Paulo V pronuncia a "Disputa para a interdição" contra Veneza.
___________________________________________________________Paulo V realizou uma grande atividade política e diplomática para impor a autoridade do papado, que saiu fortalecido da luta contra o protestantismo, em matéria de jurisdição eclesiástica perante os Estados italianos próximos. Isso provocou a imediata reação da República de Veneza, que tendia a exercer certo controle sobre o clero atuante em seus territórios e nas fundações eclesiásticas. A irrupção do conflito, talvez o mais grave do catolicismo italiano, foi ocasionada pelo desejo do governo veneziano de submeter ao tribunal laico dois eclesiásticos acusados de delitos comuns. Paulo interveio decisivamente em favor do privilégio do tribunal eclesiástico e lançou a interdição sobre a Sereníssima, que, por sua vez, respondeu com a expulsão dos jesuítas, que respeitavam a interdição, e com as hábeis formulações doutrinais de Paulo Sarpi. Embora o conflito tenha sido sanado (1607) e a guerra tenha sido evitada graças à mediação de Henrique IV da França e da Espanha, Paulo V teve frustradas as suas esperanças de hegemonia sobre os Estados italianos. Também no restante da Europa o período de pontificado de Paulo, homem muito zeloso, mas também muito intransigente, coincidiu com uma série de complicações internacionais provenientes do fato de os soberanos pretenderem considerar o seu poder como emanado diretamente de Deus, limitando, assim, como tentara fazer Veneza, a esfera de influência do papado em seus Estados. Por outro lado, a obra de evangelização no novo continente, na China, na Índia e na Etiópia, realizada naquele mesmo período, teve mais sucesso, graças aos jesuítas, que tiveram a sua liberdade de ação e de ensino reconhecida por Paulo V. Já a política externa deste, conduzida por seu sobrinho Scipione Caffarelli (que assumiu o sobrenome Borghese), elevado a dignidade cardinalícia e condecorado com o cargo de secretário de Estado, não foi, no conjunto, isenta de incertezas: o papa estreitou seus vínculos com a causa imperial e submeteu-se à oscilante política dos Habsburgo em relação aos príncipes protestantes. Por outro lado, também não conseguiu impedir a irrupção das lutas religiosas na Boêmia e na Hungria. Em 1619, porém, pôde comemorar a ascensão de Fernando II, rigidamente católico, ao trono imperial. Conseguiu, no entanto, mesmo que graças a conjunturas favoráveis (como a morte de Henrique IV, da França, em 1610), encerrar, com um acordo matrimonial, o sempre latente conflito entre Espanha e França. Intelectual e cercado de intelectuais, mecenas, pesa contudo sobre Paulo V a condenação das teorias científicas de Copérnico e Galileu, que, declarada pela Inquisição, teve o consentimento do papa.
___________________________________________________________Toma impulso a expansão missionária. Gregório XV institui a congregação "De Propaganda Fide".
___________________________________________________________Gregório XV (no século Alessandro Ludovisi; Bolonha, 1554 - Roma, 1623), cardeal e arcebispo de Bolonha a partir de 1616, ascendeu ao trono pontifício em fevereiro de 1621, sucedendo Paulo V. De saúde já muito débil, passa a ser ajudado pelo jovem sobrinho, Ludovico Ludovisi, que de fato tomou as rédeas do governo pontifício. Na política externa, melhorou as relações da Santa Sé com a Inglaterra, financiou e apoiou o imperador Fernando II na guerra dos trinta anos e favoreceu a volta da Boêmia e da Morávia ao catolicismo. Admirador e protetor dos jesuítas, canonizou santo Inácio de Loyola e são Luís Gonzaga. Além disso, promulgou o códice eleitoral do conclave, instituiu a congregação da imunidade eclesiástica e a "De Propaganda Fide" e elevou a sé episcopal de Paris a arcebispado. Empenhou-se muito pela purificação dos costumes eclesiásticos.
___________________________________________________________Eleição do papa Bento XIII.
___________________________________________________________Bento XIII (no século, Pier Francesco Orsini, papa; Gravina, Bari, 1649 - Roma, 1730), sucessor de Inocêncio XIII, foi papa de 1724 a 1730. De família nobre, renunciou à primogenitura para ingressar na Ordem dominicana. Cardeal com apenas 23 anos, ao ser eleito papa continuou a luta contra os jansenistas, confirmando as regras de fé contidas na bula "Unigenitus" de Clemente XI.
___________________________________________________________Inocêncio X condena o jansenismo com a bula "Cum occasione".
___________________________________________________________Inocêncio X (no século Giambattista Pamphili; Roma, 1574-1655), pertencente a uma família da nobreza, foi advogado consistorial e auditor de Rota, depois núncio em Nápoles (1621-25) e na Espanha (1626). Nomeado cardeal em 1629, sucedeu o papa Urbano VIII em 1644, apesar da oposição francesa. Pressionado pelo cardeal G. R. Mazzarino, que ameaçava separar Avignon da Santa Sé (1645), teve de retirar a condenação contra os Barberini, acusados de peculato cometido durante o pontificado de Urbano VIII. Hostil à família Farnese, deu continuidade à política do predecessor, apoderando-se de Castro (1649) e destruindo-a. Partidário da paz européia, ao fim da Guerra dos Trinta Anos, porém, opôs-se (com a bula "Zelus domus meae", 1650) às decisões do congresso de Vestfália, que reconhecia o luteranismo e o calvinismo. Por outro lado, lutou contra as heresias, especialmente contra o jansenismo, que condenou com a bula "Cum occasione" (1653). No âmbito administrativo, tentou frear a decadência então em curso e lançou as bases de uma organização estatal, criando a figura do secretário de Estado. Espírito culto e grande mecenas, protegeu artistas de valor, dentre os quais Pinturicchio, A. Mantegna, F. Lippi e Perugino, transformando a cúria romana em um dos centros mais ativos da cultura renascentista.
Nova condenação do jansenismo.
Alexandre VII emana a bula "Cum ad Sancti Petri sedem". Alexandre VII (no século Fabio Chigi; Siena, 1599 - Roma, 1667), secretário de Estado de Inocêncio X (1651), foi eleito papa após a morte deste (1655), depois de um conclave que durou três meses. Recebeu, em Roma, Cristina da Suécia (1655), convertida ao catolicismo. Teve confrontos violentos com o rei da França, Luís XIV, fomentados pelo cardeal G. R. Mazzarino e pelo embaixador da França, duque de Créquy, e foi obrigado a se submeter às suas prepotências. Alexandre VII combateu duramente os jansenistas, na França e nos Países-Baixos, e contra eles promulgou algumas bulas de condenação, dentre as quais a "Cum ad Sancti Petri sedem" de 1656. Embelezou Roma com obras que marcaram, especialmente com G. L. Bernini, o ápice da arte barroca na cidade. Difusão da corrente mística denominada quietismo graças sobretudo ao teólogo espanhol Miguel Molinos.
___________________________________________________________Inocêncio XI condena o quietismo.
___________________________________________________________Inocêncio XI (no século Benedetto Odescalchi; Como, 1611 - Roma, 1689), orientando-se para a carreira eclesiástica depois de abandonar a militar, exerceu cargos importantes na administração pontifícia, valendo-se de sua preparação jurídica. Nomeado cardeal pelo papa Inocêncio X (1645), foi governador de Ferrara (1650) e bispo de Novara (1650-54), sendo eleito papa após a morte de Clemente X em 1676. Rigidamente contrário ao nepotismo, aboliu o cargo de "cardeal nepote" e procurou realizar a reforma dos costumes sociais. Valendo-se da obra do cardeal secretário de Estado A. Cybo, aplicou rígidas regras de economia com o objetivo de sanear as finanças do Estado. Contrário ao probabilismo teológico e moral dos jesuítas, pareceu inclinar-se para o jansenismo e o quietismo, mas condenou o teólogo M. de Molinos em 1687. Enérgico defensor da autoridade do papado, entrou em conflito com o rei da França, Luís XIV, por causa da Declaração dos Quatro Artigos (1682), que afirmava as liberdades galicanas, e não se submeteu a ele nem mesmo depois que as tropas francesas ocuparam Avignon. Partidário de uma grande cruzada cristã contra os turcos, cujo projeto, porém, jamais se realizou, contribuiu para a conclusão do tratado de Nimega (1677-78), da trégua de Ratisbona (1684) e para a Liga Santa em defesa de Viena (1683) e de Budapeste (1686), contra a ofensiva turca. Venerado como santo, foi beatificado pelo papa Pio XII
___________________________________________________________O quietismo é uma concepção místico-religiosa que busca a união do homem com Deus por meio de um estado de passividade ("quiete") e de total abandono da vontade que atenua ou suprime toda responsabilidade moral. No âmbito do cristianismo oriental, elementos quietistas podem ser encontrados entre os missalianos ou êuquitas, condenados pelo Concílio de Éfeso (431), e entre os monges hesicastas do monte Atos. No Ocidente, o quietismo está expresso em algumas tendências dos cátaros, dos Irmãos do Livre Espírito, dos beguinos ou begardos e dos alumbrados espanhóis. A doutrina do quietismo, porém, só se explicitou no século XVII no âmbito de algumas correntes no seio da Igreja católica, influenciadas pelo protestantismo. Seu principal expoente foi o espanhol Miguel de Molinos, confessor e diretor espiritual muito apreciado em Roma desde 1663, que, em seu "Guia espiritual", sustentava a perfeita quietude e passividade da alma diante de Deus, de forma a excluir toda atividade e aspiração própria do homem. Em 1675, publicou o "Breve tratado de la comunión cotidiana" (Breve tratado sobre a comunhão cotidiana) e o "Guia espiritual que desembaraza el alma y la conduce por el interior camino para alcanzar la perfecta contemplación y el rico tesoro de la paz interior" (Guia espiritual que liberta a alma e a conduz pelo caminho interior para alcançar a perfeita contemplação e o rico tesouro da paz interior), em que estão contidos os princípios fundamentais do quietismo, encabeçados pelo princípio da superioridade da contemplação sobre a meditação. Dez anos mais tarde, ao que parece atendendo a solicitação explícita dos jesuítas, Molinos foi preso sob a acusação de heresia (1685). Obrigado a abjurar, por fim foi condenado à prisão perpétua, com a bula "Caelestis Pastor" do papa Inocêncio XI (1687). Na França, Madame Guyon e seu confessor, F. Lacombe, promoveram o desenvolvimento de tendências quietistas, cujos vestígios também estão presentes na polêmica sobre o "amor puro" entre J. B. Bossuet e F. Fénelon, que terminou com a condenação das teses de Fénelon por Inocêncio XII (1699).
___________________________________________________________Primeira condenação da maçonaria com a bula "In eminenti" de Clemente XII.
___________________________________________________________Clemente XII (no século Lorenzo Corsini, papa; Florença, 1652 - Roma, 1740), arcebispo titular da Nicomédia (1691), foi nomeado cardeal por Clemente XI (1706). Eleito papa aos 79 anos (1730), afastou dos ambientes da cúria o cardeal Coscia, favorito de seu predecessor, Bento XIII, e particularmente malvisto pelos romanos. Teve complicadas controvérsias jurisdicionais com o ministro B. Tanucci em Nápoles, com Portugal, França e com Carlos Emanuel III de Sabóia. Suprimiu muitos abusos, condenando os cardeais culpados de corrupção. Deve-se a ele a primeira condenação da maçonaria com a constituição "In eminenti" (1738).
A "Encyclopédie" é abertamente condenada durante o pontificado de Clemente XIII. O papa rejeita o pedido de supressão da Companhia de Jesus feito pelos Estados católicos.
___________________________________________________________Clemente XIII (no século Carlo Rezzonico; Veneza, 1693 - Roma, 1769), governador de Rieti e posteriormente de Fano, indicado cardeal-diácono por Clemente XII (1737), foi nomeado bispo de Pádua (1743). Eleito papa (1758) para suceder Bento XIV, demonstrou, ao contrário deste, grande rigidez e combateu a difusão das idéias iluministas. Entre outras atitudes, condenou abertamente a "Encyclopédie". Todo o pontificado de Clemente XIII foi absorvido pela questão da abolição da Companhia de Jesus, requerida por muitos países. Os jesuítas haviam sido expulsos de Portugal (1758), da França (1764), da Espanha (1767), dos outros Estados regidos pela dinastia de Bourbon, mas o papa recusou-se a aderir ao pedido de supressão da Ordem. Premido pelos Estados europeus, convocou uma congregação cardinalícia para discutir a questão, mas morreu de repente.
___________________________________________________________Clemente XIV suprime a Companhia de Jesus.
___________________________________________________________Clemente XIV (no século Giovanni Vincenzo Ganganelli; Sant'Arcangelo di Romagna, Forlì, 1705 - Roma, 1774), frade da Ordem dos menores conventuais, professor de teologia, foi chamado a Roma pelo papa Bento XIV, que o nomeou diretor do colégio São Boaventura (1740) e depois consultor do Santo Ofício (1746). Nomeado cardeal por Clemente XIII (1759), dez anos depois foi eleito seu sucessor. Diante do problema da supressão da Ordem dos jesuítas, não resolvido por seu predecessor, julgou conveniente para os interesses da Igreja dar seu consentimento ao pedido feito por tantos Estados católicos e, com a bula "Dominus ac Redemptor noster", suprimiu a Companhia de Jesus (1773). Seu gesto foi severamente julgado pelo colégio cardinalício e ainda hoje é discutido pelos historiadores, que o consideram governado por simpatias pelo jansenismo e fruto de pressões políticas da França e da Espanha. O nome de Clemente XIV está ligado, juntamente com o de seu sucessor Pio VI, ao museu Pio-Clementino, fundado por ele. Também deve-se a ele o início da secagem dos Pauis Pontinos.
___________________________________________________________Pio VI condena a assembléia revolucionária francesa.
___________________________________________________________Pio VI (no século, Giannangelo Braschi; Cesena, Forlì, 1717 - Valence, Delfinado, 1799), secretário do cardeal-legado T. Ruffo, referendário da Assinatura (1758), tesoureiro da Câmara apostólica (1766) e cardeal (1773), sucedeu o papa Clemente XIV em 1775, depois de ter se comprometido a não reconstituir a Companhia de Jesus. De caráter moderado e conciliador, teve de enfrentar problemas gravíssimos, dentre os quais o jurisdicionalismo, contra Fernando IV de Nápoles (supressão dos conventos, recusa da homenagem da hacanéia [cavalo branco que os reis de Nápoles ofereciam todos os anos ao papa, como feudatários da Igreja] e também contra o imperador José II (generalização da obrigação do "placet", juramento dos bispos, publicação do edito de tolerância), motivo pelo qual decidiu viajar para Viena em fevereiro de 1782. Apesar da acolhida triunfal, porém, o resultado de sua viagem foi quase nulo. Por outro lado, o jansenismo criou-lhe problemas também no Grão-Ducado da Toscana devidos a Scipione de' Ricci (outra tentativa de conciliação com a bula "Auctorem fidei", 1794). O problema da Companhia de Jesus influenciou as relações com a czarina Catarina II da Rússia (que se recusou a aceitar a abolição da Ordem). Em relação à Revolução francesa, o papa manifestou-se a respeito da constituição civil do clero (condenada em 10 de março de 1791), da conspiração jacobina nos Estados Pontifícios (1794), do assassinato de H. de Basseville. Depois de constituírem a República Cisalpina no norte da Itália, em 1797, e, no mesmo ano, Napoleão ter imposto o tratado de Tolentino (com a expoliação das legações de Bolonha, Ferrara e Avignon), e também em decorrência do assassinato do general L. Duphot, os franceses invadiram Roma com suas tropas. O papa foi levado como prisioneiro para Siena, para Florença e, por fim, para Valence, onde morreu em 24 de agosto de 1799. Pio VI é lembrado também como grande mecenas (entre outros, protegeu A. Canova e J. L. David) e promotor tanto do enxugamento dos Pauis Pontinos como da construção da estrada Velletri-Terracina.