"Técnica Literária"

Por Robert J. Sawyer

Descrevendo

Traduzido por Alexis Lemos (ab_lemos AT ig.com.br)

Robert J. Sawyer é um dos maiores escritores canadenses de FC de todos os tempos, já tendo sido premiado com os principais prêmios da categoria em língua inglesa, como o Nebula Award.


Muitos anos atrás, o The New Yorker publicou um cartum no qual a anfitriã de uma festa classuda aborda um de seus convidados: "Acabo de saber que você escreveu um romance baseado no roteiro de alguém. Por favor, deixe minha casa imediatamente."

É verdade que novelizações são a antítese da literatura, mas quando eu era adolescente, desesperado por aprender como escrever, li dúzias delas. Por quê? Porque numa obra de ficção, cada nuance pode ser descrita em palavras. Era fascinante ver os meios pelos quais os escritores descreviam cenas que eu já havia visto na tela grande.

(Na verdade, como seria de esperar, a maioria das novelizações são escritas antes do filme estar pronto. Os autores das versões impressas provavelmente nunca viram um único fotograma do filme, logo, a forma como descrevem a ação é com freqüência totalmente diferente da forma como foi realmente filmada.)

Para os escritores iniciantes da atualidade, há disponível uma ferramenta melhor do que novelizações: os novos filmes em vídeo interpretados para cegos. Eles usam o canal de áudio secundário para fornecer um comentário paralelo, freqüentemente de alto calibre, descrevendo em palavras vívidas a cena que está se desenrolando simultaneamente em imagens. Assistí-los pode ser um modo excelente de aprender como trazer uma cena à vida, verbalmente; o melhor destes que vi foi a versão para cegos de Casablanca.


Embora eu faça parte da minoria que acha que Star Trek: The Motion Picture é um dos melhores filmes de FC jamais feitos, quase todo mundo gosta do último trecho de diálogo no filme.

Infelizmente, a novelização de ST:TMP foi feita por ninguém menos que Gene Roddenberry (e ela é tão desajeitada, diferentemente da novelização de Star Wars, a qual é reputada à George Lucas mas foi de fato escrita por Alan Dean Foster, que estou inclinado a acreditar que Roddenberry realmente a cometeu). Como Roddenberry retrata este momento-chave na versão impressa? Apenas repetindo o diálogo, sem qualquer descrição real:

Kirk voltou-se para o leme. "Nos tire de órbita, Sr. Sulu."
"Rumo, senhor?" Perguntou DiFalco.
Kirk indicou genericamente à frente. "Por ali. Naquela direção."

Agora, vejamos como poderia ter sido melhor transcrita. Lembre-se, uma cena em qualquer livro tem de transportar ela mesma toda a carga emocional; não deve ser imaginada como uma mera transcrição de algo que as pessoas já viram:

Jim estava de volta ao assento central. Não era sua velha cadeira, mas ele faria com que passasse a ser. Ele ouviu o zumbido dos pequenos motores nas costas da cadeira ergonômica enquanto ela se ajustava à sua coluna.
Ele sabia que todos na ponte estavam esperando pelo que faria em seguida; era a sua nave, finalmente e novamente, e ele estava de volta ao lugar ao qual pertencia. Em frente a ele, podia ver as nucas de Sulu e DiFalco, e entre eles -
-entre eles, as estrelas, firmes, fixass, acenando.
O coração de Jim estava pulando. Ele permitiu-se um momento para recuperar a compostura, e então deu a ordem familiar: "Sr. Sulu, em frente, dobra um."
A voz de Sulu estava plena de excitação, com antecipação. "Dobra um, senhor," ele confirmou, enquanto deslizava para a frente o controle mestre de velocidade em seu painel do leme. As chapas dos deques começaram imediatamente a vibrar e um zumbido crescente encheu o ar.
O Chefe DiFalco voltou-se em seu assento para olhar para Kirk. "Rumo, senhor?"
Jim ainda estava mergulhado na beleza do cosmos. Ele inclinou-se para a frente, e sua voz saiu quase num sussurro. "Por ali," ele disse.
Ele relanceou à sua direita; Scotty estava de p� ao lado dele, sobrancelhas erguidas.
Jim não pôde suprimir por completo o sorriso que crescia em seu rosto. Ele estava de volta, e a aventura estava apenas começando. Ele balançou a mão em frente, despreocupadamente.
"Naquela direção..."

O truque é apelar tanto para as emoções quanto para os sentidos: diga-nos o que as pessoas estão sentindo, o que elas estão pensando, e, quando for apropriado, o que elas estão vendo, ouvindo, tocando, provando e cheirando.

Você tem muito mais controle sobre a experiência do leitor do que um diretor de cinema. Um diretor não tem certeza sobre qual parte do quadro um dado espectador pode estar olhando, mas quando você escreve "havia sujeira debaixo de suas unhas, o legado de décadas de trabalho de campo arqueológico," você sabe exatamente o que o leitor está contemplando.

Certamente, você não deverá sobrecarregar cada pedaço do trabalho com montes de detalhes; pode ser o bastante dizer "ela pegou o ônibus para o trabalho." Mas quando algo grande está acontecendo, aumente o montante de descrição; pense em suas palavras como uma música de fundo crescente, denotando a importância da cena.

A descrição faz mais do que apenas tornar vívida a imagem da história para o leitor; ela também permite que você controle o andamento das sensações. Não se limite a exclamar, "O mordomo é o culpado!" Antes, frua o momento, estique as coisas, construa o suspense, faça o leitor esperar:

"Certamente, todos vocês sabem agora quem é o assassino," disse o detetive. Ele fez uma pausa, olhando de rosto em rosto, observando o mar de expressões - medo e agitação e raiva, um homem mordendo seu lábio inferior, outro assentando nervosamente o cabelo, uma mulher com olhos dardejando à esquerda e direita. O relógio sobre o aparador da lareira tiquetaqueou ruidosamente um novo minuto. A chuva continuava a bater contra a janela em ritmo de staccato. O detetive, explorando o momento em todo o seu drama, estendeu o indicador e brandiu-o lentamente de um peito para o outro até que por fim ele veio a apontar para a repelente faixa verde-amarelada. "O mordomo é o culpado!"

Pausas não têm de ser grandes para transmitir intensidade. Aqui vai uma cena completa do romance Children of the Rainbow de Terence M. Green, publicado em 1992:

Já era quase meia-noite quando McTaggart tomou a decisão.
"Eu acho," ele disse,"que deveríamos chegar mais perto."
Os outros o encararam.
"Talvez quinze milhas de distância."
Ninguém disse uma palavra.
"Forçar a barra deles."

Apesar dos outros personagens não fazerem nada, a inação deles comunica seu nervosismo, sua determinação falha, o medo de que o líder deles tenha ultrapassado o limite. Tente fazer isso sem a descrição:

"Eu acho que deveríamos chegar mais perto. Talvez quinze milhas de distância. Forçar a barra deles."

Nada. Sem tensão. Sem suspense. Descrição não é enchimento - ela é o coração e a alma da boa escrita.


©1996-2004 by R.J. Sawyer
Página atualizada em 22/08/2004
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