Dr. John L. Flynn
Traduzido por Alexis Lemos ([email protected])
Hoje, quando muitos de n�s se voltam nostalgicamente para a fic��o cient�fica "pulp", o que vemos freq�entemente � uma agrega��o de cada clich� e elemento melodram�tico das revistas baratas dos anos 1930 e 1940, bem como dos filmes de m� fic��o cient�fica dos anos 1950 e 1960. O que n�s n�o percebemos ou costumamos negligenciar, � que quando estas hist�rias foram publicadas originalmente, muitas das id�ias sobre viagem interestelar, mundos alien�genas, cientistas loucos, capit�es intr�pidos e suas aguerridas tripula��es eram bastante recentes. H� uma raz�o pela qual este per�odo � chamado de Idade de Ouro da Fic��o Cient�fica. Tudo o que lemos hoje deve algo �s tradi��es e conven��es das obras que estavam sendo produzidas neste per�odo. Ignorar escritores como Ray Cummings ou L. Ron Hubbard � ignorar os gigantes sobre cujos ombros se erguem os escritores de hoje. As primitivas hist�rias de FC "pulp" tiveram um efeito explosivamente libertador em suas primeiras audi�ncias jovens, especialmente aquelas que chegavam � maturidade em cidadezinhas ou fazendas atrav�s dos Estados Unidos... e mudaram para sempre o g�nero que conhecemos e amamos hoje.
A Idade de Ouro da Fic��o Cient�fica � geralmente reconhecida como um per�odo de vinte anos entre 1926 e 1946 quando um punhado de escritores, incluindo Clifford Simak, Jack Williamson, Isaac Asimov, John W. Campbell, Robert Heinlein, Ray Bradbury, Frederick Pohl e L. Ron Hubbard, estavam publicando hist�rias de fic��o cient�fica altamente originais em revistas "pulp". Embora o formato da primeira revista "pulp" remonte a 1896, quando Frank A. Munsey criou "The Argosy", foi somente em 1926, quando Hugo Gernsback publicou o primeiro n�mero de "Amazing Stories" que a fic��o cient�fica ganhou seu f�rum pr�prio. Outras revistas de fic��o cient�fica "pulp", incluindo "Astounding Science Fiction", "Startling Stories", "Weird Tales", "Unknown" e "The Magazine of Fantasy & Science Fiction", logo se seguiriam. As revistas "pulp" floresceram porque podiam ser manufaturadas de modo econ�mico a partir da polpa de madeira quimicamente tratada, e vendidas � baixo custo para audi�ncias famintas por divers�o e aventura. As hist�rias "pulp" enfatizavam a��o, romance, hero�smo, mundos ex�ticos, aventuras fant�sticas e quase invariavelmente, finais bem humorados e otimistas. Hoje, estas hist�rias s�o relembradas com grande afeto e nostalgia pelos f�s de fic��o cient�fica por conta de sua abordagem simples e direta.
As hist�rias cl�ssicas dos "pulps" dos anos 1930 e 40, contavam com elementos familiares de enredo para narrar hist�rias interessantes e mandat�rias. Conven��es populares como viagem mais r�pida que a luz, cientistas loucos, rob�s e monstros, civiliza��es perdidas, e "space opera", formavam a base da hist�ria.
Civiliza��es alien�genas perdidas contendo muitas maravilhas, incluindo um tipo de energia nuclear, e a evid�ncia de que teriam visitado a Terra muitos milhares de anos antes da ascens�o do homem, eram parte destas hist�rias. Os alien�genas em "Creator" (1935) de Clifford Simak e "The Sentinel" (1951) de Arthur C. Clarke (*) distanciaram-se tanto de suas contrapartes humanas que aparecem quase como deuses. Mas no limiar de sua maior realiza��o - o controle de m�quinas unicamente com o pensamento - foram ceifados em uma �nica noite como os altivos alien�genas em "The Star" (1955) de Clarke. A vasta e misteriosa civiliza��o retira-se do planeta e permanece sepultada por meio milh�o de anos. Hist�rias similares nas revistas "pulp" de fic��o cient�fica, falaram de vastas e misteriosas civiliza��es alien�genas e dos intr�pidos homens do espa�o que as encontraram, incluindo "First Men in the Moon" (1901) de H.G. Wells e "Voyage of the Space Beagle" (1951) de A.E. van Vogt.
Comandantes intr�pidos e suas incans�veis tripula��es 100% masculinas eram basicamente os recortes de papel�o de cada homem do espa�o que procurava por aventura nas "space operas" da fic��o cient�fica "pulp". "Space opera", um termo cunhado por Wilson Tucker em 1941, referia-se a hist�rias espaciais de aventura nas quais her�is intr�pidos e desbravadores do espa�o iam "audaciosamente onde nenhum homem jamais esteve", encarando perigos em um milhar de mundos alien�genas diferentes. T�o longe quanto 1900, com "The Struggle for Empire" de Robert William Cole, aventuras espaciais consistiam em carregar armas, matar monstros enfurecidos e tornar a gal�xia um lugar mais seguro para o resto de n�s, mais ou menos do mesmo modo que os caub�is limparam o velho oeste com seus rev�lveres. As hist�rias mais populares, incluindo as s�ries "Skylark" e "Lensman" de E. E. "Doc" Smith e os romances do "Captain Future" de Edmund Hamilton, eram direcionadas ao mercado juvenil e atra�am principalmente adolescentes do sexo masculino. Mais tarde, vemos evid�ncias disto nos filmes e na televis�o dos anos 1950. [Por exemplo: em "Planeta Proibido" o comandante J. J. Adams (segundo a interpreta��o do canastr�o Leslie Nielsen) � o modelo do verdadeiro homem do espa�o moderno, com seu comportamento forte, enf�tico, e boa apar�ncia; cria da mesma ninhada que Tom Corbett e Buzz Corey (**), ele representava o capit�o de astronave de queixo quadrado, unidimensional. Ao seu lado, Doc Ostrow (Warren Stevens), o oficial de ci�ncias l�gico, e o Tenente Jerry Farman (Jack Kelly), o primeiro oficial convencido e sentimental, completam um triunvirato familiar que tem suas ra�zes nas aventuras espaciais juvenis de Robert A. Heinlein e que mais tarde formariam o trio de personagens centrais em "Jornada nas Estrelas". A id�ia b�sica de Adams e sua tripula��o 100% masculina de caub�is do espa�o j� era velha em termos de fic��o cient�fica no tempo em que "Planeta Proibido" foi feito, e parece agora ainda mais fora-de-moda e antiquada.]
Bem mais fora-de-moda eram o cientista louco e sua filha ing�nua e inocente. O arqu�tipo do cientista louco n�o mais carrega o peso liter�rio de indiferen�a moral e �tica que tinha outrora, e agora � considerado um clich� ou piada de mau gosto. Cada cientista louco era um descendente direto de Aylmer, o alquimista de "The Birthmark" (1840) de Nathaniel Hawthorne; de Jack Griffin, o cientista com ideais elevados n'"O Homem Invis�vel"(1897) de Wells, e do cientista louco quintessencial e s�mbolo do racionalismo cient�fico, Dr. Victor Frankenstein. N�o importa qu�o objetivo e bem intencionado o grande doutor pudesse ser, ele ainda estava inclinado a produzir um monstro. Nas revistas "pulp" dos anos 1930 e 1940, o cientista louco tornou-se o equivalente liter�rio do vil�o bigodudo do melodrama barato. As primeiras revistas "pulp" apresentaram mais do que sua cota m�dia de mulheres seminuas que precisavam ser resgatadas das garras de cientistas loucos, alien�genas predadores e rob�s descontrolados; de fato, as edi��es mais bem sucedidas eram geralmente aquelas com ilustra��es sensacionalistas de mulheres peitudas em perigo, criadas por Earle Bergey e outros, porque apelavam para os interesses l�bricos das audi�ncias juvenis.
Rob�s nos "pulps" ou eram descontrolados, ou gentis e benevolentes, os medos e sonhos da ci�ncia concretizados. Antes de 1940, rob�s eram vistos como trabalhadores escravos, como no "Rossum�s Universal Robots" (1921) de Karel Capek, ou monstros descontrolados, do "Frankenstein" (1818) de Mary Shelley ao "Plus and Minus" (1929) de Franz Harper. Nos anos 1940, por determina��o expressa do editor John W. Campbell, Isaac Asimov compilou uma lista de regras ou mandamentos, os quais se imaginava serem gravados nos c�rebros positr�nicos de cada rob�, e explorou como esses mandamentos afetavam o comportamento dos rob�s em "Robbie" (1940), "Liar" (1940), e outros contos. Estas regras ou mandamentos tornaram-se conhecidas posteriormente como as Tr�s Leis da Rob�tica: 1) Um rob� n�o pode ferir um ser humano ou por ina��o, permitir que um ser humano venha a se ferir; 2) Um rob� deve obedecer as ordens dadas por um ser humano exceto quando tais ordens conflitarem com a Primeira Lei; 3) Um rob� deve proteger sua pr�pria exist�ncia desde que tal prote��o n�o conflite com a Primeira ou Segunda Leis. Alguns rob�s encararam os mesmos dilemas morais que os rob�s de Asimov. Como o Adam Link de Eando Binder, os rob�s da "City" (1952) de Clifford Simak, e tantos outros homens de metal da era "pulp", os rob�s subseq�entes s�o am�veis e valiosos servos do homem e de modo algum monstros descontrolados.
Os monstros das revistas "pulp" n�o seguiam mandamentos ou leis, exceto a lei da sobreviv�ncia. Depois que o Frankenstein de Mary Shelley criou o primeiro homem artificial e o rejeitou por causa de sua fei�ra e natureza deca�da, monstros feitos pelo homem t�m sido um produto b�sico da fic��o cient�fica. Nos primeiros "pulps", os monstros provaram ser uma tarefa f�cil para o her�i intr�pido, e eram abundantes, quando n�o inteiramente cr�veis ou detalhados. O primeiro monstro invis�vel apareceu em "The Thing from Outside" (1926) de George Allan England, publicado no pr�prio primeiro n�mero de "Amazing Stories". Muitos outros monstros se seguiram, dos de olhos esbugalhados (como em "Dark Moon" [1931], de Charles Diffin) aos transmorfos (como em "Who Goes There?" [1938], de John W. Campbell). O monstro � um produto dos sombrios desejos do cientista louco de bancar Deus, e eventualmente � destru�do por ele, numa repeti��o da hist�ria de Frankenstein.
A velocidade mais r�pida que a luz de muitas espa�onaves e ve�culos espaciais nas revistas "pulp" era um artif�cio necess�rio � trama. Com as vastas dist�ncias entre as v�rias estrelas (e planetas), muitas hist�rias de fic��o cient�fica "pulp" se escoravam em tecno-baboseiras para explicar como as espa�onaves atingiam a velocidade da luz ou pr�xima dela e ainda conseguiam chegar ao destino decorridas somente umas poucas semanas. Conceitos como portais de salto, velocidade "warp" e hiperdrive foram usados para esclarecer a viagem mais r�pida que a luz. E.E. "Doc" Smith engajou-se na "in�rcia menos impulso" nos romances Lensman, e Asimov apoiou-se no "stardrive" nos livros da "Funda��o". O primeiro autor a invocar o conceito de hiperespa�o - um tipo de quarta dimens�o onde naves poderiam viajar em alt�ssimas velocidades - foi John W. Campbell em "The Mightiest Machine" (1934), enquanto Robert Heinlein contentou-se em usar a viagem mais r�pida que a luz para levar seus personagens de um lado a outro da gal�xia sem um monte de explica��es dispens�veis em seus livros juvenis.
Uma vez que H. G. Wells instituiu "A M�quina do Tempo" (originalmente publicada como "The Chronic Argonauts" no "Science Schools Journal", 1888; expandido e revisado em 1895), o homem tornou-se subitamente capaz de controlar suas jornadas para tr�s e para frente no tempo. Ao levar seu an�nimo viajante do tempo numa viagem ao futuro distante, e depois traz�-lo de volta em seguran�a ao presente, Wells estabeleceu o padr�o para a maioria das hist�rias modernas de viagem no tempo. O autor de "pulps" Raymond Cummings foi o primeiro a expandir as teorias de Wells com "The Man Who Mastered Time" ("Argosy", 1924), "The Shadow Girl" ("Argosy", 1929) e "The Exile of Time" ("Argosy", 1931). Como suas contrapartes do s�culo dezenove, eles estavam mais interessados em usar a m�quina do tempo como um artif�cio de enredo para colocar seus protagonistas em mundos ex�ticos do que em documentar suas caracter�sticas tecnol�gicas. Por exemplo, os viajantes do "Twilight" (1932) e "Night" (1935) de John W. Campbell, confrontam um futuro distante no qual o homem h� muito deixou de existir, enquanto o her�i de P. Schuyler Miller descobre-se milh�es de anos no passado, testemunhando uma invas�o alien�gena em "The Sands of Time" (1937). Outras hist�rias, notadamente "Legion of Time" (1938) de Jack Williamson, introduziram a no��o de patrulhas do tempo e guerra temporal, com a possibilidade de paradoxos temporais e mundos alternativos.