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TRÊS DE MEUS CONTOS ESPERO QUE APRECIEM...

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

"Nóis nas Frita” 
Orgulhosamente apresenta, numa versão originalmente em Azul & Branco,

SEGUNDÃO BRABO!

Por: Wladimir Favro Linares.

Acordei por volta das oito e meia, a contragosto, graças a um calorão que insistiu em arrancar-me da cama. O sol me acessou, deixando meus olhos emburrecidos. Tive de me abalar de casa sem o café matinal. Como de costume, peguei no tranco juntamente com minha companheira de trabalho, minha CG-80, tanque redondo, baúseira. E lá fomos, para mais uma jornada diária na downtown paulistana.
Meu chefe, nervoso, esperava-me com diversos “presentes”. Como não era Natal, nem meu aniversário, obviamente aqueles pacotes encima da minha mesa eram encomendas e serem entregues. afinal essa era minha funçao naquela empresa. Segundão Brabo! 
Ganhei um congestionamento na avenida Paulista, carregando inúmeros pacotes dourados e reluzentes. Parei na igreja da Consolação, perto do Minhocão, mentalmente, para fazer minha prece. Minha arraigada educação permitia-me o luxo de esperar a procissão de carros seguir para eu desviar à direita para o Minhocão. Alguns segundos que pareceram horas. Segui o trajeto para a Radial, até finalmente, às 10 e meia, 15 graus, chegar ao Largo Treze de Maio. Não a Vinte e Três. Estava em outro mundo. Pessoas estranhas, movimento estranho, cabeças, multidões multicores, “tendas”. Entreguei a enésima encomenda da manhã e então necessitei de um pitstop. Meu estômago cobrou-me uma forragem. O pingado aqueceu-me com uma película grávida de conforto e prazer, fazendo-me abrir a jaqueta. Inebriou-me então um aroma irresistível, de pão e churrasco, misturado à acidez do vinagrete e do suco grátis a $ 1 real. Em Paris, o churrasquinho grego é para a sexta-feira, mas hoje é segundão brabo. Tá valendo!
De volta ao centro conhecido, senti que pagaria caro pelo meu olfato. A iguaria era excelente qualidade, lembrar-me-ia dela o dia todo.
Percorrendo lugares familiares, compreendi que o nome do petisco poderia ser uma clara referência ao conhecido “presente de grego”. 
Lembrei-me então de passar no seu Luiggi, jornaleiro informado do Bexiga, onde costumo atualizar meu repertório sobre o timão, o tempo e sobre todas essas coisas que têm valor nessa vida. Vi que uma notoriedade da MPB faria show para público seleto “ somente hoje”. Logo pensei: Segundão Brabo? Só pra quem pode! 
Finalmente, peguei uma transversal e mandei-me até chegar ao meu QG na Nove de Julho. 6h20. Fazer o quê no apê a essa hora? 
Fui então ao reconfortante boteco do Julião Copo Sujo conversar com a minha cervejinha e com quem aparecesse por lá, por exemplo a rapaziada que defendia o pão do dia da mesma forma que eu. Definitivamente, nossa vida, da turma do cachorro-louco, era um pão sem margarina. 
Cheguei lá sedento. A rapaziada já estava no grau, quase pronto para zarpar. 
Parecia chegar assim ao fim o segundão brabo. Tudo bem, eu estava cansado mesmo. Deu para pedir a segunda latinha antes que a rapaziada se mandasse. O que me restava então era curtir a janta da mãe e apreciar a tela quente que eu já tinha visto no mínimo três vezes. 
Então, terminada a terceira latinha, eu subia pela Consolação quando tive de parar. A bexiga obrigou-me a outro pitstop, desta vez não para reabastecer, precisava aliviar-me do montante bebido. Parei atrás de uma caçamba de entulho para ali poder assoberbar-me com aquele prazer solitário. Mijei feito um cavalo! Que alívio, que alegria! Meu prazer foi subitamente interrompido, porém, antes de eu dar a terceira chacoalhada. Um carrão importado parou bem atrás de mim e de seu interior saltou imprudente um sujeitinho com cabelo molhadogomex, camisinha dentro da calça, sapatinho reluzente. O “mauricinho” regurgitava às golfadas. Provavelmente o caviar e a champanhe francesa excederam em seu estômago sofisticado. Ele se debruçou sobre os joelhos na guia e neste instante lembrei-me do porre que tomei no aniversário da Márcia, após um sonoro fora. Ele fez muita sujeira, lambuzou-se até ficar saciado.
Eu fechei a braguilha em segundos. Achei até que tinha me separado de meu companheiro para sempre. Segundão brabo! Não foi nesse, ainda bem! Ainda na penumbra do susto, de soslaio, vi algo cair de seu bolso. Caiu justamente sobre a coisa amorfa e amarela que ele expeliu. Antes que eu pudesse alertá-lo, no entanto, ele, da mesma forma que surgiu, sumiu, deixando apenas um rastro de pneu queimado no asfalto. Respirei o resto de ar puro que então restava e me acerquei da coisa que caíra de seu paletó. 
Segundão Brabo! ô coisa de parmerense!
Resgatei um objeto molhado de couro preto parecido com uma carteira. Após higienizar-me nas folhas secas da árvore mais próxima, vi que era um depositário de notas, cartões e documentos pessoais. Vasculhando o conteúdo, em busca de um remetente, para quem eu pudesse fazer uma ação boa do dia, encontrei notas de valor graúdo que eqüivaliam a pelo menos dois meses de meu salário suado, e um ingresso de camarote, em uma casa de espetáculos cuja entrada para mim, até então, era pelo setor de serviço. 
Como naquela noite uma cova rasa me esperava, aceitei o latifúndio que o destino me reservara.
Iupi! Era um ingresso de camarote no show vip, para a the best casa paulistana, na única apresentação do figurão da MPB. Se a Márcia me visse agora, o que ela não diria? Ninguém no entanto ver-me-ia, afinal, era segundão brabo! 
Que pena!
Com os presentes contidos naquele objeto de couro, decidi fazer uma visita a um shopping. Adentrei meio temeroso. Afinal, como diz o ditado, quem deve teme ... Mas não era o caso. Eu devia, sim, mas era no boteco do Julião. Mas com aquela bolada eu ia acertar a pendenga no Copo Sujo no dia seguinte ... Entrei timidamente na loja que exibia trajes que até então eu só havia visto o Richard Gere usar, no “ Gigolô americano”. Eu fiquei fascinado com o sucesso que ele fazia vestindo aqueles ternões. Uma atendente aproximou-se de mim, com o ar sorridente que toda boa vendedora possui, tentando empurrar-me as calças jeans pontas de estoque em promoção. Empinei meu pequeno naso, sem intenção de ofendê-la, e disse-lhe que queria ver o blazer que elegantava o manequim da vitrine. Ela titubeou, mas gostei da peça e saí, para a noite, feito gente, como a mamãe e a Márcia diriam. Não me esqueci no entanto do meu uniforme, que foi dentro do baú. Segundão brabo! Esse prometia! 
Sentindo-me importante com a indumentária, solicitei ao manobrista que estacionasse meu veículo com carinho e que tivesse um cuidado especial para não haver dano algum ao baú. No tapete vermelho aveludado do hall de entrada, caminhei orgulhosamente para o local do espetáculo, certo de que não seria convidado à porta de serviço. Fui surpreendido ao ser recepcionado por uma jovem linda que me levou até o lugar indicado no convite. Depois de quatro doses de cortesia oferecidas pela casa, minha sensibilidade veio à tona, fazendo-me ver que o Chico Buarque é de fato um figurão e tanto. Segundão Brabo! Eita nóis! 
Na chapelaria, entre casacos e peles de animais em extinção só dava o meu capacete ralado. Ao sair, percebi alguns olhares dirigidos a mim, com milésimas intenções ... Pela primeira vez na vida fiz-me de difícil, deixando um rastro de Azzarro, no que certamente exagerei por falta de hábito.
Quando cheguei, minha Borinha ganiu em festa ao me ver, evidentemente não antes de me sujar a barra da fina calça. Um copo de leite com chocolate morno e alguns biscoitos Mabel saciaram-me a fominha noturna. 
No aconchego de meu colchão, antes de capotar, pensei comigo: amanhã é terça-feira...
Terção Brabo! Tomara!
 
 
 
 

“Nóis nas Frita” 
Orgulhosamente apresenta, numa versão originalmente em Preto & Branco, O mundo num tem jeito mesmo!!

O cara mal acabara de rodar a roleta do metrô e já ouviu aquele sonoro e nem um pouco educado: Vai a merda!!!
Não era para menos, e tampouco para ele, pois uma senhora tipo “vózinha” explanava sua indignação, a plenos pulmões sem se importar com o público pagante que circulava por ali, revoltava-se ela em relação ao novo aumento da passagem.
Diz o ditado: quem deve teme, muito provavelmente foi esse o sentimento embutido no malandro que o fez sair em disparada e tomar o trem errado em plena hora do Rush...
Meu rosto enrubesceu por alguns milésimos de segundos, mas quase não dei importância ao protesto solitário daquela senhora repleta de razão, afinal vivemos em uma cidade grande, cheia de problemas, se for eu dar importância a todos certamente ficarei louco!
Passei rapidamente a vista na página de esportes para ver como ia minha equipe no campeonato... Não alegraram-me as letras que decifrava entre um sacolejar e outro da composição, um pouco triste resolvi experimentar outro tablóide que positivamente traria-me alguma alegria naquela fria e chuvosa e atípica tardinha de verão; considerei que nem todo dia é dia santo, e, consolado, lá rumei para mais uma baldeação inevitável... 
Naquela manhã acabara de ler o último livro de Hermann Hesse, uma raridade que me havia sido mandada por um amigo de Zurich.
Estava ainda pensando sobre a superioridade dos propósitos com que Hesse analisava a pequenez da humanidade, os objetivos de um espírito elevado que brilhantemente materializava seus personagens imaginários, quando do nada um garoto com seus vinte e poucos anos adentrou ao vagão em que eu viajava. 
Antes que eu o fitasse nos olhos recitou ele uma ladainha muito bem ensaiada cujas palavras eram suficientes para amolecer até o coração mais preocupado com a próxima estação. Após sua profissão de fé, o garoto passou recolhendo as moedinhas de parco valor de que seus benfeitores desprendiam-se involuntariamente.
Lá se foi o tem...
Lá se foi o bom senso coletivo...
Coletivamente falando a esperança morre a cada dia.
E lá se foi o trem...
E lá se vai...outro dia...

ELE NUNCA FOI SANTO.

 Rodslau era um cara misturado à multidão, como um cara qualquer, ? como diria Belchior, um passarinho urbano. 
Educado, mas nem tanto, gentil, mas nem tanto, útil, mas nem tanto... Tinha lá seus defeitos como todo mundo ? era um comum, um pacato cidadão seguidor da lei e da ordem, mas, como ele mesmo dizia: “eu não sou santo.”
 Fazia piadinhas de gosto duvidoso, tecia comentários irônicos e fora de hora; comia no mercado e aliviava o mesmo de pequenas bobagens. Quando estava sem grana, costumava fazer suas excursões, como ele dizia, ao “Carrefour-to” !
 Tinha também suas qualidades, era generoso ? com o dinheiro alheio.  Fazia comentário elogiosos pela frente e descia o pau pelas costas! Como ele mesmo dizia, “eu não sou santo.”
 No fundo, tinha boa intenção, queria agradar a todos. Não era má pessoa, bom, bom, também não era... no máximo, uma balinha de chocolate... se é que fui claro...
 Seus trabalhos na faculdade eram normalmente um mix de vários trabalhos de seus colegas de turmas anteriores. Gostava de tomar umas e outras e saía, quando era oportuno, sem pagar a conta. A contrapartida, cedia com freqüência seu lugar no coletivo a pessoas com dificuldades e gestantes.
 Foi flagrado muitas vezes, auxiliando indefesas velhinhas a atravessar a rua. Mas, como ele mesmo dizia: “eu não sou santo.” 
 No episódio da queda das torres dos EUA, fez, como todo mundo, gracejos, mandou e-mails irônicos aos amigos, achou pouco e riu da desgraça alheia.
 Freqüentava inúmeros consultórios odontológicos... para fazer orçamento de tratamentos? Que nada! Era para atualizar sua leitura semanal. As reportagens que lhe interessavam, arrancava sem o menor pudor ou formalidades. Uma vez, ali, na sala de espera, envolto de “menininhas”, não perdia a oportunidade de passar-lhes um xaveco. Tornava aquilo ali uma verdadeira sala de bate-papo real. Cedia seu virtual lugar às pessoas em más condições, com isso, ganhava moral de todos. Confessou certa vez, a uma das pacientes: “eu não sou santo.”
 Em seu convívio com amigos da moradia estudantil, dava um “migué” em seus colegas para não higienizar o ambiente. Só fazendo-o diante de intimidação ou sob ameaça física, mas a contrapartida, não deixava faltar detergente, desinfetante e afins, que ele repunha, mesmo que não fosse sua vez.
 Ele era tudo isso, uma mistura de bons e maus fluidos, que variavam dependendo da freqüência ou ausência de banho.
 Simpático, refinado, com bons modos, bem intencionado e transparente, pela frente. Por detrás, nem sempre ou raramente condizia com as aparências ? enfim, como ele sempre dizia: “eu não sou santo.”
 Certa ocasião, lembro-me agora de passagem que, ele e alguns outros amigos reuniram-se para uma diversão dominical: esvaziaram bavárias latinhas de cerveja e observavam a “Abundância” das meninas que passavam por ali, um psiu aqui, um olhar mais fixo no acolá, mas se alguém falasse alguma coisa ele reagia...como sempre dizendo: “eu não sou santo.”
 Decidiram, após uma rápida conferência entre eles, partirem para uma diversão tipicamente masculina. Lá foram eles felizes e    “ embriagratos”  pela oportunidade de estarem juntos.
 Na saída, frente a multidão, perdeu-se dos amigos. Saiu dali com um sorriso vitorioso, e aquela cara de bobo...alegre!
  Com seu teor alcoólico já beirando as nuvens, entrou em ônibus errado.
 Ele acordou na segunda-feira, por volta de quatro e meia da tarde: olho esquerdo remelento, o direito roxo, a cabeça inchada... a ressaca cobrava seu tributo... outros tantos galos protuberantes... Na boca, nenhum dente lhe faltava. No entanto, seu hálito se assemelhava ao odor de um corrimão de hospital do SUS.
 Aprontou de novo!! Mas, como ele sempre dizia: “eu não sou santo.”
 Dias depois, relatando aos amigos o que se passou, confessou ele envergonhado que, aos urros, dentro do ônibus que havia pego de forma equivocada, externou em alto, sonoro e em distorcido som:
 - Então, todo mundo aqui é Corinthians!!!
 A galera, em coro, raivosamente discordou:
 -Não!!! Nós somos SANTOS! 
 
 


 

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