UM PASSEIO PELA PRAIA
Nira
niraff [email protected]
Tradução
de Fernanda
-
-
- A mesma canção dá voltas em minha
cabeça, nada descreve tão bem o que sentia quando a olhava.
Em seus olhos via o intenso azul do mar como o que agora me acompanha em
meu passeio pela orla. Mas o melhor era, sem dúvida, o que transmitia
através deles que fazia que o tempo detivesse para meu, tudo a meu
redor deixava de existir com só um olhar dela.
-
- Seis anos se passaram desde a última vez que a
vi, antes de ir-se para Suécia com o programa de intercâmbio
na universidade. Sempre soube que queria sair da ilha e o programa Erasmus
era sua oportunidade. Não teve problema para ser aceita dado a seu
bom rendimento, era boa estudante e muito tenaz em tudo o que empreendia.
Sendo apenas uma menina já tinha as idéias claras, no entanto,
eu nunca soube que fazer com minha vida, não sabia e sigo sem saber
até hoje.
-
- Hoje amanheceu um lindo dia de sol fazia duas semanas
que ele não aparecia e isso animou mais gente a aparecer por aqui.
O mar está calmo e muitos aproveitam para nadar. A temperatura estava
suave mas a ligeira brisa que se surgiu me faz eliminar a idéia de
imitá-los, no entanto, o suor me cobre o corpo pelo que o ar fresco
é de agradecer.
-
- Sempre venho à mesma hora e alternando correr
ou caminhar, só assim posso manter minha forma. Não é
uma praia muito grande mas seus dois quilômetros para mim são
suficientes. Tenho que emagrecer estes quilos que ganhei e não suporto
o ginásio, agrada-me esporte mas ao ar livre. Preciso do contato
com a natureza mesmo que seja na areia da praia.
-
- Isso é algo que compartilhava com Ana. Nossas
brincadeiras de meninas sempre tinham que ver com atividades ao ar livre.
Ainda recordo a primeira vez que a vi, tínhamos nove anos e acabava
de chegar de um colégio em algum lugar de Albacete. A professora
a apresentou à classe e ela estava de pé frente a 30 meninos
que a olhavam curiosos, muito séria, muito firme e muito segura de
si mesma, com seus preciosos olhos muito abertos observando tudo o que tinha
a seu redor. Ainda levo essa imagem fincada em minha mente não consigo
lembrar-me de onde se sentava mas não devia de ser muito longe porque
logo ficamos amigas.
-
- Anos atrás
-
- O frio passava pela janela apesar de estar fechada, estava
chovendo e a umidade se fazia notar através de uma goteira. Pelo
oco caíam gotas que estavam formando um pequeno lago no solo. Trinta
meninos de nove anos escutavam em silêncio a sua professora, curiosos
para ver à menina que acabava de entrar na classe.
-
- - Estou ficando molhada - disse muito baixinho Vicky,
cuja mesa se encontrava embaixo da goteira. Fala mais alto que não
ouvi nada - disse Yaiza - Como se chama?
- - Quem? - perguntou Vicky que sempre andava nas nuvens.
- - Parece, que é Ana - respondeu Carmen num sussurro.
-
- A menina em questão se mantinha ao lado da professora
com semblante sério e olhando fixamente à classe. Yaiza não
lhe tirava olho, seu cabelo negro lhe parecia o mais longo que já
tinha visto, mas o que mais lhe chamava a atenção eram seus
olhos, eram azuis já não era a única menina com olhos
claros. Seus verdes olhos tinham sido objeto de gozação em
mais de uma ocasião.
-
- - morreria de vergonha se estivesse aí de pé
- disse Yaiza.
- - Eu também - respondeu Carmen.
- -Que tolice! - Vicky não sabia o que era vergonha
nem a timidez, seu caráter alegre a salvava dessas situações
tão comprometidas - Onde acham que se sentará?
- - Não sei, não vejo um lugar livre - Yaiza
olhava a seu redor.
-
- A professora tinha terminado a sua apresentação
e lhe indicava onde podia sentar à nova aluna. As três amigas
não lhe tiravam olho igual ao resto dos meninos da classe. Finalmente,
Ana se sentou atrás de Yaiza, nem por um momento baixou o olhar e
na expressão de sua cara não existia nenhum vislumbre de timidez.
Se estava nervosa o escondia muito bem.
-
- Num momento em que a professora procurava algo no interior
de uma das gavetas de sua mesa, Vicky aproveitou para saudar à recém
chegada.
-
- - Oi, chamo-me Vicky. Como se chama?
- - Ana.
- - Oi, eu sou Yaiza e esta é Carmen.
- - De que cor são teus olhos? - perguntou Ana que
a olhava fixamente.
- - Não sei - respondeu Yaiza timidamente.
- - Sabe sim, sua tonta, são verdes como os gatos,
tem olhos de gata - disse Vicky rindo.
-
- Yaiza baixou a cabeça e olhou para o chão.
Ela gostava dos gatos mas não lhe agradava nada essa forma de chamá-la.
-
- - Os gatos têm uns olhos preciosos e os teus também
são. E com eles podem ver na escuridão.
- - Você enxerga na escuridão, Yai? - perguntou
Carmen a uma Yaiza cujo rosto estava de um vermelho intenso.
- - Não, como vou ver na escuridão?, sua
tonta?
- - Claro que pode - disse Ana - Eu, posso.
- - Isso não é verdade - disse Vicky virando
para frente pois a professora continuava dando aula.
- - Eu posso e você também - Ana olhava fixamente
a Yaiza e em sua cara se desenhava um grande sorriso que a própria
Yaiza lhe devolveu.
-
-
- Essa foi a primeira vez que Ana a defendeu. Desde esse
dia ficaram inseparáveis até o ponto que as outras meninas
as deixavam a sós, todas menos Carmen e Vicky que de vez em quando
se uniam as brincadeiras delas. Ana era forte e se fazia respeitar e também
fazia que respeitassem a Yaiza. Já ninguém se metia com a
cor de seus olhos nem com seu cabelo loiro, o único de toda a classe.
-
- Ambas eram muito ativas e se aborreciam com os jogos
típicos das meninas. Elas gostavam de correr e jogar futebol com
os meninos, daí o apelido de "as machonas" que não
demoraram em pôr-lhes o apelido, mas isso sim, ninguém repetia
se Ana estava por perto. Só uma vez Ana teve que bater em alguém
por isso.
-
- Yaiza foi muito precoce e seu desenvolvimento se produziu
antes que às demais. Os seios lhe tinham crescido depressa para só
ter nove anos e andava sempre encurvada numa tentativa de esconder. Mas
seu esforço era inútil e acabava sendo o centro das atençôes.
Aquela tarde estava sendo muito dura, sentia dor na barriga pois tinha tido
sua primeira regra e os meninos não deixavam de encher ela por seus
seios. Sobretudo um em particular: Iván.
-
- - Eh, Yaiza!. Eles são maiores que de minha mãe!
- todos os meninos a olhavam rindo com o comentário de Iván.
-
- Sua timidez lhe impedia responder e preferia ficar quieta
e afastar-se até que cansassem e a deixassem em paz.
-
- - Deixa-a em paz, Iván! - gritou Ana cujo enfado
era cada vez mais latente. Só tinha nove anos mas seu gênio
não passava despercebido por ninguém.
- - Já saltou, a defensora. Deixa-me em paz, Ana!
- gritou Iván - Deixa eu tocar?
- - Se não calar a boca vai se arrepender.
- - Não sabe o medo que estou. Uma menina vai me
bater , que horror!
-
- Dito isto se aproximou da menina loira com a única
intenção de tocá-la mas o murro que recebeu o impediu,
caiu no chão levando a mão na cara e chorando como um bebê.
-
- -Gostou? - perguntou Ana com ar triunfal - quem é
a menina agora, eh?
-
- Aquilo valeu a Ana e Iván um par de semanas de
castigo depois da aula. Mas Ana se sentia orgulhosa dela mesma de ter sido
capaz de ajudar a sua amiga. Yaiza a agradecia cada dia presenteando a com
barrinhas de chocolate que tanto lhe agradavam.
-
- - Obrigada, Ana, eu não teria feito nada se não
estivesse ali..
- - Yaiza, não podes ser assim, tem que se defender.
-
- Sempre era a mesma conversa mas Yaiza era incapaz de
brigar com ninguém nem de gritar com ninguém. A seguinte da
classe a desenvolver-se foi, precisamente, Ana. Mas nenhum garoto então
foi capaz de meter-se com ela nem com nenhuma das outras que lhe seguiram.
-
-
- Dia atual
-
- Estão aqui outra vez o casal de anciãos.
Têm às gaivotas alvoroçadas, sempre vêm à
mesma hora e lhes falta tempo para vir voando aos pés do velho.
-
- - Ei, você!, Deixa às demais comer !...
Sim, tu, já nos conhecemos! - o ancião falava como se tratassem
de pessoas .
- - Que acha? - me perguntou - Sempre é a mesma...
é uma abusada.
-
- - Abusa por seu tamanho, parece muito maior do que as
demais - respondi- Se fosse você não lhe dava nada.
- - Tem razão a jovem - replicou a senhora que acabava
de se sentar em sua cadeira e se dispunha a olhar, bem sentada, toda a operação
de seu marido - ... olha essa daí , que fraquinha está...
Paco, dá-lhe pão a essa... não, não, a essa
da direita...
-
- Sorri-lhes e me despedi seguindo meu caminho. Efetivamente
tinha mais gente mas se podia caminhar comodamente, afinal de contas não
chegava nem à metade que sempre ocupava a praia no verão.
A maioria eram casais que preferiam deitar-se na areia ou dar um mergulho
rápido, os casais mais velhos preferem caminhar pela areia.
-
- A orla é meu lugar favorito onde o mar vai te
refrescando os pés a cada passo. É romântico, se tivesse
com quem compartilhá-lo, claro. Se penso bem, existem muitos momentos
e situações românticas que não são por
não ter alguém a teu lado: um pôr-do-sol, passear descalça
pela praia, uma bonita paisagem...
-
- Quando se passa muito tempo vindo à mesma praia
e à mesma hora, acabas por conhecer às pessoas. Normalmente
sempre somos os mesmos. O casal loiro com seu filho de cinco anos, ainda
mais loiro, e que lhes obriga a parar a cada momento fascinado por algo
que encontrou na areia ou por algum peixe que passa fugazmente pela orla.
Também tem essa garota de cabelos encaracolados que baba cada
vez que esse alto com óculos passa correndo a seu lado. Nota-se que
não sabe para onde olhar e depois se vira timidamente para vê-lo
melhor.
-
- Lembrei de Ana, uma vez mais. Estava fantástica
com aquele bikini vermelho, ainda que meus olhos enxergasser violeta com
bolinhas verdes brilhantes que sempre me pareceria linda. Não recordo
o momento em que comecei a olhá-la de outra maneira. De deixar de
ver só como uma amiga para fixar-me na mulher, no que vestia e como
lhe ficava, o que estava fazendo em cada momento e quem era o afortunado
com quem compartilhava seu tempo. Não sei qual foi o momento mas
sei que comecei a ser consciente de meus sentimentos aos 13 anos e ela também
foi. Diz que nessa idade ainda não te definiste sexualmente mas eu
o tinha claro, por uma vez tinha algo claro.
-
-
- Passado
-
- Esperavam em silêncio que o semáforo mudasse
de cor para seguir seu caminho. Desde que tinham saído do colégio
mal tinham trocado algumas palavras e isso era demasiado esquisito para
as duas .. Algumas vezes cada uma se perdia em seus próprios pensamentos
mas nesta ocasião o silêncio era incômodo.
-
- Há anos sempre subiam juntas até
o cinema Víctor, onde se despediam e cada uma seguia seu próprio
rumo. Ana seguia em frente e Yaiza virava para a esquerda, mas desta vez
era diferente. Os sentimentos que ambas começavam a sentir já
algum tempo começava a ser um pesadelo e nenhuma das duas sabia como
aliviar suas mentes nem seus corações.
-
- Aquela tarde na aula de matemática, Yaiza, sem
poder evitá-lo e por um momento que pareceu eterno, ficou olhando
fixamente para Ana. Sua forma de vê-la era diferente, parecia-lhe
a garota mais linda que já tinha conhecido e não deixava de
pensar nela, não lhe saia da cabeça. Se deu conta e subiu
o olhar seus olhos se cruzaram durante segundos nos quais o tempo pareceu
que parou. Nenhuma podia tirar os olhos da outra, até que o professor
fez uma pergunta a Ana e voltaram bruscamente à realidade.
-
- Enquanto subiam pela rua principal, Yaiza não
deixava de pensar naquele momento. Estava enfadada consigo mesma por ter
sido tão óbvia, Ana não era tonta e certamente que
se perguntava o que foi aquilo. Há algum tempo vinha se comportando
de forma diferente com ela, notou. Ficava olhando-a sem se dar conta
e inclusive sonhava com ela. A semana passada Ana lhe emprestou uma caneta
e sem dar-se conta a guardou em sua mochila e no final da aula, pegou
a caneta já em sua casa, apertou-a em sua mão e não
a soltou nem para dormir. Ana tinha tocado aquela caneta e era como estar
tocando nela, sabia que era uma total estupidez mas não podia nem
queria evitar.
-
- Precisava vê-la, estar perto dela, saber o que
fazia, com quem estava, se precisava de sua ajuda para algo, o que fosse.
Em seu interior sabia que estava se apaixonando mas sua mente não
admitia. Era sua melhor amiga, por deus, era uma garota. Como é possível
que sentisse isso?, não é normal, como podia querer beijar
uma garota?. Tudo isto era uma loucura e tinha que esquecer dela de qualquer
jeito, tinha que se fixar em algum garoto, tirar aquelas idéias da
cabeça. De repente, Ana disse algo que a paralisou por completo e
a tirou inesperadamente de seus pensamentos.
-
- - Yaiza... você me quer?
-
- A mente da loira foi a cem por hora. Tinha escutado bem?,
sim, tinha entendido perfeitamente, mas, a que se referia?. Acho que se
refere se a quero como amiga, deve ser isso, mas e se lhe digo que sim e
crê que me refiro a outra coisa?, descobrirá tudo o que sinto.
Ela não pode saber e se diz a alguém?, à classe, as
minhas amigas ou a meus pais. Não pode ser.
-
- - Como se te quero? - perguntou Yaiza com voz trémula.
- - Sim, é isso... se gosta de mim. - Ana a olhou
fixamente.
-
- Só podia dizer que sim, queria gritar que sim,
mas como fazê-lo?. Ela não podia sentir o mesmo, era um disparate,
perderia sua amizade e isso não poderia suportar, nunca se perdoaria.
-
- - Bom... bom, se não me responder... deixa,
esquece - disse Ana um tanto decepcionada.
-
-
- Presente
-
- E assim deixamos. Não pude dizer-lhe nada, não
podia mentir-lhe nem dizer-lhe a verdade, preferi calar. Agora, 17 anos
depois, penso e rio, mas com tristeza.Se algum dia me voltasse a perguntar
o mesmo, agora seria muito diferente. Como pude chegar a pensar que podia
rir de mim?, que diria a todo o colégio?, suponho que foram os nervos.
Ela jamais teria feito algo assim, ainda sem sentir o mesmo que eu mesmo
que tivesse me abraçado e tivesse me ajudado em tudo. Era minha melhor
amiga e ainda é, depois de tantos anos sem vê-la, sigo sentindo
assim. Se agora precisasse de minha ajuda daria sem pensar e não
por que ainda estava apaixonada por ela, pela amizade que sempre nos
uniu.
-
- *****
-
- Definitivamente isto não tem nada a ver com a
Suécia. Já não me lembrava como era bom estar em casa
e do calor que era esta ilha inclusive em pleno mês de novembro...
estou com uma cameseta de manga curta caminhando pelo centro da cidade!!
Tenho que comprar um pouco de roupa, depois de seis anos tudo o que tenho
é para ser usado aqui.
-
- estou na rua do colégio, olha-o, aí está.
Que pequeno me parece agora e isso que o ampliaram. Passei bons momentos
aqui, que será que aconteceu com todos os da classe , de alguns faz
tempo que não sei nada. Através de meu irmão soube
daqueles que seguem em contato com o colégio e do resto soube através
de Vicky . Tenho que falar com ela.
-
- Mas nem sequer ela não soube dizer nada
de Yaiza, desde a última vez que nos vimos para jantar as quatro
de sempre. Reunião de antigas amigas de colégio ainda que
para mim foi bem mais do que isso, foi a confirmação de que
o que sentia e sinto por ela segue vivo. Esteve adormecido durante anos
seus sentimentos mas ao voltar a vê-la acordou inesperadamente e mais
forte que nunca.
-
- Meu Deus, estava lindissíma!, Mais linda do que
nunca!, com a idade melhorou e como melhorou. A recordação
de quando estava no colégio, era daquela menina loira, baixinha,
gordinha, com acné por toda a cara , aparelhos nos dentes... agora
penso não sei como pude fixar-me nela . Suponho que foram seus olhos,
foi o primeiro em que me fixei quando me sentei atrás dela em meu
primeiro dia.
-
- Recordo deste dia perfeitamente, estava muito nervosa
e não sabia para onde olhar. Quando a professora me assinalou meu
lugar, vi dois olhos verdes que me olhavam fixamente mas sem querer intimidar-me,
senão com amabilidade e com a bondade que a caracteriza e que sempre
transmitiu em seu olhar. E senti alívio, soube então que não
estava só.
-
- Como pudemos perder o contato assim?, também não
fiz muito para mantê-lo. De alguma maneira queria ver se podia esquecê-la
e seguir com minha vida, mas sei que não posso. Ao menos assim não,
com esta incerteza, sem saber o que ela sente, sem saber que foi o que realmente
passou naquela noite. Meu Deus, a estas alturas deverá estar casada
e esperando seu segundo filho ou algo assim.
-
- *****
-
- Ai!,meus pés estão cheios de bolha, isto
é o lado menos romântico que ninguém menciona de caminhar
pela areia, ainda que seja tão fina como esta. Quando se anda por
algum tempo, o atrito da areia molhada acaba arranhando tanto a planta do
pé que acaba formando bolhas... ou será que só acontece
isto comigo? Ontem fiquei mais de três horas caminhando e olha só
o que aconteceu. Só assim podia deixar de pensar, acabarei ficando
louca se continuar assim; durante estes anos sempre, de uma maneira ou de
outra, lembro dela, mas nesta última semana começou a ser
uma obsessão.
-
- Ontem mesmo quanto cheguei na minha casa, já era
de noite, procurei as antigas fotos do colégio e encontrei aquelas
de quando nos fomos em uma viagem para Lanzarote no final do ano. Estávamos
na oitava série e tínhamos treze anos. Recordo que ficamos
em um pequeno bungalow, Vicky, Carmen, Ana e eu. Vicky a vi semana passada
caminhando pela praia com seu noivo. Está como sempre, alegre e com
seu longo cabelo cacheados que tinha desde menina.
-
-
- Passado
-
- - Garotas ficamos com o melhor bungalow! - gritou entusiasmada
Vicky.
- - Temos uma piscina aí na frente! - gritou Ana.
- - Tenho que ver isso - disse Carmen que imediatamente
saiu ao pátio seguidas por três garotas de treze anos completamente
emocionadas.
-
- A viagem de barco tinha durado oito longas horas. O mar
se movia bruscamente e o barco lhe acompanhava fazendo que cada uma ficasse
quieta em sua respectiva cama no interior do camarote. O melhor do que se
podia fazer era dormir e todas o faziam exceto Ana, ela estava acostumada
a navegar e era muito raro que se sentisse mareada.
-
- Quanto todas dormiram saiu do camarote rumo à
parte mais alta do barco, abriu a porta empurrando pois o vento soprava
com força. A ausência de lua era a causadora da escuridão
total que a rodeava, sentou-se no único banco que o mar não
tinha conseguido molhar, pois o mar agitado era tão grande que alguma
onda conseguia atingir parte de dentro do barco. Aquilo servia para evadir-se
e pensar um pouco, já tinha passado da meia-noite e não demoraria
a ir dormir como as demais.
-
- Sua amizade com Yaiza seguia sendo a mesma mas algo mudou
desde o momento em que decidiu fazer-lhe aquela fatídica pergunta.
" se me queria, como pude perguntar-lhe isso?" - pensou - "Por
milagre ainda conversa comigo, foi uma estupidez, pude tê-la assustado.
Mas é que na classe me olhou de uma maneira que parecia... não
sei, seriam imaginações minhas. Tenho que me esquecer de tudo
isto e desfrutar desta viagem. E ponto".
-
- Sabia que era algo difícil, uns minutos atrás
tinha surpreendido a si mesma olhando fixamente para Yaiza enquanto mudava
de roupa e punha o pijama. Todas faziam o mesmo exceto ela, mas seus olhos
só podiam olhar à loira, soltou seu longo cabelo e Ana morria
se pudesse acariciá-la. Tinha a cara com acné e aparelhos
nos dentes a dois anos mas nada disso lhe importava, seu sorriso era
suficiente para não pensar em nada mais. Desejava abraçá-la,
sentí-la, seu coração lhe pertencia mas ela não
sabia nada disso e não podia saber. Um ligeiro cutucão de
Vicky lhe fez dar-se conta da situação e desviou rapidamente
o olhar de sua amiga que sorria pícaramente. Saberia algo Vicky de
tudo isto?, não, não posso ser tão transparente, ou
sou?.
-
- Sentada no banco jurou a si mesma não pensar em
Yaiza. Iam ser boas férias com toda a classe, iam compartilhar um
bungalow e iam se divertir como nunca. Isso era o importante.
-
- David não demorou em aparecer em cena, era o garoto
mais bonito do colégio e todas estavam loucas por ele. Todas salvo
as duas amigas. No entanto, ele não sabia nada disto e estava decidido
falar com Ana, que lhe deixava louco a algum tempo.
-
- - Ana?,Vamos dar um mergulho - disse olhando-a fixamente
com ar triunfador.
- - Quem sabe mais tarde, agora temos que arrumar as coisas,
não é garotas? - disse dando meia volta e entrando na casa.
- - Verdade - disse Yaiza seguindo-a de perto.
-
- A piscina não era muito grande mas o suficiente
para refrescar-se e para atrair a todos da classe. O único bungalow
que tinha piscina era o delas, não tinha jeito do que agüentar
a todo mundo gritando e se divertindo. A verdade também não
é que tivessem muita objeção ao respeito, eram o centro
da atenção e que grupo de garotas com treze anos que não
gosta disto.
-
- Os dois dias seguintes os dedicaram a excursões
pela ilha, ninguem tinha estado em Lanzarote e ficaram assombrados com a
paisagem e com os lugares que visitaram: a cascata, a gruta dos verdes,
etc... O trajeto era feito de onibus e com todo mundo alvoroçados.
-
- Um detalhe não escapava dos olhos de Yaiza era
esse David. Colou as férias todas em Ana, não a deixava, o
pior era que esse jogo não parecia desagradar Ana.
- Ana começava a ficar um pouco cansada de
tanta perseguição, e ao subir no onibus para voltar ao bungalow,
viu sua oportunidade ao comprovar um lugar vazio ao lado de Yaiza. Sem duvida
ela deixou David decepcionado que acabou sentando-se no fundo.
-
- - Oi Yaiza.
- - Oi - se surpreendeu ao vê-la ali de pé
e lhe sorriu enquanto olhava ao redor.
- - Calma, David se sentou no fundo, ele é um saco.
- - Ah,é?, não parecia - Yaiza surpreendeu
a si mesma pois seu tom de voz tinha sido um tanto brusco e tentou dissimular.
- Quer sentar na janela?, sei que gosta- lhe sorriu.
- - Quero, obrigada- e contente se sentou olhando para
fora - David sempre senta na janela e não posso ver nada.
- - Estamos um pouco afastadas do resto, estão todos
lá no fundo disse Yaiza que já tinha notado a situação.
- - Melhor - Ana olhou rapidamente para a janela ao dar-se
conta do que tinha dito.
- - Bom, sim, ficaremos mais tranquilas.
-
- O resto da viagem resultou ser mais calmo do que esperava,
todos pareciam cansados e aproveitavam para dormir um pouco. Yaiza só
podia pensar na aproximidade do corpo de Ana. Sem aviso e, de repente, sentiu
a cabeça de Ana apoiar-se em seu ombro, ficou quieta sem saber o
que fazer.
-
- - Incomodo? - perguntou Ana.
- - Não, calma, está cansada?
- - Um pouco.
-
- As duas começavam a acostumar-se a sentir o corpo
uma da outra e decidiram que estavam gostando. Ana pegou a mão
de Yaiza sem pensar, quando se deu conta tentou tirá-la, porém
Yaiza segurou com suavidade tranqüilizando-a.
-
- - Está cômoda? - lhe perguntou docemente.
- -Na verdade, estou nos ombros mais cômodos - levantou
um pouco a cabeça para voltar a apoiar como se tratasse de um travesseiro.
- - Ah sim?, é a senhorita tem alguma queixa ?
- - Não, nenhuma. Estou bem, verdade.
- - Eu sei.
-
- Ambas ficaram em silêncio ao dar-se conta do significado
das frases que acabavam de dizer. Nenhuma se atrevia a mover um músculo
mas o onibus decidiu por elas e freou, acabavam de chegar. Num segundo depois
David chamou Ana acordando-a.
-
- - Desça todo mundo, que já chegamos - disse
- Yaiza solta-a já.
-
- As duas se levantaram inesperadamente, soltando-se as
mãos. Yaiza olhou para Ana e esta lhe devolveu o olhar com o sorriso
mais doce que já tinha visto em sua vida. O coração
lhe deu um salto e a sorriu a sua vez, algo acabava de passar e nenhuma
das duas era capaz de admitir.
-
-
- Presente
-
- - Vicky?
- - Sim, quem é? - a voz no telefone era conhecida
mas não reconheceu.
- - Não me reconhece mais?... sou eu, Ana.
- - Aaaanaa!!, mas quanto tempo?, onde está?, na
Áustria?, Suécia?... Mas como me liga de tão longe,
a ligação vai ficar caríssima!!, quando vai voltar?
- - Vicky!... não, Ouve!... Vicky, por deus!, respira
um pouco.
- - Me Perdoa, sabe como sou, não posso controlar,
como vai tudo?, Que vontade tenho de ver-te!, continua com seu namorado
austríaco?
- - Vamos por partes, tá?, não estou na Áustria
nem na Suécia, estou em minha casa e cheguei no sábado, ademais...
- - sábado?, Mas hoje é quarta-feira!, porque
demorou tanto para me ligar?.Estou sem saber de ti, quanto?, um montão
de tempo, acho que já ligou para todo mundo e fui a última,
não é?
- - moça, você não muda nunca, não?
- - Pois de fato vou mudar, sabia?, ao menos de estado
civil, caso-me em fevereiro com David.
- - isso sim é uma surpresa. Em fevereiro?, estranho
mês,você não dizia sempre que ia se casar em junho, que
era o mês ideal ?
- - Também dizia que David era um imbecil que não
sabia como podiam agüentar suas namoradas e aqui estou apaixonada por
dele.
- - Soubeste mantê-lo na linha, eh?, ele te quer
muito mesmo,
- - Me quer muito?, como você sabe?
- - Por nada, mulher. É que... o encontrei... na
segunda-feira na rua e falamos por um momento...
- - Que?!, ele sabia que estava por aqui e não me
disse nada?
- - Calma, não o mate. Eu pidi que não te
dissesse nada, queria que fosse surpresa.
- - E foi. Passe o que passar te quero aqui no dia 14 de
fevereiro.
- - 14 de fevereiro?, nunca gostou desta data.
- - Ouve, cuidado com o que vai dizer!! Queria que fosse
minha madrinha mas minha irmã não me perdoaria se não
a chamasse, sabes?
- - Eu entendo, conheço a tua irmã.
- - Falando de amores... - o tom de Vicky mudou, agora
era algo mais zombador - sabe quem vi semana passada na praia caminhando
sozinha?
- - Não tenho idéia - seu coração
parou por um segundo.
- - A nossa querida Yaiza está linda, sabia?. Adquiriu
um corpasso eu diria que faz exercício diário. Está
com o cabelo curto, sempre me agradou seu cabelo, é um loiro precioso
e lhe cai maravilhosamente com seus olhos verdes. Quando bate o sol é
como se brilhasse, parece uma santa,
está linda. Falei um momento com ela,
é professora do jardim
de infância e adora o que faz.. esta ouvindo, esta aí? - perguntou
com tom inocente.
- - Sim, sim... estou - não conseguia articular
nenhuma palavra e o seu coração acordou, sentindo-o com força
em seu peito, desde o primeiro instante em que escutou seu nome.
- - Pois sim, dizia.. - o sorriso nos lábios de
Vicky era inegável ainda que não pudesse vê-la - a parte
disto, segue sendo a Yaiza doce que tanto queremos. Alegre, carinhosa, sabia
que ela?, disse-me que ia todas as tardes à praia.
- - Vicky!!
- -O Que?, vai dizer-me que não tens vontade de
vê-la?, Anda, não se atreva a mentir para mim!!
- - Me conhece mais do que minha mãe... e,viu se
estava com alguém?
- - Vejamos, não sei, vi ou não vi?... falo
ou não falo?
- - Vicky, quer me matar?
- - Nãoooo, para isso usaria as mãos, carinho.
Não estava com ninguém,não tem namorado, nem está
casada. Não sei como duas pessoas tão inteligentes podem chegar
a ser tão estúpidas.
- - A que te referes?
- - Escuta, quem vai pagar esta conta?
- - não se preocupe com isso e diga-me pq nós
chamou de estupidas.
- - Sei bem o que sente por ela e também sei o que
ela sente por ti, essas coisas se notam. Se não, me diz:o que aconteceu
com seu namorado?, por que veio de repente para cá?
- - Nunca tive namorado na realidade, aquilo foi um erro
- pensou um momento -Ouve mesmo o que eu digo?
- - Disse muitas coisas, sempre digo muitas coisas, sabes?,
não paro de falar.
- - Já sei, refiro-me a isso que disseste do que
ela sente por mim.
- - Foi isso, o que disse.
- - está ficando surda?
- - Tenho olhos na cara e depois do que me contaste aquela
vez, o que sentia e tudo isso, fixei-me nela e me pareceu sentir o mesmo,
isso é tudo.
- - Pois não sabes o quanto equivocada que estás,
creio que não sente o mesmo.
- - E como sabe?
- - É uma história longa mas acredite, não
sente.
- - Por que voltou, Ana?, não é que não
queira que esteja aqui, alegra-me que esteja mas não vieste só
por mim ou pela família, verdade?
- - Preciso exclarescer as coisas com ela, Vicky, não
posso viver assim sem saber o que há realmente. Não me importa
que não sinta nada mas preciso saber para seguir com minha vida.
- - Me alegra escutar isso, para valer, não sabe
quanto.
- - Que sente, Vicky? - perguntou surpresa.
- - Não ter falado contigo então, achei que
era coisa de vocês. Saiu correndo... fui uma imbecil e é minha
culpa. Perdoa-me.