<bgsound src="passo.mid"> FAMOSOS
 
GRANDE SERTÃO: VEREDAS
 João Guimarães Rosa

 Nonada. Tiros que o senhor ouviu 
 foram de briga de homem não, Deus 
 esteja. Alvejei mira em árvore, no 
 quintal, no baixo do córrego. Por meu 
 acerto. Todo dia isso faço, gosto; 
 desde mal em minha mocidade. Daí, 
 vieram me chamar. Causa dum 
 bezerro: um bezerro branco, erroso, 
 os olhos de nem ser se viu; e com 
 máscara de cachorro. Me disseram; 
 eu não quis avistar. Mesmo que, por 
 defeito como nasceu, arrebitado de 
 beiços, essa figurava rindo feito 
 pessoa. Cara de gente, carão de cão: 
 determinaram era o demo. Povo 
 prascóvio. Mataram. Dono dele nem 
 sei quem for. Vieram emprestar 
 minhas armas, cedi. Não tenho 
 abusões. O senhor ri certas risadas... 
 Olhe: quando é tiro de verdade, 
 primeiro a cachorrada pega a latir, 
 instantaneamente depois, então, se 
 vai ver se deu mortos. O senhor 
 tolere, isto é o sertão. Uns querem 
 que não seja: que situado sertão é 
 por os campos-gerais a fora a dentro, 
 eles dizem, fim de rumo, terras altas, 
 demais do Urucaia. Toleima. Para os 
 de Corinto e do Curvelo, então o aqui 
 não é dito sertão? Ah, que tem maior! 
 Lugar sertão se divulga: é onde os 
 pastos carecem de fechos; onde um 
 pode torar dez, quinze léguas, sem 
 topar com casa de morador; e onde 
 criminoso vive seu cristo-jesus, 
 arredado do arrocho de autoridade. O 
 Urucuia vem dos montões oestes. 
 Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá 
 fazendões de fazendas, almargem de 
 vargens de bom render, as vazantes; 
 culturas que vão de mata em mata, 
 madeiras de grossura, até ainda 
 virgens dessas lá há. O gerais corre 
 em volta. Esses gerais são sem 
 tamanho. Enfim, cada um o que quer 
 aprova, o senhor sabe: pão ou pães, 
 é questão de opiniões... O sertão 
 está em toda a parte.

 Do demo? Na gloso. Senhor pergunte 
 aos moradores. Em falso receio, 
 desfalam no nome dele dizem só: o 
 Que-Diga. Vôte! não... Quem muito 
 se evita, se convive. Sentença num 
 Aristides o que existe no buritizal 
 primeiro desta minha mão direita, 
 chamado a 
 Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita 
 todo mundo crê: ele não pode passar 
 em três lugares, designados: porque 
 então a gente escuta um chorinho, 
 atrás, e uma vozinha que avisando: 
 "Eu já vou! Eu já vou!..." que é o 
 capiroto, o que-diga... E um Jisé 
 Simpilício quem qualquer daqui jura 
 ele tem um capeta em casa, miúdo, 
 satanazim, preso obrigado a ajudar 
 em toda ganância que executa; razão 
 que o Simpilício se empresa em vias 
 de completar de rico. Apre, por isso 
 dizem também que a besta pra ele 
 rupeia, nega de banda, não deixando, 
 quando ele quer amontar... 
 Superstição. Jisé Simpilício e 
 Aristides, mesmo estão se 
 engordando, de assim não-ouvir ou 
 ouvir. Ainda o senhor estude: agora 
 mesmo, nestes dias de época, tem 
 gente porfalando que o Diabo próprio 
 parou, de passagem, no Andrequicé. 
 Um Moço de fora, teria aparecido, e 
 lá se louvou que para aqui vir normal, 
 a cavalo, dum dia-e-meio ele era 
 capaz que só uns vinte minutos 
 bastava... porque costeava o Rio do 
 Chico pelas cabeceiras! Ou, também, 
 quem sabe sem ofensas não terá 
 sido, por um exemplo, até mesmo o 
 senhor quem se anunciou assim, 
 quando passou por lá, por prazido 
 divertimento engraçado? Há-de, não 
 me dê crime, sei que não foi. E mal 
 eu não quis. Só que uma pergunta, 
 em hora, às vezes, clareia razão de 
 paz. Mas, o senhor entenda: o tal 
 moço, se há, quis mangar. Pois, 
 hem, que, despontar o Rio pelas 
 nascentes, será a mesma coisa que 
 um se redobrar nos internos deste 
 nosso Estado nosso, custante viagem 
 de uns três meses... Então? 
 Que-Diga? Doideira. A fantasiação. E, 
 o respeito de dar a ele assim esses 
 nomes de rebuço, é que é mesmo um 
 querer invocar que ele forme forma 
 com as presenças!

 Não seja. Eu, pessoalmente, quase 
 que já perdi nele a crença, mercês a 
 Deus; é o que ao senhor lhe digo, à 
 puridade. Sei que é bem 
 estabelecido, que grassa nos 
 Santos-Evangelhos. Em ocasião, 
 conversei com um rapaz seminarista, 
 muito condizente, conferindo no livro 
 de rezas e revestido de paramenta, 
 com uma vara de maria-preta na mão 
 proseou que ia adjutorar o padre, 
 para extraírem o Cujo, do corpo vivo 
 de uma velha, na 
 Cachoeira-dos-Bois, ele ia com o 
 vigário do Campo-Redondo... Me 
 concebo. O senhor não é como eu? 
 Não acreditei patavim. Compadre 
 meu Quelemém descreve que o que 
 revela efeito são os baixos espíritos 
 descarnados, de terceira, fuzuando 
 nas piores trevas e com ânsias de se 
 travarem com os viventes dão 
 encosto. Compadre meu Quelemém é 
 quem muito me consola Quelemém 
 de Gois. Mas ele tem de morar longe 
 daqui, da Jijujã, Vereda do Buriti 
 Pardo... Arres, me deixe lá, que em 
 endemoninhamento ou com encosto 
 o senhor mesmo deverá de ter 
 conhecido diversos homens, 
 mulheres. Pois não sim? Por mim, 
 tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, 
 Sangue-d’Outro, o Muitos-Beiços, o 
 Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o 
 Fancho-Bode, um Treciziano, o 
 Azinhavre... o Hermógenes... Deles, 
 punhadão. Se eu pudesse esquecer 
 tantos nomes... Não sou amansador 
 de cavalos! E, mesmo, quem de si de 
 ser jagunço se entrete, já é por 
 alguma competência entrante do 
 demônio. Será não? Será?

 De primeiro, eu fazia e mexia, e 
 pensar não pensava. Não possuía os 
 prazos. Vivi puxando difícil de difícel, 
 peixe vivo no moquém: quem mói no 
 asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, 
 feita a folga que me vem, e sem 
 pequenos dessossegos, estou de 
 range rede. E me inventei neste 
 gosto, de especular idéia. O diabo 
 existe e não existe? Dou o dito. 
 Abrenúncio. Essas melancolias. O 
 senhor vê: existe cachoeira; e pois? 
 Mas cachoeira é barranco de chão, e 
 água se caindo por ele, retombando; 
 o senhor consome essa água, ou 
 desfaz o barranco, sobra cachoeira 
 alguma? Viver é negócio muito 
 perigoso...

 Explico ao senhor: o diabo vige 
 dentro do homem, os crespos do 
 homem ou é o homem arruinado, ou 
 o homem dos avessos. Solto, por si, 
 cidadão, é que não tem diabo 
 nenhum. Nenhum! é o que digo. O 
 senhor aprova? Me declare tudo, 
 franco é alta mercê que me faz: e 
 pedir posso, encarecido. Este caso 
 por estúrdio que me vejam é de 
 minha certa importância. Tomara não 
 fosse... Mas, não diga que o senhor, 
 assisado e instruído, que acredita na 
 pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! 
 Sua alta opinião compõe minha valia. 
 Já sabia, esperava por ela já o 
 campo! Ah, a gente, na velhice, 
 carece de ter sua aragem de 
 descanso. Lhe agradeço. Tem diabo 
 nenhum. Nem espírito. Nunca vi. 
 Alguém devia de ver, então era eu 
 mesmo, este vosso servidor. Fosse 
 lhe contar... Bem, o diabo regula seu 
 estado preto, nas criaturas, nas 
 mulheres, nos homens. Até: nas 
 crianças eu digo. Pois não é ditado: 
 "menino trem do diabo"? E nos usos, 
 nas plantas, nas águas, na terra, no 
 vento... Estrumes... O diabo na rua, 
 no meio do redemunho...

 Hem? Hem? Ah. Figuração minha, de 
 pior pra trás, as certas lembranças. 
 Mal haja-me! Sofro pena de contar 
 não... Melhor, se arrepare: pois, num 
 chão, e com igual formato de ramos 
 e folhas, não dá a mandioca mansa, 
 que se come comum, e a 
 mandioca-brava, que mata? Agora, o 
 senhor já viu uma estranhez? A 
 mandioca-doce pode de repente virar 
 azangada motivos não sei; às vezes 
 se diz que é por replantada no 
 terreno sempre, com mudas 
 seguidas, de manaíbas vai em 
 amargando, de tanto em tanto, de si 
 mesma toma peçonhas. E, ora veja: 
 a outra, a mandioca-brava, também é 
 que às vezes pode ficar mansa, a 
 esmo, de se comer sem nenhum mal. 
 E que isso é? Eh, o senhor já viu, por 
 ver, a feiúra de ódio franzido, 
 carantonho, nas faces duma cobra 
 cascavel? Observou o porco gordo, 
 cada dia mais feliz bruto, capaz de, 
 pudesse, roncar e engulir por sua 
 suja comodidade o mundo todo? E 
 gavião, corvo, alguns, as feições 
 deles já representam a precisão de 
 talhar, para adiante, rasgar e 
 estraçalhar a bico, parece uma quicé 
 muito afiada por ruim desejo. Tudo. 
 Tem até tortas raças de pedras, 
 horrorosas, venenosas que estragam 
 mortal a água, se estão jazendo em 
 fundo de poço; o diabo dentro delas 
 dorme: são o demo. Se sabe? E o 
 demo que é só assim o significado 
 dum azougue maligno tem ordem de 
 seguir o caminho dele, tem licença 
 para campear?! Arre, ele está 
 misturado em tudo.

 Que o que gasta, vai gastando o 
 diabo de dentro da gente, aos 
 pouquinhos é o razoável sofrer. E a 
 alegria de amor compadre meu 
 Quelemém diz. Família. Deveras? É, e 
 não é. O senhor ache e não ache. 
 Tudo é e não é... Quase todo mais 
 grave criminoso feroz, sempre é 
 muito bom marido, bom filho, bom 
 pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! 
 Sei desses. Só que tem os depois e 
 Deus, junto. Vi muitas nuvens.

 [...]

 MARIA MUTEMA

 E o Jõe contava casos. Contou. Caso 
 que se passou no sertão jequitinhão, 
 no arraial de São João Leão, perto da 
 terra dele, Jõe. Caso de Maria 
 Mutema e do Padre Ponte.

 Naquele lugar existia uma mulher, 
 por nome Maria Mutema, pessoa 
 igual às outras, sem nenhuma 
 diversidade. Uma noite, o marido 
 dela morreu, amanheceu morto de 
 madrugada. Maria Mutema chamou 
 por socorro, reuniu todos os mais 
 vizinhos. O arraial era pequeno, 
 todos vieram certificar. Sinal nenhum 
 não se viu, e ele tinha estado nos 
 dias antes em saúde apreciável, por 
 isso se disse que só de acesso do 
 coração era que podia ter querido 
 morrer. E naquela tarde mesma do 
 dia dessa manhã, o marido foi bem 
 enterrado.

 Maria Mutema era senhora vivida, 
 mulher em preceito sertanejo. Se 
 sentiu, foi em si, se sofreu muito não 
 disse, guardou a dor sem 
 demonstração. Mas isso lá é regra, 
 entre gente que se diga, pelo visto a 
 ninguém chamou atenção. O que deu 
 em nota foi outra coisa: foi a religião 
 da Mutema, que daí pegou a ir à 
 igreja todo santo dia, afora que de 
 três em três agora se confessava. 
 Dera em carola se dizia só constante 
 na salvação de sua alma. Ela sempre 
 de preto, conforme os costumes, 
 mulher que não ria esse lenho seco. 
 E, estando na igreja, não tirava os 
 olhos do padre.

 O padre, Padre Ponte, era um 
 sacerdote bom-homem, de 
 meia-idade, meio gordo, muito 
 descansado nos modos e de todos 
 bem estimado. Sem desrespeito, só 
 por verdade no dizer, uma pecha ele 
 tinha: ele relaxava. Gerara três filhos, 
 com uma mulher, simplória e 
 sacudida, que governava a casa e 
 cozinhava para ele, e também acudia 
 pelo nome de Maria, dita por aceita 
 alcunha a Maria do Padre. Mas não vá 
 maldar o senhor maior escândalo 
 nessa situação com a ignorância dos 
 tempos, antigamente, essas coisas 
 podiam, todo o mundo achava trivial. 
 Os filhos, bem-criados e bonitinhos, 
 eram "os meninos da Maria do 
 Padre". E em tudo mais o Padre Ponte 
 era um vigário de mão cheia, 
 cumpridor e caridoso, pregando com 
 muita virtude seu sermão e 
 atendendo em qualquer hora do dia 
 ou da noite, para levar aos roceiros o 
 conforto da santa hóstia do Senhor 
 ou dos santos-óleos.

 Mas o que logo se soube, e disso se 
 falou, era em duas partes: que a 
 Maria Mutema tivesse tantos pecados 
 para de três em três dias necessitar 
 de penitência de coração e boca; e 
 que o Padre Ponte visível tirasse 
 desgosto de prestar a ela pai-ouvido 
 naquele sacramento, que entre dois 
 só dois se passa e tem de ser por 
 ferro de tanto segredo resguardado. 
 Contavam, mesmo, que, das 
 primeiras vezes, povo percebia que o 
 padre ralhava com ela, terrível, no 
 confessionário. Mas a Maria Mutema

 se desajoelhava de lá, de olhos 
 baixos, com tanta humildade serena, 
 que uma santa padecedora mais 
 parecia. Daí, aos três dias, retornava. 
 E se viu, bem, que Padre Ponte todas 
 as vezes fazia uma cara de 
 verdadeiro sofrimento e temor, no ter 
 de ir, a junjo, escutar a Mutema. Ia, 
 porque confissão clamada não se 
 nega. Mas ia a poder de ser padre, e 
 não de ser homem, como nós.

 E daí mais, que, passando o tempo, 
 como se diz: no decorrido, Padre 
 Ponte foi adoecido ficando, de doença 
 para morrer, se viu logo. De dia em 
 dia, ele emagrecia, amofinava o 
 modo, tinha dores, e em fim 
 encaveirou, duma cor amarela de 
 palha de milho velho; dava pena. 
 Morreu triste. E desde por diante, 
 mesmo quando veio outro padre para 
 o São João Leão, aquela mulher Maria 
 Mutema nunca mais voltou na igreja, 
 nem por rezas nem por entrar. 
 Coisas que são. E ela, dado que viúva 
 soturna assim, que não se cedia em 
 conversas, ninguém não alcançou de 
 saber por que lei ela procedia e 
 pensava.

 Por fim, no porém, passados anos, 
 foi o tempo de missão, e chegaram 
 no arraial os missionários. Esses 
 eram dois padres estrangeiros, p’ra 
 fortes e de caras coradas, bradando 
 sermão forte, com forte voz, com fé 
 braba. De manhã à noite, durado de 
 três dias, eles estavam sempre na 
 igreja, pregando, confessando, 
 tirando rezas e aconselhando, com 
 entusiasmados exemplos que 
 enfileiravam o povo no bom rumo. A 
 religião deles era alimpada e 
 enérgica, com tanta saúde como 
 virtude; e com eles não se brincava, 
 pois tinham de Deus algum encoberto 
 poder, conforme o senhor vai ver, 
 por minha continuação. Só que no 
 arraial foi grassando aquela boa 
 bem-aventurança.

 Aconteceu foi no derradeiro dia, isto 
 é, véspera, pois no seguinte, que 
 dava em domingo, ia ser festa de 
 comunhão geral e glória santa. E foi 
 de noite, acabada a bênção, quando 
 um dos missionários subiu no púlpito, 
 para a prédica, e tascava de começar 
 de joelhos, rezando a salve-rainha. E 
 foi nessa hora que a Maria Mutema 
 entrou. Fazia tanto tempo que não 
 comparecia em igreja; e por que foi, 
 então, que deu de vir?

 Mas aquele missionário governava 
 com luzes outras. Maria Mutema veio 
 entrando, e ele esbarrou. Todo o 
 mundo levou um susto: porque a 
 salve-rainha é oração que não se 
 poder partir em meio em desde que 
 de joelhos começada, tem de ter 
 suas palavras seguidas até aos 
 tresfim. Mas o missionário retomou a 
 fraseação, só que com a voz 
 demudada, isso se viu. E, mal no 
 amém, ele se levantou, cresceu na 
 beira do púlpito, em brasa vermelho, 
 debruçado, deu um soco no pau do 
 peitoril, parecia um touro tigre. E foi 
 de grito:

 "A pessoa que por derradeiro entrou, 
 tem de sair! A p’ra fora já, já, essa 
 mulher!"

 Todos, no estarrecente, caçavam de 
 ver a Maria Mutema.

 "Que saia, com seus maus segredos, 
 em nome de Jesus e da Cruz! Se 
 ainda for capaz de um 
 arrependimento, então pode ir me 
 esperar, agora mesmo, que vou ouvir 
 sua confissão... Mas confissão esta 
 ela tem de fazer é na porta do 
 cemitério! Que vá me esperar lá, na 
 porta do cemitério, onde estão dois 
 defuntos enterrados!..."

 Isso o missionário comandou: e os 
 que estavam dentro da igreja 
 sentiram o rojo dos exércitos de 
 Deus, que lavoram em fundura e 
 sumidade. Horror deu. Mulheres 
 soltaram gritos, e meninos, outras 
 despencavam no chão, ninguém ficou 
 sem se ajoelhar. Muitos, muitos, 
 daquela gente, choravam.

 E Maria Mutema, sozinha em pé, torta 
 magra de preto, deu um gemido de 
 lágrimas e exclamação, berro de 
 corpo que faca estraçalha. Pediu 
 perdão! Perdão forte, perdão de fogo, 
 que da dura bondade de Deus 
 baixasse nela, em dores de urgência, 
 antes de qualquer hora de nossa 
 morte. E rompeu fala, por entre 
 prantos, ali mesmo, a fim de perdão 
 de todos também, se confessava. 
 Confissão edital, consoantemente, 
 para tremer exemplo, raio em 
 pesadelo de quem ouvia, público, que 
 rasgava gastura, como porque 
 avessava a ordem das coisas e o 
 quieto comum do viver transtornava. 
 Ao que ela onça monstra, tinha 
 matado o marido e que ela era cobra, 
 bicho imundo, sobrado do podre de 
 todos os estercos. Que tinha matado 
 o marido, aquela noite, sem motivo 
 nenhum, sem malfeito dele nenhum, 
 causa nenhuma; por que, nem sabia. 
 Matou enquanto ele estava dormindo 
 assim despejou no buraquinho do 
 ouvido dele, por um funil, um terrível 
 escorrer de chumbo derretido. O 
 marido passou, lá o que diz do oco 
 para o ocão do sono para a morte, e 
 lesão no buraco do ouvido dele 
 ninguém não foi ver, não se notou. E, 
 depois, por enjoar do Padre Ponte, 
 também sem ter queixa nem razão, 
 amargável mentiu, no confessionário: 
 disse, afirmou que tinha matado o 
 marido por causa dele, Padre Ponte 
 porque dele gostava em fogo de 
 amores, e queria ser concubina 
 amásia... Tudo era mentira, ela não 
 queria nem gostava. Mas, com ver o 
 padre em justa zanga, ela disso 
 tomou gosto, e era um prazer de 
 cão, que aumentava de cada vez, 
 pelo que ele não estava em poder de 
 ser defender de modo nenhum, era 
 um homem manso, pobre coitado, e 
 padre. Todo o tempo ela vinha em 
 igreja, confirmava o falso, mais 
 declarava edificar o mal. E daí, até 
 que o Padre Ponte de desgosto 
 adoeceu, e morreu em desespero 
 calado... Tudo crime, e ela tinha 
 feito! E agora implorava o perdão de 
 Deus, aos uivos, se esguedelhando, 
 torcendo as mãos, depois as mãos 
 no alto ela levantada.

 Mas o missionário, no púlpito, entoou 
 grande o Bendito, louvado seja! e, 
 enquanto cantando mesmo, fazia os 
 gestos para as mulheres todas 
 saírem da igreja, deixando lá só 
 homens, porque a derradeira 
 pregação de cada noite era mesmo 
 sempre para os ouvintes sonhores 
 homens, como conforme.

 E no outro dia, domingo do Senhor, o 
 arraial ilustrado com arcos e cordas 
 de bandeirolas, e espoco de festa, 
 foguetes muitos, missa cantada, 
 procissão mas todo o mundo só 
 pensava naquilo. Maria Mutema, 
 recolhida provisória presa na 
 casa-de-escola, não comia, não 
 sossegava, sempre de joelhos, 
 clamando seu remorso, pedia perdão 
 e castigo, e que todos viessem para 
 cuspir em sua cara e dar bordoadas. 
 Que ela exclamava tudo isso merecia. 
 No meio-tempo, desenterraram da 
 cova os ossos do marido: se conta 
 que a gente sacolejava a caveira, e a 
 bola de chumbo sacudia lá dentro, 
 até tinia! Tanto por obra de Maria 
 Mutema. Mas ela ficou no São João 
 Leão ainda por mais de semana, os 
 missionários tinham ido embora. Veio 
 autoridade, delegado e praças, 
 levaram a Mutema para culpa e júri, 
 na cadeia de Arassuaí. Só que, nos 
 dias em que ainda esteve, o povo 
 perdoou, vinham dar a ela palavras 
 de consolo, e juntos rezarem. 
 Trouxeram a Maria do Padre, e os 
 meninos da Maria do Padre, para 
 perdoarem também, tantos surtos 
 produziam bem-estar e edificação. 
 Mesmo, pela arrependida humildade 
 que ela principiou, em tão 
 pronunciado sofrer, alguns diziam 
 que Maria Mutema estava ficando 
 santa.

 E foi isso que Jõe Bexiguento a mim 
 contou, e que de certo modo me 
 divagasse. [...]

 (Grande sertão: Veredas, 1956.)

 A TERCEIRA MARGEM DO RIO

 Nosso pai era homem cumpridor, 
 ordeiro, positivo; e sido assim desde 
 mocinho e menino, pelo que 
 testemunharam as diversas sensatas 
 pessoas, quando indaguei a 
 informação. Do que eu mesmo me 
 alembro, ele não figurava mais 
 estúrdio nem mais triste do que os 
 outros, conhecidos nossos. Só 
 quieto. Nossa mãe era quem regia, e 
 que ralhava no diário com a gente 
 minha irmã, meu irmão e eu. Mas se 
 deu que, certo dia, nosso pai mandou 
 fazer para si uma canoa.

 Era a sério. Encomendou a canoa 
 especial, de pau de vinhático, 
 pequena, mal com a tabuinha da 
 popa, como para caber justo o 
 remador. Mas teve de ser toda 
 fabricada, escolhida forte e arqueada 
 em rijo, própria para dever durar na 
 água por uns vinte ou trinta anos. 
 Nossa mãe jurou muito contra a 
 idéia. Seria que, ele, que nessas artes 
 não vadiava, se ia propor agora para 
 pescarias e caçadas? Nosso pai nada 
 não dizia. Nossa casa, no tempo, 
 ainda era mais próxima do rio, obra 
 de nem quarto de légua: o rio por aí 
 se estendendo grande, fundo, calado 
 que sempre. Largo, de não se poder 
 ver a forma da outra beira. E 
 esquecer não posso, do dia em que a 
 canoa ficou pronta.

 Sem alegria nem cuidado, nosso pai 
 encalcou o chapéu e decidiu um 
 adeus para a gente. Nem falou outras 
 palavras, não pegou matula e trouxa, 
 não fez a alguma recomendação. 
 Nossa mãe, a gente achou que ela ia 
 esbravejar, mas persistiu somente 
 alva de pálida, mascou o beiço e 
 bramou: "Cê vai, ocê fique, você 
 nunca volte!" Nosso pai suspendeu a 
 resposta. Espiou manso para mim, 
 me acenando de vir também, por uns 
 passos. Temi a ira de nossa mãe, 
 mas obedeci, de vez em jeito. O 
 rumo daquilo me animava, chega que 
 um propósito perguntei: "Pai, o 
 senhor me leva junto, nessa sua 
 canoa?" Ele só retornou o olhar em 
 mim, e me botou a bênção, com 
 gesto me mandando para trás. Fiz 
 que vim, mas ainda virei, na grota do 
 mato, para saber. Nosso pai entrou 
 na canoa e desamarrou, pelo remar. 
 E a canoa saiu de indo a sobra dela 
 por igual, feito um jacaré, comprida 
 longa.

 Nosso pai não voltou. Ele não tinha 
 ido a nenhuma parte. Só executava a 
 invenção de se permanecer naqueles 
 espaços do rio, de meio a meio, 
 sempre dentro da canoa, para dela 
 não saltar, nunca mais. A estranheza 
 dessa verdade deu para estarrecer de 
 todo a gente. Aquilo que não havia 
 acontecia. Os parentes, vizinhos e 
 conhecidos nossos, se reuniram, 
 tomaram juntamente conselho.

 Nossa mãe, vergonhosa, se portou 
 com muita cordura; por isso, todos 
 pensaram de nosso pai a razão em 
 que não queriam falar: doideira. Só 
 uns achavam o entanto de poder 
 também ser pagamento de 
 promessa; ou que, nosso pai, quem 
 sabe, por escrúpulo de estar com 
 alguma feia doença, que seja, a 
 lepra, se desertava para outra sina de 
 existir, perto e longe de sua família 
 dele. As vozes das notícias se dando 
 pelas certas pessoas passadores, 
 moradores das beiras, até do 
 afastado da outra banda descrevendo 
 que nosso pai nunca se surgia a 
 tomar terra, em ponto nem canto, de 
 dia nem de noite, da forma como 
 cursava no rio, solto solitariamente. 
 Então, pois, nossa mãe e os 
 aparentados nossos, assentaram: 
 que o mantimento que tivesse, 
 ocultado na canoa, se gastava; e ele, 
 ou desembarcava e viajava s’embora, 
 para jamais, o que ao menos se 
 condizia mais correto, ou se 
 arrependia, por uma vez, para casa.

 No que num engano. Eu mesmo 
 cumpria de trazer para ele, cada dia, 
 um tanto de comida furtada: a idéia 
 que senti, logo na primeira noite, 
 quando o pessoal nosso 
 experimentou de acender fogueiras 
 em beirada do rio, enquanto que, no 
 alumiado dela, se rezava e se 
 chamava. Depois, no seguinte, 
 apareci, com rapadura, broa de pão, 
 cacho de bananas. Enxerguei nosso 
 pai no enfim de uma hora, tão 
 custosa para sobrevir: só assim, ele 
 no ao-longe, sentado no fundo da 
 canoa, suspendida no liso do rio. Me 
 viu, não remou para cá, não fez sinal. 
 Mostrei o de comer, depositei num 
 oco de pedra do barranco, a salvo de 
 bicho mexer e a seco de chuva e 
 orvalho. Isso, que fiz, e refiz, 
 sempre, tempos a fora. Surpresa que 
 mais tarde tive: que nossa mãe sabia 
 desse meu encargo, só se encobrindo 
 de não saber; ela mesma deixava, 
 facilitando, sobra de coisas, para o 
 meu conseguir. Nossa mãe muito não 
 se demonstrava.

 Mandou vir o tio nosso, irmão dela, 
 para auxiliar na fazenda e nos 
 negócios. Mandou vir o mestre, para 
 nós, os meninos. Incumbiu ao padre 
 que um dia se revestisse, em praia de 
 margem, para esconjurar e clamar a 
 nosso pai o dever de desistir da 
 tristonha teima. De outra, por arranjo 
 dela, para medo, vieram os dois 
 soldados. Tudo o que não valeu de 
 nada. Nosso pai passava ao largo, 
 avistado ou diluso, cruzando na 
 canoa, sem deixar ninguém se chegar 
 à pega ou à fala. Mesmo quando foi, 
 não faz muito, dos homens do jornal, 
 que trouxeram a lancha e 
 tencionavam tirar retrato dele, não 
 venceram: nosso pai se desaparecia 
 para a outra banda, aproava a canoa 
 no brejão, de léguas, que há, por 
 entre juncos e mato, e só ele 
 conhecesse, a palmos, a escuridão 
 daquele.

 A gente teve de se acostumar com 
 aquilo. Às penas, que, com aquilo, a 
 gente mesmo nunca se acostumou, 
 em si, na verdade. Tiro por mim, 
 que, no que queria, e no que não 
 queria, só com nosso pai me achava: 
 assunto que jogava para trás meus 
 pensamentos. O severo que era, de 
 não se entender, de maneira 
 nenhuma, como ele agüentava. De 
 dia e de noite, com sol ou 
 aguaceiros, calor, sereno, e nas 
 friagens terríveis de meio-do-ano, 
 sem arrumo, só com o chapéu velho 
 na cabeça, por todas as semanas, e 
 meses, e os anos sem fazer conta do 
 se-ir do viver. Não pojava em 
 nenhuma das duas beiras, nem nas 
 ilhas e croas do rio, não pisou mais 
 em chão nem capim. Por certo, ao 
 menos, que, para dormir seu tanto, 
 ele fizesse amarração da canoa, em 
 alguma ponta-de-ilha, no esconso. 
 Mas não armava um foguinho em 
 praia, nem dispunha de sua luz feita, 
 nunca mais riscou um fósforo. O que 
 consumia de comer, era só um 
 quase; mesmo do que a gente 
 depositava, no entre as raízes da 
 gameleira, ou na lapinha de pedra do 
 barranco, ele recolhia pouco, nem o 
 bastável. Não adoecia? E a constante 
 força dos braços, para ter tento na 
 canoa, resistindo, mesmo na demasia 
 das enchentes, no subimento, aí 
 quando no lanço da correnteza 
 enorme do rio tudo rola o perigoso, 
 aqueles corpos de bichos mortos e 
 paus de árvore descendo de espanto 
 do esbarro. E nunca falou mais 
 palavra, com pessoa alguma. Nós, 
 também, não falávamos mais nele. 
 Só se pensava. Não, de nosso pai 
 não se podia ter esquecimento; e, se, 
 por um pouco, a gente fazia que 
 esquecia, era só para se despertar de 
 novo, de repente, com a memória, no 
 passo de outros sobressaltos.

 Minha irmã se casou; nossa mãe não 
 quis festa. A gente imaginava nele, 
 quando se comia uma comida mais 
 gostosa; assim como, no gasalhado 
 da noite, no desamparo dessas noites 
 de muita chuva, fria, forte, nosso pai 
 só com a mão e uma cabeça para ir 
 esvaziando a canoa da água do 
 temporal. Às vezes, algum conhecido 
 nosso achava que eu ia ficando mais 
 parecido com nosso pai. Mas eu sabia 
 que ele agora virara cabeludo, 
 barbudo, de unhas grandes, mal e 
 magro, ficado preto de sol e dos 
 pêlos, com o aspecto de bicho, 
 conforme quase nu, mesmo dispondo 
 das peças de roupas que a gente de 
 tempos em tempos fornecia.

 Nem queria saber de nós; não tinha 
 afeto? Mas, por afeto mesmo, de 
 respeito, sempre que às vezes me 
 louvavam, por causa de algum meu 
 bom procedimento, eu falava: "Foi 
 pai que um dia me ensinou a fazer 
 assim..."; o que não era certo, exato; 
 mas, que era mentira por verdade. 
 Sendo que, se ele não se lembrava 
 mais, nem queria saber da gente, por 
 que, então, não subia ou descia o rio, 
 para outras paragens, longe, no 
 não-encontrável? Só ele soubesse. 
 Mas minha irmã teve menino, ela 
 mesma entestou que queria mostrar 
 para ele o neto. Viemos, todos, no 
 barranco, foi num dia bonito, minha 
 irmã de vestido branco, que tinha 
 sido o do casamento, ela erguia nos 
 braços a criancinha, o marido dela 
 segurou, para defender os dois, o 
 guarda-sol. A gente chamou, 
 esperou. Nosso pai não apareceu. 
 Minha irmã chorou, nós todos aí 
 choramos, abraçados.

 Minha irmã se mudou, com o marido, 
 para longe daqui. Meu irmão resolveu 
 e se foi, para uma cidade. Os tempos 
 mudavam, no devagar depressa dos 
 tempos. Nossa mãe terminou indo 
 também, de uma vez, residir com 
 minha irmã, ela estava envelhecida. 
 Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca 
 podia querer me casar. Eu 
 permaneci, com as bagagens da vida. 
 Nosso pai carecia de mim, eu sei na 
 vagação, no rio no ermo sem dar 
 razão do seu feito. Seja que, quando 
 eu quis mesmo saber, e firme 
 indaguei, me diz-que-disseram: que 
 constava que nosso pai, alguma vez, 
 tivesse revelado a explicação, ao 
 homem que para ele aprontara a 
 canoa. Mas, agora, esse homem já 
 tinha morrido, ninguém soubesse, 
 fizesse recordação, de nada, mais. 
 Só as falsas conversas, sem senso, 
 como por ocasião, no começo, na 
 vinda das primeiras cheias do rio, 
 com chuvas que não estiavam, todos 
 temeram o fim-do-mundo, diziam: 
 que nosso pai fosse o avisado que 
 nem Noé, que, por tanto, a canoa ele 
 tinha antecipado; pois agora me 
 entrelembro. Meu pai, eu não podia 
 malsinar. E apontavam já em mim 
 uns primeiros cabelos brancos.

 Sou homem de tristes palavras. De 
 que era que eu tinha tanta, tanta 
 culpa? Se o meu pai, sempre fazendo 
 ausência: e o rio-rio-rio, o rio pondo 
 perpétuo. Eu sofria já o começo de 
 velhice esta vida era só o 
 desmoronamento. Eu mesmo tinha 
 achaques, ânsias, cá de baixo, 
 cansaços, perrenguice de 
 reumatismo. E ele? Por quê? Devia de 
 padecer demais. De tão idoso, não ia, 
 mais dia menos dia, fraquejar do 
 vigor, deixar que a canoa 
 emborcasse, ou que bubuiasse sem 
 pulso, na levada do rio, para se 
 despenhar horas abaixo, em 
 tororoma e no tombo da cachoeira, 
 brava, com o fervimento e morte. 
 Apertava o coração. Ele estava lá, 
 sem a minha tranqüilidade. Sou o 
 culpado do que nem sei, de dor em 
 aberto, no meu foro. Soubesse se as 
 coisas fossem outras. E fui tomando 
 idéia.

 Sem fazer véspera. Sou doido? Não. 
 Na nossa casa, a palavra doido não 
 se falava, nunca mais se falou, os 
 anos todos, não se condenava 
 ninguém de doido. Ninguém é doido. 
 Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. 
 Com um lenço, para o aceno ser 
 mais. Eu estava muito no meu 
 sentido. Esperei. Ao por fim, ele 
 apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, 
 sentado à popa. Estava ali, de grito. 
 Chamei, umas quantas vezes. E falei, 
 o que me urgia, jurado e declarado, 
 tive que reforçar a voz: "Pai, o 
 senhor está velho, já fez o seu 
 tanto... Agora, o senhor vem, não 
 carece mais... O senhor vem, e eu, 
 agora mesmo, quando que seja, a 
 ambas vontades, eu tomo o seu 
 lugar, do senhor, na canoa!..." E, 
 assim dizendo, meu coração bateu no 
 compasso do mais certo.

 Ele me escutou. Ficou em pé. 
 Manejou remo n’água, proava para 
 cá, concordando. E eu tremi, 
 profundo, de repente: porque, antes, 
 ele tinha levantado o braço e feito um 
 saudar de gesto o primeiro, depois de 
 tamanhos anos decorridos! E eu não 
 podia... Por pavor, arrepiados os 
 cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, 
 num procedimento desatinado. 
 Porquanto que ele me pareceu vir: da 
 parte de além. E estou pedindo, 
 pedindo, pedindo um perdão.

 Sofri o grave frio dos medos, adoeci. 
 Sei que ninguém soube mais dele. 
 Sou homem, depois desse falimento? 
 Sou o que não foi, o que vai ficar 
 calado. Sei que agora é tarde, e temo 
 abreviar com a vida, nos rasos do 
 mundo. Mas, então, ao menos, que, 
 no artigo da morte, peguem em mim, 
 e me depositem também nunca 
 canoinha de nada, que não pára, de 
 longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a 
 fora, rio a dentro o rio.

 (Primeiras estórias, 1962.)
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 

 
 

 
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