Amor Pecador
Anastacia
Cap�tulo 6
Tequila
Rosa
cerrou seus olhos a esperar que os dedos do pai lhe apanhassem os cabelos como
a um tufo de erva daninha, e, dessa forma, a apartasse violento das demais flores
do jardim. Pois Rosa era ali uma intrusa, e sua desobedi�ncia jamais seria
perdoada pelo pai, que perdera a complac�ncia pela filha logo que esta
nascera. Como esquecer de seu despudor quando lhe disse ele, na vez que a menina
partira para o Santa Maria, que ao saber da complica��o do parto,
preferira a vida da esposa � dela, e que fora apenas por um erro de Deus
que nascera Rosa? Ela lembrava-se disso no minuto antes do pai descobri-la,
como uma esp�cie de prepara��o que fizesse a si mesma a
fim de suportar o sofrimento iminente. E naquela manh� em que soubera
do desprezo do pai, os olhos dele foram como dois po�os profundos, vazios
de amor_ assim havia em suas lembran�as_ e a voz dele t�o �spera
e t�o sombria, que Rosa desejara morrer na balada de suas palavras, porque
sempre amara o pai, sempre, e por mais que ele a maltratasse e a mantivesse
distante dele, Rosa preferia iludir-se a acreditar que sua frieza n�o
fosse um modo estranho de amar. Imaginava que sendo um homem solit�rio
e de neg�cios, o cora��o havia se petrificado com o tempo,
mas que, ainda sim, tinha por ela alguma estima. Entretanto, ap�s aquela
confiss�o de �dio e tudo por ter sobrevivido no lugar da m�e,
Rosa, angustiada e tomada pela culpa, passou a esperar dele a vingan�a,
e mesmo em sua estada no convento, nada pode demov�-la desse castigo dado
como certo. Foi por isso que, nesse seu retorno a casa, evitara o pai o quanto
pode, procurando n�o o aborrecer de modo algum, e teria continuado em
paz at� seu casamento, se n�o fosse por Diana, que a apaixonara
t�o completamente, que j� n�o podia estar no quarto sem
que se sentisse sufocada.
Esta
era sua segunda noite em claro, sem que pudesse dormir, afogueada por pensamentos
naturais que para ela eram mais que pecaminosos. Afinal, tudo estava acontecendo
muito r�pido, sem que Rosa pudesse acompanhar com calma todas aquelas
mudan�as que se operavam no �ntimo. E por seu passado de c�rcere
e contempla��o religiosos, a mo�a s� poderia mesmo
culpar o Diabo e suas tenta��es, e assim n�o suspeitava
do destino que simplesmente lhe era cruel. N�o se havia dado conta, portanto,
de que ingressava em um novo mundo, oposto ao que estava habituada a viver e
seria justa a brutalidade do pai que lhe conscientizaria disso, agora. Resignada
assim quanto � puni��o que receberia, Rosa permaneceu abaixada
sob a farta cerca de hort�nsias, e mesmo quando Juan Diego a atravessara
e pisara na barra de seu vestido repuxando-o um pouco, Rosa n�o esbo�ara
rea��o alguma. S� o que soube foi esperar e teria continuado
im�vel se n�o houvesse acreditado que o pai n�o a percebera.
Abriu os olhos, e viu quando ele virou a garrafa de tequila na boca e cambaleou
meio tr�pego at� o canteiro de cris�ntemos que havia no meio
do jardim. Estava b�bado, deduziu, e ao inv�s de aliviar-se por
seus reflexos comprometidos pelo �lcool, a mo�a pensava apenas
que estando t�o alcoolizado sua viol�ncia contra ela seria extrema:
_N�o
se esconda, sua vagabunda!_Juan Diego esbravejava limpando o canto da boca e
batendo com o cinto nas flores que se soltaram dos galhos feito poeira. Rosa
estranhou esse linguajar t�o baixo e s� n�o se doeu mais
pela forma como o pai a chamava, porque entendia que sua mente fora amortecida
pela bebida.
Ele
� t�o grande e t�o forte que basta uma de suas pancadas
para me desacordar_ constatava Rosa, toda encolhida e apreensiva de que o pai
se virasse e lhe encontrasse ali t�o ao seu alcance. Mas como ficara
sabendo de sua fuga ao jardim, se tomara mais cuidado que da �ltima vez?
E porque ele bebia dessa maneira, se hoje mesmo parecera t�o satisfeito
e at� feliz pelo sucesso de seus neg�cios, tanto que a deixara
ir � igreja hoje de manh�, coisa completamente inusitada? Era
castigo, s� podia ser. Deus testava a sua f�, seu arrependimento
ou era o Dem�nio a vingar-se por sua resolu��o de lutar
contra ele. Seja como for, n�o poderia sair dali sem que Juan Diego a
notasse, pois t�o pr�ximos estavam um do outro e Rosa tinha os
m�sculos t�o tensos, que se ela experimentasse mover-se o menor
que fosse fatalmente chamaria aten��o para si. No entanto, ela
quase que se denuncia tamanho o seu desespero, quando o pai deu um passo para
tr�s e por fim voltou-se, mas continuando a olhar por cima dela. Mais
um pouco e a teria pisado. Rosa sentiu o est�mago embrulhar-se e quase
n�o respirava temendo que o menor ru�do seu despertasse o pai
de seu torpor. Lembrou-se ent�o da ora��o a Nossa Sra.
Auxiliadora e ficou repetindo-a em pensamento t�o r�pido, que
logo perdera no��o se havia mesmo lembrado da ora��o
inteira. Mas ainda assim procurava rezar com todo fervor que possu�a
e s� parou de atrapalhar-se com as palavras, quando um barulho estridente
ecoou na noite e com ele a gargalhada do pai em �xtase:
_Ora,
vejam s�!_vociferou Juan Diego_ Menina de merda!_ ele estilha�ou
a garrafa contra o canteiro para assim ter a m�o esquerda livre.
Rosa
caiu em pranto surdo e ininterrupto, as m�os vacilaram contra o rosto
a fim de proteger-se, e o p�nico cresceu tomando conta de sua mente e
de seus sentidos, em forma de dor a estreitar-lhe o peito. Tentava controlar-se
em v�o, temia odiar o pai. Queria acreditar na justi�a de sua
f�ria e que assim n�o ousaria a menor rea��o contra
ele nem lhe mentiria caso indagasse a raz�o da desobedi�ncia. Colou
o rosto naquele ch�o frio e encolheu-se mais ainda ao recolher os joelhos
para junto do corpo. Rosa estava t�o transtornada pela tortura a que
seria submetida, t�o aterrorizada pela bestialidade do pai, que mesmo
a esperar tudo isso, assustou-se_ respondendo pelo excesso de adrenalina a travar-lhe
as veias_ quando, com for�a, a boca fora amorda�ada. Rosa abriu
os olhos com um grito hist�rico, debatendo-se na tentativa de escapar
daquele enlace e s� n�o se agitara mais, porque notou n�o
ser o pai a lhe por a m�o na boca:
_Criatura!
Fica quieta, que ele mordeu a isca!_ Regina falou sussurrante ao ouvido de Rosa
esperando acalm�-la. � frente delas, Juan Diego distanciava-se
pisando forte no ch�o. Ia direto para onde havia escutado vir o estrondo.
Quando
ele ficou longe o suficiente para n�o perceb�-las, Regina arrancou
a patroa do ch�o, puxando-a pela gola da roupa e sem mais se explicar,
correu com ela aos pinotes para o outro extremo do jardim. L�, Germana
com uma vela na m�o, vestida em panos de dormir, de touca e creme para
a pele, as aguardava em frente � porta dos fundos. A governanta acenou
com o bra�o para que as fugitivas entrassem e tendo-as na pr�via
seguran�a da cozinha, cerrou a porta e trancou todos os ferrolhos. Em
seguida, p�s a vela sobre a bancada da pia e r�pido serviu um copo
d��gua � Rosa que ainda passava mal. A criada bufou alertando
que tamb�m precisava recobrar o f�lego, mas como Germana apenas
lhe fitara s�ria, foi com m� vontade que arrastou uma cadeira
da mesinha. E, mal Regina derreava para sentar-se, Germana saltou sobre ela
tal qual um fantasma e, tamb�m tomando o copo das m�os de Rosa,
partiu arrastando as duas para a escadaria da sala:
_Que
� isso!_Regina reclamava enquanto caminhava aos trancos junto com a patroa
que ainda chorava._O homem � l� fora, n�o � aqui
dentro n�o!_e dizendo isso parou j� com um p� no primeiro
degrau da escada. Germana nervosamente tamb�m se deteve, mas para certificar-se
dos ru�dos que escutava vindo da alameda, e concluindo que eram reais,
tomou pela segunda vez Rosa nos bra�os e come�ou a subir apressada
os degraus. Enquanto isso, Regina, ignorada pela governanta, permaneceu protestando
como que alienada do perigo iminente.
_Ela
tem perna, voc� sabia disso?_ e com um tom de voz mais elevado, Regina
emendou-se _Duas!_disse contando nos dedos e depois, os mostrou � governanta.
Germana
quis dar umas tapas na criada, pois n�o acreditava que pudesse ser t�o
atoleimada e t�o burra sem que isso fosse de prop�sito. Juan Diego
podia estar um porco b�bado, mas n�o idiota a ponto de n�o
reparar que fora v�tima de um embuste e que, uma vez n�o as encontrando
no jardim, iria procur�-las dentro de casa. Assim, Germana quis continuar
subindo as escadas e deixar a criada pagar por sua estupidez, pois logo o patr�o
entraria de sala adentro e ela n�o tinha tempo para ralhar com Regina.
Por�m, foi a muito contragosto que olhou por cima do ombro e depressa
a chamou com um resmungo. Regina ainda deteve-se por mais um momento, balan�ando
a cabe�a, por sua vez descrente da real fragilidade de Rosa, mas, imaginando
que talvez Germana pudesse cair com a outra no colo, foi at� ela e ajudou-a
a subir com a patroa at� o corredor. Na verdade, toda essa irrita��o
de Regina n�o se devia, por mais que parecesse, pelo fato da governanta
cuidar da menina com tanto zelo,como se por qualquer coisa ela pudesse quebrar.
� at� aceit�vel que estivesse com uma ponta de despeito
devido a isso, mas o que de fato a tornava assim t�o indignada, mesmo
com um Juan Diego �s costas, n�o era mais que Rosa, que simplesmente
tirava Regina do s�rio. Como sendo t�o fr�gil e t�o
sem gra�a, a mocinha conseguia ser mais atraente que ela a ponto de ter
sido beijada por Diana em seu lugar? Sim, Regina esperou por Rosa logo que soubera
ter sa�do com Diana naquela tarde e viu, pela porta do convers�vel,
que estava aberta, quando Rosa correu ap�s t�-la beijado. A contempla��o
de Diana, os seus olhos tristes, perdidos no vulto da menina a se afastar, foram
mais que outras duas noites como escrava de Juan Diego. Foi um inferno, que
Regina n�o quis impedir crescer em seu cora��o.
Como
p�de ser t�o ing�nua a ponto de pensar que Rosa fosse uma
santa e que jamais se interessaria por aquela mulher fabulosa? Desde o encontro
com sua deusa, na soleira da entrada, que Regina apaixonara-se. Guardou esse
momento consigo tal qual um tesouro e era s� por conta dele que ainda
n�o largara seu emprego na mans�o, pois se assim fosse, como poderia
rever Diana, sendo t�o rica e poderosa, e ela apenas uma moradora de
vila? Ver Germana subindo as escadas com Rosa transportou Regina para aquele
dia primeiro e assim p�de lembrar de quando Diana lhe ajeitou os cabelos,
de como tomou seu corpo com uma firmeza �nica, mas tamb�m de como
ela n�o a beijou, abandonando-a como uma est�tua e tudo isso apenas
porque queria saber onde Rosa estava. Regina n�o tinha d�vidas
da pr�pria beleza e de como provocava os homens, ou o patr�o n�o
a teria for�ado a deitar-se com ele na varanda. Era isso ou o quarto
proibido e ela n�o pensou duas vezes para aceitar a primeira op��o,
pois sabia muito bem do que se tratava recus�-la. Deveria, pensava ela,
ter sa�do correndo naquela noite e fugido dele, mas quem sabe o monstro
n�o a amea�asse ou a seus filhos em repres�lia? Com o marido
preso cumprindo pena de sete anos ent�o, f�cil seria para Juan
Diego mandar qualquer capanga ir atr�s dos meninos. Maldita hora que
aceitara o convite de das Dores para trabalhar na casa dos Bratcho! Se ao menos
ela n�o estivesse certa quanto � educa��o das crian�as,
que n�o podiam viver com a m�e a toda hora cercada de pretendentes,
n�o teria passado tanta humilha��o_ assim supunha Regina,
j� cerrando a porta do quarto de Rosa por dentro:
_Ao
menos, eu conheci..._Regina percebeu que pensava alto e depressa se emendou,
esperando que assim o que dissera passasse despercebido pela governanta._...o
peso dessa menina. Como conseguiu carreg�-la at� aqui sozinha?_Ainda
perguntou a Germana, que a ignorou mais uma vez e da forma mais ap�tica
poss�vel. A criada fingindo n�o se incomodar permaneceu parada
em frente � porta, enquanto Germana, mais simp�tica, punha Rosa
na cama. Ela ainda estava muito nervosa e n�o conseguira parar de chorar,
mesmo estando sob as cobertas cuidadosamente postas sobre si.
_Menina
Rosa Maria, est� a salvo agora._Germana usava da mesma entona��o
da m�e que retorna do arm�rio e diz ao filho que l� n�o
h� bicho algum._Reze pra Nossa Senhora e tente dormir._O que queria mesmo
era que a patroa parasse de chorar, pois se o pai entrasse no quarto, estranharia
a ver dessa maneira. Depois, haveria de se preocupar com ela e com a est�pida
criada, pela qual j� n�o conseguia esconder sua raiva e seu desprezo.
Germana
conhecia o interesse de Regina por Diana, desde que a ouvira dizer maravilhas
da megera que t�o friamente lhe amea�ara de morte e isso foi decisivo
para que se antipatizasse de vez por quem pouco conhecia. Era detest�vel
tamb�m para Germana saber que entre duas mulheres pudesse haver paix�o,
algo que sempre lhe pareceu nojento e absurdo, e talvez fosse apenas por isso
que o cora��o da governanta n�o fosse de todo bom. Quando
hoje fora at� o quarto da menina Rosa, preocupada por saber se sua janela
estava fechada, pois ultimamente a menina havia dado para mant�-la aberta
nessa �poca de noite fria, Germana n�o a vira na cama e alvoro�ada
saiu a procurar a patroa pela casa, temendo que o pai a estivesse fazendo algum
mal. Procurou em todos os c�modos que tinha acesso e j� estava
para invadir o quarto do patr�o, quando o ouvira rugir do lado de fora
da casa. Ela sa�ra ent�o pela porta dos fundos e, para sua surpresa,
deparara-se com Regina, que acabava de fugir das garras de Juan Diego por mais
aquela noite, mas que deixava para sofrer no seu lugar a inocente menina. Quando
a governanta indagou � criada pelo que esta estava fazendo no jardim
�quela hora, a dissimulada disse apenas que estava cumprindo hora extra
e com um sorriso no rosto deixou escapar ter deixado Rosa l� para receber
o pagamento. Germana, cega de raiva, a segurou pelo bra�o e a for�ou
contar-lhe toda a hist�ria. Regina retomando uma consci�ncia at�
ent�o perdida, arrependeu-se e contou que estava espiando Rosa tomar
ar, quando o patr�o a flagrou. Ele havia bebido daquele jeito, porque
ela n�o foi aos seus aposentos como lhe fora ordenado e, quando ele fora
busc�-la nos c�modos dos empregados, que ficavam separados da casa,
ele ent�o a avistou no jardim. Ap�s saber de tudo isso, Germana
for�ou a criada a voltar para ajud�-la a salvar Rosa, e foi assim
que Regina arremessou uma pedra num dos jarros de planta pr�ximo ao muro
da casa e, tendo isso distra�do Juan Diego, fora at� a patroa
resgat�-la.
Rosa
conteve-se um pouco e mais um pouco, at� levar as costas dos dedos aos
olhos, j� inchados e doloridos, secando assim suas �ltimas l�grimas.
Logo que passara a respirar normalmente e, inclusive, quando recuperara parte
de sua alegria natural, ela sentou-se na cama e tomou uma das m�os de
Germana estendendo a sua outra para Regina. Foi por um curto espa�o de
tempo que a criada evitara esse gesto de amizade da patroa, mas t�o logo
sentira pena dela outra vez, foi at� a cama e lhe ofereceu sua m�o.
Parecia que estava sendo falsa, que abusava dos bons sentimentos da menina,
mesmo tendo desconfiado deles at� bem pouco tempo. Mas Regina cedeu por
concordar que havia se excedido tendo a deixado no jardim com Juan Diego, e
se n�o fosse pela gra�a de Deus, n�o poderia ter voltado
l� e a resgatado. Essa sua falta n�o se devia a mais do que ao
seu ci�me e � sua incompreens�o das verdadeiras inten��es
de Diana. Essa seria uma falta que a criada manteria em segredo, n�o
s� por arrependimento mas tamb�m para n�o se denunciar
� rival, a quem ainda pretendia vencer usando de m�todos mais
honrosos. Regina, por fim, segurou a m�o direita de Rosa, por justo temer
explicar a grosseria de n�o o faz�-lo e com isso falar mais do
que gostaria. Essa sua hesita��o, por�m n�o passou
despercebido por Germana, que atentou severamente contra ela, como se a criada
estivesse a chutar a imagem de algum santo ou a dirigir insultos ao santo Papa.
Estavam claras, para a governanta, as motiva��es que levaram Regina
a atentar contra a patroa e, julgando-as intoler�veis, deixava sublimar
sua revolta a partir do desd�m com que tratava a outra. Rosa logo conheceria
a rede de muitos inimigos e de escassos aliados que o destino tratou de formar
ao redor dela:
_N�o
sei como agradecer �s duas..._Rosa quis se emocionar, mas continuou._Fico
grata por t�-las como amigas._A voz dela era como a de uma crian�a,
cheia de do�ura e ingenuidade, que fez Germana sorrir e Regina estremecer,
tal qual ca�sse �cido em seus ouvidos. As tr�s ficaram,
por um momento, sem saber o que dizer ou se j� n�o era hora de
cada uma ir dormir, quando um baque surdo de um fardo lan�ado contra
a parede, se faz ouvir vindo do corredor. Os nervos de todas mais uma vez se
alteram e a primeira a se mover � Regina, que corre at� a porta
a fim de sair. Germana, h� tempo, a segura antes que cometa essa loucura,
e as duas permanecem no mesmo lugar, meio agarradas enquanto cada uma tenta
ir a dire��es opostas.
_�
o meu pai!_lamenta Rosa desfazendo as cobertas para se levantar tamb�m,
mas �, por sua vez, impedida pela governanta que a empurra de volta para
a cama.
_Ele
vai entrar!_Germana apressada sussurrava e sem esperar pelo consentimento de
Regina, a puxou consigo para o ch�o ao que a criada reclamou por dois
ou tr�s fios de cabelo ter sido sacrificado nessa manobra. A governanta
poderia ter se desculpado, se n�o tivesse feito isso de prop�sito.
_O
que voc� ta querendo?_a criada tentou se erguer, mas foi outra vez derrubada
pela governanta e posta para debaixo da cama.Quando Regina entendeu qual era
o seu plano, come�ou a rir, ao passo que outra batida, desta vez, na
pr�pria porta, ecoou pela casa em sil�ncio._Voc� n�o
cabe nem sozinha aqui em baixo!_Regina n�o conseguia controlar um acesso
de risos, o que fez Germana desistir da id�ia de se esconder ali e ir
atr�s de outro lugar. Estava furiosa com o deboche da criada, mas toda
vez que aparece motivo para lhe dar uma surra, o tempo est� contra ela
e acaba perdendo a vontade depois. Germana se p�s de p�, bem quando
a ma�aneta da porta girou vacilante e voltou a fechar a porta. Um grunhido
seguido de um resmungo, algo como um palavr�o foi dito pela sombra que
cresceu atr�s da porta e quando, por fim, finalmente entrara, a governanta
j� havia passado para o boxe do banheiro, tremendo-se toda atr�s
da cortina de pl�stico.
Juan
Diego surgiu de um assalto, apoiando-se com for�a em uma das m�os
sobre a ma�aneta e de imediato seus olhos perversos reca�ram sobre
Rosa, descoberta sobre a cama. Ela havia deitado de lado e juntado as m�os
sob a cabe�a, como costumava fazer quando crian�a. Juan Diego
reconheceu essa posi��o, porque aquela n�o era a primeira
vez que visitava a filha durante a noite, e por isso, n�o teve d�vidas
de que ela realmente estivesse dormindo. Olhou em volta do quarto, respondendo
ao instinto de que havia mais gente ali e ent�o se precipitou na dire��o
da mo�a dando alguns passos. Em baixo da cama, Regina n�o tirava
os olhos dos sapatos do patr�o, lustrosos e negros, t�o perto
quanto podia chutar-lhe a cara. Bela id�ia a da Germana em me por aqui
de baixo! � o primeiro lugar onde se procura fugitivo._assim remoia a
criada, ensaiando um Pai Nosso fragmentado na mente. Se o patr�o a encontrasse
ali, teria sorte se continuasse viva, pois gente como ele n�o tem pena
de matar nem paga pena por isso. Passou ent�o a pensar nos filhos, na
m�e j� falecida e at� no marido, que h� tempos n�o
visitava no pres�dio, e teria lembrado de mais gente se n�o tivesse
visto os sapatos do patr�o se afastarem, meio tr�pegos, mas tomando
cuidado para n�o fazer barulho. O cora��o de Regina inundou-se
de al�vio, mas ela esperou que Juan Diego fosse embora de vez para ent�o
poder suspirar. Ele estava quase deixando o quarto, mais um pouco e ele finalmente
as deixaria em paz, mas ent�o ele se deteve na soleira e um de seus p�s
tornou a entrar no quarto. Regina congelou, temendo ter feito algum ru�do
ou de ele t�-la visto em seu esconderijo, mas t�o logo pensara
assim, ele disse em voz sumida:
_V�o
tirar voc� de mim, minha Mercedes._ele fez uma breve pausa._N�o
suporto mais uma semana._dizendo isso, ele fecha a porta e o som de seus passos
some no corredor.
Depois que ele sa�ra, houve sil�ncio e nenhuma das tr�s, nem mesmo Regina, ousou se mexer ou sair do esconderijo. Rosa estremecera quando o pai ajeitou-lhe as cobertas sobre o corpo e quase gritou, quando ele resvalou um dedo em sua boca, acariciando-a. As ora��es lhe sumiram, restaram apenas os apelos repetitivos ditos de improviso, para por fim n�o conseguir pensar em nada sen�o no pavor que fora ouvir o pai dizer aquelas palavras. Porque a chamara pelo nome da m�e e o que quis dizer com o n�o suportar mais uma semana? Um medo an�nimo cresceu dentro dela, mais at� do que qualquer fantasia ou lembran�a que pudesse ter, naquela noite, com Diana. O que estaria acontecendo para o pai mudar de atitude t�o de repente e de forma t�o abrupta? Seria pelo efeito da tequila? Rosa repetiu-se isso at� poder confirmar que sim e, temendo ouvir opini�o discordante das outras, remexeu-se um pouco na cama e tratou de procurar dormir. Regina, por sua vez, agradeceu pelo quarto ter sido muito bem limpo e decidiu que seria melhor sair dali apenas pela manh�, quando n�o houvesse mais perigo. Ainda ruminou com o que Juan Diego dissera, mas logo bocejara e talvez tenha sido a primeira a ceder ao sono. Germana, por�m, n�o conseguiria pregar os olhos naquela noite, nem se pudesse voltar para seu quarto, pois sua consci�ncia estava dolorida como em nenhum outro dia.
Era
mais lament�vel que saber o tipo de casamento que fora arranjado �
menina, era mais pavoroso que assisti-la ser seduzida por uma outra mulher.
Algo que seus pudores n�o suportariam de modo algum, mas que sua consci�ncia
atestava ter sido poss�vel. Germana esperou, passiva at� aquela
noite, que a beleza de Rosa, t�o igual a da m�e morta, despertasse
pervers�o maior no pr�prio pai. E para tanto a governanta n�o
tinha for�as de impedir e julgava n�o haver nada nem ningu�m
que pudesse salvar Rosa de mais essa prova��o do dem�nio.
Esse pensamento soou-lhe blasfemat�rio, mas at� dos poderes de
Deus e da Santa Igreja ela agora duvidava e mesmo se perguntava se fora descaso
do Alt�ssimo para com Rosa Maria, que tanto era boa e que tanto o amava.
Persignou-se, na tentativa de vencer alguma influ�ncia mal�fica
sobre si, e tendo sentado no piso do banheiro, tentou cochilar, mas foi em v�o.
Germana podia apenas confiar que os des�gnios de Deus eram justos, mas
misteriosos e nada restava a n�o ser rezar para que tudo ocorresse bem.
Compreens�vel, pela vis�o da governanta, haver pouca ou nenhuma
esperan�a, principalmente, quando a �ltima pessoa que passaria
por sua cabe�a � a �nica capaz de salvar Rosa. Mas, para
que isso aconte�a � necess�rio milagre ainda maior, algo
certamente imposs�vel. Essa mesma pessoa, antes, precisa ser salva de
si mesma.
Nota:
Estou convencida de que agora, depois de tanto tempo sem escrever, ningu�m
possa estar acompanhando este conto.
Por isso, n�o vou dar explica��o alguma por esse atraso.
Digo apenas que vou termin�-lo.
Pois j� tenho um outro escrito e, acredito, bem melhor.
Continua...