Amor em Tempos de Luta
  DRICA PEREIRA
 
2007
CONSIDERAÇÕES: Este conto é livremente baseado em fatos históricos reais ocorridos em tempos sombrios da vida política brasileira. O objetivo no entanto é puro entretenimento para aqueles que gostam ou não têm nada contra o amor entre mulheres, tema principal da estória.
 
Contato: [email protected]   Blog: http://adpereira.blig.ig.com.br
 
 
Amar é mudar a alma de casa – Mario Quintana
 
 
PARTE 01
 
O ano é 1943. Aos vinte minutos do dia 1º de maio nascia Diana Prietto Moller. Sempre achei curioso ter nascido em um dia onde o proletariado do mundo inteiro escolheu como dia de luta. Meu pai Johann Moller, judeu alemão, refugiara-se no Brasil em 1941 e trabalhava como contador na Texaco em Porto Alegre onde conheceu minha mãe, a secretária Maria Nicollemi Prietto, imigrante italiana. Foi amor à primeira vista, ele dizia. Em 1953, quando eu tinha dez anos, fomos morar na Bahia, terra de sol, de mar, e de luz; agora quem amava a primeira vista era eu, tornei-me baiana de corpo e alma. Aos dezoito anos entro na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia e encontro o movimento estudantil em plena ebulição. É um encontro comigo mesma, nas idéias, na inquietude, na busca de um objetivo maior e na certeza de que era preciso transformar o mundo.
 
Minha entrada na Universidade coincide com um momento político importante: a luta no Brasil por reformas políticas. A agitação estudantil é grande e a luta contra o imperialismo é apaixonada. Aos primeiros contatos com a política estudantil e as diversas correntes, me identifico com as de esquerda: transmitem apelo revolucionário, defendem a revolução cubana e falam em transformações radicais. Após um ano na Universidade, estou firmemente decidida a ter uma atuação mais destacada no movimento estudantil, com muitas idéias e algumas convicções, entre elas o fim da submissão dos povos às nações imperialistas, a terra deve pertencer a quem nela trabalha, o capital se alimenta da exploração do trabalhador e a juventude está paulatinamente sendo submetida a ideais alienantes, com o objetivo de impedi-la de tomar consciência da necessidade de transformação social. Nas cidades, greves no meio operário e outras categorias de assalariados; no campo proliferam as Ligas Camponesas e terras são ocupadas. O movimento estudantil nas ruas defende todas estas lutas dos trabalhadores.
 
No calor da radicalização crescente, sinto necessidade de uma ação mais organizada e filio-me a Ação Popular(AP), uma organização democrático-reformista de cunho radical, fruto do avanço do movimento estudantil na luta por transformações sociais. O Documento-Base da AP defende o socialismo e fala em revolução, ainda que não esclareça os meios para se chegar a ela. Faço parte da célula de base da Faculdade de Direito e a minha vida então segue entre reuniões estudantis, atos a participar, panfletagem, seminários e conferências.
 
Estávamos em uma Assembléia Geral na Faculdade de Direito convocada para tomar posição contra às ameaças golpistas que já se faziam sentir. Nem houve tempo para se iniciar a discussão, é dia 31 de março de 1964 e o golpe militar nos atinge em plena reunião. Tropas do exército cercavam o prédio, houve uma intensa e difícil negociação até conseguirmos sair.
 
A ditadura nos traz novos desafios, exige mudanças de hábitos e maior disposição revolucionária. Através da União Nacional dos Estudantes - UNE, a Ação Popular criou o Movimento Contra a Ditadura (MCD), logo abraçado por todos nós com entusiasmo. Montamos esquemas de segurança e logo já estávamos saindo na calada da noite pintando nos muros da cidade "abaixo a ditadura", assinado MCD, ou saindo de madrugada para colocar panfletos contra a ditadura embaixo das portas de casas em bairros populares. É claro que para os meus pais essas saídas a noite eram sempre para festas em casas de colegas da Faculdade.
 
Após um ano de intenso e clandestino trabalho, fomos a uma reunião na casa da Sônia para discutir as atividades do MCD na Bahia. Somos ao todo dezesseis pessoas e aguardávamos a chegada de uma militante mineira para dirigir a reunião. Seu trabalho era viajar pelo País como "assessora política" da UNE, integrando as atividades do MCD espalhados pelos estados, trocando informações e planos de ação coordenados. Às dezenove horas em ponto ela chegou. Sônia a recebeu e apresentou ao grupo:
 
Colegas, esta é Rúbia, nossa companheira da UNE de Belo Horizonte. Rúbia seja bem-vinda!
 
Seguiu-se então uma série de apertos de mãos e apresentações, no entanto, da porta da cozinha onde eu estava, não consegui sequer mover-me. Uma descarga elétrica percorrera meu corpo quando a vi e confusa não entendia bem o motivo. Ela usava um vestido azul da exata cor dos seus olhos e combinava muito bem com os cabelos longos e negros de um firme rosto anguloso e bonito, e que desciam pelos ombros bronzeados de um corpo escultural.
 
E esta é Diana, nossa companheira da Faculdade de Direito...
 
Oi... – foi só o que consegui debilmente articular.
 
Oi Diana, muito prazer! – disse-me sorrindo.
 
Os olhos se atropelaram, impossível evitar. Flechada ligeira e mortal. Meu corpo estremecia de cima a baixo, tentava domina-lo como quem doma um cavalo montado a primeira vez. Inútil. Sentia estar enrubescida, muito além do que o sol poderia proporcionar a minha pele branca de neve. Senti sua mão tocar a minha. Arrepio. Lembro-me somente de uma certa felicidade de champanhe explodindo para comemorar algo que de alguma forma eu intuía. Um desejo forte me confundia a cabeça. Que sentimento era aquele fora de hora, fora do padrão permitido pela sociedade, fora do que até aquele momento eu achava ser meu juízo ? Não podia! Senti vergonha, quis fugir, desaparecer. Mas fiquei. Sentia o seu olhar durante toda a reunião. Encanta-me o modo suave, mas firme, com que encaminha a discussão política. Seus argumentos são sólidos, a análise da conjuntura precisa. O entusiasmo está estampado em meu rosto, não só pelo trabalho revolucionário que se avolumava, mas também pela presença de uma figura alta, de fala ora mansa, ora firme, e olhar doce, extremamente inteligente e loquaz, uma líder nata.
 
Deus de céu, só posso estar enlouquecendo...
 
Uma das coisas que foram acertadas durante a reunião foi que Rúbia ficaria incumbida de encaminhar a luta do MCD na Bahia. Meu coração saltava de alegria e a minha cabeça rodava confusa. Ao término dos trabalhos, fui até a varanda dos fundos para respirar e tentar controlar minhas emoções. Sentia o vento agitar meus longos cabelos loiros, fechei os olhos e tentei coordenar minhas idéias. Em vão. Após alguns minutos ouvi atrás de mim uma voz aveludada e firme:
 
Então Diana, o que achou da reunião ?
 
Ah! Rúbia... eh... ótima, muito produtiva! Que bom que você vai ficar conosco...
 
Na verdade não por muito tempo. A minha tarefa não permite que eu tenha "pouso" definido, pelo menos por enquanto!
 
Olhamo-nos intensamente por alguns segundos e senti minhas pernas tremerem levemente. Meu Deus, será que ela está sentindo o mesmo que eu ?! a maneira como ela me olha agora...sim, com certeza. Será ?
 
E então, quando você termina a Faculdade de Direito ? – perguntou-me com um leve sorriso.
 
No final do ano... e você o que faz ?
 
Me formei em Medicina no início do ano mas não cheguei ainda a trabalhar formalmente por conta do Movimento.
 
E por quanto tempo realmente você vai ficar por aqui ?
 
Não sei ao certo...uma ou duas semanas, talvez mais. Na verdade há outras reuniões a fazer, outros trabalhos a articular em outros estados. Mas tenho certeza que minha estada aqui na Bahia será bastante prazerosa... – disse-me olhando-me bem no fundo dos meus verdes olhos.
 
Com certeza... – respondi retribuindo-lhe o olhar.
 
Nesse instante outras pessoas aproximam-se e passam a nos acompanhar na conversa. Após mais alguns minutos debatendo sobre alguns assuntos políticos, despeço-me, com a cabeça planejando meios de encontra-la de novo.
 
Lembro-me da história que papai me contava sobre como apaixonou-se pela mamãe a primeira vista. Sempre achei tudo muito risível e nunca pensei ser possível isso acontecer de fato. Toda essa história de encontro de almas...era tudo muito subjetivo para minha cabeça racionalista. Mas agora parece-me que estava errada, e o que é pior, nunca pensei que pudesse apaixonar-me por uma mulher. Isso era inconcebível para mim, pelo menos nunca cheguei a cogitar o fato como possível de acontecer comigo. Na verdade pouco ouvia falar sobre esse tipo de amor, mais parecia algo raro, como algumas doenças que surgiam em poucas pessoas e não se sabia bem ao certo como, nem porque e muito menos como tratá-la. Minha experiência amorosa resumia-se a um único ex-namorado, uma relação muito mais fraternal do que outra coisa, mas nunca pensei que pudesse sentir-me atraída por outra mulher. O que faria agora ? será que tudo isso não passa de loucura da minha cabeça ? a única certeza que eu tinha era que precisava vê-la de novo e tentar descobrir a real natureza dos meus sentimentos.
 
Uma semana depois estou voltando da festa de aniversário de "Seo" Argemiro, avô do meu ex-namorado Alex, e pensava em Rúbia, sobre quanto tempo ela ficaria por aqui e como poderia vê-la novamente. Pensava em uma boa desculpa para procurá-la quando do ônibus a vejo dobrando uma esquina da rua do Canela.
 
Ela só pode estar indo para a casa da Lúcia, vou até lá, e dou uma desculpa de um convite para o teatro da Universidade.
 
Ao chegar em casa, pego o carro do papai emprestado e em poucos minutos chego à casa da Lúcia, não dá outra, ela está lá. Ficamos conversando na sala, sinto seu interesse. Ela não pode ir ao teatro, vai participar de uma reunião, Lúcia também não pode, pois também vai estar na reunião. Combinamos então de ir à praia no dia seguinte.
 
É Domingo e os meus amigos vão buscar-me em casa: Lúcia e o namorado Alberto, Célia (irmã de Lúcia) e o namorado Agnaldo, Mariane e Rúbia. Estamos na praia de Jardim de Alá, passamos o dia juntas e conversamos muito, vida, interesses, lutas, perspectivas, algumas coisas em comum, outras distantes, mas a mesma febre de seguir um caminho de transformação do mundo.
 
Encontramo-nos muitas outras vezes durante os quase trinta dias em que ela esteve na Bahia, sentia como se namorássemos, um namoro casto e silencioso, como que proibido, mas regado por palavras e gestos carinhosos e de mútua admiração. Falávamos sobre nossas vidas, em como ela vivia de modo itinerante, rodando pelo país em favor do Movimento e em como eu pretendia me dedicar ainda mais a causa após a formatura. A verdade é que a cada dia que passava eu me sentia mais e mais presa a sua presença, ao seu cheiro, ao seu magnífico sorriso, ao seu entusiasmo quase infantil ao falar da luta e da resistência política, enfim, sentia-me de muitas formas, menos em dúvida quanto a natureza do sentimento que me dominava.
 
Na véspera de sua partida, estávamos na casa da Lúcia conversando animadamente quando somos deixadas a sós por alguns minutos (o que era raríssimo), tendo em vista que Alberto aguardava Lúcia buscá-lo em uma reunião no bairro da Barra:
 
Meninas, fiquem a vontade que daqui a pouco estarei de volta com o Alberto e quem sabe não saímos para uma festa de despedida!
 
Claro! Pode ir que esperamos aqui. – disse.
 
Lúcia saiu. Rúbia estava sentada ao meu lado no sofá e agora olhava-me de frente. Retribuía seu olhar com intensidade, como que atraída por um magnetismo poderoso e irresistível, flutuava naquele azul de céu sem nuvens como as tardes de verão em Salvador.
 
Diana, eu não posso ir embora sem antes dizer-lhe algo...
 
Diga... – quase sussurrava.
 
Talvez você não entenda, mas desde que te vi a primeira vez naquela reunião na casa da Sônia eu venho pensando muito em você. Na verdade desde o primeiro momento eu soube que algo intenso e poderoso ocupava o meu coração naquele instante...
 
O que você quer dizer – disse nervosamente.
 
Quero dizer que quando deixei aquela reunião eu estava decidida a te encontrar novamente, precisava desesperadamente te conhecer melhor, mas não sabia como e qual não foi minha surpresa e alegria quando nos encontramos aqui... naquele momento pensei, os deuses sorriram para mim, não pode ser coincidência, é uma confirmação, um sinal...
 
Sentia-me um pouco atordoada, as suas palavras enchiam-me de uma doce melancolia, de sonhos de futuro e faltas no presente. Apenas deixei que ela continuasse.
 
Passamos então a nos ver com freqüência e eu pude conhecer-te melhor e hoje eu tenho certeza Diana que o que eu sinto por você é amor, um amor poderoso, intenso, inédito pra mim, mas certamente único, como se minha alma já não vivesse mais em mim e sim em você, entende...
 
Rúbia ... eu... eu... não posso negar que sinto por você algo que me encheu de surpresa... eu me sinto completa quando estou ao seu lado, e estar ao seu lado tornou-se quase uma vital necessidade para mim... mas como poderíamos? Sem falar na distância de nossas vidas provocadas pela militância, há o fato maior de sermos mulheres! Como nosso amor seria possível ? as pessoas não aceitariam, meus pais... eu mesma não sei se aceito tudo isso...
 
Diana como não aceitar o que está vivo em você? Porque abrir mão da sua felicidade? Pelo que pensam os outros? Pelo que a sociedade julga como correto? Onde está agora aquela militante revolucionária que defende a liberdade de escolha e a igualdade entre as diferenças? O que há de fato de errado em um sentimento como o nosso?
 
Eu não sei bem Rúbia... na verdade eu tenho estado muito confusa desde o dia em que te conheci. Nunca pensei que pudesse... não é o que eu escolheria...
 
Di, cada dia que passa eu me convenço que não há livre-arbítrio na natureza. Certas escolhas não são nossas, são como que entregues por encomenda e vem pré-embaladas por outras mãos. Eu não penso em escolhas pois os sentimentos, o amor principalmente, é muito mais poderoso do que todas elas, eu apenas vivo, sem lutar contra o que não se pode vencer...
 
Os olhares exalavam um desejo igual. Os braços aos poucos se fecharam em um correspondido abraço e os lábios – trêmulos – uniram-se em um beijo esfuziante e arrebatador. As línguas se buscavam, exploravam veios desconhecidos e desejados em uma volúpia sem igual, o coração latejava, ardia, parecia querer saltar do peito. Suas mãos acariciavam minhas costas, minhas coxas, minha nuca. Um calor subiu estranho e se instalou no rosto, não sem antes deixar um rastro de excitação molhada entre minhas pernas. Não pude deixar de gemer em sua boca pelo imenso prazer que sentia, deixando-a mais ardente em seus afagos e carícias.
 
O arrebatamento só é interrompido pelo barulho da porta. Nos desvencilhamos rapidamente ante a chegada de Lúcia e Alberto.
 
 
O amor é essa sede que inventa as fontes – Jean Louis Chrètien
 
 
 PARTE 02
 
Disfarcei o quanto pude com a chegada dos nossos amigos. Fui ao banheiro, molhei o rosto e me recompus. Por sorte ninguém percebeu absolutamente nada. Saímos todos para uma happy hour no Garcia, eu sentindo-me um pouco no céu, um pouco na terra. Passamos então, Rúbia e eu, a conversar de forma indireta, sem que os demais pudessem perceber que nos comunicávamos:
 
Alberto, o que você faria se Lúcia tivesse que sair da Bahia por conta do trabalho no Movimento, fosse viver aqui e ali... – disse.
 
Bem Diana, sinceramente eu não sei. Eu não acredito muito em namoro a distância, eu acho que tentaria ir com ela, sei lá...
 
Como não!? Eu acredito sim! – indignou-se Lúcia.
 
Eu também! Quando existe amor, nem mesmo a distância pode separar duas pessoas, eu acredito nisso piamente. – disse Rúbia olhando diretamente para mim.
 
Eu não sei... na verdade eu venho me descobrindo muito insegura nos últimos dias, coisa que eu nunca pensei que fosse... – disse pensativa.
 
Como assim Di ?
 
Ah não sei bem Lúcia, apenas me sinto. Mas não é nada relativo ao Movimento, pode ter certeza.
 
Sei... certamente são coisas do coração. Anda, me conta logo quem é o maganão ! – disse sorrindo.
 
Não há nenhum maganão Lúcia ! são apenas descobertas pessoais, coisas minhas, difíceis de serem entendidas até por mim mesma.
 
Seja o que for Diana, siga o seu coração. Já te conheço o suficiente para saber que sempre que você age assim as coisas dão certo.
 
Eu sei Alberto, mas o coração...
 
O coração é o senhor da razão! – interrompeu-me Rúbia – pelo menos quando o que está em jogo é a nossa felicidade.
 
O coração às vezes nos prega peças, era o que eu ia dizer.
 
Olha Di, seja o que for, nós estamos aqui para o que precisar, o.k. ?
 
Eu sei Lúcia, obrigada!
 
Entramos noite adentro em um clima agradável, entre olhares e conversas. Na manhã seguinte fui até a rodoviária despedir-me. Combinamos de chegar mais cedo para poder conversarmos a sós antes que os outros companheiros chegassem para as despedidas.
 
E então Diana, como ficamos ?
 
Eu não sei Rúbia...
 
Olha, venha encontrar-me no final do ano no Rio de Janeiro. Você já vai ter terminado a faculdade e eu estarei por lá articulando algumas ações do Movimento. Nós poderíamos trabalhar juntas, a AP têm grandes planos para por em prática no fim do ano e você seria muito útil conosco.
 
Olhar bem dentro daqueles olhos azuis suplicantes me fez abandonar qualquer resistência. Meu desejo era partir imediatamente com ela para onde quer que fosse.
 
Eu tentarei ir... – disse-lhe suave e docemente.
 
Eu vou estar te esperando.
 
Nos abraçamos longa e carinhosamente. Sem dúvida naquele momento o que eu mais queria era estar ao lado daquela mulher, por mais estranho que aquilo tudo ainda me parecesse. Estávamos abraçadas quando ela me disse:
 
Talvez você fique sem notícias minhas por um tempo pois não é muito seguro nos comunicar-mos com freqüência, mas eu vou tentar escrever-lhe.
 
Olhando-me nos olhos continuou:
 
Eu quero que você saiba que eu vou estar lá, esperando. Apenas procure alguém da direção do Movimento por lá que eles saberão onde me encontrar.
 
Está bem.
 
Nos abraçamos novamente e foi assim que nos despedimos, com o coração cheio de esperança e planos. A vida no entanto muda um pouco as coisas...
 
Os dias se passaram e uma saudade sofrida tomava conta do meu coração. O pior de tudo era não poder compartilhar o que sentia com nenhum dos meus amigos, não sabia como eles iriam reagir, talvez até entendessem, mas, a bem da verdade, eu era quem não me sentia a vontade para falar. Após um mês de nossa despedida finalmente recebi notícias em uma pequena carta. Dizia-me que estava em Minas Gerais mas que o combinado ainda estava de pé. Dissera também estar com saudades, que possivelmente não poderia escrever novamente, entretanto me aguardaria ansiosamente no final do ano.
 
Fiquei muito feliz por receber notícias dela mas com tudo o que eu sabia sentir, amor, saudade, desejo, não faltava em mim também o medo, a vergonha, a culpa e tudo mais que me fazia estar cada dia mais confusa e um pouco deprimida.
 
Di, o que está havendo com você filha ?
 
hã!?... ah...mãe, nada...por que?
 
Você têm andado diferente ultimamente muito pensativa, distraída... onde está aquela menininha alegre e cheia de vida que vivia pela casa recitando poemas, cantando ou exaltando as peripécias de Arsène Lupin ? sabe que seu pai têm sentido falta do barulho contagiante que você fazia nessa casa?
 
Olha Dona Maria eu já não sou mais uma "menininha" como você diz sabia? – disse-lhe sorrindo – mas quanto à "alegria" e ao "barulho" posso te garantir que continuam no mesmo lugar, um pouco de molho talvez, mas é por conta do trabalho que estamos tento esse semestre lá na faculdade, sabe como é , fim de curso, estágio, as coisas ficam mais complicadas...
 
Eu sei filha. Mas eu fico me perguntando se é só isso mesmo ou se não têm algum rapazinho metido nessa história...
 
Rapazinho!? Ora mamãe quanta bobagem...
 
Bobagem por que?! Minha experiência me diz que quando uma mocinha fica assim amuada é porque têm alguma coisa de paixão no ar – disse sorrindo.
 
Não...não...engano seu.
 
Sei...bem filha, é claro que você não é mais nenhuma "menininha", afinal logo estará formada, mas desde que você e o Alex terminaram eu não vi você trazer nenhum namorado aqui e bem... eu quero que você saiba que eu e seu pai não nos opomos a idéia de você conhecer alguém, casar, ter filhos...
 
Mãe!! Mas que história é essa agora !!?
 
Nada demais Diana, é que você é filha única, cresceu, já não está mais conosco como antes e nós sentimos falta do barulho de crianças pela casa, aquela coisa toda.
 
Mas veja só, há pouco me chama de "menininha" e agora já vem querendo netos, casamento...entenda uma coisa dessa!
 
Ora filha, é só porque eu vejo todas as suas amigas chegarem aqui com namorado e pelo que eu vejo logo, logo algumas delas vão se casar, então eu concluí que breve você vai estar como elas, com alguém para nos apresentar. Só queremos que você saiba que não temos nada contra se conhecer um rapaz e desejar casar-se mesmo sendo ainda tão jovem, afinal quando me casei com seu pai era dois anos mais nova que você, portanto...
 
Portanto não se preocupe mamãe porque tudo vai acontecer quando tiver que acontecer e eu não estou pensando nem um pouco nisso viu? - Ainda mais essa agora... - pensei
 
Está bem filha, só queria que você soubesse. – beijou-me e saiu.
 
Depois de toda essa conversa pude parar e refletir. De fato todas as minhas amigas tinham namorado e não foram poucas as vezes em que me vi tendo que responder o porquê de estar sozinha e rejeitar tantos pretendentes desde o fim do meu namoro com Alex. Às vezes chegava a ser constrangedor. O fato que ninguém sabia era que meu coração já estava plenamente ocupado, mas toda essa pressão dos amigos, agora de meus pais, estava tornando tudo insuportável. Não poderia e nem jamais conseguiria contar-lhes a verdade. E meus pais então, esperavam netos, coisa que não poderia lhes dar caso decidisse seguir meu coração. Isso sem falar no susto que levariam ao saberem da verdade, papai certamente teria um infarto fulminante!
 
Definitivamente eu não poderia enfrentar tudo isso. Após dias de angústia, decidi por fim esquecer Rúbia, meu grande amor, e retomar a minha vida. Conheceria alguém, algum rapaz por quem me apaixonaria e cumpriria meu papel como todos esperavam, esposa, mãe...de qualquer forma não pensaria nisso agora, os estudos estavam chegando ao fim, iria me dedicar a militância e a luta contra a ditadura, fatos mais urgentes.
 
Passaram-se dois meses, estávamos em novembro, e a Ação Popular, sem abandonar o movimento estudantil, decide fazer um deslocamento de trabalho em direção a classe operária e ao campo. Em resumo, a meta era passar de uma "organização pequeno-burguesa" para uma "organização proletária". Nesse momento percebo que se tenho a pretensão de avançar na minha militância e "fazer a revolução" conforme pensava, não poderia mais permanecer na Bahia. Primeiro porque já havia me tornado muito conhecida e segundo porque enfrentaria a oposição e o medo de meus pais, que pouco sabiam das nossas atividades. A decisão é radical: após a formatura em dezembro iria para São Paulo e trabalharia como advogada sindical, o que seria uma porta para atuação no movimento operário onde a AP buscava integrar-se.
 
 
Estar apaixonado é um estado, amar é um ato. – Denis de Rougemont
 
 PARTE 03
 
Finalmente chega o mês de dezembro. Meus pais não se conformam com a minha decisão de ir para São Paulo, achavam um absurdo o fato de eu rejeitar propostas de trabalho em escritórios importantes de alguns professores, perspectivas de seguir carreira acadêmica, sem contar o fato de que iria deixa-los sozinhos, moraria muito longe, seria muito difícil para eles. Mas eu estava firmemente decidida. Além da atuação na militância, no fundo desejava estar longe de todos, livrar-me das pressões e das cobranças dos amigos e da família para que me envolvesse com alguém, tivesse um companheiro. Ainda que tivesse decidido esquecer Rúbia, tinha certeza que não seria fácil, nem mesmo sabia se um dia conseguiria e não desejava nem um pouco envolver-me com ninguém. A questão era bem simples: mergulharia de corpo e alma na luta contra a ditadura e não me preocuparia com mais nenhum outro assunto, a revolução me bastaria.
 
 
Fevereiro de 1967. Chego em São Paulo cheia de expectativas e com algum dinheiro coletado entre amigos. Não foi fácil deixar a Bahia, as despedidas foram difíceis. Meus pais ficaram profundamente tristes e alguns amigos não entenderam minha decisão. Os lugares onde cresci e toda a beleza da cidade que deixava para traz estavam muito marcados em mim e trouxeram-me certa melancolia. Mas o pior de tudo sem dúvida foi logo após a formatura, quando então poderia ter ido ao Rio de Janeiro encontrar-me com Rúbia como combinado e começar uma nova e bem diferente vida. O fato de saber que ela estava me esperando, a saudade esmagadora que sentia, as lembranças dos momentos que tivemos juntas, enfim, o amor que sentia quase me fizeram jogar tudo para o alto e ir ao seu encontro. Mas eu não me sentia preparada. Sentia-me capaz de deixar tudo pela militância, mas não por um amor proibido. Só conseguia imaginar os olhares, as críticas, os comentários, as discriminações, os escândalos. Eu era uma fraca, tinha que admitir.
 
 
Por indicação de companheiros da AP, vou morar em um pensionato em Perdizes, na rua da Universidade Católica. O ambiente é muito bom, as moças são estudantes universitárias, o nível cultural é alto e sou bem acolhida. Todas procuram ajudar-me na busca por um emprego, indicam contatos, falam com conhecidos, mas a situação é difícil. Os dias vão passando e eu desfilando por inúmeras entrevistas de emprego, busco em jornais, ando aqui e acolá e... nada! As tentativas de trabalhar como advogada sindical escoam pelo ralo bem como o dinheiro que havia levado.
 
 
Em abril, dois meses após a minha chegada, surge então uma oportunidade. Estêvão, baiano, um dos principais dirigentes da AP em São Paulo me procura:
 
-Diana, trago novidades !
 
-O que Estêvão?
 
-A AP, para manter sua influência junto a intelectualidade decidiu montar uma editora e distribuidora de livros, chamada Sinal, que servirá também como base financeira e de difusão de obras marxistas. Se você quiser, pode vir trabalhar conosco vendendo nossos livros, você é inteligente, têm ótimo nível cultural, é ideal para o trabalho. É bem distante da sua formação é verdade, mas por enquanto é só o que eu pude conseguir, se depois aparecer algo melhor...
 
-Já aceitei !! – disse entusiasmada – quando começo ??
 
 
Passo então a vender livros em domicílio para intelectuais, profissionais liberais, artistas, executivos. São horas de longas e extenuantes caminhadas pela cidade com uma sacola imensa e pesada. Compensa o fato de que também sou encarregada de escrever os boletins informativos e sinopses dos livros, o que me fez ampliar e muito o meu conhecimento sobre variados temas políticos, principal publicação da editora. O sonho de tornar-se advogada sindical está definitivamente enterrado.
 
 
Conheço pessoas, faço novos amigos, conto com a sabedoria de companheiros dirigentes da organização e assim vou crescendo cada vez mais em confiança e responsabilidades. O cotidiano em São Paulo segue duro. Após alguns meses já estou morando em um apartamento com outras duas companheiras da AP. O salário apenas dá para cobrir as despesas. Em agosto, sou indicada para uma nova tarefa: sob o disfarce de pesquisadora, passo os finais de semana percorrendo os bairros e regiões fabris tentando localizar lideranças. É uma tentativa da AP de trazer operários para o Movimento e torná-los líderes em suas áreas e fábricas. Somos ao todo cinco pessoas realizando um trabalho arriscado, mesclando a vida legal com atividades clandestinas, usando álibis e quase nenhuma segurança.
 
 
Apesar da vida intensa a saudade nunca deixou ser minha companheira. Sinto falta da minha terra querida, dos meus pais e da mais bela mulher que já vira. O fato é que não só não consegui esquecê-la, como já me desesperava a idéia de nunca mais voltar a vê-la. Não havia a menor sombra de notícias a seu respeito. Ela sequer sabia onde eu estava e eu, apesar de ter tentado saber do seu paradeiro com amigos dirigentes em São Paulo, continuava sem nenhuma informação. Todos a quem perguntava sobre Rúbia, da AP em Belo Horizonte eram enfáticos em afirmar ser muito difícil saber quem era ou onde estava visto que àquela altura dos acontecimentos todos que realizavam atividades arriscadas acabavam por adotar um outro nome, as vezes até com documentos falsos.
 
 
As responsabilidades que havia assumido não me deixavam abater. Penso em reencontrá-la e a possibilidade de viver o nosso amor aos poucos vai deixando de ser um fato tão difícil para mim. Ao mesmo tempo imagino que ela pode ter conhecido alguém e até me esquecido. Nessas horas uma pontada de desespero invade meu coração. Mas o que eu poderia esperar ? não foi a minha insegurança e inexperiência que me levou a essa situação ? hoje, quase um ano depois, tendo vivido em uma cidade tão diferente, conhecido pessoas tão diferentes, realidades diferentes, penso que amadureci titanicamente e talvez a minha atitude com relação a tudo que se passou entre mim e Rúbia fosse outra. Talvez eu não a rejeitasse como fiz outrora...
 
 
A AP amplia suas atividades, intensifica a política de deslocamentos, aumenta suas ações clandestinas e fortalece a estrutura organizacional. Tais atividades acabam por chamar a atenção da repressão que, numa atuação cirúrgica, investe contra o sistema de comunicação e transporte da organização. Vários companheiros são presos, o esquema é desmontado, contatos são desarticulados. É preciso montar tudo de novo, em novas bases. Para isso, faz-se necessário viajar para os estados-chave, utilizar antigos contatos e avisar aos companheiros da queda dos "serviços", nome dado ao trabalho do Movimento. Sou uma das indicadas para cumprir essa tarefa.
 
-Diana, como você sabe nós te escolhemos para a missão de suporte e contato. Decidimos que você vai para Minas Gerais, Belo Horizonte para ser mais preciso. Aqui está o nome do contato antigo de lá e como achá-lo. Você parte em dois dias. – disse-me Estêvão.
 
Ao receber a notícia de que iria para Belo Horizonte meu coração dispara. "Céus, será que a encontrarei lá? Calma Diana, relaxe, ela pode estar em outro lugar, estar com outra pessoa. O principal nessa história é sua tarefa, que envolve sérios riscos de segurança, o provável é que nem mesmo a encontre..."
 
 
Outubro de 1967. Encho-me de coragem e força, a tarefa é arriscada, mas ainda assim vou para Belo Horizonte. Tenho que viajar incógnita, com todas as informações sobre novos pontos e contatos decorados para não cair em mãos da repressão. A Organização está em perigo e é preciso correr riscos para preservá-la.
 
 
Chego na cidade e vou procurar o antigo contato, um advogado chamado Pirillo. Infelizmente ele não está mais no esquema de serviços e não sabe como chegar à organização, mas têm uma amiga simpatizante do Movimento que poderia levar-me aos dirigentes.
 
-Olha Diana eu tenho uma amiga que talvez possa te ajudar. Vou entrar em contato com ela e tentar marcar um encontro pra amanhã. Me dê seu endereço que eu te procuro.
 
-Está bem Pirillo, mas diz pra ela que é muito importante. É uma questão de segurança, estamos todos em risco.
 
-Pode deixar.
 
No dia seguinte, fomos ao encontro da militante na Lagoa da Pampulha. Seu nome é Marilene. Pirillo deixa-nos a sós e eu tenho que contar-lhe desde a minha saída da Bahia até a chegada em São Paulo no início do ano e todas as atividades que realizava por lá. Estando enfim convencida acerca das minhas intenções, partimos então ao encontro do contato que ela conhecia.
 
-Vamos encontrar uma dirigente do Comando Regional, nós a chamamos de Cajazeira, mora em Santa Teresa, se ela não estiver lá deve estar com a na... – parou abruptamente.
 
-com a na...? – disse um pouco confusa.
 
-OK. Todos aqui sabem, não é segredo pra ninguém mesmo, e é melhor que você saiba logo antes de conhecê-la porque assim evitamos certos constrangimentos, já que ela não esconde de ninguém sua...digamos...opção.
 
-Opção? Como assim? Que opção?
 
-Eu ia dizer que se Cajazeira não estivesse em casa certamente estaria com a NAMORADA, Angélica.
 
-Aaaaah, sim, namorada... – disse um pouco constrangida.
 
-É isso mesmo, namorada. Ela não esconde de ninguém por isso se você tiver alguma coisa contra, algum tipo de preconceito é melhor se acostumar ou nem queira conhecê-la.
 
-Não, não. Eu não tenho nada contra. Nenhum preconceito, não se preocupe.
 
-Não estou fazendo nenhuma apologia ou coisa parecida, eu a bem da verdade também não entendo muito bem isso, mas o fato é que gostar de mulheres não tornou minha amiga uma pessoa menos inteligente, agradável e combatente do que ela é. Pelo contrário, mostrou que ela é uma pessoa muito corajosa por ter sido capaz de assumir isso em meio a uma sociedade que não aceita essas coisas. Eu confesso que passei a admira-la ainda mais...
 
 
Nesse instante fiquei um pouco abalada. Meu coração disparou levemente pois imaginava se não seria Rúbia essa pessoa da qual falávamos. "Será? Mas seria muita coincidência! Mas afinal ela bem que poderia ter tido a coragem que eu não tive...Cajazeira me parece ser sobrenome, ou algo assim, portanto é bem possível..."
 
Diante dessa possibilidade uma euforia toma conta de mim. Sinto uma arrepio no corpo mas logo me lembro das palavras de Marilene – "deve estar com a namorada, Angélica". Foi como um balde de água gelada. "Também o que é que eu esperava? Marco de ir para o Rio, vou pra São Paulo sem dar notícias, passo quase um ano...a fila anda!"
 
Estamos à porta da casa dela e a ansiedade quase me mata. Antes mesmo de tocar a campainha, uma jovem aparentando cerca de quinze anos abre a porta, estava de saída.
 
-Oi Suzi, Cajazeira tá aí? – disse Marilene
 
-Tá sim, entrem, eu vou chamar.
 
-Não, eu não vou entrar. Já que ela está em casa eu vou andando que estou atrasada pra aula, você então se resolve com ela Diana. Suzi, diz pra ela que Diana, da Bahia, está aqui pra falar com ela.
 
 
Nos despedimos de Marilene e então entramos. Fico em pé na porta da sala enquanto a jovem vai entrando: "Bia, é pra você, uma Diana lá da Bahia!". Menos de um minuto depois a jovem volta, se despede de mim e sai, enquanto eu fico aguardando onde estava. "Bia, Bia, só pode ser ela, Bia deve ser diminutivo de Rúbia. Mas é muita coincidência, como é possível? Contando ninguém acreditaria!" Silêncio lá dentro. Começo a estranhar a demora até que enfim ela vem andando devagar, a cara sorridente mas ao mesmo tempo extremamente surpresa:
 
-O que é que você está fazendo aqui ?!
 
 
Você será amado no dia em que puder mostrar a sua fraqueza sem que o outro se sirva dela para afirmar a sua força. – Pavese
 
PARTE 04
 
Não seria possível descrever com palavras o que senti quando a vi. Um frêmito de encantamento me envolveu. Ela está mais linda do que nunca! Eu quase podia ouvir o descompasso do meu coração tamanha a sua pressa em bater, já não tinha mais o menor controle sobre meu corpo, minhas mãos gelaram, as pernas tremiam, a voz não saía e os meus olhos não conseguiam mais se desprenderem daquele azul fulminante. "Oh! céus, como eu amo essa mulher!"
 
-Diana, como é bom ver você! Mas como me achou? O que ou quem te trouxe aqui?
 
-É...é...uma tarefa da organização, precisamos conversar. – disse desajeitadamente.
 
-Claro. Deixa só eu trocar de roupa e vamos a um outro lugar.
 
Nesse instante uma senhora simpática entra na sala.
 
-Esta é minha mãe, Gigi, minha irmã você já conheceu. Fique a vontade, volto já.
 
-Muito prazer, D. Gigi – digo educadamente.
 
-Senta aqui minha filha, vou lhe mostrar uns retratinhos da Bia quando era criança – disse me segurando pelo braço. Sai por um instante e volta com uma caixa, de onde vai tirando um punhado de fotografias.
 
-Esta aqui é quando ela foi pra escola a primeira vez, esta outra é quando era bebê, olha que linda...olha aqui o primeiro sapatinho dela! Essa aqui é ela com o pai, e essa com a irmã, aqui a primeira comunhão...
 
Eu sem entender nada só dizendo – Ah, sim, pois é... - e D. Gigi desanca a falar em como Rúbia sempre foi muito inteligente, muito estudiosa e coisa e tal. Eu penso comigo "mas que senhora esquisita, nem me conhece e já vai falando da filha, da família, eu hein!".
 
Após alguns minutos Rúbia volta para a sala e quando vê a cena começa a rir, eu fico sem jeito mas não digo nada, continuo educadamente ouvindo D. Gigi falar.
 
-E olha minha filha que mesmo sendo muito estudiosa, saindo daqui pra li com esse negócio de política e tudo, ela aprendeu a cozinhar muito bem! E sempre cuidou da família, desde que o pai morreu não deixa de se preocupar comigo e com a irmã, você conheceu, Suzana, têm dezesseis anos e adora a Rúbia! Precisa ver como se dão bem as duas...
 
Vinte minutos de conversa e eu ouvindo ali toda a história da família de Rúbia, que mal conseguia disfarçar o riso com a cena, e eu tentando imaginar o que se passava. Finalmente ela diz:
 
-Mamãe nós temos que ir, precisamos resolver alguns assuntos.
 
-Ah, sim, sim, vai minha filha. Vai Diana, Deus acompanhe vocês!
 
Saímos enfim e começamos a andar pela calçada em silêncio. Eu com cara de ponto de interrogação ainda matutava sobre o porque de D. Gigi ter agido daquela maneira. "Será que ela era maluca?" Olhando pra mim Rúbia começa a rir muito e diz:
 
-Sabe porque aquela solicitude toda da minha mãe com você?
 
-Não...prá dizer a verdade não entendi nada!
 
-Venha, vamos nos sentar ali.
 
Nos acomodamos em uma mesa no bar de uns amigos dela, que continuou:
 
-Minha mãe e todos meus amigos sabem que eu escolhi me relacionar com mulheres. Quando deixei Salvador aquele dia e vim pra cá. A primeira coisa que fiz foi chamar a minha mãe e ter uma conversa muito séria com ela. Eu achava que iria encontrar você no final do ano no Rio de Janeiro e depois acabaríamos vindo pra cá, então eu quis que ela e todos soubessem que estava amando, iria assumir esse amor custasse o que custasse e que se alguém quisesse me aceitar, que me aceitasse assim, se não...enfim, foi difícil pra ela e todos aceitarem no começo mas a união de nossa família acabou prevalecendo, desde que papai morreu quando eu tinha quinze anos nós nos tornamos muito ligadas. Eu então falei pra ela como nos conhecemos, que te amava e que a traria aqui. Ela por fim disse que me aceitaria do jeito que eu fosse...
 
Nesse instante senti um aperto doloroso no peito, como se uma enorme mão o esmagasse. Um certo remorso me atingiu, uma culpa, uma tristeza real por tê-la feito esperar por mim, ela tinha feito tudo isso e eu covardemente fugira, sem nem ao menos dar notícias. Não pude mais olha-la, baixei os olhos marejados e ela continuou:
 
-Quando ouvi Suzi dizer que Diana da Bahia estava à porta levei um susto, fiquei tão lívida que mamãe percebeu e então eu lhe disse Quase sem pensar " mãe, presta atenção porque essa é a mulher que eu amo e nunca vou deixar de amar".
 
-Oh! Rúbia – foi só o que consegui dizer enquanto as lágrimas rolavam aos montes pela minha face. Chorava de emoção, de remorso, de raiva de mim mesma – me perdoa – foi só o que consegui dizer entre soluços.
 
-Shhh. Não chore, Di. Não chore. – sentou-se ao meu lado e me abraçou. Naquele instante deixei que toda minha dor e angústia presas durante todo esse tempo se esvaíssem em lágrimas no seu ombro. Todo o tempo que passei estupidamente longe dessa mulher que eu amava mais que tudo, e o que me dilacerava mais: tudo que eu fiz ela sofrer quando esperou por mim e eu simplesmente não apareci, nem mandei notícias. Como pude ser tão cruel conosco?
 
-Sabe Di, eu esperei por você durante três meses no Rio. Não deveria ter ficado tanto tempo mas eu não conseguia ir embora, imaginava que você ia aparecer a qualquer momento. Todo santo dia perguntava aos companheiros da direção se alguém havia chegado da Bahia me procurando, mas nada...enfim decidi voltar para cá e dar continuidade a minha vida. Mas saiba que eu nunca te esqueci, nunca...
 
Não sei por quanto tempo fiquei ali, chorando. O embalo dos seus braços, o seu perfume, a sua pele, as suas mãos me afagando, aos poucos conseguiram me acalmar.
 
-Rúbia, eu fui uma tola. Eu queria ter ido ao seu encontro, ficado ao seu lado, eu...eu nunca, nem por um segundo deixei de amar você, de te querer, de sonhar com você ao meu lado. Mas eu fui covarde, imbecil, fui uma burra, tola – de cabeça baixa continuei – agora que te perdi tudo ficou sem sentido pra mim...
 
-Agora que me perdeu? Como assim se acaba de me encontrar? – falou-me segurando meu queixo, fazendo-me olhar para ela.
 
-Eu soube que você tem outra pessoa... – disse-lhe em meio a um suspiro.
 
-Sim é verdade. Nos conhecemos a algumas semanas e eu acabei me envolvendo...mas se você quer saber a verdade ela é a única com quem me envolvi desde que te conheci e além do mais ela sabe que amo outra pessoa, contei tudo pra ela, apesar de que já não tinha muitas esperanças de te encontrar novamente.
 
-Sei...
 
-Ela é uma pessoa legal, nos damos bem, eu até gosto dela...
 
Nossa como doía ouvir isso! Olhei para o lado e apertei as mãos tentando conter o ciúme e não dizer nenhuma bobagem.
 
-...ela gosta de mim e tudo, no entanto Di, se você quer saber, agora que te encontrei, ou melhor, que você me encontrou e sei que me ama, eu seria capaz de mandar o mundo as favas para ficar contigo!
 
-Então você me perdoa?!
 
-Claro que sim, meu amor. O amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta, tudo sofre. Não é assim a Bíblia define o amor? Nisso eu acredito porque isso eu vivo! Ficar ao seu lado sempre teve e sempre terá em mim um sim, Diana. Resta saber se VOCÊ está disposta a isso agora.
 
Segurei suas mãos e disse-lhe olhando nos olhos:
 
-Sim meu amor, eu hoje enfrentaria qualquer coisa pra ficar com você. Que se dane o mundo, a vergonha, eu quero é ser feliz e se você duvida posso levantar e gritar aqui mesmo pra todo mundo ouvir que eu te amo!
 
-Não meu bem, não precisa! (...) Ah, se eu pudesse te beijar agora – disse-me com um olhar assanhado.
 
-Vamos ter tempo pra isso meu amor. Eu agora não te deixo mais! Apenas quero que você resolva primeiro sua vida com essa mulher aí com quem se envolveu - falei um pouco irritada.
 
-Claro, não se preocupe, farei isso ainda hoje.
 
-Agora precisamos falar sobre o que me trouxe aqui. Cajazeira é seu sobrenome?
 
-Sim, Rúbia Cajazeira de Mello. Muito prazer, senhorita... – disse-me estendendo a mão em um cumprimento.
 
-Diana Prietto Moller, a seu inteiro dispor – retribuí-lhe o cumprimento sorrindo.
 
-Hummmmm, não diz isso agora que é covardia... – olhou-me com lascívia.
 
-Ah, ah, ah, não se preocupe sua boba! Depois eu repito em hora e local mais apropriado... – disse-lhe retribuindo o olhar.
 
-Oh, céus, vou me perder de vez! – rimos.
 
 
Pus então ela a par de tudo que acontecera em São Paulo, de como a repressão havia desarticulado parte do movimento, do perigo que corríamos e da necessidade de todo o esquema ser refeito a partir de novos contatos. Ela então levou-me ao comando da AP onde em uma reunião discutimos a situação. Após traçarmos os novos planos vou com uma companheira da direção, chamada Augusta, buscar as minhas coisas no pensionato que me hospedara. Passaria a ficar na casa dela, também em Santa Teresa, pelo menos por uns dias. Rúbia insistira para que eu fosse para a casa dela mas eu não poderia fazer isso sem antes conversar com D. Gigi e saber se ela aprovaria ou não a minha ida, afinal era como se estivéssemos casando! Por fim ela concordou e marcaria um jantar para conversarmos. Despediu-se beijando-me na testa.
 
-Vou resolver aquele assunto agora, está bem? Vou conversar com a Angélica e definir tudo. Em seguida vou falar com a mamãe e a noite eu passo lá na casa da Augusta pra conversarmos.
 
-Está bem – eu me sentia a mulher mais feliz do mundo!
 
 
Amar é encontrar a sua riqueza fora de si mesmo.- Alain Vilson
 
 PARTE 5
 
 Já era cerca de 22:00 quando finalmente Rúbia veio me procurar na casa de Augusta onde eu estava.
-Oi meu amor, desculpe ter vindo tão tarde.
-Tudo bem, o importante é que você tá aqui. E então, como foi tudo ?
-Com a Angélica foi uma conversa difícil, eu realmente não queria faze-la sofrer, mas foi inevitável. Como dizer a alguém que está ao seu lado e te ama que você encontrou o amor da sua vida em outro alguém e vai ser feliz ao lado dela, sem que essa pessoa acabe ficando magoada com você? – disse enquanto me abraçava.
-Como ela reagiu?
-Mal. Mas eu fui taxativa, tive que ser. Ainda que me custasse ver o seu sofrimento.
-Sei...
-Conversei com a mamãe também e combinamos um jantar para amanhã.
-amanhã?! – desprendi-me dos seus braços – mas já, assim... tão rápido?
-Ué, você prefere continuar aqui? não quer ir lá pra casa, ficar comigo?
-Claro, claro, claro que quero ir, ficar com você, enfim, não é isso, é que eu preciso me preparar, não sei o que dizer a sua mãe, nem sei como encara-la...
-Mas que bobagem, Di – sorriu – minha mãe já sabe tudo sobre nós! Basta dizer que me ama, que quer ficar comigo pelo resto da vida, que é inteiramente minha...
-Rúbia! Eu não vou falar assim com sua mãe!
-Eu sei amor, só tava brincando! Mas sério Di, não precisa se preocupar. Lembra de como ela te tratou hoje cedo quando te conheceu?
-Ô, se lembro. Eu não entendia nada!
-Pois então. Ela sabe o quanto você é importante pra mim. Não foram poucas as vezes em que ela ouvia meus suspiros pelos cantos da casa, sabendo perfeitamente que a causa de todos eles era uma certa moça bonita lá da Bahia...
-Me desculpe de novo por isso tá? – suspirei longamente.
-Esquece. Eu só preciso agora que você tenha coragem Diana, afinal o que eu estou propondo pra você é algo muito sério. É casamento mesmo! Ainda que não vá haver cerimônia, festa e tudo mais. No entanto o compromisso, o amor, a fidelidade, o companheirismo, a vida em comum, tudo isso eu quero com você.
-Eu também meu amor, não se preocupe(...)faz apenas um ano que nos conhecemos mas hoje eu me sinto muito mais capaz de entender as diferenças que a natureza colocou em todos os seres, amar ajuda a gente a ver isso. E quando você se aceita, fica bem mais fácil enfrentar as pessoas e manter a cabeça erguida. Que bom que a vida me deu uma segunda chance com você. Eu não pretendo desperdiça-la, pode ter certeza.
-Que bom meu amor. Que bom que você pensa assim, que bom que você tá aqui, que bom que vamos ficar juntas...meu corpo arde de desejo por você, sabia?- sussurrou em meu ouvido.
Seu olhar intenso e penetrante deixou-me vermelha como um pimentão, mas o desejo que também acercava-se do meu corpo fez-me retribuir o olhar e sussurrar-lhe de volta:
-Eu sinto o mesmo.
 
Ficamos conversando por algum tempo. Combinamos que no dia seguinte, após o jantar, eu já dormiria lá na casa dela, pois ela tinha certeza que sua mãe aprovaria. Seria nossa "noite de núpcias" , onde selaríamos o nosso amor pra sempre. Fui me recolher eufórica, mas ao mesmo tempo nervosa e cheia de expectativa. "Humm, a noite amanhã promete...mas o que é que eu faço? Nunca fiz sexo com ninguém, muito menos com uma mulher...não tenho a menor noção do que fazer. Rúbia certamente tinha experiência, não tive coragem de perguntar, mas com certeza ela tem, estava namorando a até poucas horas com aquela fulana...ô raiva, não quero nem pensar...só de imaginar outra mulher tocando aquele corpo...irri! xô pensamento!... Mas e eu? Como é que eu agiria? Ai meu Deus e se ela não gostar de mim? Pior é que não tenho nem a quem pedir um conselho, uma orientação...nossa, como é que eu vou olhar pra cara da mãe dela amanhã naquele jantar? Acho que vou morrer de vergonha. E a irmã dela, Suzana,? oh céus, me ajudem! Mas eu preciso ser forte, não vou perde-la de novo, nem quero decepciona-la. Eu a quero mais do que tudo..." - resultado de todo esse imbróglio: passei a noite em claro!
 
No dia seguinte Rúbia nos apanhou, a mim e a Angélica, e fomos ao Comando trabalhar as novas bases. Foi um dia inteiro de reuniões, articulações, encontros, um passa e repassa de esquemas que deveriam ser decorados por motivo de segurança e enfim, por volta das 16:00 fomos para casa. Iria descansar um pouco para às 18:00 ir jantar com Rúbia e sua família. Ficou decidido em nossas reuniões durante o dia que eu já poderia voltar para São Paulo e levar o resultado do que fora feito e os nomes dos novos contatos. No entanto, Rúbia pediu aos companheiros que aguardassem um pouco pois eu só voltaria dali a uma semana, por motivos pessoais. Seria nossa lua-de-mel, mas é claro que ela não disse isso, entretanto, tive a impressão que todos entenderam bem! Após uma semana iria pra S. Paulo, repassaria as informações, juntaria todas as minhas coisas e voltaria definitivamente para Belo Horizonte.
Por volta das 18:00 ela veio buscar-me.
-Você está linda, Di !
Eu usava um vestido verde-claro, de alças, com um bordado colorido cruzando a linha abaixo dos seios e algumas bijuterias que combinavam.
-É um vestido simples, se eu soubesse que iria ser formalmente apresentada a sua família como sua mulher em um jantar, teria trazido algo melhor...
-Imagina. Lá em casa somos todos muito simples...o importante é que você vai estar lá, ao meu lado.
-É mas você está estonteante, sabia? Quase perdi o fôlego quando te vi.
Rúbia usava um vestido preto que descia até um pouco abaixo dos joelhos, de corte reto até a cintura de onde pendia rodado, mas que realçava cada curva do seu corpo, além do decote ousado pra época. Uma sandália de salto alto na cor prata e um longo bracelete de prata no braço esquerdo completavam o conjunto. Simples, mas maravilhoso!
-Tudo isso é prá você meu amor! – disse-me de forma maliciosa.
-Isso...me mata... – sorri
-Ainda não! Mais tarde, com certeza...
-É melhor irmos, não quero chegar atrasada. –disse ruborizada.
-Vamos – sorrindo de lado.
Vencemos então a pé a pouca distância que separavam as duas casas. Ao chegarmos fomos recepcionados pela sempre muito simpática D. Gigi.
-Entrem, minhas filhas. Diana, sinta-se em casa, venha sente aqui.
Nesse instante, Suzana entra na sala e vem me cumprimentar.
-Oi Diana, tudo bem?
-Oi Suzana, tudo bem e você?
-Vou bem. Olha, bem-vinda a família!
-Ah,,,tá, obrigada. – vermelha de novo.
-Não se acanhe filha, saiba que aqui todos nós respeitamos a vida de Rúbia do jeito que ela quer viver. Você me parece uma moça muito boa, que vai fazer minha filha feliz e pra mim isso basta. Seja bem-vinda a família. E não se preocupe com o falatório do povo que não tem o que fazer, quero que você se sinta a vontade nessa casa. Bia me falou que você vai mudar pra cá, né?
-É sim mamãe, hoje ainda. – falou animadamente.
-Pois então! Tem a minha benção!
-Obrigada, D. Gigi – disse emocionada – eu realmente amo muito a sua filha e a minha felicidade é faze-la feliz. Eu cheguei a ter algumas dúvidas quanto a isso algum tempo atras mas hoje isso é passado. Eu tenho certeza do que eu quero e de quem eu quero pra estar ao meu lado.
-Que bom filha! Posso te chamar de filha também né?
-Claro!
-Vamos então comemorar a felicidade de vocês!
 
Nenhuma das minhas expectativas fizeram jus a forma tão carinhosa e acolhedora com que fui recebida. Pus-me então mais relaxada e o jantar transcorreu em um clima maravilhoso de confraternização e alegria. Por volta das 21:00, Rúbia foi até a casa de Augusta buscar a minha mala que já havia previamente deixado pronta, enquanto eu ficara ajudando D. Gigi na cozinha com a louça.
-Não minha filha, não precisa, vai pra sala descansar que a Suzi me ajuda.
-Imagina, D. Gigi, eu não tô cansada, num instante a gente dá conta disso aqui.
Antes de terminarmos, Rúbia já estava de volta e ao ver-me na cozinha com os pratos disse-me:
-Já que você tá aí amor, vou levar suas coisas pro nosso quarto e arruma-las no guarda-roupas, pode ser?
-Pode sim, obrigada. – um enlevo tomou conta de mim ao ouvi-la dizer "nosso quarto" . Às vezes parecia tudo tão irreal...mas era verdade, eu estava ali, ao lado da mulher que amava, preparando-me para ser sua e tê-la pra mim.
 
Amar é regozijar-se. – Descartes
 
PARTE 6
 
Ficamos todas reunidas por mais algum tempo conversando até que fomos nos recolher. Quando estávamos a sós em nosso quarto Rúbia disse-me:
-Meu bem, logo que for possível vou diminuir um pouco minhas atividades na AP e arranjar um emprego. Podemos alugar ou comprar uma casa, ou construir uma aqui em cima dessa, aí teremos total privacidade.
-Claro, amor, eu também vou tentar arranjar alguma coisa.
Finalmente toda a paixão e desejo que estiveram por tanto tempo represados puderam eclodir. Nos aproximamos lentamente, olhos nos olhos, corpo a corpo, e um beijo que nascia suave e delicado foi ganhando intensidade, e como uma fagulha que ateia fogo em campo seco, nos envolveu em uma chama de volúpia e necessidade. Nossas línguas se misturavam frenéticas, sedentas, exploravam-se, gemiam. Senti sua mão em minha coxa levantando o meu vestido e num impulso ofegante arranquei-o de uma vez. Seu olhar lascivo percorria meu corpo e me queimava por dentro. Ela então desnudou-se ante meu olhar devotado e ardente. Conduziu-me a cama e deitou-se sobre mim, beijando-me os lábios, o pescoço, todo meu rosto. Sussurrava palavras em meu ouvido e me deixava enlouquecida.
-ah, Diana...como eu te quero...
-meu amor...eu sou sua...
Rúbia ia devagar, sorvendo cada momento, tocando meu corpo como quem afina um instrumento, levemente, docemente...
-ah, Di...você é deliciosa...
Meu corpo inflamado pedia mais, pedia tudo, gemia, arfava, falava de amor, suspirava. Sentia suas mãos firmes e quentes sobre os meus seios, em um revezamento guloso com sua boca, que aos poucos descia sobre o meu ventre, beijando, sugando, até chegar ao meu sexo encharcado. Tirou minha calcinha e então senti a sua língua massagear habilmente meu clitóris inchado.
-Ai amor...assim...isso...aaaaaaa...você me mata...
Agarrava loucamente seus cabelos e empurrava sua cabeça cada vez mais para entre as minhas pernas, onde ela me sugava, lambia, mordiscava, hora com ímpeto, hora suavemente. Quando eu estava quase no clímax, ela parou, tirou a sua calcinha, abriu o meu sexo com mão e deitou-se sobre ele com o seu sexo molhado e quente, em um encaixe perfeito. Senti seu clitóris duro e inchado quase dentro de mim, começamos uma cavalgada louca e insana, gemíamos, quase que gritávamos.
-aaaaaaaaa Diana....
-Bia...aaaaaaaa...amor....
Gozamos ao mesmo tempo, um gozo selvagem, longo, de fêmeas imberbes no cio. Ficamos um tempo imóveis, enquanto nossas respirações voltavam a um ritmo menos acelerado. Pouquíssimo tempo. Virei-a por sobre a cama e pus-me sobre seu corpo ensandecida.
-Eu quero ser sua entende? Quero que me faça mulher...
Beijava-a com ímpeto e volúpia, senti a fornalha do seu corpo acender-se de forma múltipla diante da minha súplica. Queria deixa-la enlouquecida, beijava-lhe os seios, sugava-os como ela fez comigo, um após outro, enquanto minha mão massageava seu sexo. Ela gemia, arfava e apertava-me os cabelos com força. Em um movimento rápido e brusco, pôs-me sobre mim, sua mão entre minhas pernas.
-tem certeza... – disse-me arfando, os olhos como chama de fogo, tamanho o seu desejo.
-sim meu amor...eu quero ser toda sua...
Não foi preciso esperar mais, enfiou lentamente um dedo como que abrindo passagem, em seguida um segundo, aumentando a intensidade das estocadas, enquanto seu sexo deixava um rastro molhado em minha coxa. Senti um leve desconforto, uma pequena dor que logo foi substituída pelo prazer de seus dedos em mim, cada vez mais ágeis, velozes.
-isso...isso...assim...amor, mais rápido...vai...mais forte...aaaaaaa
-aaaaaaaaaaa
Outro gozo conjunto, mais um gozo de céu. E assim entramos madrugada adentro, fazendo amor até esgotarmos as forças...
Ao acordar no dia seguinte não a vi ao meu lado na cama. Em seu lugar havia uma rosa vermelha e um papel dobrado, que abri e li:
Alma Minha, Coração Meu
Friedrich Ruckert
 
Tu, alma minha, meu coração
Tu, meu encanto e minha paixão,
Mundo meu, a que me circunscrevo,
Tu, alto céu, a que me elevo,
Ó túmulo meu, onde eu poria
Para sempre a minha agonia!
Tu és a paz, tu és a calma,
O céu prometido a minha alma.
Quanto me estimas, é o que valho;
Teu olhar é o que me faz claro.
Tu me ergues muito além de mim,
Meu lado bom, meu querubim!
 
Que mulher maravilhosa! Alguém nessa vida poderia ser mais feliz do que eu?
Uma semana depois estava em São Paulo. Resolvi tudo que tinha a resolver e após três dias estava voltando a Belo Horizonte com todas as minhas coisas para uma nova e definitiva vida ao lado de Rúbia. Escrevi uma longa carta a minha mãe contando-lhe tudo sobre nós, desde o começo ainda em Salvador até a minha atual situação, casada e feliz ao lado de quem eu amava. Sabia que seria um choque, mas não estava mais disposta a mentiras. Enfrentaria o que fosse necessário. Dei-lhe meu novo endereço, com algumas recomendações de segurança e aguardaria a sua compreensão, se ela fosse possível. Escrevi também para minha antiga amiga Célia, contado apenas onde estaria morando a partir de então.
Maio de 1968. Já haviam se passado oito meses desde que chegara a Minas e vivia ao lado de Rúbia. Nenhuma notícia dos meus pais. Escrevi-lhes outra carta contado como estava mas também não obtive resposta. Cheguei a me preocupar e já pensava em ir para Salvador vê-los, mas uma carta assinada por uma turma de amigos baianos me tranqüilizou, com notícias da Boa Terra, do Movimento por lá e com lembranças enviadas por minha mãe. Percebi então que ela não tinha coragem de se dirigir diretamente a mim em uma carta pessoal, devia estar realmente decepcionada, eu fazia idéia do que representava pra ela e pro papai meu estilo de vida. Entendi.
Nem eu nem Rúbia tínhamos arranjado emprego. A militância havia se intensificado e ainda vivíamos das doações arrecadadas entre os simpatizantes, como sempre vivemos. A Ação Popular passa a considerar prioridade a integração com o trabalho camponês. Decide avançar em direção ao campo com vistas a "preparação para a guerra popular". Rúbia é nomeada Dirigente Regional do Trabalho Camponês e eu fico responsável pela coordenação das tarefas. Essa nova atribuição implicaria em deslocar-se para o campo e lá integrar-se a produção, iniciando o processo de implantação de nossas bases. Após longas reuniões de estudo e trabalho, levantamentos de regiões e enviar companheiros para pesquisa "in loco", definimos duas áreas: a região da Mata da Jaíba, no norte de Minas e a de Ipatinga. Eu, Rúbia, Osvaldo e Francisco somos então designados para o norte do estado. Viajamos "disfarçados" como casais, eu e Osvaldo, Rúbia e Francisco, em dias diferentes para não chamar a atenção
 
Chegamos então ao local definido. Os companheiros já haviam nos conseguido uma posse. Começa nosso trabalho. Região de posseiros, a Mata da Jaíba era conhecida pelas histórias de expulsão de terras, resistência e tiroteios entre grileiros e Polícia Militar. Após nos reunirmos na terra, passamos então a construir nossa casa de pau-a-pique, como todas as outras da região, e contamos com a ajuda do povo da vizinhança. Duas casas razoavelmente próximas abrigariam Rúbia e Francisco, eu e Osvaldo. Pelo menos por algum tempo teríamos que dormir em casas separadas para mantermos o disfarce. A região é muito pobre, o trabalho é duro, mas estamos contentes. O povo é receptivo, o espírito de luta é presente, há terreno para germinar nossas idéias mas a pobreza entorpece a iniciativa. A falta de informação do povo, de contato com o mundo, limita a compreensão e torna o trabalho lento e paciente.
Nós acompanhamos o cotidiano dos camponeses. De dia trabalhamos a terra, a noite conversas no portal deste ou daquele casebre, onde procuramos trazer a conversa para problemas concretos. Com o tempo, passamos a falar de política constantemente. Temos um rádio potente, e aos poucos vamos convidando mais e mais vizinhos para ouvir o noticiário. Podemos comentar as notícias e assim vamos pouco a pouco levando conhecimento ao povo.
Após um tempo, montamos com Osvaldo e Francisco um esquema que nos permitia trocarmos de casa, sempre após o povo se recolher, e assim passamos novamente a dormir juntas. Em compensação tínhamos que acordar cerca de meia hora antes do habitual, que já era bem cedo, para fazermos a troca antes que os primeiros camponeses começassem a chegar e nos chamar para o campo. Ainda bem que contávamos com a compreensão dos rapazes. Creio que a admiração que eles tinham por Rúbia, além do respeito pelo que ela representava dentro da Organização os tornavam flexíveis e discretos
Fevereiro de 1969. Após mais um dia de trabalho no campo e reuniões a noite com vizinhos estávamos na cama, cansadas, mas cheias de desejo.
-aaaaaaa...meu amor...assim...
Sugava, mordiscava e lambia o seu sexo com desejo. Quando ela estava quase no clímax, penetrei-lhe com meus dedos e a incitei a fazer o mesmo comigo. Cavalgava em seus dedos na mesma intensidade com que estocava-lhe com os meus. Gozamos e começamos tudo de novo, de outra maneira. Na verdade era assim todas as noites, com poucas e raras exceções. Fazíamos amor de todas as formas, estava mais experiente e o prazer que lhe proporcionava aumentava sempre. Já tinha até me acostumado com o fato de acordar de madrugada todos os dias, mesmo dormindo sempre mais tarde, afinal, valia a pena o "sacrifício" !
Em uma das manhãs íamos como de costume todos juntos para o campo ouvindo pelo caminho o programa matinal no nosso rádio. O nome do programa é "acorda, peão" e, de repente, uma mensagem: "alô, Dona Severina de Almeida, de Contagem, seu filho avisa que não vai mais viajar" . Diminuímos os passos e discretamente nos reunimos os quatro. Havíamos montado um esquema de mensagens cifradas antes de sairmos de Belo Horizonte e a que acabamos de ouvir vinha da direção e significava que deveríamos voltar imediatamente para capital. Imaginamos que certamente iríamos fazer um balanço destes meses de trabalho e apresentar os resultados conseguidos até então. Vamos ter uma surpresa...
 
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...são os teus braços dentro dos meus braços, Via Láctea fechando o infinito. – Versos de Orgulho (Florbela Espanca)
 
PARTE 07
 
Chegamos do campo sem idéia do motivo da reunião. Imaginávamos que faríamos uma primeira avaliação do trabalho e em seguida partiríamos de volta, mas a reunião não era para isso. Estavam presentes todos os companheiros das duas áreas do trabalho camponês, os dirigentes regionais da AP e Carlos, da direção nacional. O chamado foi para discutir a nova situação criada com a edição do Ato Institucional n. 5 (AI 5) em dezembro de 1968, que desencadeara uma onda gigantesca de repressão de liberdades, de cassações e de repressão. Diante do AI 5, a organização vê a necessidade de implantar novas medidas de segurança, repensar deslocamentos e modificar alguns planos. O trabalho urbano no meio operário tornara-se prioridade, visto que o núcleo camponês demandaria muito tempo para se fortalecer. Novos deslocamentos seriam feitos, será necessário coordenar esse processo e ao mesmo tempo resguardar a organização contra a ação repressiva. Cria-se a Direção Regional Ampliada, da qual faço parte, Rúbia assume a direção política.
Na nova divisão de tarefas, fico responsável pela direção da reimplantação do trabalho operário em Belo Horizonte. Para isso, tenho que me integrar como funcionária em uma fábrica têxtil, no bairro de Cachoeirinha. Sou aceita para um estágio nas máquinas. Uma vez lá dentro, a idéia era agrupar operárias, formar bolsões de resistência, movimentos grevistas e atos de protestos. A nossa casa passa a abrigar dirigentes de outras áreas, a clandestinidade se faz necessária, passo a usar documentos falsos com o novo nome de Celeste Vivas (Rúbia passa a chamar-se Antonia Prado), vivemos sob um rigor muito grande de segurança. O esquema básico era o seguinte: todos os dias, no final do dia, todos os envolvidos em algum trabalho na organização deveriam passar em pontos pré-determinados ao longo da cidade. Em cada ponto encontraríamos uma ou duas pessoas que estariam esperando um contato, as vezes apenas visual, as vezes para troca de informações, e em seguida partiríamos para outro ponto e novo contato até irmos em segurança para casa. O tempo máximo de espera em cada ponto era de dez minutos, se, decorridos esse tempo, o companheiro não chegasse, a ordem era evacuar a casa, retirar todos os materiais e procurar um lugar seguro.
Junho de 1969. O trabalho na fábrica prossegue, em breve serei aprendiz de tecelã. Algumas noites, quase de madrugada, saíamos, eu e Augusta (amiga em cuja casa fiquei antes de mudar-me para casa de Rúbia) para as portas das fábricas para distribuir panfletos aos operários. Uma distribuía e a outra fazia a segurança. Todas essas medidas no entanto não impediram a repressão de nos atingir, falham alguns aspectos do nosso esquema de segurança e caímos na malha da ação repressiva.
Estávamos, eu e Francisco, em um ponto da rua onde aguardávamos a chegada de Augusta para prosseguir o esquema diário de encontros ponto a ponto. Rúbia viajara para São Paulo a fim de participar de uma reunião da Direção Nacional Ampliada. Exatos dez minutos após a hora marcada, Augusta chega:
 
-fui seguida – diz nervosa.
-quem? onde? – pergunto sobressaltada.
-um homem, agora não tô vendo, mas ele me seguiu, não consegui despistar.
-calma – disse Fernando – cada um vai pra um lado. Diana, você vai pra casa e fica lá, é mais seguro pra você, Augusta, siga caminhando e vá pra algum lugar, veja se o sujeito ainda te segue, se não o vir, vá até a sede da organização, eu vou estar lá, vou suspender as reuniões e providenciar a mudança dos esquemas.
 
Dispersamos todos e seguimos como combinado. Todo o esquema é refeito, novos pontos são escolhidos para os encontros diários de segurança, os companheiros mudam-se de nossa casa, mas eu permaneço com D. Gigi e Suzana. Rúbia ainda está em São Paulo. Três dias depois, um sábado de sol forte e calor, sigo cumprindo os pontos um a um. No ponto onde deveria encontrar Augusta, passo a esperar. 5 minutos, nada. 10 minutos, nada. A preocupação me envolve como uma nuvem pegajosa. Sigo a lista de pontos, avisando a todos do fato, orientando a suspensão das atividades, um verdadeiro processo de retirada. Vou para casa no final do dia, o que é uma imprudência, mas precisava saber se Augusta esteva ou esteve por lá. Nada. Vou até sua casa e passo a espera-la. A noite cai e nada. Volto pra casa tensa, deveria deixar tudo e procurar um lugar seguro. Sinto falta de Rúbia, de seu conforto, da sua força. Fernando chega quando já estava quase de saída:
 
-Oi Diana, vim te buscar, vamos pra casa da Tereza.
-Já estou pronta, era pra lá mesmo que eu ia. Quantas pessoas estão indo pra lá?
-Só você e mais duas. Eu estou indo pra outro lugar, vim só pra te acompanhar, por segurança.
-Ok, vamos.
 
Despeço-me de D. Gigi, que está um pouco preocupada, e de Suzana. Procuro tranquiliza-las, mas a situação é realmente preocupante. No fundo estou até feliz por Rúbia não estar em Minas, pelo menos estaria segura. A casa de Tereza é na verdade um centro religioso, que serve também de abrigo nos momentos difíceis como agora, já que ela é simpatizante do Movimento. Nessa noite dormem lá, além de mim, Sérgio, um companheiro recém-chegado de São Paulo para integração do trabalho na fábrica e Pedro Luis, vice-presidente da UNE.
Alta madrugada. O inimigo chega fazendo grande estardalhaço. Ouvimos o som da chegada de vários homens, gritando e batendo forte na porta. Estão armados com metralhadoras e cassetetes, em uma ação combinada do exército, polícia militar e polícia civil. Procuramos uma saída pelos fundos tentando escapar, mas é inútil, a casa termina em um paredão. Logo ao abrir a porta Tereza, é brutalmente empurrada e mais de dez homens armados entram gritando:
 
-É a polícia, ninguém se mexe.
-isso é invasão de domicílio, vocês não podem entrar assim! – disse Tereza bravamente.
Os homens a ignoram e logo pegam os dois rapazes, começando uma sessão de pancadas e berros:
-quem são vocês ? – perguntam
"eles não sabem quem somos, nem o que perguntar, vou ficar calma e usar isso a meu favor" – penso.
Um militar alto, magro, agarra-me pelo braço:
-quem é você ?
-e o senhor quem é?
-aqui quem faz as perguntas sou eu? – disse berrando.
-por que? Quem determinou isso?
-quer bancar a palhaça? Somos da polícia!
-se são policiais onde está o mandado judicial? Eu sou advogada! – disse, pois havia levado minha documentação verdadeira.
Após dar-me uma bofetada, o militar as gargalhadas diz:
-pessoal, temos aqui uma advogada que não sabe que estamos na ditadura e não precisamos de um mandado.
 
Logo passam a revistar a casa, abrindo armários e jogando coisas pelo chão. Acham a minha bolsa e começam a revista-la. Dentro dela a minha identidade e, lamentavelmente, um talão de cheques em nome de Rúbia.
 
-achamos a sapatona que vive com a Cajazeira! – berram entusiasmados.
A euforia toma conta do lugar quando nesse momento um deles reconhece Pedro Luis, o companheiro da UNE.
 
-Tudo peixe graúdo! Tudo peixe graúdo! – falam todos alegremente.
 
Passam então a concentrar as perguntas em mim e em Pedro. Quanto a mim, querem saber onde Rúbia está, eles têm uma vaga idéia da importância dela, mas não têm nenhuma noção do trabalho clandestino nem a que organização pertence, no entanto sabem detalhadamente do meu envolvimento com ela.
 
-onde está a sua amante?
-não sei porque isso é importante pra vocês, mas se querem saber, ela está viajando a trabalho, é representante de medicamentos, viaja muito. Nem sei por onde anda agora, pode estar em trânsito entre uma cidade e outra. – digo calmamente. "que bom que ela está viajando e não pode ser apanhada nessa malha".
-Mentirosa! Degenerada! – gritam dando-me mais bofetadas.
 
Somos então levados separados, formando um comboio de três jipes e seis carros particulares. O destino é a G2, inteligência da polícia, que está sendo o centro das investigações. Ao entrar percebo que essa era uma operação de longo alcance. O lugar parecia o inferno de Dante: dezenas de homens e mulheres presos, muitos marcados por espancamentos, soldados e policiais às dúzias, xingamentos, caixas de livros e papéis apreendidos, gargalhadas de militares e gritos de pessoas sendo torturadas em salas fechadas.
"preciso manter a cabeça fria. Eles estão confusos, não sabem quem somos ao certo, tem muito material recolhido que eles não têm idéia do que se trata, vai levar tempo até analisarem tudo... vão perguntar a esmo, preciso montar uma história, advogada em início de carreira, mora com a mulher, que está viajando, foi dormir na casa de uma amiga, sente-se ultrajada com essa prisão ilegal e arbitrária, discriminada apenas por ser lésbica e por aí vai... o essencial é negar tudo!".
A cada hora chegam mais e mais pessoas, a maioria mulheres, o que os faz pensar que se tratava de uma organização feminina. Em dado momento, vejo Augusta de relance, muito marcada por espancamentos. Vejo também Marilene e Rosário, que haviam sido deslocadas para o trabalho nas fábricas. Após algum tempo sou levada para dentro de uma sala onde estão alguns militares. Um capitão chamado Amâncio aparece eufórico:
 
-onde você mora?
-por que?
Gargalhadas.
-reconhece essa foto? – joga sobre a mesa uma Carteira de Trabalho, com minha foto e o nome falso Celeste Vivas, que usava na fábrica.
Senti um leve tremor. Havia deixado esse documento em casa. "Se eles pegaram isso é porque estiveram lá. Meu Deus, D. Gigi, Suzana, o que será que eles fizeram?".
-a casa caiu moça. – exultação e gargalhadas.
-quem é esta? – pergunta-me o capitão apontando a foto no documento.
-não sei, não conheço.
Todos ficam perplexos.
-essa mulher é louca, não reconhece a própria foto! – diz um deles.
-Louca! Mentirosa! Doente! Se você não falar vou acabar com a reputação daquele centro religioso onde você estava. Pensa que eu não sei? Você estava como uma prostituta com aquela mulher enquanto os seus amigos se divertiam juntos, bando de homossexuais doentes, depravados. – falou furioso o capitão.
 
Fico com raiva. Sabia que eles usariam conotações sexuais e nojentas para humilhar, subjugar e abater não só física mas também psicologicamente. Resolvo enfrentar, não iria deixar que por esse caminho me abalassem o espírito, mantenho a calma e falo alto:
 
-pois pode falar a todos, sim, que aquele lugar é um "antro" , como diz. Faça melhor, vá aos jornais e publique : centro religioso é na verdade bordel para homossexuais! Sabe o que vai acontecer? Ninguém vai acreditar em você, você vai ficar desmoralizado!
O capitão fica branco:
-você está me desafiando???
-quem está me desafiando é você!
-onde você mora? – berra
-ela mora na rua Osvaldo Cruz – alguém diz entre risinhos.
Fico calada.
-agora você vai ver – disse o capitão agarrando-me pelo braço. Aparecem mais alguns e fazem uma roda em torno de mim. Começam então uma sessão de safanões e comentários: "essa magricela vai se arrebentar", "vamos arrancar esse cabelo", "não vai agüentar nem um dia". Depois de algum tempo entre tapas e empurrões, o capitão, no meio da roda onde eu estava, abre uma mala cheia de materiais e objetos, puxa algo e joga-me no rosto. Logo reconheço: são minhas calcinhas, tiradas do meu guarda-roupas, no meu quarto! Ao jogar o capitão diz:
-tome vagabunda, pegue, pra não ficar com a calcinha suja, imunda, já que vai ficar aqui por muito tempo.
 
Eu estava de braços cruzados, as calcinhas caem pelo chão. Não hesitei, apanhei tudo de novo e joguei de volta em cima dele. Ele apanhou tudo e jogou de volta em cima de mim, que atirei outra vez em cima dele. Apesar da tentativa de humilhação, a cena é muito engraçada. É calcinha prá cá, calcinha prá lá, até que finalmente o capitão desiste do jogo e parte para a real violência, mandando que me rodeiem de novo, alguns dando bofetada, outros puxando e arrancando tufos do meu cabelo e as perguntas sempre iguais: "onde está Cajazeira? Onde você mora?" .
Continuo sem responder e isso os enfurece muito. Um dos subalternos, tenente Souza, achando que o silêncio ofendia seu capitão, grita "respeite o capitão" . Continuo calada e o tenente repetindo "respeite o capitão", ao que eu grito:
 
-não há nada o que respeitar aqui!
 
O tal tenente continua a ladainha "respeite o capitão", enquanto o capitão Amâncio parecia um leão enjaulado, andando ao meu redor e rosnando as mesmas perguntas "onde você mora? Onde está Cajazeira? Reconheça sua foto..."
 
-sob tortura não falo nem o meu nome!
 
O capitão continua rodando em círculos e o tenente só dizendo "respeite o capitão", "respeite o capitão". Outra cena que não deixou de ser cômica. Não me contive e acabo esboçando um sorriso. Foi a gota d’água.
 
-tire a roupa! – berra o capitão – e botem essa mulher na maquininha!
-não tiro! – grito de volta. Mesmo sem saber o que é a tal "maquininha" penso em não fazer qualquer movimento para facilitar a ordem deles. Só vão tirar minha roupa se eles mesmos arrancarem. É o que o capitão tenta fazer. Parte pra cima de mim mas seus subordinados o detém.
-calma capitão, isso é provocação, não entra na dela não.
Ele então desiste de arrancar minhas roupas. Aparece, não sei da onde, a malfadada "maquininha", uma espécie de manivela, uma máquina pequena de onde saem alguns fios e tomadas com a inscrição "US Army". É uma máquina de choque elétrico.
-segure esses fios – manda o capitão
-não seguro! – disse-lhe
Eles então amarram os fios em meus dedos das mãos e começam a rodar a manivela. A cada rodada mais rápida, o choque é mais violento e prolongado. O corpo todo treme, sem controle, fazendo com que eu caia no chão. Começo a gritar involuntariamente. Junto com os choques, os murros e o arrancar de cabelos não param. Não tenho idéia de quanto tempo dura a sessão. Meus olhos já estavam enevoados, os sons pareciam longínquos, já estava extenuada. Nesse momento entra na sala um oficial graduado da PM, todo formal, dando boa-noite, se apresentando como coronel Vilas Boas.
 
-lamento o que está acontecendo, senhorita.
 
Desarmam a maquininha e todos se retiram, deixando-me a sós com o coronel. Ele então começa a entabular conversa, dizendo que lamenta muito e coisa e tal. Penso comigo "lá vem o oficial bonzinho" .
 
-não basta lamentar, coronel, é preciso parar as torturas.
-eu sou da PM, senhorita, o pessoal que saiu daqui é do exército. É o exército quem manda, eu não posso fazer nada.
-não me interessa o conflito entre corporações, tortura é crime, estamos em uma repartição da PM. É muito conveniente pro senhor lavar as mãos.
 
Ele insiste em conversar. Quer desguarnecer as minhas reservas com uma pretensa "trégua" e "cordialidade" . Abre a mala com os materiais retirados de minha casa, folheia álbuns, lê recortes de jornais, olha livros.
 
-não vou falar da minha vida, nem das coisas que vê com o senhor, coronel. A única coisa que me interessa aqui é denunciar a prática de tortura que está acontecendo.
-o máximo que eu posso fazer é transferir todos os presos para outro lugar.
-ah! Assim é muito conveniente, as torturas serão reiniciadas em outro lugar e o senhor se descompromete.
-quem está no comando da guerra em curso é o exército, senhorita.
-que guerra, coronel?
-a senhorita é bastante insolente. Porta-se com a valentia de um homem. Não me admira ser lésbica – diz e sai.
 
Levam-nos todos em camburões para o Departamento de Instrução (DI) da PM, uma espécie de escola de oficiais, com alojamento. Já passava das nove da manhã quando chegamos. Um prédio grande, com pátio e muitas salas de aula. Somos mandadas a uma sala grande e acomodadas em carteiras, com a proibição de falar e de se levantar. Nesse momento é que tenho a dimensão da queda. São mais de quarenta pessoas, a maioria reconheço, outras não tenho idéia. Vejo os companheiros mais próximos de minhas tarefas, todos inchados e muito marcados: Augusta, Marylene, Tereza, Pedro Luis e Sergio, que haviam sido presos comigo, Francisco e Osvaldo, companheiros em Mata de Jaíba e muitos outros, além de alguns membros da direção.
É com alívio que penso em Rúbia em São Paulo. No mesmo dia em que Augusta não fizera contato, mandei a companheira Emília, esposa de Sergio, voltar e avisar a Rúbia da situação perigosa em que nos encontrávamos, com recomendações para que não retornasse a Minas. Estava ainda mergulhada nesses pensamentos reconfortantes, quando uma nova leva de gente presa chega para se acomodar na sala. Nesse instante senti o sangue gelar. Qual não foi minha surpresa ao ver entrando na sala justamente Emília, que havia mandado a São Paulo pouco antes de eu ser presa. "oh, céus! Rúbia então não está sabendo de nada, vai acabar voltando. Não é possível, alguém vai conseguir avisá-la, tenho certeza. Os outros que não foram presos não vão deixa-la sem saber o que está acontecendo...".
 
Não te aflijas com a pétala que voa: também e ser, deixar de ser assim. – 4º Motivo da Rosa (Cecília Meireles).
 
 PARTE 8
  
Começa então um processo de interrogação e triagem que dura alguns dias. Ao término desse período, somos então enviadas para a penitenciária feminina de Santa Teresa. Vamos para celas de isolamento, pequenos cubículos com cama de pedra e colchão de palha e um espaço reservado para latrina no chão, sobre a qual pende uma torneira. A janela é gradeada e alta, a porta de ferro possui uma portinhola para passar comida. No final do corredor havia um banheiro, onde, nos dias que se seguem, nos levam uma a uma, de manhã cedo, para tomar banho. Ficamos isoladas muitos dias, sem notícias do inquérito, do que estava acontecendo lá fora e do que iria acontecer conosco.
O processo de triagem e investigação não ajudou muito os militares afinal, foram inúmeros documentos e anotações apreendidos sobre diversos assuntos, livros clássicos marxistas fichados, resumos de texto de Mao Tsé Tung sobre guerra popular, etc. Os materiais falam da necessidade da criação de um partido revolucionário proletariado, ao que os militares logo formam a sigla PRP e passam a nos interrogar sobre esse assunto. Até então, não tinha identificado a AP, apesar de que mais cedo ou mais tarde isso iria acabar acontecendo.
Passamos a ser interrogadas todas as noites. É uma rotina implacável: por volta das 19 horas chegam as equipes conjuntas de militares e começam os interrogatórios e as torturas. Levam-me a uma sala com escrivaninha e duas cadeiras. Por detrás da mesa está o chefe do Inquérito Policial Militar (IPM), coronel Duarte, um homem frenético e empertigado, cheio de bazófia sobre seu "importante papel" . Está convencido de que está em uma "guerra" e que cabe a ele "vencer" essa batalha.
 
-sente-se doutora.
-obrigada coronel, vou ficar de pé.
-doutora, eu sou chefe, a senhora é chefe, portanto como tal, vamos nos entender?
-eu sou chefe de que coronel?
-ora, a senhora sabe – ele estava convencido da existência de uma organização rebelde feminina – esta é uma mesa de negociações, eu estou de um lado, a senhora está do outro, não há termo de negociação. Mas devo dizer-lhe que nem por isso deixaremos de cumprir as normas internacionais da Convenção de Genebra.
"Esse cara é louco, acha mesmo que está em uma guerra... agora é que virão as torturas" – penso.
-como assim se já fomos todas torturadas?
-o que passou, passou, não é comigo. No meu IPM não se tocará em um fio de cabelo de ninguém – diz irritado.
 
Começa então um interrogatório sobre os materiais escritos, vários com minha letra.
 
-quem escreveu isso aqui?
-não sei.
-quero que faça um teste grafológico.
-não faço.
-podemos fazer um acordo, doutora?
-eu não faço acordos coronel.
-mas como se estamos em uma mesa de negociações?! – replica perplexo em seu delírio bélico.
-mas eu estou presa coronel, e não pode haver negociação entre um preso e seu inquiridor. A única negociação possível é a minha soltura imediata.
 
Ele termina bruscamente o interrogatório, e leva-me para fora da sala, onde estão diversas meninas presas aguardando para serem interrogadas:
 
-esta é a chefe de vocês, é por causa dela que vocês estão aqui!
 
Percebi a tática que ele usava. Tentava abalar a confiança que tínhamos umas nas outras.
 
-não sou chefe de nada, e não venha com essa história para se isentar de responsabilidade por essas prisões ilegais – disse friamente.
 
Levam-me de volta a cela. Fico perdida em pensamentos. A visão das meninas esperando interrogatório, suas fisionomias abatidas, seus corpos marcados e doloridos pelas torturas, a troca de olhares angustiados, a impossibilidade de conversar, tudo isso fazem-me andar impaciente de um lado pra outro na minúscula cela. Sento-me na cama, as lágrimas até então contidas caem livremente. Penso em Rúbia, imagino se está bem, se sabe da minha prisão. "Como será que ela reagiu? Será que conseguiu esconder-se? Com certeza deve estar tão angustiada quanto eu...ah meu amor, que saudades...como eu queria estar em seus braços agora...como eu queria dizer-lhe novamente o quanto eu te amo, o quanto eu sou sua..." . Lembro-me da minha querida Bahia, dos amigos que deixei por lá, das conversas e discussões políticas nos corredores da faculdade, dos meus pais. "como será que meus pais estão? Será que sabem o que está acontecendo?".
O inquérito prossegue mas sem avanços, porque os militares não conseguem obter nada de essencial. Ninguém falava. Muito irritado, o coronel certo dia resolve "romper" com a Convenção de Genebra e "entregar-me" a dois torturadores. Em silêncio, leva-me a uma sala onde estão o sargento Robson e o policial Moura, do DOPS, que já vão agarrando-me aos safanões.
 
-Tire a roupa – berram.
-não tiro – berro de volta.
-tire a roupa – sacodem-me.
-não tiro coisa nenhuma, se vocês quiserem que rasguem.
 
O policial vai consultar o coronel, que mantinha-se afastado, como para dizer que não era responsável pelo que iria acontecer. Moura volta e diz:
 
-Avon pra ela.
"Que diabos é Avon?" – penso.
 
Vieram então com dois potes metálicos vazios de produtos Avon, abertos com as bordas pra cima.
 
-tire os sapatos.
-não tiro!
 
Jogam-me em uma cadeira e arrancam-me os sapatos.
 
-suba nos potes.
-não subo!
Os torturadores então colocam-me em cima das latas e largam-me, a idéia era permanecer em cima das latas tendo os pés cortados pelas pontas expostas do metal, fazendo os pés incharem. Despenco no chão e digo:
 
-aí em cima eu não fico.
 
É claro que jogar-me no chão também machucava, mas era melhor do que ter os pés cortados. Resolvem segurar-me em cima das latinhas, fazendo pressão para baixo. A dor é lancinante. Não sei quanto tempo se passa, minhas forças já estavam se esgotando, tentam largar-me para ver se eu me equilibro mas jogo-me no chão de novo. Os dois torturadores voltam ao coronel, querem instruções novamente, ele diz que não toma conhecimento. Sem saber o que fazer, voltam e continuam por mais algum tempo, disparando perguntas:
 
-Cadê a Cajazeira? Qual a organização? Quem são os líderes? Onde fica a gráfica?
 
Como não surte efeito, desistem das latinhas e passam a esmurrar-me. O coronel então entra:
 
-isso é apenas o começo! Se você não falar, as torturas serão piores!
-isso é apenas a evidência da sua covardia, coronel!
-você é gelada, insensível. Que espécie de mulher é você? – diz o coronel.
 
Levam-me de volta a cela. O inquérito prossegue lentamente. O coronel em sua megalomania, mais se atrapalha do que avança. A sua incompetência é motivo de chacota entre os oficiais de outros inquéritos. À medida que mais pessoas vão sendo presas, materiais apreendidos, estudados e analisados, é inevitável que, aos poucos, os militares consigam articular informações. A situação se complica: já sabem o meu nome frio, descobrem que estive em Mata da Jaíba, suspeitam que Rúbia seja uma das principais dirigentes do movimento e já sabem inclusive o seu nome frio, Antonia Prado. Querem a todo custo a confirmação das descobertas mas continuo calada. Um dia, vão buscar-me a tardinha, sem o coronel. Saímos de jipe.
 
-pra onde estão me levando?
-o coronel lavou as mãos, vamos fazer qualquer coisa pra você falar! – responde um deles.
 
Chegamos ao colégio militar do exército. Entregam-me a um militar truculento e raivoso, que se vangloria de sua eficácia em espancar para arrancar confissões. Seu nome é capitão Gomes Carvalho, já famoso pelas torturas praticadas em outros presos, chega gritando, tendo a seu lado o tenente Souza, encosta-se em meu corpo e rosna:
 
-você vai falar!
 
Abaixo a cabeça e afasto-me o máximo que posso. O tenente Souza, capacho como sempre, começa o refrão que usara quando fui torturada pelo capitão Amâncio: "olhe pro capitão, respeite o capitão". Alternam-se bofetadas e as perguntas:
 
-qual era o trabalho camponês? O que faziam lá? Onde está Antonia Prado?
 
O capitão usa deliberadamente o nome falso descoberto para mostrar que já sabe "tudo" e que não adianta negar.
 
-não vai adiantar o espancamento, não vou falar nada.
-sua filha da puta, cala a boca na minha presença! – se enfurece o capitão.
-cala a boca na presença do capitão! – ecoa o tenente.
"Será possível! Uma hora exigem que eu fale, outra hora me mandam calar a boca, que pessoal confuso..."
 
Muitas bofetadas depois, Gomes Carvalho sai da sala. Volta sorrateiro com um risinho cínico de lado.
 
-você foi da diretoria da UNE na Bahia, não foi? Você era da AP lá na Bahia, não era?– e começa a perguntar sobre companheiros do movimento estudantil baiano. Ele sai e volta com mais perguntas. Percebo que estão recebendo informações de alguém, que estão avançando nas investigações dos materiais. Vezes sem fim repetem as mesmas perguntas e as bofetadas, até que Gomes carvalho, enfurecido, diz:
 
-você não vai falar, não é? Você acha que eu queria estar aqui, perdendo meu tempo com uma lésbica degenerada como você, sua imoral? Vamos ver se você agüenta isso.
 
Ele passa então a aplicar-me o "golpe do telefone", como era conhecida a tortura em que são aplicadas duas bofetadas simultâneas nos ouvidos. A sensação é terrível, parece que o mundo sai do lugar, a dor é violenta. Extenuada, fico tonta e começo a vomitar. Levam-me para um quarto, onde passo a noite vomitando toda hora, com dor no estômago, o rosto inchado, quase sem escutar e com fortes dores no ouvido. Na manhã seguinte levam-me para o quartel do exército, mal conseguia ficar de pé, mas sou obrigada a passar parte da manhã no pátio sem poder sentar-me. O coronel vem tripudiar:
 
-gostou do que aconteceu? Agora vai ser assim.
 
De volta a penitenciária, fico vários dias sem poder ouvir direito, sai sangue do ouvido e sinto muita dor. Alguns dias depois o coronel manda chamar-me:
 
-meu general não está nada satisfeito comigo, o inquérito está demorando, portanto vou lhe fazer uma proposta. Você vai diretamente ao meu general, já que você acha que minha patente de coronel não é suficiente pra falar comigo. Você vai, diz o que for essencial, qual a organização, quem são os líderes e onde eles atuam. Mais nada. Assim eu garanto parar as torturas de todos os presos e encerrar o inquérito. Se você não falar, vou entregar você ao DOPS, você vai para em uma cela cheia de presos comuns, provavelmente será violentada, ou pelos presos, ou pelos policiais, coisa que eu não permito aqui.
-já disse que não faço acordos, não tenho nada a ver com seu general. Quer me mandar pro DOPS? Pois mande. Não tenho medo. – disse calmamente, mesmo estando esgotada.
-pois seja! Eu lhe dou um prazo até essa noite. Ou fala com o general, ou vai pro DOPS! – grita.
 
No dia seguinte, D. Georgina, a carcereira, vem me chamar dizendo que tinha visita. Levo um susto, pois estávamos todas incomunicáveis. Venho caminhando pelo corredor e vejo minha mãe, em pé, no saguão. Ela vem correndo, encontramo-nos no portal do corredor. Nos abraçamos emocionadas. Mamãe chora.
 
-como você está filha?
-eu estou bem mamãe, mas como me achou? Como conseguiu vir falar comigo?
-é uma longa história. Recebi uma carta de D. Gigi assim que você foi presa. Vim para Belo Horizonte imediatamente mas eles negaram que você estivesse presa. Só depois de muito tempo é que eles tiveram que admitir as prisões das "moças de minas", como vocês estão sendo chamadas, porque a historia se espalhou. Eu e a mãe de sua amiga Augusta começamos então a brigar com coronéis e tudo que é gente, dizendo que ficaríamos plantadas à porta da repartição militar até nos deixarem ver nossas filhas. Depois de muitas idas e vindas, finalmente autorizaram. Trouxe umas coisas pra você.
 
Foi buscar uma caixa que havia deixado no saguão. Abro e encontro roupas, produtos de higiene, chocolate, bolos, pães e algumas guloseimas.
 
-filha, fale-me das torturas.
-não mãe, deixa isso pra lá.
-não, eu quero saber tudo. Já sei que vocês são torturadas, me conte o que eles fazem.
 
Não queria falar. Começo devagar mas depois sai tudo aos borbotões. O rosto da minha mãe se contrai, sinal de raiva e indignação.
 
-isso não fica assim. O mundo vai saber o que se passa aqui!
-calma mãe! Vê lá o que vai fazer, é preciso ter cautela, esse pessoal é perigoso (...) me fale do papai.
-seu pai veio comigo, mas não deixaram ele te visitar. Ele está muito preocupado filha.
-mãe, e quanto a D. Gigi, ela tem notícias de Rúbia? Onde ela está? Ela deu notícias, sabe que estou aqui? Ela está segura em São Paulo?
-calma filha. A mãe dela está sem notícias. A última coisa que ela soube é que ela foi avisada da prisão de vocês quando estava ainda lá em São Paulo. Seus amigos disseram que ela quis voltar a todo custo mas conseguiram segurar ela por lá, depois não se soube mais nada.
-graças a Deus! (...) mãe, eu espero que você e o papai entendam a minha relação com ela...
-não filha! Nós te amamos como sempre, você é nossa filha querida, mas é difícil pra mim e pro seu pai aceitar isso. No entanto não vamos nos meter, a vida é sua. Foi um choque quando soubemos, seu pai quase teve um troço, quis vir pra cá atras de você, queria te trazer de volta nem que fosse a força mas eu não deixei. Depois ele se acalmou, chorou, ficou angustiado, chegou até a dizer que não queria notícias suas e me proibiu de te escrever. Mas agora já passou filha, desde que ele soube que você foi presa ele tem estado feito um louco, pra cima e pra baixo comigo, contratou um excelente advogado e só vive falando que é capaz de fazer uma loucura se alguém fizer alguma coisa com a filhinha dele.
-mãe, diz pra ele que está tudo bem. Diz que eu o amo e que vamos conseguir sair dessa situação, tá bem?
-tá minha filha, eu digo sim. Não se preocupe, nós não vamos desistir enquanto não tirarmos você daqui. Eu não sei se eles vão deixar, mas eu vou fazer de tudo pra vir aqui de novo vê-la.
 
 
Depois de mais alguns minutos de conversa, nos despedimos chorosas. Volto para minha cela um pouco mais fortalecida por saber de meus pais, da luta que eles empreendem para me tirar da cadeia e por saber que Rúbia foi avisada do perigo. Estranho o fato de D. Gigi estar sem notícias. "Deve ser porque ela está bem escondida, não pode se comunicar por questões de segurança. Afinal os militares com certeza estão vigiando a família dela para ver se conseguem descobrir alguma coisa. Aquela cabeça dura queria voltar, vê se pode! Espero que consigam mantê-la onde ela está. Do jeito que eu conheço aquela teimosa, sabendo que estou nas mãos dos militares, é capaz de querer fazer alguma besteira...".
 
 Quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como – Friedrich Nietzsche
 
PARTE 9
 
O afã em terminar o inquérito a todo custo toma conta dos militares. Todas as companheiras estão sendo muito torturadas. Volta e meia nos encontramos nos corredores, muito marcadas e abatidas, trocamos algumas palavras com voz embargada, o coração transbordante de solidariedade e, na medida do possível, combinamos histórias, fazemos planos, é preciso manter o moral a todo custo. Estava me preparando para o pior, tinha sido ameaçada de ser levada para Departamento de Ordem Política e Social – dops, já famoso por seus métodos cruéis de tortura e assassinato, mas um outro tipo de sofrimento me aguardava. Na calada da noite, vários militares muito agitados, sob o comando do capitão Varela, arrastam-me para um jipe. "Pronto, agora estão me levando pro dops" – penso.
-Ei capitão, estou indo pro dops para ser violentada ou de volta pro colégio militar para ser torturada pelo Gomes Carvalho?
-Nem uma coisa nem outra, lá você vai ver – responde o capitão quase cantando. E passa o caminho todo a martelar as perguntas "onde está a Cajazeira?", "Ela é dirigente?", "Quais as suas funções?", etc.
Chegamos ao quartel do 12 RI. Logo no pátio uma agitação muito grande, jipes, viaturas estacionadas, muitos militares de metralhadora indo e vindo, alguns correndo, outros gritando ordens. "Deve ter acontecido alguma coisa muito séria, o que será?". Olhando em volta, noto outros presos à distância. "Droga, prenderam mais gente, é isso." Reconheço os dois principais líderes ligados ao trabalho operário, o advogado José Afonso e mais adiante para meu espanto o companheiro Renato da Bahia. "Deve ter sido deslocado". Estacionam um jipe no meio do pátio, fazem uma roda em torno de mim gritando: "vamos acabar com essa baixinha", "agora ela vai ver".
-Vou ver o que? – pergunto ao coronel Duarte que chega, mais agitado do que nunca.
-Não está vendo o que está acontecendo? Eu lhe disse que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. Chegou a hora – bradou satisfeito – nós pegamos a Cajazeira, pegamos a mulher com quem você se deita. Agora vamos fazer o teste do amor, vamos ver se você agüenta ver a tortura dela.
Sinto-me gelar, como se algo frio estivesse correndo pelas minhas costas. "Eles estão blefando, Rúbia está fora, havia recebido os avisos, é norma de segurança não voltar para o lugar onde houve uma queda, ela não voltaria".
-É mentira, ela nem está em Minas! – grito.
O esforço de gritar e a intensa concentração mental aliada ao choque da notícia fazem-me oscilar. Alguém diz:
-Cuidado, ela vai cair.
Vão buscar uma cadeira e põe-me sentada. Em meio a gritaria infernal alguém grita:
-Traz a mulher!
Andam em torno de mim fazendo barulho e dando gargalhadas, luto para não perder a percepção do que está acontecendo. Vejo então sendo empurrada para o pátio uma mulher alta e forte, mãos algemadas, coberta de sangue, mal vejo o seu rosto, anda com muita dificuldade, o corpo encurvado. Convencida de que não era ela e confundida por seu estado deplorável não a reconheço, está escuro e estou a certa distância.
-Não é ela, vocês pegaram a mulher errada – grito.
Em meio a gritaria o coronel berra:
-Como não é ela? Você está louca? Acendam as luzes dos jipes, iluminem aqui!
Meu coração dispara, a boca seca de ansiedade, uma onda de medo vem cobrir-me "não, não pode ser ela".
-Não é ela! – grito na vã ilusão de que talvez eles não tivessem certeza.
-Senhorita Rúbia Cajazeira de Melo, dê um passo a frente por favor! – grita o capitão Varela em meio ao burburinho de vozes.
Rúbia, com muita dificuldade ,levanta a cabeça e anda um passo. Um misto de angústia e raiva toma conta de mim "o que esses miseráveis fizeram com ela? O que eles vão fazer? Porque diabos Rúbia voltou?". Vendo que não havia alternativa, tive que confirmar:
-É ela sim, mas não adianta que eu não vou falar nada!
O coronel Duarte, com sua empáfia, dá voz de comando:
-Começa!
Vários militares cercam Rúbia e começam a espancá-la de forma brutal. Tento correr em direção a roda, mas me agarram e na confusão acabo rasgando a camisa do coronel.
-Diabos, você rasgou minha camisa – brada furioso.
Seguram-me com força na cadeira para assistir a cena de quase linchamento. Usando longos cassetetes batem em Rúbia indiscriminadamente, na cabeça, no tórax, nas costas.
-Vocês vão matá-la seus desgraçados, assassinos – grito com fúria e desespero.
-Depende de você, se você falar nós a poupamos – diz o coronel.
-Assassinos, assassinos – repito
O capitão Varela coloca-se a minha frente e diz com cara de compungido:
-Você não pode ver isso, é muito forte.
-Ah, isso não – digo tentando afasta-lo – vocês não me trouxeram aqui? Pois eu quero ver mesmo, pra denunciar todos vocês. Eu não acredito na sua falsa piedade, o senhor é conivente com tudo isso.
O espancamento continua. Já nem se ouvem mais os gritos, ela perdera os sentidos, desabando no chão. "Agüenta amor, agüenta pelo amor de Deus, não morre..." a beira do desespero grito:
-Se vocês a matarem, aí é que eu não conto nada mesmo!
-Ela vai morrer então, por sua causa.
-Não, se ela morrer vocês é que a mataram, não me responsabilizem pelos seus crimes.
-Destruímos você, caiu tudo. Primeiro o trabalho camponês, agora está caindo a cidade industrial. Olhe em volta o pessoal preso. E Pegamos a Cajazeira, chefe de tudo. Nossa força venceu, vocês estão acabados.
-Pois é coronel, o senhor tem a força, as armas, mas uma coisa o senhor não tem: o meu pensamento, a minha vontade. Então quem é mais forte?
-Diabos!!!! – sai bufando.
Deixam-me por toda noite toda sentada na cadeira no pátio. Vejo quando levam os outros presos. Após pararem o espancamento e a reanimarem, vejo Rúbia sair, alquebrada, mas andando. "Pelo menos isso, ela está andando". Passo toda a manhã seguinte "de castigo", no meio do pátio, sob intenso frio. Volta e meia passa um militar:
-A mulher tá mal...
-Já morreu? – pergunta outro.
-Tá morre mais não morre.
Levam-me à tarde para a penitenciária sem notícias de Rúbia. É a minha pior noite. Uma angústia imensa, a alma dolorida, a mente conturbada. O choro tantas vezes contido vem como um rio caudaloso, sem atentar a nada que tentasse impedi-lo, varrendo tudo com sua enxurrada. As imagens da noite anterior vêm quadro a quando, como uma tortura cruel "onde ela está? O que aconteceu, meu Deus? Será verdade que está morrendo? O que é que eu faço? Revelar os segredos da organização nunca, isso iria colocar outras pessoas em perigo. Mas e quanto a Rúbia, como fazer para não deixar eles a matarem? E se já estiver morta? É uma enxurrada de pensamentos sofridos, mas aos poucos vou me acalmando e raciocinando, tomando algumas decisões. "Vou descobrir o que foi feito com ela, se estiver morta não irão arrancar-me nem uma palavra, se não, preciso dizer alguma coisa, nada muito substancial mas preciso dizer algo".
 
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Rúbia é mantida em uma cela onde fica durante todo o dia, o corpo coberto de hematomas, seis costelas quebradas, um tornozelo, com danos na coluna, com febre e inconsciente. Levam-na a um pronto socorro tentando admiti-la como indigente atropelada, mas a equipe de plantão a reconhece, eram seus colegas na faculdade de medicina. Os militares querem transferi-la para outro lugar mas os médicos dizem que não se responsabilizam se a removerem e no dia seguinte toda a faculdade iria saber do ocorrido. Resolvem então deixa-la no PS, onde passa a receber cuidados sob escolta armada.
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Quando o coronel chega para mais um interrogatório encontra-me mais nervosa do que nunca. Ele também muito nervoso e vem logo dizendo:
-Cajazeira está muito mal, tentou se suicidar jogando-se pela janela de uma delegacia quebrou a perna, costelas e um tornozelo.
-É mentira! – grito – ela nunca tentaria suicídio. Foram vocês que fizeram isso, sou testemunha, eu vi tudo!
-Naaaaaão, ela saiu de lá andando, você viu. Foi depois, ela se jogou da janela, vai morrer.
-É mentira, os assassinos são vocês.
-Cabe a você decidir, ainda há tempo de salva-la, se você falar eu a levo a um hospital, se não, a deixo morrer.
-Assassinos, assassinos – continuo gritando, andando pela sala descontrolada.
-Eu não a levo ao hospital se você não falar.
Nesse momento não sei quem estava mais nervoso, se eu ou o coronel. Em uma crise de nervos e raiva, paro, viro-me para o coronel, dedo em riste e digo:
-Coronel, tire os óculos, me olhe diretamente no olho e repita o que está dizendo!
Ele hesita.
-Vamos, vamos, tire os óculos e me diga que não está blefando!
Ele tira os óculos e tenta repetir o que dizia. Percebo a sua hesitação.
-É blefe! O senhor está blefando! – um alívio imenso percorre meu corpo, enquanto a tensão se esvai, um cansaço enorme toma conta.
Toda aquela gritaria atrai a atenção do capitão Varela, que entra na sala e vem dizendo:
-Coronel, já levaram a mulher para o hospital.
O coronel diz:
-Estava blefando mesmo, mas isso não muda nada. Ela está mal e você vai ter que falar.
Não agüento mais. Meu corpo cambaleia e levam-me de volta a cela. A situação havia mudado radicalmente. Agora precisava mais do que nunca saber como Rúbia estava, encontra-la, vê-la. Estava decidida a finalmente fazer um acordo com o coronel, elegeria algumas coisas não essenciais e tentaria usar como moeda de troca. Em encontros fortuitos com as outras meninas, combinamos o que cada uma deveria dizer, armamos estórias coerentes sobre como nos conhecemos e decidimos falar. Dois dias haviam se passado desde que vira o coronel, resolvo então chama-lo.
-D. Georgina! – chamo a carcereira.
-Sim.
-Diga ao coronel, por favor, que eu quero prestar depoimento.
Surpreso o coronel recebe-me em sua sala.
-E então doutora, a senhora quer depor?
-Sim coronel, sob certas condições.
-Que condições?
-Não respondo nenhuma pergunta referente a outra pessoa, só falo de mim mesma, conto tudo, desde que eu possa visitar Rúbia no hospital onde ela está internada.
Perplexo, mas achando que conseguira uma vitória, o coronel diz:
-Muito bem doutora, podemos tentar um acordo. A senhora terá permissão para visitar a Cajazeira, mas não por esses dias. Como eu já disse, ela está muito mal. Fora de perigo, não se preocupe, mas ainda não recebe visitas. Assim que for possível a senhora irá vê-la.
-Está bem coronel, nesses termos temos um acordo.
Diante de um escrivão conto calmamente a minha participação no movimento estudantil na Bahia, da luta contra a ditadura, admito que sabia da existência da AP mas nego fazer parte dela, reconheço alguns livros e anotações. Muito a contragosto, o coronel acaba se satisfazendo com esse depoimento. Nos dias que se seguem as outras meninas vão no mesmo caminho, algumas admitindo participar da AP, outras negando, e, de depoimento em depoimento, o inquérito vai se encerrando. A estas alturas já deixamos as celas e passamos a ocupar um alojamento coletivo na penitenciária. Duas semanas após o meu depoimento, o coronel manda me chamar em sua sala:
-Sente-se doutora. Mandei chama-la porque pretendo cumprir a minha parte em nosso acordo...
Meu coração dispara.
-... a sua... a sua...- falava enquanto gesticulava com uma das mãos como que procurando uma palavra.
-Companheira, coronel.- disse impaciente.
-Sim, pois então, ela já pode receber sua visita. Iremos leva-la ao hospital militar, onde ela se encontra agora.
Não pude deixar de sorrir.
-Quando coronel?
-Hoje ainda, à tarde. Quando chegar a hora mandarei chama-la. Uma escolta a acompanhará. Espero que a senhora saiba se comportar e não me traga problemas, doutora.
-É claro, coronel! Mas que tipo de problema eu poderia trazer?
 
Volto para o alojamento eufórica e conto a algumas companheiras mais chegadas o motivo da minha alegria, fazendo com que todas se alegrem também. A certa altura da tarde, uma escolta com quatro homens fortemente armados leva-me em uma viatura para o hospital militar. Rúbia está sozinha em um quarto, também fortemente vigiada, mas, por ordem do coronel, recebo permissão para entrar sozinha. Entro devagar, o coração em descompasso, e a vejo deitada sobre a cama. Dormia. Vou me aproximando devagar, as lágrimas rolando sobre o meu rosto. Três longos meses presa, até vê-la naquela fatídica noite em que foi brutalmente espancada. Agora estava ali, diante de mim, uma faixa cobria as costelas quebradas, tinha uma perna enfaixada e o rosto muito marcado. Quando me pus ao seu lado abriu os olhos. Após alguns segundos disse-me quase em um sussurro:
-Isso é um sonho?
-Não meu amor, eu estou aqui – disse entre lágrimas.
-Ah, minha luz, é você mesmo? Me abraça!
Sentadas em seu leito nos abraçamos sofregamente. Foram longos momentos entre beijos urgentes e palavras de amor sussurradas entre olhares langorosos.
-Que saudade...que saudade...
-Eu também meu amor, tenho sofrido tanto longe de você...
-Eu devo estar horrível...eles bateram pra valer.
-Não meu amor, o que te faz ser a mais bela mulher que já existiu está muitas camadas abaixo dessa sua pele marcada, onde eles nunca irão alcançar. Como você está? Tem sentido muita dor?
-Sim meu amor, uma terrível dor todos os dias e todas as noites por estar longe de você.
-Eu sei o que é isso – disse em meio a um suspiro – eu fiquei desesperada quando vi aqueles monstros...
-Eu sei meu amor, eu pude ouvir os seus gritos, eles foram mais dolorosos pra mim do que todo o espancamento.
-Por que você voltou?
-Nós tínhamos planos, eu queria tirar você das mãos deles, mas deu tudo errado. Outro dia eu te conto com mais calma. Agora me beija, eu preciso de você...
Sorveu-me então em um beijo longo e ardente, sugando a minha alma com sua língua ousada e quente, percorrendo caminhos em minha boca. Ofegávamos sem fôlego, a chama incandescente do desejo fazia o meu sexo pulsar em meio as suas carícias loucas e urgentes.
-Meu amor...temos...que parar...-disse ofegante
-Eu quero você...agora Di...eu preciso...- respondeu-me da mesma forma, enquanto sua mão se punha por dentro da minha calça alcançando o meu sexo encharcado. Não resisti e montei com jeito em seus dedos, que me penetraram, enquanto eu fazia o mesmo com ela.
-aaassim...isso meu amor...assim...
Comecei uma dança sensual sobre seus dedos, que cada vez mais fundo me penetravam, enquanto que, na mesma intensidade, eu aumentava as estocadas ruidosas em seu sexo banhado de excitação.
-aaaaaa Di...meu amor...mexe assim...aaaaaa...eu te amo...eu te amo...
Gozamos em poucos instantes, tamanho o grau de desejo e saudade que nos acercava.
-Nós somos duas loucas... – disse enquanto recompunha a roupa e a respiração – já pensou se entra alguém aqui e nos pega desse jeito...
-Eu não consigo me controlar perto de você, sabia? Mas admita...essa sensação de perigo e urgência fez tudo ficar mais gostoso, não foi? – disse com uma cara safada.
-Suas costelas não estão doendo? – disse um pouco ruborizada.
-Um tantinho só, mas logo passa...
-Valeu a pena...-disse sorrindo
-Ah, esse seu sorriso...ilumina a mais escura das noites, sabia?
-Tão romântica...- disse ainda sorrindo – eu te amo, viu?
-Viu! Eu também te amo, vida minha!
Nesse instante, um guarda entra no quarto.
-Doutora, o tempo acabou. Temos que ir.
-Já vou, só mais um minutinho, por favor!
-Eu aguardo aqui mesmo.
-Amor – falei baixinho – eu fiz um acordo pra conseguir vir aqui te ver. Contei algumas coisas não muito relevantes sobre mim e o coronel concluiu o inquérito, por favor, faça o mesmo, conte algo, mas não deixe eles te machucarem de novo, promete?
-Prometo! Eu vou pensar em algo pra dizer a eles e tentar um acordo também, não se preocupe, eu vou ficar bem.
Mesmo diante do soldado não tivemos pudores, afinal, não tínhamos idéia de quando nos veríamos novamente. Nos beijamos com paixão e, já com muita saudade, tive que ir embora. Duro foi agüentar o risinho sarcástico e o comentário grosseiro do soldado quando passei por ele.
 
Algumas derrotas são mais triunfantes do que vitórias – Michael de Montaigne
 
 
PARTE 10
 
De volta ao alojamento, passo o resto da noite em um misto de alegria sublime e angústia saudosa. O encontro com Rúbia, ao mesmo tempo em que se mostrou tão reconfortante e prazeroso, deixou-me um sentimento de vazio no peito. Estar ao seu lado era tão essencial para mim quanto respirar, e o fato de não saber quando a veria novamente me sufocava dolorosamente. De manhã bem cedinho, ouvimos uns barulhos meio roucos, vindos da janela. Uma companheira apura os ouvidos:
-É um rádio! Estão ouvindo o noticiário.
Todas que estavam acordadas se apressam em chegar junto a janela para ouvir o som que vinha de uma das guaritas dos guardas. O que ouvimos era a notícia do seqüestro do embaixador americano e o pedido de resgate de quinze presos políticos! Uma euforia tomou conta do alojamento, começamos a nos perguntar qual seria a organização responsável e quais os presos que seriam soltos. Se os militares cedessem seria uma vitória do movimento popular. Mais tarde, conseguimos ouvir ao longe o nome dos presos que seriam soltos e exilados para o Chile. Dois dias depois ouvimos uma movimentação estranha do lado de fora. Um corre-corre de guardas e passos, até que a porta do alojamento se abre bruscamente e a chefe da guarda grita:
-Arrumem suas coisas, rápido, rápido, à chamada dos nomes venham comigo, uma a uma.
-Por que? – pergunta uma.
-Para onde vamos? – pergunta outra.
-O que está acontecendo? –outra diz.
-São ordens, não posso dizer mais nada – retruca a chefe.
Nos entreolhamos assustadas. "Boa coisa não pode ser" - penso. Somos levadas de volta as celas do isolamento sem termos idéia do motivo da mudança. No dia seguinte uma guarda vem me chamar:
-O coronel quer vê-la.
Fico espantada. Já é tarde da noite e começo a pensar o que poderia ser, afinal o inquérito estava quase concluído, só poderia ter surgido um fato novo para justificar tudo aquilo. "Será que é nova tortura? Não vou me deixar abater, seja o que for. Será que aconteceu alguma coisa com Rúbia?". Chego preocupada a sala do coronel e deparo-me com ele em uma postura excessivamente militar, na mesma atitude formal do primeiro interrogatório. "Vai começar tudo de novo".
-Doutora, eu estou aqui junto com um pelotão militar para proteger o presídio de um seqüestro cujo plano descobrimos a tempo.
- Seqüestro, coronel?! – olho para fora e vejo muitos soldados nos jardins e no pátio – que seqüestro é esse e o que é que eu tenho a ver com isso?
-Depois do que aconteceu com o embaixador americano, tivemos notícias de que seus pais entraram em contato com Carlos Marighela para alugar um helicóptero e tira-la daqui.
Um alívio percorre meu corpo como água serpenteando em minhas veias, desfazendo a tensão que me assomava. Não me contenho e começo a rir.
-Que loucura é essa, coronel? É claro que esse plano não existe, seu sistema de informação cometeu um erro hilariante!
-Nossa inteligência é perfeita, doutora. Não há equívoco algum e nós estamos aqui para garantir que seu resgate não aconteça.
-Só se for um comando suicida para tentar parar um helicóptero em cima de um presídio e me içar por uma corda! Ora coronel, convenhamos, isso é uma rematada loucura!
-Coisa alguma! Qual é o contato com Marighela? Como seus pais o acharam? Onde ele está?
Calei-me em um mutismo abstrato, imaginando a cena, a mamãe com a cabeça pra fora do helicóptero, acenando pra eu subir e jogando uma corda. "Mas de onde os militares foram tirar uma história dessas? Ou será coisa do coronel em seus lances de loucura?". Incomodado com o meu silêncio, manda-me de volta a cela. Mais três meses se passa. Durante esse período, recebo notícias de Rúbia através ma mamãe, que, mesmo a contragosto e um pouco sem jeito, põe-me a par de seu estado nas vezes em que veio me visitar. Soubera que após alguns dias no hospital, recebera alta e voltara ao quartel onde, com muito custo e sob muita pressão, fizera um acordo com os militares e c, como eu, aguardava o andamento do processo.
Janeiro de 1970. Estávamos em nossas celas quando recebemos ordens para arrumar nossos pertences e ficar em fila no corredor. Logo chega uma guarda, acompanhada de um policial armado, nos separa em pares, levando-nos corredor afora até a saída. Há um ônibus esperando na rua, cercado de carros militares e muitos policiais. Somos transferidas para o presídio de Linhares, próximo a Juiz de Fora, onde ficaríamos até a conclusão do processo penal. Mantemos nossos laços de amizade na nova prisão. Quase todas as presas políticas de Minas Gerais são transferidas para lá. As visitas dos familiares eram mensais e nos dois meses seguintes mamãe veio visitar-me trazendo notícias. Rúbia estava ainda no quartel, mas seu inquérito também já estava em fase de conclusão, havia feito um acordo com os militares e aguardava o que seria feito. Quinze dias após a última visita da mamãe, estava no pátio do presídio conversando animadamente com velhas companheiras de luta na AP, Marilene, Augusta, Tereza, e algumas outras presas de outras organizações. Falávamos sobre todas as batalhas travadas até ali, as torturas, as cenas hilárias que as vezes os militares protagonizavam, quando de repente todas a uma se calam. Percebo em seus semblantes um olhar surpreso, ora dirigido a mim, ora a algo por sobre os meus ombros, o que me faz virar para traz:
-O que foi que... – não consegui terminar a frase. Deparei-me com uma visão que me fez perder a noção do mundo ao meu redor, já não ouvia mais nada ,todos os meus sentidos voltados para a figura magnífica que se encaminha até mim, um sorriso perfeito no canto dos lábios, e o mais amoroso olhar que já contemplei em toda a minha vida. Vinha mansamente, e o mundo de repente deixou de existir para nós.
-Rúbia...- sussurrei, pois era o tom mais alto que a minha emoção permitia a voz alcançar.
-Oi...- respondeu no mesmo tom.
Mergulhamos em um abraço emocionado. Não sei quanto tempo permanecemos assim. Apenas as lágrimas se manifestavam entre nós, enquanto cada vez mais forte punha-me contra o seu corpo, como que a querer eternizá-la junto a mim, para não sofrer mais uma vez a dor da separação que outrora nos impuseram. Enfim nossos olhares se encontraram mais uma vez:
-Meu amor...- disse-me enquanto enxugava as lágrimas do meu rosto com uma das mãos - quando soube que viria pra cá cheguei a bendizer o fato de eu estar presa, pois sabia que finalmente iria estar de novo ao seu lado.
-Quando você chegou?
-Ontem a noite. Em que ala você está?
-Ala A, e você?
-Ala B.
-Não acredito que mandaram você pra cá!
-É. Eu acho que eles não levam muito a sério o nosso relacionamento, senão duvido que me dariam um presente desses...
Nos abraçamos novamente. A dor e a angústia de todo o tempo em que estivemos separadas desabaram novamente em lágrimas sobre mim. A única coisa que eu queria naquele momento era sentir a proteção e o conforto do seu amor a me envolver.
-Ah, Rúbia. Tanto tempo longe de você, eu não vou agüentar tudo isso de novo...o que será de nós agora?
-Shhhhhh...calma meu amor...está tudo bem agora. Eu tô aqui, com você. Dessa vez vai ser diferente, nós vamos vencer tudo isso, o pior já passou...confie em mim.
Passamos então a conversar sobre as circunstâncias que levaram a sua prisão. A direção nacional da AP, em contato com outros movimentos, havia decidido partir para uma ofensiva contra os militares por meio de seqüestros de diplomatas, como o embaixador americano, guerrilhas armadas e atos ousados nas cidades como assaltos a bancos para o financiamento das ações, que envolviam o resgate de presos políticos. Mesmo sabendo dos riscos, decidira voltar a Minas na tentativa de articular um plano para me libertar, mas não houve tempo sequer para esboçar qualquer projeto. Fora presa um dia depois da sua chegada. O fato é que tudo aquilo agora ficara para trás, estávamos juntas outra vez, ainda que em circunstâncias adversas. Nossas manifestações de carinho eram comedidas, não tínhamos como nos ver a noite, mas ainda assim me sentia feliz. Cerca de uma semana após a sua chegada, esperava a sua chegada no pátio como todos os dias durante o período do banho de sol, quando a vejo vir em minha direção, os passos firmes e decididos eram apressados, um olhar sério e urgente saltava de sua face.
-Vem! – disse tomando minha mão e levando-me apressada para a área interna do presídio.
-Para onde estamos indo?
-Você verá.
Nos dirigimos a um salão amplo onde funcionava a lavanderia. Haviam alguns tanques onde as funcionárias lavavam a roupa usada pelas presas, além de muitas mesas de passar e engomar, e inúmeros lençóis estendidos em um outro lado, oposto ao dos tanques. Ao entrarmos, uma das presas que trabalhava no lugar veio ao nosso encontro.
-E aí? – perguntou Rúbia
-Tudo limpo. Você tem cerca de meia hora, agente vai ficar vigiando. É lá atras, vai.
-Certo.
Levou-me a uma parte nos fundos do salão ocultada pelos lençóis. Havia uma mesa onde me pôs sentada, encaixou-se entre minhas pernas e começamos uma série de beijos ávidos e sedentos. Sua boca devorava-me com sede, e na mesma intensidade louca eu retribuía-lhe, sugando sua língua e gemendo incontrolavelmente. Em um movimento rápido, arrancou a minha blusa e levou sua ânsia gulosa aos meus seios, em amassos, beijos e chupões frenéticos que quase me fizeram gozar.
-huummm, Bia...aaaaa...eu te quero...vem,vem...agora...vem...
Arrancou-me a calça e pôs-se de boca entre minhas pernas com a mesma fúria sedenta. Estava enlouquecida e levando-me a loucura, senti a sua língua dentro de mim e como uma gata louca no cio passei a gemer incontrolavelmente, agarrando com força seus cabelos, arqueando o corpo em espasmos que pareciam ter vida própria. Seus dedos ocuparam o lugar onde antes estivera a sua boca, que agora outra vez sugava meus seios. Um gozo frenético e ruidoso apossou-se de meu corpo, que arquejando fazia a mesa mover-se violentamente contra a parede, enquanto eu gritava.
-aaaaaaaaa...eu te amo...eu te amo...eu te amo...
Enfim desabei em seus braços, meio anestesiada, mas ainda sentindo suas mãos erguendo minhas pernas e fazendo-me encaixa-la já desnuda com seu sexo encharcado grudado ao meu. Sua mão estava em minha coxa, mantendo-a levantada e presa a si, o braço ao redor das minhas costas a me sustentar e os lábios em meu ouvido em sussurros e gemidos suplicantes.
-Di...aaaaaa...eu te quero...eu te quero...
-Eu sou sua...eu sou sua...
-aaaaaaa...vai amor... vai...mexe..asssssim...aaaaaaa
Nossos corpos suados, quentes, grudados, as costas lanhadas pela urgência das mãos, os sexos ruidosos e frenéticos em um vai e vem selvagem, arrastando-nos em uma correnteza de gozo liberto. Consciente do pouco tempo que tínhamos, sussurrei ainda ofegante em seu ouvido:
-eu quero sentir o seu gosto, vem...senta aqui.
Rúbia no entanto arfava violentamente e mal conseguia manter-se em pé.
-O que foi meu amor? Você está bem?
-Sim...eu só preciso de um tempo...
-Vem, sobe aqui na mesa...
Deitou-se sobre a mesa e lentamente recuperou o fôlego.
-O que aconteceu? Você não é assim...
-Não sei...uma falta de ar de repente, o coração acelerou e fiquei um pouco tonta...
Meu semblante quedou-se um pouco preocupado. Ela então percebendo, sentou-se, pôs-me entre suas pernas e com um olhar fulminante, fuzilou:
-Eu ouvi você dizer algo sobre sentir o meu gosto?
-Você está bem?
Tomou-me em seus braços e um beijo a princípio calmo foi ganhando intensidade, enquanto suas mãos passeavam em minhas costas e apalpavam minhas nádegas, fazendo a minha fogueira acender-se em chamas novamente.
-Isso responde a sua pergunta? – disse com a voz rouca de desejo – vem logo...
Não pude pensar em mais nada. Percorri seu corpo com beijos molhados, ora sugando, ora mordendo-lhe, desde o pescoço até os seus seios, brincando com os bicos intumescidos de excitação, enquanto ela arfava cada vez mais e gemia alto. desci lentamente até o seu sexo e o cheiro que exalava até minhas narinas deixou-me enlouquecida, fazendo-me salivar de desejo. Mergulhei entre suas pernas ávida pelo gosto de doce e de sal que sua púbis excitada me oferecia. Com a língua cercava-lhe o clitóris endurecido, ora com suavidade, ora com ímpeto, enquanto sorvia cada gota do seu desejo que jorrava intensamente.
-aaaaaaaa Di... você me mata...eu vou gozaaaaaaaar...
Deixei que ela chegasse ao clímax em meus lábios, enquanto eu me deliciava com o seu gozo. Ficamos um tempo lado a lado, por sobre a mesa, até nos recompormos e voltarmos. Já havia passado bem mais que a meia hora que tínhamos, o horário do banho de sol já estava quase no fim. Ao sairmos dos fundos da lavanderia, encontramos com a presa que nos havia dado passagem na porta de entrada, como se estivesse de guarda.
-Ah! Finalmente...a coisa ficou muito ruidosa e eu tive que vir pra cá, ficar de vigia. Por sorte a guarda ainda não passou por aqui...
Fiquei vermelha como um pimentão, enquanto Rúbia tranqüilamente dizia:
-Valeu Amanda! Não se preocupe que o que agente combinou tá de pé!
-Vou esperar! Agora vão, meninas. Rápido.
Ao saímos, perguntei:
-O que vocês combinaram?
-Qual é a moeda que compra tudo na prisão, meu amor? Cigarro! E algumas guloseimas, produtos de higiene, o que der...nos vamos poder vir aqui uma vez por semana, é só D. Gigi trazer-me tudo o que eu pedi...
-Só você mesmo pra pensar em tudo isso antes de vir pra cá...- disse sorrindo
-Faço qualquer coisa pra ficar ao seu lado...se importa se eu voltar pra minha cela? Queria deitar um pouco, descansar...
-O que é que você tem? Eu tô ficando preocupada...
-Não, não se preocupe. É só cansaço mesmo, tanto tempo...acho que acabei perdendo o costume...
-Sei não...
-Mas tarde agente se vê no refeitório, amor. Não se preocupe.
-Tá bom.
Foi embora me dando um beijo na testa e me deixando no pátio, com uma ruga de preocupação no rosto. Apesar das duras condições de vida no presídio, estava me sentindo feliz. Achava o conforto que precisava todos os dias quando encontrava Rúbia no pátio ou no refeitório, e uma vez por semana mantínhamos nossos encontros na lavanderia, onde podíamos extravasar todo amor que sentíamos. No entanto, novamente as coisas iriam mudar. Em junho de 1970, três meses após a chegada de Rúbia ao presídio, recebemos a visita do advogado que cuidava conjuntamente do nosso caso. Estávamos os três em uma sala reservada para as visitas com esse fim.
-Trago novidades, boas notícias!
-O que Dr. Alberto? - perguntou Rúbia
-O inquérito contra a Dr. Diana sequer foi iniciado, o promotor declarou falta de provas e exigiu novas diligências, então consegui, com base jurídica em excesso de prisão sem julgamento, o relaxamento da sua preventiva.
-Como assim? – pergunto nervosa.
-Bem Doutora, durante todo esse tempo a senhora está presa sem julgamento, seu processo não entrou em fase de qualificação judicial perante o Tribunal Militar...sua prisão pode ser considerada ilegal. Provavelmente amanhã eu já estarei com seu alvará de soltura em mãos e virei buscá-la. – disse o Dr Alberto sorrindo.
-Mas e quanto a Rúbia? – perguntei-lhe em um sobressalto.
-O caso dela é mais complicado, doutora. Existem algumas provas comprometedoras, que indicam a participação dela em atividades consideradas ilegais...Temos que aguardar um pouco mais, mas tenho certeza que irei conseguir o mesmo avanço...
-Aguardar?! Como assim aguardar?! – falei exasperada
-Calma Di, talvez não demore muito...
-Como não? Oh, céus! – levei as mãos ao rosto enquanto lágrimas rolavam – não, eu não vou conseguir agüentar uma nova separação...
Dr. Alberto olhava-me com uma expressão inconfundível de espanto e desconcerto.
-Mas eu não entendo...a senhora não está feliz em deixar esse lugar? Responderá ao processo em liberdade!
-Claro, Doutor - antecipou-se Rúbia – não se preocupe. Bom trabalho. Eu aguardarei notícias. Bom trabalho! – levantou-se.
-Farei o possível para tirá-la daqui o mais rápido possível – despediu-se.
Após a saída do advogado, Rúbia abraçou-me levantando-me da cadeira onde estava.
-Calma amor, afinal é uma boa notícia, você vai estar livre disso tudo...
-Como livre? Que tipo de liberdade pode haver longe de você? Eu vou estar presa as cadeias da saudade, da angústia, do medo de te perder, da sua ausência...como poderei viver assim?
Uma guarda veio nos levar de volta a nossas celas.
-Amanhã de manhã conversamos, tá bem? Fique calma, vai dar tudo certo.
Mas uma noite terrível. Sonhei com a liberdade todas as noites em que estive presa e Rúbia encontrava-se em São Paulo, mas agora que ela estava aqui comigo, era quase uma tortura física ter que deixa-la. Sabia que ela também sentiria a minha falta, estávamos acostumadas a nos vermos todas as manhãs, no refeitório, no pátio durante o banho de sol, a conversar, a rir e aos momentos de amor urgente na lavanderia. Como ela ficaria ali, sem mim? Como eu ficaria lá fora, sem ela?
Na manhã seguinte, nos encontramos no refeitório.
-Meu amor, eu sei que é difícil, eu também sinto muito ter que vê-la partir, mas você precisa ir...Seja forte, agüenta mais um pouco. Eu tenho certeza que em breve eu também vou deixar esse lugar e aí vamos nos encontrar, e nada, nem ninguém irá nos separar de novo...Eu quero que agüente firme, como eu irei agüentar...Vá para São Paulo, fuja daqui, você sabe a quem deve procurar. Nunca mais eles irão te pegar novamente. Eu farei a mesma coisa assim que puder sair e nós vamos recomeçar a nossa vida, sem mais nada a nos atrapalhar, está bem?
-Dói demais Rúbia...- disse entre lágrimas.
-Eu sei, meu amor. Mas é por pouco tempo, eu tenho certeza. Vencemos a primeira etapa, você vai estar livre...Agora só falta mais um pouco, acredite.
 
...Depois de te perder, te encontro com certeza, talvez no tempo da delicadeza, onde não diremos nada, nada aconteceu, apenas seguirei como encantado ao lado seu. – Chico Buarque (Todo Sentimento).
 
  FINAL
 
Na tarde do dia 17 de junho de 1970 deixei o presídio. O coração em prantos por mais uma vez me ver longe da minha outra parte, razão principal da minha vida. Mas em nome desse mesmo amor, saí da prisão decidida a contar a todo mundo os acontecimentos passados, as torturas infligidas, os métodos da repressão. Queria denunciar os militares e fazer dessas denúncias um meio de mobilização para a luta contra a ditadura. Levo, sim, muitas marcas na alma, sobretudo a marca da memória. Não quero esquecer, isso me fortalece e me impele a prosseguir lutando contra toda opressão, para que não exista tortura – nunca mais! E cada vez mais eu acredito que nem tortura, nem repressão, nem assassinatos destruirão a têmpera do povo brasileiro em sua decisão de lutar contra o autoritarismo. Somente há repressão porque há luta pela liberdade, a ditadura militar também encontrará o seu fim, pois não poderá fazer passar o fascismo e o terror sobre os anseios de liberdade de um povo.
Após minha saída, viajo imediatamente para São Paulo, onde, depois de tomadas severas medidas de segurança, retomo o contato com a organização. Logo entro na clandestinidade e em agosto sou deslocada para cumprir uma tarefa da direção municipal em Recife. Lá nos reunimos em uma chácara em Igarassu, onde passamos a discutir e coordenar as ações que seriam implementadas. Acabo por assumir o Comando Zonal da AP no Recife, ao lado de duas outras mulheres de luta, a Selma e a Marina. As atividades são intensas e consomem quase todo o meu tempo, no entanto nada me faz deixar de sentir o rio de saudades em que a ausência de Rúbia me projeta. O tempo passa e com muito custo, em raras ocasiões, consigo notícias dela, através de um processo complicado que envolvia minha mãe, D. Gigi e alguns companheiros da AP em São Paulo.
Era um tempo difícil. Morando inicialmente em um pensionato, depois em casas de simpatizantes até dividir, com outras duas companheiras, uma casa pequena de vila. Sobrevivíamos com poucos recursos e o apoio dos simpatizantes era decisivo. Nos faltava quase tudo – aparelhos para reuniões, dinheiro para alimentação, para o transporte e o jeito era nos reunirmos caminhando pelas ruas do Recife. O cansaço torna-se cada vez mais evidente. Em uma tarde, Luciano, membro da direção regional, acompanha-nos, a mim e a Selma, em uma longa prestação de contas de algumas horas e muitos quilômetros. Angustiada, disparo:
-Tem horas que dá vontade de dar um tiro na testa, sentar no meio fio e chorar!
-Idealismo puro, camarada! – retruca Luciano – pelo menos inverta a ordem das coisas, pois, se atirar primeiro não haverá tempo para sentar no meio fio e chorar.
Às gargalhadas e abraçados, seguimos a caminhada e a reunião.
Enfim, em agosto de 1971, recebo uma mensagem dos companheiros em São Paulo: Rúbia havia sido libertada e aguardava a minha volta! Uma semana foi o tempo máximo que levei para me desligar dos trabalhos em Recife e voltar para São Paulo. Foi o reencontro com a minha vida. Desta vez, prometemos a nós mesmas que nada mais iria nos separar, estaríamos juntas pra sempre, em tudo, todas as atividades, custasse o que custasse. Passamos a morar em um largo vão, na realidade um sótão transformado em quarto e cozinha, de um sobrado na Vila Mariana, que, como tantos outros, virou pensão. Antes de voltarmos às atividades, resolvemos tirar umas "férias" de tudo e de todos. Foram duas semanas quase sem sairmos de casa, nos amávamos loucamente, tantas e tantas vezes, que passávamos quase todo dia sem uma única peça de roupa no corpo. Dias maravilhosos, de novas descobertas em longos jogos sensuais, carregados de luxúria e prazer. O único contraponto a nossa felicidade foi que durante esse período pude perceber que havia algo de errado com a saúde de Rúbia. Em dados momentos quedava-se tão cansada que mal conseguia levantar-se, mesmo sem ter feito grandes esforços. Outras vezes palpitações, outras falta de ar. Enfim, consegui convencê-la a realizar alguns exames, que ela, como médica, bem saberia quais.
Após o nosso período de "férias", partimos em uma maratona de consultas e exames até que veio o diagnóstico: Rúbia adquiriu após a prisão uma grave cardiopatia, que reduzia em até 40% a sua capacidade respiratória, uma doença de prognóstico ruim e tratamento difícil, que exigia consultas semanais, exames constantes e muitos medicamentos. Vivíamos na clandestinidade, usávamos documentos falsos, mas mesmo assim conseguimos conciliar as exigências médicas e as tarefas propostas pela organização. Pertencemos a célula de "serviços", articulando pessoas para o cumprimento de tarefas de suporte, fazendo ligações entre membros da direção e cuidando das finanças. Em 1972 a AP intensifica o processo de aproximação com o Partido Comunista do Brasil (PC do B), terminando por incorporar-se a este partido no ano seguinte. Nós participamos desse processo e ingressamos no PC do B. No segundo semestre de 1973 a doença de Rúbia se agrava e torna-se muito difícil manter a clandestinidade com as exigências do tratamento. O partido então decide nos enviar para o exterior, onde teríamos tarefas de organização de movimentos de solidariedade à luta do povo brasileiro. Viajamos para Buenos Aires no dia 8 de setembro de 1973.
Ao chegarmos, ficamos alguns dias desfrutando as belezas da cidade, que traz em sua arquitetura profundas nuances européia, ao lado de uma parte modernamente urbanizada. Compramos algumas roupas de frio, passeamos pela Calle Florida, olhamos as livrarias na Calle Corrientes, vamos ao Parque de Palermo. Os passeios, mesmo ao sopro de um vento frio cortante, fazem bem a Rúbia, estamos descansadas e resolvemos então procurar o contato do partido, iniciando nossas atividades. Era dia 11 de setembro e ao olharmos o painel luminoso do jornal El Clarin , lemos consternadas: "cae Allende! Cerco en La Moneda! Allende resiste" . E o letreiro vai passando e nós, nervosas e tristes, vamos lendo a trágica notícia: "Allende asesinado". Mais um golpe militar na América Latina, dessa vez no Chile. O imperialismo mostra de novo a sua cara, viriam outras perseguições, torturas, desaparecimentos e mortes. No dia seguinte encontramos o nosso contato, o companheiro Dimas. Ele diz que nossa tarefa primária será a de participar do Comitê de Solidariedade ao Chile, lutar contra as prisões e assassinatos e pela saída imediata de todos os exilados abrigados em Embaixadas, inclusive junto ao governo Argentino, no sentido de oferecer condições para recebê-los. Ficamos sabendo que há muitos brasileiros em Embaixadas, especialmente na Embaixada Argentina, e a luta é para retirar todos de lá. Deveríamos também relacionar o trabalho do povo brasileiro contra a ditadura militar, denunciar as torturas praticadas no Brasil e sobretudo promover os feitos da guerrilha do Araguaia e conquistar solidariedade à luta dos guerrilheiros.
Julho de 1974. após dez meses de trabalho intenso, mais uma vez o cenário muda. Morre o presidente argentino Perón e a situação política no país se agrava. Assume o governo Isabelita Perón, sem qualquer preparo, e passa a ser influenciada por Lopez Rega, figura esquisita, apelidada de el brujo (o bruxo) por causa dos seus métodos obscuros e maquinações. Recomeçam as perseguições políticas, prisões são feitas, manifestações e reuniões são reprimidas, há perigo para os exilados e comenta-se que há policiais brasileiros infiltrados na Argentina. Nesse mesmo período, Rúbia tivera uma forte crise de arritmia cardíaca que a deixou em repouso absoluto por vários dias. Diante desse quadro, decidimos que já não podíamos mais permanecer na Argentina e começamos então uma romaria atrás de instâncias que encaminhassem nosso caso às Embaixadas que pudessem conceder asilo. Nos dirigimos ao grupo Associação de Psiquiatria, que estava ajudando na saída de estrangeiros que, ao expormos nosso caso e a situação de saúde de Rúbia, nos coloca na lista de prioridade. Enfim somos aceitas pela Embaixada da Suécia e em fevereiro de 1975 estamos sobrevoando Estocolmo, onde passaríamos exiladas os próximos quatro anos de nossas vidas.
Foram anos intensos. Tínhamos aulas de sueco diariamente, um idioma difícil para os latino-americanos, que não conseguem assimilar sua musicalidade, e Rúbia começa a tratar da saúde no hospital Karolinska, tudo com financiamento do governo até conseguirmos trabalhar. Após algum tempo passo a trabalhar na Rádio Suécia, em um programa em português especial para o Brasil, Angola, Portugal e Moçambique. Rúbia logo descobre que pode trabalhar como enfermeira em um hospital devido a sua formação em medicina no Brasil, e então consegue emprego às noites de Sábado e Domingo no hospital Nacka. Organizamos o Comitê Sueco de Solidariedade ao Brasil, juntamente com outros exilados, entrando em um ritmo acelerado de denúncias e divulgação da luta no Brasil, incluindo a exigência de anistia geral, ampla e irrestrita a todas os presos políticos. Em janeiro de 1976, participamos como testemunhas do Tribunal Russell na Itália, sobre os crimes do imperialismo na América Latina. Em dezembro desse mesmo ano, lemos nos jornais a notícia do que se chamou de "massacre da Lapa", onde foram presos e assassinados três conhecidos, membros da Executiva do Comitê Central do PC do B. Em 1977, viajamos a Albânia, país socialista, para um curso sobre marxismo-leninismo, onde somos recebidas na capital Tirana com grande festa e pompa pelo governo local, com flores na pista, intérpretes e membros do Partido do Trabalho da Albânia no comitê de boas vindas. Sobre a doença de Rúbia, os camaradas albaneses já estavam informados e foram muito solidários. No segundo dia após a nossa chegada fomos procuradas pelo melhor médico especialista em coração de Tirana. Após alguns exames, ele declara estar Rúbia em boas condições e liberada para cumprir a programação, desde que dentro dos limites.
O duro no exílio é saber que não se pode voltar, a proibição do retorno, é o sentir-se presa a outra cultura, a outro país, o que exige enorme esforço de adaptação, tudo sem perder a identidade nacional, as referências históricas, os amigos que ficaram, a família, os sonhos...é claro que tudo fica mais fácil quando se está ao lado da pessoa que amamos. Durante todo esse tempo sempre estivemos juntas, nunca nos separamos em qualquer viagem que fosse necessária e o nosso relacionamento nunca foi questionado por ninguém. Mesmo com as limitações impostas pela doença, Rúbia e eu nos amávamos diariamente, era uma necessidade incontrolável que sentíamos de nos entregarmos ao turbilhão da nossa paixão e desejo. O nosso amor e os nossos ideais comuns nos completava de tal forma que éramos como uma só pessoa, em nossos risos, em nossas dores, em nossos prantos, em nossas saudades.
Enfim, após anos de intensa luta no Brasil e no mundo, no dia 28 de agosto de 1979, o presidente João Batista Figueiredo sanciona a Lei 6.683, a Lei da Anistia, que garante o fim de todos os processos e a libertação de todos os presos políticos, garantia a volta segura de todos os exilados, mas também, por outro lado, alcança os militares torturadores e assassinos do regime, que não poderiam ser processados e presos pelos crimes que cometeram. No final de mês de setembro de 1979, retornamos ao Brasil e fixamos residência em Salvador. Tornei-me professora de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia, enquanto Rúbia trabalha em alguns hospitais e clínicas.
 
 
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Outubro de 2004. Estava no banheiro do apartamento que morávamos no bairro de Nazaré, dando os últimos retoques na leve maquiagem que usava quando Rúbia entra:
-Uau!
-Não acredito! Você ainda tá assim? Daqui a pouco começam a chegar os nossos convidados Rúbia...
-Eu sei meu amor, eu me arrumo rapidinho – disse me abraçando, beijando-me a testa.
-Como estou? – perguntei sorridente
-Para uma sexagenária senhora, até que não tá mal!
-Ei! – disse-lhe dando um leve tapa no braço – não esqueça que você é mais velha do que eu viu? Eu estou no segundo ano dos sessenta, meu bem. Você já passou do quinto!
-Pois é, minha senhora. Somos duas idosas felizes e apaixonadas, não é maravilhoso isso?
-É sim, meu amor. Como você está se sentindo?
-Bem...acho que dá até pra dançar com você um pouquinho...
-Ah, ah, ah, vai sonhando...bem que eu queria, mas já me sinto feliz só de estar do seu lado.
Beijou-me os lábios e foi se arrumar com a ajuda de D. Zica, enfermeira que contratamos. Naquela noite receberíamos os nossos novos e antigos amigos para comemorarmos os 37 anos de nossa união. Seria uma noite especial pois muitos vieram de Belo Horizonte, como Suzana, irmã de Rúbia, que traria a família e sua recém-chegada netinha, as amigas dos tempos de luta e prisão, Augusta, Marilene, Rosário, os amigos de São Paulo, Pedro Luiz, Sérgio e Emília, os baianos, companheiros da mocidade, Célia e Agnaldo, há muito casados, Alberto, Lúcia e todos os que fizeram parte da nossa vida ao longo de todos esses anos. Meus pais e D. Gigi já haviam partido e hoje eram saudade e lembrança em nossos corações. Rúbia havia feito questão da presença de todos os antigos amigos por uma única questão: seu estado de saúde agravara-se muito, a ponto de fatigar-se ao extremo diante de movimentos corriqueiros como caminhar da sala até a cozinha. Há cerca de oito anos fizera uma cirurgia cardíaca que lhe deu uma certa melhora. Mas hoje o prognóstico era um só, deveria submeter-se a um transplante em São Paulo, no máximo até o mês seguinte. Foi uma reunião inesquecível, nos emocionamos inúmeras vezes às lembranças trazidas pelos nossos amigos, os tempos de luta, a dor da tortura, as separações, o exílio, a perda de pessoas queridas assassinadas, enfim, todos os nossos anos revisitados entre lágrimas e sorrisos. Nossa união era festejada por todos como um exemplo de como amar pode dar certo, diziam ver em nós a mesma chama do amor que nos envolveu há mais de trinta anos atrás, o mesmo carinho, o mesmo zelo, a mesma devoção. Em dado momento, estávamos sentadas no espaçoso sofá da sala quando Rúbia pede a atenção de todos:
-Queridos amigos, por favor, um pouco da atenção de todos vocês(...) como todos sabem em alguns dias esse caco que vos fala... – alguns riram – ...vai estar em São Paulo para um pequeno "recall", meio tardio é verdade, mas o fato é que antes de ir eu tenho que dizer algo. Todos, todos vocês que estão aqui presentes fazem parte da minha alma, e sempre estarão comigo onde quer que eu vá, cada um de vocês estará comigo eternamente, me fazendo sempre sentir privilegiada por conhecer profundamente o sentido da palavra amizade...
-Rúbia, por favor, isso não é uma despedida...- disse-lhe mansamente
-Amo-te minha senhora – olhou-me afetuosamente - Meu amor não cabe em si, de tão grande, não se cabe. Amo-te da maneira mais profunda que se pode amar alguém, tanto que, por ser tanto o amor, além de te amar, amo a todos... de verdade.
Não pude conter as lágrimas. Nos abraçamos enquanto a emoção tomava conta de todos os presentes, solidários ao nosso amor e luta. Ela então continuou:
-Se eu me for, meus amigos, meu amor, desejo que meu corpo seja cremado ao som de Ode à Alegria, e as cinzas trazidas pra cá, para a Bahia, terra querida do meu bem e que se tornou minha também. Quero que minhas cinzas sejam jogadas no mar da praia de Guarajuba, a mais bonita do mundo...
E a noite transcorreu serena, envolvendo de emoção e carinho todos os presentes.
No dia 20 de novembro de 2004, Rúbia é submetida a um transplante cardíaco no Hospital da Beneficência Portuguesa em São Paulo. Um dia antes da cirurgia, porém, entrega-me um envelope fechado contendo uma pequena carta:
-Meu amor, eu sei que já lhe disse tantas vezes o quanto te amo, mas se não me veres de novo, quero que leia isso...
-Você vai voltar, meu amor – disse entre lágrimas – volta, por favor !
-Voltar, meu amor? Mas como se eu nunca te deixarei? Aconteça o que acontecer, eu nunca te deixarei, minha senhora – disse enquanto me abraçava.
O transplante ocorreu sem problemas, mas os médicos não conseguiram debelar uma infecção pós-cirúrgica. No dia 24 de novembro de 2004, a luz que iluminou a minha vida desde a minha mais inocente mocidade se apagou. Rúbia partiu e na carta que me deixara eu li:
Minha Senhora,
Com que amor eu te quis e fui feliz! Um amor que está para além de todas as coisas pequenas, um amor completo, em totalidade. Não sofra a minha ausência, minha querida, o tempo do nosso amor não se consumará. Uma parte de mim embarca e se transmuta em energia, que fertilizará as nossas velhas esperanças. Outra parte permanecerá, como substância eterna e perene, a acalentar nossos eternos sonhos e dar significado à vida que escrevemos juntas. Para onde eu vou, meu grande amor, levo comigo a sua carne, o seu suor, o seu cheiro, a sua pele, levo a intensa luz do seu sorriso para iluminar os caminhos por onde passarei e por onde deixarei as marcas do nosso amor, em uma trilha encantada, para que, no nosso novo dia, você possa enfim me reencontrar.
Sua, eternamente sua,
Rúbia.
 
No final da tarde do dia 25, no crematório da Vila Alpina em São Paulo, seu corpo foi levado a cinzas, como ela queria, ao som de Ode à Alegria, da Nona Sinfonia de Beethoven, que foi escrita baseada em um poema de Schiller, poeta alemão da sua época, que fala da alegria e da necessidade de a humanidade definir seu rumo ao sol e, antes de ter confiança nos deuses, confiar em si própria, para que talvez o maior deus da humanidade seja ela mesma. Esse trecho da Nona Sinfonia expressa toda a visão que Rúbia tinha da vida e da militância.
Quanto a mim, restou-me a inevitável espera do dia em que possamos, enfim, outra vez recomeçar...
 
FIM

( Detalhes sobre a fic no blog )

 

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