Meu Natal Pagão
Por Jonobie Ford ([email protected])
Traduzido por Worgtal
Quando me identifiquei pela primeira vez como neo-pagã, eu era, como muitas novatas, uma leitora voraz de livros, websites, e todas as coisas neo-pagãs. Eu li sobre a Roda do Ano; eu li rituais; eu li ensaios. Comecei minha primeira viagem em torno da Roda do Ano neo-pagã. E depois, enquanto minha religião tornava-se um pouco mais confortável e um pouco menos "livresca", percebi que agora não estava mais guardando todos os dias santos. Além disso, eu não queria ter que desistir de meus dias santos culturais, tais como Natal e Páscoa. E eu não tinha a energia para manter tanto os meus amados dias santos culturais e todos os meus novos feriados religiosos. Eu sentia como se minha vida estivesse se partindo em dois segmentos - um religioso e um secular.
Por escolha, sou uma solitária, o que me dá bastante liberdade sobre quando e como celebrar dias santos. Isto também significa que eu não tenho uma comunidade religiosa fisicamente presente ao meu redor, o que significa que a cultura onde vivo, de certo modo, é bem tipicamente americana - um cadinho de religiões, tradições e cenários diferentes. No inverno, tanto por causa da liberdade e do isolamento, eu comemoro o Natal. Participo de todo o coração das tradições natalinas - a ceia, o Festival das Luzes anual em minha cidade, a frenética abertura dos presentes em alguma hora ímpia na manhã de 25 de Dezembro e às vezes, um ritual para receber o período de inverno e o retorno da luz.
Por que eu escolhi abandonar o velho feriado de Yule e comemorar alternativamente um dia santo que é vinculado à cristandade? Porque eu acredito que o Natal é o legítimo herdeiro de quaisquer dias santos que nossos ancestrais praticavam. Este dia santo, outrora reivindicado pelos cristãos, tem sido reivindicado também pela América secular, e já mudou tanto que afinal, para muitas pessoas, pouco tem a ver com a cristandade. Ele é, essencialmente, um completo festival cultural de inverno com suas próprias imagens - uma mistura de antigas imagens pagãs de uma variedade de culturas, simbolismo cristão religioso e folclore e mitologia cultural atual. Em resumo, ele é um produto das forças transformadoras do tempo - e é um período tão importante precisamente porque é um velho e orgânico produto da nossa cultura e das culturas de nossos ancestrais. É um dia santo que não pertence a ninguém e pode ser comemorado por muitos. Por exemplo, é comum para diferentes elementos da sociedade desenfatizar aspectos deste festival de inverno que são menos importantes para eles. Meus pais, por exemplo, ignoravam completamente o aspecto cristão do feriado. Muitos cristãos evitam os aspectos seculares.
As religiões pagãs históricas eram freqüentemente tão entretecidas com a cultura que era difícil separar as duas. Mesmo hoje, algumas línguas não têm uma divisão precisa entre as palavras "religião" e "cultura" como no inglês; em vez disso, tem uma única palavra que representa ambas. A vantagem disso é que os dias santos que são de natureza tanto cultural quanto religiosa tem cada um destes aspectos apoiando o outro em um todo unificado. A religião de alguém não está colocada contra a cultura - é uma parte orgânica dela. Religiões não-pagãs têm tentado freqüentemente separar-se da sociedade e cultura (e portanto, dos festivais de tal sociedade e cultura), para alcançar pureza ou para evitar o envolvimento com o mundo material. Isto tem vantagens também - a saber, criar uma forte identidade religiosa de grupo. Mas tem a desvantagem do isolacionismo.
Na minha prática, não há nada inerentemente especial ou mágico quanto a dias de festival. Antes, eles são períodos que reservo para dedicar ao meu relacionamento com meus deuses e a natureza, e épocas em que estou treinada para estar especialmente consciente da sacralidade de tudo à minha volta. Visto que minha prática enfatiza laços culturais, escolhi comemorar o mesmo feriado que a minha tribo - isto é, minha comunidade. Dado que a comunidade na qual vivo comemora principalmente o Natal em vez de Yule, eu comemoro o Natal. Um aspecto importante da minha fé é a fusão da minha religião e da minha vida diária num todo inconsútil.
Sendo pagã na América, adotar feriados culturais americanos como meus feriados religiosos tem muitas vantagens. Por exemplo, eu posso comemorar o Natal com meus colaboradores, meus amigos, meus pais seculares e meu marido cristão e os pais dele. Apesar de que todos comemoramos por razões diferentes, nossa celebração comunal nos une, em vez de nos dividir por linhas religiosas, e a cultura em que todos vivemos, sustenta e reforça todas as nossas celebrações. E visto que eu comemorei o Natal a minha vida toda, cada passagem por esta parte do ano tem gatilhos embutidos que me relembram das passagens anteriores. Ver coisas tais como homens vestidos de Papai Noel, árvores de Natal e cantores de coral, é tudo o que eu fui ensinada, desde pequena, a associar com a palavra "Natal" e todo o imaginário, generosidade e emoções que estão ligadas a esta palavra. Este é o valor das tradições continuadas. Eu simplesmente não posso me convencer a substituir este maravilhoso feriado, com todos os seus rituais e tradições culturalmente sustentadas, por um novo nome, data e tradições - simplesmente porque a data e o nome do tal feriado é antigo.
Sem levar em conta a minha religião, eu poderia comemorar o Halloween, Dia de Ação de Graças, Natal, Páscoa, dia dos Namorados e aniversários. Para mim, eles formam, junto com os quatro Festivais do Fogo, partes integrais da minha Roda do Ano pessoal. Eu tenho comemorado uma variação desta Roda do Ano a minha vida inteira - tornar-me neo-pagã apenas acrescentou os Festivais do Fogo e uma dimensão religiosa para meus feriados já comemorados. Assim, o Natal é o festival de inverno da minha infância, acrescido da devoção aos meus deuses, e eu continuarei a comemorar meu festival de primavera com as tradições e o nome de Páscoa.
Eu não estou tentando argumentar que aqueles que celebram Yule por razões teológicas não o devam fazer. Eu compreendo que, particularmente para muitos wiccans, celebrar a mitologia da deusa e do deus é parte integral de sua prática religiosa. Outros acreditam que solstícios são épocas de poder mágico ou que isto é importante para comemorar equilibradamente os oito dias santos. De qualquer forma, há também uma grande satisfação obtida em criar a sua própria Roda do Ano pessoal - uma que seja apoiada por qualquer que seja a cultura em que você viva, e que una velhas tradições de infância com a sua religião. Não há motivo pelo qual neo-pagãos não possam comemorar, como parte de sua religião, dias santos que tenham sido tocados por pagãos, cristãos ou influências culturais. Nossos ancestrais pagãos estavam freqüentemente muito confortáveis em adaptar costumes seculares ou costumes de outras religiões em suas celebrações religiosas. Não deveríamos nós nos sentir confortáveis fazendo o mesmo?