UM PASSEIO PELA PRAIA

 Nira

 niraff [email protected]

Tradução de Fernanda
r[email protected]
 
A mesma canção dá voltas em minha cabeça, nada descreve tão bem o que sentia quando a olhava. Em seus olhos via o intenso azul do mar como o que agora me acompanha em meu passeio pela orla. Mas o melhor era, sem dúvida, o que transmitia através deles que fazia que o tempo detivesse para meu, tudo a meu redor deixava de existir com só um olhar dela.  
 
Seis anos se passaram desde a última vez que a vi, antes de ir-se para Suécia com o programa de intercâmbio na universidade. Sempre soube que queria sair da ilha e o programa Erasmus era sua oportunidade. Não teve problema para ser aceita dado a seu bom rendimento, era boa estudante e muito tenaz em tudo o que empreendia. Sendo apenas uma menina já tinha as idéias claras, no entanto, eu nunca soube que fazer com minha vida, não sabia e sigo sem saber até hoje.
 
Hoje amanheceu um lindo dia de sol fazia duas semanas que ele não aparecia e isso animou mais gente a aparecer por aqui. O mar está calmo e muitos aproveitam para nadar. A temperatura estava suave mas a ligeira brisa que se surgiu me faz eliminar a idéia de imitá-los, no entanto, o suor me cobre o corpo pelo que o ar fresco é de agradecer.
 
Sempre venho à mesma hora e alternando correr ou caminhar, só assim posso manter minha forma. Não é uma praia muito grande mas seus dois quilômetros para mim são suficientes. Tenho que emagrecer estes quilos que ganhei e não suporto o ginásio, agrada-me  esporte mas ao ar livre. Preciso do contato com a natureza mesmo que seja na areia da praia.
 
Isso é algo que compartilhava com Ana. Nossas brincadeiras de meninas sempre tinham que ver com atividades ao ar livre. Ainda recordo a primeira vez que a vi, tínhamos nove anos e acabava de chegar de um colégio em algum lugar de Albacete. A professora a apresentou à classe e ela estava de pé frente a 30 meninos que a olhavam curiosos, muito séria, muito firme e muito segura de si mesma, com seus preciosos olhos muito abertos observando tudo o que tinha a seu redor. Ainda levo essa imagem fincada em minha mente não consigo lembrar-me de onde se sentava mas não devia de ser muito longe porque logo ficamos amigas.
 
 Anos atrás
 
O frio passava pela janela apesar de estar fechada, estava chovendo e a umidade se fazia notar através de uma goteira. Pelo oco caíam gotas que estavam formando um pequeno lago no solo. Trinta meninos de nove anos escutavam em silêncio a sua professora, curiosos para ver à menina que acabava de entrar na classe.
 
- Estou ficando molhada - disse muito baixinho Vicky, cuja mesa se encontrava embaixo da goteira. Fala mais alto que não ouvi nada - disse Yaiza - Como se chama?
- Quem? - perguntou Vicky que sempre andava nas nuvens.
- Parece, que é Ana - respondeu Carmen num sussurro.
 
A menina em questão se mantinha ao lado da professora com semblante sério e olhando fixamente à classe. Yaiza não lhe tirava olho, seu cabelo negro lhe parecia o mais longo que já tinha visto, mas o que mais lhe chamava a atenção eram seus olhos, eram azuis já não era a única menina com olhos claros. Seus verdes olhos tinham sido objeto de gozação em mais de uma ocasião.
 
- morreria de vergonha se estivesse aí de pé - disse Yaiza.
- Eu também - respondeu Carmen.
-Que tolice! - Vicky não sabia o que era vergonha nem a timidez, seu caráter alegre a salvava dessas situações tão comprometidas - Onde acham que se sentará?
- Não sei, não vejo um lugar livre - Yaiza olhava a seu redor.
 
A professora tinha terminado a sua apresentação e lhe indicava onde podia sentar à nova aluna. As três amigas não lhe tiravam olho igual ao resto dos meninos da classe. Finalmente, Ana se sentou atrás de Yaiza, nem por um momento baixou o olhar e na expressão de sua cara não existia nenhum vislumbre de timidez. Se estava nervosa o escondia muito bem.
 
Num momento em que a professora procurava algo no interior de uma das gavetas de sua mesa, Vicky aproveitou para saudar à recém chegada.
 
- Oi, chamo-me Vicky. Como se chama?
- Ana.
- Oi, eu sou Yaiza e esta é Carmen.
- De que cor são teus olhos? - perguntou Ana que a olhava fixamente.
- Não sei - respondeu Yaiza timidamente.
- Sabe sim, sua tonta, são verdes como os gatos, tem olhos de gata - disse Vicky rindo.
 
Yaiza baixou a cabeça e olhou para o chão. Ela gostava dos gatos mas não lhe agradava nada essa forma de chamá-la.
 
- Os gatos têm uns olhos preciosos e os teus também são. E com eles podem ver na escuridão.
- Você enxerga na escuridão, Yai? - perguntou Carmen a uma Yaiza cujo rosto estava de um vermelho intenso.
- Não, como vou ver na escuridão?, sua tonta?
- Claro que pode - disse Ana - Eu, posso.
- Isso não é verdade - disse Vicky virando para frente pois a professora continuava dando aula.
- Eu posso e você também - Ana olhava fixamente a Yaiza e em sua cara se desenhava um grande sorriso que a própria Yaiza lhe devolveu.
 
 
Essa foi a primeira vez que Ana a defendeu. Desde esse dia ficaram inseparáveis até o ponto que as outras meninas as deixavam a sós, todas menos Carmen e Vicky que de vez em quando se uniam as brincadeiras delas. Ana era forte e se fazia respeitar e também fazia que respeitassem a Yaiza. Já ninguém se metia com a cor de seus olhos nem com seu cabelo loiro, o único de toda a classe.
 
Ambas eram muito ativas e se aborreciam com os jogos típicos das meninas. Elas gostavam de correr e jogar futebol com os meninos, daí o apelido de "as machonas" que não demoraram em pôr-lhes o apelido, mas isso sim, ninguém repetia se Ana estava por perto. Só uma vez Ana teve que bater em alguém por isso.
 
Yaiza foi muito precoce e seu desenvolvimento se produziu antes que às demais. Os seios lhe tinham crescido depressa para só ter nove anos e andava sempre encurvada numa tentativa de esconder. Mas seu esforço era inútil e acabava sendo o centro das atençôes. Aquela tarde estava sendo muito dura, sentia dor na barriga pois tinha tido sua primeira regra e os meninos não deixavam de encher ela por seus seios. Sobretudo um em particular: Iván.
 
- Eh, Yaiza!. Eles são maiores que de minha mãe! - todos os meninos a olhavam rindo com o comentário de Iván.
 
Sua timidez lhe impedia responder e preferia ficar quieta e afastar-se até que cansassem e a deixassem em paz.
 
- Deixa-a em paz, Iván! - gritou Ana cujo enfado era cada vez mais latente. Só tinha nove anos mas seu gênio não passava despercebido por ninguém.
- Já saltou, a defensora. Deixa-me em paz, Ana! - gritou Iván - Deixa eu   tocar?
- Se não calar a boca vai se arrepender.
- Não sabe o medo que estou. Uma menina vai me bater , que horror!
 
Dito isto se aproximou da menina loira com a única intenção de tocá-la mas o murro que recebeu o impediu, caiu no chão levando a mão na cara e chorando como um bebê.
 
-Gostou? - perguntou Ana com ar triunfal - quem é a menina agora, eh?
 
Aquilo valeu a Ana e Iván um par de semanas de castigo depois da aula. Mas Ana se sentia orgulhosa dela mesma de ter sido capaz de ajudar a sua amiga. Yaiza a agradecia cada dia presenteando a com barrinhas de chocolate que tanto lhe agradavam.
 
- Obrigada, Ana, eu não teria feito nada se não estivesse ali..
- Yaiza, não podes ser assim, tem que se defender.
 
Sempre era a mesma conversa mas Yaiza era incapaz de brigar com ninguém nem de gritar com ninguém. A seguinte da classe a desenvolver-se foi, precisamente, Ana. Mas nenhum garoto então foi capaz de meter-se com ela nem com nenhuma das outras que lhe seguiram.
 
  
Dia atual
 
Estão aqui outra vez o casal de anciãos. Têm às gaivotas alvoroçadas, sempre vêm à mesma hora e lhes falta tempo para vir voando aos pés do velho.
 
- Ei, você!, Deixa às demais comer !... Sim, tu, já nos conhecemos! - o ancião falava como se tratassem de pessoas .
- Que acha? - me perguntou - Sempre é a mesma... é uma abusada.
 
- Abusa por seu tamanho, parece muito maior do que as demais - respondi-  Se fosse você não lhe dava nada.
- Tem razão a jovem - replicou a senhora que acabava de se sentar em sua cadeira e se dispunha a olhar, bem sentada, toda a operação de seu marido - ... olha essa daí , que fraquinha está... Paco, dá-lhe pão a essa... não, não, a essa da direita...
 
Sorri-lhes e me despedi seguindo meu caminho. Efetivamente tinha mais gente mas se podia caminhar comodamente, afinal de contas não chegava nem à metade que sempre ocupava a praia no verão. A maioria eram casais que preferiam deitar-se na areia ou dar um mergulho rápido, os casais  mais velhos preferem caminhar pela areia.
 
A orla é meu lugar favorito onde o mar vai te refrescando os pés a cada passo. É romântico, se tivesse com quem compartilhá-lo, claro. Se penso bem, existem muitos momentos e situações românticas que não são por não ter alguém a teu lado: um pôr-do-sol, passear descalça pela praia, uma bonita paisagem...
 
Quando se passa muito tempo vindo à mesma praia e à mesma hora, acabas por conhecer às pessoas. Normalmente sempre somos os mesmos. O casal loiro com seu filho de cinco anos, ainda mais loiro, e que lhes obriga a parar a cada momento fascinado por algo que encontrou na areia ou por algum peixe que passa fugazmente pela orla. Também tem essa garota de cabelos encaracolados que baba cada vez que esse alto com óculos passa correndo a seu lado. Nota-se que não sabe para onde olhar e depois se vira timidamente para vê-lo melhor.
 
Lembrei de Ana, uma vez mais. Estava fantástica com aquele bikini vermelho, ainda que meus olhos enxergasser violeta com bolinhas verdes brilhantes que sempre me pareceria linda. Não recordo o momento em que comecei a olhá-la de outra maneira. De deixar de ver só como uma amiga para fixar-me na mulher, no que vestia e como lhe ficava, o que estava fazendo em cada momento e quem era o afortunado com quem compartilhava seu tempo. Não sei qual foi o momento mas sei que comecei a ser consciente de meus sentimentos aos 13 anos e ela também foi. Diz que nessa idade ainda não te definiste sexualmente mas eu o tinha claro, por uma vez tinha algo claro.
 
 
Passado
 
Esperavam em silêncio que o semáforo mudasse de cor para seguir seu caminho. Desde que tinham saído do colégio mal tinham trocado algumas palavras e isso era demasiado esquisito para as duas .. Algumas vezes cada uma se perdia em seus próprios pensamentos mas nesta ocasião o silêncio era incômodo.
 
 Há anos sempre subiam juntas até o cinema Víctor, onde se despediam e cada uma seguia seu próprio rumo. Ana seguia em frente e Yaiza virava para a esquerda, mas desta vez era diferente. Os sentimentos que ambas começavam a sentir já algum tempo começava a ser um pesadelo e nenhuma das duas sabia como aliviar suas mentes nem seus corações.
 
Aquela tarde na aula de matemática, Yaiza, sem poder evitá-lo e por um momento que pareceu eterno, ficou olhando fixamente para Ana. Sua forma de vê-la era diferente, parecia-lhe a garota mais linda que já tinha conhecido e não deixava de pensar nela, não lhe saia da cabeça. Se deu conta e subiu o olhar seus olhos se cruzaram durante segundos nos quais o tempo pareceu que parou. Nenhuma podia tirar os olhos da outra, até que o professor fez uma pergunta a Ana e voltaram bruscamente à realidade.
 
Enquanto subiam pela rua principal, Yaiza não deixava de pensar naquele momento. Estava enfadada consigo mesma por ter sido tão óbvia, Ana não era tonta e certamente que se perguntava o que foi aquilo. Há algum tempo  vinha se comportando de forma diferente com ela, notou. Ficava olhando-a sem se dar conta e inclusive sonhava com ela. A semana passada Ana lhe emprestou uma caneta e sem dar-se conta a guardou em sua mochila e no final da aula,  pegou a caneta já em sua casa, apertou-a em sua mão e não a soltou nem para dormir. Ana tinha tocado aquela caneta e era como estar tocando nela, sabia que era uma total estupidez mas não podia nem queria evitar.
 
Precisava vê-la, estar perto dela, saber o que fazia, com quem estava, se precisava de sua ajuda para algo, o que fosse. Em seu interior sabia que estava se apaixonando mas sua mente não admitia. Era sua melhor amiga, por deus, era uma garota. Como é possível que sentisse isso?, não é normal, como podia querer beijar uma garota?. Tudo isto era uma loucura e tinha que esquecer dela de qualquer jeito, tinha que se fixar em algum garoto, tirar aquelas idéias da cabeça. De repente, Ana disse algo que a paralisou por completo e a tirou inesperadamente de seus pensamentos.
 
- Yaiza... você me quer?
 
A mente da loira foi a cem por hora. Tinha escutado bem?, sim, tinha entendido perfeitamente, mas, a que se referia?. Acho que se refere se a quero como amiga, deve ser isso, mas e se lhe digo que sim e crê que me refiro a outra coisa?, descobrirá tudo o que sinto. Ela não pode saber e se diz a alguém?, à classe, as minhas amigas ou a meus pais. Não pode ser.
 
- Como  se te quero? - perguntou Yaiza com voz trémula.
- Sim, é isso... se gosta de mim. - Ana a olhou fixamente.
 
Só podia dizer que sim, queria gritar que sim, mas como fazê-lo?. Ela não podia sentir o mesmo, era um disparate, perderia sua amizade e isso não poderia suportar, nunca se perdoaria.
 
- Bom... bom, se não me responder... deixa, esquece - disse Ana um tanto decepcionada.
 
  
Presente
 
E assim deixamos. Não pude dizer-lhe nada, não podia mentir-lhe nem dizer-lhe a verdade, preferi calar. Agora, 17 anos depois, penso e rio, mas com tristeza.Se algum dia me voltasse a perguntar o mesmo, agora seria muito diferente. Como pude chegar a pensar que podia rir de mim?, que diria a todo o colégio?, suponho que foram os nervos. Ela jamais teria feito algo assim, ainda sem sentir o mesmo que eu mesmo que tivesse me abraçado e tivesse me ajudado em tudo. Era minha melhor amiga e ainda é, depois de tantos anos sem vê-la, sigo sentindo assim. Se agora precisasse de minha ajuda daria sem pensar e não por que ainda estava  apaixonada por ela, pela amizade que sempre nos uniu.
 
*****
 
Definitivamente isto não tem nada a ver com a Suécia. Já não me lembrava como era bom estar em casa e do calor que era esta ilha inclusive em pleno mês de novembro... estou  com uma cameseta de manga curta caminhando pelo centro da cidade!! Tenho que comprar um pouco de roupa, depois de seis anos tudo o que tenho é para ser usado aqui.
 
estou na rua do colégio, olha-o, aí está. Que pequeno me parece agora e isso que o ampliaram. Passei bons momentos aqui, que será que aconteceu com todos os da classe , de alguns faz tempo que não sei nada. Através de meu irmão soube daqueles que seguem em contato com o colégio e do resto soube através de Vicky . Tenho que falar com ela.
 
Mas nem sequer ela não soube  dizer nada de Yaiza, desde a última vez que nos vimos para jantar as quatro de sempre. Reunião de antigas amigas de colégio ainda que para mim foi bem mais do que isso, foi a confirmação de que o que sentia e sinto por ela segue vivo. Esteve adormecido durante anos seus sentimentos mas ao voltar a vê-la acordou inesperadamente e mais forte que nunca.
 
Meu Deus, estava lindissíma!, Mais linda do que nunca!, com a idade melhorou e como melhorou. A recordação de quando estava no colégio, era daquela menina loira, baixinha, gordinha, com acné por toda a cara , aparelhos nos dentes... agora penso não sei como pude fixar-me nela . Suponho que foram seus olhos, foi o primeiro em que me fixei quando me sentei atrás dela em meu primeiro dia.
 
Recordo deste dia perfeitamente, estava muito nervosa e não sabia para onde olhar. Quando a professora me assinalou meu lugar, vi dois olhos verdes que me olhavam fixamente mas sem querer intimidar-me, senão com amabilidade e com a bondade que a caracteriza e que sempre transmitiu em seu olhar. E senti alívio, soube então que não estava só.
 
Como pudemos perder o contato assim?, também não fiz muito para mantê-lo. De alguma maneira queria ver se podia esquecê-la e seguir com minha vida, mas sei que não posso. Ao menos assim não, com esta incerteza, sem saber o que ela sente, sem saber que foi o que realmente passou naquela noite. Meu Deus, a estas alturas deverá estar casada e esperando seu segundo filho ou algo assim.
 
*****
 
Ai!,meus pés estão cheios de bolha, isto é o lado menos romântico que ninguém menciona de caminhar pela areia, ainda que seja tão fina como esta. Quando se anda por algum tempo, o atrito da areia molhada acaba arranhando tanto a planta do pé que acaba formando bolhas... ou será que só acontece isto comigo? Ontem fiquei mais de três horas caminhando e olha só o que aconteceu. Só assim podia deixar de pensar, acabarei ficando louca se continuar assim; durante estes anos sempre, de uma maneira ou de outra, lembro dela, mas nesta última semana começou a ser uma obsessão.
 
Ontem mesmo quanto cheguei na minha casa, já era de noite, procurei as antigas fotos do colégio e encontrei aquelas de quando nos fomos em uma viagem para Lanzarote no final do ano. Estávamos na oitava série e tínhamos treze anos. Recordo que ficamos em um pequeno bungalow, Vicky, Carmen, Ana e eu. Vicky a vi semana passada caminhando pela praia com seu noivo. Está como sempre, alegre e com seu longo cabelo cacheados que tinha desde menina.
 
 
Passado
 
- Garotas ficamos com o melhor bungalow! - gritou entusiasmada Vicky.
- Temos uma piscina aí na frente! - gritou Ana.
- Tenho que ver isso - disse Carmen que imediatamente saiu ao pátio seguidas por três garotas de treze anos completamente emocionadas.
 
A viagem de barco tinha durado oito longas horas. O mar se movia bruscamente e o barco lhe acompanhava fazendo que cada uma ficasse quieta em sua respectiva cama no interior do camarote. O melhor do que se podia fazer era dormir e todas o faziam exceto Ana, ela estava acostumada a navegar e era muito raro que se sentisse mareada.
 
Quanto todas dormiram saiu do camarote rumo à parte mais alta do barco, abriu a porta empurrando pois o vento soprava com força. A ausência de lua era a causadora da escuridão total que a rodeava, sentou-se no único banco que o mar não tinha conseguido molhar, pois o mar agitado era tão grande que alguma onda conseguia atingir parte de dentro do barco. Aquilo servia para evadir-se e pensar um pouco, já tinha passado da meia-noite e não demoraria a ir dormir como as demais.
 
Sua amizade com Yaiza seguia sendo a mesma mas algo mudou desde o momento em que decidiu fazer-lhe aquela fatídica pergunta. " se me queria, como pude perguntar-lhe isso?" - pensou - "Por milagre ainda conversa comigo, foi uma estupidez, pude tê-la assustado. Mas é que na classe me olhou de uma maneira que parecia... não sei, seriam imaginações minhas. Tenho que me esquecer de tudo isto e desfrutar desta viagem. E ponto".
 
Sabia que era algo difícil, uns minutos atrás tinha surpreendido a si mesma olhando fixamente para Yaiza enquanto mudava de roupa e punha o pijama. Todas faziam o mesmo exceto ela, mas seus olhos só podiam olhar à loira, soltou seu longo cabelo e Ana morria se pudesse acariciá-la. Tinha a cara com acné e aparelhos nos dentes a  dois anos mas nada disso lhe importava, seu sorriso era suficiente para não pensar em nada mais. Desejava abraçá-la, sentí-la, seu coração lhe pertencia mas ela não sabia nada disso e não podia saber. Um ligeiro cutucão de Vicky lhe fez dar-se conta da situação e desviou rapidamente o olhar de sua amiga que sorria pícaramente. Saberia algo Vicky de tudo isto?, não, não posso ser tão transparente, ou sou?.
 
Sentada no banco jurou a si mesma não pensar em Yaiza. Iam ser boas férias com toda a classe, iam compartilhar um bungalow e iam se divertir como nunca. Isso era o importante.
 
David não demorou em aparecer em cena, era o garoto mais bonito do colégio e todas estavam loucas por ele. Todas salvo as duas amigas. No entanto, ele não sabia nada disto e estava decidido falar com Ana, que lhe deixava louco a algum tempo.
 
- Ana?,Vamos dar um mergulho - disse olhando-a fixamente com ar triunfador.
- Quem sabe mais tarde, agora temos que arrumar as coisas, não é garotas? - disse dando meia volta e entrando na casa.
- Verdade - disse Yaiza seguindo-a de perto.
 
A piscina não era muito grande mas o suficiente para refrescar-se e para atrair a todos da classe. O único bungalow que tinha piscina era o delas, não tinha jeito do que agüentar a todo mundo gritando e se divertindo. A verdade também não é que tivessem muita objeção ao respeito, eram o centro da atenção e que grupo de garotas com treze anos que não gosta disto.
 
Os dois dias seguintes os dedicaram a excursões pela ilha, ninguem tinha estado em Lanzarote e ficaram assombrados com a paisagem e com os lugares que visitaram: a cascata, a gruta dos verdes, etc... O trajeto era feito de onibus e com todo mundo alvoroçados.
 
Um detalhe não escapava dos olhos de Yaiza era esse David. Colou as férias todas em Ana, não a deixava, o pior era que esse jogo não parecia desagradar Ana.
  Ana começava a ficar um pouco cansada de tanta perseguição, e ao subir no onibus para voltar ao bungalow, viu sua oportunidade ao comprovar um lugar vazio ao lado de Yaiza. Sem duvida ela deixou David decepcionado que acabou sentando-se no fundo.
 
- Oi Yaiza.
- Oi - se surpreendeu ao vê-la ali de pé e lhe sorriu enquanto olhava ao redor.
- Calma, David se sentou no fundo, ele é um saco.
- Ah,é?, não parecia - Yaiza surpreendeu a si mesma pois seu tom de voz tinha sido um tanto brusco e tentou dissimular. - Quer sentar na janela?, sei que gosta- lhe sorriu.
- Quero, obrigada- e contente se sentou olhando para fora - David sempre senta na janela e não posso ver nada.
- Estamos um pouco afastadas do resto, estão todos lá no fundo disse Yaiza que já tinha notado a situação.
- Melhor - Ana olhou rapidamente para a janela ao dar-se conta do que tinha dito.
- Bom, sim, ficaremos mais tranquilas.
 
O resto da viagem resultou ser mais calmo do que esperava, todos pareciam cansados e aproveitavam para dormir um pouco. Yaiza só podia pensar na aproximidade do corpo de Ana. Sem aviso e, de repente, sentiu a cabeça de Ana apoiar-se em seu ombro, ficou quieta sem saber o que fazer.
 
- Incomodo? - perguntou Ana.
- Não, calma, está cansada?
- Um pouco.
 
As duas começavam a acostumar-se a sentir o corpo uma da outra e decidiram que estavam  gostando. Ana pegou a mão de Yaiza sem pensar, quando se deu conta tentou tirá-la, porém Yaiza segurou com suavidade tranqüilizando-a.
 
- Está cômoda? - lhe perguntou docemente.
-Na verdade, estou nos ombros mais cômodos - levantou um pouco a cabeça para voltar a apoiar como se tratasse de um travesseiro.
- Ah sim?, é a senhorita tem alguma queixa ?
- Não, nenhuma. Estou bem, verdade.
- Eu sei.
 
Ambas ficaram em silêncio ao dar-se conta do significado das frases que acabavam de dizer. Nenhuma se atrevia a mover um músculo mas o onibus decidiu por elas e freou, acabavam de chegar. Num segundo depois David chamou Ana acordando-a.
 
- Desça todo mundo, que já chegamos - disse - Yaiza solta-a já.
 
As duas se levantaram inesperadamente, soltando-se as mãos. Yaiza olhou para Ana e esta lhe devolveu o olhar com o sorriso mais doce que já tinha visto em sua vida. O coração lhe deu um salto e a sorriu a sua vez, algo acabava de passar e nenhuma das duas era capaz de admitir.
 
  
Presente
 
- Vicky?
- Sim, quem é? - a voz no telefone era conhecida mas não reconheceu.
- Não me reconhece mais?... sou eu, Ana.
- Aaaanaa!!, mas quanto tempo?, onde está?, na Áustria?, Suécia?... Mas como me liga de tão longe, a ligação vai ficar caríssima!!, quando vai voltar?
- Vicky!... não, Ouve!... Vicky, por deus!, respira um pouco.
- Me Perdoa, sabe como sou, não posso controlar, como vai tudo?, Que vontade tenho de ver-te!, continua com seu namorado austríaco?
- Vamos por partes, tá?, não estou na Áustria nem na Suécia, estou em minha casa e cheguei no sábado, ademais...
- sábado?, Mas hoje é quarta-feira!, porque demorou tanto para me ligar?.Estou sem saber de ti, quanto?, um montão de tempo, acho que já ligou para todo mundo e fui a última, não é?
- moça, você não muda nunca, não?
- Pois de fato vou mudar, sabia?, ao menos de estado civil, caso-me em fevereiro com David.
- isso sim é uma surpresa. Em fevereiro?, estranho mês,você não dizia sempre que ia se casar em junho, que era o mês ideal ?
- Também dizia que David era um imbecil que não sabia como podiam agüentar suas namoradas e aqui estou apaixonada por dele.
- Soubeste mantê-lo na linha, eh?, ele te quer muito mesmo,
- Me quer muito?, como você sabe?
- Por nada, mulher. É que... o encontrei... na segunda-feira na rua e falamos por um momento...
- Que?!, ele sabia que estava por aqui e não me disse nada?
- Calma, não o mate. Eu pidi que não te dissesse nada, queria que fosse surpresa.
- E foi. Passe o que passar te quero aqui no dia 14 de fevereiro.
- 14 de fevereiro?, nunca gostou desta data.
- Ouve, cuidado com o que vai dizer!! Queria que fosse minha madrinha mas minha irmã não me perdoaria se não a chamasse, sabes?
- Eu entendo, conheço a tua irmã.
- Falando de amores... - o tom de Vicky mudou, agora era algo mais zombador - sabe quem vi semana passada na praia caminhando sozinha?
- Não tenho idéia - seu coração parou por um segundo.
- A nossa querida Yaiza está linda, sabia?. Adquiriu um corpasso eu diria que faz exercício diário. Está com o cabelo curto, sempre me agradou seu cabelo, é um loiro precioso e lhe cai maravilhosamente com seus olhos verdes. Quando bate o sol é como se brilhasse, parece uma santa, está linda. Falei um momento com ela,  é professora do jardim de infância e adora o que faz.. esta ouvindo, esta aí? - perguntou com tom inocente.
- Sim, sim... estou - não conseguia articular nenhuma palavra e o seu coração acordou, sentindo-o com força em seu peito, desde o primeiro instante em que escutou seu nome.
- Pois sim, dizia.. - o sorriso nos lábios de Vicky era inegável ainda que não pudesse vê-la - a parte disto, segue sendo a Yaiza doce que tanto queremos. Alegre, carinhosa, sabia que ela?, disse-me que ia todas as tardes à praia.
- Vicky!!
-O Que?, vai dizer-me que não tens vontade de vê-la?, Anda, não se atreva a mentir para mim!!
- Me conhece mais do que minha mãe... e,viu se estava com alguém?
- Vejamos, não sei, vi ou não vi?... falo ou não falo?
- Vicky, quer me matar?
- Nãoooo, para isso usaria as mãos, carinho. Não estava com ninguém,não tem namorado, nem está casada. Não sei como duas pessoas tão inteligentes podem chegar a ser tão estúpidas.
- A que te referes?
- Escuta, quem vai pagar esta conta?
- não se preocupe com isso e diga-me pq nós chamou de estupidas.
- Sei bem o que sente por ela e também sei o que ela sente por ti, essas coisas se notam. Se não, me diz:o que aconteceu com seu namorado?, por que veio de repente para cá?
- Nunca tive namorado na realidade, aquilo foi um erro - pensou um momento -Ouve mesmo o que eu digo?
- Disse muitas coisas, sempre digo muitas coisas, sabes?, não paro de falar.
- Já sei, refiro-me a isso que disseste do que ela sente por mim.
- Foi isso, o que disse.
- está ficando surda?
- Tenho olhos na cara e depois do que me contaste aquela vez, o que sentia e tudo isso, fixei-me nela e me pareceu sentir o mesmo, isso é tudo.
- Pois não sabes o quanto equivocada que estás, creio que não sente o mesmo.
- E como sabe?
- É uma história longa mas acredite, não sente.
- Por que voltou, Ana?, não é que não queira que esteja aqui, alegra-me que esteja mas não vieste só por mim ou pela família, verdade?
- Preciso exclarescer as coisas com ela, Vicky, não posso viver assim sem saber o que há realmente. Não me importa que não sinta nada mas preciso saber para seguir com minha vida.
- Me alegra escutar isso, para valer, não sabe quanto.
- Que sente, Vicky? - perguntou surpresa.
- Não ter falado contigo então, achei que era coisa de vocês. Saiu correndo... fui uma imbecil e é minha culpa. Perdoa-me.
- Mas, de que está falando?
- Te disse que vai todas as tardes à praia?
- Não mudes de assunto, a que te referes?
- Pois sim, vai à praia todas as tardes. Ouve, quando nos vemos?, temos que nos encontrar as quatro outra vez - disse Vicky evitando o tema. - vi Carmen está gravida, deve estar de uns sete meses. Perguntou-me por ti e por Yaiza. Quando vai vê-la?
- Não depende de mim, mas te prometo que ficaremos as quatro... e do resto está tudo bem.. - decidiu não lhe perguntar mais.
- Tudo vai bem, Vai vê-la?
- Não sei, já sabe.
- Asquerosa, agora vai me deixar curiosa como sempre.
- Adeus Vicky.
- Adeus Aninha
 
*****
 
"Sei que o tempo passou
que tanto faz
que os dias se escapam
e não voltam mais.
 
Tantas vezes te foste
e te vi voltar
foi como uma maré
que vem e que vai.
 
Mas são teus gestos
que aprendi a amar
acaricias meus cabelos
desarma-me faze-me dizer
que tu agora estás aí
que tu agora estás aqui"
 
Sinto inveja ao ver passear os casais de velhinhos de mãos dadas. Não sei se eu chegarei a essa idade e se alguém estará a meu lado, ou se poderei passear com minha mulher pela praia sem olhares acusadores. Estar como aquele casal abraçados e apoiados no tronco da palmeira. Deveria dizer abraçadas, somos duas mulheres. Isso sim que é raro, parece mentira mas inclusive a mim me choca. A mim, que desejaria estar exatamente igual com certa morena banhando-me nesse mar que são seus olhos. Mas que sonho me ponho as vezes!, ainda bem que ninguém me escuta , só eu tenho que me suportar.
 
Isto tem que acabar ou ficarei louca, Como pude comportar-me assim! Agora deve estar na Suécia com seu noivo, pensando em que presentear-lhe no Natal, e nem sequer se lembrará de mim, salvo quando contar sobre suas brigas no colégio. Muitas vezes lhe ajudei a escolher seus presentes de Natal, como a última vez que a vi. Tínhamos ficado as quatro de sempre para jantar e ao despedir-nos decidimos caminhar nós duas a sós, exatamente igual que fazíamos no colégio. Só que desta vez ela se ofereceu para acompanhar-me até minha casa, eu não fazia mais que falar, agora mesmo não recordo que tanto tinha que lhe contar, só queria falar para não pensar na situação E, de repente, vi-me convidando-a para um show que teria no dia seguinte.
 
O show foi bom, mas eu só tinha olhos para ela, sua figura tinha melhorado muitíssimo. Era bem mais feminina mas seguia forte como quando me defendia no colégio.
 
Passamos a semana comprando presentes e a convidei para passar o fim de ano na casa de uns amigos, que organizavam uma festa. Daquela vez acreditei que minha sorte tinha mudado por fim que ela sentia o mesmo que eu, mas tudo foi uma absurda ilusão. Só isso.
 
Passado
 
- Yaiza? - a voz de Ana soava do outro lado do telefone.
- Sim, sou eu Ana, vai pode ir? - sua cara se tornou séria ao pensar que podia ter mudado de opinião.
- Sim, claro que vou, dá-me vergonha perguntar-te isto mas é que não sei o que vestir.
- Ficará bem com qualquer coisa. - "Mas que estas dizendo Yaiza?. Diga alguma coisa não fique calada." - Quero dizer que não precisa se enfeitar muito, coloque uma calça jeans e uma camiseta que vai ficar bem.
- Está bem, melhor assim, a que hora sairemos?
- Eu pensava ir um pouco antes para ajudar a Eva, não vai ser um grande jantar, cada um levará algo. Mas terá que organizar um pouco, preparar as uvas, essas coisas. Mais ou menos as 18:00, a gente começará a chegar às 22:00 como sempre.
- Está bem, assim vou conhecendo as pessoas, não conheço ninguém dos que vão.
- conhece a mim - Se fez um silêncio entre as duas que começava a ser habitual em suas conversas desde a última semana - Mas... não vamos ser muitos, muita gente desistiu no último momento.
- Costuma passar - outro silêncio - Que disse tua mãe?, não ficou brava por que não vai passar com eles o fim de ano?
- Um pouco. - "Só me deu dois gritos que me deixaram surda mas por passá-lo contigo eu aguento" - E tua família? Não virá?
- Não, já sabe que eles não ligam muito para essas coisas não são muito familiares, enquanto saibam que estou bem e fale com eles de vez em quando tudo bem. - "Ufa, tinha que ter visto a cara de minha mãe".
- Tá, te pego às 17:30 na esquina de sempre.
- Na esquina de sempre?, soa um pouco feio isso, não?
- Só se colocar mini saia, meias de seda e gira a bolsa sem parar.
- Poderia ganhar um dinheiro extra para estas festas.
- Até depois, Ana.
- Até depois.
 
A festa era numa casa solitária no morro, do lado de fora   parecia estar uns 2 graus mas dentro o ar condicionado fnos aquecia a ponto de podermos ficar de camiseta. Levaram toda a tarde organizando o jantar, Ana sempre foi muito sociável enquanto pára Yaiza significava um esforço conhecer alguém novo. Não era este o caso pois conhecia bem às 15 pessoas que ocupavam o salão central da casa.
 
Vicky se encontrava entre os convidados e se alegrou ao vê-las. Nenhuma das duas lhe disse nada pois queriam fazer- lhe uma surpresa, conhecia Eva a dona da casa e chegou ao mesmo tempo que elas. Ana se encontrava no salão falando com dois caras enquanto Eva, Vicky e Yaiza estavam na cozinha terminando de preparar uns canapés.
 
- Que alegria de vê-las aqui!, Não tinham dito nada de que vinham! - exclamou por enécima vez Vicky.
- Queríamos fazer uma surpresa, sua cacho cachorra - disse Yaiza.
- Olha quantidade de bebidas que temos?, há como três garrafas por pessoa e tem de tudo - disse Eva.
- Acredite, não sei porquê, mas Yaiza começou a provar de tudo, ?
- Não, vai... bom, um pouquinho sim.
- Um pouquinho!, Jamais te ouvi chamar cacho cachorra a ninguém!, Nunca disseste uma palavra desta em tua vida! - Vicky riu - Creio que vamos passar muito bem.
- Vou ver se encontro um sacarolhas em condições - disse Eva soltando o que levava na mão sobre a mesa - Este é uma merda.
 
Vicky viu a oportunidade de tentar tirar algo de Yaiza. Fazia tempo que Ana lhe confessou seus verdadeiros sentimentos para ela mas não sabia nada a respeito do que Yaiza podia sentir ou pensar a respeito. Definitivamente não podia deixar passar este momento.
 
- Como Ana está aqui? - lhe perguntou inocente.
- A convidei - respondeu Yaiza.
- Conseguiram encontrar o presente para seu irmão?, disse-me que saíram no outro dia juntas para comprar.
- Sim, mas olha que me custou. Quase fiquei louca quando saímos para as compras, nunca se aclara e no final terminou eu fazendo todo o trabalho - pegou a garrafa de vinho que tinham começado e encheu seu copo. - Queres?
- Está cedo?
- São nove horas, beba um pouquinho.
- Está Bem, põe-me mas só um pouco que não comi nada, que te passa hoje?, Quem te viu e quem te vê!!, seu namorado te deixou? - começa a batalha.
- Namorado, que namorado?... - perguntou, terminando o vinho que acabava de pôr.
- Quer mais?
- Quer?
- Não, comeste algo?
- Eu belisquei a tarde toda uns canapés e canapés, estou ficando enjoada - disse olhando a seu redor.
- Está me estranhando, filha. Você deve estar assim por alguém .
- Alguém?
- Algum namorado, refiro-me.
- Não.
- Não?, não é por um rapaz? - na cara de Vicky se desenhou um sorriso - e, por que?.
 
Yaiza a olhou fixamente, o vinho devia estar afetando-a porque desejava se abrir com ela. Nunca tinha falado com ninguém do tema e Vicky sabia guardar um segredo ainda que não parasse de falar, conheciam-se desde sempre.
 
-Se eu te contar algo... não vai dizer a ninguém? - lhe perguntou olhando-a fixamente.
- Claro que não, vc sabe que não - respondeu Vicky expectante.
- Estou apaixonada por uma pessoa.
- Apaixonada? por quem?
-E... promete-me que não vai ficar brava comigo nem me olharás diferente, promete?
- Claro que sim, mulher -segurou sua mão para animá-la.
- Estou apaixonada.
- apaixonada,por?
- uma mulher - Yaiza olhava para o chão sem atrever-se a levantar a vista até que Vicky começou a rir e a olhei estranhando - do que está rindo?
- De nada, sempre soube que não te atraíam os homens. Era impossível que de tantos que tentaram se aproximar não te agradava nenhum, jogaria por terra a teoria da probabilidade E, agora, vai dizer-me quem é?
- Isso não é tão fácil - Yaiza bebeu seu quarto copo de vinho desde que tinham sentado para conversar ...
- Por fim, encontrei um decente - disse Eva que acabava de entrar fazendo que as duas mulheres pulassem de susto - Calma, sou eu, interrompi algo?
- Não, mulher, tu nunca interrompes - disse Vicky com ironia.
 
Olhou para Yaiza e viu que articulava com a boca tentando dizer-lhe um nome. Pôde entender o nome de Ana, Vicky vocalizou o nome a sua vez assinalando para a sala onde Ana seguia batendo um papo com o resto dos presentes e Yaiza assentiu com a cabeça. Não pôde evitar levantar-se e abraçá-la ante o assombro de Eva e da própria Yaiza.
 
- Eh!, que acontece aqui?, já estão bêbadas?
- Eu não mas esta preciosidade loira está a caminho disso - disse dando-lhe um beijo na cabeça
- Pois não pare, garota, Beba outro copo de vinho que eu te acompanho!! - gritou Eva.
 
O resto da festa decorreu normalmente entre risos, vinho e comida, que como sempre sobrava. Quando o relógio marcou as 12:00 todos comeram as uvas de ano novo e começou o ritual dos abraços e beijos. A estas alturas Yaiza tinha bebido bastante e o abraço com Ana durou mais que normal.
 
- Feliz Ano Novo, Aninha - se lançou em seus braços e a apertou com força.
- Feliz Ano Novo, Yai - Ana a abraçou.
 
A música começou a tocar e foram afastados os móveis da sala para ganhar espaço. A campainha da porta não parou de soar na seguinte hora já que muita gente decidiu passar depois das uvas. O vinho tinha terminado com a timidez de Yaiza que falava e ria com cada nova pessoa que passava a seu lado.
 
Ana tinha sentado num sofá e observava cada um de seus movimentos. Dançava com Luis, um amigo seu da faculdade, não recordava tê-la visto dançar assim nunca. Balançava seus quadris a cada volta e ia colando ao corpo de Luis cada vez mais. Sentada no sofá sentia o calor subir por seu corpo, seus olhos percorriam as curvas da loira de acima a abaixo e de abaixo a acima. Esbanjava sensualidade em cada um de seus movimentos, numa tentativa de controlar-se afastou o olhar para outro casal mas quando voltou a olhar, sentiu os olhos de Yaiza sobre ela. OLHAVA-A com a mesma intensidade com que ela tinha feito a noite toda.
 
Não soube o que estava acontecendo até que chegaram ao quarto.Yaiza conhecia bem a casa e depois de despedir-se de Luis se aproximou dela e pegando a mão dela a obrigou a levantar-se e seguí-la. Ana não podia reagir, subiram as escadas que levavam aos dormitórios do segundo andar. Yaiza abriu uma das portas e a levou para dentro.
 
Ana permanecia no centro do quarto paralisada enquanto Yaiza fechava a porta e dava a volta apoiando-se na porta com as mãos nas costas e olhando-a. Seus olhos verdes percorriam seu corpo como momentos antes ela mesma tinha feito. De repente Yaiza começou a caminhar para ela enquanto tirava a camiseta e a jogava no chão.
 
- Yai, que?
- Schhhhh... não diga nada - sussurrou Yaiza enquanto se aproximava tocando-lhe o sutiã que acabou também no chão.
 
Ana não podia afastar a vista de seus firmes peitos. Passou muito tempo, tempo demais sonhando com algo assim e estava acontecendo, sem reagir já estava deitada na cama sentindo o peso do corpo de Yaiza sobre ela. Os beijos da loira eram intensos e apaixonados, com uma força que nunca pensou que tivesse. Sua língua procurava a sua no interior de sua boca e não demorou em encontrá-la, sentia os quadris de Yaiza mover-se contra seu corpo enquanto suas mãos apertavam com força uma ou outra vez seus peitos.
 
Yaiza não podia controlar-se, por fim tinha o que tanto ansiava, seu sonho estava se cumprindo. De repente, parou. Incorporou-se e olhou para a aturdida Ana nos olhos. Não, esse não era seu sonho, em seu sonho ela não estava bêbada nem tomada pelo álcool Deus meu, praticamente a estava violando!, olha-me como se fosse uma extraterrestre. Não, isto não esta bem, nada bem, não é isto o que quero.
 
- Deus meu, perdoa-me Ana! - se levantou num salto recolhendo do solo sua camiseta e seu sutiã - Sinto muito, devo estar muito bêbada, não me controlei.
- Não foi nada - Ana se incorporou surpresa e aturdida pelo que passava - Mas, onde vai?... não, Yai, não tem que ir... espera, não vá, por favor...Eu te quero.
 
Yaiza não pôde escutar suas últimas palavras pois sua vergonha era tal que saiu correndo do quarto vestindo-se pelo caminho. Desceu as escadas o mais rápido que pôde sem levantar suspeitas, despediu-se de Vicky pois não conseguia encontrar Eva, e saiu procurando seu carro.
 
- Yai, Yai! - Vicky saiu atrás dela chamando-a, correndo conseguiu atingí-la - Mas, que aconteceu?
- Aconteceu que estou bêbada e não sei o que faço, coloquei tudo a perder, Vicky, tenho que ir.
- Mas, porque...? - Yaiza arrancou o carro - Ouve, bebeste muito não pode dirigir , Faz o favor de sair do carro!
- Adeus.
 
  
Hoje
 
Aninha já estamos aqui,falou para si mesma, vejamos, entrada 1, entrada 2, 3... costumava ficar no meio .. entrada 7, vou ficar aqui. Ufa, não há muita gente, nem muito lugar onde esconder-se. Que bom sentir a areia sob os pés depois de tanto tempo, não recordava desta praia tão limpa, deve ser porque estamos no inverno e não vem tanta gente. Quantas gaivotas voavam a alguns metros a sua frente!, ah, aquele casal está dando de comer.
 
Tínhamos 17 ou 18 anos, ela vestia um bikini verde esmeralda que fazia que seus olhos adquirissem mais brilho ainda, se isso era possível. Mas para mim, na verdade, não me importava cor. Nessa época , sobravam-lhe alguns quilinhos a mais, mas para mim era a mulher mais bela do mundo, tinha uma longa cabeleira loira que lhe chegava até a cintura e eu só tinha olhos para ela. Não sei como pude ser amiga dela nesse tempo sentindo o que sentia, como podia agüentar. E se era verdade o que Vicky tinha dito?, e se ela sentia o mesmo por mim?, como pôde agüentar ela também?, nunca me deu essa impressão naquele tempo.
 
Quando chegava molhada do mar e se sentava a meu lado, não sei como podia controlar-me, como podia não a abraçar e atirá-la sobre a areia branca que tanto contrastava com sua morena pele, pôr-me sobre ela e não deixar um só poro de sua pele sem explorar, beijar uma e outra vez seus atraentes lábios, despindo-a lentamente enquanto desço por seu corpo... sim, sim, e tudo isso numa praia abarrotada de gente em pleno mês de agosto. Ana, vc tem assistido muitosfilmes, imagino a notícia. "Foi presa uma depravada sexual enquanto tentava violar a sua melhor amiga diante de centos de pessoas na principal praia da ilha em pleno mês de agosto". Algo para contar aos netos algum dia...
 
Por Deus, devo parecer uma louca rindo sozinha no meio da praia, ainda bem que não tem muita gente. Bom, vejamos, estou no meio da praia e próxima à orla .. Brbrbrbrb!, Mas que fria está a água!, Como pode esta gente nadando calmamente nesta água!. Concentre no que interessa, sim, não sei o que vou dizer quando a ver.
 
A última vez que a vi saía correndo daquele quarto. Ainda não entendo o que aconteceu, nem sequer sei se vai querer me ver, devo ter assustado ela de alguma maneira, não sei. Só sei que não deixei de pensar nesse momento desde o instante que foi embora. Fecho os olhos e a vejo aproximando-se de mim com paixão e volto a sentir seu corpo sobre o meu. Devo concentrar-me em que vou dizer-lhe . Sim, concentra-se Ana para ver que lhe digo para que não volte a sair correndo.
 
- "Oi . Está tão linda , vamos fazer aqui mesmo" - Um pouco selvagem.
- "Yaiza!!, você por aqui?, Que surpresa!, como está sua vida?" - Um pouco falsa.
- "Oi Yai, venho diretamente da Suécia para terminar o que começamos" - Um pouco presuntuoso.
- "Oi Yai, que t...
 
Deus meu!!, está ali. É incrível, está mais linda, mas, espera, será ela?. Sim, não há dúvida. Está melhor do que esperava, esse cabelo curto lhe deixou maravilhosa e ainda tem o mesmo olhar.. mas não olhe pra mim. Ainda não me viu, ainda dá tempo para eu fugir. Não, não posso, agora que não, voltei-me a apaixonar como uma imbecil e nem sequer me olhou ainda. Parece estar em seu mundo olhando algo na água, não mudou nem isso. Queria aproximar-me por trás e abraçá-la, apertá-la contra mim, e sussurrar-lhe o muito que a quero e que sempre a quis. E agora me tremem as pernas não sei que vai acontecer quando...
 
*****
 
Hoje o mar está com uma cor especial. É de um azul intenso que... sim já sei, Ana. É tem algo que não te recorde Ana!. olha, o peixe que está passando diante de ti não tem nada que ver com ela... ainda que ela gostava de pescar, inclusive tentou ensinar-me mas não levo jeito para isso... Me rendo!, Até quando vai durar isto!
 
Creio que tem alguém atrás de mim e juraria que está me olhando fixamente. Fique tranquila, vira-se e segue caminhando normalmente talvez também esteja olhando o peixe... oh,oh, diria que está muito perto agora. Vou, virar rapidamente e lhe olho de frente para ver que é...
 
- Oi.
- oi... . Te... conheço? - "com esses olhos, não pode ser, Dioooos Míoooo!!!"
- Pois, creio que sim - respondeu um tanto espantada- ... sou eu, Ana.
- Ana - sua cabeça dava voltas e não conseguia pronunciar outra palavra.
- Sim, que surpresa, não?
-Em sua mente vinham uma e outra vez as imagens da última noite que a viu.
- Está linda, sabia?
- Obrigada, vc... também.
 
O silêncio voltou a fazer ato de presença, cada uma procurava em sua cabeça algo que dizer e Ana foi a primeira a tentar romper o gelo.
 
- Ontem falei com Vicky.
- Sim eu a vi outro dia com David, estão namorando. Vão se casar?
- Sim, me disse e ja estamos convidadas.
- Sim, estamos.
 
Enquanto falavam tentavam evitar se olharem pois não sabiam o que iam encontrar. Desta vez foi Yaiza que rompeu o silêncio.
 
- Me disse que tinha um noivo austríaco - disse sem poder olhá-la nos olhos.
- Não tenho - pensou durante um segundo como explicar - Foi algo como um experimento.
- Experimento? - agora Yaiza levantou a vista e seus olhos voltaram a encontrar-se.
 
Durante um breve instante a seu redor só tinha escuridão e o único que existiam eram aqueles dois olhos azuis onde poderia submergir e perder-se para sempre.
 
- Se importa se nos sentarmos na areia um pouco? - Não podia mais adiar está conversa.
- Faz um tempo que estou caminhando e estou cansada, vamos ali na frente.
 
Caminharam uns metros afastando-se da orla e se sentaram uma ao lado da outra sobre a areia que começava a perder o calor acumulado ao longo do dia e cada vez era mais fresca.
 
- Saí com ele durante um tempo - enguliu saliva e afastou o olhar centrando em algum ponto fixo na areia sob seus pés. - Só queria comprovar uma coisa.
 
Yaiza não sabia se perguntava ou não, mas  segurou sua curiosidade.  
- Que coisa?
- Que aconteceu aquela noite, Yai?
 
A pergunta a pegou por surpresa e durante um minuto permaneceu em silêncio pensando no   que responder. Sabia perfeitamente que noite se referia, desde aquilo a mesma imagem lhe vinha uma e outra vez, inclusive em sonhos, o corpo de Ana embaixo do seu sentindo cada poro de sua pele mas Ana não lhe correspondia.
 
- Não sei.
- Não sabe?
- Ana, sinto vergonha daquilo, e me custa muito falar disso.
- Então eu falarei - disse Ana firmemente. - Saí com Steven porque... queria esquecer-te.
- Esquecer-me? - o coração de Yaiza deu um salto.
- Não me interrompa, por favor - sua voz soou um pouco brusca pelo que adicionou num tom mais suave. - Deixa eu dizer de uma vez, porque é muito dificil para mim.
-Esta bem.
- Aquela noite acreditei que todos meus problemas tinham sido solucionado. Não sei quando começou nem por que mas desde menina comecei gostar de vc pouco a pouco aquele sentimento se converteu em amor. Há muito tempo sou apaixonada por ti e, por um momento, pensei que sentias o mesmo. A paixão de teus beijos e de teu corpo não podiam ser falsos, mas, de repente , saíste correndo. Jogou a culpa no álcool e eu acreditei.
- Ana eu...
- Espera. durante estes anos pensei o que foi que aconteceu, se foi o álcool o que te fez comportar-te assim. Mas não deixei de reviver aquela noite e chorei pensando que nunca mais ia acontecer - uma lágrima desceu pela bochecha da morena sem que pudesse evitá-la. - Não sabes quantas vezes tinha imaginado esse momento e quando por fim chega sai correndo sem explicação. Estou aqui porque quero saber, Yai, preciso saber de uma vez por todas. Seja o que for, quero continuar com minha vida seja contigo ou sem ti... ainda que não sei se poderei sem ti.
 
A loira sabia que de sua boca não ia conseguir falar uma só palavra. O coração parecia querer sair do peito e só uma coisa podia fazer para demonstrar a Ana que tudo tinha sido real. Olhando-a nos olhos, colocou suas mãos no rosto de Ana, rodeando-a docemente e atraindo-a para si. Quando a teve bastante perto acariciou seus lábios com os seus uma e outra vez, roçando-os, até que o beijo se fez mais e mais profundo. Suas mãos abraçou o pescoço dela, enquanto os braços de Ana rodeavam à figura loira abraçando-a e apertando-a contra seu peito.
 
- Yai, uma vez te perguntei e nunca me respondeu - disse Ana ao conseguir separar-se um centímetro daquela boca que a queimava por dentro.
- O que? - sussurrou sensualmente.
- Você me quer? - sorriu.
- É incrível que se lembre disso, não sabe quantas vezes que desejei que voltasses a perguntar - Yaiza voltou a beijá-la.
- E? - conseguiu perguntar Ana no meio do beijo.
- Quer?
- me quer....
- Com toda minha alma.
 
Respirava-se amor e paixão e a cena não passava despercebida para ninguém. Uma garota morena e um homem musculoso careca  e com óculos que iam de mãos dadas as olharam fixamente. Enquanto, do outro lado, o casal de velhinhos sempre rodeados de gaivotas famintas, sorriam felizes por sua amiga e viram como ambas levantaram abraçadas e foram em direção ao carro.
 
FIM
 

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