VINTE E CINCO ANOS DO PONTIFICADO DE JOÃO PAULO II
Papa critica Teologia da Libertação no Brasil
RIO DE JANEIRO - A Teologia da Libertação se converteu numa dor de cabeça para João Paulo II no Brasil, bastião do catolicismo. O papa, que chegou do Leste europeu em plena Guerra Fria, foi surpreendido por esta corrente fortemente influenciada pelo pensamento marxista, no seio da própria Igreja. A Teologia da Libertação surgiu na América Latina como conseqüência das transformações introduzidas na Igreja pelo Concílio Vaticano Segundo, em 1962. Foram as Conferência Episcopais de Medellín, na Colômbia, em 1968, e Puebla, no México, em 1979, que consagraram ''a opção preferencial pelos pobres'' para a Igreja latino-americana. Esta teologia foi criada nas comunidades eclesiais de base, comprometidas com as lutas sociais, que foram envolvendo-se cada vez mais na luta política, em um momento em que a região estava dominada por ditaduras militares e conflitos guerrilheiros. Foram expressões desta corrente católica os curas guerrilheiros, como o colombiano Camilo Torres, os bispos comprometidos com as lutas populares, como o brasileiro Dom Helder Camara, ou com a defesa dos direitos humanos, como o também brasileiro Dom Paulo Evaristo Arns. O choque de João Paulo II com a Teologia da Libertação ficou demonstrado quando o pontífice repreendeu publicamente o ministro da Cultura sandinista, sacerdote Ernesto Cardenal, que nos anos 80 havia desafiado sua proibição de permanecer no governo revolucionário da Nicarágua. Mas foi no Brasil, considerado o país mais católico do mundo com seus 130 milhões de fiéis, onde a difusão da Teologia da Libertação mais chamou a atenção do papa polonês. Durante seus 25 anos de pontificado, João Paulo II veio quatro vezes ao Brasil, em 1980, 1982, 1991 e 1997. Carol Wojtyla combinou no Brasil uma paciente política de substituição de bispos militantes pelos mais conservadores, com um estrito controle dos seminários, incluindo medidas repressivas, como a condenação ao solêncio do teólogo Leonardo Boff. No entanto, um dos últimos exponentes desta corrente no episcopado brasileiro, o bispo de São Felix do Araguaia, no Mato Grosso, Pedro Casaldaliga, de 72 anos, insistiu que '' a Teologia da Libertação, com a criação das Comunidades eclesiais de Base (CEB) e as pastorais, é algo irreversível e inquestionável ainda hoje''. Para este bispo radical, que se aposenta este ano depois de 35 como bispo, a Teologia da Libertação se define como ''uma politização da fé''. Uma corrente importante na formação do Partido dos Trabalhadores (PT) foi precisamente a esquerda católica, e um de seus principais ideólogos, Frey Betto, é atualmente um dos assessores mais influentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um assessor de Casaldaldiga, padre Paulo, criticou o papa por ter preferido favorecer movimentos conservadores como o Opus Dei ou os Carismáticos. - Este papa apoiou mais modelos como Marcelo Rossi do que padres como Pedro Casaldaliga - lamentou padre Paulo.
Força na defesa de dogmas
CIDADE DO VATICANO - O pontificado de João Paulo II é o quarto mais longo da Igreja e nestes anos defendeu com força a família e a moral, implorou a paz para o mundo, pediu perdão pelos danos causados pelos cristãos e pôs sua confiança nos jovens, os ''sentinelas do futuro''. João Paulo II tem se mostrado avançado no aspecto social, com suas críticas à globalização e com o apelo aos países ricos para que perdoem a dívida externa dos países em desenvolvimento. Contudo, em sua trajetória como papa, foi também conservador em matérias de dogmas e moral eclesiásticos. Exemplo disso é sua crítica à Teologia da Libertação, surgida na América Latina, na qual o papa viu o perigo de os teólogos tentarem a libertação dos pobres inspirados por idéias marxistas alheias à mensagem cristã. Nestes 25 anos de pontificado se produziram processos ou advertências a teólogos como Hans Kung, Leonardo Boff e Tony de Mello, entre outros. A moral, concretamente a familiar e sexual, foi outro dos argumentos centrais das mais acesas polêmicas dentro e fora da Igreja, geralmente atenuadas pelas calorosas aproximações de Wojtyla a seus devotos por meio de suas inúmeras viagens. Neste 25 anos, o papa não hesitou em defender a vida desde a concepção até a morte natural, condenando o aborto, a eutanásia e o uso de contraceptivos. Mostrou-se contrário aos casais de fato e de homossexuais, ao mesmo tempo em que apostava nos jovens ''sentinelas de futuro'', aos quais convoca a cada dois anos para as Jornadas Mundiais da Juventude. O primeiro Papa não italiano em cinco séculos
Juan Lara
EFE CIDADE DO VATICANO - João Paulo II, de 83 anos, o primeiro papa não italiano em cinco séculos, celebra hoje os 25 anos de seu Pontificado com a saúde debilitada, mas disposto a continuar guiando a Igreja neste terceiro milênio ''enquanto Deus quiser''. Papa Paulo VI concede o título de Arcebispo da Polônia ao futuro Papa Karol Wojtyla A Igreja Católica surpreendeu a todos no dia 16 de outubro de 1978 ao escolher um Papa polonês que causou receios por não ser italiano e não falar bem o idioma, rompendo uma tradição de 455 anos de pontífices deste país. O cardeal da Cracóvia, Karol Wojtyla, de 58 anos, que se incorporou com atraso ao conclave, no dia 14 de outubro de 1978, foi eleito Papa no oitavo escrutínio com 99 votos, de um total de 111. O anúncio foi feito ao mundo às 16h43 GMT, 23 minutos depois da eleição, pelo cardeal Pericles Felici, que pronunciou o ritual: ''Habemus Papam''. A opinião pública em geral e os romanos em particular desconheciam o jovem cardeal, que se apresentou, no balcão central da basílica de São Pedro, com aquele requerimento de benevolência plasmado na frase ''se mi sbaglio, mi corrigerete'' (''corrijam-me se me equivoco''). A partir desse dia iniciou-se um pontificado com ampla cobertura da imprensa que mudou a forma de atuação da Igreja, e com um Pontífice que chegou ao Trono de São Pedro quando existiam dois blocos mundiais, separados pelo Muro de Berlim, e que passará para a história como o Papa que contribuiu decisivamente para a queda do comunismo, graças a seu conhecimento pessoal desse modelo político com o qual conviveu mais de três décadas. Desde sua primeira encíclica, a 'Redemptor hominis', de 1979, e seu primeiro documento social, o 'Laborem exercens', de 1981, Karol Wojtyla começou um incessante trabalho de enfraquecimento do comunismo, que criticava não do ponto de vista religioso, como o ateísmo ou a perseguição dos cristãos, mas antropológico e social, como um sistema injusto que alienava o ser humano. Mas João Paulo II não é só o Papa que propiciou o colapso do comunismo, mas também aquele que criticou o capitalismo selvagem e o sistema de globalização que torna cada vez mais ricos os países ricos e pobres os em desenvolvimento. Nestes 25 anos de pontificado ele não se cansou de denunciar os ''cantos de sereia'' do capitalismo agressivo, consumista e hedonista, e mostrou sua preocupação com a progressiva ''descristianização'' do continente europeu. Também condenou o recrudescimento dos nacionalismos e lutou com todas as suas forças para que as guerras fossem evitadas, começando com a do Oriente Médio e acabando com a recente do Iraque, à qual se opôs categoricamente. Conhecedor da importância dos meios de comunicação, João Paulo II os usou para difundir o Evangelho pelo mundo e defender a família e condenar o aborto, a eutanásia, o divórcio, as uniões entre homossexuais e a equiparação dos casais de fato com o casamento tradicional. Protagonista do Concílio Vaticano II, Karol Wojtyla colaborou não só com a declaração sobre liberdade religiosa, mas também na revisão do projeto sobre ''a Igreja no mundo contemporâneo'' junto com teólogos como Congar e De Lubac. Nos 25 anos de pontificado tentou aplicar o Concílio Vaticano II à vida da Igreja, ainda que sob críticas. Em seus escritos, o Papa polonês reiterou uma das idéias-chave de seu pontificado: a natureza e o destino do homem e do mundo não podem ser compreendidos em sua totalidade se não for à luz do mistério da Redenção. Desta idéia deriva sua posição sobre a 'teologia da libertação', surgida na América Latina, na qual viu o perigo das tentativas dos teólogos de aprofundar a libertação dos pobres inspiradas por idéias marxistas alheias à mensagem cristã. João Paulo II reiterou a validade da ''‘opção preferencial pelos pobres'' e a validade de uma ''teologia da libertação'' livre de elementos ideológicos alheios à mensagem cristã. Com Papa Wojtyla se intensificou o diálogo com os judeus. Foi o primeiro papa a visitar uma sinagoga, a de Roma, em 1986. Também visitou o Muro das Lamentações durante sua viagem à Terra Santa, no ano 2000 e pediu perdão pelas tragédias causadas pelos cristãos aos judeus ao longo da história. Também dedicou grandes esforços ao diálogo com as outras Igrejas cristãs e outras religiões, que cristalizaram nos encontros pela paz de Assis, a cidade italiana onde nasceu São Francisco e onde reiterou que as religiões jamais podem ser utilizadas para justificar a guerra. João Paulo II é um Papa pioneiro, já que além de ser o primeiro a pisar numa sinagoga, também foi o primeiro a entrar e rezar em uma mesquita, a de Omeyas, em Damasco, em 2001 e o primeiro a pisar em Atenas depois do cisma que separou Oriente e Ocidente há quase mil anos. Na capital grega pediu perdão pelos males causados pelos católicos aos ortodoxos. Este perdão não lhe abriu as portas de Moscou, já que o poderoso patriarca ortodoxo Alexey II continua acusando Roma de fazer proselitismo em territórios que considera sua tradicional zona de influência. Moscou e a China comunista são as duas viagens que mais anseia. Apesar de seu estado de saúde, que praticamente lhe impede de andar, continua disposto a viajar para onde quer que a Igreja necessite dele, e não perde a esperança. Até o momento realizou 102 viagens pelo mundo e sua agenda continua aberta.
Fonte : Jornal do Brasil