na vida delas.

 

 

******************

 

 

Naquela noite Esmeralda dormiu encostadinha aos p�s de Mabel, como que para fazer-lhe companhia, afinal ela era uma gata anfitri� educada e n�o queria que Nadine se envergonhasse dela. �N�o posso deixar Isabela sentir-se sozinha...�, ronronou Esmeralda com seus bigodes antes de adormecer.

Nos dias que se seguiram Mabel procurou manter-se ocupada para ver se o tempo passava mais depressa. Sentia muita falta de Nadine e era como se ela fosse irromper porta adentro a qualquer momento, com aquela sua express�o de quem tem tudo sob controle.  Estava �vida por sentir novamente o toque daquelas m�os e l�bios. E queria mais... muito mais. Percebia-se totalmente envolvida por aquele sentimento de entrega, pr�prio de quem se apaixona. Cogitava a possibilidade de viver ali, com Nadine, deixando para tr�s tudo o que n�o tinha mais significado em sua vida. Naquele momento queria Nadine, aonde quer que ela estivesse, e estava disposta a entregar-se por completo naquela rela��o.

Mabel aproveitou para explorar cada canto da Fazenda da Figueira, os lugares seguros, � claro. Tirou muitas fotos, capturando bel�ssimos cen�rios e coloridos diversos. Num dos dias em que acordou bem cedo sua aten��o voltou-se para o laguinho ao lado da Pousada, onde patos, gansos e cisnes nadavam com a neblina da manh� ao fundo, como se fosse uma cortina transparente e esvoa�ante, uma n�voa densa dando um toque sutil de mist�rio � casa grande.

 

Todos os dias Mabel se comunicava, mesmo que brevemente, com Nadine, pelo correio eletr�nico. Usava o computador do escrit�rio da Pousada. Contava as novidades do seu dia e dava not�cias de Esmeralda.

Os dias se arrastaram at� que Mabel recebeu a seguinte mensagem: �Daqui a dois dias � meu anivers�rio. Combine o almo�o com Olga e com os rapazes. Fa�am os preparativos, pois chego no dia 18 pela manh�. J� marquei o v�o. Pe�a pro Feliciano estar no Salgado Filho as seis horas da manh�. N�o ag�ento mais as saudades. Tua Nadine.� Mabel n�o conseguiu conter sua satisfa��o e desceu as escadas da Pousada correndo e gritando:

- Olga... Olga... Nadine chega depois de amanh�!!! Ela vem pro anivers�rio!!!

Olga, que estava na cozinha, sorriu frente a anima��o de Mabel e respondeu:

- E tu tinha alguma d�vida que ela n�o viria pro anivers�rio?

- N�o sei, Olga... ela tinha muita coisa para fazer...

- Isabela, a Nadine quando quer alguma coisa, consegue!

- E depois a cabe�a-dura sou eu... pois sim...

- � que parece que a minha princesinha tem bons motivos para voltar logo, n�o � mesmo? � questionou Olga.

Mabel ficou corada, baixou os olhos e respondeu:

- Pode ser... � e saiu da cozinha.

 

 

*********************

 

 

Na quarta-feira, dia 17 de setembro, Mabel foi at� a cidade. Havia combinado com Fredi que iria passar na casa deles no come�o da tarde para acertar detalhes do almo�o do dia seguinte. Deixou seu carro na Fazenda e foi com a caminhonete de Nadine. Aproveitou para comprar alguns temperos a pedido de Olga. No armaz�m avistou uma prateleira com enfeites para festas de anivers�rio. N�o resistiu � tenta��o e comprou bal�es coloridos e velinhas para o bolo.

Chegando na casa dos rapazes Marcos veio recebe-la na porta:

- Fredi ainda est� no banco, mas logo est� vindo para casa.

- N�o posso demorar muito, pois Feliciano quer levar a Pimentinha para uma pequena revis�o antes de pegar a estrada para buscar Nadine, nesta madrugada.

- Vamos entrando que eu vou servir um cafezinho... � disse Marcos.

- Eu prefiro �gua, estou morrendo de sede!

- Tudo bem. � respondeu Marcos conduzindo Mabel at� a cozinha.

 

 

Neste meio tempo Fredi entrou em casa. Vinha dobrando a esquina quando viu Mabel estacionando e entrando em sua casa.

- Queridos... cheguei!!! � gritou Fredi.

- Ol�! � disse Mabel.

- Oi. � disse Marcos.

Fredi passou rapidamente por Marcos, dando-lhe um beijinho na ponta do nariz, e foi na dire��o de Mabel, abra�ando-a afetuosamente:

- Vem c�, menina... vamos para a sala... temos muito o que combinar!!!

 

Os tr�s se ajeitaram no sof� da sala e Fredi come�ou seu interrogat�rio habitual:

- Escuta... um passarinho me contou que a senhorita e uma certa amiga nossa andaram de convers� mais �ntimo por a�... verdade?

- �... � respondeu Mabel, sorrindo timidamente.

- E parece que a conversa ficou meio... pendente?...

- Pois �...

- Fredi!!! � censurou Marcos.

- Deixa eu matar a minha curiosidade! Continuando: e por acaso, essa conversa que por certo acontecer� amanh�, � promissora? Ou n�o?..

Mabel sorriu e respondeu:

- �... muito promissora.

- Aaaaiii, que coisa boa!!! � disse Fredi batendo palmas - Querida, isso � tudo o que a Nadine precisa!!! Ela � uma pessoa maravilhosa, mas est� na hora de botar uma mulher naquele corpo!!!

- FREDI... Pelo amor de Deus!!! � censurou Marcos novamente.

- Deixa ele... � disse Mabel sorridente � Vou te confessar uma coisa... � continuou, aproximando-se do ouvido de Fredi - ...eu tamb�m acho!

- VIIIIUU, falador! Sempre me repreendendo, como se eu fosse crian�a... � resmungou Fredi.

- Crian�as tem mais freio inibit�rio que tu! � respondeu Marcos.

- Meninos!!! Por favor!!! � interviu Mabel � Vamos combinar os detalhes do almo�o ou n�o?...

- Vamos, querida. Eu acho que dev�amos decorar TODA a casa da Nadine com flores!!!

- Vai parecer um vel�rio � disse Marcos para contrariar Fredi.

- Ai, que saco, mesmo!!! S� se for o teu, bicha, com flores e purpurina!

- Acho que podemos colocar algumas flores, sim, mas n�o muitas Fredi, pois acho que a Nadine gosta mais delas nos canteiros... � referiu Mabel.

- � mesmo! � concordaram os dois.

- Eu comprei bal�es! � disse Mabel.

- �timo!!! Vai ficar lindo!!! � respondeu Fredi.

- Vamos convidar mais algu�m de fora? Al�m de Eduardo e os pais? � questionou Mabel.

- Acho que n�o. A Nadine n�o costuma convidar muitas pessoas para visit�-la. � meio bicho-do-mato, sabe?

- Fredi, que injusti�a... � falou Marcos � Nadine s� n�o d� muita abertura para esse bando de gente faladora... no que faz muito bem! Mas da� a ser chamada de bicho-do-mato tem muita diferen�a...

- Ai, ai, ai... a Isabela entendeu o que eu quis dizer, n�o foi Isabela?...

- Entendi, Fredi, entendi... � respondeu Mabel � Olha, n�o podemos esquecer do padre Lino!

- Claro! � concordaram ambos.

- Pode deixar que eu aviso o padre. � disse Fredi.

- Mas e o card�pio, a Olga j� definiu o que vai fazer? � questionou Marcos, sempre muito pr�tico.

- J�. Um dos pratos preferidos de Nadine: talharim ao molho branco, com nozes.

- Adoooro isso!!! � disse Fredi.

- E mais um monte de coisas boas que n�o quis me contar, dizendo que era surpresa... � disse Mabel.

- Bom, quando a Olga resolve caprichar, sai de baixo, acho que vamos engordar alguns quilinhos... � brincou Marcos.

- A Nadine chega no aeroporto as seis horas da manh�. Se o v�o n�o atrasar calculo que estar�o chegando aqui l� pelas dez horas, pois at� pegar a bagagem, etc e tal, as vezes demora um pouco.

- Pode ficar tranq�ila que amanh� antes das oito horas estaremos l� na Fazenda para ajudar na organiza��o das coisas! � prometeu Fredi.

- Que bom, vou esperar voc�s, pois a Olga vai estar ocupada na prepara��o do almo�o. � respondeu Mabel.

- Combinado!

 

Mabel se despediu dos rapazes, passou no Posto de Gasolina, completou o tanque e retornou para a Pousada, a tempo de entregar Pimentinha para Feliciano, que j� havia combinado com Z� Paulo de fazer uma breve revis�o geral na caminhonete.

Ap�s a janta combinou os �ltimos detalhes do dia seguinte com Olga, que faria o almo�o na casa de Nadine, para facilitar o trabalho, e foi para a cabana. Pensava em se deitar cedo, para estar bem descansada na manh� seguinte. Percebeu que Esmeralda estava agitada, corria de um lado para outro atr�s de insetos imagin�rios e sombras nas paredes. Por certo pressentia o retorno de Nadine e estava feliz... assim como ela.

 

 

********************

 

 

Na quinta-feira o sol continuou a brilhar muito intenso e dando um colorido especial ao interior da cabana, ao refletir-se pelas vidra�as quadriculadas das janelas, projetando sombras no assoalho de madeira e nas paredes de tijolos. As violetas banhavam-se naquela luz matutina e pareciam cantarolar atrav�s das p�talas aveludadas, contagiadas pela aura de alegria que reinava na Fazenda da Figueira naquele dia especial. Bem cedo Esmeralda subiu no telhado e se posicionou de frente para a estradinha de acesso � cabana, por certo para ser a primeira a avistar Pimentinha trazendo sua Nadine de volta para casa. Al�m de Esmeralda todos tamb�m levantaram cedo naquela quinta-feira. Mabel foi da cama diretamente para a banheira e tratou de usar um �leo de banho maravilhoso, afinal queria estar bem perfumada para receber sua �princesinha�...

 

Feliciano havia pego a estrada por volta de duas da madrugada, queria chegar com boa margem de tempo, para evitar qualquer imprevisto e n�o deixar Nadine esperando.

 

Fredi e Marcos chegaram pouco antes das oito horas, conforme haviam prometido e come�aram a decorar a cabana e encher os bal�es.

- Amiga... � disse Fredi para Mabel � depois eu que sou exagerado... aqui devem ter quase duzentos bal�es!!!

- Duzentos e cinq�enta � corrigiu Mabel.

- Cruzes!!! Vou me esvair em assopros!!!

- N�o reclama, Fredi e come�a logo a assoprar. � disse Marcos � j� dando um n� no quinto bal�o enquanto Fredi ainda discursava.

 

Mabel colheu algumas flores, margaridas e l�rios, as preferidas de Nadine. Fez um belo buqu� e colocou num vaso, no centro da mesa na qual seria servido o almo�o. No dia anterior Feliciano havia montado uma mesa com t�buas e cavaletes, no t�rreo, no centro do atelier de Nadine, por ser um espa�o mais amplo e que facilitaria a circula��o de todos. Olga trouxe uma toalha grande que cobriu toda a extens�o da mesa, com estampas de pequenas meias-luas em todo seu comprimento. Feliciano tamb�m havia montado bancos de madeira, encapados com papel pardo.

 

Por volta de nove e meia a cabana estava toda decorada. Os bal�es, todos pendurados em pencas na porta de entrada e no interior da casa, davam um ar festivo ao ambiente. Olga j� estava trabalhando no preparo do almo�o, pois haviam muitas variedades no card�pio escolhido por ela. Mabel estava ansiosa e quase n�o conseguia disfar�ar, olhava o rel�gio a cada cinco minutos e em seguida voltava seu olhar para a estrada.

- Eu vou at� a porteira de entrada � disse Mabel � quero receber a Nadine na chegada...

- Vai, crian�a... vai... � disse Fredi � mas n�s vamos contigo!

- Ent�o vamos... OLGA, A GENTE VAI ESPERAR A NADINE NA PORTEIRA... � gritou Mabel.

- TUDO BEM... � respondeu Olga do segundo pavimento.

 

 

Esperaram por cerca de vinte minutos na sombra de uma enorme amoreira, quando finalmente avistaram Pimentinha ao longe, aproximando-se e levantando poeira do ch�o. O cora��o de Mabel acelerou enquanto ela corria na dire��o do p�rtico de entrada, ao mesmo tempo em que a caminhonete estacionava em frente ao port�o e Nadine descia na inten��o de abri-lo. Antes por�m que destravasse o port�o um t�xi estacionou bem atr�s da caminhonete vermelha. Dele desembarcou uma mulher muito alta, esguia, cabelos longos e lisos, maquiagem pesada para aquela hora da manh�, roupa sofisticada e sapatos de salto e bico fino. Esta fez um sinal com a m�o dispensando o t�xi que manobrou e seguiu na dire��o da cidade. Caminhou na dire��o de Nadine e com voz arrogante perguntou:

- Procuro Mabel Lopes.

- Ela est� hospedada aqui... � respondeu Nadine reconhecendo aquela figura como sendo a amiga de Mabel, M�rcia Mendes � mas... o que desejas dela?

M�rcia olhou Nadine de cima a baixo, com desd�m e respondeu empinando o nariz:

- Eu vim busca-la. Embora isso n�o te diga respeito.

 

Nadine ficou perturbada pela arrog�ncia da modelo, por sua beleza e pelo medo de perder Mabel. Sentiu um aperto na garganta e uma vontade quase que incontrol�vel de expulsar aquela mulher dali. Nadine cerrou os punhos, por�m antes que dissesse qualquer coisa sentiu uma m�o suave segura-la pelo pulso.

- Deixa que eu falo com ela. � disse Mabel olhando Nadine nos olhos.

 

O toque de Mabel foi suave, mas firme. Nadine respirou fundo, olhou Mabel nos olhos e caminhou em dire��o � caminhonete, pondo-a em movimento e dirigindo-se para a cabana. Pimentinha arrancou cantando pneus e levantando uma nuvem de poeira atr�s de si. Fredi e Marcos que assistiram � cena tamb�m voltaram para a cabana, a p�. Mabel apontou a porta de entrada da Pousada para M�rcia, enquanto esta tossia e espanejava a poeira de sua roupa.

- Mulher mal educada, ein? Grossa. � disse M�rcia.

- O que � que voc� est� fazendo aqui?...

- J� disse. Vim te buscar.

- Como assim??? � exaltou-se Mabel � Acabou, M�rcia, a-ca-bou!

- N�o acabou coisa nenhuma, Mabel. Um relacionamento de quase tr�s anos n�o acaba assim...

- M�rcia, nosso relacionamento foi morrendo aos poucos... e voc� sabe disso.

- Mas voc� esperou que eu fosse viajar para pegar suas coisas l� em casa! E deixou a chave com o porteiro!!! O que voc� pensa que eu sou???

- Uma pessoa perturbada. Eu n�o esperei que voc� sa�sse em viagem, na verdade voc� sabia que eu iria pegar minhas coisas e viajou, � diferente. E onde eu poderia deixar a tua chave? Do lado de fora da porta? Por favor, M�rcia... vamos terminar essa conversa por aqui, enquanto ainda existe um pouco de respeito entre n�s.

- Foi essa brutamontes a� de fora que virou a tua cabe�a, n�o foi?... Por certo j� se conheciam, por isso � que voc� veio pra esse fim de mundo!...

- N�o fale assim da Nadine!!! � disse Mabel com o dedo em riste, apontado na dire��o do rosto de M�rcia. � Dobre essa maldita l�ngua quando falar nela, porque Nadine n�o tem nada a ver com o fracasso da nossa rela��o!

- J� entendi... � disse M�rcia sarcasticamente - e vejo que perdi meu tempo vindo at� eesta... estrebaria.

- M�rcia, cala essa boca e vai embora. Me esquece, entendeu?

- O que ser� que o Dr. Jos� Isidoro Lopes Santini diria se soubesse que sua filhinha �nica est� caidinha por uma interiorana sem educa��o???...

- Ficaria mais satisfeito do que se imaginasse que a filhinha j� havia dormido com uma modelo f�til e arrogante. � respondeu Mabel � e outra coisa, M�rcia, n�o me ameace usando meu pai ou minha fam�lia. Hoje eu descobri que sou dona e senhora do meu destino. E pode ser que ele esteja aqui, sim.

M�rcia baixou os olhos e come�ou a chorar compulsivamente. Mabel foi at� a cozinha da Pousada e preparou um copo de �gua com a��car para ela. Quando finalmente conseguiu se acalmar Mabel disse:

- M�rcia, eu n�o quero brigar... eu quero ser feliz. Fa�a o mesmo!

- Mas sem voc�?

- Sem mim. Voc� � uma mulher capaz de refazer a sua vida. Eu vou refazer a minha...

- Eu n�o deveria ter vindo...

- Pois �, n�o deveria... agora vem, eu vou te levar at� a cidade. L� voc� pega um t�xi e volta para a capital.

 

***********************

 

 

Ao entrar em casa Nadine mal conseguiu cumprimentar Olga, tamanha sua sensa��o de mal estar.

- Querida... o que foi que aconteceu??? � questionou Olga.

- Nada... � disse Nadine a meia voz, subindo para seu quarto � preciso de um banho.

- Mas...

- Deixa ela, Olga. � disse Feliciano � daqui a pouco passa.

- Onde est� Isabela? � quis saber Olga.

- Na pousada. Conversando com uma mo�a que veio da cidade grande, atr�s dela.

- Eu sabia, Feliciano! Eu sabia que essa mo�a ia fazer nossa Nadine ficar triste...

- Olga, n�o julgue sem saber. Ela est� l� conversando. Deixa a Nadine.

 

 

Neste meio tempo Fredi e Marcos chegaram na cabana. Marcos ficou com Olga e Fredi subiu as escadas.

- Nadine... voc� est� no banheiro?

- N�o Fredi... em cima do telhado.

- Ai que saco! Sempre mal educada! Eu t� querendo conversar...

- E eu terminar o meu banho.

- N�o seja por isso! Eu converso a� dentro mesmo! � respondeu Fredi entrando no banheiro e sentando-se no vaso sanit�rio ap�s baixar a tampa do assento.

Nadine estava mergulhada na banheira de �gua morna, com espuma de banho quase que saindo pelas bordas, pela a��o do turbilh�o da hidromassagem.

- Fredi!!! Onde � que est� o diabo do respeito??? Eu t� nua!!!

- E tu acha o qu�, queridinha... que eu vou ficar excitado? Mais f�cil eu me excitar com um porco espinho!

- Mas que desaforo!

- Olha... a Isabela est� s� conversando com aquela gazela albina... s� isso...

- Sei...

- N�o fa�a essa cara triste, tu n�o confia no teu taco, menina?

- Confio... mas, tu viu a cara dela? Ela � linda. Antip�tica, mas linda...

- E tu? � o que? O corcunda de Notre Dame? Te enxerga, minha n�ga! Tu � um tes�o de mulher!!!

Nadine � obrigada a sorrir.

- Mas, Fredi, ela disse que veio buscar a Isabela...

- Uma coisa � o que ela disse, outra coisa � o que vai acontecer. A Isabela te esperou o tempo todo, ansiosamente. Ela preparou cada detalhe do dia de hoje. Nadine... ela est� apaixonada... e n�o � por aquela perua, � por ti.

- Ser�, Fredi?...

- Com certeza. Te arruma e desce, que logo ela vai vir te encontrar. Ela s� precisa de um tempo para despachar aquele encosto!

Nadine sorriu mais animada.

- Tudo bem, acho que tu tem raz�o. E o resto do mundo n�o tem culpa das minhas paran�ias...

- Assim � que se fala, mulher!

- Fredi...

- O que �, bem?...

- D� pra cair fora que eu quero sair da banheira?...

- Tudo bem, queridinha � respondeu Fredi saindo do banheiro.

Quando Nadine pensava em se levantar ele colocou novamente a cara para dentro da porta e disse:

- Que peitinho maravilhoso!!!

- CAI FORA!!! � gritou Nadine jogando �gua com sab�o na dire��o do amigo.

 

******************

 

 

Nadine terminou de se vestir, secou os cabelos, deixando-os soltos, colocou um cal�ado leve e desceu as escadas com uma express�o bem melhor do que a que estampava ao subir. Fredi a aguardava nos p�s da escadaria:

- Agora sim... � disse estendendo a m�o para ela.

Nadine sorriu para ele, pegando em sua m�o estendida. Olhou com uma express�o de ansiedade para a estradinha da rua. Feliciano vinha entrando e Nadine perguntou:

- Feliciano, tu viu a Isabela?

- Saiu no carro dela... com a mo�a da cidade grande.

 

Fredi apertou a m�o de Nadine ao perceber que ela estava prestes a desmoronar de novo, puxando-a para um canto:

- Como � que tu querias que aquela minhoca com lordose voltasse para a cidade? A entojada despachou o t�xi logo na chegada! A Isabela foi levar a mala e j� volta, entendeu?

- Entendi... � respondeu Nadine, ainda com olhar tristonho.

- Vem, vamos sentar l� fora um pouco.

- Eu quero caminhar at� a porteira... � disse Nadine.

- Ai, c�us!!! Parece que hoje a minha via sacra � cabana-porteira-cabana-porteira-cabana... mas tudo bem! Vamos, linda!

 

 

 

Enquanto os dois amigos caminhavam na dire��o da Pousada, Esmeralda os observava de cima do telhado. Ela havia descido ao avistar Pimentinha e acompanhou Nadine enquanto ela subia as escadas da cabana. Ficou preocupada com a tristeza de Nadine, que mal lhe havia feito um afago no lombo. �Como esses humanos s�o complicados...�, pensava Esmeralda, �coisas t�o �bvias as vezes s�o t�o obscuras para eles. Ser� que Nadine n�o enxerga o que tem dentro dos olhos de Isabela?... Coitadinha... mas quando Isabela voltar ela conta...�

 

 

******************

 

 

Embaixo da sombra da amoreira Fredi e Nadine conversavam:

- J� vivi essa cena hoje! � disse Fredi � Mas com outra personagem...

- Como assim?

- Ora, mimosa, quem voc� acha que estava aqui com a Isabela agorinha a pouco te esperando? E tendo que ag�entar esse mesmo olhar de peixe morto na dire��o da estrada?

Nadine sorriu.

- Fredi, tu � mesmo um amig�o, sabia?

- Claaaaro que sabia! Sou um cachorrinho, de t�o fiel, para os meus amigos... mas uma cascavel, quando necess�rio, para os inimigos!

- At� parece que tu capaz de ser venenoso como uma cobra... � brincou Nadine.

- Pois �... n�o consigo, n�? Aaaaiii, eu sou uma bicha pac�fica!

- E eu te amo, sabia?

- Que emo��o! Uma mulher dizendo que me ama! T� decadente mesmo!

- Bobo... � respondeu Nadine abra�ando o amigo pelo pesco�o e sapecando-lhe um beijo estalado na boca.

- Aaaaiii, assim tamb�m j� � demais, Nadine!

- N�o mandei elogiar meus peitos... � sorriu Nadine.

- Golpe baixo.

********************

 

 

Neste momento ouviu-se um ronco de motor na estrada. Era o Focus branco de Mabel retornando para a Pousada. Os olhos de Nadine brilharam e ela correu na dire��o da porteira.

- Tamb�m j� vi essa cena! � resmungou Fredi - Tomara que n�o encoste outro t�xi com outra louca dentro logo a� atr�s!

 

 

Nadine abriu a porteira e o carro de Mabel entrou no p�tio da Fazenda da Figueira. Mabel acenou para Nadine de dentro de seu carro e ao lado dela tamb�m acenava sorridente o padre Lino:

- Feliz Anivers�rio, querida!!! � disse padre Lino antes de desembarcar.

 

Nadine n�o cabia em si de satisfa��o ao ver Mabel descer do carro e vir em sua dire��o de bra�os abertos:

- Feliz Anivers�rio!!! � disse Mabel abra�ando Nadine afetuosamente.

 

Mabel colou seu corpo ao de Nadine, embora discretamente, e cochichou em seu ouvido:

- Eu quase morri de saudades.

- Eu tamb�m... e agora a pouco, de medo...

- Pois n�o precisava.

 

Padre Lino se aproximou e elas se afastaram. Nadine abra�ou o padre que lhe entregou um pacotinho:

- Presentinho... mas �n�m� repare. � s� uma lembran�inha...

- Querido... n�o precisava. � respondeu Nadine abrindo o pacote e percebendo tratar-se de uma medalha de Nossa Senhora da Concei��o.

- � para te proteger, minha filha...

- Muito obrigada, padre, � linda. Adorei!

 

 

Nem bem tinham acabado de se cumprimentar e ouviram novo barulho de carro na estrada. Novamente um t�xi se aproximava.

- Ai, meu Deus � disse Fredi colocando a m�o na testa em um gesto teatral � o encosto voltou! Acho que vou ter um tr�co!!! � completou encostando-se no tronco da amoreira.

 

Nadine engoliu em seco enquanto Mabel se preparava para nova discuss�o quando uma pequena m�o come�ou a abanar de dentro do t�xi. Era Eduardo:

- Dinda!!! O carro do pai quebrou! E de carro�a a gente ia chegar s� amanh�!!!

 

 

Todos respiraram aliviados, somente padre Lino manteve-se tranq�ilo, uma vez que n�o havia presenciado o rompante da chegada de M�rcia. Nadine caminhou na dire��o do t�xi e abra�ou Eduardo que correu em sua dire��o t�o logo o ve�culo abriu as portas.

- Sabe dinda, a m�e brigou com o pai hoje de manh�, porque ele n�o arruma aquela porcaria de carro!

O pai de Eduardo sorriu e disse:

- Pois �, a gente � xingado de tudo quanto � parte, e ainda tem que ag�entar esse pi� fofoqueiro...

- Mas que aquele carro � uma encrenca, isso �! � disse L�cia tamb�m em tom de brincadeira � melhor ficar s� com a carreta de boi.

- Desde que n�o me botem a puxar... � respondeu o pai do menino.

Todos foram obrigados a rir, e Eduardo completou:

- Nem eu!

 

 

Todos retornaram para a cabana, onde Olga j� terminava de preparar o almo�o. O dia transcorreu repleto de anima��o. Eduardo, Fredi e o padre Lino eram uma casa cheia. De vez em quando os olhares de Nadine e Mabel se perdiam um no outro, como se ambas fossem transportadas para uma dimens�o diferente das demais pessoas. Mabel n�o cansava de admirar Nadine, o quanto era maravilhosa e o quanto estava feliz. Nadine, por sua vez, se perdia na figura de Mabel, contemplando cada mil�metro do seu rosto, encantada com seus gestos e com seu sorriso. Percebia o quanto Mabel havia se empenhado em preparar-lhe uma surpresa de anivers�rio. �...Bal�es...�, pensava Nadine, �...h� quantos anos eu n�o ganhava bal�es de anivers�rio... e eu estou adorando isto...�

Por vezes eram trazidas de volta � realidade por alguma pergunta direta:

- �N�m� � mesmo, Nadine?

- ��h?... O que , padre?

- Que a senhorita me deve quase que um eito de �planta��n� de tanto pousar em cima do meu trigal e dos meus girass�is, quando salta que nem doida naquela asa de pano!

- Pois �, padre... pois �... � concordou Nadine sorrindo.

 

 

Por volta das dezesseis horas todos cantaram �Parab�ns a Voc� para Nadine, que apagou as velinhas com um sopro s�, logo ap�s fechar os olhos e fazer um pedido. Esmeralda observava de longe e pensou: �...bobinha, desperdi�ou um pedido... isso que ela desejou j� � dela! Mas fazer o que? Humanos...�

 

 

A luminosidade vespertina come�ou a mudar os matizes da natureza a sua volta e as sombras do final de tarde come�aram a se alongar sobre as �rvores, colinas e telhados. Padre Lino foi o primeiro a se levantar:

- Bom... acho que j� vou andando... sou meio como as galinhas: gosto de me recolher cedo.

�At� que enfim...�, pensou Mabel, �pensei que o pessoal fosse ficar at� amanh�...�. Logo em seguida caiu em si: �...que coisa feia, Maria Isabela! Correr as visitas do anivers�rio... mas � por uma boa causa... muito boa, ali�s...�

- Eu levo o senhor, padre. � disse Feliciano.

- Ent�o n�s vamos pegar uma carona tamb�m � disse L�cia.

- Ah m�e, j�??? � reclamou Eduardo � Eu posso dormir aqui na dinda hoje?

- Claaaro que n�o, pivete! � pulou Fredi. � Amanh� o senhor n�o tem aula???

- Tenho... mas...

- Nada de mas. Outro dia. � respondeu Fredi.

- � verdade, filho. � continuou L�cia � Amanh� � dia de aula e de trabalho. Tua dinda tem muito o que fazer.

- �... como tem! � completou Fredi.

- �Ent�n� vamos... � disse o padre Lino.

- N�s tamb�m j� vamos levantar acampamento � disse Fredi abra�ando Nadine � Feliz Anivers�rio de novo!

- Muito obrigada, amigo!

- Vai com calma, ein? V� se n�o vai te descadeirar... falta de uso, sabe como �... � cochichou debochadamente no ouvido de Nadine.

- Seu podre! � respondeu ela, dando-lhe um belisc�o nas costelas.

 

 

Os amigos se despediram de Nadine e Feliciano foi leva-los at� a cidade. Olga, Nadine e Mabel observaram a Pimentinha e o Kinder Ovo se afastando de casa.

- Nossa... essa casa ficou vazia! � disse Olga � Que sil�ncio!

As tr�s foram obrigadas a rir.

- N�o sei quem � o mais agitado, Eduardo ou Fredi! � brincou Mabel.

- Olha, p�reo duro. � respondeu Nadine.

- Preciso levar umas panelas para a Pousada, tu me ajuda Nadine? � perguntou Olga.

- Pode deixar que eu ajudo, Olga. � respondeu Mabel � Nadine deve estar exausta, afinal deve estar acordada desde madrugada, se � que dormiu.

- N�o, deixa que eu vou. Tu tamb�m deve estar cansada. � disse Nadine.

Mabel foi enf�tica ao responder:

- J� disse que vou eu! E j� volto... � aproximou-se de Nadine e disse baixinho - ...afinal temos assuntos inacabados.

Nadine ficou corada, olhou para Olga e sorriu meio sem gra�a.

- Ent�o t�... vou tomar um banhozinho para relaxar...

 

Mabel sorriu do desconcerto de Nadine. Esmeralda que havia entrado em casa ap�s a sa�da dos convidados franziu o nariz e agitou os bigodes, �huuum... estou sentindo um certo clima no ar... acho que hoje vou dormir no atelier da Nadine, na prateleira dos pinc�is...� miou consigo mesma.

 

*******************

 

 

Olga e Mabel dirigiram-se � Pousada levando algumas panelas e travessas que haviam sido usadas no almo�o, enquanto as sombras da noite tomavam conta das trilhas e o c�u descortinava o brilho das primeiras estrelas.  Na cabana Nadine estava inquieta. Suas m�os suavam frio e decidiu tomar uma ducha r�pida, bem quente, para relaxar. Vestiu uma roupa confort�vel, cal�a de abrigo preta e justa, com cintura baixa e uma blusa de algod�o, branca e com um desenho em forma de mandala no peito, em cujo centro havia um s�mbolo do yin e yang nas cores rosa e violeta. Por cima colocou um agasalho de moletom aberto na frente tamb�m preto, afinal a temperatura ainda caia � noite naquela �poca do ano. Mal havia acabado de se vestir e ouviu os passos de Mabel subindo as escadas apressadamente. Ao chegar no segundo piso, Mabel correu na dire��o de Nadine e se jogou em seus bra�os:

- Ai que saudades!!! Eu pensei que fosse morrer!

- Eu tamb�m meu amor, eu tamb�m... � respondeu Nadine beijando Mabel apaixonadamente.

 

Quando os l�bios por fim conseguiram separar-se, mesmo que por poucos segundos, Mabel disse:

- Eu tenho um presente pra ti...

- Imagino... � respondeu Nadine maliciosamente.

- N�o seja pervertida! Eu t� falando s�rio!

- Eu tamb�m...

- T� escondido...

- Isabela... � disse Nadine com voz s�ria.

- O que?

- Hoje eu fiquei com medo de te perder...

- Bobinha... ent�o voc� n�o confiou no que eu te disse? Eu falei que te esperaria.

- Eu sei, mas... aquela mulher foi importante pra ti, n�o foi?

- Foi. Pret�rito... Passado. Meu presente � voc�... Eu te amo, Nadine.

- Eu tamb�m... eu te amo muito... � disse Nadine beijando novamente Mabel, de uma forma intensa e apaixonada.

- Voc� n�o est� curiosa para ver o seu presente?... � questionou Mabel.

- Muito... � respondeu Nadine novamente com a voz repleta de segundas inten��es.

- N�o seja assanhada, dona Nadine... eu t� falando de uma coisa que eu fiz especialmente pra voc�!

- Ent�o me mostra! Quer me matar de curiosidade?

- Fecha os olhos!

- T� bom... � disse Nadine fechando os olhos.

 

Mabel foi at� o roupeiro de Nadine e tirou detr�s dele um embrulho grande, de aproximadamente 50x60cm. Foi at� Nadine e parou de p� na frente dela:

- Pode abrir os olhos!

Nadine olhou para Mabel que segurava seu presente com ambas as m�os, com um brilho todo especial no olhar. Nadine se comoveu com a intensidade do afeto e da expectativa daqueles olhos que a contemplavam amorosamente:

- Toma! Espero que goste!

- Com certeza vou adorar! � respondeu Nadine pegando seu presente e come�ando a desembrulha-lo.

 

Quando tirou todo o papel colorido que o envolvia percebeu tratar-se de um quadro, uma vista do alto da Pedra Grande, com o vale abaixo, as montanhas ao fundo e uma asa delta solit�ria sobrevoando os campos... com duas pequeninas pessoas penduradas nela...

- Somos n�s... � disse Mabel � as �donas do mundo�!

- Meu amor... lindo...

- Voc� me fez sentir realmente como se fosse �dona do mundo� naquele dia, sabia?

- E por ironia do destino, parece que naquele dia voc� tomou posse do meu cora��o... � disse Nadine.

- E voc� do meu...

 

Novamente elas se beijaram apaixonadas, at� que Mabel sussurrou a meia voz:

- Huuummm... voc� est� t�o cheirosa... eu vou tomar um banhinho tamb�m... para ficar � altura da minha... princesinha... � disse Mabel provocante.

- Golpe baixo, ein? � respondeu Nadine sorrindo � Falando nesse tom de voz eu n�o consigo ficar braba com o �princesinha�...

- Que bom! � respondeu Mabel correndo serelepe at� o banheiro e ligando a ducha quente.

 

 

Mabel havia deixado a porta do banheiro entreaberta e Nadine avistou a silhueta de seu corpo atrav�s do vidro semitransparente do box do chuveiro. Nadine engoliu em seco ao avistar as curvas graciosas daquele corpo que estava prestes a tocar por inteiro. Respirou fundo e tratou de acender a lareira. Apagou as luzes do aposento deixando apenas as chamas da lareira iluminarem o ambiente, espalhando calor e sombras que pareciam agitar-se conforme crepitavam as labaredas que consumiam as toras secas dos pinheiros. Nadine estava feliz, na verdade n�o conseguia se lembrar se alguma vez sentira-se como que naquele momento. Serviu uma dose de licor de chocolate, sua bebida preferida, a qual apreciava pelo sabor forte, por�m doce. Sorveu um gole vagarosamente, sentindo aquele l�quido escorrer-lhe pela garganta e esquenta-la mais do que j� estava. Seus olhos se voltaram para um canto do aposento onde seu velho viol�o pendia esquecido j� h� bastante tempo. Pegou o instrumento e sentou-se de pernas cruzadas numa almofada sobre o tapete em frente � lareira. Torceu as escravilhas do viol�o dando afina��o ao instrumento. Dedilhou alguns acordes e percebeu que estava com a mesma sonoridade de antes. �Porque ser� que eu o deixei de lado por tanto tempo?... Acho que faltava inspira��o...�, pensou com seus bot�es.

Neste instante Mabel saiu do banheiro e viu Nadine sentada de costas para ela, admirando as chamas e dedilhando uma melodia lind�ssima nas cordas de a�o do viol�o. Caminhou at� Nadine e ajoelhou-se atr�s dela, colocando suas m�os nos ombros de sua amada. Ao sentir o toque das m�os de Mabel em seus ombros Nadine fez men��o de parar de tocar, por�m Mabel sussurrou em seu ouvido:

- Por favor, n�o pare...

Nadine seguiu vibrando as cordas de seu viol�o e come�ou a cantarolar uma can��o que lhe veio � mem�ria:

 

�Uma esp�cie de c�u,

Um peda�o de mar,

Uma m�o que doeu,

Um dia devagar,

Um domingo perfeito,

Uma toalha no ch�o,

Um caminho cansado,

Um tra�o de avi�o.

Uma sombra sozinha,

Uma luz inquieta,

Um desvio na rua,

Uma voz de poeta.

Uma garrafa vazia,

Um cinzeiro apagado,

Um Hotel numa esquina,

Um sono acordado.

Um secreto adeus,

Um caf� a fechar,

Um aviso na porta,

Um bilhete no ar.

Uma pra�a aberta,

Uma rua perdida,

Uma noite encantada

Para o resto da vida.

 

Pedes-me o momento,

Agarras as palavras,

Escondes-te no tempo

Porque o tempo tem asas

Levas a cidade,

Solta no cabelo

Perdes-te comigo

Porque o mundo � o momento...�

 

 

Mabel estava emocionada com a beleza da m�sica e com a interpreta��o de Nadine. Ela, de fato, cantava com a alma. Mabel fez a volta e ajoelhou-se de frente para Nadine, olhando-a nos olhos enquanto ela continuava sua cantiga:

 

 

�Uma estrada infinita,

Um an�ncio discreto,

Uma curva fechada,

Um poema deserto,

Uma cidade distante,

Um vestido molhado,

Uma chuva divina,

Um desejo apertado...

Uma noite esquecida,

Uma praia qualquer,

Um suspiro escondido

Numa pele de mulher.

Um encontro em segredo,

Uma duna ancorada,

Dois corpos despidos

Abra�ados no nada.

Uma estrela cadente,

Um olhar que se afasta,

Um choro escondido

Quando um beijo n�o basta...

Um sem�foro aberto,

Um adeus para sempre,

Uma ferida que d�i,

N�o por fora, por dentro...

 

Pedes-me o momento,

Agarras as palavras,

Escondes-te no tempo

Porque o tempo tem asas

Levas a cidade,

Solta no cabelo

Perdes-te comigo

Porque o mundo � o momento.�

 

 

Quando Nadine terminou de cantar uma l�grima escorreu do canto dos olhos verdes de Mabel. Esta estendeu sua m�o e afagou o rosto de Nadine, que inclinou sua face e fechou os olhos, sentindo a suavidade do toque de Mabel em sua pele. Mabel contornou o rosto de Nadine com os dedos e deslizou sua m�o at� a nuca, puxando-a delicadamente na dire��o de seus l�bios. Nadine entreabriu seus olhos a tempo de ver a boca de Mabel a poucos cent�metros da sua. Sentiu os l�bios macios e a l�ngua quente invadindo sua boca sedenta. A pulsa��o de ambas acelerou e Nadine podia escutar os batimentos de seu cora��o ecoarem acima do barulho das chamas que crepitavam na lareira. Quando os l�bios de Mabel se afastaram um pouco Nadine abriu os olhos e viu que Mabel a contemplava apaixonadamente.

- Meu amor... que coisa linda... nunca escutei m�sica mais linda na vida.

- E eu tamb�m nunca havia cantado para mulher t�o linda...

Mabel sorriu, o sorriso mais encantador que Nadine j� havia visto.

- Aposto que voc� diz isso pra todas! � brincou Mabel.

- N�o... na verdade eu nunca disse isso pra ningu�m...

- Verdade?...

- Verdade. Eu nunca senti isso por ningu�m. N�o assim...

- Assim como?

- Eu n�o sei definir. S� sei que eu sinto...

- Sabe, eu tamb�m nunca senti essa coisa forte antes... quando voc� foi viajar eu fiquei com uma sensa��o de que faltava um peda�o muito, muito importante de mim...

Nadine sorriu:

- � engra�ado como a vida nos reserva surpresas... eu nunca imaginaria encontrar meu amor num sem�foro aberto... em Arroio Bonito...

Desta vez foi Mabel que sorriu:

- E eu que meu grande amor quase me batesse em nosso primeiro encontro...

 

Ambas sorriram lembrando-se da primeira vez em que se encontraram. Seguiu-se um per�odo de sil�ncio onde as duas mulheres se olharam nos olhos por longo tempo, como se conseguissem ver muito al�m deles, penetrar nas profundezas do sentimento que cada uma possu�a na alma.

- Eu te amo, Nadine... � disse Mabel fazendo Nadine afastar delicadamente o viol�o que se encontrava entre elas, como uma barreira a ser transposta.

- Eu tamb�m te amo, Isabela, muito...

 

Nadine contemplou Mabel ajoelhada � sua frente, com ambas as m�os sobre o colo, admirando-a amorosamente. Reparou que ela havia sa�do do banho com um roup�o de tecido atoalhado, verde musgo, que contrastava com sua pele clara e real�ava o verde intenso dos seus olhos. Nadine levantou-se vagarosamente e estendeu as m�os para Mabel, fazendo com que ficasse de p� � sua frente. Enla�ou-a pela cintura, colando seu corpo ao dela e sentindo o calor de sua pele passando pelo tecido felpudo do roup�o de banho. Mabel abra�ou Nadine pelo pesco�o, levando seus l�bios em dire��o aos dela. Ambas explodiam de excita��o e desejo. Nadine levantou Mabel do ch�o com um abra�o, conduzindo-a at� a beirada da cama. Delicadamente desamarrou o la�o que prendia a cintura do roup�o de Mabel. Em seguida levou suas m�os at� a gola do roup�o e descobriu pouco a pouco os ombros de sua amada, beijando-os com suavidade. Baixou um pouco mais o tecido felpudo, deixando-o cair at� o ch�o. Percebeu que Mabel estava completamente nua. Contemplou aquele corpo pequeno e ardente e levou seus l�bios at� os seios de Mabel, passando sua l�ngua pelos mamilos em movimentos circulares que fizeram Mabel gemer de desejo. Em seguida come�ou a sugar os mamilos rijos de excita��o. Mabel queria mais. Come�ou a despir Nadine com voracidade. Quando tirou o suti� rendado que Nadine usava mergulhou na del�cia daqueles seios firmes e excitados. Nadine tirou sua cal�a e Mabel ajudou a baixar sua calcinha, admirando seu sexo totalmente encharcado de tes�o. Totalmente despidas abra�aram-se e mergulharam nos len��is macios da alcova que as aguardava para a noite de amor.

Do �ltimo degrau da escadaria Esmeralda as observou, virou-se languidamente e iniciou sua descida em dire��o ao t�rreo: �...como eu pensei... vou dormir na prateleira dos pinc�is...�, ronronou consigo mesma.

 

Nadine deitou-se de costas, com Mabel totalmente estendida sobre ela. O calor dos corpos fundia-se num s� e era como se todas as estrelas que iluminavam a noite refletissem seu brilho nos olhos azuis de Nadine. As chamas continuavam a crepitar com vivacidade projetando na parede as sombras dos corpos, em movimentos r�tmicos e cadenciados. As curvas, as sensa��es, os gemidos e as juras de amor se confundiam naquele pequeno espa�o, onde as duas mulheres se entregavam por completo, gozando a mais profunda sensa��o de plenitude e de amor. Uma oferecia � outra o mais profundo sentimento de �xtase e cada orgasmo era a explos�o daquela entrega e completude. Na madrugada adormeceram abra�adas, enquanto as chamas da lareira se consumiam, transformando-se em brasas incandescentes que pouco a pouco iam perdendo a intensidade e o calor.

No andar t�rreo Esmeralda encontrava-se enrosquilhada numa caixa na prateleira ao lado dos potes dos pinc�is. Tentava a muito custo conciliar o sono, por�m a cada gemido mais alto no andar de cima despertava de seu estado de semiconsci�ncia. Quando Mabel e Nadine adormeceram Esmeraldo ronronou: �...parece que finalmente vou conseguir dormir... assanhadinhas...�

 

********************

 

No dia seguinte quando Mabel acordou, Nadine j� a observava em seu sono, ainda abra�ada a ela. Pregui�osamente espregui�ou-se e sorriu para Nadine:

- Bom dia, meu amor...

- �... �timo dia... � respondeu Nadine beijando carinhosamente a boca de Mabel que retribuiu o beijo apaixonado.

- Eu j� disse que amo hoje?... � perguntou Mabel.

- Huummm... n�o que eu me lembre...

- Ent�o eu vou dizer: eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo...

- Nooossa... que mulher apaixonada...

- E voc� nem imagina o quanto.

- Imagino sim... e como imagino � respondeu Nadine beijando novamente a boca de Mabel. � Eu tamb�m te amo... mais do que tudo, sabia?...

- Imaginava... ningu�m resiste aos meus encantos! � brincou Mabel.

- Convencida! Convencida, mas linda...

Elas se abra�am rindo uma da outra.

- T� com fome? � perguntou Nadine.

- Muuuita!

- Vou fazer o nosso caf�. � disse Nadine pulando da cama.

 

 

 

Mabel ficou admirando, agora com a claridade da manh�, as curvas do corpo da mulher que amava, antes dela colocar sua camiseta por cima da pele morena. Nadine tinha ombros largos, abd�men definido, pr�prio de quem costuma praticar exerc�cios com regularidade, pernas bem torneadas, seios firmes, movimentos compassados que lembravam um felino. E afora todos os seus atributos f�sicos, Mabel estava cada dia mais apaixonada pela ess�ncia de Nadine, por seu car�ter, bondade de cora��o, espontaneidade, senso de justi�a e capacidade de ser solid�ria. Admirava a conduta de Nadine e seu modo de encarar a vida.

Quando Nadine serviu o leite quente e o caf� nas canecas de lou�a, Mabel levantou-se, vestiu seu roup�o e aproximou-se da mesa. Nadine estava sentada numa das banquetas de madeira. Mabel abra�ou-a por tr�s, beijou-lhe a nuca e os cabelos e perguntou:

- E agora, meu amor?...

- Agora o que? Agora vamos tomar caf�... � respondeu Nadine.

- Estou perguntando da gente...

- A gente se ama. E pronto.

- E voc� acha que tem um lugarzinho aqui nesta cabana pra mim?

Nadine se virou para Mabel abra�ando-a pela cintura e dizendo:

- Nesta cabana, nesta cama, no meu cora��o... aonde eu for voc� vai comigo... a n�o ser que n�o queira...

- Tudo o que quero nesta vida � ficar com voc�... pra sempre.

Mabel se inclina e beija os l�bios de Nadine com carinho.

- O caf� vai esfriar, mocinha... � disse Nadine sorrindo.

- E eu t� morrendo de fome!

- Deve ser por causa do excesso de exerc�cios...

- Nesses �exerc�cios� eu quero mais � me acabar!!!

- Safada!

- S� eu???

- EU s� estou cumprindo a minha obriga��o! � disse Nadine brincando.

- Obriga��o??? Que obriga��o???

- Fazer feliz a mulher que eu amo... � respondeu amorosamente.

Mabel sorriu, beijou Nadine novamente e disse:

- E eu estou adorando isso...

 

Esmeralda pulou no colo de Nadine, esfregando sua cabe�a na barriga desta, fazendo com que sua presen�a fosse notada por ela:

- Esmeralda... esqueci do teu leitinho matinal! � disse Nadine levantando-se e servindo um pouco de leite morno numa tigelinha e colocando ao lado dos p�s da mesa.

�Huumpf... era s� o que faltava: esquecer meu leitinho... assim j� � demais! Al�m de ter que dormir na prateleira dos pinc�is quer me matar de fome? Pois essa noite vou dormir por aqui mesmo! E n�o quero saber de barulho! Elas que durmam na prateleira!�, resmungava Esmeralda enquanto sorvia aquele l�quido saboroso e morno. �Pensando bem... Nadine merece ser feliz... e eu gosto da Isabela. Afinal ela � um amorzinho... me faz cafun�, n�o reclama quando eu afio as unhas no sof�, n�o implica com os meus pelinhos, como aquela uma que morava aqui antes com a Nadine e vivia reclamando: �tenho alergia a p�lo de gato, b�, b�, b�, bota essa gata para dormir na rua...� Que raiva me d� de lembrar daquela criatura desagrad�vel e implicante! Mas com a Isabela � diferente... Acho que n�o vou me opor em dividir minha casa com ela, nem a minha Nadine... desde que ela se lembre do meu leitinho matinal! E da minha ra��o de latinha.�

Depois de tomar todo o seu leite Esmeralda foi se deitar no parapeito da janela, perto dos vasos de violetas, para tomar um banho de sol enquanto lambia seus bigodes.

 

*********************

 

Ap�s o caf� Mabel perguntou � Nadine:

- Amor, vamos fazer aquela coisa maravilhosa de novo agora de manh�?...

- Tudo bem... mas acho que vou ter que tomar um golezinho de catuaba... e � bom fazer a digest�o primeiro!

- Boba! N�o t� falando de sacanagem!

- Aaahh... pensei... � respondeu Nadine em tom de brincadeira.

- Eu t� falando em voar!

- Tu gostou mesmo, n�?

- AMEI... e hoje a tarde j� chegam os h�spedes do final de semana, a� voc� vai ter muito trabalho...

- Esse final de semana eu t� de folga!!! Lua de mel! Feliciano que se vire com os h�spedes. Eu sou s� da minha mulher neste fim de semana. � respondeu Nadine abra�ando Mabel pela cintura.

- Neste e em todos os outros, eu espero!

- Sim, com certeza, mas nos outros eu largo essa vida de vadiagem! Deixo pra vadiar s� de segunda � sexta...

- T� bom...

�Depois tem a coragem de insinuar que eu sou pregui�osa... vai ver se eu passo um final de semana sem ca�ar lagartixas e borboletas! E sem vigiar a movimenta��o dos h�spedes de cima do telhado! Pois sim... vida dura � a minha!�, ronronou Esmeralda empinando o nariz ao passar por Nadine e seguir seu caminho em dire��o a outro banho de sol matinal, desta vez no alto do telhado da estrebaria.

 

********************

 

 

Nadine colocou seu equipamento de v�o na Pimentinha enquanto Mabel se preparava para seu segundo salto da Pedra Grande. Ao passarem pela Pousada Olga estava na cozinha e Feliciano a ajudava descascando batatas.

- Bom dia!!! � disseram Nadine e Mabel em un�ssono.

- Bom dia! � responderam Olga e Feliciano.

- N�s vamos at� a Pedra Grande. � disse Nadine.

- V�o pular com aquela geringon�a de novo?... � quis saber Olga.

- Vamos. � respondeu Mabel.

- Feliciano, esse final de semana � tudo contigo. Eu t� de folga! � disse Nadine.

- Tudo bem, minha filha, pode descansar que eu cuido de tudo! � respondeu o velho.

- Voc� poderia ir conosco at� a Pedra Grande, Feliciano? Para dirigir a caminhonete na volta e nos pegar no s�tio do padre Lino, afinal ele deve estar na Par�quia nesta hora.

- Tudo bem, v�o indo que eu vou logo atr�s, s� vou lavar as m�os e pegar meu bon�.

- Ent�o a gente t� indo. Tchauzinho.

- V�o com Deus! � disse Olga.

- Obrigada! � responderam as duas.

Olga e Feliciano observaram a sa�da delas e viram que antes de chegarem � caminhonete elas se deram as m�os.

- �, Feliciano... acho que n�o � bem �descansar� o que a Nadine vai fazer neste final de semana... � disse Olga.

- Pois �. E bem faz ela! Desse tipo de descanso n�s dois bem que estamos precisando! � respondeu Feliciano.

Olga ficou vermelha de raiva e jogou uma batata na dire��o de Feliciano:

- Te arranca daqui, velho abusado! Me respeita!

Feliciano se esquivou da batatada e saiu da cozinha rindo. Antes de chegar ao p�tio ainda gritou:

- Um dia tu ainda vai me dar raz�o, velha...

 

 

Os tr�s chegaram ao topo da Pedra Grande e Nadine montou seu equipamento, observada de perto por Mabel que queria aprender o funcionamento daquela �engenh�ca�, como dizia Olga. Feliciano esperava pacientemente, escutando as not�cias no r�dio da Pimentinha. Desta vez Mabel estava tranq�ila e Nadine n�o se conteve:

- Hoje tu est�s bem mais calma do que da �ltima vez que estivemos aqui, ein senhora corajosa? � debochou Nadine.

Mabel lhe aplicou um tapinha no bra�o e respondeu:

- Como � que voc� teve coragem de fazer aquilo comigo???... Eu poderia ter morrido do cora��o!!!

- Mas n�o morreu!!! Gra�as aos c�us...

- Ahr���... agora sinto um tom de remorso na voz?...

- Mais ou menos... - respondeu Nadine sorrindo - ...mas voc� sabia que eu jamais te colocaria em perigo, n�o sabia?

- Pressentia...

- �timo. E eu tenho uma coisa pra te confessar. � disse Nadine.

- O que �?

- Para mim voar � uma das melhores sensa��es que uma pessoa pode ter, � criar asas como os p�ssaros e comungar com o vento... � disse Nadine olhando nos olhos de Mabel � e eu nunca dividi isso com ningu�m antes, al�m do meu instrutor de v�o, � claro... Eu prometi a mim mesma que s� compartilharia essa sensa��o com algu�m que fosse muito especial... e n�o hesitei em te trazer comigo. Com certeza o meu inconsciente sabia de antem�o o que o meu consciente custou um pouco mais para perceber: que voc� � a mulher da minha vida, a companheira que eu quero para todos os meus v�os e pousos, pra sempre.

Mabel ficou com os olhos cheios de l�grimas e afagou o rosto de Nadine, dizendo:

- E isso � tudo o que eu quero pra minha vida... ficar com voc�.

- Mas, e o seu trabalho? E fam�lia, e amigos, e vida social?...

- Bom, trabalhar eu posso trabalhar aqui mesmo, ou voc� se importa de me ceder um cantinho do seu atelier?

- Ele � todo seu...

- E fam�lia eu posso visitar. Amigos verdadeiros eu encontrei aqui. E vida social... bem, quem precisa de vida social?... Eu preciso de amor, e isso eu encontrei em voc�. O resto?... � s� o resto... pouco ou nada importa. E quando eu precisar viajar para divulgar o meu trabalho nada te impede de ir junto, n�o � mesmo? E eu preciso mesmo de uma boa empres�ria...

- Ahaaa, pra esse neg�cio de empres�ria eu n�o sirvo n�o! Mas o Fredi bem que d� pra coisa... Eu vou junto contigo sim, mas � pra te cuidar... e evitar que alguma engra�adinha por a� resolva se engra�ar com a mulher dos outros...

 

Mabel caiu na gargalhada:

- Ciumenta...

- Ciumenta n�o... cuidadosa! � respondeu Nadine.

- T� bom...

- O equipamento t� montado. Vamos voar?

- Vamos!!!

- FELICIANO! � chamou Nadine � A gente j� vai saltar! Te esperamos l� embaixo daqui a mais ou menos duas horas, pode ser?

- Tudo bem! Boa aterrissagem!

- Obrigada!!! � responderam as duas.

 

*********************

 

Elas se prepararam para o salto e novamente o cora��o de Mabel disparou, mas desta vez n�o de pavor como anteriormente, e sim de expectativa. Iniciaram a corrida e saltaram no vazio, planando como as �guias das montanhas, de encontro �s nuvens e projetando uma min�scula sombra de asas sobre o vale bem abaixo.

 

Enquanto a asa delta se movia graciosamente nas alturas, Mabel fazia uma retrospectiva mental de toda a sua vida at� aquele momento, principalmente nas mudan�as radicais ocorridas nas �ltimas semanas. Em menos de um m�s havia conseguido dar um sentido � sua vida. Havia se apaixonado pela mulher que tinha certeza ser a sua outra metade e com a qual planejava passar o resto de sua vida, aonde quer que fosse, de prefer�ncia na Fazenda da Figueira, por ser um lugar que ela considerava encantado, por tudo o que havia se processado nela, externa e internamente, l�. Fechou os olhos e deixou-se levar pela sensa��o on�rica do vento que batia em seu rosto. Sentia o perfume de Nadine e o calor de sua presen�a a seu lado. Naquele momento seu corpo estava entregue � Nadine, que era respons�vel por leva-las em seguran�a at� a terra firme, assim como sua alma havia sido capturada por aquele par de olhos profundamente azuis. Vez por outra o vento fazia com que o cabelo de Nadine ro�asse em seu rosto, como que acariciando sua pele clara.

Por vezes, durante o v�o, Nadine se perdia contemplando sua carona... ou seria prisioneira. De fato, naquele momento, Mabel era prisioneira daquele pequeno p�ssaro de alum�nio, fibras e tecidos, que obedecia ao comando de Nadine enquanto esta executava manobras de subidas e descidas no espa�o vazio. Por�m, mais que isso, era prisioneira daqueles olhos da cor do c�u, que refletiam os raios solares daquela manh� de finalzinho de inverno. E Mabel queria ficar presa ali para o resto da vida...

 

 

Quando finalmente pousaram no trigal do padre Lino, novamente elas se deitaram no ch�o a contemplar um c�u quase sem nuvens. Nadine e Mabel ficaram por muito tempo tentando adivinhar formas para as poucas nuvens que surgiam perto do horizonte, parecendo pequenos algod�es doces voadores.

- Olha, aquela ali parece um cavalo... � disse Mabel apontando para um pequeno ponto branco no c�u.

- S� se for manco, s� tem tr�s pernas!

- Um delas est� atr�s da outra, gracinha!

- Coisa mais bicha esse teu cavalinho de pernas cruzadas... � disse Nadine rindo da tentativa de Mabel de dar forma �s nuvens.

- T� rindo, �? Quero ver voc� achar algo melhor... � respondeu Mabel, fingindo indigna��o.

- Olha... ali parece uma coruja... � disse Nadine.

- Cega! Aonde est�o os olhos?

- Ela t� de costas, querida...

Mabel virou-se de lado e se jogou sobre Nadine, rolando com ela pelo campo amarelado:

- Eu vou te fazer adivinhar uma coisinha... dona �entende tudo de nuvens�... � provocou Mabel enquanto beijava e mordiscava o pesco�o de Nadine, segurando-a pelos bra�os. � Voc� sabe o que eu estou pensando agora?

- Que me ama?...

- Tamb�m! Outra coisa!

- Que... que... sei l�!

- Que voc� � a mulher que mais adora me contrariar... mas eu nem ligo...

 

Nadine virou-se num jogo de corpo e colocou Mabel por baixo de si, deitando-se em cima dela e imobilizando seus bra�os:

- E tu? Sabe o que EU estou pensando agora?... � perguntou desafiadoramente

- Que me ama?...

- Tamb�m! Outra coisa!

- N�o fa�o a m�nima id�ia...

- Que tu �s a mulher mais teimosa que eu j� conheci... mas eu tamb�m n�o ligo... e al�m disso... � continuou Nadine brandamente � Eu te amo, sim... mais do que tudo na vida...

 

Dizendo isto abra�ou Mabel, novamente rolando seu corpo e jogando-a para cima de si. Mabel capturou os l�bios de Nadine, num beijo de total entrega em meio ao cen�rio amarelo e azul do campo de trigo com o c�u muito l�mpido ao fundo. Elas n�o saberiam precisar quanto tempo ficaram trocando car�cias naquela paisagem digna de uma tela de Van Gogh. Foram trazidas de volta � realidade quando ouviram ao longe o ru�do do motor da Pimentinha. Era Feliciano que viera busca-las, conforme o combinado.

Embarcaram na caminhonete e retornaram para a Pousada dos Sonhos, onde Olga j� os aguardava com o almo�o pronto. Quando entraram Olga sorriu para elas e fez uma cara feia para Feliciano, ainda se lembrando das ousadias dele. Feliciano lhe fez uma careta de deboche, o que deixou Olga mais furiosa do que j� estava. Nadine riu, pois j� conhecia o teor das investidas de Feliciano. Mabel, sem nada entender, questionou:

- Aconteceu alguma coisa?

- Nada! � s� esse velho abusado, que n�o sabe o seu lugar! � respondeu Olga.

- � que Feliciano n�o desiste de pedir a Olga em casamento... � disse Nadine.

- Olha, at� que voc�s formam um lindo casal. � respondeu Mabel querendo ser gentil.

- Que casal que nada! Eu estou muito bem assim! � respondeu Olga.

- � que Olga � uma virgem convicta!!! � brincou Nadine e saiu correndo, puxando Mabel pela m�o.

- Mas, o que � isso menina??? Volta aqui, desaforada! Olha que eu te coloco pimenta no bei�o!

Mabel e Nadine riram muito do desconcerto de Olga. Lavaram as m�os e retornaram para a cozinha, encontrando Olga j� mais tranq�ila.

- Tudo bem, Olginha??? � perguntou Nadine.

- Tudo... � respondeu Olga sestrosa.

- Ent�o vamos comer! � disse Mabel � Eu t� morrendo de fome!!!

- E Feliciano, n�o vem almo�ar? � perguntou Nadine.

- Ele que coma l� na estrebaria! � respondeu Olga.

- Olga... n�o seja t�o severa com ele. � disse Nadine � ele realmente gosta de ti. Porque tu n�o pensas em dar uma chance a ele?

- N�s j� falamos sobre isso, Nadine. Eu n�o nasci para casar. Deus me deu uma filha de presente, que � voc�. Vou querer marido pra que?

- Ora Olga, para ter companhia, ter algu�m que te esquente os p�s no frio...

- Eu coloco bolsa de �gua quente!

 

Nadine e Mabel riram e desistiram de argumentar. Almo�aram em sil�ncio, mas os olhares entregaram o que se passava.

- Nadine, voc� n�o tem nada para me contar? � questionou Olga.

- Tenho.

Mabel ficou corada at� a raiz dos cabelos e Nadine se divertiu com a situa��o. N�o entendia como Mabel podia se desconcertar tanto algumas vezes, sendo uma mulher t�o vivida, e da cidade grande. �Eu tudo bem que sou bicho-do-mato, mas Isabela...� pensava Nadine.

- Olga, a Isabela vai ficar aqui conosco.

- Huuummm... aqui na Pousada?

- N�o. Comigo, na cabana.

- Entendo... bem, seja bem vinda, menina. Bem vinda � fam�lia.

- Obrigada. � respondeu Mabel sem levantar os olhos.

- Olha... � continuou Olga � ...Nadine � muito teimosa as vezes... se ela te incomodar pode vir aqui pra Pousada, t� certo?

- T�, Olga, muito obrigada. � respondeu Mabel sorrindo, mais aliviada pela receptividade de Olga.

 

Quando terminaram o almo�o Nadine se levantou e disse:

- Eu vou at� o escrit�rio, tenho que ver as reservas de hoje para avisar Feliciano.

 

*******************

 

 

Mabel ajudou Olga a tirar a mesa, em sil�ncio, at� que Olga lhe disse:

- Isabela...

- O que?

- Voc� tem certeza de que � isso que voc� quer? Se entocar nesse fim de mundo, longe de tudo que est� acostumada?

- Tenho Olga. Aqui eu estou perto de tudo o que, de fato, passou a ter significado na minha vida.

- Ent�o que assim seja. A partir de agora voc� est� em casa. E eu ganhei mais uma filha.

 

Mabel abra�ou Olga afetuosamente e lhe deu um beijo nas bochechas rosadas. Virou-se para subir na dire��o do escrit�rio. Antes que sa�sse da cozinha Olga ainda lhe disse:

- Mais uma coisa, Isabela...

- O que?

- Fa�a a minha princesinha feliz.

Mabel sorriu e respondeu:

- Vou fazer, Olga, com certeza vou fazer.

 

Mabel subiu as escadas e penetrou no pequeno escrit�rio da Pousada dos Sonhos. Nadine estava sentada defronte ao computador checando as reservas do final de semana.

- E ent�o, meu amor, muito movimento? � perguntou Mabel abra�ando Nadine por tr�s.

- Bastante. Come�ando a esquentar o povo vem mesmo. Gra�as a Deus.

- Mas o movimento vai sobrecarregar Feliciano...

- N�o vai n�o... ele est� acostumado. � respondeu Nadine fazendo Mabel sentar-se em seu colo e beijando-a carinhosamente.

- Nadine... a Olga me pediu para faz�-la feliz... e eu sou capaz de dar a minha vida para isso...

- Minha querida, voc� j� me est� me fazendo muito, mas muito feliz, mesmo. Ali�s, eu acho que j� tinha esquecido esse gostinho de felicidade. Eu te amo.

Elas se beijaram apaixonadamente, at� que Mabel disse:

- Nadine... a Olga pode subir e ver a gente nesse agarramento...

- Mas se ela te pediu pra me fazer feliz voc� tem que obedecer... � respondeu Nadine maliciosamente.

- Mas quem sabe a gente vai pra casa ent�o...

- �tima id�ia... � respondeu Nadine colocando sua m�o por debaixo da blusa de Mabel e tocando a ponta de seus mamilos com os dedos, deixando Mabel completamente excitada.

- Isso... agora eu vou ter que descer de farol alto... � disse Mabel fingindo indigna��o.

- N�o seja por isso, a gente fica por aqui mesmo. � respondeu Nadine levantando-se sem colocar Mabel no ch�o.

Nadine caminhou at� a porta com Mabel pendurada em si, girou a chave na fechadura e depois a deitou no sof� de dois lugares, tirando sua blusa com avidez e destreza. Estava uma tarde bastante quente, mais de trinta graus com certeza, mas dentro daquele escrit�rio a temperatura beirava o ponto de ebuli��o.

- S� n�o geme alto... � ainda disse Nadine em tom de brincadeira, antes de come�ar a sugar os mamilos de Mabel, que se contorcia de prazer.

Mabel praticamente arrancou a camiseta de Nadine e tamb�m passou a se deliciar naqueles seios excitados e sedentos de paix�o. Em segundos estavam completamente nuas. Mabel recostou-se no sof� e abriu suas pernas, oferecendo-se para a mulher que amava. Nadine bebeu da fonte dos prazeres de sua mulher, sua l�ngua explorando aquela cavidade completamente encharcada e sentindo o gosto maravilhoso daquele l�quido quente que escorria por entra as pernas de Mabel. Esta, n�o conseguindo mais segurar sua excita��o, gozou na boca de sua companheira, um orgasmo demorado e intenso, como nunca na vida havia sentido, com ningu�m... Nadine adorava o gosto e o cheiro de Mabel. Nem bem havia terminado de lambe-la e Mabel lhe disse com uma carinha sapeca:

- Um a zero... minha vez, princesinha.

Nadine sorriu e nem cogitou a possibilidade de se fazer de dif�cil. Foi logo entreabrindo as pernas para que Mabel pudesse tocar seu sexo com a boca. �huuumm... essa mulher vai me levar � loucura... nooossa... que coisa maaaravilhoosa...�, pensava Nadine enquanto Mabel lhe sugava com vigor. Nadine segurava-se no encosto do sof�, m�sculos distendidos prestes a atingir o cl�max, enquanto Mabel a penetrava com a l�ngua e lhe acariciava os seios concomitantemente. �Eu podia morrer agora, que morreria feliz...� ainda conseguiu pensar Nadine, antes de explodir numa contra��o de orgasmo que a invadiu por completo, fazendo todo seu corpo estremecer e logo em seguida desfalecer inteiramente, estirando-se no sof� com sua mulher deitando-se por cima dela e lhe beijando suavemente a boca.

- Eu te amo... muito, muito, muito... � sussurrou Mabel em seu ouvido.

- Eu tamb�m... � foi s� o que Nadine conseguiu responder.

 

 

Ficaram abra�adas em sil�ncio por muito tempo. Os corpos suados n�o conseguiam se separar. Trocavam afagos, car�cias e juras de amor. Em determinado momento Mabel perguntou:

- Escuta... n�o seria melhor abrirmos essa porta?

- Ai amor... n�o vai ficar bem ficarmos assim com gente passando no corredor.

- Que engra�adinha... eu t� falando em descer, colocar a roupa antes... depois descer.

- Aaahh... tu n�o tinha explicado direito... � debochou Nadine sapecando um beijo estalado na boca de Mabel.

- Agora deu pra ouvir da cozinha!!! Voc� n�o sabe beijar discretamente?

- Sei. Quer ver? � respondeu Nadine abra�ando Mabel fortemente e capturando seus l�bios com suavidade, mas firmeza.

- Huuumm... sabe mesmo... voc� beija bem pra caramba, sabia?

- Sabia.

- Convencida.

- Convencida n�o. Realista. � brincou Nadine.

 

Mabel sorriu, no fundo adorava o jeito de Nadine, ela tinha senso de humor e era muito pr�tica, e sabia beijar muito bem... isso sem falar no resto. Nadine soltou Mabel que se levantou e vestiu sua roupa. Nadine fez o mesmo. Antes de sa�rem do escrit�rio Nadine perguntou:

- Quer chupar um lim�ozinho?...

- Pra que???... � quis saber Mabel curiosamente.

- Pra tirar esse ar de satisfa��o da tua cara! Todos v�o ver que tu desfrutaste deste manjar aqui... � disse Nadine debochadamente apontando para si mesma.

- Quer saber?... Que vejam!!! E que morram de inveja!!! � respondeu Mabel gargalhando.

- Eu preciso de um banho. Estou toda suada. � disse Nadine.

- S� voc�?

- Que tal um mergulho na cachoeira, hoje t� quente? � questionou Nadine.

- Eu topo! � s� o tempo de eu colocar um mai�.

- Vamos l�, ent�o!

 

 

Nadine e Mabel passaram correndo por Olga e Feliciano, que continuavam implicando um com o outro. Passaram na cabana, colocaram roupas apropriadas para um banho de cachoeira e foram at� o trecho em que Nadine gostava de saltar quando crian�a. Entraram na �gua e Mabel se encolheu pelo contato da �gua corrente muito fria com sua pele quente.

- � s� o primeiro contato que � frio, depois a gente se acostuma com a temperatura da �gua. � disse Nadine � vamos at� a ponta da pedra, dar um salto.

- Eu nunca pulei de nada mais alto do que a guarda da minha cama...

- Nem em trampolim de piscina infantil?

- Nem. Meus pais sempre me superprotegeram, por causa...

- Da asma! Eu tinha me esquecido! Ser� que voc� vai ficar doente de novo? � preocupou-se Nadine.

- N�o vou n�o.  Todas as minhas crises sempre foram de fundo emocional.

- Tem certeza?

- Absoluta.

- Olha... vi�va � quem morre, ein? N�o vai deixar essa gostosura aqui dando sopa, vai?

- De jeito nenhum!!! � riu-se Mabel.

 

 

Nadine caminhava de m�os dadas com Mabel, ajudando-a a manter-se em p� nas pedras escorregadias de limo. A �gua corrente fazia press�o contra as pernas e por vezes era dif�cil manter o equil�brio. Ao chegarem na beira da queda d��gua Mabel olhou para baixo e segurou firme o bra�o de Nadine.

- Isso aqui � muito alto! Eu n�o vou pular!

- Tem s� uns seis metros, parece mais por causa do �ngulo, e da cor e movimento da �gua.

 

Mabel olhou novamente para baixo, desta vez mais calma e percebeu que a queda d��gua n�o era mesmo t�o alta quanto pareceu a primeira vista. A �gua vertia abundantemente, jorrando por sobre as pedras e formando um v�u semitransparente. Ao fundo havia uma esp�cie de po�o ou piscina natural onde a �gua, em queda livre, levantava uma n�voa espumante e transl�cida. Devido � colora��o das pedras e ao turbilh�o das �guas n�o se conseguia ver a profundidade do po�o.

- Ali embaixo d� p�? � perguntou Mabel.

- Claro que n�o, meu amor, sen�o quebrar�amos as pernas ou o pesco�o! Porque? Voc� sabe nadar, n�o sabe?

- Sei, claro.

- Sabe mesmo?

- Sei. De verdade. Fiz anos de nata��o, por causa da asma, lembra?...

- Ent�o n�o tem mist�rio: � s� pular!

- Mas eu t� com medo. Eu quero ir, mas t� com medo.

- Quem sabe a gente fica por aqui mesmo, ent�o?

 

Mabel olhou mais uma vez para baixo e sorriu:

- Pra quem saltou de asa delta, isso aqui � uma piada, n�o �???...

- � que � diferente. � disse Nadine.

- Mas � bem mais perto do ch�o!

- Isso �...

- Ent�o vamos saltar! � disse Mabel segurando a m�o de Nadine.

- Segredinho: tapa o nariz e pula de p�.

- Tudo bem. Me d� a m�o.

- Pronta? � perguntou Nadine.

- Pronta. � respondeu Mabel respirando fundo e tapando o nariz com uma das m�os e com a outra segurando a m�o de Nadine.

- Ent�o... agora! � disse Nadine saltando de m�os dadas com Mabel.

Enquanto voava ao encontro das �guas Nadine lembrou-se de seu tempo de inf�ncia e em quantas vezes havia saltado daquela pedra. Costumava imaginar-se um p�ssaro e abria seus bra�os imitando asas. Por�m, na inf�ncia costumava saltar sozinha. Naquele momento sentia-se novamente como um p�ssaro, mas n�o uma �guia solit�ria... Tinha, bem segura pela m�o, a raz�o pela qual sua exist�ncia havia tomado novo sentido. Lembrou-se tamb�m daquela lenda de que somos todos anjos, de uma s� asa, e que por isso somente abra�ados conseguimos voar. E Nadine voava, feliz.

 

Quando Mabel sentiu seu corpo penetrar naquela parede l�quida e gelada, e afundar at� que a pr�pria for�a das �guas a impulsionasse para cima, foi como se houvesse rompido a barreira de todos os seus medos. Ao emergir viu-se no meio da piscina borbulhante e gritou para Nadine que nadava a seu lado:

- EU QUERO PULAR DE NOVO!!!

 

 

Elas ficaram nadando por cerca de uma hora e depois sentaram-se sobre as rochas arredondadas esculpidas pela for�a da corrente das �guas, sentindo o sol esquentar a pele resfriada pela temperatura da cachoeira. Logo que sa�ram da �gua Nadine percebeu que Mabel estava toda arrepiada e a abra�ou:

- T� com frio? � perguntou carinhosamente.

- Um pouco, mas j� vai passar.

- Coloca a tua camiseta por cima, n�o quero que fique doente de novo.

- Eu me esquento nesse solzinho maravilhoso... e no teu abra�o.

- Ent�o senta aqui bem pertinho. � respondeu Nadine colocando Mabel sentada � sua frente, entre suas pernas, enla�ando todo seu corpo num abra�o aconchegante e caloroso. � Assim t� bom?...

- T� �timo... � respondeu Mabel � Sabe, Nadine... eu nunca fui t�o feliz na vida. E ningu�m nunca me tratou assim, com tanto afeto e zelo.

- T�... eu acredito...

- Verdade! At� a minha m�e sempre deu mais import�ncia ao que os outros poderiam pensar do que ao que eu realmente sentia. Eu sei que ela n�o faz por mal... uma quest�o de cria��o mesmo. Na verdade o sonho dos meus pais era que eu me casasse e tivesse filhos e acompanhasse meu marido, enfim uma vidinha dentro dos padr�es aceitos pela sociedade, mesmo que med�ocre. E n�o estou querendo dizer que sou contra os casamentos ou contra a �moral e os bons costumes�, n�o � isso, s� n�o queria isto para mim. D� pra entender?

- Nossa, que desabafo! Mas eu entendo sim. Na verdade, Isabela, os pais idealizam um destino feliz para os filhos e acabam projetando os sonhos deles pr�prios. A� muitas pessoas assumem esses sonhos como se fossem seus e abrem m�o dos pr�prios...

- � bem isso. E quando eu comecei a dar forma aos meus sonhos, come�aram os conflitos.

- O que ser� que os seus pais v�o dizer quando souberem que tu vais morar aqui?

- Acho que num primeiro momento minha m�e vai surtar, depois vir� aqui conhecer a respons�vel por ter �virado a cabe�a� da filhinha, depois vai ter que se acostumar com a situa��o. Meu pai vai fazer o que sempre fez: fingir que n�o sabe de nada, que eu simplesmente resolvi morar no campo. E assim continuar�o com a vidinha deles, felizes.

- Bom, para o meu pai n�o vai ser novidade nenhuma...

- Porque???... vai me dizer que voc� arruma uma mulher em cada esquina e tr�s para dentro de casa?... � perguntou Mabel em tom de brincadeira.

Nadine sorriu e respondeu:

- N�o � isso, � que eu sempre fui dona do meu nariz, nunca dei muitas satisfa��es para ningu�m, n�o. E ele j� se acostumou. E ele bem sabe da minha quedinha por mulheres lindas...

- Obrigada pelo linda.

- N�o h� de qu�.

- Nadine...

- O que?

- Voc� sempre foi assim... assim...

- Assim como?

- Bem... digamos, teimosa e mandona? Pobre do seu pai, ein!

Nadine foi obrigada a rir. Ela tinha que admitir sua personalidade obstinada. Desde pequena, quando resolvia fazer alguma coisa, era dif�cil dissuadi-la.

- Querida... � respondeu Nadine - ...no meu caso isso n�o � defeito, � virtude! E eu acho que a senhora n�o pode me chamar de teimosa, n�o � mesmo?... afinal, se resolvermos fazer um concurso vai ser um p�reo duro, ein?

 

As duas ca�ram na gargalhada e permaneceram observando a queda d��gua em sil�ncio, at� que mabel perguntou:

- Nadine...

- O que �?

- Aquela m�sica que voc� cantou pra mim, � sua?

- N�o. � de um compositor portugu�s: Pedro Abrunhosa. Conhece?

- N�o. Mas � a musica mais linda que j� ouvi.

- Tamb�m acho, � a minha preferida, � especial. Assim como tu: especial e �nica na minha vida.

- Foi a declara��o de amor mais linda que j� ouvi. E voc� canta bem pra caramba, sabia?

- Canto nada... Tu precisa ouvir essa m�sica interpretada por uma amiga minha. � de cortar os pulsos...

- Duvido que ela cante melhor que voc�!

- N�o duvida... te levo num show dela.

- Tudo bem, mas � que voc� canta s� pra mim...

- Isso � verdade. Se eu fosse cantar em p�blico seria �mato ou morro�!

- Como assim? � quis saber Mabel.

- Ou o pessoal foge pro mato, ou foge pro morro!

- Como voc� � boba!!! � disse Mabel rindo e beliscando a perna de Nadine.

- Boba... mas te amo!

- E promete que toca e canta pra mim pelo resto da vida?

- Prometo. � respondeu Nadine abra�ando Mabel fortemente.

 

 

Elas ficaram at� o final da tarde na cachoeira e quando come�aram a sentir fome retornaram para casa. Tomaram um banho quente e Nadine preparou o jantar para elas. Depois foram deitar numa das redes da sacada. Novamente observaram o c�u. S� que ao inv�s de dar forma �s nuvens, passaram a contar as estrelas. A ab�bada celeste parecia um cobertor velho jogado displicentemente sobre o globo terrestre, e atrav�s de seus milhares de pequenos furos podia-se ver a luz do sol que continuava a iluminar a Terra que dormia serena: era a luz das estrelas a enfeitar a noite.

- Olha, l� perto da montanha... Moema e Jaci! � apontou Mabel.

- N�o aponta para as estrelas que vai te nascer uma verruga na ponta do dedo! � disse Nadine brincando.

- Podia ser pior: se fosse na ponta do nariz!

- Mas eu ia te amar igual... coisa querida, imagina uma verruginha na ponta desse narizinho arrebitado... � respondeu Nadine beijando a ponta do nariz de Mabel.

- Boba! Mas elas est�o l�, viu? � enfatizou Mabel.

- Vi. E devem estar felizes nos vendo aqui. Elas se alegram quando almas g�meas se encontram, sabia?

- Nadine... voc� acha que um dia n�s tamb�m seremos estrelas? Uma bem pertinho da outra?

- Pode ser... e tu ser�s a mais bela estrela que j� existiu...

- N�o mesmo, a mais linda vai ser voc�!

- J� vai me contrariar? � sorriu Nadine.

- Tudo bem, tudo bem... seremos as duas estrelas mais lindas...

- Assim t� melhor.

- Olha!!! Uma estrela cadente! � gritou Mabel.

- Se n�o tivesse contado podia fazer um pedido. � disse Nadine.

- Mas eu vou fazer assim mesmo! � respondeu Mabel fechando os olhos e ficando alguns instantes em sil�ncio.

- E ent�o? O que foi que pediu? � perguntou Nadine.

- Acabei n�o pedindo nada...

- Como nada?...

- Me dei conta de que tudo o que eu quero e preciso para ser feliz eu j� tenho: voc�.

Nadine puxou Mabel para bem perto de si e capturou seus l�bios, afagou seus cabelos e acariciou sua nuca. Mabel perdeu-se nos bra�os de Nadine em total entrega. Quando finalmente as bocas se separaram Nadine sussurrou em seu ouvido:

- Mas tu bem que podia ter pedido os n�meros da megasena...

- Pode deixar, que na pr�xima vez eu pe�o... � respondeu Mabel tapando a boca de Nadine com a sua, num beijo que lhe tirou o f�lego.

 

 

As car�cias se tornaram mais ardentes e a aragem da noite fez com que as amantes deixassem a rede balan�ando ao vento e penetrassem no calor da cabana. Esmeralda observou os corpos que se fundiam em um s� tamanha a sintonia e a paix�o que emanavam e resolveu dar-lhes mais uma chance: �tudo bem...�, ronronou consigo mesma, �s� mais uma noite na prateleira dos pinc�is, amanh� eu fico aqui...� e desceu as escadas languidamente, alheia aos gemidos que se avolumavam no andar de cima.

Nadine e Mabel se amaram de todas as formas poss�veis. Exploraram cada cent�metro dos corpos ardentes e deram uma � outra o que tinham de melhor: o amor incondicional e verdadeiro, capaz de iluminar a noite e transformar seres humanos em estrelas.

 

 

************************** 

 

E a hist�ria acabou aqui. Ou ser� que s� come�ou?...

Pode ser...

Por certo depois desta vir�o outras... e provavelmente com final feliz.

 

***************************

Hosted by www.Geocities.ws

1