Fogo Incontrolável
Gatafield
http://fogo-incontrolavel.blogspot.com
2007
O amor é como um fogo que nos corrói inteira... incontrolável
1) Se apaixonando...
Mais um fim de semana morno, sem graça. E eu aqui nesse apartamento sem interesse algum em fazer qualquer coisa. Ai, ai, desde que terminei meu último relacionamento que estou assim, sem vontade de fazer as coisas. Droga, mas porque as coisas tinham que ser assim. Putz, chegar em casa e ver a mulher amada nos braços de outra é dose, dose pra leão! E a sem-vergonha ainda me disse na cara dura e mais deslavada do mundo: - Amor, não é isso que você está pensando! Com certeza não era, porque naquele exato momento eu estava pensando nas carmelitas descalças rezando a Ave Maria. E assim, sigo eu sozinha.... Ah, meu nome é Marta, tenho 29 anos, sou loira, e tenho olhos azuis, quando era criança ganhei alguns apelidos geniosos como loirinha azeda, bicho de goiaba e barata descascada, ui que nojo!!! Sou dentista e moro em Curitiba, num apartamento de dois quartos, num bom condomínio. Amo essa cidade, ah, e quando é inverno então..hummmm... mas pena que tô sozinha, nada de pensar em inverno, isso me deixa mais triste ainda e estamos em pleno verão. Tô pirando mesmo, esse negócio de ficar sozinha não tá dando certo. Estou sozinha já há 6 meses. Seis meses sem um beijinho sequer!!!. Vou ler aquele livro.. já deve ser a tentativa 130, acho que agora consigo passar da primeira página.
Progresso! Já estou na página 10. Aleluia! BAAMMM!!! Mas que merda de barulho é esse?!? Foi no corredor. Corro para porta. Tenho a maldita mania de observar o corredor pelo olho mágico. Vai me dizer que alguém nunca fez isso??? Mudança pro apartamento vizinho. Corredor cheio de homens suados carregando coisas.. eca!!!! Poxa, agora vai começar aquelas furações, arrasta móveis daqui, arrasta móveis dali, martela aqui, martela ali, isso vai acabar com o meu sossegado fim de semana. Muito promissor. Que bela trilha sonora vou ter para me acompanhar. Droga!!! Acho que meu problema é falta de sexo, por isto estou tão nervosa. Só pode!
Segunda-feita, seis e meia da tarde. Acabei de atender meu último paciente de hoje. Estou quebrada. Minhas costas estão me matando. E ainda tenho que ir ao supermercado. Droga, droga, droga! Odeio ir ao supermercado. Pra mim não tem coisa mais chata do que ficar empurrando um carrinho e ficar escolhendo "coisas" e jogando dentro dele, para depois enfrentar um fila imensa para pagar por eles. Bota no carrinho, tira do carrinho, põe na sacola, tira da sacola. Detesto isso, acho que tem coisa mais prazerosa pra ser feita por aí. Como amar uma mulher, por exemplo!!!
Estou aqui na missão impossível de escolher o melhor molho de tomate, quando vejo aquela mulher, meu deus, de parar o trânsito. Ruiva, ela olhou pra mim, olhos verdes, cabelos longos e cacheados... vou enfartar!!! Preciso desesperadamente descobrir quem é esse monumento. Nunca a vi e não posso perdê-la de vista. Assim, vou discretamente seguindo ela. Ela está com uma prancheta. Será que ela está fazendo pesquisa de preços? Ela é mais baixa que eu, bom eu tenho 1,78m então a maioria das mulheres são mais baixas do que eu. Grande constatação, blerghhhh!!! Será que esse monumento gosta de mulheres? Hummm... parece que não. Que pena! Mas olhar não arranca pedaço e continuo com a minha secreta perseguição.
Ela olha os preços de alguns produtos e anota naquela prancheta. Nossa, ela levou a caneta até a boca. Eu quero ser aquela caneta, sentir aquela boca carnuda. Enlouqueci! Só pode. Estou de quatro por uma completa estranha. Mas o que está acontecendo comigo?!? Nunca agi assim, dessa forma tão desesperada. Chega!! Chega!! Chega!!! Vou pra casa, desisto de comprar hoje, só vou levar pão, leite e queijo, amanhã volto aqui e termino o restante da compra. É isso, mas que maluquice a minha, ficar babando por uma mulher assim. Tô na pura carência mesmo.
Mas como tragédia pouca é bobagem. No caminho de casa fura um pneu do carro. Merda!!! Só me faltava essa. Ainda bem que a rua está iluminada. Bom, lá vou eu trocar esse pneu. Meu deus, tô suando em bicas, quem apertou este parafuso tão bem apertado??? Não consigo soltar os parafusos. Droga! Parou um carro, pronto, ai meu deus, vou ser assaltada! Me proteja meu jesuis cristin. Quem eu vejo saindo do carro... a ruiva, vem andando sensualmente em minha direção, olho para seus olhos, me capturam no seu verde olhar, me dá um sorriso pra lá de sacana. Meu coração vai sair pela boca. Ela vem chegando mais perto e mais perto e pergunta com aquela voz grossa e máscula. Peraí, voz grossa e máscula?!?!? Olho de novo e tem um senhor de meia idade perguntando:
- Boa noite senhorita, posso ajudar-lhe a trocar este pneu. Vejo que está com dificuldades. Se oferece solícito.
- Hããnn... cla.. claro, mas é claro que sim. Muita gentileza sua em me ajudar. Respondo a ele e continuo. - Apertaram demais e não estou conseguindo soltar os parafusos.
Ele tenta e comenta: - É... quem trocou da última vez apertou demais mesmo. Mas vou dar um jeito nisso. Deixe comigo.
Em poucos minutos ele trocou o pneu, agradeci-o imensamente pela ajuda. E ele seguiu seu caminho. E eu?? Fiquei igual a uma barata tonta ali, imaginando a cena minutos antes.. Eu juro que era a ruiva quem eu tinha visto. Meu deus, eu enlouqueci mesmo, preciso de férias e urgente. É isso, vou tirar duas semanas de férias. Preciso voltar ao meu juízo perfeito.
2)
O mico
Terça-feira. Sete horas. Ainda bem que consegui arrumar tudo no meu novo apartamento. Mudança é uma bagunça, sempre uma bagunça. Mas ainda bem que já deixei o apartamento um brinco. Foi ótimo ter me mudado no fim de semana, até porque era o meu único tempo disponível. Só tenho o domingo livre, e sábado sim e sábado não, mas tive que pegar este sábado de folga. Chato isso! Espero não ter tirado a paz do morador aqui do lado. Vou chamar o Júlio pra gente comemorar o meu novo cantinho. Ah, Júlio é o meu namorado, namoramos há 2 anos. Eu o amo, mas ultimamente sinto que ele anda um pouco estranho. Bom, mas ele diz que é muito trabalho, e eu acredito, claro, porque ele iria mentir pra mim? Afinal ele me ama também. Bom, pelo menos ele me diz que me ama. Não vejo porque não acreditar. Tudo bem que ele não me faz subir pelas paredes na hora do sexo. Mas, com meus outros namorados era a mesma coisa, então acho que é assim mesmo. Mas não gosto quando ele chega antes e eu tenho que lançar mão do fingimento. Como os homens são bobinhos... basta dar alguns gemidos mais fortes, falar uns palavrões e pronto eles acham que nos levaram ao céu.
Meu nome é Joanna, tenho 32 anos, meus cabelos são longos e cacheados e sou ruiva, tenho olhos verdes, trabalho para uma rede de supermercados e sou gerente de uma unidade. Fui transferida recentemente, trabalhava aqui mesmo em Curitiba, apenas em outra unidade. Este é maior, aceitei o desafio. Formei-me em administração de empresas há 10 anos e desde então trabalho nesta empresa, mas fui galgando posições e hoje estou como gerente. Sou feliz, tenho um bom emprego, um namorado que eu amo, e agora estou de cantinho novo. Ainda não conheci meu vizinho. O prédio que eu moro tem dois apartamentos por andar. Sempre ouço quando ele sai. Haverá tempo suficiente para eu conhecer quem mora ao meu lado. Não gosto desta coisa de não saber quem está ali, a poucos metros de você.
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Terça-feira. Seis e meia da manhã. Dormi mal, acordei suada e sexualmente molhada, tinha acaba de sonhar com uma certa ruiva, foi um sonho extremamente quente. Carência, isso é carência pura!! Preciso ver como está a minha agenda e tirar essas minhas férias. Iria tirá-la daqui a dois meses, mas vou antecipar. Estou necessitada deste tempo para mim. Ao chegar no consultório às sete e meia, chamei minha secretária até minha sala.
- Bom dia, Carol!
- Bom dia, Dra. Marta.
- Carol, quero saber como está a minha agenda, pois gostaria de tirar duas semanas de férias. Seria semana que vem e a outra. Sei que a tinha programada para daqui dois meses, mas estou há quase dois anos sem tirar férias, e convenhamos ninguém merece ficar tanto tempo assim sem descansar.- E dei uma gargalhada.
Carol também riu e me respondeu:
- Bom, Dra Marta, acredito ser perfeitamente possível ajustar os horários, mas terão alguns pacientes que vão ter que ser atendidos provavelmente no sábado.- Disse isso, e me olhou, pois ela sabe que o-d-e-i-o trabalhar no fim de semana.
- É... se não tiver jeito de adiá-los, faço isso então. Embora a idéia de trabalhar no sábado não me agrade nem um pouco, mas em prol das minhas férias, eu faço este sacrifício.- Disse resignada.
- O paciente das nove horas cancelou, pois teve um imprevisto. - Disse-me Carol. Eu detestava quando isso acontecia, mas não podia fazer nada.
- Fazer o que. Vou aproveitar o horário e dar uma olhada naquele livro sobre próteses que eu comprei.- Disse, e Carol saiu da minha sala.
Tinha acabado
de fazer uma especialização
À tarde, Carol me comunicou que conseguiu ajustar minha agenda para que eu pudesse sair de férias. Teve 5 atendimentos marcados para o sábado. E, infelizmente, teria de fazer um atendimento no domingo de manhã. Era um caso especial e não podia deixar de atender este meu paciente. Pretendia sair no domingo à tarde. Iria para um hotel fazenda, não muito distante daqui. Acho que ter um contato com a natureza seria maravilhoso.
Terminei meu expediente, e claro, como não concluí a compra dos itens para a casa, tenho de voltar ao supermercado. Imediatamente lembrei-me da ruiva. E do sonho que tive com ela esta noite. Preciso de um banho frio. Gelado! Mas tenho o supermercado antes. E com certeza, a pesquisadora de preços não vai estar lá, deve estar em qualquer outro mercado, naquele de novo não. Com este pensamento em mente dirigi-me ao supermercado.
O supermercado é daqueles bem grandes, com um estacionamento grande, o que é bom pra nós, clientes. Horrível quando se vai a algum lugar e não tem onde estacionar o carro. É, não tem jeito de fugir dessa coisa chata de ir ao supermercado, só sobra pra mim mesmo. Quem manda morar sozinha. Sobram as coisas boas e as não tão boas pra serem feitas. Pego um carrinho pequeno e lá vou eu para esta grande aventura.
Após a extenuante tarefa de escolher tudo o que eu queria, agora só falta passar no caixa. Sabe o que é pior, por várias vezes me flagrei procurando a ruiva pelo supermercado, a cada nova sessão que eu entrava, meu coração batia descompassado esperando encontrá-la ali. Chato isso. Preciso esquecer essa mulher, nunca mais devo vê-la. A cidade é grande, quais as chances de encontrá-la de novo? E mesmo se encontrá-la, o que vou dizer? Não tenho menor noção de quem ela é. Larga de pensar nela, poxa! Vou embora pro caixa pagar isso aqui.
Levo um susto. Não acredito!!! É ela! Ela está lá em cima encostada na porta do escritório do supermercado. Será que trabalha aqui??? Meu coração está a trezentos por hora. Tem um tambor dentro da minha cabeça. Meu deus, que loucura é essa? Vou andando e olhando pra cima, droga, não consigo desviar o olhar. BAAAAAMMMMMMMMMM.... Nããããooooooo..... não olhei para onde estava indo e trombei com uma banca de promoção de leite condensado em lata... vocês não conseguem imaginar a cena: estou sentada no chão, com latas por cima de mim, tudo, mas tudo caiu! Uma verdadeira tragédia. Eu mereço, bem feito.... droga, droga, droga. E o mercado inteiro me olhando. Tudo isso aconteceu em poucos segundos. Que vergonha. Queria abrir um buraco no chão e me esconder. Que vontade de chorar. Droga, por que tinha que acontecer isto justo comigo?
- Você está bem? Ouço uma voz suave me perguntando.
Olho... fico petrificada, era ela, me olhando com aqueles olhos verdes lindos. Ela é toda linda! Fico parada olhando ela.
3)
A alegria
- Você está bem moça? Ela torna a dizer.
- Hã... si... sim, es... estou bem. Dou um sorriso sem graça. - Derrubei tudo, não vi. Falei. Que coisa mais imbecil de se dizer, é óbvio isso.
- Posso ajudá-la? Disse e me estendeu a mão. Peguei sua mão. Macia e quente. Senti um calor gostoso passear pelo meu corpo. Ajudou-me a levantar.
Estava tão envergonhada da situação. Meu corpo estava todo dolorido. Ela gentilmente pediu que eu a acompanhasse até uma sala. Antes falou com um rapaz para passar com meu carrinho de compras pelo caixa e que logo após levasse as sacolas para a sala. Pediu que eu sentasse em uma das cadeiras.
- Acho que é melhor levá-la ao hospital... Ela começou a dizer.
- Não. Não precisa. Disse. -Estou bem, foi mais o susto que outra coisa, e a vergonha também. Disse sorrindo . Ela sorriu. Meu deus, que sorriso lindo.
- Aceita um cafezinho ou um chá, ou mesmo um copo d'água? Perguntou com aquele sorriso lindo.
- Humm... acho que aceito um cafezinho. Respondi, retribuindo aquele sorriso encantador. Ela pegou o telefone e pediu dois cafezinhos.
- Bom, deixe apresentar-me, meu nome é Joanna e sou a gerente deste supermercado.
- Você trabalha aqui?!? Perguntei espantada, não acreditando nisso.
- Sim, trabalho. Nesta unidade comecei ontem. Trabalhava antes na unidade do bairro Xaxim.
- Nossa,
do outro lado da cidade. Comentei, pois o bairro em que estávamos era
o Bacacheri. Algo como o norte e o sul, pois é, totalmente oposto um
do outro. Acho que a partir de hoje eu iria apreciar vir mais vezes ao supermercado.
Acho que ia passar a comprar um produto de por vez. Viria muitas vezes. Descobri
de repente que a-m-o fazer compras
- ... casa?
- Hãã... desculpe, é.. é que não ouvi o que você disse. Desculpe-me, poderia repetir?
Ela estava sorrindo lindamente. - Claro que sim, eu perguntei se gostaria que alguém a acompanhasse até sua casa?
- Oh.. não.. não.. não precisa, eu estou bem. Estou bem mesmo, foi... só um susto. E ri. - Oh, mas que falta de educação a minha, nem apresentei-me. Me chamo Marta, e sou uma cliente deste supermercado.
- Eu sei.
- Sabe?!?
- Sim, lembro-me que a vi ontem aqui, quando fazia algumas análises do local, pra ver se fazemos algumas mudanças... pra melhorar o atendimento. Ela disse e insistia em ficar com aquele sorriso no rosto. Eu estava literalmente babando. Estava perdida. Perdidamente apaixonada por ela. Rapidamente olhei para suas mãos, não usava aliança, então não era casada. Fiquei feliz. Sou uma idiota mesmo, conheço um monte de gente que é casada e não usa aliança. Nesse momento entra uma moça com os cafezinhos.
- Srta. Joanna, aqui estão os cafezinhos. Precisa de mais alguma coisa? Perguntou a moça.
- Não, Rosana. Muito obrigada. E a moça saiu da sala.
Senhorita. Senhorita. Isso significa que é solteira... viva, viva, viva!!!! Mas pode ter namorado, imagine se um mulherão desses vai ficar por aí dando sopa. É ruim, hein! Não importa, meus olhos brilhavam de alegria. Eu estava conversando com a minha deusa. Bendita trombada com o leite condensado. Ai, como eu amo supermercado. Acabei de descobrir. Neste instante o rapaz trouxe minhas compras e deixou as sacolas em um canto. E entregou a nota para ela.
- Eu peço desculpas pela trombada e pelo inconveniente... Estava dizendo e ela me interrompe.
- Não há nada para desculpar, imagine. Você não tem idéia de como é comum acontecer isso. Você não é a primeira e nem será a última. Disse-me dando uma gargalhada gostosa.
Eu estava inebriada com a presença dela. Completamente enfeitiçada e ficamos conversando por mais alguns minutos. Paguei pelas minhas compras e fui embora. Não sem antes ela me dizer:
- Marta, adorei conversar contigo. Quando vier aqui, aproveite e venha tomar um cafezinho comigo. Você é muito legal. Gostei muito de você.
Não preciso nem dizer que saí de lá flutuando. Hoje poderia furar os quatros pneus do meu carro que eu ainda continuaria com aquele sorriso bobo na cara. Completamente embevecida. A minha deusa ruiva de cabelos de fogo. Descobri onde poderia sempre achá-la. Ai ai, e ainda me convidou pra ir tomar cafezinho com ela. Nossa, ela poderia me convidar pra qualquer coisa que eu toparia sem pestanejar. Cheguei em casa e guardei minha bendita compra. Comi alguma coisa, tomei um banho e fui dormir. Nesta noite sonhei novamente com uma deusa maravilhosa. Isso já estava virando hábito.
4)
As férias
A semana transcorreu normalmente, e finalmente chegou o domingo. Atendi o Sr. Alfredo e fui para casa, terminar de arrumar minhas malas, e finalmente iria para minhas férias. Seria muito bom este tempo comigo mesmo. Preciso disso pra reorganizar algumas coisas internas. Quando cheguei na garagem tive a impressão de ver a ruiva saindo de carro. Imediatamente lembrei-me do incidente do pneu, quando imaginei ter visto ela. Ri sozinha. Isso já está virando mania. Tudo pronto, carreguei o carro e saí rumo ao meu hotel fazenda preferido. Ah, esqueci de dizer, é a fazenda de uma amiga de família. Praticamente cresci lá. É como se fosse o meu refúgio, e sempre que preciso recarregar minhas energias é pra lá que vou.
Cheguei
no meu paraíso. Estava com saudades dos meus amigos. Eles adoraram a
idéia de eu passar minhas férias com eles. Eles me lembram o aconchego
de família. Já que colinho de mamãe só tenho quando
vou para Joinville,
Estacionei o carro, e fui até a recepção do hotel. Lá estava Jeremias, um rapaz de 30 anos, um faz-tudo na fazenda, como costumo chamá-lo.
- Boa tarde, Jeremias. Como você está, homem? Cumprimentei-o.
Ele abriu um sorriso imenso ao ver-me e veio abraçar-me. Nos conhecemos praticamente desde criança. Ele nasceu na fazenda, seus pais já trabalhavam nela.
- Boa tarde, mas que maravilha você por aqui Marta. Estava com saudades suas. Tá todo mundo te esperando ansiosamente. Seja bem vinda minha querida. E deu-me um beijo na bochecha.
Retribuí sapecando um beijo na sua bochecha também.
- Já chegou e nem me disse nada, né minha menina. Era a D. Isabel, a responsável pelo motivo de eu voltar sempre alguns quilinhos mais gorda para casa. Uma simpática senhora de 54 anos. Já trabalhava na fazenda tinha quase trinta anos. Sempre brincava dizendo que já era patrimônio da fazenda.
Corri para abraçá-la. Eu gostava tanto de estar ali. Ia ser ótimo. Já fazia alguns meses que eu não aparecia por aqui. Estava com saudades.
- Como você está D. Isabel? Humm... estou com vontade comer aquele bolo de cenoura com cobertura de chocolate que só você sabe fazer. Falei dando uma gargalhada.
- Eu estou bem. É só pra isso que você vem aqui né minha menina. Agora, vou te contar um segredo. Falou baixinho no meu ouvido. - Fiz o bolo e tá lá esperando ser devorado por você. Não resisti e dei um gritinho de felicidade.
- Então o que nós estamos esperando, eu quero é comer um pedaço dele agora mesmo. E saímos em disparada para a cozinha.
Já devidamente satisfeita da minha vontade de comer aquele manjar dos deuses. Perguntei:
- E a D. Helena e a Fabiana, onde elas estão?
- Bom, a D. Helena foi visitar uma amiga dela na cidade, deve voltar mais a noitinha. Já a Fabiana viajou com o namorado dela. Pelo que sei volta na metade da semana. D. Helena não gostou muito dela viajar com esse rapaz não, sabe. O cara é muito folgado.
- Ah, D. Isabel, deixa disso mulé, fica se metendo na vida alheia. Falei dando um abraço nela.
- Mas é, o cara é muito do folgado mesmo. Não faz nada, só fica andando de carro pra baixo e pra cima. Não produz nada, não se interessa por nada, aliás, se interessa sim e acho que é pela fazenda que um dia vai ser da D. Fabiana. Ela que não abre o olho não.
- Ah, deixa disso mulé, a Fabiana já tem idade suficiente pra saber quem ela escolhe pra ficar do lado dela, e se conheço ela, pelo menos alguma qualidade ele tem. Ponderei.
- O seu quarto tá arrumadinho, vou pedir para o Jeremias levar as suas coisas pra lá.
Nunca me deixaram ficar nas cabanas, eu até que tentei mas dizem que sou da família e que tenho que ficar no quarto de hóspedes.
- Ah, obrigada. Quero aproveitar esses dias que vou ficar aqui. Quero fazer tudo que tenho direito. Disse e soltei uma gargalhada.
D. Isabel sorriu e me olhou com aquela cara de quem diz: essa menina não tem jeito. Ela saiu e foi pedir para Jeremias levar minhas coisas. Não resisti e comi mais um pedaço do bolo, humm.. mas isso é mesmo uma delícia. Já deu pra entender porque sempre volto cheinha. Não dá pra resistir. É tentação demais.
Já devidamente instalada e após um delicioso banho tomado, desci para jantar. O jantar na realidade é um imenso café colonial, com muitos pães, tortas, bolos, salames, queijos, sucos, geléias. Uma perdição. No final de semana sempre fica lotado o hotel, durante a semana é mais tranqüilo, mas sempre tem hóspedes. Isso é bom, porque sempre tem atividades.
Logo após
o jantar a D. Helena chegou e me recebeu com o imenso carinho de sempre, ela
é como se fosse minha segunda mãe. Conversamos um monte, contando
as novidades e é claro botando as fofocas
5)
Recordações
Como é costume desde que namoramos, Júlio sempre vem passar o fim de semana em minha casa. Poucas vezes ficamos na casa dele. Eu prefiro assim, pelo menos tenho minhas coisas à mão, meus cremes, perfumes, sem contar que nunca sei com que roupa quero sair. Já os homens são mais práticos com estas coisas. Sempre estão prontos.
Sábado
à noite, jantamos fora. Fomos a um restaurante de comida italiana
Fui pra cozinha providenciar o meu desjejum. Combinamos de ir ao cinema no final da tarde. Vamos ao Shopping Estação. Eu gosto de lá, mas gostava bem mais antes da reforma que fizeram. Agora ficou com cara de shopping mesmo e o que não falta nessa cidade é shopping center. Antes tinha aquele ar bucólico de uma antiga estação de trem da cidade. É, a modernidade vai tomando conta de tudo!
Enquanto tomava meu café da manhã, lembrei-me de Marta. Que situação, trombar com o estande das latas de leite condensado. Nossa, quando eu vi aquilo acontecendo, desci as escadas com uma rapidez impressionante. Poderia ter me machucado também. Nunca me aconteceu isso de trombar, mas acho que se acontecesse ia ficar com uma vergonha imensa. Fiquei com pena dela naquele momento. Ela estava vermelha de vergonha. O máximo que eu poderia fazer era tirá-la dali, porque as pessoas ficam olhando e acabam constrangendo mais ainda a pessoa. Gostei de conversar com ela. Espero que ela realmente apareça para tomar um cafezinho, é uma companhia agradável. Quem sabe poderemos ter uma bela amizade. E com este pensamento na cabeça passei o meu domingo.
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Segunda-feira.
Adoro este ar da fazenda. Hoje de manhã fiz um passeio a cavalo juntamente
com alguns hóspedes. Neste exato momento, estou deitada numa rede embaixo
de algumas árvores, como isso é bom. São 4 horas da tarde,
o tempo está firme e ensolarado, e claro, quente também. Acho
que vou aproveitar e vou tomar um banho de piscina. quem sabe eu consigo uma
corzinha desta vez... porque todas as outras tentativas deram
D. Helena disse-me que Fabiana deve retornar à fazenda na quarta-feira. Estou ansiosa para conversar com ela e matar as saudades da minha amiga. Crescemos juntas, fazíamos cada arte por esta fazenda. Lembro-me de uma delas, quando queríamos despistar o Jeremias, que vivia insistindo pra ficar com a gente e nós querendo mais privacidade para termos "assunto de mulher". Tínhamos 13 anos e armamos de prendê-lo dentro do paiol, onde era guardado o milho para alimentar as criações. O coitado ficou lá, preso quase a tarde inteira. Quase apanhamos por causa disso, mas que foi divertido, foi! Ri sozinha. Os meus pais e os pais de Fabiana são �cumpadres� de casamento. Quando eram solteiros, faziam as suas festinhas juntos.
Fabiana sabe que sou lésbica, quando contei a ela disse-me que não se importava, desde é claro, que eu não me apaixonasse por ela, porque o negócio dela era homens, nada de mulheres! E não queria ver a melhor amiga pendurada por causa dela. Essa minha amiga é um figura! Muito doida. Mas amo ela.
Estou aqui melecada de protetor solar, deitada na cadeira. Ai ai... ô vida boa essa!! Faz 10 anos que resolveram abrir o hotel fazenda. Idéia da D. Helena, mulher visionária. Começaram com 5 cabanas, hoje tem 28, e tem que reservar com antecedência, por que senão corre-se o risco de ficar sem. Fim de semana é uma loucura, mas é uma delícia. Existem duas cabanas que são flutuantes, nunca teria coragem de ficar nelas, mas são disputadas. Fica no lago que fica em frente às cabanas. Cada cabana tem sua garagem, e é equipada com uma cozinha com fogão, geladeira, pia, armários e mesa com cadeiras. Tem um beliche e no quarto tem uma cama de casal e tem um banheiro. Cabem 4 pessoas. São feitas de madeiras, bem rústica. Ano passado fizeram um campo de futebol e uma cancha de bocha. O pessoal da cidade vem passar o domingo aqui, como se fosse um clube, pois tem piscinas. Uma das coisas que eu adoro fazer, além do passeio a cavalo, são as trilhas. Uma delas dá para um pequeno riacho que tem uma cascata d'água. É a minha preferida. Amanhã cedo vou fazê-la.
Terça-feira
de manhã. Estou a caminho da minha trilha favorita. Ela fica abaixo desse
morro, e tem que descer uma escadaria com 116 degraus. Para descer é
uma beleza, todo santo ajuda, mas para subir... bom, é ótimo pois
vale como exercício. A trilha ladeia a encosta do morro e vou descendo
cada vez mais até chegar ao riacho. Ai, aqui é uma paz imensa,
amo este pequeno lugar. Sentei-me numa pedra e fechei os olhos. Comecei a lembrar
do meu último relacionamento. Conheci a Amanda através de uma
amiga minha, a Vanessa. Foi na festa de aniversário dessa amiga. Olhares
pra cá, olhares pra lá e logo estávamos atracadas num papo
interessante. Foi uma afinidade imediata. Em poucos dias já estávamos
namorando e em menos de três meses estávamos morando juntas. Ah,
isso me faz lembrar daquela piadinha infame: O que uma lésbica traz no
segundo encontro? A mudança. Soltei uma gargalhada. Se alguém
me visse ali naquele instante iria imaginar que eu estivesse louca. Vivíamos
bem, mas depois descobri que Amanda sempre foi galinha. Me traiu diversas vezes.
E eu achava que ela era apaixonadíssima por mim, bom pelo menos me fazia
crer que era. Tinha ido fazer a minha especialização
Mas chega de pensar nisso. Isso só me traz sofrimento. Quero pensar em coisas alegres. Estar aqui neste pequeno pedaço do paraíso me traz uma paz imensa. Adoro refletir sobre minha vida aqui. Gosto de fechar os olhos e ouvir o canto dos passarinhos, o barulho que a água faz correndo... adoro essa comunhão com a natureza. Me renova, me rejuvenesce, me revive.
Lembrei-me da ruiva, Joanna, nome lindo, aliás tudo nela é lindo. E tem um perfume maravilhoso, diria inebriante. Preciso traçar um plano para vê-la mais vezes. Quem diria, eu que odeio supermercados, traçando um plano para freqüentá-lo mais vezes. Ri sozinha. É, mas estou encantada, estou de quatro.. de quatro?!?!? É, estou definitivamente de quatro por esta mulher. A mulher do supermercado! Cabelos de fogo... é isso... um fogo... um fogo incontrolável que eu sinto quando a vejo. Isso é paixão, amor, sei lá... nunca me aconteceu antes ficar assim. Só sei que nunca senti algo tão forte assim antes. Mas tenho medo, medo de machucar-me novamente. Tenho medo de botar todas as fichas e sofrer uma decepção. Já tive uma recentemente e ainda estou me reerguendo. Nem sei se ela gosta de mulheres, e eu aqui já pensando em beijá-la, amá-la. Dei um sorriso triste. Levantei-me, resolvi voltar, tomaria um banho e iria encarar aquele �engordativo� café colonial e esperar Fabiana que chegaria amanhã.
6)
Matando saudades
Eram dez horas da manhã quando Fabiana chegou. Veio logo me abraçando e me beijando no rosto. Ela estava linda. Uma morena jambo, um tesão de mulher. Olhos e cabelos compridos negros. E foi me perguntando:
- Quais são as novidades? Quero saber tudinho! Não me esconda nada, nem se atreva a fazer isso. Acabei rindo da sua curiosidade.
- Não tenho muitas novidades não. Tudo na mesma, minha querida. Respondi.
- Não vem que não tem. Você tá com um brilho diferente nesse olhar. Pensa que eu não te conheço, é? Arrumou uma namorada nova, aposto!
- Ah... quem dera tivesse arrumado.
- Mas tem rabo de saia nessa história. Me conta, vai!
- Bom... rabo de saia tem. Ambas rimos. - Você nem vai acreditar. E contei toda a história... da primeira vez que a vi, do episódio do pneu furado, e quando contei essa ela se matou de rir. Contei da minha trombada no leite condensado. Nessa ela gargalhou mesmo, já estava chorando de tanto rir.
- Pára tá, fica rindo assim, não conto mais nada.
- Ó, parei.. tô séria. E caiu na gargalhada de novo. Impossível não rir junto.
Contei tudo o que aconteceu. Ela ficou me olhando com uma cara estranha, e quando eu ia perguntar o que era, ela diz:
- Caraca... Martinha, você está apaixonada!
- É Fabi, acho que tô mesmo. E não sei como lidar com isso.
- Minha amiga, desejo boa sorte pra você. Você sabe que eu odeio ver você sofrendo. Quando Amanda fez aquilo, fiquei com vontade de dar uma surra nela.
- É, eu sei. Mas, desta vez fui flechada mesmo. Fabiana me abraçou.
- Eu quero ver você feliz, isso é o que me importa. Disse e me deu um beijo na testa.
Ficamos ali abraçadas por mais alguns segundos, quando me lembrei do que D. Isabel me disse sobre o novo namorado de Fabiana.
- Me diz uma coisa? Perguntei. - E esse teu novo namorado?
- O Augusto? É só um passatempo. Quero nada sério com ele não. Riu. - Enquanto não aparece coisa melhor vou aproveitando ele.
- Você é maluca mesmo.
- Ele é gostosinho, faz bem feito. Deu uma gargalhada gostosa. - Mas não o amo. É só diversão mesmo.
- D. Isabel disse que ele tá de olho na fazenda. Falei rindo.
- E eu não sei! Mas deixa o coitado achar que tá abafando, na hora que ele começar a me incomodar mando ele pastar. Sentenciou.
- E o seu pai, o Seu Juca? Onde ele está?
- Bom, depois que mamãe e ele se separaram, ele ficou com a fazenda do Mato Grosso e tá por lá. Sabe como meu velho é, né.
- Sei, um cabeça dura! E quando foi a última vez que ele veio aqui?
- Já tem dois meses. O Leandro foi com ele dessa vez. Meu irmão resolveu que quer ficar por lá.
- Poxa, as mulheres da família de um lado, e os homens do outro.
- Pois é, menina. Família é bom no retrato. E Gargalhamos.
Fiquei na fazenda até a próxima quarta-feira, quando decidi ir embora. Tinha decidido dar um pulo em Joinville ver meus velhos. Estava com uma saudade imensa deles. Cheguei em Joinville no final da tarde, e como sempre, chovendo! Eita cidade da chuva. Sabe onde fica Joinville? Não?? É a segunda nuvem à esquerda da BR-101. Outra piadinha infame. Está um calor abafado, insuportável. Carro com ar condicionado aqui não é luxo, é item de primeira necessidade. Parece que a gente está dentro de uma sauna. A umidade aqui é absurda, se ficar sem usar as coisas, mofa tudo. Nem sei como consegui viver nessa cidade por tanto tempo. Gosto da estrutura que oferece, mas do clima...
Meus pais
sabem que sou homossexual, me abri com eles quando tinha 22 anos. Não
foi fácil, sofri rejeição, mas esse momento já foi
superado. Hoje nos damos super bem, isso não atrapalha
Cheguei na casa de meus pais e foi aquela festa. Matei a saudade que tinha deles. Saí muito com minhas irmãs. Tenho duas, Mariana, de 26 anos e Melânia, de 22 anos. Ambas tem seus namorados. Notaram que nossos nomes começam com a letra M? Pois é, maluquice do seu Manoel a D. Miriam, meus pais, quiseram que a família toda tivesse essa letra. Coisa de doido. Matei a vontade de comer a comida da minha mãe. Conversei muito com meu velho. Ele estava muito ansioso, pois iria se aposentar no mês seguinte. Falei pra levar a mamãe numa viagem ao nordeste e ele gostou da idéia. Fiquei até domingo, após o almoço peguei a estrada de volta para Curitiba. Valeu a pena essas férias, me sinto outra. E amanhã é dia de pegar no batente de novo.
7)
Surpresas
Terminei
meu expediente no consultório às dezessete horas e, de fato, eu
precisava ir ao supermercado, pois não tinha nada pra comer
Perguntei
por ela para uma funcionária, e disse-me que Joanna estava em sua sala,
lá
- Marta, que surpresa maravilhosa. Achei que tivesse desistido de fazer suas compras aqui. Não apareceu mais.
Será que ela ficou me procurando nesse monte de corredores durante essas duas últimas semanas?
- Não desisti não. Estava viajando de férias. Respondi olhando aqueles olhos verdes maravilhosos. Pareciam duas esmeraldas. Jamais me cansaria de olhá-los.
- Ah, isso explica. Pensei também que não quisesse tomar o cafezinho comigo. Disse e olhou nos meus olhos. Um frio percorreu minhas costas.
- Claro que quero. Vim aqui por dois motivos, ou melhor, três motivos.
- Três??
- Sim, as compras, o cafezinho e você!
- Uau! Fico
feliz
- Sou dentista. Tenho um consultório no centro da cidade.
- Oras, vou trocar de dentista então. Disse rindo.
Até que não seria má a idéia de lidar com aquela boca maravilhosa. Só não sei se conseguiria fazer direito o serviço. Vai que eu trato do dente errado. Socorro!!
Ficamos conversando por quase uma hora, só parei mesmo porque vi a hora e já devia ser o horário dela ir embora. Não queria atrapalhá-la. Ela sempre me surpreende e não foi diferente dessa vez.
- Olha, Marta, eu sinceramente adorei você. Gostaria que pudéssemos ser amigas. Meu coração ficou feliz e ao mesmo tempo triste. Adorei pelo fato de poder participar da vida dela, mas triste por ser apenas... amiga! � Gostaria de convidá-la para irmos ao cinema no sábado. O que acha?
- .... (fiquei muda).
- Oh, desculpe-me. Você deve ter compromisso com o seu namorado e eu aqui querendo que.......
- Não... Interrompi. - Não tenho namorado. É que simplesmente não esperava pelo convite. Falei sorrindo. � Mas aceito sim. Vou adorar.
Ela soltou mais um daqueles belos sorrisos. Meu deus, ainda vou enfartar. Trocamos telefone e despedi-me dela. Fui fazer minhas compras feliz da vida. Tinha um encontro com ela. Tinha um encontro! Nem conseguia acreditar. Estava sonhando, tamanha felicidade que eu sentia. Foi a compra de supermercado mais deliciosa de fazer. Paguei por ela e fui pra casa cantarolando. Preparei uma refeição leve, tentei assistir um pouco de televisão, tomei um banho quente e fui dormir. Sonhei muito. E com a minha deusa de cabelos de fogo.
O dia seguinte foi normal, embora sempre corrido. Virou rotina ficar pensando em minha deusa. Quando percebia, já estava eu pensando nela. Cheguei em casa, fiz meu lanche e lembrei que não tinha tirado o lixo. Droga! Tinha que ter feito isso ontem mesmo, teria que fazer isso agora ou senão ia começar a feder. Credo. Abro a porta para levá-lo para fora e quem eu vejo saindo do elevador. Ela! Ah, mais uma visão daquelas eu não agüento. Tô pirando de vez mesmo. Tô maluquinha, maluquinha. Mas ela continuava vindo em minha direção e fazia uma cara de espanto igual ou pior que a minha. A fitei com um olhar incrédulo e ao mesmo tempo surpreso. E a ouço falar:
- Marta! Você mora aqui? Perguntou com cara de toda assustada.
8)
Descobertas
- Mo... moro si... sim. Gaguejei. � E o que você faz aqui? Quis saber.
- Eu moro aqui também. Não acredito! E riu. � Somos vizinhas! Mas isso é maravilhoso. Falou me olhando com aqueles olhos que passei a amar.
- Foi você quem se mudou recentemente pra cá? Perguntei ainda não acreditando na sorte grande que eu tinha tirado.
Deixei o lixo num cantinho. Depois eu daria um jeito nele.
- Sim, me mudei tem três semanas. Respondeu. � Comprei este apartamento por causa da ótima localização.
- Sim, é muito boa mesmo. Quer entrar? Aceita tomar alguma coisa? Fui perguntando totalmente aturdida.
- Não minha querida, estou me sentindo um prego. Respondeu para minha total decepção. � Mas aceito em outra ocasião. Faço questão. Falou sorrindo. Um sorriso maravilhoso. Como ela é linda e é minha vizinha! Ainda não conseguia acreditar nisso. Eu estava completamente surpresa com o fato.
- Está bem. Quando quiser é só aparecer. E não precisa avisar. Falei sorrindo e dando carta branca a ela.
- Aparecerei sim. E deu uma gargalhada gostosa. Ri junto. � Até mais, Marta. Veio em minha direção e deu-me um beijo na bochecha, olhei para ela, sorri e retribui. Eu estava tremendo. Minha vontade era beijá-la na sua boca linda. Ela entrou em seu apartamento e eu fiquei ali, parada, igual a uma estátua, ainda não acreditando nisso. A minha deusa de cabelos de fogo, minha vizinha? Será que eu estou sonhando? Isso era bom demais. Não! Era maravilhoso. E eu tenho um encontro com ela no sábado. Meu deus, que felicidade a minha. Peguei o lixo e fui cantarolando até o depósito. Voltei pro apartamento, minha vontade era de pular, de gritar, de dizer pra todo mundo a minha alegria. Esta noite foi difícil dormir. Estava muito agitada.
Fui trabalhar no outro dia cantarolando. Quando cheguei no consultório, Carol me fitou com cara de �não to entendendo�. E falou:
- Nossa, que alegria! Pelo visto viu o passarinho verde hoje. Falou rindo e balançando a cabeça como quem diz: essa aí pirou de vez.
- Humm.... hoje nada me tira do sério, Carolzinha. Nada. Disse com um sorriso de orelha a orelha.
- Vixe, a coisa é mais séria do que pensei. E deu uma risada gostosa.
- É menina, acho que o cupido mandou uma flecha certeira no meu coração.
- É? E posso saber que é a felizarda? Perguntou querendo saber. Ah, Carol sabia que eu me envolvia com mulheres. Além de secretária passou a ser uma amiga, pois grande parte da minha decepção que tive com Amanda foi com ela que me amparava.
- Minha vizinha! Falei rindo.
- Sua vizinha? Como assim?
- Minha vizinha, que mora no outro apartamento no mesmo andar do meu prédio.
- Mas... não tem umas três semanas que foi ocupado esse apartamento? Você me comentou isso, disse Carol, me fitando espantada.
- Sim, e por incrível que pareça, só descobri ontem. Mas o restante da história você não sabe. Menina, deixa eu te contar. Espera aí. Meu paciente ainda não chegou? Perguntei pois tinha hora marcada naquele horário.
- Ligaram um pouquinho antes de você chegar. Não poderá vir agora, foi remarcado para tarde. Disse-me preocupada, pois sabia que eu �adorava� quando acontecia isso.
- Mas, que maravilha. Falei eufórica. Carol me fitou sem entender a minha alegria. Ela pensou que realmente a �flechada� do cupido era séria mesma, para eu nem me importar com a desistência. � Então tenho tempo para te contar tudinho. Falei feliz da vida.
E então contei tudo, sem omitir nada, inclusive do encontro marcado para sábado. Ela riu, mas riu muito das minhas trapalhadas. Carol estava comigo desde que abri o consultório, era casada e tinha dois filhos. Quando contei-lhe sobre minha preferência pelas mulheres ela me olhou com aqueles olhos bem arregalados e disse: Você é muito feminina para ser isso. Como pode? Sempre imaginei que as lésbicas se vestissem e se portassem como homem. Aí tive que explicar pra ela que não, que cada uma adotava o estilo que lhe agradava mais. E que o jeito dela pensar era puro estereótipo. Quando terminei de contar, ela me perguntou:
- Mas, Dra. Marta, esta mulher também é como você? Perguntou preocupada.
- Não sei, Carol. Se não for, vou sofrer muito. E nem mesmo sei se ela tem namorado ou namorada. Falei de repente sentindo uma tristeza imensa, contrastando com a minha outrora alegria.
- Bom, espero sinceramente que ela seja. Quero ver você feliz de novo. Chega de ficar triste pelos cantos por causa daquela ingrata da Amanda. Me falou olhando para minha carinha tristinha. � Acabou de chegar seu próximo paciente. Comunicou-me.
- Vou atendê-lo então. Mande-o entrar, por favor.
9)
Joanna
Joanna estava
em seu apartamento, com o controle remoto na mão, zapeando os canais,
mas com o pensamento longe. Já era sexta-feira e não tinha mais
visto a Marta. Estava pensando: Será que se eu aparecer ali, no apartamento
dela, de repente ela vai gostar? Estou com uma vontade imensa de falar com ela.
Estranho isso! Já tive e tenho várias amigas, mas nunca senti
essa necessidade de querer ficar junto o tempo todo. Estou contando os minutos
para sairmos juntas amanhã. Este fim de semana o Júlio estará
de plantão. Por isso a convidei. Vou estar com o fim de semana livre.
Ainda não tinha decidido qual filme assistir, mas isso decidiríamos
na hora, nem sei o que está
Ri da idéia que tive. Por que não? A convidaria para passearmos juntas no Parque Bacacheri no domingo de manhã. Sempre gostava de caminhar por lá. Este foi um dos motivos da escolha deste apartamento. Ficava a duas quadras do parque, que não era tão grande. Tinha um lago onde patinhos nadavam felizes. Era muito gostoso passear por ali. Era ótimo para fazer caminhadas. Quem sabe não poderiam combinar de todo domingo de manhã caminharem juntas. Imaginou só? Arrumando uma companhia para as minhas caminhadas, já que o Júlio odiava isso. Bom, espero que ela goste da idéia. Não custa perguntar, e o máximo que eu posso ouvir é um belo �não�.
Bom, ela me convidou para tomar alguma coisa no apartamento dela, e disse que poderia aparecer sem avisar, então vou fazer isso mesmo. Assim conversamos um pouco, já que estou tão doida para falar com ela. É tão bom isso. Sinto como se a conhecesse há vários anos. Espero que ela também sinta a mesma coisa, porque não quero ser uma pessoa chata querendo impor a minha presença. Vou lá. Levantou-se e foi para o apartamento de Marta. Parou em frente à porta e sentiu o coração batendo forte e um frio na barriga. Estranho isso. Estou me sentindo como uma adolescente quando se apaixona pela primeira vez. Riu desse pensamento maluco. Totalmente maluco. Tocou a campainha. Será que ela está em casa? Se perguntou. Nesse instante a porta se abre e Marta, vestindo um shortinho e uma regata justinha ao corpo dá-lhe o maior sorriso. Ela tem um sorriso lindo. Pensou Joanna.
- O... oi. Tu.. tudo bem? Gagueja Joanna.
- Olá, estou ótima. Entre! Convidou Marta, que estava sem chão. Não esperava por esta surpresa. Mas tinha amado a visita. Estava trêmula. Preciso me controlar, ou vou dar bandeira pra ela. E não quero isso. Primeiro preciso sentir em qual terreno estou pisando. Preciso agir com cautela. Pensou.
- Eu estava passando por perto e pensei em te fazer uma visitinha. Brincou Joanna, rindo.
- A-há... resolveu aceitar meu convite para tomar alguma coisa. Fui dizendo e a convidando para irmos até a sala. Sentamos. E então disse: - O que prefere, um vinho, um suco, um café, um chá, água? Perguntei rindo.
- Hummm... tantas escolhas, mas aceito um suco.
- Tenho de laranja, uva e maracujá. Qual prefere? Perguntei olhando para ela. Ela estava bem descontraída. Sempre a via em seus terninhos. Estava de bermuda e uma camiseta, bem à vontade. Marta, desvie o olhar das pernas dela. Adverti-me. Não dê bandeira, mulher. Que é isso! Mas são pernas lindas, lisinhas.... ai que vontade de passar a mão e beijá-las.
- Aceito de maracujá. Dizem que é bom pros nervos. Disse e soltou uma gargalhada gostosa que preencheu todo o ambiente. Amava essa gargalhada. Meu Deus, estou apaixonada por essa mulher de cabelos de fogo. Quero-a pra mim, preciso dela.
- Já tá assim, é? Precisando acalmar os nervos. Comentei e ri também. Estávamos com os olhares presos. Um no outro. Quebrei o contato. � Vou buscá-lo. E dirigi-me a cozinha, tremendo por dentro.
Peguei os sucos, mas antes me recostei por alguns segundos na pia e fiquei pensando. Minha vontade era de ir até lá, abraçá-la e beijá-la, beijar cada milímetro daquele corpo maravilhoso, um beijinho em cada sardinha que ela tinha. Já tive várias mulheres, mas nunca senti por nenhuma esse fogo interno que me queimava. Essa coisa quase incontrolável de querer amá-la, querer passar a vida toda ao lado dela. Chega de pensar D. Marta, volte pra lá e aja naturalmente. Controle-se. Não faça nenhuma besteira. Pensando assim, voltei à sala. Entreguei o suco a ela e ela me brindou com mais um daqueles belos sorrisos que eu passei a amar.
- Espero que eu não esteja te atrapalhando, pois voc..... Ela falava.
- Não. Interrompi. - Estava vendo a programação maravilhosa que tem na tv. E ri. � E você não me atrapalha, e pode aparecer aqui sempre que te der vontade que eu vou adorar. Complementei.
- Ufa! Que bom. Ela falou. � Assim fico mais tranqüila, porque a ultima coisa que quero é te atrapalhar.
- Você jamais me atrapalha, Joanna. Disse e fiquei olhando para aquela boca carnuda, meu objeto do desejo. Linda!
- É o seguinte, estive pensando em te convidar para caminharmos no parque no domingo de manhã. O que você acha? Ela me perguntou. E estava olhando em meus olhos. Posso dizer que dessa vez ela me pegou de jeito. Sorri e respondi:
- Humm... adorei a idéia. Eu também gosto de caminhar lá. Sempre vou aos sábados e domingos. Aceito sim!
- Que bom, mas pena que aos sábados eu não possa ir em todos, pois trabalho um sábado sim e um sábado não.
- Então vamos naqueles que você possa ir. Sobreviverei aos que você não for. E dei um dos meus melhores sorrisos.
- Combinado, parceira de caminhada. Disse Joanna.
Conversamos sobre um monte de coisas, a conversa fluía, e ríamos muito. Eu constantemente me repreendia pois quando percebia já a estava �comendo� com os olhos. A necessidade que eu tinha de sentir seu beijo, seu gosto me assustava. Estava lidando com algo muito forte. Um sentimento que nunca senti, avassalador. Quando ela foi embora, nos despedimos com um abraço e senti vontade de nunca mais largá-la. Ela me deu um carinhoso beijo na bochecha. A minha vontade era de virar o rosto e receber o beijo na boca. Nunca tive de me controlar tanto com uma mulher. Compreendi o que estava sentindo. Era amor! Eu amava aquela mulher! Precisava dela para viver. Estava perdida, pois não sabia o que ela sentia por mim.
10)
Emoções fortes
Sábado.
Enfim chegou o momento de irmos ao tão esperado encontro. O cinema! Resolvemos
ir com o carro de Joanna, e seguimos em direção ao Shopping Estação.
Pegaríamos a sessão das dezoito horas e depois passearíamos
um pouco no shopping e iríamos para um restaurante italiano
Chegamos e fomos direto ao cinema. Estávamos vendo as opções que estavam passando. O filme daquele bruxinho famoso, um desenho infantil, um filme de ação com um monte de socos e tiros e um filme de terror. Muito animador! Pensei irônica. Não tinha nada romântico.
- E então, qual filme vamos ver? Perguntei a Joanna.
- Humm.. não sei. Estava pensando numa coisa meio maluca. Confidenciou.
- É. E o que é? Perguntei extremamente curiosa.
- Você gosta de terror? Me perguntou fazendo uma carinha franzindo o narizinho. Amei essa carinha.
- É... não tenho medo, se é o que você quer saber. Eu chego a rir de algumas coisas, tamanha babaquice. Respondi sorrindo e olhando em seus olhos verdes. Me perdia nesse olhar.
- Então o que você acha de assistirmos este?
- O de terror? Pra mim sem problemas. Ri. - Mas e você? Gosta? Perguntei curiosíssima.
- Se você
não se incomodar de eu dar alguns berros de vez
Rindo fomos comprar o ingresso. Entramos e escolhemos um lugar mais atrás para assistirmos o filme de terror. Depois de alguns minutos começa o filme. No início tudo tranqüilo. Primeiro susto! Aparecem espectros de pessoas mortas, os temíveis fantasmas. A Joanna dá um pulo na poltrona e se agarra em meu braço, tamanho pavor que ela estava sentindo. Fiquei preocupada com a reação dela. Não imaginava que tivesse tanto medo. Perguntei se queria sair e me disse categoricamente que não. Que era assim que ela assistia esses filmes, que se assustava mas tudo ficaria bem depois. Não vou negar que adorei o fato dela se agarrar em mim e isso foi uma constante durante o filme todo. Tinha que ter nervos de aço pra não agarrar essa mulher e beijá-la ali, naquele cinema. A cada susto ela me agarrava, me abraçava e eu ria, ria muito da reação dela. Ela chegou a fazer de conta que estava braba comigo. Num determinado momento do filme, ela deu um berro, mas foi um grito tão forte que acho que o cinema inteiro se assustou e ela enfiou a cara em meu pescoço. Aquilo foi demais pra mim, abracei-a com todo carinho que eu sentia e suavemente ela foi tirando o rosto do meu pescoço, ficamos nos olhando, ambas perdidas no olhar da outra, eu sentia a respiração dela, estávamos com o rosto a pouquíssimos milímetros de distância. Um leve movimento e eu beijaria aquela boca convidativa, feita para o amor. Foram poucos segundos. Estava me controlando herculeamente para não beijá-la, quando sinto ela se afastar bruscamente.
- Me... me de... desculpe pelo susto. Esse foi grande mesmo! Joanna falou tentando rir.
- Tudo bem. Ainda bem que eu estou aqui. Já imaginou se você agarra um estranho. Falei rindo tentando quebrar o estresse gerado pelo momento do quase beijo.
Continuamos vendo e filme e teve mais alguns gritos e era automático, ela se assustava e me agarrava. Acho que ela não conseguia controlar o pavor que estava sentindo. Acho que vou querer ver mais filmes de terror com ela. Adorei a companhia dela, e claro, sem dúvida nenhuma, adorei ser agarrada durante o filme inteiro. Nunca tinha tido essa experiência, mas podem apostar, eu adorei!
Saímos do cinema rindo, claro que eu estava tirando uma com a cara dela. Não perderia esta oportunidade de implicar com ela. Mas ela reagiu bem e chegou a ficar vermelha de vergonha em alguns momentos. Nada pagaria por aquele momento que eu estava passando com ela. Eu estava inebriada com a companhia dela. Sentia-me livre, espontânea, mas obviamente não podia deixar esta espontaneidade extrapolar para a vontade que eu tinha de beijá-la. Passeamos um pouco pelo shopping, vimos algumas vitrines, descobrimos alguns gostos em comum e resolvemos ir ao restaurante.
Decidimos ir ao famoso restaurante Madalosso, no bairro Santa Felicidade. Um restaurante cujo lema é �o pecado é não comer bem�. É um restaurante imenso, com estrutura para atender mais de 4.600 pessoas, sua arquitetura lembra um castelo medieval, composto por dez salões finamente decorados e interligados por corredores, formando um verdadeiro complexo gastronômico, mas apesar de todo esse tamanho tem um ambiente acolhedor. Vir a Curitiba e não conhecê-lo é uma falta gravíssima. Deixei que Joanna escolhesse em qual salão iríamos jantar. Já à mesa e com os pedidos devidamente feitos, Joanna comenta:
- Sempre venho aqui com o Júlio.
11)
Decepções e revelações
Senti um soco no estômago ao ouvir o que Joanna acabara de dizer.
- Júlio? Quem é Júlio? Disparei a pergunta sem pensar.
- Oh, não te falei. Júlio é o meu namorado. Falou-me sorrindo.
E nesse exato momento minha felicidade acabava de morrer. Senti-me sufocar, faltava-me o ar. Eu sou muito boba mesmo, desde quando uma mulher linda desta vai estar sozinha... e o que é pior, ela é hétero. Esta confirmação me destruía a alma. Nunca teria uma chance com ela. Não tinha nem como tentar lutar. Já era guerra perdida. Queria sumir, fugir dali. Mas não podia, teria que fingir uma alegria que eu não estava sentindo. Não poderia deixar ela perceber a minha decepção, afinal ela não fez nada para eu me apaixonar por ela, simplesmente aconteceu.
- E vocês vem muito aqui? Perguntei, tentando não demonstrar a minha imensa tristeza.
- Sim, nós já jantamos em todos os dez salões. Falou feliz. � Júlio adora vir aqui. E a cozinha italiana é a minha perdição.
- É mesmo? Pois é a minha também, mas também sou louca por comida chinesa. Amo as duas. Falei um pouco mais conformada com a situação. Se é que eu poderia me conformar com isso.
- Hummm... da próxima vez poderíamos ir a um restaurante chinês. O que você acha?
0 que ela queria? Me dar falsas esperanças? Eu teria que começar a me afastar dela, pois percebi que sofreria muito se continuasse a levar adiante esta amizade. Mas como fazer isso? Só de pensar já me doía o peito. Teria que pensar numa maneira, mas não agora.
- Legal. Acho legal. Disse tentando dar um sorriso. � Vocês namoram há quanto tempo? Perguntei, já que estou na chuva é pra me molhar mesmo. Estou curiosa de saber como é o relacionamento deles.
- Namoramos há dois anos. Mas estou sentindo nossa relação desgastada. Disse demonstrando uma certa tristeza.
- Por que acha isso? Perguntei mais curiosa do que nunca.
- Ele não é tão carinhoso quanto antes, eu o estou sentindo meio distante. Cheguei até a cogitar a hipótese dele ter arrumado outra. Confidenciou para mim.
- Você o ama? A resposta desta pergunta era vital para mim.
- Acho que sim.
- Acha?!? Não tem certeza? Perguntei começando a gostar daquela conversa.
- Nestes últimos três meses comecei a não ter tanta certeza assim se eu o amo. Quero acreditar que o amo, mas não estou feliz. É como se faltasse algo que me fizesse mais feliz. Confessou com uma tristeza estampada naqueles olhos verdes que eu tanto amava.
Gostaria que ela realmente fosse feliz. Mas sou egoísta, queria que ela fosse feliz ao meu lado. Horrível isso. Mas no amor e na guerra vale tudo. Passei a ter esperanças de conquistar aquela mulher. Só não sabia ainda o que ela pensava de uma relação homossexual. Se era homofóbica ou não. Tenho que ir com calma, pois posso por tudo a perder.
- Já conversou com ele a respeito? Perguntei interessadíssima no papo. Nesse instante chegam nossos pedidos. Nos servimos e ela responde:
- Uma vez tentei, mas ele desconversou e fico com receio de tocar no assunto de novo. Sei que homens não gostam de discutir a relação. Disse dando um leve sorriso.
- É verdade, mas você não pode ficar nessa situação. Tem que tomar uma atitude. Aconselhei-a.
- É, mas chega de falar de mim. E você? Sei que não tem namorado. Mas tem alguém em vista? Joanna me perguntou sorrindo.
- Tenho,
tenho você
- Está há muito tempo sozinha? Joanna quis saber.
Senti-me um pouco desconfortável com a pergunta, pois não queria mentiras em nossa amizade. Decidi que iria correr o risco de uma possível rejeição, mas diria a ela a verdade. E assim descobriria qual seria a reação dela.
- Estou sozinha há seis meses. ELA me traiu. Disse temendo a reação dela e já me arrependendo de ter falado.
- Ela? Como assim? Perguntou Joanna perplexa. � Você é....
- Sim, Joanna, sou lésbica. Desculpe te dizer assim, mas preferi que você soubesse. Eu não tenho porque me esconder. Disse temendo que a recente amizade acabasse nesse instante.
- Uau... posso dizer que você me surpreendeu. Jamais imaginaria que você fosse. Você é tão feminina Marta. Como pode isso?
- Puro estereótipo Joanna, as pessoas pensam que as lésbicas são só aquelas que se vestem como homens e se portam como tal. Mas não, somos femininas sim, somos mulheres acima de tudo. Expliquei a ela.
- Poxa, obrigada por me dizer. Não deve ser fácil se assumir assim. Comentou me olhando nos olhos.
- Não, não é, e confesso que fiquei com receio da sua reação. Achei que você iria se levantar e ir embora correndo e que nunca mais iria me querer ver na sua frente. Falei rindo e ela riu também.
- Olha, me assustei, porque não imaginava. Mas jamais faria isso. Embora eu não consigo entender o... o tipo de ... de relacionamento que tem duas mulheres, não significa que eu vá te desprezar. Falou e senti um imenso alívio.
A noite transcorreu sem maiores surpresas. Terminamos nosso jantar e fomos para casa. Eu na minha e ela na dela. Gostaria que fosse diferente. Mas não é. Combinamos de caminhar no parque amanhã cedo. Será ótimo. Pelo menos nossa amizade estava começando da forma mais sincera possível. Não tinha porque eu me esconder dela. Nunca fiz segredo da minha homossexualidade. E não começaria a fazer agora.
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Joanna estava
deitada em sua cama e estava pensando
12)
Constatações
Dois meses se passaram e nossa amizade continuava cada vez mais sólida. Saíamos juntas para quase tudo. Nos divertíamos a beça. Claro que eu tinha que dividi-la com o tal do Júlio. Que pretensão a minha, né! Achando que a mulher é minha, ah... mas como eu gostaria que fosse. Eu estava feliz, mesmo assim.
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Domingo. Dezesseis horas. Joanna estava com Júlio em seu apartamento. Combinam de ir ao cinema. Ele quer assistir um daqueles filmes de lutas e tiroteios. Ele nunca topou assistir algo romântico comigo. Diz que é água com açúcar, que não dá emoção. Pois eu prefiro essa água com açúcar a ver todo aquele sangue escorrendo pela tela. Adorava ir ao cinema com a Marta. Assistíamos de tudo e nos divertíamos. O mais divertido eram os filmes de terror. Passei a gostar de assistir esse tipo de filme com ela. Adorava agarrá-la. Nunca mais ocorreu nenhum episódio como o quase beijo, mas passei a desejá-lo que ocorresse, e se acontecesse a beijaria com certeza. Alias, eu estava adorando muita coisa ultimamente e tudo relacionado com Marta. Começava a me preocupar com esses pensamentos. Esta noite fantasiei estar transando com a Marta quando estava com o Júlio, senti-me mais receptiva, o orgasmo veio e fácil. Não tive que fingir. Mas estava preocupada com isso. Mas deixe quieto. Fomos ao cinema.
Acabamos de ver o filme, não via a hora que acabasse. Estava entediada. Não sentia mais prazer com a companhia de Júlio. Lembrei-me de Marta o tempo todo. Sentia falta da companhia dela. Comemos alguma coisa na praça de alimentação do shopping e retornamos para o meu apartamento. Domingo chato. O próximo vai ser mais divertido, pois sairei com a Marta. Marta. Marta. Pare de pensar nela! Chegamos no apartamento e Júlio foi me agarrando.
- Não amor, agora não! Disse enfática.
- Como não Joanna, tô aqui cheio de vontade, vamos aproveitar, pois não vamos nos ver no próximo fim de semana. Estarei de plantão. Disse com um jeito todo sacana.
Deixei-me ser abraçada e beijada por ele. Começou a acariciar meu corpo e foi me levando para o quarto. Não queria ser tocada por ele. Senti repulsa. O empurrei para longe. Ele me olhou perplexo.
- O que você tem Joanna? Não quer seu homem? Falou já alterado.
- Não, eu não quero fazer isso agora. Disse também alterada. - É melhor você ir embora. Falei. Não olhei para ele.
Ele se levantou bravo, falou alguns palavrões e saiu porta afora. Deixei-me cair na cama e comecei a chorar. Chorava copiosamente. Não entendia o que se passava comigo. Quando ele me abraçou e me beijou quis que fosse Marta. Tenho de parar de pensar nela. Tenho que me esforçar. Tenho que passar a evitar a presença dela. Mas eu adoro tanto estar com ela. Oh, meu deus!
Passado algum tempo, levantei-me da cama e fui para a sala. Percebi que Júlio havia esquecido o seu celular. Mais essa agora. Já estava muito tarde. Decidi que amanhã cedo eu o levaria até o consultório dele. E pediria desculpas pelo meu comportamento de hoje.
Segunda. Seis e meia. Levantei-me mais cedo para passar no consultório do Júlio e deixar o celular dele lá. Não avisei que iria. Avisei no meu trabalho que chegaria mais tarde, então poderia demorar o tempo que eu quisesse. Entro no consultório e a secretária não está. Não tinha nenhum paciente aguardando por ele. Resolvo entrar na sala dele. Chego perto e ouço gemidos. Coloco a mão na maçaneta e abro bem devagarzinho a porta e o que vejo me deixa estupefata: Júlio transando com a secretária. Senti nojo ao ver aquilo. O homem que eu dizia amar e que dizia também me amar estava me traindo. Quantas vezes já teria transado com ela? Com quantas já teria me traído? Perguntas sem respostas. Mas não me interessavam as respostas. Senti um ódio imenso. Atirei o celular dele contra a parede espatifando-o. Fizera um barulho imenso. Júlio se vira assustado e me vê. Olho para ele com ódio no olhar. A secretária corre para o banheiro e fecha a porta. Gritei:
- É assim que me ama? Seu cafajeste!
- Joanna?!? Calma... eu.. posso explicar.
- Explicar? Explicar o quê seu calhorda. Eu vi, não há nada para explicar. Estava transtornada.
Empurrei a cadeira pra cima dele. Ele correu para o outro lado da sala. Estava sem as calças. Seria cômico não fosse a situação que se apresentava.
- Pára meu amor....
- Amor? Você ainda tem a coragem de me chamar de amor. Gritei. Estava enlouquecida. � Há quanto tempo você me trai com ela, seu desgraçado? Vai, diz. Ficou mudo?
- Joanna...
- Era por isso, não é? Era por isso que você estava tão diferente comigo e isso já tem alguns meses. Falei irada e constatei que a traição já existia há alguns meses, pelo menos. � Júlio, faça-me um favor. Não me procure nunca mais. Acabou! Sentenciei e caminhei para a porta para ir embora. Ainda o ouvi chamar meu nome algumas vezes. Não queria mais saber dele.
Saí do consultório dele pisando duro, a raiva era tanta que eu era capaz de matar alguém só com meu olhar. Que ódio! Estava transtornada com a traição. Nosso relacionamento não estava nenhuma maravilha, cheguei a pensar em traição, me senti culpada quando pensei nessa possibilidade. É, mas eu estava certa quando pensei isso. Precisava de um tempo pra arejar a cabeça. Liguei para a minha secretária e avisei que tinha ocorrido um imprevisto e que estaria lá somente na parte da tarde. Pensei em Marta! Sorri, ela me aquece o coração. É tão prazeroso estar com ela. Tinha jurado me afastar dela, mas estou precisando da companhia dela. Preciso ouvir sua voz, olhar para seus olhos azuis que me dão tanta paz. Eram oito e meia ainda. Vou convidá-la para almoçar comigo, preciso conversar com ela. Sorri ao ter essa idéia. Liguei para o consultório dela e combinamos de almoçar, passaria lá para pegá-la. Resolvi voltar para o apartamento. Quando desse a hora veria a minha querida amiga.
13)
Dando um tempo
Passei no consultório e peguei Marta para almoçarmos. Fomos a um restaurante com comida a quilo mesmo. Sentamos à mesa e ela notou que eu não estava bem. Foi logo perguntando:
- Joanna, aconteceu alguma coisa? Você está abatida. Perguntou demonstrando sua preocupação comigo.
- Flagrei o Júlio transando com a secretária dele. Respondi triste.
- O quê?! Como foi isso? Perguntou perplexa.
Contei todo o ocorrido, cheguei a chorar em alguns momentos. Marta me consolou. Mas quando contei que ele estava tentando se explicar e que estava sem as calças, ela caiu numa gargalhada gostosa e eu acabei rindo também. Foi hilário mesmo.
- Terminei com ele. Disse para Marta.
- Fez bem. Sei como é duro ser traída. Flagrar a pessoa amada com outra é muito duro. A gente quer sumir do mundo, mas depois descobrimos que foi melhor assim, é melhor do que continuar sendo enganada. Disse me olhando com aqueles olhos azuis que eu aprendi a adorar.
- É, mas me sinto meio perdida. Falei e fiquei encarando Marta. Estava com uma vontade imensa de abraçar ela.
Senti um frio percorrer minha espinha. Joanna me encarou de uma forma diferente, intensa. Nunca tinha me olhado desta forma. Seus olhos verdes estavam fixos no meu. Quebrei o contato. De repente a fila do self-service passou a me interessar. Tive uma idéia. Não custa tentar. O máximo que ela pode dizer é que não quer.
- Joanna, o que você acha de irmos a um hotel fazenda neste fim de semana? Propus.
- Hummm... ótima idéia. Você já tem idéia de algum?
- Sim, tem um que eu vou sempre. Na realidade vou pra lá desde criança, quando era apenas uma fazenda. É de uns amigos meus. Fica a duas horas de viagem daqui. E então, topas mesmo?
- Topo sim. E quando saímos?
- Que tal na sexta à noite mesmo? Aproveitaríamos melhor o final de semana. Falei e resolvi saber uma coisa. � Você se importaria de ficar na mesma cabana comigo?
- Ora, Marta. Por que eu me importaria? Perguntou parecendo ofendida.
- Desculpe eu perguntar. Mas, é só pra saber. Não quero que pense que estou querendo forçar alguma coisa. Só isso. Expliquei.
- Sem problemas, até porque você não me faria nada de mal. Me olhou zombeteira e completou. � Ou faria? E Caiu na gargalhada. Ri também.
- Não, jamais faria algo que você não quisesse, sua boba.
Continuamos conversando e quando terminamos o almoço resolvemos dar uma caminhada pelas ruas. Vimos algumas vitrines. Quando andávamos, Joanna esbarrava seu braço no meu algumas vezes. Era como se eu levasse pequenos choques. Eu me sentia molhada apenas com este contato. Ansiava por ter um contato maior com ela. Mas sabia que isto era impossível. Mesmo agora que ela estava sozinha. Não mudava nada para mim. Daqui a pouco ela arrumaria outro namorado e eu continuaria sublimando este amor. Sem nenhuma chance de ser consumado. Ela me levou de volta para o consultório e fiz uma ligação para o hotel fazenda. Quem atendeu foi o Jeremias.
- Oi, Jeremias, sou eu, a Marta.
- Oi, minha querida. Estamos com saudades de você. Quando você vai aparecer por aqui? Perguntou feliz.
- Que tal nesse fim de semana?
- Maravilha!! Disse feliz da vida.
- Dessa vez tem uma condição. Falei. � Quero ficar em uma cabana, pois estarei levando mais uma pessoa comigo.
- Você sabe que você não fica nas cabanas, Marta! Comentou fingindo aborrecimento.
- Sei, mas desta vez precisa ser assim. Conto contigo amigo.
- Bom, se é assim, seu desejo é uma ordem. Disse rindo. � Quer ficar na cabana flutuante? Perguntou me enchendo o saco, pois sabia que eu não ficaria nela nem que me pagassem.
- Não seu bobo. Sabe que eu não gosto destas cabanas. Quero uma firme e bem plantada no chão. Falei fingindo indignação.
- Quando você chega?
- Sexta à noite, perto das nove horas. Respondi sorrindo, pensando em como será maravilhoso estar no meu paraíso com a mulher que amo.
- Perfeito, madame. Estaremos aguardando a senhorita chegar com sua comitiva real. Falou brincando. Ri da brincadeira dele.
Despedi-me de Jeremias e fiquei pensando no que poderíamos fazer no hotel. Um fim de semana inteiro com ela ao meu lado. Era bom demais para ser verdade. Lembrei do olhar que ela me deu no restaurante. Tremi só de pensar. Foi tão intenso. Senti uma umidade brotar entre as minhas pernas. Que poder ela tinha comigo. Deixava-me excitada com apenas um olhar. Nunca tive que me controlar tanto com uma mulher ao meu lado. E não quero me iludir pensando em ter esperanças com ela.
14)
Tentação irresistível
A semana transcorreu lentamente. A impressão é que sexta-feira à noite não chegaria nunca. Engraçado isso, quando queremos tanto algo, contamos os minutos, não, contamos os segundos para que chegue o momento desejado. Bobeira, porque o tempo é inexorável. Não é mais nem menos, apenas ele. Mas não queria saber disso, queria é que chegasse logo o momento de estar sozinha com minha deusa de cabelos de fogo. Gostaria que ela se apaixonasse por mim, sofro com isso, pois sei não ser possível. Essa constatação é por demais cruel. Isso me despedaça o coração. Infelizmente tenho de contentar-me apenas com sua amizade. Pelo menos posso ficar perto dela, olhar com amor seus olhos, admirar aquela boca suculenta, realizar-me com os constantes abraços que ela me dá, e que eu os recebo com imenso prazer. Beijar suas bochechas rosadas e sardentas. Perder-me naquele olhar verde, onde constantemente me afogo neles. Chega de pensar, isso não me leva a nada! Vamos à ação!
Finalmente o momento de irmos chegou. Resolvemos ir no meu carro, era mais espaçoso. Ri dela, parecia que ia ficar um mês fora pelo tamanho de sua bagagem. Ela fingiu ficar brava comigo e nesse clima de descontração seguimos em direção ao hotel fazenda. Foi uma viagem tranqüila. Engraçado como sempre temos assunto para conversar. A conversa flui com imensa facilidade. Isso me lembra algo que ouvi uma vez: �Se for casar, case-se com alguém com quem converse muito, pois quando acabar o fogo, ainda assim restará uma boa conversa.� Chegamos.
- Boa noite, Jeremias. Disse para meu velho amigo.
- Boa noite, Marta. Saudades de você minha querida. Veio até mim e deu um abraço e um beijo na bochecha.
- Deixa eu te apresentar. Esta é Joanna, minha amiga. Joanna, este é Jeremias, meu amigão dos tempos de infância. Após as apresentações se cumprimentaram e nisso chega Fabiana, que vem correndo me abraçar.
- Saudades de você, Martinha! Que bom que você veio. Continuei em seu abraço e olhei para Joanna.
- Saudades de você também, Fabi. Quero apresentá-la à Joanna, minha amiga e vizinha. Quando disse a palavra �vizinha�, Fabiana entendeu na hora quem era aquela mulher que estava comigo. E me deu uma olhada sacana. Segurei-me para não rir.
- Prazer em conhecê-la, Joanna. Martinha me fala muito de você. Falou sorrindo e deu um abraço em Joanna e eu quase dei um peteleco nela por dizer isso. Precisava dizer que eu falo de Joanna pra ela. Desse jeito ela me entregaria de bandeja.
- Igualmente, Fabiana. Respondeu Joanna.
- E D. Helena, onde está? Perguntei para Fabiana.
- Deu uma saída. Foi jantar num restaurante na cidade com as amigas dela.
- Que bom. E D. Isabel? Quis saber.
- Tá na cozinha, sabia que fui lá hoje e ela estava fazendo em certo bolo de cenoura com cobertura de chocolate? E toda feliz da vida. Me disse rindo.
- Humm... amo essa mulher. Me pegou de jeito pelo estômago. Dei uma gargalhada.
- Sim, ela pega todas nós.
Continuamos conversando por mais um tempo. Peguei a chave da cabana com Jeremias e estacionei o carro na garagem da cabana. Retiramos nossa bagagem e comentei com Joanna:
- Sabia que essa é a primeira vez que fico em uma dessas cabanas.
- Sério? Não, você ta brincando. Disse rindo.
- Não tô brincando não, é sério. Posso dizer que tenho um quarto cativo na casa grande. Sempre quis ficar nas cabanas depois que elas foram construídas, mas nunca deixaram. Entramos nas cabanas e Joanna foi comentando:
- Uau, adorei isto aqui. Toda equipada. Dá pra morar aqui. Falou demonstrando uma genuína alegria. Parecia uma criança feliz. E me olhava com aqueles olhos lindos. Ainda morro disso!
- É equipada mesmo. Vamos deixar as malas aqui e vamos saborear o café colonial daqui e aquele maravilhoso bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Falei sorrindo. � Tem problemas com a balança? Perguntei e nem a deixei responder. Continuei. � Se não, vai passar a ter. E soltei uma gargalhada que foi acompanhada por ela. Fomos até o restaurante e comemos de tudo, parecíamos criança fazendo arte. Notei que Fabiana nos observava de longe. Não consegui interpretar seu olhar. Parecia preocupada.
Eu dormi no beliche e ela na cama de casal, isso depois de muitas discussões porque ela queria dormir no beliche. Chegou a brincar de dormirmos juntas na cama de casal. Fiquei petrificada quando ela falou isso. Sabia ser brincadeira, mas mesmo assim a idéia mexeu comigo. Acho que não conseguiria dormir. Melhor o beliche mesmo. Pensei sorrindo.
Passamos o sábado todo nos divertindo. Passeamos a cavalo, fizemos uma das trilhas, levei-a até a minha favorita. Ficou encantada com a beleza do lugar e escandalizada com a imensa escadaria. Disse que na volta eu iria trazê-la no colo, porque se recusava a subir 116 degraus. Respondi que pra isso ela teria que fazer um regime. Quase me bateu. Mas adorei a brincadeira. Descansamos bastante após o almoço e quando o sol esfriou um pouco fomos à piscina. Verdadeiro teste de nervos. E acho que reprovei com louvor, pois não conseguia tirar os olhos daquele corpo escultural. Ver seu corpo apenas com um biquíni foi demais pra mim. Eu estava literalmente babando, queixo caído. Volta e meia ela me flagrava olhando pra ela. E dava um imenso sorriso. Acho que ela está me provocando. Queria que isso fosse verdade. Ah, a esperança, dizem que é a última que morre. Então está fazendo jus à fama. Brincamos muito na piscina, ela tentou me afundar várias vezes e eu afundava ela também. Mas meu corpo estava plenamente consciente da proximidade. Era uma tortura gostosa. Existe tortura gostosa? Bom, de qualquer forma eu estava adorando aquilo. Esta era a primeira vez que tínhamos essa proximidade, essa cumplicidade. Estarmos juntas o tempo todo, confesso que não imaginava que seria tão bom quanto estava sendo. Ela não lembrou do imbecil do Júlio nenhuma vez. Eu acho, porque em momento algum vi tristeza nos olhos dela. Parecia estar superando bem esta fase da vida dela. Foi excelente a idéia de trazê-la para cá. Poderíamos repetir mais vezes. Sentia meu coração feliz, transbordando de felicidade. Não estava com ela da forma como queria, mas apenas estar compartilhando estes momentos com ela me bastava. Isso já me saciava. Já tinha me acostumado com a idéia de sublimar este amor. E assim passou o sábado, cheio de emoções, ao menos para mim.
Domingo de manhã. Fizemos mais uma trilha e retornamos cansadas para a cabana. Descansamos um pouco e fomos almoçar. Depois ficamos deitadas na rede conversando. Mais tarde fomos novamente para a piscina. Dessa vez botei os óculos escuros, chega de dar bandeira, e assim poderia observá-la melhor, fingir que estava dormindo enquanto eu a �comia� com os olhos. Retornamos à cabana e fomos arrumar nossas coisas. Voltar para a rotina. Estava tão bom ali, não queria que acabasse esse momento. Estava arrumando minha mala quando ela pega meu boné e diz que vai ficar com ele. Digo que não e começo a andar atrás dela para recuperá-lo e ela se esquiva de mim, até que em um momento agarro ela de frente e ela fica com os braços para trás segurando ele e dizendo que não, que não iria devolvê-lo para mim. Nesse instante não percebemos e estamos na frente da cama eu recuo um passo e perco o equilíbrio e caímos na cama. Ela cai sobre mim. Sinto o peso de seu corpo junto ao meu. Meu coração acelera, parecendo sair do peito. Nossas bocas ficam a milímetros de distância. Fico sem ação. Olho em seus olhos e seu olhar me prende. Ela cola a sua boca na minha e fecho os olhos. Parecia um sonho, não acreditava no que estava acontecendo. Capturo sua boca com vontade, num beijo quente, molhado e cheio de tesão. Nossas línguas se enroscam se acariciando. Abraço ela com mais força e subo uma das mãos até seus cabelos e afundo minha mão neles. Eram macios, como sonhei que seriam. Fiz tanto este gesto nos meus sonhos. E agora estava com aquela cabeleira de fogo entre meus dedos. Sua língua percorre minha boca me dando um prazer alucinado.
15)
Fuga
De repente Joanna sai de cima de mim e senta na cama e coloca as mãos na cabeça, numa atitude clara de desespero. Que pena que acabou, agora que senti o gosto da sua boca, não saberei sobreviver sem ele. Ela fala sem me olhar:
- Eu.. eu... me.. me desculpe, eu... não sei o que me aconteceu. Gagueja nervosa.
Entendi que ela estava sem saber como agir, afinal acredito que este tenha sido seu primeiro beijo em uma mulher. O que levou ela a me beijar. Foi vontade? Desejo de saber como era? Se tivesse sido eu a dar o primeiro passo poderia dizer que tinha perdido a cabeça ou algo assim. Ela sabe que gosto de mulheres, mas e sendo ela a ter dado o primeiro passo. Como devo agir? Ela estava toda sem graça. Nervosa.
- Olha, não se preocupe. Aconteceu. Eu não quero que você fique assim, sem graça. Falei carinhosamente e olhei para ela. Ela me olhou envergonhada.
- Sinceramente, me desculpe. Eu...
- Pare de se desculpar. Interrompi ela. - Isso não é o fim do mundo. Foi apenas um beijo. E caraca... como você beija bem. Falei dando uma risada. Queria quebrar o estresse do momento.
- Pára tá, boba! Riu também. Fiquei aliviada. Tudo o que eu não queria era criar uma situação constrangedora com ela.
- Agora você pode devolver meu boné? Perguntei sorrindo e estendendo a mão para pegá-lo. Ela pegou ele e me jogou na cara dando uma gargalhada.
Terminamos de arrumar nossas coisas, botamos tudo no carro. Nos despedimos do pessoal e pegamos a estrada. Chegamos no condomínio e cada uma foi para o seu apartamento, pois estávamos cansadas e queríamos mais era uma cama para estender nossos esqueletos.
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Joanna tinha acabado de tomar um banho e comer alguma coisa. Estava deitada em sua cama. Não conseguia conciliar o sono. Estava agitada demais, tentando entender porque beijara Marta. Simplesmente fizera porque sentira uma imensa vontade de sentir aquela boca na sua. Desde o episódio do quase beijo do cinema essa vontade a atormentava. Quando percebeu, estava beijando Marta, nem teve tempo para pensar. Ela correspondeu e foi o beijo mais maravilhoso de toda a sua vida. Macios. Lábios macios. Jamais imaginara que os lábios de uma mulher fossem tão macios, tão suaves. Sentiu vontade de ir mais longe. De fazer amor com Marta. Por isso levantara bruscamente, se assustara com a idéia. Não curtia mulheres. Não estava entendendo porque agira daquela forma. Preocupou-se. Precisava parar com isso. Precisava acabar com esse desejo. Sim, desejo. Compreendia agora. Desejava Marta. Nunca desejara um homem tanto quanto desejava Marta. Precisaria se afastar da amiga. Seria doloroso, difícil, mas era o que precisava ser feito. Passaria a evitar as ligações dela, evitaria sair com ela. Precisava cortar isso antes que tomasse corpo. E começaria isso a partir de agora. Sabia que iria magoar Marta ao tomar esta atitude, mas era o que precisava fazer. Só assim poderia acabar com esses pensamentos absurdos. E tentar levar sua vida da maneira que julgava ser a correta.
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Já
era quarta-feira e comecei a estranhar, pois nos falávamos diariamente.
Resolvi ligar para Joanna, e sua secretária informou que ela estava ocupada
em uma reunião. Deixei recado. Estava feliz. Gostaria de saber por que
Joanna me beijara. Se curiosidade matasse, tava mortinha, mortinha. Lembrava-me
constantemente do beijo. E cada vez que isso acontecia meu corpo reagia como
se estivesse acontecendo naquele momento. Meu corpo ficava
Conversara com Fabiana na noite anterior. Ela me ligara. Dissera estar preocupada comigo, pois percebeu como eu estava envolvida com Joanna. Literalmente de quatro. Tinha receio de que eu sofresse. E que não queria que isso acontecesse. Perguntei se era tão evidente assim meu interesse por ela. Respondeu que sim, que até um cego veria meu amor por ela. Suspirei. Pena que Joanna não percebe. Quem eu gostaria que percebesse não vê. Lamentei.
Joanna não me ligara. Mesmo deixando recado. Será que ela estaria me evitando? Gelei com este pensamento. Isso seria a morte para mim. Quando nos despedimos no domingo à noite, parecia estar tudo bem. O estresse pelo beijo parecia ter sido superado.
Na quinta-feira
tentei novamente falar com ela, e novamente fui informada que ela estava
16)
Sucumbindo ao desejo
Resignada.
Era como eu me sentia. O final de semana se passara e nem sinal de vida de Joanna.
Pela primeira vez ela furou de caminhar comigo no parque. Liguei para seu apartamento
várias vezes e não fui atendida
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Eu estava com o coração partido. Evitar Marta estava lhe doendo muito. Sentia uma falta imensa da amiga. Chorava todos os dias de saudade. Moravam do lado, tão pertinho, mas ao mesmo tempo tão longe. Marta ligara inúmeras vezes, deixara recado, mas não retornara nenhuma ligação. Ligou também para seu apartamento várias vezes, via seu número no identificador de chamadas e não atendia. Estava evitando ela a todo custo. Nem fui ao parque no fim de semana pra não encontrá-la. Mas isto estava me matando. Não suportava mais tanta saudade. Mas não podia sucumbir ao desejo que estava me corroendo. Sua vontade era de bater na sua porta e agarrá-la, arrancar suas roupas e fazer amor com ela. Sonhava com isso. Mas não podia. Não gostava de mulheres. Não era lésbica. Agarrava-se a esse pensamento como se fosse vital para sobreviver. Não tinha estrutura para viver um relacionamento homossexual. Como lidaria com isso?
Vira Marta fazendo compras, senti uma vontade imensa de ir falar com ela. Controlei-me ao extremo para não ir até ela. Não estava mais suportando isso. Esta distância forçada. Imaginei como Marta deveria estar sofrendo também. E tudo por culpa minha. Senti remorso. Não queria fazer minha amiga sofrer. Mas estava. E estava sofrendo também. Resolvi que estabeleceria contanto novamente. Não agüentava essa separação. Veria Marta de vez em quando, não cortaria o contato como fizera. Iria até seu apartamento hoje à noite e pediria desculpas a ela. Senti-me mais aliviada com esta decisão. Seria o melhor a fazer.
Semana passada foi contratado um novo sub-gerente para auxiliar-me. Jorge era seu nome. Um homem muito simpático e bonito. Senti alguns olhares de cobiça dele. Sabia ser uma bela mulher e que atraía olhares masculinos. Talvez devesse partir para um novo relacionamento e tentar esquecer este desejo que sentia por Marta. Mas não queria me envolver tão cedo. Amadureceria esta idéia, quem sabe poderia me apaixonar por ele.
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Mais um dia se foi sem sentir. Tinha perdido a graça pelas coisas. Ainda bem que tinha meu trabalho, que amava. Tinha acabado de tomar um banho e me alimentado. Iria ver um pouco de tv, já que não estava com cabeça para encarar um livro. Pensava em Joanna todos os dias. Meu deus, que saudades. Só dava vontade de chorar. Tinha que parar com isso. Lembrei-me de um fato ocorrido hoje: Amanda, que estava sumida, aparecera. Fora no consultório para fazer uma profilaxia. Eu era sua dentista antes e pelo visto continuava sendo. Conversamos muito e ela disse que ainda me amava. E que queria tentar de novo. Cortei a idéia, pois eu não a amava mais. Disso tinha certeza. Disse então que queria manter uma amizade comigo, quanto a isso não me opus. Como a vida é irônica. Há nove meses antes eu ainda era apaixonada por ela. Agora, vem ela e diz que não me esqueceu. Eu, hein.
A campainha tocou. Não estava esperando ninguém. Quem poderia ser? Abri a porta e não acreditei no que estava vendo. Joanna, parada na minha porta, me encarando com aqueles olhos verdes que tive tanta saudade de olhar. Fiquei sem ação. Abri a boca para falar alguma coisa e no mesmo instante ela me agarrou e me deu um beijo. Abracei ela e correspondi ao beijo. Encostei a porta com uma das mãos e continuei a abraçá-la. Minhas mãos ganharam vida própria. Começaram a passear por aquelas costas. Subi uma das mãos e levei até sua nuca. Trouxe-a para mais perto de mim. Afundei minhas mãos em seus cabelos. Meu coração enlouqueceu, não sabia se batia ou se pulava fora, tamanha emoção. Interrompi o beijo e olhei em seus olhos. Ela me encarou e me sorriu. Retribuí o sorriso. E voltei a lhe beijar, mordisquei seus lábios, brinquei com sua língua e aprofundei o beijo. Puro tesão. Eu estava molhada. Passei a beijar seu pescoço, cheirei ele, queria guardar pra sempre na memória seu cheiro, voltei a beijar sua boca, minhas mãos entraram pela sua blusa acariciando a sua pele sedosa. Tirei sua blusa e na seqüência tirei a minha, eu estava sem sutiã. Ela olhou para meus seios com desejo. Puro desejo. Nenhuma palavra foi dita. Não era necessário. Peguei sua mão e a levei para o quarto. Tiramos o restante das roupas. Nuas. Completamente nuas. Nos abraçamos. Senti meu corpo pegar fogo... incontrolável. Nos beijamos loucamente, o desejo falava mais alto. Deitei ela na cama e fiquei por cima. Eu estava alucinada. Beijei seu pescoço, sua boca, seus olhos. Ela gemeu. Fui até seus seios. Água na boca. Abocanhei um deles como se fosse uma fruta madura. Suguei com delicadeza. Satisfeita fui até o outro. Ela não parava de gemer. A cada gemido dela sentia me queimar por dentro. Desci beijando sua barriga, segui até seu sexo. Passei suavemente um dedo. Ela gemeu. Molhada. Completamente. Novamente minha boca se encheu de água. Precisava sentir seu gosto. Eu tinha urgência. Ela me implorou e abriu suas pernas para que eu iniciasse a minha exploração. Passei a língua pelo seu sexo, sentindo seu cheiro, seu gosto. Delicioso. Brinquei com seu clitóris, ela enlouquecia, e passei a lambê-lo, sugá-lo com avidez, um néctar dos deuses. Penetrei minha língua nela e fiz movimentos de vai e vem. Ela gemeu mais ainda. Rebolou seus quadris e quase enlouqueci. Senti que ela estava para gozar e... parei. Ela me implorou para que eu continuasse, para não torturá-la mais, fui até ela e beijei sua boca, ela sentiu seu próprio gosto. Beijo delicioso. Acariciei sua língua com a minha, mordisquei seus lábios. Desci minha mão até seu sexo e fiz pequenos carinhos em seus pelos cor de fogo. Ela gritou desesperada para eu possuí-la. Encaixei meu sexo em sua coxa e suavemente penetrei dois dedos nela, massageei sua carne quente e molhada com pequenos movimentos de vai e vem. Meus dedos deslizavam suavemente dentro dela. Ela gemeu alto enlouquecida. Aumentei a intensidade do movimento e mais enlouquecida ela ficava. A cada gemido fui aumentando a intensidade dos movimentos do meu corpo e da minha mão, ela contorcia seu corpo, senti tremê-lo em meus braços, até explodirmos num gozo intenso, forte, completo, sublime. Senti-me completa. Não poderia mais viver sem minha deusa dos cabelos de fogo.
17)
Contradições
Fiquei com ela abraçada, com nossos corpos suados e saciados coladinhos. Jamais poderia imaginar que seria tão delicioso fazer amor com ela. Meus sonhos não chegavam nem aos pés da sensação que senti. Amava aquela mulher. Nos olhamos e novamente nos beijamos. Ela encosta a cabeça nos meus ombros e ficamos ali, sem dizer nenhuma palavra. Resolvi quebrar o silêncio.
- Por que você me ignorou esses dias todos? Precisava daquela resposta. � Sofri muito com isso.
Ela olha em meus olhos e responde: - Eu tinha medo. Medo do que eu estava sentindo por você.
- Ainda tem medo? Pergunto sapecando-lhe um beijo no nariz.
- Ainda não sei como lidar com isso. Isso é muito novo para mim. Responde. Não era a resposta que eu esperava ouvir. Gostaria de ter ouvido: �Não, não tenho mais medo�.
- Joanna, eu... eu estou apaixonada por você. Abri meu coração. Queria que ela soubesse disso.
Ela me dá um beijo, contorna meus lábios com sua língua. Foi o bastante para nos acendermos novamente. Mas desta vez ela se virou rapidamente e ficou por cima de mim. Adorei seu peso. Senti seu sexo encostar em mim, molhado, quente, quase enlouqueci com este pequeno contato. Ela sugou meus seios, passou a mão pelas minhas pernas, passou a mão pelo meu sexo. Soltei um gemido e abri as pernas pedindo um contato mais íntimo. Ela me judiava e não me penetrava. Ficou beijando todas as partes do meu corpo, me alucinando. Disse que queria ser dela. Implorei. Ela tornou a se deitar por cima de mim e me beijou, sua língua brincou com a minha, beijou meu pescoço, sua mão atrevida desceu novamente para meu sexo, acariciou-o e me penetrou com seus dedos. Senti seus dedos deslizarem dentro de mim. Loucura. Ela movimentou sua mão rapidamente, cada vez mais forte e senti um orgasmo incontrolável tomando conta do meu corpo. Relaxamos nossos corpos cansados e ficamos abraçadinhas. Dei um monte de beijinhos nas sardas do seu rosto. Ela riu. Continuamos abraçadas sentido os nossos corações batendo. Acabamos adormecendo. Tive um sono maravilhoso.
Acordei. Senti meu corpo relaxado. Estiquei o braço para o lado para tocar em Joanna, mas ... estava vazio. Ué, cadê ela? Levantei-me e a procurei pelo apartamento. Ela não estava. Olhei a hora, eram sete horas da manhã. Lembrei-me que tinha paciente às sete e meia. Caraca, estava atrasadíssima. Tomei um banho rápido, nem tive tempo de tomar o desjejum e saí apressada para o meu consultório. Estava com a agenda lotada hoje. Estava transbordando de felicidade. Na cara, um sorriso de orelha a orelha.
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Estava em meu escritório pensando nos acontecimentos ocorridos na última noite. Fui até o apartamento de Marta para conversar e continuar com a amizade. Mas, não consegui me controlar e acabou acontecendo o que secretamente desejava, fazer amor com Marta. Foi maravilhoso, uma experiência única. Não imaginava que uma mulher pudesse dar tanto prazer à outra. Jamais nenhum namorado meu proporcionara o prazer que senti. Jamais. Estava assustada com a intensidade dos meus sentimentos. Quando Marta abriu a porta, nem pensei e simplesmente meu corpo tomou conta da minha razão. Estava apreensiva com o rumo que isso estava tomando. Não poderia levar isso adiante. Ainda que sentisse desejo por Marta. Era uma loucura continuar com isso. Não poderia continuar. Tinha que parar por aqui. Precisaria ter uma conversa definitiva com ela. E que desta vez eu não perdesse a minha razão. Tomei uma decisão, liguei para Marta e combinamos de nos vermos no meu apartamento ainda hoje.
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Marta, antes transbordando de felicidade, agora estava apreensiva. Joanna se mostrara seca ao telefone. Queria conversar com ela ainda esta noite. Não estava pressentindo boa coisa. Será que se arrependerá? Meu deus, que agonia isso. Essa mulher vai acabar me deixando maluca. Faz uma coisa e depois muda de idéia. E eu como é que fico nessa história? Acabei passando o dia preocupada. Desesperada.
18)
Decepção
No horário combinado, fui ao apartamento de Joanna. Estava com o coração aos pulos, senti um imenso frio na barriga. Estava nervosa, não sabia o que Joanna queria conversar. Toquei a campainha. Ela abriu a porta. Deu-me um sorriso nervoso e disse:
- Olá Marta, entre.
Senti que a conversa não seria coisa boa. Não me cumprimentou nem com o tradicional abraço e o beijinho na bochecha. Essa conversa não seria fácil. Meu coração estava apertado.
- Oi Joanna.
Sentamos no sofá e ela me ofereceu uma bebida. Recusei, não queria nada, o que quer que ela queria me dizer iria descer a seco mesmo. Ela esfregou as mãos, passou a mão no cabelo. Gestos típicos de quem estava nervoso. Olhou para mim e começou a falar:
- Marta, eu chamei você aqui por que precisamos conversar sobre o que aconteceu na noite passada. Falou e continuava me olhando.
Saquei qual era a conversa. Iria me dispensar. � Sou toda ouvidos. Falei irônica. Mas com o coração pequenininho.
- O que... o que aconteceu ontem foi um erro. Não devia ter acontecido. Falou sem olhar para mim.
- Um erro?! Um erro, Joanna? Você queria tanto quanto eu. Não me pareceu um ERRO enquanto estávamos nos amando. Enfatizei a palavra �erro�.
- Mas não vai acontecer novamente. Falou.
- Qual é a sua, Joanna? Perguntei alterada. � Me dá um beijo e depois me dá um gelo. Bate na minha porta e se joga em meus braços e depois me bota pra escanteio. Levantei-me, estava irada. - O que você quer? Matar sua curiosidade, é isso? Saber se é bom transar com outra mulher? QUAL É A SUA, JOANNA? Falei gritando, estava transtornada, não conseguia acreditar naquilo. Se tivesse sido minha a iniciativa de fazermos amor, até entenderia que ela estivesse confusa, mas caraca, foi ela quem se jogou pra cima de mim, veio com tudo. Merda!
- Calma, Marta. Não grite, por favor.
- Calma, você me pede calma. Eu estou apaixonada por você. EU TE AMO! � Falei desesperada e já começando a chorar. Era demais pra mim. Não merecia isso. Ninguém merecia.
- Eu não posso corresponder a esse amor, não sou como você. Ela falou baixinho, quase não consegui ouvir.
- Preconceito. Achei que você não tivesse isso. Me enganei. É... mais uma porrada na minha vida. Mas não se preocupe, vou sumir da sua vida, já que te incomodo ser do jeito que sou. Não quero te incomodar. Falei e fui caminhando em direção à porta.
- Espere...
Segurei a maçaneta e abri a porta, virei-me para ela e disse olhando em seus olhos, ela chorava, eu também. � Estou saindo da sua vida, Joanna. Sinta-se livre de mim. Saí e bati a porta.
Entrei no meu apartamento, minha vontade era de chutar tudo, tamanha decepção estava sentindo. Parecia que eu tinha uma imensa mão apertando meu coração. Sentei em minha cama e apoiei a cabeça em minhas mãos. Chorei copiosamente. Meu coração estava ferido de morte. Não tinha mais vontade de nada. Nem com Amanda minha decepção tinha sido tão intensa. A dor era insuportável. Queria morrer. Não queria mais nada, apenas morrer. Minha vida acabava ali. Deixei meu corpo cair na cama e fiquei ali por horas, chorando, acabei adormecendo.
19)
A vida segue...
No final de semana seguinte fui ao hotel fazenda. Precisava conversar desesperadamente com Fabiana. Sabia que ela iria me puxar as orelhas, pois tinha me alertado dessa possibilidade, de Joanna me fazer sofrer. Mas o amor não tem razão. O pior de tudo era saber que a mulher que eu amava com toda a força do meu ser, morava ao meu lado, a poucos metros de distância. A possibilidade de um encontro no corredor era iminente. Não sei como reagiria se a visse novamente.
Chegando na fazenda, fui conversar com Fabiana, ela já estava sabendo por alto o que tinha acontecido, pois adiantei-lhe sobre o que queria falar com ela. Ficou super preocupada comigo. Queria vir a Curitiba, mas falei que não, que eu queria ir pra fazenda, precisava me distrair, repensar minha vida. Ela me deu um abraço de urso, daqueles que você se sente protegida. Caí em prantos, ela deixou-me ficar abraçada a ela por longos minutos. Após sentamos na varanda.
- Martinha, meu anjo, não queria nunca te ver assim. Disse me dando um sorriso.
- Eu sei, você me avisou... mas como saber se não acontecer. Falei tentando sorrir. Meus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar. Me senti um caco. Um caquinho humano.
- Você vai superar isso, Martinha. A vida bate forte, verga a gente, mas não quebra. Mas me conta o que aconteceu.
- Estou até agora tentando entender as atitudes dela. Quando estivemos aqui da última vez, aconteceu um beijo. Na cabana, numa brincadeira, ela caiu em cima de mim e me beijou. Depois me deu um gelo, ficamos dez dias sem nos falar. De repente ela bate em minha porta, abro e ela se joga em meus braços, me agarrando e me beijando. Fizemos amor à noite toda. Falei que estava apaixonada por ela. Fabiana me ouvia atentamente. Continuei. � Na noite seguinte ela queria falar comigo. Disse que foi um erro...
- Um erro! Puta que pariu! Xingou Fabiana.
- Pois é. Disse que foi um erro e que isso não aconteceria novamente. Aí eu me desesperei, disse que a amava e ela falou que não poderia corresponder ao meu amor porque não era como eu. Uma lágrima escorre em meu rosto, levo a mão até ela e a seco.
- Puta que pariu! Desculpe, Martinha, mas tive que xingar de novo. O que essa mulher quer? Perguntou pra mim.
- Gostaria de saber. Não tenho essa resposta. Tento entender, penso mil coisas, mas nunca chego a nenhuma conclusão. A única coisa que entendi é que ela tem preconceito com esse tipo de relacionamento. Com os outros tudo bem, mas com ela nem pensar.
- Putz, que mulher complicada essa. Quer, mas depois foge. Caraca. Minha amiga, você não merecia isso. Você a viu depois disso? Quis saber.
- Não, e nem quero. Melhor ficar longe. Disse que ia sair da vida dela. Que ela estaria livre de mim. Senti um nó no peito ao dizer isso. Outra lágrima escorre em meu rosto. Droga! Tinha que parar de chorar.
- Bom, não sei se estou certa, mas ela parece estar vivendo um dilema. Quer, cede, depois se arrepende e recua. Conjecturou Fabiana.
- Não sei se é isso. Para mim, parece que ela está se divertindo as minhas custas. Deve ter sido curiosidade. Saber como é estar com outra mulher na cama.
- É... pode ser isso também. Mas o importante é que você vai dar a volta por cima disso tudo. Quero ver um sorriso de novo nesse seu rosto lindo. Sorri e ela também. Resolvi mudar de assunto.
- E o Gustavo. Como vocês estão?
Ela riu. � É Augusto. Tô quase chutando o traseiro dele. Está muito mala ultimamente.
- Sério? Por quê? Perguntei curiosa.
- Acha que já me ganhou. Que eu tô comendo na mão dele. Acredita nisso? Falou rindo.
- Você? Comendo na mão de um homem. Está para nascer esse homem. Rimos com esse comentário.
Conversamos um monte. Fiz bem em ter vindo pra cá. Embora com o coração despedaçado, aproveitei o máximo que pude do meu hotel fazenda preferido, menos a piscina, era inverno e água gelada não era meu forte. Voltei e a vida seguia seu ritmo normal.
20)
Novo relacionamento
Dois meses se passaram. Na realidade se arrastaram. O inverno continuava, mas estava menos intenso. Combinava com meu estado de espírito. Continuava deprimida, ainda chorava pelos cantos e a dor se fazia insuportável. Mas tinha de tocar a minha vida. Me afundei no trabalho. Passei a atender aos sábados e à noite para poder ficar menos tempo em casa sozinha. Fui duramente criticada por Carol, mas foi a maneira que encontrei de ficar menos tempo possível no condomínio. Nas minhas caminhadas no parque no fim de semana, passei a ir ao final da tarde. Até mudei de supermercado, fazia minhas compras em um mais longe, mas preferia assim. Não podia ver uma lata de leite condensado que me lembrava dela. Descobri que leite condensado me fazia chorar. Evitava a sessão. Por incrível que pareça, não nos vimos mais. Parecia que tínhamos combinado os horários. Ouvia sua porta abrir e fechar. Ela também devia me ouvir. Nunca mais espiei pelo olho mágico. Fazia tempo que não olhava ele. Desde que passei a receber Joanna em minha casa ele foi esquecido. É.. acho que perdi aquele maldito hábito de espiar o corredor. Ri sozinha. Pelo menos meu bom humor estava voltando. Progresso.
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Eu estava em meu escritório e tentava levar minha vida num ritmo normal também. Sonhava constantemente com Marta, que estávamos fazendo amor. Sentia falta daquele corpo colado ao meu. Sentia falta dos beijos dela. Chegava a sentir febre de tanta vontade que tinha de estar em seus braços novamente. Mas sufocava essa vontade ao máximo. Precisava agir assim. Achava que iria �curar� essa paixonite com um novo relacionamento. Assim, comecei há três semanas um relacionamento com Jorge, o sub-gerente. Ele estava de quatro por mim. Gostaria de estar assim por ele também, mas quem sabe com o tempo ficaria. Na cama não me sentia à vontade com ele. Mas forçava estar, e parecia que seria minha sina fingir orgasmos. Fui apenas três vezes com ele para cama, foi sofrível e evitava ao máximo este momento. Ele respeitava a minha vontade, mas sentia que ele queria mais, bem mais.
Nunca mais vi Marta, sentia saudades dela, mas sabia ser melhor assim. Tinha parado de ir ao parque, somente para evitar vê-la. Não sabia qual seria minha reação ao revê-la. Lembrei-me da última vez que estivemos juntas, Marta ficara abalada com minha decisão. Minha intenção não era terminar a amizade, queria apenas pedir para evitarmos um contato mais íntimo como tínhamos tido. Não esperava o rompimento brusco. Me desesperei ao ouvir que ela sairia de minha vida, que não me procuraria mais. Chorei muito, senti uma dor indecifrável no peito que me incomodava constantemente. Sentia muita falta das conversas, dos cinemas, das caminhadas, das risadas, dos olhares. Jorge várias vezes me convidou para ir ao cinema, dizia que não gostava, mas na realidade cinema passou a significar diversão garantida, desde que fosse com Marta. Então sugeria ver filmes na casa dele. Evitava levá-lo ao meu apartamento. Engraçado isso. Era como se não quisesse que Marta me visse com ele. Gostava muito de Marta, não sabia definir ao certo este sentimento. Marta dissera que me amava. Sentia um calor gostoso no corpo quando pensava nisso, me sentia viva. Mas não tinha coragem de namorar uma mulher. Gostaria de ter essa coragem. Seria feliz, com certeza.
Combinei com Jorge de sairmos para jantar no sábado à noite, ele dissera que me levaria num novo restaurante, recém inaugurado, que segundo comentários era ótimo. Gostava da companhia dele, era simpático, divertido, carinhoso, mas não o amava. Disso tinha certeza. Me sentia culpada, pois estava enganando o cara. Me sentia usando ele. Usando para esquecer outra pessoa. Nada nobre. Mas pensava estar fazendo a coisa certa.
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Amanda passou a ser figurinha certa na minha vida. Permiti uma aproximação maior, mas nada de reatar o relacionamento que tivemos. Apenas amizade. E fazia questão de deixar isso bem claro para Amanda. Não gostava de dar falsas esperanças. Sabia que Amanda tinha esperanças, mas não as alimentava. Cortava qualquer iniciativa. Amanda me convidou para sairmos no sábado à noite. Um jantar. Disse que recomendaram um restaurante muito bom e queria conhecê-lo. Topei ir, ficar em casa sozinha não ia me ajudar em nada, então melhor me divertir um pouco.
21)
Ciúmes
Sábado
à noite chega. Não estava muito empolgada para sair, mas me esforçava
para ficar animada. Minha vontade era ficar
O novo restaurante
ficava no bairro do Batel. Estava lotado. Amanda fizera as reservas com antecedência.
Caso contrário, não seríamos atendidas. O garçom nos levou
até nossa mesa. Neste momento Amanda coloca seu braço em minha
cintura pelas costas. Não gostava quando ela fazia isso, parecia querer
demonstrar que tinha minha posse. Saí do contato e sentei na cadeira,
Amanda também. Recebemos o menu e estávamos escolhendo o que jantaríamos
quando sinto aquela sensação de alguém me encarando. Olho
pra ver quem é. Gelei. Era Joanna, acompanhada de um homem. Ela estava
de frente para mim. Meu coração pulava no peito. Minhas mãos
suavam. Engoli
- Você está bem? Perguntou Amanda, percebendo algo.
- Sim, apenas um leve mal estar. Mas, estou bem, nem se preocupe. Respondi sorrindo para ela.
- Mesmo? Perguntou e balancei a cabeça num gesto afirmativo. - Já decidiu o que vai querer?
- Hoje deixo você decidir. E dei um imenso sorriso para ela. Precisava disfarçar senão Amanda perceberia que eu não estava bem, e eu não queria que ela soubesse da minha história. Não tinha contado para ela. Amanda então fez os pedidos e continuamos conversando banalidades.
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Eu não acreditava que estava vendo Marta. Ela estava com uma mulher. Não a conhecia. Mas deviam estar namorando, pois a outra a segurou pela cintura possessivamente. Senti um ciúmes louco quando vi isso. Minha vontade foi de se levantar e bater naquela morena que estava com ela. Me assustei com minha reação. Não consegui desviar o olhar, até que Marta me viu, mas continuei a olhá-la. Senti saudades daqueles olhos azuis, queria estar com ela. Marta desviou o olhar, falou alguma coisa com a morena e deu um sorriso lindo e depois mais outro. Senti ferver de ciúmes. Sim, senti ciúmes, estava enlouquecida. Queria aquele sorriso, queria aquela mulher só para mim. Não conseguia desviar o olhar. Percebi que sentia muito mais do que desejo por Marta. Sentia amor. Agora entendia a saudade que sentia dela, a constância dela em meus pensamentos. Tudo estava claro para mim.
- Joanna? Joanna?
- Hãnn..
- Está tudo bem? Perguntou Jorge.
- Um leve mal estar, mas é passageiro, Jorge. Respondi com receio de que ele percebesse minha perturbação.
- Estava pensando em irmos para minha casa depois do jantar. O que você acha? Perguntou sorrindo para mim.
De repente perdi o interesse em Jorge, tudo o que eu queira era estar com Marta, e não com ele. Ir ao seu apartamento significava terem algo mais íntimo e realmente não estava nem um pouco interessada. Iria terminar esse relacionamento. Fora um erro desde o início. Mas faria isso depois do jantar. Não iria estragar o momento.
- Eu não estou muito bem, Jorge. Respondi. Prefiro ir para minha casa e descansar, pois estou com uma leve dor de cabeça, e não seria uma boa companhia hoje. Senti decepção em seu olhar.
- Tudo bem. Respondeu com um sorriso triste.
Nesse momento nossos pedidos chegaram. Evitei ao máximo ficar encarando Marta, mas quando percebia já estava olhando para ela. Ela também me encarava. Tinha decidido que reconquistaria Marta. Era com ela que eu queria ficar. Viveria essa relação. Seria feliz como nunca fora. Acabei de ter uma idéia. Sorri com este pensamento.
22)
Aceitação
Domingo à tarde. Estava pronta para fazer minha caminhada. Cabelo amarrado num rabo de cavalo, boné, bermuda, camiseta e tênis. Estava pronta para ação. Saí do apartamento e fui em direção ao parque. Ainda pensava no jantar de ontem. Precisava me conformar definitivamente que Joanna jamais seria minha novamente. Cheguei ao parque e continuei caminhando e pensando. Lembrei que Amanda novamente tentara um contato mais íntimo. Tentou beijar-me. Não permiti. Não seria entrando de novo nesse relacionamento que eu esqueceria Joanna. Joanna, saudades de você minha deusa de cabelos de fogo. Sinto tanto a sua falta. Senti meus olhos se encherem de lágrimas. Controlei para não chorar. Caminhar chorando, era só o que faltava.
Joanna passou
por mim e me cumprimentou. Levei um susto, mas retribuí a saudação.
E ela seguiu
- Joanna, tudo bem? Perguntinha infame, a pessoa está ali caída, óbvio que não está tudo bem, mas acabamos perguntando mesmo assim.
- Oi Marta, nada bem, torci meu tornozelo, e está doendo muito. Respondeu e fez uma cara de dor.
- Vem, eu te ajudo. Estendi a mão para ela. Ela aceitou e pegou minha mão. Tremi com o contato. Ajudei-a a levantar. Ela se apoiou em mim, passou o braço ao redor do meu pescoço, pois não estava conseguindo pisar no chão com o pé torcido. Fomos caminhando lentamente até o apartamento dela. Mas durante todo este trajeto estive consciente daquele corpo colado ao meu. Deus, como estou conseguindo sobreviver sem esta mulher? Perguntei-me. Precisava disso para viver. Era vital para mim.
Entramos em seu apartamento e fechei a porta e ela continuou com o braço envolta do meu pescoço. Tentei levá-la até o sofá, mas senti resistência. Olhei para ela e disse que tínhamos que ver como estava o pé. Ela passou o outro braço em volta do meu pescoço. Ficamos de frente nos encarando.
- O que você quer, Joanna? Perguntei.
- Você! Ela respondeu e tentou me beijar. Desviei, o beijo pegou na bochecha.
- Por quê você está fazendo isto? Perguntei com o coração aos pulos. Ela queria me enlouquecer, era isso?
- Porque
descobri que não consigo viver sem você. Quero você. Desejo
você. Eu AMO você. Ela falou me olhando nos olhos e senti meu corpo
esquentar. Meu sangue corria rápido nas veias. Minha garganta secou.
Engoli
Fui até o sofá e me sentei. Ela mancou e fez o mesmo.
- Por que isso agora? E aquele homem que estava com você ontem? E o seu medo de um relacionamento homossexual? Disparei um monte de perguntas.
- Quantas perguntas. Ela sorriu. - Mas vou respondê-las. Isso agora porque eu descobri que te amo. Aquele homem ERA meu namorado, terminei ontem à noite ao descobrir que te amo. E quanto ao meu medo de um relacionamento com você, não existe mais porque te amo.
Fiquei olhando para ela sem acreditar no que eu estava ouvindo. Já tinha me dito quatro vezes que me amava. Eu estava radiante, pulava por dentro de alegria, mas o medo persistia.
- E aquela mulher que estava com você? Ela me perguntou.
- Era Amanda. Só temos amizade, nada mais. Respondi encarando aqueles olhos verdes. Minhas esmeraldas.
- Mas parece que pra ela não é só amizade. Comentei me lembrando do ato possessivo.
- Mas para mim é apenas isso. Respondi quase não conseguindo conter a vontade de beijá-la. Ela se aproximou de mim, passou sua mão em meu rosto, delineou minha boca com seu dedo. Não resisti e o beijei. Ela se aproximou mais. Passei o meu braço pela sua cintura e levantei do sofá trazendo ela comigo. Subi a outra mão até seus cabelos. Soltei eles e enfiei minha mão naquela cabeleira cor de fogo. Gemi de prazer com esse contato. Com uma mão em sua cintura e a outra em sua nuca trouxe ela para mim, e a beijei, um beijo sofrido, cheio de saudades, mas aos poucos foi se tornando sensual, cheio de desejo. Ela enfiou a mão por baixo da minha camiseta e acariciou minhas costas, me puxou para ela. Tirou a minha camiseta, meu sutiã, fiz o mesmo com ela. Retiramos o restante de nossas roupas. Nos abraçamos e o contato de nossos corpos nus, me enlouqueceu. Soltei um gemido e ela também. Nos beijamos novamente, nossas línguas se exploravam mutuamente. Interrompi o beijo e fui beijando o caminho até seu pescoço, subi até sua orelha e dei uma leve mordiscada, ela gemeu e me abraçou mais forte ainda. Virei ela de costas e passei minhas mãos por sua barriga, subi uma mão até sua boca, passei meus dedos por sua boca, Joanna sugou eles, beijei sua nuca, suas costas, desci minha mão até seu sexo, senti ele encharcado. Ela gemeu. Fomos para seu quarto, com cuidado para não machucar mais seu pé torcido, nos deitamos e dei dedicação especial aos seus seios, circulei seu mamilo com minha língua, provoquei ele, ela gemeu mais ainda. Dizia que não agüentava mais, mas continuei minha exploração, fui para o outro seio, fiz a mesma coisa, desci beijando sua barriga até chegar ao seu sexo. Seu cheiro me deixou inebriada. Precisava do seu néctar. Joanna abriu as pernas e eu me deliciei naquele pedaço do paraíso, lambi, suguei, penetrei com a língua, ela enlouquecia e arqueava seus quadris, intensifiquei o movimento, senti seu corpo tremer fortemente e ela explodiu num gozo intenso. Fiz o caminho inverso, subi beijando e lambendo seu corpo até chegar em sua boca onde a capturei num beijo alucinado de desejo. Disse a ela que não acabou. Beijei seu pescoço, voltei minha atenção novamente aos seus seios, minhas frutas suculentas, provei-os com carinho e vontade. Desci minha mão até seu sexo e a provoquei acariciando ele, ela gemeu loucamente e me pediu para fazê-la minha. Penetrei sua cavidade quente e molhada e comecei a fazer o movimento ritmado de vai e vem. Joanna se contorceu toda e pediu para eu ir mais rápido. Aumentei os movimentos cada vez mais até ela dar um grito alucinado e tremer todo o seu corpo. Senti-o relaxar. Retirei meus dedos suavemente. E a abracei trazendo-a para cima de mim. Ficamos ali um tempo, esperando nossas respirações voltarem ao normal.
- Eu amo você Marta. Como nunca amei ninguém. Ela me diz com seus olhos presos aos meus.
Meu coração acabou de receber alta. Sorri com esse pensamento.
Ela continua. - O que eu sinto com você &eacutte; intenso, nunca tive tanto prazer desta forma. Só você consegue fazer meu corpo tremer desse jeito.
- Folgo
Ela me deu um beijo intenso e recomeçamos as carícias. Nossos corpos se inflamaram novamente e desta vez ela assumiu o controle, fiquei à mercê das suas vontades. Ela fez eu ir ao céu, com direito a retorno várias vezes. O que sentíamos era um fogo incontrolável. Passamos a noite nos amando. Até que nossos corpos saciados e cansados, mas felizes, dormissem.
Acordei. Estendi meu braço para alcançá-la, mas ela não estava mais na cama. Senti meu corpo gelar, meu coração se apertar e me bateu um desespero. De novo não. Eu não suportaria. Alguns segundos depois a vi entrando com o café da manhã numa bandeja. Alívio. Sorri para ela. Não mancava. Não mancava?!
- Você não está mancando? Perguntei, pois acabei de lembrar-me do seu tornozelo.
Ela me deu um sorriso sacana e deu um leve sapateado. Foi armação. Não existiu nenhuma torção no tornozelo. Mas que danada! Amava essa mulher de cabelos de fogo. Ela veio até mim e me deu um beijo. Coloquei a bandeja do lado e a puxei para mim, beijei com vontade, com desejo, com amor. O desjejum ficou para depois. Nossa necessidade era mais urgente. Ah, hoje era segunda-feira, mas enforcamos. Ligamos avisando que tinha acontecido um imprevisto. Tínhamos coisas mais importantes para fazer. E deliciosas.
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Seis meses se passaram, seis meses de pura felicidade. Tínhamos uma sintonia incrível. Estava em meu escritório e lembrava-me de meu plano. Armei de torcer o tornozelo durante uma caminhada no parque. Fiz plantão em minha porta aquele domingo desde manhã. Já era de tardezinha e já estava quase desistindo quando ouvi a porta de Marta se abrir, espiei pelo olho mágico e ela estava vestida para dar sua caminhada. Enchi-me de felicidade. Era o momento, esperei mais dois minutos, tempo suficiente para que Marta descesse pelo elevador e fui atrás. Se minha idéia não desse certo pensaria em outras mil coisas, tinha decidido reconquistá-la. E consegui. Marta teve a idéia genial de fazer uma porta de ligação entre os dois apartamentos, estávamos ora no meu, ora no dela. Ainda não tinha saído do armário, mas planejava fazer isso o quanto antes, queria viver livremente com a mulher que eu amava. Precisava dizer ao mundo que amava aquela mulher intensamente.
FIM
O amor é como um fogo que nos corrói inteira... incontrolável
1)
Se apaixonando...
Mais um fim de semana morno, sem graça. E eu aqui nesse apartamento sem interesse algum em fazer qualquer coisa. Ai, ai, desde que terminei meu último relacionamento que estou assim, sem vontade de fazer as coisas. Droga, mas porque as coisas tinham que ser assim. Putz, chegar em casa e ver a mulher amada nos braços de outra é dose, dose pra leão! E a sem-vergonha ainda me disse na cara dura e mais deslavada do mundo: - Amor, não é isso que você está pensando! Com certeza não era, porque naquele exato momento eu estava pensando nas carmelitas descalças rezando a Ave Maria. E assim, sigo eu sozinha.... Ah, meu nome é Marta, tenho 29 anos, sou loira, e tenho olhos azuis, quando era criança ganhei alguns apelidos geniosos como loirinha azeda, bicho de goiaba e barata descascada, ui que nojo!!! Sou dentista e moro em Curitiba, num apartamento de dois quartos, num bom condomínio. Amo essa cidade, ah, e quando é inverno então..hummmm... mas pena que tô sozinha, nada de pensar em inverno, isso me deixa mais triste ainda e estamos em pleno verão. Tô pirando mesmo, esse negócio de ficar sozinha não tá dando certo. Estou sozinha já há 6 meses. Seis meses sem um beijinho sequer!!!. Vou ler aquele livro.. já deve ser a tentativa 130, acho que agora consigo passar da primeira página.
Progresso! Já estou na página 10. Aleluia! BAAMMM!!! Mas que merda de barulho é esse?!? Foi no corredor. Corro para porta. Tenho a maldita mania de observar o corredor pelo olho mágico. Vai me dizer que alguém nunca fez isso??? Mudança pro apartamento vizinho. Corredor cheio de homens suados carregando coisas.. eca!!!! Poxa, agora vai começar aquelas furações, arrasta móveis daqui, arrasta móveis dali, martela aqui, martela ali, isso vai acabar com o meu sossegado fim de semana. Muito promissor. Que bela trilha sonora vou ter para me acompanhar. Droga!!! Acho que meu problema é falta de sexo, por isto estou tão nervosa. Só pode!
Segunda-feita, seis e meia da tarde. Acabei de atender meu último paciente de hoje. Estou quebrada. Minhas costas estão me matando. E ainda tenho que ir ao supermercado. Droga, droga, droga! Odeio ir ao supermercado. Pra mim não tem coisa mais chata do que ficar empurrando um carrinho e ficar escolhendo "coisas" e jogando dentro dele, para depois enfrentar um fila imensa para pagar por eles. Bota no carrinho, tira do carrinho, põe na sacola, tira da sacola. Detesto isso, acho que tem coisa mais prazerosa pra ser feita por aí. Como amar uma mulher, por exemplo!!!
Estou aqui na missão impossível de escolher o melhor molho de tomate, quando vejo aquela mulher, meu deus, de parar o trânsito. Ruiva, ela olhou pra mim, olhos verdes, cabelos longos e cacheados... vou enfartar!!! Preciso desesperadamente descobrir quem é esse monumento. Nunca a vi e não posso perdê-la de vista. Assim, vou discretamente seguindo ela. Ela está com uma prancheta. Será que ela está fazendo pesquisa de preços? Ela é mais baixa que eu, bom eu tenho 1,78m então a maioria das mulheres são mais baixas do que eu. Grande constatação, blerghhhh!!! Será que esse monumento gosta de mulheres? Hummm... parece que não. Que pena! Mas olhar não arranca pedaço e continuo com a minha secreta perseguição.
Ela olha os preços de alguns produtos e anota naquela prancheta. Nossa, ela levou a caneta até a boca. Eu quero ser aquela caneta, sentir aquela boca carnuda. Enlouqueci! Só pode. Estou de quatro por uma completa estranha. Mas o que está acontecendo comigo?!? Nunca agi assim, dessa forma tão desesperada. Chega!! Chega!! Chega!!! Vou pra casa, desisto de comprar hoje, só vou levar pão, leite e queijo, amanhã volto aqui e termino o restante da compra. É isso, mas que maluquice a minha, ficar babando por uma mulher assim. Tô na pura carência mesmo.
Mas como tragédia pouca é bobagem. No caminho de casa fura um pneu do carro. Merda!!! Só me faltava essa. Ainda bem que a rua está iluminada. Bom, lá vou eu trocar esse pneu. Meu deus, tô suando em bicas, quem apertou este parafuso tão bem apertado??? Não consigo soltar os parafusos. Droga! Parou um carro, pronto, ai meu deus, vou ser assaltada! Me proteja meu jesuis cristin. Quem eu vejo saindo do carro... a ruiva, vem andando sensualmente em minha direção, olho para seus olhos, me capturam no seu verde olhar, me dá um sorriso pra lá de sacana. Meu coração vai sair pela boca. Ela vem chegando mais perto e mais perto e pergunta com aquela voz grossa e máscula. Peraí, voz grossa e máscula?!?!? Olho de novo e tem um senhor de meia idade perguntando:
- Boa noite senhorita, posso ajudar-lhe a trocar este pneu. Vejo que está com dificuldades. Se oferece solícito.
- Hããnn... cla.. claro, mas é claro que sim. Muita gentileza sua em me ajudar. Respondo a ele e continuo. - Apertaram demais e não estou conseguindo soltar os parafusos.
Ele tenta e comenta: - É... quem trocou da última vez apertou demais mesmo. Mas vou dar um jeito nisso. Deixe comigo.
Em poucos minutos ele trocou o pneu, agradeci-o imensamente pela ajuda. E ele seguiu seu caminho. E eu?? Fiquei igual a uma barata tonta ali, imaginando a cena minutos antes.. Eu juro que era a ruiva quem eu tinha visto. Meu deus, eu enlouqueci mesmo, preciso de férias e urgente. É isso, vou tirar duas semanas de férias. Preciso voltar ao meu juízo perfeito.
2)
O mico
Terça-feira. Sete horas. Ainda bem que consegui arrumar tudo no meu novo apartamento. Mudança é uma bagunça, sempre uma bagunça. Mas ainda bem que já deixei o apartamento um brinco. Foi ótimo ter me mudado no fim de semana, até porque era o meu único tempo disponível. Só tenho o domingo livre, e sábado sim e sábado não, mas tive que pegar este sábado de folga. Chato isso! Espero não ter tirado a paz do morador aqui do lado. Vou chamar o Júlio pra gente comemorar o meu novo cantinho. Ah, Júlio é o meu namorado, namoramos há 2 anos. Eu o amo, mas ultimamente sinto que ele anda um pouco estranho. Bom, mas ele diz que é muito trabalho, e eu acredito, claro, porque ele iria mentir pra mim? Afinal ele me ama também. Bom, pelo menos ele me diz que me ama. Não vejo porque não acreditar. Tudo bem que ele não me faz subir pelas paredes na hora do sexo. Mas, com meus outros namorados era a mesma coisa, então acho que é assim mesmo. Mas não gosto quando ele chega antes e eu tenho que lançar mão do fingimento. Como os homens são bobinhos... basta dar alguns gemidos mais fortes, falar uns palavrões e pronto eles acham que nos levaram ao céu.
Meu nome é Joanna, tenho 32 anos, meus cabelos são longos e cacheados e sou ruiva, tenho olhos verdes, trabalho para uma rede de supermercados e sou gerente de uma unidade. Fui transferida recentemente, trabalhava aqui mesmo em Curitiba, apenas em outra unidade. Este é maior, aceitei o desafio. Formei-me em administração de empresas há 10 anos e desde então trabalho nesta empresa, mas fui galgando posições e hoje estou como gerente. Sou feliz, tenho um bom emprego, um namorado que eu amo, e agora estou de cantinho novo. Ainda não conheci meu vizinho. O prédio que eu moro tem dois apartamentos por andar. Sempre ouço quando ele sai. Haverá tempo suficiente para eu conhecer quem mora ao meu lado. Não gosto desta coisa de não saber quem está ali, a poucos metros de você.
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Terça-feira. Seis e meia da manhã. Dormi mal, acordei suada e sexualmente molhada, tinha acaba de sonhar com uma certa ruiva, foi um sonho extremamente quente. Carência, isso é carência pura!! Preciso ver como está a minha agenda e tirar essas minhas férias. Iria tirá-la daqui a dois meses, mas vou antecipar. Estou necessitada deste tempo para mim. Ao chegar no consultório às sete e meia, chamei minha secretária até minha sala.
- Bom dia, Carol!
- Bom dia, Dra. Marta.
- Carol, quero saber como está a minha agenda, pois gostaria de tirar duas semanas de férias. Seria semana que vem e a outra. Sei que a tinha programada para daqui dois meses, mas estou há quase dois anos sem tirar férias, e convenhamos ninguém merece ficar tanto tempo assim sem descansar.- E dei uma gargalhada.
Carol também riu e me respondeu:
- Bom, Dra Marta, acredito ser perfeitamente possível ajustar os horários, mas terão alguns pacientes que vão ter que ser atendidos provavelmente no sábado.- Disse isso, e me olhou, pois ela sabe que o-d-e-i-o trabalhar no fim de semana.
- É... se não tiver jeito de adiá-los, faço isso então. Embora a idéia de trabalhar no sábado não me agrade nem um pouco, mas em prol das minhas férias, eu faço este sacrifício.- Disse resignada.
- O paciente das nove horas cancelou, pois teve um imprevisto. - Disse-me Carol. Eu detestava quando isso acontecia, mas não podia fazer nada.
- Fazer o que. Vou aproveitar o horário e dar uma olhada naquele livro sobre próteses que eu comprei.- Disse, e Carol saiu da minha sala.
Tinha acabado
de fazer uma especialização
À tarde, Carol me comunicou que conseguiu ajustar minha agenda para que eu pudesse sair de férias. Teve 5 atendimentos marcados para o sábado. E, infelizmente, teria de fazer um atendimento no domingo de manhã. Era um caso especial e não podia deixar de atender este meu paciente. Pretendia sair no domingo à tarde. Iria para um hotel fazenda, não muito distante daqui. Acho que ter um contato com a natureza seria maravilhoso.
Terminei meu expediente, e claro, como não concluí a compra dos itens para a casa, tenho de voltar ao supermercado. Imediatamente lembrei-me da ruiva. E do sonho que tive com ela esta noite. Preciso de um banho frio. Gelado! Mas tenho o supermercado antes. E com certeza, a pesquisadora de preços não vai estar lá, deve estar em qualquer outro mercado, naquele de novo não. Com este pensamento em mente dirigi-me ao supermercado.
O supermercado é daqueles bem grandes, com um estacionamento grande, o que é bom pra nós, clientes. Horrível quando se vai a algum lugar e não tem onde estacionar o carro. É, não tem jeito de fugir dessa coisa chata de ir ao supermercado, só sobra pra mim mesmo. Quem manda morar sozinha. Sobram as coisas boas e as não tão boas pra serem feitas. Pego um carrinho pequeno e lá vou eu para esta grande aventura.
Após a extenuante tarefa de escolher tudo o que eu queria, agora só falta passar no caixa. Sabe o que é pior, por várias vezes me flagrei procurando a ruiva pelo supermercado, a cada nova sessão que eu entrava, meu coração batia descompassado esperando encontrá-la ali. Chato isso. Preciso esquecer essa mulher, nunca mais devo vê-la. A cidade é grande, quais as chances de encontrá-la de novo? E mesmo se encontrá-la, o que vou dizer? Não tenho menor noção de quem ela é. Larga de pensar nela, poxa! Vou embora pro caixa pagar isso aqui.
Levo um susto. Não acredito!!! É ela! Ela está lá em cima encostada na porta do escritório do supermercado. Será que trabalha aqui??? Meu coração está a trezentos por hora. Tem um tambor dentro da minha cabeça. Meu deus, que loucura é essa? Vou andando e olhando pra cima, droga, não consigo desviar o olhar. BAAAAAMMMMMMMMMM.... Nããããooooooo..... não olhei para onde estava indo e trombei com uma banca de promoção de leite condensado em lata... vocês não conseguem imaginar a cena: estou sentada no chão, com latas por cima de mim, tudo, mas tudo caiu! Uma verdadeira tragédia. Eu mereço, bem feito.... droga, droga, droga. E o mercado inteiro me olhando. Tudo isso aconteceu em poucos segundos. Que vergonha. Queria abrir um buraco no chão e me esconder. Que vontade de chorar. Droga, por que tinha que acontecer isto justo comigo?
- Você está bem? Ouço uma voz suave me perguntando.
Olho... fico petrificada, era ela, me olhando com aqueles olhos verdes lindos. Ela é toda linda! Fico parada olhando ela.
3)
A alegria
- Você está bem moça? Ela torna a dizer.
- Hã... si... sim, es... estou bem. Dou um sorriso sem graça. - Derrubei tudo, não vi. Falei. Que coisa mais imbecil de se dizer, é óbvio isso.
- Posso ajudá-la? Disse e me estendeu a mão. Peguei sua mão. Macia e quente. Senti um calor gostoso passear pelo meu corpo. Ajudou-me a levantar.
Estava tão envergonhada da situação. Meu corpo estava todo dolorido. Ela gentilmente pediu que eu a acompanhasse até uma sala. Antes falou com um rapaz para passar com meu carrinho de compras pelo caixa e que logo após levasse as sacolas para a sala. Pediu que eu sentasse em uma das cadeiras.
- Acho que é melhor levá-la ao hospital... Ela começou a dizer.
- Não. Não precisa. Disse. -Estou bem, foi mais o susto que outra coisa, e a vergonha também. Disse sorrindo . Ela sorriu. Meu deus, que sorriso lindo.
- Aceita um cafezinho ou um chá, ou mesmo um copo d'água? Perguntou com aquele sorriso lindo.
- Humm... acho que aceito um cafezinho. Respondi, retribuindo aquele sorriso encantador. Ela pegou o telefone e pediu dois cafezinhos.
- Bom, deixe apresentar-me, meu nome é Joanna e sou a gerente deste supermercado.
- Você trabalha aqui?!? Perguntei espantada, não acreditando nisso.
- Sim, trabalho. Nesta unidade comecei ontem. Trabalhava antes na unidade do bairro Xaxim.
- Nossa,
do outro lado da cidade. Comentei, pois o bairro em que estávamos era
o Bacacheri. Algo como o norte e o sul, pois é, totalmente oposto um
do outro. Acho que a partir de hoje eu iria apreciar vir mais vezes ao supermercado.
Acho que ia passar a comprar um produto de por vez. Viria muitas vezes. Descobri
de repente que a-m-o fazer compras
- ... casa?
- Hãã... desculpe, é.. é que não ouvi o que você disse. Desculpe-me, poderia repetir?
Ela estava sorrindo lindamente. - Claro que sim, eu perguntei se gostaria que alguém a acompanhasse até sua casa?
- Oh.. não.. não.. não precisa, eu estou bem. Estou bem mesmo, foi... só um susto. E ri. - Oh, mas que falta de educação a minha, nem apresentei-me. Me chamo Marta, e sou uma cliente deste supermercado.
- Eu sei.
- Sabe?!?
- Sim, lembro-me que a vi ontem aqui, quando fazia algumas análises do local, pra ver se fazemos algumas mudanças... pra melhorar o atendimento. Ela disse e insistia em ficar com aquele sorriso no rosto. Eu estava literalmente babando. Estava perdida. Perdidamente apaixonada por ela. Rapidamente olhei para suas mãos, não usava aliança, então não era casada. Fiquei feliz. Sou uma idiota mesmo, conheço um monte de gente que é casada e não usa aliança. Nesse momento entra uma moça com os cafezinhos.
- Srta. Joanna, aqui estão os cafezinhos. Precisa de mais alguma coisa? Perguntou a moça.
- Não, Rosana. Muito obrigada. E a moça saiu da sala.
Senhorita. Senhorita. Isso significa que é solteira... viva, viva, viva!!!! Mas pode ter namorado, imagine se um mulherão desses vai ficar por aí dando sopa. É ruim, hein! Não importa, meus olhos brilhavam de alegria. Eu estava conversando com a minha deusa. Bendita trombada com o leite condensado. Ai, como eu amo supermercado. Acabei de descobrir. Neste instante o rapaz trouxe minhas compras e deixou as sacolas em um canto. E entregou a nota para ela.
- Eu peço desculpas pela trombada e pelo inconveniente... Estava dizendo e ela me interrompe.
- Não há nada para desculpar, imagine. Você não tem idéia de como é comum acontecer isso. Você não é a primeira e nem será a última. Disse-me dando uma gargalhada gostosa.
Eu estava inebriada com a presença dela. Completamente enfeitiçada e ficamos conversando por mais alguns minutos. Paguei pelas minhas compras e fui embora. Não sem antes ela me dizer:
- Marta, adorei conversar contigo. Quando vier aqui, aproveite e venha tomar um cafezinho comigo. Você é muito legal. Gostei muito de você.
Não preciso nem dizer que saí de lá flutuando. Hoje poderia furar os quatros pneus do meu carro que eu ainda continuaria com aquele sorriso bobo na cara. Completamente embevecida. A minha deusa ruiva de cabelos de fogo. Descobri onde poderia sempre achá-la. Ai ai, e ainda me convidou pra ir tomar cafezinho com ela. Nossa, ela poderia me convidar pra qualquer coisa que eu toparia sem pestanejar. Cheguei em casa e guardei minha bendita compra. Comi alguma coisa, tomei um banho e fui dormir. Nesta noite sonhei novamente com uma deusa maravilhosa. Isso já estava virando hábito.
4)
As férias
A semana transcorreu normalmente, e finalmente chegou o domingo. Atendi o Sr. Alfredo e fui para casa, terminar de arrumar minhas malas, e finalmente iria para minhas férias. Seria muito bom este tempo comigo mesmo. Preciso disso pra reorganizar algumas coisas internas. Quando cheguei na garagem tive a impressão de ver a ruiva saindo de carro. Imediatamente lembrei-me do incidente do pneu, quando imaginei ter visto ela. Ri sozinha. Isso já está virando mania. Tudo pronto, carreguei o carro e saí rumo ao meu hotel fazenda preferido. Ah, esqueci de dizer, é a fazenda de uma amiga de família. Praticamente cresci lá. É como se fosse o meu refúgio, e sempre que preciso recarregar minhas energias é pra lá que vou.
Cheguei
no meu paraíso. Estava com saudades dos meus amigos. Eles adoraram a
idéia de eu passar minhas férias com eles. Eles me lembram o aconchego
de família. Já que colinho de mamãe só tenho quando
vou para Joinville,
Estacionei o carro, e fui até a recepção do hotel. Lá estava Jeremias, um rapaz de 30 anos, um faz-tudo na fazenda, como costumo chamá-lo.
- Boa tarde, Jeremias. Como você está, homem? Cumprimentei-o.
Ele abriu um sorriso imenso ao ver-me e veio abraçar-me. Nos conhecemos praticamente desde criança. Ele nasceu na fazenda, seus pais já trabalhavam nela.
- Boa tarde, mas que maravilha você por aqui Marta. Estava com saudades suas. Tá todo mundo te esperando ansiosamente. Seja bem vinda minha querida. E deu-me um beijo na bochecha.
Retribuí sapecando um beijo na sua bochecha também.
- Já chegou e nem me disse nada, né minha menina. Era a D. Isabel, a responsável pelo motivo de eu voltar sempre alguns quilinhos mais gorda para casa. Uma simpática senhora de 54 anos. Já trabalhava na fazenda tinha quase trinta anos. Sempre brincava dizendo que já era patrimônio da fazenda.
Corri para abraçá-la. Eu gostava tanto de estar ali. Ia ser ótimo. Já fazia alguns meses que eu não aparecia por aqui. Estava com saudades.
- Como você está D. Isabel? Humm... estou com vontade comer aquele bolo de cenoura com cobertura de chocolate que só você sabe fazer. Falei dando uma gargalhada.
- Eu estou bem. É só pra isso que você vem aqui né minha menina. Agora, vou te contar um segredo. Falou baixinho no meu ouvido. - Fiz o bolo e tá lá esperando ser devorado por você. Não resisti e dei um gritinho de felicidade.
- Então o que nós estamos esperando, eu quero é comer um pedaço dele agora mesmo. E saímos em disparada para a cozinha.
Já devidamente satisfeita da minha vontade de comer aquele manjar dos deuses. Perguntei:
- E a D. Helena e a Fabiana, onde elas estão?
- Bom, a D. Helena foi visitar uma amiga dela na cidade, deve voltar mais a noitinha. Já a Fabiana viajou com o namorado dela. Pelo que sei volta na metade da semana. D. Helena não gostou muito dela viajar com esse rapaz não, sabe. O cara é muito folgado.
- Ah, D. Isabel, deixa disso mulé, fica se metendo na vida alheia. Falei dando um abraço nela.
- Mas é, o cara é muito do folgado mesmo. Não faz nada, só fica andando de carro pra baixo e pra cima. Não produz nada, não se interessa por nada, aliás, se interessa sim e acho que é pela fazenda que um dia vai ser da D. Fabiana. Ela que não abre o olho não.
- Ah, deixa disso mulé, a Fabiana já tem idade suficiente pra saber quem ela escolhe pra ficar do lado dela, e se conheço ela, pelo menos alguma qualidade ele tem. Ponderei.
- O seu quarto tá arrumadinho, vou pedir para o Jeremias levar as suas coisas pra lá.
Nunca me deixaram ficar nas cabanas, eu até que tentei mas dizem que sou da família e que tenho que ficar no quarto de hóspedes.
- Ah, obrigada. Quero aproveitar esses dias que vou ficar aqui. Quero fazer tudo que tenho direito. Disse e soltei uma gargalhada.
D. Isabel sorriu e me olhou com aquela cara de quem diz: essa menina não tem jeito. Ela saiu e foi pedir para Jeremias levar minhas coisas. Não resisti e comi mais um pedaço do bolo, humm.. mas isso é mesmo uma delícia. Já deu pra entender porque sempre volto cheinha. Não dá pra resistir. É tentação demais.
Já devidamente instalada e após um delicioso banho tomado, desci para jantar. O jantar na realidade é um imenso café colonial, com muitos pães, tortas, bolos, salames, queijos, sucos, geléias. Uma perdição. No final de semana sempre fica lotado o hotel, durante a semana é mais tranqüilo, mas sempre tem hóspedes. Isso é bom, porque sempre tem atividades.
Logo após
o jantar a D. Helena chegou e me recebeu com o imenso carinho de sempre, ela
é como se fosse minha segunda mãe. Conversamos um monte, contando
as novidades e é claro botando as fofocas
5)
Recordações
Como é costume desde que namoramos, Júlio sempre vem passar o fim de semana em minha casa. Poucas vezes ficamos na casa dele. Eu prefiro assim, pelo menos tenho minhas coisas à mão, meus cremes, perfumes, sem contar que nunca sei com que roupa quero sair. Já os homens são mais práticos com estas coisas. Sempre estão prontos.
Sábado
à noite, jantamos fora. Fomos a um restaurante de comida italiana
Fui pra cozinha providenciar o meu desjejum. Combinamos de ir ao cinema no final da tarde. Vamos ao Shopping Estação. Eu gosto de lá, mas gostava bem mais antes da reforma que fizeram. Agora ficou com cara de shopping mesmo e o que não falta nessa cidade é shopping center. Antes tinha aquele ar bucólico de uma antiga estação de trem da cidade. É, a modernidade vai tomando conta de tudo!
Enquanto tomava meu café da manhã, lembrei-me de Marta. Que situação, trombar com o estande das latas de leite condensado. Nossa, quando eu vi aquilo acontecendo, desci as escadas com uma rapidez impressionante. Poderia ter me machucado também. Nunca me aconteceu isso de trombar, mas acho que se acontecesse ia ficar com uma vergonha imensa. Fiquei com pena dela naquele momento. Ela estava vermelha de vergonha. O máximo que eu poderia fazer era tirá-la dali, porque as pessoas ficam olhando e acabam constrangendo mais ainda a pessoa. Gostei de conversar com ela. Espero que ela realmente apareça para tomar um cafezinho, é uma companhia agradável. Quem sabe poderemos ter uma bela amizade. E com este pensamento na cabeça passei o meu domingo.
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Segunda-feira.
Adoro este ar da fazenda. Hoje de manhã fiz um passeio a cavalo juntamente
com alguns hóspedes. Neste exato momento, estou deitada numa rede embaixo
de algumas árvores, como isso é bom. São 4 horas da tarde,
o tempo está firme e ensolarado, e claro, quente também. Acho
que vou aproveitar e vou tomar um banho de piscina. quem sabe eu consigo uma
corzinha desta vez... porque todas as outras tentativas deram
D. Helena disse-me que Fabiana deve retornar à fazenda na quarta-feira. Estou ansiosa para conversar com ela e matar as saudades da minha amiga. Crescemos juntas, fazíamos cada arte por esta fazenda. Lembro-me de uma delas, quando queríamos despistar o Jeremias, que vivia insistindo pra ficar com a gente e nós querendo mais privacidade para termos "assunto de mulher". Tínhamos 13 anos e armamos de prendê-lo dentro do paiol, onde era guardado o milho para alimentar as criações. O coitado ficou lá, preso quase a tarde inteira. Quase apanhamos por causa disso, mas que foi divertido, foi! Ri sozinha. Os meus pais e os pais de Fabiana são �cumpadres� de casamento. Quando eram solteiros, faziam as suas festinhas juntos.
Fabiana sabe que sou lésbica, quando contei a ela disse-me que não se importava, desde é claro, que eu não me apaixonasse por ela, porque o negócio dela era homens, nada de mulheres! E não queria ver a melhor amiga pendurada por causa dela. Essa minha amiga é um figura! Muito doida. Mas amo ela.
Estou aqui melecada de protetor solar, deitada na cadeira. Ai ai... ô vida boa essa!! Faz 10 anos que resolveram abrir o hotel fazenda. Idéia da D. Helena, mulher visionária. Começaram com 5 cabanas, hoje tem 28, e tem que reservar com antecedência, por que senão corre-se o risco de ficar sem. Fim de semana é uma loucura, mas é uma delícia. Existem duas cabanas que são flutuantes, nunca teria coragem de ficar nelas, mas são disputadas. Fica no lago que fica em frente às cabanas. Cada cabana tem sua garagem, e é equipada com uma cozinha com fogão, geladeira, pia, armários e mesa com cadeiras. Tem um beliche e no quarto tem uma cama de casal e tem um banheiro. Cabem 4 pessoas. São feitas de madeiras, bem rústica. Ano passado fizeram um campo de futebol e uma cancha de bocha. O pessoal da cidade vem passar o domingo aqui, como se fosse um clube, pois tem piscinas. Uma das coisas que eu adoro fazer, além do passeio a cavalo, são as trilhas. Uma delas dá para um pequeno riacho que tem uma cascata d'água. É a minha preferida. Amanhã cedo vou fazê-la.
Terça-feira
de manhã. Estou a caminho da minha trilha favorita. Ela fica abaixo desse
morro, e tem que descer uma escadaria com 116 degraus. Para descer é
uma beleza, todo santo ajuda, mas para subir... bom, é ótimo pois
vale como exercício. A trilha ladeia a encosta do morro e vou descendo
cada vez mais até chegar ao riacho. Ai, aqui é uma paz imensa,
amo este pequeno lugar. Sentei-me numa pedra e fechei os olhos. Comecei a lembrar
do meu último relacionamento. Conheci a Amanda através de uma
amiga minha, a Vanessa. Foi na festa de aniversário dessa amiga. Olhares
pra cá, olhares pra lá e logo estávamos atracadas num papo
interessante. Foi uma afinidade imediata. Em poucos dias já estávamos
namorando e em menos de três meses estávamos morando juntas. Ah,
isso me faz lembrar daquela piadinha infame: O que uma lésbica traz no
segundo encontro? A mudança. Soltei uma gargalhada. Se alguém
me visse ali naquele instante iria imaginar que eu estivesse louca. Vivíamos
bem, mas depois descobri que Amanda sempre foi galinha. Me traiu diversas vezes.
E eu achava que ela era apaixonadíssima por mim, bom pelo menos me fazia
crer que era. Tinha ido fazer a minha especialização
Mas chega de pensar nisso. Isso só me traz sofrimento. Quero pensar em coisas alegres. Estar aqui neste pequeno pedaço do paraíso me traz uma paz imensa. Adoro refletir sobre minha vida aqui. Gosto de fechar os olhos e ouvir o canto dos passarinhos, o barulho que a água faz correndo... adoro essa comunhão com a natureza. Me renova, me rejuvenesce, me revive.
Lembrei-me da ruiva, Joanna, nome lindo, aliás tudo nela é lindo. E tem um perfume maravilhoso, diria inebriante. Preciso traçar um plano para vê-la mais vezes. Quem diria, eu que odeio supermercados, traçando um plano para freqüentá-lo mais vezes. Ri sozinha. É, mas estou encantada, estou de quatro.. de quatro?!?!? É, estou definitivamente de quatro por esta mulher. A mulher do supermercado! Cabelos de fogo... é isso... um fogo... um fogo incontrolável que eu sinto quando a vejo. Isso é paixão, amor, sei lá... nunca me aconteceu antes ficar assim. Só sei que nunca senti algo tão forte assim antes. Mas tenho medo, medo de machucar-me novamente. Tenho medo de botar todas as fichas e sofrer uma decepção. Já tive uma recentemente e ainda estou me reerguendo. Nem sei se ela gosta de mulheres, e eu aqui já pensando em beijá-la, amá-la. Dei um sorriso triste. Levantei-me, resolvi voltar, tomaria um banho e iria encarar aquele �engordativo� café colonial e esperar Fabiana que chegaria amanhã.
6)
Matando saudades
Eram dez horas da manhã quando Fabiana chegou. Veio logo me abraçando e me beijando no rosto. Ela estava linda. Uma morena jambo, um tesão de mulher. Olhos e cabelos compridos negros. E foi me perguntando:
- Quais são as novidades? Quero saber tudinho! Não me esconda nada, nem se atreva a fazer isso. Acabei rindo da sua curiosidade.
- Não tenho muitas novidades não. Tudo na mesma, minha querida. Respondi.
- Não vem que não tem. Você tá com um brilho diferente nesse olhar. Pensa que eu não te conheço, é? Arrumou uma namorada nova, aposto!
- Ah... quem dera tivesse arrumado.
- Mas tem rabo de saia nessa história. Me conta, vai!
- Bom... rabo de saia tem. Ambas rimos. - Você nem vai acreditar. E contei toda a história... da primeira vez que a vi, do episódio do pneu furado, e quando contei essa ela se matou de rir. Contei da minha trombada no leite condensado. Nessa ela gargalhou mesmo, já estava chorando de tanto rir.
- Pára tá, fica rindo assim, não conto mais nada.
- Ó, parei.. tô séria. E caiu na gargalhada de novo. Impossível não rir junto.
Contei tudo o que aconteceu. Ela ficou me olhando com uma cara estranha, e quando eu ia perguntar o que era, ela diz:
- Caraca... Martinha, você está apaixonada!
- É Fabi, acho que tô mesmo. E não sei como lidar com isso.
- Minha amiga, desejo boa sorte pra você. Você sabe que eu odeio ver você sofrendo. Quando Amanda fez aquilo, fiquei com vontade de dar uma surra nela.
- É, eu sei. Mas, desta vez fui flechada mesmo. Fabiana me abraçou.
- Eu quero ver você feliz, isso é o que me importa. Disse e me deu um beijo na testa.
Ficamos ali abraçadas por mais alguns segundos, quando me lembrei do que D. Isabel me disse sobre o novo namorado de Fabiana.
- Me diz uma coisa? Perguntei. - E esse teu novo namorado?
- O Augusto? É só um passatempo. Quero nada sério com ele não. Riu. - Enquanto não aparece coisa melhor vou aproveitando ele.
- Você é maluca mesmo.
- Ele é gostosinho, faz bem feito. Deu uma gargalhada gostosa. - Mas não o amo. É só diversão mesmo.
- D. Isabel disse que ele tá de olho na fazenda. Falei rindo.
- E eu não sei! Mas deixa o coitado achar que tá abafando, na hora que ele começar a me incomodar mando ele pastar. Sentenciou.
- E o seu pai, o Seu Juca? Onde ele está?
- Bom, depois que mamãe e ele se separaram, ele ficou com a fazenda do Mato Grosso e tá por lá. Sabe como meu velho é, né.
- Sei, um cabeça dura! E quando foi a última vez que ele veio aqui?
- Já tem dois meses. O Leandro foi com ele dessa vez. Meu irmão resolveu que quer ficar por lá.
- Poxa, as mulheres da família de um lado, e os homens do outro.
- Pois é, menina. Família é bom no retrato. E Gargalhamos.
Fiquei na fazenda até a próxima quarta-feira, quando decidi ir embora. Tinha decidido dar um pulo em Joinville ver meus velhos. Estava com uma saudade imensa deles. Cheguei em Joinville no final da tarde, e como sempre, chovendo! Eita cidade da chuva. Sabe onde fica Joinville? Não?? É a segunda nuvem à esquerda da BR-101. Outra piadinha infame. Está um calor abafado, insuportável. Carro com ar condicionado aqui não é luxo, é item de primeira necessidade. Parece que a gente está dentro de uma sauna. A umidade aqui é absurda, se ficar sem usar as coisas, mofa tudo. Nem sei como consegui viver nessa cidade por tanto tempo. Gosto da estrutura que oferece, mas do clima...
Meus pais
sabem que sou homossexual, me abri com eles quando tinha 22 anos. Não
foi fácil, sofri rejeição, mas esse momento já foi
superado. Hoje nos damos super bem, isso não atrapalha
Cheguei na casa de meus pais e foi aquela festa. Matei a saudade que tinha deles. Saí muito com minhas irmãs. Tenho duas, Mariana, de 26 anos e Melânia, de 22 anos. Ambas tem seus namorados. Notaram que nossos nomes começam com a letra M? Pois é, maluquice do seu Manoel a D. Miriam, meus pais, quiseram que a família toda tivesse essa letra. Coisa de doido. Matei a vontade de comer a comida da minha mãe. Conversei muito com meu velho. Ele estava muito ansioso, pois iria se aposentar no mês seguinte. Falei pra levar a mamãe numa viagem ao nordeste e ele gostou da idéia. Fiquei até domingo, após o almoço peguei a estrada de volta para Curitiba. Valeu a pena essas férias, me sinto outra. E amanhã é dia de pegar no batente de novo.
7)
Surpresas
Terminei
meu expediente no consultório às dezessete horas e, de fato, eu
precisava ir ao supermercado, pois não tinha nada pra comer
Perguntei
por ela para uma funcionária, e disse-me que Joanna estava em sua sala,
lá
- Marta, que surpresa maravilhosa. Achei que tivesse desistido de fazer suas compras aqui. Não apareceu mais.
Será que ela ficou me procurando nesse monte de corredores durante essas duas últimas semanas?
- Não desisti não. Estava viajando de férias. Respondi olhando aqueles olhos verdes maravilhosos. Pareciam duas esmeraldas. Jamais me cansaria de olhá-los.
- Ah, isso explica. Pensei também que não quisesse tomar o cafezinho comigo. Disse e olhou nos meus olhos. Um frio percorreu minhas costas.
- Claro que quero. Vim aqui por dois motivos, ou melhor, três motivos.
- Três??
- Sim, as compras, o cafezinho e você!
- Uau! Fico
feliz
- Sou dentista. Tenho um consultório no centro da cidade.
- Oras, vou trocar de dentista então. Disse rindo.
Até que não seria má a idéia de lidar com aquela boca maravilhosa. Só não sei se conseguiria fazer direito o serviço. Vai que eu trato do dente errado. Socorro!!
Ficamos conversando por quase uma hora, só parei mesmo porque vi a hora e já devia ser o horário dela ir embora. Não queria atrapalhá-la. Ela sempre me surpreende e não foi diferente dessa vez.
- Olha, Marta, eu sinceramente adorei você. Gostaria que pudéssemos ser amigas. Meu coração ficou feliz e ao mesmo tempo triste. Adorei pelo fato de poder participar da vida dela, mas triste por ser apenas... amiga! � Gostaria de convidá-la para irmos ao cinema no sábado. O que acha?
- .... (fiquei muda).
- Oh, desculpe-me. Você deve ter compromisso com o seu namorado e eu aqui querendo que.......
- Não... Interrompi. - Não tenho namorado. É que simplesmente não esperava pelo convite. Falei sorrindo. � Mas aceito sim. Vou adorar.
Ela soltou mais um daqueles belos sorrisos. Meu deus, ainda vou enfartar. Trocamos telefone e despedi-me dela. Fui fazer minhas compras feliz da vida. Tinha um encontro com ela. Tinha um encontro! Nem conseguia acreditar. Estava sonhando, tamanha felicidade que eu sentia. Foi a compra de supermercado mais deliciosa de fazer. Paguei por ela e fui pra casa cantarolando. Preparei uma refeição leve, tentei assistir um pouco de televisão, tomei um banho quente e fui dormir. Sonhei muito. E com a minha deusa de cabelos de fogo.
O dia seguinte foi normal, embora sempre corrido. Virou rotina ficar pensando em minha deusa. Quando percebia, já estava eu pensando nela. Cheguei em casa, fiz meu lanche e lembrei que não tinha tirado o lixo. Droga! Tinha que ter feito isso ontem mesmo, teria que fazer isso agora ou senão ia começar a feder. Credo. Abro a porta para levá-lo para fora e quem eu vejo saindo do elevador. Ela! Ah, mais uma visão daquelas eu não agüento. Tô pirando de vez mesmo. Tô maluquinha, maluquinha. Mas ela continuava vindo em minha direção e fazia uma cara de espanto igual ou pior que a minha. A fitei com um olhar incrédulo e ao mesmo tempo surpreso. E a ouço falar:
- Marta! Você mora aqui? Perguntou com cara de toda assustada.
8)
Descobertas
- Mo... moro si... sim. Gaguejei. � E o que você faz aqui? Quis saber.
- Eu moro aqui também. Não acredito! E riu. � Somos vizinhas! Mas isso é maravilhoso. Falou me olhando com aqueles olhos que passei a amar.
- Foi você quem se mudou recentemente pra cá? Perguntei ainda não acreditando na sorte grande que eu tinha tirado.
Deixei o lixo num cantinho. Depois eu daria um jeito nele.
- Sim, me mudei tem três semanas. Respondeu. � Comprei este apartamento por causa da ótima localização.
- Sim, é muito boa mesmo. Quer entrar? Aceita tomar alguma coisa? Fui perguntando totalmente aturdida.
- Não minha querida, estou me sentindo um prego. Respondeu para minha total decepção. � Mas aceito em outra ocasião. Faço questão. Falou sorrindo. Um sorriso maravilhoso. Como ela é linda e é minha vizinha! Ainda não conseguia acreditar nisso. Eu estava completamente surpresa com o fato.
- Está bem. Quando quiser é só aparecer. E não precisa avisar. Falei sorrindo e dando carta branca a ela.
- Aparecerei sim. E deu uma gargalhada gostosa. Ri junto. � Até mais, Marta. Veio em minha direção e deu-me um beijo na bochecha, olhei para ela, sorri e retribui. Eu estava tremendo. Minha vontade era beijá-la na sua boca linda. Ela entrou em seu apartamento e eu fiquei ali, parada, igual a uma estátua, ainda não acreditando nisso. A minha deusa de cabelos de fogo, minha vizinha? Será que eu estou sonhando? Isso era bom demais. Não! Era maravilhoso. E eu tenho um encontro com ela no sábado. Meu deus, que felicidade a minha. Peguei o lixo e fui cantarolando até o depósito. Voltei pro apartamento, minha vontade era de pular, de gritar, de dizer pra todo mundo a minha alegria. Esta noite foi difícil dormir. Estava muito agitada.
Fui trabalhar no outro dia cantarolando. Quando cheguei no consultório, Carol me fitou com cara de �não to entendendo�. E falou:
- Nossa, que alegria! Pelo visto viu o passarinho verde hoje. Falou rindo e balançando a cabeça como quem diz: essa aí pirou de vez.
- Humm.... hoje nada me tira do sério, Carolzinha. Nada. Disse com um sorriso de orelha a orelha.
- Vixe, a coisa é mais séria do que pensei. E deu uma risada gostosa.
- É menina, acho que o cupido mandou uma flecha certeira no meu coração.
- É? E posso saber que é a felizarda? Perguntou querendo saber. Ah, Carol sabia que eu me envolvia com mulheres. Além de secretária passou a ser uma amiga, pois grande parte da minha decepção que tive com Amanda foi com ela que me amparava.
- Minha vizinha! Falei rindo.
- Sua vizinha? Como assim?
- Minha vizinha, que mora no outro apartamento no mesmo andar do meu prédio.
- Mas... não tem umas três semanas que foi ocupado esse apartamento? Você me comentou isso, disse Carol, me fitando espantada.
- Sim, e por incrível que pareça, só descobri ontem. Mas o restante da história você não sabe. Menina, deixa eu te contar. Espera aí. Meu paciente ainda não chegou? Perguntei pois tinha hora marcada naquele horário.
- Ligaram um pouquinho antes de você chegar. Não poderá vir agora, foi remarcado para tarde. Disse-me preocupada, pois sabia que eu �adorava� quando acontecia isso.
- Mas, que maravilha. Falei eufórica. Carol me fitou sem entender a minha alegria. Ela pensou que realmente a �flechada� do cupido era séria mesma, para eu nem me importar com a desistência. � Então tenho tempo para te contar tudinho. Falei feliz da vida.
E então contei tudo, sem omitir nada, inclusive do encontro marcado para sábado. Ela riu, mas riu muito das minhas trapalhadas. Carol estava comigo desde que abri o consultório, era casada e tinha dois filhos. Quando contei-lhe sobre minha preferência pelas mulheres ela me olhou com aqueles olhos bem arregalados e disse: Você é muito feminina para ser isso. Como pode? Sempre imaginei que as lésbicas se vestissem e se portassem como homem. Aí tive que explicar pra ela que não, que cada uma adotava o estilo que lhe agradava mais. E que o jeito dela pensar era puro estereótipo. Quando terminei de contar, ela me perguntou:
- Mas, Dra. Marta, esta mulher também é como você? Perguntou preocupada.
- Não sei, Carol. Se não for, vou sofrer muito. E nem mesmo sei se ela tem namorado ou namorada. Falei de repente sentindo uma tristeza imensa, contrastando com a minha outrora alegria.
- Bom, espero sinceramente que ela seja. Quero ver você feliz de novo. Chega de ficar triste pelos cantos por causa daquela ingrata da Amanda. Me falou olhando para minha carinha tristinha. � Acabou de chegar seu próximo paciente. Comunicou-me.
- Vou atendê-lo então. Mande-o entrar, por favor.
9)
Joanna
Joanna estava
em seu apartamento, com o controle remoto na mão, zapeando os canais,
mas com o pensamento longe. Já era sexta-feira e não tinha mais
visto a Marta. Estava pensando: Será que se eu aparecer ali, no apartamento
dela, de repente ela vai gostar? Estou com uma vontade imensa de falar com ela.
Estranho isso! Já tive e tenho várias amigas, mas nunca senti
essa necessidade de querer ficar junto o tempo todo. Estou contando os minutos
para sairmos juntas amanhã. Este fim de semana o Júlio estará
de plantão. Por isso a convidei. Vou estar com o fim de semana livre.
Ainda não tinha decidido qual filme assistir, mas isso decidiríamos
na hora, nem sei o que está
Ri da idéia que tive. Por que não? A convidaria para passearmos juntas no Parque Bacacheri no domingo de manhã. Sempre gostava de caminhar por lá. Este foi um dos motivos da escolha deste apartamento. Ficava a duas quadras do parque, que não era tão grande. Tinha um lago onde patinhos nadavam felizes. Era muito gostoso passear por ali. Era ótimo para fazer caminhadas. Quem sabe não poderiam combinar de todo domingo de manhã caminharem juntas. Imaginou só? Arrumando uma companhia para as minhas caminhadas, já que o Júlio odiava isso. Bom, espero que ela goste da idéia. Não custa perguntar, e o máximo que eu posso ouvir é um belo �não�.
Bom, ela me convidou para tomar alguma coisa no apartamento dela, e disse que poderia aparecer sem avisar, então vou fazer isso mesmo. Assim conversamos um pouco, já que estou tão doida para falar com ela. É tão bom isso. Sinto como se a conhecesse há vários anos. Espero que ela também sinta a mesma coisa, porque não quero ser uma pessoa chata querendo impor a minha presença. Vou lá. Levantou-se e foi para o apartamento de Marta. Parou em frente à porta e sentiu o coração batendo forte e um frio na barriga. Estranho isso. Estou me sentindo como uma adolescente quando se apaixona pela primeira vez. Riu desse pensamento maluco. Totalmente maluco. Tocou a campainha. Será que ela está em casa? Se perguntou. Nesse instante a porta se abre e Marta, vestindo um shortinho e uma regata justinha ao corpo dá-lhe o maior sorriso. Ela tem um sorriso lindo. Pensou Joanna.
- O... oi. Tu.. tudo bem? Gagueja Joanna.
- Olá, estou ótima. Entre! Convidou Marta, que estava sem chão. Não esperava por esta surpresa. Mas tinha amado a visita. Estava trêmula. Preciso me controlar, ou vou dar bandeira pra ela. E não quero isso. Primeiro preciso sentir em qual terreno estou pisando. Preciso agir com cautela. Pensou.
- Eu estava passando por perto e pensei em te fazer uma visitinha. Brincou Joanna, rindo.
- A-há... resolveu aceitar meu convite para tomar alguma coisa. Fui dizendo e a convidando para irmos até a sala. Sentamos. E então disse: - O que prefere, um vinho, um suco, um café, um chá, água? Perguntei rindo.
- Hummm... tantas escolhas, mas aceito um suco.
- Tenho de laranja, uva e maracujá. Qual prefere? Perguntei olhando para ela. Ela estava bem descontraída. Sempre a via em seus terninhos. Estava de bermuda e uma camiseta, bem à vontade. Marta, desvie o olhar das pernas dela. Adverti-me. Não dê bandeira, mulher. Que é isso! Mas são pernas lindas, lisinhas.... ai que vontade de passar a mão e beijá-las.
- Aceito de maracujá. Dizem que é bom pros nervos. Disse e soltou uma gargalhada gostosa que preencheu todo o ambiente. Amava essa gargalhada. Meu Deus, estou apaixonada por essa mulher de cabelos de fogo. Quero-a pra mim, preciso dela.
- Já tá assim, é? Precisando acalmar os nervos. Comentei e ri também. Estávamos com os olhares presos. Um no outro. Quebrei o contato. � Vou buscá-lo. E dirigi-me a cozinha, tremendo por dentro.
Peguei os sucos, mas antes me recostei por alguns segundos na pia e fiquei pensando. Minha vontade era de ir até lá, abraçá-la e beijá-la, beijar cada milímetro daquele corpo maravilhoso, um beijinho em cada sardinha que ela tinha. Já tive várias mulheres, mas nunca senti por nenhuma esse fogo interno que me queimava. Essa coisa quase incontrolável de querer amá-la, querer passar a vida toda ao lado dela. Chega de pensar D. Marta, volte pra lá e aja naturalmente. Controle-se. Não faça nenhuma besteira. Pensando assim, voltei à sala. Entreguei o suco a ela e ela me brindou com mais um daqueles belos sorrisos que eu passei a amar.
- Espero que eu não esteja te atrapalhando, pois voc..... Ela falava.
- Não. Interrompi. - Estava vendo a programação maravilhosa que tem na tv. E ri. � E você não me atrapalha, e pode aparecer aqui sempre que te der vontade que eu vou adorar. Complementei.
- Ufa! Que bom. Ela falou. � Assim fico mais tranqüila, porque a ultima coisa que quero é te atrapalhar.
- Você jamais me atrapalha, Joanna. Disse e fiquei olhando para aquela boca carnuda, meu objeto do desejo. Linda!
- É o seguinte, estive pensando em te convidar para caminharmos no parque no domingo de manhã. O que você acha? Ela me perguntou. E estava olhando em meus olhos. Posso dizer que dessa vez ela me pegou de jeito. Sorri e respondi:
- Humm... adorei a idéia. Eu também gosto de caminhar lá. Sempre vou aos sábados e domingos. Aceito sim!
- Que bom, mas pena que aos sábados eu não possa ir em todos, pois trabalho um sábado sim e um sábado não.
- Então vamos naqueles que você possa ir. Sobreviverei aos que você não for. E dei um dos meus melhores sorrisos.
- Combinado, parceira de caminhada. Disse Joanna.
Conversamos sobre um monte de coisas, a conversa fluía, e ríamos muito. Eu constantemente me repreendia pois quando percebia já a estava �comendo� com os olhos. A necessidade que eu tinha de sentir seu beijo, seu gosto me assustava. Estava lidando com algo muito forte. Um sentimento que nunca senti, avassalador. Quando ela foi embora, nos despedimos com um abraço e senti vontade de nunca mais largá-la. Ela me deu um carinhoso beijo na bochecha. A minha vontade era de virar o rosto e receber o beijo na boca. Nunca tive de me controlar tanto com uma mulher. Compreendi o que estava sentindo. Era amor! Eu amava aquela mulher! Precisava dela para viver. Estava perdida, pois não sabia o que ela sentia por mim.
10)
Emoções fortes
Sábado.
Enfim chegou o momento de irmos ao tão esperado encontro. O cinema! Resolvemos
ir com o carro de Joanna, e seguimos em direção ao Shopping Estação.
Pegaríamos a sessão das dezoito horas e depois passearíamos
um pouco no shopping e iríamos para um restaurante italiano
Chegamos e fomos direto ao cinema. Estávamos vendo as opções que estavam passando. O filme daquele bruxinho famoso, um desenho infantil, um filme de ação com um monte de socos e tiros e um filme de terror. Muito animador! Pensei irônica. Não tinha nada romântico.
- E então, qual filme vamos ver? Perguntei a Joanna.
- Humm.. não sei. Estava pensando numa coisa meio maluca. Confidenciou.
- É. E o que é? Perguntei extremamente curiosa.
- Você gosta de terror? Me perguntou fazendo uma carinha franzindo o narizinho. Amei essa carinha.
- É... não tenho medo, se é o que você quer saber. Eu chego a rir de algumas coisas, tamanha babaquice. Respondi sorrindo e olhando em seus olhos verdes. Me perdia nesse olhar.
- Então o que você acha de assistirmos este?
- O de terror? Pra mim sem problemas. Ri. - Mas e você? Gosta? Perguntei curiosíssima.
- Se você
não se incomodar de eu dar alguns berros de vez
Rindo fomos comprar o ingresso. Entramos e escolhemos um lugar mais atrás para assistirmos o filme de terror. Depois de alguns minutos começa o filme. No início tudo tranqüilo. Primeiro susto! Aparecem espectros de pessoas mortas, os temíveis fantasmas. A Joanna dá um pulo na poltrona e se agarra em meu braço, tamanho pavor que ela estava sentindo. Fiquei preocupada com a reação dela. Não imaginava que tivesse tanto medo. Perguntei se queria sair e me disse categoricamente que não. Que era assim que ela assistia esses filmes, que se assustava mas tudo ficaria bem depois. Não vou negar que adorei o fato dela se agarrar em mim e isso foi uma constante durante o filme todo. Tinha que ter nervos de aço pra não agarrar essa mulher e beijá-la ali, naquele cinema. A cada susto ela me agarrava, me abraçava e eu ria, ria muito da reação dela. Ela chegou a fazer de conta que estava braba comigo. Num determinado momento do filme, ela deu um berro, mas foi um grito tão forte que acho que o cinema inteiro se assustou e ela enfiou a cara em meu pescoço. Aquilo foi demais pra mim, abracei-a com todo carinho que eu sentia e suavemente ela foi tirando o rosto do meu pescoço, ficamos nos olhando, ambas perdidas no olhar da outra, eu sentia a respiração dela, estávamos com o rosto a pouquíssimos milímetros de distância. Um leve movimento e eu beijaria aquela boca convidativa, feita para o amor. Foram poucos segundos. Estava me controlando herculeamente para não beijá-la, quando sinto ela se afastar bruscamente.
- Me... me de... desculpe pelo susto. Esse foi grande mesmo! Joanna falou tentando rir.
- Tudo bem. Ainda bem que eu estou aqui. Já imaginou se você agarra um estranho. Falei rindo tentando quebrar o estresse gerado pelo momento do quase beijo.
Continuamos vendo e filme e teve mais alguns gritos e era automático, ela se assustava e me agarrava. Acho que ela não conseguia controlar o pavor que estava sentindo. Acho que vou querer ver mais filmes de terror com ela. Adorei a companhia dela, e claro, sem dúvida nenhuma, adorei ser agarrada durante o filme inteiro. Nunca tinha tido essa experiência, mas podem apostar, eu adorei!
Saímos do cinema rindo, claro que eu estava tirando uma com a cara dela. Não perderia esta oportunidade de implicar com ela. Mas ela reagiu bem e chegou a ficar vermelha de vergonha em alguns momentos. Nada pagaria por aquele momento que eu estava passando com ela. Eu estava inebriada com a companhia dela. Sentia-me livre, espontânea, mas obviamente não podia deixar esta espontaneidade extrapolar para a vontade que eu tinha de beijá-la. Passeamos um pouco pelo shopping, vimos algumas vitrines, descobrimos alguns gostos em comum e resolvemos ir ao restaurante.
Decidimos ir ao famoso restaurante Madalosso, no bairro Santa Felicidade. Um restaurante cujo lema é �o pecado é não comer bem�. É um restaurante imenso, com estrutura para atender mais de 4.600 pessoas, sua arquitetura lembra um castelo medieval, composto por dez salões finamente decorados e interligados por corredores, formando um verdadeiro complexo gastronômico, mas apesar de todo esse tamanho tem um ambiente acolhedor. Vir a Curitiba e não conhecê-lo é uma falta gravíssima. Deixei que Joanna escolhesse em qual salão iríamos jantar. Já à mesa e com os pedidos devidamente feitos, Joanna comenta:
- Sempre venho aqui com o Júlio.
11)
Decepções e revelações
Senti um soco no estômago ao ouvir o que Joanna acabara de dizer.
- Júlio? Quem é Júlio? Disparei a pergunta sem pensar.
- Oh, não te falei. Júlio é o meu namorado. Falou-me sorrindo.
E nesse exato momento minha felicidade acabava de morrer. Senti-me sufocar, faltava-me o ar. Eu sou muito boba mesmo, desde quando uma mulher linda desta vai estar sozinha... e o que é pior, ela é hétero. Esta confirmação me destruía a alma. Nunca teria uma chance com ela. Não tinha nem como tentar lutar. Já era guerra perdida. Queria sumir, fugir dali. Mas não podia, teria que fingir uma alegria que eu não estava sentindo. Não poderia deixar ela perceber a minha decepção, afinal ela não fez nada para eu me apaixonar por ela, simplesmente aconteceu.
- E vocês vem muito aqui? Perguntei, tentando não demonstrar a minha imensa tristeza.
- Sim, nós já jantamos em todos os dez salões. Falou feliz. � Júlio adora vir aqui. E a cozinha italiana é a minha perdição.
- É mesmo? Pois é a minha também, mas também sou louca por comida chinesa. Amo as duas. Falei um pouco mais conformada com a situação. Se é que eu poderia me conformar com isso.
- Hummm... da próxima vez poderíamos ir a um restaurante chinês. O que você acha?
0 que ela queria? Me dar falsas esperanças? Eu teria que começar a me afastar dela, pois percebi que sofreria muito se continuasse a levar adiante esta amizade. Mas como fazer isso? Só de pensar já me doía o peito. Teria que pensar numa maneira, mas não agora.
- Legal. Acho legal. Disse tentando dar um sorriso. � Vocês namoram há quanto tempo? Perguntei, já que estou na chuva é pra me molhar mesmo. Estou curiosa de saber como é o relacionamento deles.
- Namoramos há dois anos. Mas estou sentindo nossa relação desgastada. Disse demonstrando uma certa tristeza.
- Por que acha isso? Perguntei mais curiosa do que nunca.
- Ele não é tão carinhoso quanto antes, eu o estou sentindo meio distante. Cheguei até a cogitar a hipótese dele ter arrumado outra. Confidenciou para mim.
- Você o ama? A resposta desta pergunta era vital para mim.
- Acho que sim.
- Acha?!? Não tem certeza? Perguntei começando a gostar daquela conversa.
- Nestes últimos três meses comecei a não ter tanta certeza assim se eu o amo. Quero acreditar que o amo, mas não estou feliz. É como se faltasse algo que me fizesse mais feliz. Confessou com uma tristeza estampada naqueles olhos verdes que eu tanto amava.
Gostaria que ela realmente fosse feliz. Mas sou egoísta, queria que ela fosse feliz ao meu lado. Horrível isso. Mas no amor e na guerra vale tudo. Passei a ter esperanças de conquistar aquela mulher. Só não sabia ainda o que ela pensava de uma relação homossexual. Se era homofóbica ou não. Tenho que ir com calma, pois posso por tudo a perder.
- Já conversou com ele a respeito? Perguntei interessadíssima no papo. Nesse instante chegam nossos pedidos. Nos servimos e ela responde:
- Uma vez tentei, mas ele desconversou e fico com receio de tocar no assunto de novo. Sei que homens não gostam de discutir a relação. Disse dando um leve sorriso.
- É verdade, mas você não pode ficar nessa situação. Tem que tomar uma atitude. Aconselhei-a.
- É, mas chega de falar de mim. E você? Sei que não tem namorado. Mas tem alguém em vista? Joanna me perguntou sorrindo.
- Tenho,
tenho você
- Está há muito tempo sozinha? Joanna quis saber.
Senti-me um pouco desconfortável com a pergunta, pois não queria mentiras em nossa amizade. Decidi que iria correr o risco de uma possível rejeição, mas diria a ela a verdade. E assim descobriria qual seria a reação dela.
- Estou sozinha há seis meses. ELA me traiu. Disse temendo a reação dela e já me arrependendo de ter falado.
- Ela? Como assim? Perguntou Joanna perplexa. � Você é....
- Sim, Joanna, sou lésbica. Desculpe te dizer assim, mas preferi que você soubesse. Eu não tenho porque me esconder. Disse temendo que a recente amizade acabasse nesse instante.
- Uau... posso dizer que você me surpreendeu. Jamais imaginaria que você fosse. Você é tão feminina Marta. Como pode isso?
- Puro estereótipo Joanna, as pessoas pensam que as lésbicas são só aquelas que se vestem como homens e se portam como tal. Mas não, somos femininas sim, somos mulheres acima de tudo. Expliquei a ela.
- Poxa, obrigada por me dizer. Não deve ser fácil se assumir assim. Comentou me olhando nos olhos.
- Não, não é, e confesso que fiquei com receio da sua reação. Achei que você iria se levantar e ir embora correndo e que nunca mais iria me querer ver na sua frente. Falei rindo e ela riu também.
- Olha, me assustei, porque não imaginava. Mas jamais faria isso. Embora eu não consigo entender o... o tipo de ... de relacionamento que tem duas mulheres, não significa que eu vá te desprezar. Falou e senti um imenso alívio.
A noite transcorreu sem maiores surpresas. Terminamos nosso jantar e fomos para casa. Eu na minha e ela na dela. Gostaria que fosse diferente. Mas não é. Combinamos de caminhar no parque amanhã cedo. Será ótimo. Pelo menos nossa amizade estava começando da forma mais sincera possível. Não tinha porque eu me esconder dela. Nunca fiz segredo da minha homossexualidade. E não começaria a fazer agora.
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Joanna estava
deitada em sua cama e estava pensando
12)
Constatações
Dois meses se passaram e nossa amizade continuava cada vez mais sólida. Saíamos juntas para quase tudo. Nos divertíamos a beça. Claro que eu tinha que dividi-la com o tal do Júlio. Que pretensão a minha, né! Achando que a mulher é minha, ah... mas como eu gostaria que fosse. Eu estava feliz, mesmo assim.
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Domingo. Dezesseis horas. Joanna estava com Júlio em seu apartamento. Combinam de ir ao cinema. Ele quer assistir um daqueles filmes de lutas e tiroteios. Ele nunca topou assistir algo romântico comigo. Diz que é água com açúcar, que não dá emoção. Pois eu prefiro essa água com açúcar a ver todo aquele sangue escorrendo pela tela. Adorava ir ao cinema com a Marta. Assistíamos de tudo e nos divertíamos. O mais divertido eram os filmes de terror. Passei a gostar de assistir esse tipo de filme com ela. Adorava agarrá-la. Nunca mais ocorreu nenhum episódio como o quase beijo, mas passei a desejá-lo que ocorresse, e se acontecesse a beijaria com certeza. Alias, eu estava adorando muita coisa ultimamente e tudo relacionado com Marta. Começava a me preocupar com esses pensamentos. Esta noite fantasiei estar transando com a Marta quando estava com o Júlio, senti-me mais receptiva, o orgasmo veio e fácil. Não tive que fingir. Mas estava preocupada com isso. Mas deixe quieto. Fomos ao cinema.
Acabamos de ver o filme, não via a hora que acabasse. Estava entediada. Não sentia mais prazer com a companhia de Júlio. Lembrei-me de Marta o tempo todo. Sentia falta da companhia dela. Comemos alguma coisa na praça de alimentação do shopping e retornamos para o meu apartamento. Domingo chato. O próximo vai ser mais divertido, pois sairei com a Marta. Marta. Marta. Pare de pensar nela! Chegamos no apartamento e Júlio foi me agarrando.
- Não amor, agora não! Disse enfática.
- Como não Joanna, tô aqui cheio de vontade, vamos aproveitar, pois não vamos nos ver no próximo fim de semana. Estarei de plantão. Disse com um jeito todo sacana.
Deixei-me ser abraçada e beijada por ele. Começou a acariciar meu corpo e foi me levando para o quarto. Não queria ser tocada por ele. Senti repulsa. O empurrei para longe. Ele me olhou perplexo.
- O que você tem Joanna? Não quer seu homem? Falou já alterado.
- Não, eu não quero fazer isso agora. Disse também alterada. - É melhor você ir embora. Falei. Não olhei para ele.
Ele se levantou bravo, falou alguns palavrões e saiu porta afora. Deixei-me cair na cama e comecei a chorar. Chorava copiosamente. Não entendia o que se passava comigo. Quando ele me abraçou e me beijou quis que fosse Marta. Tenho de parar de pensar nela. Tenho que me esforçar. Tenho que passar a evitar a presença dela. Mas eu adoro tanto estar com ela. Oh, meu deus!
Passado algum tempo, levantei-me da cama e fui para a sala. Percebi que Júlio havia esquecido o seu celular. Mais essa agora. Já estava muito tarde. Decidi que amanhã cedo eu o levaria até o consultório dele. E pediria desculpas pelo meu comportamento de hoje.
Segunda. Seis e meia. Levantei-me mais cedo para passar no consultório do Júlio e deixar o celular dele lá. Não avisei que iria. Avisei no meu trabalho que chegaria mais tarde, então poderia demorar o tempo que eu quisesse. Entro no consultório e a secretária não está. Não tinha nenhum paciente aguardando por ele. Resolvo entrar na sala dele. Chego perto e ouço gemidos. Coloco a mão na maçaneta e abro bem devagarzinho a porta e o que vejo me deixa estupefata: Júlio transando com a secretária. Senti nojo ao ver aquilo. O homem que eu dizia amar e que dizia também me amar estava me traindo. Quantas vezes já teria transado com ela? Com quantas já teria me traído? Perguntas sem respostas. Mas não me interessavam as respostas. Senti um ódio imenso. Atirei o celular dele contra a parede espatifando-o. Fizera um barulho imenso. Júlio se vira assustado e me vê. Olho para ele com ódio no olhar. A secretária corre para o banheiro e fecha a porta. Gritei:
- É assim que me ama? Seu cafajeste!
- Joanna?!? Calma... eu.. posso explicar.
- Explicar? Explicar o quê seu calhorda. Eu vi, não há nada para explicar. Estava transtornada.
Empurrei a cadeira pra cima dele. Ele correu para o outro lado da sala. Estava sem as calças. Seria cômico não fosse a situação que se apresentava.
- Pára meu amor....
- Amor? Você ainda tem a coragem de me chamar de amor. Gritei. Estava enlouquecida. � Há quanto tempo você me trai com ela, seu desgraçado? Vai, diz. Ficou mudo?
- Joanna...
- Era por isso, não é? Era por isso que você estava tão diferente comigo e isso já tem alguns meses. Falei irada e constatei que a traição já existia há alguns meses, pelo menos. � Júlio, faça-me um favor. Não me procure nunca mais. Acabou! Sentenciei e caminhei para a porta para ir embora. Ainda o ouvi chamar meu nome algumas vezes. Não queria mais saber dele.
Saí do consultório dele pisando duro, a raiva era tanta que eu era capaz de matar alguém só com meu olhar. Que ódio! Estava transtornada com a traição. Nosso relacionamento não estava nenhuma maravilha, cheguei a pensar em traição, me senti culpada quando pensei nessa possibilidade. É, mas eu estava certa quando pensei isso. Precisava de um tempo pra arejar a cabeça. Liguei para a minha secretária e avisei que tinha ocorrido um imprevisto e que estaria lá somente na parte da tarde. Pensei em Marta! Sorri, ela me aquece o coração. É tão prazeroso estar com ela. Tinha jurado me afastar dela, mas estou precisando da companhia dela. Preciso ouvir sua voz, olhar para seus olhos azuis que me dão tanta paz. Eram oito e meia ainda. Vou convidá-la para almoçar comigo, preciso conversar com ela. Sorri ao ter essa idéia. Liguei para o consultório dela e combinamos de almoçar, passaria lá para pegá-la. Resolvi voltar para o apartamento. Quando desse a hora veria a minha querida amiga.
13)
Dando um tempo
Passei no consultório e peguei Marta para almoçarmos. Fomos a um restaurante com comida a quilo mesmo. Sentamos à mesa e ela notou que eu não estava bem. Foi logo perguntando:
- Joanna, aconteceu alguma coisa? Você está abatida. Perguntou demonstrando sua preocupação comigo.
- Flagrei o Júlio transando com a secretária dele. Respondi triste.
- O quê?! Como foi isso? Perguntou perplexa.
Contei todo o ocorrido, cheguei a chorar em alguns momentos. Marta me consolou. Mas quando contei que ele estava tentando se explicar e que estava sem as calças, ela caiu numa gargalhada gostosa e eu acabei rindo também. Foi hilário mesmo.
- Terminei com ele. Disse para Marta.
- Fez bem. Sei como é duro ser traída. Flagrar a pessoa amada com outra é muito duro. A gente quer sumir do mundo, mas depois descobrimos que foi melhor assim, é melhor do que continuar sendo enganada. Disse me olhando com aqueles olhos azuis que eu aprendi a adorar.
- É, mas me sinto meio perdida. Falei e fiquei encarando Marta. Estava com uma vontade imensa de abraçar ela.
Senti um frio percorrer minha espinha. Joanna me encarou de uma forma diferente, intensa. Nunca tinha me olhado desta forma. Seus olhos verdes estavam fixos no meu. Quebrei o contato. De repente a fila do self-service passou a me interessar. Tive uma idéia. Não custa tentar. O máximo que ela pode dizer é que não quer.
- Joanna, o que você acha de irmos a um hotel fazenda neste fim de semana? Propus.
- Hummm... ótima idéia. Você já tem idéia de algum?
- Sim, tem um que eu vou sempre. Na realidade vou pra lá desde criança, quando era apenas uma fazenda. É de uns amigos meus. Fica a duas horas de viagem daqui. E então, topas mesmo?
- Topo sim. E quando saímos?
- Que tal na sexta à noite mesmo? Aproveitaríamos melhor o final de semana. Falei e resolvi saber uma coisa. � Você se importaria de ficar na mesma cabana comigo?
- Ora, Marta. Por que eu me importaria? Perguntou parecendo ofendida.
- Desculpe eu perguntar. Mas, é só pra saber. Não quero que pense que estou querendo forçar alguma coisa. Só isso. Expliquei.
- Sem problemas, até porque você não me faria nada de mal. Me olhou zombeteira e completou. � Ou faria? E Caiu na gargalhada. Ri também.
- Não, jamais faria algo que você não quisesse, sua boba.
Continuamos conversando e quando terminamos o almoço resolvemos dar uma caminhada pelas ruas. Vimos algumas vitrines. Quando andávamos, Joanna esbarrava seu braço no meu algumas vezes. Era como se eu levasse pequenos choques. Eu me sentia molhada apenas com este contato. Ansiava por ter um contato maior com ela. Mas sabia que isto era impossível. Mesmo agora que ela estava sozinha. Não mudava nada para mim. Daqui a pouco ela arrumaria outro namorado e eu continuaria sublimando este amor. Sem nenhuma chance de ser consumado. Ela me levou de volta para o consultório e fiz uma ligação para o hotel fazenda. Quem atendeu foi o Jeremias.
- Oi, Jeremias, sou eu, a Marta.
- Oi, minha querida. Estamos com saudades de você. Quando você vai aparecer por aqui? Perguntou feliz.
- Que tal nesse fim de semana?
- Maravilha!! Disse feliz da vida.
- Dessa vez tem uma condição. Falei. � Quero ficar em uma cabana, pois estarei levando mais uma pessoa comigo.
- Você sabe que você não fica nas cabanas, Marta! Comentou fingindo aborrecimento.
- Sei, mas desta vez precisa ser assim. Conto contigo amigo.
- Bom, se é assim, seu desejo é uma ordem. Disse rindo. � Quer ficar na cabana flutuante? Perguntou me enchendo o saco, pois sabia que eu não ficaria nela nem que me pagassem.
- Não seu bobo. Sabe que eu não gosto destas cabanas. Quero uma firme e bem plantada no chão. Falei fingindo indignação.
- Quando você chega?
- Sexta à noite, perto das nove horas. Respondi sorrindo, pensando em como será maravilhoso estar no meu paraíso com a mulher que amo.
- Perfeito, madame. Estaremos aguardando a senhorita chegar com sua comitiva real. Falou brincando. Ri da brincadeira dele.
Despedi-me de Jeremias e fiquei pensando no que poderíamos fazer no hotel. Um fim de semana inteiro com ela ao meu lado. Era bom demais para ser verdade. Lembrei do olhar que ela me deu no restaurante. Tremi só de pensar. Foi tão intenso. Senti uma umidade brotar entre as minhas pernas. Que poder ela tinha comigo. Deixava-me excitada com apenas um olhar. Nunca tive que me controlar tanto com uma mulher ao meu lado. E não quero me iludir pensando em ter esperanças com ela.
14)
Tentação irresistível
A semana transcorreu lentamente. A impressão é que sexta-feira à noite não chegaria nunca. Engraçado isso, quando queremos tanto algo, contamos os minutos, não, contamos os segundos para que chegue o momento desejado. Bobeira, porque o tempo é inexorável. Não é mais nem menos, apenas ele. Mas não queria saber disso, queria é que chegasse logo o momento de estar sozinha com minha deusa de cabelos de fogo. Gostaria que ela se apaixonasse por mim, sofro com isso, pois sei não ser possível. Essa constatação é por demais cruel. Isso me despedaça o coração. Infelizmente tenho de contentar-me apenas com sua amizade. Pelo menos posso ficar perto dela, olhar com amor seus olhos, admirar aquela boca suculenta, realizar-me com os constantes abraços que ela me dá, e que eu os recebo com imenso prazer. Beijar suas bochechas rosadas e sardentas. Perder-me naquele olhar verde, onde constantemente me afogo neles. Chega de pensar, isso não me leva a nada! Vamos à ação!
Finalmente o momento de irmos chegou. Resolvemos ir no meu carro, era mais espaçoso. Ri dela, parecia que ia ficar um mês fora pelo tamanho de sua bagagem. Ela fingiu ficar brava comigo e nesse clima de descontração seguimos em direção ao hotel fazenda. Foi uma viagem tranqüila. Engraçado como sempre temos assunto para conversar. A conversa flui com imensa facilidade. Isso me lembra algo que ouvi uma vez: �Se for casar, case-se com alguém com quem converse muito, pois quando acabar o fogo, ainda assim restará uma boa conversa.� Chegamos.
- Boa noite, Jeremias. Disse para meu velho amigo.
- Boa noite, Marta. Saudades de você minha querida. Veio até mim e deu um abraço e um beijo na bochecha.
- Deixa eu te apresentar. Esta é Joanna, minha amiga. Joanna, este é Jeremias, meu amigão dos tempos de infância. Após as apresentações se cumprimentaram e nisso chega Fabiana, que vem correndo me abraçar.
- Saudades de você, Martinha! Que bom que você veio. Continuei em seu abraço e olhei para Joanna.
- Saudades de você também, Fabi. Quero apresentá-la à Joanna, minha amiga e vizinha. Quando disse a palavra �vizinha�, Fabiana entendeu na hora quem era aquela mulher que estava comigo. E me deu uma olhada sacana. Segurei-me para não rir.
- Prazer em conhecê-la, Joanna. Martinha me fala muito de você. Falou sorrindo e deu um abraço em Joanna e eu quase dei um peteleco nela por dizer isso. Precisava dizer que eu falo de Joanna pra ela. Desse jeito ela me entregaria de bandeja.
- Igualmente, Fabiana. Respondeu Joanna.
- E D. Helena, onde está? Perguntei para Fabiana.
- Deu uma saída. Foi jantar num restaurante na cidade com as amigas dela.
- Que bom. E D. Isabel? Quis saber.
- Tá na cozinha, sabia que fui lá hoje e ela estava fazendo em certo bolo de cenoura com cobertura de chocolate? E toda feliz da vida. Me disse rindo.
- Humm... amo essa mulher. Me pegou de jeito pelo estômago. Dei uma gargalhada.
- Sim, ela pega todas nós.
Continuamos conversando por mais um tempo. Peguei a chave da cabana com Jeremias e estacionei o carro na garagem da cabana. Retiramos nossa bagagem e comentei com Joanna:
- Sabia que essa é a primeira vez que fico em uma dessas cabanas.
- Sério? Não, você ta brincando. Disse rindo.
- Não tô brincando não, é sério. Posso dizer que tenho um quarto cativo na casa grande. Sempre quis ficar nas cabanas depois que elas foram construídas, mas nunca deixaram. Entramos nas cabanas e Joanna foi comentando:
- Uau, adorei isto aqui. Toda equipada. Dá pra morar aqui. Falou demonstrando uma genuína alegria. Parecia uma criança feliz. E me olhava com aqueles olhos lindos. Ainda morro disso!
- É equipada mesmo. Vamos deixar as malas aqui e vamos saborear o café colonial daqui e aquele maravilhoso bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Falei sorrindo. � Tem problemas com a balança? Perguntei e nem a deixei responder. Continuei. � Se não, vai passar a ter. E soltei uma gargalhada que foi acompanhada por ela. Fomos até o restaurante e comemos de tudo, parecíamos criança fazendo arte. Notei que Fabiana nos observava de longe. Não consegui interpretar seu olhar. Parecia preocupada.
Eu dormi no beliche e ela na cama de casal, isso depois de muitas discussões porque ela queria dormir no beliche. Chegou a brincar de dormirmos juntas na cama de casal. Fiquei petrificada quando ela falou isso. Sabia ser brincadeira, mas mesmo assim a idéia mexeu comigo. Acho que não conseguiria dormir. Melhor o beliche mesmo. Pensei sorrindo.
Passamos o sábado todo nos divertindo. Passeamos a cavalo, fizemos uma das trilhas, levei-a até a minha favorita. Ficou encantada com a beleza do lugar e escandalizada com a imensa escadaria. Disse que na volta eu iria trazê-la no colo, porque se recusava a subir 116 degraus. Respondi que pra isso ela teria que fazer um regime. Quase me bateu. Mas adorei a brincadeira. Descansamos bastante após o almoço e quando o sol esfriou um pouco fomos à piscina. Verdadeiro teste de nervos. E acho que reprovei com louvor, pois não conseguia tirar os olhos daquele corpo escultural. Ver seu corpo apenas com um biquíni foi demais pra mim. Eu estava literalmente babando, queixo caído. Volta e meia ela me flagrava olhando pra ela. E dava um imenso sorriso. Acho que ela está me provocando. Queria que isso fosse verdade. Ah, a esperança, dizem que é a última que morre. Então está fazendo jus à fama. Brincamos muito na piscina, ela tentou me afundar várias vezes e eu afundava ela também. Mas meu corpo estava plenamente consciente da proximidade. Era uma tortura gostosa. Existe tortura gostosa? Bom, de qualquer forma eu estava adorando aquilo. Esta era a primeira vez que tínhamos essa proximidade, essa cumplicidade. Estarmos juntas o tempo todo, confesso que não imaginava que seria tão bom quanto estava sendo. Ela não lembrou do imbecil do Júlio nenhuma vez. Eu acho, porque em momento algum vi tristeza nos olhos dela. Parecia estar superando bem esta fase da vida dela. Foi excelente a idéia de trazê-la para cá. Poderíamos repetir mais vezes. Sentia meu coração feliz, transbordando de felicidade. Não estava com ela da forma como queria, mas apenas estar compartilhando estes momentos com ela me bastava. Isso já me saciava. Já tinha me acostumado com a idéia de sublimar este amor. E assim passou o sábado, cheio de emoções, ao menos para mim.
Domingo de manhã. Fizemos mais uma trilha e retornamos cansadas para a cabana. Descansamos um pouco e fomos almoçar. Depois ficamos deitadas na rede conversando. Mais tarde fomos novamente para a piscina. Dessa vez botei os óculos escuros, chega de dar bandeira, e assim poderia observá-la melhor, fingir que estava dormindo enquanto eu a �comia� com os olhos. Retornamos à cabana e fomos arrumar nossas coisas. Voltar para a rotina. Estava tão bom ali, não queria que acabasse esse momento. Estava arrumando minha mala quando ela pega meu boné e diz que vai ficar com ele. Digo que não e começo a andar atrás dela para recuperá-lo e ela se esquiva de mim, até que em um momento agarro ela de frente e ela fica com os braços para trás segurando ele e dizendo que não, que não iria devolvê-lo para mim. Nesse instante não percebemos e estamos na frente da cama eu recuo um passo e perco o equilíbrio e caímos na cama. Ela cai sobre mim. Sinto o peso de seu corpo junto ao meu. Meu coração acelera, parecendo sair do peito. Nossas bocas ficam a milímetros de distância. Fico sem ação. Olho em seus olhos e seu olhar me prende. Ela cola a sua boca na minha e fecho os olhos. Parecia um sonho, não acreditava no que estava acontecendo. Capturo sua boca com vontade, num beijo quente, molhado e cheio de tesão. Nossas línguas se enroscam se acariciando. Abraço ela com mais força e subo uma das mãos até seus cabelos e afundo minha mão neles. Eram macios, como sonhei que seriam. Fiz tanto este gesto nos meus sonhos. E agora estava com aquela cabeleira de fogo entre meus dedos. Sua língua percorre minha boca me dando um prazer alucinado.
15)
Fuga
De repente Joanna sai de cima de mim e senta na cama e coloca as mãos na cabeça, numa atitude clara de desespero. Que pena que acabou, agora que senti o gosto da sua boca, não saberei sobreviver sem ele. Ela fala sem me olhar:
- Eu.. eu... me.. me desculpe, eu... não sei o que me aconteceu. Gagueja nervosa.
Entendi que ela estava sem saber como agir, afinal acredito que este tenha sido seu primeiro beijo em uma mulher. O que levou ela a me beijar. Foi vontade? Desejo de saber como era? Se tivesse sido eu a dar o primeiro passo poderia dizer que tinha perdido a cabeça ou algo assim. Ela sabe que gosto de mulheres, mas e sendo ela a ter dado o primeiro passo. Como devo agir? Ela estava toda sem graça. Nervosa.
- Olha, não se preocupe. Aconteceu. Eu não quero que você fique assim, sem graça. Falei carinhosamente e olhei para ela. Ela me olhou envergonhada.
- Sinceramente, me desculpe. Eu...
- Pare de se desculpar. Interrompi ela. - Isso não é o fim do mundo. Foi apenas um beijo. E caraca... como você beija bem. Falei dando uma risada. Queria quebrar o estresse do momento.
- Pára tá, boba! Riu também. Fiquei aliviada. Tudo o que eu não queria era criar uma situação constrangedora com ela.
- Agora você pode devolver meu boné? Perguntei sorrindo e estendendo a mão para pegá-lo. Ela pegou ele e me jogou na cara dando uma gargalhada.
Terminamos de arrumar nossas coisas, botamos tudo no carro. Nos despedimos do pessoal e pegamos a estrada. Chegamos no condomínio e cada uma foi para o seu apartamento, pois estávamos cansadas e queríamos mais era uma cama para estender nossos esqueletos.
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Joanna tinha acabado de tomar um banho e comer alguma coisa. Estava deitada em sua cama. Não conseguia conciliar o sono. Estava agitada demais, tentando entender porque beijara Marta. Simplesmente fizera porque sentira uma imensa vontade de sentir aquela boca na sua. Desde o episódio do quase beijo do cinema essa vontade a atormentava. Quando percebeu, estava beijando Marta, nem teve tempo para pensar. Ela correspondeu e foi o beijo mais maravilhoso de toda a sua vida. Macios. Lábios macios. Jamais imaginara que os lábios de uma mulher fossem tão macios, tão suaves. Sentiu vontade de ir mais longe. De fazer amor com Marta. Por isso levantara bruscamente, se assustara com a idéia. Não curtia mulheres. Não estava entendendo porque agira daquela forma. Preocupou-se. Precisava parar com isso. Precisava acabar com esse desejo. Sim, desejo. Compreendia agora. Desejava Marta. Nunca desejara um homem tanto quanto desejava Marta. Precisaria se afastar da amiga. Seria doloroso, difícil, mas era o que precisava ser feito. Passaria a evitar as ligações dela, evitaria sair com ela. Precisava cortar isso antes que tomasse corpo. E começaria isso a partir de agora. Sabia que iria magoar Marta ao tomar esta atitude, mas era o que precisava fazer. Só assim poderia acabar com esses pensamentos absurdos. E tentar levar sua vida da maneira que julgava ser a correta.
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Já
era quarta-feira e comecei a estranhar, pois nos falávamos diariamente.
Resolvi ligar para Joanna, e sua secretária informou que ela estava ocupada
em uma reunião. Deixei recado. Estava feliz. Gostaria de saber por que
Joanna me beijara. Se curiosidade matasse, tava mortinha, mortinha. Lembrava-me
constantemente do beijo. E cada vez que isso acontecia meu corpo reagia como
se estivesse acontecendo naquele momento. Meu corpo ficava
Conversara com Fabiana na noite anterior. Ela me ligara. Dissera estar preocupada comigo, pois percebeu como eu estava envolvida com Joanna. Literalmente de quatro. Tinha receio de que eu sofresse. E que não queria que isso acontecesse. Perguntei se era tão evidente assim meu interesse por ela. Respondeu que sim, que até um cego veria meu amor por ela. Suspirei. Pena que Joanna não percebe. Quem eu gostaria que percebesse não vê. Lamentei.
Joanna não me ligara. Mesmo deixando recado. Será que ela estaria me evitando? Gelei com este pensamento. Isso seria a morte para mim. Quando nos despedimos no domingo à noite, parecia estar tudo bem. O estresse pelo beijo parecia ter sido superado.
Na quinta-feira
tentei novamente falar com ela, e novamente fui informada que ela estava
16)
Sucumbindo ao desejo
Resignada.
Era como eu me sentia. O final de semana se passara e nem sinal de vida de Joanna.
Pela primeira vez ela furou de caminhar comigo no parque. Liguei para seu apartamento
várias vezes e não fui atendida
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Eu estava com o coração partido. Evitar Marta estava lhe doendo muito. Sentia uma falta imensa da amiga. Chorava todos os dias de saudade. Moravam do lado, tão pertinho, mas ao mesmo tempo tão longe. Marta ligara inúmeras vezes, deixara recado, mas não retornara nenhuma ligação. Ligou também para seu apartamento várias vezes, via seu número no identificador de chamadas e não atendia. Estava evitando ela a todo custo. Nem fui ao parque no fim de semana pra não encontrá-la. Mas isto estava me matando. Não suportava mais tanta saudade. Mas não podia sucumbir ao desejo que estava me corroendo. Sua vontade era de bater na sua porta e agarrá-la, arrancar suas roupas e fazer amor com ela. Sonhava com isso. Mas não podia. Não gostava de mulheres. Não era lésbica. Agarrava-se a esse pensamento como se fosse vital para sobreviver. Não tinha estrutura para viver um relacionamento homossexual. Como lidaria com isso?
Vira Marta fazendo compras, senti uma vontade imensa de ir falar com ela. Controlei-me ao extremo para não ir até ela. Não estava mais suportando isso. Esta distância forçada. Imaginei como Marta deveria estar sofrendo também. E tudo por culpa minha. Senti remorso. Não queria fazer minha amiga sofrer. Mas estava. E estava sofrendo também. Resolvi que estabeleceria contanto novamente. Não agüentava essa separação. Veria Marta de vez em quando, não cortaria o contato como fizera. Iria até seu apartamento hoje à noite e pediria desculpas a ela. Senti-me mais aliviada com esta decisão. Seria o melhor a fazer.
Semana passada foi contratado um novo sub-gerente para auxiliar-me. Jorge era seu nome. Um homem muito simpático e bonito. Senti alguns olhares de cobiça dele. Sabia ser uma bela mulher e que atraía olhares masculinos. Talvez devesse partir para um novo relacionamento e tentar esquecer este desejo que sentia por Marta. Mas não queria me envolver tão cedo. Amadureceria esta idéia, quem sabe poderia me apaixonar por ele.
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Mais um dia se foi sem sentir. Tinha perdido a graça pelas coisas. Ainda bem que tinha meu trabalho, que amava. Tinha acabado de tomar um banho e me alimentado. Iria ver um pouco de tv, já que não estava com cabeça para encarar um livro. Pensava em Joanna todos os dias. Meu deus, que saudades. Só dava vontade de chorar. Tinha que parar com isso. Lembrei-me de um fato ocorrido hoje: Amanda, que estava sumida, aparecera. Fora no consultório para fazer uma profilaxia. Eu era sua dentista antes e pelo visto continuava sendo. Conversamos muito e ela disse que ainda me amava. E que queria tentar de novo. Cortei a idéia, pois eu não a amava mais. Disso tinha certeza. Disse então que queria manter uma amizade comigo, quanto a isso não me opus. Como a vida é irônica. Há nove meses antes eu ainda era apaixonada por ela. Agora, vem ela e diz que não me esqueceu. Eu, hein.
A campainha tocou. Não estava esperando ninguém. Quem poderia ser? Abri a porta e não acreditei no que estava vendo. Joanna, parada na minha porta, me encarando com aqueles olhos verdes que tive tanta saudade de olhar. Fiquei sem ação. Abri a boca para falar alguma coisa e no mesmo instante ela me agarrou e me deu um beijo. Abracei ela e correspondi ao beijo. Encostei a porta com uma das mãos e continuei a abraçá-la. Minhas mãos ganharam vida própria. Começaram a passear por aquelas costas. Subi uma das mãos e levei até sua nuca. Trouxe-a para mais perto de mim. Afundei minhas mãos em seus cabelos. Meu coração enlouqueceu, não sabia se batia ou se pulava fora, tamanha emoção. Interrompi o beijo e olhei em seus olhos. Ela me encarou e me sorriu. Retribuí o sorriso. E voltei a lhe beijar, mordisquei seus lábios, brinquei com sua língua e aprofundei o beijo. Puro tesão. Eu estava molhada. Passei a beijar seu pescoço, cheirei ele, queria guardar pra sempre na memória seu cheiro, voltei a beijar sua boca, minhas mãos entraram pela sua blusa acariciando a sua pele sedosa. Tirei sua blusa e na seqüência tirei a minha, eu estava sem sutiã. Ela olhou para meus seios com desejo. Puro desejo. Nenhuma palavra foi dita. Não era necessário. Peguei sua mão e a levei para o quarto. Tiramos o restante das roupas. Nuas. Completamente nuas. Nos abraçamos. Senti meu corpo pegar fogo... incontrolável. Nos beijamos loucamente, o desejo falava mais alto. Deitei ela na cama e fiquei por cima. Eu estava alucinada. Beijei seu pescoço, sua boca, seus olhos. Ela gemeu. Fui até seus seios. Água na boca. Abocanhei um deles como se fosse uma fruta madura. Suguei com delicadeza. Satisfeita fui até o outro. Ela não parava de gemer. A cada gemido dela sentia me queimar por dentro. Desci beijando sua barriga, segui até seu sexo. Passei suavemente um dedo. Ela gemeu. Molhada. Completamente. Novamente minha boca se encheu de água. Precisava sentir seu gosto. Eu tinha urgência. Ela me implorou e abriu suas pernas para que eu iniciasse a minha exploração. Passei a língua pelo seu sexo, sentindo seu cheiro, seu gosto. Delicioso. Brinquei com seu clitóris, ela enlouquecia, e passei a lambê-lo, sugá-lo com avidez, um néctar dos deuses. Penetrei minha língua nela e fiz movimentos de vai e vem. Ela gemeu mais ainda. Rebolou seus quadris e quase enlouqueci. Senti que ela estava para gozar e... parei. Ela me implorou para que eu continuasse, para não torturá-la mais, fui até ela e beijei sua boca, ela sentiu seu próprio gosto. Beijo delicioso. Acariciei sua língua com a minha, mordisquei seus lábios. Desci minha mão até seu sexo e fiz pequenos carinhos em seus pelos cor de fogo. Ela gritou desesperada para eu possuí-la. Encaixei meu sexo em sua coxa e suavemente penetrei dois dedos nela, massageei sua carne quente e molhada com pequenos movimentos de vai e vem. Meus dedos deslizavam suavemente dentro dela. Ela gemeu alto enlouquecida. Aumentei a intensidade do movimento e mais enlouquecida ela ficava. A cada gemido fui aumentando a intensidade dos movimentos do meu corpo e da minha mão, ela contorcia seu corpo, senti tremê-lo em meus braços, até explodirmos num gozo intenso, forte, completo, sublime. Senti-me completa. Não poderia mais viver sem minha deusa dos cabelos de fogo.
17)
Contradições
Fiquei com ela abraçada, com nossos corpos suados e saciados coladinhos. Jamais poderia imaginar que seria tão delicioso fazer amor com ela. Meus sonhos não chegavam nem aos pés da sensação que senti. Amava aquela mulher. Nos olhamos e novamente nos beijamos. Ela encosta a cabeça nos meus ombros e ficamos ali, sem dizer nenhuma palavra. Resolvi quebrar o silêncio.
- Por que você me ignorou esses dias todos? Precisava daquela resposta. � Sofri muito com isso.
Ela olha em meus olhos e responde: - Eu tinha medo. Medo do que eu estava sentindo por você.
- Ainda tem medo? Pergunto sapecando-lhe um beijo no nariz.
- Ainda não sei como lidar com isso. Isso é muito novo para mim. Responde. Não era a resposta que eu esperava ouvir. Gostaria de ter ouvido: �Não, não tenho mais medo�.
- Joanna, eu... eu estou apaixonada por você. Abri meu coração. Queria que ela soubesse disso.
Ela me dá um beijo, contorna meus lábios com sua língua. Foi o bastante para nos acendermos novamente. Mas desta vez ela se virou rapidamente e ficou por cima de mim. Adorei seu peso. Senti seu sexo encostar em mim, molhado, quente, quase enlouqueci com este pequeno contato. Ela sugou meus seios, passou a mão pelas minhas pernas, passou a mão pelo meu sexo. Soltei um gemido e abri as pernas pedindo um contato mais íntimo. Ela me judiava e não me penetrava. Ficou beijando todas as partes do meu corpo, me alucinando. Disse que queria ser dela. Implorei. Ela tornou a se deitar por cima de mim e me beijou, sua língua brincou com a minha, beijou meu pescoço, sua mão atrevida desceu novamente para meu sexo, acariciou-o e me penetrou com seus dedos. Senti seus dedos deslizarem dentro de mim. Loucura. Ela movimentou sua mão rapidamente, cada vez mais forte e senti um orgasmo incontrolável tomando conta do meu corpo. Relaxamos nossos corpos cansados e ficamos abraçadinhas. Dei um monte de beijinhos nas sardas do seu rosto. Ela riu. Continuamos abraçadas sentido os nossos corações batendo. Acabamos adormecendo. Tive um sono maravilhoso.
Acordei. Senti meu corpo relaxado. Estiquei o braço para o lado para tocar em Joanna, mas ... estava vazio. Ué, cadê ela? Levantei-me e a procurei pelo apartamento. Ela não estava. Olhei a hora, eram sete horas da manhã. Lembrei-me que tinha paciente às sete e meia. Caraca, estava atrasadíssima. Tomei um banho rápido, nem tive tempo de tomar o desjejum e saí apressada para o meu consultório. Estava com a agenda lotada hoje. Estava transbordando de felicidade. Na cara, um sorriso de orelha a orelha.
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Estava em meu escritório pensando nos acontecimentos ocorridos na última noite. Fui até o apartamento de Marta para conversar e continuar com a amizade. Mas, não consegui me controlar e acabou acontecendo o que secretamente desejava, fazer amor com Marta. Foi maravilhoso, uma experiência única. Não imaginava que uma mulher pudesse dar tanto prazer à outra. Jamais nenhum namorado meu proporcionara o prazer que senti. Jamais. Estava assustada com a intensidade dos meus sentimentos. Quando Marta abriu a porta, nem pensei e simplesmente meu corpo tomou conta da minha razão. Estava apreensiva com o rumo que isso estava tomando. Não poderia levar isso adiante. Ainda que sentisse desejo por Marta. Era uma loucura continuar com isso. Não poderia continuar. Tinha que parar por aqui. Precisaria ter uma conversa definitiva com ela. E que desta vez eu não perdesse a minha razão. Tomei uma decisão, liguei para Marta e combinamos de nos vermos no meu apartamento ainda hoje.
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Marta, antes transbordando de felicidade, agora estava apreensiva. Joanna se mostrara seca ao telefone. Queria conversar com ela ainda esta noite. Não estava pressentindo boa coisa. Será que se arrependerá? Meu deus, que agonia isso. Essa mulher vai acabar me deixando maluca. Faz uma coisa e depois muda de idéia. E eu como é que fico nessa história? Acabei passando o dia preocupada. Desesperada.
18)
Decepção
No horário combinado, fui ao apartamento de Joanna. Estava com o coração aos pulos, senti um imenso frio na barriga. Estava nervosa, não sabia o que Joanna queria conversar. Toquei a campainha. Ela abriu a porta. Deu-me um sorriso nervoso e disse:
- Olá Marta, entre.
Senti que a conversa não seria coisa boa. Não me cumprimentou nem com o tradicional abraço e o beijinho na bochecha. Essa conversa não seria fácil. Meu coração estava apertado.
- Oi Joanna.
Sentamos no sofá e ela me ofereceu uma bebida. Recusei, não queria nada, o que quer que ela queria me dizer iria descer a seco mesmo. Ela esfregou as mãos, passou a mão no cabelo. Gestos típicos de quem estava nervoso. Olhou para mim e começou a falar:
- Marta, eu chamei você aqui por que precisamos conversar sobre o que aconteceu na noite passada. Falou e continuava me olhando.
Saquei qual era a conversa. Iria me dispensar. � Sou toda ouvidos. Falei irônica. Mas com o coração pequenininho.
- O que... o que aconteceu ontem foi um erro. Não devia ter acontecido. Falou sem olhar para mim.
- Um erro?! Um erro, Joanna? Você queria tanto quanto eu. Não me pareceu um ERRO enquanto estávamos nos amando. Enfatizei a palavra �erro�.
- Mas não vai acontecer novamente. Falou.
- Qual é a sua, Joanna? Perguntei alterada. � Me dá um beijo e depois me dá um gelo. Bate na minha porta e se joga em meus braços e depois me bota pra escanteio. Levantei-me, estava irada. - O que você quer? Matar sua curiosidade, é isso? Saber se é bom transar com outra mulher? QUAL É A SUA, JOANNA? Falei gritando, estava transtornada, não conseguia acreditar naquilo. Se tivesse sido minha a iniciativa de fazermos amor, até entenderia que ela estivesse confusa, mas caraca, foi ela quem se jogou pra cima de mim, veio com tudo. Merda!
- Calma, Marta. Não grite, por favor.
- Calma, você me pede calma. Eu estou apaixonada por você. EU TE AMO! � Falei desesperada e já começando a chorar. Era demais pra mim. Não merecia isso. Ninguém merecia.
- Eu não posso corresponder a esse amor, não sou como você. Ela falou baixinho, quase não consegui ouvir.
- Preconceito. Achei que você não tivesse isso. Me enganei. É... mais uma porrada na minha vida. Mas não se preocupe, vou sumir da sua vida, já que te incomodo ser do jeito que sou. Não quero te incomodar. Falei e fui caminhando em direção à porta.
- Espere...
Segurei a maçaneta e abri a porta, virei-me para ela e disse olhando em seus olhos, ela chorava, eu também. � Estou saindo da sua vida, Joanna. Sinta-se livre de mim. Saí e bati a porta.
Entrei no meu apartamento, minha vontade era de chutar tudo, tamanha decepção estava sentindo. Parecia que eu tinha uma imensa mão apertando meu coração. Sentei em minha cama e apoiei a cabeça em minhas mãos. Chorei copiosamente. Meu coração estava ferido de morte. Não tinha mais vontade de nada. Nem com Amanda minha decepção tinha sido tão intensa. A dor era insuportável. Queria morrer. Não queria mais nada, apenas morrer. Minha vida acabava ali. Deixei meu corpo cair na cama e fiquei ali por horas, chorando, acabei adormecendo.
19)
A vida segue...
No final de semana seguinte fui ao hotel fazenda. Precisava conversar desesperadamente com Fabiana. Sabia que ela iria me puxar as orelhas, pois tinha me alertado dessa possibilidade, de Joanna me fazer sofrer. Mas o amor não tem razão. O pior de tudo era saber que a mulher que eu amava com toda a força do meu ser, morava ao meu lado, a poucos metros de distância. A possibilidade de um encontro no corredor era iminente. Não sei como reagiria se a visse novamente.
Chegando na fazenda, fui conversar com Fabiana, ela já estava sabendo por alto o que tinha acontecido, pois adiantei-lhe sobre o que queria falar com ela. Ficou super preocupada comigo. Queria vir a Curitiba, mas falei que não, que eu queria ir pra fazenda, precisava me distrair, repensar minha vida. Ela me deu um abraço de urso, daqueles que você se sente protegida. Caí em prantos, ela deixou-me ficar abraçada a ela por longos minutos. Após sentamos na varanda.
- Martinha, meu anjo, não queria nunca te ver assim. Disse me dando um sorriso.
- Eu sei, você me avisou... mas como saber se não acontecer. Falei tentando sorrir. Meus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar. Me senti um caco. Um caquinho humano.
- Você vai superar isso, Martinha. A vida bate forte, verga a gente, mas não quebra. Mas me conta o que aconteceu.
- Estou até agora tentando entender as atitudes dela. Quando estivemos aqui da última vez, aconteceu um beijo. Na cabana, numa brincadeira, ela caiu em cima de mim e me beijou. Depois me deu um gelo, ficamos dez dias sem nos falar. De repente ela bate em minha porta, abro e ela se joga em meus braços, me agarrando e me beijando. Fizemos amor à noite toda. Falei que estava apaixonada por ela. Fabiana me ouvia atentamente. Continuei. � Na noite seguinte ela queria falar comigo. Disse que foi um erro...
- Um erro! Puta que pariu! Xingou Fabiana.
- Pois é. Disse que foi um erro e que isso não aconteceria novamente. Aí eu me desesperei, disse que a amava e ela falou que não poderia corresponder ao meu amor porque não era como eu. Uma lágrima escorre em meu rosto, levo a mão até ela e a seco.
- Puta que pariu! Desculpe, Martinha, mas tive que xingar de novo. O que essa mulher quer? Perguntou pra mim.
- Gostaria de saber. Não tenho essa resposta. Tento entender, penso mil coisas, mas nunca chego a nenhuma conclusão. A única coisa que entendi é que ela tem preconceito com esse tipo de relacionamento. Com os outros tudo bem, mas com ela nem pensar.
- Putz, que mulher complicada essa. Quer, mas depois foge. Caraca. Minha amiga, você não merecia isso. Você a viu depois disso? Quis saber.
- Não, e nem quero. Melhor ficar longe. Disse que ia sair da vida dela. Que ela estaria livre de mim. Senti um nó no peito ao dizer isso. Outra lágrima escorre em meu rosto. Droga! Tinha que parar de chorar.
- Bom, não sei se estou certa, mas ela parece estar vivendo um dilema. Quer, cede, depois se arrepende e recua. Conjecturou Fabiana.
- Não sei se é isso. Para mim, parece que ela está se divertindo as minhas custas. Deve ter sido curiosidade. Saber como é estar com outra mulher na cama.
- É... pode ser isso também. Mas o importante é que você vai dar a volta por cima disso tudo. Quero ver um sorriso de novo nesse seu rosto lindo. Sorri e ela também. Resolvi mudar de assunto.
- E o Gustavo. Como vocês estão?
Ela riu. � É Augusto. Tô quase chutando o traseiro dele. Está muito mala ultimamente.
- Sério? Por quê? Perguntei curiosa.
- Acha que já me ganhou. Que eu tô comendo na mão dele. Acredita nisso? Falou rindo.
- Você? Comendo na mão de um homem. Está para nascer esse homem. Rimos com esse comentário.
Conversamos um monte. Fiz bem em ter vindo pra cá. Embora com o coração despedaçado, aproveitei o máximo que pude do meu hotel fazenda preferido, menos a piscina, era inverno e água gelada não era meu forte. Voltei e a vida seguia seu ritmo normal.
20)
Novo relacionamento
Dois meses se passaram. Na realidade se arrastaram. O inverno continuava, mas estava menos intenso. Combinava com meu estado de espírito. Continuava deprimida, ainda chorava pelos cantos e a dor se fazia insuportável. Mas tinha de tocar a minha vida. Me afundei no trabalho. Passei a atender aos sábados e à noite para poder ficar menos tempo em casa sozinha. Fui duramente criticada por Carol, mas foi a maneira que encontrei de ficar menos tempo possível no condomínio. Nas minhas caminhadas no parque no fim de semana, passei a ir ao final da tarde. Até mudei de supermercado, fazia minhas compras em um mais longe, mas preferia assim. Não podia ver uma lata de leite condensado que me lembrava dela. Descobri que leite condensado me fazia chorar. Evitava a sessão. Por incrível que pareça, não nos vimos mais. Parecia que tínhamos combinado os horários. Ouvia sua porta abrir e fechar. Ela também devia me ouvir. Nunca mais espiei pelo olho mágico. Fazia tempo que não olhava ele. Desde que passei a receber Joanna em minha casa ele foi esquecido. É.. acho que perdi aquele maldito hábito de espiar o corredor. Ri sozinha. Pelo menos meu bom humor estava voltando. Progresso.
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Eu estava em meu escritório e tentava levar minha vida num ritmo normal também. Sonhava constantemente com Marta, que estávamos fazendo amor. Sentia falta daquele corpo colado ao meu. Sentia falta dos beijos dela. Chegava a sentir febre de tanta vontade que tinha de estar em seus braços novamente. Mas sufocava essa vontade ao máximo. Precisava agir assim. Achava que iria �curar� essa paixonite com um novo relacionamento. Assim, comecei há três semanas um relacionamento com Jorge, o sub-gerente. Ele estava de quatro por mim. Gostaria de estar assim por ele também, mas quem sabe com o tempo ficaria. Na cama não me sentia à vontade com ele. Mas forçava estar, e parecia que seria minha sina fingir orgasmos. Fui apenas três vezes com ele para cama, foi sofrível e evitava ao máximo este momento. Ele respeitava a minha vontade, mas sentia que ele queria mais, bem mais.
Nunca mais vi Marta, sentia saudades dela, mas sabia ser melhor assim. Tinha parado de ir ao parque, somente para evitar vê-la. Não sabia qual seria minha reação ao revê-la. Lembrei-me da última vez que estivemos juntas, Marta ficara abalada com minha decisão. Minha intenção não era terminar a amizade, queria apenas pedir para evitarmos um contato mais íntimo como tínhamos tido. Não esperava o rompimento brusco. Me desesperei ao ouvir que ela sairia de minha vida, que não me procuraria mais. Chorei muito, senti uma dor indecifrável no peito que me incomodava constantemente. Sentia muita falta das conversas, dos cinemas, das caminhadas, das risadas, dos olhares. Jorge várias vezes me convidou para ir ao cinema, dizia que não gostava, mas na realidade cinema passou a significar diversão garantida, desde que fosse com Marta. Então sugeria ver filmes na casa dele. Evitava levá-lo ao meu apartamento. Engraçado isso. Era como se não quisesse que Marta me visse com ele. Gostava muito de Marta, não sabia definir ao certo este sentimento. Marta dissera que me amava. Sentia um calor gostoso no corpo quando pensava nisso, me sentia viva. Mas não tinha coragem de namorar uma mulher. Gostaria de ter essa coragem. Seria feliz, com certeza.
Combinei com Jorge de sairmos para jantar no sábado à noite, ele dissera que me levaria num novo restaurante, recém inaugurado, que segundo comentários era ótimo. Gostava da companhia dele, era simpático, divertido, carinhoso, mas não o amava. Disso tinha certeza. Me sentia culpada, pois estava enganando o cara. Me sentia usando ele. Usando para esquecer outra pessoa. Nada nobre. Mas pensava estar fazendo a coisa certa.
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Amanda passou a ser figurinha certa na minha vida. Permiti uma aproximação maior, mas nada de reatar o relacionamento que tivemos. Apenas amizade. E fazia questão de deixar isso bem claro para Amanda. Não gostava de dar falsas esperanças. Sabia que Amanda tinha esperanças, mas não as alimentava. Cortava qualquer iniciativa. Amanda me convidou para sairmos no sábado à noite. Um jantar. Disse que recomendaram um restaurante muito bom e queria conhecê-lo. Topei ir, ficar em casa sozinha não ia me ajudar em nada, então melhor me divertir um pouco.
21)
Ciúmes
Sábado
à noite chega. Não estava muito empolgada para sair, mas me esforçava
para ficar animada. Minha vontade era ficar
O novo restaurante
ficava no bairro do Batel. Estava lotado. Amanda fizera as reservas com antecedência.
Caso contrário, não seríamos atendidas. O garçom nos levou
até nossa mesa. Neste momento Amanda coloca seu braço em minha
cintura pelas costas. Não gostava quando ela fazia isso, parecia querer
demonstrar que tinha minha posse. Saí do contato e sentei na cadeira,
Amanda também. Recebemos o menu e estávamos escolhendo o que jantaríamos
quando sinto aquela sensação de alguém me encarando. Olho
pra ver quem é. Gelei. Era Joanna, acompanhada de um homem. Ela estava
de frente para mim. Meu coração pulava no peito. Minhas mãos
suavam. Engoli
- Você está bem? Perguntou Amanda, percebendo algo.
- Sim, apenas um leve mal estar. Mas, estou bem, nem se preocupe. Respondi sorrindo para ela.
- Mesmo? Perguntou e balancei a cabeça num gesto afirmativo. - Já decidiu o que vai querer?
- Hoje deixo você decidir. E dei um imenso sorriso para ela. Precisava disfarçar senão Amanda perceberia que eu não estava bem, e eu não queria que ela soubesse da minha história. Não tinha contado para ela. Amanda então fez os pedidos e continuamos conversando banalidades.
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Eu não acreditava que estava vendo Marta. Ela estava com uma mulher. Não a conhecia. Mas deviam estar namorando, pois a outra a segurou pela cintura possessivamente. Senti um ciúmes louco quando vi isso. Minha vontade foi de se levantar e bater naquela morena que estava com ela. Me assustei com minha reação. Não consegui desviar o olhar, até que Marta me viu, mas continuei a olhá-la. Senti saudades daqueles olhos azuis, queria estar com ela. Marta desviou o olhar, falou alguma coisa com a morena e deu um sorriso lindo e depois mais outro. Senti ferver de ciúmes. Sim, senti ciúmes, estava enlouquecida. Queria aquele sorriso, queria aquela mulher só para mim. Não conseguia desviar o olhar. Percebi que sentia muito mais do que desejo por Marta. Sentia amor. Agora entendia a saudade que sentia dela, a constância dela em meus pensamentos. Tudo estava claro para mim.
- Joanna? Joanna?
- Hãnn..
- Está tudo bem? Perguntou Jorge.
- Um leve mal estar, mas é passageiro, Jorge. Respondi com receio de que ele percebesse minha perturbação.
- Estava pensando em irmos para minha casa depois do jantar. O que você acha? Perguntou sorrindo para mim.
De repente perdi o interesse em Jorge, tudo o que eu queira era estar com Marta, e não com ele. Ir ao seu apartamento significava terem algo mais íntimo e realmente não estava nem um pouco interessada. Iria terminar esse relacionamento. Fora um erro desde o início. Mas faria isso depois do jantar. Não iria estragar o momento.
- Eu não estou muito bem, Jorge. Respondi. Prefiro ir para minha casa e descansar, pois estou com uma leve dor de cabeça, e não seria uma boa companhia hoje. Senti decepção em seu olhar.
- Tudo bem. Respondeu com um sorriso triste.
Nesse momento nossos pedidos chegaram. Evitei ao máximo ficar encarando Marta, mas quando percebia já estava olhando para ela. Ela também me encarava. Tinha decidido que reconquistaria Marta. Era com ela que eu queria ficar. Viveria essa relação. Seria feliz como nunca fora. Acabei de ter uma idéia. Sorri com este pensamento.
22)
Aceitação
Domingo à tarde. Estava pronta para fazer minha caminhada. Cabelo amarrado num rabo de cavalo, boné, bermuda, camiseta e tênis. Estava pronta para ação. Saí do apartamento e fui em direção ao parque. Ainda pensava no jantar de ontem. Precisava me conformar definitivamente que Joanna jamais seria minha novamente. Cheguei ao parque e continuei caminhando e pensando. Lembrei que Amanda novamente tentara um contato mais íntimo. Tentou beijar-me. Não permiti. Não seria entrando de novo nesse relacionamento que eu esqueceria Joanna. Joanna, saudades de você minha deusa de cabelos de fogo. Sinto tanto a sua falta. Senti meus olhos se encherem de lágrimas. Controlei para não chorar. Caminhar chorando, era só o que faltava.
Joanna passou
por mim e me cumprimentou. Levei um susto, mas retribuí a saudação.
E ela seguiu
- Joanna, tudo bem? Perguntinha infame, a pessoa está ali caída, óbvio que não está tudo bem, mas acabamos perguntando mesmo assim.
- Oi Marta, nada bem, torci meu tornozelo, e está doendo muito. Respondeu e fez uma cara de dor.
- Vem, eu te ajudo. Estendi a mão para ela. Ela aceitou e pegou minha mão. Tremi com o contato. Ajudei-a a levantar. Ela se apoiou em mim, passou o braço ao redor do meu pescoço, pois não estava conseguindo pisar no chão com o pé torcido. Fomos caminhando lentamente até o apartamento dela. Mas durante todo este trajeto estive consciente daquele corpo colado ao meu. Deus, como estou conseguindo sobreviver sem esta mulher? Perguntei-me. Precisava disso para viver. Era vital para mim.
Entramos em seu apartamento e fechei a porta e ela continuou com o braço envolta do meu pescoço. Tentei levá-la até o sofá, mas senti resistência. Olhei para ela e disse que tínhamos que ver como estava o pé. Ela passou o outro braço em volta do meu pescoço. Ficamos de frente nos encarando.
- O que você quer, Joanna? Perguntei.
- Você! Ela respondeu e tentou me beijar. Desviei, o beijo pegou na bochecha.
- Por quê você está fazendo isto? Perguntei com o coração aos pulos. Ela queria me enlouquecer, era isso?
- Porque
descobri que não consigo viver sem você. Quero você. Desejo
você. Eu AMO você. Ela falou me olhando nos olhos e senti meu corpo
esquentar. Meu sangue corria rápido nas veias. Minha garganta secou.
Engoli
Fui até o sofá e me sentei. Ela mancou e fez o mesmo.
- Por que isso agora? E aquele homem que estava com você ontem? E o seu medo de um relacionamento homossexual? Disparei um monte de perguntas.
- Quantas perguntas. Ela sorriu. - Mas vou respondê-las. Isso agora porque eu descobri que te amo. Aquele homem ERA meu namorado, terminei ontem à noite ao descobrir que te amo. E quanto ao meu medo de um relacionamento com você, não existe mais porque te amo.
Fiquei olhando para ela sem acreditar no que eu estava ouvindo. Já tinha me dito quatro vezes que me amava. Eu estava radiante, pulava por dentro de alegria, mas o medo persistia.
- E aquela mulher que estava com você? Ela me perguntou.
- Era Amanda. Só temos amizade, nada mais. Respondi encarando aqueles olhos verdes. Minhas esmeraldas.
- Mas parece que pra ela não é só amizade. Comentei me lembrando do ato possessivo.
- Mas para mim é apenas isso. Respondi quase não conseguindo conter a vontade de beijá-la. Ela se aproximou de mim, passou sua mão em meu rosto, delineou minha boca com seu dedo. Não resisti e o beijei. Ela se aproximou mais. Passei o meu braço pela sua cintura e levantei do sofá trazendo ela comigo. Subi a outra mão até seus cabelos. Soltei eles e enfiei minha mão naquela cabeleira cor de fogo. Gemi de prazer com esse contato. Com uma mão em sua cintura e a outra em sua nuca trouxe ela para mim, e a beijei, um beijo sofrido, cheio de saudades, mas aos poucos foi se tornando sensual, cheio de desejo. Ela enfiou a mão por baixo da minha camiseta e acariciou minhas costas, me puxou para ela. Tirou a minha camiseta, meu sutiã, fiz o mesmo com ela. Retiramos o restante de nossas roupas. Nos abraçamos e o contato de nossos corpos nus, me enlouqueceu. Soltei um gemido e ela também. Nos beijamos novamente, nossas línguas se exploravam mutuamente. Interrompi o beijo e fui beijando o caminho até seu pescoço, subi até sua orelha e dei uma leve mordiscada, ela gemeu e me abraçou mais forte ainda. Virei ela de costas e passei minhas mãos por sua barriga, subi uma mão até sua boca, passei meus dedos por sua boca, Joanna sugou eles, beijei sua nuca, suas costas, desci minha mão até seu sexo, senti ele encharcado. Ela gemeu. Fomos para seu quarto, com cuidado para não machucar mais seu pé torcido, nos deitamos e dei dedicação especial aos seus seios, circulei seu mamilo com minha língua, provoquei ele, ela gemeu mais ainda. Dizia que não agüentava mais, mas continuei minha exploração, fui para o outro seio, fiz a mesma coisa, desci beijando sua barriga até chegar ao seu sexo. Seu cheiro me deixou inebriada. Precisava do seu néctar. Joanna abriu as pernas e eu me deliciei naquele pedaço do paraíso, lambi, suguei, penetrei com a língua, ela enlouquecia e arqueava seus quadris, intensifiquei o movimento, senti seu corpo tremer fortemente e ela explodiu num gozo intenso. Fiz o caminho inverso, subi beijando e lambendo seu corpo até chegar em sua boca onde a capturei num beijo alucinado de desejo. Disse a ela que não acabou. Beijei seu pescoço, voltei minha atenção novamente aos seus seios, minhas frutas suculentas, provei-os com carinho e vontade. Desci minha mão até seu sexo e a provoquei acariciando ele, ela gemeu loucamente e me pediu para fazê-la minha. Penetrei sua cavidade quente e molhada e comecei a fazer o movimento ritmado de vai e vem. Joanna se contorceu toda e pediu para eu ir mais rápido. Aumentei os movimentos cada vez mais até ela dar um grito alucinado e tremer todo o seu corpo. Senti-o relaxar. Retirei meus dedos suavemente. E a abracei trazendo-a para cima de mim. Ficamos ali um tempo, esperando nossas respirações voltarem ao normal.
- Eu amo você Marta. Como nunca amei ninguém. Ela me diz com seus olhos presos aos meus.
Meu coração acabou de receber alta. Sorri com esse pensamento.
Ela continua. - O que eu sinto com você &eacutte; intenso, nunca tive tanto prazer desta forma. Só você consegue fazer meu corpo tremer desse jeito.
- Folgo
Ela me deu um beijo intenso e recomeçamos as carícias. Nossos corpos se inflamaram novamente e desta vez ela assumiu o controle, fiquei à mercê das suas vontades. Ela fez eu ir ao céu, com direito a retorno várias vezes. O que sentíamos era um fogo incontrolável. Passamos a noite nos amando. Até que nossos corpos saciados e cansados, mas felizes, dormissem.
Acordei. Estendi meu braço para alcançá-la, mas ela não estava mais na cama. Senti meu corpo gelar, meu coração se apertar e me bateu um desespero. De novo não. Eu não suportaria. Alguns segundos depois a vi entrando com o café da manhã numa bandeja. Alívio. Sorri para ela. Não mancava. Não mancava?!
- Você não está mancando? Perguntei, pois acabei de lembrar-me do seu tornozelo.
Ela me deu um sorriso sacana e deu um leve sapateado. Foi armação. Não existiu nenhuma torção no tornozelo. Mas que danada! Amava essa mulher de cabelos de fogo. Ela veio até mim e me deu um beijo. Coloquei a bandeja do lado e a puxei para mim, beijei com vontade, com desejo, com amor. O desjejum ficou para depois. Nossa necessidade era mais urgente. Ah, hoje era segunda-feira, mas enforcamos. Ligamos avisando que tinha acontecido um imprevisto. Tínhamos coisas mais importantes para fazer. E deliciosas.
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Seis meses se passaram, seis meses de pura felicidade. Tínhamos uma sintonia incrível. Estava em meu escritório e lembrava-me de meu plano. Armei de torcer o tornozelo durante uma caminhada no parque. Fiz plantão em minha porta aquele domingo desde manhã. Já era de tardezinha e já estava quase desistindo quando ouvi a porta de Marta se abrir, espiei pelo olho mágico e ela estava vestida para dar sua caminhada. Enchi-me de felicidade. Era o momento, esperei mais dois minutos, tempo suficiente para que Marta descesse pelo elevador e fui atrás. Se minha idéia não desse certo pensaria em outras mil coisas, tinha decidido reconquistá-la. E consegui. Marta teve a idéia genial de fazer uma porta de ligação entre os dois apartamentos, estávamos ora no meu, ora no dela. Ainda não tinha saído do armário, mas planejava fazer isso o quanto antes, queria viver livremente com a mulher que eu amava. Precisava dizer ao mundo que amava aquela mulher intensamente.