Amor Pecador

Anastacia

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Cap�tulo 6

Tequila

Rosa cerrou seus olhos a esperar que os dedos do pai lhe apanhassem os cabelos como a um tufo de erva daninha, e, dessa forma, a apartasse violento das demais flores do jardim. Pois Rosa era ali uma intrusa, e sua desobedi�ncia jamais seria perdoada pelo pai, que perdera a complac�ncia pela filha logo que esta nascera. Como esquecer de seu despudor quando lhe disse ele, na vez que a menina partira para o Santa Maria, que ao saber da complica��o do parto, preferira a vida da esposa � dela, e que fora apenas por um erro de Deus que nascera Rosa? Ela lembrava-se disso no minuto antes do pai descobri-la, como uma esp�cie de prepara��o que fizesse a si mesma a fim de suportar o sofrimento iminente. E naquela manh� em que soubera do desprezo do pai, os olhos dele foram como dois po�os profundos, vazios de amor_ assim havia em suas lembran�as_ e a voz dele t�o �spera e t�o sombria, que Rosa desejara morrer na balada de suas palavras, porque sempre amara o pai, sempre, e por mais que ele a maltratasse e a mantivesse distante dele, Rosa preferia iludir-se a acreditar que sua frieza n�o fosse um modo estranho de amar. Imaginava que sendo um homem solit�rio e de neg�cios, o cora��o havia se petrificado com o tempo, mas que, ainda sim, tinha por ela alguma estima. Entretanto, ap�s aquela confiss�o de �dio e tudo por ter sobrevivido no lugar da m�e, Rosa, angustiada e tomada pela culpa, passou a esperar dele a vingan�a, e mesmo em sua estada no convento, nada pode demov�-la desse castigo dado como certo. Foi por isso que, nesse seu retorno a casa, evitara o pai o quanto pode, procurando n�o o aborrecer de modo algum, e teria continuado em paz at� seu casamento, se n�o fosse por Diana, que a apaixonara t�o completamente, que j� n�o podia estar no quarto sem que se sentisse sufocada.

Esta era sua segunda noite em claro, sem que pudesse dormir, afogueada por pensamentos naturais que para ela eram mais que pecaminosos. Afinal, tudo estava acontecendo muito r�pido, sem que Rosa pudesse acompanhar com calma todas aquelas mudan�as que se operavam no �ntimo. E por seu passado de c�rcere e contempla��o religiosos, a mo�a s� poderia mesmo culpar o Diabo e suas tenta��es, e assim n�o suspeitava do destino que simplesmente lhe era cruel. N�o se havia dado conta, portanto, de que ingressava em um novo mundo, oposto ao que estava habituada a viver e seria justa a brutalidade do pai que lhe conscientizaria disso, agora. Resignada assim quanto � puni��o que receberia, Rosa permaneceu abaixada sob a farta cerca de hort�nsias, e mesmo quando Juan Diego a atravessara e pisara na barra de seu vestido repuxando-o um pouco, Rosa n�o esbo�ara rea��o alguma. S� o que soube foi esperar e teria continuado im�vel se n�o houvesse acreditado que o pai n�o a percebera. Abriu os olhos, e viu quando ele virou a garrafa de tequila na boca e cambaleou meio tr�pego at� o canteiro de cris�ntemos que havia no meio do jardim. Estava b�bado, deduziu, e ao inv�s de aliviar-se por seus reflexos comprometidos pelo �lcool, a mo�a pensava apenas que estando t�o alcoolizado sua viol�ncia contra ela seria extrema:

_N�o se esconda, sua vagabunda!_Juan Diego esbravejava limpando o canto da boca e batendo com o cinto nas flores que se soltaram dos galhos feito poeira. Rosa estranhou esse linguajar t�o baixo e s� n�o se doeu mais pela forma como o pai a chamava, porque entendia que sua mente fora amortecida pela bebida.

Ele � t�o grande e t�o forte que basta uma de suas pancadas para me desacordar_ constatava Rosa, toda encolhida e apreensiva de que o pai se virasse e lhe encontrasse ali t�o ao seu alcance. Mas como ficara sabendo de sua fuga ao jardim, se tomara mais cuidado que da �ltima vez? E porque ele bebia dessa maneira, se hoje mesmo parecera t�o satisfeito e at� feliz pelo sucesso de seus neg�cios, tanto que a deixara ir � igreja hoje de manh�, coisa completamente inusitada? Era castigo, s� podia ser. Deus testava a sua f�, seu arrependimento ou era o Dem�nio a vingar-se por sua resolu��o de lutar contra ele. Seja como for, n�o poderia sair dali sem que Juan Diego a notasse, pois t�o pr�ximos estavam um do outro e Rosa tinha os m�sculos t�o tensos, que se ela experimentasse mover-se o menor que fosse fatalmente chamaria aten��o para si. No entanto, ela quase que se denuncia tamanho o seu desespero, quando o pai deu um passo para tr�s e por fim voltou-se, mas continuando a olhar por cima dela. Mais um pouco e a teria pisado. Rosa sentiu o est�mago embrulhar-se e quase n�o respirava temendo que o menor ru�do seu despertasse o pai de seu torpor. Lembrou-se ent�o da ora��o a Nossa Sra. Auxiliadora e ficou repetindo-a em pensamento t�o r�pido, que logo perdera no��o se havia mesmo lembrado da ora��o inteira. Mas ainda assim procurava rezar com todo fervor que possu�a e s� parou de atrapalhar-se com as palavras, quando um barulho estridente ecoou na noite e com ele a gargalhada do pai em �xtase:

_Ora, vejam s�!_vociferou Juan Diego_ Menina de merda!_ ele estilha�ou a garrafa contra o canteiro para assim ter a m�o esquerda livre.

Rosa caiu em pranto surdo e ininterrupto, as m�os vacilaram contra o rosto a fim de proteger-se, e o p�nico cresceu tomando conta de sua mente e de seus sentidos, em forma de dor a estreitar-lhe o peito. Tentava controlar-se em v�o, temia odiar o pai. Queria acreditar na justi�a de sua f�ria e que assim n�o ousaria a menor rea��o contra ele nem lhe mentiria caso indagasse a raz�o da desobedi�ncia. Colou o rosto naquele ch�o frio e encolheu-se mais ainda ao recolher os joelhos para junto do corpo. Rosa estava t�o transtornada pela tortura a que seria submetida, t�o aterrorizada pela bestialidade do pai, que mesmo a esperar tudo isso, assustou-se_ respondendo pelo excesso de adrenalina a travar-lhe as veias_ quando, com for�a, a boca fora amorda�ada. Rosa abriu os olhos com um grito hist�rico, debatendo-se na tentativa de escapar daquele enlace e s� n�o se agitara mais, porque notou n�o ser o pai a lhe por a m�o na boca:

_Criatura! Fica quieta, que ele mordeu a isca!_ Regina falou sussurrante ao ouvido de Rosa esperando acalm�-la. � frente delas, Juan Diego distanciava-se pisando forte no ch�o. Ia direto para onde havia escutado vir o estrondo.

Quando ele ficou longe o suficiente para n�o perceb�-las, Regina arrancou a patroa do ch�o, puxando-a pela gola da roupa e sem mais se explicar, correu com ela aos pinotes para o outro extremo do jardim. L�, Germana com uma vela na m�o, vestida em panos de dormir, de touca e creme para a pele, as aguardava em frente � porta dos fundos. A governanta acenou com o bra�o para que as fugitivas entrassem e tendo-as na pr�via seguran�a da cozinha, cerrou a porta e trancou todos os ferrolhos. Em seguida, p�s a vela sobre a bancada da pia e r�pido serviu um copo d��gua � Rosa que ainda passava mal. A criada bufou alertando que tamb�m precisava recobrar o f�lego, mas como Germana apenas lhe fitara s�ria, foi com m� vontade que arrastou uma cadeira da mesinha. E, mal Regina derreava para sentar-se, Germana saltou sobre ela tal qual um fantasma e, tamb�m tomando o copo das m�os de Rosa, partiu arrastando as duas para a escadaria da sala:

_Que � isso!_Regina reclamava enquanto caminhava aos trancos junto com a patroa que ainda chorava._O homem � l� fora, n�o � aqui dentro n�o!_e dizendo isso parou j� com um p� no primeiro degrau da escada. Germana nervosamente tamb�m se deteve, mas para certificar-se dos ru�dos que escutava vindo da alameda, e concluindo que eram reais, tomou pela segunda vez Rosa nos bra�os e come�ou a subir apressada os degraus. Enquanto isso, Regina, ignorada pela governanta, permaneceu protestando como que alienada do perigo iminente.

_Ela tem perna, voc� sabia disso?_ e com um tom de voz mais elevado, Regina emendou-se _Duas!_disse contando nos dedos e depois, os mostrou � governanta.

Germana quis dar umas tapas na criada, pois n�o acreditava que pudesse ser t�o atoleimada e t�o burra sem que isso fosse de prop�sito. Juan Diego podia estar um porco b�bado, mas n�o idiota a ponto de n�o reparar que fora v�tima de um embuste e que, uma vez n�o as encontrando no jardim, iria procur�-las dentro de casa. Assim, Germana quis continuar subindo as escadas e deixar a criada pagar por sua estupidez, pois logo o patr�o entraria de sala adentro e ela n�o tinha tempo para ralhar com Regina. Por�m, foi a muito contragosto que olhou por cima do ombro e depressa a chamou com um resmungo. Regina ainda deteve-se por mais um momento, balan�ando a cabe�a, por sua vez descrente da real fragilidade de Rosa, mas, imaginando que talvez Germana pudesse cair com a outra no colo, foi at� ela e ajudou-a a subir com a patroa at� o corredor. Na verdade, toda essa irrita��o de Regina n�o se devia, por mais que parecesse, pelo fato da governanta cuidar da menina com tanto zelo,como se por qualquer coisa ela pudesse quebrar. � at� aceit�vel que estivesse com uma ponta de despeito devido a isso, mas o que de fato a tornava assim t�o indignada, mesmo com um Juan Diego �s costas, n�o era mais que Rosa, que simplesmente tirava Regina do s�rio. Como sendo t�o fr�gil e t�o sem gra�a, a mocinha conseguia ser mais atraente que ela a ponto de ter sido beijada por Diana em seu lugar? Sim, Regina esperou por Rosa logo que soubera ter sa�do com Diana naquela tarde e viu, pela porta do convers�vel, que estava aberta, quando Rosa correu ap�s t�-la beijado. A contempla��o de Diana, os seus olhos tristes, perdidos no vulto da menina a se afastar, foram mais que outras duas noites como escrava de Juan Diego. Foi um inferno, que Regina n�o quis impedir crescer em seu cora��o.

Como p�de ser t�o ing�nua a ponto de pensar que Rosa fosse uma santa e que jamais se interessaria por aquela mulher fabulosa? Desde o encontro com sua deusa, na soleira da entrada, que Regina apaixonara-se. Guardou esse momento consigo tal qual um tesouro e era s� por conta dele que ainda n�o largara seu emprego na mans�o, pois se assim fosse, como poderia rever Diana, sendo t�o rica e poderosa, e ela apenas uma moradora de vila? Ver Germana subindo as escadas com Rosa transportou Regina para aquele dia primeiro e assim p�de lembrar de quando Diana lhe ajeitou os cabelos, de como tomou seu corpo com uma firmeza �nica, mas tamb�m de como ela n�o a beijou, abandonando-a como uma est�tua e tudo isso apenas porque queria saber onde Rosa estava. Regina n�o tinha d�vidas da pr�pria beleza e de como provocava os homens, ou o patr�o n�o a teria for�ado a deitar-se com ele na varanda. Era isso ou o quarto proibido e ela n�o pensou duas vezes para aceitar a primeira op��o, pois sabia muito bem do que se tratava recus�-la. Deveria, pensava ela, ter sa�do correndo naquela noite e fugido dele, mas quem sabe o monstro n�o a amea�asse ou a seus filhos em repres�lia? Com o marido preso cumprindo pena de sete anos ent�o, f�cil seria para Juan Diego mandar qualquer capanga ir atr�s dos meninos. Maldita hora que aceitara o convite de das Dores para trabalhar na casa dos Bratcho! Se ao menos ela n�o estivesse certa quanto � educa��o das crian�as, que n�o podiam viver com a m�e a toda hora cercada de pretendentes, n�o teria passado tanta humilha��o_ assim supunha Regina, j� cerrando a porta do quarto de Rosa por dentro:

_Ao menos, eu conheci..._Regina percebeu que pensava alto e depressa se emendou, esperando que assim o que dissera passasse despercebido pela governanta._...o peso dessa menina. Como conseguiu carreg�-la at� aqui sozinha?_Ainda perguntou a Germana, que a ignorou mais uma vez e da forma mais ap�tica poss�vel. A criada fingindo n�o se incomodar permaneceu parada em frente � porta, enquanto Germana, mais simp�tica, punha Rosa na cama. Ela ainda estava muito nervosa e n�o conseguira parar de chorar, mesmo estando sob as cobertas cuidadosamente postas sobre si.

_Menina Rosa Maria, est� a salvo agora._Germana usava da mesma entona��o da m�e que retorna do arm�rio e diz ao filho que l� n�o h� bicho algum._Reze pra Nossa Senhora e tente dormir._O que queria mesmo era que a patroa parasse de chorar, pois se o pai entrasse no quarto, estranharia a ver dessa maneira. Depois, haveria de se preocupar com ela e com a est�pida criada, pela qual j� n�o conseguia esconder sua raiva e seu desprezo.

Germana conhecia o interesse de Regina por Diana, desde que a ouvira dizer maravilhas da megera que t�o friamente lhe amea�ara de morte e isso foi decisivo para que se antipatizasse de vez por quem pouco conhecia. Era detest�vel tamb�m para Germana saber que entre duas mulheres pudesse haver paix�o, algo que sempre lhe pareceu nojento e absurdo, e talvez fosse apenas por isso que o cora��o da governanta n�o fosse de todo bom. Quando hoje fora at� o quarto da menina Rosa, preocupada por saber se sua janela estava fechada, pois ultimamente a menina havia dado para mant�-la aberta nessa �poca de noite fria, Germana n�o a vira na cama e alvoro�ada saiu a procurar a patroa pela casa, temendo que o pai a estivesse fazendo algum mal. Procurou em todos os c�modos que tinha acesso e j� estava para invadir o quarto do patr�o, quando o ouvira rugir do lado de fora da casa. Ela sa�ra ent�o pela porta dos fundos e, para sua surpresa, deparara-se com Regina, que acabava de fugir das garras de Juan Diego por mais aquela noite, mas que deixava para sofrer no seu lugar a inocente menina. Quando a governanta indagou � criada pelo que esta estava fazendo no jardim �quela hora, a dissimulada disse apenas que estava cumprindo hora extra e com um sorriso no rosto deixou escapar ter deixado Rosa l� para receber o pagamento. Germana, cega de raiva, a segurou pelo bra�o e a for�ou contar-lhe toda a hist�ria. Regina retomando uma consci�ncia at� ent�o perdida, arrependeu-se e contou que estava espiando Rosa tomar ar, quando o patr�o a flagrou. Ele havia bebido daquele jeito, porque ela n�o foi aos seus aposentos como lhe fora ordenado e, quando ele fora busc�-la nos c�modos dos empregados, que ficavam separados da casa, ele ent�o a avistou no jardim. Ap�s saber de tudo isso, Germana for�ou a criada a voltar para ajud�-la a salvar Rosa, e foi assim que Regina arremessou uma pedra num dos jarros de planta pr�ximo ao muro da casa e, tendo isso distra�do Juan Diego, fora at� a patroa resgat�-la.

Rosa conteve-se um pouco e mais um pouco, at� levar as costas dos dedos aos olhos, j� inchados e doloridos, secando assim suas �ltimas l�grimas. Logo que passara a respirar normalmente e, inclusive, quando recuperara parte de sua alegria natural, ela sentou-se na cama e tomou uma das m�os de Germana estendendo a sua outra para Regina. Foi por um curto espa�o de tempo que a criada evitara esse gesto de amizade da patroa, mas t�o logo sentira pena dela outra vez, foi at� a cama e lhe ofereceu sua m�o. Parecia que estava sendo falsa, que abusava dos bons sentimentos da menina, mesmo tendo desconfiado deles at� bem pouco tempo. Mas Regina cedeu por concordar que havia se excedido tendo a deixado no jardim com Juan Diego, e se n�o fosse pela gra�a de Deus, n�o poderia ter voltado l� e a resgatado. Essa sua falta n�o se devia a mais do que ao seu ci�me e � sua incompreens�o das verdadeiras inten��es de Diana. Essa seria uma falta que a criada manteria em segredo, n�o s� por arrependimento mas tamb�m para n�o se denunciar � rival, a quem ainda pretendia vencer usando de m�todos mais honrosos. Regina, por fim, segurou a m�o direita de Rosa, por justo temer explicar a grosseria de n�o o faz�-lo e com isso falar mais do que gostaria. Essa sua hesita��o, por�m n�o passou despercebido por Germana, que atentou severamente contra ela, como se a criada estivesse a chutar a imagem de algum santo ou a dirigir insultos ao santo Papa. Estavam claras, para a governanta, as motiva��es que levaram Regina a atentar contra a patroa e, julgando-as intoler�veis, deixava sublimar sua revolta a partir do desd�m com que tratava a outra. Rosa logo conheceria a rede de muitos inimigos e de escassos aliados que o destino tratou de formar ao redor dela:

_N�o sei como agradecer �s duas..._Rosa quis se emocionar, mas continuou._Fico grata por t�-las como amigas._A voz dela era como a de uma crian�a, cheia de do�ura e ingenuidade, que fez Germana sorrir e Regina estremecer, tal qual ca�sse �cido em seus ouvidos. As tr�s ficaram, por um momento, sem saber o que dizer ou se j� n�o era hora de cada uma ir dormir, quando um baque surdo de um fardo lan�ado contra a parede, se faz ouvir vindo do corredor. Os nervos de todas mais uma vez se alteram e a primeira a se mover � Regina, que corre at� a porta a fim de sair. Germana, h� tempo, a segura antes que cometa essa loucura, e as duas permanecem no mesmo lugar, meio agarradas enquanto cada uma tenta ir a dire��es opostas.

_� o meu pai!_lamenta Rosa desfazendo as cobertas para se levantar tamb�m, mas �, por sua vez, impedida pela governanta que a empurra de volta para a cama.

_Ele vai entrar!_Germana apressada sussurrava e sem esperar pelo consentimento de Regina, a puxou consigo para o ch�o ao que a criada reclamou por dois ou tr�s fios de cabelo ter sido sacrificado nessa manobra. A governanta poderia ter se desculpado, se n�o tivesse feito isso de prop�sito.

_O que voc� ta querendo?_a criada tentou se erguer, mas foi outra vez derrubada pela governanta e posta para debaixo da cama.Quando Regina entendeu qual era o seu plano, come�ou a rir, ao passo que outra batida, desta vez, na pr�pria porta, ecoou pela casa em sil�ncio._Voc� n�o cabe nem sozinha aqui em baixo!_Regina n�o conseguia controlar um acesso de risos, o que fez Germana desistir da id�ia de se esconder ali e ir atr�s de outro lugar. Estava furiosa com o deboche da criada, mas toda vez que aparece motivo para lhe dar uma surra, o tempo est� contra ela e acaba perdendo a vontade depois. Germana se p�s de p�, bem quando a ma�aneta da porta girou vacilante e voltou a fechar a porta. Um grunhido seguido de um resmungo, algo como um palavr�o foi dito pela sombra que cresceu atr�s da porta e quando, por fim, finalmente entrara, a governanta j� havia passado para o boxe do banheiro, tremendo-se toda atr�s da cortina de pl�stico.

Juan Diego surgiu de um assalto, apoiando-se com for�a em uma das m�os sobre a ma�aneta e de imediato seus olhos perversos reca�ram sobre Rosa, descoberta sobre a cama. Ela havia deitado de lado e juntado as m�os sob a cabe�a, como costumava fazer quando crian�a. Juan Diego reconheceu essa posi��o, porque aquela n�o era a primeira vez que visitava a filha durante a noite, e por isso, n�o teve d�vidas de que ela realmente estivesse dormindo. Olhou em volta do quarto, respondendo ao instinto de que havia mais gente ali e ent�o se precipitou na dire��o da mo�a dando alguns passos. Em baixo da cama, Regina n�o tirava os olhos dos sapatos do patr�o, lustrosos e negros, t�o perto quanto podia chutar-lhe a cara. Bela id�ia a da Germana em me por aqui de baixo! � o primeiro lugar onde se procura fugitivo._assim remoia a criada, ensaiando um Pai Nosso fragmentado na mente. Se o patr�o a encontrasse ali, teria sorte se continuasse viva, pois gente como ele n�o tem pena de matar nem paga pena por isso. Passou ent�o a pensar nos filhos, na m�e j� falecida e at� no marido, que h� tempos n�o visitava no pres�dio, e teria lembrado de mais gente se n�o tivesse visto os sapatos do patr�o se afastarem, meio tr�pegos, mas tomando cuidado para n�o fazer barulho. O cora��o de Regina inundou-se de al�vio, mas ela esperou que Juan Diego fosse embora de vez para ent�o poder suspirar. Ele estava quase deixando o quarto, mais um pouco e ele finalmente as deixaria em paz, mas ent�o ele se deteve na soleira e um de seus p�s tornou a entrar no quarto. Regina congelou, temendo ter feito algum ru�do ou de ele t�-la visto em seu esconderijo, mas t�o logo pensara assim, ele disse em voz sumida:

_V�o tirar voc� de mim, minha Mercedes._ele fez uma breve pausa._N�o suporto mais uma semana._dizendo isso, ele fecha a porta e o som de seus passos some no corredor.

Depois que ele sa�ra, houve sil�ncio e nenhuma das tr�s, nem mesmo Regina, ousou se mexer ou sair do esconderijo. Rosa estremecera quando o pai ajeitou-lhe as cobertas sobre o corpo e quase gritou, quando ele resvalou um dedo em sua boca, acariciando-a. As ora��es lhe sumiram, restaram apenas os apelos repetitivos ditos de improviso, para por fim n�o conseguir pensar em nada sen�o no pavor que fora ouvir o pai dizer aquelas palavras. Porque a chamara pelo nome da m�e e o que quis dizer com o n�o suportar mais uma semana? Um medo an�nimo cresceu dentro dela, mais at� do que qualquer fantasia ou lembran�a que pudesse ter, naquela noite, com Diana. O que estaria acontecendo para o pai mudar de atitude t�o de repente e de forma t�o abrupta? Seria pelo efeito da tequila? Rosa repetiu-se isso at� poder confirmar que sim e, temendo ouvir opini�o discordante das outras, remexeu-se um pouco na cama e tratou de procurar dormir. Regina, por sua vez, agradeceu pelo quarto ter sido muito bem limpo e decidiu que seria melhor sair dali apenas pela manh�, quando n�o houvesse mais perigo. Ainda ruminou com o que Juan Diego dissera, mas logo bocejara e talvez tenha sido a primeira a ceder ao sono. Germana, por�m, n�o conseguiria pregar os olhos naquela noite, nem se pudesse voltar para seu quarto, pois sua consci�ncia estava dolorida como em nenhum outro dia.

Era mais lament�vel que saber o tipo de casamento que fora arranjado � menina, era mais pavoroso que assisti-la ser seduzida por uma outra mulher. Algo que seus pudores n�o suportariam de modo algum, mas que sua consci�ncia atestava ter sido poss�vel. Germana esperou, passiva at� aquela noite, que a beleza de Rosa, t�o igual a da m�e morta, despertasse pervers�o maior no pr�prio pai. E para tanto a governanta n�o tinha for�as de impedir e julgava n�o haver nada nem ningu�m que pudesse salvar Rosa de mais essa prova��o do dem�nio. Esse pensamento soou-lhe blasfemat�rio, mas at� dos poderes de Deus e da Santa Igreja ela agora duvidava e mesmo se perguntava se fora descaso do Alt�ssimo para com Rosa Maria, que tanto era boa e que tanto o amava. Persignou-se, na tentativa de vencer alguma influ�ncia mal�fica sobre si, e tendo sentado no piso do banheiro, tentou cochilar, mas foi em v�o. Germana podia apenas confiar que os des�gnios de Deus eram justos, mas misteriosos e nada restava a n�o ser rezar para que tudo ocorresse bem. Compreens�vel, pela vis�o da governanta, haver pouca ou nenhuma esperan�a, principalmente, quando a �ltima pessoa que passaria por sua cabe�a � a �nica capaz de salvar Rosa. Mas, para que isso aconte�a � necess�rio milagre ainda maior, algo certamente imposs�vel. Essa mesma pessoa, antes, precisa ser salva de si mesma.

Nota: Estou convencida de que agora, depois de tanto tempo sem escrever, ningu�m possa estar acompanhando este conto.
Por isso, n�o vou dar explica��o alguma por esse atraso.
Digo apenas que vou termin�-lo.
Pois j� tenho um outro escrito e, acredito, bem melhor.


Continua...

Parte 7

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