O vento soprava levantando a poeira. Miro
observava a paisagem arenosa e o céu azul, com os braços cruzados
sobre o corrimão da varanda no alto do Salão do Mestre. Sem a
armadura, um pouco mais relaxado, embora sua expressão fosse de tensão.
Aioria se aproximou lentamente e também
se debruçou na sacada, dirigindo-se ao seu companheiro que parecia tão
impaciente.
- Está preocupado com eles, não está?
– perguntou Aioria.
- Sim. – respondeu Miro, abaixando a cabeça e dando
uma inspirada profunda.
- Precisa confiar mais neles. Está muito tenso com isso.
- Eu confio neles. Sei que não nos decepcionariam. Mas,
... – parou por alguns segundos.
- Não consegue deixar de se preocupar? – completou Aioria,
sempre compreensivo.
- Sim. Você acertou.
- Eu o entendo. É difícil não se preocupar,
não é verdade? Mas creio que desta vez não teremos grandes
problemas. Afinal... Bom, não vou incomodá-lo com isso, afinal,
essa discussão já nos trouxe problemas demais, não acha?
- Você não acredita que haja perigo, não
é mesmo Aioria? – disse Miro virando-se de frente para Aioria.
- Sinceramente, acho que tudo isso não passa de um simples
preconceito.
- Talvez você esteja certo. Mas, acho que não
deveríamos baixar a guarda só por causa disso. Não enquanto
permanecer a dúvida.
- Fala isso por que Mu e o Mestre Ancião deixaram o
Santuário e voltaram para o oriente?
- Não é isso! Ambos são excelentes guerreiros,
não acho que seriam capazes de nos abandonar. E além do mais,
o Santuário não está tão desprotegido assim. No
entanto, Atena está lá naquele lugar e se algo acontecesse com
ela...
- Eu entendo. Mas vamos dar tempo ao tempo.
- Gostaria de saber por que demoram a voltar.
Shaka encontrava-se em meditação
profunda, dentro da Casa de Virgem. Sua expressão era severa, e sua mente
buscava respostas para o que ele havia sentido na noite anterior.
Shaka começou lembrar. Estava indo para
a casa de Virgem, naquela mesma tarde, quando sentiu uma estranha mudança
no ambiente. Ele tinha tido a impressão de ter sentido o cosmo de Atena
desaparecer dentro de um outro plano. Sentiu mais do que isso. Com os cavaleiros
parecia ter acontecido a mesma coisa. Era como se tivessem desaparecido. E havia
entre eles uma terceira energia. Esta, ele não havia conseguido detectar
de quem era, mas também não deixou de perceber algo maligno nela.
E talvez essa energia pudesse ser a causa do que talvez houvesse acontecido
naquele momento.
Mu também havia detectado essa energia.
- Eu senti um calafrio quando senti aquela energia. Nunca havia
sentido algo assim antes.
- Confesso que me surpreendi. Embora não tenha podido
detectar esse cosmo, ficou a impressão de que era alguém extremamente
forte e maligno.
- Também me assustei quando eu a senti. – Interrompeu
o Mestre Ancião que terminava de descer as escadas da casa de Libra
para a casa de Virgem
- Mestre Ancião! – falaram simultaneamente os dois cavaleiros
- Como devem imaginar, eu também senti essa energia.
Não resta dúvidas de que alguma coisa aconteceu no lugar onde
Atena e os cavaleiros se encontram. – fez uma pausa – Contudo, esse talvez
seja um ponto perigoso a se tocar. E acho que por medida de segurança,
isso que nós sentimos deve ficar apenas entre nós.
- Como assim? Está dizendo que não devemos fazer
nada a respeito, Mestre Ancião? – perguntou Shaka.
- Não exatamente, Shaka. Não digo que devemos
ficar parados. Isso seria um absurdo. Mas nós também sabemos
o que se passa no Santuário. Sabem tanto quanto eu que uma notícia
de que algo tivesse acontecido com Atena nos levaria à uma atitude
extrema. E não sabemos o que aconteceu. Mas certamente, se contássemos
o que aconteceu, muitos iriam atribuir a culpa às amazonas. Por tanto,
enquanto não descobrirmos o que de fato aconteceu, devemos tomar cuidado
para não entrarmos em uma guerra. Poderíamos provocar uma tragédia
com base em uma suspeita, que nem sabemos se é verdadeira. Eu proponho
que nós três mantenhamos em segredo o que sentimos, e que investiguemos
o que aconteceu, antes de tomarmos qualquer atitude.
- Eu compreendo, Mestre. – respondeu Mu.
- Eu também compreendo. Não direi a ninguém
o que conversamos aqui. Utilizarei as minhas habilidades para tentar descobrir
quem emitiu aquela cosmo-energia maligna
- Eu agradeço. – disse o Mestre.
Assim terminaram as lembranças de Shaka,
que murmurou para o ar.
- Tenho a sensação de que algo inesperado vai
acontecer.
Enquanto isso, em Asgard, Anna e Monike estão
no palácio Guarohara, ajoelhadas diante de Hilda, enquanto ela examina
um documento assinado por Titânia.
- Hum... Compreendo perfeitamente. Vieram buscar a jóia
das neves. Na verdade, todas as jóias pertencem de fato às amazonas,
estou certa?
- Exatamente, senhorita Hilda. – respondeu Monike.
- Como faz frio aqui!! – murmurou Anna, entre os dentes trincados.
- Fica quieta! – repreendeu Monike, também em voz baixa.
- Mas está frio!!! – respondeu Anna também em
voz baixa.
Monike lança um olhar feio para Anna,
mas antes que dissesse qualquer coisa, Hilda anunciou.
- Ok. Por favor, esperem no jardim. Eu lhes enviarei um de
meus guerreiros-deuses para que as acompanhem até o cofre onde esta
jóia está guardada.
- Somos muito gratas, senhorita Hilda. – respondeu Monike.
Hilda sorriu. Mas logo ficou séria, com
uma expressão entristecida.
- Ouvi dizer que estas jóias só seriam procuradas
se algo muito urgente tivesse acontecido. Por acaso isso é verdade?
Monike olhou para Hilda com uma certa surpresa.
Mas logo se recompôs, e respondeu:
- Desculpe-nos, senhorita, mas não somos capazes de
informar o motivo de as estarmos reunindo.
- Eu entendo. Desculpem-me a minha indelicadeza.
As duas amazonas levantaram-se, curvaram-se,
e foram em direção ao corredor que levava ao jardim.
- Por que você disse que nós não éramos
capazes de informar o motivo? – perguntou Anna em voz baixa, enquanto caminhavam
sozinhas.
- Por que se disséssemos que não podíamos
dizer, ficaria claro que aconteceu alguma coisa.
- Puxa! Você é mesmo muito esperta! – disse Anna
sorrindo com entusiasmo.
- É claro. Eu sou a mais inteligente de vocês.
– respondeu Monike com desdém.
- Me diz uma coisa, como é que você sabe andar
por aqui? – perguntou novamente Anna.
- Esqueceu que sou daqui? Eu já estive nesse lugar a
muito tempo. – Monike respondeu com cara de aborrecimento.
- Ah é mesmo! Eu me esqueci que você era nativa
de Asgard.
- Isso mesmo. Mas não fique comentando, está
bem?
- Ta bom! Ta bom! Eu não vou tocar no assunto!
As duas jovens caminharam pelo corredor escuro,
que ia se iluminando conforme se aproximavam do fim. Chegarem à um pátio.
Estava claro, e a neve cobria algumas partes do piso em torno do pátio.
Havia pouca vegetação em torno do pátio, apenas grama e
algumas flores sobreviviam cobertas por alguns floquinhos de neve.
Neste pátio avistaram um rapaz de cabelos
curtos, esverdeados com uma armadura negra, com o elmo debaixo do braço.
O rapaz estava de costas, e virou-se. Era Shido de Mizar.
- Sou Shido de Mizar, - disse conforme as jovens se aproximavam
– muito prazer! Eu serei o seu guia até a caverna onde está
o tesouro... – sua voz foi ficando mais lenta conforme reconhecia o rosto
de uma das jovens.
Anna estranhou a reação, e se
surpreendeu quando virou-se para Monike e viu que ela também parecia
surpresa ao encontrar o rapaz.
- Não posso acreditar! – falou ele com surpresa, os
olhos arregalados e um sorriso se formando nos lábios. – É,
é você mesma!
- Você mudou muito Shido! Olhe pra você! Agora
é um Guerreiro Deus de Odin! – disse Monike, com uma alegria estampada
no rosto.
- Wou, vocês se conhecem? – perguntou Anna, olhando para
os dois.
Monike virou-se para Anna e respondeu.
Do outro lado do mundo, na China, Lien do alto
de um penhasco avista a paisagem local, com seus campos de arroz, riachos e
árvores. Com um pé em cima de uma pedra, a mão sobre a
testa e o outro braço debruçado sobre o joelho, avista um ponto
muito distante, e vira-se para trás para falar com outra pessoa.
- Não falta muito pra alcançarmos as Cinco Montanhas.
Tem certeza que quer ir sozinha? – disse gritando.
- Não se preocupe! – respondeu uma jovem de cabelos
negros e olhos azuis, com um manto longo azul com estampas coloridas cobrindo
a cabeça e enrolado nos ombros, e um cajado em uma das mãos.
– Prossiga em sua viagem! O lugar que estou procurando não é
muito longe, e assim será mais rápido!
- Está bem! Boa sorte! – acenou Lien. Segurou e puxou
para frente a alça da caixa da armadura com o símbolo de uma
ave, que se assemelhava a um pavão com uma longa calda. Soltou um longo
suspiro e saltou do penhasco, pulando numa rocha, e em seguida em outra e
outra até chegar ao chão.
A outra mulher sorriu, e em seguida tomou uma
direção à sudeste daquela região, indo em direção
à uma outra cadeia de montanhas azuis distantes.
Voltando à Asgard.
Shido acompanhava Monike e Anna, esta última
ia atrás dos dois, com uma mão na boca quase rindo dos dois pombinhos
que iam na frente conversando animadamente, sem sequer notar a sua presença.
Finalmente chegaram à entrada de uma
grande caverna coberta pela neve.
- Chegamos. – disse Shido.
- Então é aqui que está guardado a jóia
das neves? – perguntou Monike.
- Exatamente. Contudo, não sei se vocês já
sabem, mas para conseguir a jóia, é necessário passar
por uma prova.
- Uma prova? – perguntou Anna.
- Sim. Mas eu tenho certeza de que conseguirão.
- Obrigada. – respondeu Monike que foi entrando na caverna.
- Voltamos daqui a pouco! – completou Anna, que foi logo atrás
de Monike.
- Que tipo de prova será esta de que ele estava falando?
– perguntou Anna, enquanto atravessava a caverna.
- Não tenho idéia. Mas acho que nós não
teremos problemas.
- É, eu sei. – Anna deu uma risadinha.
- Do que está rindo? – perguntou Monike intrigada.
- Ah, não minta! Fala a verdade? – Anna começou
a cutucar o braço de Monike com o cotovelo. – Toda essa confiança
teve uma fonte de inspiração, não foi?
- Do que está falando?
- Ah, você sabe! Afinal, você ta bem, hein? Ta
com aquele bonitão lá fora no seu pé.
- O que está dizendo? – Monike olhou para o outro lado,
um pouco corada. – Não confunda as coisas. Somos amigos de infância.
- E que amigos! – completou Anna, tirando o sarro.
Chegaram ao fim da caverna. Uma parede alta
de gelo se estendia por um buraco no teto, onde no alto havia um fenda por onde
entrava alguns raios de luz, que iluminavam e davam uma tonalidade azulada ao
gelo. No centro da parede havia um buraco coberto por uma camada de gelo transparente.
Dentro dele podia-se ver uma caixa de madeira escura do tamanho da esfera.
Anna se aproximou da parede e deu dois soquinhos
no cristal.
- Esse não é um gelo comum. Não derreteria
pelos métodos normais.
- Eu entendo. – disse Monike, que se posicionou e começou
a emitir seu cosmo. – Anna, afaste-se!
Anna voltou-se para atrás de Monike.
- Tome cuidado! Vê se não quebra a jóia!
- Está tudo bem! - Monike posicionou as mãos
bem próximas uma da outra e concentrando-se, liberando com força
seu cosmo. Formou uma espada de gelo. Levantou a espada para o alto e concentrando
toda a seu cosmo nesse golpe, desceu-a rapidamente com toda sua força.
- HYAAAAA!!!!! – Lançou a espada contra o cristal, fazendo
tremer a parede. Porém quando olhou, viu que o cristal não tinha
sofrido nenhum arranhão.
- Esta deve ser a prova. – Disse Anna. Monike virou-se para
trás enquanto ela falava.
- Não sei se posso te ajudar, mas acho que essa deve
ser a prova. Você precisa quebrar esta camada de gelo, se não,
não vai conseguir tirar a jóia das neves daí.
Monike olhou para frente novamente. Olhou por
alguns segundos para a caixa através do gelo.
- Eu entendi. – foram suas palavras – Anna, fique bem afastada!
- Ta. – respondeu indo para bem fundo na passagem da caverna.
Monike concentrou-se novamente. Segurou a espada
no alto da cabeça, e começou a expandir o seu cosmo. Concentrou
todas as suas energias, o ar foi ficando cada vez mais frio em torno dela, e
em torno da espada. A lâmina começou a brilhar, tornando-se azul,
prateada, e por último branca e brilhante como um diamante. O ar em volta
da espada estava tão gelado que causava rachaduras nas paredes. Olhou
firme para o cristal, e desceu com toda a sua força, concentrando o máximo
de poder na lâmina.
- HAAAAAAAA!!! – A espada causou uma rachadura na parede que
atingiu o chão e o teto. E a camada de gelo que cobria a caixa despedaçou-se,
deixando-a livre. O som ecoou pela caverna inteira, e logo Anna correu até
o local para ver o que tinha acontecido.
- Não aconteceu nada com a jóia? – perguntou
Anna.
- Está tudo bem. – respondeu Monike com calma, enquanto
observava a jóia dentro da caixa.
Shido estava encostado em uma árvore,
quando avistou as duas amazonas saindo da caverna.
Monike estava na frente, enquanto Anna,
logo atrás, carregava a caixa com a pequena esfera cristalina.
- Fico feliz que tenham se saído bem! – falou Shido.
- Obrigada por ter nos trazido aqui. – respondeu Monike.
Anna que não estava prestando atenção
na conversa, segurou a jóia com a mão. Ao sacudi-la, fez pequenos
flocos se balançarem dentro dela e olhou através do vidro, e foi
quando viu sua amiga e seu companheiro serem surpreendidos por flocos de neve
que caiam sobre eles.
Ambos olharam para o alto, e Monike estendeu
a mão, deixando que alguns flocos caíssem sobre ela.
- Acho que a muito tempo eu não via a neve daqui.
Anna se afastou, escondendo-se atrás
da rocha, observando os dois.
- Hihihi... Sinto muito Titânia, mas acho que vamos demorar
mais um tempinho por aqui. – murmurou Anna para si mesma com um sorriso maroto.
Caminhando por trilhas rochosas, com seu cajado,
a jovem de cabelos negros chega à beira de uma fenda grande no chão,
na qual a água do mar penetrava. A água girava em grandes e fortes
redemoinhos que respingam para cima, ameaçando quem chegasse perto.
- É, está na hora de mostrar trabalho. – Murmurou
para si mesma, com um sorriso doce. Desenrolou o manto da cabeça, colocando-no
chão, junto ao cajado e tirou os sapatos. Vestia uma mini-blusa sem
mangas amarelo-ocre, e uma calça-sarongue azul clara com detalhes dourados
pintados na canela e na cintura. Tinha um pano vermelho com estampas douradas
exóticas, amarrado à cintura. Soltou os longos e sedosos cabelos
negros, que desciam até a cintura. Tirou os brincos dourados, o colar
e as pulseiras, e se aproximou da ponta para olhar a água antes de
dar um mergulho.
Foi surpreendida por um grito:
Fim do 6º. Capítulo