- Disclaimers:
Esta fic se passa na França, entre Paris e Reims, região produtora
de champagne e vinhos a mais ou menos cento e oitenta quilômetros
a nordeste de Paris.
- Neste
texto; mais uma vez alt/uber, eu quis pintar de maneira comum situações
como o casamento entre duas mulheres (ainda chegaremos lá!) e também
a aceitação tranqüila dos pais em relação
à homossexualidade da filha. Claro que esta última não
é tão rara assim, mas gosto de imaginar que o desenrolar desta
história se passa alguns anos à frente dos nossos dias atuais.
- Os nomes
de lugares e monumentos fazem referência aos que realmente existem
em Paris, mas alguns lugares que descrevo dentro da universidade saíram
da imaginação mesmo, pois não os conheço. Se
alguma coisa não bater, me desculpem desde já.
- As personagens
são criação minha, tendo uma semelhança muito
grande com as personagens principais do seriado XWP. Mas são apenas
semelhanças, pois nunca houve de minha parte, qualquer intenção
de violar os direitos detidos pelos USA Studios/Renaissance Pictures sobre
essas personagens. No mais, tudo que estiver escrito aqui é de minha
autoria e é protegido por regras de direitos autorais.
- Nesta
fic, minhas personagens têm profissões pelas quais me interesso
muito. Minha paixão por vinhos me ajudou a criar uma enóloga
(alguém que estuda vinhos, sua preparação e conservação).
Depois veio a idéia de fazer da outra personagem uma arqueóloga;
e é claro, as duas se encontrariam em Paris, cidade que quero conhecer
e saborear um dia.
- Falta
então, esclarecer alguns significados para orientar minhas leitoras:
- Place
des Vosges: é considerada por muitos como a praça mais bonita
de Paris; lugar de belos cafés e gente bonita. Fica no Marais, um
bairro gay que esbanja elegância.
- Torre
Eiffel: nem precisa dizer.
- Maison:
palavra francesa que significa “casa” (lê-se “mezon”). Não
é casa no sentido literal; seu significado no texto é aquele
muito usado pelos próprios franceses, de casa comercial, empresa,
lugar onde se desenvolve determinada atividade econômica; geralmente
algo sofisticado e de bom gosto. É usada para designar ateliês
de alta costura, nomes de vinícolas, etc.
- Universidade
de Sorbonne: é a maior e melhor universidade da França; foi
fundada no século XIII (1253) por Robert de Sorbon; daí o
nome. Como todas as universidades, começou com estudos em filosofia
e teologia, para depois tornar-se abrigo dos mais brilhantes pensadores
da Europa no decorrer desses mais de setecentos anos.
- Como
não poderia deixa de ser, existem cenas de sexos entre as personagens,
portanto, se de sua parte houver desaprovação quanto a esse
conteúdo, aconselho a não continuar a leitura. A pessoa que
mantém o site não pode, de maneira alguma, ser responsabilizada
pelo conteúdo deste texto, pois tudo a que ele se refere é
de minha responsabilidade.
- Se você
tiver qualquer dúvida, crítica, sugestão, comentário,
elogio ou idéia, peço a gentileza de me enviar pelo e-mail:
[email protected]
- Obrigada!
-
- A. L.
Benner 05/04/2003
-
- ~ Adeus
à Solidão ~
-
- — Não,
Fran! Não posso acreditar! Isso tudo não faz sentido algum!
Como Claire poderia estar me traindo? – Julianne sentia-se paralisada pelo
que acabava de ouvir.
- — Não
estamos brincando com você, Juli. Nós vimos! Tiramos fotos!
- — E
onde estão essas fotos? – ela perguntou, trêmula.
- — Bárbara
foi imprimi-las. Estão no nosso arquivo pessoal – Françoise
respirou fundo: não queria ser ela a contar aquele tipo de coisa
para sua amiga, mas não houve outro jeito; não deixaria que
ela fosse enganada. Ficou olhando-a cheia de tristeza, enquanto via-a rodar
nervosamente no dedo anular esquerdo, a aliança de casamento.
- Ela
e Bárbara tinham chamado Julianne para uma conversa que preferiam
jamais ter. Eram amigas há muitos anos e depois do que presenciaram
por acaso no estacionamento da Sorbonne, onde trabalhavam, não poderiam
se calar. Sabiam que Julianne era apaixonada por Claire; tinham sido as
convidadas de honra no casamento delas há dois anos atrás,
mas nunca se sentiram amigas dela como se sentiam de Julianne. Conviviam
com Claire pelos corredores da Faculdade de História, onde ela também
dava aulas, e já tinham percebido que ela costumava flertar com outras
professoras e também alunas, mas nunca pensaram que ela seria capaz
de trair Julianne.
- Na semana
anterior, ela e Bárbara estavam no restaurante da faculdade e viram
quando Claire saiu de mãos dadas com uma aluna e foi em direção
ao estacionamento. Por não saberem se se tratava de uma pessoa íntima
de Claire, não deram importância ao fato, até pagarem
a conta e irem pegar o carro no estacionamento.
- Foi
Françoise quem viu: Claire Barnard estava aos beijos com a moça;
ambas encostadas no carro dela, em plena hora do almoço.
- “— Babi,
o... olhe aquilo!” – ela lembrou de ter gaguejado para Bárbara.
- “— Mas,
não é...”
- “— ...Claire!”-
Fran completou, incrédula.
- Pasmas
com a cena, ficaram paradas por alguns segundos. Ela não as vira,
e continuava o seu espetáculo de traição para quem
quer que passasse pelo estacionamento.
- “— Como
ela pode fazer isso com Juli? Canalha!” – Françoise sentiu a raiva
invadi-la, sem saber direito o que fazer ou pensar.
- Mas
por sorte, Bárbara lembrara-se do objeto que ajudaria a desmascarar
Claire e deixa-la sem qualquer argumento:
- “— Fran,
a câmera!”
- “— Que
câmera?”
- “— A
nossa câmera fotográfica! Está na minha mochila; dentro
do carro!”
- Abrindo
um sorriso de satisfação ao saber que Julianne não
seria mais enganada, Fran abrira o carro e de dentro dele mesmo, fizera
as fotos que agora Bárbara trazia do escritório e colocava
nas mãos de Julianne.
- As fotos
digitais não deixavam dúvidas de quem era uma das mulheres
naquelas imagens. Os olhos azuis de Julianne encheram-se de lágrimas,
enquanto o tremor em suas pernas a fez sentar-se para não cair.
- — Oh,
meu Deus! – ela conseguiu balbuciar baixinho.
- — Sentimos
muito, Juli.
- Fran
e Babi sentaram-se na poltrona oposta a ela, em silêncio. Sabiam o
quanto sua amiga estava sofrendo. Entreolharam-se, desejando que ela saísse
ferida o menos possível daquilo tudo.
- Desviando
os olhos vermelhos das fotos, Julianne lutava para não chorar. Era
uma mulher forte e não admitiria chorar por alguém que a traíra.
- — Quando
foi isso? – perguntou angustiada.
- — Semana
passada. Pensamos muito no que fazer com elas depois que as tiramos. Fizemos
por impulso, mas depois...
- — Vocês
fizeram bem em me mostrar. Se um dia eu descobrisse por outra pessoa, não
as perdoaria. – ela respondeu, com o olhar duro de quem tem o coração
cheio de mágoa.
- — Ainda
não temos certeza se fizemos o que era certo. – Babi respondeu. —
Queremos que você fique bem; ou pelo menos tente ficar...
- — Acabei
de descobrir que meu casamento era uma farsa, Babi! Claire e eu nos conhecemos
há cinco anos e estamos casadas há dois. Quando decidi me
casar com ela estava apaixonada e achava que seria feliz. Eu confiava nela
e nunca me passou pela cabeça que ela poderia...
- Ela
calou-se. Sua mágoa não permitia que continuasse falando.
Levantando-se, foi até a janela do apartamento e ficou em silêncio
por muito tempo, olhando as luzes noturnas’ através da janela. Sentia
tudo ruir à sua volta. Pensou na casa, na mobília ainda nova
que ela e Claire escolheram juntas; nas muitas vezes que escolhia um vinho
especial e ia para casa mais cedo apenas para fazer uma surpresa e preparar
o que ela gostava de comer.
- “Como
ela pôde?” – a pergunta martelava em sua cabeça infinitas vezes.
-
-
- Indo
para casa naquela noite, Julianne tentou pensar no que faria. Apesar do
frio, dirigiu sem luvas: estava anestesiada pela raiva; suas mãos
tremiam, e ela sentia que precisava se acalmar antes de encontrar Claire.
- Quando
entrou pela porta que vinha da garagem, viu Claire mexendo em algo na cozinha.
Lembrou que provavelmente aquelas traições deviam estar acontecendo
há muito tempo e sem conseguir evitar, pensou em quantas vezes Claire
teria ido para a cama com outra e depois vindo para casa e agido normalmente.
Sentiu nojo dela. Tinha feito o juramento de ama-la por toda a vida, mas
agora não suportava a menção daquele nome traidor.
- Deixando
suas coisas sobre o aparador e ficando apenas com o envelope com as fotos
na mão, ouviu com desprezo quando Claire a chamou:
- — É
você, amor?
- — Como
ela pode ser tão cínica? – Julianne murmurou para si, contraindo
o rosto, cheia de mágoa e raiva.
- Ela
não respondeu imediatamente, e em silêncio, entrou na cozinha
e jogou o envelope sobre a mesa.
- Claire
olhou-a sem entender:
- — O
que é isso? – Claire perguntou.
- — São
fotos. – Julianne respondeu séria. — Veja se você se reconhece
nelas com eu a reconheci. – a voz dela soou tão cheia de sarcasmo
e desprezo, que Claire soube imediatamente que algo estava errado.
- Ela
pegou o envelope e abriu-o devagar. A constatação de que fora
flagrada era inegável e ela empalideceu visivelmente, antes de desviar
o olhar das fotos e não conseguir encarar Julianne.
- — Juli,
eu... – ela gaguejou.
- — Não
tente se explicar, Claire. Ficará pior. – Julianne interrompeu-a,
com a voz cortante e fria. — Estou indo para um hotel. Amanhã meu
advogado vai procurar você para providenciarmos nossa separação.
- — Mas,
querida...
- — Nunca!
Jamais me chame disso outra vez! Não sou sua querida! Talvez nunca
tenha sido! – ela gritou, explodindo sua raiva e esmurrando a mesa, sem
se conter mais. E antes que Claire tivesse tempo para pensar, ela bateu
a porta e saiu daquela casa e da vida da mulher que trocara seu amor por
uma aventura inconseqüente.
-
-
- Um ano
depois...
-
-
- A luz
fraca do interior da adega atravessou o finíssimo cristal e deixou
que o vermelho brilhante de mais uma excelente safra de vinhos se revelasse
para um atento par de olhos azuis.
-
- Com
um sorriso de satisfação, a bela mulher anotou a cor do lote
que examinava numa prancheta e balançou levemente a taça,
antes de leva-la próxima ao nariz e aspirar o delicioso bouquet,
para em seguida provar um gole mínimo.
- — Perfeito!
- Julianne
de Laet era a herdeira e a enóloga responsável pela respeitada
Maison de Laet, vinícola fundada há mais de dois séculos
por sua família, e que era conhecida como uma das melhores maisons
de vinhos da França. E aquele era seu trabalho.
- Julianne
era uma mulher magnífica. Os mais de 1,80m lhe davam um ar imponente
e sedutor ao mesmo tempo, enquanto os ombros largos se deixavam emoldurar
por uma cascata negra de lindos cabelos lisos. O rosto forte de maçãs
altas chegava à perfeição com os olhos pequenos e absolutamente
azuis, que eram capazes de tirar o fôlego de qualquer um que os encarasse.
- Ela
fazia questão de acompanhar a qualidade de cada safra desde a colheita
e estava ali, fazendo a degustação de vários lotes
por quase todo o dia, quando um dos funcionários chegou correndo
pela penumbra dentre os barris de carvalho com o celular dela na mão.
- — Mademoiselle
Julianne... sua amiga... Bárbara... – ele falou, quase sem fôlego.
- — Jean,
por que não disse a ela que eu ligaria mais tarde?
- — Eu
disse, mas ela insistiu. Avisei que mademoiselle estava sem o celular e
ela me pediu para traze-lo até aqui. Disse que precisava falar-lhe
com urgência. – ele respondeu.
- Rindo
do afobamento dele, ela agradeceu e pegou o celular. Já ia dar uma
bronca em Babi, quando ouviu a voz de Françoise do outro lado da
linha:
- — Juli?
Sou eu, Fran!
- Julianne
sabia o que significava ser Françoise e não Bárbara
no telefone.
- — Ah,
não, Françoise! Você não vai insistir naquele
assunto de novo! Eu já disse que não vou. Não quero
conhecer ninguém! Eu não acredito que você fez Jean
correr até aqui para me falar sobre isso de novo!
- — Juli,
querida, ouça: eu e Bárbara não queremos que você
passe sua vida enfurnada entre esses barris de vinho. Não custa nada
você nos acompanhar à palestra. Helen Adler-Wright é
uma das arqueólogas mais renomadas dos Estados Unidos e eu a conheço
há mais de cinco anos. Fizemos nossos doutorados juntas em Chicago.
Tenho certeza de que você não perderá nada em conhecê-la.
- — Nunca
tive problemas em conhecer pessoas, Fran. Meu único problema é
com esse seu tom de “alcoviteira” na voz, todas as vezes que me falou dessa
arqueóloga!
- — Julianne!
– a outra fingiu espanto.
- — É
isso mesmo! Você está tentando me casar de novo e eu não
pretendo fazer isso tão cedo, seja com quem for!
- — Está
bem! Está bem! – Fran recuou, sabendo que se insistisse, jamais conseguiria
fazer Julianne aparecer naquela palestra. — Então pelo menos assista
à palestra conosco. Prometo não falar mais sobre isso. Você
e Helen podem ser amigas, não podem? E queremos que você saia
um pouco. Sei que você gosta de se enfiar nesses becos escuros, mas
não precisa exagerar, não é? Esses magníficos
olhos azuis foram feitos para o deleite das mulheres e não para se
esconderem no escuro!
- — Ora,
Françoise...
- Vendo
satisfeita que conseguira encabular Julianne, ela aproveitou o momento para
dar um ultimato à amiga:
- — Esperamos
você em Paris amanhã à tarde. A palestra começa
as seis da tarde, no Auditório 2. – e desligou.
- Julianne
ficou parada com o celular na mão. Acabou rindo da situação:
desde que terminara seu casamento com Claire, Fran vivia arranjando motivos
para apresentar-lhe alguém. Já fazia um ano e ela não
sentia a menor necessidade de ter uma namorada, mas a insistência
da amiga, que no começo a irritava, agora estava fazendo-a rir. Ela
e Babi foram seu maior apoio quando tudo desabou sobre ela; deram uma força
que Julianne jamais seria capaz de agradecer o suficiente e queriam vê-la
feliz. Por isso não se irritava mais e ficava apenas tentando se
livrar dos “encontros” que elas arranjavam.
- Ela
vestiu seu casaco de lã grossa e saiu para o frio das videiras que
cercavam o galpão subterrâneo onde estava. Caminhou pela pequena
estrada até chegar ao pé da colina onde ficava o castelo do
século XVII e em anexo, a sede da vinícola. Olhou orgulhosa
para as plantações que se perdiam de vista, contrastando seu
verde escuro com o azul do céu frio e sem nuvens. Aquelas colinas
na região de Reims eram o seu lugar. Fôra morar em Paris para
estudar Enologia, como todos de sua família, mas sempre que podia,
voltava para o “seu castelo”, que seu pai havia reformado e reestruturado,
deixando-o o mais aconchegante possível.
- Ouvindo
um carro que se aproximava, continuou seu caminho e viu com alegria que
eram seus pais que chegavam.
- Geraldine
e Phillipe de Laet desceram do carro e foram ao encontro da filha única.
Julianne era o orgulho deles; herdara a beleza refinada de sua mãe
e o amor pelos vinhos que fizera de seu pai um dos enólogos mais
conhecidos e respeitados da França.
- E ela
não fazia por desmerecer a tão preciosa herança que
recebera: cuidava da empresa com a mesma perspicácia que reconhecia
uma safra especial através do vermelho intenso dos vinhos que analisava.
- — Julianne!
Que bom encontra-la em casa, filha! – sua mãe abraçou-a, enchendo-a
de beijos por todo o rosto, como fazia desde que ela era criança.
- — Geraldine!
Julianne sempre está aqui quando chegamos. Isso acontece desde que
ela voltou a morar conosco no ano passado! – Phillipe repreendeu suavemente
a esposa, em tom de brincadeira.
- — Querido,
eu sei disso. É que adoro encontra-la toda vez que chegamos!
- — Vocês
dois perceberam que estamos congelando aqui fora nesse vento, enquanto discutem?
– Julianne interrompeu-os, rindo daquela velha implicância, que apesar
de parecer que estavam discutindo, não passava do jeito deles discordarem
propositalmente de algo.
- — Você
está certa, filha. Venham minhas queridas, vamos entrar. – disse
o pai dela, colocando-se entre elas e oferecendo gentilmente o braço
às duas.
- Acompanhando
seus pais até uma das amplas salas de estar, Julianne sentou-se em
uma poltrona enquanto observava seu pai indo até o bar e fazendo
o que ela o vira fazer a vida toda: abrir uma garrafa de chardonnay e sentar-se
com a mulher e a filha para saborear o vinho antes de jantarem juntos.
- Lembrou-se
do quanto relutara em voltar a morar em Reims quando se separara de Claire.
Tinha morado fora desde a faculdade e achava que não se adaptaria
a dividir sua intimidade com seus pais novamente. Mas ela se surpreendera
com a cumplicidade que conseguira retomar com eles quando voltara para casa.
Eles estiveram dispostos a conversar quando ela precisou e também
deixaram-na sozinha nas horas em que isso era necessário. Queriam
vê-la feliz, apesar de saberem que demoraria um pouco até que
ela superasse o que Claire fizera; e como todos os pais, ficaram radiantes
ao terem sua filha novamente sob as asas.
- Lembrou-se
do compromisso com suas amigas e resolveu avisar seus pais antes que eles
planejassem qualquer coisa para o dia seguinte.
- — Papá,
Mamã, vocês ficarão aqui no final de semana ou vão
a Paris?
- — Ficaremos
em casa, ma cherrie. Por quê? – sua mãe quis saber.
- — Vocês
se importam se eu for a Paris amanhã?
- — Claro
que não, querida! Mas o que irá fazer por lá?
- — Fran
e Babi querem que eu vá a uma palestra sobre arqueologia com elas.
Será amanhã à noite, mas voltarei no sábado.
- Em sua
intuição materna, Geraldine percebeu que não era apenas
aquilo. Conhecia Françoise e Bárbara o suficiente para saber
que não estariam arrastando Julianne para uma palestra sobre arqueologia
apenas para saciar o interesse de sua filha por arqueologia; o que ela sabia
ser absolutamente nulo.
- — Julianne,
Françoise está tentando lhe apresentar alguém novamente?
- Surpreendida
pela pergunta, Julianne ficou em silêncio por alguns segundos, tentando
imaginar como sua mãe acertara a questão com tão poucas
informações.
- — Bem...
na verdade está, mamã. – ela confessou, sabendo não
ser necessário esconder isso de sua mãe, já que ela
e seu pai sempre souberam de todas as tentativas de Fran em apresentar-lhe
alguém.
- — E
por que você não se permite conhecer essa moça, filha?
Já se passou um bom tempo... Tenho certeza que Fran e Babi não
lhe apresentariam alguém que não fosse merecedora de tal confiança
da parte delas. São suas amigas, ma cherrie. Provaram isso da forma
mais leal possível. E se você me permite dizer, penso que seria
ótimo você ter uma nova companheira. Você tem ficado
muito sozinha.
- Olhando
para sua mãe, Julianne sentiu o coração enternecido
pelas palavras dela. Seu pai a olhava em silêncio, mas sabia que ele
também pensava da mesma maneira; ambos queriam vê-la feliz.
Tinham sofrido quase tanto quanto ela quando Claire quebrara o juramento
que havia feito.
- Ela
percebia que suas amigas e mesmo seus pais queriam a todo custo arranca-la
da solidão que ela própria estava se impondo, mas estava convicta
da resolução que tomara; e olhando novamente para sua mãe,
depois de observar pensativamente a taça que tinha nas mãos,
respondeu:
- — Sei
que vocês querem me ver feliz, mas por enquanto não admitirei
outra mulher na minha vida. Estou indo a Paris apenas para agradar Fran
e Babi, pois elas também se preocupam comigo. Nesse momento da minha
vida, não sou capaz de acreditar novamente em alguém.
- — Oh,
filha... –sua mãe lamentou. — Não quero vê-la tão
descrente das pessoas por causa do que aconteceu! Isso não significa
que outra pessoa fará o mesmo, querida!
- — Eu
sei. – Julianne respondeu, em meio a um sorriso entristecido. — Mas não
posso ignorar o que sinto, mamã.
- — Mesmo
assim, eu gostaria, e creio que seu pai também, que você mudasse
de idéia ao conhecer essa moça.
- Julianne
apenas sorriu, preferindo não responder. Todos à sua volta
pareciam estar se unindo contra a solidão que ela própria
escolhera. No fundo sentia-se feliz por ser tão querida, mas ainda
preferia não abrir mão da decisão que tomara.
-
-
-
-
- Olhando
a cidade através da janela do avião, Julianne sentiu-se feliz
por estar novamente em Paris depois daquelas semanas trabalhando na vinícola.
No meio de dezembro, ela tirara uma pequena licença das atividades
do doutorado e fora para Reims com a intenção de ficar um
pouco mais de tempo com seus pais; além de passar as festas de fim
de ano com eles.
- Agora,
de volta e indo reencontrar suas amigas, ela sentia-se bem, apenas sentindo
um leve desconforto com aquela história de Fran querer que ela conhecesse
a tal amiga americana. Lembrou-se da promessa dela em não tocar mais
naquele assunto, mas como conhecia Françoise muito bem, ainda tinha
suas dúvidas. Estava indo à palestra pela insistência
dela; para não chatea-la, mas se pudesse escolher, iria ao Café
Jussieu tomar seu querido café expresso e não à Faculdade
de História como teria de fazer.
-
-
- Vendo
as construções imponentes da Sorbonne, ela instruiu o motorista
do táxi até os prédios que abrigavam as faculdades
de História e Filosofia. Aquela parte da universidade era uma das
mais antigas, e a arquitetura medieval encaixava-se perfeitamente entre
os jardins bem cuidados.
- Rindo,
Julianne lembrou-se do dia em que elogiara Fran, dizendo que ela tinha “a
cara da faculdade” e ela ficara furiosa porque Julianne a tinha chamado
de “velha”:
- “— Fran,
estou dizendo que você se parece com a faculdade porque trabalha aqui!
As pessoas costumam se parecer com quem amam e também com os lugares
onde passam a maior parte do seu tempo!”
- Julianne
tentara se explicar; não conseguindo muita coisa. Ela achava incrível
como Fran se ofendia por qualquer coisa. No fundo não era sério,
pois ela logo esquecia, mas às vezes ficava preocupada com as mágoas
dela. Rindo, ela recordou as situações dificílimas
em que Bárbara às vezes se metia por não medir com
cuidado o que falava para a namorada.
-
-
- O táxi
deixou-a na entrada do pavilhão e ela caminhou até o Auditório
2. Ela não viu Babi e Fran e achou melhor espera-las na ante-sala
do auditório, pois o frio ali fora ficaria insuportável depois
de alguns minutos. Apesar dos seus trinta e cinco anos, Julianne não
conseguia se lembrar de um inverno tão rigoroso quanto aquele em
Paris.
- Andando
pelo imenso salão, encontrou alguns amigos seus e também alguns
professores da época da faculdade. E caminhando entre as pessoas,
ela viu o cartaz que anunciava a palestra da arqueóloga americana
especializada em culturas pré-colombianas.
- “Ela
deve ser muito boa no que faz. Muitos dos principais professores de toda
a universidade estão aqui hoje.” – ela pensou, admirada pela qualidade
e quantidade de pessoas que já formavam uma pequena fila na entrada
do auditório.
- Olhando
o relógio, ela viu que eram seis e cinco. Dentro do auditório
já estavam fazendo a apresentação da palestrante, quando
Fran e Babi chegaram apressadas.
- — Oh,
Juli! Perdoe-nos, mas nos atrasamos. Como você está, querida?
Sentimos tanto a sua falta! – Fran foi perguntando enquanto abraçava
Julianne efusivamente.
- — Estou
ótima! E vocês?
- — Congelando!
– Babi respondeu rindo e esfregando as mãos na tentativa de se aquecer.
- — Amor,
vamos entrar! Acho que já está começando. Venha Juli.
– Fran dirigiu-se às duas, enquanto puxava Bárbara pela mão.
- Julianne
olhou-as com ternura; era uma alegria para ela ver as duas amigas juntas
e tão apaixonadas. Eram um dos poucos casais, conhecidos seus, que
se respeitavam e se amavam tanto.
- Entraram
no auditório praticamente cheio e sentaram-se numa das últimas
fileiras. O mestre de cerimônia terminou de apresentar a palestrante
naquele momento e chamou-a para que ela começasse.
- Distraída,
Julianne não viu quando ela levantou-se da primeira fila de cadeiras
e foi até o tablado. Conversando com Babi, que sentara ao seu lado,
ela sentiu apenas que todos os seus sentidos se aguçaram quando a
voz macia e ligeiramente grave soou nos auto-falantes do auditório.
- Voltando-se
instintivamente em direção àquele timbre perfeito,
Julianne viu uma mulher vestida num taileur impecável; os cabelos
louros e bem cortados caíam-lhe pela testa, quase chegando aos ombros.
Não era alta, mas era dona de uma altivez e de uma elegância
únicas. A pele clara estava ligeiramente queimada de sol, provavelmente
pelos trabalhos de campo que ela havia realizado recentemente em escavações
na América Latina; e que Julianne já sabia de cor, tanta foi
a insistência com que Françoise lhe falou dela.
- — Oh,
lá está Helen, Bárbara! Pena que chegamos tão
atrasadas! Teremos de esperar até o final para que eu lhe apresente
a ela! Tenho certeza de que ela vai adorar você! – Fran exclamou,
entusiasmada com a presença da amiga e interrompendo os pensamentos
de Julianne.
- — Juli,
tenho certeza de que você também vai adorar a Helen! Ela é
uma amiga e tanto! – Fran repetiu, agora se dirigindo a Julianne.
- — Eu
não sabia que Babi também não a conhecia.
- — Não,
não conheço. Eu falo com ela de vez em quando por telefone,
mas Fran é quem tem mais contato com ela. É a primeira vez
que Helen vem a Paris e nós nunca pudemos ir a Chicago para vê-la;
ou a uma das escavações por onde ela andou. – Baby respondeu
rindo.
- Julianne
voltou-se e ficou assistindo à palestra em silêncio. Longe
como estava, numa das últimas cadeiras do auditório, não
conseguia ver direito como era a tal arqueóloga, mas percebia que
era uma mulher muito bonita. Pela voz que soava nos auto-falantes, sabia
que se tratava de uma mulher inteligente e perspicaz. Poderia facilmente
se tornar amiga de uma mulher com aquelas qualidades, mas para ela a proposta
de Fran em apresenta-las insinuando um interesse estava completamente fora
de questão.
- Ela
não queria namorar, casar, ou qualquer outra coisa nesse sentido.
Não tinha a intenção de passar o resto da vida sozinha,
mas naquele momento, estava decidida a ficar só.
- Ficou
satisfeita com ver que Françoise não insistia mais no assunto.
Pelo que conhecia dela, sabia que nem estaria conseguindo assistir à
palestra tamanha seria a lista de qualidades da amiga que Fran estaria lhe
passando.
- Ela
lhe apresentaria a Helen, claro, mas pareceu que Fran resolvera respeitar
sua vontade de apenas conhece-la e não ser apresentada com o intuito
de que houvesse algo mais.
-
-
- Uma
hora depois, o auditório aplaudia o final da palestra.
- Julianne
ficou admirada com o trabalho que ela desenvolvia apenas em ouvi-la falar
dele. Seu entusiasmo era tanto e a maneira como falou foi tão envolvente,
que ninguém deixou o auditório antes dela terminar.
- Françoise
achou melhor esperar que a maioria das pessoas saísse para ir até
sua amiga. E isso ainda demorou um pouco, pois várias pessoas fizeram
questão de cumprimenta-la.
- Quando
as últimas pessoas se dispersaram e Françoise aproximou-se
de Helen, trazendo-a até Julianne e Babi para apresenta-la, Julianne
sentiu que o magnetismo dela não ficava só na voz: o andar
macio trouxe até ela uma mulher exuberante dos pés à
cabeça.
- Helen Adler-Wright simplesmente
impressionava. Julianne a tinha visto de longe, mas de perto os contornos
perfeitos do rosto e os olhos intensamente verdes mostravam o quanto ela
era linda. O tailleur escuro lhe caía perfeitamente, mostrando um
corpo desenhado em curvas bem feitas.
- Inegavelmente
admirada, ela assistiu Françoise apresentando a bela arqueóloga
à Bárbara.
- — Babi,
esta é Helen! – Fran apresentou-a, entusiasmada. — Helen, esta é
minha querida Bárbara.
- — Muito
prazer, Bárbara! Demorou, mas nos conhecemos finalmente, não
é? – Helen respondeu sorrindo, enquanto apertava a mão de
Bárbara.
- — É
mesmo! Já estava querendo que você viesse logo para conhece-la!
– Babi respondeu.
- — E
esta é Julianne de Laet, aquela amiga de quem também lhe falei.
- — Oi,
Julianne. Ouvi muito sobre você e seus maravilhosos vinhos. É
um prazer conhece-la!
- — Como
vai, Helen! Seja bem-vinda a Paris.
- Estendendo
a mão para ela, Julianne respondeu ao cumprimento e não teve
tempo de sentir raiva de Fran, que provavelmente havia feito a Helen os
mesmos comentários que fizera com ela. Foi como uma peça que
o destino quis pregar: quando os olhos delas se encontraram, ambas sentiram
a intensidade da atração mútua que tomou conta das
duas.
- Foi
algo que não estava previsto para elas. As duas mulheres mergulharam
involuntariamente no olhar uma da outra, sentindo o efeito e a intensidade
disso no arrepio que começou no toque de suas mãos. Era como
uma força sem controle a invadi-las e obrigar cada uma a reconhecer
o que estava acontecendo.
- E foi
como se um baque imprevisível e inevitável atingisse Julianne.
Parecia que tudo que tinha dito a respeito daquele encontro estava se contradizendo
por vontade própria: Julianne não queria, mas a pele macia
daquela mulher, em contato com sua mão, fez seu corpo arrepiar-se
inteiro, como há muito tempo não acontecia. A última
coisa que pensava acontecer era que se sentiria atraída por Helen.
Tinha rejeitado aquela idéia de Fran desde o primeiro momento, mas
diante do verde impressionante daqueles olhos, sentia-se incapaz de negar
seu desejo.
- Tentando
ignorar o que sentiu, ela desfez educadamente o aperto de mão, enquanto
lutava interiormente com suas convicções. A sensualidade de
Helen não lhe passava despercebida, mas recusava-se a vê-la
como alguém além de uma provável amiga.
-
-
- Helen
percorreu instintivamente o contorno dos lábios de Julianne com o
olhar. Não era de seu feitio agir assim quando conhecia uma mulher,
mas com Julianne à sua frente, não conseguiu controlar seus
olhos. Fran havia lhe falado que queria apresentar-lhe uma amiga que como
ela, estava solteira há mais de um ano, mas apesar da descrição
minuciosa dela, nunca teria imaginado que Julianne fosse tão extraordinariamente
perfeita quanto ela estava vendo naquele momento. Ela era alta, e emanava
uma imponência que os cabelos lisos e escuros só faziam aumentar
ao cair pelos ombros largos. Os olhos azuis atraíam os seus de uma
maneira que não conseguia controlar.
- Quando
Fran lhe falara sobre ela, não ficara interessada, pois estava terminando
um programa de várias palestras depois de concluídas as escavações
e só pensava em descansar um pouco. Depois do doutorado tinha mergulhado
no trabalho e passava muito tempo nas viagens. Isso acabou afastando qualquer
candidata a namorada e ela se deixou ficar na solidão, sem sentir
falta de uma companhia.
- Mas
naquele momento estava diante de uma mulher que conseguiu despertar nela
o que por muito tempo tinha ficado adormecido. A beleza de Julianne fazia-a
sentir um desejo quase incontrolável de chegar bem perto dela e sentir-lhe
o perfume, tocar aquele corpo esguio e beija-la devagar. Sua vontade era
deslizar os dedos por entre aqueles cabelos negros e trazer os lábios
dela até os seus.
- Ciente
de que as três perceberiam seu fascínio e lembrando-se do que
Fran dissera sobre Julianne não querer qualquer envolvimento, ela
sorriu tentando disfarçar seu embaraço e perguntou às
três:
- — E
então? O que acharam da palestra?
- — Excelente,
Helen! Eu nunca me interessei por arqueologia, mas confesso que fiquei fascinada
por seu trabalho! – Babi respondeu.
- — Também
gostei muito, Helen! Até parece que agora entendo de arqueologia!
– foi a vez de Julianne responder.
- As quatro
riram com a brincadeira, enquanto Françoise percebia que havia acertado
ao confiar em sua intuição: a atração que ela
apostou que existiria entre suas mais queridas amigas estava concretizada.
- “Agora
é só uma questão de tempo.” – pensou.
- Ela
conhecia Helen e Julianne muito bem. Ambas estavam sozinhas há um
bom tempo; Helen sem querer e Julianne voluntariamente. De alguma forma
inexplicável ela sabia que se sentiriam atraídas. Bárbara
não concordava com ela, achando que seria inútil a tentativa
de apresenta-las, mas resolvera não desistir. Ainda mais quando Helen
confirmou que viria a Paris logo no começo do ano.
-
-
- Quando
entraram no carro, ela lançou um olhar de vitória para Bárbara,
pois sabia que ela também tinha percebido. E olhando para suas passageiras
no banco de trás, comunicou-lhes com ar solene:
- — Minhas
queridas, hoje é um dia muito especial para mim! Tenho uma linda
mulher a quem amo muito e minhas mais queridas amigas também estão
aqui! Quero leva-las para jantar; e se vocês me permitem sugerir,
acho que o Magnific é perfeito para comemorar a vinda de Helen a
Paris.
- — É
uma ótima idéia! O que acha, Juli? – Bárbara perguntou.
- — Ótimo!
Helen vai gostar. E faz meses que não vou lá!
- — E
o que tem de especial nesse lugar? – Helen perguntou curiosa.
- — Oh,
é um maravilhoso restaurante que conhecemos, Helen! – Françoise
se adiantou. — A dona é nossa amiga, a clientela é quase toda
feminina e os pratos são ótimos.
- — Bem,
acho que um lugar para ficarmos à vontade seria muito bom. – ela
concordou.
-
-
- Era
sexta-feira e como um típico restaurante do Marais, o lugar estava
quase cheio. A maitresse levou-as até uma mesa mais afastada do burburinho
e reconhecendo as três, principalmente Julianne, que era cliente há
muito tempo, antecipou-se:
- — Posso
sugerir sua escolha de sempre às suas amigas, mademoiselle?
- Sem
saber se todas concordavam com o pedido, ela olhou interrogativamente para
as mulheres à sua frente.
- — Bem,
eu não sei...
- — Oh,
Julianne, seria uma excelente idéia que Helen provasse uma safra
especial da Maison de Laet! O que acha, Helen? – Françoise adiantou
a pergunta para a convidada principal.
- — Eu
adoraria, Julianne! Fran me contou bastante sobre seu trabalho e posso dizer
que só com o que ela me falou, confio na sua escolha.
- Encabulada
com a intensidade que Helen colocou nos olhos ao falar com ela, Julianne
desviou o olhar e confirmou para a maitresse que tomariam um merlot.
- Logo
elas entrosaram-se numa conversa animada. Acabaram falando sobre trabalho,
já que Helen tinha vindo terminar sua jornada de palestras ali em
Paris. Ela ficaria na cidade por um mês, descansando do longo trabalho
que realizara e confessou sua vontade de procurar trabalho como professora
nas diversas universidades francesas.
- — Gosto
das escavações e do trabalho de campo, mas sempre quis me
dedicar à carreira acadêmica. Acho que já tenho conhecimentos
e experiência suficientes para isso.
- — Pois
eu tenho certeza disso, Helen! Eu sempre disse a você que Paris lhe
daria muitas oportunidades. – Françoise comentou.
- — Fran
tem razão, Helen. As universidades francesas sempre foram abertas
a profissionais do mundo todo. E você tem um curriculum excelente.
Conseguirá aulas com facilidade. – Julianne concordou, brigando intimamente
com a satisfação em saber que ela pretendia ficar na França.
- Aquelas
sensações estavam irritando-a. A cada vez que Helen olhava
para ela, tinha que afastar do pensamento o desejo de estarem ali sozinhas,
apesar da ótima companhia de Fran e Babi. Sentia raiva de si própria,
pois a maciez da voz de Helen parecia anestesia-la e ela não conseguia
controlar suas vontades.
- Quando
o pedido para o jantar chegou, ela sentiu-se aliviada, pois Françoise
disparou a falar sobre a excelente cozinha do restaurante e por conseqüência
todas ficaram caladas enquanto ela falava.
-
-
- Estavam
quase terminando o jantar quando a conversa recaiu sobre os vinhos. Helen
já sabia que Julianne era enóloga; Fran tinha lhe contado
praticamente tudo que ela fazia, mas sentiu vontade de ouvi-la falar sobre
seu trabalho. Ela tinha observado Julianne durante todo o jantar e estava
cada vez mais fascinada por ela. Era uma mulher inteligente, forte, e a
beleza dela estava deixando-a encantada.
- Depois
de ter perguntado detalhes da produção de vinhos, ela ficou
ouvindo Julianne falar. Há muito tempo não desejava uma mulher
com aquela intensidade. Seu mergulho no trabalho deixou-a avessa a envolvimentos,
mas diante dos olhos estonteantes de Julianne ela se sentia enfeitiçada.
Tinha percebido que ela também ficara atraída, mas sentia
que ela estava rejeitando aquele desejo.
- Fran
lhe contara tudo sobre a grande decepção que Julianne passara
há um ano, mas também dissera que ela estava resolvida a ficar
sozinha por muito tempo. E agora que estava conhecendo a bela enóloga,
não conseguia imagina-la sozinha.
- “Qualquer
mulher neste restaurante adoraria poder dizer que ela é sua namorada.”
– Helen pensou, vendo Julianne conversar distraída com Bárbara.
- Desviando
o olhar, deu de cara com o sorriso vitorioso de Françoise. Ela ignorou
suas faces vermelhas por ter sido flagrada e disse que ia ao toillette,
chamando-a para ir junto.
- Quando
entraram, Françoise não conseguiu mais se conter:
- — E
então, minha querida amiga? Onde está aquele completo desinteresse
que você demonstrou quando lhe falei de Julianne?
- — Ora,
Fran... eu não imaginava que ela era tão linda!
- — E
agora, o que me diz? – ela perguntou, cruzando os braços.
- — Não
acredito que ela está sozinha esse tempo todo!
- — Pois
acredite. Eu e Bárbara já tentamos diversas vezes, mas só
agora ela resolveu abrir “um pouco” a guarda e vir conosco à sua
palestra; com a condição de eu não forçar nada
entre vocês.
- — Mas
eu percebi que ela também se sentiu atraída por mim!
- — Helen,
querida, ouça: Julianne foi muito ferida. Desde então ela
dedica-se apenas aos pais e ao trabalho. Eu também percebi o interesse
dela, mas sei que vai lutar contra isso. Se você está mesmo
interessada nela, terá de ter um pouco de paciência.
- — Não
estou só atraída, Fran. Faz três horas que a conheço,
mas já estou fascinada por ela!
- — Mas
você precisa ir com calma. Precisamos pensar em alguma coisa. Deixe
comigo! – ela falou, com ar de quem resolveria tudo.
- Voltaram
para a mesa e conversaram por um bom tempo ainda.
-
-
- Olhando
para o relógio e vendo que eram quase onze horas, Françoise
levantou seu copo para um último brinde naquela noite:
- — Meninas,
um brinde a esse nosso encontro! E espero que seja apenas o primeiro nesse
mês em que teremos Helen conosco!
- Depois
de brindarem, ela sentenciou:
- — Agora
espero que não se importem, mas acho melhor irmos embora. Ainda temos
que levar Julianne para casa.
- — Fran,
não é necessário! Posso ir de taxi. – ela tentou protestar.
- — Nem
pensar! Nós a levaremos até seu prédio, não
é, Babi?
- — Claro!
Imagine se você vai voltar para casa num taxi gelado!
- Diante
da decisão delas, Julianne apenas encolheu os ombros e deixou-se
levar até seu apartamento. Seria mesmo ruim ir embora de taxi àquela
hora.
- Quando
chegaram à portaria do prédio, Françoise começou
a pôr em prática o que estava planejando:
- — Você
vai voltar para Reims amanhã, Juli?
- — Vou,
mas terei de estar de volta a Paris na segunda-feira. Tenho uma reunião
com meu orientador.
- — Certo.
Dê um beijo em seus pais por nós.
- — Pode
deixar, eu darei. – e olhando para Helen, tentou falar o mais naturalmente
possível, despedindo-se dela também: — Foi um prazer conhecê-la,
Helen! Se precisar de mim para indica-la a alguém na faculdade é
só pedir para Fran me ligar.
- — Obrigada,
Julianne! Pedirei sim. – Helen respondeu, surpresa com a oferta.
-
-
- Chegando
ao apartamento, Julianne jogou-se em sua cama pensando em tudo que sentira
naquela noite. Foi obrigada a reconhecer que sua decisão em ficar
sozinha tinha ficado seriamente abalada ao conhecer Helen. Sentia todas
as suas defesas caírem por terra apenas em lembrar dos gestos suaves
que ela fazia ao conversar ou do tom de voz aveludado e sedutor.
- “Meu
Deus, não quero sentir isso! – pensou. Não quero me envolver
de novo! Ela é maravilhosa, mas...”
- Fazendo
um esforço enorme para afastar aquela mulher de seus pensamentos,
ela levantou-se e tirou as roupas pesadas, indo para o chuveiro. A água
quente escorreu-lhe sobre o corpo e pareceu que ao menos momentaneamente,
levou suas inquietações com ela.
- Envolta
num hobby, ela enfiou-se sob os cobertores e ligou a tv, mas o sono demorou
a vir. Tentou pensar nos pais que estavam esperando-a para o jantar no dia
seguinte e resolveu que voltaria a Reims logo de manhã, para evitar
que Fran ligasse e a convidasse para um dos prováveis passeios em
que levaria Helen, para que ela conhecesse Paris.
- Apesar
de saber intimamente que adoraria estar com elas, estava decidida e pegou
o telefone, ligando para o call-center da companhia aérea e reservando
uma passagem. O vôo era curto e estaria em casa bem antes do almoço.
-
-
- No apartamento
de Françoise e Bárbara, Helen estava inquieta. No quarto que
suas amigas lhe reservaram ela desfez suas malas e tentava colocar suas
coisas em ordem no armário enquanto as duas tagarelavam com ela.
- Françoise
não se continha, tanta era sua alegria em ver que Helen e Julianne
não precisaram de mais que um encontro para lhe darem, mesmo que
sem saber, a certeza de que estava certa ao intuir que elas se sentiriam
atraídas uma pela outra:
- — Eu
disse a você, Babi! Quando elas se encontrassem aconteceria. Eu sentia
isso!
- — Está
bem, amor. – Bárbara rendeu-se. — Você estava certa. Eu só
não concordava com isso, mas vi que não usei minha intuição
como você usou.
- Olhando
para as duas, Helen sorriu, entendendo porque se davam tão bem como
Françoise havia contado.
- Ela
sentou-se pesadamente na cama que seria sua por um mês e sentiu seu
corpo dolorido pelo ritmo acelerado que enfrentara nos últimos dias.
Seu pensamento levou-a de novo ao momento em que apertara a mão de
Julianne e a olhara diretamente nos olhos pela primeira vez. Era aquele
o momento. Aquele que não esqueceria jamais, mesmo que nunca pudesse
sentir sequer um leve toque dos lábios dela nos seus.
- Estava
fascinada; tinha de admitir. Julianne era linda, inteligente, doce e sedutora.
Aqueles olhos azuis eram um convite irrecusável para mergulhar na
paixão que se escondia por trás deles; que se negava a ser
vivida. Precisava se aproximar dela, mas não sabia como.
- Fran
e Babi seriam o elo para isso, já que Julianne era amiga delas.
- “E Fran
disse que daria um jeito.” – ela lembrou-se.
- Notando
o silêncio dela, Bárbara interrompeu seus pensamentos:
- — Espero
que fique confortável aqui, Helen. Tentamos deixar o quarto de hóspedes
o mais arrumado possível para você se sentir em casa.
- — Oh,
obrigada, Bárbara, mas não era no quarto que eu estava pensando.
- — Humm...
então deixe-me adivinhar em “quem” era... – Françoise provocou.
- — Deixe
de ser convencida, Fran! – Helen fingiu estar brava com ela, atirando-lhe
um travesseiro.
- — Eu
realmente “estou” convencida. O que posso fazer se minha intuição
é infalível?
- — Ora,
ora... em vez de ficar se gabando, porque não pensa em algo para
me aproximar de sua maravilhosa amiga solitária?
- — Não
se preocupe. Se Juli não tivesse gostado de você, nem tentaríamos,
mas... – ela fez uma pausa proposital.
- — ...
ela estará de volta na segunda-feira... e vocês se encontrarão
“por acaso” na faculdade! – completou, com ar misterioso.
- — Mas
ela estará na Faculdade de Química; no departamento de Enologia.
Que emprego uma arqueóloga estará procurando por lá?
– Helen ainda não tinha entendido o pequeno plano de Françoise.