Meninos também choram...

(Meninos também choram...)

De Luiz Antonio B. do Nascimento

Capítulo 3

As várias faces de uma única face

As mãos seguravam as duas bases da cocha, elevou para o alto acompanhando o pousar suave sobre a cama. Forrava-a todas as manhãs, mas apenas a sua, Flávinho logo apareceria em resmungo monossilábicos indecifráveis e também arrumaria a dele.

Neste momento a porta do quarto é aberta, para total quebra do cotidiano Cíntia põe a cabeça a mostra, olhando atenciosamente o recinto, cada móvel, objeto, nada escapava ao seu olhar obstinado e ferrenho.

Vou ficar atento, esse bicho tem a mania de...

PLAF!!!

...tarde demais....

De joelhos no chão, Cíntia averiguava por debaixo da cama do irmão mais velho, nada a surpreendeu quando passando delicadamente os dedos no piso pode recolher uma camada espessa de poeira. Prendeu a risada. Como não possuíam empregada, cada um era responsável pelo seu quarto e ficava ali provado que no dia da faxina Igor também varria as áreas livres não se dando ao trabalho de afastar os móveis removendo a poeira contida embaixo destes. Engraçado saber que seu "irmãozão" tinha aquela mesma preguiça, um pensamento bobo, mas divertido. Ali pôde encontrar as sandálias e os tênis dele, contudo algo atiçou sua curiosidade, uma caixa de sapatos que ela nunca tinha visto. "Ora, será que ele comprou um par de tênis novos?" _achou difícil, senão saberia, afinal de contas quando se comprava roupas e calçados naquela casa era o momento: Família unida! Sua caçada fora interrompida quando toques sucessivos ocorreram sobre seu ombro.

Ela nem precisou pesquisar muito para saber onde Inhêca seu sapo de estimação achava-se. Deu uma espiadela com olho esquerdo e fez confirmar as probabilidades, o bicho, de cor verde-musgo com pintinhas pretas, tinha grudado na face do seu irmão coaxando um: Irc! Enquanto ela separava-os.

PLAF!!!

Oh, vida....

***

Voltava do trabalho. O transito como sempre caótico, buzinas e mais buzinas, nada de movimento. Descia o suor pela testa e braços, sentia-se pegajosa, eram onze e meia, almejava o momento de chegar em casa e tomar um banho. Só de pensar nisso a sensação de frescor invadia-lhe. Mas nada melhor do que a buzina frenética do motorista de trás para recoloca-la naquele inferno.

Abria-se um pequeno espaço, avançou quanto era permitido, nem mais, nem menos. O pior, iria retornar as duas horas, tinha ainda seis aulas no período da tarde, vida de professor era assim mesmo.

Todavia aproveitou a lentidão do transito para refletir sobre a conversa que ela e o marido haviam tido na noite anterior Dona Catarina queria ter certeza da decisão tomada sobre seu filho mais velho. Estavam deitados na cama, os dois, ele lia o jornal – na verdade apenas o caderno de esportes – ela lia um livro, afinal era professora de literatura a profissão escolhida pela paixão aos livros. Foi nesse momento que decidiu compartilhar da experiência de uma amiga ou tentou:

O homem passou os dedos pelos bigodes espessos, retirou os óculos de grau forte. Olhos presos no amontoado de linhas tracejadas nos lençóis; soltou de uma única vez o ar dos pulmões e com uma cara de "ai Meu Deus, o que é agora?" indagou:

Recuou, a fera a deixou acuada, mas como aprenderá na vida às vezes se fazia necessário recuar um passo para avançar dois. A barba ligava-se ao bigode, acima olhos carregados, fixos e mudos, encaravam-na a procura da rápida finalização daquele diálogo.

Senhor Carlos estalou duas vezes com a boca, já previa tamanha maluquice vinda de sua mulher que se sentia grande e talvez fosse maior do que ele; aquelas idéias só poderia ser dela, afinal de contas, esses médicos eram para doidos, gente com o juízo fraco; "Por que mandar o menino?", de cabeça boa, só precisava abrir mais o ouvido para seus conselhos, no resto, normal. Doutores para a cabeça...., apertou a mão sentindo o calejado, fruto de muito trabalho: "Isso é que é mão de homem, grossa, cheia de calos, dizia seu pai, já falecido." Esse sim, era o médico que seu filho deveria ir, que lhe fizesse mãos de homem, mãos de pai.

Pom! Pom!

A buzina fazia-se presente, estava novamente dentro do carro. Foi quando deixou um leve sorriso apossar-se dos seus lábios: vencerá! Insegura pensou na possibilidade de cometer um erro e se não fosse o melhor caminho? Resposta: desde quando ela sabia o caminho, nunca, apenas vislumbrava pequenos focos de luz no fim do túnel e rezava para não ser um engano era tudo que podia fazer.

E o transito seguiu.

***

À tarde havia chegado, duas ou três horas passadas. Poderia ser desgastante para qualquer pessoa menos para Igor, "sem nada" para fazer, fazia tudo, pouquinho daqui, pouquinho dali...."Quando eu acabar isso aqui, desligo o micro e vou estudar." Frase dita tantas vezes no ano passado e nunca pôde atestar único fragmento de lembrança que o fizera cumprir esses "daqui à pouco".

Conquanto, sentiu a natureza lhe convocar, só assim abandonava aquele pequeno vício nunca admitido.

Uma leveza fantástica tomou conta do corpo de Igor enquanto lava as mãos. A água escorria entre os dedos, não havia mais sabão, já estavam limpos, mesmo assim a água escorria clara e cristalina...; Olhos observavam cada lasca da face refletida, cabelos espetados com alguns teimosos fios caindo na testa, o rosto fino e comprido, olhos de um castanho claro - que o rendera o apelido de olhos-de-mel quando criança – nariz um pouco largo e uma boca de lábios finos e vermelhos. O reflexo era Igor, todas as imperfeições até três manchas de espinhas que possuía no canto direito da boca, remanecencias de sua puberdade. "Quem sou eu?" Henrique chamava-o de amigo... "– Será?", contudo, desses que se visita de vez em quando, conversa-se por horas e horas e tudo acaba quando nada a mais o que dizer. Impera-se um silêncio constrangedor e depois: "Vou embora, está tarde." / "Nossa, as horas passaram que eu nem notei." / "Aparece lá em casa, tá?" / "Tudo bem" / "Até mais!" / "Tchau!"; Esses apenas o consideram um cara legal. A também o colega-de-cumprimento, passa-se por ele quase todos os dias e todo o processo se atêm a monólogos e frases feitas: "Olá!" / "Opa!" / "Oi, tudo bem?" / "Tudo e com você?" / "Bem, obrigado."; esses dizem sê-lo uma pessoa suportável. A vida é grande, mas o mundo é pequeno e diante de tamanha diversidade há os "inimigos" – entre aspas por que não os são de verdade – cruzava com eles todos os dias, encarava-os simplesmente e podia sentir o ar de desprezo numa única troca de olhares, daí indagavam: "Chato!" / "Quem sou eu?" Um amigo, um cara legal, uma pessoa suportável ou um chato? Onde ele se encaixava nisso tudo, a face no espelho pertencia a que estereótipo?

A porta chocava-se numa pancada oca contra suas costas. – Ei! Tem alguém usando o banheiro sabia?

Cíntia!

Agradeceu aos céus pelo termo sexo frágil existir, tudo que sentirá fora apenas um empurram. – Cíntia, eu baixei uma música ontem na internet, quer ouvir?

Estudando?!

Sim, sua mana já havia dado inicio aos estudos. "Igor o que faz? Fica na frente de um computador fazendo cera e mentindo para si mesmo." No reveion passado prometerá: "Esse ano será diferente!" Por que tinha a mania de fazer promessas, como se prometer o obrigasse à executar. Não sabia quem era, mas solicitou anexar aos arquivos mais um adjetivo: mentiroso.

Foi para o quarto.

Pegou a caixa de sapatos debaixo da cama, onde havia escondido o gravador.

Deitou-se na cama.

REC; PLAY;

"Igor Brás de Cavalcante. Não sei para que um nome tão comprido, se todos me chamam de Igor, apenas. Pra que sobrenome se sou o que cada pessoa quer que eu seja, Igor para os íntimos, Brás para os familiares, Cavalcante para os que me respeitam.

A minha mãe acha que eu sou meigo, meu pai me considera um perdedor, Cíntia um palhaço e Flávio um chato. Mas quem eu sou realmente? Por que não consigo me definir de maneira tão simples?.

Igor Brás de Cavalcante, poderiam ser tantos nomes, mas me deram esse, único, com um começo e um fim, quem me dera ter essa mesma unidade..., tantas faces de mim mesmo."

STOP;

Continua...

NOTA DO AUTOR

Bem, senhores, aqui tô eu novamente, para dar continuidade ao nosso papo da última NOTA. O pessoal, mandou mais e-mail’s falando da NOTA do que da história. (Ei, pessoal! Leia a história também, faz favor!).

Escrever, Meninos também choram, tem sido um desafio constante, cada capítulo é uma luta terrível na minha cabeça, pois eu temia que a série ficasse só naquele chororô de Igor interminável, mas agora que finalizei e reli, posso afirmar isso não vai ocorrer aqui, prova está aqui no capítulo três: As várias faces de uma única face. Onde acrescentei um pouco de humor (sem exageros!), e consegui mostrar com mais detalhes outros personagens, como no caso de Cíntia, a irmã de Igor.

O.K.. Preciso enviar isso logo, por que já tem gente pensando que eu abandonei a série, quero pedir desculpas pela demora, mas é que como eu disse acima, escrever essa história não é fácil, exigi muita pesquisa e sensibilidade e eu preciso investir às vezes em outros trabalhos para não cansar, né?

Fui!!!!!!!!!!!!!!!!!

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