O Lado Cego Do Amor

INGRID DIAZ

The Blind Side of Love

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 Traduzido por Fernanda

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Kris jamais tinha visto t�o de perto uma casa t�o grande. Estava observando-a atenciosamente de dentro da limosine de Julianne. Quanto mais de se aproximavam, mais impressionante ficava. Kris sentiu um n� na garganta ao dar-se conta de que este era seu destino. Parecia muito lindo para ser real. Virou-se para olhar  Julianne, para compartilhar seus pensamentos, mas a atriz estava no meio do que parecia uma importante conversa.

N�o desejando se intrometer, Kris apoiou a cabe�a contra a janela e se perdeu nas imagens que passavam voando. Era quase como um conto de fadas  estar no mundo de Julianne. Manhattan parecia t�o longe nesse momento. Era como se tivesse entrado numa realidade alternativa e agora  esta fosse sua vida. Levantou a cabe�a, olhando para Julianne um momento antes de voltar a olhar o mundo exterior.

Exceto que n�o era sua vida. Era plenamente consciente disso. Isto era s� um fragmento, um vislumbre de sua exist�ncia. Meramente estava conseguindo uma degusta��o gr�tis do sucesso.

Chegamos em seu lar doce lar! Julianne riu apoiando em Kris para olhar pela janela.

Kris adorava o calor do corpo de Julianne. Desejava encostar mais nele, sentir mais. Por que um simples contato era t�o complicado? �� tudo t�o lindo,� disse Kris tentando concentrar-se na paisagem.

�� pomposo e pretencioso,� disse Julianne. Todas as janelas tem que estar com as luzes acesas para que pare�a mais majestoso. � id�ia de minha m�e.�

�E quanto n�o pagam de eletricidade,� disse Kris n�o podendo imaginar o quanto deeveria ser.

Julianne sentou-se em seu lugar, do lado da janela oposta. Acho que minha m�e nunca viu uma conta de luz.�

Kris notou que o tom de Julianne era mais de fato que cr�tico.
Perguntou-se se a mesma Julianne tinha visto uma conta alguma vez.
N�o parecia prov�vel dada a suave transi��o de Julianne de menina rica e mimada a super estrela. A sorte parecia irregularmente distribu�da entre as massas.

A limosine chegou e parou e o motorista saiu para abrir a porta. J� fora do carro, Kris ficou olhando a mans�o com uma sensa��o inc�moda. N�o tinha id�ia do que esperar. Mas desejava conhecer � fam�lia de Julianne; desejava ver, com quem cresceu Julianne.

Pronta? perguntou Julianne.

Kris olhou-a e ofereceu um breve sorriso. �N�o sei. E voc�?

Nunca,� respondeu Julianne. Olhou para casa e suspirou.  Vamos acabar logo com isto. Passe o que passar, n�o olhe diretamente nos olhos de minha m�e.�

Kris sorriu, relaxando-se levemente, e seguiu  Julianne para a porta da frente. Antes de ter a oportunidade de bater, uma mulher que parecia uma r�plica exata de Julianne, um pouco maior e com os cabelos curtos, abriu a porta.

Abrindo a porta, m�e?� comentou Julianne. �Que novidade. Achei que n�o sabia fazer isto.�

A m�e de Julianne n�o respondeu, seu olhar se fixou em Kris.

Kris se encolheu sob o intenso olhar da mulher, mas n�o desviou o olhar. N�o desejava parecer intimidada.

Depois de uns segundos, os olhos azuis foram aos de Julianne. N�o vai me  apresentar a sua convidada, Julianne? Onde est�o seus modos?�

�M�e, esta � a Kris. Kris, esta � minha m�e.�

�Pode chamar-me de Susan,� disse sua m�e dando-lhes as costas e entretando  na casa. �seu pai est� preso numa reuni�o. N�o vai jantar conosco.�

Kris olhou para Julianne com uma sobrancelha levantada.

�Depois de voc�,� Julianne indicou com o bra�o. �N�o diga que n�o te avisei.�

Kris sorriu e entrou na grande sala. Se a mulher for grosseira, Kris seria
grosseira tamb�m.


Julianne ouvia o tilindar dos talheres contra o fundo dos pratos. O ru�do, ainda que r�tmico, s� servia para irrit�-la. Desejava pegar a m�o de Kris e levar sua amiga dali. Tinha muito  sil�ncio. A falta de conversa a aborrecia.

Finalmente foi a irm� de Julianne quem rompeu o sil�ncio. Porque terminou com Adrian?�

Susan levantou o olhar do prato, pareceu que ia  dizer a Jan que ficasse quieta mas sentia uma genuina curiosidade por saber a resposta de Julianne. Optou pela curiosidade. �Sim, Julianne, porque terminou?�

Julianne podia sentir todos os olhos a olhando; os de sua m�e, os de Jan e os de Kris. N�o queria mentir diante de Kris. N�o queria seguir fingindo, nem inventar mais hist�rias para ocultar a verdade. Mas o que se ganha admitindo a verdade? �N�o estava apaixonada por ele,� respondeu finalmente.

E por quem est� apaixonada? perguntou Jan.

A pergunta deixou Julianne gelada. N�o sabia como responder sem mentir. O Que te faz pensar que estou apaixonada  por algu�m? � contratacou tentando dar-lhe a volta, esperando que a pergunta se dissipasse .

Jan encolheu os ombros. Est�?�

Acho que tem visto Entertainment Tonight demais, disse Julianne.

Resignada, Jan se virou para Kris. Mam�e achou que voc� era o novo namorado de Julianne, informou. Fez  o pessoal limpar a casa toda em prepara��o a sua chegada.�

Susan  falou, claramente envergonhada pela revela��o de sua filha. �Bom, Kris, vai atuar no filme com a Julianne?�

Kris pareceu momentaneamente desconcertada pela s�bita aten��o. �N�o, sou estudante de arte na NYU. Minha melhor amiga vai atuar  no filme.�

�Kris � uma artista muito talentosa,� contribuiu Julianne, dizendo antes de qualquer oportunidade de  suspeitarem de seu talento.

Voc� tem namorado? perguntou Jan com curiosidade.

S� pensa nisto? disse  Julianne irritada pelas perguntas de sua irm�.

Jan ignorou  Julianne e concentrou sua aten��o na resposta de Kris.

Kris balan�ou levemente a cabe�a e disse, �Tinha. Mas terminamos.�

Por que?� perguntou Jan.

N�o � assunto seu! explodiu Julianne.

�Julianne,� a repreendeu Susan.

Jan ficou irritada. �Sou livre para ter uma conversa com sua amiga se eu desejar. Voc� n�o � dona dela. Ela tem todo o direito de n�o me responder, se n�o quiser.

Frustrada e um pouco mais nervosa, Julianne apertou o queixo, mas n�o disse nada. Jan tinha raz�o, mesmo que detestasse  admitir. Kris era plenamente capaz de cuidar-se sozinha.

�N�o estava apaixonada por ele,� respondeu Kris,  s� para por fim � rinha de briga.

Est� ficando muito comum isto, comentou Jan lan�ando um olhar para Julianne.

�N�o deve ser f�cil,� intercalou Susan, �ser uma artista em Nova York.�

Kris  respondeu. �N�o � f�cil ser algu�m em nenhuma parte.�

Susan ficou um momento olhando para Kris. �Bom, acho que saber� se esfor�ar. Sempre admirei a sua gente.�

Julianne girou bruscamente a cabe�a para sua m�e. Ficou olhando com incredulidade.

Kris serenamente tomou um gole de sua bebida e olhou para Susan. Que gente � essa?�

Susan balan�ou a m�o num gesto circular  para indicar que  'gente� se referia a uma entidade gigante: a minoria em general. �Hispan�nicos. Vejo na TV toda hora. Essa pobre gente sendo resgatados das balsas.�balan�ou a cabe�a e tomou um gole de vinho. �Francamente, n�o posso imaginar como  conseguem. Sua fam�lia chegou aqui dessa forma?�

Julianne piscou.

Jan afogou uma gargalhada.

Kris sorriu. �Sim, � claro. N�s portorriquenhos fugimos em balsas a toda hora.�

Ent�o isso � comum em sua cultura?� perguntou Susan. �As pessoas se  acostumam com cada coisa.�

Julianne desejava, desesperadamente, bater sua cabe�a contra a mesa e rezava que tudo isso fosse um pesadelo. Sabia que sua m�e era malvada mas, ignorante e est�pida tamb�m? � um pa�s bem estruturado, m�e. Os  avi�es s�o mais convenientes.�

Susan absorveu esta informa��o atr�s de sua ta�a de vinho. Seus olhos azuis fincaram-se em Kris e se fecharam ligeiramente. Estava claro para Julianne que sua m�e n�o gostava de ser corrigida.
Sobretudo quando lhe provocava vergonha pessoal. Tamb�m era claro para Julianne que o sarcasmo de Kris era  pouco. �Ent�o parece injusto que vos inclua como participantes, n�o �? Os portorriquenhos devem sentir-se muito importantes e poderosos esperimentando o melhor de ambos os  mundos.�

O humor deixou os olhos de Kris. �O que parece injusto, senhora, � que a sua estupidez lhe permita morar em uma casa t�o linda como esta. Tenho certeza que o tamanho desta mans�o � compensada pelo tamanho de seu c�rebro.�

Jan n�o aguentou e caiu na risada mas escondeu com uma enorme e dram�tica tosse.

A boca de Susan ficou ligeiramente aberta, ent�o fechou-se rapidamente. Incapaz de dizer alguma coisa, tomou outro gole de vinho.

Julianne deu uma leve tossida, principalmente para impedir-se de rir. Kris tinha insultado a sua m�e. Kris. Estava quase mareada pela divers�o e levemente paralisada pela impress�o. �Bom, obrigada pelo jantar, m�e,� disse levantando-se. �Kris e eu temos coisas para conversar.�

Kris tamb�m se levantou, olhando para baixo, como se agora tivesse  dado conta de que ela, Kris Milano, acabava de chamar de est�pida � m�e de Julianne Franqui.

�Julianne,� disse Susan duramente ainda que com inquietante calma. Posso falar com voc� em particular?�

Na verdade, n�o era uma pergunta. Julianne olhou rapidamente para Kris. Nos encontramos na limosine.�

Agradecida  por poder esperar l� fora, Kris consentiu e se caminhou para a porta. Se virou, s� para oferecer uma cort�s inclina��o a Jan.

Julianne observou Kris sair e ent�o, resignada, seguiu  sua m�e at� outra sala.

�N�o quero voc� andando com� essa�a� A voz irada de sua m�e substituiu sua fria conduta.

�Seu nome � Kris,� disse Julianne tamb�m come�ando a se enfurecer. N�o acreditei  no que falou. �Balsas, m�e?�

�Ela deveria agradecer n�o  ter precisado,� respondeu Susan. �Essa gente nunca aprecia nada. Permitimos eles entrar em nosso pa�s e tudo o que fazem � se queixar.�

Est� ouvindo o que voc� est� falando?� disse Julianne.

Susan encolheu os longos ombros. �Eu fa�o doa��es para essas organiza��es de caridade. Sei o que acontece. E essa� o que seja, jamais permitirei entrar nesta casa.�

At� parece que ela vai querer voltar aqui!� gritou Julianne.

�Julianne, n�o vou repetir isso. N�o quero que ande com uma pessoa t�o ral� dessa!�

Julianne nunca tinha ficado t�o furiosa em sua vida.  Como se atreve! �Voc� n�o manda mais em minha vida.�

�N�o estou falando de sua vida, Julianne,� disse Susan, com sua voz calma, confortada ao saber que tinha feito Julianne perder a cabe�a. �N�o seja dram�tica.�

�Kris � minha vida,� respondeu Julianne, surpreendida pela  facilidade com que as palavras sa�ram de seus l�bios.

Susan respondeu sem pensar. �Para de falar bobagem.�

�N�o � bobagem, m�e,� respondeu Julianne, sua f�ria alimentava sua coragem. ��  verdade. Sou gay. L�sbica, sapat�o, o que queira me chamar. E estou apaixonada pela Kris. N�o me importa se voc� vai aceitar isso ou n�o.� Com isso se virou e foi para a sa�da mais pr�xima.


Kris passeava junto � limosine, sentindo-se a deriva-a de um mar de emo��es. Como tinha chegado a perder o controle? Era-lhe t�o impr�pio, t�o estranho a sua personalidade dar voz a seus pensamentos. E ainda assim, as palavras tinham escapado de sua boca antes de ter oportunidade de det�-las.

Mas n�o era pesar o que sentia estando ao p� da majestosa perfei��o. Jogando uma olhada na enorme mans�o que abrigava a chave de sua revela��o. Era mais espec�fico que pesar. Tinha entrado na mans�o com vergonha e fascina��o, e partia com um sentimento de piedade t�o profundo que lhe custou definir a emo��o.

Agora Kris compreendia o equil�brio do mundo. Tinha-se equivocado ao crer injusto que Julianne tivesse tanta: beleza, fama, fortuna. Os luxos superficiais da vida, t�o f�ceis de confundir com dons e b�n��os, agora lhe pareciam  substituidos pelo verdadeiro milagre de ser.

Como p�de Julianne sobreviver tantos anos em companhia de t�o fria indiferen�a? N�o parecia justo quea ningu�m lhe roubassem o consolo de um lar amoroso, ainda que elegantemente mascarado com vestidos de grifes e perfei��o adornadas a ouro.

A f�ria substituiu � piedade.

A brisa tocava em seus l�bios e Kris se perguntou por um instante se estava  chorarando sem notar. Passou a sua f�ria, a id�ia de enfrentar  Julianne encheu  Kris de medo. O fato era que tinha ultrapassado os limites no jantar e a possibilidade de que Julianne estivesse brava com ela n�o a deixava em paz.

O som de passos captou a aten��o de Kris e parou de respirar.

Vamos sair daqui," disse Julianne num tom que reclamava defini��o. N�o era um que Kris tivesse ouvido antes.

Sobresaltada com o s�bito aparecimento da atriz, Kris ficou muda. Sem dizer uma palavra, seguiu  Julianne entrar  limosine. Sentaram-se caladamente, escutando o som do motor arrancando, distraidas pela rapidez do movimento.

"Sinto muito," disse Julianne, suas palavras foram suaves e refrescantes contra a dureza do sil�ncio. "Foi pior do que pensei."

Kris tinha se preparado para tudo menos uma desculpa. Sua mente ficou quieta e n�o sabia o que responder.

Julianne olhou para ela e depois para outro lugar. "Vou entender se quiser voltar para Nova York."

Por que Julianne achou que ela queria ir embora? "Sou eu que deveria querer," disse finalmente. "N�o pretendia insultar daquele jeito a sua m�e. Fui muito grosseira.

Ela mereceu... Julianne se virou para olhar para Kris. "� ela quem deve  sentir." Sorriu. "Nunca  tinha te visto t�o franca. Acho que eu deveria te irritar  mais para ver o que acontece."

Kris sorriu, permitindo que a do�ura do al�vio lhe acalmasse. "Acho que seria mais prudente n�o fazer isto, Srta. Franqui. Que coisas poderia escapar est� noite."

"Vai, agora me deixou curiosa.

Kris sorriu, sentindo vontade de abra�ar � atriz. Mas s�  cruzou os bra�os.


Julianne tinha sentido falta do som das ondas. Tinha sentido falta dos passeios a meia-noite pela orla; descal�a e despreocupada com a areia molhada ;seus p�s afundavam a cada passo. Somente agora se deu conta de que  parte de sua vida foram perdida.

Era bom, se sentar na tranquila solid�o da noite e  ficar olhando o r�tmo das ondas. Desejou ficar ali para sempre, longe de sua m�e, do p�blico, de seus amigos.

Longe de Kris�

Julianne perguntou-se quanto mais poderia aguentar sem confessar. O medo de perder a amizade de Kris come�ava a ser mais uma desculpa que uma raz�o. Seria t�o mal sentir a rejei��o dela? Poderia seguir com a sua vida depois disso; n�o tinha certeza, mas deveria ser melhor que ficar guardando todo esse sentimento dentro dela. Qualquer coisa tinha que ser melhor que isto.

Suspirando, deitou para tr�s apoiada sobre seus cotovelos. Sempre se considerou uma pessoa segura. Sempre fez o que desejava em sua vida, ent�o por que n�o desta vez? Que tinha de t�o traum�tico na palavra 'n�o'?

 

Kris tinha estado observando Julianne j� algum tempo. N�o tinha inten��o de ir encontrar a atriz na praia. Ambas tinham se despedido por essa noite. Ambas acreditavam que estavam dormindo.

E Kris tinha tentado. Ficou olhando o teto, observando a escurid�o discutir com a luz. Tinha escutado as ondas tentando encontrar um ritmo que lhe sossegasse. At� tinha contado 484 ovelhas antes de chegar � conclus�o de que o sonho n�o viria.

Resolveu ir dar uma volta mas viu  Julianne Franqui na praia. Num momento de p�nico irracional, escondeu-se. E agora se sentia rid�cula, como uma boba. Como uma idiota rid�cula.

ainda assim,  Julianne n�o a viu. Era  tentador permanecer oculta, observar  Julianne em seu estado natural, sem ter que se preocupar por olhar  intensamente para ela  ou durante muito tempo. Mas tamb�m sentia repulsa, por estar se escondendo nas sombras como uma marginal.

Kris desejava ser valente. Desejava ir at� Julianne e dizer-lhe, que seus sentimentos eram mais intensos do que de uma simples amizade. Que tinha tanta vontade de beij�-la, ainda que o pensamento era t�o aterrorizador como excitante. Kris desejava dizer tudo,  confessar tudo. Talvez ent�o, depois da rejei��o que certamente aconteceria, poderia seguir com sua vida. Estava cansada de ficar louca  de tanto pensar em n�os poss�veis.

Mas n�o era t�o valente. Jamais poderia dizer essas coisas, ainda que  desejava. Jamais imaginou dizer o que  disse � m�e de Julianne. Assim que, Talvez tivesse uma chance.

Kris permitiu a sua aten��o derivar � figura a uns metros. A vida seria muit�ssimo mais f�cil se levassemos ela, como os comediantes...

 

Uns passos interromperam seus pensamentos. E se virou, surpreendida ao ver Kris indo at� ela. Achava que a artista estava dormindo. "Como sabia que eu estava aqui?" perguntou.

Kris olhou-a por um momento e ent�o sentou-se. O Que te faz pensar que  eu  estava te procurando?" brincou.

N�o conseguiu dormir?" perguntou Julianne.

"N�o," admitiu Kris, olhando fixamente para o oceano. "O dia de hoje foi muito intenso para mim.

Julianne consentiu. Foi mesmo. ainda n�o  tinha  id�ia de como conseguiu  sair do arm�rio diante de  sua m�e. Uma parte dela ainda estava pensando a esse respeito. "Bom, acho que este � bom lugar para quem tem ins�nia.

Kris permaneceu em sil�ncio por um momento e Julianne impediu que seus olhos fossem at� o rosto da artista.

Sente falta de tudo isto quando est� em Nova York?" Kris perguntou, levantando a cabe�a. "� t�o tranquilo comparado com a cidade. Bom, � sempre assim t�o tranquilo aqui?

"Sinto falta," admitiu Julianne. "Mas voltarei para c� daqui um m�s ou dois."

"� ,disse Kris .
Julianne pensou que era um vislumbre de tristeza. "Quando terminar o filme, n�o terei raz�es para ficar em Nova York."

Julianne n�o sabia como dizer que tinha raz�o suficiente para  ficar. Mas realmente n�o era o problema. "Tenho que voltar e terminar essa temporada de Guardian."

"Oh, � verdade," respondeu Kris. Quanto mais vai durar a s�rie?"

"Poderia acabar este ano," respondeu Julianne. "Mas pediram-me que renovasse o contrato por mais duas temporadas."

"Ent�o isso vai te manter bem ocupada," disse Kris.

Sim,  vou ficar muito ocupada. Mais filmes, mais s�ries de TV, mais entrevistas. Que sentido teria dizer a Kris como se sentia? Julianne n�o teria tempo para uma rela��o. "ainda n�o assinei o contrato," se encontrou revelando.

Kris olhou-a com surpresa. "Est� pensando se vai  continuar ou n�o?"

Julianne n�o sabia o responder a isso. O fato era que tinha o contrato em sua posse � meses. J� tinha discutido com seus advogados. N�o tinha certeza se queria passar os pr�ximos dois anos no papel de Kiara. Mas estava vacilante. Uma parte muito forte dela n�o desejava ter essa responsabilidade  sobre a cabe�a. Desejava  fazer outra coisa, ou n�o fazer nada . "Sim," disse finalmente. "Acho que sim."

Kris consentiu mas n�o pediu detalhes. "Vou sentir sua falta ," disse sorrindo tristemente. "Acostumei a ter voc� por perto."

As palavras fizeram que o cora��o de Julianne batesse forte. "Vou ficar com o apartamento," disse, ainda que n�o  tinha decidido totalmente at� esse momento. "Voltarei."

"Que Bom," disse Kris.

Permaneceram em sil�ncio muito tempo escutando as ondas. Julianne estava desesperada para dizer alguma coisa. Mas desejava dizer algo a mais que uma perda de alento para preencher o sil�ncio. Desejava dizer  algo significativo, profundo, que expressasse,  as emo��es que sentia.

Como era doloroso estar ali, a cent�metros da pessoa que desejava, e censurar os �nicos pensamentos que realmente pareciam importar. Por que dizer te amo � t�o dif�cil?

Acha que � estranho?"

Julianne piscou, completamente surpreendida pela pergunta. "O que devo achar estranho?

"N�s."

"N�s?" questionou Julianne.

Kris olhou-a brevemente antes de desviar o olhar para bem longe. Afastou seus cabelos de sua cara e continuou. "Que sejamos amigas."

"� estranho para voc�?"

"�s vezes," admitiu Kris. "Quando lembro quem  voc� �."

E quem eu sou?" quis saber Julianne. Repentinamente lhe intrigou essa conversa.

"Julianne Franqui, estrela de TV e cinema," respondeu Kris. "Sabe, quando estavamos no aeroporto, vi umas tr�s revistas contigo. E duas que s� anotavam o que voc� dizia. Foi muito estranho. Foi como estar parada no meio de um sonho muito raro."

Julianne n�o soube o que responder a isso. O Que tentava dizer Kris? Minha fama te aborrece?"

Kris franziu o cenho e olhou � atriz. Aborrecer-me? Impressiona-me. Olho ao redor e tudo isto me assusta tanto."balan�ou a cabe�a. "N�o me aborrece, Julianne. Mas me entristece um pouco."

Por que te entristece?"

"Porque," Kris come�ou, "antes de conhecer voc�, tudo o que sabia era o que eu via de ti na TV. Era aquela mulher vazia que vivia em seu mundinho de celebridade era f�cil te odiar porque n�o parecia real. E me entristece que h� muita gente a� fora que espera qualquer falha sua para te destruir. Que quer te ferir  por causa de seus pap�is na TV e cinema, ainda  parecer� uma personagem para eles."

Julianne ficou em sil�ncio,  com um n� em sua garganta. N�o confiava em sua voz para falar.

"Eu tenho que dizer que acho voc� maravilhosa," continuou Kris. "E acho que qualquer  pessoa neste mundo teria uma sorte incr�vel de estar contigo."

Julianne ficou olhando em seus olhos verdes, quase negros pela escurid�o. Teve que se lembrar de respirar. Ainda n�o podia falar. Ningu�m nunca lhe tinha dito algo parecido. N�o com tanta  sinceridade. Causando dor em seu cora��o. "Obrigada," foi sua brilhante resposta.

"De nada," respondeu Kris.
Esta era sua oportunidade, se deu conta Julianne. Era sua entrada. O momento para dizer tudo a Kris, sem medo das consequ�ncias. Seu cora��o estava batendo t�o r�pido e forte que mal podia ouvir as ondas. Desejava pensar na melhor forma de dizer. Desejava deixar claro que n�o esperava nada e que nada mudaria. S� queria ter esperan�a, por uns segundos antes da rea��o de Kris. Era por esse instante que ansiava, o simples sabor de algo al�m desta amarga necessidade.

"Julianne," disse Kris de repente. "O Que procura em outra pessoa?

Tinha deixado passar o instante?, perguntou-se Julianne sentindo-se aliviada e frustrada por que Kris tinha falado. Em que sentido?"

Por que deixou de ver a Naomi?" perguntou Kris suavemente.

Julianne franziu o cenho com  a pergunta, insegura do que responder. A verdade veio facilmente a sua mente, mas achou imposs�vel express�-la. "Eu n�o gostava dela."

Mas por que?" disse Kris se  virando para encarar  Julianne. " O Que procurava que ela n�o tinha?"

Julianne sentia-se como uma covarde. Estava cansada de dar tantos rodeios �s perguntas, cansada de evitar a verdade. "Porque ela  n�o era voc�," disse e, durante um segundo, n�o tinha certeza de ter realmente pronunciado essa palavras.

Kris olhou-a por um longo tempo que foi, para Julianne,  uma eternidade. N�o era eu?" perguntou meio assustada de ter ouvido errado. Ou Talvez assustada de ter ouvido corretamente.

"Sim," respondeu Julianne simplesmente, arrancando seu olhar dos olhos de Kris. N�o desejava ver o que ali encontraria. Parte dela desejava chorar. Sentia t�o arrasadora combina��o de medo e al�vio nesse momento, que n�o sabia que fazer com as emo��es. Arriscou dar outra olhada  para Kris e encontrou a artista olhando-a fixamente. "Assustei voc�?" perguntou tentando manter o tom ,apesar do fato de estar aterrrorizada.

"Surpresa," respondeu Kris. "E acho que� confusa."

Por?"

O que est� tentando dizer?" perguntou Kris.

Julianne perdeu a coragem dentro dela. "N�o importa," disse olhando para longe. "Acho que preciso dormir."

Kris n�o respondeu em seguida. Mas finalmente disse, "Tudo bem."

Frustrada, Julianne se levantou e sacudiu a areia da parte de atr�s de sua cal�a. Eu te vejo amanh�?"

Kris levantou  a cabe�a at� ela e consentiu. "Claro."

"Boa  noite, Kris," disse Julianne.

"Boa noite."

Julianne quase vacilou, querendo dizer algo mais. Talvez n�o tinha sido  bastante clara, Talvez devesse  ter dito mais alguma coisa. Mas, n�o teria sentido? Tinha sido boba ao pensar que admitir seus sentimentos mudaria alguma coisa.

Resignada, se despediu de Kris e foi para a casa.

Kris ficou olhando  Julianne at� que a atriz entrou em casa. O Que aconteceu aqui? Estava reunindo for�as para dizer a Julianne o que sentia e no momento seguinte ficou completamente paralisada.

N�o era voc�

As palavras repetiram-se na mente de Kris at� que achou que seu cora��o sairia do peito. Julianne tinha sentimentos por ela. Julianne gostava dela e ela tinha deixado  Julianne  ir para a cama. "Eu sou uma idiota," disse se lembrando de como tinha reagido. Teria se dado pontap�s se n�o estivesse t�o impressionada.

Tinha que ir atr�s dela.

De algum modo freou o impulso de  sair correndo atr�s de Julianne. Tinha que pensar claramente. Tinha que pensar em algum tipo de mon�logo. Uma desculpa por sua recente estupidez era um come�o.

Oh, meu Deus, Julianne gosta de mim.

Dar-se conta do que significava isso quase a deixou petrificada. Achou que poderia explodir por pura sobrecarga de sentimento.

Foi entrando devagar na casa e foi em dire��o a escada. Sentia-se como se estivesse em c�mera lenta. Sentia-se num sonho maravilhoso que estava a ponto de acordar. Desejava que este momento durasse para sempre, porque lhe aterrorizava o que seguiria depois.

N�o tinha planejado nada que n�o fosse rejei��o. N�o tinha id�ia de que Julianne pudesse sentir o mesmo isso era apenas um sonho, como todos os  demais esperan�as e sonhos que n�o se permitia ter. Ent�o como podia saber o que fazer?

Parou em frente da porta do quarto de Julianne. Podia ver um raio de luz amarela escapando por debaixo da porta, saber que Julianne estava do outro lado desta barreira de madeira, enchia  Kris de um anseio t�o profundo que sentia vontade de chorar.

Depois de pensar v�rias vezes, bateu na porta. E ent�o esperou, temendo cada segundo que passava, sabendo que em qualquer segundo enfrentaria com uma decis�o.

A ma�aneta da porta girou, o raio de luz fez-se mais e maior at� ser eclipsado pelo corpo de Julianne na soleira da porta. Kris olhou vacilantemente aos desconcertados olhos azuis e sentiu desvanecer-se todas suas d�vidas e reservas. "Se eu falar que estou apaixonada por voc�, eu vou te assustar?" perguntou pensando que era um momento irreal. Podia sentir seu cora��o explodindo no peito. N�o tinha certeza de estar respirando.

Julianne olhava-a fixamente sem saber se Kris era real ou n�o. O Que?" perguntou finalmente.

Kris se aproximou mais de Julianne  guiada por uma for�a invis�vel que a enchia de uma coragem que nunca soube possuir. Olhou brevemente nos l�bios de Julianne, n�o desejando nada mais que os sentir contra os seus. Voltou a olhar nos olhos de Julianne e viu uma chama de algo irreconhec�vel. "EU TE AMO," disse Kris suavemente, esperando que ela entendesse desta vez; tentando, desesperadamente, agarrar � esperan�a de que Julianne ainda sentisse o que disse na praia.

"Kris�" disse Julianne, com sua voz embargada.

"N�o tem que me dizer tamb�m," disse Kris rapidamente, assustada de ter falado demais. "� que eu queria que  soubesse." Come�ou a se virar, mas Julianne pegou sua m�o. Kris n�o sabia como ainda n�o tinha tido um ataque card�aco. Tinha a certeza, o que seu cora��o estava fazendo nesse momento n�o era saud�vel. Kris olhou para suas m�os, insegura de como interpretar isto, insegura de que este momento estava  realmente acontecendo. Ent�o olhou para os olhos azuis de Julianne e esperou.

Julianne estava nervosa. Seu c�rebro inteiro paralisou-se no instante em que Kris come�ou a falar. Tinha tantas coisas que desejava dizer e perguntar, mas ficou muda pelo impacto do momento.

Tantas coisas estavam passando ao mesmo em sua mente que n�o sabia por onde come�ar. Queria voltar atr�s, para examinar cada lembran�a procurando evid�ncias se o que disse Kris era realmente verdade. Julianne queria sentar-se e lembrar de cada momento encontrar os fragmentos enterrados de frases n�o ditas, palavras insignificantes. Quanto tinha sido evidente? Quanto tinha ignorado?

Por favor, diga algo," disse Kris.

Julianne interrompeu seus pensamentos, repentinamente consciente de estar segurando a m�o de Kris; insegura de como tinha pegado. Olhou seus dedos entrela�ados, tentando ganhar tempo. N�o sabia o que dizer, o que fazer, como atuar. "Ʌ est� "

Kris lhe sorriu. Tem problemas de fala sem roteiro, Srta. Franqui?" brincou.

Julianne n�o sabia se ria ou chorava. Voltou a olhar as suas m�os e ent�o olhou para o rosto de Kris. Pensou em  dizer Eu te amo mas pareceu pouca coisa. Como podiam tr�s palavras expressar todas as noites e dias, e horas, minutos, segundos que passou fantasiando este momento,  sentindo  que  este dia nunca chegaria?

N�o tinha palavras, mesmo. Tinha s� o sil�ncio e suas respira��es. Podia sentir  sons de  coisas indistintas e indescifr�vel, mal podia ouvir por causa da intensidade do momento. Tinha s� que  abrir a porta para encontrar tudo que tinha desejado e esperado e rezado, ali de p� na porta.

Pegou  Kris olhando seus l�bios, ent�o desviou seu olhar envergonhada. O cora��o de Julianne acelerou-se, batia mais forte a cada segundo; sentiu seu corpo inteiro tremer e paralisar-se ao mesmo tempo. O tempo perdeu o significado, a exist�ncia. Julianne s� se dava conta de que os l�bios de Kris eram t�o lindos, suaves e incrivelmente convidativos. E, estavam s� a um cent�metros um do outro, pareciam estar a quil�metros tamb�m...

Foi a vez de Kris peg�-la olhando e seus olhares se encontraram durante um d�cimo de segundo antes de se fecharem. Julianne n�o sabia se ainda estava respirando ou n�o, sentia apenas  o calor do corpo de Kris lentamente pressionado contra o seu. Inclinou a cabe�a e seus l�bios se encontraram  t�o docemente que quase entorpeceu de emo��o.

Sentiu a tens�o do corpo de Kris , depois relaxou contra o dela, ficando mais pr�ximas. Seus l�bios encontraram-se brevemente, separaram-se por um instante antes de encontrar-se de novo. O corpo inteiro de Julianne estava a ponto de explodir de emo��o. Pensou que ia derreter , ou ser consumida pelo simples prazer de sentir a boca de Kris se movendo contra a sua.

Kris pressionou seus l�bios contra os dela, gemeu entre seus l�bios, e a beijou com toda a sua vontade at� que Julianne achou que ia desmaiar. Seu corpo inteiro gritava, tremia e ardia o calor era maravilhoso que percorria seu corpo todo. Deixou passar a onda de  incomensur�vel �xtase e se rendeu completamente ao momento, at� que finalmente, depois do que pareceu uma eternidade num piscar de olho, afastou seus l�bios e sussurrou, "Eu tamb�m te amo".

Continua...

Final

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