Palavras ao Vento

Fernanda

[email protected]

 

Capítulo 8

Julia chegou e não desceu do carro, ficou decidindo se entrava ou não. Pensou no que tinha acontecido, não sentia vontade de entrar até que deu uma olhada no jardim e viu Isabel brincando de bola com Julio. Achou que estava vendo demais. Fechou os olhos e os abriu e Isabel continuava lá. O que ela estava fazendo ali, será que ela é a amiga da namorada do amigo do Carlos, que a Vanessa comentou que viria? Estava confusa. Porque estava encontrando tanto com essa garota, porque a Hérica voltou? Depois que encontrei aquela tal poesia na praia, e hoje está fazendo todo o sentido para mim, se lembrou de uma estrofe “Acordo perdida, no escuro, apertada. Ainda estou presa, acorrentada. Me lembro da luz, do espaço. Do vento que entrava pela janela. Foi um sonho...” Não é sonho. A Hérica voltou e Isabel está bem ali. Não tinha idéia para onde sua vida estava se encaminhando. Naquele momento a única certeza que tinha era que precisava entrar.

Julia entrou e foi atrás de Vanessa, Julio quando a viu saiu correndo para abraçar a madrinha.

- Dinda você demorou tanto, falou já no colo de Julia, a minha professora está aqui e eu dei aquele papel que você me mandou dar para ela.

- Você entregou. Tudo bem, meu amor. E encheu o menino de beijos. E o colocou no chão.

- Você demorou! Deu um abraço na amiga. Como você está? Já sei que aquela coisa voltou. Ligou aqui para saber se você já tinha chegado.

- Van eu quase a matei. Isto me assustou, porque cheguei muito perto de o fazer, e começou a chorar novamente no ombro da amiga. Porque ela voltou, Van? Ela desperta tudo de ruim em mim. Eu não quero mais. Ela voltou como se tivesse ido à praia.

- Oh, minha amiga, ainda bem que não a matou. Imagina eu tendo que ir te visitar na cadeia, passar por aquela revista danada. Vi uma reportagem na tv e aquilo é traumático. Nem pense nisto porque eu não vou. To muito velha para isto.

Vanessa tinha 38 anos, olhos e cabelos castanhos escuros e lisos até abaixo dos ombros. Embora fosse gordinha, não ligava, se sentia bem assim e seu marido não reclamava. Não era a personificação da beleza, mas possuía uma sensualidade invejável. Van era filha de uma empregada dos pais de Julia, cresceram juntas, e mesmo sendo 5 anos mais velha, a amizade entre as duas se consolidou. Éa irmã que Julia não teve.

- Van eu to falando sério e você me vem com isto. Traga-me algo para beber... esqueceu que Carlos e Vanessa tinham convidados.

- Juli como você está? E a abraçou. Já sabemos quem voltou.

- Não estou nada bem, Carlão. O pesadelo da minha vida voltou. Não sei o que fazer com ela, disse que tem direito de ficar lá em casa.

- Ela some por mais de dois anos e acha que têm direitos? Amanhã você conversa com seus advogados e com certeza eles saberão o que fazer. Pelo  menos ela falou onde estava, porque foi embora?

- Não! Nenhuma explicação.

- Então, não tem que ser boa para ela, disse seu amigo. Juli vêm conhecer meus amigos.

- Já conheço todos. Eu os conheci ontem. Tudo bem pessoal.

- Como se conheceram?

- Eles te contam, preciso de uma bebida. E entrou na casa. Ficou lá sozinha por muito tempo, não quis nem a companhia de sua amiga.

 

 

- Tia Isa sabe que eu estou muito feliz de você estar aqui em casa. Quer conhecer o meu quarto?

- Eu não sei, sua mãe pode não gostar.

- Pode ir, ele adora mostrar o quarto para as pessoas que gosta.

- Então eu aceito o seu convite, Julio. Ele agarrou a mão dela e entraram.

Isa entrou e sutilmente ficou procurando Julia. Nem sinal dela, pelo menos, na sala não estava.

Subiram as escadas e o terceiro quarto era o do menino. Ele abriu a porta e Julia estava lá, sentada no chão com uma garrafa de cerveja do lado, muito triste. Isa sentiu-se tocada ao vê-la sozinha. Sentiu algo que até então não sentira por ela. O único sentimento que nutria desde que se conheceram foi a raiva, mas seu coração por uma razão maluca queria de alguma forma proteger aquela mulher, queria poder fazê-la parar de sentir aquela dor. A história, os detalhes daquela tristeza, não conhecia, sabia apenas que se chamava Hérica.

- Dinda eu trouxe a tia Isa para conhecer o meu quarto.

Julia desviou os olhos do menino e olhou direto nos olhos de Isabel  que ainda estava de pé na porta com seus pensamentos.

- Entra Isabel. Por alguma razão se lembrou das palavras de seu irmão “Abra seu coração para o amor”. Sentiu medo dessas palavras. Pensou, será que meu irmão falou isto para eu dar mais uma chance para a Hérica. Estava tão confusa. E Isabel começava a fazer parte da confusão que estava a sua vida.

Isa entrou e logo foi puxada por Julio para ver sua coleção de carrinhos. O quarto era decorado com os personagens dos Jovens Titãs. Mostrou sua coleção de gibis, que havia ganhado de Julia. De vez em quando ela dava uma olhada para Julia, que continuava de cabeça baixa, com o olhar perdido em um ponto qualquer do chão, e sem poder fazer nada voltava a sua atenção para as coisas do menino.

- Tia Isa você gostou do meu quarto? Foi minha dinda que arrumou tudo para mim.

- Eu adorei o seu quarto! Vou te contar um segredo, também gosto dos Jovens Titãs, eu gosto da Ravena.

- Eu gosto do Mutano porque ele pode se transformar em qualquer animal que quiser. Queria ser como ele e virar um pássaro e sair voando quando minha mãe me faz comer verduras que eu odeio, mas se eu não comer ela diz que não vou crescer. E eu quero ser grande como o meu pai e minha dinda.

Julio ao se referir a dinda olha para ela, que ainda está imóvel ali sentada, olhando para o nada, e segurando a mão de Isabel a levou para sentar-se perto de Julia ali no chão. Ficou no meio das duas. Segurou na mão de sua madrinha também. A mãozinha dele estava quente. Naquele momento ele era o elo entre as duas. E ficaram os três em silêncio por alguns instantes.

- Tia Isa você ainda está brava com a minha madrinha?

A pergunta do menino acabou despertando a curiosidade de Julia, que levantou a cabeça e olhou para Isabel. Seus olhos azuis ainda mostravam tristeza, mas queria saber a resposta da professora.

Respirou fundo, encarou aqueles pequeninos olhos azuis do menino e disse: Eu não estou mais brava com ela. Em seguida olhou para Julia dizendo: Eu não estou mais brava com você!

Pela primeira vez naquele dia viu um sorriso lindo aparecer naquele rosto triste. Sentiu-se feliz por tê-la feito sorrir por um momento e sorriu de volta. Desviou o olhar em seguida porque ficou com vergonha de estar olhando-a de uma forma, que ela tinha medo.

Então o menino pegou as mãos delas, a de Julia colocando-a em cima de sua perna e depois a de Isa em cima da dela. Sem perceber Isa segurou a mão de Julia e o menino falou:

- Eu quero que vocês sejam amigas.

Julia ainda sentindo o calor daquela mão quente e macia sobre a sua, olhou para a Isa e perguntou:

- Você quer ser minha amiga?

Isa olhou para ela e respondeu. - Eu quero ser sua amiga.

Julio ficou radiante e as duas se olhando. Uma lágrima escapou dos olhos de Julia, que Isa secou com a palma de sua mão. Um sentimento novo estava nascendo naquele momento e ambas não sabiam, onde isso poderia chegar. O som de uma voz conhecida de Julia, as despertaram daquele instante mágico. Olharam para aquela figura que estava na porta com ódio no olhar e um sorriso sarcástico nos lábios.

 

Continua...

 

Parte 9

Home   Uber

 

Hosted by www.Geocities.ws

1