-
-
- A barreira entre
o certo e o errado é uma fina linha prestes a se romper. A realidade
e a ilusão se encontram num mesmo plano e tudo pode acontecer nesse
mundo de sonhos.
-
- Bem vindo ao infinito".
-
- D. B.
-
-
- Ultimo dia de aula
na faculdade. Ultima aula de sociologia. E todos passaram, por incrível
que pareça.
-
- O relógio marcava
22:30. Todos estavam indo para o bar comemorar o fim do primeiro semestre.
Todos menos Andréia Müller. Mais uma vez ela ia se encontrar
com a sinistra professora de Sociologia em seu consultório para mais
uma sessão de regressão. Não que ela acreditasse "naquela
baboseira", mas pelo menos não veria sua paixão, Lívia,
ficando com outra pessoa.
-
- Quando descia os corredores
em direção à sala foi barrada por Carol, grande amiga
de Lívia.
- - Você não
vai ao bar, Müller?
- - Acho que não...
- - Lívia vai
sentir sua falta...
-
- Aquilo deixou Andréia
apreensiva. Ela nunca fez falta para Lívia, por que agora seria diferente?
- - Sem essa, Carol.
Não vou fazer papel de palhaça de novo...
- - O que é isso,
Andréia! Bom, vim te chamar porque ela pediu. Você vai se quiser.
-
- Andréia suspirou
fundo e observou Carol descendo pelo corredor. Talvez se tivesse visto o
sorriso sarcástico no rosto da jovem não teria mudado seu
trajeto e ido em direção ao bar onde todos estavam.
-
-
- - Olha só quem
resolveu aparecer. Müller! Que milagre é esse? Não está
se reunindo com a "Dra. Estranha". Resolveu juntar-se aos reles
mortais?
- - Oi, Lívia...
Parabéns pela sua monografia...
-
- Lívia sorriu
com o cumprimento inesperado. Todos costumavam chegar perto dela por vários
motivos fúteis, ninguém nunca a parabenisou por nada. Sentiu
uma pontada de vergonha naquele momento, mas seu orgulho e sua imagem eram
mais importantes que qualquer coisa.
- - Obrigada. Vai beber
conosco?
- - Talvez uma cerveja...
-
- Lívia pediu
mais um copo e serviu Andréia. A jovem não se sentia bem no
meio dos amigos de sua amada, mas fazia o esforço apenas para ficar
perto dela.
-
- O tempo foi passando,
a conversa foi rendendo. Até que alguns dos amigos dela eram gente
boa e não suportavam a atitude de Lívia com relação
à jovem, mas o poder de persuasão daquela mulher era maior
e todos acabavam ficando ao seu lado o tempo todo.
-
- Por volta das duas
da manhã Lívia pediu que alguém a acompanhasse até
o carro para pegar sua carteira. Uma outra jovem que estava com o grupo
se prontificou antes que Andréia pudesse se manifestar. Seu peito
começou a bater forte e um ciúme doloroso tomou conta do seu
coração. Tentou não demonstrar, mas era impossível
dado ao fato de que todos sabiam de sua paixão por Lívia.
-
- Lívia estava
linda, como sempre. Usava uma calça jeans justa e camiseta branca.
Simplicidade era seu forte e mesmo assim tinha um estilo que envolvia a
todos.
-
- Andréia observou
Lívia sumir pela rua acompanhada da jovem, que também era
muito bonita. Tentou ignorar; impossível.
-
- Carol sorriu de repente
e comentou com os colegas.
- - Aquela lesada da
Lívia deixou a carteira dela na minha bolsa. – e virando-se para
Andréia sorriu maquiavélica – Você poderia ir até
lá avisar que está aqui, Müller? Senão ela vai
ficar procurando a noite toda igual doida.
-
- A jovem teve um péssimo
pressentimento, mas como fazia de tudo para ficar perto de Lívia
ignorou mais uma vez a razão e começou a andar em direção
ao estacionamento.
-
- A rua estava vazia
e poucas pessoas passavam por ali naquele momento. Andréia acelerou
o passo para chegar mais rápido ao carro de Lívia. Talvez
se tivesse seguido a voz dentro de sua cabeça que vive tentando acorda-la
não tivesse tido sua última decepção da noite.
-
- Ao chegar ao carro
encontrou as duas mulheres agarradas uma à outra dentro do carro.
Lívia arrancava a blusa da jovem com uma das mãos enquanto
a outra explorava regiões mais íntimas. A jovem gemia, os
vidros embaçados mostravam que não haviam perdido tempo. Lívia
parecia fazer aquilo mecanicamente, apenas prazer e nada mais.
-
- Andréia sentiu
algo errado em seu estômago e sem ter tempo de se esconder uma golfada
de vômito jorrou no chão perto do carro. Tossiu algumas vezes
e ajoelhou-se no chão. Estava enojada com aquilo. Nunca tinha pegado
Lívia numa situação tão íntima. Não
podia acreditar que tinha caído naquela de novo. Parecia que aquela
mulher tinha uma necessidade doentia de mostrar que conseguia o que queria,
ou quem queria. Estava se exibindo novamente.
-
- Tentou se levantar,
mas sentiu a cabeça rodar. Queria sair dali rápido, mas não
conseguia. De repente sentiu alguém a puxar pelo braço. Era
Lívia. Ela parecia constrangida, como nunca Andréia havia
visto antes. A jovem que estava com ela desceu do carro enquanto colocava
a blusa p dentro da calça.
- - O que está
havendo?
- - Pode ir embora, Ana.
Depois a gente conversa.
- - Mas...
- - VAI!
-
- O pedido era uma ordem
clara e ninguém contestava as vontades da poderosa Lívia.
Aquilo deixou Andréia mais enjoada ainda. Mesmo assim não
conseguia deixar de sentir um conforto estranho nos braços da pessoa
que tanto amava sem saber porque.
- - Você está
bem? O que está fazendo aqui?
- - Com certeza não
estou me divertindo tanto quanto você...
- - Pára com isso,
Andréia. Quer que eu te leve para casa. Você está pálida.
- - Não precisa,
estou bem...
- - Desculpe por você
ter presenciado... Humm... Bem...
- - Não precisa
se explicar, Lívia. Você faz o que bem quiser da sua vida.
Sempre fez...
-
- Dizendo isso Andréia
começou a andar em direção ao prédio da faculdade.
Passando em frente ao bar notou que Carol e algumas amigas riam enquanto
conversavam com a jovem que estava com Lívia minutos atrás.
Sentiu vontade de morrer, de sumir no vento. Correu para o único
lugar onde se sentiria à vontade naquele momento. Esperava que a
Dra. Wundt estivesse acordada.
-
-
- Lívia chegou
ao bar logo depois que Andréia havia passado por ali. Notou que suas
amigas riam e pode imaginar o motivo. Aquilo estava errado.
- - Posso saber de que
as mocinhas estão rindo tanto?
- - Sua amiguinha passou
aqui igual a um foguete. Acho que ela viu o que não queria.
-
- Uma risada chamou a
atenção de todo o bar. Todos sabiam que Carol não era
flor que se cheirasse e com certeza havia feito mais alguma de suas maldades.
-
- Lívia sorriu
para os outros como se também achasse graça no que estavam
rindo e empurrou a jovem com quem ficara a pouco para o lado, chegando mais
perto de Carol. Chegou o rosto bem próximo da amiga e sorriu de lado,
como sempre fazia quando queria ser irônica.
- - Hoje é você
quem ri. Amanhã pode ser ela. Cuidado.
-
- Dizendo isso virou
as costas para todos e foi embora deixando todos com uma grande interrogação
na testa.
-
-
- Enquanto dirigia para
casa Lívia pensava porque não tinha coragem de dizer o que
sentia por Andréia. Admiração, vontade de estar sempre
perto, mas suas amigas sempre faziam chacota da jovem e davam um jeito dela
se sentir mal e sair de perto. O fato era que Lívia tinha todos em
sua mão porque todos a respeitavam. Ela fazia o que bem entendia
com as pessoas, mas não se envolvia com ninguém, nunca demonstrou
seus sentimentos na frente dos amigos, que na verdade, não passavam
de colegas interesseiros que queriam apenas estar ao lado da mulher mais
popular e linda da faculdade.
-
- Um medo estranho de
se deixar levar pelo coração a incomodava há meses,
desde que vira a jovem Andréia pela primeira vez nos corredores da
faculdade. O jeito delicado com que ela tratava as pessoas, o sorriso singelo
e maravilhoso, os cabelos compridos sempre com um penteado diferente, uma
trança aqui, uma presilha ali.
-
- Estava apaixonada,
mas não podia falar isso com suas amigas. Não, elas a achariam
fraca demais e todo o respeito que levou anos para conseguir iria por água
abaixo. Mais seis meses e estaria fora da faculdade. Nunca mais teria que
olhar na cara de Carol e suas amigas... Nem de Andréia.
-
-
- Andréia desceu
as escadas do corredor de ciências sociais correndo e chorando. Em
segundos chegou à sala da Dra. Wundt. Ela ainda estava acordada,
como era de costume.
- - Já tinha desistido
de você hoje. Todos foram para o bar... – Wundt olhou nos olhos vermelhos
de Andréia -... Aconteceu alguma coisa?
- - Não...
- - Lívia estava
lá, não é?
-
- Andréia baixou
o rosto. Era humilhante que todos soubessem de sua paixão por Lívia.
- - O que ela fez dessa
vez?
- - Não quero
conversar sobre isso, Carla.
-
- O amor não tinha
realmente nada a ver com decência. Não mesmo. Todo o juízo
que Andréia tinha ia por água abaixo e nada mais parecia fazer
sentido. Os olhos azuis, a boca vermelha, o corpo perfeito. Lívia
era uma escultura tentadora e ao mesmo tempo uma pessoa que poderia sugar
todo o seu sangue por prazer.
- - Esquece dessa vagabunda,
Muller! Você é muito areia para ela!
- - Talvez... – Andréia
suspirou. Não queria discutir sua vida sexual mais uma vez. Olhou
para o divã e os livros espalhados pela sala - Essa coisa sua vai
funcionar hoje, ou não?
- - Se você não
relaxar com certeza vai ser como das outras vezes... – Wundt pegou algo
numa gaveta e acendeu – Quer fumar "uzinho" para relaxar?
- - Pode ser...
-
- Minutos depois a jovem
se acomodou no velho divã e sentiu seu corpo dormente, leve. A mistura
da droga com o álcool ajudou a acentuar a sensação
de leveza. Ela deitou-se no divã e suspirou de olhos fechados. Queria
não pensar em Lívia, mas parecia impossível.
- - Bom... Vamos lá.
– interrompeu a Dra.
- Wundt colocou no aparelho
de som uma musica relaxante e começou a falar de lugares agradáveis.
Colinas floridas, campos gramados, lagos espelhados. Tudo de uma beleza
quase palpável. Andréia prestava atenção às
palavras de sua professora e amiga e tudo parecia fluir com mais leveza
que as demais vezes. Já haviam tentado o processo de regressão
inúmeras vezes, porém, todas sem sucesso. Num determinado
momento a voz de Wundt tornou-se apenas um breve sussurro.
- - Está vendo
uma porta, Müller?
-
- Andréia tentava
ver a porta, mas não conseguia enxergar naquele campo ensolarado.
Pensou que da próxima vez levaria seus óculos, mas talvez
isso fosse bobagem. De repente, franzindo os olhos, avistou algo. Parecia...
- - A porta... – sua
voz fluiu devagar.
- - Está vendo
a porta agora, Müller?
- - Sim...
- - Você se sente
segura para entrar?
- - Sim...
- - Então entre.
E lembre-se: para sair procure essa mesma porta.
-
- Andréia seguiu
em direção a porta. A claridade parecia aumentar a cada passo;
a visualização se tornava cada vez mais difícil. Até
que tudo escureceu. Ela esfregou os olhos, achou que tinha dormido e tido
um sonho estranho. Tentou se levantar, mas sentia-se zonza. Colocou a cabeça
entra as pernas para ver se passava, pelo menos nos filmes isso resolvia.
Nesse instante ouviu uma voz.
- - Você está
bem?
-
- Não conseguia
ver nitidamente quem a chamava, mas a voz forte a tranqüilizou e fez
com que se sentisse segura. Então esse alguém a ajudou a levantar
passando o braço em sua cintura.
- - Vou te levar para
casa. Aonde você mora?
- - Não sei...
Onde estou?
- - Como assim "onde
está"?
-
- Andréia abriu
os olhos, finalmente, e pode ver a figura à sua frente.
- - Li... Lívia?
- - Você deve
estar me confundindo. Meu nome Luna. E o seu é...?
- - Humm... Meu nome...–
ela olhou à sua volta, aquele lugar não se parecia com o consultório,
muito menos com a sua cidade e aquela mulher à sua frente tinha de
ser Lívia. Achou melhor não dizer seu nome ainda –... Não
me lembro... Onde estou?
- - Não sei
o que você andou tomando, mas parece que afetou alguma parte do seu
cérebro. Andou fazendo parte das experiências do Dr. Wundt?
- - Dr. Wundt...?
- - Dr. Peter Wundt.
Aquele velho louco usa qualquer um de cobaia. Vamos para a minha casa e
talvez você se lembre de algo depois de descansar um pouco.
-
- Andréia não
tinha forças para discutir. Não sabia o que estava acontecendo,
nem onde estava. Olhou novamente à sua volta enquanto a estranha
sósia de Lívia a carregava para algum lugar.
-
- Estavam saindo de
um beco escuro e enlameado. Era noite e fazia frio. Ela sentia o frio cortando
sua pele. Definitivamente não estava mais no Brasil. Viu neve nas
ruas, que não passavam de pequenas ruelas. Viu bondes puxados por
cavalos, carroças, pessoas com roupas estranhas andando e olhando
para ela como se ela fosse uma estranha, uma aberração.
A iluminação era péssima, mau se enxergava alguns metros
à frente, mas pode notar pequenas hospedarias e casas com luzes coloridas
na porta. De alguma delas mulheres se esbaldavam nas janelas e homens bêbados
gritavam coisas obscenas. Aquilo a lembrou de histórias sobre Sodoma
e Gomorra, mas não poderia ser. Como se não bastasse tudo
que via até agora notou que todos falavam outro idioma, inclusive
ela! Mas ela não sabia falar francês... Sabia?
-
- Alguns minutos depois
chegaram a uma igreja. Luna bateu duas vezes e um padre veio abrir a porta.
- - Mais uma pobre
coitada? – indagou um senhor com mais ou menos 60 anos.
- - Não sei...
Talvez essa seja louca de natureza.
- - Ei, eu ouvi isso!
- - Perdão,
cherrie... Vamos, vou te deitar num lugar confortável e talvez você
se lembre onde está.
-
- Andréia não
queria se deitar. Queria entender o que estava acontecendo. Num minuto estava
com sua amiga, a Dra. Carla Wundt em sua sala, depois num campo florido
e agora em um cenário de "La vie en rose" decadente.
-
- Debateu-se o quanto
pode e conseguiu se soltar das mãos fortes daquela mulher.
- - Ei, calma aí,
mocinha!
- - Calma aí
você! Quero saber onde estou, que lugar é esse...
- - Você não
se lembra?
- - Não...
- Luna viu que a jovem
parecia falar a verdade e que, além de tudo, estava bastante assustada.
- - Certo... Por onde
começo?
- - Ano, país,
cidade... Tudo.
- - Nossa... Nunca
vi alguém tão perdida assim... – ela riu e pigarreou, começando
seu relatório - Bem vinda a Paris, cherrie. Estamos no ano de 1877.
Você está na casa de meu amigo, o padre Pierre Bertrand. O
que precisar pode contar com ele. Agora... Será que pode nos contar
como chegou aqui?
- - Se contasse não
acreditaria...
- - Experimente.
-
- Andréia sentou-se
num banco da igreja e contou tudo. De onde era, ano, país, cidade.
Falou da faculdade, da Dra. Wundt e do processo de regressão. Luna
ouviu tudo atentamente e coçava o queixo quando Andréia terminou.
- - Certo... Acho
que vou levar você para o Dr. Wundt mesmo. Ele deve gostar muito de
cobaias como você.
- - Não, não,
não... Droga. Sabia que você não acreditaria em mim.
-
- A jovem se levantou
e começou a andar em direção à porta. Luna barrou
seu caminho. Estranho como parecia já ter visto aquela jovem em algum
lugar. E como era linda. Os olhos verdes atentos a tudo, os cabelos loiros
e lisos, compridos e cheio de pequenas tranças, como os ciganos costumavam
usar por ali. Com certeza ela não era dali, mas aquela história
era demais para qualquer um.
- - Aonde pensa que
vai?
- - Voltar. Não
era bem isso que eu esperava dessa tal regressão.
- - Olha. Você
precisa de ajuda e talvez o Dr. Wundt seja a pessoa certa. Não seria
melhor...
-
- Andréia estava
confusa com tudo aquilo, mas sabia que ali não poderia ficar. Olhou
triste para Luna. Como ela tinha os olhos lindos, lindos como os de sua
amada Lívia. E como se parecia com ela.
-
- Então, um
desejo estranho veio à tona e a jovem não pensou duas vezes.
Andou em direção a Luna e beijou-a. Ficaram ali alguns segundos
que pareceram uma eternidade, num beijo quente, suave, doce. As mãos
da jovem envolveram as costas da mulher num abraço tímido
e assim elas se separaram. Andréia não acreditava no que tinha
feito, mas não se arrependia.
- - Me desculpe Luna,
não pertenço a esse lugar. – caminhou em direção
à porta e sorriu triste - Mas bem que queria...
- Dizendo isso saiu
e correu pelas ruas enlameadas. Aquilo tudo parecia um pesadelo, um pesadelo
sem fim. Encontrara uma pessoa tão perfeita quanto a maldita Lívia,
mas para ela Andréia não passava de uma louca.
-
- Correu o mais que
pode e lembrou-se do que Wundt falou antes de entrar naquela loucura. Tinha
de achar a tal porta. Mas como se não prestara atenção
ao cominho que fizera com Luna?
-
- Avistou um beco
e adentrou-o. Não havia portas ali, pelo menos não uma que
brilhasse e a levasse para seu tempo. E o frio estava deixando-a sem forças.
Devia ter ficado com Luna, pelo menos se aqueceria por mais um tempo e poderia
pensar no que fazer.
-
- Ajeitou-se num cantou
perto de uma lixeira e, com alguns jornais, tentou cobrir seu corpo do vento
e da chuva que começava a cair. Sentia suas forças se esvaindo.
Talvez aquilo fosse a sensação da morte chegando, mas se era,
não era tão ruim assim. Chegou até mesmo a ver um anjo.
Um anjo que a pegou no colo e a levou para o céu.
-
-
- Andréia acordou
no meio da noite. Sentia seu corpo ardendo em febre. Alguém estava
ali cuidando dela... Mas quem?
-
- Tentou se levantar,
não havia forças. Sentou-se com dificuldade na cama e olhou
à sua volta. Pela janela viu que chovia forte e um filete de vento
se esgueirava por buracos no teto. Sentiu um calafrio ao perceber que o
que pensou ser um pesadelo era real...
-
- Ouviu a porta abrindo.
Alguém entrou.
- - Não faça
mais isso...
-
- Uma luz fraca iluminava
o rosto de Luna. Ainda tinha os longos cabelos negros molhados e isso a
deixava mais linda do que normalmente era.
- - O que? Sair correndo
na chuva, ou...
-
- Luna ficou sem graça
e sem resposta por alguns instantes. Mas conseguiu responder.
- - As duas coisas.
Você é louca e só quero levar você para casa e
pegar a minha recompensa.
- - Casa? Recompensa?
Do que você está falando?
- - Você é
Cecilie Baudelaire Chateux e sofreu um acidente de trem quando ia para Alemanha
há quase um mês. Talvez tenha batido com a cabeça, por
isso não se lembra de nada do que aconteceu. Seus pais ofereceram
uma recompensa para quem encontrasse seu corpo. As buscas foram encerradas
há uma semana. Nada foi encontrado. Como veio parar aqui?
- - Já te contei
minha história, Luna. Você acredita se quiser.
- - Malcriada! Te
salvo do beco, do frio e da chuva, encontro sua família e você
me trata assim. – Luna olhou com desdém – Que bom que vai embora
amanhã.
- - Amanhã?
- - Seu noivo está
vindo buscá-la.
- - Noivo?
- - Descanse; amanhã
se verá livre de mim...
-
- Luna saiu batendo
a porta. Andréia sentiu-se rejeitada, agora, pela sósia de
sua grande paixão.
- - Mas eu não
disse que queria me livrar de você... – pensou alto num grande suspiro.
-
- O cansaço
estava quase dominando-a, mas ela tinha de fazer alguma coisa. Procurou
algo que pudesse vestir. Achou uma calça com suspensórios
num armário, uma camisa e um casaco. Vestiu tudo e abriu a janela.
Estava no segundo andar, mas dava para descer pelo muro. A febre a atrapalhava
de pensar. E se morresse ali naquele lugar, será que conseguiria
retornar para sua vida normal? Sacudiu a cabeça tentando se livrar
daqueles pensamentos e pulou a janela.
-
- Agora o grande problema
seria achar o beco. Andou horas pelas ruas, mas não conseguia reconhecer
nenhum daqueles lugares. Sentou-se na calçada para tentar pensar
em algo quando alguém colocou a mão em seu ombro. Imaginou
que, mais uma vez, Luna a havia encontrado. Virou-se devagar e sorriu.
- - Carla! O que está
fazendo aqui?
- - Não estou
realmente aqui. O que você está vendo é uma imagem gerada
através da minha voz. Fiquei preocupada. O que aconteceu?
- - Nossa... É
uma história longa. Preciso voltar. Sinto que vou morrer aqui.
- - Venha comigo.
-
- Wundt guiou Andréia
até um beco poucos quarteirões dali. Lá a jovem pode
ver a porta. Caminhou em direção a ela e olhou para trás.
- - Você não
vem?
- - Estarei te esperando
do outro lado.
-
- Andréia entrou
e tudo ficou claro demais para enxergar qualquer coisa. Esfregou os olhos
e tentou abri-los novamente. A Dra. Wundt olhava preocupada para ela.
- - Graças aos
deuses você voltou! Achei que tinha te perdido para sempre, seja lá
onde você estava!
-
- Andréia se espreguiçou
e sentiu dores pelo corpo, como se ela realmente tivesse passado por tudo
aquilo.
- - Eu estou bem... Acho.
- - Beba isso – Wundt
entregou um copo com água para Andréia – E descanse um pouco.
Você está com febre. Que idéia a minha de meter você
nisso...
- - Carla. Sou sua amiga,
antes de tudo, ok? Quer saber como foi minha experiência, ou não?
- - Claro, mas amanhã.
Hoje já tivemos agito demais para um dia só.
-
-
- Andréia acordou
com o barulho do telefone.
- - Que merda! Não
se pode nem descansar...
-
- Atendeu o aparelho
e assustou-se com a voz do outro lado.
- - Mãe? Ah...
Desculpa, esqueci de avisar que ia dormir fora. Estou com a Dra. Wundt.
Sim, vou ficar. Temos que resolver uns lances com relação
a uma pesquisa que vou fazer. Vou ficar por aqui uns dias, mas te ligo depois.
-
- As duas se despediram
e Andréia desligou o telefone. Olhou as horas, 12h30. Ainda assim
estava cansada. A experiência da noite anterior tinha sido fascinante,
apesar dela não acreditar que tudo aquilo não havia passado
de um sonho. Um sonho muito real.
- - Bom dia, dorminhoca!
Como se sente?
- - Com um pouco de dor
no corpo, muita fome, mas acho que estou bem.
- - Preparei algo para
comermos... Humm... Quer me contar o que aconteceu lá?
- - Bom... Foi estranho,
tudo parecia muito real. E tinha aquela mulher... Droga, essa Lívia
me persegue! Deve ser meu carma!
- - Lívia estava
lá?
- - Não a Lívia,
outra pessoa, porém, idêntica.
- - Deve ser a vida passada
dela.
- - Falou...
- - Olha, se você
não acredita por que aceitou fazer?
- - Porque você
é minha amiga e me pediu. Mas eu quero voltar lá.
- - E onde fica esse
"lá", exatamente?
- - Em algum lugar em
Paris por volta de 1877, eu acho. Eu ia me casar, mas sofri um acidente,
estava desaparecida. Essa mulher – ela se chamava Luna – ela me achou e
me ajudou muito, mas eu fugi dela.
- - Hum... Temos que
averiguar se isso que você viu realmente aconteceu.
- - Será que existem
registros?
- - Pode ser. Preciso
de todos os nomes que você ouviu para fazer uma pesquisa rápida
pela net. Enquanto isso você come alguma coisa e descansa mais um
pouco.
-
- Andréia esforçou-se
para lembrar tudo que Luna havia lhe contado. Quem ela era, onde estavam,
do acidente de trem.
-
-
- Algumas horas depois
a Dra. Wundt a chamou.
- - Ok. Encontrei alguma
coisa. Cecilie Baudelaire Chateux era filha de um dos maiores exportadores
de vinho da França do século XIX, o senhor Jean-Pierre Chateux,
e noiva de um dos homens mais ricos de toda a Alemanha, Freuderick Peter-Mayer.
Cecilie morava em Lyon com os pais e ia se casar no inverno de 1877. Porém,
numa viagem de trem para visitar uma tia em Paris, houve um terrível
acidente ferroviário onde morreram muitas pessoas. A jovem ficou
desaparecida por quase dois meses, até que uma comerciante conhecida
da região a encontrou e a levou para casa.
- - Que historia!