Aqueles dentre nós que têm estado no Cambridge SF Workshop (CSFW) por algum tempo, desenvolvemos uma abordagem para crítica que achamos que nos serve bem. Estes princípios - nosso Manifesto de Crítica - nos ajudam a trabalhar em conjunto para criar a melhor ficção que pudermos.
Freqüentemente, grupos de discussão naufragam porque as pessoas têm razões diferentes para participar. Todos no CSFW concordam com um princípio básico:
Estamos aqui para ajudar um ao outro a produzir nossa melhor ficção.Todos os outros objetivos estão subordinados à este. Se você quer lidar com questões pessoais na sua ficção, tudo bem, mas se o resultado for má ficção, você não pode se defender dizendo que consigo aconteceu desse jeito.
Concordamos com um compromisso de dois gumes sobre a crítica: (A)Diga a verdade, e (B)Critique a prosa, não o escritor.
Como crítico, não resenhista, comente sobre algo que lhe motive. Edite linhas se você desejar. Discuta a motivação dos personagens. Questione a ciência de borracha. Sugira linhas alternativas para a trama. Identifique claramente o que você acha que precisa de melhoria.
Ao mesmo tempo, você deve respeitar o direito do autor de contar sua própria história. Para assegurar-se de que a crítica entenderá o objetivo de uma obra criticada por partes (como um romance), o autor freqüentemente apresenta um apanhado dos objetivos da história. Sem isto, os críticos por vezes interpretam mal a intenção do autor e desta forma sugerem melhorias que vão contra o que o autor estava tentando realizar. Críticos têm o dever de ajudar o autor a alcançar os objetivos dele (ou dela) - não os próprios. Você pode não gostar de fantasia heróica, mas se está criticando um autor que a escreve, tem de fornecer sugestões para fazê-la mais fantástica ou mais heróica. Você não está aqui para exigir que um autor mude sua pauta. Você pode sugerir outras pautas, mas se o autor decliná-las, você deve ajudar o autor a seguir o caminho dele, não o seu. Vários tópicos se seguem a esse:
A - Você deve fazer o trabalho: É inaceitável dizer "eu nunca li histórias de ação militares, portanto não vou comentar isso". Errado. Aqui você não está lendo por prazer. Você está aqui porque outras pessoas concordaram em trabalhar com o seu material. E elas não o farão a menos que você trabalhe com o delas. Ponha mãos à obra, mesmo se você estiver lutando para achar o que dizer.
B - Comece Pelo Geral: Se algo te aborrece repetidamente, exponha o tema geral primeiro. Os outros participantes - que não escreveram o material mas o leram, da mesma forma que o crítico - podem avaliar o tema geral e pensar sobre isso.
C - Então Seja Específico: Não é suficiente dizer, "os personagens são canhestros e a trama é lenta". Quais personagens? Quando eles não reagem apropriadamente? Onde a ação decai? Por que você acha que ela é lenta? Identificar capítulo e versículo como ilustração ajuda a que todos examinem o assunto.
D - Depois Seja Construtivo: Uma vez que tenha identificado o problema, sugira uma solução. "Ela não devia apenas ficar lá sentada quando ele a ameaça, devia dar na cara dele". Mostre-nos como você melhoraria o que acha que o autor fez deficientemente.
O autor, naturalmente, não tem de seguir sua sugestão, mas o ato de examinar um enredo alternativo é enormemente útil. Também muito freqüentemente, escritores encaram suas histórias como não tendo opções - elas têm de ocorrer de um jeito específico. A experiência reveladora de examinar uma estrada totalmente diferente irá freqüentemente estimular o processo de raciocínio de alguém, de modo que o autor criará uma terceira opção, nem a sua escolha original nem a alternativa do crítico, mas algo melhor que ambas.
Enquanto autor, você deve absorver o que é dito à você. Isto não significa que deva aceitar ou rejeitar, significa que deve ouvir. Você deve encarar isso seriamente como sendo motivado para o seu benefício. Talvez você retruque ao seu crítico, "Eu estava tentando fazer isso, mas não descobri o jeito. Como eu poderia fazer aquela idéia (sentimento, tema, perspectiva) trabalhar para você?"
Ser criticado numa mesa redonda de grupo de discussão não é divertido. Você senta-se lá, nu e exposto, enquanto alguém examina suas falhas com um microscópio. Ufa! Um bando de outras pessoas que também leram seu material concordam com o crítico. Ufa duplo! Emocionalmente você está agitado, mas intelectualmente compreende que um bom pedaço do que está sendo dito é absolutamente correto. Assim, você nem mesmo tem a defesa normal de racionalizar que seu crítico está cheio de empáfia.
Como podemos passar por isso e ainda voltar para repetir a dose? Porque a prosa torna-se melhor. Assim como o exercício, que machuca na hora mas produz resultados, grupos de discussão revelam todas as falhas e permitem que você as corrija. E ao ir para lá, não é preferível ouvir antes os problemas de umas poucas pessoas em particular do que ter editor após editor reconhecendo-as, rejeitando sua história e nunca lhe contando o porquê? Ou pior, ter sua história publicada com todas as suas falhas eternizadas, para que centenas de pessoas reparem e cacarejem a respeito?
Eis o porquê nos nossos grupos:
A - Sem gente de fora: Você não pode sentir-se vulnerável face às outras pessoas se houver alguém que possa servir de alvo. Tudo o que sobe, desce, senão a tentação de cair de pau sobre uma vítima indefesa seria grande demais.
B - Todos devem contribuir periodicamente: Uma pessoa que passa muito tempo num grupo de discussão sem contribuir torna-se efetivamente um forasteiro.
C - Você tem de confiar: Você tem de acreditar que as pessoas estão realmente tentando lhe ajudar, senão vai se fechar aos comentários.
D - As coisas são colocadas por escrito: Você pode reagir à elas mais tarde, depois que os sentimentos feridos se acalmarem.
E - Com o passar do tempo, nos tornamos muito respeitosos uns com os outros: Não guardamos mágoas em termos de identificar e bater em problemas... mas somos todos extremamente solícitos com as intenções alheias.
Temos tido pessoas se aborrecendo quanto a ceder idéias ou quando perguntados por idéias. "Não vou escrever a sua história por você!" Esse medo é válido? Se você escreve algo e eu sugiro uma idéia para aperfeiçoá-la, você não tem de aceitar isso. Este ato de aceitação ou rejeição - esta escolha artística e literária - significa que você ainda é o autor, incluindo tudo, até o fim.
Agora, e quanto a mim? Cheguei com esta ótima idéia e a dei à você. Minha engenhosidade está por aparecer impressa sob o seu nome. Será que não fui passado pra trás?
Em 19 anos de crítica, nunca me senti desta forma. Pra começar, sempre recebo montes e montes de ótimas idéias do grupo de discussão. Meu trabalho é temperado com elas. Elas fazem meus livros mais fortes. Segundo, minha idéia que vai aparecer na sua história nunca teria ocorrido à mim não fosse pelo fato de você ter criado um ambiente onde ela estourasse na minha cabeça. Eu lhe dei os benefícios de uma ou duas horas de raciocínio e recebi de volta idéias que nunca teria desenvolvido com dez horas de pensamento. Ambos ficamos felizes.
Enquanto as coisas estiverem razoavelmente recíprocas, todo mundo ganha.
Se você continuar assim, mais cedo ou mais tarde todo mundo irá ser publicado. Todo mundo progride. Todo mundo consegue. Quando isto ocorre, cada pessoa no grupo de discussão pode compartilhar este sentimento maravilhoso, porque todos contribuíram para fazê-lo acontecer.