- Amor em Tempos de Luta
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DRICA PEREIRA
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- 2007
- CONSIDERAÇÕES:
Este conto é livremente baseado em fatos históricos reais
ocorridos em tempos sombrios da vida política brasileira. O objetivo
no entanto é puro entretenimento para aqueles que gostam ou não
têm nada contra o amor entre mulheres, tema principal da estória.
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- Contato: [email protected] Blog:
http://adpereira.blig.ig.com.br
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- Amar
é mudar a alma de casa – Mario Quintana
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- PARTE 01
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- O
ano é 1943. Aos vinte minutos do dia 1º de maio nascia Diana
Prietto Moller. Sempre achei curioso ter nascido em um dia onde o proletariado
do mundo inteiro escolheu como dia de luta. Meu pai Johann Moller, judeu
alemão, refugiara-se no Brasil em 1941 e trabalhava como contador
na Texaco em Porto Alegre onde conheceu minha mãe, a secretária
Maria Nicollemi Prietto, imigrante italiana. Foi amor à primeira
vista, ele dizia. Em 1953, quando eu tinha dez anos, fomos morar na Bahia,
terra de sol, de mar, e de luz; agora quem amava a primeira vista era eu,
tornei-me baiana de corpo e alma. Aos dezoito anos entro na Faculdade de
Direito da Universidade Federal da Bahia e encontro o movimento estudantil
em plena ebulição. É um encontro comigo mesma, nas
idéias, na inquietude, na busca de um objetivo maior e na certeza
de que era preciso transformar o mundo.
-
- Minha
entrada na Universidade coincide com um momento político importante:
a luta no Brasil por reformas políticas. A agitação
estudantil é grande e a luta contra o imperialismo é apaixonada.
Aos primeiros contatos com a política estudantil e as diversas correntes,
me identifico com as de esquerda: transmitem apelo revolucionário,
defendem a revolução cubana e falam em transformações
radicais. Após um ano na Universidade, estou firmemente decidida
a ter uma atuação mais destacada no movimento estudantil,
com muitas idéias e algumas convicções, entre elas
o fim da submissão dos povos às nações imperialistas,
a terra deve pertencer a quem nela trabalha, o capital se alimenta da exploração
do trabalhador e a juventude está paulatinamente sendo submetida
a ideais alienantes, com o objetivo de impedi-la de tomar consciência
da necessidade de transformação social. Nas cidades, greves
no meio operário e outras categorias de assalariados; no campo proliferam
as Ligas Camponesas e terras são ocupadas. O movimento estudantil
nas ruas defende todas estas lutas dos trabalhadores.
-
- No
calor da radicalização crescente, sinto necessidade de uma
ação mais organizada e filio-me a Ação Popular(AP),
uma organização democrático-reformista de cunho radical,
fruto do avanço do movimento estudantil na luta por transformações
sociais. O Documento-Base da AP defende o socialismo e fala em revolução,
ainda que não esclareça os meios para se chegar a ela. Faço
parte da célula de base da Faculdade de Direito e a minha vida então
segue entre reuniões estudantis, atos a participar, panfletagem,
seminários e conferências.
-
- Estávamos
em uma Assembléia Geral na Faculdade de Direito convocada para tomar
posição contra às ameaças golpistas que já
se faziam sentir. Nem houve tempo para se iniciar a discussão, é
dia 31 de março de 1964 e o golpe militar nos atinge em plena reunião.
Tropas do exército cercavam o prédio, houve uma intensa e
difícil negociação até conseguirmos sair.
-
- A
ditadura nos traz novos desafios, exige mudanças de hábitos
e maior disposição revolucionária. Através da
União Nacional dos Estudantes - UNE, a Ação Popular
criou o Movimento Contra a Ditadura (MCD), logo abraçado por todos
nós com entusiasmo. Montamos esquemas de segurança e logo
já estávamos saindo na calada da noite pintando nos muros
da cidade "abaixo a ditadura", assinado MCD, ou saindo de madrugada
para colocar panfletos contra a ditadura embaixo das portas de casas em
bairros populares. É claro que para os meus pais essas saídas
a noite eram sempre para festas em casas de colegas da Faculdade.
-
- Após
um ano de intenso e clandestino trabalho, fomos a uma reunião na
casa da Sônia para discutir as atividades do MCD na Bahia. Somos ao
todo dezesseis pessoas e aguardávamos a chegada de uma militante
mineira para dirigir a reunião. Seu trabalho era viajar pelo País
como "assessora política" da UNE, integrando as atividades
do MCD espalhados pelos estados, trocando informações e planos
de ação coordenados. Às dezenove horas em ponto ela
chegou. Sônia a recebeu e apresentou ao grupo:
-
- Colegas,
esta é Rúbia, nossa companheira da UNE de Belo Horizonte.
Rúbia seja bem-vinda!
-
- Seguiu-se
então uma série de apertos de mãos e apresentações,
no entanto, da porta da cozinha onde eu estava, não consegui sequer
mover-me. Uma descarga elétrica percorrera meu corpo quando a vi
e confusa não entendia bem o motivo. Ela usava um vestido azul da
exata cor dos seus olhos e combinava muito bem com os cabelos longos e negros
de um firme rosto anguloso e bonito, e que desciam pelos ombros bronzeados
de um corpo escultural.
-
- E
esta é Diana, nossa companheira da Faculdade de Direito...
-
- Oi...
– foi só o que consegui debilmente articular.
-
- Oi
Diana, muito prazer! – disse-me sorrindo.
-
- Os
olhos se atropelaram, impossível evitar. Flechada ligeira e mortal.
Meu corpo estremecia de cima a baixo, tentava domina-lo como quem doma um
cavalo montado a primeira vez. Inútil. Sentia estar enrubescida,
muito além do que o sol poderia proporcionar a minha pele branca
de neve. Senti sua mão tocar a minha. Arrepio. Lembro-me somente
de uma certa felicidade de champanhe explodindo para comemorar algo que
de alguma forma eu intuía. Um desejo forte me confundia a cabeça.
Que sentimento era aquele fora de hora, fora do padrão permitido
pela sociedade, fora do que até aquele momento eu achava ser meu
juízo ? Não podia! Senti vergonha, quis fugir, desaparecer.
Mas fiquei. Sentia o seu olhar durante toda a reunião. Encanta-me
o modo suave, mas firme, com que encaminha a discussão política.
Seus argumentos são sólidos, a análise da conjuntura
precisa. O entusiasmo está estampado em meu rosto, não só
pelo trabalho revolucionário que se avolumava, mas também
pela presença de uma figura alta, de fala ora mansa, ora firme, e
olhar doce, extremamente inteligente e loquaz, uma líder nata.
-
- Deus
de céu, só posso estar enlouquecendo...
-
- Uma
das coisas que foram acertadas durante a reunião foi que Rúbia
ficaria incumbida de encaminhar a luta do MCD na Bahia. Meu coração
saltava de alegria e a minha cabeça rodava confusa. Ao término
dos trabalhos, fui até a varanda dos fundos para respirar e tentar
controlar minhas emoções. Sentia o vento agitar meus longos
cabelos loiros, fechei os olhos e tentei coordenar minhas idéias.
Em vão. Após alguns minutos ouvi atrás de mim uma voz
aveludada e firme:
-
- Então
Diana, o que achou da reunião ?
-
- Ah!
Rúbia... eh... ótima, muito produtiva! Que bom que você
vai ficar conosco...
-
- Na
verdade não por muito tempo. A minha tarefa não permite
que eu tenha "pouso" definido, pelo menos por enquanto!
-
- Olhamo-nos
intensamente por alguns segundos e senti minhas pernas tremerem levemente.
Meu Deus, será que ela está sentindo o mesmo que eu ?! a maneira
como ela me olha agora...sim, com certeza. Será ?
-
- E
então, quando você termina a Faculdade de Direito ? – perguntou-me
com um leve sorriso.
-
- No
final do ano... e você o que faz ?
-
- Me
formei em Medicina no início do ano mas não cheguei ainda
a trabalhar formalmente por conta do Movimento.
-
- E
por quanto tempo realmente você vai ficar por aqui ?
-
- Não
sei ao certo...uma ou duas semanas, talvez mais. Na verdade há
outras reuniões a fazer, outros trabalhos a articular em outros
estados. Mas tenho certeza que minha estada aqui na Bahia será
bastante prazerosa... – disse-me olhando-me bem no fundo dos meus verdes
olhos.
-
- Com
certeza... – respondi retribuindo-lhe o olhar.
-
- Nesse
instante outras pessoas aproximam-se e passam a nos acompanhar na conversa.
Após mais alguns minutos debatendo sobre alguns assuntos políticos,
despeço-me, com a cabeça planejando meios de encontra-la de
novo.
-
- Lembro-me
da história que papai me contava sobre como apaixonou-se pela mamãe
a primeira vista. Sempre achei tudo muito risível e nunca pensei
ser possível isso acontecer de fato. Toda essa história de
encontro de almas...era tudo muito subjetivo para minha cabeça racionalista.
Mas agora parece-me que estava errada, e o que é pior, nunca pensei
que pudesse apaixonar-me por uma mulher. Isso era inconcebível para
mim, pelo menos nunca cheguei a cogitar o fato como possível de acontecer
comigo. Na verdade pouco ouvia falar sobre esse tipo de amor, mais parecia
algo raro, como algumas doenças que surgiam em poucas pessoas e não
se sabia bem ao certo como, nem porque e muito menos como tratá-la.
Minha experiência amorosa resumia-se a um único ex-namorado,
uma relação muito mais fraternal do que outra coisa, mas nunca
pensei que pudesse sentir-me atraída por outra mulher. O que faria
agora ? será que tudo isso não passa de loucura da minha cabeça
? a única certeza que eu tinha era que precisava vê-la de novo
e tentar descobrir a real natureza dos meus sentimentos.
-
- Uma
semana depois estou voltando da festa de aniversário de "Seo"
Argemiro, avô do meu ex-namorado Alex, e pensava em Rúbia,
sobre quanto tempo ela ficaria por aqui e como poderia vê-la novamente.
Pensava em uma boa desculpa para procurá-la quando do ônibus
a vejo dobrando uma esquina da rua do Canela.
-
- Ela
só pode estar indo para a casa da Lúcia, vou até lá,
e dou uma desculpa de um convite para o teatro da Universidade.
-
- Ao
chegar em casa, pego o carro do papai emprestado e em poucos minutos chego
à casa da Lúcia, não dá outra, ela está
lá. Ficamos conversando na sala, sinto seu interesse. Ela não
pode ir ao teatro, vai participar de uma reunião, Lúcia também
não pode, pois também vai estar na reunião. Combinamos
então de ir à praia no dia seguinte.
-
- É
Domingo e os meus amigos vão buscar-me em casa: Lúcia e o
namorado Alberto, Célia (irmã de Lúcia) e o namorado
Agnaldo, Mariane e Rúbia. Estamos na praia de Jardim de Alá,
passamos o dia juntas e conversamos muito, vida, interesses, lutas, perspectivas,
algumas coisas em comum, outras distantes, mas a mesma febre de seguir um
caminho de transformação do mundo.
-
- Encontramo-nos
muitas outras vezes durante os quase trinta dias em que ela esteve na Bahia,
sentia como se namorássemos, um namoro casto e silencioso, como que
proibido, mas regado por palavras e gestos carinhosos e de mútua
admiração. Falávamos sobre nossas vidas, em como ela
vivia de modo itinerante, rodando pelo país em favor do Movimento
e em como eu pretendia me dedicar ainda mais a causa após a formatura.
A verdade é que a cada dia que passava eu me sentia mais e mais presa
a sua presença, ao seu cheiro, ao seu magnífico sorriso, ao
seu entusiasmo quase infantil ao falar da luta e da resistência política,
enfim, sentia-me de muitas formas, menos em dúvida quanto a natureza
do sentimento que me dominava.
-
- Na
véspera de sua partida, estávamos na casa da Lúcia
conversando animadamente quando somos deixadas a sós por alguns minutos
(o que era raríssimo), tendo em vista que Alberto aguardava Lúcia
buscá-lo em uma reunião no bairro da Barra:
-
- Meninas,
fiquem a vontade que daqui a pouco estarei de volta com o Alberto e
quem sabe não saímos para uma festa de despedida!
-
- Claro!
Pode ir que esperamos aqui. – disse.
-
- Lúcia
saiu. Rúbia estava sentada ao meu lado no sofá e agora olhava-me
de frente. Retribuía seu olhar com intensidade, como que atraída
por um magnetismo poderoso e irresistível, flutuava naquele azul
de céu sem nuvens como as tardes de verão em Salvador.
-
- Diana,
eu não posso ir embora sem antes dizer-lhe algo...
-
- Diga...
– quase sussurrava.
-
- Talvez
você não entenda, mas desde que te vi a primeira vez naquela
reunião na casa da Sônia eu venho pensando muito em você.
Na verdade desde o primeiro momento eu soube que algo intenso e poderoso
ocupava o meu coração naquele instante...
-
- O
que você quer dizer – disse nervosamente.
-
- Quero
dizer que quando deixei aquela reunião eu estava decidida a te
encontrar novamente, precisava desesperadamente te conhecer melhor,
mas não sabia como e qual não foi minha surpresa e alegria
quando nos encontramos aqui... naquele momento pensei, os deuses sorriram
para mim, não pode ser coincidência, é uma confirmação,
um sinal...
-
- Sentia-me
um pouco atordoada, as suas palavras enchiam-me de uma doce melancolia,
de sonhos de futuro e faltas no presente. Apenas deixei que ela continuasse.
-
- Passamos
então a nos ver com freqüência e eu pude conhecer-te
melhor e hoje eu tenho certeza Diana que o que eu sinto por você
é amor, um amor poderoso, intenso, inédito pra mim, mas
certamente único, como se minha alma já não vivesse
mais em mim e sim em você, entende...
-
- Rúbia
... eu... eu... não posso negar que sinto por você algo
que me encheu de surpresa... eu me sinto completa quando estou ao seu
lado, e estar ao seu lado tornou-se quase uma vital necessidade para
mim... mas como poderíamos? Sem falar na distância de nossas
vidas provocadas pela militância, há o fato maior de sermos
mulheres! Como nosso amor seria possível ? as pessoas não
aceitariam, meus pais... eu mesma não sei se aceito tudo isso...
-
- Diana
como não aceitar o que está vivo em você? Porque
abrir mão da sua felicidade? Pelo que pensam os outros? Pelo
que a sociedade julga como correto? Onde está agora aquela militante
revolucionária que defende a liberdade de escolha e a igualdade
entre as diferenças? O que há de fato de errado em um
sentimento como o nosso?
-
- Eu
não sei bem Rúbia... na verdade eu tenho estado muito
confusa desde o dia em que te conheci. Nunca pensei que pudesse... não
é o que eu escolheria...
-
- Di,
cada dia que passa eu me convenço que não há livre-arbítrio
na natureza. Certas escolhas não são nossas, são
como que entregues por encomenda e vem pré-embaladas por outras
mãos. Eu não penso em escolhas pois os sentimentos, o
amor principalmente, é muito mais poderoso do que todas elas,
eu apenas vivo, sem lutar contra o que não se pode vencer...
-
- Os
olhares exalavam um desejo igual. Os braços aos poucos se fecharam
em um correspondido abraço e os lábios – trêmulos –
uniram-se em um beijo esfuziante e arrebatador. As línguas se buscavam,
exploravam veios desconhecidos e desejados em uma volúpia sem igual,
o coração latejava, ardia, parecia querer saltar do peito.
Suas mãos acariciavam minhas costas, minhas coxas, minha nuca. Um
calor subiu estranho e se instalou no rosto, não sem antes deixar
um rastro de excitação molhada entre minhas pernas. Não
pude deixar de gemer em sua boca pelo imenso prazer que sentia, deixando-a
mais ardente em seus afagos e carícias.
-
- O
arrebatamento só é interrompido pelo barulho da porta. Nos
desvencilhamos rapidamente ante a chegada de Lúcia e Alberto.
-
-
- O
amor é essa sede que inventa as fontes – Jean Louis Chrètien
-
-
- PARTE
02
-
- Disfarcei
o quanto pude com a chegada dos nossos amigos. Fui ao banheiro, molhei o
rosto e me recompus. Por sorte ninguém percebeu absolutamente nada.
Saímos todos para uma happy hour no Garcia, eu sentindo-me um pouco
no céu, um pouco na terra. Passamos então, Rúbia e
eu, a conversar de forma indireta, sem que os demais pudessem perceber que
nos comunicávamos:
-
- Alberto, o que você faria se Lúcia tivesse
que sair da Bahia por conta do trabalho no Movimento, fosse viver aqui
e ali... – disse.
-
- Bem Diana, sinceramente eu não sei. Eu não
acredito muito em namoro a distância, eu acho que tentaria ir
com ela, sei lá...
-
- Como não!? Eu acredito sim! – indignou-se Lúcia.
-
- Eu também! Quando existe amor, nem mesmo a distância
pode separar duas pessoas, eu acredito nisso piamente. – disse Rúbia
olhando diretamente para mim.
-
- Eu não sei... na verdade eu venho me descobrindo
muito insegura nos últimos dias, coisa que eu nunca pensei que
fosse... – disse pensativa.
-
- Como assim Di ?
-
- Ah não sei bem Lúcia, apenas me sinto.
Mas não é nada relativo ao Movimento, pode ter certeza.
-
- Sei... certamente são coisas do coração.
Anda, me conta logo quem é o maganão ! – disse sorrindo.
-
- Não há nenhum maganão Lúcia
! são apenas descobertas pessoais, coisas minhas, difíceis
de serem entendidas até por mim mesma.
-
- Seja o que for Diana, siga o seu coração.
Já te conheço o suficiente para saber que sempre que você
age assim as coisas dão certo.
-
- Eu sei Alberto, mas o coração...
-
- O coração é o senhor da razão!
– interrompeu-me Rúbia – pelo menos quando o que está
em jogo é a nossa felicidade.
-
- O coração às vezes nos prega peças,
era o que eu ia dizer.
-
- Olha Di, seja o que for, nós estamos aqui para
o que precisar, o.k. ?
-
- Eu sei Lúcia, obrigada!
-
- Entramos
noite adentro em um clima agradável, entre olhares e conversas. Na
manhã seguinte fui até a rodoviária despedir-me. Combinamos
de chegar mais cedo para poder conversarmos a sós antes que os outros
companheiros chegassem para as despedidas.
-
- E então Diana, como ficamos ?
-
- Eu não sei Rúbia...
-
- Olha, venha encontrar-me no final do ano no Rio de Janeiro.
Você já vai ter terminado a faculdade e eu estarei por
lá articulando algumas ações do Movimento. Nós
poderíamos trabalhar juntas, a AP têm grandes planos para
por em prática no fim do ano e você seria muito útil
conosco.
-
- Olhar
bem dentro daqueles olhos azuis suplicantes me fez abandonar qualquer resistência.
Meu desejo era partir imediatamente com ela para onde quer que fosse.
-
- Eu tentarei ir... – disse-lhe suave e docemente.
-
- Eu vou estar te esperando.
-
- Nos
abraçamos longa e carinhosamente. Sem dúvida naquele momento
o que eu mais queria era estar ao lado daquela mulher, por mais estranho
que aquilo tudo ainda me parecesse. Estávamos abraçadas quando
ela me disse:
-
- Talvez você fique sem notícias minhas por
um tempo pois não é muito seguro nos comunicar-mos com
freqüência, mas eu vou tentar escrever-lhe.
-
- Olhando-me
nos olhos continuou:
-
- Eu quero que você saiba que eu vou estar lá,
esperando. Apenas procure alguém da direção do
Movimento por lá que eles saberão onde me encontrar.
-
- Está bem.
-
- Nos
abraçamos novamente e foi assim que nos despedimos, com o coração
cheio de esperança e planos. A vida no entanto muda um pouco as coisas...
-
- Os
dias se passaram e uma saudade sofrida tomava conta do meu coração.
O pior de tudo era não poder compartilhar o que sentia com nenhum
dos meus amigos, não sabia como eles iriam reagir, talvez até
entendessem, mas, a bem da verdade, eu era quem não me sentia a vontade
para falar. Após um mês de nossa despedida finalmente recebi
notícias em uma pequena carta. Dizia-me que estava em Minas Gerais
mas que o combinado ainda estava de pé. Dissera também estar
com saudades, que possivelmente não poderia escrever novamente, entretanto
me aguardaria ansiosamente no final do ano.
-
- Fiquei
muito feliz por receber notícias dela mas com tudo o que eu sabia
sentir, amor, saudade, desejo, não faltava em mim também o
medo, a vergonha, a culpa e tudo mais que me fazia estar cada dia mais confusa
e um pouco deprimida.
-
- Di, o que está havendo com você filha ?
-
- hã!?... ah...mãe, nada...por que?
-
- Você têm andado diferente ultimamente muito
pensativa, distraída... onde está aquela menininha alegre
e cheia de vida que vivia pela casa recitando poemas, cantando ou exaltando
as peripécias de Arsène Lupin ? sabe que seu pai têm
sentido falta do barulho contagiante que você fazia nessa casa?
-
- Olha Dona Maria eu já não sou mais uma
"menininha" como você diz sabia? – disse-lhe sorrindo
– mas quanto à "alegria" e ao "barulho" posso
te garantir que continuam no mesmo lugar, um pouco de molho talvez,
mas é por conta do trabalho que estamos tento esse semestre lá
na faculdade, sabe como é , fim de curso, estágio, as
coisas ficam mais complicadas...
-
- Eu sei filha. Mas eu fico me perguntando se é
só isso mesmo ou se não têm algum rapazinho metido
nessa história...
-
- Rapazinho!? Ora mamãe quanta bobagem...
-
- Bobagem por que?! Minha experiência me diz que
quando uma mocinha fica assim amuada é porque têm alguma
coisa de paixão no ar – disse sorrindo.
-
- Não...não...engano seu.
-
- Sei...bem filha, é claro que você não
é mais nenhuma "menininha", afinal logo estará
formada, mas desde que você e o Alex terminaram eu não
vi você trazer nenhum namorado aqui e bem... eu quero que você
saiba que eu e seu pai não nos opomos a idéia de você
conhecer alguém, casar, ter filhos...
-
- Mãe!! Mas que história é essa agora
!!?
-
- Nada demais Diana, é que você é filha
única, cresceu, já não está mais conosco
como antes e nós sentimos falta do barulho de crianças
pela casa, aquela coisa toda.
-
- Mas veja só, há pouco me chama de "menininha"
e agora já vem querendo netos, casamento...entenda uma coisa
dessa!
-
- Ora filha, é só porque eu vejo todas as
suas amigas chegarem aqui com namorado e pelo que eu vejo logo, logo
algumas delas vão se casar, então eu concluí que
breve você vai estar como elas, com alguém para nos apresentar.
Só queremos que você saiba que não temos nada contra
se conhecer um rapaz e desejar casar-se mesmo sendo ainda tão
jovem, afinal quando me casei com seu pai era dois anos mais nova que
você, portanto...
-
- Portanto não se preocupe mamãe porque tudo
vai acontecer quando tiver que acontecer e eu não estou pensando
nem um pouco nisso viu? - Ainda mais essa agora... - pensei
-
- Está bem filha, só queria que você
soubesse. – beijou-me e saiu.
-
- Depois
de toda essa conversa pude parar e refletir. De fato todas as minhas amigas
tinham namorado e não foram poucas as vezes em que me vi tendo que
responder o porquê de estar sozinha e rejeitar tantos pretendentes
desde o fim do meu namoro com Alex. Às vezes chegava a ser constrangedor.
O fato que ninguém sabia era que meu coração já
estava plenamente ocupado, mas toda essa pressão dos amigos, agora
de meus pais, estava tornando tudo insuportável. Não poderia
e nem jamais conseguiria contar-lhes a verdade. E meus pais então,
esperavam netos, coisa que não poderia lhes dar caso decidisse seguir
meu coração. Isso sem falar no susto que levariam ao saberem
da verdade, papai certamente teria um infarto fulminante!
-
- Definitivamente
eu não poderia enfrentar tudo isso. Após dias de angústia,
decidi por fim esquecer Rúbia, meu grande amor, e retomar a minha
vida. Conheceria alguém, algum rapaz por quem me apaixonaria e cumpriria
meu papel como todos esperavam, esposa, mãe...de qualquer forma não
pensaria nisso agora, os estudos estavam chegando ao fim, iria me dedicar
a militância e a luta contra a ditadura, fatos mais urgentes.
-
- Passaram-se
dois meses, estávamos em novembro, e a Ação Popular,
sem abandonar o movimento estudantil, decide fazer um deslocamento de trabalho
em direção a classe operária e ao campo. Em resumo,
a meta era passar de uma "organização pequeno-burguesa"
para uma "organização proletária". Nesse
momento percebo que se tenho a pretensão de avançar na minha
militância e "fazer a revolução" conforme
pensava, não poderia mais permanecer na Bahia. Primeiro porque já
havia me tornado muito conhecida e segundo porque enfrentaria a oposição
e o medo de meus pais, que pouco sabiam das nossas atividades. A decisão
é radical: após a formatura em dezembro iria para São
Paulo e trabalharia como advogada sindical, o que seria uma porta para atuação
no movimento operário onde a AP buscava integrar-se.
-
-
- Estar
apaixonado é um estado, amar é um ato. – Denis de Rougemont
-
- PARTE
03
-
- Finalmente chega o mês de dezembro. Meus pais não
se conformam com a minha decisão de ir para São Paulo, achavam
um absurdo o fato de eu rejeitar propostas de trabalho em escritórios
importantes de alguns professores, perspectivas de seguir carreira acadêmica,
sem contar o fato de que iria deixa-los sozinhos, moraria muito longe, seria
muito difícil para eles. Mas eu estava firmemente decidida. Além
da atuação na militância, no fundo desejava estar longe
de todos, livrar-me das pressões e das cobranças dos amigos
e da família para que me envolvesse com alguém, tivesse um
companheiro. Ainda que tivesse decidido esquecer Rúbia, tinha certeza
que não seria fácil, nem mesmo sabia se um dia conseguiria
e não desejava nem um pouco envolver-me com ninguém. A questão
era bem simples: mergulharia de corpo e alma na luta contra a ditadura e
não me preocuparia com mais nenhum outro assunto, a revolução
me bastaria.
-
-
- Fevereiro de 1967. Chego em São Paulo cheia de expectativas
e com algum dinheiro coletado entre amigos. Não foi fácil
deixar a Bahia, as despedidas foram difíceis. Meus pais ficaram profundamente
tristes e alguns amigos não entenderam minha decisão. Os lugares
onde cresci e toda a beleza da cidade que deixava para traz estavam muito
marcados em mim e trouxeram-me certa melancolia. Mas o pior de tudo sem
dúvida foi logo após a formatura, quando então poderia
ter ido ao Rio de Janeiro encontrar-me com Rúbia como combinado e
começar uma nova e bem diferente vida. O fato de saber que ela estava
me esperando, a saudade esmagadora que sentia, as lembranças dos
momentos que tivemos juntas, enfim, o amor que sentia quase me fizeram jogar
tudo para o alto e ir ao seu encontro. Mas eu não me sentia preparada.
Sentia-me capaz de deixar tudo pela militância, mas não por
um amor proibido. Só conseguia imaginar os olhares, as críticas,
os comentários, as discriminações, os escândalos.
Eu era uma fraca, tinha que admitir.
-
-
- Por indicação de companheiros da AP, vou morar
em um pensionato em Perdizes, na rua da Universidade Católica. O
ambiente é muito bom, as moças são estudantes universitárias,
o nível cultural é alto e sou bem acolhida. Todas procuram
ajudar-me na busca por um emprego, indicam contatos, falam com conhecidos,
mas a situação é difícil. Os dias vão
passando e eu desfilando por inúmeras entrevistas de emprego, busco
em jornais, ando aqui e acolá e... nada! As tentativas de trabalhar
como advogada sindical escoam pelo ralo bem como o dinheiro que havia levado.
-
-
- Em abril, dois meses após a minha chegada, surge então
uma oportunidade. Estêvão, baiano, um dos principais dirigentes
da AP em São Paulo me procura:
-
- -Diana, trago novidades !
-
- -O que Estêvão?
-
- -A AP, para manter sua influência junto a intelectualidade
decidiu montar uma editora e distribuidora de livros, chamada Sinal, que
servirá também como base financeira e de difusão de
obras marxistas. Se você quiser, pode vir trabalhar conosco vendendo
nossos livros, você é inteligente, têm ótimo nível
cultural, é ideal para o trabalho. É bem distante da sua formação
é verdade, mas por enquanto é só o que eu pude conseguir,
se depois aparecer algo melhor...
-
- -Já aceitei !! – disse entusiasmada – quando começo
??
-
-
- Passo então a vender livros em domicílio para
intelectuais, profissionais liberais, artistas, executivos. São horas
de longas e extenuantes caminhadas pela cidade com uma sacola imensa e pesada.
Compensa o fato de que também sou encarregada de escrever os boletins
informativos e sinopses dos livros, o que me fez ampliar e muito o meu conhecimento
sobre variados temas políticos, principal publicação
da editora. O sonho de tornar-se advogada sindical está definitivamente
enterrado.
-
-
- Conheço pessoas, faço novos amigos, conto com
a sabedoria de companheiros dirigentes da organização e assim
vou crescendo cada vez mais em confiança e responsabilidades. O cotidiano
em São Paulo segue duro. Após alguns meses já estou
morando em um apartamento com outras duas companheiras da AP. O salário
apenas dá para cobrir as despesas. Em agosto, sou indicada para uma
nova tarefa: sob o disfarce de pesquisadora, passo os finais de semana percorrendo
os bairros e regiões fabris tentando localizar lideranças.
É uma tentativa da AP de trazer operários para o Movimento
e torná-los líderes em suas áreas e fábricas.
Somos ao todo cinco pessoas realizando um trabalho arriscado, mesclando
a vida legal com atividades clandestinas, usando álibis e quase nenhuma
segurança.
-
-
- Apesar da vida intensa a saudade nunca deixou ser minha companheira.
Sinto falta da minha terra querida, dos meus pais e da mais bela mulher
que já vira. O fato é que não só não
consegui esquecê-la, como já me desesperava a idéia
de nunca mais voltar a vê-la. Não havia a menor sombra de notícias
a seu respeito. Ela sequer sabia onde eu estava e eu, apesar de ter tentado
saber do seu paradeiro com amigos dirigentes em São Paulo, continuava
sem nenhuma informação. Todos a quem perguntava sobre Rúbia,
da AP em Belo Horizonte eram enfáticos em afirmar ser muito difícil
saber quem era ou onde estava visto que àquela altura dos acontecimentos
todos que realizavam atividades arriscadas acabavam por adotar um outro
nome, as vezes até com documentos falsos.
-
-
- As responsabilidades que havia assumido não me deixavam
abater. Penso em reencontrá-la e a possibilidade de viver o nosso
amor aos poucos vai deixando de ser um fato tão difícil para
mim. Ao mesmo tempo imagino que ela pode ter conhecido alguém e até
me esquecido. Nessas horas uma pontada de desespero invade meu coração.
Mas o que eu poderia esperar ? não foi a minha insegurança
e inexperiência que me levou a essa situação ? hoje,
quase um ano depois, tendo vivido em uma cidade tão diferente, conhecido
pessoas tão diferentes, realidades diferentes, penso que amadureci
titanicamente e talvez a minha atitude com relação a tudo
que se passou entre mim e Rúbia fosse outra. Talvez eu não
a rejeitasse como fiz outrora...
-
-
- A AP amplia suas atividades, intensifica a política
de deslocamentos, aumenta suas ações clandestinas e fortalece
a estrutura organizacional. Tais atividades acabam por chamar a atenção
da repressão que, numa atuação cirúrgica, investe
contra o sistema de comunicação e transporte da organização.
Vários companheiros são presos, o esquema é desmontado,
contatos são desarticulados. É preciso montar tudo de novo,
em novas bases. Para isso, faz-se necessário viajar para os estados-chave,
utilizar antigos contatos e avisar aos companheiros da queda dos "serviços",
nome dado ao trabalho do Movimento. Sou uma das indicadas para cumprir essa
tarefa.
-
- -Diana, como você sabe nós te escolhemos para
a missão de suporte e contato. Decidimos que você vai para
Minas Gerais, Belo Horizonte para ser mais preciso. Aqui está o nome
do contato antigo de lá e como achá-lo. Você parte em
dois dias. – disse-me Estêvão.
-
- Ao receber a notícia de que iria para Belo Horizonte
meu coração dispara. "Céus, será que a encontrarei lá?
Calma Diana, relaxe, ela pode estar em outro lugar, estar com outra pessoa.
O principal nessa história é sua tarefa, que envolve sérios
riscos de segurança, o provável é que nem mesmo a encontre..."
-
-
- Outubro de 1967. Encho-me de coragem e força, a tarefa
é arriscada, mas ainda assim vou para Belo Horizonte. Tenho que viajar
incógnita, com todas as informações sobre novos pontos
e contatos decorados para não cair em mãos da repressão.
A Organização está em perigo e é preciso correr
riscos para preservá-la.
-
-
- Chego na cidade e vou procurar o antigo contato, um advogado
chamado Pirillo. Infelizmente ele não está mais no esquema
de serviços e não sabe como chegar à organização,
mas têm uma amiga simpatizante do Movimento que poderia levar-me aos
dirigentes.
-
- -Olha Diana eu tenho uma amiga que talvez possa te ajudar.
Vou entrar em contato com ela e tentar marcar um encontro pra amanhã.
Me dê seu endereço que eu te procuro.
-
- -Está bem Pirillo, mas diz pra ela que é muito
importante. É uma questão de segurança, estamos todos
em risco.
-
- -Pode deixar.
-
- No dia seguinte, fomos ao encontro da militante na Lagoa
da Pampulha. Seu nome é Marilene. Pirillo deixa-nos a sós
e eu tenho que contar-lhe desde a minha saída da Bahia até
a chegada em São Paulo no início do ano e todas as atividades
que realizava por lá. Estando enfim convencida acerca das minhas
intenções, partimos então ao encontro do contato que
ela conhecia.
-
- -Vamos encontrar uma dirigente do Comando Regional, nós
a chamamos de Cajazeira, mora em Santa Teresa, se ela não estiver
lá deve estar com a na... – parou abruptamente.
-
- -com a na...? – disse um pouco confusa.
-
- -OK. Todos aqui sabem, não é segredo pra ninguém
mesmo, e é melhor que você saiba logo antes de conhecê-la
porque assim evitamos certos constrangimentos, já que ela não
esconde de ninguém sua...digamos...opção.
-
- -Opção? Como assim? Que opção?
-
- -Eu ia dizer que se Cajazeira não estivesse em casa
certamente estaria com a NAMORADA, Angélica.
-
- -Aaaaah, sim, namorada... – disse um pouco constrangida.
-
- -É isso mesmo, namorada. Ela não esconde de
ninguém por isso se você tiver alguma coisa contra, algum tipo
de preconceito é melhor se acostumar ou nem queira conhecê-la.
-
- -Não, não. Eu não tenho nada contra.
Nenhum preconceito, não se preocupe.
-
- -Não estou fazendo nenhuma apologia ou coisa parecida,
eu a bem da verdade também não entendo muito bem isso, mas
o fato é que gostar de mulheres não tornou minha amiga uma
pessoa menos inteligente, agradável e combatente do que ela é.
Pelo contrário, mostrou que ela é uma pessoa muito corajosa
por ter sido capaz de assumir isso em meio a uma sociedade que não
aceita essas coisas. Eu confesso que passei a admira-la ainda mais...
-
-
- Nesse instante fiquei um pouco abalada. Meu coração
disparou levemente pois imaginava se não seria Rúbia essa
pessoa da qual falávamos. "Será? Mas seria muita coincidência! Mas afinal
ela bem que poderia ter tido a coragem que eu não tive...Cajazeira
me parece ser sobrenome, ou algo assim, portanto é bem possível..."
-
- Diante dessa possibilidade uma euforia toma conta de mim.
Sinto uma arrepio no corpo mas logo me lembro das palavras de Marilene –
"deve estar com a namorada, Angélica". Foi como um balde
de água gelada. "Também
o que é que eu esperava? Marco de ir para o Rio, vou pra São
Paulo sem dar notícias, passo quase um ano...a fila anda!"
-
- Estamos à porta da casa dela e a ansiedade quase me
mata. Antes mesmo de tocar a campainha, uma jovem aparentando cerca de quinze
anos abre a porta, estava de saída.
-
- -Oi Suzi, Cajazeira tá aí? – disse Marilene
-
- -Tá sim, entrem, eu vou chamar.
-
- -Não, eu não vou entrar. Já que ela
está em casa eu vou andando que estou atrasada pra aula, você
então se resolve com ela Diana. Suzi, diz pra ela que Diana, da Bahia,
está aqui pra falar com ela.
-
-
- Nos despedimos de Marilene e então entramos. Fico
em pé na porta da sala enquanto a jovem vai entrando: "Bia,
é pra você, uma Diana lá da Bahia!". Menos de um
minuto depois a jovem volta, se despede de mim e sai, enquanto eu fico aguardando
onde estava. "Bia,
Bia, só pode ser ela, Bia deve ser diminutivo de Rúbia. Mas
é muita coincidência, como é possível? Contando
ninguém acreditaria!"
Silêncio lá dentro. Começo a estranhar a demora até
que enfim ela vem andando devagar, a cara sorridente mas ao mesmo tempo
extremamente surpresa:
-
- -O que é que você está fazendo aqui ?!
-
-
- Você
será amado no dia em que puder mostrar a sua fraqueza sem que o outro
se sirva dela para afirmar a sua força. – Pavese
-
- PARTE
04
-
- Não
seria possível descrever com palavras o que senti quando a vi. Um
frêmito de encantamento me envolveu. Ela está mais linda do
que nunca! Eu quase podia ouvir o descompasso do meu coração
tamanha a sua pressa em bater, já não tinha mais o menor controle
sobre meu corpo, minhas mãos gelaram, as pernas tremiam, a voz não
saía e os meus olhos não conseguiam mais se desprenderem daquele
azul fulminante. "Oh! céus, como eu amo essa mulher!"
-
- -Diana,
como é bom ver você! Mas como me achou? O que ou quem te trouxe
aqui?
-
- -É...é...uma
tarefa da organização, precisamos conversar. – disse desajeitadamente.
-
- -Claro.
Deixa só eu trocar de roupa e vamos a um outro lugar.
-
- Nesse
instante uma senhora simpática entra na sala.
-
- -Esta
é minha mãe, Gigi, minha irmã você já
conheceu. Fique a vontade, volto já.
-
- -Muito
prazer, D. Gigi – digo educadamente.
-
- -Senta
aqui minha filha, vou lhe mostrar uns retratinhos da Bia quando era criança
– disse me segurando pelo braço. Sai por um instante e volta com
uma caixa, de onde vai tirando um punhado de fotografias.
-
- -Esta
aqui é quando ela foi pra escola a primeira vez, esta outra é
quando era bebê, olha que linda...olha aqui o primeiro sapatinho dela!
Essa aqui é ela com o pai, e essa com a irmã, aqui a primeira
comunhão...
-
- Eu
sem entender nada só dizendo – Ah, sim, pois é... - e D. Gigi
desanca a falar em como Rúbia sempre foi muito inteligente, muito
estudiosa e coisa e tal. Eu penso comigo "mas que senhora esquisita,
nem me conhece e já vai falando da filha, da família, eu hein!".
-
- Após
alguns minutos Rúbia volta para a sala e quando vê a cena começa
a rir, eu fico sem jeito mas não digo nada, continuo educadamente
ouvindo D. Gigi falar.
-
- -E
olha minha filha que mesmo sendo muito estudiosa, saindo daqui pra li com
esse negócio de política e tudo, ela aprendeu a cozinhar muito
bem! E sempre cuidou da família, desde que o pai morreu não
deixa de se preocupar comigo e com a irmã, você conheceu, Suzana,
têm dezesseis anos e adora a Rúbia! Precisa ver como se dão
bem as duas...
-
- Vinte
minutos de conversa e eu ouvindo ali toda a história da família
de Rúbia, que mal conseguia disfarçar o riso com a cena, e
eu tentando imaginar o que se passava. Finalmente ela diz:
-
- -Mamãe
nós temos que ir, precisamos resolver alguns assuntos.
-
- -Ah,
sim, sim, vai minha filha. Vai Diana, Deus acompanhe vocês!
-
- Saímos
enfim e começamos a andar pela calçada em silêncio.
Eu com cara de ponto de interrogação ainda matutava sobre
o porque de D. Gigi ter agido daquela maneira. "Será que ela
era maluca?" Olhando pra mim Rúbia começa a rir muito
e diz:
-
- -Sabe
porque aquela solicitude toda da minha mãe com você?
-
- -Não...prá
dizer a verdade não entendi nada!
-
- -Venha,
vamos nos sentar ali.
-
- Nos
acomodamos em uma mesa no bar de uns amigos dela, que continuou:
-
- -Minha
mãe e todos meus amigos sabem que eu escolhi me relacionar com mulheres.
Quando deixei Salvador aquele dia e vim pra cá. A primeira coisa
que fiz foi chamar a minha mãe e ter uma conversa muito séria
com ela. Eu achava que iria encontrar você no final do ano no Rio
de Janeiro e depois acabaríamos vindo pra cá, então
eu quis que ela e todos soubessem que estava amando, iria assumir esse amor
custasse o que custasse e que se alguém quisesse me aceitar, que
me aceitasse assim, se não...enfim, foi difícil pra ela e
todos aceitarem no começo mas a união de nossa família
acabou prevalecendo, desde que papai morreu quando eu tinha quinze anos
nós nos tornamos muito ligadas. Eu então falei pra ela como
nos conhecemos, que te amava e que a traria aqui. Ela por fim disse que
me aceitaria do jeito que eu fosse...
-
- Nesse
instante senti um aperto doloroso no peito, como se uma enorme mão
o esmagasse. Um certo remorso me atingiu, uma culpa, uma tristeza real por
tê-la feito esperar por mim, ela tinha feito tudo isso e eu covardemente
fugira, sem nem ao menos dar notícias. Não pude mais olha-la,
baixei os olhos marejados e ela continuou:
-
- -Quando
ouvi Suzi dizer que Diana da Bahia estava à porta levei um susto,
fiquei tão lívida que mamãe percebeu e então
eu lhe disse Quase sem pensar " mãe, presta atenção
porque essa é a mulher que eu amo e nunca vou deixar de amar".
-
- -Oh!
Rúbia – foi só o que consegui dizer enquanto as lágrimas
rolavam aos montes pela minha face. Chorava de emoção, de
remorso, de raiva de mim mesma – me perdoa – foi só o que consegui
dizer entre soluços.
-
- -Shhh.
Não chore, Di. Não chore. – sentou-se ao meu lado e me abraçou.
Naquele instante deixei que toda minha dor e angústia presas durante
todo esse tempo se esvaíssem em lágrimas no seu ombro. Todo
o tempo que passei estupidamente longe dessa mulher que eu amava mais que
tudo, e o que me dilacerava mais: tudo que eu fiz ela sofrer quando esperou
por mim e eu simplesmente não apareci, nem mandei notícias.
Como pude ser tão cruel conosco?
-
- -Sabe
Di, eu esperei por você durante três meses no Rio. Não
deveria ter ficado tanto tempo mas eu não conseguia ir embora, imaginava
que você ia aparecer a qualquer momento. Todo santo dia perguntava
aos companheiros da direção se alguém havia chegado
da Bahia me procurando, mas nada...enfim decidi voltar para cá e
dar continuidade a minha vida. Mas saiba que eu nunca te esqueci, nunca...
-
- Não
sei por quanto tempo fiquei ali, chorando. O embalo dos seus braços,
o seu perfume, a sua pele, as suas mãos me afagando, aos poucos conseguiram
me acalmar.
-
- -Rúbia,
eu fui uma tola. Eu queria ter ido ao seu encontro, ficado ao seu lado,
eu...eu nunca, nem por um segundo deixei de amar você, de te querer,
de sonhar com você ao meu lado. Mas eu fui covarde, imbecil, fui uma
burra, tola – de cabeça baixa continuei – agora que te perdi tudo
ficou sem sentido pra mim...
-
- -Agora
que me perdeu? Como assim se acaba de me encontrar? – falou-me segurando
meu queixo, fazendo-me olhar para ela.
-
- -Eu
soube que você tem outra pessoa... – disse-lhe em meio a um suspiro.
-
- -Sim
é verdade. Nos conhecemos a algumas semanas e eu acabei me envolvendo...mas
se você quer saber a verdade ela é a única com quem
me envolvi desde que te conheci e além do mais ela sabe que amo outra
pessoa, contei tudo pra ela, apesar de que já não tinha muitas
esperanças de te encontrar novamente.
-
- -Sei...
-
- -Ela
é uma pessoa legal, nos damos bem, eu até gosto dela...
-
- Nossa
como doía ouvir isso! Olhei para o lado e apertei as mãos
tentando conter o ciúme e não dizer nenhuma bobagem.
-
- -...ela
gosta de mim e tudo, no entanto Di, se você quer saber, agora que
te encontrei, ou melhor, que você me encontrou e sei que me ama, eu
seria capaz de mandar o mundo as favas para ficar contigo!
-
- -Então
você me perdoa?!
-
- -Claro
que sim, meu amor. O amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta, tudo
sofre. Não é assim a Bíblia define o amor? Nisso eu
acredito porque isso eu vivo! Ficar ao seu lado sempre teve e sempre terá
em mim um sim, Diana. Resta saber se VOCÊ está disposta a isso
agora.
-
- Segurei
suas mãos e disse-lhe olhando nos olhos:
-
- -Sim
meu amor, eu hoje enfrentaria qualquer coisa pra ficar com você. Que
se dane o mundo, a vergonha, eu quero é ser feliz e se você
duvida posso levantar e gritar aqui mesmo pra todo mundo ouvir que eu te
amo!
-
- -Não
meu bem, não precisa! (...) Ah, se eu pudesse te beijar agora – disse-me
com um olhar assanhado.
-
- -Vamos
ter tempo pra isso meu amor. Eu agora não te deixo mais! Apenas quero
que você resolva primeiro sua vida com essa mulher aí com quem
se envolveu - falei um pouco irritada.
-
- -Claro,
não se preocupe, farei isso ainda hoje.
-
- -Agora
precisamos falar sobre o que me trouxe aqui. Cajazeira é seu sobrenome?
-
- -Sim,
Rúbia Cajazeira de Mello. Muito prazer, senhorita... – disse-me estendendo
a mão em um cumprimento.
-
- -Diana
Prietto Moller, a seu inteiro dispor – retribuí-lhe o cumprimento
sorrindo.
-
- -Hummmmm,
não diz isso agora que é covardia... – olhou-me com lascívia.
-
- -Ah,
ah, ah, não se preocupe sua boba! Depois eu repito em hora e local
mais apropriado... – disse-lhe retribuindo o olhar.
-
- -Oh,
céus, vou me perder de vez! – rimos.
-
-
- Pus
então ela a par de tudo que acontecera em São Paulo, de como
a repressão havia desarticulado parte do movimento, do perigo que
corríamos e da necessidade de todo o esquema ser refeito a partir
de novos contatos. Ela então levou-me ao comando da AP onde em uma
reunião discutimos a situação. Após traçarmos
os novos planos vou com uma companheira da direção, chamada
Augusta, buscar as minhas coisas no pensionato que me hospedara. Passaria
a ficar na casa dela, também em Santa Teresa, pelo menos por uns
dias. Rúbia insistira para que eu fosse para a casa dela mas eu não
poderia fazer isso sem antes conversar com D. Gigi e saber se ela aprovaria
ou não a minha ida, afinal era como se estivéssemos casando!
Por fim ela concordou e marcaria um jantar para conversarmos. Despediu-se
beijando-me na testa.
-
- -Vou
resolver aquele assunto agora, está bem? Vou conversar com a Angélica
e definir tudo. Em seguida vou falar com a mamãe e a noite eu passo
lá na casa da Augusta pra conversarmos.
-
- -Está
bem – eu me sentia a mulher mais feliz do mundo!
-
-
- Amar
é encontrar a sua riqueza fora de si mesmo.- Alain Vilson
-
- PARTE 5
-
- Já
era cerca de 22:00 quando finalmente Rúbia veio me procurar na casa
de Augusta onde eu estava.
- -Oi
meu amor, desculpe ter vindo tão tarde.
- -Tudo
bem, o importante é que você tá aqui. E então,
como foi tudo ?
- -Com
a Angélica foi uma conversa difícil, eu realmente não
queria faze-la sofrer, mas foi inevitável. Como dizer a alguém
que está ao seu lado e te ama que você encontrou o amor da
sua vida em outro alguém e vai ser feliz ao lado dela, sem que essa
pessoa acabe ficando magoada com você? – disse enquanto me abraçava.
- -Como
ela reagiu?
- -Mal.
Mas eu fui taxativa, tive que ser. Ainda que me custasse ver o seu sofrimento.
- -Sei...
- -Conversei
com a mamãe também e combinamos um jantar para amanhã.
- -amanhã?!
– desprendi-me dos seus braços – mas já, assim... tão
rápido?
- -Ué,
você prefere continuar aqui? não quer ir lá pra casa,
ficar comigo?
- -Claro,
claro, claro que quero ir, ficar com você, enfim, não é
isso, é que eu preciso me preparar, não sei o que dizer a
sua mãe, nem sei como encara-la...
- -Mas
que bobagem, Di – sorriu – minha mãe já sabe tudo sobre nós!
Basta dizer que me ama, que quer ficar comigo pelo resto da vida, que é
inteiramente minha...
- -Rúbia!
Eu não vou falar assim com sua mãe!
- -Eu
sei amor, só tava brincando! Mas sério Di, não precisa
se preocupar. Lembra de como ela te tratou hoje cedo quando te conheceu?
- -Ô,
se lembro. Eu não entendia nada!
- -Pois
então. Ela sabe o quanto você é importante pra mim.
Não foram poucas as vezes em que ela ouvia meus suspiros pelos cantos
da casa, sabendo perfeitamente que a causa de todos eles era uma certa moça
bonita lá da Bahia...
- -Me
desculpe de novo por isso tá? – suspirei longamente.
- -Esquece.
Eu só preciso agora que você tenha coragem Diana, afinal o
que eu estou propondo pra você é algo muito sério. É
casamento mesmo! Ainda que não vá haver cerimônia, festa
e tudo mais. No entanto o compromisso, o amor, a fidelidade, o companheirismo,
a vida em comum, tudo isso eu quero com você.
- -Eu
também meu amor, não se preocupe(...)faz apenas um ano que
nos conhecemos mas hoje eu me sinto muito mais capaz de entender as diferenças
que a natureza colocou em todos os seres, amar ajuda a gente a ver isso.
E quando você se aceita, fica bem mais fácil enfrentar as pessoas
e manter a cabeça erguida. Que bom que a vida me deu uma segunda
chance com você. Eu não pretendo desperdiça-la, pode
ter certeza.
- -Que
bom meu amor. Que bom que você pensa assim, que bom que você
tá aqui, que bom que vamos ficar juntas...meu corpo arde de desejo
por você, sabia?- sussurrou em meu ouvido.
- Seu
olhar intenso e penetrante deixou-me vermelha como um pimentão, mas
o desejo que também acercava-se do meu corpo fez-me retribuir o olhar
e sussurrar-lhe de volta:
- -Eu
sinto o mesmo.
-
- Ficamos
conversando por algum tempo. Combinamos que no dia seguinte, após
o jantar, eu já dormiria lá na casa dela, pois ela tinha certeza
que sua mãe aprovaria. Seria nossa "noite de núpcias"
, onde selaríamos o nosso amor pra sempre. Fui me recolher eufórica,
mas ao mesmo tempo nervosa e cheia de expectativa. "Humm, a noite amanhã
promete...mas o que é que eu faço? Nunca fiz sexo com ninguém,
muito menos com uma mulher...não tenho a menor noção
do que fazer. Rúbia certamente tinha experiência, não
tive coragem de perguntar, mas com certeza ela tem, estava namorando a até
poucas horas com aquela fulana...ô raiva, não quero nem pensar...só
de imaginar outra mulher tocando aquele corpo...irri! xô pensamento!...
Mas e eu? Como é que eu agiria? Ai meu Deus e se ela não gostar
de mim? Pior é que não tenho nem a quem pedir um conselho,
uma orientação...nossa, como é que eu vou olhar pra
cara da mãe dela amanhã naquele jantar? Acho que vou morrer
de vergonha. E a irmã dela, Suzana,? oh céus, me ajudem! Mas
eu preciso ser forte, não vou perde-la de novo, nem quero decepciona-la.
Eu a quero mais do que tudo..." - resultado de todo esse imbróglio:
passei a noite em claro!
-
- No
dia seguinte Rúbia nos apanhou, a mim e a Angélica, e fomos
ao Comando trabalhar as novas bases. Foi um dia inteiro de reuniões,
articulações, encontros, um passa e repassa de esquemas que
deveriam ser decorados por motivo de segurança e enfim, por volta
das 16:00 fomos para casa. Iria descansar um pouco para às 18:00
ir jantar com Rúbia e sua família. Ficou decidido em nossas
reuniões durante o dia que eu já poderia voltar para São
Paulo e levar o resultado do que fora feito e os nomes dos novos contatos.
No entanto, Rúbia pediu aos companheiros que aguardassem um pouco
pois eu só voltaria dali a uma semana, por motivos pessoais. Seria
nossa lua-de-mel, mas é claro que ela não disse isso, entretanto,
tive a impressão que todos entenderam bem! Após uma semana
iria pra S. Paulo, repassaria as informações, juntaria todas
as minhas coisas e voltaria definitivamente para Belo Horizonte.
- Por
volta das 18:00 ela veio buscar-me.
- -Você
está linda, Di !
- Eu
usava um vestido verde-claro, de alças, com um bordado colorido cruzando
a linha abaixo dos seios e algumas bijuterias que combinavam.
- -É
um vestido simples, se eu soubesse que iria ser formalmente apresentada
a sua família como sua mulher em um jantar, teria trazido algo melhor...
- -Imagina.
Lá em casa somos todos muito simples...o importante é que
você vai estar lá, ao meu lado.
- -É
mas você está estonteante, sabia? Quase perdi o fôlego
quando te vi.
- Rúbia
usava um vestido preto que descia até um pouco abaixo dos joelhos,
de corte reto até a cintura de onde pendia rodado, mas que realçava
cada curva do seu corpo, além do decote ousado pra época.
Uma sandália de salto alto na cor prata e um longo bracelete de prata
no braço esquerdo completavam o conjunto. Simples, mas maravilhoso!
- -Tudo
isso é prá você meu amor! – disse-me de forma maliciosa.
- -Isso...me
mata... – sorri
- -Ainda
não! Mais tarde, com certeza...
- -É
melhor irmos, não quero chegar atrasada. –disse ruborizada.