RÉQUIEM
por Ryoga K2R ( [email protected])
Capitulo 03 - FADAS, BRUXAS E PRINCIPES
Em Tóquio existem muitos prédios. Algo comum a todas as metrópoles. Mas no alto de um desses prédios ha alguém que não pertence a esse mundo. Seus cabelos azulados lhe caem por sobres os ombros, os cachos balançando com o vento.A pele de um branco opaco repleto de tatuagens negras que parecem dançar pelo corpo adulto e esbelto.Pequenas asas coloridas de borboleta nascem de suas costas, quatro ao todo, fechadas, uma por sobre a outra.
Morgana varreu o horizonte, uma expressão de nojo estampada no rosto. Seus olhos cor de cobalto brilharam na noite. Aquela cidade fedia na sua opinião. ELa era uma Fada, uma criatura das florestas de Zefir, odiava as cidades, tão frias e cinzentas.
Se não estivesse em uma missão, estar entre aqueles prédios seria o ultimo lugar em que gostaria de estar. Estendeu a mão para frente. Uma pequena redoma de energia esmeralda surgiu em sua palma.
Era uma bússola mágica. Uma magia simples, capaz de detectar indivíduos cercados por grandes concentrações de MANA. Na redoma dourada via-se brilhar três pontos em especial.
As Magic Knights. Um ponto para cada uma delas. A cor de acordo com seu elemento regente. Vermelho para o fogo, verde para o ar e por fim, azul para a água.
Morgana mordeu os lábios enquanto observava os pontos. Não via nenhum sinal dos Caídos.O que estava acontecendo? Seres com tamanho poder mágico deveriam aparecer com grande destaque na bússola. Ou ela estava com problemas ou eles estavam se escondendo.
Chacoalhou a mão, como se esse ato fosse melhorar o funcionamento da bússola. Suspirou derrotada, fechando o punho e a bússola desapareceu.
- Isso vai ser mais difícil do que pensei...- resmungou.
- Pelo menos pode ser divertido- uma garota de uns doze anos surgiu de braços cruzados sobre a cabeça. Os cabelos castanhos e curtos estavam desalinhados num corte repicado.Usava grandes luvas e botas de tamanhos também desproporcionais para seu pequeno tamanho. Pendiam do alto da cabeça duas grandes faixas, que chegavam até próximo ao chão. Nos extremos das faixas havia grandes e barulhentos sinos dourados. Seus olhos eram verdes e maldosos, de um brilho estranho e frio. O rosto, de contornos leves e infantis, fechava-se numa careta emburrada.
- Oh Lilith! O que faz aqui pequena irmã? - sorriu Morgana.
- Estou entediada!!Você não imagina como é chato aquele cara que a Bruxa velha trouxe!!! Estou desde manhã me "divertindo" com ele e ele sequer deu um grito!! Oras, se ele não grita, chora ou implora, onde está a graça nisso?
"Eu queria era que Ele me desse uma missão..."- suspirou.
- Tenha paciência!- Morgana alisou-lhe os cabelos e Lilith sorriu satisfeita com o carinho- Ele deve estar-lhe preparando uma grande aventura.
- Espero que sim...
" Mas me diga mana, você não gostaria que um dos meus servos lhe ajudasse ? talvez o Dedálos ou o Tornberry? - os olhos de Lilith brilharam, aquela cidade tão grande ficaria ainda mais bela se o caos imperasse. Ao contrario das outras fadas, Lilith gostava das grandes cidades, principalmente quando ELA as destruías.
- Não seja tola, jovem irmã. Esse é uma missão que precisa de sutileza. Devo manter a cautela.
- Bah!!!Assim não tem graça...
***
Elanor caminhou atarefada pelos corredores do castelo. Era dia de festa. Um dia muito importante para Zefir, quando muitas pessoas se reuniriam no castelo para festejar a criação de Zefir.
Passou rapidamente em frente à arena de combates, onde ouviu o retumbar metálicos de espadas se chocando. Provavelmente Ferio e Rafaga novamente.
Suspirou, havia decidido se declarar a ele durante a festa. Seria o momento apropriado segundo os conselhos de Caldina.Lembrava-se deles perfeitamente:
"E lembre-se olhe bem no fundo dos olhos dele e diga com toda sua firmeza EU TE AMO!!!Não há como falhar" - disse baixinho, imitando os gestos largos que Caldina sempre fazia.
***
Ferio se sentou sobre as pernas em um dos cantos da arena, enquanto Rafaga embainhava a espada.
- Você melhorou muito.
- É? Mas ainda não consigo ganhar de você!!!- reclamou Ferio, retirando os fios esparsos de cabelos verdes que caiam em frente aos olhos.
- Deve ter paciência. Treinei anos com afinco para conseguir o titulo que possuo.
-Pode ser..- suspirou- mas mesmo assim eu fico frustrado em perder sempre pra você. E o pior é quando a Elanor está assistindo.
- Não pode culpa-la, ela gosta de você.
- Eu sei - Ferio desviou o olhar para o chão - esse é o problema, eu amo a Anne e não sei como dizer isso pra ela.
- E por isso finge que não percebe. Acredita que fingindo ignorância adiará o inevitável? É uma atitude irresponsável para um príncipe.
-Não precisa me dar bronca, eu tô fazendo o que posso.
- Sei que sim. Mas...ahn?- um arrepio gélido percorreu-lhe a espinha e Rafaga se virou. Sentia uma presença maligna os envolver. Um ser de grandes poderes e malicia, mas não conseguia definir onde.
-Humm? O que foi Rafaga.
- Não foi nada.É melhor encerrarmos o treino por aqui- a presença desaparecera da mesma forma súbita que surgira. Rafaga , antes de sair ainda deu uma ultima espiada por sobre o ombro. Estava desconfiado.
Um sorrido amarelo se formou nas sombras, assim que os dois saíram da arena.Um brilho metálico revelou a lâmina de uma foice deslizando pelo ar.
- He he, meus pequeninos, sua Babá acaba de chegar.
***
Lantis respirava pausadamente. Seu corpo estava coberto de cortes e arranhões feitos por um fino chicote.
As risadas histéricas e o barulho do cordão de couro lambendo-lhe a pele ainda estavam nítidos em sua mente.A dor era insuportável.
Mesmo assim, não havia implorado ou gemido nenhuma vez. Jamais daria esse gostinho de prazer ao carrasco.
Seus olhos já estavam acostumados com a escuridão e por isso ele foi capaz de perceber a aproximação solitária do pequeno lobo.
Ele chegou hesitante, lambeu-lhe o rosto e sentou ao seu lado. O rabo abanando e o olhar preocupado chamou a atenção de Lantis que tentou fazer-lhe uma caricia, mas foi impedido pelos grilhões que prendiam seus pulsos.
Um dos olhos do lobo brilhou. Um brilho verde e fraco, como a grama num dia de outono.
E os grilhões se desfizeram!
Lantis caiu num baque surdo e se levantou esfregando os pulsos. Estava surpreso. O lobo grunhiu e se aproximou esperando o carinho prometido.
- Obrigado amigo! Agora poderei escapar.
***
O barulho dos rojões era ensurdecedor. Elanor com as mãos sobre os ouvidos descia a escadaria sorrindo.Vestia um vestido longo e de um azul claro como as águas de um rio.Em seu peito um pingente dourado em forma de flor balançava despreocupado.
Logo atrás vinha Ferio. Os braços dobrados por sobre a cabeça e usando sua típica roupa de príncipe. Ele sorriu ao perceber os movimentos lânguidos e graciosos do caminhar de Elanor.Ela era realmente linda.
Atravessaram o jardim, procurando um lugar solitário para conversarem . Encontraram-no próximo a um canteiro de belas flores brancas.Sentaram-se lentamente em um banco de onde podiam contemplar as luzes e musicas que vinham da festa que ocorria dentro do castelo.
As mãos de ELanor tremiam de ansiedade, aquele seria o momento adequado para revelar seus sentimentos. Seu coração batia apressado, e as palavras não saiam.
Levantou-se de sopetão, os punhos fechados e trêmulos.
- F...Ferio, eu queria dizer que...que...que...
- Hmmm? O que foi Elanor? - Ferio a observava curioso. As luzes das estrelas rutilavam nos cabelos dourados da elfa. Seu rosto era belo e suave, de contornos delicados. Seu corpo lânguido estava ainda mais belo com aquele vestido.
O coração de Ferio bateu forte. Surpreso, balançou a cabeça tentando afastar os estranhos pensamentos que nela surgiam. Não podia se apaixonar por Elanor. Ele amava Anne.
- Ferio eu...eu..eu - não conseguia dizer, as palavras sumiam de sua boca, Elanor nervosamente tremia da cabeça aos pés.
Infelizmente ela não conseguiria terminar a frase.
Um lampejo metálico cortou o ar, sibilando por entre as arvores, em direção a Elanor. Ferio percebeu e saltou do banco, salvando Elanor do ataque.
Rolaram pelo chão. Elanor ruborizou ao sentir o corpo de Ferio tão próximo ao seu.
Ferio se levantou e olhou assustado para a arvore que recebera o impacto destinado a Elanor. Uma foice metálica de empunhadura em forma de ossos estava cravada na madeira lascada.
Do local de onde a foice viera, uma velha encurvada surgiu dentre as sombras. os olhos sedentos de sangue e o sorriso maldoso gelaram o sangue de Ferio.
- Quem é você?
- Sou Yaga, jovem príncipe, e estou aqui para leva-lo até seu berço.
A foice cortou o ar, retornando para a mão da velha que a segurou com maestria. Um filete de sangue escorreu da bochecha de Ferio.
Ele sacou a espada.Elanor se encolheu assustada atrás dele.Não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que a situação não estava nada boa.
***
A musica lenta os envolvia de tal forma que seus corpos pareciam sincronizados com ela. Caldina e Rafaga dançavam juntos com tamanha perfeição que a maioria dos comentários do salão eram dedicados a eles.
Caldina sorria satisfeita, mas Rafaga parecia um pouco incomodado por ser o centro das atenções.
- Não fique tão nervoso- cochichou Caldina aos ouvidos de seu marido- você logo vai se acostumar.
- Não gosto de ter tantas pessoas me olhando assim. Sou um espadachim, não um dançarino de espetáculo.
-Pode ser, mas você é bom em ambas às coisas- sorriu Caldina, roubando um beijo inesperado dos lábios de Rafaga.
- E você beija muito bem.
- Seu conquistador.
-Eu te amo Cald...- parou, sentiu uma estranha energia maligna surgir no jardim do castelo. Caldina também a sentiu. Acenaram um para o outro e saíram sem alarde do salão.
Rafaga enviou uma mensagem mental para Cleph e desceu apressado para o jardim. Estava preocupado.
***
Sangue.
Escorria sem controle das várias feridas abertas no corpo de Ferio. Ele se apoiou na espada tremulo. Seu corpo doía e olhos se embaçavam.
Elanor estava ajoelhada na grama, as mãos juntas em prece.
Yaga sorria do lado oposto. Lambia a foice suja de sangue.
- Acredito que já são horas do jovenzinho ir para a cama- uma bola de energia surgiu a frente da velha, uma caveira gargalhava em seu interior.
Era o ataque mais poderoso de Yaga: o Dead Scream. Ferio não sabia disso mas não quis esperar pelo ataque, avançou velozmente, atacando não a velha, mas sim a foice.
A arma feita de ossos rodopiou no ar, livre das mãos enrugadas de Yaga.caiu próxima a Elanor que gritou assustada.
Ferio sorriu, ele havia desarmado sua inimiga. Mas o sorriso fugiu de seus lábios ao sentir os fortes dedos da bruxa envolver seu pescoço.
- Menino travesso, você não devia deixar sua babá tão brava assim. Por ser tão malvado, vou ter que castiga-lo.
"Vou matar você"
- Não, não vai!!!
Yaga se virou. Seus olhos se arregalaram de espanto. Elanor segurava a foice por sobre a cabeça. Suas mãos tremiam. Não pelo peso da arma, que era mais leve do que aparentava, mas sim por nunca ter ousado ferir ninguém.
- Larga ele, ou eu vou....
- Vai o que bebezinha? - Yaga sorriu, percebia a duvida no olhar da elfa.Ela jamais seria capaz de matar qualquer ser vivo.
A foice desceu. Deixando um rastro de sangue e cravando com um baque surdo no corpo de Yaga. O gritou de morte da velha se arrastou gélido por todo o castelo.
Todas as pessoas da festa o ouviram e tiveram pesadelos naquela noite. As crianças choraram assustadas. E os animais fugiram para sua tocas e ninhos.
Os dedos enrugados lentamente se soltaram do pescoço de Ferio que tossiu ao sentir o ar retornar aos seus pulmões. Viu o corpo inerte de Yaga desaparecer como poeira jogada ao vento.
E viu Elanor derramar caudalosas lágrimas enquanto olhava para as próprias mãos. Como era possível um ser tão doce como ela ter matado alguém.
Ele se aproximou e a abraçou. Confortada pelos braços do príncipe, Elanor murmurou entre soluços palavras tão baixas que Ferio teve que se esforçar para entender.
- E...eu não... queria...fazer isso. Eu..eu...
- Shhhh! Eu sei que não, não precisa dizer nada.
E Elanor chorou. As lágrimas quentes escorriam de seu olhos verdes. Mas ela não mentia, A foice descera sozinha para matar sua dona.Ela a queria morta, como se a foice fosse viva.
E, vale destacar, que a foice havia desaparecido assim que atingira a bruxa.
Continua...
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"Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar assim na alegria"
REQUIEM - Capitulo 04 : Te amo por que te amo.