Os cavaleiros e Atena atravessaram os portões
da Cidade, e a jovem mulher à sua frente, guiando-os. Ao penetrarem enfim
no recinto, puderam deleitar-se com sua magnificência e beleza. Contemplaram
um fabuloso jardim. Uma passarela de pedras uniformemente colocadas, que acompanhavam
até uma curta e larga escadaria que levava até o prédio
principal. Parte dessa passarela é coberta pela sombra de uma gigantesca
árvore, à sua esquerda, de tronco largo e grosso, e copa vasta
que formava quase que uma cúpula por cima das cabeças dos visitantes.
À direita, avistava-se um lago, de águas tão calmas e brandas,
como um espelho no centro da grama. E ao redor, campos de flores multicoloridas,
e tão cheirosas que quando a brisa às atingia, levava o perfume
pelo lugar que passava.
Dava uma sensação maravilhosa
passar por aquele lugar que lhes inspiravam paz e harmonia. Tudo parecia tão
silencioso e tranqüilo que para os cavaleiros mal dava pra acreditar que
aquele lugar fosse a Cidade das Amazonas. Não tinha comparação
com o Santuário, que era tão diferente.
Chegaram ao pé da escadaria de uns
5 degraus, feita de mármore branco, assim como o piso da varanda. As
paredes do lado de fora possuíam nelas figuras esculpidas de guerreiras
e de alguns cervos. Assim como as portas, de madeira pintadas de branco, talhadas
com desenhos graciosos.
As portas estavam abertas. A jovem guia entrou
pelo interior do prédio. Caminhou, como em todo o trajeto até
lá, silenciosa. Atrás dela, Atena, e atrás desta, os cavaleiros.
Caminharam por um corredor longo. As paredes
eram adornadas com ladrilhos que formavam mosaicos de cenas campestres da Grécia
antiga. Chegaram ao fim do corredor, em frente às portas de cedro do
salão. A jovem guia interrompeu-se e virou-se de frente a Atena.
- Nossa líder os espera aqui. Venham. – disse calmamente,
de uma forma gentil e delicada. Abriu uma das portas e segurou-a para que
os cavaleiros entrassem. Depois que eles entraram no salão, a jovem
encostou a porta, e anunciou à outra mulher que estava ao fundo do
salão. A mulher tinha cabelos ondulados, avermelhados, e vestia um
vestido longo vermelho de mangas compridas e largas. Possuía uma grande
tiara dourada em sua cabeça e um cinturão também de ouro
cingia sua cintura.
- Fiz o que me pediu, Líder Titânia.
A mulher dirigiu-se à ela.
- Fez um bom trabalho.
- Obrigada Líder. Com licença. – falou a todos
à sua frente, saiu e fechou a porta.
A mulher então se apresentou.
- Meu nome é Titânia. Sou a atual Líder
da Cidade das Amazonas. É uma honra para nós tê-la em
nossa Cidade, Atena.
- Muito obrigada. - respondeu Saori. – Líder Titânia,
perdoe a minha indelicadeza, mas creio que saiba a razão da minha visita.
- Sei muito bem. E entendo a sua preocupação.
A Cidade das Amazonas esteve por muito tempo oculta do resto do mundo. Creio
que isso deva ter gerado uma certa desconfiança por parte do Santuário,
não é mesmo?
- Sim, é verdade. Não que eu queira ser mal educada,
mas vim para ter certeza de poder assegurar ao Santuário de que há
paz entre nós.
Titânia sorriu.
- Não é de forma alguma uma ofensa para nós.
É justo, e não vejo mal nisso.
- Então, vocês não estão realmente
planejando uma revolta contra o Santuário?
- Não haveria como pensarmos nisso. Há muitos
anos nós estivemos lutando para sobrevivermos, e aceitamos a tarefa
de reerguer a cidade como forma de nos redimirmos de nosso crime. Cada parede
que vocês vêem de pé nesta Cidade significa o quanto nós
erramos e o que nós ganhamos por termos iniciado aquela horrível
guerra. Decidimos que o exílio serviria para duas coisas. Uma, para
refletirmos sobre nossas decisões futuras, e a outra, para nos fortalecermos.
- Então o motivo de estarem ocultas era esse? Um exílio?
– perguntou Shiryu, intrigado com a história de Titânia.
- Sim, cavaleiro. – respondeu docemente.
"Por que será que ela nunca fala
assim com a gente?"
"Talvez porque nós só a vemos
quando fazemos algo de errado."
"Shhii!!! Fiquem quietas!"
Seiya que estava mais afastado, próximo
à uma parede ouviu as vozes que falam bem baixo, quase inaudíveis.
Olhou para os lados, percebendo alguma coisa. Olhou para seus amigos, mas eles
nada haviam percebido. Então percebeu que a Líder o olhava. Sentiu-se
meio embaraçado, mas Titânia logo veio a salvar-lhe.
- Vamos! Saiam daí! – falou, causando estranheza nos
cavaleiros e em Atena. – Já sei das suas presenças a muito tempo!
- Droga! Você tinha que abrir a boca! – falou uma voz
feminina. Em seguida saíram por de trás de uma cortina longa
vinho duas jovens. A primeira, uma garota novinha, de cabelos no pé
da orelha roxeados, olhos da mesma cor e rosto de criança. Vestia um
sarongue e colete rosa num estilo indiano. A outra jovem, mais velha e mais
alta que a primeira, de olhos castanhos e cabelos ruivos presos numa trança.
Vestia um top verde água e um corsário de couro marrom. Os pés
cobertos por botas de um marrom quase preto.
Titânia olhou para as duas sem nenhuma
surpresa. Aquela descoberta as havia constrangido.
- O que eu disse vale pra vocês duas também! –
disse agora olhando para o outro lado do salão. Desta vez, uma jovem
de cabelos negros e feições orientais apareceu por de trás
de um vaso cinza. Vestia uma túnica sem mangas de gola mao e uma calça
branca, com um cordão com contas enrolado na cintura, brancos. Ao fundo,
outra jovem, de cabelos loiros bem compridos e olhos azuis. Vestia uma túnica
preta de bordas brancas, sem magas, calças brancas, botas marrons e
uma faixa branca na cintura. Era a que tinha a expressão mais preocupada
de todas.
Saori olhou para as moças e perguntou
para todas:
- Por que estavam se escondendo?
A jovem loira tomou a frente para falar, mas
a ruiva antecipou-se:
- Nossa Líder nos proibiu de vê-la, senhorita.
Achamos que se nos escondêssemos não haveria problema.
- Por que você as proibiu, Titânia? – perguntou
Saori, já do lado das garotas.
- Espero que não me leve a mal. Eu pedi à todas
as amazonas que ficassem na ala de treinamento enquanto eu a recebia, pois
achei que com elas aqui você pudesse ficar irritada.
- Acho que ninguém aqui se irritou. – falou a oriental,
num tom de molecagem. Saori olhou para elas, sorrindo, depois voltou-se para
Titânia e gentilmente declarou:
- Não me sinto irritada com a presença delas,
Titânia. Parecem ser ótimas pessoas, e não foram mal educadas.
Além do mais, eu fiquei curiosa desde o início sobre como eram
essas amazonas.
Titânia olhou para Atena e depois para
as jovens ao fundo. Num sinal de trégua, ela sorriu e falou com seu ar
de tranqüilidade:
- Está bem. Desculpe-me por ter feito isso, sem perguntar-lhe,
Atena. – E olhando para as jovens, falou-lhes com o tom de uma bronca. – Muito
bem, já que queriam tanto, façam o favor de se apresentarem.
- Sim, Titânia. – falaram ao mesmo tempo.
As amazonas se enfileiraram, e Atena foi à
frente de cada uma onde estavam. A primeira, a mais nova curvou-se e falou seu
nome:
- Meu nome é Mira. Sou a amazona da armadura do Delfim.
A seguinte, a ruiva, fez o mesmo.
- Meu nome é Anna. Sou a amazona da armadura de Rapoza.
A seguir a oriental.
- Sou Lien, da armadura de Ave-do-Paraíso.
- Eu sou Monike. – disse finalmente a loira – Sou a amazona
da armadura de Lince.
- Muito prazer. – disse Saori. Ela parecia ter gostado bastante
das meninas. Depois disso, Atena olhou para trás para os cavaleiros
que estavam por de trás dela assistindo àquela amigável
e engraçada cena. Mas pareceram se endireitarem quando Saori olhou
para eles.
- É a vez de vocês se apresentarem.
Eles olharam um para o outro, e Shun foi o primeiro
a tomar à frente. Curvo-se cumprimentando-as e falou:
- Sou Shun, o cavaleiro de Andrômeda.
- Sou Shiryu, cavaleiro do Dragão.
- Sou Hyoga, o cavaleiro do Cisne.
- E eu sou Seiya de Pégasus. Muito prazer em conhecer.
Apesar de uma sensação de embaraço
parecer povoar o Salão, era ao mesmo tempo muito agradável. Aquela
situação parecia ter "quebrado o gelo" da anterior formalidade.
- Então vocês são mesmo os cavaleiros que
lutaram nas Doze Casas no Santuário? – perguntou Anna.
Seiya com ar de poderoso, apontando o polegar
para o peito, respondeu:
- É! Somos nós mesmos!
- Hum... Não parece!
‘ Uma gota pairou na testa de Seiya.
- Anna! Como ousa falar essas coisas? – corrigiu Monike.
- Ah, mas é que...
- Uhum! – Interrompeu Titânia. – Acho que deveriam ser
mais educadas. Aliás, que eu me lembre, vocês tem tarefas a cumprir
ainda!
- Ih! É mesmo. – comentou Lien.
- Bem, então vão! "antes que cometam algum
vexame!" – Pensou Titânia.
- Foi um prazer nosso conhece-la! – falou alto Mira.
Num piscar de olhos, elas haviam deixado
a sala.
- Fico feliz em saber que as amazonas são pessoas tão
amáveis. – disse Atena.
- Me sinto lisonjeada com isso.
- Bom, agora que as coisas se acertaram, gostaria de lhe falar
sobre..
Tum! Tum! Tum!
Batidas fortes na porta ao fundo interromperam
Saori.
- Entre! – falou Titânia surpresa.
- Líder Titânia. Perdoe-me interrompe-la, mas
solicitam a sua presença, pois algo terrível aconteceu.
Titânia tentando não assustar
os presentes virou-se e falou:
- Perdoe-me Atena. Devo me retirar, mas peço que aguarde,
pois não demorarei muito.
Saori concordou com o rosto, embora preocupada.
Alguns segundos depois, pela mesma porta, surgiu
a mesma guia. Desta vez, sem o capuz que cobria os cabelos, revelando cabelos
azulados ondulados e compridos, cujos cachos caiam sobre seus ombros.
- Desculpe, Atena, mas a Líder Titânia pediu-me
que os guia-se para um outro lugar. Por favor venha comigo.
- Qual é o seu nome?
- Eu me chamo Medeia, senhorita.
- Por favor, Medeia, pode me dizer o que está acontecendo?
- Saberá se me seguir, senhorita Atena.
Os cavaleiros apenas se entreolharam. Atena
olhou para eles e seus olhares confirmaram a suspeita mútua.
Passaram a seguir a jovem pelo corredor. Andar
por aquele lugar era algo agradável, mas mesmo assim o grupo não
conseguia relaxar.
Saíram por uma porta grossa e alta de
madeira escurecida. A paisagem não era tão alegre quanto a frente.
Pouquíssimas plantas sobreviviam naquele terreno.
Conforme iam descendo a escada de pedra, avistaram
um prédio. Um templo, que tinha um aspecto abandonado, desolado.
A guia parou em frente à entrada do templo.
- A Líder os espera aqui. – e curvou-se, abrindo caminho.
Saori e os cavaleiros entraram pela porta do
templo. No entanto, perceberam que Titânia não estava lá.
Ouviram um barulho, viraram-se para trás e viram Medeia fechar a entrada
com uma porta de pedra. A porta de alguma forma trancou-se, e os cavaleiros
imediatamente começaram a esmurra-la tentando abrir a passagem.
Enquanto do lado de fora, Medeia retira
a capa, revelando um vestido vermelho longo. Ela retira uma espada, encaixada
à bainha, da faixa de sua cintura e a levanta para o alto segurando cada
ponta com uma mão. Então começa a rodar e dançar
pronunciando as palavras:
- Pedra dura não solte até que o seu Deus volte!
Medeia repetiu essas palavras várias
vezes. Ouviu-se o som de trovões, vento forte. Os gritos dos cavaleiros
ficaram mais intensos por um instante. E em um segundo silêncio. Silêncio
absoluto.
Medeia então abre a porta de pedra e
olha para o seu interior. Ria entusiasmada contemplando algo dentro do templo,
e murmurou:
- Isto está perfeito. É melhor do que eu poderia
imaginar.
Fim do 4º. Capítulo