Além do tempo
 
Deya

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A barreira entre o certo e o errado é uma fina linha prestes a se romper. A realidade e a ilusão se encontram num mesmo plano e tudo pode acontecer nesse mundo de sonhos.
 
Bem vindo ao infinito".
 
D. B.
 
 
Ultimo dia de aula na faculdade. Ultima aula de sociologia. E todos passaram, por incrível que pareça.
 
O relógio marcava 22:30. Todos estavam indo para o bar comemorar o fim do primeiro semestre. Todos menos Andréia Müller. Mais uma vez ela ia se encontrar com a sinistra professora de Sociologia em seu consultório para mais uma sessão de regressão. Não que ela acreditasse "naquela baboseira", mas pelo menos não veria sua paixão, Lívia, ficando com outra pessoa.
 
Quando descia os corredores em direção à sala foi barrada por Carol, grande amiga de Lívia.
- Você não vai ao bar, Müller?
- Acho que não...
- Lívia vai sentir sua falta...
 
Aquilo deixou Andréia apreensiva. Ela nunca fez falta para Lívia, por que agora seria diferente?
- Sem essa, Carol. Não vou fazer papel de palhaça de novo...
- O que é isso, Andréia! Bom, vim te chamar porque ela pediu. Você vai se quiser.
 
Andréia suspirou fundo e observou Carol descendo pelo corredor. Talvez se tivesse visto o sorriso sarcástico no rosto da jovem não teria mudado seu trajeto e ido em direção ao bar onde todos estavam.
 
 
- Olha só quem resolveu aparecer. Müller! Que milagre é esse? Não está se reunindo com a "Dra. Estranha". Resolveu juntar-se aos reles mortais?
- Oi, Lívia... Parabéns pela sua monografia...
 
Lívia sorriu com o cumprimento inesperado. Todos costumavam chegar perto dela por vários motivos fúteis, ninguém nunca a parabenisou por nada. Sentiu uma pontada de vergonha naquele momento, mas seu orgulho e sua imagem eram mais importantes que qualquer coisa.
- Obrigada. Vai beber conosco?
- Talvez uma cerveja...
 
Lívia pediu mais um copo e serviu Andréia. A jovem não se sentia bem no meio dos amigos de sua amada, mas fazia o esforço apenas para ficar perto dela.
 
O tempo foi passando, a conversa foi rendendo. Até que alguns dos amigos dela eram gente boa e não suportavam a atitude de Lívia com relação à jovem, mas o poder de persuasão daquela mulher era maior e todos acabavam ficando ao seu lado o tempo todo.
 
Por volta das duas da manhã Lívia pediu que alguém a acompanhasse até o carro para pegar sua carteira. Uma outra jovem que estava com o grupo se prontificou antes que Andréia pudesse se manifestar. Seu peito começou a bater forte e um ciúme doloroso tomou conta do seu coração. Tentou não demonstrar, mas era impossível dado ao fato de que todos sabiam de sua paixão por Lívia.
 
Lívia estava linda, como sempre. Usava uma calça jeans justa e camiseta branca. Simplicidade era seu forte e mesmo assim tinha um estilo que envolvia a todos.
 
Andréia observou Lívia sumir pela rua acompanhada da jovem, que também era muito bonita. Tentou ignorar; impossível.
 
Carol sorriu de repente e comentou com os colegas.
- Aquela lesada da Lívia deixou a carteira dela na minha bolsa. – e virando-se para Andréia sorriu maquiavélica – Você poderia ir até lá avisar que está aqui, Müller? Senão ela vai ficar procurando a noite toda igual doida.
 
A jovem teve um péssimo pressentimento, mas como fazia de tudo para ficar perto de Lívia ignorou mais uma vez a razão e começou a andar em direção ao estacionamento.
 
A rua estava vazia e poucas pessoas passavam por ali naquele momento. Andréia acelerou o passo para chegar mais rápido ao carro de Lívia. Talvez se tivesse seguido a voz dentro de sua cabeça que vive tentando acorda-la não tivesse tido sua última decepção da noite.
 
Ao chegar ao carro encontrou as duas mulheres agarradas uma à outra dentro do carro. Lívia arrancava a blusa da jovem com uma das mãos enquanto a outra explorava regiões mais íntimas. A jovem gemia, os vidros embaçados mostravam que não haviam perdido tempo. Lívia parecia fazer aquilo mecanicamente, apenas prazer e nada mais.
 
Andréia sentiu algo errado em seu estômago e sem ter tempo de se esconder uma golfada de vômito jorrou no chão perto do carro. Tossiu algumas vezes e ajoelhou-se no chão. Estava enojada com aquilo. Nunca tinha pegado Lívia numa situação tão íntima. Não podia acreditar que tinha caído naquela de novo. Parecia que aquela mulher tinha uma necessidade doentia de mostrar que conseguia o que queria, ou quem queria. Estava se exibindo novamente.
 
Tentou se levantar, mas sentiu a cabeça rodar. Queria sair dali rápido, mas não conseguia. De repente sentiu alguém a puxar pelo braço. Era Lívia. Ela parecia constrangida, como nunca Andréia havia visto antes. A jovem que estava com ela desceu do carro enquanto colocava a blusa p dentro da calça.
- O que está havendo?
- Pode ir embora, Ana. Depois a gente conversa.
- Mas...
- VAI!
 
O pedido era uma ordem clara e ninguém contestava as vontades da poderosa Lívia. Aquilo deixou Andréia mais enjoada ainda. Mesmo assim não conseguia deixar de sentir um conforto estranho nos braços da pessoa que tanto amava sem saber porque.
- Você está bem? O que está fazendo aqui?
- Com certeza não estou me divertindo tanto quanto você...
- Pára com isso, Andréia. Quer que eu te leve para casa. Você está pálida.
- Não precisa, estou bem...
- Desculpe por você ter presenciado... Humm... Bem...
- Não precisa se explicar, Lívia. Você faz o que bem quiser da sua vida. Sempre fez...
 
Dizendo isso Andréia começou a andar em direção ao prédio da faculdade. Passando em frente ao bar notou que Carol e algumas amigas riam enquanto conversavam com a jovem que estava com Lívia minutos atrás. Sentiu vontade de morrer, de sumir no vento. Correu para o único lugar onde se sentiria à vontade naquele momento. Esperava que a Dra. Wundt estivesse acordada.
 
 
Lívia chegou ao bar logo depois que Andréia havia passado por ali. Notou que suas amigas riam e pode imaginar o motivo. Aquilo estava errado.
- Posso saber de que as mocinhas estão rindo tanto?
- Sua amiguinha passou aqui igual a um foguete. Acho que ela viu o que não queria.
 
Uma risada chamou a atenção de todo o bar. Todos sabiam que Carol não era flor que se cheirasse e com certeza havia feito mais alguma de suas maldades.
 
Lívia sorriu para os outros como se também achasse graça no que estavam rindo e empurrou a jovem com quem ficara a pouco para o lado, chegando mais perto de Carol. Chegou o rosto bem próximo da amiga e sorriu de lado, como sempre fazia quando queria ser irônica.
- Hoje é você quem ri. Amanhã pode ser ela. Cuidado.
 
Dizendo isso virou as costas para todos e foi embora deixando todos com uma grande interrogação na testa.
 
 
Enquanto dirigia para casa Lívia pensava porque não tinha coragem de dizer o que sentia por Andréia. Admiração, vontade de estar sempre perto, mas suas amigas sempre faziam chacota da jovem e davam um jeito dela se sentir mal e sair de perto. O fato era que Lívia tinha todos em sua mão porque todos a respeitavam. Ela fazia o que bem entendia com as pessoas, mas não se envolvia com ninguém, nunca demonstrou seus sentimentos na frente dos amigos, que na verdade, não passavam de colegas interesseiros que queriam apenas estar ao lado da mulher mais popular e linda da faculdade.
 
Um medo estranho de se deixar levar pelo coração a incomodava há meses, desde que vira a jovem Andréia pela primeira vez nos corredores da faculdade. O jeito delicado com que ela tratava as pessoas, o sorriso singelo e maravilhoso, os cabelos compridos sempre com um penteado diferente, uma trança aqui, uma presilha ali.
 
Estava apaixonada, mas não podia falar isso com suas amigas. Não, elas a achariam fraca demais e todo o respeito que levou anos para conseguir iria por água abaixo. Mais seis meses e estaria fora da faculdade. Nunca mais teria que olhar na cara de Carol e suas amigas... Nem de Andréia.
 
 
Andréia desceu as escadas do corredor de ciências sociais correndo e chorando. Em segundos chegou à sala da Dra. Wundt. Ela ainda estava acordada, como era de costume.
- Já tinha desistido de você hoje. Todos foram para o bar... – Wundt olhou nos olhos vermelhos de Andréia -... Aconteceu alguma coisa?
- Não...
- Lívia estava lá, não é?
 
Andréia baixou o rosto. Era humilhante que todos soubessem de sua paixão por Lívia.
- O que ela fez dessa vez?
- Não quero conversar sobre isso, Carla.
 
O amor não tinha realmente nada a ver com decência. Não mesmo. Todo o juízo que Andréia tinha ia por água abaixo e nada mais parecia fazer sentido. Os olhos azuis, a boca vermelha, o corpo perfeito. Lívia era uma escultura tentadora e ao mesmo tempo uma pessoa que poderia sugar todo o seu sangue por prazer.
- Esquece dessa vagabunda, Muller! Você é muito areia para ela!
- Talvez... – Andréia suspirou. Não queria discutir sua vida sexual mais uma vez. Olhou para o divã e os livros espalhados pela sala - Essa coisa sua vai funcionar hoje, ou não?
- Se você não relaxar com certeza vai ser como das outras vezes... – Wundt pegou algo numa gaveta e acendeu – Quer fumar "uzinho" para relaxar?
- Pode ser...
 
Minutos depois a jovem se acomodou no velho divã e sentiu seu corpo dormente, leve. A mistura da droga com o álcool ajudou a acentuar a sensação de leveza. Ela deitou-se no divã e suspirou de olhos fechados. Queria não pensar em Lívia, mas parecia impossível.
- Bom... Vamos lá. – interrompeu a Dra.
Wundt colocou no aparelho de som uma musica relaxante e começou a falar de lugares agradáveis. Colinas floridas, campos gramados, lagos espelhados. Tudo de uma beleza quase palpável. Andréia prestava atenção às palavras de sua professora e amiga e tudo parecia fluir com mais leveza que as demais vezes. Já haviam tentado o processo de regressão inúmeras vezes, porém, todas sem sucesso. Num determinado momento a voz de Wundt tornou-se apenas um breve sussurro.
- Está vendo uma porta, Müller?
 
Andréia tentava ver a porta, mas não conseguia enxergar naquele campo ensolarado. Pensou que da próxima vez levaria seus óculos, mas talvez isso fosse bobagem. De repente, franzindo os olhos, avistou algo. Parecia...
- A porta... – sua voz fluiu devagar.
- Está vendo a porta agora, Müller?
- Sim...
- Você se sente segura para entrar?
- Sim...
- Então entre. E lembre-se: para sair procure essa mesma porta.
 
Andréia seguiu em direção a porta. A claridade parecia aumentar a cada passo; a visualização se tornava cada vez mais difícil. Até que tudo escureceu. Ela esfregou os olhos, achou que tinha dormido e tido um sonho estranho. Tentou se levantar, mas sentia-se zonza. Colocou a cabeça entra as pernas para ver se passava, pelo menos nos filmes isso resolvia. Nesse instante ouviu uma voz.
- Você está bem?
 
Não conseguia ver nitidamente quem a chamava, mas a voz forte a tranqüilizou e fez com que se sentisse segura. Então esse alguém a ajudou a levantar passando o braço em sua cintura.
- Vou te levar para casa. Aonde você mora?
- Não sei... Onde estou?
- Como assim "onde está"?
 
Andréia abriu os olhos, finalmente, e pode ver a figura à sua frente.
- Li... Lívia?
- Você deve estar me confundindo. Meu nome Luna. E o seu é...?
- Humm... Meu nome...– ela olhou à sua volta, aquele lugar não se parecia com o consultório, muito menos com a sua cidade e aquela mulher à sua frente tinha de ser Lívia. Achou melhor não dizer seu nome ainda –... Não me lembro... Onde estou?
- Não sei o que você andou tomando, mas parece que afetou alguma parte do seu cérebro. Andou fazendo parte das experiências do Dr. Wundt?
- Dr. Wundt...?
- Dr. Peter Wundt. Aquele velho louco usa qualquer um de cobaia. Vamos para a minha casa e talvez você se lembre de algo depois de descansar um pouco.
 
Andréia não tinha forças para discutir. Não sabia o que estava acontecendo, nem onde estava. Olhou novamente à sua volta enquanto a estranha sósia de Lívia a carregava para algum lugar.
 
Estavam saindo de um beco escuro e enlameado. Era noite e fazia frio. Ela sentia o frio cortando sua pele. Definitivamente não estava mais no Brasil. Viu neve nas ruas, que não passavam de pequenas ruelas. Viu bondes puxados por cavalos, carroças, pessoas com roupas estranhas andando e olhando para ela como se ela fosse uma estranha, uma aberração. A iluminação era péssima, mau se enxergava alguns metros à frente, mas pode notar pequenas hospedarias e casas com luzes coloridas na porta. De alguma delas mulheres se esbaldavam nas janelas e homens bêbados gritavam coisas obscenas. Aquilo a lembrou de histórias sobre Sodoma e Gomorra, mas não poderia ser. Como se não bastasse tudo que via até agora notou que todos falavam outro idioma, inclusive ela! Mas ela não sabia falar francês... Sabia?
 
Alguns minutos depois chegaram a uma igreja. Luna bateu duas vezes e um padre veio abrir a porta.
- Mais uma pobre coitada? – indagou um senhor com mais ou menos 60 anos.
- Não sei... Talvez essa seja louca de natureza.
- Ei, eu ouvi isso!
- Perdão, cherrie... Vamos, vou te deitar num lugar confortável e talvez você se lembre onde está.
 
Andréia não queria se deitar. Queria entender o que estava acontecendo. Num minuto estava com sua amiga, a Dra. Carla Wundt em sua sala, depois num campo florido e agora em um cenário de "La vie en rose" decadente.
 
Debateu-se o quanto pode e conseguiu se soltar das mãos fortes daquela mulher.
- Ei, calma aí, mocinha!
- Calma aí você! Quero saber onde estou, que lugar é esse...
- Você não se lembra?
- Não...
Luna viu que a jovem parecia falar a verdade e que, além de tudo, estava bastante assustada.
- Certo... Por onde começo?
- Ano, país, cidade... Tudo.
- Nossa... Nunca vi alguém tão perdida assim... – ela riu e pigarreou, começando seu relatório - Bem vinda a Paris, cherrie. Estamos no ano de 1877. Você está na casa de meu amigo, o padre Pierre Bertrand. O que precisar pode contar com ele. Agora... Será que pode nos contar como chegou aqui?
- Se contasse não acreditaria...
- Experimente.
 
Andréia sentou-se num banco da igreja e contou tudo. De onde era, ano, país, cidade. Falou da faculdade, da Dra. Wundt e do processo de regressão. Luna ouviu tudo atentamente e coçava o queixo quando Andréia terminou.
- Certo... Acho que vou levar você para o Dr. Wundt mesmo. Ele deve gostar muito de cobaias como você.
- Não, não, não... Droga. Sabia que você não acreditaria em mim.
 
A jovem se levantou e começou a andar em direção à porta. Luna barrou seu caminho. Estranho como parecia já ter visto aquela jovem em algum lugar. E como era linda. Os olhos verdes atentos a tudo, os cabelos loiros e lisos, compridos e cheio de pequenas tranças, como os ciganos costumavam usar por ali. Com certeza ela não era dali, mas aquela história era demais para qualquer um.
- Aonde pensa que vai?
- Voltar. Não era bem isso que eu esperava dessa tal regressão.
- Olha. Você precisa de ajuda e talvez o Dr. Wundt seja a pessoa certa. Não seria melhor...
 
Andréia estava confusa com tudo aquilo, mas sabia que ali não poderia ficar. Olhou triste para Luna. Como ela tinha os olhos lindos, lindos como os de sua amada Lívia. E como se parecia com ela.
 
Então, um desejo estranho veio à tona e a jovem não pensou duas vezes. Andou em direção a Luna e beijou-a. Ficaram ali alguns segundos que pareceram uma eternidade, num beijo quente, suave, doce. As mãos da jovem envolveram as costas da mulher num abraço tímido e assim elas se separaram. Andréia não acreditava no que tinha feito, mas não se arrependia.
- Me desculpe Luna, não pertenço a esse lugar. – caminhou em direção à porta e sorriu triste - Mas bem que queria...
Dizendo isso saiu e correu pelas ruas enlameadas. Aquilo tudo parecia um pesadelo, um pesadelo sem fim. Encontrara uma pessoa tão perfeita quanto a maldita Lívia, mas para ela Andréia não passava de uma louca.
 
Correu o mais que pode e lembrou-se do que Wundt falou antes de entrar naquela loucura. Tinha de achar a tal porta. Mas como se não prestara atenção ao cominho que fizera com Luna?
 
Avistou um beco e adentrou-o. Não havia portas ali, pelo menos não uma que brilhasse e a levasse para seu tempo. E o frio estava deixando-a sem forças. Devia ter ficado com Luna, pelo menos se aqueceria por mais um tempo e poderia pensar no que fazer.
 
Ajeitou-se num cantou perto de uma lixeira e, com alguns jornais, tentou cobrir seu corpo do vento e da chuva que começava a cair. Sentia suas forças se esvaindo. Talvez aquilo fosse a sensação da morte chegando, mas se era, não era tão ruim assim. Chegou até mesmo a ver um anjo. Um anjo que a pegou no colo e a levou para o céu.
 
 
Andréia acordou no meio da noite. Sentia seu corpo ardendo em febre. Alguém estava ali cuidando dela... Mas quem?
 
Tentou se levantar, não havia forças. Sentou-se com dificuldade na cama e olhou à sua volta. Pela janela viu que chovia forte e um filete de vento se esgueirava por buracos no teto. Sentiu um calafrio ao perceber que o que pensou ser um pesadelo era real...
 
Ouviu a porta abrindo. Alguém entrou.
- Não faça mais isso...
 
Uma luz fraca iluminava o rosto de Luna. Ainda tinha os longos cabelos negros molhados e isso a deixava mais linda do que normalmente era.
- O que? Sair correndo na chuva, ou...
 
Luna ficou sem graça e sem resposta por alguns instantes. Mas conseguiu responder.
- As duas coisas. Você é louca e só quero levar você para casa e pegar a minha recompensa.
- Casa? Recompensa? Do que você está falando?
- Você é Cecilie Baudelaire Chateux e sofreu um acidente de trem quando ia para Alemanha há quase um mês. Talvez tenha batido com a cabeça, por isso não se lembra de nada do que aconteceu. Seus pais ofereceram uma recompensa para quem encontrasse seu corpo. As buscas foram encerradas há uma semana. Nada foi encontrado. Como veio parar aqui?
- Já te contei minha história, Luna. Você acredita se quiser.
- Malcriada! Te salvo do beco, do frio e da chuva, encontro sua família e você me trata assim. – Luna olhou com desdém – Que bom que vai embora amanhã.
- Amanhã?
- Seu noivo está vindo buscá-la.
- Noivo?
- Descanse; amanhã se verá livre de mim...
 
Luna saiu batendo a porta. Andréia sentiu-se rejeitada, agora, pela sósia de sua grande paixão.
- Mas eu não disse que queria me livrar de você... – pensou alto num grande suspiro.
 
O cansaço estava quase dominando-a, mas ela tinha de fazer alguma coisa. Procurou algo que pudesse vestir. Achou uma calça com suspensórios num armário, uma camisa e um casaco. Vestiu tudo e abriu a janela. Estava no segundo andar, mas dava para descer pelo muro. A febre a atrapalhava de pensar. E se morresse ali naquele lugar, será que conseguiria retornar para sua vida normal? Sacudiu a cabeça tentando se livrar daqueles pensamentos e pulou a janela.
 
Agora o grande problema seria achar o beco. Andou horas pelas ruas, mas não conseguia reconhecer nenhum daqueles lugares. Sentou-se na calçada para tentar pensar em algo quando alguém colocou a mão em seu ombro. Imaginou que, mais uma vez, Luna a havia encontrado. Virou-se devagar e sorriu.
- Carla! O que está fazendo aqui?
- Não estou realmente aqui. O que você está vendo é uma imagem gerada através da minha voz. Fiquei preocupada. O que aconteceu?
- Nossa... É uma história longa. Preciso voltar. Sinto que vou morrer aqui.
- Venha comigo.
 
Wundt guiou Andréia até um beco poucos quarteirões dali. Lá a jovem pode ver a porta. Caminhou em direção a ela e olhou para trás.
- Você não vem?
- Estarei te esperando do outro lado.
 
Andréia entrou e tudo ficou claro demais para enxergar qualquer coisa. Esfregou os olhos e tentou abri-los novamente. A Dra. Wundt olhava preocupada para ela.
- Graças aos deuses você voltou! Achei que tinha te perdido para sempre, seja lá onde você estava!
 
Andréia se espreguiçou e sentiu dores pelo corpo, como se ela realmente tivesse passado por tudo aquilo.
- Eu estou bem... Acho.
- Beba isso – Wundt entregou um copo com água para Andréia – E descanse um pouco. Você está com febre. Que idéia a minha de meter você nisso...
- Carla. Sou sua amiga, antes de tudo, ok? Quer saber como foi minha experiência, ou não?
- Claro, mas amanhã. Hoje já tivemos agito demais para um dia só.
 
 
Andréia acordou com o barulho do telefone.
- Que merda! Não se pode nem descansar...
 
Atendeu o aparelho e assustou-se com a voz do outro lado.
- Mãe? Ah... Desculpa, esqueci de avisar que ia dormir fora. Estou com a Dra. Wundt. Sim, vou ficar. Temos que resolver uns lances com relação a uma pesquisa que vou fazer. Vou ficar por aqui uns dias, mas te ligo depois.
 
As duas se despediram e Andréia desligou o telefone. Olhou as horas, 12h30. Ainda assim estava cansada. A experiência da noite anterior tinha sido fascinante, apesar dela não acreditar que tudo aquilo não havia passado de um sonho. Um sonho muito real.
- Bom dia, dorminhoca! Como se sente?
- Com um pouco de dor no corpo, muita fome, mas acho que estou bem.
- Preparei algo para comermos... Humm... Quer me contar o que aconteceu lá?
- Bom... Foi estranho, tudo parecia muito real. E tinha aquela mulher... Droga, essa Lívia me persegue! Deve ser meu carma!
- Lívia estava lá?
- Não a Lívia, outra pessoa, porém, idêntica.
- Deve ser a vida passada dela.
- Falou...
- Olha, se você não acredita por que aceitou fazer?
- Porque você é minha amiga e me pediu. Mas eu quero voltar lá.
- E onde fica esse "lá", exatamente?
- Em algum lugar em Paris por volta de 1877, eu acho. Eu ia me casar, mas sofri um acidente, estava desaparecida. Essa mulher – ela se chamava Luna – ela me achou e me ajudou muito, mas eu fugi dela.
- Hum... Temos que averiguar se isso que você viu realmente aconteceu.
- Será que existem registros?
- Pode ser. Preciso de todos os nomes que você ouviu para fazer uma pesquisa rápida pela net. Enquanto isso você come alguma coisa e descansa mais um pouco.
 
Andréia esforçou-se para lembrar tudo que Luna havia lhe contado. Quem ela era, onde estavam, do acidente de trem.
 
 
Algumas horas depois a Dra. Wundt a chamou.
- Ok. Encontrei alguma coisa. Cecilie Baudelaire Chateux era filha de um dos maiores exportadores de vinho da França do século XIX, o senhor Jean-Pierre Chateux, e noiva de um dos homens mais ricos de toda a Alemanha, Freuderick Peter-Mayer. Cecilie morava em Lyon com os pais e ia se casar no inverno de 1877. Porém, numa viagem de trem para visitar uma tia em Paris, houve um terrível acidente ferroviário onde morreram muitas pessoas. A jovem ficou desaparecida por quase dois meses, até que uma comerciante conhecida da região a encontrou e a levou para casa.
- Que historia!
- É... Mas é estranho...
- O que? Não gosta de finais felizes também?
- Não é isso. Tem uma nota em um jornal da época que dizia que Cecilie não se casou com Freuderick e que ela desapareceu de Lyon. Ninguém teve mais noticias dela.
 
As duas se entreolharam.
- Então... Essa Cecilie era eu... Em 1877? É minha vida passada?
- É... É o que parece.
- Nossa! Isso é bizarro!
- Tudo o que não conseguimos explicar cientificamente é meio bizarro. Mas nem sempre a lógica é a dona da verdade.
 
Andréia deitou-se no divã e cruzou as mãos sobre a barriga, olhando para a Dra. Wundt.
- Quero voltar lá.
- Hum... Não sei se seria uma boa idéia. Você quase não conseguiu da última vez...
- Mas você me ajudou, não foi? Por favor, quero saber o que aconteceu com Cecilie.
Wundt passou a mão pelo queixo e ajeitou os óculos no rosto. Estava preocupada, por outro lado, depois de muito tempo tinha conseguido fazer com que Andréia realmente voltasse à sua outra vida. Por que desperdiçar essa chance?
- Não sei, Müller...
- Ah, pára com isso...
- Ok. Humm... Vou comer alguma coisa porque estou faminta. Depois recomeçamos a sessão.
 
Andréia concordou sorrindo e ambas foram para a cozinha.
 
 
- Certo, Müller. Tente não se esquecer de onde vai estar a porta dessa vez. Assim fica mais fácil. Mas claro que, se você por algum motivo não puder usar o mesmo local de entrada, você pode tentar encontrar uma outra passagem, mas é bem mais difícil voltar sem um local exato para se concentrar. Exige muita concentração e não sei se você está preparada para isso. E você precisa se adaptar ao lugar e às pessoas. Você não é realmente você lá, entende? Você é outra pessoa. Finja que não se lembra de nada. Se eu estiver certa e se a memória transcende as vidas você vai se lembrar de algumas pessoas que aparecerão à sua volta.
- Cara, você é muito pirada...!
- Obrigada. Quer fumar um para relaxar?
- Não, acho que aquele bagulho me deixou meio grogue lá do outro lado também.
- Impossível! Mas tudo bem. Tente relaxar e não pensar em nada por enquanto.
 
Wundt colocou a mesma música da noite anterior e prosseguiu exatamente igual ao que tinha feito antes. Andréia sentiu sua cabeça rodar um pouco, mas em segundos passou por aquela porta brilhante e tudo escureceu novamente.
 
Uma chuva fina caía e o frio continuava intenso. Esfregou as mãos para aquecê-las e olhou à sua volta. Havia uma placa dessa vez que dizia "Le petit gato - Cafeterrie"; não podia se esquecer daquele lugar.
 
Começou a caminhar pelo beco e viu um vulto saindo por uma porta. Parecia alguém conhecido, mas não pode distinguir no escuro. Chegou mais perto devagar e sorriu. "Luna", pensou. Estendeu a mão para alcançá-la, mas foi jogada a chão antes mesmo de tocá-la. No instante seguinte seus olhos assustados se encontraram com os de Luna apontando uma faca para sua garganta. A mulher se assustou e sorriu de lado.
- Você? Por onde andou? Procurei por todo lado e nada!
- Eu... – lembrou-se que a história de "não ser daquele tempo" não ia colar, ela era outra pessoa agora – Eu fiquei assustada... Não me lembro de nada, de ninguém. Como poderia confiar em você?
- E aquela história...?
- Fantasio demais as coisas. Precisava dizer alguma coisa e aquilo me veio à cabeça na hora... Desculpe se te assustei agora...
 
Luna observava os olhos iluminados pela luz fraca do beco. Olhos verdes, vivos e cheios de medo. A verdade é que não havia esquecido aquele beijo, mas não queria pensar nisso naquele momento. Levantou-se e ajudou Andréia a se erguer.
- Bom. Seu noivo quase me matou quando apareceu e você não estava. Queria me prender, me esfolar, me enforcar, mas eu o convenci de que acharia você para ele... E de graça!
- Me desculpe... Eu... Eu estava assustada...
 
Luna tentou ficar séria, mas era difícil com aqueles olhos a encarando e parecendo tão inocentes e frágeis.
- Tudo bem. Venha, vamos comer algo e preparar para a viagem.
- Viagem?
- É. Vou levá-la para sua casa em Lyon pessoalmente.
- Lyon... Não me lembro... Pode me contar mais sobre... Mim?
- Será um prazer. E teremos tempo para isso.
 
Ambas saíram do beco e foram para a igreja. Pierre parecia que as esperava.
- Graças ao meu bom Deus você a encontrou! Venha, criança. Venha se secar e tomar uma sopa quente.
 
Andréia pegou algumas roupas secas com Pierre e se trocou num pequeno biombo. Quando saiu, um prato de sopa quente a aguardava à mesa. E o cheiro era bom.
- Infelizmente não é o que a mademosaile está acostumada a comer, mas também não é tão ruim assim.
- Muito obrigada, Padre. O cheiro está fabuloso.
 
Pierre se retirou para seus aposentos e as duas ficaram sozinhas. Andréia comia a sopa com um apetite voraz e Luna apenas a observava.
- O que foi? – perguntou a jovem quando notou estar sendo observada.
- Você não se lembra de nada mesmo?
- Nada... Nem quem sou, de onde sou... Nada.
 
Luna pegou uma garrafa de vinho numa pequena adega e mostrou para Andréia.
- Lembra-se disso?
 
Andréia observou a garrafa de vinho, mas fingiu que não sabia de nada. No rótulo um nome; Chateux 1860.
- Não... Acho que já tomei desse vinho, mas não me lembro onde.
- Bom... – começou Luna colocando a garrafa na mesa - Seu nome é Cecilie Boudelaire Chateux, filha de Jean-Pierre Chateux, um dos maiores produtores e exportadores de vinho da França.
 
Andréia deixou cair a colher de sopa no prato. Recompôs-se, empurrou o prato quase vazio para o lado e olhou nos olhos de Luna.
- Você não está brincando... Está? – tentou ser convincente.
- Não. E tem mais. Você vai se casar com Freuderick Peter-Mayer, um dos homens mais ricos de toda a Alemanha. Ele está feito louco atrás de você há semanas!
- Não está tão louco assim...
- Como assim?
- Se você disse que havia me encontrado por que ele não ficou aqui para procurar? Simplesmente foi e embora e falou "se você a achar mande por sedex"?
- Se... O que é sedex?
- Deixa para lá. Acho que esse cara é furada...
- Furada...? Você conversa muito estranho para uma dama...
- E você está quase falando igual minha mãe!
- Você se lembra da sua mãe? Mas ela morreu quando você nasceu!
- Humm... É modo de dizer... O que mais você sabe sobre a minha vida?
- Não muito. A sua família é muito conservadora, não se expõe com facilidade. E eu não sou nada, ninguém e estou aqui com a futura mulher mais rica de toda a Europa.
 
As duas se olharam. Andréia teve vontade de tocá-la novamente, mas já tinha excedido com aquele beijo que, aliás, não lhe saía da cabeça.
- Não fala assim...
 
Ela estendeu a mão devagar e alcançou a de Luna sobre a mesa. A mulher desviou olhar e levantou-se, quebrando aquele contato mágico.
- Olha... Amanhã conversamos mais. Você precisa descansar. Imagino que não esteja acostumada a viagens longas sem conforto. Se prepare, pois nosso caminho é bem longo amanhã. – Luna suspirou e apontou para um corredor nos fundos da igreja – No fim daquele corredor tem um quarto e uma cama. Descanse. Amanhã eu te acordo.
Andréia tentou sorrir. Levantou-se silenciosamente e foi para o quarto. Não demorou muito até dormir; estava exausta.
 
 
O dia amanheceu cinzento, mas sem chuva. O frio continuava e a umidade era grande. Luna estava do lado de fora colocando algumas coisas numa carroça quando Andréia se levantou. Pierre veio ao seu encontro e lhe entregou roupas limpas e quentes para que se trocasse.
- Ela providenciou essas roupas para que a mademosaile não sinta frio durante a viagem. É um longo caminho e vocês terão de passar por vários vales até chegarem a Lyon. Mantenha-se agasalhada, minha filha, para que não pegue nenhuma moléstia.
- Pode deixar, Padre.
 
Ela beijou a mão de Pierre e foi ao encontro de Luna.
- Essa é nossa carruagem?
- Desculpe as acomodações... Foi o que pude arrumar.
- Não tem problema. Vai ser divertido.
- Você é louca...
 
Andréia sorriu e, em seguida, ambas acenavam para Pierre em despedida.
 
 
Algumas horas mais tarde a chuva recomeçou. O frio parecia não passar, pelo contrário, só aumentava. Andréia encostou-se à outra mulher para tentar se esquentar; tremia de frio.
- Você está tremendo! Vá lá para dentro e se cubra com uma manta. Mais algumas horas e vamos parar numa taverna para descansar.
- Quero ficar aqui...
 
Então a jovem se aproximou mais daquela mulher e se aconchegou em seu ombro. Seria muito bom se aquela pessoa fosse Lívia, mas será que Lívia merecia aquela atenção que ela dava a Luna? As duas eram tão diferentes e tão parecidas ao mesmo tempo. A semelhança física era impressionante, mas Lívia era uma mulher cruel, não se importava com os outros. Luna era diferente nesse ponto. Além de linda e de ter um corpo aparentemente perfeito com o de Lívia, ela tinha um cuidado especial com ela. Ninguém a havia tratado assim antes. Ninguém.
- Me fale de você, Luna. O que faz para viver?
- Mato pessoas...
- O quê?
- Brincadeira! – a mulher sorriu - Trabalho com exportação. Não verdade eu faço entregas de grandes fornecedores para outras cidades. Não é lá grandes coisas, mas dá para sobreviver e ajudar Pierre.
- Ele é seu parente?
- É como se fosse. Ele cuidou de mim a vida toda, desde quando perdi meus pais. Devo muito a ele, é um grande homem.
 
Andréia se sentia confortável com aquela mulher. Tão confortável que sentiu seus olhos pesarem e adormeceu recostada nela. Luna sorriu. Olhou a jovem dormindo e teve vontade de beijá-la. Sacudiu a cabeça tentando alivia-la daqueles pensamentos, mas aquele beijo havia se transformado numa doce lembrança. Uma lembrança de algo que nunca teriam. Isso a fez voltar ao seu estado de concentração habitual e deixar de lado os sonhos infantis. Mesmo assim passou o braço pela jovem, envolvendo-a.
 
 
Algumas horas depois, já de noite...
- Ei... Cecilie, acorde. Chegamos.
 
Andréia abriu os olhos e viu uma pequena estalagem à sua frente. Achou estranho como encarava tudo aquilo com naturalidade, como se já conhecesse, ou como se já houvesse passado por ali antes. Parecia que seu mundo estava se fundindo com aquele.
- Vamos descansar aqui esta noite. Amanhã continuaremos.
- Quanto tempo ainda falta para chegarmos a Lyon?
- Uma semana, mais ou menos. Depende do tempo, da estrada. Faz muito tempo que não vou a Lyon por esse caminho.
- Uma semana? Putz! Estamos mais devagar que o Gol 1000 lá de casa!
- Que o quê? Ah, deixa para lá... Desisti de entender essas coisas que você fala. Vamos entrar, comer alguma coisa e nos recolher para dormir. Levantaremos antes do sol nascer, assim aproveitamos viajando mais tempo de dia.
 
Andréia concordou e elas entraram. O lugar não estava lá grandes coisas, mas dava para o gasto. As mesas estavam sujas, o chão também. Luna chamou um rapaz.
- Luc. Traga-me o seu melhor vinho.
- E quem vai pagar dessa vez, minha cara Luna?
 
Luna sorriu e apontou para Andréia. A jovem se assustou?
- EU???
- Ela? – assustou-se o rapaz - Mas quem é ela?
- Não sabe quem é ela, Luc? Pois olhe a foto que Sr. Peter-Mayer mandou que colocasse atrás do seu balcão e de todas as outras tabernas nas estradas.
 
O jovem virou-se para o balcão e viu a foto de Cecile com um aviso de recompensa.
- Nossa! É ela mesma?
- Sim. Traga-me o vinho que pagarei quando voltar da casa dela em Lyon.
 
O jovem adentrou o balcão e voltou com duas canecas cheias. Quando o rapaz se afastou Luna pegou a caneca e deu uma boa golada. Andréia parecia preocupada.
- Você não disse que não ia receber nada?
- SHHH! Eles não precisam saber.
- Hum... isso não está me cheirando bem...
- Não se preocupe comigo, mademosaile. Sei me cuidar. Beba seu vinho e vá deitar. Esse não é uma ambiente para você.
- Sem essa! Vou ficar aqui com você. Não quero ficar sozinha de novo. Quando você for se deitar eu também vou.
 
Luna preferiu não discutir.
- Certo... Mas não conte ao seu noivo que paramos num lugar desses, ok?
 
Andréia botou a mão no peito e jurou que nunca falaria nada. Em seguida deu uma boa golada no vinho e limpou a boca com as costas da mão.
- O Sr. Peter-Mayer sabe que você bebe assim?
- Espero que não!
 
Elas riram.
 
Algumas horas depois Luna ajudou Andréia a subir as escadas para chegar ao quarto. Haviam bebido demais e a jovem não conseguia dar um passo sem tropeçar. Colocou a jovem na cama e estendeu um pano no chão, bem ao lado. Andréia olhou aquilo e torceu o nariz.
- Como assim?
- Como assim o que?
- Por que você está deitando aí?
- Não se preocupe comigo; já dormi em lugares muito piores.
- Mas hoje você não vai. Deita aqui do meu lado, acho que cabe nós duas.
 
Luna sentiu seu rosto corar e ficou momentaneamente sem resposta. Respirou fundo e sorriu.
- É... Só por algumas horas... Acho que não tem problema. – falou para si mesma tentando se convencer.
 
Deitou-se ao lado da jovem tentando ter o mínimo de contato com ela. Impossível. Sentiu a pele macia do braço encostando ao seu e um arrepio percorreu se corpo. Tentou não pensar que ali ao seu lado estava aquela mulher maravilhosa que ela conhecera a pouco, mas era difícil. Já havia estado com outras mulheres antes, mulheres fortes, não uma criança indefesa com Cecilie. E mesmo assim sentia-se fraca perto daquela jovem, como se ela exercesse algum poder que ainda não sabia o explicar o porquê. Assustou-se quando Cecilie virou-se e ficou frente a frente com ela.
 
- Está com medo de encostar-se a mim, senhorita Luna?
- Não, é que... Acho que você deveria dormir.
- É... – Andréia olhou Luna nos olhos. Também sentia um calor estranho que a incomodava – Boa noite...
 
A jovem virou-se para o outro lado e adormeceu. Luna ficou ali olhando, esperando que ela se virasse e a beijasse novamente. Mas isso não aconteceu. Não tinha porque acontecer. Fechou os olhos e tentou dormir, mas até em seus sonhos via o rosto e os olhos de Cecile.
 
 
O sol acabara de nascer quando Andréia acordou. Virou o braço para o lado e não sentiu o corpo de Luna. Assustou-se e acabou levantando para descobrir onde ela estava. Viu que o quarto era pequeno, porém confortável. Suas roupas estavam numa cadeira. Ela vestia apenas a camisa do Chicago Bulls velha. Precisava trocar aquelas roupas se pretendia chegar na casa de seu noivo. Não entendia como os dois mundos se misturava daquela forma.
 
E essa história absurda de ‘noivo’? Como poderia casar-se com alguém que nem mesmo conhecia? E a atração que estava sentindo por Luna, não contava? Um turbilhão de sentimentos a estava deixando com uma dor de cabeça terrível.
- Daria qualquer coisa por uma Neosaldina...
 
Naquele instante Luna entrou no quarto.
- Que bom que já está de pé. Acho melhor partirmos rápido. Não gosto das pessoas que estão chegando por aqui.
- Que pessoas?
- Pessoas que ficaram sabendo que você está aqui. Podem tentar toma-la de mim e tentar alguma coisa, como resgate, sei lá.
- Isso não existe aqui... Existe?
- Claro que existe, Cecilie! Ande depressa. Vista-se, agasalhe-se e me acompanhe. Vamos sair pela porta dos fundos. Luc vai me dar cobertura.
 
Andréia não discutiu. Vestiu uma calça com suspensórios, colocou a camisa do Chicago Bulls para dentro e um casaco por cima de tudo. As botas que Luna arranjara haviam ficado um pouco grande, mas com duas meias, como estava usando, dava para andar.
 
Saíram de fininho pelos fundos enquanto o barman distraía os homens na taverna com histórias cada vez mais absurdas. Luna pode ouvir quando alguém foi arremessado pela janela. Sorte ter colocado a carroça na porta de trás. As duas saíram sem ser vistas e seguiram por uma estrada menor, porém, mais segura.
- Volte a dormir lá dentro. Não vamos parar tão cedo. Talvez vire a noite para não correr o risco deles nos encontrarem.
- E se encontrarem?
 
Luna arqueou uma das sobrancelhas e encarou Andréia.
- Não vou deixar que te façam mal.
 
Andréia ficou feliz de saber que alguém se importava com ela, mas até que ponto Luna poderia protegê-la sem se ferir também?
 
Como havia levantado muito cedo, recostou-se na bagagem dentro da carroça e adormeceu.
 
 
Passava das dez da noite. Wundt tentava há horas fazer com que Andréia acordasse, mas não teve respostas. Os batimentos estavam normais, a febre havia desaparecido. Tudo parecia normal. Podia ver a jovem sorrir de vez enquando, mas estava ficando preocupada.
 
E como se não bastasse o estresse da situação a campainha da sala tocou.
- Quem será uma hora dessas?
 
Wundt cobriu Andréia e foi atender a porta. No olho mágico viu uma mulher, mas não acreditou. Abriu a porta.
- Humm... Boa noite, Dra. Wundt. Será que eu poderia conversar com Andréia um minuto?
 
Wundt perdeu a fala. O que diria, que sua aluna estava num transe de regressão e não poderia atender naquele momento? Não, não seria apropriado.
- Bom, acho que ela não pode falar agora.
- Eu sei que ela deve estar fula da vida comigo, mas preciso dizer umas coisas antes que seja tarde demais.
- Receio que já seja tarde. Aliás... – ela olhou no relógio ironicamente – bem tarde. Por que não vai procurar suas amiguinhas e arrumam outra pessoa para magoar?
- Eu não queria magoá-la...
- Sei... Olha, senhorita Taylor, quem sabe uma outra hora...
 
Lívia entrou passando por Wundt como um rolo compressor e foi direto para o divã onde Andréia estava deitada. Sentou-se ao lado dela e tentou acorda-la. Wundt veio correndo e interveio.
- Não faça isso, louca! Se acorda-la agora ela não vai mais poder voltar!
 
Lívia achou aquela história estranha.
- Voltar...? Voltar de onde? O que está acontecendo aqui?
 
Wundt achou que seria melhor explicar antes que as coisas piorassem. Contou toda a história desde a hora em que Andréia havia chegado no dia anterior até ali. Lívia ficou perplexa. Não sabia que a louca Dra. Wundt podia fazer esse tipo de coisa.
- E como vamos trazê-la de volta?
- E se ela não quiser voltar?
- E por que não iria querer voltar?
- Por que lá ela encontrou alguém que a respeita.
- Isso é besteira. Isso que ela está vivendo não é realidade. Aqui é a realidade!
- Eu sei, mas e se ela não quiser viver essa realidade? Já pensou nisso, ou esteve muito ocupada no último semestre fazendo alguns calouros de palhaço?
 
Wundt viu as veias do pescoço de Lívia estufarem, o rosto em brasa. Até mesmo ela tinha um certo receio daquela mulher. Parecia que ia estourar como uma panela de pressão. Mas não o fez.
- Olha... Eu fui uma idiota, ok!? Eu sei! Eu gosto dela e quero que ela saiba. O que ela vai fazer depois é ela quem escolhe. Mas eu preciso falar senão vou explodir!
 
Wundt não acreditou no que ouvia. A senhorita toda-poderosa tinha coração! Merecia, então, algum crédito.
- Certo. Temos que traze-la de volta de alguma forma, mas acho que vamos precisar de um incentivo maior para ela querer voltar. Estaria disposta a se arriscar por ela, Lívia?
 
Sem pensar duas vezes Lívia acenou consentindo.
 
 
- Preciso que você relaxe, Lívia. Assim não vamos conseguir nada. Tente se concentrar nela e no que te contei sobre a vida dela. Você provavelmente é a reencarnação de Luna. Você vai se encontrar diretamente com Andréia, mas precisa terminar o que estão fazendo para que não haja um colapso na cabeça dela. Aí você se apresenta e a trás de volta. Aperte minha mão quando estiverem prontas e eu irei até vocês para mostrar um outro caminho.
- E se eu não conseguir?
- Você precisa.
 
Lívia fechou os olhos e suspirou. Olhou novamente para o rosto delicado de Andréia e acariciou sua pele. A música, o ambiente, a voz da Dra.; tudo desnorteava, fazia o mundo girar sob os pés. Uma sensação de leveza, paz. E lá estava ela.
 
 
Lívia olhou para Andréia dormindo na parte detrás da carroça e sorriu. Ela estava bem. Continuou, então, seguindo o caminho planejado. Como sabia qual era esse caminho, não podia explicar; instinto, talvez.
 
Horas mais tarde Andréia acordou. Uma chuva fina começara a cair e o frio aumentara consideravelmente. Não avistavam nada a quilômetros de distância, apenas os campos molhados de chuva e um grande paredão de pedra à sua esquerda.
- Você não pode ficar aí nessa chuva.
- Está tudo bem. Volte para dentro.
- Não. Vamos parar ali um pouco até a chuva diminuir. Então continuamos. Você precisa se secar.
 
Lívia olhou à sua frente e avistou no paredão uma abertura na rocha onde poderia colocar a carroça e ficarem abrigadas da chuva. Não demorou mais que alguns minutos até que chegasse ao local.
- Vista isso –estendeu roupas secas para Luna – Pierre mandou um bom estoque de casacos para agüentarmos a viagem.
 
Sem pudor a mulher tirou a roupa molhada e vestiu a seca. Cecilie a observava discretamente, não podia fazer nada.
- Não quero voltar...
- O que??
 
Lívia assustou-se. Não queria voltar para onde?
- Como assim?
- Lá não é o meu lugar, Luna. Não sei porque, mas sinto que estou fazendo a coisa errada...
- Descanse um pouco. Quando acordar se sentirá melhor.
 
Andréia recostou-se no amontoado de roupas na parte de trás da carroça e adormeceu facilmente.
 
 
Cecilie acordou com sons estranhos. Procurou Luna e não avistou a mulher. Apavorou-se.
- LUNA!
 
Teve tempo de ver Luna chutar um homem para longe enquanto outro tentava insistentemente agarrá-la por trás. Uma luta estava sendo travada a alguns minutos enquanto Andréia dormia.
- Se esconda aí atrás, Cecilie! AGORA!
 
Não era um simples pedido. Era uma ordem desesperada. Mas Cecilie não podia simplesmente ignorar o fato de Luna estar lutando para defender ambas. Saiu da carroça e se jogou em cima de um dos homens que atacava Luna. Bateu, esperneou, arranhou, mas o homem a jogou no chão. Ela bateu a cabeça numa pedra e sentiu o sangue escorrendo por se rosto.
- Estou sangrando...
- CECILIE!!
 
Cecilie sentia o liquido quente escorrer pelo seu rosto. O mundo parecia passar a sua frente numa aspiral de acontecimentos. Viu mesas, cadeiras, pessoas vestidas com roupas estranhas, pessoas que zombavam dela, que riam quando ela passava e lá estava aquela mulher de olhar frio, aqueles olhos azuis. Aqueles olhos que a fitavam de uma forma diferente. Quem era aquela mulher? Era Luna, mas não conseguia entender como. Pensou então que aquele mundo não parecia real, aquele que ela estava vivendo, aquele em que Luna era apenas uma mulher qualquer. Não estava no lugar certo. Parecia uma dimensão diferente. Então, vagamente, se lembrou. Enquanto pensava ouviu o grito de Luna.
- CECILIE!!!
 
Luna arremessou o homem que a segurava contra a parede e caiu no chão ferida.
- ... Cecilie...
 
A voz saiu fraca. O sangue escorria do peito da mulher, uma faca pendia manchada de vermelho no chão. Os homens se levantaram e correram. Cecilie levantou-se com dificuldade e correu em direção de Luna.
- LUNA!!
- Não sabia que você podia ser tão brava...
- O que está acontecendo?
- Acorde, Andréia! Aqui não é o seu lugar...
- Andréia..? Como assim?
- Pense! Lembre-se da Dra. Wundt...
 
Cecilie franziu a testa; pensava em tudo que havia passado em sua mente segundos atrás.
- Lívia...
 
Lívia não respondia. Sua cabeça pendia para o lado sem vida.
- LÍVIA!!!
 
 
Andréia mexeu-se na cadeira. Wundt assustou-se. Em segundos a garota acordou. Seu corpo estava banhado em suor. Olhou para os lados e viu a Dra. Wundt e... Lívia? Mas...
- Carla! O que houve?
- Me ajude a acordá-la!
 
Wundt apontava para Lívia.
- O que aconteceu?
- Ela se feriu... Eu não pude evitar... Eu... – a jovem estava desesperada - Meu deus...
- Calma. Só você pode acordá-la agora. Volte para buscá-la.
- O que?
- Ela foi atrás de você. Você estava vivendo outra realidade. Agora precisa trazê-la de volta!
 
Andréia segurou a mão daquela mulher deitada à sua frente. Parecia tão sem vida...
 
Concentrou-se nas palavras da amiga professora, recostou-se no sofá em que Lívia estava deitada e, aos poucos, o mundo tomou um ar diferente. Não parecia mais aquele mundo real.
 
 
Cecilie segurou a mão fria de Luna. Chovia. O corpo parecia sem vida, mas sentia ainda o calor que emanava, uma chama que insistia em ficar acesa.
- Luna... – não, aquela não era mais Luna – Lívia... Fale comigo
 
Olhos cansados se abriram e mostraram a imensidão azul daquele olhar. Ela ainda vivia, vivia por ela.
- Andréia..?
- Volte comigo, por favor!
 
As duas se abraçaram. A chuva aumentava.
 
 
Wundt pegou uma manta quente e cobriu Lívia. A jovem mulher parecia fria, sem vida. Como se seu corpo tivesse passado por uma terrível provação. Andréia estava ainda mais preocupada.
- Lívia..?
 
A mulher apenas abriu os olhos, parecia cansada.
- Lívia..
- Shh... – ela sorriu – Me deixe olhar para você um pouco.
 
Andréia sorriu e apertou forte a mão da mulher que também sorria à sua frente.
- Me perdoa...
 
Aquele pedido singelo e sincero parecia uma súplica. Lívia nunca havia pedido perdão a ninguém, nunca julgara necessário, mas naquela ocasião era diferente. Andréia sorriu.
- Não se desculpe... Viva apenas.
 
Lívia juntou as poucas forças que lhe restaram e puxou Andréia para um beijo tenro e suave. Um beijo que transcendeu a existência das duas. A jovem retribuiu sem resistência.
 
Wundt respirou aliviada. Recostou-se na parede e suspirou. Aquela história havia chegado a fim. Ou ao começo. 

 

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