Uma grande agitação corria pela
Cidade das Amazonas. Todas as amazonas buscavam em todos os cantos por alguma
pista sobre o paradeiro de Atena e dos Cavaleiros.
Lien desceu a ladeira correndo, passando pelas
árvores. O vento carregando seus cabelos. Foi chegando ao fim do bosque,
entrando em uma área aberta, num campo de plantação com
enormes pés de centeio que alcançavam a cintura.
Avistou uma pessoa. Era Anna, parada, de costas
para ela. Sua trança levemente tremulava com o vento.
O sol estava prestes a se por, o céu
estava alaranjado, com várias nuvens densas e que tendiam a escurecer.
Lien parou atrás de Anna. Estendeu o
braço para tocar em seu ombro, no que antes disso Anna virou-se e olhou
para ela.
- Alguma notícia, Lien?
- Nenhuma. Não imaginava que uma coisa dessas pudesse
acontecer.
- Eu não entendo. Eles sumiram sem deixar rastros! Como
isso é possível? Eu detesto pensar isso, mas não acho
que eles iriam fazer uma brincadeira dessas com a gente.
- Concordo com você. Eu fiquei pensando em uma coisa.
Acho que tem um lugar que nós ainda não procuramos.
- E qual é?
- Lembra-se daquele lugar estranho que Titânia ordenou
que nunca chegássemos perto?
- Está falando do Pátio Negro?
- Exatamente!
- Mas e se Titânia nos pega? Você vai acabar nos
metendo em encrenca como da última vez!
- Pense bem Anna! Lá é o único lugar em
que nós ainda não procuramos! E se acharmos algo, resolveremos
o problema.
- Eu não sei não! Além do mais, pra chegar
nesse lugar é preciso passar pelo salão de Titânia. Não
tem como passarmos por ela.
- Agora temos! Titânia foi consultar a Matrona, e não
vai voltar antes do anoitecer. Podemos aproveitar para darmos uma espiadinha.
- Tem razão. Mas olha lá o que você vai
fazer! Se Titânia nos pega, estamos fritas!
- Não se preocupe! Ela não vai pegar a gente
desta vez!
- Espero! – disse Anna, nervosa.
Anna e Lien chegaram bem próximo da
porta da frente do salão. Agachadas, junto à porta, espreitaram
pela fechadura.
Lien segurou delicadamente a maçaneta.
Empurrou um pouco para frente, quando sentiu uma mão segurar rápido
e firme o seu ombro.
- Aaaaaaaaaaaaahhh! – As duas gritaram de susto.
- O que vocês estão fazendo aqui? – disse a pessoa
que estava atrás delas.
- Ai, que susto, Naia! – respondeu Anna para a mulher à
sua frente. A mulher era alta, negra com longas trancinhas que caiam em seu
ombro, presas no alto com uma faixa vermelha. Vestia uma túnica vermelha
que batia nos joelhos e transpassava em um ombro, um cinto de cordas, um colar
com dentes, um grande no centro e menores ao redor e brincos de ossos no formato
de uma argola grossa.
- Desculpe. Mas afinal, o que vocês estão fazendo
aí na porta do salão central? Estão procurando encrenca?
- Não exagere! Nós estamos aqui por outro motivo.
– disse Lien
- E qual é?
- Bom, nós estamos investigando o desaparecimento de
Atena e seus cavaleiros, e estamos indo ao único lugar onde nós
ainda não procuramos.
- Vocês estão pensando em ir ao Pátio Negro?
- Sim. – responderam juntas.
- De jeito nenhum! Não sabem a encrenca em que estão
se metendo?
- Nós sabemos, mas... – começou Lien, e logo
Anna continuou.
- Todas as amazonas estão até agora procurando
por eles e nenhuma conseguiu encontra-los.
- Sabemos que o que estamos fazendo é errado, mas e
se eles estiverem lá?
- Eu entendo vocês. Francamente, não estou gostando
nada dessa situação, e acho que nunca vi este lugar tão
tenso como está agora. – Naia parou por alguns segundos pensativa.
- Está bem, eu não vou contar à Titânia.
- Que bom!
- Mas eu vou junto com vocês, só pra assegurar
que não farão nada de errado. Vamos apenas investigar, e se
não houver nada, saímos imediatamente.
- Sabe, eu sempre tive curiosidade de saber o que há
nesse lugar.
- Lien!
- Calma, eu não vou fazer nada!
Anna abriu a porta lentamente, e as três
caminharam pelo salão em silêncio. Alguns poucos raios de luz
penetravam pelas janelas e a tendência era de escurecer conforme o sol
ia partindo.
Atravessaram uma das portas ao fundo, e caminharam
por um longo corredor até chegarem à porta. Anna empurrou-a
e ela se abriu facilmente.
- Estranho. Esta porta deveria estar trancada. – comentou Naia
em voz baixa.
Ambas trocaram olhares desconfiados. Anna abriu
ainda mais a porta. Avistaram um templo ao fim da escada de pedra. Foram descendo
lentamente, sem fazer barulho. Ventava, e o vento levantava a poeira. Lien foi
se aproximando cada vez mais do templo. Olhou por fora a entrada, reparando
na arquitetura. Uma serpente de pedra no alto vigiava quem passasse pela entrada.
Lien virou-se para trás, olhando suas
companheiras.
- Tome cuidado. – alertou Naia
- Ta. – respondeu Lien.
Lien entrou no Templo. Havia muita poeira cobrindo
todo o lugar. Teias de aranha se acumulavam nos cantos das paredes e haviam
algumas folhas secas no chão. Mas a poeira do chão parecia ter
sido movida, haviam algumas marcas como se alguém tivesse andado por
lá.
Lien achou estranho. Não havia ninguém
dentro, mas ela sentia que havia uma atmosfera estranha lá, algo que
lhe dava calafrios.
Foi se aproximando do altar. O altar ficava
a uns três degraus do piso e ao redor dele a parede fazia uma curva. Era
um pouco diferente, tinha um estranho formato. Era uma rocha grande que a havia
sido esculpida em forma de um círculo. Nesse circulo haviam doze fendas
em forma esférica, de baixo relevo, que parecia feito para se encaixar
algum objeto esférico. E no centro havia um tampo em formato de cuia,
virado para baixo. Estava completamente empoeirado.
Lien deu a volta para poder alcança-lo
com a mão. Limpou um pouco a poeira e percebeu que era de feita de um
cristal transparente muito bonito. Ela esfregou um pouco mais e descobriu linhas
tortas bem finas sobre o cristal. No início pensou que fossem rachaduras,
mas observando melhor, percebeu que as linhas faziam o desenho do mapa Mundi.
Era algo muito bonito, e Lien continuou a tirar com a mão a poeira da
cúpula.
Quando foi tirar a poeira do topo assustou-se,
ao ver o reflexo de um rosto conhecido. Afastou-se num pulo, andando de costas
até esbarrar na ponta de uma escultura na parede. Olhou para cima, e
foi se afastando conforme ia identificando aquela figura.
De repente seu coração começou
a disparar, a respiração cada vez mais rápida, e foi se
afastando daquela parede. Contornou o altar rapidamente, sem tirar os olhos
da parede, e sentiu o chão sumir quando tropeçou nos degraus.
Caiu no piso inferior, arrastou-se um pouco para trás até tomar
firmeza e levantar-se. Agora de frente para a porta, parou alguns centímetros
da porta. Com os olhos formando lágrimas, soltou um grito choroso.
Anna e Naia que estavam ao redor foram correndo
até ela. Anna abraçou Lien, estava extremamente nervosa.
- Eu, os encontrei... – foram as palavras de Lien.
Anna conduziu Lien para fora, enquanto Naia
entrou no Templo.
Naia avistou a parede ao fundo do templo e
percebeu a razão do espanto de Lien.
- Alguém fez isso. É por isso que nós
não conseguimos encontra-los.
Olhando ao fundo do templo, Naia pode ver as
imagens de Atena e dos quatro cavaleiros esculpidos na parede do fundo do templo.
Diante de uma sacada, Titânia observa
o céu escuro. Estava quase totalmente limpo, podendo ver as constelações
com nitidez. Mas sua mente estava distante, mais distante do que aquelas estrelas.
Pode ouvir a porta por de trás dela se
fechar. Titânia virou-se para a senhora que estava atrás dela.
Vestia-se de modo simples, com um vestido azul
escuro de mangas compridas e um manto que enrolado em torno de sua cabeça,
que caia sobre o ombro.
- Estava me procurando, Titânia?
- Sinto incomodá-la, mas não sabia a quem procurar.
- Eu sei o que houve. Mas acho que era inevitável.
- Eu sei. Nós nos encontramos no momento mais perigoso.
Eu não fazia idéia de que todo esse tempo isoladas traria tantos
problemas.
- Agora não há nada que possamos fazer. O que
está feito, está feito. O que devemos fazer é agir com
cautela e rapidez, para que o Santuário não desconfie de nada.
- Tem razão. Vou convocar as amazonas para uma reunião.
- Muito bem. Mas quando o fizer, não conte tudo a elas.
Não se esqueça de que isto é só o começo.
O pior ainda está por vir, mas não seria prudente alarma-las.
- Tem razão.
- Conte-me tudo mais tarde.
- Sim. Obrigada por seus conselhos.
- Foi um prazer.
No grande salão, ao fundo, Titânia
levanta-se de sua cadeira e observando os rostos das amazonas que lá
se encontravam, reunidas diante dela, agachadas. Lien, Naia e Anna também
estavam entre elas. Monike e Mira estavam ao fundo.
Titânia respirou fundo, e começou
a falar:
- Jovens guerreiras. A vocês revelarei um segredo a muito
guardado, e somente a vocês. Mas também, a missão decorrente
desse segredo. – deu uma pequena pausa e começou – Ambas devem se lembrar
daquele lugar aonde não era permitido invadir ou explorar, o Pátio
Negro. Bem, vou dizer por que. A muitos séculos, neste local, foi construído
um Templo, um local aonde foi lançado um feitiço contra Atena.
Seu objetivo era trancafiar Atena para que ela não mais pudesse sair.
Ninguém nunca soube deste lugar, e apenas as Líderes poderiam
guardar esse segredo. Era meu objetivo evitar que alguém descobrisse
esse lugar, já que não significava um perigo apenas para Atena,
mas para qualquer um que lá fosse. Infelizmente, eu não consegui
evitar isso. Não sei realmente como, mas, neste instante, Atena, e
os cavaleiros que a acompanhavam, estão adormecidos naquele lugar,
como esculturas de pedra nas paredes. – Titânia fechou os olhos numa
expressão de dor e lamento. Abriu os olhos recuperando as forças,
e continuou – Felizmente, há uma forma de reverter esse feitiço.
– quando falou isso, algumas amazonas se entreolharam, Anna e Lien também
arregalando os olhos. – Foram criadas doze jóias representando os doze
signos, cada uma representando um elemento da natureza. Elas estão
espalhadas pela Terra, em lugares remotos. Se nós reunirmos estas jóias,
seremos capazes de trazer Atena de volta! – o som das vozes começou
a ficar um pouco mais nítido, devido o entusiasmo das jovens – Esta
é a missão que caberá a vocês, amazonas. – Titânia
ficou alguns segundos em silêncio apenas observando o entusiasmo das
amazonas. Mas outra vez interrompeu-as. – Isso não é tudo, o
que eu tenho para dizer. Todas também conhecem a história de
nossas origens, os problemas que causamos no passado. Creio que o que vamos
enfrentar agora será o reflexo dos erros do passado. O nosso exílio
foi o causador de uma certa desconfiança por parte dos cavaleiros do
Santuário. E infelizmente, a notícia do desaparecimento de Atena
em nosso território pode causar-nos grandes desgraças. Se eles
souberem, culparão a nós, e aí, não poderemos
fazer nada. Por tanto, o que quer que aconteça, não revelem
a ninguém que esteja fora desta sala o nosso segredo. Vocês serão
as únicas que o conhecerão. Para começar, dividirão-se
em pequenos grupos, e cada um será enviada à um lugar do mundo
atrás das jóias.
- Senhorita Titânia, - se aproximou uma das amazonas
vestida com um cola preto e cabelos prateados – perdoe-me a pergunta, mas
tem alguma idéia de como nós iremos localizar estas jóias?
Nem temos idéia de como elas são.
- Isto também está resolvido, Diana.
No alto do palácio, aquelas pessoas se
reuniam em torno de um altar idêntico ao que havia no Templo. Como estava
escuro seguravam tochas que refletiam a luz sobre a cúpula do altar.
Titânia tinha em suas mãos uma
esfera de uma cor que não podia distinguir, brilhante, que variava de
verde, prata e azul. Era uma cor que parecia variar conforme a luz e a posição.
Titânia depositou a esfera em uma das cavidades. A jóia começou
a brilhar levemente, enquanto ao seu redor uma neblina se formava contornando
o altar cobrindo inclusive as jovens ao redor. A neblina dispersou-se, e alguns
raios de luz começaram a refletir em prismas no fundo da cúpula,
que terminavam marcando pontos de luz em alguns pontos do globo, revelando a
localização das outras jóias.
- Estes são os locais onde irão encontrar as
jóias.
O olhar de Anna se concentrava num ponto que
estava marcado na América do Norte.
- Este lugar, - falou apontando com o dedo – é onde
eu nasci. É Nova Iorque! Eu poderia ir a esse lugar, já que
eu o conheço muito bem.
- Está bem – falou Titânia. – Eu também
concordo, talvez fosse mais rápido que cada uma pudesse escolher um
local que conhecesse bem.
- E este outro fica no Egito. É onde eu nasci! – disse
Mira.
- Está bem, Mira. Escute, Monike – falou Titânia
fazendo sinal que se aproximasse – este lugar, é Asgard, estou certa?
– perguntou apontando para uma região ao norte.
- Sim, é Asgard.
- Acho que você é a única neste grupo que
conhece, afinal, você nasceu lá. Se importaria de ir lá
procurar a jóia?
- Bom..., sim! É claro! – disse tentando disfarçar
seu desgosto pela escolha.
- Muito bem. Decidiremos o lugar para qual cada uma partirá,
e amanhã começarão a busca, está bem?
- Sim! – respondeu o grupo.
Fim do 5o. Capítulo